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NABORDA LIVRO capa 09:Layout 2 12/1/12 6:59 AM Page 1

Série
Coletivos

NA BORDA
NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE

NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE
NA BORDA
Foram realizadas intervenções em espaços públicos da cidade de São
Paulo ao longo de três meses pelos grupos Bijari, COBAIA, Contrafilé, EIA,
Esqueleto Coletivo, Frente 3 de Fevereiro, Nova Pasta, Ocupeacidade e
Projeto Matilha. As intervenções geraram uma exposição e este livro com
os registros desenvolvidos pelos coletivos. NA BORDA é um projeto que
reúne nove coletivos artísticos em torno da prática e da reflexão sobre a
intervenção urbana hoje.

Bijari
COBAIA
Contrafilé
EIA
Esqueleto Coletivo
Frente 3 de Fevereiro
Nova Pasta
Ocupeacidade
Projeto Matilha
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

NA BORDA
NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE

Portal Realização Apoio
Invisíveis
Produções Invisíveis
Produções
PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, SECRETARIA DA CULTURA, PROGRAMA DE AÇÃO CULTURAL 2011

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NA BO
NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Copyleft
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que não sejam colocadas barreiras à utilização, difusão e modificação de uma obra cria-
tiva. É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam
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ORDA
DE

Bijari
COBAIA
Contrafilé
EIA
Esqueleto Coletivo
Frente 3 de Fevereiro
Nova Pasta
Ocupeacidade
Projeto Matilha

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LIVRO “NA BORDA – NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE”
Editores Daniel Lima e Túlio Tavares
Coletivos participantes Bijari, COBAIA, Contrafilé, EIA, Esqueleto Coletivo,
Frente 3 de Fevereiro, Nova Pasta, Ocupeacidade e Projeto Matilha Revisão Duda Costa
Projeto Gráfico Daniel Lima Capa Nova Pasta Publicação Invisíveis Produções
Fotos Marcos Vilas Boas Apoio Matilha Cultural e Ação Educativa

EXPOSIÇÃO “NA BORDA – NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE”
Coordenação do Projeto Daniel Lima e Túlio Tavares
Coletivos participantes Bijari, COBAIA, Contrafilé, EIA, Esqueleto Coletivo, Frente 3 de
Fevereiro, Nova Pasta, Ocupeacidade e Projeto Matilha Direção de Produção Marcos Farinha
Assistente de Produção Rafaela Ferreira Cenografia Mariana Cavalcante Coordenação
da Ação Educativa Joana Zatz e Rafael Leona Desenho de Luz Lúcia Chedieck e Lara Galvão
Projeto Gráfico Daniel Lima Realização Invisíveis Produções
Coordenação Geral SESC Tiago de Souza e Tatiana Zacariotti de Freitas

Realização Portal Apoio
Invisíveis
Produções
Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo,
Secretaria da Cultura, Programa de Ação Cultural 2011

NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 4:53 PM Page 5 Apresentação 07 por Daniel Lima e Túlio Tavares Vazadores (Os ladrões da galeria) 09 por Fabiane Morais Borges Maximizando as bordas 15 por Flavia Vivacqua Arquivomania 19 por Suely Rolnik Agência ficcional 45 por EIA Agentes & transcendentes 63 por Projeto Matilha Teto de vidro 86 por Esqueleto Coletivo Intervir? 106 por Frente 3 de Fevereiro Sonho meu imóveis 125 por Ocupeacidade O desaparecido 146 por Bijari A intromissão da dúvida no espaço público 156 por COBAIA Nada é mais importante do que essa nuança fugidia 176 por Contrafilé A revolta dos burros 198 por Nova Pasta .

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Flavia Vivacqua e Suely Rolnik. Este livro encerra um ciclo do NA BORDA e esperamos que. Contrafilé. que origina este projeto. Neste período. Participaram deste diagrama os coletivos Bijari. EIA. ressoavam nas edições anteriores. às páginas elaboradas pelos próprios coletivos. antes de chegar à edição Intervenção. COBAIA. 7 . Esqueleto Coletivo. somam-se reflexões de algumas vozes que mediaram debates durante a exposição: Fabiane Borges. Neste livro. Projeto Matilha. oficinas e uma exposição que ocorreu de julho a agosto de 2012 no SESC Consolação. de alguma maneira. debates. O processo poético do NA BORDA Intervenção durou dez meses e envolveu etapas que incluíam agir na cidade. questões em torno do fazer coletivo e da ação artística no contexto urbano. lançou as edições Crise e Corpo. intensifique as forças que continuam a nos movimentar. como ressoam nestas páginas. como uma revista on-line. De maneira geral.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/21/12 2:53 PM Page 7 NA BORDA POR DANIEL LIMA e TÚLIO TAVARES NA BORDA surge em 2011. Nova Pasta e Ocupeacidade. Frente 3 de Fevereiro.

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depois de tantos anos de experiência urbana. As experiências do NA BORDA passam por essas ambiguidades. questionando os valores sociais e o próprio instinto civilizatório. em critérios de valorização de certos grupos em detrimento de outros. Por um lado. Mas tampouco posso ignorar o fato de que é inadmissível que. sejamos ingênuos e pensemos que estamos apresentando alguma alternativa aos modelos institucionais e do mercado. Seria muita irresponsabilidade. seja por falta de recursos financeiros próprios ou falta de investimento de órgãos competentes. sabemos das dificuldades que sofrem ao tentar sustentar essas práticas. o porteiro autoritário. enfeitado por um delírio de poder. dialoga com a vida pública e com problemas que emergem na constituição das cidades. em que muitos caem sem sequer perceber ou fazer autocrítica. Risco popular. o escravo fascista. 9 . Por outro lado. Para não ser prolixa. geralmente com algum gozo. nem fazer militância vazia contra uma sociedade baseada no poder e no reconhecimento. trabalhos com movimentos sociais e ações de arte política. em curadorias seletivas. não posso agredir deliberadamente os modelos de contenção e inscrição dos sujeitos e grupos no mercado de trabalho. são os outros que notam. que se sustenta com o reconhecimento e a inveja alheia. A história está cheia disso.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 9 Vazadores (Os Ladrões da Galeria) POR FABIANE MORAIS BORGES Constantemente corremos o risco de estacionarmos exatamente no posto que outrora criticávamos. sabemos que a matéria com a qual os coletivos atuam ainda tem um conteúdo urbano e político radical. Os descuidados podem não perceber quando estão assumindo o posto. e os coletivos que participam disso precisam pensar sobre seus procedimentos. como se eu mesma estivesse fora desse jogo. sujeitos que assumem o papel do opressor. Esse comportamento se dá de forma inconsciente. quando na verdade só repetimos padrões de exibição e notoriedade. O mais fácil é que caiam com facilidade na repetição de metodologias de representatividade. para poderem propor uma alternativa aos modelos viciados.

NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 10 A exposição NA BORDA realizada no SESC Consolação. São Paulo. . 2012.

os grupos trabalham com temas abstratos. a formação de opinião. que ela tinha que cuidar de todas aquelas crianças na rua e que as pessoas naquela sala ficavam só falando e não faziam nada. Se. da ação dos coletivos. Muito diferente do consumo da obra de arte da galeria. uma integrante jovem do coletivo COBAIA. as próprias obras. Elas exigem uma responsabilidade social com os conteúdos produzidos. e sabe-se do tamanho da exigência que essas duas jovens fazem aos artistas. Isso não é retórica. dizer que era muito injusto. tomou a palavra e começou a chorar. os quais mal conseguem sustentar as próprias contas. ele já tem seu lugar de espectador da obra. também entrou no debate. reduzindo enormemente o vínculo das pessoas com a ação. A diferença entre obras de galeria e obras de intervenção na cidade diz respeito também ao público. mais ou menos pelo que lembro. cotidiana. no trabalho dos artistas. e de certa forma nos disse que não tínhamos interesse na criação de acesso ou diálogo. o cotidiano das pessoas é que estava sendo modificado. foram transformadoras para a vida de artistas e público. Acham as ações potentes. o teor do debate mudou. Ao tirar-se a urgência das ações. na segunda ele é parte dela. parece que o cerne da questão se assenta na força da obra. que tem uma função significativa. na primeira. que de alguma forma se desligam da cidade e passam para esse outro lugar que é do efeito midiático. A questão é complexa. que tinha um gap geracional em torno do nosso trabalho e a vida dos milhares de jovens de São Paulo. As experiências vividas por esses coletivos nas ocupações. é uma constatação. que na 11 . que é a mudança de valor. da interação com as obras de arte em espaços protegidos. Ana Rosa. que esse tipo de exposição não dialogava com os jovens. porque de certa forma acreditam na arte. em seus discursos. A profissionalização dos coletivos de arte já foi debatida em muitas redes. Logo saiu da roda de conversa. E que certamente precisam trabalhar em outras coisas para se sustentar. A partir dessas duas intervenções. e do quanto isso despotencializava as próprias ações. por exemplo. tendo que dividir parcos recursos entre as várias pessoas que integram seus coletivos. o que enfraquecia a ação. Abandonando o contexto. Ela disse. da espetacularização das ações. Para mim. provavelmente uma moradora de rua.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 11 No dia em que eu estava fazendo a moderação do NA BORDA. e tem como uma de suas vertentes mais óbvias a domesticação. Outra jovem. e passou-se a discutir sobre a questão da instituição por trás da intervenção urbana. falou algo que mudou significativamente a discussão em cena. A invenção de mundos concretos dá lugar à excelência estética. mas que corre o risco de se desvincular totalmente da vida pragmática. tira-se também a necessidade concreta do contexto.

desigualdade e. interessada em ampliar a acessibilidade dos grupos aos eventos protagonizados por coletivos mais reconhecidos. em que os grupos são desafiados a criar obras que lhes deem notoriedade. Essa fissura cria traumas. principalmente. que determinam o que serve ou o que não serve para ser consumido por um mercado faminto por novidades. Os espaços institucionais. por mais que as criancinhas da escola frequentem tais espaços guiadas por seus professores. assim como os editais. elegem as características dos eventos. porque se sabe que. Chego finalmente nos Vazadores. Mas não se trata somente de criar um antagonismo entre galerias e espaço público. exclusão. Longe de julgar comportamentos ou de fazer críticas severas à cena que se desenhou no NA BORDA. desvirtuando por princípio as características mais promissoras dos coletivos. muito pelo contrário. os artistas envolvidos no evento como reprodutores de um sistema de opressão. os ladrões da galeria. No caso de eventos como o NA BORDA. É para onde a água vaza quando a contenção não dá conta de sustentar seu volume. que são os trabalhos em rede estendidos. A cultura compartilhada dá lugar a uma competição. fortalecendo seus nomes e criando contenção. Não há espaço para todos na selva de pedras. Esse momento é delicado e exige certa dose de ousadia para encará-lo. e manter assim vivos a crítica e o questionamento. sem necessariamente criar antagonismo. algo a ser combatido. quando se para de ser o questionador e crítico e se passa a ser o protagonista na criação de exclusão. hierarquicamente superiores. nenhum lugar é estável. Um cinturão que constitui o imaginário político da civilização moderna. coletivos. tentam amplificar uma situação na maioria das vezes ignorada. Acredito que mostrar essa tensão.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 12 instituição vira coisa de especialistas. Os grupos não reconhecidos passam a pensar o evento dos seletos. seja pela espetacularização de alguma realidade social. Quem se criou perto de açudes ou barragens conhece o termo. ou esses cinturões. seja pela pesquisa de linguagens individuais. elegendo seus representantes. Ao formatarem seus editais. Não se sabe exatamente quando se muda de status. o curador do evento. Outra coisa que se percebe como risco é a apropriação dos movimentos. como um cinturão imaginário que separa o movimento todo dos seus eleitos. o problema é bem mais difícil que isso. faço um esforço aqui de criar uma alternativa simples. Os riscos aqui descritos não têm interesse em imobilizar nenhuma iniciativa. Mas sabemos também que normalmente esse lugar do poder está sempre mais próximo do que pensamos. no jogo do poder. Apropriam-se constantemente das ações das redes. a que estamos todos acostumados. diminuindo seu tamanho. seja necessário para que se criem alternativas à repetição cansativa. são plataformas legitimadoras da obra. recalques. os Vazadores podem ser 12 .

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Fazer vazar é roubar algo da galeria! FABIANE MORAIS BORGES Psicóloga. nem servem como alternativa para todo tipo de proposta. não fechar o acesso a esse encontro. para que tanto as obras dos grupos convidados.wordpress. mas. pode ser uma parede. quanto de colegas. Não se sabe que formato tem os vazadores. ensaísta. sem cristalizar um lugar de poder. com o externo. ou outro. porém apresentam uma forma interessante de lidar com os excessos produzidos dentro do próprio evento. os enriqueçam. manter um diálogo com o lado de fora. um site aberto. alvo fácil das pedras certeiras. permitem que a participação alheia se efetive. não destroem as contenções. afrouxam o cinturão divisório. O que importa é manter esse espaço vivo para receber as informações de fora. é também uma necessidade. A criação de acessibilidade não é somente uma postura ética.com 14 . tanto do público em geral. da exposição. Os vazadores são os buracos da contenção. estejam num jogo produtivo de acesso e autotransmutação. promovê-lo. um projetor de vídeos. a produção do evento.com | catadores@gmail. e organizadora de dois livros da Rede Submidialogia: Ideias perigozas e Peixe morto. http://catahistorias. que de alguma forma sentem que fazem parte do evento em questão. receber informações novas que modifiquem os conteúdos internos. intervenção na cidade. uma televisão com vídeos. Ampliar o espaço de diálogo com o exterior em qualquer evento é uma boa forma de exercer a generosidade. deixar vazar o conteúdo interno. Uma maneira de fazer vazar. achar uma saída. ao contrário. autora dos livros Domínios dos demasiados e Breviário de pornografia esquizotrans. uma forma de manter o debate incessante. que funcionem para receber a demanda externa. Estou certa de que os vazadores são medidas inofensivas. que não mexem radicalmente na estrutura institucional. manter a vitalidade do evento e. ainda por cima.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 14 lugares abertos dentro do evento. como força inovadora da própria exposição. ao invés de insistir na cópia de si mesmo. como todo o conteúdo em questão seja espaço urbano. pode ter os mais diferentes formatos. um espaço vazio. outros coletivos.

as bordas são o espaço limite entre territórios e sabidamente o lugar mais fértil e produtivo que podemos encontrar para a biodiversidade. Além disso. A especulação imobiliária. ainda que conecte os mesmos dois pontos. torna-se ação potencializadora para o design de processos de transformação.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 15 Maximizando as bordas POR FLAVIA VIVACQUA Na ecologia. de gênero. de todos os envolvidos na ação: proponentes ou mediadores da ação. também fica incluído o ambiente. sem proposição possível. de violência. Todo 15 .2 um conceito muito utilizado é o de maximizar as bordas. o apagamento da memória e história. podem facilmente cair nas conhecidas práticas panfletárias e ativistas de simples negação do descontente. gerando assim maior resiliência1 ambiental e preservação de espécies. do comodismo e da alienação. participantes ativados no processo ou simples observadores.. É ali. de etnia. e ainda outros tantos encontros com o que necessita ser reconhecido e valorizado. de corrupção. de descompasso. Atuar nas bordas da urbanidade. Para além da curiosidade e da sede por descobrir algo novo simplesmente. do público e do privado. o apagamento de espaços de convivência e afetos. do micro e do macro.. o que também a faz mais criativamente potente. Essas paisagens. será certamente deparar-se com as complexas e múltiplas questões da cidade. na prática expressiva dos coletivos de arte. Encontro certo e marcado com tudo aquilo que ainda precisamos reparar e superar. Dessa forma. Transformação social e cultural... de equívocos. uma borda sinuosa é sempre mais extensa que uma linha reta delimitante. possibilitando a mescla e potencializando a vida. vistas apenas de uma única janela. que se estabelece o campo de encontro entre ecossistemas distintos. no qual esses encontros maximizadores se dão. na borda. como uma prática de potencializar a biodiversidade para gerar maior resiliência. na permacultura. Maximizar as bordas no contexto da arte e da cultura colaborativa. de miséria. em maior ou menor grau. há a indignação e o inconformismo diante da miséria material e imaterial e da injustiça social. Tudo isso somado a todas as questões de classe.

pela compreensão da importância do fortalecimento dos laços afetivos. muitas práticas passam. do humor. ampliam a capacidade de vivenciar uma percepção do outro e de si. diretamente aberta e surpreendentemente criativa. nas bordas sociais e culturais que são contornadas e borradas ao transpor as tantas fronteiras físicas e simbólicas. Dessa forma. e esses artistas sabem disso! Os coletivos de arte atuantes na cidade compreendem o centro como periferia e a periferia como centro. para que transformações e sabedorias possam manifestar-se.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 16 o cuidado é pouco. do resgate de saberes antigos ou mesmo ancestrais. ainda que com toda sua significação. Uma sabedoria interessante nos processos colaborativos é a integração inteligente de diferentes pontos de vistas e habilidades. ativada para o estabelecimento de um contato presencial que dispara uma reflexão crítica e criativa do contexto ou situação em que se vê chamada a intervir na busca por mudanças qualitativas no cotidiano e modos 16 . Na busca por ações significativas. bem como o ser que os presentifica. por exemplo. o tempo e o espaço. da atuação contundente na ruptura dos padrões que são alienadamente vívidos. As práticas artísticas dos coletivos atuantes “Na Borda” têm a qualidade da consciência política e estética.

