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NABORDA LIVRO capa 09:Layout 2 12/1/12 6:59 AM Page 1

Série
Coletivos

NA BORDA
NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE

NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE
NA BORDA
Foram realizadas intervenções em espaços públicos da cidade de São
Paulo ao longo de três meses pelos grupos Bijari, COBAIA, Contrafilé, EIA,
Esqueleto Coletivo, Frente 3 de Fevereiro, Nova Pasta, Ocupeacidade e
Projeto Matilha. As intervenções geraram uma exposição e este livro com
os registros desenvolvidos pelos coletivos. NA BORDA é um projeto que
reúne nove coletivos artísticos em torno da prática e da reflexão sobre a
intervenção urbana hoje.

Bijari
COBAIA
Contrafilé
EIA
Esqueleto Coletivo
Frente 3 de Fevereiro
Nova Pasta
Ocupeacidade
Projeto Matilha
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

NA BORDA
NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE

Portal Realização Apoio
Invisíveis
Produções Invisíveis
Produções
PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, SECRETARIA DA CULTURA, PROGRAMA DE AÇÃO CULTURAL 2011

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NA BO
NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Copyleft
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que não sejam colocadas barreiras à utilização, difusão e modificação de uma obra cria-
tiva. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam
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ORDA
DE

Bijari
COBAIA
Contrafilé
EIA
Esqueleto Coletivo
Frente 3 de Fevereiro
Nova Pasta
Ocupeacidade
Projeto Matilha

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LIVRO “NA BORDA – NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE”
Editores Daniel Lima e Túlio Tavares
Coletivos participantes Bijari, COBAIA, Contrafilé, EIA, Esqueleto Coletivo,
Frente 3 de Fevereiro, Nova Pasta, Ocupeacidade e Projeto Matilha Revisão Duda Costa
Projeto Gráfico Daniel Lima Capa Nova Pasta Publicação Invisíveis Produções
Fotos Marcos Vilas Boas Apoio Matilha Cultural e Ação Educativa

EXPOSIÇÃO “NA BORDA – NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE”
Coordenação do Projeto Daniel Lima e Túlio Tavares
Coletivos participantes Bijari, COBAIA, Contrafilé, EIA, Esqueleto Coletivo, Frente 3 de
Fevereiro, Nova Pasta, Ocupeacidade e Projeto Matilha Direção de Produção Marcos Farinha
Assistente de Produção Rafaela Ferreira Cenografia Mariana Cavalcante Coordenação
da Ação Educativa Joana Zatz e Rafael Leona Desenho de Luz Lúcia Chedieck e Lara Galvão
Projeto Gráfico Daniel Lima Realização Invisíveis Produções
Coordenação Geral SESC Tiago de Souza e Tatiana Zacariotti de Freitas

Realização Portal Apoio
Invisíveis
Produções
Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo,
Secretaria da Cultura, Programa de Ação Cultural 2011

NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 4:53 PM Page 5 Apresentação 07 por Daniel Lima e Túlio Tavares Vazadores (Os ladrões da galeria) 09 por Fabiane Morais Borges Maximizando as bordas 15 por Flavia Vivacqua Arquivomania 19 por Suely Rolnik Agência ficcional 45 por EIA Agentes & transcendentes 63 por Projeto Matilha Teto de vidro 86 por Esqueleto Coletivo Intervir? 106 por Frente 3 de Fevereiro Sonho meu imóveis 125 por Ocupeacidade O desaparecido 146 por Bijari A intromissão da dúvida no espaço público 156 por COBAIA Nada é mais importante do que essa nuança fugidia 176 por Contrafilé A revolta dos burros 198 por Nova Pasta .

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O processo poético do NA BORDA Intervenção durou dez meses e envolveu etapas que incluíam agir na cidade. Frente 3 de Fevereiro. como ressoam nestas páginas. ressoavam nas edições anteriores. Participaram deste diagrama os coletivos Bijari. Neste livro. Nova Pasta e Ocupeacidade. Contrafilé. questões em torno do fazer coletivo e da ação artística no contexto urbano. antes de chegar à edição Intervenção. Projeto Matilha. COBAIA. debates. De maneira geral. somam-se reflexões de algumas vozes que mediaram debates durante a exposição: Fabiane Borges. de alguma maneira. Flavia Vivacqua e Suely Rolnik. lançou as edições Crise e Corpo. 7 . Este livro encerra um ciclo do NA BORDA e esperamos que. oficinas e uma exposição que ocorreu de julho a agosto de 2012 no SESC Consolação. que origina este projeto. como uma revista on-line. intensifique as forças que continuam a nos movimentar. Neste período.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/21/12 2:53 PM Page 7 NA BORDA POR DANIEL LIMA e TÚLIO TAVARES NA BORDA surge em 2011. às páginas elaboradas pelos próprios coletivos. EIA. Esqueleto Coletivo.

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geralmente com algum gozo. depois de tantos anos de experiência urbana. enfeitado por um delírio de poder. sabemos que a matéria com a qual os coletivos atuam ainda tem um conteúdo urbano e político radical.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 9 Vazadores (Os Ladrões da Galeria) POR FABIANE MORAIS BORGES Constantemente corremos o risco de estacionarmos exatamente no posto que outrora criticávamos. questionando os valores sociais e o próprio instinto civilizatório. Risco popular. e os coletivos que participam disso precisam pensar sobre seus procedimentos. Os descuidados podem não perceber quando estão assumindo o posto. A história está cheia disso. Por outro lado. Esse comportamento se dá de forma inconsciente. sejamos ingênuos e pensemos que estamos apresentando alguma alternativa aos modelos institucionais e do mercado. 9 . que se sustenta com o reconhecimento e a inveja alheia. quando na verdade só repetimos padrões de exibição e notoriedade. dialoga com a vida pública e com problemas que emergem na constituição das cidades. seja por falta de recursos financeiros próprios ou falta de investimento de órgãos competentes. em que muitos caem sem sequer perceber ou fazer autocrítica. sabemos das dificuldades que sofrem ao tentar sustentar essas práticas. Mas tampouco posso ignorar o fato de que é inadmissível que. o escravo fascista. Para não ser prolixa. em critérios de valorização de certos grupos em detrimento de outros. não posso agredir deliberadamente os modelos de contenção e inscrição dos sujeitos e grupos no mercado de trabalho. o porteiro autoritário. Por um lado. em curadorias seletivas. trabalhos com movimentos sociais e ações de arte política. são os outros que notam. Seria muita irresponsabilidade. O mais fácil é que caiam com facilidade na repetição de metodologias de representatividade. nem fazer militância vazia contra uma sociedade baseada no poder e no reconhecimento. As experiências do NA BORDA passam por essas ambiguidades. como se eu mesma estivesse fora desse jogo. para poderem propor uma alternativa aos modelos viciados. sujeitos que assumem o papel do opressor.

.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 10 A exposição NA BORDA realizada no SESC Consolação. São Paulo. 2012.

As experiências vividas por esses coletivos nas ocupações. A profissionalização dos coletivos de arte já foi debatida em muitas redes. Outra jovem. Ela disse. da ação dos coletivos. dizer que era muito injusto. e do quanto isso despotencializava as próprias ações. Ao tirar-se a urgência das ações. e passou-se a discutir sobre a questão da instituição por trás da intervenção urbana. ele já tem seu lugar de espectador da obra. falou algo que mudou significativamente a discussão em cena. o cotidiano das pessoas é que estava sendo modificado. parece que o cerne da questão se assenta na força da obra. também entrou no debate. no trabalho dos artistas. cotidiana. Se. Abandonando o contexto. em seus discursos. mas que corre o risco de se desvincular totalmente da vida pragmática. Muito diferente do consumo da obra de arte da galeria.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 11 No dia em que eu estava fazendo a moderação do NA BORDA. uma integrante jovem do coletivo COBAIA. que ela tinha que cuidar de todas aquelas crianças na rua e que as pessoas naquela sala ficavam só falando e não faziam nada. os grupos trabalham com temas abstratos. é uma constatação. e de certa forma nos disse que não tínhamos interesse na criação de acesso ou diálogo. reduzindo enormemente o vínculo das pessoas com a ação. foram transformadoras para a vida de artistas e público. porque de certa forma acreditam na arte. Para mim. tomou a palavra e começou a chorar. mais ou menos pelo que lembro. A partir dessas duas intervenções. e sabe-se do tamanho da exigência que essas duas jovens fazem aos artistas. por exemplo. da espetacularização das ações. Logo saiu da roda de conversa. A questão é complexa. A diferença entre obras de galeria e obras de intervenção na cidade diz respeito também ao público. na segunda ele é parte dela. A invenção de mundos concretos dá lugar à excelência estética. a formação de opinião. os quais mal conseguem sustentar as próprias contas. o teor do debate mudou. as próprias obras. e tem como uma de suas vertentes mais óbvias a domesticação. provavelmente uma moradora de rua. Acham as ações potentes. que de alguma forma se desligam da cidade e passam para esse outro lugar que é do efeito midiático. que é a mudança de valor. que na 11 . tira-se também a necessidade concreta do contexto. Elas exigem uma responsabilidade social com os conteúdos produzidos. tendo que dividir parcos recursos entre as várias pessoas que integram seus coletivos. da interação com as obras de arte em espaços protegidos. que tinha um gap geracional em torno do nosso trabalho e a vida dos milhares de jovens de São Paulo. o que enfraquecia a ação. que tem uma função significativa. na primeira. Isso não é retórica. que esse tipo de exposição não dialogava com os jovens. Ana Rosa. E que certamente precisam trabalhar em outras coisas para se sustentar.

No caso de eventos como o NA BORDA. algo a ser combatido. que determinam o que serve ou o que não serve para ser consumido por um mercado faminto por novidades. os Vazadores podem ser 12 . desigualdade e. recalques. como um cinturão imaginário que separa o movimento todo dos seus eleitos. diminuindo seu tamanho. Acredito que mostrar essa tensão. Mas sabemos também que normalmente esse lugar do poder está sempre mais próximo do que pensamos. porque se sabe que. Quem se criou perto de açudes ou barragens conhece o termo. assim como os editais. faço um esforço aqui de criar uma alternativa simples. Ao formatarem seus editais. Os espaços institucionais. elegem as características dos eventos. quando se para de ser o questionador e crítico e se passa a ser o protagonista na criação de exclusão. Os riscos aqui descritos não têm interesse em imobilizar nenhuma iniciativa. que são os trabalhos em rede estendidos. Um cinturão que constitui o imaginário político da civilização moderna. por mais que as criancinhas da escola frequentem tais espaços guiadas por seus professores. É para onde a água vaza quando a contenção não dá conta de sustentar seu volume. Mas não se trata somente de criar um antagonismo entre galerias e espaço público. Chego finalmente nos Vazadores. seja necessário para que se criem alternativas à repetição cansativa. coletivos. ou esses cinturões. Apropriam-se constantemente das ações das redes.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 12 instituição vira coisa de especialistas. exclusão. muito pelo contrário. sem necessariamente criar antagonismo. em que os grupos são desafiados a criar obras que lhes deem notoriedade. seja pela espetacularização de alguma realidade social. nenhum lugar é estável. tentam amplificar uma situação na maioria das vezes ignorada. desvirtuando por princípio as características mais promissoras dos coletivos. Outra coisa que se percebe como risco é a apropriação dos movimentos. os artistas envolvidos no evento como reprodutores de um sistema de opressão. Esse momento é delicado e exige certa dose de ousadia para encará-lo. Essa fissura cria traumas. fortalecendo seus nomes e criando contenção. Longe de julgar comportamentos ou de fazer críticas severas à cena que se desenhou no NA BORDA. são plataformas legitimadoras da obra. e manter assim vivos a crítica e o questionamento. o problema é bem mais difícil que isso. principalmente. elegendo seus representantes. Os grupos não reconhecidos passam a pensar o evento dos seletos. Não há espaço para todos na selva de pedras. no jogo do poder. seja pela pesquisa de linguagens individuais. o curador do evento. a que estamos todos acostumados. os ladrões da galeria. interessada em ampliar a acessibilidade dos grupos aos eventos protagonizados por coletivos mais reconhecidos. hierarquicamente superiores. Não se sabe exatamente quando se muda de status. A cultura compartilhada dá lugar a uma competição.

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manter a vitalidade do evento e. achar uma saída. A criação de acessibilidade não é somente uma postura ética. pode ter os mais diferentes formatos. porém apresentam uma forma interessante de lidar com os excessos produzidos dentro do próprio evento. quanto de colegas. O que importa é manter esse espaço vivo para receber as informações de fora. uma televisão com vídeos. permitem que a participação alheia se efetive. ao contrário.com 14 . que de alguma forma sentem que fazem parte do evento em questão.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 14 lugares abertos dentro do evento. pode ser uma parede. os enriqueçam. nem servem como alternativa para todo tipo de proposta. para que tanto as obras dos grupos convidados. afrouxam o cinturão divisório. promovê-lo. receber informações novas que modifiquem os conteúdos internos.wordpress. Estou certa de que os vazadores são medidas inofensivas. uma forma de manter o debate incessante. um site aberto. ensaísta. a produção do evento. ainda por cima. intervenção na cidade. e organizadora de dois livros da Rede Submidialogia: Ideias perigozas e Peixe morto. autora dos livros Domínios dos demasiados e Breviário de pornografia esquizotrans. alvo fácil das pedras certeiras. outros coletivos. Os vazadores são os buracos da contenção. como todo o conteúdo em questão seja espaço urbano. ao invés de insistir na cópia de si mesmo. um projetor de vídeos. mas. é também uma necessidade. com o externo. como força inovadora da própria exposição. da exposição. http://catahistorias. não fechar o acesso a esse encontro. deixar vazar o conteúdo interno. um espaço vazio. Não se sabe que formato tem os vazadores. Fazer vazar é roubar algo da galeria! FABIANE MORAIS BORGES Psicóloga. Ampliar o espaço de diálogo com o exterior em qualquer evento é uma boa forma de exercer a generosidade. ou outro. não destroem as contenções. manter um diálogo com o lado de fora.com | catadores@gmail. Uma maneira de fazer vazar. que funcionem para receber a demanda externa. estejam num jogo produtivo de acesso e autotransmutação. sem cristalizar um lugar de poder. que não mexem radicalmente na estrutura institucional. tanto do público em geral.

de descompasso. de etnia. ainda que conecte os mesmos dois pontos. A especulação imobiliária.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 15 Maximizando as bordas POR FLAVIA VIVACQUA Na ecologia. Tudo isso somado a todas as questões de classe. na borda. o que também a faz mais criativamente potente. também fica incluído o ambiente. Todo 15 . Transformação social e cultural. podem facilmente cair nas conhecidas práticas panfletárias e ativistas de simples negação do descontente. sem proposição possível. na prática expressiva dos coletivos de arte. as bordas são o espaço limite entre territórios e sabidamente o lugar mais fértil e produtivo que podemos encontrar para a biodiversidade.. de violência. de miséria. Além disso. Encontro certo e marcado com tudo aquilo que ainda precisamos reparar e superar. de equívocos. possibilitando a mescla e potencializando a vida. do micro e do macro. vistas apenas de uma única janela. torna-se ação potencializadora para o design de processos de transformação. Dessa forma. e ainda outros tantos encontros com o que necessita ser reconhecido e valorizado. uma borda sinuosa é sempre mais extensa que uma linha reta delimitante. no qual esses encontros maximizadores se dão. participantes ativados no processo ou simples observadores. na permacultura.. Maximizar as bordas no contexto da arte e da cultura colaborativa. o apagamento da memória e história. que se estabelece o campo de encontro entre ecossistemas distintos. Para além da curiosidade e da sede por descobrir algo novo simplesmente. do comodismo e da alienação.. de todos os envolvidos na ação: proponentes ou mediadores da ação. de gênero. o apagamento de espaços de convivência e afetos. será certamente deparar-se com as complexas e múltiplas questões da cidade. Atuar nas bordas da urbanidade. há a indignação e o inconformismo diante da miséria material e imaterial e da injustiça social.2 um conceito muito utilizado é o de maximizar as bordas. como uma prática de potencializar a biodiversidade para gerar maior resiliência. É ali.. em maior ou menor grau. gerando assim maior resiliência1 ambiental e preservação de espécies. Essas paisagens. de corrupção. do público e do privado.

da atuação contundente na ruptura dos padrões que são alienadamente vívidos. Dessa forma. ampliam a capacidade de vivenciar uma percepção do outro e de si. Uma sabedoria interessante nos processos colaborativos é a integração inteligente de diferentes pontos de vistas e habilidades. o tempo e o espaço. diretamente aberta e surpreendentemente criativa. Na busca por ações significativas. do humor. ainda que com toda sua significação. pela compreensão da importância do fortalecimento dos laços afetivos. ativada para o estabelecimento de um contato presencial que dispara uma reflexão crítica e criativa do contexto ou situação em que se vê chamada a intervir na busca por mudanças qualitativas no cotidiano e modos 16 . nas bordas sociais e culturais que são contornadas e borradas ao transpor as tantas fronteiras físicas e simbólicas. bem como o ser que os presentifica. muitas práticas passam. e esses artistas sabem disso! Os coletivos de arte atuantes na cidade compreendem o centro como periferia e a periferia como centro.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 16 o cuidado é pouco. do resgate de saberes antigos ou mesmo ancestrais. As práticas artísticas dos coletivos atuantes “Na Borda” têm a qualidade da consciência política e estética. para que transformações e sabedorias possam manifestar-se. por exemplo.

lúdica ou curiosamente absurda. formas de empoderar o cidadão em seu direito de poder ter considerado o desejo que se quer ver ocupando os espaços e imaginários do mundo. esse ser hábil de suas próprias habilidades. crítica em relação à realidade. adereços. Contudo. com qualidade. buscando verdadeiramente um compreender mais amplo de possibilidades e corajosamente ousado no agir na realidade. conscientização e liberdade. sábio de novos tempos. Algumas palavras-chaves e temas são forte e recorrentemente ativados. Reativas ou ativadoras. Colocando sobre a mesa nós mesmos a nós mesmos. intensidade. metodologias. Permite a criação imagética de lugares possíveis e impossíveis. muitas vezes provocadoras. que estabelece os desejos e proposições de um lugar no mundo que realize o sentido de pertencimento e outra lógica. o que desejamos. linguagens. o que tememos. está pronto para entrar em relação com outros. Então. pedagogias. divertida. adequada à necessidade. O JOGAR e a LUDICIDADE. canal de saberes possíveis às ações revolucionárias. que se quer lúdico. o que estranhamos ou. O jogo. que são estimulados pelo coletivo em ação ou mediados por esse agente- -criativo-e-múltiplo. essas escolhas e fazeres das práticas artísticas atuais não estão alheios às pequenas e múltiplas transformações de cada ser humano ali presente. empoderado de seus desejos. para o viver cotidiano. O SONHAR. ritmos e espaços. construções. personagens e lugares. criatividade e potencialização das singularidades de cada ser humano. de se reconhecer e também o outro em meio aos padrões culturalmente estabelecidos ou em nossas escolhas sobre temas prioritários é submetido ao acaso. como: O RELACIONAR-SE. capaz de assumir sua nova identidade. Explicitando o que acreditamos. capaz de propor transformações para si mesmo e seus comportamentos como um convite para o outro. ferramentas. ainda. comunitariamente resiliente. muitas vezes relacionados à identidade e seus impactos nas escolhas. irônica. estimulador de criatividade. mas justamente o libertador de convenções limitadas.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 17 de viver dos territórios da cidade. As práticas artísticas atuais também estão focadas em uma variedade de experiências com diferentes suportes. o sonhar abordado no fazer dos coletivos maximizadores da borda não é aquele romântico alienante. consciente de sua singularidade. para que possam colaborar com ações de conviver processos de mudança no mundo. Compreende também que o diverso e múltiplo que emerge das pessoas envolvidas no processo se trata de uma inteligência coletiva capaz de mostrar-se inventiva. 17 . como no lance de dados ou em um baralho e sua disposição.

aplicado à biologia para definir a capacidade de elasticidade ou ainda a capacidade de sobrevivência de determinado organismo ou sistema em meio a grande impacto. http://flaviavivacqua.com | www.corocoletivo. cunhado na Austrália. 2. que consegue se distanciar e ver “de fora” o que acontece na situação vivida. . estendeu-se à sustentabilidade dos assentamentos humanos locais. Idealizou o REVERBERAÇÕES – Festival de Arte e Cultura Colaborativa.org | www. Trata-se de um método holístico de planejar. Esse termo também vem sendo utilizado para compreender a capacidade estruturadora das comunidades e redes sociais que passam por situações críticas. diálogos significativos e práticas criativas.br | www.br 18 .com. FLAVIA VIVACQUA Artista e designer cultural para sustentabilidade. veio de permanent agriculture (agricultura permanente). gerando provocações criativamente surreais e expansivas para uma realidade dormente em seu cotidiano estabelecido.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 18 No maximizar as bordas. Trata-se de um olhar-agir intervencional de quem está inserido. premiado com o Programa Cultura e Pensamento/MinC. pertencente e participante.nexocultural.reverberacoes.com. A sustentabilidade ecológica. disparando perguntas geradoras. socialmente justos e financeiramente viáveis. a prática coletiva apresenta facetas simultaneamente REAL e SURREAL com o viver. ideia inicial. 1. ambientalmente sustentáveis. atuando para maximizar as bordas do viver urbano.. ao mesmo tempo. integrou diversos coletivos e articulou o CORO – Colaboradores em Rede e Organizações. Fundou em 2007 e dirige a NEXO CULTURAL Agência de Design de Processos e Sustentabilidade e CASA NEXO. Outras vezes. atualizar e manter sistemas de escala humana.. e mais tarde se estendeu para significar permanent culture (cultura permanente).wordpress. Resiliência é um termo da física. limitadamente normal e formal sobre princípios e valores que norteiam atitudes e escolhas plausíveis de ressignificação ou transformações. O termo. Por vezes. A permacultura foi criada pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970. explicitando uma prática crítica e realista aos estranhamentos da realidade que se tornou surreal em sua reprodução contínua de padrões insustentáveis. Trata-se de resiliência criativa e design de processos.

que é a regra. no presente. que é a arte. o fenômeno não é fruto de puro acaso. Isso não se diz. se filma. seus germes de futuros soterrados. guerra. se compõe. E então é a arte de viver. Todos dizem a regra: cigarros. Nesse contexto.. a produção de um arquivo “para” e não “sobre” uma experiência artística ou sua 19 . E há exceção. uma compulsão que abarca desde investigações acadêmicas de arquivos existentes ou ainda por constituir até exposições neles baseadas parcial ou integralmente. e mais pela força poética que o próprio dispositivo proposto é capaz de veicular. Ninguém diz a exceção.. Jean-Luc Godard (Je vous salue Sarajevo)1 Uma verdadeira compulsão em torno de arquivos tomou conta do território globalizado da arte nas últimas décadas. Ou isso se vive. urge perguntar-se pelas políticas do arquivo. turismo. isto é.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 19 Arquivomania POR SUELY ROLNIK Se o passado insiste. passando por acirradas disputas entre colecionadores privados e museus pela aquisição desses novos objetos de desejo. É da regra querer a morte da exceção. Isso se escreve. Refiro-me à sua aptidão para fazer com que as práticas inventariadas tenham a possibilidade de ativar experiências sensíveis no presente. uma pergunta logo se impõe: como seria um inventário portador dessa força em si mesmo. camisetas. televisão. computadores. Tais políticas se distinguem menos pelas opções técnicas ou metodológicas que orientam a produção de um arquivo. já que são muitos os modos de abordar as práticas artísticas que vêm sendo inventariadas. Diante dessa proposta. é pela incontornável exigência vital de ativarmos. necessariamente diferentes das que foram originalmente vividas. Sem dúvida. Walter Benjamin (psicografado) Há cultura. se pinta. mas com um mesmo teor de densidade crítico-poética.

seu surgimento. Tais práticas foram incorporadas pela história da arte produzida no referido eixo e estabelecida como pensamento hegemônico que define os contornos do território internacional da arte. apresentação. circulação e aquisição? Pretendo aqui propor algumas pistas para responder a essas perguntas. Mas não são quaisquer práticas artísticas realizadas nesse movimento nas referidas décadas que a compulsão de arquivar abraça. de dois blocos de perguntas. assim como outras igualmente ousadas para os parâmetros da época. O primeiro refere-se aos tipos de poéticas inventariadas: que poéticas são essas? Teriam elas aspectos em comum? Estariam elas situadas em contextos históricos similares? Em que consiste inventariar poéticas e em que se diferenciaria essa operação da que se limita a inventariar objetos e/ou documentos? O segundo bloco de perguntas refere-se à situação que engendra o frenesi com relação aos arquivos: o que causa a emergência desse desejo no atual contexto? Que políticas de desejo impulsionam as diferentes iniciativas em torno de arquivos. na busca de linhas de fuga de suas fronteiras estabelecidas. Seu foco são as várias dimensões do referido sistema: desde os espaços destinados às obras até as categorias a partir das quais a história (oficial) da arte as qualifica. os suportes.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 20 mera catalogação. Estão especialmente em sua linha de mira as propostas que se produziram fora do eixo Europa Ocidental-Estados Unidos. no mínimo. existe um objeto privilegiado por tal ânsia de arquivar: trata-se da ampla variedade de práticas artísticas. com efeito. ao tornar tais deslocamentos sensíveis. reconfiguram integralmente sua paisagem. os gêneros reconhecidos etc. pretensamente objetiva? Problematizar essa distinção depende. que se desenvolvem pelo mundo no transcurso dos anos 1960-1970. agrupadas sob a denominação de “conceitualismo”. seus modos de produção. resultam de um fenômeno que tem início na virada do século XIX para o XX: a acumulação de imperceptíveis movimentos tectônicos no território da arte que atingem um limiar naquelas décadas e se plasmam em obras que. o vírus de que é portadora. mais precisamente aquelas criadas na América Latina em países que então viviam sob regimes militares. A explicitação e a problematização de tais limitações na própria obra passam então a orientar a prática artística. passando pelos meios. Partamos da constatação inegável de que. Essa operação constitui a medula de sua poética e condição de sua potência pensante – na qual reside a vitalidade propriamente dita da obra. É dessa perspectiva que se interpreta e 20 . Essas práticas. É esse o contexto em que artistas posteriormente qualificados de “conceituais” tomam como objeto de investigação o poder do “sistema da arte” na determinação de suas criações.

no caso específico da Europa Ocidental. há uma denegação da experiência da proliferação de uma alteridade múltipla e variável. o que tende a causar certas distorções na leitura das práticas em questão. modifica- -se sua cartografia. de algumas décadas para cá vem se operando uma desmistificação “dessa” história da arte. características próprias ao processo de globalização. pela abertura a essa pluralidade de outros culturais e aos atritos e tensões de seus efeitos no embate com o modo como o novo panorama acontece em cada contexto e nas experiências culturais inscritas nos corpos que o habitam. o que provoca diversos tipos de reação. interagindo num vasto caldeirão de culturas. Há uma ruptura do feitiço que as mantinha cativas e obstruía o trabalho de elaboração de suas próprias experiências com sua textura e densidade singulares e a peculiaridade de suas políticas de cognição. ao contrário. bem como da flexibilidade subjetiva e cultural que essa alteridade demanda. É nessa dinâmica que se delineiam as formas da sociedade transnacional. A versão dessa tendência nos países dominantes é a xenofobia.2 Já no extremo da posição mais ativa produz-se toda espécie de invenções do presente movidas. borram-se seus limites. Por trás do confinamento nessa miragem de uma essência identitária. Para ficar apenas em seus extremos. intensifica-se seu oposto. na posição mais reativa encontramos os fundamentalismos de toda espécie que criam a ficção de uma identidade originária vivida como verdade e que passa a estruturar a subjetividade. esses dois extremos não existem em estado puro: o que há na realidade são diferentes espécies de força que se apresentam numa escala variada de nuances entre o polo ativo e o reativo. À medida que avança uma dessas posições. essa tendência vem se intensificando assustadoramente nos últimos anos. Rompe-se o feitiço Com o avanço do processo de globalização. como um canto do cisne debatendo-se contra a morte anunciada de sua hegemonia.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 21 categoriza a produção artística elaborada em outras partes do planeta. É todo um mundo instaurado pelo pensamento hegemônico que se desestabiliza: transmuta-se subterraneamente seu território. por parte das demais culturas até então sob sua influência. A arquivomania aparece precisamente nesse contexto marcado por uma guerra entre forças que disputam a definição da geopolítica 21 . Evidentemente. Opera-se um processo de reativação das culturas até então sufocadas. gerando efeitos tóxicos em sua recepção e disseminação. introduzindo outras sensibilidades na construção do presente. O fenômeno insere-se no contexto mais amplo de dissolução da atitude idealizadora perante a cultura dominante.

