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ESBOGO DE UMA TEORIA DA PRATICA* Pierre Bourdieu Trés modos de conhecimento teorico © mundo social pade ser objeto de trés modos de conhecimento tedrica que implicam em cada caso um conjunto de teses antropolégicas, as mais frequentemente tacitas, que também, mesmo nao sendo de forma alguma exclusivos, a0 menas em direito, so tem em comum 0 fato de se oporem ao modo de conhecimento pratico. © conhecimento que chamaremos de Tenomenolégico (ou, sé quisermos falar em termos de escolas atualmente existentes, “interacionista" ou "etnometodolégico") explicita a verdade da experiéncia primeira do mundo social, isto é, a relagdo de familiaridade com 0 meio familiar, apreens4o do mundo social como mundo natural e evidente, sobre 0 qual, por definico, ndo se pensa e que exclui a questo de suas préprias condigées de possibilidade. O canhecimento que pademos chamar de objetivista (de que a hermenéutica estruturalista é um caso particular) constréi relagdes objetivas (isto é, econémicas ou linguisticas), que estruturam as praticas € as representag6es das praticas (ou seja, em particular, 0 conhe- cimento primeira, pratico € tacito, do mundo familiar), ao prego de uma ruptura com esse conhecimento primeiro €, portanto, cam os pressupostos tacitamente assumidos que conferem ao mundo social seu cardter de evidéncia € de natural: com efeito, samente se nos colocarmas a questao - que a experiéncia déxica do mundo social exclui por definic&o - das condigdes (particulares) que tomam possivel essa experiéncia é que o conhecimento objetivista pode estabelecer as estruturas objetivas do mundo social € a verdade objetiva da experiéncia primeira enquanto privada do conhecimenta explicito dessas estruturas. Enfim, 0 conhecimento que pademos chamar de praxiolégico tem camo objeto no somente o sistema das relagdes abjetivas que 0 modo de conhecimento objetivista constrdi, mas também as relagdes dialéticas entre essas estruturas € as disposigGes estruturadas nas quais elas se atualizam e que tendem a reproduzias, isto €, 0 duplo proceso de interiorizagéo da exterioridade e de exteriorizagéo da Interioridade: este conhecimento supde uma ruptura com o mado de conhecimento abjetivista, quer dizer, um questionamento das condigdes de possibilidade e, por ai, dos limites do ponto de vista objetivo e abjetivante que apreende as praticas de fora, enquanto fato acabado, em lugar de construir seu principio gerador situando-se no préprio movimento de sua efetivacao. Se 0 mado de conhecimento praxiolégico pode aparecer como um retoma puro e simples ao modo de conhecimento fenamenolagico € se a critica do objetivismo que ele implica corre o risco de ser confundida com a critica que o humanismo ingénuo dirige objetivagao cientifica em nome da experiéncia vivida € dos direitos da subjetividade, é porque ele é 0 produto de uma dupla translagao tedrica: ele opera, com efeito, uma nova inverséo da problemética que a ciéncia objetiva do mundo social, como sistema de relagées objetivas € independente das consciéncias e das vontades individuals, constituiu, a0 colocar ela mesma as questdes que a experiéncia primeira € a andlise fenomenolégica dessa experiéncia tendiam a excluir. Do mesmo modo que o conhecimento objetivista coloca a questo das condigdes de possibilidade da experiéncia primeira, revelando, assim, que essa experiéncia se define, tundamentalmente, pela ndo-colocagao dessa questo, © conhecimento praxialégico inverte o conhecimento objetivista, colacando a questo das condicées de possibilidade dessa questo (condicées tedricas e, também, sociais) € mostra, ao mesmo tempo, que o conhecimento abjetivista se define fundamentalmente, pela exclusdo dessa questao: na medida em que ele se constitui contra a experiéncia primeira - apreensao pratica do mundo social - 0 conhecimento objetivista se afasta da construdo da teoria do conhecimento pratico do mundo social e dela produz, ao menos negativamente, a falta, ao produzir conhecimento teérico do mundo social contra os pressupostos implicitos da conhecimento pratico do mundo social. conhecimento praxiolégico nao anula as aquisi¢ées do conhecimento objetivista, mas conserva-as e as ultrapassa, integranda o que esse conhecimento teve que excluir para abté-las. Mas € preciso deter-se um instante no terreno por exceléncia do objetivismo - 0 da lingtistica saussuriana e da semiologia. Quando Saussure constitui a lingua enquanto objeto auténomo é irredutivel as suas atualizagdes concretas, isto é, aos atos de palavra que ele toma possiveis, ou entao quando Panotsky estabelece que 0 que ele chama depois de Alois Riegl, de sentido objetivo da obra (Kunstwolleny?, é irredutivel tanto a "vontade" do artista quanto a "vontade da época" e as experiéncias vividas que a obra suscita no espectador, eles realizam, com respeito a essa conduta particular que € a palavra e a esses produtos particulares da aco que so as obras de arte, a operac4o pela qual toda ciéncia objetivista se constitui ao constituir um sistema de relagées iredutiveis tanto as praticas dentra das quais ele se realiza € se manifesta, quanto as intengdes dos sujeitos e a consciéncia que eles podem tomar de suas abrigagées € de sua ldgica. Da mesmo modo que Saussure mostra que o medium verdadeira da comunicagao entre dois sujeitos ndo é 0 discurso enquanto dado imediato considerado em sua materialidade observavel, mas a lingua enquanto estrutura de relagdes objetivas que toma possivel a produ¢éo do discurso e sua decifracda, Panotsky mostra que a interpretaco iconolégica trata as propriedades sensiveis da obra de arte, com as experiéncias afetivas que ela suscita, como simples "sintomas culturais" que s6 liberam seu sentido através de uma leitura munida da cifra cultural que 0 criador colocau em sua obra A “compreensdo" Imediata