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Gérard Lebrun A filosofia e sua histéria Organizagio de Carlos Alberto Ribeiro d “Apresentagio de Carlos Alberto Ribeiro de Moura cS pyre Whe COSACNAIFY jocurso,& que le estima ser normal cOmportar-se como retagio do “justo” valha. ae © faze de tal modo que sua interpretags ‘como norma, ft gue o “estado de natureza” perdura absurdamente, na Repti ain Se Hobbes se separa de Platao, nao é, pois, absolutamente retorna a rotigorss. Muito 20 contrio — Que é, com efeig woe ‘So Eanes de tudo crer-se em medida de contemplar nny to universal € portanto, ainda e sempre, por-se, mesmo inegas st iment, como méiron, Assim, o Saber, essa formula que os regen pees” encontraram para suplantar (idealmente)adiseordincy é s tof 4 fat, no curso dos séculos, seno a mais alta manifestagio do "y “oe (esses fildsofosfabricavam a8 regras do bom © do men forme aquilo que, pesoalment,gostavam endo gostavam").E Progen silenciosamente ganhou a partida, gragas aqueles mesmos que penn té-lo vencido. Ruptura com Platdo, portanto, mas somente porque, havia substituido o “homem-medida” pelo “filésofo-medida”. A de, dia jamais éextinta ea universalidade, realizada, a nao ser onde cada un abdica da condigdo de méiron e, especialmente, de sua pretensio pene, legiferar “no universal” — onde todos consentem em viver na linguagen eno Commonwealth tais como foram instituides, ito &, tais como dee Iago se inpéem aos homens. Ao deslocar a realizagio da “verde! do Saber paraa Insituigio, a0 fazer permutar a phiss eo némos, Hobbes realiza assim o mais audacioso salvamento do platonismo. ‘Nietzsche colocava Hobbes entre aqueles que “aviltaram ou dew orizaram 0 conceito de filésofo”. Nao seria malevoléncia de sua pate para com um admirador de Tucidides? — Ainda dessa ver 0 fao de “genealogista” de Nietzsche nao o enganou. : 326 Hobbes ea instiwipio da verdade : de arte a0 da obra A mutes sraaremos aqui da mutagio da obra de arte: nlo, porém, da mutagio, rea neste século das formas de arte, mas da que se refere a0 sentido aespessio “uma obra de arte”. E uma mutagdo conceital ~etalvez tio prafnda que possa estar dando & palavra “arte”, sem o percebermos, um ventido que jé no tenha nada que ver com 0 corrente no século passado. Essa mutagao, devida a técnicas novas (disco, radio) e artes no- vas (fotografia, cinema, televisao), ninguém pressentiu melhor do que ‘Walter Benjamin, em seu ensaio sobre “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”. Partindo de uma indicag3o de Paul Valéry, Berjamin procura ver, com base em alguns exemplos, como as técnicas novas podem chegar a transformar “a propria nogio da arte”. E todos os «exemplos que analisa convergem para o que ele designa como o declinio 4a “aura” da obra de arte. O que devemos entender por isso? Uma frase de Valéry nos encaminha para esta nocdo: Reconkecemas a obra de arte pelo fata de que nenhuna idgia que ela sucita ‘emnds, nenhum ato que ela nos sugere pode esgotd-la ow con 4a lembrance, aluJenso Pensamento ou agao gue possa anular-the 0 efeito ou libertar~ ‘os inteiramence do seu poder? nao fato de que a coisa se da como eni *enhuma contemplagao possa esgotar sua ica o bastante Pera que n Ja como a tinica aparigio duma “poder ‘ Benjamin, “po - Fealidy foningu, por mals proxi que ete" Or8, POF que o Phen qa eee sctoracad vee menosatenoa ee inespotivelexcedent design por iso mesmo, cada vez menos preocupado coma singular edad da obra dearte? Ha um aforismo de Nietsche que ae go longe, a resposta que Benjamin dard a essa questdo. Eo segue iam monet gro 04 ist, eriginalments ado tine si, so por referéacia