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[ilustragoes Tunga] Teresa revista de literatura brasileira 2 CSP editoralli34 Guimaraes, Clarice e antes Luis Bueno Resumo Guimardes Rosa ¢ Clarice Lispector tém sido vistos como fendmenos isolados em nossa historia literria, como se eles inaugurassem caminhos de todo inéditos em nossa literatura, Este trabalho procura mostrar que essa sensagio se deve menos a obra desses dois autores do que & visio pouco abrangente que se cristalizou acerca da geragao que os antecedeu. De fato, um olhar cuidadoso sobre ‘6 romance de 30 demonstra que o sistema literdrio brasileiro estava pronto para ‘0 surgimento de Guimardes ¢ Clarice nos anos 40. Palavras-chave Clarice Lis- pector » Guimaries Rosa » romance social /romance intimista » tradicio literdria Abstract Guimaraes Rosa and Clarice Lispector have been seen as isolated pheno- ‘mena in the Brazilian literary history as if they were responsible or unprecedented pathways in our literature. This work aims to show that this way of seeing itis due less to their works themselves than to the widespread narrow view on the generation ‘that preceded them. In fact, a careful analysis of romances in the 30s shows that in the 40s the Brazilian literary system was already ready for the arrival of Rosa and Lispector. Key words Clarice Lispector » Guimardes Rasa » social romance/intimate romance » literary tradition. 249 RecentementeSilviano Santiago publicou um artigo em que defende que obra de Clarice Lispector representou uma “aula inaugural’ para nossa tradicio literéri: Na boa literatura brasileira anterior Clarice, ou melhor, na literatura brasileira 2= sumidamente boa anterior & Clarice, a caracterizagio e o desenvolvimento dos per sonagens ea trama novelesca que os metabolizava eram enwvolvidos, direta ou indice tamente, peldaconiecimente dete refluiam ou aeleconfeiam, como aflyentee que ganham significado pelo sentido que thes € empestado pelo caudal do rio annie «les desiguam, Em outras palavras:o sentido eo valor da trama novelesca ni estao exclusivamente nela, sio-Ihe conferidos pela critica literaria, devidamente insta pelo curso interpretativo da historia brasileira no ambito da civlizacao ocidental = ‘Segundo esse artigo, além de Clarice Lispector apenas Guimaries Rosa e,antes, Machado de Assis triam rompido coma tradigdo da ficcao brasileira de seligar \"realidade nacional’ O texto de Silviano Santiago faz lembrar Tal Brasil, qual romance? dissertagao de Flora Sissekind, sua orientanda nos anos 80, que de- ‘nuncia uma predominncia do naturalismo em nosso romance e novamente aponta como grande excegao Guimariies Rosa e, antes dele, Machado de Assis ¢ Oswald de Andrade, Textos como esses, escrtos por estudiosos bem postados, claboram e, mais que ‘sso, dio forma a uma espécie de lugar-comum da histéria literéria brasileira | Reste final de século, que, mais que canonizar Clarice Lispector e Guimaries Ro- sa como os grandes nomes da nossa ficgo no século xx, tende a isoli-los como se, demiurgos de si mesmos, pairassem isolados sobre nosso ambiente literério, totalmente desconectados das experiéncias anteriormente feitas no campo da rosa em nossa sempre crticavel tradicao liters, A questio a se colocar & se de fato esses escritores tém a forca de, para além de tirar do nada suas obras, conseguir legitims-las num ambiente literério total- mente estranho a elas, ou se, a0 contrio, a leitura que se faz da tradigdo da pro- sa brasileira de ficcdo nao tem deixado de lado experitncias importantes de for- ‘maa dar a falsa impressio de que Guimaraes Rosa e Clarice Lispector so casos absolutamenteisolados, verdadeiros meteoros caidos sobre nds para extinguir velhos dinossauros e iniciar uma era povoada de outros animais, De fato, se olharmos para a maneira como a histéra literdria tem caracterizado 8 geragio que antecedeu Guimaraes