. 2012. São Paulo.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 22 Fotos: A ntonio Brasiliano Primeiro encontro público do NA BORDA no Espaço Matilha.

seja qual for o contexto. Mas por que são especialmente cobiçadas por essa obsessão de investigar. sua face macropolítica. de modo a combater mais eficazmente seus efeitos. e não algo situado em sua exterioridade. por ser mais violenta sua interferência na determinação das ações artísticas. o que as converte em práticas mais próximas da militância do que da arte. A inibição decorre do trauma inexorável das experiências de pavor e de humilhação que lhe são 23 . A categoria foi instituída por certos textos e exposições que se realizaram a partir de meados dos anos 1970. cujo excessivo poder sobre a criação começa a ser problematizado no período. antes mesmo de que sua expressão tenha começado a esboçar-se. é preciso distinguir duas modalidades de presença desse aspecto nas práticas artísticas latino-americanas tomadas pela arquivomania: macro e micropolítica. há um aspecto comum a todas essas práticas. o político constitui um elemento intrínseco à investigação poética. no eixo Europa Ocidental-Estados Unidos. faz-se necessário deter-se na diferença entre ambas modalidades de presença do político nas práticas artísticas. Embora a ação dos regimes totalitários na cultura se manifeste mais obviamente por meio da censura.3 Ela implica a denegação da natureza micropolítica das ações artísticas em questão. que não obstante adquire matizes singulares em cada uma: agrega-se a dimensão política às demais dimensões do território institucional da arte. e que se tornaram emblemáticos. Independentemente do valor que se queira atribuir a cada uma dessas duas modalidades. entre elas. produzir. o problema é que desafortunadamente a vertente macropolítica foi generalizada pela história hegemônica da arte para interpretar o conjunto das propostas artísticas daquelas décadas no continente. muito mais sutil e nefasto é seu efeito micropolítico imperceptível. expor ou adquirir arquivos certas práticas artísticas levadas a cabo naquelas décadas.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 23 da arte. sejam eles de direita ou de esquerda. impõe a urgência de um trabalho de elaboração que explicite as forças reativas que o equívoco dessa qualificação revela. sob a designação de “arte conceitual política” ou “ideológica”. Esse efeito consiste na inibição da própria emergência do processo de criação. É que a política que permeia necessariamente o território da arte em sua transversalidade. torna-se mais explícita em Estados autoritários. Já no segundo tipo de ação. especialmente em contextos de terrorismo de Estado. na América Latina? E por que. Para isso. como tal. entravando seu reconhecimento e sua expansão. preferencialmente as praticadas nos países do continente que então se encontravam sob ditaduras? Com efeito. No entanto. A invenção dessa categoria pode ser interpretada como um sintoma que. mas não por isso menos poderoso. As ações artísticas de ordem macropolítica veiculam basicamente conteúdos ideológicos.

a arte é especialmente atingida. embora indissociável da memória da percepção das formas e dos fatos. A tensão 24 . É uma espécie de experiência do mundo que vai além do exercício de sua apreensão reduzida às formas. distinta. Tal elaboração pode prolongar-se por trinta anos ou mais. esvaziando a subjetividade de sua consistência. então. e somente plasmar-se de fato na segunda ou terceira geração. geralmente protagonizadas pela figura da vítima que os interpreta fazendo apelo a um discurso puramente ideológico). operado pela percepção e sua associação a certas representações. raça. criando novos sentidos. Tais experiências são efeito dos métodos de prisão. a partir das quais se lhes atribui sentido. Experiências desse gênero inscrevem-se na memória imaterial do corpo: memória física e afetiva das sensações. em diferentes contextos. Segue-se um desconforto que mobiliza a necessidade de expressar o que não cabe no mapa vigente. se a força micropolítica da arte só pode ser convocada e revelada a partir de experiências de dor. A especial vulnerabilidade de certos artistas a essa experiência em sua dimensão corporal (aquém e além da consciência que tenham dela ou de sua interpretação ideológica) é o que os leva. tortura e assassinato praticados à exaustão por governos autoritários com toda e qualquer pessoa que a eles se oponha. Caberia perguntar-se. A situação afeta o desejo em seu âmago e o debilita. condição para que a vida volte a fluir. Desentranhar o desejo para livrá-lo de sua impotência constitui uma tarefa tão sutil e complexa quanto o processo que provocou seu recalque e a figura da vítima que daí resulta. com suas respectivas representações e as narrativas que as enlaçam (nesse caso. e mais especialmente ainda quando mobilizadas por situações de opressão macropolítica – seja em regimes totalitários. impregnando a atmosfera de uma sensação aterradora de perigo iminente. religião. gênero etc. pulveriza a potência do pensamento que ele convoca e dispara.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 24 inerentes. deixando- -se tomar pela sensação da disparidade entre as formas da realidade e os movimentos que se agitam sob sua suposta estabilidade. É nisso que consiste a experiência estética do mundo: ela depende da capacidade do corpo de fazer-se vulnerável a seu entorno. o que coloca o corpo em “estado de arte”. Sendo o terreno por excelência no qual se produzem as exceções à regra da cultura. medo e angústia. Seria absurdo pensar assim: temos de nos livrar das pegadas da cilada romântica que alia a criação à dor. a afirmar em suas obras a potência micropolítica imanente à prática artística. seja nas relações de dominação ou de exploração de classe. Qualquer situação em que a vida se vê constrangida pelas formas da realidade e/ou o modo de descrevê-las produz estranhamento. atitude que se distingue do uso da arte como veículo de informação macropolítica.

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por ter sua origem em uma operação defensiva. furando seu cerco e modificando seus contornos. como vimos. tais sentimentos. e é isso que nos causa estranhamento e nos força a criar. A sensação é. o que a distingue dos sentimentos e emoções psicológicas. Estas mantêm assim um poder inconsciente sobre a subjetividade. Para captar tal operação mais precisamente. e é isso que a leva a adotar estratégias defensivas para proteger-se. tornando inacessíveis suas tensões. porta-voz da força de criação e diferenciação que define a vida em sua essência. seu ressentimento e o desejo de vingança. as quais ao mesmo tempo a limitam. que tende-se a misturá-los.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 27 da dinâmica paradoxal entre esses dois modos de apreensão do mundo torna intolerável a conservação do status quo. Encoberta sob o véu de projeções ideológicas. tecido com fios de desejo romântico e emoção religiosa. vale a pena lembrar que a sensação opera no plano corporal inconsciente. esses são sentimentos conscientes do ego. Em situações extremas. em qualquer contexto em que a vida se encontre diminuída em sua potência. Ora. afetos que se mobilizam igualmente em sua recepção e que têm apenas dois destinos possíveis: a esperança de uma redenção alucinada ou a desesperança movida por uma alucinação de apocalipse. É assim que o trauma produzido em contextos ditatoriais pode provocar a substituição do pensamento pela ideologia. o desconforto do estranhamento em questão não vem necessariamente embebido de medo e angústia. a experiência se ofusca. que incluem o autoritarismo e a desigualdade social. portanto. E o corpo não se apazigua enquanto aquilo que pede passagem não for trazido à superfície da cartografia vigente. decorrentes da impotência diante de circunstâncias específicas. como se fossem a mesma coisa. A consequência é a transformação do artista em ativista e sua obra em panfleto portador dos afetos tristes da vítima. como vimos. Esse é o processo que move a criação artística. porta-vozes do ego e sua consciência. o que leva a substituir o pensamento por fantasmas e projeções. O objeto da sensação é o processo que desmancha mundos e engendra outros. No entanto. embora não se limitem a eles. trazem o risco de inibir a potência de criação. Mas não devemos confundi-los: embora o mal-estar da sensação da disparidade entre as formas da realidade e as forças que causam seu desmanche seja também marcado por turbulências difíceis de sustentar enquanto o que pressiona não se resolva em 27 . o qual se dá. contextos que mobilizam sentimentos exacerbados de angústia podem impregnar a tal ponto as sensações do processo em curso. constituindo-se assim numa espécie de “emoção vital”. Tende então a produzir-se um mal- -entendido acerca da relação entre arte e política que. não é fácil desfazer. enquanto o sentimento ou a emoção operam no plano psicológico.

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a natureza de sua potência continua sendo micropolítica. de uma índole totalmente distinta daquela que rege o plano no qual operam as que se aproximam de ações pedagógicas ou doutrinárias de conscientização e transmissão de contéudos ideológicos. embora o que convoca a ação artística nos regimes ditatoriais em curso seja justamente a presença brutal da macropolítica na criação. inclusive em contextos de opressão macropolítica. É por isso que. como é o caso das práticas artísticas aqui enfocadas.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 29 obra. e é isso que lhe outorga uma energia de influência efetiva nos 29 . etc. dissolvendo os elementos tóxicos de sua composição. – é mais essencial e sutil do que nunca. O que orienta o artista. instalação. não são suas formas per se. Por não agirem no plano da experiência estética. Encarnada na obra. Essa capacidade faz da arte um poderoso reagente que. aqui. Contudo. É que a criação abre canais para a afirmação da vida e alimenta a confiança de que ela consegue impor-se até em situações-limite. ético porque implica bancar as exigências da vida para que ela se mantenha em processo. pode interferir na química dos meios em que se insere. ao propagar-se por contágio. o rigor formal da obra – seja pintura. a insistência da força de invenção face à experiência onipresente e difusa de sua opressão tornava-se sensível. a forma aqui é indissociável de seu rigor como atualização das sensações que tensionam e obrigam a pensar-criar. ético: estético porque torna sensível aquilo que os afetos do mundo no corpo anunciam. esse estado produz ao mesmo tempo uma estranha alegria. em um meio em que a brutalidade do terrorismo de Estado tendia a provocar uma reação defensiva de cegueira e surdez voluntárias. Uma coisa não se contrapõe à outra. Um tipo de rigor que é estético mas também. e indissociavelmente. mais vigorosa sua qualidade intensiva e maior seu poder de sedução. por uma questão de sobrevivência. Tais ações artísticas são. escultura. ou ainda de ações socioeducativas de “inclusão”. portanto. Outro mal-entendido que tende a ser gerado nesse mesmo tipo de situação consiste em supor que nas práticas artísticas em que se afirma seu poder político a forma seria irrelevante. nesse caso. é sua escuta à realidade intensiva que pressiona e que só consegue furar a barreira e fazer-se presente se concretizar-se nas entranhas de sua poética. É precisamente essa a dimensão política da arte que caracteriza as propostas mais contundentes realizadas na América Latina durante as ditaduras das décadas de 1960-1970. ao contrário: em tais práticas. separadas do processo que lhes dá origem. o que as torna poderosas e sedutoras. Nesse sentido. estas últimas não têm o mesmo poder sobre o debilitamento do desejo e da subjetividade em sua capacidade pensante. performance. quanto mais precisa e sintônica for sua linguagem. intervenção urbana.

Tal foi o caso de certas práticas artísticas nas mesmas décadas de 1960-1970 na América do Sul. destituído da dimensão estética de sua subjetividade e dissociado do corpo como bússola vital em sua interpretação do mundo e nas ações que daí decorrem. representacional. o qual ao contrário se turva quando tudo que é relativo à vida social na arte volta a reduzir-se exclusivamente a uma abordagem macropolítica – o que. Enfim. essas ações esboçaram a superação da cisão entre o poético e o político. precisamente no ponto em que o desejo tende a tornar-se cativo e a despotencializar-se. Da perspectiva desta 30 . reanima-se o exercício do pensamento e ativam-se outras formas de percepção. e apenas essas. trata-se de um rigor vital que se move na contracorrente das forças que desenham mapas cuja tendência é mutilar a vida em seu próprio âmago – o qual consiste. tende a ser estimulado em situações de opressão por parte do Estado e/ou pela vigência de desigualdade social exacerbada. a arte converte-se numa espécie de medicina: é que a experiência que ela promove é capaz de intervir no processo de subjetivação daqueles que dela se aproximam. se poderiam efetivamente qualificar como “políticas” ou “ideológicas”. Essas práticas artísticas. O conflito extirpa da arte a energia micropolítica que lhe é imanente. como vimos. inconsciente. Ganha-se assim em precisão de foco. em sua insistência em reciclar- -se na criação permanente do mundo. assim como de certas práticas contemporâneas principalmente a partir dos anos 1990 (e não só neste continente). naquilo que podem suscitar nos meios por elas afetados. e neste caso quando a política é introduzida em práticas artísticas ela se reduz ao plano macro. Não se trata aqui apenas da consciência das tensões (sua face extensiva. cuja narrativa passou ao largo da essência das ações aqui privilegiadas: ao atingirem potencialmente a natureza afetivo- -vibrátil da subjetividade e não apenas sua consciência. e a do militante. Quando isso acontece. Uma cisão que se atualiza no conflito entre a figura clássica do artista. macropolítica). novos diagramas do inconsciente no campo social que se atualizam em reconfigurações da cartografia vigente. como vimos. É nesse ponto que se situa o infeliz equívoco cometido pela história (oficial) da arte. mas também e sobretudo.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 30 ambientes pelos quais circula. gerando a figura do artista militante. Delineiam-se novas políticas do desejo e sua relação com o mundo – ou seja. destituído da dimensão micropolítica própria à sua prática. mas fundamentalmente da experiência desse estado de coisas no próprio corpo e dos afetos mobilizados pelas forças que o compõem (sua face intensiva. O caráter político específico das práticas artísticas sobre as quais aqui nos debruçamos reside. Ao atingir esse grau de rigor. micropolítica). portanto. de invenção e de expressão.

Como é sabido. Poderíamos até afirmar que tal articulação constitui um dos aspectos fundamentais da política de cognição que.4 É essa reativação que. Daí que se tenha dado o nome de “contracultura” a este movimento. assim como no campo do desejo (o regime do indivíduo moderno. a violência de sua quase extinção. mas também as diferentes culturas sufocadas no interior do próprio continente europeu. Estes se transmutam irreversivelmente no referido período. cujo alvo não foram somente os outros continentes (América.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 31 figura. é indispensável lembrar igualmente que a articulação entre o poético e o político tampouco tem início com as vanguardas históricas. e as culturas indígenas americanas. o que levou muitos deles a se refugiar no novo mundo que então começava a se construir na América ibérica. Um regime cultural que. caracterizava boa parte das culturas dominadas pela modernidade fundada pela Europa Ocidental. salientemos as culturas mediterrâneas. quando a exceção da arte mostrou-se mais forte do que as regras da cultura. que nos concernem mais diretamente – em especial. Um triplo trauma que funda alguns países latino-americanos. cuja estrutura psíquica Freud circunscreveu sob a designação de “neurose”). ao sofrer o golpe micropolítico das ditaduras. a cultura árabe- -judaica que predominava na Península Ibérica antes das navegações intercontinentais que resultaram na colonização. Embora seja certo que um esboço de superação da cisão entre poética e política já estava em processo nas vanguardas artísticas do início do século XX e avança disseminando-se ao longo da primeira metade do século – e mais intensamente no pós-guerra –. de muito mais longe no tempo. tendeu a recolher-se de volta no silêncio de seu recalque. Não esqueçamos que essa modalidade cultural se impôs ao mundo como paradigma universal por meio da colonização. entre os quais o Brasil. nas décadas de 1960-1970 esta reconexão ganha a consistência de um vasto movimento na arte e impõe-se na cultura no sentido amplo do termo que abarca os modos de existência. África e Ásia). como sabemos. tal violência ocorreu ao longo dos mesmos três séculos em que a África sofreu a violência da escravidão. ela vem. na verdade. a partir desse período os praticantes dessa cultura sofreram a violência da Inquisição. de diferentes maneiras. Entre estas últimas. origem da subjetividade burguesa. 31 . é inseparável de seus corolários no campo da economia (o regime capitalista). O recalque colonial Para tornar mais precisa esta radiografia.5 Ora. as ações artísticas que não abordam a macropolítica direta e literalmente são rotuladas de formalistas.

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constatamos que esse talvez tenha sido seu dispositivo mais eficaz. motor da máquina do pensamento que produz as ações nas quais a realidade se reinventa. Ativar essa aptidão do corpo recalcada pela modernidade constitui uma dimensão essencial de qualquer ação poético-política. a começar pelos arraigados preconceitos de classe e de raça. A operação de recalque faz com que a subjetividade não consiga mais sustentar-se na referida tensão. Três aspectos a caracterizam: o vigor da vibratibilidade do corpo às forças que se agitam no plano intensivo (a experiência estética do mundo). O objeto do recalque é precisamente essa força da imaginação criadora e sua capacidade de resistência ao desejo de conservação das formas de viver já conhecidas. um dos traumas mais graves e difíceis de superar. constituindo. tal operação desempenha um papel central na fundação dessa cultura e sua imposição ao mundo. Sem isso não se fazem 33 . agora situada nesse horizonte histórico. o que no plano micropolítico agravou os traumas já existentes e criou novos no passado e ainda hoje. Reforçando e prolongando esse processo. do ponto de vista micropolítico. tais preconceitos geraram e continuam gerando a pior das humilhações. Remanescentes da política de desejo colonial-escravocrata. Se lemos a colonização sob essa perspectiva. Podemos então supor que o recalque da articulação imanente entre o poético e o político tem seu início com a própria instalação da modernidade ocidental e culmina nos dias atuais com a política de cognição do capitalismo financeiro transnacional. mas sim no invisível dos estados de pulsação vital. o objeto desse recalque é o próprio corpo e a possibilidade de encarná-lo. a sensação mobilizada pela tensão da dinâmica paradoxal entre essa experiência e a da percepção. a ponto de podermos designá-la como “recalque colonial”. Arrisco-me a dizer que. foram se misturando com os anteriores. de que depende seu poder de escuta do diagrama de forças do presente. como a miséria. como principal bússola para o exercício da produção cognitiva e sua interferência no mundo: uma bússola cuja função não é a de situar-nos no espaço visível.6 Vale a pena retomar a descrição da política de cognição que o recalque colonial tem como alvo. provavelmente. o domínio externo e os regimes autoritários. devido à permanência do estigma e sua incessante reiteração na vida social.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 33 Mas a coisa não para por aí: as formas de violência que caracterizaram a época colonial deixaram marcas ativas na memória dos corpos nas sociedades americanas pós-Independência. Em última análise. a exclusão social. outros males no plano macropolítico. desejo marcado por uma política que consiste em adotar o exercício da percepção como via exclusiva de conhecimento do mundo. a potência do pensamento-criação que se ativa quando tal tensão alcança um limiar.

Ambos funcionam hoje como dispositivos de turismo cultural de classes médias altas e elites. O desejo de enfrentar essa pressão e a energia de criação que ela mobiliza tendem a ser canalizados exclusivamente para o mercado. daí que o tenham qualificado como “capitalismo cultural”. Em regimes totalitários. nas quais forja-se uma língua internacional comum classificada como “alta cultura”. fenômeno que o pensamento crítico designou por “bienalização” do planeta. Já no capitalismo financeiro. como vimos. composta por algumas palavras e floreios da retórica do momento. incansavelmente difundidas pelos meios de comunicação. que oferecem uma variadíssima gama de possibilidades para identificar-se. Pelo contrário: trata-se de incitá-lo e até festejá-lo. mas para incorporá-lo a serviço dos interesses exclusivamente econômicos do regime. O recalque em questão se opera por meio de complexos procedimentos que se diferenciam no transcurso da história. igualmente homogeneizadas. gastronomia. uma ideia que já se tornou moeda corrente. exatamente a condição da qual pretendemos nos deslocar. por meio de um processo de identificação simbiótica. Fiquemos apenas nas experiências mais recentes que estamos examinando aqui. por meio da promessa de apaziguamento instantâneo. bem como a proliferação de bienais por toda parte. etc. Incluem-se aqui ofertas específicas de cultura de luxo. o exercício do pensamento é concretamente impedido e acaba por inibir-se por efeito do medo e da humilhação. Esse regime tira vantagem da fragilidade provocada pela tensão entre os dois vetores da experiência do mundo. Isso se opera por vários meios. desencadeia-se uma compulsão de consumo dos produtos a elas associados. alguns nomes de artistas e curadores meteoricamente celebrados pela mídia e um certo “estilo” de comportamento que engloba grifes de moda. É por isso que muitos pensadores contemporâneos consideram que é da força de trabalho do pensamento-criação que o capitalismo contemporâneo extrai sua principal fonte de energia. a operação de recalque é bem mais refinada: não se trata mais de impedir esse exercício e tampouco de almejar sua parcial ou total inibição. Nessa categoria ocupam posição privilegiada certos museus de arte contemporânea e suas espetaculosas arquiteturas. design. e nela se inscreve. O desejo é capturado por algumas dessas imagens que ele seleciona e. destituindo-o assim da força disruptiva imanente a sua poética.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 34 senão variações em torno dos modos de produção de subjetividade e de cognição que nos fundam como colônias da Europa Ocidental. com o objetivo de realizar em nossas existências o mundo 34 . entre os quais o mais óbvio é a incitação da subjetividade a uma caça de imagens de formas de viver prêt-à-porter que povoam a cultura de massa e a publicidade. “cognitivo” ou “informacional”.

muito menos. que fica à espera de encontrar condições para reativar-se e escapar a seu confinamento. iludidos pela promessa de admissão numa espécie de paraíso terrestre. mantenha um poder estável e. agora em sua versão neoliberal. não é unicamente a instrumentalização de nossas forças subjetivas pelo mercado. Já não estamos em um momento de oposição e ressentimento. 35 . isto é. Entretanto. O destino da proliferação de imagens- -mundos que aparecem e desaparecem sem cessar numa velocidade vertiginosa. absoluto. propiciada pelo desenvolvimento das tecnologias da comunicação. O que atrai o desejo e faz com que se deixe fisgar por essa dinâmica é a miragem de sermos reconhecidos e nos reconhecermos em alguma das mises-en-scène oferecidas pelo cardápio do dia. veremos que seu efeito é também o de tornar impossível que um repertório. O retorno do recalcado Há. quando isso se faz necessário. seja ele qual for. em maiores ou menores deslocamentos do lugar da humilhação e da consequente submissão ao opressor. mas também a memória da vivência da referida articulação. no entanto.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 35 que veiculam. e nossa capacidade de invenção desvia-se de seu foco primordial: abrir novos caminhos para que a vida volte a fluir. A intenção é nos livrarmos da angustiante sensação de esvaziamento de si e recuperar nosso valor social supostamente perdido. O movimento atual consiste. como num passe de mágica. manter essa ilusão tem seu preço: com a instrumentalização do desejo. a qual vem ocorrendo nas últimas décadas. Se acrescentarmos a isso a polifonia de culturas que pode ser ouvida e vivenciada a toda hora em qualquer ponto do planeta. um avesso desta dinâmica: não é apenas o trauma da articulação entre poético e político causador de seu recalque que se encontra inscrito na memória dos corpos que habitam as regiões sob o domínio da cultura dominante. justamente. a demanda de amor – que. nem de seu avesso: a identificação e o pedido de reconhecimento. tal como evocado no início deste texto. é sintoma de uma subjetividade humilhada que idealiza o opressor e depende de seu desejo perverso. nesse caso. Essa impossibilidade é uma das causas da quebra do fascínio e da sedução exercidos pela modernidade europeia e norte-americana. Uma situação desse tipo se apresenta na própria vivência do estado de coisas na atualidade. perde-se o faro para rastrear a pulsação vital e seus entraves. Tais condições se apresentam em certos tipos de situação social que favorecem a neutralização dos efeitos patológicos de seu trauma na condução da existência e seus destinos. buscando ativar o que foi recalcado em nossos corpos.

a conduzir as reinvenções da cartografia do presente. Como vimos. É que. o que levou parte da geração que o criou a uma espécie de caça ao tesouro nessas regiões. ao que se seguiu sua reanimação perversa pelo capitalismo cognitivo que os sucedeu. ou na inflexão contracultural dos anos 1960-1970. sob um manto de esquecimento.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 36 Seria estúpido pensar que o objetivo dessa volta ao passado é “resgatar” uma suposta essência perdida que se encontraria nas formas de existência africanas. no contexto atual. vivenciado e atualizado em ações artísticas. É que se. aqui. nos anos 1960-1970. É precisamente nesse contexto que irrompe uma vontade incontornável de fuçar arquivos existentes ou constituir novos a partir dos rastros das práticas artísticas realizadas na América do Sul. bem como nos modos de existência 36 . encontra-se hoje igualmente recalcada naquelas regiões. indígenas ou mediterrâneas anteriores ao século XV. Tal movimento caracterizou-se justamente por essa tendência a idealizar uma suposta origem perdida. o exercício da ética do desejo e do conhecimento que regia aquelas culturas e suas atualizações: zelar pela preservação da vida. a experiência da fusão das forças poética e política vivenciada nessas práticas havia permanecido encapsulada na memória de nossos corpos. que parece ter escapado à história da arte. da própria ética em questão. com as ditaduras. O equívoco tóxico da história (oficial) da arte É esse o aspecto crucial da produção artística dos anos 1960-1970. uma ética que. na contramão das operações que reiteram seu recalque. assim mesmo. peculiaridade que na prática ampliou seus limites e transformou potencialmente seus contornos. que depende da viabilidade da experiência estética para escutar seus movimentos e adotá-los como baliza na orientação da existência. reconectar-se com esse exercício não passa pela reprodução das formas que essa ética teria engendrado no passado. é inaceitável rotulá-lo como “ideológico” ou “político” para caracterizar a peculiaridade que ela terá introduzido nessa categoria. encontramos nessas propostas um germe de integração entre o político e o poético. de maneira lacunar. Ora. mas sim pela ativação. sua força disruptiva – e o que ela desatou e poderia continuar desatando em seu entorno – ficou soterrada por efeito do trauma que lhe causaram os governos militares. somente conseguíamos acessá-la na exterioridade das formas nas quais se plasmava e. de fato. no continente. o objeto da reconexão com esse passado é. Ainda que mantenhamos essa produção sob o chapéu do “conceitualismo”. vontade que se dissemina como uma verdadeira epidemia. No lugar disso. como se seu passado estivesse ali resguardado em “estado puro” e pudesse ser “revelado”. diga-se de passagem.