srmsonten supe das colas: ese atmafra dcp, ieaGo inesgndvelenvolia 0 monumento como um véu maj fis inespue magico. Abel uae eerie no stemtn mas sm prudicar em ua vac tewinena frdomeneldexme ralidedeublinecinguitan, emg pels prensa divin pela magi: a beleca quando muito tenpeorartons ash senpreesavapresipot. Em que ont parany, a a beea de um monurento? No que é um belo rosto de mulher sem epg numa espicie de mascara.” ‘Nessas linhas, Nietesche implicitamente distingue duas eras da obra de arte: a da veneragao e a da beleza pura. A era da veneracdo encena. se 20 nascer a estética, enquanto reflexio filosofica e, mais ainds, en. «quanto ciéncia. Como bem exprime a frase de Hegel: “Hoje estamos muito longe de venerar, como divinas, as obras de arte”. Subtraida ao cculto de que era essencialmente instrumento, a obra apenas fica ofere- ida a0 “prazer puro” — simples objeto de consumo “estético” (pode-e mostrar que uma tal figura cultural é insepardvel do desenvolvimento da economia de mercado). £ esta a segunda era da obra de arte ~era ceujo declinio Walter Benjamin assinala. Na primeira, é a sublimidade que predomina. Na segunda, que se abre no século xvitt, uma relagio de prayer que mede o valor da obra. O que Walter Benjamin acrescenta, e com profundidade, & que corte nao é, porém, tdo nitido. A aura que se concede (ou que s€ cm cedia) & obra bela é justamente o sinal de que esta obra, por laicizada ue seja, nem por isso se vé dessacralizada. E 0 que Kant j4 descobrirs a0 definr “o génio artsico” como a faculdade das Idéias estteas que & uma Idéia estética? £ “uma representagao da imaginaga, 1 densiol 3. Friedrich Niewsche, Menschlck-Allrumenschlices, wav fed. bras: Mamas ‘umana tad Paulo César de Souza. So Paulo: Companhia das Letras, 200°) B28 A muasiods obra de ane ar, sem que nenhum pensamento det ‘ - uito # pense leterminado, isto @, merece ait ee, possa serie adequado, e que portnteneshene hee nentuet “completamente exprimir ¢ torna int 1." Enquanto for i ei or ua Idéiaestetic, @ representacio nunca seré dominada Frente: € portanto impossivel que um comentacio ou une ene onctitua Ma déem conta do impacto que a ob : coc ee acto que a obra produz em min 0 gjda em que a he ed sarateriada Por este desatio de meprensio conceptual exavstva, pode-se perguntar se repre cola com rdtica” no substtui o aime religioso, Sem divide, shee sattfi? sgcrever & histbria do Belo, no século xix, como sendo um post do sentimento religioso: © estetismo, o culo da genalidade Sip formas de religiosidade... sao forprudo, essa sobrevivencia religiosa no bastara para defini a sine ale no sentido Kantiano. Esta é,simultaneamente, um tema de en- oir mento¢ um tema de “simples prazer” — endo & seguro que essas Gus componentes ndo sejam, a longo termo, divergentes. Na ideclogia da Beleza, observa Walter Benjamin, opunham-se dois fatores: por um lado, o valor que se continuava atribuindo a obra enquanto objeto de fiscinio, mediago do Absoluto— por outro, aidéia de que a obra é uma realidade a exibir, e depois, gracas ao progresso técnico, a divulear— ei » ‘Be sy a divalgar para um piblico cada vez mais amplo. Habermas mostr Iga p OU ye bem, no seu livro a Mudanga eserutural da esfera piiblica como os cone cetosabertos a um pdblico pagante, os museus, as exposigbes (coisas «xe hoje, nos parecem tio dbvias) foram, no século xvitt, conquistas pola da burguesia. E esta observacdo vai muito além da sociologia i.respeito & propria esséncia da obra de arte, Nao se pinta ara o mercado como se pintava para um mecenas. Nio se coneebe o ito Beaubourg’ como se concebia um castelo de recreagio do ei Aspalavras “pintura”, “arquiterura”, “decoragdo” podem permanecer, nfo se trata mais do mesmo tipo de produgao rca ie cette due tal preocupasio (tantas vezes de origem co- relgiose cc stt € déulgar€ incompativel com a conservagdo do halo * som @ manutengdo da aura. Como, por exemplo, o valor de snimae Immanuel J.) Habermas, Mi ant, Knik der Ureilshraf rakturwandel der 6 autenticidade que se prende a uma obra poderi tempo (excetuado 0 caso dos colecionadores) ag fas aperfeigoadas? Por que fazer uma peregrinasto ag [or Rijksmuseum, quando as edigdes Skica nos permitem adie bem e analisar melhor ainda a Gioconda ou a Ronda non Gixase recentemente uma senoraSensats, ser ebmageda pe doe comer sso de me roubarem a bola, quando pose veal 0 papa pela televisio? Mesmo levando em conta que Joo Pasion et” é uma obra de arte, essa reflexio diz tudo sobre a autentcdade na er da diftsio da imagem. A obra nto é mais yn et mune que se deve visitar no seu antro,experimentar no seu ambien, © modelo do objeto tinico oferecido mum tinico lugar (A nunca seri visto duas vezes”) é substituido pelo da partitira mus aque pode ser executada por uma infinidade de orquestras. O modeindg ““monstro sagrado” que era preciso ver, pelo menos uma vez, “em cane € 0330”, no paleo, &substitufdo pelo da imagem filmica, espalhads en mil c6pias. Como, nessas condigdes, poderia continuar funcionando o cvitério da autenticidade? Mas com isso, acrescenta Walter Benjanin, “toda a fungio da arte é subvertida”. A arte, por principio, nfo é mais uma forma da cultura que nos convoca a contemplagdo ¢ a0 recolh- mento. Isso é sinal da sua degenerescéncia? Isso quer dizer que nossa ‘€poca, “materialista” e “tecnicista”, s6 poderia deixar eclodir uma arte de diversio, completada por algumas elucubragGes de estetas? Um dos grandes méritos de Walter Benjamin foi preveni-n0s contra um diagnéstico tao apressado — j por citar esse texto, tio pressionante, de Brecht; @ Tesistic por Mi reProdute f TO ag ira uae 2 ~ Poe, n Perda do valor, Me © gue Desde que a obra de arte se torna mercadoria, essa nogao (de obra ae nie pode mas sere aplicada; asim send, devemos, com prince €2ugs0~ mas sem ree ~renunciar &nogan de obra de are, 2 des reservar sua fungio dentro da pripria coisa como tal duignads Pe sora fase qu preciso atravessar sem dies; esa vreda nde 0 tty ea endig a uma transformasto fundamental do ojo 2, ‘te passedo a tal ponto gue caso a nova nogao deva reencontrr set ‘Por que nda? — no evocard mais quaisquer das lembrangas vincwled antiga signifcegio? 7 Beso Brecht, apud W. Benjamin, in op. ci, pt. 330 A mutt de ova de are rte, como era compreendida por nossos ancestrais, é coisa mais. Esta sendo substituida por outra coisa, que pode ‘ada em comum, Pareceré um poco menos, se a aproximarmos de ou a década de 1820, profetizava a morte da arte $y que care no goronte mais esta setsfagto das necesidades expire See I oe dias da ate grega ca [dade de Ouro da Baia Made M ipa wcatara rflexiva da nossa vida é tal.) qu 0 as formas wei os deere, os diets, at mdximas que valem com norivos e tém inci é para nds, quanto & destinasio suprema, coisa prponderincia. [-] A arte ¢ para nés 1940 supremy Tudo 0 que ela tinka de autenticamente verdadeiro ¢ vive xe do passado. serdepara mise, em ve, de ofrmar a sua necessidade no real oeupar nest o lagor mais alto, agora é apenas algo relegado & nossa representacio$ (inte o texto de Brecht e esse de Hegel h4, pelo menos, uma diferenga, \"Snquanto Brecht admite que uma “arte” inteiramente nova pode suce- " deraiquilo que o século x1x chamava de “belas-artes’ Hegel no mos- a mesma amplidio de espitito. Para ele, a “arte” éuma formagio tio jbem determinada de uma vez por todas que, se perecer, nada poder’ \ubstitui-la. Nem por um segundo Hegel pensa que esta pressentindo fim de certo ciclo semancico da palavra “arte”; nem sequer imagina #otermo “obra de arte” poderia designar, no futuro, contetidos in- ramente dstintos, J80 nosso século xx & mais relativista. Hoje se tornou trivial re- serdar que © nosso conceito de “obra de arte” ~Muea distingyo entre t~equeum é de formagio recente artista e artesao se impos apenas no fim do séeulo Brego do século 1v a.C. diante do Doriforo de Po lo século x11 diante de uma Virgem gétic: ie inte de uma Virgem atc segue Sionarthe 3 ee epraner een praaetestético, Esso pela simples razio de que a i “ico” também é uma descoberta recente — Lew Hegel, decher 7 Sng mse), n Stim "P1999, p. 35. F anto estudo da beleza na arte. & Kay 1790, determina orn do o percebo, um prazer puro, isto é, um aed capaz de darome, daer motivagao interessada (ideol6gica, Bae independeme ¢ pare desse momento, a obra de ate pene ae ate Paiva designa um produto que édestinada ai! ana um st aer puro, ou ainda: ase contemplado, Pos ae aero mesmo. “Enquantoo deseo” escreve Schiller, on jmediatamente 0 seu objet, # contemplaga0 afasta 0 seu e far dele asa re gene irevoggvel por tHo-somente subtrailo i pi oe penta que a conterplagao é “das erste liberale Vek ee mira ade ier] do omem para com © mundo? A questo (aerate que hoje entendemos por “obra de arte” continua een. Te pent igado a esa aitude de conzemplas20, como pensavam Kan, ehie Sendo mais estver, isso ndo deverd surpreender ou escandalizar, pois oconesto de obra de arte constiuido naquela época extra mar do por muita valorzagdesimplictas, € até mesmo por varios paris prs. Nao & qualquer espécie de obra que suscita essa atragio mesclada de respeito que se chama cotemplayao. Acontece tratar-se, por excl. tia, de uma obra visual: era a parti da escultara e pintura antgas que Winckelmann definia o canone da beleza—e sabe-se que, para Hegel a escultura grega representa o momento em que a arte atinge melhor. ‘seu equilibrio e realiza melhor 0 seu conceito. Passado esse apogeu, @ arte 6 poderd declinar, Pois a Esrética de Hegel é tanto a hist6ria dacuo lugio da arte como a do seu declinio inevitavel: a arte se dirige pars.9- ponto em que a sua missdo espiritual sera consumada — em que #8 5088 obras nfo serio mais que objetos oferecidos & curiosidade histone ~Por que, segundo Hegel, deve ser assim? E que Hegel s6 faz justiga a arte dentro dos limites, afinal de contas tio esreitos, do seu racionalismo. A tarefa da “bela aparéncia” ars5% segundo ele, é libertar-nos da aparéncia sensorial, impura one No quadro de um meste holandés, nao & a exata reprodugao dos ob tos que nos agrada: € que “a magia da cor e da jluminagao” transtig™ em proprieda xdo.” E act ‘ bien 7 action extheigue de Uhomme (Carta 2). Pati BO = etigio bling ed. bras: Cartas sobre a educago esta do homem, trad: seh ‘Suzuki. Sio Paulo: lluminuras, 1995} 1 deat coisas navurais que S80 representadas; & que as cenas prosai- esses ¢ bebedeias sio metamorfoseadas num “domingo pela aparéncia” torna fascinante o que, na vida, nos epresentagdo artistica & a sua mane’ go sorrateira do se mio & Mas, é claro, & sempre ante nossos olhas que aque a obra de arte se apresenta necessariamente nama Jao pode ser “o modo de expresso mais elevado thesis con i, para Esse parad me interessa aqui na medida em que governa a ine que Tegel Laz do necessiio declinio da “arte”. O signo dese dlinio € 0 estreitamento progressivo do suporte sensivel da obra de aera ante moderna continua, sem vida, a