Reativas ou ativadoras. buscando verdadeiramente um compreender mais amplo de possibilidades e corajosamente ousado no agir na realidade. formas de empoderar o cidadão em seu direito de poder ter considerado o desejo que se quer ver ocupando os espaços e imaginários do mundo.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 17 de viver dos territórios da cidade. divertida. mas justamente o libertador de convenções limitadas. que se quer lúdico. metodologias. o que desejamos. O SONHAR. intensidade. Colocando sobre a mesa nós mesmos a nós mesmos. o que estranhamos ou. o sonhar abordado no fazer dos coletivos maximizadores da borda não é aquele romântico alienante. está pronto para entrar em relação com outros. 17 . crítica em relação à realidade. ritmos e espaços. irônica. conscientização e liberdade. comunitariamente resiliente. Então. empoderado de seus desejos. ainda. para que possam colaborar com ações de conviver processos de mudança no mundo. linguagens. O jogo. adereços. Contudo. muitas vezes provocadoras. ferramentas. lúdica ou curiosamente absurda. Explicitando o que acreditamos. esse ser hábil de suas próprias habilidades. de se reconhecer e também o outro em meio aos padrões culturalmente estabelecidos ou em nossas escolhas sobre temas prioritários é submetido ao acaso. que estabelece os desejos e proposições de um lugar no mundo que realize o sentido de pertencimento e outra lógica. canal de saberes possíveis às ações revolucionárias. o que tememos. para o viver cotidiano. Permite a criação imagética de lugares possíveis e impossíveis. Compreende também que o diverso e múltiplo que emerge das pessoas envolvidas no processo se trata de uma inteligência coletiva capaz de mostrar-se inventiva. As práticas artísticas atuais também estão focadas em uma variedade de experiências com diferentes suportes. personagens e lugares. como no lance de dados ou em um baralho e sua disposição. essas escolhas e fazeres das práticas artísticas atuais não estão alheios às pequenas e múltiplas transformações de cada ser humano ali presente. sábio de novos tempos. criatividade e potencialização das singularidades de cada ser humano. que são estimulados pelo coletivo em ação ou mediados por esse agente- -criativo-e-múltiplo. Algumas palavras-chaves e temas são forte e recorrentemente ativados. consciente de sua singularidade. adequada à necessidade. construções. capaz de propor transformações para si mesmo e seus comportamentos como um convite para o outro. O JOGAR e a LUDICIDADE. com qualidade. muitas vezes relacionados à identidade e seus impactos nas escolhas. pedagogias. estimulador de criatividade. como: O RELACIONAR-SE. capaz de assumir sua nova identidade.

Esse termo também vem sendo utilizado para compreender a capacidade estruturadora das comunidades e redes sociais que passam por situações críticas. A permacultura foi criada pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970.nexocultural. veio de permanent agriculture (agricultura permanente). atuando para maximizar as bordas do viver urbano. a prática coletiva apresenta facetas simultaneamente REAL e SURREAL com o viver. Trata-se de um método holístico de planejar. limitadamente normal e formal sobre princípios e valores que norteiam atitudes e escolhas plausíveis de ressignificação ou transformações.com | www. estendeu-se à sustentabilidade dos assentamentos humanos locais. Trata-se de resiliência criativa e design de processos. 2.corocoletivo.wordpress. . A sustentabilidade ecológica.com. Idealizou o REVERBERAÇÕES – Festival de Arte e Cultura Colaborativa. aplicado à biologia para definir a capacidade de elasticidade ou ainda a capacidade de sobrevivência de determinado organismo ou sistema em meio a grande impacto. pertencente e participante. ideia inicial. cunhado na Austrália. socialmente justos e financeiramente viáveis. ambientalmente sustentáveis.br | www. Por vezes.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 18 No maximizar as bordas. explicitando uma prática crítica e realista aos estranhamentos da realidade que se tornou surreal em sua reprodução contínua de padrões insustentáveis. premiado com o Programa Cultura e Pensamento/MinC. ao mesmo tempo.com. Fundou em 2007 e dirige a NEXO CULTURAL Agência de Design de Processos e Sustentabilidade e CASA NEXO. Trata-se de um olhar-agir intervencional de quem está inserido.reverberacoes. integrou diversos coletivos e articulou o CORO – Colaboradores em Rede e Organizações. http://flaviavivacqua. O termo. Outras vezes. e mais tarde se estendeu para significar permanent culture (cultura permanente). Resiliência é um termo da física. gerando provocações criativamente surreais e expansivas para uma realidade dormente em seu cotidiano estabelecido. 1. que consegue se distanciar e ver “de fora” o que acontece na situação vivida. FLAVIA VIVACQUA Artista e designer cultural para sustentabilidade.org | www.. atualizar e manter sistemas de escala humana. diálogos significativos e práticas criativas.. disparando perguntas geradoras.br 18 .

uma pergunta logo se impõe: como seria um inventário portador dessa força em si mesmo. Tais políticas se distinguem menos pelas opções técnicas ou metodológicas que orientam a produção de um arquivo. necessariamente diferentes das que foram originalmente vividas. E então é a arte de viver. urge perguntar-se pelas políticas do arquivo. mas com um mesmo teor de densidade crítico-poética. se compõe. a produção de um arquivo “para” e não “sobre” uma experiência artística ou sua 19 . Diante dessa proposta. Refiro-me à sua aptidão para fazer com que as práticas inventariadas tenham a possibilidade de ativar experiências sensíveis no presente. Walter Benjamin (psicografado) Há cultura. Nesse contexto. o fenômeno não é fruto de puro acaso. se filma. uma compulsão que abarca desde investigações acadêmicas de arquivos existentes ou ainda por constituir até exposições neles baseadas parcial ou integralmente.. turismo. é pela incontornável exigência vital de ativarmos. camisetas. no presente. Isso não se diz. Ou isso se vive. Todos dizem a regra: cigarros. e mais pela força poética que o próprio dispositivo proposto é capaz de veicular. que é a arte. passando por acirradas disputas entre colecionadores privados e museus pela aquisição desses novos objetos de desejo. É da regra querer a morte da exceção. E há exceção. televisão. já que são muitos os modos de abordar as práticas artísticas que vêm sendo inventariadas. guerra. Ninguém diz a exceção. se pinta. Jean-Luc Godard (Je vous salue Sarajevo)1 Uma verdadeira compulsão em torno de arquivos tomou conta do território globalizado da arte nas últimas décadas. computadores. Isso se escreve..NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 19 Arquivomania POR SUELY ROLNIK Se o passado insiste. Sem dúvida. isto é. que é a regra. seus germes de futuros soterrados.

É esse o contexto em que artistas posteriormente qualificados de “conceituais” tomam como objeto de investigação o poder do “sistema da arte” na determinação de suas criações. ao tornar tais deslocamentos sensíveis. de dois blocos de perguntas. os suportes. seu surgimento. apresentação. o vírus de que é portadora. com efeito. Essas práticas. Essa operação constitui a medula de sua poética e condição de sua potência pensante – na qual reside a vitalidade propriamente dita da obra. mais precisamente aquelas criadas na América Latina em países que então viviam sob regimes militares. existe um objeto privilegiado por tal ânsia de arquivar: trata-se da ampla variedade de práticas artísticas.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 20 mera catalogação. A explicitação e a problematização de tais limitações na própria obra passam então a orientar a prática artística. assim como outras igualmente ousadas para os parâmetros da época. na busca de linhas de fuga de suas fronteiras estabelecidas. Partamos da constatação inegável de que. os gêneros reconhecidos etc. passando pelos meios. no mínimo. circulação e aquisição? Pretendo aqui propor algumas pistas para responder a essas perguntas. seus modos de produção. O primeiro refere-se aos tipos de poéticas inventariadas: que poéticas são essas? Teriam elas aspectos em comum? Estariam elas situadas em contextos históricos similares? Em que consiste inventariar poéticas e em que se diferenciaria essa operação da que se limita a inventariar objetos e/ou documentos? O segundo bloco de perguntas refere-se à situação que engendra o frenesi com relação aos arquivos: o que causa a emergência desse desejo no atual contexto? Que políticas de desejo impulsionam as diferentes iniciativas em torno de arquivos. pretensamente objetiva? Problematizar essa distinção depende. reconfiguram integralmente sua paisagem. resultam de um fenômeno que tem início na virada do século XIX para o XX: a acumulação de imperceptíveis movimentos tectônicos no território da arte que atingem um limiar naquelas décadas e se plasmam em obras que. É dessa perspectiva que se interpreta e 20 . Tais práticas foram incorporadas pela história da arte produzida no referido eixo e estabelecida como pensamento hegemônico que define os contornos do território internacional da arte. agrupadas sob a denominação de “conceitualismo”. Seu foco são as várias dimensões do referido sistema: desde os espaços destinados às obras até as categorias a partir das quais a história (oficial) da arte as qualifica. Mas não são quaisquer práticas artísticas realizadas nesse movimento nas referidas décadas que a compulsão de arquivar abraça. Estão especialmente em sua linha de mira as propostas que se produziram fora do eixo Europa Ocidental-Estados Unidos. que se desenvolvem pelo mundo no transcurso dos anos 1960-1970.

Há uma ruptura do feitiço que as mantinha cativas e obstruía o trabalho de elaboração de suas próprias experiências com sua textura e densidade singulares e a peculiaridade de suas políticas de cognição.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 21 categoriza a produção artística elaborada em outras partes do planeta. É todo um mundo instaurado pelo pensamento hegemônico que se desestabiliza: transmuta-se subterraneamente seu território. esses dois extremos não existem em estado puro: o que há na realidade são diferentes espécies de força que se apresentam numa escala variada de nuances entre o polo ativo e o reativo. características próprias ao processo de globalização. o que tende a causar certas distorções na leitura das práticas em questão. É nessa dinâmica que se delineiam as formas da sociedade transnacional. o que provoca diversos tipos de reação. no caso específico da Europa Ocidental. A versão dessa tendência nos países dominantes é a xenofobia. por parte das demais culturas até então sob sua influência. interagindo num vasto caldeirão de culturas. há uma denegação da experiência da proliferação de uma alteridade múltipla e variável. Para ficar apenas em seus extremos. O fenômeno insere-se no contexto mais amplo de dissolução da atitude idealizadora perante a cultura dominante. ao contrário. À medida que avança uma dessas posições. essa tendência vem se intensificando assustadoramente nos últimos anos. bem como da flexibilidade subjetiva e cultural que essa alteridade demanda. pela abertura a essa pluralidade de outros culturais e aos atritos e tensões de seus efeitos no embate com o modo como o novo panorama acontece em cada contexto e nas experiências culturais inscritas nos corpos que o habitam. como um canto do cisne debatendo-se contra a morte anunciada de sua hegemonia. intensifica-se seu oposto. Evidentemente. na posição mais reativa encontramos os fundamentalismos de toda espécie que criam a ficção de uma identidade originária vivida como verdade e que passa a estruturar a subjetividade. modifica- -se sua cartografia. Rompe-se o feitiço Com o avanço do processo de globalização. Por trás do confinamento nessa miragem de uma essência identitária.2 Já no extremo da posição mais ativa produz-se toda espécie de invenções do presente movidas. de algumas décadas para cá vem se operando uma desmistificação “dessa” história da arte. Opera-se um processo de reativação das culturas até então sufocadas. A arquivomania aparece precisamente nesse contexto marcado por uma guerra entre forças que disputam a definição da geopolítica 21 . borram-se seus limites. gerando efeitos tóxicos em sua recepção e disseminação. introduzindo outras sensibilidades na construção do presente.

São Paulo.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 22 Fotos: A ntonio Brasiliano Primeiro encontro público do NA BORDA no Espaço Matilha. . 2012.

é preciso distinguir duas modalidades de presença desse aspecto nas práticas artísticas latino-americanas tomadas pela arquivomania: macro e micropolítica. mas não por isso menos poderoso. antes mesmo de que sua expressão tenha começado a esboçar-se. Embora a ação dos regimes totalitários na cultura se manifeste mais obviamente por meio da censura. Esse efeito consiste na inibição da própria emergência do processo de criação. como tal. Mas por que são especialmente cobiçadas por essa obsessão de investigar. A invenção dessa categoria pode ser interpretada como um sintoma que. o que as converte em práticas mais próximas da militância do que da arte. sua face macropolítica. Independentemente do valor que se queira atribuir a cada uma dessas duas modalidades. na América Latina? E por que. especialmente em contextos de terrorismo de Estado. É que a política que permeia necessariamente o território da arte em sua transversalidade. entravando seu reconhecimento e sua expansão. torna-se mais explícita em Estados autoritários. seja qual for o contexto. Já no segundo tipo de ação. A categoria foi instituída por certos textos e exposições que se realizaram a partir de meados dos anos 1970. cujo excessivo poder sobre a criação começa a ser problematizado no período. Para isso. no eixo Europa Ocidental-Estados Unidos. expor ou adquirir arquivos certas práticas artísticas levadas a cabo naquelas décadas. de modo a combater mais eficazmente seus efeitos. por ser mais violenta sua interferência na determinação das ações artísticas.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 23 da arte. e que se tornaram emblemáticos. A inibição decorre do trauma inexorável das experiências de pavor e de humilhação que lhe são 23 . produzir. impõe a urgência de um trabalho de elaboração que explicite as forças reativas que o equívoco dessa qualificação revela. há um aspecto comum a todas essas práticas. entre elas. faz-se necessário deter-se na diferença entre ambas modalidades de presença do político nas práticas artísticas. e não algo situado em sua exterioridade. sob a designação de “arte conceitual política” ou “ideológica”. No entanto. o político constitui um elemento intrínseco à investigação poética. sejam eles de direita ou de esquerda. que não obstante adquire matizes singulares em cada uma: agrega-se a dimensão política às demais dimensões do território institucional da arte. preferencialmente as praticadas nos países do continente que então se encontravam sob ditaduras? Com efeito. o problema é que desafortunadamente a vertente macropolítica foi generalizada pela história hegemônica da arte para interpretar o conjunto das propostas artísticas daquelas décadas no continente. As ações artísticas de ordem macropolítica veiculam basicamente conteúdos ideológicos. muito mais sutil e nefasto é seu efeito micropolítico imperceptível.3 Ela implica a denegação da natureza micropolítica das ações artísticas em questão.

A tensão 24 . e mais especialmente ainda quando mobilizadas por situações de opressão macropolítica – seja em regimes totalitários. Seria absurdo pensar assim: temos de nos livrar das pegadas da cilada romântica que alia a criação à dor. raça. Qualquer situação em que a vida se vê constrangida pelas formas da realidade e/ou o modo de descrevê-las produz estranhamento. geralmente protagonizadas pela figura da vítima que os interpreta fazendo apelo a um discurso puramente ideológico). embora indissociável da memória da percepção das formas e dos fatos. medo e angústia. atitude que se distingue do uso da arte como veículo de informação macropolítica. gênero etc. e somente plasmar-se de fato na segunda ou terceira geração. A situação afeta o desejo em seu âmago e o debilita. com suas respectivas representações e as narrativas que as enlaçam (nesse caso. distinta. Tal elaboração pode prolongar-se por trinta anos ou mais. É nisso que consiste a experiência estética do mundo: ela depende da capacidade do corpo de fazer-se vulnerável a seu entorno. operado pela percepção e sua associação a certas representações. a partir das quais se lhes atribui sentido. então.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 24 inerentes. pulveriza a potência do pensamento que ele convoca e dispara. tortura e assassinato praticados à exaustão por governos autoritários com toda e qualquer pessoa que a eles se oponha. Caberia perguntar-se. criando novos sentidos. Segue-se um desconforto que mobiliza a necessidade de expressar o que não cabe no mapa vigente. em diferentes contextos. Desentranhar o desejo para livrá-lo de sua impotência constitui uma tarefa tão sutil e complexa quanto o processo que provocou seu recalque e a figura da vítima que daí resulta. a afirmar em suas obras a potência micropolítica imanente à prática artística. se a força micropolítica da arte só pode ser convocada e revelada a partir de experiências de dor. Experiências desse gênero inscrevem-se na memória imaterial do corpo: memória física e afetiva das sensações. deixando- -se tomar pela sensação da disparidade entre as formas da realidade e os movimentos que se agitam sob sua suposta estabilidade. condição para que a vida volte a fluir. a arte é especialmente atingida. esvaziando a subjetividade de sua consistência. É uma espécie de experiência do mundo que vai além do exercício de sua apreensão reduzida às formas. seja nas relações de dominação ou de exploração de classe. Tais experiências são efeito dos métodos de prisão. religião. o que coloca o corpo em “estado de arte”. Sendo o terreno por excelência no qual se produzem as exceções à regra da cultura. impregnando a atmosfera de uma sensação aterradora de perigo iminente. A especial vulnerabilidade de certos artistas a essa experiência em sua dimensão corporal (aquém e além da consciência que tenham dela ou de sua interpretação ideológica) é o que os leva.

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a experiência se ofusca. as quais ao mesmo tempo a limitam. tecido com fios de desejo romântico e emoção religiosa. vale a pena lembrar que a sensação opera no plano corporal inconsciente. Tende então a produzir-se um mal- -entendido acerca da relação entre arte e política que. É assim que o trauma produzido em contextos ditatoriais pode provocar a substituição do pensamento pela ideologia. por ter sua origem em uma operação defensiva. tais sentimentos. o que a distingue dos sentimentos e emoções psicológicas. não é fácil desfazer. o qual se dá. decorrentes da impotência diante de circunstâncias específicas. Para captar tal operação mais precisamente. No entanto. furando seu cerco e modificando seus contornos. e é isso que nos causa estranhamento e nos força a criar. Encoberta sob o véu de projeções ideológicas. E o corpo não se apazigua enquanto aquilo que pede passagem não for trazido à superfície da cartografia vigente. embora não se limitem a eles. trazem o risco de inibir a potência de criação. tornando inacessíveis suas tensões. em qualquer contexto em que a vida se encontre diminuída em sua potência. que tende-se a misturá-los. constituindo-se assim numa espécie de “emoção vital”. que incluem o autoritarismo e a desigualdade social. Mas não devemos confundi-los: embora o mal-estar da sensação da disparidade entre as formas da realidade e as forças que causam seu desmanche seja também marcado por turbulências difíceis de sustentar enquanto o que pressiona não se resolva em 27 . porta-voz da força de criação e diferenciação que define a vida em sua essência. como se fossem a mesma coisa. O objeto da sensação é o processo que desmancha mundos e engendra outros. portanto. contextos que mobilizam sentimentos exacerbados de angústia podem impregnar a tal ponto as sensações do processo em curso. A consequência é a transformação do artista em ativista e sua obra em panfleto portador dos afetos tristes da vítima. porta-vozes do ego e sua consciência. Estas mantêm assim um poder inconsciente sobre a subjetividade. o desconforto do estranhamento em questão não vem necessariamente embebido de medo e angústia. seu ressentimento e o desejo de vingança. Esse é o processo que move a criação artística. esses são sentimentos conscientes do ego. como vimos. enquanto o sentimento ou a emoção operam no plano psicológico. Ora. como vimos.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 27 da dinâmica paradoxal entre esses dois modos de apreensão do mundo torna intolerável a conservação do status quo. A sensação é. o que leva a substituir o pensamento por fantasmas e projeções. e é isso que a leva a adotar estratégias defensivas para proteger-se. Em situações extremas. afetos que se mobilizam igualmente em sua recepção e que têm apenas dois destinos possíveis: a esperança de uma redenção alucinada ou a desesperança movida por uma alucinação de apocalipse.