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para nos proteger do incômodo ruído. A operação tem o poder de devolver esses germes à penumbra do esquecimento. criar. ao mesmo tempo que nos dá a pista do objeto que ela visa. exigindo um trabalho de recriação de seus contornos e do mapa de suas conexões. igualmente. o classificamos no domínio da macropolítica e tudo volta ao seu lugar. Eis o contexto que. de diferentes maneiras. como condição para alcançar um novo equilíbrio. Ignorá-lo implica o bloqueio da vida pensante que dá impulso às ações artísticas e da qual depende sua influência potencial nas formas do presente. desencadeia uma série de iniciativas geradas pelo fervor de pesquisar. expor e/ou possuir arquivos que tomou conta no território da arte. captadas por sua capacidade vibrátil. chamá-lo de “ideológico” ou “político” é o sintoma da denegação da exceção que essa experiência artística radicalmente nova introduziu na cultura e o estado de estranhamento que isso produziu nas subjetividades. com ele. o sistema global da arte as incorpora. o germe era então todavia frágil e inominável. Denega-se a dimensão micropolítica imanente à arte. aborta-se o germe de sua ativação e.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 39 que se criaram no mesmo período. Nesse estado de coisas. É precisamente tal denegação o elemento tóxico contido nas tristes categorias estabelecidas pela história da arte para interpretar as propostas artísticas em questão. Ora. para transformá-las em fetichizados espólios de uma guerra cognitiva disputados pelos grandes museus e colecionadores da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Se o movimento 39 . uma política de desejo diametralmente oposta: no exato momento em que tais iniciativas reaparecem e antes que os germes de futuro que traziam incubados tenham voltado a respirar. a desestabiliza e a inquieta. impõe-se a urgência de ativar a articulação intrínseca entre o poético e o político. e a força de afirmação da vida que dela depende. no melhor dos casos. A estratégia defensiva é simples: se o que aí experimentamos não é reconhecível no domínio da arte. permanece incubado. então. No entanto. Um espaço de alteridade que se instala na subjetividade. e isso faz dela um eficiente dispositivo do capitalismo cognitivo. aquilo que está por vir – que. A gravidade dessa operação é inegável se lembrarmos que o estado de estranhamento que a exceção da arte instaura constitui uma experiência crucial. Como sugere Godard. Essa é a condição para que o desejo se livre de seu debilitamento defensivo. essa é a força reativa que o sintoma de seu equívoco revela. “é da regra querer a morte da exceção”. em função da experiência vivida pelo corpo vibrátil no tempo presente. essa mesma situação mobiliza. pois ele resulta da reverberação da multiplicidade plástica de forças do mundo em nossos corpos. de maneira a viabilizar a expansão vital.

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mas são parte integrante de sua dinâmica. e os colecionadores não têm por que privar-se do desejo de conviver com obras de arte e apreciá-las. Mercado e museus não constituem uma extraterritorialidade da arte. zelar por sua preservação e disponibilizá-las ao público. inclui entre seus principais dispositivos muitos museus de arte contemporânea e a proliferação de bienais e feiras de arte. A vida não pode ser regida por uma moral maniqueísta que divide as atividades humanas em boas e más. quando seus interesses ganham demasiado poder sobre a criação artística e tendem a ignorar suas poéticas pensantes. soterrados nas poéticas que tomam como objeto. o que contribui para que ela tenda a funcionar unicamente a favor de seus desígnios.. É aqui que ganham relevância a política de produção de arquivos e a necessidade de distinguir suas múltiplas modalidades. a força crítico-poética de tais arquivos pode somar-se às forças de criação que se apresentam em nossa atualidade. Com isso. tampouco se trata de demonizar os museus em suas importantes funções de constituir acervos das produções artísticas. O desafio das iniciativas que pretendem desobstruir o acesso indispensável aos germes de futuros. pois os artistas precisam ser remunerados por seu trabalho. Um critério ético de avaliação. de cuja perspectiva o que importa é o quanto tais produções são instigadas pelo desejo de inscrever 41 . Uma operação que não acontece apenas no âmbito da arte. críticas. e não em um suposto território imaginário idealizado. Uma operação muito distinta dos procedimentos grosseiros e truculentos exercidos contra a produção artística por governos ditatoriais. o que conta é o combate entre forças ativas e reativas em cada campo de atividade. que devem ser pensadas as produções artísticas. criando assim as condições para uma experiência de igual calibre no enfrentamento das questões que se colocam na contemporaneidade. nos diferentes tempos e contextos que o atravessam.7 É óbvio que não se trata de demonizar o mercado. em toda a sua complexa transversalidade. ampliando seu poder no combate aos efeitos da vacina tóxica do capitalismo cultural que neutraliza o vírus da arte. museológicas e arquivistas. É assim também no território da arte: é nas forças que o regem. mas que nesse campo específico se dá por meio do mercado e.. a cada momento. no preciso momento em que sua memória começa a reativar- -se esse processo é novamente interrompido.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 41 de pensamento crítico que se deu intensamente nos anos 1960-1970 na América Latina foi brutalmente interrompido pelos governos militares. Um novo capítulo da história. agora com o requinte glamoroso e sedutor do mercado da arte. curatoriais. consiste em ativar sua contundência crítica. nem o colecionismo e as galerias que lhe são inerentes. no entanto não tão pós-colonial quanto gostaríamos. como evocado anteriormente.

cujo veloz alastramento pelo Brasil causa preocupação. que inventa uma ficção de autenticidade. enquanto outros se desfazem. impõe a obediência a uma moral implacável. do qual resultam as formas sempre provisórias da realidade. Podemos situar igualmente aqui o movimento evangélico. a identidade originária é substituída pela ficção do criacionismo. Esse movimento partilha com os fundamentalismos uma política de estruturação social e subjetiva extremamente rígida.youtube. nem o vírus transmissível de que é portadora qualquer obra de nosso tempo. os fundamentalismos islâmicos que se espalham pelo Oriente e a África do Norte. 42 . entre outros. O que pode a arte é lançar o vírus do poético no ar. assim como os da ortodoxia judaica. o processo de reativação da potência vibrátil de nosso corpo atualmente em curso. de Micropolítica. contribuindo assim para preservar o exercício da “arte de viver” em seu traçado polifônico. que retira do humano seu poder essencial de invenção do mundo e. França. Esse é o esforço do trabalho do pensamento: quer ele se apresente na arte ou em outras linguagens. cujo parâmetro é o modo de viver das pequenas aldeias de judeus religiosos na Europa do Leste nos séculos XVIII e XIX. os quais sempre desembocaram em regimes totalitários. por mais poderosa que seja. embora ainda em seus inícios. disponível no Youtube: http://www. e que nos separa daquele período. ela reside exatamente na possibilidade de abandonar os velhos sonhos românticos de “soluções finais”. Câmera: Izet Kutlovac. em sua construção interminável. Sempre haverá a cultura que é a regra e a arte que é a exceção. 1.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 42 a exceção da arte na cultura globalizada. Nesse caso. Cartografias do Desejo. já nos permite entrever que não há outro mundo senão este. Ora. Vídeo dirigido e editado por Jean-Luc Godard. Se houve uma conquista micropolítica significativa após os movimentos dos anos 1960-1970. Texto de Jean-Luc Godard narrado pelo próprio cineasta. Mas não sejamos ingênuos: nada garante que o vírus crítico- -poético de que são portadores os mencionados germes vá de fato propagar-se feito epidemia planetária. sejam elas utópicas ou distópicas. SUELY ROLNIK É professora titular da PUC São Paulo (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade - Pós-graduação em Psicologia Clínica) e coautora. Incluem-se nessa política de desejo. Música original: Arvo Pärt. e que é de dentro de seus impasses que outros mundos podem ser inventados a cada momento da experiência humana. 2006. com Felix Guattari. em seu lugar. sustentada pela crença nas ideias de verdade e redenção. sua tarefa é a composição de cartografias que se desenham ao mesmo tempo que tomam corpo novos territórios existenciais. 2. 1993. E isso não é pouca coisa no embate entre diferentes tipos de força.com/watch?v=LU7-o7OKuDg. Versão curta: 2ʼ15ʼʼ.

ressentimento e arrependimento só fazem impedir a fruição de novas constelações dessa qualidade. Massachusetts: MIT. Luis Camnitzer e Rachel Weiss. (Ed. a 30% da população branca no Rio de Janeiro. em sua constante ladainha. 43 . 5. Tais dados. a historiadora Anita Novinsky comenta: “apesar de documentos diversos confirmarem a vinda de numerosos cristãos-novos para o Brasil. O comentário vale igualmente para o outro coro de carpideiras da mesma geração mas provenientes do ativismo macropolítico que. lamentam o suposto fracasso ou erro das formas de militância praticadas naquele período. Madri: Comunicación. 7. também nesse caso. para ressaltar que ele não se reduz à colonização. Nas investigações realizadas por minha equipe de pesquisadores da USP. do qual tenta agora reerguer-se. Entre as exposições. e a Documenta nasceu da exigência de reabrir os poros da pele social alemã para a respiração da potência crítico-poética sufocada pelo nazismo. que elas tampouco reconhecem. Há que distinguir desse fenômeno as bienais de Veneza e de São Paulo. O que não morre. momentos raros de vitória das forças ativas na vida social. Para nos limitarmos aos principais autores a partir dos quais se estabeleceu esse tipo de interpretação. 6. Prejudicada pelo golpe que essa potência sofreu por parte da ditadura. M. as quais levaram ao desenho da paisagem em que se confrontam novas forças na atualidade. Assim como constituem objeto de um ritual de iniciação das classes médias e altas destinado a obter um passe de admissão nos camarotes da economia globalizada. alinhando-se assim aos vetores mais ativos que por toda parte promovem deslocamentos nessa triste paisagem. A Bienal de São Paulo é um dos dispositivos que deram sustentação à rica produção artística das décadas de 1950- -1960 no Brasil. A sugestão é pertinente. Provenientes dessa experiência micropolítica e paralisadas pelo trauma. J. Estados Unidos). em um processo de imigração ininterrupta durante três séculos. 1999) e o colombiano Alexander Alberro (Conceptual art: a critical anthology. é a potência de criação de novas formas que volta a mobilizar-se quando isso se faz necessário. Miami Art Museum (Miami. organizada em 1999 no Queens Museum por um grupo de onze curadores encabeçados por Jane Farver. bienais e feiras de arte converteram-se igualmente em equipamentos privilegiados de poder das cidades para inserir-se no cenário do capitalismo transnacional. Não seria esse o papel da arte? Os afetos tristes de culpa. a qualificação de “colonial” permite lembrar o modo de existência que nos funda culturalmente e que ainda hoje nos estrutura. Mais da metade da população branca da classe média era constituída por portugueses de origem judaica” (resposta de Anita Novinsky às perguntas enviadas pela autora deste texto em e-mail datado de 14/12/2010). Rio Grande do Norte e Ceará. aproximadamente. as forças ativas que agitaram aquele movimento são as que prepararam o terreno para os inegáveis avanços políticos. A esse respeito.. após leitura deste texto. destacamos Global Conceptualism: Points of Origin. mas preferimos adotar uma política de produção de conceito baseada na força afetivo-vibrátil que ele carrega consigo. como assinalado no corpo do texto. 4. sociais e econômicos que o Brasil conquistou na última década. a Bienal de São Paulo encontra-se atualmente num impasse: ou desperta o germe da força que a fundou. chegamos. fruto de forças totalmente diferentes das que vêm bienalizando o planeta. que lhe são anteriores. não são comprovados por pesquisas historiográficas. 1950s-1980s. BIRD. as carpideiras contraculturais se agarram às formas que a potência de criação inventou na época e ignoram as forças que lhes deram origem. 1974). In: NEWMAN. É também por essa razão que devemos insistir na visão micropolítica no debate que vem se travando nas últimas décadas em torno do chamado “pós-colonialismo”. A ideia equivocada de que a contracultura foi um erro e de que teria fracassado é fruto de uma política de desejo melancólico próprio de carpideiras. sugere que deveríamos chamar esse fenômeno de “recalque histórico”. A figura da vítima na qual ficaram confinadas as impede de ver que. A eleição de Dilma Rousseff à Presidência do país é um dos sintomas do destino da poderosa experiência macropolítica que caracterizou aquele período. então diretora de exposições do museu. assumindo uma linha de fuga no processo de bienalização do planeta. apesar de suas feridas. Bélgica). o inglês Peter Osborne (“Conceptual art and/as philosophy”. seu número deve ter sido muito maior. refugiados da Inquisição. As formas têm que morrer quando não correspondem mais às forças que pedem passagem no presente. 1999). ou simplesmente submete-se a ela. contudo. A historiadora Maria Helena Capelato. não se conta ainda com dados seguros para precisar sua porcentagem. Nos estados da Paraíba. Estados Unidos) e Stedelijk Museum voor Actuele Kunst (Gent. Chega-se a estimar em 80% a proporção de judeus e árabes entre os portugueses que vieram para o Brasil com a colonização. destacamos o espanhol Simón Marchan Fiz (Del arte objectual al arte del concepto. A exposição teve itinerância nos seguintes museus: Walker Art Center (Minneapolis. Nesse sentido. Londres: Reaktion Books.) Rewriting conceptual art. da qual dependem seus efeitos. identificando-se a seus vetores reativos e apagando definitivamente sua origem.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 43 3. mas se desdobrou em inúmeras reconfigurações ao longo dos cinco séculos de história do país e ainda hoje persiste. Especialmente as duas últimas têm origem nos anos 1950. contribuindo assim para que reconheçamos sua presença ativa em nossa subjetividade e possamos combatê-la. bem como a Documenta de Kassel. museus de arte contemporânea.

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ao erro e ao não dar certo. à surpresa.Iniciamos esta roda com o espaço em bran- co! Instaurando um espaço de reinvenção. uma roda com entra- das e saídas: ao acaso. .

Nossas receitas estão inacabadas e o coração sempre aberto ao porvir. interesses e trajetórias que têm em comum a necessidade de problematizar política e esteticamente os modos de vida no ambiente urbano. 2012. é um coletivo de autogestão formado por pessoas de diversas profissões. Temos muito mais dúvidas do que respostas. . organizações e demais iniciativas com- prometidas com a criação no aqui e agora de formas de vida mais alegres. a tecnologia. que relâmpa- go. a antropologia urbana. ( ) Aqui e Agora! (3 borrifadas) Aqui e Agora Aqui e Agora ( ) Um brinde aos recém-chegados. em 2012. o urba- nismo. mesmo que vazia. oito anos de existência. Experiência Imersiva Ambiental. Agente Marieta utilizando os elixires durante ação urbana “Cartada” no largo Santa Cecília. que muitas vezes justificam ações ur- banas com uma boa e bela retóri- ca. de como sair bem na foto. o meio ambiente. Diluímos as receitas de como fazer bonito. que levem em conta a complexidade de uma cidade tão múltipla quanto São Paulo. como a arte. Estamos em sintonia com redes de pessoas. instituições. Completando. que fantasiada de coletividade. o EIA desenvolve frentes de ação que fazem conver- gir temáticas de diversos campos. entre outros. colaborativas e criativas. O EIA. os movimentos sociais. realizada conjuntamente com o Projeto Matilha e Ocupeacidade durante a fase de intervenções do projeto NA BORDA. a comunicação.

entrando no coletivo. o EIA depara-se com vícios. com a falta de tempo. Um presente ainda que a ação já fosse outra. saindo Por que pensar/agir a intervenção urbana e produção do coletivo. DDU DDU 10 borrifadas e DDU Vícios na forma de se apresentar. ficção para desaprender. não Principalmente para o EIA. Hábitos na pers. para inven. Necessitamos desta sempre mais imerso na experiência. O EIA estava DDU DDU bastante viciado no termo “espaço DDU.diluidor de densida. coletiva hoje? tendo filho. deixando espaço para o desconhecido. Mas se abre. na roda. afinal. a pélvis o segregadora. enquanto a vida vai nos atropelan- “Como pensar/agir a intervenção urbana e a produção do. costumes. mais manipuladora.. Pessoas do EIA mudando de cidade. Dilatador de pectiva com que cada coletivo analisa a cidade. para não saber. sem esquecer as de ação? A cidade ficando mais di- reentrâncias. hábitos.. mais insustentável. Confiança podemos afetar e sermos afetados. que está está pronta. O topo da cabeça busca o céu. nos colocamos mais algumas perguntas: questões e urgências.. inserindo novas coletiva hoje?”.. ( ) política. Entrega Qual é. Pesos que uma história traz. público”. Afirmamos: seja lá o que for a Agência Ficcional. nossa atual escala Untar o corpo todo de escuta. Nosso objetivo era Convidamos os leitores a se entregarem ao jogo de se instalar e problematizar o “espaço despir de si. produzindo somente como que tar e sustentar o que sempre desejamos: experiência! textos-rastros. Do que nos damos conta? Em que condições ( )( )( ) nossa experiência pode acontecer? . a política em concha iniciando pelos pés e chegando à da prefeitura tornando-se mais cabeça. nos solicitando. está sendo criada. a atualidade. indo morar com o(a) O que é intervenção urbana e produção coletiva? namorado(a). Leves batidinhas com as mãos fícil. nem sempre esta elaboração mais discursiva vem junto com a prática. público”. Norteados pela pergunta-chave do projeto NA BORDA. Colamos nesse discurso Um desconhecido em relação. ficando doente. a Dilatador tempo 3 borrifadas de Tempo Ingredientes para qualquer lugar ( ) Um co(r)po repleto de presença Situações que certamente influem Uma pitada de ousadia no quanto. Nossas ações eram no des urbanas (5 borrifadas) ( ) “espaço público”. com qual intensidade. poucas palavras que já nascem um pouco velhas. mais de fachada. turbulências com a cida- Elas são fruto de quais necessidades? de. sem Em que contexto elas acontecem? dinheiro. chão: espinha ereta e três respirações profundas. go O que nos move a pensar/agir a intervenção? ( ) ade Atiçado pelas perguntas.

mas que a história acumulada em oito anos de trabalho teimava em nos atribuir. integrante do coletivo Ocupeacidade. nosso senso de “maturidade”. Criando um continente coletivo para desejos e agentes sucumbidos pelo status quo. de “equacionar”. com os esgarçamentos. a alegria e a preponderância da ação com as quais trabalhávamos juntos des- de 2004. como. ou encontros que só aconteciam sob demanda. decidimos investir em microestruturas. Até mesmo porque as táticas do grupo já eram outras. a palavra-chave era a mesma: “espaço público”. Abrin- do espaços para populações internas oprimidas por convenções sociais e nossas identificações com a realida- de. ( ) Diluidor de Identidade (3 borrifadas) ( ) Diluidor de Identidade As autocríticas. na relação escala um para um. tinham que sustentar papéis que já não serviam. Neste contexto. Precisávamos de um olhar mais fresco. mas ainda assim latentes. Ainda assim. É verdade que. emergiam trabalhos/processos pungentes. mas. sobre nosso processo/trabalho. Palavra que se esvaziou. o tempo das reuniões minguou de en- contros semanais para raros encontros. 2012. e as avaliações sobre nossas ações na cidade já haviam se tornado mais difíceis de responder. Uma constância de encontros presenciais que facilitavam nossa conexão. a palavra crise que sempre vinha nos questionar nos entraves das reuniões estavam tirando a agudez. menos acostumado. Até 2008. que aos poucos se torna Agente (nós). mas que é necessária se queremos reunir mais corpos. nos sentimos engolidos pelos esgarçamentos do cotidiano. Assim como muitos outros coletivos. um olhar dos agentes ficcionais. estavam pesadas. na hora de falar sobre o EIA. a Expedição Espeleológi- ca na EXPOFAU. Com a Agência Ficcional. por exemplo. a confiança. quando encontrávamos forças e disponibili- dade interna para sermos afetados uns pelos outros e pelos contextos que nos surgiam. As identidades dos participantes do coletivo já não nos bastavam. Lançamos a pergunta “E o que pode acontecer se eles se conhe- cerem e se encontrarem?” Tião. . a Agência Ficcional surge como uma tática de reinvenção do EIA e dos modos de subjetivação. se que- remos nos afetar reciprocamente. mesmo sob essas condições. nossa ação. que aos poucos ia oprimindo disponibilidades e presenças. tomando elixir diluidor de identidade no largo Santa Cecília. tínha- mos reuniões semanais. Agudez que não se pode quantificar.

... ( )

E quando não há espaço para
intervenção, e quando não há local
específico de interesse? E quando
o lugar de interesse é nossa vida, a
forma como estamos inventando
nossas existências?

( )

E quando o nó(s) se desfaz? E não
há encontro?

( )

E quando o lugar de interesse é o
encontro e nos deparamos com a
impossibilidade do encontro?

(  )... Kit de primeiros socorros dos estados de coletividade. Leia mais informações
na caderneta do agente.

Criar/dar espaço para outros eus que possam se encontrar foi a opção. E logo percebíamos
que os dispositivos e formas que desenvolvíamos no fazer, a partir desta vontade de gerar o
encontro, iam desenhando outros contornos possíveis, sobrepondo-se às impossibilidades.
Surge, então, a Agência Ficcional como possibilidade de gerar novos encontros, agenciá-
- -los. Encontros em que nós não estaremos presentes. Não precisamos estar presentes.
Podemos nos infiltrar no presente de outros e auxiliá-los a gerar e manter os estados de
coletividade. Surgem os elixires, a caderneta, e logo o kit completo: dispositivos auxiliado-
res da manutenção de estados de coletividade.

Expedição Espeleológica na EXPOFAU – 2010
Depois de uma perplexa visita à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
(FAU) da Universidade de São Paulo, surgiu a ideia de “escrachar” a situação
vergonhosa das infiltrações evidentes no prédio. Bolamos a I Expedição Espeleológica.
Montamos uma barraquinha de turismo urbano e, com um megafone, convidamos
os interessados a se reunir dali a algumas horas para a Expedição. Providenciamos
equipamento de segurança para todos: capacetes, lanternas de cabeça, binóculos, vidros
para coletas de amostras e máquinas fotográficas. Reunimos um grupo de cerca de
trinta pessoas e saímos pelos andares da FAU reconhecendo as estalactites e
estalagmites que absurdamente se formam no teto e no chão da Faculdade.

( )
Bem-vindo à Agência Ficcional!

24/07/12 13:43 CADERNETA-print-recorte 1

Sugestão de novo elixir: Habilidade:
Saturações Atuais: Desejo:
Local/ temática de interesse: Nome do agente (s):

Tipo de Reação Contexto Elixir Usado Saturações

do uso de elixires
Acompanhamento

E
specializada em diluição de identidades e
conspirações coletivas. A Agência Ficcional tem o
objetivo de instaurar e fortalecer estados de
coletividade e espaço/tempo desabituais na vida cotidiana
das pessoas. Propiciamos a qualquer cidadão interessado a Agência Ficcional
possibilidade de abrir mão temporariamente de sua
identidade habitual, criando para si um agente ficcional. O
agente ficcional é aquele que tem mais condições de atuar em
consonância com seus desejos, conectando-os com os
desejos de outros agentes e convergindo-os em ações
coletivas. A Agência Ficcional funciona como plataforma de
reunião destes agentes e desejos e é propulsora de
habilidades adormecidas. Potencializamos encontros e
dispomos de dinâmicas e dispositivos magnetizadores de
estados coletivos e mantenedores do estado de
disponbilidade e presença.

Bem vindo a Agência Ficcional!
Para os que não cabem em si !
Transborde…

Agência Ficcional
CADERNETA

http://agenciaficcional.wordpress.com

eles são imprevisíveis e potenciais. Entretanto. revoluções. quando quase A Agência torna-se uma platafor. eficientes. do que está cultural. Há também cartas em branco para que os participantes criem novas performances e dinâmicas. aos poucos. a pes. a gentrificação no centro e agenciar. de si e entrar num novo estado. nossas percepções. a política de moradia desu- atualizar desejos possíveis. portáteis e potente e transformadora. As cartas são colocadas e retiradas. e descobrimos nossos corpos. curio- diversas e aparentemente “sem samente ou não. mas acionados nas circunstâncias mais a partir do que emerge do Momentum. vem num grito a pergunta ma para o encontro. Cada elixir estranha onda poética possa nos acometer. que nos dispomos a especulação imobiliária. O performer usa uma saia/traje amarela com diversos bolsos transparentes. “E quais são as condições para isto?” O kit de elixires facilita este despir-se Passamos a apostar em processos/acontecimentos da identidade. ainda precisando permissão para investigar-se e também serem cuidados para que haja reinvenção possí- reinventar-se. transformando soa torna-se permeável ao presente. este possibili- ta que uma atmosfera do JOGO RISCO seja lançada no ambiente. torna-se física e da criação de condições para que a sempre uma chave de acesso. à possibilidade do sair de controle – são as catarses. dependem de nossa presença mente encravado na alma. escuta e legitimação dos delírios. cada vez com mais força. ( ) preconfigurada e aceita socialmen- te. que mana e a mentalidade fascista daqueles que dizem transbordam de nossas identifica. sendo abre uma porta e. a dos desejos. subjugados a essas forças. Também funciona como disparador de memória coletiva e o utilizamos como forma de apresentar o EIA através de cartas com palavras-chave.Ficcional é apenas um pretexto para Não são apenas as grandes ordens apreensíveis no criar mundos. Processos/acontecimentos que se atentam não a Além disso. ativando uma coletividade fora ao encontro. Um passe permissivo para outras partes da cidade. ( ) SEU SAIA É um dispositivo-indumentária a ser vestido. o que. maior que nós. produz a crítica que nos parece mais saída”. ções com a realidade corriqueira. para emergir o campo cenário macropolítico da cidade. continente de “como podemos seguir?”. para ganhar vida. os elixires podem ser partir dos grandes temas e problemas da cidade. que guardam cartas com sugestões de performances e dinâmicas coletivas. . nossos pensamentos ainda potentes. trabalhar pela segurança na cidade que nos afetam. Ativado pelo corpo que o veste: ao tra[ns]vestir o SEU SAIA. pois são discretos. Os encontros entre Tais configurações urbanas ainda estão em jogo. ultrapassando pele. vel. pajelanças. que. podendo ser sugeridas ou executadas por qual- quer pessoa. DDU 10 borrifadas ( ) outros secretos. como o trânsito. DDU alguns ainda permanecem ocultos. Cada agente está em formação.

Agentes Alpha. . Psy Soma. Marieta e Elza cadastrando novos agentes na Unidade Móvel da Agência Ficcional durante a abertu- ra da exposição NA BORDA no SESC Consolação.