supée uma operaco inconsciente de decifrago que sé é perfeitamente adequada quando a competéncia que um dos agentes engaja na sua pratica ou nas suas obras é igual @ competéncia que engaja abjetivamente o outro agente na sua percepcdo dessa conduta ou dessa obra; isto é, no caso particular em que a cifragem, como transformagao de um sentido em uma pratica ou em uma obra, coincide com a operacao simétrica de decifragem (no esquema, este caso deveria ser apresentado pela coincidéncia perfeita dos circulos C A € C B). Ato de decifragem que se ignora enquanto tal, a "compreensdo" s6 é possivel e realmente efetuada no caso Particular em que a cifra historicamente produzida e reproduzida, que toma possivel o ato de decifragem (inconsciente), é imediata e completamente dominada (a titulo de dispasicao cultivada) pelo agente que percebe e se confunde com a cifra que tomou possivel (a titulo de disposig4a cultivada) a produco da conduta ou da obra percebida. Em todos os outros casos, 0 mal- entendido parcial ou total (segundo a amplitude da interse¢o entre C Ae C B) 6 a regra, a llusdo da compreensdo imediata conduzindo a uma compreensao llusoria, e do etnacentrismo enquanto erro sobre a cifra (posta que traz aC B fatos relativos a C A, ou 0 inverso, e Isto mesmo se C A € C Bndo apresentam nenhuma interag¢ao). Em poucas palavras, quando ela se inspira de uma fé ingénua na identidade, da humanidade ¢ quando no disp6e de nenhum outro instrumento de’ conhecimento além da “transferéncia intencional sobre o outro", como diz Husserl, a interpretago mais "compreensiva" corre o risco de nao ser mais do que uma forma particularmente irrepreensivel de etnocentrismo cy = stun ae actus C= ote comin 8 A a Fame mares], [en mn 1, Sonia vepito tte, Sag tice cotras| Gest feel specie Zeiiapts dn itegio ce Ee] |e ae cota Sic feces] | So's dw ‘nate nine reser Colocados em uma situagao de dependéncia tedrica em relagao a linguistica, os etndlogos estruturalistas engajaram frequentemente, em sua pratica, 0 inconsciente epistemoligico que engendra o esquecimenta dos atos pelos quals a lingifstica construlu seu objeto préprio: herdeiros de um patriménio intelectual que eles proprios no constituiram e cujas condigdes. de produgao nem sempre sabem reproduzir, fizeram-se, na maior parte das vezes, com essas tradugées literais de uma terminolagia dissociada da ordem das razées das quais ela tira seu sentido, economizando a reflexo epistemolégica das condigées € dos limites de validade de uma transposi¢o da construgao saussuriana. E significativo, por exemplo, que, excetuando-se Sapir, predisposto pela sua dupla formacao de lingliista e etndlogo a colocar 0 problema das relagées entre a cultura e a lingua, nenhum etndlogo tena tentado retirar todas as implicagdes da homologia (que Leslie White € mais ou menos 0 Unico a formular explicitamente) entre essas duas oposicdes, lingua/palavra € cultura/conduta ou obras. Colocando que a comunicacéo imediata é possivel se © somente se os agentes esto objetivamente afinados de modo a associar 0 mesmo sentido ao mesmo signo (palavra, pratica ou obra) € 0 mesmo signo ao mesmo sentido, au, em outros termos, de maneira a se referir, em suas operagées de cifragem e decifragem, isto é, em suas praticas € suas interpretagdes, a um sé e mesmo sistema de relacdes constantes, independentes das consciéncias € das vontades individuals e imedutiveis @ sua execueao nas praticas ou nas obras (cédigo ou cifra), a analise objetivista nao opée, propriamente falando, um desmentida a andlise fenomenolégica da experiéncia primeira do mundo social e da compreensao imediata das palavras e dos atos do outro: ela somente define seus limites de validade que a andlise fenomenolégica ignora, estabelecendo as condices particulares nas quais ela € possivel. Se, para citar Husser!, as ciéncias do homem s&o necessariamente "ciéncias que tém uma temética de dupla orientagao conseqente, uma tematica que liga de maneira consequente a teoria do campo cientifico a teoria do conhecimento dessa teoria” e se, em outros termos, a reflexdo epistemolagica sobre as condi¢ées de possibilidade da ciéncia antropologica faz parte integrante da ciéncia antropolégica, porque, primeiramente, lima ciéncia que tem por objeto aguilo que a toma possivel, como lingua e cultura, nao pode constituir-se sem constituir suas prdprias condigdes de possibilidade; mas é também porque o conhecimento completo das condigées da ciéncia, isto é, das operacées pelas quais a ciéncia se dé 0 dominio simbélico de uma lingua, de um mito ou de um rito, implica 0 conhecimento da compreensao primeira enquanto execugao das mesmas operagées, mas de modo inteiramente outro: na inconsciéncia absoluta das condigées gerais e particulares que ihe conferem sua particularidade. Mas basta interrogar, uma vez mais, as operacées tedricas através das quais Saussure constitui a lingUistica enquanto ciéncia construindo a lingua como objeto auténamo, distinto de suas atualizagdes na palavra, para tornar claro os pressupostos implicitos de todo modo de conhecimento que trata as praticas ou as obras enquanto fatos simbdlicos a serem decifrados. Ainda que possamos invocar a existéncia das linguas mortas ou do mutismo tardio como possibilidade de perda da palavra conservando a lingua, ainda que a falta de lingua a faga aparecer como norma abjetiva da palavra (de outro modo, todo erro de lingua modificaria a lingua € nao haveria mais erro de lingua), a pa lavra aparece como condig&o da lingua, tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista coletivo, pelo fato de a lingua nao poder ser apreendida fora da palavra, posto que a aprendizagem da lingua se faz pela palavra € que a palavra esta na origem das inovagdes e das transformacées da lingua. Mas os dois processos invocados nao t&m sendo_prioridade cronolégica. Quando