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Essa capacidade faz da arte um poderoso reagente que. O que orienta o artista. esse estado produz ao mesmo tempo uma estranha alegria. intervenção urbana. separadas do processo que lhes dá origem. a natureza de sua potência continua sendo micropolítica. portanto. em um meio em que a brutalidade do terrorismo de Estado tendia a provocar uma reação defensiva de cegueira e surdez voluntárias. etc. performance. o que as torna poderosas e sedutoras. Uma coisa não se contrapõe à outra. ético porque implica bancar as exigências da vida para que ela se mantenha em processo. estas últimas não têm o mesmo poder sobre o debilitamento do desejo e da subjetividade em sua capacidade pensante. a insistência da força de invenção face à experiência onipresente e difusa de sua opressão tornava-se sensível. instalação. escultura. e é isso que lhe outorga uma energia de influência efetiva nos 29 . Outro mal-entendido que tende a ser gerado nesse mesmo tipo de situação consiste em supor que nas práticas artísticas em que se afirma seu poder político a forma seria irrelevante. mais vigorosa sua qualidade intensiva e maior seu poder de sedução. É por isso que. Contudo. Por não agirem no plano da experiência estética. dissolvendo os elementos tóxicos de sua composição. e indissociavelmente. não são suas formas per se. pode interferir na química dos meios em que se insere. quanto mais precisa e sintônica for sua linguagem. Nesse sentido. ético: estético porque torna sensível aquilo que os afetos do mundo no corpo anunciam. por uma questão de sobrevivência. – é mais essencial e sutil do que nunca. ao propagar-se por contágio. É precisamente essa a dimensão política da arte que caracteriza as propostas mais contundentes realizadas na América Latina durante as ditaduras das décadas de 1960-1970. ou ainda de ações socioeducativas de “inclusão”. o rigor formal da obra – seja pintura. como é o caso das práticas artísticas aqui enfocadas. de uma índole totalmente distinta daquela que rege o plano no qual operam as que se aproximam de ações pedagógicas ou doutrinárias de conscientização e transmissão de contéudos ideológicos.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 29 obra. Tais ações artísticas são. aqui. embora o que convoca a ação artística nos regimes ditatoriais em curso seja justamente a presença brutal da macropolítica na criação. Encarnada na obra. É que a criação abre canais para a afirmação da vida e alimenta a confiança de que ela consegue impor-se até em situações-limite. a forma aqui é indissociável de seu rigor como atualização das sensações que tensionam e obrigam a pensar-criar. Um tipo de rigor que é estético mas também. inclusive em contextos de opressão macropolítica. nesse caso. é sua escuta à realidade intensiva que pressiona e que só consegue furar a barreira e fazer-se presente se concretizar-se nas entranhas de sua poética. ao contrário: em tais práticas.

Quando isso acontece. Ganha-se assim em precisão de foco. e a do militante.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 30 ambientes pelos quais circula. Essas práticas artísticas. inconsciente. como vimos. em sua insistência em reciclar- -se na criação permanente do mundo. mas também e sobretudo. Não se trata aqui apenas da consciência das tensões (sua face extensiva. destituído da dimensão micropolítica própria à sua prática. representacional. novos diagramas do inconsciente no campo social que se atualizam em reconfigurações da cartografia vigente. o qual ao contrário se turva quando tudo que é relativo à vida social na arte volta a reduzir-se exclusivamente a uma abordagem macropolítica – o que. destituído da dimensão estética de sua subjetividade e dissociado do corpo como bússola vital em sua interpretação do mundo e nas ações que daí decorrem. Tal foi o caso de certas práticas artísticas nas mesmas décadas de 1960-1970 na América do Sul. O conflito extirpa da arte a energia micropolítica que lhe é imanente. trata-se de um rigor vital que se move na contracorrente das forças que desenham mapas cuja tendência é mutilar a vida em seu próprio âmago – o qual consiste. essas ações esboçaram a superação da cisão entre o poético e o político. Da perspectiva desta 30 . como vimos. naquilo que podem suscitar nos meios por elas afetados. se poderiam efetivamente qualificar como “políticas” ou “ideológicas”. mas fundamentalmente da experiência desse estado de coisas no próprio corpo e dos afetos mobilizados pelas forças que o compõem (sua face intensiva. Uma cisão que se atualiza no conflito entre a figura clássica do artista. reanima-se o exercício do pensamento e ativam-se outras formas de percepção. É nesse ponto que se situa o infeliz equívoco cometido pela história (oficial) da arte. a arte converte-se numa espécie de medicina: é que a experiência que ela promove é capaz de intervir no processo de subjetivação daqueles que dela se aproximam. precisamente no ponto em que o desejo tende a tornar-se cativo e a despotencializar-se. macropolítica). Ao atingir esse grau de rigor. tende a ser estimulado em situações de opressão por parte do Estado e/ou pela vigência de desigualdade social exacerbada. e apenas essas. micropolítica). assim como de certas práticas contemporâneas principalmente a partir dos anos 1990 (e não só neste continente). de invenção e de expressão. e neste caso quando a política é introduzida em práticas artísticas ela se reduz ao plano macro. cuja narrativa passou ao largo da essência das ações aqui privilegiadas: ao atingirem potencialmente a natureza afetivo- -vibrátil da subjetividade e não apenas sua consciência. Delineiam-se novas políticas do desejo e sua relação com o mundo – ou seja. gerando a figura do artista militante. Enfim. O caráter político específico das práticas artísticas sobre as quais aqui nos debruçamos reside. portanto.

caracterizava boa parte das culturas dominadas pela modernidade fundada pela Europa Ocidental. quando a exceção da arte mostrou-se mais forte do que as regras da cultura. de diferentes maneiras. Um triplo trauma que funda alguns países latino-americanos. entre os quais o Brasil. Poderíamos até afirmar que tal articulação constitui um dos aspectos fundamentais da política de cognição que. ao sofrer o golpe micropolítico das ditaduras. cuja estrutura psíquica Freud circunscreveu sob a designação de “neurose”). Um regime cultural que. a violência de sua quase extinção. África e Ásia). na verdade. as ações artísticas que não abordam a macropolítica direta e literalmente são rotuladas de formalistas. a partir desse período os praticantes dessa cultura sofreram a violência da Inquisição. Embora seja certo que um esboço de superação da cisão entre poética e política já estava em processo nas vanguardas artísticas do início do século XX e avança disseminando-se ao longo da primeira metade do século – e mais intensamente no pós-guerra –. e as culturas indígenas americanas. que nos concernem mais diretamente – em especial. tal violência ocorreu ao longo dos mesmos três séculos em que a África sofreu a violência da escravidão. Estes se transmutam irreversivelmente no referido período. Entre estas últimas. mas também as diferentes culturas sufocadas no interior do próprio continente europeu. Daí que se tenha dado o nome de “contracultura” a este movimento. o que levou muitos deles a se refugiar no novo mundo que então começava a se construir na América ibérica. é indispensável lembrar igualmente que a articulação entre o poético e o político tampouco tem início com as vanguardas históricas. a cultura árabe- -judaica que predominava na Península Ibérica antes das navegações intercontinentais que resultaram na colonização. é inseparável de seus corolários no campo da economia (o regime capitalista).5 Ora.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 31 figura. O recalque colonial Para tornar mais precisa esta radiografia. 31 . nas décadas de 1960-1970 esta reconexão ganha a consistência de um vasto movimento na arte e impõe-se na cultura no sentido amplo do termo que abarca os modos de existência. Não esqueçamos que essa modalidade cultural se impôs ao mundo como paradigma universal por meio da colonização. como sabemos. Como é sabido. salientemos as culturas mediterrâneas. ela vem. cujo alvo não foram somente os outros continentes (América.4 É essa reativação que. tendeu a recolher-se de volta no silêncio de seu recalque. origem da subjetividade burguesa. de muito mais longe no tempo. assim como no campo do desejo (o regime do indivíduo moderno.

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constatamos que esse talvez tenha sido seu dispositivo mais eficaz. tais preconceitos geraram e continuam gerando a pior das humilhações. Ativar essa aptidão do corpo recalcada pela modernidade constitui uma dimensão essencial de qualquer ação poético-política. do ponto de vista micropolítico. agora situada nesse horizonte histórico. o objeto desse recalque é o próprio corpo e a possibilidade de encarná-lo. desejo marcado por uma política que consiste em adotar o exercício da percepção como via exclusiva de conhecimento do mundo.6 Vale a pena retomar a descrição da política de cognição que o recalque colonial tem como alvo. foram se misturando com os anteriores. Sem isso não se fazem 33 . Reforçando e prolongando esse processo. mas sim no invisível dos estados de pulsação vital. como a miséria. A operação de recalque faz com que a subjetividade não consiga mais sustentar-se na referida tensão. o domínio externo e os regimes autoritários. devido à permanência do estigma e sua incessante reiteração na vida social. outros males no plano macropolítico. um dos traumas mais graves e difíceis de superar. Se lemos a colonização sob essa perspectiva. a começar pelos arraigados preconceitos de classe e de raça. Remanescentes da política de desejo colonial-escravocrata. O objeto do recalque é precisamente essa força da imaginação criadora e sua capacidade de resistência ao desejo de conservação das formas de viver já conhecidas. Podemos então supor que o recalque da articulação imanente entre o poético e o político tem seu início com a própria instalação da modernidade ocidental e culmina nos dias atuais com a política de cognição do capitalismo financeiro transnacional. o que no plano micropolítico agravou os traumas já existentes e criou novos no passado e ainda hoje. provavelmente. Em última análise. tal operação desempenha um papel central na fundação dessa cultura e sua imposição ao mundo. constituindo. motor da máquina do pensamento que produz as ações nas quais a realidade se reinventa. a potência do pensamento-criação que se ativa quando tal tensão alcança um limiar. a sensação mobilizada pela tensão da dinâmica paradoxal entre essa experiência e a da percepção. de que depende seu poder de escuta do diagrama de forças do presente. a ponto de podermos designá-la como “recalque colonial”. Arrisco-me a dizer que.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 33 Mas a coisa não para por aí: as formas de violência que caracterizaram a época colonial deixaram marcas ativas na memória dos corpos nas sociedades americanas pós-Independência. como principal bússola para o exercício da produção cognitiva e sua interferência no mundo: uma bússola cuja função não é a de situar-nos no espaço visível. Três aspectos a caracterizam: o vigor da vibratibilidade do corpo às forças que se agitam no plano intensivo (a experiência estética do mundo). a exclusão social.

desencadeia-se uma compulsão de consumo dos produtos a elas associados. entre os quais o mais óbvio é a incitação da subjetividade a uma caça de imagens de formas de viver prêt-à-porter que povoam a cultura de massa e a publicidade. exatamente a condição da qual pretendemos nos deslocar. como vimos. Pelo contrário: trata-se de incitá-lo e até festejá-lo. Já no capitalismo financeiro. design. uma ideia que já se tornou moeda corrente. por meio da promessa de apaziguamento instantâneo. “cognitivo” ou “informacional”. etc. com o objetivo de realizar em nossas existências o mundo 34 . a operação de recalque é bem mais refinada: não se trata mais de impedir esse exercício e tampouco de almejar sua parcial ou total inibição. Ambos funcionam hoje como dispositivos de turismo cultural de classes médias altas e elites. igualmente homogeneizadas.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 34 senão variações em torno dos modos de produção de subjetividade e de cognição que nos fundam como colônias da Europa Ocidental. Nessa categoria ocupam posição privilegiada certos museus de arte contemporânea e suas espetaculosas arquiteturas. destituindo-o assim da força disruptiva imanente a sua poética. Isso se opera por vários meios. Esse regime tira vantagem da fragilidade provocada pela tensão entre os dois vetores da experiência do mundo. O desejo de enfrentar essa pressão e a energia de criação que ela mobiliza tendem a ser canalizados exclusivamente para o mercado. Incluem-se aqui ofertas específicas de cultura de luxo. O recalque em questão se opera por meio de complexos procedimentos que se diferenciam no transcurso da história. alguns nomes de artistas e curadores meteoricamente celebrados pela mídia e um certo “estilo” de comportamento que engloba grifes de moda. por meio de um processo de identificação simbiótica. nas quais forja-se uma língua internacional comum classificada como “alta cultura”. o exercício do pensamento é concretamente impedido e acaba por inibir-se por efeito do medo e da humilhação. bem como a proliferação de bienais por toda parte. Em regimes totalitários. O desejo é capturado por algumas dessas imagens que ele seleciona e. gastronomia. daí que o tenham qualificado como “capitalismo cultural”. mas para incorporá-lo a serviço dos interesses exclusivamente econômicos do regime. Fiquemos apenas nas experiências mais recentes que estamos examinando aqui. É por isso que muitos pensadores contemporâneos consideram que é da força de trabalho do pensamento-criação que o capitalismo contemporâneo extrai sua principal fonte de energia. incansavelmente difundidas pelos meios de comunicação. fenômeno que o pensamento crítico designou por “bienalização” do planeta. e nela se inscreve. que oferecem uma variadíssima gama de possibilidades para identificar-se. composta por algumas palavras e floreios da retórica do momento.

buscando ativar o que foi recalcado em nossos corpos. justamente. muito menos. isto é. veremos que seu efeito é também o de tornar impossível que um repertório. propiciada pelo desenvolvimento das tecnologias da comunicação. mas também a memória da vivência da referida articulação. é sintoma de uma subjetividade humilhada que idealiza o opressor e depende de seu desejo perverso. Entretanto.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 35 que veiculam. O retorno do recalcado Há. como num passe de mágica. não é unicamente a instrumentalização de nossas forças subjetivas pelo mercado. em maiores ou menores deslocamentos do lugar da humilhação e da consequente submissão ao opressor. e nossa capacidade de invenção desvia-se de seu foco primordial: abrir novos caminhos para que a vida volte a fluir. a qual vem ocorrendo nas últimas décadas. Essa impossibilidade é uma das causas da quebra do fascínio e da sedução exercidos pela modernidade europeia e norte-americana. Já não estamos em um momento de oposição e ressentimento. seja ele qual for. Tais condições se apresentam em certos tipos de situação social que favorecem a neutralização dos efeitos patológicos de seu trauma na condução da existência e seus destinos. A intenção é nos livrarmos da angustiante sensação de esvaziamento de si e recuperar nosso valor social supostamente perdido. nesse caso. O que atrai o desejo e faz com que se deixe fisgar por essa dinâmica é a miragem de sermos reconhecidos e nos reconhecermos em alguma das mises-en-scène oferecidas pelo cardápio do dia. absoluto. O destino da proliferação de imagens- -mundos que aparecem e desaparecem sem cessar numa velocidade vertiginosa. que fica à espera de encontrar condições para reativar-se e escapar a seu confinamento. Uma situação desse tipo se apresenta na própria vivência do estado de coisas na atualidade. a demanda de amor – que. 35 . iludidos pela promessa de admissão numa espécie de paraíso terrestre. no entanto. O movimento atual consiste. agora em sua versão neoliberal. manter essa ilusão tem seu preço: com a instrumentalização do desejo. um avesso desta dinâmica: não é apenas o trauma da articulação entre poético e político causador de seu recalque que se encontra inscrito na memória dos corpos que habitam as regiões sob o domínio da cultura dominante. mantenha um poder estável e. tal como evocado no início deste texto. nem de seu avesso: a identificação e o pedido de reconhecimento. quando isso se faz necessário. Se acrescentarmos a isso a polifonia de culturas que pode ser ouvida e vivenciada a toda hora em qualquer ponto do planeta. perde-se o faro para rastrear a pulsação vital e seus entraves.

a conduzir as reinvenções da cartografia do presente. Ainda que mantenhamos essa produção sob o chapéu do “conceitualismo”. ao que se seguiu sua reanimação perversa pelo capitalismo cognitivo que os sucedeu. com as ditaduras. O equívoco tóxico da história (oficial) da arte É esse o aspecto crucial da produção artística dos anos 1960-1970. É que se. É que. que parece ter escapado à história da arte. que depende da viabilidade da experiência estética para escutar seus movimentos e adotá-los como baliza na orientação da existência. o que levou parte da geração que o criou a uma espécie de caça ao tesouro nessas regiões. o exercício da ética do desejo e do conhecimento que regia aquelas culturas e suas atualizações: zelar pela preservação da vida. peculiaridade que na prática ampliou seus limites e transformou potencialmente seus contornos. Como vimos. assim mesmo. aqui. encontra-se hoje igualmente recalcada naquelas regiões. vivenciado e atualizado em ações artísticas. bem como nos modos de existência 36 . mas sim pela ativação. ou na inflexão contracultural dos anos 1960-1970. Tal movimento caracterizou-se justamente por essa tendência a idealizar uma suposta origem perdida. no continente. sua força disruptiva – e o que ela desatou e poderia continuar desatando em seu entorno – ficou soterrada por efeito do trauma que lhe causaram os governos militares.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 36 Seria estúpido pensar que o objetivo dessa volta ao passado é “resgatar” uma suposta essência perdida que se encontraria nas formas de existência africanas. indígenas ou mediterrâneas anteriores ao século XV. Ora. nos anos 1960-1970. uma ética que. diga-se de passagem. da própria ética em questão. de fato. encontramos nessas propostas um germe de integração entre o político e o poético. o objeto da reconexão com esse passado é. de maneira lacunar. É precisamente nesse contexto que irrompe uma vontade incontornável de fuçar arquivos existentes ou constituir novos a partir dos rastros das práticas artísticas realizadas na América do Sul. sob um manto de esquecimento. No lugar disso. a experiência da fusão das forças poética e política vivenciada nessas práticas havia permanecido encapsulada na memória de nossos corpos. como se seu passado estivesse ali resguardado em “estado puro” e pudesse ser “revelado”. vontade que se dissemina como uma verdadeira epidemia. é inaceitável rotulá-lo como “ideológico” ou “político” para caracterizar a peculiaridade que ela terá introduzido nessa categoria. na contramão das operações que reiteram seu recalque. no contexto atual. somente conseguíamos acessá-la na exterioridade das formas nas quais se plasmava e. reconectar-se com esse exercício não passa pela reprodução das formas que essa ética teria engendrado no passado.

