Você está na página 1de 101

blimun

d

a
a

a

mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago

blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago
blimun d a mensal n. o 63 agosto 2017 fundação josé saramago

17

Flip: retrato de um tempo novo

38A Casa da Andréa Andréa Zamorano

63

Visitas guiadas Andreia Brites

84Saramaguiana

Sandra Santos

Porque eu sou do

tamanho do que vejo

Leituras Sara Figueiredo Costa

29A Flip da «literatura

menor»

Maíra Nassif

43As máscaras que

contam o México

Sara Figueiredo Costa

78And The winner Is Andreia Brites

99Agenda

12

Estante Sara Figueiredo Costa Andreia Brites

31Flip:

Lugar de Fala

Luiz Eduardo soares

56As vidas da

argentino

Ricardo Viel

«Gata Varela»,

estrela do tango

79

Espelho Meu

Andreia Brites

3

Editorial Obrigado, Paraty!

5

Talvez tenha sido Ana Martins Marques quem melhor resumiu o

espanto e a satisfação que todos sentimos com o acolhimento que

a Casa Amado e Saramago teve na FLIP (Festa Literária Interna-

cional de Paraty) deste ano. No sábado, dia 29 de julho, a escritora

brasileira lançou no espaço montado pela Fundação José Saramago

e pela Fundação Casa de Jorge Amado o seu livro «Como se fosse a

casa», escrito em parceria com o poeta Eduardo Jorge. Após ultra- passar as dezenas de pessoas que se concentravam na entrada da casa e desviar das que já estavam sentadas no chão, Ana Martins Marques finalmente chegou até a cadeira que ocuparia. Intriga- da, quis saber por que havia tanta gente ali. Estavam todos para

escutá-la e para a sessão de leituras de poesia que viria a seguir ao lançamento do seu livro. «Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo em Paraty pensei que viriam só uns seis amigos», disse com a sua

conhecida timidez.

Nos três dias em que a Casa Amado

e Saramago esteve aberta foi assim:

lotação completamente esgotada em todas as sessões, com pessoas sentadas nas cadeiras, no chão, na

escada ou de pé; e várias dezenas fora, tentando espreitar pela janela

e portas o que se passava lá dentro, ou simplesmente escutando, da

rua, a conversa que as colunas de som transmitiam para fora. Nem o mais otimista dos envolvidos nesse projeto podia imaginar que o público receberia com tanto interesse e carinho a nossa pro- gramação. Ao homenagear dois dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa, abrimos espaço para escritoras e escritores lusófonos contemporâneos. Também procurámos dar voz e vez

às mulheres e aos negros, que em outras edições da Flip estiveram sub-representados, e demos a conhecer a proposta de Declaração de Deveres Humanos em que há mais de dois anos a FJS vem traba- lhando. Voltamos de Paraty cheios de energia e de felicidade, com a sensação de que nosso trabalho tem relevância e público também do outro

lado do oceano. E agora, passada a ressaca da festa, já estamos a tra- balhar para que no próximo ano a nossa participação na FLIP não só se repita, mas se amplie. Resta-nos dizer muito obrigado, Paraty. E também agradecer, nominalmente, a todos que fizeram possível a realização de uma casa feita de livros e de amizade: Adelaide Ivanova, Afonso Borges, Ana Kiffer, Alberto Mussa, Anabela Mota Ribeiro, Ana Martins Marques, Ana Menegatti, Andrea Zamorano, Bárbara Bulhosa, Charles e

Obrigado, Paraty!

toda a sua equipa da Paratyshow, Clara Dias, Djaimilia Pereira de Almeida, Dja-

mila Ribeiro, Edimilson de Almeida Pe- reira, Fred Ferreira, Frederico Lourenço, Giovana Xavier, Janete Santos Ribeiro, Joana Gorjão Henriques, Joselia Aguiar, José António Pinto Ribeiro, José Eduardo Agua- lusa, José Luís Peixoto, Julia Bussius, Lilia Zambon, Lívia Nes- trovsk, Luiz Eduardo Soares, Luiz Schwarcz, Maíra Nassif, Maria Cristina Antonio Jerónimo, Marcello Magdaleno, Max Santos, Núbia Santos, Ondjaki, Paloma Amado, Prisca Agustoni, Schnei- der Carpegianni e Valéria Martins. E também à Companhia das Letras, ao Ministério de Cultura de Portugal, à Adega Mayor, e à organização da Flip.

3

Onde estamos Where to find us Rua dos Bacalhoeiros, Lisboa Tel: (351) 218 802 040 www.josesaramago.org info.pt@josesaramago.org COMO ChEGAR GETTInG hERE Metro Subway Terreiro do Paço (Linha azul Blue Line) Autocarros Buses 25E, 206, 210, 711, 728, 735,

746, 759, 774, 781, 782, 783, 794 Segunda a Sábado Monday to Saturday

781, 782, 783, 794 Segunda a Sábado Monday to Saturday 10 às 18h 10 am to

10 às 18h

10 am to 6 pm

FundAçãO jOSé SARAMAGO ThE jOSé SARAMAGO FOundATIOn CASA dOS BICOS

Blimunda 63

agosto 2017

diretor

Sérgio Machado Letria

edição e redação

andreia Brites ricardo Viel Sara Figueiredo Costa

reViSão

rita Pais

deSign

Jorge Silva/silvadesigners

reViSão rita Pais deSign Jorge Silva/silvadesigners Casa dos Bicos rua dos Bacalhoeiros, 10 1100-135 Lisboa –

Casa dos Bicos rua dos Bacalhoeiros, 10 1100-135 Lisboa – Portugal blimunda@josesaramago.org www.josesaramago.org n. registo na erC 126 238 os textos assinados são da responsabilidade dos respetivos autores. os conteúdos desta publicação podem ser reproduzidos ao abrigo da Licença Creative Commons

ANDRÉ CARRILHO

A MORTE COMO PRESTÍGIO

A escritora brasileira Elvira Vigna morreu no passado dia 10 de julho, vítima de cancro, e a imprensa brasileira não dei- xou de assinalar o facto. Num artigo pu- blicado na Revista Pessoa, Luciana Araujo Marques recorda a autora de Nada a Dizer, lembrando igualmente o modo tantas ve- zes cínico com que se recordam os mortos recentes nas páginas dos jornais, como se

a morte fizesse deles matéria mais válida

para se escrever sobre, sobretudo quando anteriormente os elogios pareciam parcos. «O que mais uma mulher de 69 anos, com

tantos livros publicados, precisaria fazer, que não fosse morrer, para ser destacada com as mesmas ênfases póstumas? Não que não tivesse reconhecimento, não que estivesse à margem, apartada de eventos e boa editora, não que não figurasse entre os finalistas de prêmios, mas o que se dá com

a morte não se compara. Antes, no mesmo

jornal da linha fina se lia: “Autora acerta

em linguagem

”,

avaliada em termos de

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA

acerto e erro; “Prosa chega a um novo

patamar

de um projeto todo, um “parece que agora vai”? Foi. Elvira Vigna morreu e ainda que pululem notícias sobre inéditos, ela já não escreve.» A fechar um texto que não es- conde a irritação perante o desprezo tantas vezes entregue de bandeja ao trabalho de quem não cumpre um de dois papéis no espaço literário – o de estar morto há tem- po suficiente para ser elogiado sem tréguas ou o de prestar provas regulares no car- rossel mediático – , a autora partilha uma história elucidativa: «Diante da estante de Literatura Brasileira de uma livraria pau- listana, no dia seguinte à morte de Elvira Vigna, ouço uma mulher perguntar para a vendedora: “vocês têm livro da Elvira Venha?”. A digitação falha, me intrometo:

“É Vigna. V. i. g. n. a.”. A moça quer aquele com nome difícil de dizer. Chuto: «Como se estivéssemos em palimpsesto de putas?». Não encontram o exemplar. Não estavam preparados para a procura, nunca se está preparado para o que surpreende mesmo debaixo do nariz. “Nunca tinha ouvido

”,

o que é este novo no interior

5

está preparado para o que surpreende mesmo debaixo do nariz. “Nunca tinha ouvido ”, o que

falar nela. Estão todos dizendo que ela é maravilhosa, que preciso ler”, a moça não se cansava de se espantar. Queria levar este espanto todo para suas férias. Fazer caber na mala, na bagagem do dia. Dizem que nunca é tarde para o tudo que veio antes, mas hoje lamento o que poderia ter sido. Para quem fica, Elvira, venha.»

uMA FLIP PARA

RECORdAR

A 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty marcou uma mudança notória na linha programática deste festival, como destaca a edição brasileira do jornal El País, num artigo de André de Oliveira. Ecoando as crí- ticas que se fizeram sentir nos últimos anos relativamente ao predomínio de escritores homens e brancos, e também de estrelas internacionais do panora- ma literário, a nova curadoria da FLIP, assumida por Joselia Aguiar. «Como a

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA

programação foi mais diversa, com o mesmo número de autores homens e mulheres, além da presença de 30% de escritores negros e negras, em muitos momentos as discussões tocaram, natu- ralmente, questões como preconceito, diversidade, representatividade. Por

mais de uma vez, o discurso de autores

e a reação da plateia também se voltou

contra o Governo de Michel Temer, que, segundo a última pesquisa Ibope é considerado bom ou ótimo por apenas 5% da população. “Fora, Temer”, assim, foi um grito ouvido em diferentes situa- ções – como, aliás, já havia ocorrido no

ano passado. As manifestações e a forte temática social levantaram críticas na Internet: o evento teria deixado de lado

a literatura, a arte, para ser apenas um

instrumento político.» As novas críti- cas, agora ao carácter social e político

da FLIP, foram prontamente recusadas pela curadora com uma visão mais

abrangente da literatura e do seu modo

de se relacionar com a sociedade: «(

é claro que a temática mais social iria

)

6

emergir naturalmente, pois as obras dos autores convidados refletem a experiên- cia que têm do mundo.» Já a pensar no próximo ano, o El País procura perceber se as mudanças desta FLIP vieram para ficar: «O desa- fio, a partir de agora, será manter nas próximas edições da Flip a diversidade que essa, inegavelmente, teve. Isso não parece incomodar Joselia, que encara tudo com tranquilidade. «Não é porque o Lima Barreto é negro que os autores chamados são negros», disse, ao ressal- tar, mais uma vez, que a programação não nasceu para dar uma resposta a uma demanda por mais diversidade, mas que usou da força dessa demanda para criar um evento que reflete melhor o vasto campo da produção literária. Depois de elogiar a curadoria, a escritora Con- ceição Evaristo – um dos destaques da programação – disse em sua mesa deste domingo: “Não foi uma concessão, esse lugar é nosso por direito”.»

OS dIÁRIOS dE PIGLIA

Na revista Eñe, David Pérez Vega lê os dois volumes dos diários do argentino Ricardo Piglia, refletindo sobre a escrita diarística e as armadilhas que se colocam aos leitores perante um discurso privado que ganha o espaço da página pública: «En algún momento, estaba pensando que se centra mucho en describir su relación con la literatura y con otros escritores, y ahora, que me he sentado a escribir sobre el libro, es- peculo con la posibilidad de que los Diarios estén expurgados, y que Piglia haya querido mostrar al lector principalmente la parte que le parecía relevante, la relacionada con sus reflexiones de escritor o interacciones con el mundillo literario argentino. El otro día (respecto a la escritura de esta reseña no a su publicación) lo comentaba en su muro de Facebook el escritor argentino Tomás Sánchez Bellocchio que andaba leyendo el primer volumen, que le parecía que la prosa era demasiado homogénea como para no pensar en un proceso de reescritura poste-

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA

rior.» E, mais adiante: «Aunque ya he apun- tado que las entradas escritas en Años de formación son sorprendentemente maduras para alguien que empieza a escribir su dia- rio a los dieciséis años, aunque algo disper- sas, sobre todo al principio, éstas se vuelven más coherentes y extensas en Los años felices. En la cita del párrafo anterior, parece que Piglia pretende hablar en sus cuadernos de una «educación sentimental», pero a la larga, más bien va a centrarse en una edu- cación literaria. Se hablará de mujeres, por ejemplo, pero durante la primera mitad del libro su relación con Julia, su pareja, ocupa muchas menos páginas que su relación con los amigos escritores. Después de la rutura con Julia, se registrarán con mayor minu- ciosidad sus relaciones con otras mujeres y las noches de deambular solo por la ciudad. De su familia hablará poco, pese a que du- rante estos años muere su padre, con el que nunca tuvo una buena relación. La literatu- ra, apunta Renzi, siempre ha sido una forma de ausentarse de la vida cotidiana.»