deixamos o terreno da histéria individual ou coletiva, como fato hermenéutico objetivista, para nos interrogarmos sobre as condigées ldgicas da decifragem, a relagdo se inverte: a lingua € condigao de inteligibilidade da palavra enquanto mediaco que, assegurando a identidade das associagdes de sons e de conceitos operados pelos locutores, garante a compreensdo mutua. € dizer que, na ordem ldgica da inteligibilidade, a palavra € 0 produto da lingua’. Dai resulta que, pelo fato de construir-se do ponto de vista estritamente intelectualista que € 0 da decifragem, a linguistica saussuriana privilegia a estrutura dos signos, isto é, as relagées que eles mantém entre si, em detrimento de suas fungées préticas que no se reduzem jamais, como 0 supée tacitamente o estruturalismo, as fungées de comunicagao ou de conhecimento. As praticas mais estritamente voltadas, na aparéncia, para as fungdes de comunicacao pela comunicagao (fungdo fatica) ou de comunicagao para o conhecimento, como as festas € as ceriménias, as trocas rituais ou, num outro campo, a circulagao de informarao cientifica, esto sempre orientadas também para as fungGes politicas e econdmicas ‘A construgéo saussuriana sé se permite constituir as_propriedades estruturais da mensagem enquanto tals, isto é, enquanto sistema, dando-se um emissor € um receptor impessoais ¢ intercambiavels, quer dizer, quaisquer, fazendo abstragao das propriedades funcionais que cada mensagem deve a sua utiizago numa certa interagao social estruturada. Na verdade, sabe-se que as interagdes simbélicas no interior de um grupo qualquer dependem nao somente, como bem o vé a psicologia social’, da estrutura do grupo de interagdo no qual elas se realizam, mas também das estruturas socials nas quais se encontram inseridos os agentes em interagdo (isto €, a estrutura das relagdes de classe): assim, é provavel que uma medida das trocas simbélicas que permitisse distinguir, com Chapple e Coon®, os que sé emitem (originate), (08 que sd respondem e os que respondem as emissdes dos primeiros emitem para os segundos, tomaria visivel, tanto na escala de uma formacao social em seu conjunto quanto no interior de um grupo circunstancial, a dependéncia das relagdes de forca simbdlica com respeito a estrutura das relagdes de forca politica. © modelo da concorréncia pura € perfeita € irreal tanto aqui quanto alhures eo mercado de bens simbdlicos tem também seus monopélios € suas estruturas de dominacao Em poucas palavras, logo que se passa da estrutura da lingua para as fungdes que ela preenche, isto €, 0s usos que dela fazem realmente os agentes, percebe-se que o simples conhecimento do cdaigo ndo permite sendo imperfeitamente dominar as interagGes lingisticas realmente efetuadas. Com efeita, como observa Luis Prieto, o sentido de um elemento linguistico depende tanto de fatores extralinguisticos quanto de fatores linglisticos, isto é, do contexto e da situagao na qual ele € empregado: tudo se passa como se 0 receptor selecionasse, na classe dos significados que correspondem abstratamente a uma fonia, aquele que ihe parece ser compativel com as circunstancias tal como ele as percebe”. A recep¢o (e, sem duivida, também a emisso) depende, pois, em grande parte da estrutura das relacdes entre as posigdes objetivas dos agentes em interacdo na estrutura social (isto ¢, das relagdes de concorréncia ou de antagonismo objetivo ou relacées de poder € de autoridade etc.), estrutura esta que comanda a forma das interacées observadas numa conjuntura particular (isto é, a correlagao que se estabelece, segundo Moscovici, entre a quantidade de emisséo verbal © a posi¢ao sociométrica) Mas se nada manifesta melhor a insuficiéncia da teoria da pratica que persegue o estruturalismo lingUistico (2, também, etnolégico) do que sua impoténcia em integrar na teoria tudo 0 que se refere & execugao, como aiz Saussure, resta que o principio dessa impoténcia reside na incapacidade de pensar a palavra e, de mado mais geral, a pratica de outra forma que nao seja enquanto execugao®. O objetivismo constrdi uma teoria da pratica (enquanto execurdo), mas somente como um subproduto negativo ou, se assim podemos dizer, como um residuo, imediatamente posto de lado, da construgo dos sistemas de relagdes objetivas. E assim que, querendo delimitar, no interior dos fatos de linguagem, o "terreno da lingua" e isolar "um objeto bem- definido", "um objeto que possa ser estudado separadamente", "de natureza homogénea", Saussure separa “a parte fisica da comunicagao", isto é, a palavra como objeto pré-construido, proprio a obstaculizar a construcao da lingua e depois isola no interior do "circuito da palavra" o que ele denomina o “lado executivo", quer dizer, a palavra enquanto objeto construido definido pela atualizag4o de um certo sentido numa combinago particular de sons, que ele elimina, enfim, invocando que "a execugdo nunca é feita pela massa", mas é “sempre individual". Assim, 0 mesmo conceito - 0 da palavra - é desdobrado, pela construgdo teérica, num dado pré-construido e imediatamente observavel, aquele mesmo contra o qual efetuou-se a operagdo de construgao tedrica, & um objeto construido, produto negative da operacao que constitui a lingua enquanto tal, ou melhor, que produz os dois objetos, produzindo a relacao de ‘oposig¢ao na qual e pela qual se definem. Nao teriamos dificuldade em mostrar que a construgdo do conceito de cultura (no sentido da antropologia cultural) ou de estrutura (no sentido de Radcliffe-Brown e da antropologia social) implica também a construgéo de uma nogdo de conduta enquanto execugdo que vem sobrepor-se a nogao primeira de conduta como simples comportamento tomado em seu valor aparente. A confusdo extrema dos debates sobre as relagdes entre "cultura" (ou as “estruturas sociais") € a conduta tem, freqUentemente, por principio o