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e isso faz dela um eficiente dispositivo do capitalismo cognitivo. de diferentes maneiras. essa mesma situação mobiliza. para transformá-las em fetichizados espólios de uma guerra cognitiva disputados pelos grandes museus e colecionadores da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. para nos proteger do incômodo ruído. e a força de afirmação da vida que dela depende. de maneira a viabilizar a expansão vital. expor e/ou possuir arquivos que tomou conta no território da arte. permanece incubado. Ignorá-lo implica o bloqueio da vida pensante que dá impulso às ações artísticas e da qual depende sua influência potencial nas formas do presente. Como sugere Godard. Um espaço de alteridade que se instala na subjetividade. essa é a força reativa que o sintoma de seu equívoco revela. aquilo que está por vir – que. Essa é a condição para que o desejo se livre de seu debilitamento defensivo. exigindo um trabalho de recriação de seus contornos e do mapa de suas conexões. pois ele resulta da reverberação da multiplicidade plástica de forças do mundo em nossos corpos. o sistema global da arte as incorpora. o classificamos no domínio da macropolítica e tudo volta ao seu lugar. uma política de desejo diametralmente oposta: no exato momento em que tais iniciativas reaparecem e antes que os germes de futuro que traziam incubados tenham voltado a respirar. ao mesmo tempo que nos dá a pista do objeto que ela visa. Eis o contexto que. A operação tem o poder de devolver esses germes à penumbra do esquecimento. Nesse estado de coisas. criar. “é da regra querer a morte da exceção”. impõe-se a urgência de ativar a articulação intrínseca entre o poético e o político. o germe era então todavia frágil e inominável. Se o movimento 39 . como condição para alcançar um novo equilíbrio. chamá-lo de “ideológico” ou “político” é o sintoma da denegação da exceção que essa experiência artística radicalmente nova introduziu na cultura e o estado de estranhamento que isso produziu nas subjetividades. A estratégia defensiva é simples: se o que aí experimentamos não é reconhecível no domínio da arte. igualmente. em função da experiência vivida pelo corpo vibrátil no tempo presente. a desestabiliza e a inquieta. A gravidade dessa operação é inegável se lembrarmos que o estado de estranhamento que a exceção da arte instaura constitui uma experiência crucial. Ora. É precisamente tal denegação o elemento tóxico contido nas tristes categorias estabelecidas pela história da arte para interpretar as propostas artísticas em questão. Denega-se a dimensão micropolítica imanente à arte. No entanto. com ele. captadas por sua capacidade vibrátil. desencadeia uma série de iniciativas geradas pelo fervor de pesquisar.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 39 que se criaram no mesmo período. aborta-se o germe de sua ativação e. no melhor dos casos. então.

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a força crítico-poética de tais arquivos pode somar-se às forças de criação que se apresentam em nossa atualidade.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 41 de pensamento crítico que se deu intensamente nos anos 1960-1970 na América Latina foi brutalmente interrompido pelos governos militares. a cada momento. de cuja perspectiva o que importa é o quanto tais produções são instigadas pelo desejo de inscrever 41 . que devem ser pensadas as produções artísticas. mas são parte integrante de sua dinâmica. em toda a sua complexa transversalidade. Um novo capítulo da história. como evocado anteriormente. curatoriais. quando seus interesses ganham demasiado poder sobre a criação artística e tendem a ignorar suas poéticas pensantes. Um critério ético de avaliação. tampouco se trata de demonizar os museus em suas importantes funções de constituir acervos das produções artísticas. criando assim as condições para uma experiência de igual calibre no enfrentamento das questões que se colocam na contemporaneidade. inclui entre seus principais dispositivos muitos museus de arte contemporânea e a proliferação de bienais e feiras de arte. nos diferentes tempos e contextos que o atravessam. O desafio das iniciativas que pretendem desobstruir o acesso indispensável aos germes de futuros. É aqui que ganham relevância a política de produção de arquivos e a necessidade de distinguir suas múltiplas modalidades. e os colecionadores não têm por que privar-se do desejo de conviver com obras de arte e apreciá-las. Uma operação que não acontece apenas no âmbito da arte.. o que contribui para que ela tenda a funcionar unicamente a favor de seus desígnios. Mercado e museus não constituem uma extraterritorialidade da arte. no preciso momento em que sua memória começa a reativar- -se esse processo é novamente interrompido. no entanto não tão pós-colonial quanto gostaríamos. A vida não pode ser regida por uma moral maniqueísta que divide as atividades humanas em boas e más. pois os artistas precisam ser remunerados por seu trabalho. Uma operação muito distinta dos procedimentos grosseiros e truculentos exercidos contra a produção artística por governos ditatoriais. consiste em ativar sua contundência crítica. mas que nesse campo específico se dá por meio do mercado e. Com isso. zelar por sua preservação e disponibilizá-las ao público. e não em um suposto território imaginário idealizado.. soterrados nas poéticas que tomam como objeto. agora com o requinte glamoroso e sedutor do mercado da arte. críticas. museológicas e arquivistas.7 É óbvio que não se trata de demonizar o mercado. o que conta é o combate entre forças ativas e reativas em cada campo de atividade. nem o colecionismo e as galerias que lhe são inerentes. ampliando seu poder no combate aos efeitos da vacina tóxica do capitalismo cultural que neutraliza o vírus da arte. É assim também no território da arte: é nas forças que o regem.

Podemos situar igualmente aqui o movimento evangélico. e que é de dentro de seus impasses que outros mundos podem ser inventados a cada momento da experiência humana. a identidade originária é substituída pela ficção do criacionismo. com Felix Guattari. O que pode a arte é lançar o vírus do poético no ar.com/watch?v=LU7-o7OKuDg. por mais poderosa que seja. cujo veloz alastramento pelo Brasil causa preocupação. sustentada pela crença nas ideias de verdade e redenção. os quais sempre desembocaram em regimes totalitários. ela reside exatamente na possibilidade de abandonar os velhos sonhos românticos de “soluções finais”. 1. enquanto outros se desfazem. Nesse caso. Texto de Jean-Luc Godard narrado pelo próprio cineasta. impõe a obediência a uma moral implacável. Música original: Arvo Pärt. sejam elas utópicas ou distópicas. E isso não é pouca coisa no embate entre diferentes tipos de força. que retira do humano seu poder essencial de invenção do mundo e. contribuindo assim para preservar o exercício da “arte de viver” em seu traçado polifônico. já nos permite entrever que não há outro mundo senão este. sua tarefa é a composição de cartografias que se desenham ao mesmo tempo que tomam corpo novos territórios existenciais. Cartografias do Desejo. França. Esse é o esforço do trabalho do pensamento: quer ele se apresente na arte ou em outras linguagens. o processo de reativação da potência vibrátil de nosso corpo atualmente em curso. Se houve uma conquista micropolítica significativa após os movimentos dos anos 1960-1970. 42 . de Micropolítica. entre outros. Incluem-se nessa política de desejo. nem o vírus transmissível de que é portadora qualquer obra de nosso tempo. Mas não sejamos ingênuos: nada garante que o vírus crítico- -poético de que são portadores os mencionados germes vá de fato propagar-se feito epidemia planetária. Câmera: Izet Kutlovac. em seu lugar. disponível no Youtube: http://www. Versão curta: 2ʼ15ʼʼ. 1993. 2. 2006. cujo parâmetro é o modo de viver das pequenas aldeias de judeus religiosos na Europa do Leste nos séculos XVIII e XIX. que inventa uma ficção de autenticidade. Esse movimento partilha com os fundamentalismos uma política de estruturação social e subjetiva extremamente rígida. Ora. Vídeo dirigido e editado por Jean-Luc Godard. do qual resultam as formas sempre provisórias da realidade. e que nos separa daquele período. os fundamentalismos islâmicos que se espalham pelo Oriente e a África do Norte. Sempre haverá a cultura que é a regra e a arte que é a exceção. em sua construção interminável. embora ainda em seus inícios.youtube. SUELY ROLNIK É professora titular da PUC São Paulo (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade - Pós-graduação em Psicologia Clínica) e coautora.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 42 a exceção da arte na cultura globalizada. assim como os da ortodoxia judaica.

. 1999). e a Documenta nasceu da exigência de reabrir os poros da pele social alemã para a respiração da potência crítico-poética sufocada pelo nazismo. Rio Grande do Norte e Ceará. Não seria esse o papel da arte? Os afetos tristes de culpa. A historiadora Maria Helena Capelato. apesar de suas feridas. bienais e feiras de arte converteram-se igualmente em equipamentos privilegiados de poder das cidades para inserir-se no cenário do capitalismo transnacional. O que não morre. A ideia equivocada de que a contracultura foi um erro e de que teria fracassado é fruto de uma política de desejo melancólico próprio de carpideiras. Há que distinguir desse fenômeno as bienais de Veneza e de São Paulo. a historiadora Anita Novinsky comenta: “apesar de documentos diversos confirmarem a vinda de numerosos cristãos-novos para o Brasil. assumindo uma linha de fuga no processo de bienalização do planeta. M. identificando-se a seus vetores reativos e apagando definitivamente sua origem. não se conta ainda com dados seguros para precisar sua porcentagem. seu número deve ter sido muito maior. contribuindo assim para que reconheçamos sua presença ativa em nossa subjetividade e possamos combatê-la. organizada em 1999 no Queens Museum por um grupo de onze curadores encabeçados por Jane Farver. é a potência de criação de novas formas que volta a mobilizar-se quando isso se faz necessário. contudo. bem como a Documenta de Kassel. Luis Camnitzer e Rachel Weiss. as quais levaram ao desenho da paisagem em que se confrontam novas forças na atualidade. A esse respeito. mas se desdobrou em inúmeras reconfigurações ao longo dos cinco séculos de história do país e ainda hoje persiste. Nas investigações realizadas por minha equipe de pesquisadores da USP. Massachusetts: MIT. em um processo de imigração ininterrupta durante três séculos. Assim como constituem objeto de um ritual de iniciação das classes médias e altas destinado a obter um passe de admissão nos camarotes da economia globalizada. A exposição teve itinerância nos seguintes museus: Walker Art Center (Minneapolis. como assinalado no corpo do texto.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 43 3. A figura da vítima na qual ficaram confinadas as impede de ver que. para ressaltar que ele não se reduz à colonização. 4. então diretora de exposições do museu. fruto de forças totalmente diferentes das que vêm bienalizando o planeta. O comentário vale igualmente para o outro coro de carpideiras da mesma geração mas provenientes do ativismo macropolítico que. BIRD. As formas têm que morrer quando não correspondem mais às forças que pedem passagem no presente. o inglês Peter Osborne (“Conceptual art and/as philosophy”. que lhe são anteriores. Bélgica). 1999) e o colombiano Alexander Alberro (Conceptual art: a critical anthology. Provenientes dessa experiência micropolítica e paralisadas pelo trauma. sociais e econômicos que o Brasil conquistou na última década. que elas tampouco reconhecem.) Rewriting conceptual art. J. É também por essa razão que devemos insistir na visão micropolítica no debate que vem se travando nas últimas décadas em torno do chamado “pós-colonialismo”. Londres: Reaktion Books. aproximadamente. A eleição de Dilma Rousseff à Presidência do país é um dos sintomas do destino da poderosa experiência macropolítica que caracterizou aquele período. as forças ativas que agitaram aquele movimento são as que prepararam o terreno para os inegáveis avanços políticos. a 30% da população branca no Rio de Janeiro. Miami Art Museum (Miami. A Bienal de São Paulo é um dos dispositivos que deram sustentação à rica produção artística das décadas de 1950- -1960 no Brasil. também nesse caso. Mais da metade da população branca da classe média era constituída por portugueses de origem judaica” (resposta de Anita Novinsky às perguntas enviadas pela autora deste texto em e-mail datado de 14/12/2010). em sua constante ladainha. 1950s-1980s. 7. chegamos. 6. A sugestão é pertinente. Prejudicada pelo golpe que essa potência sofreu por parte da ditadura. destacamos o espanhol Simón Marchan Fiz (Del arte objectual al arte del concepto. ressentimento e arrependimento só fazem impedir a fruição de novas constelações dessa qualidade. Estados Unidos) e Stedelijk Museum voor Actuele Kunst (Gent. Nos estados da Paraíba. Estados Unidos). a Bienal de São Paulo encontra-se atualmente num impasse: ou desperta o germe da força que a fundou. Entre as exposições. 1974). mas preferimos adotar uma política de produção de conceito baseada na força afetivo-vibrátil que ele carrega consigo. não são comprovados por pesquisas historiográficas. da qual dependem seus efeitos. refugiados da Inquisição. 5. Madri: Comunicación. Nesse sentido. momentos raros de vitória das forças ativas na vida social. sugere que deveríamos chamar esse fenômeno de “recalque histórico”. após leitura deste texto. (Ed. lamentam o suposto fracasso ou erro das formas de militância praticadas naquele período. Tais dados. do qual tenta agora reerguer-se. 43 . alinhando-se assim aos vetores mais ativos que por toda parte promovem deslocamentos nessa triste paisagem. Chega-se a estimar em 80% a proporção de judeus e árabes entre os portugueses que vieram para o Brasil com a colonização. ou simplesmente submete-se a ela. In: NEWMAN. a qualificação de “colonial” permite lembrar o modo de existência que nos funda culturalmente e que ainda hoje nos estrutura. destacamos Global Conceptualism: Points of Origin. as carpideiras contraculturais se agarram às formas que a potência de criação inventou na época e ignoram as forças que lhes deram origem. Especialmente as duas últimas têm origem nos anos 1950. museus de arte contemporânea. Para nos limitarmos aos principais autores a partir dos quais se estabeleceu esse tipo de interpretação.

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Iniciamos esta roda com o espaço em bran- co! Instaurando um espaço de reinvenção. . à surpresa. uma roda com entra- das e saídas: ao acaso. ao erro e ao não dar certo.

realizada conjuntamente com o Projeto Matilha e Ocupeacidade durante a fase de intervenções do projeto NA BORDA. Completando. colaborativas e criativas. . Nossas receitas estão inacabadas e o coração sempre aberto ao porvir. oito anos de existência. Agente Marieta utilizando os elixires durante ação urbana “Cartada” no largo Santa Cecília. o meio ambiente. que fantasiada de coletividade. interesses e trajetórias que têm em comum a necessidade de problematizar política e esteticamente os modos de vida no ambiente urbano. Temos muito mais dúvidas do que respostas. instituições. de como sair bem na foto. a antropologia urbana. que relâmpa- go. em 2012. que muitas vezes justificam ações ur- banas com uma boa e bela retóri- ca. como a arte. o urba- nismo. o EIA desenvolve frentes de ação que fazem conver- gir temáticas de diversos campos. entre outros. mesmo que vazia. é um coletivo de autogestão formado por pessoas de diversas profissões. a comunicação. organizações e demais iniciativas com- prometidas com a criação no aqui e agora de formas de vida mais alegres. os movimentos sociais. Diluímos as receitas de como fazer bonito. ( ) Aqui e Agora! (3 borrifadas) Aqui e Agora Aqui e Agora ( ) Um brinde aos recém-chegados. O EIA. que levem em conta a complexidade de uma cidade tão múltipla quanto São Paulo. 2012. a tecnologia. Experiência Imersiva Ambiental. Estamos em sintonia com redes de pessoas.

entrando no coletivo. coletiva hoje? tendo filho. afinal. mais manipuladora. DDU DDU 10 borrifadas e DDU Vícios na forma de se apresentar. a atualidade. Hábitos na pers. produzindo somente como que tar e sustentar o que sempre desejamos: experiência! textos-rastros.. turbulências com a cida- Elas são fruto de quais necessidades? de. saindo Por que pensar/agir a intervenção urbana e produção do coletivo. Do que nos damos conta? Em que condições ( )( )( ) nossa experiência pode acontecer? . Mas se abre. ( ) política. público”.. deixando espaço para o desconhecido. nos solicitando. sem Em que contexto elas acontecem? dinheiro. para não saber. o EIA depara-se com vícios. para inven. Pesos que uma história traz. ficção para desaprender. inserindo novas coletiva hoje?”. nossa atual escala Untar o corpo todo de escuta. Entrega Qual é. a Dilatador tempo 3 borrifadas de Tempo Ingredientes para qualquer lugar ( ) Um co(r)po repleto de presença Situações que certamente influem Uma pitada de ousadia no quanto. mais de fachada. público”. poucas palavras que já nascem um pouco velhas. Afirmamos: seja lá o que for a Agência Ficcional. ficando doente. que está está pronta. O topo da cabeça busca o céu. costumes. chão: espinha ereta e três respirações profundas. sem esquecer as de ação? A cidade ficando mais di- reentrâncias. nem sempre esta elaboração mais discursiva vem junto com a prática. não Principalmente para o EIA. com a falta de tempo. mais insustentável. Um presente ainda que a ação já fosse outra.diluidor de densida. Norteados pela pergunta-chave do projeto NA BORDA. Nosso objetivo era Convidamos os leitores a se entregarem ao jogo de se instalar e problematizar o “espaço despir de si. Nossas ações eram no des urbanas (5 borrifadas) ( ) “espaço público”. O EIA estava DDU DDU bastante viciado no termo “espaço DDU. hábitos. Pessoas do EIA mudando de cidade. Leves batidinhas com as mãos fícil. na roda. enquanto a vida vai nos atropelan- “Como pensar/agir a intervenção urbana e a produção do. Colamos nesse discurso Um desconhecido em relação.. Necessitamos desta sempre mais imerso na experiência.. com qual intensidade. go O que nos move a pensar/agir a intervenção? ( ) ade Atiçado pelas perguntas. a política em concha iniciando pelos pés e chegando à da prefeitura tornando-se mais cabeça. Dilatador de pectiva com que cada coletivo analisa a cidade. está sendo criada. nos colocamos mais algumas perguntas: questões e urgências. a pélvis o segregadora. indo morar com o(a) O que é intervenção urbana e produção coletiva? namorado(a). Confiança podemos afetar e sermos afetados.