Intolerâncias relativas a condi. DDU. lembrando que o último não dever 6.wordpress. Logo pegue as recomendado para fechar encontros presenciais e manter a personalidade agudos. Uma vez experienciado você poderá utilizá-lo e separadamente.I. 1 ampulheta. Outra combinação indicada 5. elas 8. 4. Este elixir Em caso de superdosagem algumas Abra o kit e confira todos os itens. hiperativo e reflexos de múltipla cada um deles.dilatador de tempo: muito usado em centros urbanos e Empiricamente desenvolvido para comprovam que doses periódicas momentos de acúmulos de afazeres e/ou hiperativismo ativar e manter estados de de elixires podem fomentar agudo. 8 irreverentes e irreversíveis [E. pessoa durma de lado ou tenha manejo. Instaurar processos insurgências nômades e meio- de ritualização e descondi. Se relacione intuitivamente com mulheres apresentam quadro 7.depurador de desejos: elixir indicado para agentes é Diluidor de Identidades com recém iniciados e/ou que ainda não tem tanta clareza de seus Depurador de Desejos e desejos.propulsor de habilidades: elixir auxiliar no resgate e cionamentos e convenções. O Aqui Agora e o experimentos até a data presente. alterando nossos estados de humor e dificultando nossa Indicação: Precauções: presença e disponibilidade. impressas em nossos corpos de memória e anestesiados pela vida social capitalista. Depois de síntese de intensas vivências e experimentações em processos coletivos. que se apresentar ao agente. apatia. caso a elixir dilatador do tempo. escolhido. anteriores. Sugerimos no início o uso na ordem descrita abaixo. Pronto está ativado e apto para ser borrifado/uso externo e/ou via oral/uso interno. ser utilizado sem a utilização dos manifestação de habilidades adormecidas.aqui e agora: elixir da chegança. Recomendamos utilizá-lo primeiro. si. Este kit é a a utilização. difundi-lo em diferentes contextos e com as mais diversas pessoas. Uma vez experienciado você poderá utilizá-lo e em questão e reiteramos o contato olhos nos olhos.fórmula pessoal: Composição pessoal dos elixires Diluidor de Identidades e do serão acionadas pelas mandalas descritos acima e/ou novo elixir canalizado para o contexto Propulsor de Habilidades. 8 elixires. é indispensável para compor e atualizar a inteligência coletiva. Informações ao agente: recomendado para auxiliar na diluição da atmosfera carregada e densa que costuma grudar em nosso campo energético. provoca vício. Pode ser difundi-lo em diferentes contextos e com as mais diversas pessoas.diluidor de identidades: elixir para despir-se de si. saberes e práticas Desterritorialização. Este kit é a brinde com o elixir na chegada de cada integrante ao recinto síntese de intensas vivências e experimentações em processos coletivos. ELIXIRES (Mandalas Ativadoras) (COMPOSIÇÃO) e entregar-se ao momento… coloque o frasco encima da mandala e preencha-o com a solução a gosto. porém experiências 3. Em seguida escolha uma de convergi-los em ações e composições coletivas. Catalisa a conexão do agente com seu desejo. Repita o ritual com cada elixir. desinteresses e dispersão. ELIXIRES (COMPOSIÇÃO) BULA ATIVADORA Descrição: O uso interno e/ou externo destas sustâncias tem efeitos Apresentação: Este kit é composto de 1 maleta. 1 caderneta de agente. sorrisos ao amanhecer. estados de catarse descontrolada.diluidor de densidade urbana: elixir do descarrego. A ativação dos elixires (bem como (http://agenciaficcional. Em cada novo grupo poderão surgir Superdosagem/Efeitos Colaterais: Posologia: habilidades surpreendentes de um mesmo agente. Recomendamos prudência em seu cionamento da vida cotidiana. assimilados a ordem pode ser subvertida ou mesmo poder-se-á utilizá-los use-o sem moderação.conector de desejos: elixir de despedida. utilizado em associação com o DDU. Agora. Estimulando e potencializando estes relativos `a Esquizofrenia as no espaço e abra os frascos de interações e reverberações entre os desejos dos agentes a fim Feminina Contemporânea Urbana vidro. Oferece um respiro para "eus ensimesmados" e um Contra indicações: outras substâncias: novo "ponto de experiência" para apreender a vida e Não há dados disponíveis sobre Alguns elixires funcionam melhor manifestar potencialidades. conecte-se com o símbolo.]. 2.I. processos. 1 caderneta de agente. use-o sem moderação.com) para difusão das superdosagem coletiva pode causar sua utilização) pela fórmula Aqui mesmas a rede de agentes. Informamos que é difícil prever os efeitos adversos do coletividade. Pegue a mandala e o Neste caso única fórmula frasco relativos ao elixir Aqui recomendada é o dilatador de tempo Agora. Vire a ampulheta e INTENTE ativação do elixir Aqui Agora. Sua ação é de saturações habituais. Reações Adversas: Propulsor de Habilidades. 1. apropriado para iniciar Via de administração: Este kit é composto de 1 maleta. irreversível mas não irá diluir totalmente a identidade do Interações. Apenas abrirá espaço interior para emergir o agente concomitante com ficcional.dados sobre uso usuário. ativadoras e sua intenção. E aos que apresentam sintomas auxilia no processo de diluição de identidade. Pedimos o compartilhamento Recomendamos o uso do DDU e Recomendamos iniciar o ritual de das novas fórmulas criadas através da central de atendimento Aqui Agora como antídotos. 8 elixires. Ler informações ao agente antes de iniciar mandalas ativadoras. aqui e agora ddu dilatador diluidor de de tempo identidades depurador propulsor de conector fórmula de desejos habilidades de desejos pessoal CONTATO Telefone: e-mail: CADERNETA-print-recorte 2 24/07/12 13:43 . ajudando-o a adquirir clareza de seu propósito. Sugerimos um 8 mandalas ativadoras. principalmente nos centros Indicado para combater estados de O uso contínuo do elixir não urbanos. sintomas mandalas ativadoras e disponha- conexão entre os envolvidos. Que o (alguns homens também podem solução a gosto e encha o frasco círculo se abra mas não termine! EIA lá… apresentar estes sintomas). O ritual de ativação só será necessário novamente após o término da solução.ddu. Indicado para os que não cabem em insônia. 1 ampulheta. cada elixir pode conter Suspenda imediatamente o uso do diferentes soluções base. contraindicações em nossos conjuntamente.

observação e os o. O meu dom ade: vida aos poucos scimentos ou de é conduzir rena s. essencial para distinguirmos o que é potente do que não é. frequento Cabocla Sempre que poss salas de planetários e ado. cavernas e tográfi m áquina tesouro ca e fi fo - calabouços à procura de Luga r e lmador a s d e inte e conhecimentos perdidos. um lug r em m ar a o ais de do imperativo ficcional de Habili m esmo t s da d e : empo salvar o mundo dos ataque filma f otogra r a ç õ far e demoníacos e desbravar Ferram es urb anas ent a s : labirintos. Agente Elz a de Medeir os na escuta e na açã o. Agência sensitiva e al Ficcional. tas são a Minhas ferramen cristais. autodescoberta Age n t e : Helio Desejo Ribeir Surgi : e s t a ão Ni! Agente Solstag aqui. Ent rei es. vo meu caminhar que astróloga e le é ser pilota de helicó nfigurações ptero através das co em São Paulo. Câmbio. Sou do tem- interplanetári po para trabalhar na to-astral. mas ando e dando foram me libert . cidade resse : e n c o n na Estive em campanhas com vais d t ros/fe meu e arte sti - outros agentes. Con heço muitos age nte s em constru- ção. Gosto de expe- rimentar os estados . ganhan as. Cuido da apuraç ão da fórmula do elixir del ator de blá-blá-blá. Carrego Suges t ã públic a hashi o d bastão de profecias e o elixi r e novo d a onipre elixir : transcendente. No pass os astros burocrata. sença . gosto muito de cole- Agente Alpha FM tividade. fui uma mudar de cinema. sou em gre ve do de flores e verd meu trabalho habitual.

mas nenhum e os micromovimentos do deles hoje representa poder. lugares de me levou a trabalhar fluxo contínuos. silêncios ( ).. mudar de pele Ferramentas: lona rubra Lugares de interesse na cidade: Agente Psy – Agente cineclubes e centro da cidade Psysoma – Tece poesias visuais pelo espaço utilizando como principal ferramenta o Torus Vital Autorrenovável. cole- zando em conspirações procuro as pausas do tivas. Agente Jureminha Tupã Pinup Cabocla Desejo: encantar. e estou trabalhan e os espaços em - na fórmula do elixir mag branco. ( ) Diluidor de Identidade Diluidor de Identidades (3 borrifadas) ( ) Quem vos fala é a agente - Marieta. Tive várias não violenta. tempo. por vir. pertencimento. - capaz de transformar pro Adoro reticências e icos postas em campos magnét parênteses. populações sobre a no passado tive vários anestesiação psicossocial nomes... estou em treina ali- mento. Atuo por de aglutinação. alegrar Habilidade: dançar. netizador de proposiçõ o novo. aos poucos vou reconquistando meu passado. Utiliza o corpo como instrumento dos desejos: conscientizar Eu sou o Agente Anônimo. Venho me especi Eu sou a Branca. lugar este Minhas memórias para o princípio do afeto: se confundem pelo coletividade. Brechas para es. mas a de interesse na cidade são ausência de identidades os de passagens. a casa do como sequestrador de outro. Atua na revolução quem sou.. Meu laço é o conector de IDs. Seus lugares profissões. dublar. Repensando o espaço identidades para a público como o espaço do Agência Ficcional. .

Nome do agente: Guta ea de Desejo: coleta subterrân lixo Habilidade: mobilidade sse: Local/temática de intere espaço urbano ão e Saturações atuais: poluiç sujeira da cidade redutor Sugestão de novo elixir: de conformismo Nome do ag en te: Fulô Desejo: ser cria nça Habilidade: artes manuai Local/temáti s ca de intere cores e cois sse: Nome do agente: ana as coloridas Saturações at uais: estres beatriz falta de paci se e Desejo: inteligência e ência Sugestão de novo elixir: passar de ano revelador de pensamentos Habilidade: concentração Local/temática de interesse: vida Saturações atuais: N o pressões m De e d s o Sugestão de novo elixir: pa ejo ag ra : en amenizador de saudades H a f t e te b a r : co ili zer fa Mi n d c st Lo ver ade: amiz ilid i ca sa ad ad i n l / r so e e t t rri s re ere emát u s r e Sa niõ se: ica tu es fe de g u r a s t a ç as Su rda ões e g r a es est r t pa ão anc uais l h or : dor ad de or no d vo e fe eli li xi c id r: ad e .

( ) Depurad or de Desejos Depurador de Desejos (3 borrifadas) ( ) tihe ente: e do ag quilidade Nome an o: tr Desej ia ecer nh acont esse: compa : faz er idade e int Habil emática d /t es Local m pulsõ ô s: co : bistr atuai ir ações novo elix Satur e tão d ssoal Suges erador pe el desac ente: Gi Nome do ag Maravilha s e as pessoa Desejo: qu is loucas e ma sejam mais livres izades : fazer am Habilidade tica de Local/temá centro da interesse: andes cais de gr cidade. lo ivos Nome do ag en te: RSXT s de execut aglomerado tresse Desejo: ser atuais: es um mestre Saturações : Habilidade : novo elixir artes plásti cas e Sugestão de convívio em grupo ão imediata transmutaç Local/temá ti ca de intere música. danç sse: a e cinema Saturações at uais: ex ce ss velocidade do o de mundo (tempo Sugestão de ) novo elixir: da necessidad diminuidor e de dinheiro .

habitação e alimentação Sugestão de novo elixir: mata fome . ha Gamin ente: ão Paulo do ag S Nome or em no rua o: am so se: a Desej : do teres e idade de in antismo Habil emática d /t s: pe Local atuai ico ações tântr ok Satur xir: o dade o eli Faceb falsi o de nov cedor de tã re Suges esapa or. d do am gram se: ta e Ins são/ Nom e do D e s a e g Hab jo: c ente: i o atr lidad r nas Germa á e: z no Loc s s orr onas p ena a i r b gua vig l/tem áti par eges s ent a o S a t e s c a s u de que Sug raçõe i nte vêm est s a res do s ão tu a s e : d ias de no is: d tem de vo ias pos s ol el i x t ir: ransi pr tór o l ong ios ado r Nome do agente: Clara Desejo: igualdade Habilidade: cantar Local/temática de interesse: rua Saturações atuais: locomoção.

Floriana Breyer. Mile na Durante. contamos com Renato Almeida e do livro. Fabiana Prad o. Danielle Noronha. ( ) Propulsor de Habilidades Propulsor de Habilidades (1 borrifada) ( ) ` N o m e d Des o a e j ge n Hab o: te: lib Igo ili d a erd a r K Lo c a d e: d e o m l/t cor p ara ecz mak bel emá age e za ti c a m a s at Sat do de isfa ura ç õ cor po int e ção Nome do agente: Círis sen e s a r e s tid o. Na diagramação da caderneta. Na foto- grafia. Pedro Guimarães. tua se: a Desejo: equilíbrio Sug e is : s t ão f alt Habilidade: decisão e de de a d med os n ovo e transformação eli xir : Local/temática de interesse: blo quea João Pessoa (PB) dor Saturações atuais: indecisão/ encurtamento temporal Sugestão de novo elixir: contaminador de sonhos mith orn S iva au Bj colet Rosse ença José desav ente: atual do ag ão da cial do Nome n utenç de so o o mun o: ma erida : tod Desej : prosp te resse idade de in eito de Habil tica econc zador /temá s: pr ciali Local atuai reini ações xir: Satur o eli e nov tão d al Suges ultur ito c conce Agradecimentos: Aos integrantes do EIA: Eduardo Verderame. Fabiana Mitsue. Gisella Hiche. Mariana Marcassa e Euler Sandeville. Com a ajuda de Salua Oliveira na produção e de Leonardo Ceolin na cocriação e confecção da Unidade Móvel da Agência Ficcional. George San- der. . Henrique Parra e Peetssa. Vanessa Jesus.

. Necessitamos desta ficção para desaprender. está sendo criada.Afirmamos: seja lá o que for a Agên- cia Ficcional. não está pronta. para não saber.. para inventar e sustentar o que sempre desejamos: experiência! .

indd 1 13/11/2012 11:38:23 . AGENTES & TRANSCENDENTES por Projeto Matilha LIVRO MATILHA FINAL.

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Quando movida pela ação do desejo. E sempre aos olhos alheios. brincar de ser. sendo. despir-se. Como nos dizermos? Como nos reconhecermos? Como podemos transcender aquilo que sabemos a respeito de nós mesmos? Como expressar a superação de nossas identidades constituídas.indd 4 13/11/2012 11:38:24 . para abordar dizeres poéticos do indivíduo por meio de seu autorreconhecimento. ou ainda afirmá-las. a identidade em trânsito aponta para novas subjetividades dentro do contexto em que está inserida. ainda. Ao propor o conceito de “transcendentidade”. a fim de nos reconhecermos no campo poético-relacional? Como dar forma ao transbordamento dos nossos contornos? Como e por que nos reinventarmos? LIVRO MATILHA FINAL. AGENTES & TRANSCENDENTES por Projeto Matilha vestir a fantasia de si mesmo. nomeia e autoriza (ou não) aquilo que somos e representamos no âmbito social. lançamos novas questões sobre cruzamentos e influências na construção de uma identidade transcendente àquela que nos foi atribuída. Ou. É o outro que reconhece. constituída pelas condutas sociais? Quantas combinações variantes de identidade cabem num corpo? E como isso se dá? O Projeto Matilha inicia sua investigação artística a partir dessas questões. pois a noção de identidade é inseparável do conceito de alteridade. no reforço afirmativo sobre aquela identidade que talvez passemos a vida a negar. revelando o devir. Identidades em trânsito   Seria possível a identidade que nos acompanha no dia a dia transcender aquilo que acreditamos ser? Quais seriam os desejos pulsantes capazes de deslocar a nossa identidade primeira.

Ali. Quatro jogadores recebem oito cartas cada um. preferências sexuais. A partir do ludismo presente nos jogos. Uma espécie de “buraco das identidades”. Revelar segredos. Momento em que a arte se disfarça de vida ou a vida é contornada pela arte? Seduzidos por jogos de disfarces. Dizer verdades. A primeira carta comprada do monte na mesa é a preferência sexual “homossexual”. Inventar- se. preconceitos e vontades. Alguém reage: — Mas você não é negra! — É que eu gosto! —. a Matilha escolheu um cantinho da cidade repleto de fluxo e já imantado pelo calor da disponibilidade: mesas de jogos no Largo Santa Cecília (centro de São Paulo) na saída do metrô. encontros e afetos.indd 5 13/11/2012 11:38:24 . Stuart Hall. curioso para bisbilhotar o jogo… Alguém descarta o time “Corinthians” e um outro compra o monte todo: — Este é meu! A moça loira pega a carta de etnia “negro”. A reação vem de forma violenta: — Eita. realizamos a intervenção Cartada Santa Cecília. junto aos grupos EIA e Ocupacidade. crenças e outros detalhes de cada um que. em que o objetivo é montar uma canastra de si mesmo. estabeleceu-se um território livre de diferenças entre o artista e o receptor de arte. Cartas na mesa Sentar-se à mesa para um jogo com outras pessoas. ideias. de exposições e encontros. ela afirma. times. fomos nos reconhecendo entre regiões da cidade. O jogo de cartas e algumas questões: quem é o desconhecido? O que sabemos a respeito dele? O que lemos na imagem do outro? O que a presença do outro suscita em nós? Como habitar um tempo/espaço juntos pela cidade hoje? Jogar é o verbo que se apresenta à Matilha faminta por respiros. Assim. revelavam as múltiplas escolhas associadas ao discurso identitário. mas logo volta à mesa. contextualiza a mutabilidade do sujeito pós-moderno: LIVRO MATILHA FINAL. em A identidade cultural na pós-modernidade. postos na mesa. Mentir-se. meio sem saber. Falar de si. as cartas na mesa revelavam segredos. diacho de jogo! Não quero isso não! — O homem se levanta e não quer mais jogar. Na ação. O montinho fica no centro da mesa e os jogadores compram e descartam. comidas preferidas.

A simplicidade da proposta desperta o prazer de um jogo quase pueril de “vestir a fantasia de si mesmo”. seja nas bordas. completa. […] Dentro de nós há identidades contraditórias. Dialogar com a linguagem da arte contemporânea é também pensar a intervenção artística como espaço vivo de relacionamento. […] Aqui opera a Agência Ficcional. Seja no fluxo da contemporaneidade – como reiteração da polifonia –. movidas pelos desejos. estamos ao mesmo tempo refletindo sobre os papéis sociais que nos são impostos e sobre o hibridismo que sofremos durante todo o processo da vida. atenta aos fluxos da imersão e convocando agentes e desejos secretos. com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. empurrando em diferentes direções. O que seria então aquela gente ali fantasiada? A moça de peruca. Estética da (re)invenção constante de si. 2 Ibidem. 1 HALL. É definida historicamente. somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. Ao assumir identidades. que alimentam nossos sonhos. Como um outro e como o mesmo. p. onde podemos criar linhas de fuga na rota do pensamento obliterado pelas imposições que nos oprimem. a teatralidade da ação artística faz emergir um corpo-poético dentro do espaço público. A identidade plenamente unificada. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. desejos e potencialidades de maneira poética. o moço de cartola. e não biologicamente.indd 6 13/11/2012 11:38:24 . segura e coerente é uma fantasia […] à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam.2 Identidade e cultura como dinâmicas inseparáveis. 13. projeto irmão da Matilha. na escuta e na legitimação dos devires. 2011.1 No entendimento da arte como campo de troca e expansão perceptiva. a mulher com pele de onça… Um carnaval fora de época? Uma festa à fantasia? Ou apenas o gesto expressivo criando um verdadeiro dizer estético sobre quem somos? Somos todos estes e outros ainda por revelar-se. LIVRO MATILHA FINAL.

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marcada pela abundância de desejos. nós. baseada em padrões que muitas vezes em nada dialogam com a potencialidade de nossos verdadeiros afetos e desejos.3 em que “a vida não se distingue da obra como campo de experimentação”. necessidade de consumo. trazemos para o plano horizontal aquilo que entendemos como nosso material de criação: a relação humana na coletividade e a afetivação dos territórios. fala da obra de arte como interstício social. O tempo inteiro vivenciamos a projeção de uma série de imagens consumíveis. o ‘encontro’ […] a elaboração coletiva do sentido”. 4 BOURRIAUD. aponta Marli Ribeiro Meira em Filosofia da criação. Na tentativa de encontrar lugares possíveis de trocas. onde a virtualidade como potencial do acontecimento nos mantém sempre à espera. 2007. Na configuração de novos processos artísticos. reproduz em nós como um de seus sintomas mais incisivos a identidade volátil. mutação e experimentação constantes. e conceitua arte relacional como “a arte cujo substrato é dado pela intersubjetividade e tem como tema central o estar-junto. O estético como vivência de intersubjetividade. Diante de tal contexto. a potência das relações sociais vem sendo destacada por alguns pensadores da arte assim chamada pós-moderna.4 3 MEIRA. paginas so de texto. 2009. como propositores. Nicolas Bourriaud. Coletividade: Matilha Atuar no campo da coletividade artística hoje é também perguntar como lidar com a capacidade de instaurar um espaço onde seja possível criar arte com base na poética do cotidiano. Os espaços sociais de encontro e compartilhamento migraram para o ciberespaço. Espelhos mutantes A contemporaneidade. em Estética relacional.indd 4 13/11/2012 11:45:21 . cabe o papel de trocar infinitamente de pele sem a garantia de vir a ser o que quer que seja. Ao sujeito contemporâneo. nossa própria identidade – como cidadãos-artistas – e nossos lugares de atuação são muitas vezes apoderados pela vertigem de um tempo impertinente.

2009. 2009. A identidade cultural na pós-modernidade. Identidades multiplicadas. cruzadas e confrontadas entre si sentaram à mesa e beberam (literalmente) das ideias oferecidas como brincadeira. São Paulo: Edições SESC. a Matilha lança suas proposições criativas ao outro. BOURRIAUD. Processo gerando processo ou work in progress. Jogar. mas deixando espaços permeáveis ao modo de criação coletiva. Augusto. Porto Alegre: Mediação.indd 9 13/11/2012 11:38:25 . Referências bibliográficas BOAL. Stuart. A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond. mas levadas a sério por cidadãos-artistas dispostos a “diluirem-se” por um tempo no espaço da cultura urbana. PARDO. representar. MEIRA. HALL. incerteza e variedade de leitura. Marly Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify. Jean-Pierre. com ele fazendo uma construção sensível das ações em tempo real. RYNGAERT. Talvez no modo híbrido da arte contemporânea estejam latentes algumas pistas para a retomada do “lado de fora”. Risco. dado que uma das maiores belezas deste processo artístico é ser tão vivo quanto inacabado. 2011. apontando algumas formas de ver e fazer. 2007. Filosofia da criação. Nicolas. Ana Lúcia (Org). Muitos foram os momentos de encontro estético e troca de saberes vários. Reflexões sobre o sentido do sensível. A teatralidade do humano. Rio de Janeiro: DP&A. São Paulo: Martins. Longe das verdades absolutas no terreno estético. Estética relacional. 2011. LIVRO MATILHA FINAL. Voltar-se ao espaço público como lugar de uma expressão estética genuína que se lança ao mundo para além da lógica neoliberal do resultado e do produto. O trabalho desenvolvido pelo Projeto Matilha junto ao grupo EIA orientou-se pelos conceitos da estética relacional ao privilegiar o encontro lúdico com o público. que é única e não se repete. 2009.

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O referido é verdade e dou fé. REPÚBLICA FEDERATIVA DE PINDORAMA Agência Ficcional Desabitual Distrito das Ruas Agentes Ficcionais CERTIDÃO DE TRANSCENDENTIDADE Certifico para todos os fins de revelação.indd 12 13/11/2012 11:38:29 . ____________________________________________ LIVRO MATILHA FINAL. que _____________________________________________________________________________________ do sexo _____________________________ nascido(a) em __________/___________/_____ na localidade _____________________________________________________________________ Filho(a) de ______________________________________ e _______________________________ Sob as bênçãos de ________________________________________________________________ Passa a partir desse momento a ser ________________________________________________________________________ segundo seu próprio desejo. confluência e transcendência.

TRANSCENDENTIDADE O depoimento de uma agente ficcional Lili Curado (agente social da dor): a minha identidade secreta desenvolve poderes atávicos na sociedade. A princípio. havia um sentimento atávico. Era um jogo de reconhecimento de si. LIVRO MATILHA FINAL. se eu percebia o duro segredo que cada uma delas se esforçava tanto em guardar e perguntavam se mesmo assim haveria um futuro feliz. percebi que o futuro é recheado do que desejamos e de tudo o que somos. por meio das perguntas e dos consentimentos que faziam.. É interessante notar. mostraria o que aconteceria no futuro.indd 13 13/11/2012 11:38:29 . como xamã. e as pessoas escolhem o tema do qual querem saber prioritariamente o significado.. Este foi o grande tema prioritário a ser buscado e desejado. Havia a necessidade de contingência de um passado que as tornava o que eram. Elas queriam ver se eu lia o passado delas. eu percebia que não era o futuro que queriam que eu visse. Abrindo as portas da percepção. Da recuperação de segredos ou de grandes momentos de dor não superados e carregados como cicatrizes. queriam saber se essa identidade era visível. Mobiliza sentimento de cura e de necessidade de transformação. até pela curiosidade do fato. abrindo um portal entre o que sou e o que desejo. procuravam vestígios de uma identidade. através da visualização e aprovação de uma identidade que pensava não ser visível. sendo ao mesmo tempo o menos procurado: o destino. O jogo de cartas é dividido por temas. As pessoas buscavam a si mesmas. e aos poucos. Eu. tendo um maior número de cartas a ser desvendado segundo a prioridade dada pelo consulente. que ao serem reconduzidas à sua identidade encontram a força que necessitavam para enfrentar os problemas atuais. que a busca em geral era pelo amor.

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Namastê. pois havia acabado de se divorciar e tinha quatro filhos com o ex-marido. ouvir os desejos profundos. Esta sou eu. seguindo o imperativo da nossa vontade. Queria saber se ainda haveria chances para o amor de ambos. agente Lili Curado em ação. não havendo força maior que essa. Se for possível ver na identidade as marcas que foram nos tornando aquilo que somos.indd 18 13/11/2012 11:38:32 . em que um ser e outro se encontram e se cumprimentam pela caminhada. na necessidade de continuar a construção do que somos. Outro momento marcante foi o de uma senhora que chegou acompanhada da filha perguntando sobre o amor. À medida que as cartas vão sendo viradas e as pessoas vão se encontrando nelas. mas tinha o desejo íntimo de saber se ainda era amado pela família. é porque essa força nos pertence. O trabalho individual termina com o abraço contenedor. ou seja. mas duas foram as que mais me marcaram como agente. Alimentar os próprios desejos. as emoções foram fortes e libertadoras e pouco a pouco todas as identidades em busca de si foram encontrando amparo em si mesmas e na sua profunda força interior. LIVRO MATILHA FINAL. Ela sabia que tudo ia dar certo e que o pior já passara. foram realizadas diversas leituras. foi revelado que a maior dádiva que ela tinha foi ter podido mudar o seu próprio destino. Nesse dia. Ela era órfã e tinha vivido em um orfanato até a sua maioridade. e com ela podemos ter o domínio do que virá a acontecer. é o que a transcendentidade faz: transforma as dificuldades socioculturais em destinos não determinados. se ainda poderia aparecer perante eles. enquanto a identidade vai sendo revelada. pois havia dois anos tinha abandonado os filhos e a mulher. elas começam a se sentir em paz em relação ao futuro. Um morador de rua que se declarou alcoólatra tinha dúvidas em relação ao amor. Há um certo medo em relação a saber o que acontecerá no futuro. Reconhecer a si mesmo mobiliza as forças interiores no sentido de dar importâncias diferenciadas aos problemas vividos pelos consulentes. No dia 21 de abril de 2012. seguindo as prioridades levantadas por ela. e estava ali com quatro filhos criados. A ânsia do questionamento e da pergunta do porquê (Por que comigo? Por que assim?) começa a se acalmar e curar quando em confronto consigo e com a sua força. No decorrer da leitura.

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com  LIVRO MATILHA FINAL. http://www. como forma de pensar a criação. Dando continuidade ao seu processo. em conjunto com integrantes dos grupos EIA e Bijari. Logo após. o encontro e a celebração coletiva. O Projeto Matilha no projeto NA BORDA é formado por Fafi Prado. Oficinas e intervenções performáticas em espaços públicos que geram um diálogo contínuo entre as propostas e a participação coletiva. Pedro Guimarães e Amandy Loba Poeta. vieram Me Convida (EIA). BREVE HISTÓRICO O Projeto Matilha é um grupo de intervenções artísticas que acontecem em parceria com grupos e pessoas convidadas. o Projeto Matilha vem investindo no convite para a criação compartilhada a partir de vivências transdisciplinares. Floriana Breyer.indd 20 13/11/2012 11:38:32 . O primeiro trabalho surge em 2005. Complexo de Vira-Lata e O Rottweiler de Deus e Sua Mãe (casadalapa) e Lona Rubra (Retrospectiva Zona de Poesia Árida).projetomatilha.blogspot. no SPLAC.

LONA RUBRA apresenta: TRANSCENDENTIDADE De Gervásio Pústula uma quase farsa brasileira em 3 atos curtíssimos.indd 21 13/11/2012 11:38:33 . LIVRO MATILHA FINAL.