fato de que o sentido construido da conduta e a teoria da pratica que ele implica levam uma espécie de existéncia clandestina, tanto no discurso dos defensores da antropologia cultural quanto no de seus adversarios: com efeito, os mais encamigados adversarios da nog&o de "cultura", como Radcliffe-Brown, nao encontram nada melhor do que um realismo ingénuo para opor ao realismo do inteligivel que faz da "cultura" uma realidade transcendente, dotada de uma existéncia auténoma e obediente, na sua propria histéria, as suas leis internas®. O objetivismo se encontra protegido contra o unico questionamento decisivo, aquele que se dirige a sua teoria da pratica, principio de todas as aberracdes metafisicas sobre "o lugar da cultura", sobre 0 modo de existéncia da “estrutura” ou sobre a finalidade inconsciente da historia dos sistemas, sem falar da famosa “consciéncia coletiva", pelo estado implicito em que se encontra essa teoria"” Em poucas palavras, por nao construir a pratica sendo de maneira negativa, quer dizer, enquanto execueao, 0 objetivismo esta condenado ou a deixar na mesma a questéo do principio de produgo das regularidades que ele se contenta entéo em registrar, ou a reificar abstrages, por um Paralogismo que consiste em tratar os objetos construidos pela ciéncia - a cultura’, as "estruturas", as "classes sociais", 0s "modos de producao" etc. - como realidades auténomas, dotadas de effcécia social e capazes de agir enquanto sujeitos responsavels de acées histéricas ou enquanto poder capaz de pressionar as praticas. Se a hipdtese do inconsciente tem, ao menos, 0 mérito de descartar as formas mais grosseiras do realismo das idéias, ela tende, na verdade, a mascarar as contradigdes engendradas pelas incertezas da teoria da pratica que a "antropologia estrutural" aceita ao menos por omisséo, quando n&o permite restaurar, sob a forma aparentemente secularizada de uma estrutura estruturada sem principio estruturante, as velhas enteléquias da metafisica social. Quando nao se quer ir até o panto de colocar, como Durkheim, que nenhuma das regras que constrangem os sujeitos "pode ser inteiramente reencontrada nas aplicagdes que delas so feitas pelos particulares, posto que elas podem até mesmo ser sem serem no momento aplicadas"’ € quando nao se quer conceder a essas regras a existéncia transcendente e permanente que ele confere a todas as "realidades" coletivas, so se pode escapar as ingenuidades mais grosseiras do juridismo, que toma as praticas como o produto da obediéncia as normas, jogando com a polissemia da palavra regra: empregada, na maior parte das vezes, no sentido de norma social expressamente colocada € explicitamente reconhecida, como lei moral ou juridica, as vezes no sentido de modelo tedrico ~ construcdo elaborada pela ciéncia para explicar as praticas -, essa palavra se emprega também, excepcionalmente, no sentido de esquema (ou de principio) imanente pratica, que é preferivel chamar de implicito a inconsciente, para significar simplesmente que ele se encontra no estado pratico na pratica dos agentes nao em sua consciéncia Para nos convencermos disso, basta relermos 0 pardgrafo do prefacio da segunda edigao de Les structures élémentaires de la parenté, sagrado a distingao entre "sistemas preferenciais" e “sistemas prescritivos’, onde podemos supor que os termos norma, modelo ou regra so objeto de um uso particularmente controlado: "Reciprocamente, um sistema que preconiza 0 casamento com a filha do irmao da mae pode ser chamado de prescritivo, mesmo se a regra é raramente observada: ele diz o que é preciso fazer. A questéo de saber até que ponto, € em que proporcdo, os membros de uma dada saciedade respeitam @ norma € muito interessante, mas' diferente da questo do lugar que convém atribuir a essa sociedade numa tipalogia Porque basta admitir, em conformidade com a verossimilhanga, que a consciéncia da regra inclina nem que seja um pouco as escolhas no sentido presorfo € que a porcentagem dos casamentos ortodoxos é superior que se observaria se as unides se fizessem ao acaso, para reconhecer, agindo nessa sociedade, preenchendo a papel do pilato, 0 que poderiamos chamar de um operador matrilateral: certas aliancas se engajam pelo menos na via que ele Ines traca, ¢ isto basta para imprimir uma inflexo especifica no espaco genealégico. Sem duvida, haveré um grande numero de inflexdes locals e no uma Unica; sem duvida, essas inflexdes locais se reduzirao, na maior parte das vezes, a tentativas que somente em casos raros e excepcionais formarda ciclos fechados. Mas os esbocos de estrufuras que reaparecero aqui e ali bastarao para fazer do sistema uma versao probabilistica dos sistemas mais rigidos cuja nogdo é inteiramente tedrica, onde os casamentos estariam Tigorosamente conformes a regra que ao grupo social agrada enunciar* A t6nica dominante nessa passagem, assim camo em todo o prefacio, é a da norma; ja a antropologia estrutural esta escrita na lingua do modelo ou, se preferimmos, da estrutura; nao que o léxico esteja ali completamente ausente, posto que o metaforismo matematico-fisico que organiza a passagem central (Yoperador', "certas aliangas se engajam nas vias que Ihe so tracadas", “inflexo do espaco genealagico", "estruturas") vem evocar a légica do madelo teérico a equivaléncia, ao mesmo tempo professada e repudiada, do modelo eda norma “um sistema preferencial é prescritivo quando 0 encaramos ao nivel do modelo; um sistema prescritivo nao saberia ser senao preferencial quando o encaramos ao nivel da realidade" Mas para os que tm na meméria os textos da antropologia estrutural sobre as relagdes entre linguagem e parentesco ("Os ‘sistemas de parentesco’ como os ‘sistemas fonolégicos' s4o elaborados pelo espirito no nivel do pensamento inconsciente""*), onde, com nitidez imperiosa, as "normas culturais" € todas as “racionalizagdes" ou "elaboragdes secundarias" produzidas pelos indigenas 10 eram afastadas em proveito das "estruturas inconscientes", sem falar nos textos em que se afirmava a universalidade da regra originaria da exogamia, podem surpreender as concessdes feitas aqui @ "consciéncia da regra" e a marcada distancia com relagéo a esses sistemas rigidos "cuja nocdo é totalmente teérica’, como se vé nesta outra passagem do mesmo prefacio: "Nao & menos verdade que a realidade empirica dos sistemas ditos prescritivos sé ganha sentido quando relacionada a um modelo tedrico elaborado pelos prdprios indigenas antes dos etndlogos"™. ou ainda "aqueles que os praticam sabem bem que o espirito de tais sistemas no se reduz a proposicdo tautolégica segundo a qual cada grupo obtém suas mulheres de ‘doadores’ e da suas filhas a tomadores’. Eles esto também conscientes de que 0 casamento com a prima cruzada unilateral oferece a mais simples ilustrago da regra, a formula mais apropriada para garantir sua perpetuagao, enquanto que o casamenta com a prima cruzada patrilinear a violaria sem recurso” Nao pademos nos impedir de evocar um texto onde Wittgenstein agrupa, como que ironizando, todas as questées esquivadas pela antropologia estrutural e, sem duivida, de modo mais geral, por todo intelectualismo, que transfere a verdade objetiva estabelecida pela ciéncia para uma pratica, excluindo a postura propria a tomar possivel a. estabelecimento dessa verdade"”. "O que eu chamo de ‘a regra a partir da qual ele procede'? A hipétese que descreve de maneira satisfatéria seu uso das palavras que nds observamos; ou a regra a qual ele se refere no momento de servir-se dos signos, ou aquela que ele nos da em resposta quando Ine perguntamos qual € sua regra? ~ Mas se nossa observacdo nao permite reconhecer claramente nenhuma regra, e se a questo nao determina nada com respeito a isso? Porque & minha questao de saber 0 que ele entende por 'N' ele me deu, com efeito, uma explicago, mas ele estava pronto para retoma-la © para modificd-la: - Como deveria eu, entao, determinar a regra a partir da qual ele joga? Ele préprio a ignora. - Ou mais exatamente: 0 que poderia significar aqui a expresso. 'A regra a partir da qual ele procede'?" Fazer da regularidade, isto é, do que se produz com uma certa frequéncia, u estatisticamente mensuravel, 0 produto do regulamento conscientemente editado e conscientemente respeitado (0 que supde que expliquemos a génese e a eficacia), ou da regulagdo inconsciente de uma misteriosa mecdnica cerebral e/ou social é escorregar do modelo da realidade para a realidade do modelo: "Consideremos a diferenga entre ‘o trem tem regularmente dois minutos de atraso' e 'é de regra que o trem tenha dois minutos de atraso'(",) neste Liltimo caso sugerimos que a fato de que o trem esteja dois minu- tos atrasado est em conformidade com uma politica ou um plana ( ), As regras reenviam a planos e a politicas, e nao a regularidades (...) Pretender que é preciso ter regras na lingua natural € 0 mesmo que pretender que as estradas devem ser vermelhas porque elas correspondem a linhas vermelhas num mapa"? Todas as proposigdes do discurso sociolégico deveriam ser precedidas por um signo que se leria "tudo se passa como se...." e que, funcionando a maneira de quantificadores da légica, lembraria continuamente o estatuto epistemoldgico dos conceitos construidos da ciéncia objetiva, Tudo concorre, com efeito, para encorajar a reificago dos conceitos, comecando pela ldgica da linguagem ordinaria, que se inclina a inferir a substncia do substantive ou a conceder aos conceitos 0 poder de agirem na histéria como agem nas frases do discurso histérico as palavras que os designam, isto ¢, enquanto sujeitos histéricos: como observava Wittgenstein, basta escorregar do advérbio “inconscientemente” ("tenho inconscientemente dor de dentes") ao substantivo “inconsciente" (ou a um certo uso do adjetivo "inconsciente”, como em "tenho uma dor de dentes inconsciente") para produzir prodigios de profundidade metafisica’’, Vemos do mesmo modo os efeitos tedricos (e politicos) que a personificagao dos coletivos pode engendrar em frases como "a burguesia pensa que . .," ou "a classe operaria nao aceita que...) efeitos que levam, tao seguramente quanto as profissGes de fé durkneimianas, a postular a existéncia de uma "consciéncia coletiva’ de grupo ou de classe: atribuindo aos grupos ou 8 instituigées disposiges que s6 podem constituir-se nas consciéncias individuals, ainda que sejam 6 produto de condigdes coletivas, como a tomada de consciéncia dos interesses de classe, dispensamo-nos de analisar essas condigées €, em particular, aquelas que determinam o grau de 12 homogeneidade objetiva e subjetiva do grupo considerado e o grau de consciéncia de seus membros. Variante particularmente interessante das precedentes, o paralogismo que esta na raiz do juridismo, essa espécie de artificialismo social, consiste em colocar implicitamente na consciéncia dos agentes singulares o conhecimento tedrico que sé pode ser construido contra essa experiéncia ou, em outros termas, em conferir o valor de uma descri¢o antropolégica ao modelo teérico construido para explicar as praticas. A teoria da acao como simples execugéo do modelo (no duplo sentida da norma e de construcéo cientifica) no € sendo um exemplo entre outros da antropologia imaginaria que engendra o objetivismo quando, dando, como diz Marx, "as coisas da légica pela légica das coisas", faz do sentido objetivo das praticas ou das obras o fim subjetivo da ago dos produtores dessas praticas ou dessas obras, com seu impossivel homo economicus submetendo suas decisdes ao célculo racional, seus atores executando papéis ou agindo conforme modelos ou seus locutores escolhendo entre os fonemas Estruturas, habitus e praticas Assim, 0 objetivismo metédico