ser uma figuragao sen- a, mas essa figuragao precisa cada vez menos de matéria; torna-se wipe mas ascética. Essa ascese, observa Hegel, vai crescendo em cada sata ds grandes formas de arte caracteristicas da modernidade: a pin- tara, que se liberta da “matéria espacial de trés dimensdes” e se conte om “a aparéncia criada pelas cores”; a misica, que se liberta de suporte material permanente e se contenta com uma “matéria vibserre® cefémera; a poesia, finalmente, que reduz a sonoridade a palavra arti- calada. Com ela, diz Hegel, aleangamos o limite da arte — 0 ponto além | do qual a obra ja nao se dirige aos sentidos, mas ao espirito., Essa andlise, que acabo de resumir, estd eivada de preconceitos imvleetualistas, Nao deixa, porém, de ser sugestiva, se admitirmos que Hegel esta falando, sem o saber, do declinio de certa concepgio da arte ~ Endo, como acredita, do declinio da Arte em geral. Hegel nfo concebe outta tipo de arte que nao aquela cujas obras se propdem como coisas i ee € que nos confrontam — uma arte que transforma os seus a ‘ores em espectadores. Desde que essa condicdo nao seja mais preen- is A inteiramente, a obra de arte, segundo ele, comeca a faltar & sua endo ojo que im os onstrate g : de espeticulo (Anschauen). Ora, na imisica tag sempre uns rel ting desoparese| permanente no espa [] umd COMUDCAS3O 9ue, em 65 deter um lta pelo interior e pelo subjetiva.® a dis. dade Poin parses e840 NBOS€torna uma obje, pripri, 6 ¢ cond Tal éa razio da superioridade que Hegel tra aun Mas essa superioridade 86 funciona, repetimos, relativamente a cong sistema eatético, Em outro sistema, seria possivel que essa substiticay da contemplasio pela comunicasio caracterizasse, a0 contritio, aches de arte enquanto tal... Antes de deixarmos o século x: observemos aque Nietzsche entreviu tal possbilidade, ao falar do “empobrecimnente sensual da grande arte”. Nossos sentidos, diz, se intelectualizaram;, dagam “o que isso significa, e nao mais 0 que isso Disso tudo, 0 que decorre? Quanto mais o olko e 0 ouvido se prestam ao pen samento, mais se aproximam do limite em gue termina a sua sensualidade: a alegria retirase no cérebro |] 0 simBolo toma cada vey mais 0 lugar da coisa. [Mas Niche acrescenea, imediatamente (mostrando que estd mais pero da estétca clissica do que acreditava):] e, por esta via, cheganos & barhéri, tio seguramente quanto por qualquer outra!* (Waker Benjamin, em certa medida, retomou esses tems. Mas a si it tengo ¢ inteiramente distinta: longe de anunciar igualmente o declinia. dda Ante ou o advento da barbie, pretende dar exemplos da mutagio que- 4 arte sofreu no século xx, Enquanto é de bom tom, na década de 1930, denunciar 0 cinema como o novo 6pio do povo, Benjamin reconhece que © cinema, contrariamente & pintura, “no convida mais & contemplagio", ‘mas evita culdadosamente ver uma marca de inferioridade nesse trago & pecifico da nova arte. & verdade que o filme nao se deixa olhar a vontade € que pencira no piblico, em ver de oferecer-se a ele. Mas por que & tipo de recepcio seria inestético? Em nome de que estética se conferit ate agora esse privilégio desmesurado & contemplasio? Contemplar é deixar a coisa impor-se, manté-la na sua ~¢ Walter Benjamin nega que toda relago com a obra de arte dev co™” cestranhez® 10.6, W. Hegel, op elt, w.x0¥, pp eayejo. LF Nieusche, op. cit 92217 334 A masse da obra de ate seragas para ir de 2 nessay queinas perpé= nu a nocividude desses anestéteos i parece ~ 0s meios de informagio; contra re esquisito i one tos biliosos se dispdem a langar o oprobri cos que acre pas 1d. a i ae perguntarem: © que &entdo a obra de arte, se no éum