como. Até 2008. com os esgarçamentos. que aos poucos ia oprimindo disponibilidades e presenças. a palavra crise que sempre vinha nos questionar nos entraves das reuniões estavam tirando a agudez. Ainda assim. ( ) Diluidor de Identidade (3 borrifadas) ( ) Diluidor de Identidade As autocríticas. Palavra que se esvaziou. um olhar dos agentes ficcionais. Assim como muitos outros coletivos. mas ainda assim latentes. mas que é necessária se queremos reunir mais corpos. emergiam trabalhos/processos pungentes. nossa ação. sobre nosso processo/trabalho. Abrin- do espaços para populações internas oprimidas por convenções sociais e nossas identificações com a realida- de. e as avaliações sobre nossas ações na cidade já haviam se tornado mais difíceis de responder. integrante do coletivo Ocupeacidade. Precisávamos de um olhar mais fresco. . Criando um continente coletivo para desejos e agentes sucumbidos pelo status quo. nos sentimos engolidos pelos esgarçamentos do cotidiano. É verdade que. Uma constância de encontros presenciais que facilitavam nossa conexão. tomando elixir diluidor de identidade no largo Santa Cecília. Neste contexto. na hora de falar sobre o EIA. mesmo sob essas condições. Agudez que não se pode quantificar. a palavra-chave era a mesma: “espaço público”. decidimos investir em microestruturas. Lançamos a pergunta “E o que pode acontecer se eles se conhe- cerem e se encontrarem?” Tião. estavam pesadas. menos acostumado. de “equacionar”. nosso senso de “maturidade”. mas que a história acumulada em oito anos de trabalho teimava em nos atribuir. 2012. tinham que sustentar papéis que já não serviam. ou encontros que só aconteciam sob demanda. o tempo das reuniões minguou de en- contros semanais para raros encontros. Até mesmo porque as táticas do grupo já eram outras. a confiança. a alegria e a preponderância da ação com as quais trabalhávamos juntos des- de 2004. se que- remos nos afetar reciprocamente. Com a Agência Ficcional. a Expedição Espeleológi- ca na EXPOFAU. que aos poucos se torna Agente (nós). tínha- mos reuniões semanais. As identidades dos participantes do coletivo já não nos bastavam. na relação escala um para um. por exemplo. quando encontrávamos forças e disponibili- dade interna para sermos afetados uns pelos outros e pelos contextos que nos surgiam. mas. a Agência Ficcional surge como uma tática de reinvenção do EIA e dos modos de subjetivação.

... ( )

E quando não há espaço para
intervenção, e quando não há local
específico de interesse? E quando
o lugar de interesse é nossa vida, a
forma como estamos inventando
nossas existências?

( )

E quando o nó(s) se desfaz? E não
há encontro?

( )

E quando o lugar de interesse é o
encontro e nos deparamos com a
impossibilidade do encontro?

(  )... Kit de primeiros socorros dos estados de coletividade. Leia mais informações
na caderneta do agente.

Criar/dar espaço para outros eus que possam se encontrar foi a opção. E logo percebíamos
que os dispositivos e formas que desenvolvíamos no fazer, a partir desta vontade de gerar o
encontro, iam desenhando outros contornos possíveis, sobrepondo-se às impossibilidades.
Surge, então, a Agência Ficcional como possibilidade de gerar novos encontros, agenciá-
- -los. Encontros em que nós não estaremos presentes. Não precisamos estar presentes.
Podemos nos infiltrar no presente de outros e auxiliá-los a gerar e manter os estados de
coletividade. Surgem os elixires, a caderneta, e logo o kit completo: dispositivos auxiliado-
res da manutenção de estados de coletividade.

Expedição Espeleológica na EXPOFAU – 2010
Depois de uma perplexa visita à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
(FAU) da Universidade de São Paulo, surgiu a ideia de “escrachar” a situação
vergonhosa das infiltrações evidentes no prédio. Bolamos a I Expedição Espeleológica.
Montamos uma barraquinha de turismo urbano e, com um megafone, convidamos
os interessados a se reunir dali a algumas horas para a Expedição. Providenciamos
equipamento de segurança para todos: capacetes, lanternas de cabeça, binóculos, vidros
para coletas de amostras e máquinas fotográficas. Reunimos um grupo de cerca de
trinta pessoas e saímos pelos andares da FAU reconhecendo as estalactites e
estalagmites que absurdamente se formam no teto e no chão da Faculdade.

( )
Bem-vindo à Agência Ficcional!

24/07/12 13:43 CADERNETA-print-recorte 1

Sugestão de novo elixir: Habilidade:
Saturações Atuais: Desejo:
Local/ temática de interesse: Nome do agente (s):

Tipo de Reação Contexto Elixir Usado Saturações

do uso de elixires
Acompanhamento

E
specializada em diluição de identidades e
conspirações coletivas. A Agência Ficcional tem o
objetivo de instaurar e fortalecer estados de
coletividade e espaço/tempo desabituais na vida cotidiana
das pessoas. Propiciamos a qualquer cidadão interessado a Agência Ficcional
possibilidade de abrir mão temporariamente de sua
identidade habitual, criando para si um agente ficcional. O
agente ficcional é aquele que tem mais condições de atuar em
consonância com seus desejos, conectando-os com os
desejos de outros agentes e convergindo-os em ações
coletivas. A Agência Ficcional funciona como plataforma de
reunião destes agentes e desejos e é propulsora de
habilidades adormecidas. Potencializamos encontros e
dispomos de dinâmicas e dispositivos magnetizadores de
estados coletivos e mantenedores do estado de
disponbilidade e presença.

Bem vindo a Agência Ficcional!
Para os que não cabem em si !
Transborde…

Agência Ficcional
CADERNETA

http://agenciaficcional.wordpress.com

mas acionados nas circunstâncias mais a partir do que emerge do Momentum. eles são imprevisíveis e potenciais. escuta e legitimação dos delírios. do que está cultural. produz a crítica que nos parece mais saída”. a dos desejos. subjugados a essas forças. Entretanto. O performer usa uma saia/traje amarela com diversos bolsos transparentes. vem num grito a pergunta ma para o encontro. que. ( ) SEU SAIA É um dispositivo-indumentária a ser vestido. Um passe permissivo para outras partes da cidade. a política de moradia desu- atualizar desejos possíveis. à possibilidade do sair de controle – são as catarses. ativando uma coletividade fora ao encontro. para ganhar vida. vel. a pes. Também funciona como disparador de memória coletiva e o utilizamos como forma de apresentar o EIA através de cartas com palavras-chave. revoluções. eficientes. que guardam cartas com sugestões de performances e dinâmicas coletivas. DDU alguns ainda permanecem ocultos. . quando quase A Agência torna-se uma platafor. maior que nós. ções com a realidade corriqueira. dependem de nossa presença mente encravado na alma. que mana e a mentalidade fascista daqueles que dizem transbordam de nossas identifica. Cada elixir estranha onda poética possa nos acometer. podendo ser sugeridas ou executadas por qual- quer pessoa. trabalhar pela segurança na cidade que nos afetam. Há também cartas em branco para que os participantes criem novas performances e dinâmicas. pois são discretos. Ativado pelo corpo que o veste: ao tra[ns]vestir o SEU SAIA. nossas percepções. o que. cada vez com mais força. que nos dispomos a especulação imobiliária. DDU 10 borrifadas ( ) outros secretos. Cada agente está em formação. portáteis e potente e transformadora. para emergir o campo cenário macropolítico da cidade. como o trânsito.Ficcional é apenas um pretexto para Não são apenas as grandes ordens apreensíveis no criar mundos. pajelanças. aos poucos. transformando soa torna-se permeável ao presente. sendo abre uma porta e. torna-se física e da criação de condições para que a sempre uma chave de acesso. ( ) preconfigurada e aceita socialmen- te. continente de “como podemos seguir?”. os elixires podem ser partir dos grandes temas e problemas da cidade. Os encontros entre Tais configurações urbanas ainda estão em jogo. “E quais são as condições para isto?” O kit de elixires facilita este despir-se Passamos a apostar em processos/acontecimentos da identidade. ainda precisando permissão para investigar-se e também serem cuidados para que haja reinvenção possí- reinventar-se. de si e entrar num novo estado. nossos pensamentos ainda potentes. ultrapassando pele. este possibili- ta que uma atmosfera do JOGO RISCO seja lançada no ambiente. e descobrimos nossos corpos. curio- diversas e aparentemente “sem samente ou não. Processos/acontecimentos que se atentam não a Além disso. As cartas são colocadas e retiradas. a gentrificação no centro e agenciar.

Agentes Alpha. Marieta e Elza cadastrando novos agentes na Unidade Móvel da Agência Ficcional durante a abertu- ra da exposição NA BORDA no SESC Consolação. . Psy Soma.

Pode ser difundi-lo em diferentes contextos e com as mais diversas pessoas.dilatador de tempo: muito usado em centros urbanos e Empiricamente desenvolvido para comprovam que doses periódicas momentos de acúmulos de afazeres e/ou hiperativismo ativar e manter estados de de elixires podem fomentar agudo. sintomas mandalas ativadoras e disponha- conexão entre os envolvidos. Logo pegue as recomendado para fechar encontros presenciais e manter a personalidade agudos. porém experiências 3. Uma vez experienciado você poderá utilizá-lo e separadamente. 1. ELIXIRES (Mandalas Ativadoras) (COMPOSIÇÃO) e entregar-se ao momento… coloque o frasco encima da mandala e preencha-o com a solução a gosto. O ritual de ativação só será necessário novamente após o término da solução. Informações ao agente: recomendado para auxiliar na diluição da atmosfera carregada e densa que costuma grudar em nosso campo energético. Em cada novo grupo poderão surgir Superdosagem/Efeitos Colaterais: Posologia: habilidades surpreendentes de um mesmo agente. Vire a ampulheta e INTENTE ativação do elixir Aqui Agora. impressas em nossos corpos de memória e anestesiados pela vida social capitalista. 8 irreverentes e irreversíveis [E.dados sobre uso usuário. escolhido.I.conector de desejos: elixir de despedida. desinteresses e dispersão. irreversível mas não irá diluir totalmente a identidade do Interações.aqui e agora: elixir da chegança. si. ativadoras e sua intenção. Instaurar processos insurgências nômades e meio- de ritualização e descondi.I. apatia. Oferece um respiro para "eus ensimesmados" e um Contra indicações: outras substâncias: novo "ponto de experiência" para apreender a vida e Não há dados disponíveis sobre Alguns elixires funcionam melhor manifestar potencialidades. DDU. Repita o ritual com cada elixir. Catalisa a conexão do agente com seu desejo. Indicado para os que não cabem em insônia.propulsor de habilidades: elixir auxiliar no resgate e cionamentos e convenções. Uma vez experienciado você poderá utilizá-lo e em questão e reiteramos o contato olhos nos olhos. Pronto está ativado e apto para ser borrifado/uso externo e/ou via oral/uso interno. aqui e agora ddu dilatador diluidor de de tempo identidades depurador propulsor de conector fórmula de desejos habilidades de desejos pessoal CONTATO Telefone: e-mail: CADERNETA-print-recorte 2 24/07/12 13:43 .]. saberes e práticas Desterritorialização. Este elixir Em caso de superdosagem algumas Abra o kit e confira todos os itens. Que o (alguns homens também podem solução a gosto e encha o frasco círculo se abra mas não termine! EIA lá… apresentar estes sintomas). Recomendamos prudência em seu cionamento da vida cotidiana.com) para difusão das superdosagem coletiva pode causar sua utilização) pela fórmula Aqui mesmas a rede de agentes. 8 elixires. Sugerimos no início o uso na ordem descrita abaixo. Pegue a mandala e o Neste caso única fórmula frasco relativos ao elixir Aqui recomendada é o dilatador de tempo Agora. Sua ação é de saturações habituais. contraindicações em nossos conjuntamente. estados de catarse descontrolada. Agora. conecte-se com o símbolo. é indispensável para compor e atualizar a inteligência coletiva. ser utilizado sem a utilização dos manifestação de habilidades adormecidas. cada elixir pode conter Suspenda imediatamente o uso do diferentes soluções base. ajudando-o a adquirir clareza de seu propósito. alterando nossos estados de humor e dificultando nossa Indicação: Precauções: presença e disponibilidade. A ativação dos elixires (bem como (http://agenciaficcional. sorrisos ao amanhecer. principalmente nos centros Indicado para combater estados de O uso contínuo do elixir não urbanos. Este kit é a brinde com o elixir na chegada de cada integrante ao recinto síntese de intensas vivências e experimentações em processos coletivos.fórmula pessoal: Composição pessoal dos elixires Diluidor de Identidades e do serão acionadas pelas mandalas descritos acima e/ou novo elixir canalizado para o contexto Propulsor de Habilidades. anteriores. 8 elixires. Em seguida escolha uma de convergi-los em ações e composições coletivas.ddu. lembrando que o último não dever 6. utilizado em associação com o DDU. O Aqui Agora e o experimentos até a data presente.wordpress. hiperativo e reflexos de múltipla cada um deles.diluidor de identidades: elixir para despir-se de si. Informamos que é difícil prever os efeitos adversos do coletividade. difundi-lo em diferentes contextos e com as mais diversas pessoas. que se apresentar ao agente. provoca vício. Pedimos o compartilhamento Recomendamos o uso do DDU e Recomendamos iniciar o ritual de das novas fórmulas criadas através da central de atendimento Aqui Agora como antídotos. E aos que apresentam sintomas auxilia no processo de diluição de identidade.depurador de desejos: elixir indicado para agentes é Diluidor de Identidades com recém iniciados e/ou que ainda não tem tanta clareza de seus Depurador de Desejos e desejos. pessoa durma de lado ou tenha manejo. elas 8. 4. Ler informações ao agente antes de iniciar mandalas ativadoras. 1 ampulheta. Sugerimos um 8 mandalas ativadoras. assimilados a ordem pode ser subvertida ou mesmo poder-se-á utilizá-los use-o sem moderação. 2.diluidor de densidade urbana: elixir do descarrego. Recomendamos utilizá-lo primeiro. Se relacione intuitivamente com mulheres apresentam quadro 7. 1 caderneta de agente. Apenas abrirá espaço interior para emergir o agente concomitante com ficcional. ELIXIRES (COMPOSIÇÃO) BULA ATIVADORA Descrição: O uso interno e/ou externo destas sustâncias tem efeitos Apresentação: Este kit é composto de 1 maleta. Outra combinação indicada 5. 1 caderneta de agente. Intolerâncias relativas a condi. 1 ampulheta. Estimulando e potencializando estes relativos `a Esquizofrenia as no espaço e abra os frascos de interações e reverberações entre os desejos dos agentes a fim Feminina Contemporânea Urbana vidro. apropriado para iniciar Via de administração: Este kit é composto de 1 maleta. use-o sem moderação. processos. Este kit é a a utilização. Reações Adversas: Propulsor de Habilidades. caso a elixir dilatador do tempo. Depois de síntese de intensas vivências e experimentações em processos coletivos.

cavernas e tográfi m áquina tesouro ca e fi fo - calabouços à procura de Luga r e lmador a s d e inte e conhecimentos perdidos. observação e os o. Agência sensitiva e al Ficcional. vo meu caminhar que astróloga e le é ser pilota de helicó nfigurações ptero através das co em São Paulo. O meu dom ade: vida aos poucos scimentos ou de é conduzir rena s. Ent rei es. Carrego Suges t ã públic a hashi o d bastão de profecias e o elixi r e novo d a onipre elixir : transcendente. mas ando e dando foram me libert . sou em gre ve do de flores e verd meu trabalho habitual. No pass os astros burocrata. essencial para distinguirmos o que é potente do que não é. tas são a Minhas ferramen cristais. cidade resse : e n c o n na Estive em campanhas com vais d t ros/fe meu e arte sti - outros agentes. sença . Gosto de expe- rimentar os estados . autodescoberta Age n t e : Helio Desejo Ribeir Surgi : e s t a ão Ni! Agente Solstag aqui. um lug r em m ar a o ais de do imperativo ficcional de Habili m esmo t s da d e : empo salvar o mundo dos ataque filma f otogra r a ç õ far e demoníacos e desbravar Ferram es urb anas ent a s : labirintos. Cuido da apuraç ão da fórmula do elixir del ator de blá-blá-blá. fui uma mudar de cinema. ganhan as. Con heço muitos age nte s em constru- ção. Agente Elz a de Medeir os na escuta e na açã o. Câmbio. gosto muito de cole- Agente Alpha FM tividade. frequento Cabocla Sempre que poss salas de planetários e ado. Sou do tem- interplanetári po para trabalhar na to-astral.

Tive várias não violenta. Atuo por de aglutinação.. mudar de pele Ferramentas: lona rubra Lugares de interesse na cidade: Agente Psy – Agente cineclubes e centro da cidade Psysoma – Tece poesias visuais pelo espaço utilizando como principal ferramenta o Torus Vital Autorrenovável. Agente Jureminha Tupã Pinup Cabocla Desejo: encantar. Brechas para es. lugares de me levou a trabalhar fluxo contínuos. lugar este Minhas memórias para o princípio do afeto: se confundem pelo coletividade. aos poucos vou reconquistando meu passado. cole- zando em conspirações procuro as pausas do tivas. Meu laço é o conector de IDs. estou em treina ali- mento. Venho me especi Eu sou a Branca. Repensando o espaço identidades para a público como o espaço do Agência Ficcional. silêncios ( ). ( ) Diluidor de Identidade Diluidor de Identidades (3 borrifadas) ( ) Quem vos fala é a agente - Marieta. por vir. mas a de interesse na cidade são ausência de identidades os de passagens. e estou trabalhan e os espaços em - na fórmula do elixir mag branco. tempo.. netizador de proposiçõ o novo.. . a casa do como sequestrador de outro. dublar. populações sobre a no passado tive vários anestesiação psicossocial nomes. pertencimento. Atua na revolução quem sou. mas nenhum e os micromovimentos do deles hoje representa poder. alegrar Habilidade: dançar. Seus lugares profissões. - capaz de transformar pro Adoro reticências e icos postas em campos magnét parênteses.. Utiliza o corpo como instrumento dos desejos: conscientizar Eu sou o Agente Anônimo.