Rosa e Clarice Lispector¢ dificil discordar de Silviano Santiago ¢ Flora Sissekind. Afinal, os anos 30 sto a época do romance social de cunho neonaturalista, preacupado em representar, quase sem interme- diagdo, aspectos da sociedade brasileira na forma de narrativas que beiram a re- 1 saNTAGo, Sivano, A aula inaugural de Clarice Folha de Soo Pat 80 Paulo, 723907 Mal p. 250Luis Bueno portagem ou o estudo sociogico.E claro que, esse tempo, houve também uma outra tendéncia na qual pouco se fala, uma “segunda via” do romance brasileiro, para usar a signifcaiva expressio de Luckana Stegagno Plechio, 0 chamado ro- ‘mance intimista ou psicolbgico, mas to secundario que nao teve Forgas para est belecer-se como via possivel de desenvolvimento do romance no Brasil. Vendo as coisas assim, como um regionalismo localista triunfante e uma acabrunhada lite- ratura psicol6gica, ica fcilelhar para Guimarses ¢ Clarice e enxergar nes seres superpoderosos.0 lio de Flora Sissekind confirma essa visio, que nas poucas piginas dedicadas ao romance de 30, trata de redur-loa Jonge Amado ¢ José Lins do Rego, acrescido da figura redentora de Graciliano Ramos: ‘Uma anilise da recepcao imediata de Perto do coragao selvagem pode mostrar | que alegitimacao de Clarice Lispector enquanto estreante promissors acontecet porque jé havia, no ambiente iterdrio brasileiro, lugar para ela. Se, por um lado, ‘ ctitico mals OFdXG € talvez por isso mesmo mais inluente do momento, Al- -varo Lins, fez reparos sétios a livro, considerando-o uma experiéncia incomple- ta outras vozes se manifestaram em tom claramente favorivel. Uma delas foi a do também romancista Licio Cardoso que, em artigo publicado no Diario Ca- rioca, entre outras observagbes instigantes, diz o seguinte: ‘Tenho escutado virias objegdes a0 livro, inclusive a de que nao € um romance, Con- 0 “sentido exato da palavra” a que se refere Lricio Cardoso é 0 do romance rea lista, a0 qual Alvaro Lins iria querer de todo jeito que Clarice Lispector se ade- tema que esé na moda, mas no nas suas cordas. £ verdade que a senhoras se sempre perdoar o quererem seguir a moda, ainda que litera, E num ambiente desses que Rachel de Queiroa tem que se impor. Nao 2 fentao, que inicie sua carrei literéria escrevendo como homem, como 7 Ck tawcs, Gracilana A decadéncia do romance brasleo, Revs de Literatura. Rio de Jone 1946, ano re Vera observagio muito sintécae precisa de Antonio Candido 3 ase espito no ato“ atau n:A educasdo pea naitee outros ensaio, Si Paul Aca 1987, 254 Luis Bueno, alguns. Mas ela no permaneceu assim e a Joana de Perto de coragao selvagem & parente distante da Conceigao de O quinze e ji mais préxima das personagens- titulo de As trés Marias, além das protagonistas tanto de Fm surdina como de Amanhecer, de Liicia Miguel Pereira, especialmente a Aparecida deste iltimo, Mas, voltando a questio da incorporacdo dos pobres pelo romance de 30,é pre- iso acrescentar que uma abertura desse tipo coloca para o intelectual, oriundo geralmente das classes médias ou de algum tipo de elite decaida,o problema de lidar com um outro, Esse problema foi vivido em profundidade pelos autores daquela década e bem ou mal resolvido de varias maneiras diferentes. E preciso dizer, logo de saida, nesse sentido, que a experiéneia hoje bastante desprezada de José Lins do Rego é uma das vias que possibilita o aparecimento de um escri- tor como Guimaraes Rosa em nosso ambiente literério, Uma leitura atenta de Menino de engenho pode detectar que 0 modelo de natrador de Carlos de Melo, lum assumido alter-ego do autor & por um lado, 0 préprio ave mas, de outro, uma contadora de estérias analfabeta, a velha Totonha. E claro que essa aproxi= magao tem um lado muito problemitico, soando como concessio de um univer- so culto a um universo plebeu, numa identificagio artificial de resto corrobora- a pela atitude de complacéncia ¢ falsa valorizagao de Carlos de Melo diante dos moleques que viviam no engenho de seu avé. Mas 0 importante é que José Lins enfrentou o problema ¢, independentemente de certa artifcialidade da sua Proposta de solucio, ajudou a criar uma espécie de lingua geral do romance brasileiro que, de uma forma ou de outra, em forga até hoje, Umma outra proposta de solugio, jgualmente artificial, mas por motives diferen- tes, €a de Jorge Amado, Sendo um revoluciondrio, como se autodefinia, sente~ se um representante legitimo do povo e, sem problema nenhum, fala em seu no- ‘me. Identifica-se com ele e nem se questiona muito sobre a legitimidade de sua adesao aos valores populares. F flagrante a diferenga em relagdo a Graciliano Ramos. Quando Vidas secas foi langado, Carlos Lacerda esereveu um artigo em que conta uma histéria que muito nos interessa: Certa vez, sobre S. Bernardo, Graciliano Ramos disse que ainda nio podia represen- tara vida do roceiro pobre porque caboclo¢ fachadc’, se esquiva & observagio, se faz impermeivel ao contato. Para Gracilano,como se vé,oroceiro pobre é um outro, enigmticoimpermes vel. Nao hd solucao facil para uma tentativa de incorporagao dessa figura no cam. 9 s0UzA, OctvioTarquino de. Vda litera. O Joma Riode lan, 159.987, p.3 1Wravates, liao (pseudbrime de Carlos Lacerda). Sugestées de Vidos sas. Revita Academica. (Rio de Janet, mai 19389 35,1. Guimarses, Clarice antes 255 po da fice. £ lidando com o impasse, a0 invés das fieis solugdes, que no vai criar Vidas seeas,elaborando uma linguagem, uma estrutura ‘uma constituicao de narrador, um recorte de tempo, enfim, um ver. nero a se esgotar num tinico romance, em que narrador e eriaturas se “mas nao se identificam. Em grande medida, o impasse acontece porque, tlectualidade brasileira daquele momento, o pobre, a despeito de ‘dealizado em certos aspectos, ainda é visto como um ser humano meio: gunda categoria simples demais, ncapaz de ter pensamentos demas complexos — lembre-se que a critica achou inverossimil que Paulo Honda se o narrador de S. Bernardo, O que Vidas secas faz.é, com um pretenso ni vvolvimento da voz que controla a narrativa, dar conta de uma riqueza de que essas pessoas seriam plenamente capazes. A solugao genial de xno Ramos é, portanto, a de nao negar a incompatibilidade entre o int € 0 proletirio, mas trabalhar com ela e distanciar-se ao méximo para aproximar-se. Assumir 0 outro como outro para envendé-to. Toda a obra de Guimaraes Rosa pode ser vista como uma solucio p para esse impasse dos anos 30, 0 passo adiante possivel depois de Vidas Diferentemente de Graciliano Ramos, Guimaries Rosa via com suspeita a nalidade, privilegiando em sua visio de mundo a necessidade de uma ‘mais forte do homem com a terra, sua propria natureza. Assim, o pobre, © tanejo, o menino, o vieeiro, 0 maluco, 0 jagungo, nao se diminuem em do seu alheamento do mundo da intelectualidade. E bem 0 contrario disso. S estatura é aumentada, pois € de sua ligagio ainda possivel com o cos via da terra, que pode surgir a grandeza. O escritor,o artista, por sua vez, visto como intelectual pura e simplesmente. Mais do que isso,é alguém que, totalmente engolido pelo discurso da logica, ¢ capaz de compreender outros. cursos e plasmi-los na forma hibrida de conhecimento e intuicio que é obs de arte. Nessa perspectiva, as figuras marginais nao s30 um outro desagresad= do artista. Tem aspectos de outro, jé que nao sao intelectuais,¢ tém aspectos Se ‘mesmo, pois, como o artist ligam-se a0 universo nto racional da intuicio. Pes 0 aqui, como € perceptivel, na leitura dessa verdadeira profissio de fé artistice ‘que “0 recado do morro’ © cantador Laudelim nao é louco nem menino== artista, Por isso pode entender um recado e elaboric-lo de forma a fazer compe ‘endé-lo quem havia se demonstrado incapaz de compreensio. A solugao lingdistica a que chegou Guimaraes Rosa se iga