objeto decontemplasio?, eu responderei: por que no seria um objeo de ws? ferdade que uma longa tradigio apresenta o objeto de arte como 0 con- Teario de um objeto tril ~ mas nao se deve confundir objeto titi! e objeto ariljado, Quando utilizamos um instrumento, nao o visamos como um abjeto dad: Simplesmente nos servimos dele, sem pensar muito ~ execu- tando os gestos que ele exige de nds, fazendo-o dar 0 desempenho que esperamos dele. Igualmente, quando leio um livro, ndo tenho conscién- cia de estar diante de um objeto, assim como no tenho consciéncia clara, quando escrevo, de estar diante da méquina, assim como o pianista expe- riente ndo tem consciéncia clara de “estar ao piano”. (00 caso: esses sistemas de signos) apagam-se na sua uti readquirem sua independéncia quando deixam de funcionar. (Ora, a presenga especitica de uma obra de arte (tema de tantas medi- tagdes filos6ficas) nao viria do fato de que essa obra, antes de mais nada, se dé como um guia que se oferece a0 usuario? E a sua originalidade on- tolégica nio se deve ao fato de nés a pravicarmos bem depressa, como um ‘rsirumento que nos é familiar? A obra de arte no seria, antes de mais fit algo a wilicar? Tome-se o caso (tio negligenciado) da arquitetura plese ara serem utilizados — e nao apenas, ndo basicamente p: Clot Na recagttt foram construidos os templos, as catedrals, os pli ado 6 gn #0 do piblico com a arquitetura, observa Walter Be vinta: eeolhida visual que predomi tengtm Monumento), masa que do BE pelo habito | esponda ao que ses instrumentos a (exgetuiando-se os Podemos ir mais adiante e perguntar s gi Proprias artes do destinam-se exatamente a oferecer imagens 4 contemplagio, & or que vamos a0 cinema ou sentamos a frente da televisio eared imagens? Mal tenho tempo de ver passar a Para olhar Gaema e a televisio 6 constituem verdade fo filmologo, que fz projetar vari quanto um objeto. Mas, para Jnagens (ano ser que o filme sea ent de informagio. E é por isso que a parte es mmontagem, que regbls 0 ritmo segus Trata-se de um novo tratamento dh de imagem nao provinha de um recort imagens diante das quais o olho se dei feitigar. Sem divida, isso pod uum parente ou amigo morto; ou, tale, geira ao meu lado no Snibus; jogos int agen De modo que 6 vores o mesn tantas is se deive en- nos interessa porque indica alguma que nos deixa adivinhar, ou pelo que mais os detetives do sensivel que os seus rayeurs, Plat Contemplagio das imagens nos distrai da contemplagao das Ids Mas dessa maneia, estabelecia uma homogeneidade enganosa entre 2 0P6- ragio perceptiva e 0 insight intelectual. Admitamos que s° ‘contemplem as Tddas: que outra coisa fazer com elas, que, por principio, eas sio ntaveis, dante do nosso entendimento? Mass Po nos 2 nos informar e orientar, ComemP id erpretamos as imagens, e é por isso que #5 olbamos™ também por isso que nada me parece mais contestivel 40 ba iizagio da imagem” & do intelecto. Seria melhor d= Le prética das imagens (Gnemaiograficas ou tlevisionadas) 708/057 cexercicio intelectual de outro tipo, a uma compreens : uma litra mas pda, talve, a um melhor dominio do #¥5°%) “A Ante", dizia Hegel, “nio pode servir-se de simples dar as significagies a presenga senstvel que Ihes corresponde. annie 12, Porlesangen ier die ditheik (Prelegaes sobre estétiea} in Werke- Frankfort Subkam 1970, 8, p. 372 336 A musagdo da obra de are Porque as manchas esta, dizia Pie ‘aitirar partido, depois dos impressionistas. Em ver depo ds signs formados 7 ete da registrada pelo olho humano, ela ugestiva por analogia”. A ‘¢,no plano intelect er ( das razbes pelas quais poderia ser superficial, afinal de conta,