que constitui um momento necessario de toda pesquisa, a titulo de instrumento de ruptura com a experiéncia primeira € da construgéo das relagdes objetivas, exige sua propria superacdo. Para escapar ao realismo da estrutura, que hipostasia os sistemas de relagées objetivas convertendo-os em totalidades j4 constituidas fora da histéria do individuo e da historia do grupo, necessario e suficiente ir do gous operatum a0 modus operandi, da regularidade estatistica ou da estrutura algébrica ao, principio de producéo dessa ordem observada e construir a teoria da pratica ou, mais exatamente, do mado de engendramento das praticas, condi¢ao da construgao de uma ciéncia experimental da dialética da interioridade e da exterioridade, isto €, da interiorizagéo da exterioridade e da exteriorizagao da interioridade. As estruturas constitutivas de um tipo particular de meio (as condigées materiais de existéncia caracteristicas de uma condig&o de classe), que podem ser apreendidas empiricamente sob a forma de regularidades associadas a um meio sacialmente estruturado, produzem habitus, sistemas 1B de disposigées *' duraveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto €, como principio gerador e estruturador das praticas e das representagdes que podem ser objetivamente "reguladas" e "regulares" sem ser o produto da obediéncia a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenc&o consciente dos fins € o dominio expresso das operagdes necessarias para atingilos e coletivamente orquestradas, sem ser 0 produto da aro organizadora de um regente. No mesmo momento em que elas aparecem como determinadas pelo futuro, isto €, pelos fins explicitos e explicitamente colocados de um projeto ou plano, as praticas que o habitus produz (enquanto principio gerador de estratégias que permitem fazer face a situacdes imprevisiveis e sem cessar renovadas) s&0 determinadas pela antecipa¢éo implicita de suas conseqléncias, isto é, pelas condigées passadas da producéo de seu principio de produgéo de modo que elas tendem a reproduzir as estruturas objetivas das quais elas so, em ultima analise, o produto. Assim, por exemplo, na interagao entre dois agentes ou grupos de agentes dotados dos mesmos habitus (sejam A e 8), tudo se passa como se as ages de cada um deles (seja a1 para A) se organizassem em relaco as reagdes que esas aces exigem de todo agente dotado do mesmo habitus (seja by, reagao de B a a1), de maneira que elas implicam objetivamente a antecipagao da reacao que essas reagdes chamam por sua vez (seja a, reagdo a by). Mas nada seria mais ing@nuo do que subscrever a descrieo teleoldgica segundo a qual cada aco (seja ai) teria por finalidade tomar possivel a reacdo a reado que ela suscita (seja a, reagao a bi). O habitus est no principio de encadeamento das "agdes" que so objetivamente organizadas como estratégias sem ser de modo algum 0 produto de uma verdadeira intengao estratégica (0 que suporia, por exemplo, que elas fossem apreendidas como uma estratégia entre outras possiveis) Se nao esta de modo algum excluido que as respostas do habitus se acompanhem de um célculo estratégico tendendo a realizar sob 0 modo quase consciente a operagao que o habitus realiza num outro modo, a saber, um célculo das probabilidades que suponham a transformagéo do efeito passado em futuro esperado, resta que elas se definem em primeira lugar em relag&o a um campo de potencialidades objetivas, imediatamente inscritas no 14 presente, coisas a fazer ou a ndo fazer, a dizer ou a no dizer, em relacdo a um a vir que, a0 contrario do futuro camo "passibilidade absoluta’ (absoluto Méglichkel), no sentido de Hegel, projetado pelo projeto puro de uma "liberdade negativa", se prope com urgéncia e pretens4o a existir excluindo a deliberaco. Os estimulos simbélicos, isto é, convencianais € condicionais, que sé agem com a condicéo de reencontrar agentes condicionados a percebélas, tendem a se impor de maneira incondicional e necessaria quando a inculca¢do do arbitrario abole o arbitrario da inculcagao € das signifi- cages inculcadas: 0 mundo das urgéncias, dos fins ja realizados, dos objetos dotados de um ‘cardter teleolégico permanente", segundo a expresso de Husserl, camo instrumentos, passos a seguir, caminhos ja tragados, valores feitos coisas, que € 0 mundo da pratica, 6 pode conceder uma liberdade condicional ~ liberet si liceret - bastante semelhante @ da agulha imantada que, como a imagina Leibniz, se comprazia em virar para o norte. Se observamos regularmente uma estreita corelacéo entre as probabilidades objetivas cientificamente construidas (por exemplo, as chances de acesso a0 ensino superior ou ao museu etc.) € as aspiragées subjetvas (as "motivagées"), no é porque os agentes ajustam conscientemente suas aspiragdes a uma avaliagao exata de suas chances de sucesso, a maneira de um jogador que arrumaria seu jogo em fungdo de uma informacdo perteita sobre suas chances de ganho, como supomos implicitamente quando, esquecendo que “tudo se passa coma se", fazemos como se a teoria dos jogos ou o calculo das probabilidades, uma e outro construidos contra as disposigées esponténeas, constituissem descrigdes antropoldgicas da pratica Invertendo completamente a tendéncia do abjetivismo, podemos, ao contrario, procurar nas regras da construcdo cientifica das probabilidades ou das estratégias no um modelo antropolégico da pratica, mas a descrieao negativa das regras implicitas da estatistica esponténea que elas encerram necessa- riamente, porque elas se constroem explicitamente contra essas regras implicitas (por exemplo, a propens4o a privilegiar as primeiras experiéncias) Diferentemente do cdlculo das probabilidades que a ciéncia constrdi metodicamente, com base em experiéncias controladas e a partir de dados estabelecidos segundo regras precisas, a avaliac4o subjetiva das chances