Nome do agente: Guta ea de Desejo: coleta subterrân lixo Habilidade: mobilidade sse: Local/temática de intere espaço urbano ão e Saturações atuais: poluiç sujeira da cidade redutor Sugestão de novo elixir: de conformismo Nome do ag en te: Fulô Desejo: ser cria nça Habilidade: artes manuai Local/temáti s ca de intere cores e cois sse: Nome do agente: ana as coloridas Saturações at uais: estres beatriz falta de paci se e Desejo: inteligência e ência Sugestão de novo elixir: passar de ano revelador de pensamentos Habilidade: concentração Local/temática de interesse: vida Saturações atuais: N o pressões m De e d s o Sugestão de novo elixir: pa ejo ag ra : en amenizador de saudades H a f t e te b a r : co ili zer fa Mi n d c st Lo ver ade: amiz ilid i ca sa ad ad i n l / r so e e t t rri s re ere emát u s r e Sa niõ se: ica tu es fe de g u r a s t a ç as Su rda ões e g r a es est r t pa ão anc uais l h or : dor ad de or no d vo e fe eli li xi c id r: ad e .

lo ivos Nome do ag en te: RSXT s de execut aglomerado tresse Desejo: ser atuais: es um mestre Saturações : Habilidade : novo elixir artes plásti cas e Sugestão de convívio em grupo ão imediata transmutaç Local/temá ti ca de intere música. ( ) Depurad or de Desejos Depurador de Desejos (3 borrifadas) ( ) tihe ente: e do ag quilidade Nome an o: tr Desej ia ecer nh acont esse: compa : faz er idade e int Habil emática d /t es Local m pulsõ ô s: co : bistr atuai ir ações novo elix Satur e tão d ssoal Suges erador pe el desac ente: Gi Nome do ag Maravilha s e as pessoa Desejo: qu is loucas e ma sejam mais livres izades : fazer am Habilidade tica de Local/temá centro da interesse: andes cais de gr cidade. danç sse: a e cinema Saturações at uais: ex ce ss velocidade do o de mundo (tempo Sugestão de ) novo elixir: da necessidad diminuidor e de dinheiro .

ha Gamin ente: ão Paulo do ag S Nome or em no rua o: am so se: a Desej : do teres e idade de in antismo Habil emática d /t s: pe Local atuai ico ações tântr ok Satur xir: o dade o eli Faceb falsi o de nov cedor de tã re Suges esapa or. d do am gram se: ta e Ins são/ Nom e do D e s a e g Hab jo: c ente: i o atr lidad r nas Germa á e: z no Loc s s orr onas p ena a i r b gua vig l/tem áti par eges s ent a o S a t e s c a s u de que Sug raçõe i nte vêm est s a res do s ão tu a s e : d ias de no is: d tem de vo ias pos s ol el i x t ir: ransi pr tór o l ong ios ado r Nome do agente: Clara Desejo: igualdade Habilidade: cantar Local/temática de interesse: rua Saturações atuais: locomoção. habitação e alimentação Sugestão de novo elixir: mata fome .

Floriana Breyer. contamos com Renato Almeida e do livro. Fabiana Mitsue. Gisella Hiche. ( ) Propulsor de Habilidades Propulsor de Habilidades (1 borrifada) ( ) ` N o m e d Des o a e j ge n Hab o: te: lib Igo ili d a erd a r K Lo c a d e: d e o m l/t cor p ara ecz mak bel emá age e za ti c a m a s at Sat do de isfa ura ç õ cor po int e ção Nome do agente: Círis sen e s a r e s tid o. . George San- der. Na foto- grafia. Mariana Marcassa e Euler Sandeville. Vanessa Jesus. Mile na Durante. Henrique Parra e Peetssa. Com a ajuda de Salua Oliveira na produção e de Leonardo Ceolin na cocriação e confecção da Unidade Móvel da Agência Ficcional. tua se: a Desejo: equilíbrio Sug e is : s t ão f alt Habilidade: decisão e de de a d med os n ovo e transformação eli xir : Local/temática de interesse: blo quea João Pessoa (PB) dor Saturações atuais: indecisão/ encurtamento temporal Sugestão de novo elixir: contaminador de sonhos mith orn S iva au Bj colet Rosse ença José desav ente: atual do ag ão da cial do Nome n utenç de so o o mun o: ma erida : tod Desej : prosp te resse idade de in eito de Habil tica econc zador /temá s: pr ciali Local atuai reini ações xir: Satur o eli e nov tão d al Suges ultur ito c conce Agradecimentos: Aos integrantes do EIA: Eduardo Verderame. Pedro Guimarães. Danielle Noronha. Na diagramação da caderneta. Fabiana Prad o.

Necessitamos desta ficção para desaprender.Afirmamos: seja lá o que for a Agên- cia Ficcional. está sendo criada. não está pronta.. para não saber. para inventar e sustentar o que sempre desejamos: experiência! ..

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Ao propor o conceito de “transcendentidade”. ou ainda afirmá-las. pois a noção de identidade é inseparável do conceito de alteridade. Ou. Quando movida pela ação do desejo. despir-se. ainda. no reforço afirmativo sobre aquela identidade que talvez passemos a vida a negar. revelando o devir. Identidades em trânsito   Seria possível a identidade que nos acompanha no dia a dia transcender aquilo que acreditamos ser? Quais seriam os desejos pulsantes capazes de deslocar a nossa identidade primeira.indd 4 13/11/2012 11:38:24 . para abordar dizeres poéticos do indivíduo por meio de seu autorreconhecimento. E sempre aos olhos alheios. brincar de ser. lançamos novas questões sobre cruzamentos e influências na construção de uma identidade transcendente àquela que nos foi atribuída. sendo. Como nos dizermos? Como nos reconhecermos? Como podemos transcender aquilo que sabemos a respeito de nós mesmos? Como expressar a superação de nossas identidades constituídas. nomeia e autoriza (ou não) aquilo que somos e representamos no âmbito social. a fim de nos reconhecermos no campo poético-relacional? Como dar forma ao transbordamento dos nossos contornos? Como e por que nos reinventarmos? LIVRO MATILHA FINAL. AGENTES & TRANSCENDENTES por Projeto Matilha vestir a fantasia de si mesmo. a identidade em trânsito aponta para novas subjetividades dentro do contexto em que está inserida. É o outro que reconhece. constituída pelas condutas sociais? Quantas combinações variantes de identidade cabem num corpo? E como isso se dá? O Projeto Matilha inicia sua investigação artística a partir dessas questões.

Uma espécie de “buraco das identidades”. O jogo de cartas e algumas questões: quem é o desconhecido? O que sabemos a respeito dele? O que lemos na imagem do outro? O que a presença do outro suscita em nós? Como habitar um tempo/espaço juntos pela cidade hoje? Jogar é o verbo que se apresenta à Matilha faminta por respiros. postos na mesa. A primeira carta comprada do monte na mesa é a preferência sexual “homossexual”. Dizer verdades. Alguém reage: — Mas você não é negra! — É que eu gosto! —. Mentir-se. a Matilha escolheu um cantinho da cidade repleto de fluxo e já imantado pelo calor da disponibilidade: mesas de jogos no Largo Santa Cecília (centro de São Paulo) na saída do metrô. encontros e afetos. Revelar segredos. ideias. de exposições e encontros. fomos nos reconhecendo entre regiões da cidade. realizamos a intervenção Cartada Santa Cecília. Cartas na mesa Sentar-se à mesa para um jogo com outras pessoas. O montinho fica no centro da mesa e os jogadores compram e descartam. estabeleceu-se um território livre de diferenças entre o artista e o receptor de arte. Ali. ela afirma. mas logo volta à mesa. Momento em que a arte se disfarça de vida ou a vida é contornada pela arte? Seduzidos por jogos de disfarces. Na ação.indd 5 13/11/2012 11:38:24 . Falar de si. Inventar- se. preferências sexuais. preconceitos e vontades. curioso para bisbilhotar o jogo… Alguém descarta o time “Corinthians” e um outro compra o monte todo: — Este é meu! A moça loira pega a carta de etnia “negro”. junto aos grupos EIA e Ocupacidade. comidas preferidas. contextualiza a mutabilidade do sujeito pós-moderno: LIVRO MATILHA FINAL. diacho de jogo! Não quero isso não! — O homem se levanta e não quer mais jogar. meio sem saber. A reação vem de forma violenta: — Eita. revelavam as múltiplas escolhas associadas ao discurso identitário. em que o objetivo é montar uma canastra de si mesmo. A partir do ludismo presente nos jogos. as cartas na mesa revelavam segredos. Stuart Hall. crenças e outros detalhes de cada um que. Quatro jogadores recebem oito cartas cada um. Assim. em A identidade cultural na pós-modernidade. times.

seja nas bordas. movidas pelos desejos. o moço de cartola. […] Aqui opera a Agência Ficcional. p. A simplicidade da proposta desperta o prazer de um jogo quase pueril de “vestir a fantasia de si mesmo”. e não biologicamente. a teatralidade da ação artística faz emergir um corpo-poético dentro do espaço público. 2011. atenta aos fluxos da imersão e convocando agentes e desejos secretos. Como um outro e como o mesmo. 13. completa. 2 Ibidem. projeto irmão da Matilha. a mulher com pele de onça… Um carnaval fora de época? Uma festa à fantasia? Ou apenas o gesto expressivo criando um verdadeiro dizer estético sobre quem somos? Somos todos estes e outros ainda por revelar-se.2 Identidade e cultura como dinâmicas inseparáveis. Ao assumir identidades. desejos e potencialidades de maneira poética. que alimentam nossos sonhos. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente. somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. 1 HALL. Seja no fluxo da contemporaneidade – como reiteração da polifonia –. estamos ao mesmo tempo refletindo sobre os papéis sociais que nos são impostos e sobre o hibridismo que sofremos durante todo o processo da vida. […] Dentro de nós há identidades contraditórias. de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. LIVRO MATILHA FINAL. Dialogar com a linguagem da arte contemporânea é também pensar a intervenção artística como espaço vivo de relacionamento. empurrando em diferentes direções. Estética da (re)invenção constante de si.indd 6 13/11/2012 11:38:24 . segura e coerente é uma fantasia […] à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam. na escuta e na legitimação dos devires. com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. A identidade plenamente unificada. O que seria então aquela gente ali fantasiada? A moça de peruca. onde podemos criar linhas de fuga na rota do pensamento obliterado pelas imposições que nos oprimem.1 No entendimento da arte como campo de troca e expansão perceptiva.

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4 3 MEIRA.3 em que “a vida não se distingue da obra como campo de experimentação”. 2007. reproduz em nós como um de seus sintomas mais incisivos a identidade volátil. 2009. mutação e experimentação constantes. aponta Marli Ribeiro Meira em Filosofia da criação. Nicolas Bourriaud. paginas so de texto. 4 BOURRIAUD. nós.indd 4 13/11/2012 11:45:21 . fala da obra de arte como interstício social. Os espaços sociais de encontro e compartilhamento migraram para o ciberespaço. Na tentativa de encontrar lugares possíveis de trocas. em Estética relacional. onde a virtualidade como potencial do acontecimento nos mantém sempre à espera. como propositores. Coletividade: Matilha Atuar no campo da coletividade artística hoje é também perguntar como lidar com a capacidade de instaurar um espaço onde seja possível criar arte com base na poética do cotidiano. baseada em padrões que muitas vezes em nada dialogam com a potencialidade de nossos verdadeiros afetos e desejos. Na configuração de novos processos artísticos. necessidade de consumo. a potência das relações sociais vem sendo destacada por alguns pensadores da arte assim chamada pós-moderna. nossa própria identidade – como cidadãos-artistas – e nossos lugares de atuação são muitas vezes apoderados pela vertigem de um tempo impertinente. Diante de tal contexto. cabe o papel de trocar infinitamente de pele sem a garantia de vir a ser o que quer que seja. Ao sujeito contemporâneo. O estético como vivência de intersubjetividade. o ‘encontro’ […] a elaboração coletiva do sentido”. O tempo inteiro vivenciamos a projeção de uma série de imagens consumíveis. Espelhos mutantes A contemporaneidade. trazemos para o plano horizontal aquilo que entendemos como nosso material de criação: a relação humana na coletividade e a afetivação dos territórios. e conceitua arte relacional como “a arte cujo substrato é dado pela intersubjetividade e tem como tema central o estar-junto. marcada pela abundância de desejos.

a Matilha lança suas proposições criativas ao outro. Risco.indd 9 13/11/2012 11:38:25 . Marly Ribeiro. Voltar-se ao espaço público como lugar de uma expressão estética genuína que se lança ao mundo para além da lógica neoliberal do resultado e do produto. PARDO. Identidades multiplicadas. 2011. representar. Filosofia da criação. Muitos foram os momentos de encontro estético e troca de saberes vários. 2009. São Paulo: Edições SESC. BOURRIAUD. 2007. MEIRA. Nicolas. RYNGAERT. Ana Lúcia (Org). Jogar. Rio de Janeiro: DP&A. A teatralidade do humano. São Paulo: Martins. mas levadas a sério por cidadãos-artistas dispostos a “diluirem-se” por um tempo no espaço da cultura urbana. 2011. incerteza e variedade de leitura. Talvez no modo híbrido da arte contemporânea estejam latentes algumas pistas para a retomada do “lado de fora”. Referências bibliográficas BOAL. O trabalho desenvolvido pelo Projeto Matilha junto ao grupo EIA orientou-se pelos conceitos da estética relacional ao privilegiar o encontro lúdico com o público. 2009. HALL. Augusto. com ele fazendo uma construção sensível das ações em tempo real. São Paulo: Cosac Naify. dado que uma das maiores belezas deste processo artístico é ser tão vivo quanto inacabado. Estética relacional. Porto Alegre: Mediação. Rio de Janeiro: Garamond. Reflexões sobre o sentido do sensível. Processo gerando processo ou work in progress. apontando algumas formas de ver e fazer. mas deixando espaços permeáveis ao modo de criação coletiva. LIVRO MATILHA FINAL. Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. A estética do oprimido. 2009. que é única e não se repete. cruzadas e confrontadas entre si sentaram à mesa e beberam (literalmente) das ideias oferecidas como brincadeira. Longe das verdades absolutas no terreno estético. Jean-Pierre.

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confluência e transcendência. que _____________________________________________________________________________________ do sexo _____________________________ nascido(a) em __________/___________/_____ na localidade _____________________________________________________________________ Filho(a) de ______________________________________ e _______________________________ Sob as bênçãos de ________________________________________________________________ Passa a partir desse momento a ser ________________________________________________________________________ segundo seu próprio desejo. REPÚBLICA FEDERATIVA DE PINDORAMA Agência Ficcional Desabitual Distrito das Ruas Agentes Ficcionais CERTIDÃO DE TRANSCENDENTIDADE Certifico para todos os fins de revelação.indd 12 13/11/2012 11:38:29 . O referido é verdade e dou fé. ____________________________________________ LIVRO MATILHA FINAL.

Havia a necessidade de contingência de um passado que as tornava o que eram. e aos poucos. Da recuperação de segredos ou de grandes momentos de dor não superados e carregados como cicatrizes.indd 13 13/11/2012 11:38:29 . e as pessoas escolhem o tema do qual querem saber prioritariamente o significado. que a busca em geral era pelo amor. Era um jogo de reconhecimento de si. eu percebia que não era o futuro que queriam que eu visse. tendo um maior número de cartas a ser desvendado segundo a prioridade dada pelo consulente.. Elas queriam ver se eu lia o passado delas. As pessoas buscavam a si mesmas. Mobiliza sentimento de cura e de necessidade de transformação. que ao serem reconduzidas à sua identidade encontram a força que necessitavam para enfrentar os problemas atuais. sendo ao mesmo tempo o menos procurado: o destino. se eu percebia o duro segredo que cada uma delas se esforçava tanto em guardar e perguntavam se mesmo assim haveria um futuro feliz. abrindo um portal entre o que sou e o que desejo. percebi que o futuro é recheado do que desejamos e de tudo o que somos. É interessante notar. O jogo de cartas é dividido por temas. Este foi o grande tema prioritário a ser buscado e desejado.. mostraria o que aconteceria no futuro. queriam saber se essa identidade era visível. procuravam vestígios de uma identidade. A princípio. Abrindo as portas da percepção. como xamã. TRANSCENDENTIDADE O depoimento de uma agente ficcional Lili Curado (agente social da dor): a minha identidade secreta desenvolve poderes atávicos na sociedade. Eu. LIVRO MATILHA FINAL. havia um sentimento atávico. até pela curiosidade do fato. por meio das perguntas e dos consentimentos que faziam. através da visualização e aprovação de uma identidade que pensava não ser visível.