7

una buena relación. La literatu- ra, apunta Renzi, siempre ha sido una forma de ausentarse de

A OLARIA dE BARCELOS

Numa edição recente do Fugas, su- plemento do Público, Sérgio C. Andrade traça o roteiro dos barristas de Barcelos, revelando as características únicas da olaria tradicional daquela região portuguesa. «É esta invulgar capacidade de misturar o quotidiano mais rente com os insondáveis mistérios da vida, a festa com o luto, o riso com a morte, o sagrado com o profano, que faz a singularidade destes “oleiros prodigiosos”, generalizando a expressão com que Vergílio Alberto Vieira caracteri- zou a obra de Rosa Ramalho (1888-1977). Podemos admirar esse universo nas últi- mas ceias e nos coretos de músicos, nos presépios e nas chocas, nos Cristos e nas matrafonas, nos pombais e nos diabos, nas cabras e nas medusas… E podemos fazê- -lo, de uma só vez, numa visita ao MOB, que, pelas suas características e pelas cole- ções que possui, “é um caso único no país”, como testemunham ao Público a historia- dora de arte Isabel Fernandes, ex-respon-

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA

sável pelo museu, e António Gomes de Pinho, colecionador de arte, ex-presidente da Fundação de Serralves e atual presiden- te do conselho de administração da Funda- ção Arpad Szenes-Vieira da Silva.» Partin- do do Museu da Olaria de Barcelos, o texto percorre as olarias e o figurado de artesãos como Júlia Côta, Júlia Ramalho ou João Macedo Correia, evocando heranças mais antigas (como a de Rosa Ramalho, figura tutelar desta produção/criação barrista) e mostrando o acervo de um museu que não se resume às obras feitas em Barcelos, estendendo as suas coleções a outros luga- res do país.

8

um museu que não se resume às obras feitas em Barcelos, estendendo as suas coleções a

Não Digam Que Não Temos Nada Madeleine Thien Relógio d'Água Tradução de Ana Falcão Bastos

A MEMÓRIA ESCOndIdA dA ChInA

de Ana Falcão Bastos A MEMÓRIA ESCOndIdA dA ChInA LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA A

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA

A Revolução Cultural chinesa tem sido representada em diversos romances contemporâneos, pese embora o filtro censório que ameaça aquelas narrativas

que possam escapar do registo histórico cronologicamente mais recuado ou ar- riscar pontos de comparação com o pre- sente. O massacre que ocorreu na Praça de Tiananmen em 1989, por outro lado,

é tema proibido (que o diga Ma Jian e o

seu Beijing Comma, para citar um exem- plo literário, ou as muitas contas em redes sociais chinesas que se veem encerradas assim que referem o dia 4 de junho de 1989, ainda que de modo disfarçado), pelo que talvez o romance de Madeleime Thien, escrito em inglês, possa não conhecer tra- dução chinesa tão cedo. Não é Tiananmen

o tema central de Não Digam Que Não Te-

mos Nada, cujo título ecoa um dos versos de A Internacional, mas os acontecimentos da praça de Pequim atravessam este livro como um eixo, que vai ganhando espaço

9

à medida que a linha temporal se fecha. E

se há um tema central, será o da memória enquanto modo de resistir, olhar o mundo, viver. Marie Jian, a narradora, é uma criança canadiana, filha de pais chineses, quando as imagens de Tiananmen se espalham pelas televisões do mundo e quando o seu pai regressa à China, mais concretamente

a Hong Kong (nessa altura, ainda adminis- trado pela coroa inglesa), onde se suicida. Pouco tempo depois, Ai-Ming, filha de um amigo do seu pai, instala-se em casa de Marie Jian e da mãe, no Canadá, perce- bendo-se que terá sido ajudada a fugir da China. Procurando iluminar as causas de todos estes factos, ao mesmo tempo que procura as memórias familiares que pode- rão compor a sua identidade, Marie Jian recua aos tempos da Guerra Civil chinesa,

à chegada de Mao Tsé Tung ao poder e

à Revolução Cultural. E se a música é o

elemento que estrutura a narrativa no que

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA respeita ao passado, um misterioso livro manuscrito – o

LEITURAS DO MÊS SARA FIGUEIREDO COSTA

respeita ao passado, um misterioso livro manuscrito – o Livro de Registos – que terá circulado clandestinamente por várias mãos ao longo das últimas décadas é o ponto de contacto entre tempos e pessoas. «Mostrou-me a sua mala. No inte- rior do forro estavam escritos os nomes de todos os homens que tinham morrido e as datas das suas mortes. Estou convencido de que esse é o único registo rigoroso que existe. Ele disse-me que tinha um plano para fazer ainda outra coisa. Pegaria nos nomes dos mortos e escrevê-los-ia, um por um, no Livro de Registos, junto dos da Quatro de maio e de Da-wei. Povoaria esse mundo de ficção com nomes verdadeiros e atos verdadeiros. Eles continuariam a viver, tão perigosos como revolucionários, mas tão intangíveis como fantasmas.» (pg.168) O livro que recolhe histórias de músicos ambulantes e conversas de taber- na é o mesmo que acompanha as fugas de desertores da Guerra Civil, depois as de

dissidentes do comunismo, sempre com

o

olhar posto no quotidiano, nos amores

e

desilusões, no modo como a História

interfere tão intensamente na vida de cada um. Ligando muitos passados ao presente da narradora, será esse livro o pilar de um romance que equilibra a fragilidade de todas as demandas e a violência do tempo sobre quem por ele passa, sabendo sempre honrar o propósito de não transformar o passado em matéria estática e arrumada:

«No final, acredito que estas páginas e o Livro de Registos refletem a persistência deste desejo: conhecer a época em que vivemos. Registar o que deve ser registado

e

também, por fim, deixá-lo partir. Era o

que diria ao meu pai. Para ter fé de que, no

futuro, outra pessoa irá manter o registo.»

(pg.375)

10

e

s

t

SARA FIGUEIREDO COSTA

a

ANDREIA BRITES

n

t

e

e s t SARA FIGUEIREDO COSTA a ANDREIA BRITES n t e 33 Rotações Luca Argel

33 Rotações

Luca Argel

Averno

Primeiro livro publicado em Portugal do poeta e cantautor brasileiro Luca Argel, 33 Rotações reúne poemas escolhidos dos seus livros até agora publicados no Brasil: Esqueci de Fixar o Grafite (2012), Topadas no Escuro (2014) e Uma Pequena Festa por uma Eternidade (2016). Um dos poemas, intitulado «BAB SEBTA - Frederico Lobo, Pedro Pinho (2008)»: «trancar a porta queimar a foto/da chave./eletrificar o mediterrâneo dizer/que é uma nova modalidade de pesca./lembrar que o arame farpado/foi primeiro inventado para controlar o gado.»

12

farpado/foi primeiro inventado para controlar o gado.» 12 Rosinda Marco Taylor ed. autor Rosinda atrasa-se sempre.

Rosinda

Marco Taylor

ed. autor

Rosinda atrasa-se sempre. O seu tempo

é lento, compatível com a observação

demorada do mundo que parece sempre mais apressado e com urgência de

qualquer coisa. Se, todavia os outros se cansam de esperar, a dada altura isso é recompensador. Nesta narrativa visual,

o autor opta pelo laranja e combina-o

apenas com o branco e preto, tal como acontece noutros livros com outras cores. Os tons quentes transmitem um conforto sensorial associado às experiências da protagonista e conferem uma espécie de ironia vitoriosa ao seu desvio de comportamento.

e

s

t

a

n

t

e

e s t a n t e Seis Histórias Tradicionais Portuguesas José Viale Moutinho Fábula De

Seis Histórias Tradicionais

Portuguesas

José Viale Moutinho

Fábula

De um autor que há muito se dedica

à reescrita de contos tradicionais,

adivinhas e outras composições populares, a nova chancela da 20|20

edita um conjunto de narrativas que

integram o património oral português. Sem se deter em descrições paralelas

e interpelando o leitor amiúde, José

Viale Moutinho mantém-se fiel à economia narrativa e a um discurso oralizante que pauta o ritmo rápido de cada história.

oralizante que pauta o ritmo rápido de cada história. O Céu Que Nos Protege Paul Bowles

O Céu Que Nos Protege

Paul Bowles

Quetzal

Reedição do grande romance de Paul Bowles, publicado em 1954 e

parcialmente escrito no deserto, onde

a ação se desenrola. O percurso do

casal Kit e Port pelo Sahara é o gatilho que desencadeia uma reflexão dura

e magistral sobre o mundo moderno,

cruzando corrupção e ausência de julgamento num texto essencial do (e também sobre o) século XX.

13

num texto essencial do (e também sobre o) século XX. 13 El Arrecife de las Sirenas

El Arrecife de las Sirenas

Luna Miguel La Bella Varsovia

Nascida em Madrid, em 1990, Luna Miguel é uma das vozes sonoras da nova poesia espanhola, não apenas pelos livros publicados, mas igualmente pelo gosto de polemizar e pelo trabalho antológico que tem desenvolvido, escolhendo poemas de outros. Neste novo livro, os temas da doença e da morte voltam a surgir, agora contrabalançados por uma certa luminosidade e pela reflexão sobre o feminino e o feminismo.

e s t a n t e Aqui há gato! Rui Lopes e Renata Bueno

e

s

t

a

n

t

e

Aqui há gato!

Rui Lopes e Renata Bueno

Orfeu Negro

O que acontece quando uma lei

obriga toda a gente a fazer tudo

sempre da mesma maneira? A

certa altura, é inevitável mudar.

A

revolução aconteceu no reino

e

todos experimentaram tudo. A

história desenvolve-se em jeito de lengalenga com rimas aqui e ali e um compasso que dá mais dinâmica às excentricidades vivenciadas pelos animais, todos eles representados com códigos de barras a que foram

retirados os números. Entre diferenças

e semelhanças, haja liberdade.

 
 
 

Amar, Verbo Intransitivo

Benjamin

Mário de Andrade Maldoror

Chico Buarque Companhia das Letras

Originalmente publicado em 1927,

Nova edição portuguesa do segundo romance de Chico Buarque, originalmente publicado em 1995. Uma narrativa que tem a culpa como um dos eixos centrais e cuja composição se vai complexificando graças aos pontos de vista de diferentes personagens sobre a mesma situação, num caleidoscópio romanesco, por vezes lírico, e sempre surpreendente.

este livro marca a estreia de Mário de Andrade no romance. Com um trabalho de linguagem dedicado a reconstruir

a

gramática sob novas perspetivas

e

a tirar sentidos improváveis do

léxico, Mário de Andrade apresenta aqui alguns dos motivos para a sua aclamação como nome maior do Modernismo brasileiro. No ano seguinte apareceria Macunaíma (publicado em Portugal pela Antígona) e tudo haveria de confirmar-se.