de sucesso de uma aco determinada numa situa¢ao determinada faz intervir 15 todo um corpo de sabedoria semiformal, ditados, lugares-comuns, preceitos éticos ("nao é para n6s") e, mais profundamente, principios inconscientes do ethos, disposi¢éo geral e transponivel que, sendo o produto de um aprendizado dominado por um tipo determinado de regularidades objetivas, determina as condutas "razoaveis" ou "absurdas" (as loucuras) para qualquer agente submetido a essas regularidades”. "Mal conhecemos a impossibllidade de satisfazer 0 desejo", dizia Hume no Tratado da natureza humana, “que o proprio desejo desvanece.” E Marx, no Esboco de uma critica da economia politica: "Quem quer que eu seja, sé nao tenho dinheiro para viajar, no tenho necessidade - no sentido de necessidade real de viajar - susceptivel de ser Satisfeita. Quem quer que eu seja, se tenho a vocacdo dos estudos mas nao tenho dinheiro para dedicar-me, nao tenho a vocacao para 0 estudo, quer dizer, uma vacacao efetiva, verdadeira.” As praticas padem encontrar-se objetivamente ajustadas as chances objetivas = tudo se passa como se a probabilidade a posteriori ou ex post de um acontecimento, que é conhecida a partir da experiéncia passada, comandasse a probabilidade a priori ou ex ante, a ela subjetivamente combinada - sem que os agentes procedam ao menor célculo ou mesmo a uma estimacao, mais ou menos consciente, das chances de sucesso. Pelo fato de que as disposices duravelmente inculcadas pelas condigGes objetivas (que a ciéncia apreende através das regularidades estatisticas como probabilidades objetivamente ligadas a um grupo ou a uma classe) engendram aspiragées e praticas objetivamente compativeis com as condigdes objetivas e, de uma certa maneira, pré-adaptadas as suas exigéncias abjetivas, os aconteciments mais improvaveis se encontram excluidos, antes de qualquer exame, a titulo do impensdvel, ou pelo prego de uma dupla negacao que leva a fazer da necessidade virtude, isto €, a recusar o recusado € a amar o inevitavel. As préprias condigées de pradugao do ethos, necessidade feita virtude, tazem com que as antecipagées que ele engendra tendam a ignorar a restrigho @ qual esta subordinada a validade de todo calcula das probabilidades, a saber, 16 que as condiges da experiéncia nao foram modificadas. Diferentemente das avaliagdes eruditas que se corrigem depois de cada experiéncia segundo rigorosas regras de célculo, as avaliagdes praticas conferem um peso desmesurado as primeiras experiéncias, na medida em que so as estruturas caracteristicas de um tipo determinado de condigées de existéncia que através da necessidade econdmica e social que elas fazem pesar sobre 0 universo relativamente auténomo das relagdes familiares, ou methor, no interior das manifestagdes propriamente familiares dessa necessidade externa (por exemplo, interditos, preocupagdes, ligGes de moral, confitos, gostos ete.), produzem as estruturas do habitus que esto, por sua vez, no principio da percepcdo € da apreciacdo de toda experiéncia ulterior. Assim, em razo do efeito da histerese que esta necessariamente implicado na légica da constituigéo do habitus, as praticas se expdem sempre a receber sancdes negativas, portanto um “reforgo secundaria negativo", quando o meio com a qual elas se defrontam realmente esta muito distante daquele ao qual elas esto objetivamente ajustadas. Compreendemos, na mesma ldgica, que os conflitos de geracéo opéem nao classes de idades separadas por propriedades de natureza, mas habitus que so produtos de diferentes modos de engendramento, isto é, de condicées de existéncia que, impondo defini¢es diferentes do impossivel, do possivel, do provavel ou do certo, fazem alguns sentirem como naturals ou razoavels praticas ou aspiragdes que outros sentem como impensaveis ou escandalosas, ¢ inversamente E preciso abandonar todas as teorias que tomam explicita ou implicitamente a pratica como uma reagao mecénica, diretamente determinada pelas condigées antecedentes e inteiramente redutivel ao funcionamento mec&nico de esquemas preestabelecidos, "modelos", "normas" ou *papéis" que deveriamos, aliés, supor que séo em ntimero infinito, como o so as configuragdes fortuitas dos estimulos capazes de desencadedtos. Um exemplo disso é a empresa grandiosa e desesperada desse etndlogo que armado de uma bela coragem positivista, registra 480 unidades elementares de comportamento, em vinte minutos de observagéo da atividade de sua mulher em sua cozinha®. Mas a recusa das teorias mecanicistas no implica, de modo algum como quer a altemativa inevitavel do objetivismo e do subjetivismo conceder a um livre-arbitrio criador o poder livre e arbitrario de, no 7 instante, constituir 0 sentido da situagéo ao projetar os fins que visam transformar esse sentido; nem, por outro lado, reduzir intengdes objetivas € significagdes constituidas de agdes e obras humanas a intencdes conscientes e deliberadas de seus autores. A pratica €, a0 mesmo tempo, necessaria € relativamente auténoma em relacéo a situacéo considerada em sua imediatidade pontual, porque ela é 0 produto da relacdo dialética entre uma situagao e um habitus - entendido como um sistema de disposigdes duraveis € transponiveis que, integrando todas as experiéncias passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepgées, de apreciagdes e de agdes - € torna possivel a realizag4o de tarefas infinitamente diferenciadas, gracas as transferéncias analégicas de esquemas, que permitem resolver os problemas da mesma forma, € aS correcdes incessantes dos resultados abtidos, dialeticamente produzidas por esses resultados. Principio gerador duravelmente armado de improvisagées regradas (principium importans ordinem ad actum, como diz a escolastica), o habitus produz praticas que, na medida em que elas tendem a reproduzir as regularidades imanentes as