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Nesse dia. mas duas foram as que mais me marcaram como agente. Ela sabia que tudo ia dar certo e que o pior já passara. À medida que as cartas vão sendo viradas e as pessoas vão se encontrando nelas. Alimentar os próprios desejos. foram realizadas diversas leituras. foi revelado que a maior dádiva que ela tinha foi ter podido mudar o seu próprio destino. mas tinha o desejo íntimo de saber se ainda era amado pela família. elas começam a se sentir em paz em relação ao futuro. as emoções foram fortes e libertadoras e pouco a pouco todas as identidades em busca de si foram encontrando amparo em si mesmas e na sua profunda força interior. não havendo força maior que essa. pois havia acabado de se divorciar e tinha quatro filhos com o ex-marido. Há um certo medo em relação a saber o que acontecerá no futuro. ouvir os desejos profundos. O trabalho individual termina com o abraço contenedor. pois havia dois anos tinha abandonado os filhos e a mulher. No decorrer da leitura. e estava ali com quatro filhos criados.indd 18 13/11/2012 11:38:32 . enquanto a identidade vai sendo revelada. ou seja. em que um ser e outro se encontram e se cumprimentam pela caminhada. Queria saber se ainda haveria chances para o amor de ambos. Esta sou eu. Se for possível ver na identidade as marcas que foram nos tornando aquilo que somos. agente Lili Curado em ação. No dia 21 de abril de 2012. LIVRO MATILHA FINAL. é o que a transcendentidade faz: transforma as dificuldades socioculturais em destinos não determinados. seguindo o imperativo da nossa vontade. é porque essa força nos pertence. seguindo as prioridades levantadas por ela. Reconhecer a si mesmo mobiliza as forças interiores no sentido de dar importâncias diferenciadas aos problemas vividos pelos consulentes. A ânsia do questionamento e da pergunta do porquê (Por que comigo? Por que assim?) começa a se acalmar e curar quando em confronto consigo e com a sua força. Um morador de rua que se declarou alcoólatra tinha dúvidas em relação ao amor. Namastê. na necessidade de continuar a construção do que somos. Ela era órfã e tinha vivido em um orfanato até a sua maioridade. Outro momento marcante foi o de uma senhora que chegou acompanhada da filha perguntando sobre o amor. e com ela podemos ter o domínio do que virá a acontecer. se ainda poderia aparecer perante eles.

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Pedro Guimarães e Amandy Loba Poeta.blogspot.indd 20 13/11/2012 11:38:32 . o Projeto Matilha vem investindo no convite para a criação compartilhada a partir de vivências transdisciplinares. vieram Me Convida (EIA). O primeiro trabalho surge em 2005. BREVE HISTÓRICO O Projeto Matilha é um grupo de intervenções artísticas que acontecem em parceria com grupos e pessoas convidadas. O Projeto Matilha no projeto NA BORDA é formado por Fafi Prado. como forma de pensar a criação. em conjunto com integrantes dos grupos EIA e Bijari. Complexo de Vira-Lata e O Rottweiler de Deus e Sua Mãe (casadalapa) e Lona Rubra (Retrospectiva Zona de Poesia Árida). Dando continuidade ao seu processo. Logo após. Oficinas e intervenções performáticas em espaços públicos que geram um diálogo contínuo entre as propostas e a participação coletiva. o encontro e a celebração coletiva. Floriana Breyer.com  LIVRO MATILHA FINAL. http://www. no SPLAC.projetomatilha.

LONA RUBRA apresenta: TRANSCENDENTIDADE De Gervásio Pústula uma quase farsa brasileira em 3 atos curtíssimos.indd 21 13/11/2012 11:38:33 . LIVRO MATILHA FINAL.

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te dei um nome. LIVRO MATILHA FINAL. que eu sei… ELA – (chora escondendo o rosto entre as mãos). forte e ro- busto como você… hum! MULATO – Eu não confundo sentimentos com dinheiro.   ELE – (transtornado. ELE – (após uma longa tragada no cigarro) Eu te tirei da rua. ATO II POLACA – (com forte sotaque polonês) Pois venha trabalhar comigo no meu Cabaret. Você é puta. ATO I ELE – Fucking bitch! Você é puta. te dei um lar. toma um longo gole da cachaça). Te dei comida. Um mulato alto. Pára com esse teatro! ELA – Mas eu sou branca e a tua família me aceitou ! PAUSA DRAMÁTICA.indd 23 13/11/2012 11:38:34 . Sou um romântico! Um homem que passa pela vida sem amor é como um morto que caminha! (A cafetina Polaca solta uma longa gargalhada e anuncia a próxima atração da noite).

indd 24 13/11/2012 11:38:34 . a pin-up cabocla. Ela tem algo a confessar) JUREMINHA – Após tanto tempo. LIVRO MATILHA FINAL. Os dois bailam juntos. ao terminar seu show burlesco senta-se à mesa como pirata TUPI. Eu sou índia! Índia! PIRATA TUPI – (Canta uma canção em Tupi-Guarani safado: Patchio-Bari Adios sireh. ATO III (Jureminha. banhada em águas doces e perfumada com pétalas macias de rosas vermelhas. felizes! Reconhecem um ao outro. Meu nome é Jureminha Tupã. enfim!) FIM DO ÚLTIMO ATO. tenho que finalmente confessar a minha identidade.

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se vocês quiserem políticas de segregação são ir para outros caminhos. Joana −Então. desse não como lugar específico. a várias outras metrópoles brasileiras). Na verdade. Como estas Na verdade. Também nessa linha veio a liga- Joana − Então. neste caso. público que instaura essa política de separação. shopping elite e popular etc. A borda é um lugar onde as coisas podem nascer. Um tipo de espaço. Tem uma ideia. Joana − Ou tem mais alguma coisa? Discutimos bastante as dinâmi. E. que entendem a margem símbolo dessa passagem. Brait − Ela colocou que na borda se instaura uma situ- ação de impasse. fizemos a Daniel − É isso.. versus lojas caras). ônibus.. é mais uma conversa. várias esferas? Como são reve- ladas em dimensões diversas. Seguem as anotações abaixo. mas como uma situ- (sem entrada e permissão a pedestres. a lixeira dourada. apoiadas pelo poder público em Brait − Falaram que você ia vir provocar a gente. . surgi. não está longe do centro. A ação é aquela das lixeiras. toda cravejada de diamantes. é o poder espaço. Daniel Lima <. Daniel − Tem a lixeira do SESC. ou acesso exclusivo a carros como um lugar distante do centro. nessa situ- mite a abertura de um portal. bem na entrada do SESC.. A borda não é um lugar físico.).> Joana − Primeiro.. não como a periferia. que vocês ficam dentro das lixeiras e conversam com Fevs. o nosso trabalho é espaciais (lojas populares uma lixeira dourada. a ação..3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 2 Intervir? por Frente 3 de Fevereiro Em 5 de março de 2012 17:42. que está per- a localização..tenho estudado um pouco sobre essa imagem da ram muitas reflexões. ação de indeterminação. a primeira coisa que pensei foi a como o uso da calçada. Espaços como Joana − Uma lixeira dourada? shoppings e suas políticas Daniel − Na exposição do SESC. perfil do joias. porque afinal o livro cidade de São Paulo (aplicadas também está relacionado a isso.. as pessoas têm entendido a borda. Mas entre diferentes mundos. mas é uma situação de impasse. É isso? Na quarta passada. Assim como a Daslu. seguinte. Uma situação de indeterminação. tem algumas coisas que tenho pensado. abre-se um espaço de. Não sei exatamente como A partir desse tema ACESSO. reunião do projeto NA BORDA. a ideia da borda. acho a ponte que faz uma passagem que a gente nunca discutiu isso coletivamente. que a cas de segregação e exclusão da gente pensou também em abordar. principalmente na Estaiada foi pensada como antropologia contemporânea. A Ponte margem. acesso? meando todo esse projeto. tenter essa situação de indeterminação de diversas reproduz a chave-carro que per- formas.. E tem alguns teóricos. Um Só que. as pessoas. bicicletas ação. Pode-se en- etc. ção com a Daslu.

3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 3 Fotos: Frente 3 d e Feve reiro .

As escalas de somente diante da chave que vida. você vai olhar e dizer “isso é estão sendo retiradas à força campo”. tentando nos impedem de sentar na frente de bancos. Aí eu queria tentar pensar com vocês. a própria lei. essa para e-mail. nessa discussão. de existência etc. para as diversas lojas. Ela tem uma dimensão que é física. Na estreito. Novamente no metrô. verdade. E aí. revirar o lixo. é contextual. a discurso de defesa das lixeiras para proteger o lixo de última chave: a senha. e a lixeira? do lixo! Brait − Porque a gente começou mapeando a cidade. restaurantes entender a margem como uma situação que pode se etc. é uma situ- ação. mas ali se instaura uma situação que é uma pelos processos civis. instaurar em qualquer lugar. ou até que a prefeitura tinha imposto alguma para computador. E o porteiro-juiz pensa-se muito como é que se define então a invenção da atitude suspeita. mas está tudo dentro do enxurrada nas esteiras embaixo marco do urbano e a cidade é entendida como uma es- da terra. que dão acesso. pode ir para o individuais. determinado. muita coisa interessante apareceu como um Por último. de experiência. É senha chuva. Nem mais uns tempos para cá. síndicos. os movi- mentos sem-teto. O cara tem somente agora começam a ser acesso à internet. Em que sentido as lixeiras são margem? Por que vocês Grade com cadeado para não criaram essa associação entre a situação de margem. Novas mento novo na história de vida da cidade. c) As grades que protegem o lixo dos prédios e condomínios. então.. mas eu acho que podemos pensar a lixeira. a) O banco do ponto de ônibus. Eu vou dar um exem- rápido que a superfície. antes reto e possível de deitar.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 4 O metrô da linha amarela Joana − Estou estudando antropólogos contemporâ- (parceria público-privado). para lixeira blindada. tem acesso a organismos interna- consideradas instrumentos de cionais. ACESSO à trama subterrânea que anda mais determina certos jogos de poder. Em muitas O ACESSO está também nas portas giratórias dos bancos. não é uma invenções contra o lugar do coisa a que a cidade estava acostumada. para celular. Então é isso: não é um lugar físico. trangimento. hoje não dá para se pensar a cidade como es- A multidão que caminha como paço físico. . desses lugares. que situações desse tipo. ou seja. buraco de rato. simbólica. porque ali tas giratórias de bancos que passam a operar milhares de escalas. porque a b) As grades pontiagudas que gente está dentro desse projeto NA BORDA.. que submete todos ao corredor neos que pesquisam muito a cidade como escala. o ACESSO último. uma situação urbana. As por- situação de cidade. Nas conversas com porteiros e embaixo da ponte se vai. plo de uma situação: os campos de refugiados. coisa. O que significa isso? É uma escala na qual todas a terra subterrânea que se abre as escalas operam ao mesmo tempo. uma situação de impasse. É essa situação que vem humilhação e discriminação. Começou de morador de rua. A porta cons- está dentro do marco do urbano. ou o movimento sem-terra. lojas. para internet. impasse. hoje com assentos em que a coisa pode ir para um lado. Como é que se define um lugar? E aí tem essa ideia de que é na margem que se funda tanto Outros dispositivos de exclusão que proíbem o ACESSO: a possibilidade de ruptura. outro. de direitos humanos. Caixa-forte indeterminação. e d) O “lixo humano” expulso até essas lixeiras blindadas aparecem como um equipa- debaixo das pontes. quanto o próprio Estado. como um elemento para pensar a bancos. A porta transparen- te e travada. A margem de que eu estava falando é. Então é uma destrava catracas e portas situação na qual existe um jogo de escalas que também guilhotinas. mas também é virtual. sendo entendida dentro da antropologia contem- As portas que travam e não lhe porânea como uma situação de cidade. cala. de indeterminação.

Procuram. a dupla Alckmin-Kassab. Mais uma vez.] Para acabar com uma Cra- colândia.com. assistiu-se à Polícia Militar atu- ando violentamente. na visão de Alck- min e Kassab.2012 [. e sem um único posto de apoio médico-assistencial no lo- cal.01.cartacapital..] http://www. provocar um quadro torturante e dramático de abs- tinência nos dependentes quími- cos. A dupla busca a tortura físico-psi- cológica. E. [. A meta é “limpar o território” com ações militarizadas e empurrar para a periferia distante os “inde- sejados”. sem con- seguir expulsar os visíveis e expostos vendedores de crack. pelo sofrimento e desespero. go- vernador e prefeito. partiram para ações policialescas.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 5 O terror higienista São Paulo insiste na repressão e usa o crack como desculpa para segregar pobres. Esse torturante plano só é integrado no rótulo. os dependentes. iriam buscar trata- mento oficial. Wálter Maierovitch 14. com o fim da oferta..br/so- ciedade/o-terror-higienista/ .. Inventaram um novo tipo de pau de arara..

[. Moradores dos imóveis lacrados foram intimados a deixar a área mesmo sem ter para onde ir.. Esta região é objeto de um projeto de “revitalização” por parte da prefeitura de São Paulo. inclusive. A Polícia Militar inicia uma ação de “limpeza” na região denominada pela prefeitura como Cra- colândia. Determi- nados a resistir – já que a reintegração de posse havia sido suspensa na sexta- -feira –. que pretende concedê-la “limpinha” para a iniciativa privada construir torres de escritório e moradia e um teatro de ópera e dança no local.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 6 Pinheirinho.] http://raquelrolnik. região da Luz. luz e telefone. Cracolândia e USP: em vez de política. pessoas feridas. e a ordem era que famílias se recolhessem para dar início ao processo de retirada. dando início a uma situação dramaticamente violenta que se prolon- gou durante todo o dia e que teve como resultado famílias desabrigadas..01. Em seguida. foram cortados água. Em 14 dias de ação. Mi - lhares de homens. mulheres. 22 de janeiro de 2012. mais de 103 usuários de drogas e frequentadores da região foram presos pela polícia com uso da cavalaria. polícia! Raquel Rolnik 23. detenções e rumores. 6h da manhã. carros blinda- dos e mais de 1. mais de trinta prédios foram lacrados e alguns demolidos. spray de pimenta e muita truculência.wordpress. Domingo. Além de terem sido in- terditadas as saídas da ocupação.2012 03 de janeiro de 2012. sobre a existência de mortos.800 homens armados da Polícia Militar. crianças e idosos moradores da ocupação Pinhei- rinho são surpreendidos por um cerco formado por helicópteros.com/?p=5 443&preview=true . centro de São Paulo. São José dos Campos (SP). os moradores não aceitaram o comando.

ali na Maria Antônia que um grupo de moradores de rua dade de cada membro do corpo. Uma é . doida. As pessoas não sua posição numa massa. e o número de matrícula que indica conseguiam entender muito bem o que estava aconte- tidiano. colo- dados. têm dois polos: a assinatura de certa forma. Ele isola o lixo dos que você não fala nem para a catadores. né? [Post-scriptum sobre as so- ciedades de controle]. ACESSO único. As ações foram feitas todas no a assinatura. aquilo que você descarta. ACESSO carro. Então ali você estava meio que protegido. ainda assim. cia. de que você falou. continuando (Gilles Deleuze. E. Os indivíduos tornaram-se chamar a atenção. A linguagem numérica do tempo que estar dentro da jaula chama a atenção dos controle é feita de cifras. ao contrário. assim. como proteção do lixo Exorcize seu segredo final! em relação ao outro. ainda. A senha margem como situação. sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem Brait − É.. suspeito. assim. se era compatibilidade entre os dois. para seu esse tipo de ação. ou a rejeição. esse objeto. marca da singu- umbigo da cidade e.. é uma senha. A senha que substituiu no coração do centro. Essa lógica do lixo: aquilo que você despreza. É muito forte essa ideia de proteger companheiro. mas aquela brin- (tanto do ponto de vista da cadeira agressiva de um moleque de rua. sua mãe. ro. foi e é ao mesmo tempo que o poder muito louca essa sensação. CHAVE Falando um pouco agora da intervenção. e molda a individuali.. A senha que morre com você. é laridade individual. ACESSO porque essas lixeiras são. se era uma promessa. o lixo. cidade. esse elemento. lixo. mercados ou ‘bancos’”. De. ao passo que as Daniel − Mas brincando. sobre a sensação de estar lá dentro. ali. na passagem das pessoas. de você se colocar como é massificante e individuante. e as colocar-se numa situação de estranhamento com a massas tornaram-se amostras.. não vai chegar em você porque você está protegido ali. único aqueles sobre os quais se muitas coisas se passaram conosco. A senha um instaurador de marginalidades. quando está no espaço O que seria uma terapia da público. Teve um momento exerce. ACESSO avesso. um martírio. constitui num corpo lixo. era um ruído muito forte. né? Craquei - integração quanto da resistên. um agente estranho. que foi a nossa primeira visão ao buscar sua confidente. Não se está mais Isso foi uma sensação. ‘dividuais’. Nas sociedades de controle. a agressividade deles marcam o acesso à informação. atacou a gente na lixeira. tante para as pessoas verem a gente dentro das lixeiras. ainda que não isto é. foi uma situação muito maluca e muito desconfor- CHAVE perdida.. que caras para vir interagir contigo. também. divisíveis. da experiên- mestra. CHAVE única.. Acho que fomos muito felizes ao Enfim. com um gesto simples do corpo.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 7 para as redes sociais... de certa forma. o essencial não é Joana − Sério? mais uma assinatura e nem um número. no co- que indica o indivíduo. É que as disciplinas nunca viram in- cendo. Pulando e batendo na lixeira. você é responsável por aquilo e senha? Compartilhe sua senha quer proteger isso do cotidiano geral. “As sociedades disciplinares O momento em que a gente estava dentro das lixeiras. acho que a lixeira traz essas duas dimen- sões da questão do urbano. num tom de brincadeira. mas um ser humano. Estando dentro da lixeira.. um lixo blindado. Que é você estar dentro do negócio. De diante do par massa-indivíduo. Conversações um ser humano. Ao mesmo cia). cando-se como lixo e. se era um protesto. ao mesmo tempo. 1990). mas uma cifra: a cifra Brait − Sério. líquido.. porque é um elemento urbano como segredo último e chave mestra. Felipe − É. Vieram dando paulada. seja só do cata- pelo menos uma vez na vida! dor ou dessas outras questões. ACESSO lançar esse novo elemento a ser trabalhado na cidade.