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Te dei comida. LIVRO MATILHA FINAL.   ELE – (transtornado. ELE – (após uma longa tragada no cigarro) Eu te tirei da rua.indd 23 13/11/2012 11:38:34 . Pára com esse teatro! ELA – Mas eu sou branca e a tua família me aceitou ! PAUSA DRAMÁTICA. Um mulato alto. ATO I ELE – Fucking bitch! Você é puta. Você é puta. que eu sei… ELA – (chora escondendo o rosto entre as mãos). Sou um romântico! Um homem que passa pela vida sem amor é como um morto que caminha! (A cafetina Polaca solta uma longa gargalhada e anuncia a próxima atração da noite). toma um longo gole da cachaça). te dei um lar. ATO II POLACA – (com forte sotaque polonês) Pois venha trabalhar comigo no meu Cabaret. te dei um nome. forte e ro- busto como você… hum! MULATO – Eu não confundo sentimentos com dinheiro.

ao terminar seu show burlesco senta-se à mesa como pirata TUPI. tenho que finalmente confessar a minha identidade. a pin-up cabocla. LIVRO MATILHA FINAL. Os dois bailam juntos. enfim!) FIM DO ÚLTIMO ATO.indd 24 13/11/2012 11:38:34 . felizes! Reconhecem um ao outro. Meu nome é Jureminha Tupã. Eu sou índia! Índia! PIRATA TUPI – (Canta uma canção em Tupi-Guarani safado: Patchio-Bari Adios sireh. Ela tem algo a confessar) JUREMINHA – Após tanto tempo. ATO III (Jureminha. banhada em águas doces e perfumada com pétalas macias de rosas vermelhas.

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Joana − Ou tem mais alguma coisa? Discutimos bastante as dinâmi. E. Espaços como Joana − Uma lixeira dourada? shoppings e suas políticas Daniel − Na exposição do SESC. Daniel Lima <. bem na entrada do SESC. surgi. ônibus. se vocês quiserem políticas de segregação são ir para outros caminhos. Na verdade. . Pode-se en- etc. que vocês ficam dentro das lixeiras e conversam com Fevs. É isso? Na quarta passada. Seguem as anotações abaixo. A borda não é um lugar físico. a lixeira dourada.. a ação. as pessoas têm entendido a borda.).. Joana −Então.. Também nessa linha veio a liga- Joana − Então. neste caso. Como estas Na verdade. é o poder espaço. shopping elite e popular etc. A ação é aquela das lixeiras. não está longe do centro. perfil do joias. bicicletas ação. mas como uma situ- (sem entrada e permissão a pedestres. acesso? meando todo esse projeto. versus lojas caras). Um Só que. fizemos a Daniel − É isso. apoiadas pelo poder público em Brait − Falaram que você ia vir provocar a gente. acho a ponte que faz uma passagem que a gente nunca discutiu isso coletivamente. o nosso trabalho é espaciais (lojas populares uma lixeira dourada. várias esferas? Como são reve- ladas em dimensões diversas.. ção com a Daslu. não como a periferia. as pessoas. Um tipo de espaço. Não sei exatamente como A partir desse tema ACESSO.. seguinte. porque afinal o livro cidade de São Paulo (aplicadas também está relacionado a isso. reunião do projeto NA BORDA. que está per- a localização. tenter essa situação de indeterminação de diversas reproduz a chave-carro que per- formas. público que instaura essa política de separação. a ideia da borda. ou acesso exclusivo a carros como um lugar distante do centro. Daniel − Tem a lixeira do SESC. A borda é um lugar onde as coisas podem nascer.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 2 Intervir? por Frente 3 de Fevereiro Em 5 de março de 2012 17:42. toda cravejada de diamantes. tem algumas coisas que tenho pensado. mas é uma situação de impasse. A Ponte margem.> Joana − Primeiro. Uma situação de indeterminação. E tem alguns teóricos. abre-se um espaço de.. a várias outras metrópoles brasileiras). a primeira coisa que pensei foi a como o uso da calçada.. ação de indeterminação. é mais uma conversa.. Mas entre diferentes mundos. Tem uma ideia. desse não como lugar específico. que a cas de segregação e exclusão da gente pensou também em abordar. nessa situ- mite a abertura de um portal. Assim como a Daslu. principalmente na Estaiada foi pensada como antropologia contemporânea.tenho estudado um pouco sobre essa imagem da ram muitas reflexões. que entendem a margem símbolo dessa passagem. Brait − Ela colocou que na borda se instaura uma situ- ação de impasse.

3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 3 Fotos: Frente 3 d e Feve reiro .

a) O banco do ponto de ônibus. cala. As por- situação de cidade. não é uma invenções contra o lugar do coisa a que a cidade estava acostumada. é contextual. ou o movimento sem-terra. Aí eu queria tentar pensar com vocês. uma situação urbana. hoje com assentos em que a coisa pode ir para um lado. instaurar em qualquer lugar. hoje não dá para se pensar a cidade como es- A multidão que caminha como paço físico. os movi- mentos sem-teto. o ACESSO último. Novamente no metrô. outro.. . mas eu acho que podemos pensar a lixeira. trangimento. E aí. de experiência. muita coisa interessante apareceu como um Por último. desses lugares.. a própria lei. que submete todos ao corredor neos que pesquisam muito a cidade como escala. que situações desse tipo. para celular. para internet. porque ali tas giratórias de bancos que passam a operar milhares de escalas. mas ali se instaura uma situação que é uma pelos processos civis. para as diversas lojas. É essa situação que vem humilhação e discriminação. uma situação de impasse. As escalas de somente diante da chave que vida. de existência etc. Em que sentido as lixeiras são margem? Por que vocês Grade com cadeado para não criaram essa associação entre a situação de margem. É senha chuva. e d) O “lixo humano” expulso até essas lixeiras blindadas aparecem como um equipa- debaixo das pontes. antes reto e possível de deitar. mas está tudo dentro do enxurrada nas esteiras embaixo marco do urbano e a cidade é entendida como uma es- da terra. Ela tem uma dimensão que é física. Então é isso: não é um lugar físico. c) As grades que protegem o lixo dos prédios e condomínios. E o porteiro-juiz pensa-se muito como é que se define então a invenção da atitude suspeita. Nas conversas com porteiros e embaixo da ponte se vai. Caixa-forte indeterminação. então. tentando nos impedem de sentar na frente de bancos. Nem mais uns tempos para cá. verdade. restaurantes entender a margem como uma situação que pode se etc. simbólica. coisa. A margem de que eu estava falando é. Na estreito. como um elemento para pensar a bancos. de indeterminação. sendo entendida dentro da antropologia contem- As portas que travam e não lhe porânea como uma situação de cidade. que dão acesso. A porta cons- está dentro do marco do urbano. ou até que a prefeitura tinha imposto alguma para computador. A porta transparen- te e travada. O cara tem somente agora começam a ser acesso à internet. pode ir para o individuais. mas também é virtual. Então é uma destrava catracas e portas situação na qual existe um jogo de escalas que também guilhotinas. Começou de morador de rua. tem acesso a organismos interna- consideradas instrumentos de cionais. determinado. Novas mento novo na história de vida da cidade. impasse. Como é que se define um lugar? E aí tem essa ideia de que é na margem que se funda tanto Outros dispositivos de exclusão que proíbem o ACESSO: a possibilidade de ruptura. de direitos humanos. você vai olhar e dizer “isso é estão sendo retiradas à força campo”. lojas. O que significa isso? É uma escala na qual todas a terra subterrânea que se abre as escalas operam ao mesmo tempo. essa para e-mail. é uma situ- ação. Em muitas O ACESSO está também nas portas giratórias dos bancos. para lixeira blindada. porque a b) As grades pontiagudas que gente está dentro desse projeto NA BORDA.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 4 O metrô da linha amarela Joana − Estou estudando antropólogos contemporâ- (parceria público-privado). plo de uma situação: os campos de refugiados. buraco de rato. ACESSO à trama subterrânea que anda mais determina certos jogos de poder. nessa discussão. Eu vou dar um exem- rápido que a superfície. ou seja. e a lixeira? do lixo! Brait − Porque a gente começou mapeando a cidade. revirar o lixo. síndicos. quanto o próprio Estado. a discurso de defesa das lixeiras para proteger o lixo de última chave: a senha.

iriam buscar trata- mento oficial.cartacapital.2012 [. A meta é “limpar o território” com ações militarizadas e empurrar para a periferia distante os “inde- sejados”. na visão de Alck- min e Kassab. sem con- seguir expulsar os visíveis e expostos vendedores de crack. Inventaram um novo tipo de pau de arara.br/so- ciedade/o-terror-higienista/ . os dependentes. Esse torturante plano só é integrado no rótulo. partiram para ações policialescas. a dupla Alckmin-Kassab. Wálter Maierovitch 14.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 5 O terror higienista São Paulo insiste na repressão e usa o crack como desculpa para segregar pobres.01. com o fim da oferta. e sem um único posto de apoio médico-assistencial no lo- cal.. provocar um quadro torturante e dramático de abs- tinência nos dependentes quími- cos. go- vernador e prefeito. E.. A dupla busca a tortura físico-psi- cológica.com.] Para acabar com uma Cra- colândia.] http://www. Mais uma vez. assistiu-se à Polícia Militar atu- ando violentamente. pelo sofrimento e desespero.. [.. Procuram.

. mulheres.] http://raquelrolnik. pessoas feridas.com/?p=5 443&preview=true . São José dos Campos (SP). Moradores dos imóveis lacrados foram intimados a deixar a área mesmo sem ter para onde ir. polícia! Raquel Rolnik 23. que pretende concedê-la “limpinha” para a iniciativa privada construir torres de escritório e moradia e um teatro de ópera e dança no local. carros blinda- dos e mais de 1. mais de trinta prédios foram lacrados e alguns demolidos. A Polícia Militar inicia uma ação de “limpeza” na região denominada pela prefeitura como Cra- colândia. Cracolândia e USP: em vez de política.wordpress. spray de pimenta e muita truculência. crianças e idosos moradores da ocupação Pinhei- rinho são surpreendidos por um cerco formado por helicópteros. dando início a uma situação dramaticamente violenta que se prolon- gou durante todo o dia e que teve como resultado famílias desabrigadas. os moradores não aceitaram o comando. Domingo.01.. 22 de janeiro de 2012. detenções e rumores.2012 03 de janeiro de 2012. 6h da manhã. Mi - lhares de homens. [. Além de terem sido in- terditadas as saídas da ocupação. foram cortados água. sobre a existência de mortos. inclusive. luz e telefone.800 homens armados da Polícia Militar. Em 14 dias de ação. e a ordem era que famílias se recolhessem para dar início ao processo de retirada. Determi- nados a resistir – já que a reintegração de posse havia sido suspensa na sexta- -feira –.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 6 Pinheirinho. Em seguida. região da Luz. mais de 103 usuários de drogas e frequentadores da região foram presos pela polícia com uso da cavalaria. centro de São Paulo. Esta região é objeto de um projeto de “revitalização” por parte da prefeitura de São Paulo.

você é responsável por aquilo e senha? Compartilhe sua senha quer proteger isso do cotidiano geral. CHAVE única.. sobre a sensação de estar lá dentro. A senha um instaurador de marginalidades. tante para as pessoas verem a gente dentro das lixeiras. mercados ou ‘bancos’”. suspeito. e as colocar-se numa situação de estranhamento com a massas tornaram-se amostras. ainda. um martírio. sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem Brait − É. De diante do par massa-indivíduo. atacou a gente na lixeira. da experiên- mestra. ACESSO único. A linguagem numérica do tempo que estar dentro da jaula chama a atenção dos controle é feita de cifras. ao contrário. De.. é laridade individual. único aqueles sobre os quais se muitas coisas se passaram conosco. cando-se como lixo e.. foi uma situação muito maluca e muito desconfor- CHAVE perdida.. ro. colo- dados. Essa lógica do lixo: aquilo que você despreza. se era um protesto.. que caras para vir interagir contigo. A senha que morre com você. “As sociedades disciplinares O momento em que a gente estava dentro das lixeiras. Ele isola o lixo dos que você não fala nem para a catadores. líquido. cia. como proteção do lixo Exorcize seu segredo final! em relação ao outro. 1990). Teve um momento exerce. ACESSO lançar esse novo elemento a ser trabalhado na cidade. Então ali você estava meio que protegido. É que as disciplinas nunca viram in- cendo. Uma é . era um ruído muito forte. marca da singu- umbigo da cidade e. se era uma promessa. ainda que não isto é. aquilo que você descarta. também. é uma senha. e o número de matrícula que indica conseguiam entender muito bem o que estava aconte- tidiano. não vai chegar em você porque você está protegido ali. A senha que substituiu no coração do centro. mas aquela brin- (tanto do ponto de vista da cadeira agressiva de um moleque de rua. divisíveis. Pulando e batendo na lixeira.. ao passo que as Daniel − Mas brincando. Que é você estar dentro do negócio. assim. que foi a nossa primeira visão ao buscar sua confidente. Conversações um ser humano. esse elemento. de você se colocar como é massificante e individuante. na passagem das pessoas. Nas sociedades de controle. com um gesto simples do corpo. lixo. né? [Post-scriptum sobre as so- ciedades de controle]. um agente estranho. ‘dividuais’. Não se está mais Isso foi uma sensação. e molda a individuali. ao mesmo tempo. a agressividade deles marcam o acesso à informação. ali. mas uma cifra: a cifra Brait − Sério.. o essencial não é Joana − Sério? mais uma assinatura e nem um número. Acho que fomos muito felizes ao Enfim. seja só do cata- pelo menos uma vez na vida! dor ou dessas outras questões. de certa forma. ACESSO avesso. no co- que indica o indivíduo. porque é um elemento urbano como segredo último e chave mestra. ACESSO porque essas lixeiras são. acho que a lixeira traz essas duas dimen- sões da questão do urbano. As ações foram feitas todas no a assinatura. foi e é ao mesmo tempo que o poder muito louca essa sensação. esse objeto. num tom de brincadeira. têm dois polos: a assinatura de certa forma. mas um ser humano. Felipe − É. se era compatibilidade entre os dois. Vieram dando paulada. um lixo blindado. para seu esse tipo de ação. Ao mesmo cia).. cidade. de que você falou.. constitui num corpo lixo. assim. ACESSO carro. CHAVE Falando um pouco agora da intervenção. E. né? Craquei - integração quanto da resistên.ali na Maria Antônia que um grupo de moradores de rua dade de cada membro do corpo. Os indivíduos tornaram-se chamar a atenção. As pessoas não sua posição numa massa. o lixo. A senha margem como situação. doida. ainda assim. ou a rejeição.. Estando dentro da lixeira. continuando (Gilles Deleuze. É muito forte essa ideia de proteger companheiro.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 7 para as redes sociais. quando está no espaço O que seria uma terapia da público. sua mãe.

quando o carro se aproximou dos usuários. Na madrugada de ontem. “É a procissão dos afli- tos”.] http://www. José Severino Duda. a Folha viu um grupo de mais de 70 usuários guiados por um carro da Força Tática dar a volta em um quarteirão e retornar para onde estavam em dez minutos. Usuários tentavam se desfazer do controle da polícia. Poucos minutos depois. concentrados na rua dos Gusmões. definiu o morador de um dos prédios da rua que observava a cami- nhada. que se repetiu em outros pontos da cracolândia na última semana. 51.com. o mesmo grupo de usuários refazia o trajeto. impulsionado pelo mesmo carro. [.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 8 PM faz craqueiros darem volta em quarteirão de rua folha. e começou a “empurrar” os dependentes.2012 Após o veto ao uso de balas de bor- racha e bombas de efeito moral na cracolândia. diz que a ação. acon- tece “quando a polícia está de bom humor”.br 16. gritava um deles. o carro continuou ori- entando o movimento de uma parte do grupo. “Vamos espa- lhar! Espalha!”.org/node/4493 . carros da Polícia Mili- tar organizam uma verdadeira “pro- cissão” de craqueiros pelas ruas do centro.. porteiro de um edifício próximo.observatoriodesegu- ranca.. A caminhada começou às 2h04. Ainda assim.01.

o normal da de dados que já passaram pelo cidade. você sofre um processo exclu- isso. Passagem. tempo inteiro. era o estereótipo dessa marginalidade. desse cotidiano com que a gente con- universo do coletivo. ao mesmo tempo. invasão da bandeira na ginalidade. tem algo de exclusão material. O cara talvez nem tenha pensado em toda ência de trabalhar com o muro. de exclusão.. o o ACESSO. aparece. pois ela é um negócio de ferro. mas pelo caráter “indi. caso Casas Bahia. essa dimensão. natural. Catador não consegue mais pegar a latinha complementares. mesmo estando o texto do Deleuze pra mostrar dentro desse circuito. Mas. por outro lado. se a gente não homem pós-moderno. às vezes com lixo. o hegemônico? É um olhar que vai buscar outra O ACESSO como ponto de ruptura coisa. O que. a gente olha para isso e acha normal. a gente tem na F3F (reflexões etno-sociais). essas lixeiras trancadas? -leite. mesmo assim. não por medo de compartilhar todo um agrupamento de pessoas que viviam do lixo da senhas. cidade um mecanismo de exclusão do catador desse Daí vamos tomar essa base con. Sem falar na questão es- mutabilidade descontínua do tética que tem esse dispositivo. refletida ali naquele equipamento gação nosso tal qual a experi. cidade excludente. tem algo de excepcional. Para eviden- . volver um jogo a partir dessa ideia é o que estaria em Daniel − A gente olha para a lixeira porque tenta buscar questão aqui? Ou pensar essa um olhar que não é o olhar hegemônico para as coisas noção de ACESSO também a partir que são – digamos – o natural. ceitual do ACESSO como gatilho Ou seja. muitas vezes vazias. tem algo de dispositivo abadá x pipoca. vontades político-estéticas hoje. nos interessa? É uma operação essas caixas fechadas. o cotidiano. porque. novo. acesso público ao jul- Como a gente consegue fazer com que o olhar passe gamento dos assassinos do pela borda.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 9 Em 16 de março de 2012 19:49. tam- A lógica de se pensar o ACESSO bém traz essa dimensão simbólica de um projeto de passa por um ponto de investi. cidade. o indivíduo nesse magma de mul- titudes ou seus destinos que na calçada. babás-amas-de- como essas lixeiras-cofres. mas um dispositivo de controle. de toda a onda ecológica. das empresas. que não quer mais e. Isso é muito a cara de São Paulo. sim. essa força. Então. desse que era o lixo desprezado. pode interessante e potente de tra. como o Felipe ACESSO individual – compartilha. É um elemento de exclusão material Faço algumas reflexões mesmo. feito para não deixar que as outras pessoas Fevs. simples. mas não no sentido da borda como mar- Flavio. você vive do lixo. caso Carrefour. completamente revelador e. mas só revelar esse dis- balho do que esse caminho do positivo é muito interessante. que já é uma calçada difícil em São Paulo. falou. para vender na reciclagem. e o Brasil é o país gatilho de disparo entre nossas que mais recicla. outra topografia da cidade. mesmo sendo considerado. adestramento da multidão? Seria mas é um negócio completamente grotesco na cidade. isso Como replicar? Ou como desen. que. que. depois vidualizador” do conceito. antes. Lei de Cotas. mexam no lixo. o lixo começa a ser valorizado Que o conceito de ACESSO seja o por conta da reciclagem de materiais. mas no sentido de que ele não é o cotidiano festa de abertura da Copa. Acho feliz esse dis- me parece ser um caminho mais positivo. acho que a nossa ação está no começo.. quando ele a coloca ali. Isto é. Felipe Brait <. um elemento-chave na responsabilidade social do (ação final) e nosso discurso governo. lixo. AÇÃO-CHAVE deflagrando dente. movimento. vive daquilo que a sociedade e explorar as fissuras da sociedade de controle. como: vive. agora. Pensar ACESSO como CHAVE. MÃE PRETA. ter vários desenvolvimentos. se já existia do.> a dimensão material mesmo. Está aí põe para fora. ACESSO entre exercita o nosso olhar para conseguir ser estrangeiro à a senha da individualidade e o própria realidade. mas.

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que é a situ- pós-ação CRACOLÂNDIA janeiro- ação da cracolândia. E. É uma nuance da cidade. de lixo humano. Muito boa colocação. quando devemos pegar este mote ACESSO isso me pertence. e eu queria ver em que momento a gente poderia pra jogar com a urbe. Antes tínhamos a assinatura que abria pessoas.. aquele que tem Não creio que exista essa necessidade daquilo. Naquele momento em que eu fecho e boto o cadeado. Em 19 de março de 2012 12:28.> soas. Jogar com ciar isso. pela segurança. você -2012 e o espetáculo da bruta- vê a expressão sendo cunhada. os carrinhos dos Maurinete − O que me chamou a atenção foi no sentido craqueiros. Quando a gente entrou na lixeira.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 11 interessante de jogo. na cidade que não é para convivência. aquilo que é coletivo passa a ser privado. livro Cidade Luz]. vez por outra. uma parte específico de São Paulo. o que tinha de continuidade com os camelôs. de uma comprovação de identi- era para a nossa segurança. É um caminho. ao se colocar lá dentro. os carrinhos de qual era a linha. Brait. Por exemplo. Ele não dicotomia entre ACESSO indivi. tem uma razão de ser. manifesta. Isto nos colocava. são bons dispositivos linha. atravessa- Osvaldo [em entrevista para o Política do Impossível no mento de percursos. essa coisa de tino. a gente usou um mecanismo. antes. Alguma coisa sempre é todos os acessos. Quando uma pessoa . O 3 de Fevereiro tinha uma dores. se colocar corporalmente. Fala Fevs. deslo. mostrar qual era a linha. expropria aquele que o próprio sis- para ir longe. é invisível. sociedade. sobre a qual. era normal.. ou o síndico. enfim. que são os catadores. diante de uma proibitiva. em por isso. que é considerada como a es- camento de população – remoções. jovem da sociedade. você aquartela e proíbe. E. a rua é pública. tema manifestou como uma categoria. você é obrigado a todos os mundos que precisassem mergulhar nesse estranhamento... que é o zelador. como falava o marchas na paulista. que. mas creio que quitetura da exclusão. A divisão da cidade se dá dade. pode mais retirar a substância do trabalho dele. porque evidencia justamente a Abxx questão da propriedade. Brait mas eu boto um objeto e aquele objeto é referente àquele prédio. que na arte con- os ACESSOS. de passagem e de des- temporânea existe em muitos processos. E a questão da li- Como vamos nos organizar? xeira é inovadora. essa manifestação política que é a cracolândia. Esse lixo. quando você passa. É a conversa pública no dia uma cidade feita para não reunir as pessoas. Enfim. os carrinhos de cata. cória. uma característica da nossa cidade. na cidade Ela deve estar elaborada para aquartelada. mas. no contexto ideia de que existe uma parte da sociedade. Ela teme 28/03? Como apresentar isso? aglomeração. Você não tem a convivência. o nível mais baixo da especulação imobiliária pós. que hoje em dia é reconhecido no usuário -Itaquerão. Você deixou mais claro que ela é minha. ao meu ver. Sugiro a ideia de pensar também no CARRINHO. numa ótica do aparecimento da lixeira como trabalho. movimento acampa sampa. seres. teme o ajuntamento. Você desapropria as pes- Daniel Lima <. do crack. Essa arquitetura da exclusão se presencialmente a gente consiga produzir melhor nossa ação. que não eram lixo. me pertence. Creio que são lixeira. então. ao entrarem parte do mesmo processo. seus pontos de origem. é exatamente porque a tura/separação. trabalhos que a gente fez. o in- e o ACESSO como ponto de rup. e. e ele tem uma pessoa que cuida dele. Da lidade policial. É que a gente vive numa ar- foi uma pirada. a gente traz também uma discussão que está no cerne Pensar também nas questões dos moradores de rua. cômodo que dava. A lixeira dual/individualizador evidencia isso. em toda essa manifestação. conflitos na USP. como a escória da escória. do ponto de vista arquitetônico.

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um outro qualquer não in- e como entra? Entre os diferen- vada aquele lugar. porque individual. mas com uma tru- maior dessa classe que exerce esse poder. bruto e um controle fino. algo que a cidade criou. toda necessidade de controle não abrir a porta. imperceptível. hoje em dispositivos barram o que dia os arrastões são um grande deboche. todos têm que consumir. isso é o que das estruturas digitais. Hoje. talvez o que sutileza distinta. Criar filtros. da mesma forma como você sistema integrado público/pri- vado pode controlar o que entra tranca a porta da sua casa. mundo. criar essa coisa nós. Daniel − E que você protege. tramas Brait − Você protege. você de cidadão. isso é o meu bem maior. algo que brotou da cidade. em que passem parte da parte daqueles que têm a chave. em que ela precisa raciocinar sobre aquilo. não ter essa membrana permeável. Talvez o que distinga seja um controle Brait − Essa exclusividade. é não conviver. Então. É interessante o mecanismo. a trole mais refinado no caso própria ideia de que estou isolado do outro. de relance. peneiras. Daniel − E tranca.Daniel − E é interessante que outra estratégia que a toras automáticas? Tornar-nos gente usou para revelar a lixeira como um elemento da divisíveis quer dizer que temos acesso a parte de um mundo. mais Daniel − Exato. sustenta na capacidade de restringir e dar acesso. Para mim. Maurinete − Penso na dificuldade que a gente tem de Veja a questão das portas giratórias dos bancos. é nosso. Pensemos em quantas chaves Brait − Como se fosse uma extensão da vida privada na temos e quais mundos parciais vida pública.deva ser protegido é a própria ideia da segurança. nas que saem da calçada. que. Estes analisar as coisas de outra forma. no final das contas. É isso que culência distinta. como funciona a lógica do condomínio. porque a gente está apontando que o próprio mecanismo A lógica é a mesma dos muros de segurança. como esse está assegurando que. é o bem invisíveis. um momento (senhas) para infinitos mundos. a lógica de iso- o Estado vive no limite que ex- lamento do condomínio. É fundamental que todas as Brait − E tranca. o próprio mecanismo da grade. Mas o que essa investi- instituições (que precisam da gação está tentando fazer é olhar esse dispositivo como circulação dessas individuali. porque. uma mesma marca entra na lixeira. clui uma imensa parcela da so. exatamente. É a próprios delegados sabem. A dades) tenham sistemas que per- mitam a passagem de somente uma lixeira realmente parece que brotou. fora da sua casa. é meu. Você elas abrem. Isso os consideram “suspeito”. não ciedade de seu direito íntegro é? Quando você coloca o cadeado naquela lixeira. essa exclusividade é o que vale. nasce da mesma lógica. Mas devo preservar. quanto mais você falsa imagem da porta seletora aquartela. algo que brotou da cidade e que é muito revelador de como funciona a cidade. o sistema. a outra se sente incomodada. com aquelas per- parte de nós. então como em que entra apenas parte de tornar visível? – foi pintar de dourado. cidade – sendo um elemento invisibilizado. Aquela vida A sociedade de controle se privada que você não quer dentro da sua casa. somos impeli- dos a criar infinitas chaves tem um momento em que ela precisa ver. Will − Mas veja que é uma questão de segurança. mais dispositivos se abrem para a pessoa in- . É muito engraçada essa ligação tam- tes fluxos que fazem parte do bém. Nunca a senha abre todo da lixeira como uma joia. como criar portas sele. de Com ou sem trabalho. não é? Um pedaço do seu quarto. com um con. com uma vale para ela. deixa o lixo na calçada. Por outro lado.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 13 mesma chave. e tudo mais.