14

Terça a sábado Abr a Set — 10h às 13h / 15h às 19h Out a Mar — 10h às 13h / 15h às 18h

Exposições

livraria

biblioteca

auditório

NASCI NA AZINHAGA

SENTIMENTALMENTE SOMOS HABITADOS POR UMA MEMÓRIA

às 18h Exposições livraria biblioteca auditório NASCI NA AZINHAGA SENTIMENTALMENTE SOMOS HABITADOS POR UMA MEMÓRIA

l l l l i i

eetratotratoratorato dddd

2626

26

aa 3030

a 30

ff

julho

julho

julho

 
 

Paraty

Paraty

BrasilBrasil

Brasil

 

Paraty,

i i umumumum temtemtete pp

17

Flip:Flip:

Flip: retrato de um tempo novo?

oo novo?novo?

flip

Entre os dias 26 e 30 de julho realizou-se em Paraty, cidade litoral do Estado do Rio de Janeiro, no Brasil,

a 15ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de

Paraty). Consolidado com o principal encontro literário do país, este ano a Flip teve como principal diferença uma curadoria que procurou dar mais espaço a grupos que em outros anos estiveram sub-representados. Foi

a Flip das mulheres e dos negros, ouviu-se dizer nas

estreitas e pedregosas ruas da cidade. Outra novidade na festa foi a presença Fundação José Saramago que, em parceria com a Fundação Casa de Jorge Amado, debutou no festival com uma casa que ofereceu uma programação própria. A seguir, uma crónica do visto e vivido durante aqueles dias em Paraty.

18 18 18

A Flip da escuta

Um consenso: foi a mais democrática e plural das edi- ções do encontro. As mulheres e os negros, finalmente, ti- veram vez e voz. Além disso, com a redução do tamanho do palco principal o evento foi vivido com mais intensi- dades nas ruas e praças da cidade, ao mesmo tempo que a programação paralela, oferecida por várias entidades (en- tre elas a FJS), atraiu ainda mais público e atenção do que nos anos anteriores. Em resumo, ao invés de um espaço grande e imponente, onde poucos falam e muitos escutam, a Flip este ano fez-se em muitos lugares mais intimistas, menos solenes, mais abertos à participação do público. Maior exemplo disso foi a intervenção de Diva Guimarães, uma professora negra de 77 anos que pediu a palavra du- rante a mesa em que participavam o ator e escritor Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques. Dona Diva, como ficou conhecida, fez um extenso relato das dificuldades e preconceitos que sofreu durante toda a vida e emocionou os presentes com as suas palavras. A sua fala foi o momento mais comentado da festa. Uma anóni- ma foi o centro das atenções, sinal de novos tempos.

flip

«Foi a Flip da escuta», resume Schneider Carpeggia- ni, editor do Suplemento Pernambuco, publicação literária brasileira que acaba de completar dez anos de vida. «Ficou demonstrado que é importante saber que há mais vozes em jogo, que talvez estejamos passando por um momento de deslizamento do cânone», completa o jornalista que há anos faz a cobertura do encontro. Acostumado a media- ções, Carpeggiani conta que viveu uma curiosa este ano. Convidado para participar numa conversa na Casa Amado e Saramago (CAS) foi interpelado pela presidenta da FJS, Pilar del Río. «Fui convidado para moderar uma mesa com as escritoras e feministas Adelaide Ivánova e Djaimilia Pe- reira de Almeida. Pouco antes de começar, Pilar olhou para mim e disse: mas é um homem que vai mediar essa mesa? Tomei um choque. Mas ela estava certa. Comentei com o público sobre isso e, reconhecendo a fragilidade do meu lugar e um certo desconforto, coloquei ali o meu lugar de fala. Expliquei o porquê também talvez pudesse mediar aquela conversa. E tudo saiu bem.» Para Schneider, a expe- riência vivida em Paraty é retrato de um «tempo novo», de «reorganização de lugares». «Vai ser confuso e barulhento, sim. Mas vale a pena.»

19 19 19

Paraty

Dona

Diva

Já na sessão de abertura, na noite da quarta-feira (26 de julho), viu-se (e ouviu-se) que este ano a Flip teria muitas vozes. No final do ato, a historiadora Lilia Schwarcz, au- tora da biografia Lima Barreto – triste visionário, e Lázaro Ramos foram até à praça realizar leituras de fragmentos de texto do autor homenageado. Foram recebidos com gritos de «Fora, Temer», e Lázaro Ramos endossou o protesto:

«Se Lima Barreto estivesse aqui ele também estaria gritan- do». Foi muito aplaudido. Vale lembrar que em maio de 2016, quando assumiu a Presidência do Brasil, Michel Te- mer formou um governo com 23 ministros. Nenhuma mu- lher e nenhum negro. Sinal de um tempo antigo que insiste em perdurar. Julia Bussius, editora da Companhia das Letras, definiu como incomum a Flip de 2017. «Com as mesas principais montadas no interior da Igreja da Matriz e o coração da festa deslocado para a praça central da cidade, foi bonito ver um público bem mais diverso e conhecer tantas vozes ainda pouco vistas no Brasil», conta. «Para além da pro- gramação oficial, a Flip fica a cada ano mais rica com as atividades paralelas, que acontecem nas várias casas da Pa-

flip

raty histórica. A Casa Amado e Saramago, em sua primeira edição, foi luminosa. Vê-la sempre cheia, com uma pro- gramação saborosa, ótimos encontros entre lusófonos de vários cantos do mundo, mostrou como ainda há espaço e vontade para ouvir e falar de literatura.»

A Flip dos leitores

Para Pilar del Río, presidenta da Fundação José Sara- mago, esta edição da Flip teve como principal diferencial

retirar o protagonismo dos autores e passá-lo aos leitores. Talvez porque o autor homenageado, Lima Barreto, era ne- gro, talvez porque pela primeira vez o número de mulheres participantes era maior do que o de homens, talvez pela sensibilidade da nova curadoria, ou simplesmente porque era chegada a hora, a Flip de 2017 foi cenário de uma in- vasão de leitores que intercambiavam idéias e livros, iam

e vinham de uma sessão para outra, e em todas tomavam

a palavra de tal forma que uma voz entre o público. Dona

Diva, acabou sendo o resumo de uma grande conversa e de todo um festival. Passados 15 anos do seu nascimento

23 23 23

a Festa Literária de Paraty encontrou o seu melhor eu, e

isso já não se perderá.» E a «imprevista» presença de José Saramago e de Jorge Amado na Flip foi, para a jornalista espanhola, uma urgência. «Eles tinham que tinha que estar presentes, e com eles tantos capitães de areia e gente levan- tada do chão, como descreveram e lhes fizeram justiça. José Saramago e Jorge Amado. Não podiam faltar e não falta- ram. Dito isso com orgulho e de todo o coração.» O português José Luis Peixoto é já um habitué do en- contro literário realizado no Brasil. Debutou em 2005, vol- tou em 2012 e este ano, a convite da FJS, esteve novamente em Paraty. «Ao longo dos anos, tive oportunidade de assis- tir ao grande crescimento da Festa Literária de Paraty. O

interesse do público, o ambiente que se gera em torno dos livros, da literatura e dos autores é a característica principal deste encontro que, na sua evolução, não tem perdido o carisma que lhe é reconhecido», comenta. Para o autor de Galveias, o mais relevante desta edição foi «a grande força» das programações paralelas. «A dinâmica das instituições

e a aceitação do público expandiu bastante as atividades a

que se pode assistir durante o período da FLIP. A própria

flip

cidade ganhou vários centros de dinamismo e todo o am- biente da festa ganhou com isso.» Peixoto aponta a Casa Amado e Saramago como exemplo deste novo cenário. «Todos os debates e atividades dessa programação tiveram casa cheia e extraordinária pertinência. A amizade entre

Amado e Saramago continua viva em iniciativas como esta,

a proximidade entre Brasil e Portugal trabalha-se assim.»

A Casa Amado e Saramago

Nas paredes, fotos de Jorge Amado e José Saramago e

xilogravuras de J. Borges, mestre da literatura de cordel. E durante três dias conversas sobre feminismo, direitos humanos, edição, tradução, racismo e, claro, literatura e

a relação entre Brasil e Portugal. E falou-se, também, so-

bre amizade, e principalmente sobre a amizade entre dois grandes nomes da literatura em língua portuguesa: Jorge Amado e José Saramago. Preparado especialmente para ser lançado durante a Flip, o livro de correspondência entre os escritores (Com o mar por meio – uma amizade em cartas, editado pela Companhia das Letras) foi uma das atracões

24 24 24

da festa deste ano, tendo figurado em terceiro lugar na lista dos mais vendidos. «Penso que além de muito importante, a casa foi uma iniciativa bela. Juntou, pelas letras e pelo nosso mar, dois grandes nomes da literatura em língua portuguesa. O re- sultado foi magnífico!» opina Ondjaki. Ao lado do músico brasileiro Marcello Magdaleno, o escritor angolano, Pré- mio José Saramago de 2013, foi o responsável pelo encer- ramento da programação da CAS com um concerto-per- formance em homenagem a Jorge Amado e José Saramago. Um dia antes, Lívia Nestrovski e Fred Ferreira haviam ofe- recido um recital de músicas brasileiras que também girou em torno da Bahia de Amado e de Portugal de Saramago. Um dos momentos importantes – e representativos desse novo tempo da Flip – na Casa Amado e Saramago foi a apresentação do catálogo das Intelectuais Negras Visíveis, um trabalho organizado pela professora Giovana Xavier e desenvolvido pelo Grupo de Estudos Intelectuais Negras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A rei- vindicação de espaço e visibilidade para as mulheres ne- gras na área da cultura, objetivo desse catálogo, foi assunto

flip

que permeou várias das mesas na programação principal da Flip. Numa delas, a escritora Conceição Evaristo falou sobre a importância da união de forças e inteligências para derrotar o patriarcado, o racismo e machismo – ou seja, o velho tempo que insiste em perdurar. «Esse momento significa a comprovação da força coletiva. Não estou aqui sozinha. E não podemos deixar de afirmar que não foi con- cessão. Este lugar é nosso por direito.»

Fotografias: Iberê Perissé/Flip pág. 20: Walter Craveiro

25 25 25

Joana

Gorjão

Henriques

Lázaro

Ramos

André

Mehmari

flip

A Flip da «literatura menor»

Maíra Nassif Editora da Relicário Edições

Em minha ocupação como editora, sempre que falo de livros, lançamentos e projetos diante do atual contexto do país sinto uma espécie de deslocamento, de constrangi- mento, de sensação de que estou em um mundo paralelo que não dialoga com nossa tragédia política e não a impli- ca de modo direto. Sei, ao mesmo tempo, que esse meu pensamento é uma grande bobagem, pois a dimensão da política não está ape- nas na tematização direta, em tomá-la como objeto e con- teúdo, mas também em salvaguardar e celebrar o próprio gesto da criação, da combinação e recombinação das lin- guagens, capazes de deslocar critérios, naturalizações, dis- cursos e hierarquias, e mesmo apresentar-se como gesto exemplar e metonímia de um novo mundo possível. Digo isso ao tentar pensar a Flip e o que ela significou sob um ponto de vista mais amplo, e não apenas de minha

vivência individual que por cinco dias tropeçou vertigino- samente nas pedras das ruas de Paraty. Tento pensar qual foi o seu alcance histórico e sua dimensão de mudança. Não sou ingênua a ponto de desconsiderar o caráter mercadoló- gico que ali está em jogo, e nem de achar que uma edição de cinco dias represente o todo da literatura contemporâ- nea nacional e internacional, e muito menos de achar que

o valor da literatura se mede pela lógica de sucesso ou fra- casso das performances dos autores, de suas vendas e do frisson momentâneo que podem causar. Entretanto, feitas

essas ressalvas, é inegável que a curadoria da Joselia Aguiar avançou em pontos essenciais, ao abrir espaço às vozes dis- sonantes, periféricas, fora do mainstream ou, em duas pala- vras: para a «literatura menor». O que não significa «pior», mas muito pelo contrário. A «minoridade» aparece aí como

o traço de variação, diferença, não identificação aos câno-

29 29 29

nes e ao modelo hegemônico. Esses «desvios» da ordem estiveram presentes em vários aspectos: na escolha do ho- menageado Lima Barreto, nas performances poéticas dos frutos estranhos, no convite a escritoras e escritores cuja forma literária foge aos convencionalismos, no convite a autoras e autores que fazem parte de grupos minoritários cujas vozes historicamente não tiveram o alcance devido apesar da qualidade de suas produções, etc. Penso na ideia de «literatura menor» como aquela que tem a capacidade de invenção de uma língua dentro da língua, que seja capaz de dizer o vetado que precisa ser dito, ou mesmo a realiza- ção do esgarçamento dessa língua maior, como um modo de dizer que esta não lhe cabe, não lhe serve e está velha. Há, em todos esses procedimentos, o fato da invenção, e a própria política adentrando o recinto pela revelação da não conciliação, da tensão e da contradição perpétua.