naturalmente a essa com ‘epgao. lingua do pobre pode ser tomada com liberdade ereinventada no conta to com uma tradig2o intelectual da,em principio, mais arrogante ata cultura, por ‘que o artista é mesmo o tinico lugar em que essa fusdo pode se dar. Vendo assim.e escritor de Cordisburgo, pode-se dizer que, se ele de fato foi um meteoro na nosss 256 Luis Bueno tradigio literéria, foi um estranho tipo de corpo celeste que escolhe direitinho o lugar onde quer cair. No caso de Guimaries Rosa, alids, nem é preciso insistir tan- to no quanto ele se inscriu numa tradigdo jé estabelecida na ficgdo brasileira se Jevarmos em conta que um critico como Wilson Martins pode enxergar em Gran- de sertdo: veredas apenas mais uma histéria de jagungos. Que & mais que uma his- ‘toria de jagungos nao hi a menor divida, Mas é tarabeém uma historia de jagungos. | © que se poderia acrescentar, num cotejo de Guimaraes Rosa com autores de 30, 0 quanto seu universo telirico, por assim dizer, também pode ser visto sobre ‘© pano de fundo de outras formas de telurismo. Nos anos 50, numa de suas co- unas semanais em 0 Cruzeiro, Gilberto Freyre escreveria o seguinte: Alguém me pergunta se & certo que em arte ou literatura eu s6estimo o que considero “regional “ecoldgico” ou telirico" O romance do sr. José Lins do Rego, por exemplo |] "Nao: é inexato. Tanto que, em poesia brasileira, admico também o st. Carlos Drum- ‘mond de Andrade que ¢ com toda sua universalidade, um telirico impregnado atéa alma do ferro vir de Itabia.[.] Um dos romancistas brasleiros que mais admiro ¢ o st: Comélio Penna, que poco tem de telirico a marcar-heas criagbes. Outro é o velho Machado, aparentemente 6 ceuropeu." E claro que Gilberto Freyre entende o teliirico num sentido mais restritamente | social do que aquele que é possivelatribuir a Guimaries Rosa. Mas interessa des- tacar duas coisas. A primeira € que o telurismo de José Lins do Rego vai além de | ‘um apego sentimental a terra edo registro dos seus costumes: ha uma dimensio tum pouco mais profunda na ligaao entre homem ¢ terra em sua obra, visivel, por exemplo, no encerramento de Pedra Bonita. Ant6nio Bento, o protagonista desse romance, foi criado pelo padre Amancio, vigario do Assu,s6 vendo a mae de tempos em tempos. Toma contato real com a familia, que mora no célebre hi- garejo do movimento religioso do século x1x, aos dezoito anos, mas 6 vive com cles por alguns meses. No entanto, no desfecho do romance, instado a ir buscar ‘um confessor para satisfazer o tiltimo desejo do moribundo padre Amincio, no caminho cle se vé literalmente diante de uma encruzilhada. De um lado a estra~ da que o leva ao confessor; de outro, a estrada que leva a Pedra Bonita, ameaca- 44a por tropas que atacario os seguidores de novo lider religioso, entre os quais se encontram seus familiares. Nao hi meio-termo, mas 0 sangue € 0 apego a0 lugar onde estao suas raizes deciclem por ele: E Bento part galope para Pedra Bonita. (p.392) 11 HEME, Gilberto, A propdsto de telursmo, O Cruze, Ro de Janeito, 2521950, 9.10, Guimaraes, Clarice e antes 257 wane padre ficou para trés porque Antonio Bento tem um lugar @ salvar ‘mo onde morrer. O romance nao se chama Pedra Bonita 8 toa, O lugar tio fincadas as raizes ¢a referéncia maxima para os personagens de Jose. Rego, ou seja seu telurismo é muito mais orginico do que a simples do que € local, (© segundo aspecto a ser destacado é 0 quanto ha de equivoco na vise. {tinge um autor complexo como Cornélio Penna ao romance psicolé barato que nio pode haver nele um peso significative dado a terra. Bem {tirio. Guimardes Rosa est mais préximo dele, nesse sentido, do que ‘quer outro autor que o antecedeu. O fato de Cornélio Penna ter sido catdlico, num momento em que bos: dos catdlicos se igava voluntariamente as faccdes politcas mais defendia um moralismo o mais tacanho, tem prejudicado o entend ‘obra. Jé em