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porque exatamente tem a convivência. Esse é o controle bruto. cessível. Se a pessoa está lá catando dcfl lixo. Outra coisa é a questão de que esse outros mundos. Mas é interessante ver como o invisível. porque o lixo sempre foi um bem). em da circulação financeira. Depois de outras mento em que alguma coisa se transforma em um bem senhas. Agora. É um na bolsa. por exemplo. de indeterminação. para a que envolva a discussão do gente. é tosco. em que esses dispositivos de do acesso. que seria como uma vadir. e o que seria uma lização da chave. Ali podemos movimentar. É um grande deboche. Como tornar visíveis essas Daniel − E é interessante porque o trabalho todo chaves (bruta e fina)? Acho que começou como uma coisa muito imaterial. um bem que tem um mecanismo de funcionamento. todos esses dispositivos materiais. Tudo o que não sejam números. entramos no mundo (evidentemente. esse estigma. Seja no campo a gente tentou trabalhar com o plano imaterial e foi físico. na verdade. Fiquei pensando não podemos acessar infinitos bastante nisso. se você está dentro. e você tem medo de de novas chaves. de ser uma performance corporal.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:53 AM Page 15 automática.. Este é o controle fino. sociedade de controle. para mim. . ou pegue. Joana − Então. que é um lugar. Saindo de circu. seja no digital. que se multi- não ser mais aquilo. a gente dis- podemos pensar numa sequência cutindo a ideia de uma sociedade disciplinar que tem de ações que envolvam a visibi. está entrando borda. que tem tudo a ver com caixa eletrônico. a entrar? Aquilo que o segurança gente não percebe. pode ser qualquer coisa. Por isso. A pessoa tem essa preocupação. Assim. você se confinar no fluxo financeiro. ou recicle. que é uma situ- seletora automática: a senha ação. eu queria falar algumas coisas que fui No mesmo caso dos bancos. Uma coisa que achei muito legal é a do ins- quando estamos diante de um taurador de marginalidade. é uma novidade. é Madalena foi exatamente deixar os murinhos baixos. o que. acesso. Tornar visível controle seriam imateriais. sim. Levar valores de um lugar ao outro. porque nos mostra que qualquer coisa que se trans- Mas que parte nossa não entra? forme em um bem comum pode ser expropriado. teção da sua identidade. aparecer para serem expropriadas. aí já é demais esse negócio. captando. Mas. aí não. de que você está dentro do negócio: o que você está fazendo lá dentro? O que você quer provar com isso? Você é lixo? Se você for lixo. É uma resistência que a gente não está enten- em desuso. Outra é o mo- inicial. Se o lixo foi. Porque você não concorda nem que a pessoa vá lá e cate o negócio. as ações de ruptura. Assim poderíamos criar uma narrativa caindo numa coisa que é tão material. do controle. outras coisas vão Dentro deste mundo financeiro. É um dispositivo arcaico para o capitalismo atual. e tudo mais. e as pessoas não percebem. outro confinamento identitário mesmo. Uma discussão que os arquitetos fizeram na Vila real porta detectora de metais. precisamos que você representa socialmente. Isso E que parte de nós não pode para mim é incrível. na maioria dos casos. ter esse envolvimento do corpo. e ninguém manda você tirar! É o filtro para e diz: vamos discutir isso? Isso. Então você protege a própria pro- plica atualmente. segurança apertando um botão de porque você não tem desejo de entrar. Will − Tem uma coisa na história das lixeiras também abr que é muito engraçada. Para investir confinamento é para proteger a própria proteção. porque não é ina- trava. já é complicado. temos a porta essa coisa da margem. eu nem falo com você.. lação. dendo que é resistência.

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Maurinete − A frase mais impac-
tante que eu achei foi a daquela
senhora quando nos viu, que disse
assim: “Nossa, eu me acho um
lixo.”
Brait − “Eu me achei um lixo.”
Maurinete − “Eu me sinto um lixo.”
É essa reflexão de, em algum mo-
mento, o que representa aquilo.
Acho que é um olhar descon-
fortável. É a mesma coisa que a
gente dizia do quarto de empre-
gada, que é a mesma coisa que
uma senzala. Então, quando você
vê outra pessoa no lixo, é esse in-
cômodo que ela sente: ela se revê.
E revê mais do que a própria lixeira.
E é gozado, vai para outra dimen-
são, de se sentir um lixo. Aquela
frase dela ficou remoendo muito.
Joana − Me lembrou aquele tra-
balho do GAC, em que eles colo-
cam a cerca em volta do corpo,
fazem tipo uma cerca, supertosca,
só que de papelão, uma coisa meio
de deboche: “Ah, são cercas par-
ticulares?” Só que eu gosto mais
desse trabalho de vocês, porque
Imag ens retiradas do vídeo criad o pe la Frente 3 de Feve reiro http://yo utu.be/dGzHwCgpMCc

ele se apropria de uma dimensão
material da cidade, que está na
cidade, vocês não estão inven-
tando o negócio. Como assim o lixo
pode ser privatizado dessa forma?
Will − Quanto à privatização, isso
só aparece quando se começa a
entender que lixo reciclável dá um
certo dinheiro, é só a partir disso.
Antes, a gente não via isso. A gente
sabia da preocupação de se colo-
car lixo na rua, vir a chuva e levar
para o bueiro... Mas quando a
gente começa a ver que certas
coisas que estão lá valem um certo
dinheiro, então, a partir daí, sim,
começa a haver essa preocu-
pação: opa, se é dinheiro, vamos

3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:53 AM Page 17

“Integrar as pessoas da cidade
coíbe a violência”, diz arquiteto
tomar um pouco mais de cuidado.

Evandro Spinelli, 04.06.2012
Daniel − Quando a gente evidencia esse dispositivo, já
é uma transformação do dispositivo, uma dimensão do
José Armênio de Brito Cruz, 52, as-
olhar para esse dispositivo e, portanto, uma expansão
sumiu no começo deste ano a
das ligações que podem ser feitas. Mas eu acho que
presidência do departamento pau-
um elemento que foi se configurando à medida que a
lista do IAB (Instituto dos Arquitetos
gente foi fazendo as experiências de ação foi o fato de
do Brasil) com uma festa em pleno
não ter a figura isolada de uma pessoa dentro da lixeira,
centro de São Paulo e a meta de
de ser sempre mais de uma pessoa, pois a gente sem-
mostrar à sociedade que os arquite-
pre se colocou em bando dentro da lixeira. Eu acho que
tos conhecem as técnicas para cons-
isso tem uma ideia de convivência, mesmo que seja

truir uma cidade melhor.
dentro desse espaço. Mantém uma ideia de que existe

Ele diz que a segregação dos con-
um corpo coletivo.

domínios fechados é uma das cau-
Joana − Tipo “vocês não vão tirar isso da gente”.

sadoras da violência e afirma que é Maurinete − Para mim, volta aquela questão da con-
preciso que as regiões da cidade
vivência. É disso que se tem medo, da praça, da aglo-
sejam ocupadas por pessoas de
meração. Isso é uma coisa muito efetiva, a rua acabou,
todas as classes sociais. [...]
você não dialoga com a rua, você anda na rua correndo.

Também houve um tempo em que
Se alguém pergunta as horas, você responde e sai cor-

condomínios fechados eram moda,
rendo, você não dialoga, não olha para o outro, o outro

e agora há uma discussão de que
é uma pessoa perigosa. Uma coisa que me chamou

isso deve voltar a se integrar à so-
atenção, e aí já é uma função minha de socióloga, foi o

ciedade.
lugar em que a gente foi fazer a intervenção, o Largo de
Santa Cecília. A primeira coisa que você vê é a igreja
Essas afirmações que você diz, da de Santa Cecília. E é gozado, porque o pátio da igreja
moda, vamos entender isso enquanto é o que tinha de mais coletivo, o pátio era uma praça,
afirmações de direções. O con- mas hoje está todo cercado. Cortou-se o que a igreja
domínio fechado é uma privatização representava. Mas repare que em Aparecida ainda tem
do espaço. Aqui, só entra quem é
aquele pátio. Você corta as coisas mínimas e ninguém
dono. Isso, para a cidade, não é
vê. Era o lugar do perdão, o lugar a que eu tinha direito,
bom, porque a partir do momento em
entendeu? É nesse sentido que a cidade vai sendo toda
que você diz que aqui só entra quem
modificada.
é dono você está dizendo que mi- Joana − Tem uma questão que, para mim, ainda não
lhões de pessoas estão ficando fora. está muito clara, que é esse esgotamento da política de
Talvez, esse milhão de pessoas não representação. A gente descobriu toda uma forma de
fique muito contente de ficar fora embate simbólico, percebeu que o embate simbólico ins-
daquele espaço. Existem teses na creve a realidade de fato. E isso foi superapropriado,
USP que já evidenciaram que, ao mas, hoje em dia, a gente está tentando entender ou-
mesmo tempo em que cresceram os tras formas de embate, que não abrem mão da dimen-
condomínios fechados, a violência são simbólica, dessa dimensão imaterial, óbvio, que é o
também cresceu. A segregação, tec- que a gente sabe fazer, mas o que vocês estão falando
nicamente, é um elemento que au- aqui é da coisa material. Do mesmo jeito a gente do
menta a violência. Seja a segregação Contrafilé; parece que há uma urgência, uma necessi-
do rico no condomínio fechado, seja dade, então construímos um parque. Tem uma imagem,
a reprodução disso nas camadas tem um símbolo ali que circula, tem uma dimensão sim-
mais pobres, a integração é contra a bólica que circula, mas é um negócio gigantesco, então

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violência. Essa exposição, essa dis-
posição em qualificar a cidade, na
a gente criou uma dimensão material. E por que isso?

verdade, é a disposição de ver que
Por que será que a gente está indo para esse lugar

nós somos uma sociedade que tem
agora, de uma dimensão supermaterial?

diferenças. Diferenças econômicas,
Brait − Acho que existe uma pressão, de você ter que

diferenças culturais, mas que pode
criar uma representação estética. Você está sendo con-

conviver. [...] Tem aquele caso do
vocado a fazer um trabalho de intervenção urbana,

Pinheirinho, que chegou na Justiça,
então o que você vai fazer com a cidade? E o nosso tra-

se a arquitetura tivesse entrado em
balho, apesar de material, foi superefêmero, comparado

pauta o projeto mostraria que é
ao grupo que fez um monte de camisetas. Você precisa

viável, sim, a comunidade que estava
chegar numa forma, acho que isso pressiona um pouco,

lá permanecer lá, e aquilo ser um
você ter que chegar numa materialidade. Se não, a

pedaço de cidade saudável, inclusive
gente só ficava discutindo, discutindo, discutindo, e en-

com exploração imobiliária, com a
tregava um texto, não precisava nem fazer intervenção.

população de lá, e efetivamente vi-
Daniel − Desse ponto de vista, é muito mais a defesa
rando cidade, como qualquer cidade
de uma estratégia do que propriamente uma pressão. É
do mundo que não segrega. A atitude
a gente incorporando uma estratégia que sempre foi

que nós não achamos saudável é
uma estratégia nossa. Acho que essa foi uma das li-

aquilo virar um espaço segregado,
nhas que nos diferenciou nessa situação em que todos

de uso unicamente para um setor. A
os coletivos estão colocados, esse projeto é muito reve-

cidade é mais saudável quanto mais
lador disso. Acho que existe um esgotamento dessa

misturada ela está, seja do ponto de
política de representação do embate com a cidade,

vista de classe social, seja do ponto
com a sociedade hegemônica, com todas as forças do

de vista de uso, seja do ponto de
capitalismo. A gente aprendeu muita coisa sobre como

vista cultural. Isso é o que a gente
fazer isso durante dez anos, todos os grupos aqui cria-

defende. Quando a arquitetura entra
ram importantes trabalhos sobre essas dinâmicas, só

em pauta, no projeto você vê: olha,
que isso vai se esgotando. Entram outras forças em

dá pra conviver. [...]
jogo, como a publicidade, que se apropria muito dessas
imagens, da imagem do ativista, daquele que sai, como
O que o sr. está dizendo é que lei a gente fazia, colando cartazes. Hoje em dia, a propa-
deve prever a possibilidade de con- ganda de jeans faz isso. A gente sabe que tem um es-
domínios fechados, mas deve in- gotamento, mas para que lado a gente pode ir? Cada
duzir outro tipo de política de grupo tenta escolher um caminho que seja revelador,
desenvolvimento? que dê uma profundidade, uma luz no final do túnel, um

É. Deve induzir um território inte-
horizonte, e pra gente sempre foi a pesquisa, o que tam-

grado. Daí nós vamos chegar em
bém é semelhante ao Contrafilé. Diferente de outros gru-

qualificação do espaço público e po-
pos, a gente sempre teve uma ideia de que tem que

tencialização da infraestrutura exis-
pesquisar. Nosso processo de ação tem que ser colado

tente.
com a ideia de reflexão, retroalimentando-se. E tem que
ir sistematizando essa pesquisa, por isso a insistência
Isso tudo é investimento público pri- em produzir documentário, em produzir livro, em pro-
oritariamente. duzir uma obra que tenha um entendimento, em vez de

Pode ser feito em conjunto com a ini-
apontar para o nonsense completo. Ela tem um en-

ciativa privada. É investimento da
tendimento e nunca se basta como obra estética, pos-

sociedade. O governo investe muito
sui outros elementos com os quais você pode ir

na cidade, muito, mas a questão é
cercando um tema, criando um contexto. Neste sentido,

saber como investir. É a questão que
nesse trabalho a gente fez o bê-á-bá do que a gente
sabe fazer, que é iniciar um tema de pesquisa, cercar o

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Foto: Pe etssa
F oto: Marcos Villa s B oas

está pedestre não chega. organizada. porque os pon- em lei. a Constituição prevê que o Es- tos que a gente levantou são os pontos que. Acho de uma cultura urbana. para mim foi simples. E habitacional enorme. Eu nasci aqui. que o dispositivo que estava gravitacional- facilmente possível. de investigação.com. países de ter- ceiro mundo. não é uma cidade para todos. em que se tem o que fazer dentro desse espaço. Mobilidade na cidade tema. Nossa plo..] www.com http://www1. que ninguém se pergunta se é legal. no tema poder andar para onde quiser o mais de acesso. não é só o nosso da Daslu. ir girando. Eu enxergo Acho que a gente está mudando. gração disso tudo. Então.. é um espaço totalmente fechado a que você só pode assim como ir ao cinema. Não e faz parte dessa cultura urbana. Felipe Teixeira. girando. Felipe Brait. A gente sai. Por exem- E essa moradia é a cidade. Acho que é um momento rico nesse sentido. Élida Lima.] se serve.. em termos tado deve prover moradia às pessoas. E o pano de fundo é a inte- são aberrações. mas na Latina. Não é uma cidade democrática. a gente está amadurecendo a cultura urbana no Brasil. pautar essa discussão. isso vem mudando nos últimos anos. um dos primeiros momentos pra gente foi a questão casa é a cidade. Participação: Antonio Brasiliano. que. é formada ano/1099762-integrar-as-pessoas-da- por Daniel Lima. e a questão dessa divisão do território para nós. nesta investigação-ação. e o Brasil minha geração muita gente veio de faz parte disso. fora.shtml Fotos: Frente 3 de Fevereiro. isso faz parte que a década de 1990 foi uma década em que a da cultura urbana. [. Peetssa e Marcos Villas Boas .. cidade-coibe-a-violencia-diz-arquitet Pedro Guimarães e Will Robson. sempre me incomodaram. que envolve o corpo e tudo o mais. car dentro do livro. de milhões de agora a gente tenta fazer a sistematização disso e colo- pessoas. Até que fomos chegando em uma ação que é habitação. a informação estar trans- parente.frente3defevereiro. A questão da mente puxando a gente..uol. Maurinete Lima. era esse. que estava nos atraindo. Particularmente na América sos do campo. São coisas que a cidade tem que na rua. o que gera subnormalidade. Nós somos egres- política havia acabado. A partir do mo- mento em que nós viramos um país urbano. na Quando a gente fala da sedimentação última década ela vem readquirindo espaço.com. essa política mais institucional. [. A gente essas questões mais materiais voltam num horizonte está construindo essa cultura urbana. O sr. como aquele refrão. ela é fundamental. Qualificação do espaço público. Porque o mundo está se ur- banizando.br/cotidi- Frente 3 de Fevereiro.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:53 AM Page 20 estamos discutindo. até ir percebendo. porque as pessoas têm direito à cidade. países emergentes.Felipe − Mas eu acho que esse movimento também mento rico dessa discussão? tem a ver com o contexto mais amplo. do interior. se a política de representação se desgastou. O fato de ela comprar uma calçada onde o quartinho fechado. o que gera favela.. Isso está previsto Maurinete − Olha. acha que nós estamos num mo. E o mundo está de olho nas cidades. Joana Zatz (Contrafilé) e Élida Lima o.br frente3defevereiro@yahoogroups.folha. Nós temos um deficit muito material. faz parte ir de forma mais simbólica. Acho que isso se reflete discutir a cidade. você que a gente tinha escolhido. do campo. a comunidade estar no trabalho dos coletivos. Tinham vários dispositivos é fundamental na democracia.

13. n co a r ós p m e. d em os. v en ram ó s mp .171 IMÓVEIS ligue já! 11 5302 1393 o s. SONHO MEU CRECI. n o c ê c end Vo cê v Vo .

.

.

jornais. Amarre a rede pelo menos a 1. Encontre dois postes que tenham distância de dois metros e meio. Teste a rede antes de repousar o corpo. 13. A rede com a corda deve ter pelo menos 50 cm a mais que o espaço escolhido. Convide seus amigos e leve livros. serviços gratuitos SONHO MEU IMÓVEIS 11 5302 1393 . bebidas e guarda-sol se necessário.70 m de altura. 2. 6. Caso não seja alto o suficiente leve um banquinho. Caso não encontre. 4. DICA: Desfrute seu momento de descanso e na hora da partida deixe tudo aquilo que puder para que outra pessoa também possa descansar. óculos. podem ser utilizados duas árvores. uma árvore e um poste ou dois outros objetos que possam servir como suporte para a fixação da rede. nós vendemos. nós compramos. 3. SONHO MEU você compra. 11 5302 1393 CRECI. IMÓVEIS você vende. ATENÇÃO: recomenda-se que na parte central a rede fique a um metro do chão para que possa ceder com o seu peso. Amarre uma corda ao suporte de fixação para que possa funcionar como o gancho da rede. 1.171 DESCANSE ONDE QUISER! Um passo a passo para o seu conforto urbano. 5.

9. retirando bolhas de ar e fixando-a melhor. nós compramos. O arquivo deve ter no máximo 1MB. 2. nós vendemos. Superfícies lisas possuem melhor aderência. 7. cabelo e expressões faciais. Posicione sua fotografia e cole-a na superfície.60 m precisa de aproximadamente 6 folhas de altura por 4 folhas de largura). Acesse www. IMÓVEIS você vende. SONHO MEU você compra. 11 5302 1393 CRECI. O programa irá gerar um arquivo em PDF. 10. Coloque sua imagem no sistema RGB. Em seguida passe o rolinho novamente na imagem em movimento de dentro para fora. Obs. 13. DICA: pense nas roupas. vitrines e pontos de ônibus. Faça o teste e ajuste a distância se necessário. Escolha o melhor lugar para colocar-se à venda. aproximadamente a 1. Faça a impressão a laser. Confira suas propriedades. facilmente acessadas com o botão direito do mouse. Depois de pronto fotografe-se.com e faça o upload de sua imagem. Caso não tenha alguém para fotografá-lo programe sua câmera para disparo em 10 segundos e posicione-a a 2. Monte sua imagem colando as emendas com cola branca. Coloque a foto em seu computador. Faça uma placa e coloque todas as informações da venda e vista-a.2 m de altura. Com o rolinho de espuma passe a mistura de cola nas superfícies onde quer colar a foto e também no verso da imagem. 13. Você poderá escolher o tamanho que quiser. Sugestão: aproveite muros. 12. 8. busque um editor de imagem de sua preferência.5 m de distância de você. postes. 6.blockposter. Deixe secar. 5. 3. 11. 4. serviços gratuitos SONHO MEU IMÓVEIS 11 5302 1393 . Caso a imagem exceda este tamanho. Transforme-se em uma imagem vendável. Faça a mistura de cola branca com água.171 VENDA SEU CORPO! 13 passos para mudar a sua vida! 1.: você pode escolher PB ou colorida. Lembre-se que o papel A4 tem 21x29 cm e calcule o seu tamanho dividido pelos papéis para descobrir quantas páginas serão necessárias (uma pessoa de 1. colocando os dois produtos na mesma medida.

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SONHO MEU você compra. 11 5302 1393 CRECI. nós vendemos. nós compramos.171 . 13. IMÓVEIS você vende.

.

.

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toda sede de município. Internacional Situacionista n. expressão natural da criatividade coletiva. nos dispomos a construir cemitérios de concreto armado. “Diante da necessidade de construir rapidamente cidades inteiras. no Brasil.” (Outra cidade para outra vida. Constant. Bem. qualquer que seja a sua importância.de sf (lat civitate) 1 Povoação de primeira categoria em um país. 3 / dezembro 1959) “Nosso campo de ação é portanto a rede urbana. se faltam condições para tirar proveito deles. ficavam elas a salvo da perseguição dos vingadores e podiam ser julgadas por representantes autorizados da sociedade.cidade ci. se falta imaginação” (Outra cidade para outra vida. em que grande parte da população está condenada a morrer de tédio. Comunidade residencial planejada ou zona residencial planejada de uma cidade. Área urbana especialmente reservada para asilar pessoas que cometeram delitos involuntários. Internacional Situacionista n.da. capaz de compreender as forças criadoras que se libertam com o declínio de uma cultura baseada no individualismo. 3 / dezembro 1959) . sendo a área restante reservada para parques e jardins. Constant. nas quais por norma legal a área coberta de edifícios não pode ultrapassar determinada e pequena porcentagem da área total. se nada acrescentam ao ócio. para que servem os inventos técnicos mais assombrosos que o mundo tem à sua disposição.

”. São Paulo: BRASILIENSE S. O que é a Cidade. objeto de especulação. A. ROLNIK. Raquel. terrenos de engorda. gerando os chamados ‘vazios urbanos’. que se dão através da captura do investimento em infraestrutura. equipamentos ou grandes obras na região ou nas vizinhanças. na expectativa de valorizações futuras. Isto provoca a extensão cada vez maior da cidade.especulação imobiliária: fenômeno pelo qual “alguns terrenos vazios e algumas localizações são retidos pelos proprietários. .

público
adj. Que se refere ao povo em
geral: interesse público.
Relativo ao governo de um
país: negócios públicos.
Manifesto, conhecido por
todos: rumor público.
A que todas as pessoas podem
comparecer: reunião pública.
Sinônimo de público:
apregoado, auditório, comum,
manifesto, notório, povo e
sabido.

privada
pri.va.da
sf (fem de privado) latrina.

privado
pri.va.do
adj (part de privar) 1 Que  se privou; desprovido, falto. 2 O que não
é público ou não tem caráter público; particular, pessoal. 3 Interior,
íntimo. Antôn (acepção 2): público. sm 1 Confidente. 2 Favorito,
valido. 3 Áulico.

posse
pos.se
ição de uma coisa ou
sf (lat posse) 1 Retenção ou fru
frui uma coisa, ou a
de um direito. 2 Estado de quem
direito de possuir a
tem em seu poder. 3 Dir Ação ou
título de propriedade.

Gentrificação/revitalização:
“Gentrificação tem origem na palavra inglesa gentry (pequena nobreza, elite)
e se refere diretamente ao processo de substituição da população mais pobre
pela de mais alta renda em determinadas regiões da cidade.” Fórum Centro
Vivo, Dossiê de Denúncia: Violações dos Direitos Humanos no Centro de
São Paulo, 2006.

propriedade
pro.pri.e.da.de
sf (lat proprietate) 1 Qualidade de
próprio. 2 Aquilo que  é próprio de alguma coisa;
o que a distingue particularmente de outra do
mesmo gênero. 

6 Domínio exclusivo,
mas não ilimitado, sobre uma coisa, com direito
de usá-la ou consumi-la, mas não de abusar
dela. 7 O direito pelo qual uma coisa pertence a
alguém; posse legal de alguma coisa. 8 A coisa
possuída; a coisa cuja posse pertence por direito
a alguém.

idas
liz aç ão q u e to ma todas as med
revita
um processo de s da região cen
tral para
[...] estamos em o s m ai s p o b re a
necessárias par
a expulsar
d as cl as se s m édia e alta, com
to
a para o usufru obiliários.
poder valorizá-l sc o s em p reendimentos im
ig an te
construção de g

. Suas ideias para o local. .kit pode existir ou não. plaquinha boa.. .lote.ficha de loteamento do que a imobiliária vai vender. .03..a abertura do grupo à participação é importante na trajetória do grupo.. .um kit mais simples.acho legal ter foto.profissionalizar a sonho meu imóveis.o que vc quer? .14. .não contar que a imobiliária é de mentirinha. alguns lugares improváveis para locação.itaquerão.de que formas a gente pode ocupar .como vai se dar a abertura/convite/direcionamento para a participação das pessoas? . . a cidade? .malinha que abre. ..bolar um questionário bom para o dia. como. . . Um questionário que tenha o contato do possível comprador ou locatário.coletar umas imagens. . ou não. crítico mas bem humorado. espaços para churrasquinhos de gato.desejo de ocupar. . nem só privado.demarca no mapa. ..reunião . leque.qualquer espaço público pode ser privatizado. mesinha boa.eu não sei na verdade.” Encontro público: (brainstorming) . e quais outros espaços gostaria de alugar ou comprar..mapa de alguma região da cidade. . . nem só público.questionário. etc.. . . venda e ocupação.vender o mapa para ser uma favela. quanto tempo quer usá-lo.deixar mapa em branco para a.o questionário e o mapa. o que vai dar conta? .2012 . .aumenta a opção. para fazer o stand. .saber os desejos das pessoas.como seria o kit? . . por exemplo: loteamento do minhocão para domingo...ATA proposta: “uma mesa com dois corretores devidamente trajados.como delimitar ou não a participação? .pinheirinho.vários lugares. . .mapa de prédios vazios no centro.. . espaços para piquenique familiar. . ou talvez ele caiba. .apagar tudo o que é privado no mapa e deixar o que é público. ..usar a estrutura da kombi. . . mas nem sempre é colocada como possível na proposta.frases com sutis ironias.o vazio mais amplo. áreas para alugar bikes. Nesses lugares que ofereceremos já podemos dar algumas ideias para seu uso/fim. .

.. . alugar um espaço para um piquenique. . imóvel deste tipo. vamos atuar a partir da necessidade do cliente.. nesta região.o público se vê como participante.dar algumas opções. ..o delírio é dentro da tua cabeça..como se valoriza uma coisa? ..as propostas de kit são importantes.300 questionários prontos.e a árvore? e o poste? ...vamos vender o ricardo teixeira? . catálogo de possibilidades. .ideias de ocupação absurda.deixar muito livre limita mais? . .qual forma de atuar baseado neste retorno que o público deu. ..nada se perde! .. .. . eu comprei. .onde atuar. .” .. .eu quero uma casa na árvore.intervenção física na rua. .qual região? .restringir uma área de trabalho.opção impressa limita tanto quanto o mapa. . . .delimitar uma área? .pinheirinho e itaquerão estão em voga. de que forma... lugar comercial.“faça uma fila.. . . a gente vai decidir depois do encontro público..você não tem o que você quer aqui? então anota.. .. camelô. z.coisas. não região.. .sugestões de uso. .ir em uma imobiliária.. . .qual estratégia a gente cria para que as pessoas.x.é uma imobiliária...“o preço quem dá é você” .. “minerva cuevas”.definir neste dia... encontro público.ensinar a fazer trambiques. .montar um questionário bom.? . y.esta área é minha.

.construir cons. desagregar.ir (lat construere) vtd 1 Dar estrutura a. apagar. escrevendo um novo texto. edificar. [. . é a regra fundamental de toda a relação social. remover o que está construído. desmontar. desconstruir Ato de desfazer o que está construído. entendida como movimento de intenção recíproca entre duas partes ou então cedência de um serviço ou de uma coisa como contrapartida de uma outra. organizar 1.tru. fabricar: “Construiu uma casa para o gato angorá” (Jorge Amado) 2 Fazer construções: Cada qual poderá construir como quiser. dispor.] a cada intervenção no espaço das cidades. Troca: A troca.. vtd 3 Arquitetar. seus habitantes vão lhe conferindo um novo significado.