Ideologia, sempre

Fica claro, ainda, que a eleição de quem sai e de quem fica – nos cânones, nas festas e nas prateleiras – nunca foi

flip

algo desideologizado ou neutro. Se há desconfiança de que esta Flip teve um caráter ideológico e militante, porque não podemos pensar que as anteriores também o tiveram, só que sob o ponto de vista da manutenção de certos lugares? É engraçado ouvir resmungos de que agora o critério de curadoria passou a ser o gênero, a classe ou a cor. Mas não foi esse desde sempre o critério da história oficial, só que tendo como protagonistas apenas certos grupos? É como se apenas o desvio da ordem e a desobediência a ela fos- sem notados, e não a instauração da própria ordem como algo artificioso e historicamente determinado. Penso que a edição da Flip deste ano foi capaz de nos fazer ver como ideologia o que antes parecia natural. Penso, ainda, que a ficção foi, na verdade, o principal tema da Flip: a própria ficção dos nossos lugares histórico-sociais e a necessidade de que sejam reescritos

30 30 30

Lugar de Fala

Luiz Eduardo Soares Antropólogo e escritor

flip

Paraty é uma festa. A FLIP encanta sempre. Em 2017, a Fundação Saramago organizou uma programação paralela muito rica e diversa, acompanhando o espírito da curado- ria, que, pela primeira vez, investiu radicalmente na diver- sidade. Excelente escolha, sobretudo nesse momento bra- sileiro – e não só –, marcado pela implementação de uma agenda neo-liberal regressiva e devastadora. Na atual con- juntura, sairam do armário espectros ultra-conservadores, quando não fascistas, fortalecendo o obscurantismo, o ra- cismo, a homofobia, a misoginia. Impõe-se, portanto, re- sistir. A FLIP e a Fundação Saramago ergueram bem alto essa bandeira. A aposta necessária na diversidade traz consigo novas experiências, concepções e desafios. Um deles situa-se no conceito, crescentemente empregado, «lugar de fala». Tra- ta-se, a meu juízo, de um avanço momentâneo, no front político, mas, ao mesmo tempo, de um recuo ou, no míni- mo, de um compromisso com pressupostos conservadores que podem cobrar seu preço mais adiante contra os pró-

prios grupos que hoje reivindicam o conceito. Não se trata de desqualificar as elaborações e, sobretudo, as boas intenções subjacentes, das quais não duvido e com as quais me identifico. O que escrevo a seguir tem o propó- sito de ajudar a fortalecer os argumentos favoráveis seja ao respeito à alteridade, seja ao reconhecimento e à valorização dos estigmatizados, oprimidos e vulneráveis. Venho aqui co- locar em tela de juízo a noção de «lugar de fala». Quando se critica a ousadia tipicamente autoritária, condescendente e «colonial» de falar «em nome de» – e esta crítica, claro, faz todo sentido, tanto ética quanto politicamente –, corre- -se o risco, entretanto, de sugerir que haja um falar em nome próprio ou em próprio nome, o que por sua vez supõe que haja um lugar justo, correto, exato de fala. Lugar de fala no qual, supostamente, ajustar-se-iam, ou corresponderiam um ao outro, a fala e seu lugar, a palavra e a voz que a enun- cia. A voz, nesse paradigma essencialista, é concebida como fonte da enunciação, uma espécie de ancoragem ontológica, ponto obscuro e fugidio em que o sujeito se encaixa em si,

31 31 31

Conceição

Evaristo

Pilar del Río

Álvaro

Tukano

sobrepõem-se a si, encontra-se consigo mesmo, tornando- -se a encarnação perfeita de si mesmo, elidindo a represen- tação pelo paradoxal movimento de confirmá-la e dotá-la de unidade com o representado, chancelando-a –abolindo a alteridade constitutiva do sujeito. Assumindo seu «lugar» de fala, na cartilha cartográfica e micro-política, na gramá- tica dessa curiosa moralidade substantivista, o representado representa-se a si mesmo e, neste sentido, prescinde da re- presentação como diferença instituinte.

A Identidade é conservadora

De minha parte, prefiro pensar que não há como escapar à alteridade constitutiva do sujeito, sujeito enten- dido como o intervalo em movimento que inscreve tem- po e diferença na produção de sentido e desejo. Por isso, como dizia Lacan, sou sempre Outro para mim mesmo e não estou ali onde me constituo como sujeito, de onde pro- vém minha fala. Assim, não há lugar de fala, apenas rasu- ras e deslocamentos, errâncias e afastamentos de pontos de fixação, os quais, como ancoragens que apaziguam, são miragens substancializantes que intoxicam e entorpecem, mas não resolvem, a angústia do ser que somos nos atos de fala e desejo. Identidade é uma ânsia conservadora que se

flip

compraz em projetar sobre o presente – para ilusoriamen- te garantir um futuro previsível, controlável – a descrição disponível do passado. Seríamos, assim, o que supomos ter sido, reassegurando-nos de que não perderemos o eixo que liga o passado ao futuro. A carteira de identidade, a respon- sabilidade civil e os laços contratados de amor, convívio e trabalho, atestam a existência fantasmática de um presen- te eternizado, que exorciza metamorfoses ou, como diria Elias Canetti, inibe a emergência do poeta, ou, como talvez dissesse o genial Robert Louis Stevenson, do criminoso. Apesar da instabilidade permanente a que estamos condenados, acredito que haja aproximações e distancia- mentos, um gradiente de rechaços e imersões – o exemplo extremo do que denomino imersão talvez fosse a partici- pação de que trata Lévy-Bruhl – nos ambientes empáticos que chamamos experiência. Em outras palavras, negros em sociedades racistas como a nossa, migrantes em sociedades nacionalistas e xenófobas, mulheres em sociedades machis- tas como a nossa têm mais probabilidade de desenvolver sensibilidades específicas e percepções agudas e comple- xas sobre a vida humana de negros, migrantes e mulheres, respetivamente, mais conhecimento, sob esses regimes de violência prática e simbólica, do que homens brancos bra- sileiros ou europeus, por exemplo.

35

35

35

Esta conclusão me levaria a adotar como primeiro critério (na ausência de outras informações) de seleção de livros a ler, quando os temas fossem os acima referidos, fil- mes a ver, depoimentos a ouvir, testemunhos a acompanhar, aqueles produzidos por autores negros, migrantes e mulhe- res. Pelo mesmo motivo, convidaria, em primeiro lugar, pes- soas com essas características biográficas se estivesse orga- nizando um encontro para dialogar sobre tais questões. O critério, a meu juízo, não deveria ser um imperativo, uma norma, moral ou política, tampouco deveria ser exclusivo, determinante ou definitivo. Em outras palavras, não creio que seja um encaminhamento enriquecedor, de um ponto de vista, digamos, libertário – pelo menos quanto à teoria do sujeito –, recorrer ao vocabulário do «lugar de fala», muito menos se este vocabulário estiver a serviço de uma ortope- dia do comportamento, de uma política disciplinar, de uma moralidade da culpa, da punição e do ressentimento. Os dis- cursos e atos de fala reivindicarão seu valor, quaisquer que sejam os critérios que definam este valor (os quais poderão inclusive ser estabelecidos pelos próprios atos e discursos), no fragor de sua existência, isto é, a posteriori, como diria Richard Rorty, ante comunidades de fala e sentido, sempre abertas a disputas. Comunidades subvertidas e fortalecidas, desconstituídas e ampliadas, nesse mesmo processo.

flip

O Populismo à espreita

Por outro lado, num corte mais superficial da proble- mática, vejamos como se formulava esse debate na histó- ria política convencional do século XX: um operário pode melhor que outro ator social expressar o interesse de sua classe apenas se reduzirmos a noção de interesse à sua ver- são pragmático-corporativa, típica, como diria o melhor da tradição marxista, do anarco-sindicalismo. O interesse, numa perspetiva histórica, exigiria, para elaborar-se, me- diações conceituais que não emanam da experiência ou da identidade objetiva, digamos assim, com a classe operária. Pode-se, é claro, neste ponto, criticar esta tradição por in- telectualismo vanguardista, elitista e autoritário, o que faria todo sentido. Contudo, como fazê-lo sem cair no populis- mo narodniki e em suas mazelas, teóricas e políticas? Vale consultar a obra magnífica de Franco Venturi, Il Populismo Russo. Complementarmente, lembremo-nos de Rousseau quando definia bem comum, opondo-o aos interesses in- dividuais ou privados. Para estabelecê-lo, dever-se-ia votar, porque nenhuma entidade ex-machina, nenhum demiur- go seria capaz de determiná-lo. Entretanto, o bem comum tampouco poderia ser confundido com a mera soma dos

36 36 36

interesses privados. Por isso, a cada cidadão exigir-se-ia que votasse, apresentando seu ponto de vista sobre qual seria o bem comum, em cada caso, ou melhor, qual, entre as opções em jogo quanto a cada tema, melhor expressa- ria o bem comum. Esse bem comum poderia ser rebatido sobre a épura da coletividade mais ampla, a sociedade, ou sobre comunidades específicas, indagando-se a si mesma sobre as relações entre o bem comum de comunidades e o interesse geral. Rousseau chamava vontade geral a resposta coletiva à pergunta sobre o interesse geral.

Ninguém é dono do discurso

Vale a pena explorar o diálogo entre as aporias do mul- ticulturalismo contemporâneo, o retrocesso implicitamen- te essencialista do relativismo (neo-herderiano) e os de- safios enfrentados por algumas tradições do pensamento político. Nada resolvido, muito a pensar. Sobretudo, para mim, fica a lição: vale a pena privilegiar a dúvida sobre a certeza e recusar todo dogmatismo. Desse modo, pelo me- nos o diálogo sempre prossegue, adiando o obscurantismo, a violência, a morte. Eis, em suma, meu ponto de vista: o enunciado não carrega a verdade do sujeito ou de sua ex-

flip

periência. A relação do enunciado ou da fala com o que se chama realidade (ou sua realidade, seu lugar) é problemáti- ca e mediada, muito mais construção, prática e discursiva, do que representação. Ninguém é dono de discurso algum, de lugar nenhum ou da própria pretensão de verdade ou de autenticidade. Esse é um campo de articulação e disputa, a questão é saber, em cada caso, o que está sendo disputado, qual o objeto de desejo. A propriedade privada é um mal até mesmo no domínio do discurso. Não porque a coletividade deva reinar sobre a individualidade, mas porque essa individualidade é fratura- da: o Outro está fora e dentro de nós, a consciência não co- nhece nem controla o sujeito, e a experiência dita real não é transparente, nem mesmo ao sujeito, uma vez que a lingua- gem, sem a qual não há experiência dotada de sentido, não tem centro nem espelha o referente. Por isso, se o processo democrático avançar e se radicalizar, como desejo, a legiti- midade discursiva será conferida menos a priori, a depender de quem o enuncie, e mais a posteriori, a depender das ava- liações que o discurso conquiste e mereça. De todo modo, não esperemos apaziguamento nessa matéria: o terreno das interpretações é sempre polissêmico, polifônico, polêmico e atravessado por contradições, como nós mesmos e a política.