seu primeiro romance, Fronteira, isso se evidencia com cl nnal,o grande momento de revelagio — verdadeira epifenia — dentro do 4a através do contato fisico entre o narrador — que nao se sabe se é ho mulher — e a protagonista, Maria Santa, O sexo, forma de contato forte outro, ¢ fundamental na se aqui Nico Horta, o protagonista do romance posterior a Frontera. Awa “Maria Santa, enclausurada num velho casarao colonial, regida pela de ‘quiconservadora tia Emiliana 6 negagao da vida, que termina por impe a santidade da moga, reconhecida por todos, sc efetive A exemplo de 1no Ramos, nesse sentido, Cornélio Penna nao aponta maneiras ficeis de ‘magdo com o outro. Apenas afirma a necessidade de um exercicio conste aproximagao e, ao mesmo tempo, de abertura para o outro, Quanto a0 telurismo de Comélio Penna, para ficarmos no aspecto jd tocad le pode ser percebido sio papel fundamental que a paisagem montank ‘Minas Gerais exerce sobre a vida dos personagens. Ela provoca uma se de enclausuramento, que nao ¢ fruto do sew aspecto propriamente fisico. historia da relagao que tem com os homens e, por conseqiiéncia, do tipo: uéncia que devolve ao homem. A homologia entre a casa onde vi tae 0 ambiente das cidades carregadas pelas montanhas“como uma. tante e tenaz”s é mesmo enfatizad: ra uma casa feita de acordo com o cendrio das montanhas que a cercavam de: (05 lados, e nao feito para servir de quadro ¢ abrigo para os homens que a t construido com suas préprias miost, 12 RCO, José Lins do Peco Bonita. 2" ed, lo de Janeiro: José Olympio, 139, p 392 13 PEWNA, Corio, Ramances compet. Rlo de Jeneito: Aur 1958, p16 258-Lus Bueno Afastado da natureza, indo mesmo contra ela, o homem niio pode se encontrar. “Todos os personagens sto como Pedro Orésio: habitam um lugar, ndo o vivem. Portanto, ndo podem ser felizes. Se tudo o que se disse até aqui faz algum sentido, entao podemos inverter a leitura que Silviano Santiago faz de A hora da estrela, visto como “a mais alta traigdo a0 que a autora tinha inaugurado na literatura brasileira", Numa carta remetida a Liicio Cardoso logo depois de sua chegada & Europa, Clarice faz 0 seguinte comentirio sobre aquilo que ela chamia de sua vida social: Deus meu, sea gente nio se guarda como nos roubam. Todo mundo é inteligente,é bonito, éeducado, dé esmolaseIé livros; mas por que nao vao para um inferno qual- ‘quer? Eu mesma irei de bom grado se souber que © lugar da “humanidade sofredora’ Eno céu, Meu Deus, eu afinal ndo sou missionsia,E detesto novidades, noticias © informagties. Quero que todos sejam felizes e me deixem em paz. (© outro parece ser a grande ameaga. De desintegracio, de alienamento de si ‘mesma. A seguranca,a tranqtilidade dependem de um seqilestro do outro. Pen- sando assim, 0 mais fécil é ver a nordestina e mandé-la para um inferno qual- quer. O desafio é maior, Fazer-se de outro, um homem, para sondar 0 mistério de um segundo outro, Sem deixar de escrever a mesma prosa, de por em ques- ‘80 os mesmos problemas. Um encontro com o outro existencial, contra 0 qual ‘como mulher, como escritora, como membro de uma classe social ela se coloca ‘Um encontro com o outro literario, com a vertente que, sendo aparentemente to outra, pode de repente ser a mesma, Pensando assim, A hora da estrela no 6 traigao: € insergio explicita e consciente numa tradigdo, & superacio dos pré- Prios limites enquanto criadora, £ 0 gesto a um tempo arriscado e generoso de deixar-se roubar para poder se recuperar, renovada, Melhor que ser meteoro. lider, 9.97. ssaxmaco, iano, dem. 16 arta inddita que consta do acevo da Fundacdo Casa de Rul Barbose,caalogads sob codigo ica? cp. Ver: ance. Rosangela Floido & vascoNcELL0s lane. mente do arquivo co Cardoso, Ro de Janeiro: Fundagao Casa de Rul Barbosa, 1989, Luis Bueno ¢ professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Parana, ‘Guimardes, Clarice eantes 259)