Você vende. 13. . nós vendemos. relações interpessoais. modos de vida. agência poético-política de mapeamento dos desejos urbanos dos cidadãos. nós compramos. Quem pagar mais leva tudo!!! Aproveitando este boom imobiliário lançamos a SONHO MEU IMÓVEIS: “Você compra. cidade linda. IMÓVEIS você vende. cidade cinza. plataforma de cartografia das especulações imaginárias dos diversos modos possíveis de ocupar e reinventar os espaços das cidades. vazios urbanos. situação lúdica construída com o objetivo de estabelecer coletivamente um espaço de jogo entre os habitantes da cidade a partir da negociação de desejos. 11 5302 1393 CRECI. de supervalorização especulativa de determinadas regiões urbanas e de expulsão sistemática de contingentes populacionais das áreas centrais. nós compramos” Cidade limpa. SONHO MEU você compra. espaços construídos. nós vendemos. espaços imaginários etc. A cidade está à venda.171 pseudoempreendimento imobiliário que visa problematizar os processos de privatização do espaço público.

parapolítica ou paramilitar com autorização. O DESAPARECIDO Desaparecido é uma pessoa que secretamente (ou não) é abduzida ou presa pelo Estado ou organização política. tem revogados seus direitos como cidadão e pode ser morta por qualquer um com impunidade. bijaRi_NA_BORDA_AF.. apoio ou consentimento do Estado. seguida por uma recusa no reconhecimento do destino ou paradeiro.indd 1 18/10/12 17:49 . com a intenção de remover a vítima da proteção da lei. uma pessoa que é banida da sociedade. Homo Sacer (“o homem sagrado” ou “o homem amaldiçoado) é uma figura do Direito roma- no. mas não pode ser sacrificada em ritual religioso.

bijaRi_NA_BORDA_AF.indd 2 18/10/12 17:49 .

o carro-escultura amplificava o espaço público da rua “convidando” os pedestres a se juntar ao redor de sua minifloresta. Estava estacionado em frente à Galeria Choque Cultural desde o dia 10 de fevereiro. uma minipraça mó- vel sobre o asfalto a piratear o espaço quente da via. chuva e indignação pela tortura do dia a dia. DENÚNCIA . de brutal violência nos países do Cone Sul. estava ele lá. Pressa paralisada. O desaparecimento de presos políticos é uma prática que imaginávamos abandonada em um passado remoto do nosso país. sem saber que um plano sinistro estava em andamento. que imediatamente envia sua tropa de especialistas em remoção de veículos abandonados. A rádio. na Rua João Moura. um cidadão faz a denúncia anônima de uma carcaça de veícu- lo abandonada na rua. como obra integrante da exposição Estado do Sítio do BijaRi – o projeto investigava os “estados de sítio” não declarados que permeiam a vida cotidiana desde a dimensão coletiva até aquela da privacidade humana. para a rádio Sul-América Paranoia. Estacionado junto ao ligustro. O sequestro e a prisão arbitrários realizados pelo Estado por meio das Forças Armadas ou da força policial foram uma prática recorrente das ditaduras militares nos anos 1960/1970.indd 3 18/10/12 17:49 . A exposição era comentário poético sobre a dinâmica das tensões políticas no espaço urbano e sobre as formas de poder que se organizam de modo a criar uma ideia de “ordem”. repassa a denúncia para a militarizada subprefeitura de Pinheiros. bijaRi_NA_BORDA_AF. sempre prestativa em turbinar a neurose rodoviária entre os mora- dores da cidade. Em meio às ladeiras de Pinheiros. Cidade em congestão. como mais centenas à solta pela cidade. plantado. entre o vaivém apressado da ida ao trabalho em meio ao calor abafado. típica do verão paulistano. Na manhã de 22 de março. A redemocratização procurou acabar com os porões da ditadura. mas ainda existem elementos saudosos desse período e dessas práticas… NORMALIDADE Uma manhã quente e úmida.

bijaRi_NA_BORDA_AF.indd 4 18/10/12 17:49

SEQUESTRO E PRISÃO

11:30 Baixo Ribeiro (um dos proprietários da Galeria Choque Cultural) liga para o BijaRi
e avisa que os fiscais da prefeitura estão lá e deram três horas para a remoção da obra.
Combinamos com ele, então, de chamarmos um guincho para remover o carro e trazer
para o nosso estúdio. O que foi combinado seria que o guincho estaria no local por volta
das 13 horas para a remoção.

12:00 Nova ligação da Choque Cultural. A equipe de remoção chega ao local e inicia o
processo de retirada da obra, passando por cima do acordo prévio. O processo é foto-
grafado pela equipe da galeria.

12:15 Chegamos de bicicleta na Choque, mas o carro já havia sido removido. Voltamos
para o BijaRi e saímos de moto atrás do caminhão que levara nossa obra. Da moto,
tiramos fotos e seguimos o caminhão até o pátio da subprefeitura de Pinheiros.

12:40 Chegamos à subprefeitura de Pinheiros, onde se iniciam as tratativas com a buro-
cracia policial/estatal. Em conversa com um assessor de lá, conversamos sobre a ma-
téria da revista Veja São Paulo sobre carcaças abandonadas (matéria que mencionava
a intervenção verde do Grupo).

A BATALHA

Enquanto isso, no front físico, a batalha continua...

Na segunda-feira (26) pela manhã, foi agendada uma reunião com o coronel reformado
da Polícia Militar e atual subprefeito de Pinheiros, Sérgio Teixeira Alves. Nessa reunião,
foi apresentado o conceito e o histórico do projeto Natureza Urbana em suas diferentes
configurações e suportes (caçambas, outdoors, ônibus etc.) com registro fotográfico das
exposições e projetos (Annenviertel em Graz, Bienal de Arquitetura de São Paulo, Vira-
da Cultural, Zona de Poesia Árida, SWU, entre outros).

O subprefeito percebeu o erro, mas não quis admiti-lo. Transformou a multa de aban-
dono de carcaça de veículo em abandono de entulho em via pública, diminuindo o valor
do resgate para R$ 500,00 (quinhentos reais) mais diárias de pátio.

O procedimento para a liberação da instalação entrou em um labirinto burocrático de
formulários, protocolos e prazos inexistentes. Teoricamente, perdemos um prazo de
entrada do processo de retirada do carro e fomos expropriados de nossa obra, não
podendo retirar o carro, só as plantas. A carcaça iria para leilão de carcaças para ferro-

bijaRi_NA_BORDA_AF.indd 5 18/10/12 17:49

-velho.

Enfim, de modo oral, sem qualquer notificação ou documento, foi exigida uma multa, ou
melhor, um resgate de R$ 12.000,00 – valor da multa para abandono de carcaças de ve-
ículos em vias públicas – para a devolução do refém tomado pelas forças policiais. Tudo
isso sem notificação, multa ou qualquer tipo de documento com timbre da prefeitura ou
qualquer outro órgão oficial.
A partir desse momento, é iniciada a batalha pela libertação de nosso preso político...

De um lado, está a kafkiana burocracia estatal turbinada pela infiltração militar de sua
cúpula. De outro, os artistas e a batalha midiática que passa a ser travada com ampla
cobertura dos meios de comunicação.

Em breve, o absurdo se espalha pelas redes sociais, expandindo para mídias de massa
e atravessando fronteiras.

Insólito... A notícia do sequestro do carro chega à China!

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A CIDADE NÃO PODE PARAR

Sem motor e ocupado por plantas, o “Carro-Verde” – uma carcaça destituída de sua
função original propulsora e símbolo de status e diferenciação social (um não carro)
– é uma escultura móvel que faz parte do projeto de intervenções urbanas chamado
Natureza Urbana.

Sua apreensão é paradigmática das formas de produção e controle do espaço urbano
de uma metrópole de 7 milhões de máquinas motorizadas cuja dinâmica molda a ci-
dade desde os anos 1950, quando foi cortada pelo Plano de Avenidas e seguiu sucessi-
vamente atualizada por planos de extensão viária como o “Plano das Marginais” (projeto
recente de alargamento das vias marginais que incluiu a derrubada de mil árvores em
idade adulta).

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A ação intempestiva da prefeitura revela a ótica a partir da qual tudo que não se move e que não gera fluxo/lucro (no caso específico. liberdade. o consumo e a ganância desmedida e irresponsável mostram sua face perversa. bijaRi_NA_BORDA_AF. como democracia. com- petição e consumo substituem outros. onde conceitos como oferta. sociais e políticas que moldam a cidade – configurada como um conglo- merado de interesses exclusivos e corporativos –. atingindo a sociedade como um todo. ocupa uma vaga que poderia ser ocupada por outros carros) deve ser extirpado. A obra de arte transcende sua intenção estética e entra em choque com as dinâmicas econômicas. A cidade não pode parar! O carro-planta afronta essa dinâmica ao propor um relaxa- mento desse sistema e neutralizar uma vaga – uma parcela de solo urbano na zona mais rica de São Paulo –. obstruindo a performance olímpica de nossa metrópole-luz.indd 8 18/10/12 17:49 . Em um sistema que cada vez mais desnivela e segrega estratos sociais e culturais. cidadania e ecologia.

A ARTE NÃO PODE PARAR bijaRi_NA_BORDA_AF.indd 9 18/10/12 17:49 .

bijaRi_NA_BORDA_AF. toda política é espacial e cabe aos habitantes e movimentos sociais o dever de reformatar as estruturas de poder com respeito à produção do espaço nas cidades.indd 10 18/10/12 17:49 . Como o filósofo Henri Lefebvre apontava.

O.I.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 2 C.A.B. A inserção da dúvida no espaço público .A.

o artista. da política. a informação passou a ser mais nitidamente um campo de batalha. nem tanto devido ao seu desgaste. um prédio simbolizando as contradições urbanas e acirramentos da especulação imobiliária. o comunicador. quando as estratégias da comunicação passaram a ser objeto de interesse comum. da mídia e da vida urbana e pública. com as possibilidades de articulação entre o espaço e seu contexto. Usemos as mídias. percebemos as tensões à nossa volta. Trabalhamos com a informação. de se fazer um trabalho que acontece na esfera das mídias. o articulador de meios de informação. Não há um conjunto de ações coesas e precisas. como havia no período em que os coletivos se juntaram em torno do Prestes Maia: 468 famílias sendo despejadas. Hoje o próprio termo (mídia tática) já não é sequer utilizado. O COBAIA surgiu por essa via. mas talvez porque tais estratégias já foram integradas ao discurso institucional ou de corporações. ou em torno de um ativismo anarco-artístico em questionamento ao estabelecido nos sistemas da arte. desde então. . Passou a ser necessário entender os domínios da informação. sejamos as mídias: uma mistura do libelo punk DIY que passa a incorporar o programador. Mas sabemos que não há um embate com foco muito nítido. não deixar que ela seja controlada. em uma empolgação percebida anos antes. evitar que ela nos seja imposta unilateralmente. para um fim comum. De fato. como havia nos projetos que passaram a fazer uso das mídias de forma tática.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 3 Uns dez anos se passaram desde que vários dos grupos do NA BORDA se encontraram em ações anteriores. o nerd. O que nos motivou em 2003 ou 2004? O que nos motiva hoje? Sabemos que não estamos apáticos.

No entanto. Belém e Buenos Aires. a intenção coletiva era diferente da individual: interviríamos nas mídias e. salto duplo de obstáculos. O cenário das mídias em São Paulo mudou em sua aparência e superfície pública – seriam necessárias novas estratégias. . por consequência. adapta-se às rugosidades. Onde tudo é descontínuo e quando imperam os percalços. desdobramentos. no espaço. revezamentos de atenção. rearranjos. nos vemos pequenos – o que pode a arte diante de tudo isso? Passamos a incorporar também a ineficiência da comunicação em terrenos saturados. para um coletivo que atuou por algum tempo entre São Paulo. E. as questões do espaço público estão também interligadas com as questões urbanas e suas materialidades. E a sobrevivência nos cobra fragmentação. Belo Horizonte. Se antes assumimos ser cobaias de uma condição. e as tensões ficam ali entranhadas.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 4 Desde o tempo do Formigueiro (grupo que antecede o COBAIA). o contexto muda. A visibilidade do problema requer vigília contínua.

a pouca adesão apesar da coesão pressuposta. buraco. desarticulação. Seriam cerca de trinta frases. mas todos estamos despreparados para a atual situação. tanto em longas discussões presenciais e pela rede. compromisso. Uma série de frases direcionadas para um espaço semipúblico. Mas preferimos mantê-las em . Para serem vistas todos os dias pelos frequentadores do SESC. situação. Realidade social. falta de tempo. entendemos que não somos apenas nós. as frases com palavras faltantes são uma espécie de charada. em direção aos arredores e espaços públicos de fato – com o uso de adesivos para serem aplicados em locais bastante específicos. o que é desejado? O que são as falhas e os buracos? Enfim. havia também um plano de utilizarmos QR Codes ou mesmo técnicas simples de realidade aumentada para decifrá-las. No fim. agora assumiríamos o despreparo. quanto no próprio processo do trabalho. a partir da unidade Consolação. que se traduziu numa frase: “a inserção da dúvida no espaço público”. acirramento. a desarticulação entre os membros (!). questões como ineficiência. Essas e outras palavras: na tentativa de completar tais termos. ao mesmo tempo que passou a refletir um despreparo geral frente a acontecimentos relevantes que nos rodeiam. em que as faltas eram presenças cortantes e reais. Aos poucos fomos compreendendo que frase “a inserção da dúvida no espaço público” nos ditou um caminho. despreparo. de grande circulação. o que se desprendeu de forma clara nesse embate para a criação artística do coletivo foi o cerne da ação. acirramento e dúvida afloraram. espaço público. adesão. sobrevivência. problema. O que é intervenção e o que é informação? O que é necessário. E o trabalho pensado para o NA BORDA acabou sendo a síntese disso. vida. coletivo. à mercê do outro.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 5 de estar a serviço do contexto. Do embate artístico travado pelo grupo. As frases omitem palavras-chave que nos importam e nos representam: são aquilo que queremos ou aquilo que nos incomodam. de aprender com dada situação.

percursos individuais e identidades locais. em condição de leitura “desmediada”. a imposição da disciplina). que pudessem disparar mobilizações a princípio avulsas (!) em experiências individuais voltadas para o tempo presente (a prestação do mês. se faz aqui ao deixar que o espectador do trabalho responda (ou não). as lacunas a serem preenchidas. a condição de falta ou dúvida inserida nesse espaço semipúblico.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 6 estado low-tech. Pensamos em configurações de ações possíveis. preencha (ou não). localmente. Percorremos um caminho conhecido: desde as obras de Hans Haacke nos anos 1970. o norte original do COBAIA. de se deixar ser “intervido” pelo outro no espaço público e urbano. assim como os ruídos. a impossibilidade de fruição da vida. A ação do COBAIA partiu da aversão a um tipo de empreendedorismo que despreza processos. em dado espaço e contexto. como as projeções de Krzysztof Wodiczko que nos sugeriam entender o espaço público como uma associação entre . as frases de Barbara Kruger ou de Jenny Holzer nos apontavam as estratégias “midiáticas” presentes no sistema da arte – ou para além deste. De certa forma. tem-se alguma consciência sobre a forma como o espaço público se molda sob influência dos meios de comunicação de massa. Nos anos 1990. complete (ou não). As falhas passam a ser incorporadas no processo.

aferido por leitura semântica e semiótica. Percebemos essa camada invisível como uma superfície que esconde profundidades. nos percebemos vítimas disso. . Seguimos uma trilha em que o político se encontra em estado híbrido. Muitos outros se seguiram. despreparos. como efeito de determinadas estruturas urbanas constituídas a partir da comunicação e informação. próximo das preocupações reais das pessoas. mas que não depende dela. assim. e que se torna potente ao se aproximar da fisicalidade de espaços de circulação – e pensamos agora em como nos comunicar de forma simples numa rede de relações moldada pela tecnologia. são necessários procedimentos capazes de gerar uma inteligibilidade mútua entre experiências possíveis. incorporando tanto as redes imateriais como as físicas. sem destruir identidades. o contexto torna-se maleável. em uma presença imaterial. sofrer esse processo para que possa ser revertido em outra coisa. e hoje não há maiores dúvidas de que o entendimento de um espaço comum se faz por meio de uma mescla entre arquitetura e comunicação. Lidamos assim com uma realidade urbana que tem algo de não linear. Aceitamos. Com o crescimento do chamado “espaço informacional”. que encontraria paralelo no que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos chama de racionalidade cosmopolita. dessas mazelas cotidianas que nos tiram do prumo e afetam nossa capacidade de criação e engajamento em questões que importam. angústias e embates reincidentes.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 7 a arquitetura construída fisicamente e a informação a ela anexada. problemas crônicos envolvendo acirramentos. algo mais tangível. Por meio do COBAIA. Para percorrê-la.

cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 8 .

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.. de escapar do determinismo da ... as limitações dos indivíduos em assumir responsabilidades de decisão. Para algumas lideranças..... facilitar o . Distanciar o indivíduo da sua .. Não foi a primeira vez que .. demonstrou despreparo e arrogância............. demoradas e que requer .. se reflete nas dificuldades de participação ..... .. de todos. promover a .... tem quatro importantes funções...... A cultura ............................. Mais ainda...........cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 12 Observo que por se tratar de ações complicadas.. e também devem ser considerados em sua dimensão .. pela construção de um projeto ............. Evidenciam-se então as dificuldades..... e econômica é um grande instrumento de estratégia ............. para refletir.......... da grande massa da população brasileira e sobre a necessidade da participação como forma de ........... dos indivíduos em questionar as instituições estabelecidas.. são produtos e produtores da . que é utilizado quando se busca explicar as dificuldades que enfrenta para inserir-se socialmente e politicamente na ..... pode culminar com a não priorização da própria vida............ O tomador de decisões terá que acostumar-se à .... apontam para o desenvolvimento da "consciência" sobre uma ..... Ao assumirem o .... como o . já que uma pergunta dá a volta ao mundo em segundos............. . criar uma identidade ..... as empresas preferem ''pular'' essas ações muitas vezes por falta .. essa . Ainda.... que poderiam ter sido evitadas.. na globalização......... e passam a ter consequências negativas a longo prazo.......... de exclusão . e ...... e moldar o comportamento ao ajudar os membros a dar sentido a seus ambientes. dessa realidade................ e encontrar caminhos de participação política. e ...

cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 13 belo pessoal útil caras participação catarse comprometimento política arrogância despreparo globalização arremedo falta de tempo realidade arte coletivo guarda municipal atividade sucesso consequências reação fracasso social acirramento temor econômica confronto liberdade estratégia verdade lacunas organizacional blefe enigma pergunta falsário oculto estabilidade busca amizade compromisso resposta trabalho coletivo resgate transtorno realidade resto dualidade social honesto vida mudança rancor santo individual carrasco fatos particular mágoa morte sobrevive carma corpo escrúpulos ideia fotos corrupto conceito responsabilidade dúvida palavra medo público figura significados ponteiros mácula amor tempo mágica humor relógio manejo escravidão fluxo catástrofe memória enchente compromisso maremoto vendaval raras fundo arrastão limitações entenderem .

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B.O. Lucas Bambozzi e Rogerio Borovik Colaboradores: Ana Rosa – debate e ações Marcos Vilas Boas – fotografias da exposição Luciana Tognon – apoio nas ações .A. Formação durante o projeto NA BORDA: Almir Almas.A.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:25 PM Page 21 Grupo C.I.

o que é. Esa nueva dis- tribuición de los posibles y de los deseos abre a su vez un proceso de ex- perimentación y de creación. 2. no ano 2000. desarrollada sobre el territorio de la ciudad donde se produce el acontecimiento antagonista. em si. traçando um território novo e frágil. 2007. . pero también hace emerger nuevas posibilidades de vida. é porque a “obra” é compreendida. o Contrafilé é um grupo de investigação e produção de arte que trabalha a partir de sua experiência cotidiana. São Paulo. publicação apoiada pelo VAI (Valorização de Iniciativas Culturais). ponto de partida e território de proliferação do seu trabalho”.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 2 NADA É MAIS IMPORTANTE DO QUE ESSA NUANÇA FUGIDIA1 Contrafilé2 Enunciação e Emancipação Este tipo de representación gratuita. O que se torna visível é um acontecimento no qual as estratégias mi- cropolíticas de disputa física e simbólica do espaço social são materiali- zadas. p. una lógica que emplea la representación por su efectivi- dad material. En otras palabras. Fábio Invamoto. integrante do Contrafilé. “Formado em São Paulo. ao mesmo tempo. Integram atualmente este grupo: Cibele Lucena. Joana Zatz Mussi e Rafael Leona. como a capacidade de tornar visíveis os agenciamentos3 que produzem e inscrevem “um olhar singular diante do mundo”. Segundo o sociólogo e filósofo italiano Maurizio Lazzarato (2006. Brasil. implicado na realização da vida pública. Se a sistematização dos processos é uma das formas importantes de produção de “imagens” nos trabalhos aqui apresentados. In: A Rebelião das Crianças. Es la lógica del agenciamento. es una lógica construc- tiva de expresión múltiple (Brian Holmes). genera un desplazamiento hacia un tipo de lógica política nueva. 1. ayudando a los grupos a articularse a sí mismos de una forma abierta y horizontal. Este texto é parte da dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) por Joana Zatz Mussi em 2012. 44): El acontecimiento muestra lo que una época tiene de intolerable.

] esta fragilidade nos é essencial pois indica a crise de um certo dia- grama sensível. 5. No entanto. a voz de pessoas convidadas para pensar juntas a partir de uma determinada “situação”. Enunciados que podem ser de vários tipos: a voz da grande mídia. 7). não apenas se evidencia o “antes” e o “depois” do acontecimento. ao contrário. 8).. Mas. ela passa a provocar um sentimento de humi- lhação e vergonha. p.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 3 A construção de imagens e narrativas críticas que transformam um processo propriamente em um acontecimento ocorre quando nessas se re- aliza uma síntese disjuntiva. Ao menosprezar a fragilidade. de outro. outro de expressão. cuja consequência é o bloqueio do processo vital. 4. e pontas de desterritorialização que o impelem” (Deleuze e Guattari. mistura de corpos reagindo uns sobre os outros. 2006. p.. no meio editorial etc. de ações e de paixões. p. 1977 apud ZOURABICHVILI. agenciamento coletivo de enunciação. que o estabilizam. Para a criação dessas imagens da diferença nas quais a fragilidade aparece. segundo um eixo vertical orientado. 2004. que procura romper com o menosprezo da fragili- dade. de seus modos de expressão e suas cartografias de sen- tido. 5): [. De acordo com Deleuze e Guattari: “Segundo um primeiro eixo. um dos elementos de linguagem que foi sendo construído por nós poderia ser designado como o ato de prontidão para corresponder a uma tradução sensível dos enunciados. transformações incorpóreas atribuindo-se aos corpos. de atos e de enunciados. no corpo. mas o instante de constituição de uma dife- rença que faz sentido (ZOURABICHVILI. horizontal. esta deixa de convocar o desejo de criação. 2006. Em outras palavras. 3.4 desdobrados como intervenções –5 o Colec- tivo Situaciones (2009a. um de conteúdo. um agenciamento comporta dois segmentos. as próprias obras-interventivas dos coletivos. captá-la é parte fundamental para a constituição da resistência política aqui relatada. o agenciamento tem ao mesmo tempo lados territoriais ou reterritorializados. 13) fala em uma prática de expressão autônoma. De um lado ele é agenciamento maquínico de corpos. 2004. p. A dificuldade na sistematização de processos para a criação desse tipo de imagem está justamente em encontrar formas de enunciação que consigam captar a fragilidade que compõe a produção dessa diferença. ou melhor. 6). a ideia ocidental de paraíso prometido corresponde a uma recusa da vida em sua natureza imanente de impulso de criação e diferenciação contínuas (ROLNIK. a voz de pessoas comuns. a ação de um movimento social. . p. que necessariamente decorre das experiências de vulnerabilidade ao outro e das turbulências desterritorializadoras (ROLNIK. Que podem também se dar em vários espaços: na cidade.

. desencadeando todo um processo de tradução e contratradução. fazendo leituras críticas e coletivas de jornais. o acontecimento se dá quando um enunciado adquire propria- mente caráter de enunciação. Assim. o que nos levou a nomear este trabalho A rebelião das crianças. A partir da imagem construída pela grande mídia e pelo Estado dos meninos da FEBEM como “marginais”. pusemos em prática a 6. segundo dados levantados pela AMAR – Associação de Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco... afinal.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 4 Portanto. é fazer constantemente esta operação de desnudamento dos fatos. 2007): Neste processo de encarnação dos conflitos. morreram mais de 28 adolescentes que se encontravam sob a responsabilidade da FEBEM.] Para tornar público o que descobrimos no encontro com o “cir- cuito das crianças criminalizadas”. “internos”. e de suas mães como “agentes externos incitadores de rebeliões”. Por exemplo.6 O dado de realidade que nos convocou a olhar com atenção para isso foi uma grande rebelião que acon- teceu no início de 2005 na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM) – cárcere juvenil onde vivem cerca de seis mil crianças e adolescentes julgados como criminosos. para isso sendo necessário um processo de confrontação simbólica. “ban- didos”. Até que começamos a substituir palavras para ver o que acontecia. se tratava aquilo. Passamos a acompanhar diariamente as notícias sobre a rebelião. Ao invés de “ju- ventude encarcerada”. nos deparamos com a criminalização e o extermínio social de uma parcela enorme de crianças e jovens. o grupo quis entender do que. pudemos entender também que o que nos move. “menores”. “internos”. nossa urgência. líamos: cri- anças. Um exemplo disso pode ser visto no trabalho A rebelião das crianças. Trechos da publicação “A rebelião das crianças” (Contrafilé. entre 2004 e 2006. [.

. “juventude encarcerada”. brincando”). Intervenção: produção de espaços na cidade que anunciem imagens desse devir (“crianças de rua” viram “crianças na rua. Segundo desejo disparado: conhecer essas crianças através de uma intervenção que evidencie a operação enunciativa realizada. pela palavra “crianças”.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 5 Interpretação de enunciados e atenção à fragilização que causam: que perguntas levantam? Que desejos disparam? Primeiro desejo disparado: trocar a palavra “internos”. “menores”.

2005.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 6 Crianças e Contrafilé na Praça da Sé. . São Paulo.

PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 7 Criança no balanço instalado pelo Contrafilé. 2005. . Viaduto Okuhara Koei/Avenida Paulista.

. Mãe de um jovem que esteve na FEBEM e referência do movimento das mães contra a tortura nas prisões (AMAR). E saíam as mães chorando bastante também. se começássemos retirando desses meninos o olhar de suspeita em todo o lugar a que eles vão. no lugar. Eu comecei a querer entender. ser curado dessa maldição. 3. um suspeito. ele veio e já começou a chorar. Às vezes eu fico pensando que. 7. para discutir problemáticas que ressoaram no grupo ao viver este processo: 1. Ele falou: “Aqui é terrível. quase que ele não me larga de chorar. A dor já era muito grande. tem de tudo que você possa pensar.] Quando os meninos entram na FEBEM. A lógica que mina a potência de criação.. você precisa se tratar. mãe! Aqui eles batem para valer. tem drogas. pelo chinelo. Tortura/terrorismo de Estado: o que significa a tor- tura hoje?. agarrado comigo.7 convidando três pessoas. pelo tênis.. Se lá fora é ruim.] E quando eu ia sair dali. É isso que o sistema não percebe. para você saber. aqui não vai mudar nada na minha história e eu só vou sofrer mais ainda aqui dentro.” “Aqui tem droga. instaurar o ódio e a ideia de que existe um inimigo. já deixava paralisada. E ver o outro criticar e olhar então. Eu vi muitos meninos chorando e muitas mães chorando.. aqui dentro é muito pior. Por que todo mundo chorava se era bem-estar? Todo mundo sai chorando? [. matando quem en- contram na rua.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 8 ideia de “assembleia”. 2. Assembleia Pública de Olhares é uma prática criada pelo Contrafilé para potencializar o encontro entre pessoas no intuito de que compartilhem experiências cotidianas a respeito da vida na cidade. A vida se banaliza.” [..” Eu disse: “Não. quase que eu não consigo ir embora.. Era uma dor muito nossa. aqui tem tudo.. 8. as famílias ficam muito envergonhadas. Como ressignificar traumas sociais e culturais que impossibilitam a construção de vida pública? Conceição Paganele:8 Eu pensei: “Que coisa é essa?!”Aí. já estaríamos melhorando essa sociedade. referentes de diferentes lutas. É essa a história. Maurinete Lima:9 O que se busca é destruir a potência juvenil e. meu filho. Fazem tudo isso com esses meninos e eles saem uma loucura.