37 37 37

A

CASA

DA

ANDRÉA

O PAnO dO KALAF

ANDRÉA

ZAMORANO

38 38

A CASA DA ANDRÉA

Tudo havia dado mais do que certo na minha primeira participação na Flip. Naqueles cinco dias em Paraty, fui cinegrafista, porteira, garçonete e até escritora na Casa Amado e Saramago. Transmiti “lives” para as redes sociais, controlei a porta quando as filas passavam das duas horas de espera – devo dizer que o povo se cansava contudo não se impacientava – servi vinho para os que estiveram no concerto de encerramento, partilhei o palco com José Eduardo Agualusa na minha vez de ser autora e também dei autógrafos. Ri-me com as suas leitoras que, a seguir à nossa mesa, se confessavam maravilhadas pela forma simples como eu o tratava: “Zé”. Admiravam-se pela descoberta da dimensão doméstica de um escritor. Invadida pela sensação do dever bem cumprido, o meu contentamento era tanto que equi- vocadamente acreditei estar imune às amplitudes térmicas que se fazem sentir do dia para a noite naquelas terras do litoral fluminense. Afinal de contas, podia até não parecer, mas era inverno no estado do Rio de Janeiro. Habituada às agruras da Europa, decidi que não seria uma aragenzinha húmida de beira de praia que me faria perder a última noite da Flip. Segui em frente me equili- brando nas pedras carroçudas em forma de amendoim com rapadura. Foi quando reparei no gesto de Kalaf. Inadvertido quanto à minha frialdade, ele abria a sua

39

A CASA DA ANDRÉA

bolsa e retirava lá de dentro um cachecol. Lépida, antes que completasse o movimento de o pôr no pescoço, subtraí o cachecol das suas mãos. Passei a tira larga de tecido pelas costas sem cons- trangimento, tratando-a então por écharpe. Kalaf balançou os ombros face às inevitabilidades do furto e do novo nome. Quando na manhã seguinte nos encontrámos, já a caminho de regresso para o Rio de Janei- ro, avisei-o que trazia a écharpe que ele havia sido forçado a me emprestar. Ele agradeceu e lamen- tou “desconseguir” me oferecer o cachecol por ter sido presente de pessoa de família. Garanti-lhe não ser preciso, apesar da beleza do tecido. A conversa entabulou nas horas paradas no trânsito, por fim chegámos à cidade. No entanto, só muito depois do túnel Rebouças, lá em Brás de Pina, subúrbio carioca da Leopoldina, dei conta que Kalaf havia saído sem a écharpe. Preocupada, visto ser peça de estima do autor, decidi deixá-la no porta-luvas do carro da minha mãe – meu carro por aqueles dias – não fosse ter a sorte de me cruzar com o escritor na cidade. Não aconteceu. Entre lançamentos do meu romance, entrevistas, visitas a parentada e al- gumas noites de samba com os amigos, acabei descobrindo que a única escola do grupo especial

40

A CASA DA ANDRÉA

do Rio de Janeiro comandada por uma presidenta vai apresentar um enredo sobre mulheres no próximo carnaval – bravo Salgueiro! E nunca mais me lembrei da écharpe, confesso. Saí da Tijuca para Petrópolis, a cidade imperial – também dava um bom título de enredo – mais entrevistas, lançamento e, pasmem, uma menção congratulatória na câmara dos vereadores. Voltei para o Rio cheia de um orgulho de criança escolhida pela professora para distribuir a prova para os colegas. A caminho do Santos Dummont, por fim me lembrei da écharpe compartimentada no pai- nel do carro. Enfiei-a dentro da manga do casaco que levava no braço. Ia para o sul, o frio já me havia enganado uma vez. Na minha chegada, encontrei-me com o futuro no aeroporto, uma me- nina ativista negra que recita poesia de intervenção aos seis anos de idade. Anaya foi levada pela sua avó, a contista Dukarmo. Conhecemo-nos em Paraty, estávamos em Porto Alegre, tal como a écharpe de Kalaf. A amizade não precisa mais do que corações abertos. Despedimo-nos com troca de livros, abraços apertados, uma foto em conjunto e a promessa de voltarmos a nos encontrar. Parti com o motorista para quase trezentos quilómetros de estrada até à Universidade Federal de Santa Maria. Pus uma garrafa de água e a écharpe de Kalaf no banco traseiro.

41

A CASA DA ANDRÉA

A meio da viagem fomos colhidos por uma tempestade. Levamos mais de seis horas para

chegar ao hotel. O motorista descarregou as bagagens e fui de imediato para o quarto onde entrei em pânico ao me aperceber que a écharpe havia ficado esquecida no carro. Esperei até chegar na universidade, na manhã seguinte, para conseguir enviar uma mensagem ao motorista que argu- mentava convicto que a única coisa que havia no carro era uma garrafa da água e um pano. A felicidade que senti naquela tradução. Não era nem cachecol, muito menos a pretensiosa palavra que eu usava –écharpe. Tratava-se de um pano de linho com uns sessenta centímetros de largura, bem vistas as coisas, apenas um pano.

Já passamos por Londrina e estamos em São Paulo, mais uns minutos e estaremos precisa-

mente na Casa das Rosas, o local simbólico marco da minha jornada. Mas o pano não vai não. Fica aqui em casa do meu tio. Apesar da descomplificação nominal, ficou a responsabilidade. Na próxima segunda-feira, regressamos a Lisboa – eu e o pano do Kalaf – sigo para Algarve com recém-renomeado que pano vive no fundo da minha mala à espera do dia que regressará ao seu dono. Quem sabe na volta

42

m iico e x

as máscaras que o contam

i

Sara

Figueiredo

Costa

Fotografias

José

Frade

43

as máscaras que contam o méxico

Quando o Carnaval chegou ao México, algures no século XVIII, há muito que as máscaras desempenhavam funções de relevo nos rituais dos povos que habitavam o território. Sob o domínio espanhol, chegou essa nova festa, originalmente pagã, mas agora definida pela doutrina cristã como um período onde certos excessos eram aceites como válvula de escape social que antecedia o rigor da Quaresma.

44 44 44

A exposição Do Carnaval à Luta Livre: máscaras e de- voções mexicanas, patente no Palácio Pimenta/Museu de Lisboa até ao próximo dia 1 de outubro, percorre as festivi- dades tradicionais mexicanas, mostrando como se cruzam as efemérides cristãs e as narrativas muito anteriores à che- gada dos espanhóis, as celebrações cosmogónicas e de luta entre o bem e o mal e os rituais que importavam (histórias europeias, lutas entre cristãos e mouros, santos que vencem demónios, fariseus invadindo praças) para um contexto to- talmente novo. No percurso, a exposição comissariada por Anthony Shelton e Nicola Levell, e inserida na programa- ção de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, inclui a lucha libre, mistura de desporto e representação, elemento fundamental na cultura mexicana contempo- rânea. Neste desporto nacional, os lutadores (homens e mulheres) caracterizam-se pelas máscaras que usam, assu- mindo a identidade que estas lhes conferem e encarnando, assim, personagens que serão também elas protagonistas de narrativas com uma vertente dramática e, muitas vezes, associada à velha disputa entre o bem e o mal. Na primeira sala da exposição, três fileiras de másca- ras oriundas dos carnavais de Tlaxcala e Puebla mostram

as máscaras que contam o méxico

dois dos personagens centrais da festa nestas localidades:

catrines, os dandies europeus, e vaqueros ou charros, os fazendeiros locais. As máscaras constroem-se em madeira ou resina, algumas incorporando olhos de vidro e pestanas falsas que emprestam aos seus utilizadores uma fisionomia hiper-realista. Na parede, um filme mostra imagens de des- files carnavalescos recentes e as máscaras alinhadas frente ao espelho da sala ganham vida nos rostos dos participan- tes. No teto, uma série de guarda-chuvas pretos lembra a coincidência de calendário entre o carnaval e a estação das chuvas, essencial para a renovação dos campos e a produ- ção agrícola que garante a sobrevivência da comunidade. Celebrações ancestrais da cultura mexicana e a influên- cia das narrativas histórico-religiosas levadas pelos coloni- zadores espanhóis marcam a segunda sala da exposição. As danças e encenações de carácter didático introduzidas pelos missionários franciscanos e jesuítas como forma de impor o cristianismo e as suas narrativas cruzaram-se com rituais muito anteriores à presença espanhola, criando ce- rimónias onde a assimilação parece pesar muito mais do que o antagonismo entre culturas. Apesar disso, notam-se as marcas ancestrais nos rostos esculpidos de demónios e

45 45 45

as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico
as máscaras que contam o méxico

seres das profundezas, nos caimões de dentes ameaçadores, nas máscaras da morte – estas últimas muito associadas ao imaginário europeu sobre o México, dada a importância do Dia dos Mortos, são muito mais raras do que podería- mos imaginar. Na procissão carnavalesca de San Bartolo- mé de Águas Calientes, os demónios surgem em máscaras sumptuosas, de um vermelho vivo que predomina sobre a restante decoração, e fazem-se acompanhar de um chicote que vai estalando no chão e afastando os transeuntes. Do Carnaval à Semana Santa, as máscaras continuam a ser presença importante nas celebrações comunitárias. O enforcamento de um judas em plena praça pública surge enquadrado por uma parafernália de seres demoníacos, mas também de fariseus e romanos, e até de máscaras onde se reconhecem os rostos de figuras como Barack Obama e Donald Trump, como se vê num dos filmes que vai sendo exibido nesta sala. A tradição confirma a sua força na atu- alização constante levada a cabo pelas comunidades, que vão inserindo nos momentos celebratórios as imagens e referências significantes do seu dia a dia e da sua mundivi- dência, independentemente da cronologia que lhes subjaz.

as máscaras que contam o méxico

No século XVI, as primeiras encenações de batalhas entre espanhóis e mouros transportaram o imaginário me- dieval europeu para o centro do México e aí ganharam no-

vas raízes, permanecendo até hoje. A narrativa destes com- bates colocava os espanhóis no papel de heróis e inegáveis vencedores, relegando aos mouros o papel de derrotados

e impondo uma analogia óbvia entre estes e os indígenas

do território mexicano. A analogia permaneceu como sub- -texto de humilhação e reforço de uma autoridade que não admitia contestação, mas a verdade é que em algumas re-

giões de Jalisco e do Vale de Oaxaca as encenações festivas destas batalhas decorrem com um final alternativo, aquele em que os mouros vencem sempre os espanhóis. Na década de sessenta do século passado, o turismo chegou em força ao México. Nas aldeias de Guerrero, onde

a madeira era matéria prima abundante e o seu trabalho

um ofício frequente, começaram a esculpir-se máscaras para vender aos turistas. De tal modo, como se lê num dos textos de sala, que a primeira grande investigação sobre máscaras mexicanas, da autoria de Donald Cordry (Me- xican Masks, 1980), não conseguiu separar máscaras mais

52 52 52

as máscaras que contam o méxico Xis
as máscaras que contam o méxico
Xis
as máscaras que contam o méxico Xis
as máscaras que contam o méxico
Xis

antigas e cerimoniais das modernas invenções dos artesãos dedicados ao turismo. Na terceira sala mostram-se, então, máscaras de temática muito variada, revelando a influência de temas tradicionais mas igualmente a criatividade mo- derna de quem se foi dedicando a esculpir novos objetos. Sereias, tritões e animais mitológicos juntam-se a persona- gens barbudas, lagartos coloridos e representações de pe- cados ou virtudes. A sala que fecha a exposição é dedicada à lucha libre, confirmando a sua imensa importância social e cultural no México contemporâneo. A parede ocupada por dezenas de máscaras ilustra a quantidade de informação que é possível integrar num pedaço de tecido destinado a cobrir o rosto dos lutadores. Chifres, elementos aztecas, cores garridas ou letras permitem identificar cada um dos personagens em confronto na arena, identificando a sua personalida- de e modo de lutar. A rodear estas máscaras, as fotogra- fias de Lourdes Grobet mostram alguns lutadores, com o rosto devidamente coberto pela sua máscara, em contex- to familiar, longe da arena e do barulho da multidão que costuma assistir aos combates. Há pais e mães de família,

as máscaras que contam o méxico

rodeados pelos filhos pequenos, atletas de músculos cheios em sofás acetinados, lutadores temidos abraçando familia- res próximos em salas onde se percebe a intimidade e o ambiente aconchegante. O contraste com os cartazes dos muitos filmes (e livros de banda desenhada) dedicados à lucha libre, com a figura de El Santo a destacar-se entre os mais famosos, é notório, e onde os filmes encenam uma violência heroica no enfrentamento de bandidos reais ou mitológicos, as imagens de Lourdes Grobet são a acalmia onde a máscara é apenas um modo de não revelar o rosto, e já não o símbolo de um modo de luta. No meio, a arena vazia acolhe quem queira ver alguns dos filmes que se exi- bem num grande écrã, mostrando que o amadorismo e os parcos recursos da sua produção – onde há vampiros com dentes de plástico, explosões sem aparato e perseguições na estrada onde os carros parecem imóveis – não impedi- ram o género de conquistar seguidores fiéis. Pode ser que muitos já não se lembrem de pedir chuva na altura da se- menteira, ou de exorcizar demónios ao ritmo das estações, mas as máscaras continuam a cumprir as suas funções nas estruturas comunitárias e sociais mexicanas.