condigdes objetivas da producao de seu principio gerador, mas, ajustando-se as exigéncias inscritas a titulo de potencialidades objetivas na situacéo diretamente afrontada, no se deixam deduzir diretamente nem das condices objetivas, pontualmente definidas como soma de estimulos que podem aparecer como tendo-as desencadeado diretamente, nem das condigbes que produziram o principio duravel de sua produgdo: sé podemos, portanto, explicar essas praticas se colocarmos em rela¢do a estrutura objetiva que define as condigées sociais de produ¢éo do habitus (que engendrou essas praticas ) com as condigées do exercicio desse habitus, isto €, com a conjuntura que, salvo transformacao radical, representa um estado particular dessa estrutura. Se o habitus pode funcionar enquanto operadar que efetua praticamente a aco de colocar em relacdo esses dois sistemas de relaco na © pela produgao da pratica, é porque ele é historia feita natureza, isto é. negada enquanto tal porque realizada numa segunda natureza. Com efeito, 0 "inconsciente" ndo é mais que o esquecimento da histéria que @ propria histéria produz ao incorporar as estruturas objetivas que ela produz nessas quase naturezas que so os habitus: 18 “(..) Em. cada um de nés, em proporgdes variaveis, hd a homem de ontem; € 0 mesmo homem de ontem que, pela fora das coisas, esta predominante em nés, posta que o presente. nao é sendo pouca coisa comparado a esse longo pasado no curs do qual nos formamos de onde resultamos. Somente que, esse fomem do passado, nds no o sentimos, porque ele esta arraigado em nés; ele forma a parte inconsciente de nds mesmos Em consequéncia, somos levados a nao t&a em conta, tampouco as suas exigéncias legitimas. Ao contrério, as aquisicées mais recentes da civilizacdo, temos delas um vivo sentimento porque, sendo recentes, nao tiveram ainda tempo de se organizar no inconsciente.'** A amnésia da génese, que é um dos efeitos paradoxais da historia, € também encorajada (senéo implicada) pela apreens&o objetivista que, apreendendo o produto da historia como um opus operatum € colocando-se, de certo modo, diante do fafo consumado, néo pode sen&o invocar os mistérios da harmonia preestabelecida ou os prodigios da concertacao consciente para explicar o que, apreendido na pura sincronia, aparece como sentido objetivo, quer se trate da coeréncia interna de obras ou de instituicdes, tais como os mitos, ritos ou o corpo juridico, quer se trate da concertacéo objetiva que manifestam e que pressupdem ao mesmo tempo (na medida em que elas implicam a comunidade de repertérios) as praticas, concordantes ou mesmo confltuosas, dos membros do mesmo grupo au da mesma classe. Na verdade, os paralogismos do objetivisma so consequéncia da insuficiéncia de toda analise do duplo pracesso de interiorizagao de exteriorizacdo ou, mais precisamente, da produgao de habitus objetivamente afinados, portanto aptos € inclinados a produzir praticas e obras elas proprias objetivamente afinadas. Pelo fato de que a identidade das condicées de existéncia tende a produzir sistemas de disposigées semelhantes (pelo menos parcialmente), a homogeneidade (relativa) dos habitus que delas resulta est no principio de uma harmonizagao objetiva das praticas ¢ das obras, harmonizacdo esta propria a Ines conferir a regularidade e a objetividade que definem sua “racionalidade” especifica e que as fazem ser vividas como evidentes ou necessdrias, isto é, como imediatamente inteligivels e previsiveis, por todos os agentes dotados do dominio pratico do sistema de esquemas de acao e de 19 interpretaco objetivamente implicados na sua efetivacdo e por esses somente (quer dizer, por todos os membros do mesmo grupo ou da mesma classe, produtos de condiges objetivas idénticas que estéo destinadas a exercer simultaneamente um efetfo de universalizagdo e de particularizagdo, na medida em que elas s homageneizam os membros de um grupo distinguindo- 08 de todos os outros). Enquanto ignorarmos o verdadeiro principio dessa orquestragéo sem maestro que confere regularidade, unidade sistematicidade as praticas de um grupo ou de uma classe, e isto na auséncia de qualquer organiza¢ao esponténea ou imposta dos projetos individuals, nos condenamos ao attificialismo ingénuo que ndo reconhece outro principio unificador da ago ordinaria ou extraordinaria de um grupo ou de uma classe a nao ser 0 da concertagao consciente e meditada do compld. Assim, alguns podem negar, sem outras provas além de suas impressdes mundanas, a unidade da classe dirigente, acreditando tocar no fundo do problema quando desatiam os defensores da tese oposta a estabelecer a prova empirica de que 08 membros da classe dirigente tém uma politica explicita, expressamente imposta pela concertacdo explicita®, outros, que dao ao menos uma formulago explicita e sistematica a essa representacdo ingénua da aco coletiva, transpéem para a ordem do grupo a questo arquetipica da filosofia da consciéncia fazem da tomada de consciéncia uma espécie de cogito revolucionério, unico capaz de fazer aceder a classe a existéncia, constituindo- a.como “classe para si" ‘A harmonizaro objetiva dos habitus de grupo ou de classe é 0 que faz com que as praticas possam ser objetivamente afinadas na auséncia de qualquer interagao direta e, a fortiori, de qualquer concertacao explicita. “Imagine”, diz Leibniz, "dois reldgios perfeitamente acertados. Ora, isso pode ser feito de trés maneiras. A primeira consiste numa influéncia mutua; a segunda, em designar um trabalhador nabil que os ajuste € os coloque afinados a todo momento; a terceira, em fabricar esses dois péndulos com tanta arte © precisao que possamos certificar-nos de sua harmonia dali por diante."°” Retendo sistematicamente s6 a primeira hipétese ou, a rigor, a segunda - quando fazemos 0 partido au o lider carismatico representar 0 papel de Deus