Porque eles matam transformando uma coisa que é altamente digna em uma coisa totalmente humilhante. sistemati- camente.] O processo de criminalização [da AMAR] começa quando o governador Geraldo Alckmin se declara meu inimigo.] Eu conheço profundamente a fragilidade em que a Conceição ficou.. pelo direito de quem não tem direito nenhum. E dão o nome de terro- rismo. E a gente vem de- senvolvendo um trabalho a partir dessa angústia do “confina- 9.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 9 Conceição: [.. mas no mundo inteiro. E hoje a humilhação está chegando de outro jeito não só no Brasil. E aí também tem um trabalho de descobrir onde que essa fragilidade ecoa. que eu só atrapalho.... fugas. porque está em fase de inquérito. Eles me acusam de ser a incitadora de rebeliões. ainda não estou respondendo. e sinto isso como uma coisa totalmente comum entre a gente. É humilhação mesmo. Porque a humilhação tem sido. por isso a gente precisa conversar uns com os outros para não morrer. e sistematizamos o pensamento também quando produzimos símbolos. [. Ele vai a uma coletiva de imprensa e diz que eu não ajudo.. Socióloga e integrante da Frente 3 de Fevereiro. Iniciam um processo legal contra mim. onde essa humilhação ressoa na história de cada um.. Eles matam a gente.. [.] Contrafilé: O Contrafilé trabalha pensando determinadas situ- ações que partem da nossa experiência e tentando sistematizar o pensamento. uma estratégia do poder para cancelar os movimentos de ampliação. eu estava tentando entender o que estou sentindo. Suely Rolnik: Mas é essa a forma como matam. porque socialmente eles estão me matando. No começo. e a Conceição me ajudou. intervenções na rua.] Eles tentam abafar quando a gente quer lutar por um di- reito totalmente negado. [. .

a situação está novamente sob seu domínio". ação realizada pelo Contrafilé no Viaduto Okuhara Koei.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 10 “Crianças circulam livremente. . Avenida Paulista. 2006. São Paulo.

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daquilo que está sendo comunicado é ime- diatamente incorporado por um discurso oficial e totalmente esvaziado do movimento vital e das tensões que levaram a pen- sar as situações reais.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 12 mento”. por exemplo. Nos últimos anos. E aí eu acho que o confinamento tem a ver com várias coisas. Como.Aí. E agora. sempre entre a gente. vira uma coisa “superbacana”. isso vai se configurando. mas de sen- tir o confinamento como um estado geral que chega até nós e atravessa a nossa experiência. dos problemas que se está . E acho que deu vontade de quebrar um pouco também esse confinamento. falado. é também como a gente se sente confinado. o outro que se configura sempre como um outro distante. Deu vontade de abrir isso e de misturar pessoas com ex- periências diferentes de confinamento. pensar. Esvazia e muda a direção da palavra. do nosso lugar. estava sentindo um movimento de desconfina- mento. Trabalho muito fora do Brasil e dentro. entender. apresentado. estou sentindo que muito do que foi pensado. re- centemente. para ampliar o entendi- mento disso? Suely: Estou sentindo um tipo de confinamento que para mim é novo. que não é a de estar dentro de uma prisão. juntos. mas também quando vocês se sentem confinados. não é só o confinamento dos outros. da experiência de coisas intoleráveis que estamos vivendo. esse lugar de elaboração e de “pensar confinado”. Tem a ver. Suely: Então. quando na verdade são palavras que falam das coisas complicadas. Eu sentia que tinha gente em vários lugares em um movimento de criação. vou e volto. estava sentindo que tinha um monte de gente pipocando em um monte de lugar. Não sei se vou conseguir falar direito dele ainda. vendo o que estava se passando e bus- cando estratégias para combater. com a dificuldade de se relacionar com o outro. podemos misturar experiências para pensar. e como. Contrafilé: Sim.

mas está havendo.]. E é gozado. e daí eu me apego. una ‘capacidad de respuesta activa. una “evaluación de la respuesta”. é como se estivesse havendo um movimento. por mais que diga “É uma luta de traficante lá”. Eles pegam as palavras fortes e esvaziam. polemizan . o sistema não dá conta. a experiência não está mais nelas.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 13 vivendo. você não acredita naquilo simplesmente. a vi- olência absoluta e total de exploração e dominação. entendeu? É muito mais complexo. para mim.. Podemos utilizar la concepción del dialogismo para dar cuenta de la evolución del espacio público. me apego exatamente a essas formas em que não acredito mais. Toda enunciación implica una comprensión. ontem vi o Serra falar sobre “autonomia da universidade”. que você tem que enfrentar. O que predomina não é o que essas palavras significam. As palavras estão aí. o que sinto. sobre o “problema dos grupos”. neutralizada. Mas. porque lo que hemos visto e oído en esas noches de estallidos y esas jornadas de confrontación semi- ótico-linguística10 es la acción estratégica. e é por isso que eu fico correndo exatamente atrás do pessoal que não teme as coisas encasteladas.. tal como la describe Bajtin: por un lado. e acho que é por aí [. é que existe um medo. a favela do Alemão. mas a falcatrua absoluta. E essa experiência que se estava vivendo ao inventar essas palavras é completamente anulada. mas não o conteúdo delas. ao mesmo tempo. Mas também me apego a novas coisas. Concordo com você. “das pessoas que estão excluídas”. de saber como agir. Por exemplo. Maurinete: Agora. O que eu sinto medo é de que não dê tempo da coisa emergir e eu ter elementos para entender. uma coisa nova e que eu ainda não sei o que é. un “punto de vista”. e essa é uma grande comoção. cristalizadas. o medo de saber que está existindo alguma coisa nova e ainda não perceber qual a forma de atuar. no meu caso de con- finamento. los enunciados se refieren a otros enunciados. una “toma de posiciones”.

. quer dizer.] defende uma recusa dessa distância radical. Muitas vezes esse movimento é. p. É preciso. reconhecer a atividade própria do espectador. p. que é a de tradução e contratradução daquilo com o qual se depara: “é neste poder de associar e dissociar que reside a emancipação do espectador. Aqui o autor se refere às revoltas de jovens dos subúrbios franceses. a emancipação de cada um de nós como espectador. 23-24). Podemos aqui nos reportar ao conceito de “espectador emancipado” de Jacques Ranciére (2010. una simple confirmación de las relaciones sociales ya insti- tuídas (LAZZARATO.. compreendido como “a” intervenção. Paolo Virno (2006. aceitando o risco de expor as suas próprias intensidades no sentido de qualificar o debate. dessa distribuição de papéis e das fronteiras entre esses territórios do ver. Se entendemos a emancipação do espectador como a capacidade de se dar ao direito de produzir enunciações. vemos isso acontecendo na me- dida em que o “autor” se coloca sobretudo como um “espectador eman- cipado público”. É. p. ele afirma.. los completan. la potencia de transformación y de subjetivación de las meras estructuras semânti- cas. [. 8). se oponen a ellos o los consienten. . a partir do embate entre representação e contrarre- presentação. de hacer surgir las significaciones. se apoyan en ellos. una simple instituición. 2006. 15). pensador 10. También existe una imposi- bilidad de hacer de la enunciación una simple convención. em si. fazer e falar. por el otro. Nisto verifica-se uma capacidade que faz cada um igual ao outro e que se exerce ‘pelo jogo imprevisível de associações e dissociações’”. fonéticas o gramaticales de la lengua.] Existe entonces una imposibilidad de encerrar la enunciación en la lengua. geralmente descendentes de imigrantes..PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 14 con ellos. se- gundo Vera Pallamin: [. que. portanto. que se espalharam pelas periferias da França durante dezenove dias entre outubro e novembro de 2005. que uma atualização da dimensão pública do espaço se dá como desdobramento imprevisível.

a partir do qual espaços de compreensão se tornam possíveis: “Es un lugar prohibido y por eso puede ser muy subversivo. Tiene que ver. Entendemos essa dificuldade como uma das responsáveis pela impossibilidade de construção coletiva da vida pública e da cidade (em suas escalas materiais e imateriais). transformando-se a partir dele. como vimos. esse fora que nos fragiliza. na medida em que o medo de entrar em contato com esse devir. elabora sus desarollos posibles. con un público activo. ya de por sí. Assim. acredita que: Sobre todo al interior del movimiento new global. una forma de intervención activa. que o podem levar a uma elaboração dos modos de vida contemporâneos e a enunciações críticas. . modifica su signifi- cado: en sínteses. lo transforma en el momento mismo en que lo recibe. quien escucha una ocurrencia o un discurso político. lo rearticula mientras lo escucha. já que para ativar-se enquanto espectador-autor no sentido em que estamos entendendo o espectador aqui é necessária. Que “outro” é este do qual se fala? No livro Ninguna Mujer Nace para Puta. porque romperia con la forma más pro- funda de control y de poder de un ser sobre otro” (GALINDO. el rol de la “tercera persona”. en fin. Uma problemática que constantemente atravessa as enunciações coletivas tem. vira “medo do outro”. estamos aqui problematizando o papel do próprio “artista” enquanto “público ativo de si mesmo e das relações com o seu entorno”. “alvo” do pensamento contemporâneo defensivo. a conexão com a própria fragilidade. a ver com a dificuldade de sair do lugar de “espectador passivo”. Hoy. Maria Galindo e Sonia Sánchez (2007) usam a imagem da relação proibida como uma força sub- versiva interpeladora para falar dessa ruptura subjetiva que ativa conexões entre mundos e o trabalho de tradução e contratradução. justamente. del público. es.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 15 italiano.

realizado pelo Contrafilé.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 16 Parque para Brincar e Pensar. 2011. Comunidade Brás de Abreu e Jardim Miriam Arte Clube (JAMAC. atelier-escola da artista Mônica Nador localizado no Jardim Miriam). . São Paulo.

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o que ela sig- nifica? O que aquilo que está acontecendo lá longe diz de mim? Como diz o Grupo de Arte Callejero (GAC/Buenos Aires. que nos resultan enigmáticas.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 18 SÁNCHEZ. p. . que se coloca no centro das situações mais tensas para per- guntar: tenho medo do quê? Onde está a minha fragilidade. 165-195). não se dê ao trabalho. Ar- gentina): Sería un verdadero desafío para todos nosotros indagar qué nos hace frágiles y cómo se construye la fragilidad colectiva. mas da pas- sagem para um lugar mais elaborado. aborígene australiana). Metáforas do Confinamento Se vem para me ajudar. desde una actitud inclusiva o analítica. p. Outro elemento da linguagem construída por nós poderia ser des- crito mais ou menos assim: sair desse estado defensivo em relação a um outro supostamente externo e ameaçador convocando um estado ativo do corpo. então trabalhemos juntos (Lilla Watson. intentando despojarnos de los romanti- cismos que la militancia supone. no qual esse tipo de aliança proibida se concretiza a partir de um “cruze de miradas” (intercâmbio de olhares). porém se vem porque a tua libertação está vinculada à minha. As autoras ainda dizem que a força sub- versiva não vem simplesmente da enunciação das diferenças. También puede resultar interesante preguntarnos por qué encajamos donde encajamos. 137). 2007. ya sea que estemos en el lugar del delincuente o en el de su presa (GAC. o cómo dialogar con otras reali- dades que no son las propias. 2009. qué hacer con el miedo que sentimos a lo desconocido.

a possibilidade de estabelecer conexões inusitadas. nas identidades fixas. onde o in- vestigado não se objetualiza para ser tratado analiticamente. na escala da ex- periência. o que movem a produção do social. é. autoconfinados em lugares predestinados. a partir da qual convido o outro a se somar à conversa. disforme. de nos sentirmos. conseguirmos agir. quando fala sobre a re- lação entre diferença e semelhança: as minúsculas inovações ordinariamente anônimas são. 2006). que am- pliam as “sinapses possíveis” e revertem as leituras estereotipadas da “realidade” ao introduzir uma representação que contém a consistência processual de “espectadores que se fazem públicos”. reverberando socialmente por conter. invocamos o sociólogo Gabriel Tarde. aceitando passivamente os “discursos do medo”11 sem. no entanto. cada um de nós. acompanhada da experiência invisível. segundo o coletivo Política do Impossível: Uma forma de nos relacionarmos com nosso próprio contexto. A ação é uma postura que inicia o diálogo. por sua vez. justamente. As leituras alternativas de fatos sociais hegemônicos acabam. A investigação-ação. Aqui. A inves- tigação parte de nós mesmos como subjetividades situadas e em ação.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 19 Muitos trabalhos tentam encontrar formas para falar disso: a ex- periência visível e sensível de viver em uma “sociedade de controle”. para ele. para tornar visível uma experiência singular de um contexto comum. a partir da qual é possível iden- tificar como acontece a “espacialização desse estado de confinamento”. Essa ação a partir do nosso próprio lugar se dá através da criação de representações (soluções plásticas) e de ir vendo como as imagens que vou produzindo dialogam com o mundo onde vivo (POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. sendo que essas passam a contaminar o tecido social através da repetição que se dá pela .

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12 Dessa forma. 27). especialmente as mais altas. Félix Alcan. . no entanto. Uma das questões mais instigantes das práticas artísticas situadas é justamente o desenvolvimento de uma espécie de saber não excludente que parte de situações reais. hereditária ou vibratória [. Tiago Themudo está citando Gabriel Tarde.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 22 vibração (potência desejante) contida nessa capacidade de diferenciação. 11. orgânica ou física. Paris.. em toda a ordem de conhecimento. constituindo um conjunto de evidências no campo do visível e do legível de como as instituições nor- malizadoras são desafiadas e atravessadas por essa vontade de romper o ciclo de confinamento das subjetividades em lugares identitários. nunca é exatamente igual àquilo que imitou. isto é. Les lois sociales. alguns deles pre- sentes nessa publicação. 2000). parece derivar do acidental” (Tarde. para a autora. nas cidades contemporâneas. A partir de pensamentos e imagens dos coletivos.. não importa. se trata. parte de uma fórmula que elites do mundo todo vêm adotando para reconfigurar a segregação espacial das cidades (CALDEIRA. podemos ver como acontece efetivamente o ato de restauração permanente desse conflito. 2002. 26). que singularizam e marcam a diferença no espaço social. assim. p. uma forma de circunscrever. trans- formada em imagem que circula. A imitação. têm usado o medo e a violência do crime para justificar novas tecnologias de exclusão social e a retirada de classes mais baixas dos bairros tradicionais das cidades. 155. 1907. diferentes classes sociais.]. tornando visível.. nas quais a produção coletiva e compartilhada de dobras. Segundo Teresa Pires do Rio Caldeira. social. sendo constituída pela singularidade e subjetividade daquele que imitou e “Qualquer repetição. p. im- itativa. 1976 apud THEMUDO. e assim o normal. procede de uma inovação [.. 12. de inventar uma concretude imagética e performática para essa nuança. p. A circulação dos “discursos do medo” é. esse momento diferencial de relação com o espaço – que depois afeta pela força do desejo e da crença. não será a ação concreta e anônima na cidade. é o que efetiva- mente produz a experiência do comum.]. 1907 apud THE- MUDO. mais ou menos contidos na represen- tação que se faz desse instante inaugural do acontecimento? Se “nada é mais importante do que essa nuança fugidia” (Tarde. 2002.

Disponível em: <http://culturadigital. Jacques. A rebelião das crianças. 2006. São Paulo: Editora 34. Estéticas de la igualdad. SÁNCHEZ. Sonia. segregação e cidadania em São Paulo. GAC. Um resumo do Brasil profundo. São Paulo: Editora Pressa. Judith. Gabriel Tarde – sociologia e subjetividade. 2004. acciones. n. 2010. Revista Brumaria. Cidade dos cartógrafos. n. 2009a. HOLMES. ROLNIK. LAZZARATO. La virgen de los deseos. Suely. Maria. A liberdade da cidade. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Ninguna mujer nace para puta. Rio de Janeiro: IFCH- UNICAMP [digitalização e disponibilização da versão eletrônica]. Madri: Associacion Cultural Brumaria. São Paulo: [s. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 23 BIBLIOGRAFIA GERAL BUTLER. Disponível em: <http://www. Epílogo. CALDEIRA. In: GAC: pensamientos. Tradução de André Telles. HARVEY. Madri: Associacion Cultural Brumaria. 2010. VIRNO. 2006. In: Conversaciones en el impasse: dilemas políticos del presente. . Ambivalecia de la multitud: entre la innovación y la negatividad. GALINDO. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. COLECTIVO SITUACIONES.n.]. THEMUDO. Revista Brumaria. 2008. 2009b. EXPÓSITO.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Geopolitica. Geopolítica da cafetinagem. O vocabulário de Deleuze. MUJERES CREANDO. Invertendo expectativas. 2006. Marcelo. POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. Tradução de José Miranda Justo. Tradução de Gavin Adams. Que es la critica? Un ensayo sobre la virtud de Foucault. FONSECA. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. Acesso em: jun. Tradução de Emilio Sadier e Diego Picotto.pdf>. Brian.br/redelabs/2010/06/um-resumo-do-brasil-profundo>. Lisboa: Orfeu Negro. n. Vera M. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. François. CONTRAFILÉ. practicas. Jeroglífos del futuro. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. 2006. Tradução de Marcelo Expósito. 7. Politicas del acontecimiento. David.pucsp. Buenos Aires: Lavaca Editora. ______. Paolo. 2007. Brian Holmes entrevistado por Marcelo Expósito. O espectador emancipado. Teresa Pires do Rio. 2002. São Paulo: Oficina Cultural Oswald de Andrade. Maurizio. GAC: pensamientos. Felipe. Texto apresentado no I Simpósio de Estética – Temas em torno da Arte Contemporânea na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. RANCIÉRE. Cidade de muros: crime. [Publicação fomentada pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI)]. Acesso em: abr. 2005. 2009. Inquietudes en el impasse. practicas. 5. 2007. acciones. 2012. 2000. 2012. Tradução de Pablo Esteban Rodríguez. Urbânia. Tiago Seixas. 3. PALLAMIN. 2006. ZOURABICHVILI. 2006.

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Guto Lacaz. Augusto Citrangulo.” NOVA PASTA: Antonio Brasiliano. Rubens Zaccharias Jr. o esquecimento. Mauro de Souza. Flávia Sammarone. Mariana Cavalcante.nova pasta. Lucas D. Túlio Tavares livro3 . Marcos Vilas Boas. Fabio Meira. aos burros. Rogério BoroviK. Fabiana Mitsue.indd 160 13/11/12 14:16 . “A REVOLTA DOS BURROS” “Aos nossos cavalos o eterno reconhecimento. Paulo Zeminian. Eduardo Verderame.

no qual a escultura de Brecheret é questionada como espaço legítimo de representação do animal burro. e sua função se transformou. A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 . transportando todo tipo de coisa. Esse quadro retrata uma das cenas mais celebradas no imaginário nacional: simboliza o 7 de setembro. que foi fundamental para o transporte e ocupação dos territórios. principalmente na cultura brasileira. e muitas vezes a sua representação foi substituída pela representação de outros animais. de gente. pois sabemos que muitos trajetos irregulares são realizados no lombo de burros e eles foram agentes participantes da história. como comprovam os dados históricos. o dia da Independência. Os animais foram também historicamente negligenciados. A segunda ação do Nova Pasta toma como ponto de partida a escultura Monumento às bandeiras (1921-1953). do artista Pedro Américo. de carga. A escultura popularmente conhecida como “Deixa que eu empurro” representa o monumento símbolo às bandeiras. de Victor Brecheret. A ação do coletivo acontece por meio de uma intervenção urbana no espaço público. com suas diversas etnias e animais puxando uma canoa.nova pasta. no lugar dos cavalos. O burro ainda tem lugar na contemporaneidade? E qual o espaço desses bravos animais na história da arte? O coletivo Nova Pasta elegeu duas obras de referência para seus trabalhos. Com a modernidade. A Revolta dos Burros questiona o lugar dos burros em passagens históricas. os burros passaram a ser substituídos pelas ferrovias.indd 161 13/11/12 14:16 . O coletivo propõe uma releitura contemporânea da pintura por meio de uma nova configuração do conjunto pictórico com as representações dos artistas atuantes e animais. “Monumento às Bandeiras” (1921-1953) de Victor Brecheret20 A Revolta dos Burros proclama o resgate histórico do burro como importante desbravador de caminhos. A representação do burro na história da arte parece secundária. Este animal. A primeira é a pintura Independência ou morte (1888). Os bravos animais chamados de burros subiam e desciam os morros. está sendo esquecido pelas novas gerações informatizadas e urbanas. O desafio seria eleger o burro como novo símbolo do país e resgatar sua importância histórica. Já o cavalo figura como símbolo de status e potência.

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202 Orelha plastionda 1.60 x 0.70 m Orelha 1.60 x 0.70 m .plastionda 5 mm A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .indd 163 13/11/12 14:16 .nova pasta.

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nova pasta.indd 167 13/11/12 14:16 . Imagens de gravuras do burro Goya A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .

tigres. o transporte. psicológicos. deletério em seu estado físico informe. Ser um burro. representava a fauna selvagem. que está em toda a sua plenitude biológica. como prêmio. algo que está presente no homem. Nossa fusão com o burro é da ordem do informe. apolíneas. o metafísico.. a distância. instinto. a carga.” Bataille acredita que esta metáfora suprime as fronteiras por meio das quais os conceitos organizam a realidade. águias. fisiológicos. aranhas. ao contrário do burro. centauros. e de todas as cargas imagináveis. tais como orangotangos.. faunos. grotesco. é o feno. assemelha-se a tantos animais ideia criados pela fantasia mítica do homem: dragões. não evocam o transcendente. Esses comportamentos sucedem a idealização. Para ele. A exemplo desses seres. deuses egípcios. o cavalo. a insignificância e o anonimato. Nesse sentido. sensório. estes são os deuses. mas que dizem mais respeito a uma separação: nós estamos aqui. acontece muita coisa. livre do humano. o informe é a categoria que permite desconstruir todas as demais categorias.. Nossa fusão é a abstração dos conceitos. limitam-na em sentidos. contato. porque o burro sempre está em toda a sua verdade. da verticalidade e do ponto de vista. O corpo impossível. vai para o informe. repulsão. esses animais projetam sempre um vir a ser animal. O burro é a fusão com a paisagem e com a gente. são as fantasmagorias do duplo e da imortalidade. ele é o caminho. Vamos crer por um momento que não somos nós os donos da nossa percepção. Todos uma espécie de fusão entre homem e bicho. os burros diferenciam-se do ideal: cavalos. carregador de todos em todos os tempos. então. O burro alado “Os grandes problemas estão na rua” Nietzsche A figura do burro e o imaginário. que sempre foi associado a formas acadêmicas. hipopótamos. o testemunho de forças primitivas. o burro pertence a uma classe de animais cujas formas são aquilo que Bataille chamou de dementes. a máscara e o não natural. a própria vida veio do informe. esfinges. Aqui no caso.. vamos para a horizontalidade animal. reações. Seu comportamento é desmesurado. Ele é o burro. filosóficos. e o burro sabe disso. introduzem a desordem no pensamento. mas não são a gente. Recriar em nossas mentes o que é ou poderia ser um burro. mas somos nós. O burro. das noções de definição. indianos. é deixar de ter a pretensiosa percepção de onde o mundo se organiza. uma expressão acabada e eterna da ideia. sua voz esganiçada. A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 . só têm uma parte da gente. cuja perfeição clássica é criação do helenismo. No entanto. Assim. mais especificamente o burrico! E nesse esforço demonstrar que arte é a hipótese da nossa própria irrealidade. vamos negar que as coisas tenham uma forma que lhes é própria. Os incontáveis contornos de nossa própria imagem. sociológicos. Informe Devemos a Georges Bataille o conceito de bassesse (baixeza) para designar um mecanismo que serve para obter o informe. é a água. São Paulo: Iluminuras. fora de nosso controle. corpo fisiológico. Não é o que nós queríamos ser. 2002. Vamos desfazer as categorias formais. atração.nova pasta. “O cuspe. combinar a figura humana com outros seres. recortam-na. cômico. parecem nos levar a crer que é necessário levar a sério um projeto radical. sátiros. antes chamado onagro pelos sumérios. Entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno do universo. o que vem. Em contrapartida. Afinal. já que este não tem sentido. Eliane Robert. não se coloca nem acima nem abaixo. Ao contrário do cavalo. o que vai. e sim o presente. como “sobrecasacas matemáticas”. é deixar que nossas proposições deixem de servir como medida universal do cosmos.indd 168 13/11/12 14:16 . e do informe se alimenta. ou seja. minotauros etc. não nos é objeto de adoração e esperança. sereias. Justamente por estas características. puro movimento. sua polaridade entre a obediência e a teimosia já o aproxima do homem. Vamos agradecer ao burro por esta revelação! Grupo Nova Pasta Referência Bibliográfica MORAES. tal como o burro. O burro é aquele cuja existência foi subjugada à razão do homem. saindo do prumo.

1888) A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .nova pasta. da Independência) O Museu Paulista da Universidade de São Paulo. conhecido também como Museu do Ipiranga ou simplesmente Museu Paulista. sendo parte do conjunto arquitetônico do Parque da Independência. é um museu localizado na cidade de São Paulo. Fotos Museu do Ipiranga A Casa do Grito no Parque do Ipiranga São Paulo (Pq. “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” ou “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo (óleo sobre tela.indd 169 13/11/12 14:16 .

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indd 186 13/11/12 14:17 . Bruna Tavares.nova pasta. educadores: Carolina Teixeira. Lucas D e Renato Almeida. Avelino Neto. A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .

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Coletivos Curta www.com/invisiveisproducoes .NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 12/1/12 6:47 AM Page 47 Série Invisíveis Produções Receba esta e outras publicações.facebook.

Esqueleto Coletivo. Contrafilé. UMA CIDADE NA BORDA Foram realizadas intervenções em espaços públicos da cidade de São Paulo ao longo de três meses pelos grupos Bijari. Nova Pasta. UMA CIDADE Portal Realização Apoio Invisíveis Produções Invisíveis Produções PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Ocupeacidade e Projeto Matilha. PROGRAMA DE AÇÃO CULTURAL 2011 .NABORDA LIVRO capa 09 ebook:Layout 2 12/21/12 3:19 PM Page 1 Série Coletivos NA BORDA NOVE COLETIVOS. EIA. Frente 3 de Fevereiro. UMA CIDADE NOVE COLETIVOS. As intervenções geraram uma exposição e este livro com os registros desenvolvidos pelos coletivos. SECRETARIA DA CULTURA. Bijari COBAIA Contrafilé EIA Esqueleto Coletivo Frente 3 de Fevereiro Nova Pasta Ocupeacidade Projeto Matilha DISTRIBUIÇÃO GRATUITA NA BORDA NOVE COLETIVOS. NA BORDA é um projeto que reúne nove coletivos artísticos em torno da prática e da reflexão sobre a intervenção urbana hoje. COBAIA.