55

55

55

Ricardo

Viel

56

As vidas da «Gata» Varela, es- trela do tango ar- gentino

Ricardo Viel 5 6 As vidas da «Gata» Varela, es- trela do tango ar- gentino
Ricardo Viel 5 6 As vidas da «Gata» Varela, es- trela do tango ar- gentino
Ricardo Viel 5 6 As vidas da «Gata» Varela, es- trela do tango ar- gentino
Ricardo Viel 5 6 As vidas da «Gata» Varela, es- trela do tango ar- gentino

«Minha primeira vida foi como fono- audióloga, entre atendimento em con- sultórios e viagens pelo mundo todo para acompanhar o meu ex-marido, um jogador de tênis. Depois me sepa- rei e comecei a cantar, e o resto você já sabe», conta Adriana Varela, vestido vermelho, sapato de salto alto brilhan- te, sentada tranquilamente num sofá minutos antes de entrar a cantar no palco montado no jardim do Palácio Pi- menta, em Lisboa. A argentina era uma das atrações do festival «Soy loco por ti América», programa das festas da cidade e da capital ibero-americana de Cultura. A história da segunda vida de Adriana Varela começa numa noi- te do início dos anos 90 em que Roberto Goyeneche, uma lenda do tango, a escu- ta cantar num pequeno bar de Buenos

adriana varela

Aires. Encantado pela voz e atitude da cantora no palco, «El Polaco», como era conhecido, decide apadrinhá-la. E assim termina a vida de Beatriz Adria- na Lichinchi, fonoaudióloga e ex-espo- sa de um jogador de tênis famoso, e nasce para o mundo da música Adria- na Varela. «O resto» a que faz referên- cia nesta entrevista à Blimunda, é uma carreira de mais de 25 anos de êxito, prémios, apresentações nos principais teatros do mundo, e uma coleção de fãs que inclui nomes como Vázquez Montalbán, Caetano Veloso e Joaquín Sabina. E ainda assim, parece que a fama não subiu à cabeça dessa mina, como se auto-intitula usando a gíria argentina, nascida em 1952. Também é conhecida como «La gata» Varela, e pelo que se sabe, assim como os feli- nos, também tem mais de uma vida.

57

585858

Costumas pensar em como teria sido a sua vida se não tivesse sido descoberta por Roberto Goyeneche?

Não penso nisso, penso demais, mas não nessas coisas. Penso muito em coisas existenciais, nos filhos, coisas que têm que ver com o humano e o cotidiano, mas em mim, como profissional, não costumo pensar.

Quando vejo os elogios que lhe fazem penso: como fazer pra manter os pés no chão quando Sabina, Serrat e tantos outros se ajoelham diante de si?

Caetano também (risos). Não me dou conta, não cai

a ficha. Bom, aproveito tudo, parece-me mentira quando acontece pela primeira vez. São pessoas que eu escutava antes de cantar, gente que significa muito para mim, e de

Mas de-

pois isso passa, depois eu sou só uma mina que vai pela vida, que toma um táxi etc.

repente propõe-me algo, querem gravar comigo

E que vai parar num livro de Vászquez Montalban.

Bom, isso sim me emocionou. Mas ao invés de eu sen- tir-me «creída», eu virei amiga do Manolo. Então imedia- tamente veio a paridade. Eu o amei muito, era uma relação

adriana varela

humana, e isso é um mecanismo de defesa contra a fama muito eficaz.

Talvez se isso tivesse acontecido quando você tinha 15 anos seria distinto.

Seguramente, seguramente. Além disso eu venho da dureza da medicina, daquilo que é o contrário à loucura. Algo demasiado racional, eu tive que ficar um pouco louca para fazer isso e sentia o murmúrio das pessoas que diziam «está louca, separou-se, como vai cantar tango se nunca gostou?» E no entanto eu não liguei para isso, fiquei louca, louca tranquila, mas não dei ouvido.

Como foi isso? Se que você gostava de rock, ouvia Beatles e cantava rock em castelhano, e começa a cantar tango em alguns lugares até que um dia o Goyeneche está por lá, escuta você cantar

Exatamente, no Café Homero, um lugar pequeno mas onde ia toda a elite europeia. Eu contava outro dia a uma pessoa que uma vez encontrei o Omar Sharif lá, porque ele era fã do Polaco Goyeneche, e depois fiquei sabendo que ele comprou uma égua na Argentina e lhe deu o nome de La Varela, imagina!

59 59 59

Sentes saudade daquela época do começo?

Não, isso já passou, eles já não estão. Eu conheci os melhores e eles me abraçaram, como se eu fosse uma fi- lha ou neta. Diziam-me coisas muito bonitas, eram mui- to engraçados. Diziam: você vem da universidade, o que faz aqui? E me contavam sobre aquela Buenos Aires que

adriana varela

que no tango a mulher é a projeção da mãe. E nós não podemos ser as mães, somos a mulher. Volta para a sua mãe, eu não sou a sua mãe! (risos)

O fado hoje está na moda de novo, gente jovem canta e

escuta. Como vai o tango?

não conheci, e eu aproveitei isso. O que resta é recordar,

Igual que o fado. Os meus filhos, que são fãs do rock

é

contar histórias, que é o mesmo que estar ali com eles.

argentino dos anos 80, escutam tango também, porque

E

render homenagem.

não têm preconceitos. E também escutam fado, por isso

O mundo do tango é bastante machista, não é?

sei que o fado também deu essa volta. Acho que, mais do que com a moda, isso tem a ver com a identidade.

 

O mundo é machista. Acho que o tango tem uma

Acho que é um fenômeno global. As pessoas necessitam

coisa interessante que é não dissimular o machismo, não

pertencer, a identidade é algo que se procura na cultura.

ocultar. Vamos extrapolar o exemplo: se um homem

mata uma mulher num tango, numa poesia, mata fora porque não pode matá-la dentro. Então o que eu digo é que, tendo conhecido os homens do tango, os heróis, os

o

Não é algo dado, é preciso procurar. Está ali, mas não te contam. Eu quando era miúda também tive que buscar, porque na rádio, como agora, tocava merda. Sempre foi assim.

maiores, os melhores, sei que jamais fariam uma coisa

O

tango então também vive um momento de renascimen-

assim. Eles riam dos machistas. E além disso tinham a

to?

mulher supra-dimensionada, como todos os homens fa- zem. A mulher está tão super dimensionada que alguns ficam loucos e acabam por matá-las. Mas eu notei isso,

Totalmente, mas eu, quando me aproximei do tango, foi em 91, ninguém entendia.

6060 60

Acho que há algo parecido também entre o tango e o fado que é a questão dos puristas.

Que sãos os que matam

Com o fado, se alguém coloca percussão numa música já sai um grupo a dizer que aquilo não é fado.

É igual lá. Aconteceu com o Piazzolla e continua a acontecer, é uma loucura.

No Brasil isso não acontece, nunca ouvi ninguém reclamar porque misturaram samba com rap ou música eletrônica.

Sim, mas o Brasil tem um fenômeno que não tem nin- guém mais no mundo que é a sua música. Para mim Chico Buarque é o poeta latino-americano com mais capacidade de síntese, que é o mais difícil num poeta. Milton Nascimen- to é a voz americana. Ele e o uruguaio Ruben Rada são as duas vozes do continente. E a minha cantora preferida, de todas, é Elis Regina.

O que a fama mudou a sua vida?

Nada. Bom, eu me tornei um pouco fóbica, não pelas pessoas. As pessoas que se aproximam de mim são muito

adriana varela

respeitosas, não são compulsivos, gente que se aproxima com humor, de uma maneira muito boa. Há muitos jovens que vêm falar comigo. Mas a minha fobia não tinha a ver com a fama, mas com as viagens. Para mim o aeroporto

é um limbo, é um Purgatório. Voar não é normal. E além

disso, antes, com o meu ex-marido, eu viajei muito, cansei, odeio viajar. Estou aqui com você, está tudo bem, mas ado- raria depois de falar com você e cantar, apertar um botão

e estar na minha casa, na minha cama. Eu sou uma pessoa

muito lenta, sou Touro, e demoro para realmente chegar aos lugares, por isso pirei. O avião não me dá medo, não

me chateia, o que chateia é o translado, os papéis, a foto,

a maleta, tira o sapato, passar pelo controle etc. Quando chego em casa depois de uma viagem digo: que sorte que cheguei, que sorte!

Fotografias de José Frade

61

61

61

visitas

guiada

ma p as , g uias e j o g os p ara co-
ma p as , g uias e j o g os p ara co-
ma p as , g uias e j o g os p ara co-

mapas, guias e jogos para co-

ma p as , g uias e j o g os p ara co-

nhecer cidades

s:

ANDREIA

BRITES

63

Cidades de há cinquenta anos

Originalmente publicado em 1960, este é um dos vários guias que o autor checo Miroslav Sasek criou, depois de Isto é Paris, Isto é Londres, ambos de 1959 e Isto é Roma, também de 1960. A editora Civilização publicou este título em 2011, assim como os três anteriores mas não é fácil encontrá-los hoje em

dia nas livrarias. Apesar do lapso temporal ser grande, os rotei- ros não perderam atualidade, graças à abordagem de Sasek que em cada volume encontrava um mote e a partir daí chegava a monumentos, bairros, ruas e avenidas, lojas, habitantes, curio- sidades. No caso de Isto é Nova Iorque, o ilustrador foca-se na dimensão. Tudo é grande na Big Apple e isso é razão para re- ferir edifícios, ruas, automóveis, engarrafamentos, jornais ou

o próprio clima. Tudo é apresentado com bastante informali-

dade e como se de uma curiosidade se tratasse. O pormenor

que dá identidade ao espaço acompanha referências ao cinema

e outras artes com tamanha naturalidade que nunca se intui

um pendor didático nas informações avançadas. Para além da enumeração sucessiva, há ainda momentos em que o narra- dor se dirige diretamente ao leitor, estabelecendo uma relação próxima e cúmplice, como se se tratasse de uma conversa em

65

visitas guiadas

que um conta ao outro o que viu e mais o surpreendeu. As ilustrações são detalhadas e obedecem a perspetivas distintas, que permitem ao leitor conjugar a altura dos edifícios com o rebuliço das ruas, com as lojas e as pontes, ou com a moldura de arranha-céus de dia ou de noite. Tudo flui, como num pas- seio em que o mais importante é determo-nos e apreciar.

«A minha cidade»

É uma coleção e um bom contraponto à de Sasek. Se a pri- meira é pensada sob a perspetiva do visitante, esta é pensada pelo habitante que a vai desenhar. A primeira relaciona-se com o leitor pela proximidade do discurso e não por nenhu- ma implicação subjetiva de quem escolhe os pontos de inte- resse. Quando a Pato Lógico lançou os dois primeiros mapas, Beja e Edimburgo, em 2016, deixou clara qual a intenção do projeto: dar a conhecer cidades, mas eventualmente vilas, a partir do olhar de um ilustrador que com elas tivesse uma re- lação afetiva, por ali viver, por ser o seu lugar de nascimento, por ali ter estudado ou trabalhado um tempo O que não muda é a estrutura: um desdobrável em que cada parte corresponde a um lugar, alcançando-se seis dobras e

doze lugares, frente e verso da extensa folha. Depois de des- dobrado, estende-se o mapa da cidade, com todos os locais assinalados, para uma ideia global das distâncias e da forma como o ilustrador perceciona a urbe. Susa Monteiro não ab- dica de tons mais escuros e suaves, como o lilaz, o cinza ou o azul e assim retrata Beja, a sua cidade natal onde continua a viver e trabalhar. Contraria por isso a sensação do branco e

do amarelo das searas e do sol refletido na cal das casas, sen- sação quente, graças à sua estética. Já Marcus Oakley opta por um estilo mais gráfico, com uma paleta maior e mais forte de cores, e muitos objetos que parecem bailar nas suas geome- trias e padrões. Edimburgo ganha essa luz e uma alegria que contrastará com o clima mais sorumbático. Para cada lugar uma pequena entrada diarística, mais ou menos implicada. Os ilustradores escolhem sítios onde se encontram com ami- gos, onde comem iguarias, livrarias onde se perdem, ou pelo menos perdem a carteira, ciclovias, parques, esplanadas, mu-

há de tudo um pouco. O de Madrid

é o mais expansivo dos quatro, com maior diversidade de es-

seus, bares, mercados

paços sempre muito bem justificados na biografia de Manuel Marsol cujo texto parece mesmo querer convencer o visitante

a experienciar as mesmas sensações.

visitas guiadas

Portugal em patchwork

Portugal para crianças é um livro de atividades editado pelo atelier Lupa Design em 2012 que propõe aos mais no- vos partir em busca de pistas sobre a história e os costumes portugueses. Há casas típicas a que se podem juntar outras, desenhadas pelo leitor, cartas para escrever à namorada de Camões, uma galeria de retratos de figuras históricas para preencher, pinturas rupestres, mosaicos romanos, monu- mentos, plantas, rolhas de cortiça, garrafas de vinho, sempre com uma atividade associada. No final do livro a possibilidade de registar os lugares onde se esteve, o que se comeu, o que se viu e ouviu permite alargar a ideia num diário de férias, com um mapa para se assinalarem os nomes das cidades ou regiões. Há ainda es- paço para algumas escolhas, direcionadas aos adultos, como forma de os dotarem das ferramentas para proporcionarem às crianças as viagens e o acesso a cada sugestão do livro. Joana Paz e Danuta Wojciechowska conciliam história com fantasia neste guia trilingue, todo a preto e branco, de que cada leitor se apropriará como autor. É mais do que um

70

livro para colorir ou desenhar, já que cada um ali pode ins- crever a sua própria experiência, de uma assentada ou à me- dida que for conhecendo o património e a história do país. As páginas em branco, destinadas a notas, ampliam ainda mais as hipóteses criativas de cada um: ali pode registar-se um diário gráfico, um registo escrito, um pequeno álbum fotográfico ou colagens de bilhetes e outros papéis significa- tivos para a memória afetiva de cada um.

Percorrer a história

Quando Guimarães foi Cidade Europeia da Cultura, em 2012, a Planeta lançou Guimarães: Guia da Cidade para Jovens Exploradores com vários percursos desafiantes para os mais novos. Na verdade, os percursos sugeridos podem interessar a qualquer pessoa de qualquer idade, o que dife- re são as estratégias escolhidas para motivar as crianças a descobrir a cidade. O guia abre com uma breve história da cidade, desde a presença celta até ao séc. XXI. A cada passo, dá-se nota ao leitor de edifícios, estátuas, ruas, lugares que poderão ser visitados num dos percursos propostos. Em

71

visitas guiadas

seguida, os percursos. Para cada um há um título apelati- vo: «Freiras, piratas e cavaleiros: do Mosteiro ao Castelo» é o primeiro. O mapa é o elemento orientador e antecede toda a descrição do caminho a trilhar. Aos exploradores são dadas todas as orientações para encontrarem os pontos estratégicos a visitar. A propósito pode ser indicado que no Museu Alberto Sampaio existe um santo degolado, o que parecerá bastante apelativo, ou contada a lenda que deu origem ao nome do Largo da Oliveira, lugar icónico do cen- tro histórico da cidade. O segundo percurso faz-se dentro do Paço de Guimarães. Complementam-se informações sobre objetos de época com comparações com o presen- te, explicam-se comportamentos e tradições e não se deixa passar em claro a recuperação do Paço, feita durante o Es- tado Novo, como aconteceu com vários castelos em todo o país. Lançam-se pistas e remete-se o leitor para a História que servira de contextualização. Explicam-se os episódios tecidos nas tapeçarias e de onde elas vinham, bem como o sentido original de pôr a mesa e como se compunham me- dicamentos no renascimento. O terceiro percurso é ainda feito dentro das muralhas da cidade antiga, chamando a

atenção para arquiteturas várias, largos, odores e práticas, como a de lavar a roupa em lavadouros públicos. O quarto percurso é fora das muralhas mas no centro da cidade e acaba na Estação de Caminhos de Ferro. A terminar, um percurso pela natureza que leva os leitores para fora da ci- dade, até ao Santuário da Penha e convida-os a regressar na direção do parque da cidade. Todas as informações his- tóricas são complementadas com sugestões práticas, sobre casas de banho públicas, locais para beber água ou des- cansar e comer uma merenda. Para além disso, os explora- dores são convidados a desenhar, unir pontos, responder a perguntas ou fazer palavras cruzadas. Deixam-se ainda pistas para pesquisas autónomas, aguçando o interesse so- bre coincidências, causas para determinado ato ou nome, biografias de monarcas, arquitetos ou artistas, sugerindo sites ou referindo possíveis curiosidades.

Porto maravilha

Partindo da viagem de Alice ao País das Maravilhas, Adé- lia Carvalho e Cátia Vidinhas criaram Wonderporto, um

visitas guiadas

guia de descoberta de doze pontos chave da cidade do Porto. A propósito de lanches, horários e uma corte com rainhas e duquesas, esta Alice chega ao Café Majestic, à Câmara Mu- nicipal ou ao Jardim Romântico. Em cada paragem, o leitor tem um desafio à espera, que implica a sua própria visita e a experiência dos lugares. No Jardim Romântico, por exem- plo, sugere-se que o caminhante apanhe folhas e as cole no livro. Também há azulejos para desenhar, tendo como inspi- ração a Estação de S. Bento, os sons da cidade para registar, depois de uma visita à Casa da Música, uma adivinha para resolver na Biblioteca Almeida Garrett ou a receita de uma francesinha para encontrar e reescrever. Texto e ilustração complementam-se entre induções e sugestões. A Ribeira é representada pela icónica varina, o Museu de Serralves por molduras e da torre dos Clérigos só se avista o topo. Todavia, Alice não aparece junto a ne- nhum dos espaços descritos, ao contrários de outras figuras, perfeitamente integradas em cada um dos espaços. É do de- talhe e da ausência de contexto que vive este guia. Procura assim estimular a curiosidade através dos desafios presen- tes e de pistas lançadas. Wonderporto, editado pela Tcharan

74

em 2014, começa logo nos elementos paratextuais do título

e da ilustração da capa a traçar esta linha: uma viagem a um

mundo de desafios, imaginação e novidade, que tem uma Alice e um coelho branco algures no rio, com um cais ao fundo. O recorte redondo nas páginas iniciais e finais, que vai ampliando e diminuindo a visão que se tem da página, para além da referência explícita ao túnel da obra de Lewis Carroll, pode igualmente significar a aproximação na chega- da à cidade e distanciamento na partida.

Jogos com nomes de cidade

Chama-se myriorama e foi inventado no séc. XIX. Não fosse este um projeto da Bruaá, que conta com um catálogo rico em pérolas nunca antes editadas cá pelo burgo. O que significa? Como se explica muito bem no encarte: paisagem

infinita. E é um jogo. Nem mais. São dezasseis cartas e cada uma ilustra uma parte de uma paisagem. O que é desafiante

é que todas as combinações são possíveis porque as margens

da ilustração de cada cartão pode ser unidas entre si sem que se perca a ideia de painel coerente. O que a Bruaá fez foi

visitas guiadas

aplicar a ideia a duas cidades: Lisboa e Porto. Para cada uma um ilustrador: João Fazenda e Marta Monteiro, respetiva- mente. O efeito é semelhante, tendo em conta as cores aber- tas, as formas sem contorno, algumas geometrias e o deta- lhe na composição. As hipóteses de combinação são tantas que cada jogador pode montar a sua cidade colocando lado a lado monumentos distantes, bairros modernos e antigos, rio e colina. Elementos não faltam: elétricos, coretos, pontes, estátuas, miradouros. Tentar conjugar os cartões de forma a que a cidade ilustrada esteja o mais próxima possível da ci- dade real também não é tarefa fácil. O que este jogo traz de novo na exploração de uma cidade é a hipótese de a ver de outra forma, e revê-la nada mais nada menos do que em 20 biliões de panorâmicas. Para quem consiga, é fazer as contas. Podemos jogar com o que conhecemos bem, com o que não conhecemos e com o que conhecemos parcialmente. Pode ser uma porta de entrada nas cidades, pode simplesmente funcionar como reconhecimento. E ainda, tendo em conta a presença de muitas personagens, pode proporcionar narra- tivas nas cidades desenvolvendo um imaginário associado à leitura da imagem por cada leitor.

77

AND

and the winner is

No ano em que os CILIP awards

comemoram o seu octagésimo aniversário,

a votação dos bibliotecários pendeu para

dois autores dos E.U.A.

Carnegie Medal (texto)

Salt to the Sea foi escrito por Ruta Sepetys

e retrata o maior naufrágio da história. Dos

passageiros a bordo do Wilhelm Gustloff estima-se que tenham morrido 9000 pessoas, na sua maioria refugiados. O júri do prémio notou a crescente relevância de temas sociais na formação dos jovens leitores, como forma de lhes dar a conhecer realidades e contextos que desconhecem e não têm meios para compreender.

Kate Greenaway Medal (ilustração)

There is a Tribe of Kids elenca os nomes coletivos atribuídos a diversos grupos de animais, incluindo nesses grupos um menino que os acompanha, tomando partido da sua morfologia ou comportamento para brincar. Lane Smith acrescenta sentidos aos nomes através de um imaginário ora lúdico, ora poético e muito estilizado.

sentidos aos nomes através de um imaginário ora lúdico, ora poético e muito estilizado. Ruta Sepetys

Ruta

Sepetys

Lane

Smith

sentidos aos nomes através de um imaginário ora lúdico, ora poético e muito estilizado. Ruta Sepetys

78

ANDREIA BRITES

Cá dentro, Guia para descobrir o cérebro

ANDREIA BRITES Cá dentro, Guia para descobrir o cérebro

ESPELHO MEU

Isabel Minhós Martins, Maria Manuel Pedrosa, Madalena Matoso, Planeta Tangerina

Um livro é antes de mais um objecto físico. Muitas vezes esquecemo-nos disso em busca do que comummente se designa de conteúdo,

a informação que o texto escrito disponibiliza, seja ela científica, poética, narrativa No caso do presente volume é bom reparar em cada detalhe porque tudo se relaciona e

eleva a sua qualidade. Logo na capa, as duas figuras que se relacionam através do olhar e do sorriso, vêm destacar uma das ideias princi- pais sobre o funcionamento do cérebro: a sua existência social, colectiva. Alguém disse que «se ninguém me chama, não existo» porque

o nome só faz sentido se existirem outros que

assim nos identifiquem. O mesmo se passa com o cérebro, cuja evolução é logo sucintamente justificada pela vida em comunida- de, em que o ser humano se vê representado nos outros, com eles comunica entre sintonias, desafios e conflitos. Estamos ainda na introdução. Depois, capítulo após capítulo as autoras apresentam um conjunto de informações que juntam expe- riências científicas, morfologia, curiosidades e desafios aos leitores de forma surpreendentemente escorreita.

aos leitores de forma surpreendentemente escorreita. Dirigindo-se frequentemente ao leitor e recuperando imensas

Dirigindo-se frequentemente ao leitor e recuperando imensas acções, emoções e sensações do quotidiano que provocam um efeito de identificação e proximidade, o discurso sucede-se com simplicidade e naturalidade. A clareza das informações e das explicações propostas para cada tema – crescimento, sentidos, aprendizagem, me- mória, consciência, corpo/ação, emoções, eu e os outros, criatividade e experiência estética – facilitam a leitura e instigam o desejo de saber mais. Tudo está pensado do ponto de vista da divulgação científica e, por isso, depois de 270 páginas de informação, a última parte do volume apresenta-se como proposta opcional: «Se te apetece saber mais

». Do princípio ao fim há uma implicação dos que colaboram no livro, desde o preâmbulo que anuncia como nasceu

a ideia de criar um guia para o cérebro à sinopse biográfica das três

autoras e dos revisores científicos que esclareceram as suas dúvidas

e ajudaram na pesquisa bibliográfica. À razão de ser do livro, acres- ce então o modus operandi. A ilustração, por seu turno, alterna entre o destaque representa- tivo de uma situação e a eleição de um quadro simbólico, como a noz no início ou a mangueira no final. A colmeia, emaranhado de

79

ESPELHO MEU

Cá dentro, Guia para descobrir o cérebro

ESPELHO MEU Cá dentro, Guia para descobrir o cérebro

linhas e padrões mais ou menos organizados ou a es- ponja são alguns outros. Geometrias, colagem, e muitas figuras povoam as páginas enfatizando as escolhas temá- ticas para o guia. Apesar da sua dimensão e amplitude de tópicos acordados, este volume não cede nunca à tentação de parecer esgotar o assunto. Bem pelo contrá- rio, cada capítulo tem sempre um sentido problematiza- dor que sugere novas descobertas e leituras. Para além disso, a sua própria estrutura dá conta disso, quando refere estudos, cientistas e assinala as alterações que se têm operando sistematicamente ao longo de séculos e séculos de estudo. A importância da estética e da componente emo- cional ganha visibilidade, a presença dos afectos em vários campos, da memória aos sentidos, da libertação de hormonas aos neurónios-espelho. Esse será, a par com a fluidez do texto, o elemento mais relevante do livro. Há uma intenção de descoberta que contraria a formatação e a valorização de um pen- samento determinista que muitas vezes parece representar todo o funcionamento do cérebro. Ao invés, os capítulos evidenciam a sua complexidade e a sua unicidade individual. Há no mercado editorial português muitos livros de divulgação enciclopédica, alguns de divulgação científica. Este pode assumir-se

como o paradigma da seriedade sem resvalar para a ilegibilidade, da proximidade sem cair no facilitismo da curiosidade inusitada e da implicação sem moralismos didáticos. Do ponto de vista esté- tico, desde que a vista do leitor o alcança até que dele se despede, são garantidos muitos estímulos, dos sensoriais, logo pela textura da capa e contracapa ao peso, à leitura das imagens, da abstração ao concreto, à descodificação das técnicas, e interpretação da infogra- fia. Tudo alternando azul e vermelho.

80

ANDREIA BRITES

Os Livros do Rei

ANDREIA BRITES Os Livros do Rei

ESPELHO MEU

David Machado, Gonçalo Viana, Alfaguara

Na escrita de David Machado reconhece-se, em geral, uma poética própria, que transporta o leitor para um mundo paralelo, não necessariamente oní- rico mas um mundo de possibilidades. Esta cons- trução situa-se nos limites do real, do exequível, e do desejo que se almeja sem garantias de sucesso. Não que isso importe. Relacionar a experiência do quotidiano e o co- nhecimento do que nos rodeia com essa dimensão resulta numa abertura optimista, num exercício de imaginação, e isso por si só é suficiente para se viver melhor, como aliás se comprova nesta narrativa infantil. O início segue a tradição dos contos de fada, com a morte do pai. Ou remete para o terramoto de 1755. Ou nada disso, ou tanto faz, como mais à frente iremos descortinar. O menino, que vivia imerso em livros, teve de assumir o trono e reconstruir o reino. Começam então a suceder-se essas possibilidades imagéticas que associam sentidos e imagens que devem ser representadas. De onde vêm? Dos livros. David Machado consegue a proeza de, numa narrativa linear e fechada, que segue a estrutura repetitiva e aditiva de muitos contos tradicionais, oferecer uma espacialidade simbólica e não quanti- ficável. Um espaço de cor, memória, imaginação, aromas e risos,

Um espaço de cor, memória, imaginação, aromas e risos, beijos e música. Precisamente através da estrutura

beijos e música. Precisamente através da estrutura adop- tada, é possível introduzir uma imensidão temática de livros, onde o jovem rei ia beber essas ideias.

O final é surpreendente porque embora fechado se des-

via de um desfecho óbvio. No entanto, alcança uma moral

que defende esse valor precioso da leitura como lugar de descobertas e encontros excepcionais que nos permitem ver o mundo com lentes especiais e renovadas.

A ilustração de Gonçalo Viana, que já havia feito

dupla com o escritor, destaca um sentido lúdico pleno de geometria e cor. Os elementos planos convocam o jogo de blocos de madeira e acrescentam uma nova possibi- lidade àquelas já avançadas pelo texto: a da recriação infinita. Para além disso descreve os especialistas – arquitectos, pintores, agricul- tores, pedreiros, botânicos e zoólogos – nas suas pesquisas, captan- do os vários momentos com humor. O contraste entre esses mo- mentos e o plano da conversa final com o rei, assim como a decisão tomada relativa à construção definitiva do reino corroboram a surpresa do desenlace, enfatizam a presença dos livros e, na última página dupla, o resultado final da empreitada parece não desiludir. Apesar dos múltiplos registos da esrita de David Machado, mais ou menos metafóricos, mais ou menos oníricos, mais ou menos lú- dicos, mais ou menos narrativos ou aforísticos, é notória a sua voz única, consistente e coerente, no panorama da literatura infantil.

82

838383

Porque eu sou do ta- manho do que vejo

saramaguiana

o sentido óbvio e obtuso

d’A Maior Flor do Mundo

de José Saramago

Sandra Santos —

— Universidade de Aveiro

84 84

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 85

85

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 87

87

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 88

88

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 89

89

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 91

91

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 92

92

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 93

93

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo

a maior flor do mundo

a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo
a maior flor do mundo 95

95

SOMOS BIBLIOTECAS
SOMOS BIBLIOTECAS
PÚBLICAS. MUNICIPAIS. DE TODOS.
PÚBLICAS. MUNICIPAIS. DE TODOS.
CAMPANHA DE PROMOÇÃO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS
CAMPANHA DE PROMOÇÃO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS

www.somosbibliotecas.pt

f a c e b o o k . c o m / s o m o s b i b l i o t e c a s

t w i t t e r . c o m / s o m o s b i b l i o

Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote?
Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote?

Fotografia de João Francisco Vilhena

A Casa José Saramago Aberta de segunda a sábado, das 10 às 14h. Última visita
A Casa José Saramago
Aberta de segunda a sábado, das 10 às 14h. Última visita às 13h30.
Abierto de lunes a sábado de 10 a 14h. Última visita a las 13h30 h.
Open from monday to saturday, from 10 am to 14 pm. Last entrance at 13.30 pm.
Tías-Lanzarote – Ilhas Canárias, Islas Canarias, Canary Islands – www.acasajosesaramago.com
entrance at 13.30 pm. Tías-Lanzarote – Ilhas Canárias, Islas Canarias, Canary Islands – www.acasajosesaramago.com

PhotoEspaña

2017

Até 27ago

Vigésima edição do festival de fotografia que ocupa museus, galerias, mas também ruas, bares e lugares menos óbvios da capital espanhola. Vários lugares, Madrid.

óbvios da capital espanhola. Vários lugares, Madrid.  agosto Arquitectos do Imaginário Até 27 ago Ciclo

agosto

Arquitectos do Imaginário

Até 27 ago

Ciclo de cinema dedicado à animação produzida pelo Studio Ghibli, no Japão, com os seus filmes marcados pela fantasia e pelos modos de esta se reflectir no quotidiano. Museu do Oriente, Lisboa.

Me pinto a mí misma.

Até 31 ago

Exposição que reúne as 26 obras de Frida Kahlo que integram a colecção do Museo Dolores Olmedo, a partir da frase da artista: «Me pinto a mí misma porque soy lo que mejor conozco». Museo Dolores Almedo, México DF.

PHOTOstruc-

tutalism

Até 10 set

A partir da obra de Georg Herold, uma exposição sobre a utilização da fotografia enquanto elemento formal nos livros de artista. Porto, Museu de Serralves.

Eu Organizo o Movimento

Até 30 ago

Espectáculo criado pela bailarina e actriz Ana Paula Bouzas a partir da herança do Movimento Tropicalista e dos seus ecos na contemporaneidade. Casa de Cultura Laura Alvim, Rio de Janeiro.

 99
99
do Movimento Tropicalista e dos seus ecos na contemporaneidade. Casa de Cultura Laura Alvim, Rio de

Confesión

Xeral

Até 17 set

Primeira exposição do trabalho do artista andaluz Luis Gordillo em Compostela, percorrendo uma produção que começou no fim dos anos 50. Centro Galego de Arte Contemporánea, Santiago de Compostela. Até 17 de Setembro.



Cartazes Cubanos da

OSPAAAL 1960-

1980

Até 23 set

Inserida na Lisboa – Capital Ibero- Americana de Cultura, a ZDB mostra um conjunto de cartazes produzidos entre 1966 e 1980 pela Organização de Solidariedade para com os Povos de África, Ásia e América Latina. Lisboa, Galeria Zé dos Bois.

agosto

Lèxic familiar

Até 8 out

Exposição de obras de Paula Rêgo, percorrendo seis décadas de trabalho da pintora, numa escolha que tem como fio condutor o livro de Natalia Ginzburg que dá nome à mostra. La Virreina, Barcelona.

O Pequeno Grande Polegar

26 ago

O Trigo Limpo teatro ACERT encerra a digressão de verão deste espectáculo comunitário, uma adaptação muito livre da história do Pequeno Polegar, na cidade que lhe serve de casa. Tondela, Parque Urbano.

na cidade que lhe serve de casa. Tondela, Parque Urbano.  Gurumbé, Canciones de tu memória

na cidade que lhe serve de casa. Tondela, Parque Urbano.  Gurumbé, Canciones de tu memória

Gurumbé, Canciones de tu memória negra

23 ago

Exibição do documentário de Miguel Angel Rosales sobre a presença de populações africanas na Península Ibérica dos séculos XV e XVIII. Centro Cultural, Lagos. 23 de Agosto.

de populações africanas na Península Ibérica dos séculos XV e XVIII. Centro Cultural, Lagos. 23 de

Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sem- pre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros.

José Saramago, A Caverna