impulsionado pelo mesmo carro.org/node/4493 .observatoriodesegu- ranca. concentrados na rua dos Gusmões.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 8 PM faz craqueiros darem volta em quarteirão de rua folha.. 51. [. o mesmo grupo de usuários refazia o trajeto.2012 Após o veto ao uso de balas de bor- racha e bombas de efeito moral na cracolândia.br 16. carros da Polícia Mili- tar organizam uma verdadeira “pro- cissão” de craqueiros pelas ruas do centro. Usuários tentavam se desfazer do controle da polícia. “É a procissão dos afli- tos”.com. diz que a ação. A caminhada começou às 2h04. “Vamos espa- lhar! Espalha!”. Ainda assim. Na madrugada de ontem. o carro continuou ori- entando o movimento de uma parte do grupo. Poucos minutos depois. e começou a “empurrar” os dependentes.] http://www.01. a Folha viu um grupo de mais de 70 usuários guiados por um carro da Força Tática dar a volta em um quarteirão e retornar para onde estavam em dez minutos.. José Severino Duda. quando o carro se aproximou dos usuários. acon- tece “quando a polícia está de bom humor”. gritava um deles. definiu o morador de um dos prédios da rua que observava a cami- nhada. porteiro de um edifício próximo. que se repetiu em outros pontos da cracolândia na última semana.

que. você vive do lixo. Passagem. Sem falar na questão es- mutabilidade descontínua do tética que tem esse dispositivo. a gente olha para isso e acha normal. pois ela é um negócio de ferro. mas pelo caráter “indi. agora.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 9 Em 16 de março de 2012 19:49. o hegemônico? É um olhar que vai buscar outra O ACESSO como ponto de ruptura coisa. caso Carrefour. você sofre um processo exclu- isso. Para eviden- . cidade. sim. desse cotidiano com que a gente con- universo do coletivo. essa dimensão. mesmo assim. nos interessa? É uma operação essas caixas fechadas. não por medo de compartilhar todo um agrupamento de pessoas que viviam do lixo da senhas. Pensar ACESSO como CHAVE. de toda a onda ecológica. a gente tem na F3F (reflexões etno-sociais). movimento. Mas. invasão da bandeira na ginalidade. Felipe Brait <. por outro lado. o lixo começa a ser valorizado Que o conceito de ACESSO seja o por conta da reciclagem de materiais. das empresas. tempo inteiro. Isto é. AÇÃO-CHAVE deflagrando dente. mas. que não quer mais e. vontades político-estéticas hoje. simples. que. porque. É um elemento de exclusão material Faço algumas reflexões mesmo. desse que era o lixo desprezado. se a gente não homem pós-moderno. muitas vezes vazias. refletida ali naquele equipamento gação nosso tal qual a experi. tem algo de excepcional. como o Felipe ACESSO individual – compartilha. natural. era o estereótipo dessa marginalidade.> a dimensão material mesmo. quando ele a coloca ali. pode interessante e potente de tra. depois vidualizador” do conceito. caso Casas Bahia. ter vários desenvolvimentos. falou. outra topografia da cidade. mexam no lixo. feito para não deixar que as outras pessoas Fevs. mas um dispositivo de controle. ACESSO entre exercita o nosso olhar para conseguir ser estrangeiro à a senha da individualidade e o própria realidade. cidade um mecanismo de exclusão do catador desse Daí vamos tomar essa base con. um elemento-chave na responsabilidade social do (ação final) e nosso discurso governo. Lei de Cotas. Acho feliz esse dis- me parece ser um caminho mais positivo. às vezes com lixo. mas só revelar esse dis- balho do que esse caminho do positivo é muito interessante. para vender na reciclagem. essas lixeiras trancadas? -leite. lixo. o cotidiano. que já é uma calçada difícil em São Paulo. Está aí põe para fora. Isso é muito a cara de São Paulo. tem algo de exclusão material. Catador não consegue mais pegar a latinha complementares. completamente revelador e. mas no sentido de que ele não é o cotidiano festa de abertura da Copa. O cara talvez nem tenha pensado em toda ência de trabalhar com o muro. cidade excludente. mesmo estando o texto do Deleuze pra mostrar dentro desse circuito. MÃE PRETA. volver um jogo a partir dessa ideia é o que estaria em Daniel − A gente olha para a lixeira porque tenta buscar questão aqui? Ou pensar essa um olhar que não é o olhar hegemônico para as coisas noção de ACESSO também a partir que são – digamos – o natural. tem algo de dispositivo abadá x pipoca.. o o ACESSO. como: vive. ceitual do ACESSO como gatilho Ou seja. isso Como replicar? Ou como desen. vive daquilo que a sociedade e explorar as fissuras da sociedade de controle. mesmo sendo considerado. de exclusão.. adestramento da multidão? Seria mas é um negócio completamente grotesco na cidade. o indivíduo nesse magma de mul- titudes ou seus destinos que na calçada. acho que a nossa ação está no começo. babás-amas-de- como essas lixeiras-cofres. se já existia do. antes. O que. acesso público ao jul- Como a gente consegue fazer com que o olhar passe gamento dos assassinos do pela borda. e o Brasil é o país gatilho de disparo entre nossas que mais recicla. essa força. ao mesmo tempo. Então. o normal da de dados que já passaram pelo cidade. mas não no sentido da borda como mar- Flavio. novo. aparece. tam- A lógica de se pensar o ACESSO bém traz essa dimensão simbólica de um projeto de passa por um ponto de investi.

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tem uma razão de ser. Em 19 de março de 2012 12:28. que na arte con- os ACESSOS. seres. seus pontos de origem. Você não tem a convivência. trabalhos que a gente fez. sociedade. tema manifestou como uma categoria. aquilo que é coletivo passa a ser privado. o que tinha de continuidade com os camelôs. na cidade que não é para convivência. que hoje em dia é reconhecido no usuário -Itaquerão. a gente traz também uma discussão que está no cerne Pensar também nas questões dos moradores de rua.. essa manifestação política que é a cracolândia. os carrinhos de qual era a linha. de uma comprovação de identi- era para a nossa segurança. Creio que são lixeira. era normal. do ponto de vista arquitetônico. em toda essa manifestação. Brait mas eu boto um objeto e aquele objeto é referente àquele prédio. ao entrarem parte do mesmo processo. Muito boa colocação. Alguma coisa sempre é todos os acessos. porque evidencia justamente a Abxx questão da propriedade. como falava o marchas na paulista. que é considerada como a es- camento de população – remoções. Essa arquitetura da exclusão se presencialmente a gente consiga produzir melhor nossa ação. Quando a gente entrou na lixeira. vez por outra. no contexto ideia de que existe uma parte da sociedade. pode mais retirar a substância do trabalho dele. movimento acampa sampa. me pertence. uma característica da nossa cidade. Fala Fevs. Enfim. aquele que tem Não creio que exista essa necessidade daquilo. enfim. pela segurança. Por exemplo. Isto nos colocava. em por isso. deslo. E a questão da li- Como vamos nos organizar? xeira é inovadora. É um caminho. conflitos na USP. numa ótica do aparecimento da lixeira como trabalho. É a conversa pública no dia uma cidade feita para não reunir as pessoas. cória. Quando uma pessoa . essa coisa de tino. Antes tínhamos a assinatura que abria pessoas. Você desapropria as pes- Daniel Lima <. quando devemos pegar este mote ACESSO isso me pertence.> soas. que. A lixeira dual/individualizador evidencia isso. o in- e o ACESSO como ponto de rup. mas creio que quitetura da exclusão. de lixo humano.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 11 interessante de jogo. são bons dispositivos linha. expropria aquele que o próprio sis- para ir longe. ou o síndico. você -2012 e o espetáculo da bruta- vê a expressão sendo cunhada. quando você passa. mostrar qual era a linha. é invisível. Ele não dicotomia entre ACESSO indivi. antes. E. cômodo que dava. E. Esse lixo. e. na cidade Ela deve estar elaborada para aquartelada. você aquartela e proíbe. mas. de passagem e de des- temporânea existe em muitos processos.. os carrinhos de cata. o nível mais baixo da especulação imobiliária pós. que é a situ- pós-ação CRACOLÂNDIA janeiro- ação da cracolândia. sobre a qual. Ela teme 28/03? Como apresentar isso? aglomeração. ao se colocar lá dentro. É que a gente vive numa ar- foi uma pirada. se colocar corporalmente. jovem da sociedade. diante de uma proibitiva. que são os catadores. que é o zelador. e ele tem uma pessoa que cuida dele.. uma parte específico de São Paulo. e eu queria ver em que momento a gente poderia pra jogar com a urbe. É uma nuance da cidade. Jogar com ciar isso. Brait. Sugiro a ideia de pensar também no CARRINHO. do crack. como a escória da escória. O 3 de Fevereiro tinha uma dores. Naquele momento em que eu fecho e boto o cadeado. ao meu ver.. livro Cidade Luz]. A divisão da cidade se dá dade. os carrinhos dos Maurinete − O que me chamou a atenção foi no sentido craqueiros. a gente usou um mecanismo. atravessa- Osvaldo [em entrevista para o Política do Impossível no mento de percursos. a rua é pública. teme o ajuntamento. então. você é obrigado a todos os mundos que precisassem mergulhar nesse estranhamento. que não eram lixo. Você deixou mais claro que ela é minha. Da lidade policial. é exatamente porque a tura/separação. manifesta.

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Daniel − E que você protege. deixa o lixo na calçada. como criar portas sele. nas que saem da calçada. Will − Mas veja que é uma questão de segurança. um momento (senhas) para infinitos mundos. talvez o que sutileza distinta. algo que a cidade criou. é nosso. exatamente. Mas devo preservar. no final das contas. Mas o que essa investi- instituições (que precisam da gação está tentando fazer é olhar esse dispositivo como circulação dessas individuali. da mesma forma como você sistema integrado público/pri- vado pode controlar o que entra tranca a porta da sua casa. Pensemos em quantas chaves Brait − Como se fosse uma extensão da vida privada na temos e quais mundos parciais vida pública. peneiras. é o bem invisíveis. Por outro lado. tramas Brait − Você protege. então como em que entra apenas parte de tornar visível? – foi pintar de dourado. Maurinete − Penso na dificuldade que a gente tem de Veja a questão das portas giratórias dos bancos. com um con. cidade – sendo um elemento invisibilizado. isso é o que das estruturas digitais. hoje em dispositivos barram o que dia os arrastões são um grande deboche. mais Daniel − Exato. sustenta na capacidade de restringir e dar acesso. Isso os consideram “suspeito”. em que ela precisa raciocinar sobre aquilo. A dades) tenham sistemas que per- mitam a passagem de somente uma lixeira realmente parece que brotou. criar essa coisa nós. Então. a trole mais refinado no caso própria ideia de que estou isolado do outro. todos têm que consumir. É isso que culência distinta. somos impeli- dos a criar infinitas chaves tem um momento em que ela precisa ver. não é? Um pedaço do seu quarto. É a próprios delegados sabem. É muito engraçada essa ligação tam- tes fluxos que fazem parte do bém. a lógica de iso- o Estado vive no limite que ex- lamento do condomínio. com uma vale para ela. bruto e um controle fino. É fundamental que todas as Brait − E tranca. fora da sua casa. porque individual. essa exclusividade é o que vale. mundo.deva ser protegido é a própria ideia da segurança. isso é o meu bem maior. não ter essa membrana permeável. Daniel − E tranca. em que passem parte da parte daqueles que têm a chave. mais dispositivos se abrem para a pessoa in- . Estes analisar as coisas de outra forma. é não conviver. Você elas abrem. como funciona a lógica do condomínio.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 13 mesma chave. Hoje. você de cidadão. Aquela vida A sociedade de controle se privada que você não quer dentro da sua casa. o próprio mecanismo da grade. um outro qualquer não in- e como entra? Entre os diferen- vada aquele lugar. Criar filtros. mas com uma tru- maior dessa classe que exerce esse poder. Para mim. como esse está assegurando que. que. É interessante o mecanismo. Talvez o que distinga seja um controle Brait − Essa exclusividade.Daniel − E é interessante que outra estratégia que a toras automáticas? Tornar-nos gente usou para revelar a lixeira como um elemento da divisíveis quer dizer que temos acesso a parte de um mundo. algo que brotou da cidade e que é muito revelador de como funciona a cidade. nasce da mesma lógica. uma mesma marca entra na lixeira. é meu. porque a gente está apontando que o próprio mecanismo A lógica é a mesma dos muros de segurança. de relance. com aquelas per- parte de nós. Nunca a senha abre todo da lixeira como uma joia. toda necessidade de controle não abrir a porta. de Com ou sem trabalho. clui uma imensa parcela da so. a outra se sente incomodada. porque. imperceptível. quanto mais você falsa imagem da porta seletora aquartela. e tudo mais. não ciedade de seu direito íntegro é? Quando você coloca o cadeado naquela lixeira. algo que brotou da cidade. o sistema.

3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:52 AM Page 14 .

Tornar visível controle seriam imateriais. porque não é ina- trava. seja no digital. aí não. Will − Tem uma coisa na história das lixeiras também abr que é muito engraçada. lação. Joana − Então. precisamos que você representa socialmente. sim. Uma discussão que os arquitetos fizeram na Vila real porta detectora de metais. é tosco. de ser uma performance corporal. Então você protege a própria pro- plica atualmente. entramos no mundo (evidentemente. ter esse envolvimento do corpo. Isso E que parte de nós não pode para mim é incrível. na verdade. Fiquei pensando não podemos acessar infinitos bastante nisso. em que esses dispositivos de do acesso. aí já é demais esse negócio.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:53 AM Page 15 automática. aparecer para serem expropriadas. eu nem falo com você. Assim. do controle. Levar valores de um lugar ao outro. A pessoa tem essa preocupação. porque nos mostra que qualquer coisa que se trans- Mas que parte nossa não entra? forme em um bem comum pode ser expropriado. É uma resistência que a gente não está enten- em desuso. pode ser qualquer coisa. de que você está dentro do negócio: o que você está fazendo lá dentro? O que você quer provar com isso? Você é lixo? Se você for lixo. Assim poderíamos criar uma narrativa caindo numa coisa que é tão material. todos esses dispositivos materiais. captando. cessível. É um grande deboche. é uma novidade. esse estigma. e tudo mais. que é uma situ- seletora automática: a senha ação. Depois de outras mento em que alguma coisa se transforma em um bem senhas. na maioria dos casos. É um na bolsa. um bem que tem um mecanismo de funcionamento. Outra é o mo- inicial. e você tem medo de de novas chaves. Por isso. que se multi- não ser mais aquilo. teção da sua identidade. e ninguém manda você tirar! É o filtro para e diz: vamos discutir isso? Isso. em da circulação financeira. Saindo de circu. Se o lixo foi. dendo que é resistência. porque o lixo sempre foi um bem). a gente dis- podemos pensar numa sequência cutindo a ideia de uma sociedade disciplinar que tem de ações que envolvam a visibi. outro confinamento identitário mesmo. está entrando borda. Para investir confinamento é para proteger a própria proteção. sociedade de controle. e o que seria uma lização da chave. outras coisas vão Dentro deste mundo financeiro... Porque você não concorda nem que a pessoa vá lá e cate o negócio. para a que envolva a discussão do gente. É um dispositivo arcaico para o capitalismo atual. Outra coisa é a questão de que esse outros mundos. Mas é interessante ver como o invisível. . Este é o controle fino. você se confinar no fluxo financeiro. por exemplo. Tudo o que não sejam números. Ali podemos movimentar. acesso. Mas. a entrar? Aquilo que o segurança gente não percebe. temos a porta essa coisa da margem. se você está dentro. já é complicado. para mim. que tem tudo a ver com caixa eletrônico. e as pessoas não percebem. que seria como uma vadir. Se a pessoa está lá catando dcfl lixo. eu queria falar algumas coisas que fui No mesmo caso dos bancos. porque exatamente tem a convivência. Seja no campo a gente tentou trabalhar com o plano imaterial e foi físico. que é um lugar. Agora. as ações de ruptura. o que. Esse é o controle bruto. ou recicle. de indeterminação. Como tornar visíveis essas Daniel − E é interessante porque o trabalho todo chaves (bruta e fina)? Acho que começou como uma coisa muito imaterial. é Madalena foi exatamente deixar os murinhos baixos. segurança apertando um botão de porque você não tem desejo de entrar. Uma coisa que achei muito legal é a do ins- quando estamos diante de um taurador de marginalidade. ou pegue.

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Maurinete − A frase mais impac-
tante que eu achei foi a daquela
senhora quando nos viu, que disse
assim: “Nossa, eu me acho um
lixo.”
Brait − “Eu me achei um lixo.”
Maurinete − “Eu me sinto um lixo.”
É essa reflexão de, em algum mo-
mento, o que representa aquilo.
Acho que é um olhar descon-
fortável. É a mesma coisa que a
gente dizia do quarto de empre-
gada, que é a mesma coisa que
uma senzala. Então, quando você
vê outra pessoa no lixo, é esse in-
cômodo que ela sente: ela se revê.
E revê mais do que a própria lixeira.
E é gozado, vai para outra dimen-
são, de se sentir um lixo. Aquela
frase dela ficou remoendo muito.
Joana − Me lembrou aquele tra-
balho do GAC, em que eles colo-
cam a cerca em volta do corpo,
fazem tipo uma cerca, supertosca,
só que de papelão, uma coisa meio
de deboche: “Ah, são cercas par-
ticulares?” Só que eu gosto mais
desse trabalho de vocês, porque
Imag ens retiradas do vídeo criad o pe la Frente 3 de Feve reiro http://yo utu.be/dGzHwCgpMCc

ele se apropria de uma dimensão
material da cidade, que está na
cidade, vocês não estão inven-
tando o negócio. Como assim o lixo
pode ser privatizado dessa forma?
Will − Quanto à privatização, isso
só aparece quando se começa a
entender que lixo reciclável dá um
certo dinheiro, é só a partir disso.
Antes, a gente não via isso. A gente
sabia da preocupação de se colo-
car lixo na rua, vir a chuva e levar
para o bueiro... Mas quando a
gente começa a ver que certas
coisas que estão lá valem um certo
dinheiro, então, a partir daí, sim,
começa a haver essa preocu-
pação: opa, se é dinheiro, vamos

3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:53 AM Page 17

“Integrar as pessoas da cidade
coíbe a violência”, diz arquiteto
tomar um pouco mais de cuidado.

Evandro Spinelli, 04.06.2012
Daniel − Quando a gente evidencia esse dispositivo, já
é uma transformação do dispositivo, uma dimensão do
José Armênio de Brito Cruz, 52, as-
olhar para esse dispositivo e, portanto, uma expansão
sumiu no começo deste ano a
das ligações que podem ser feitas. Mas eu acho que
presidência do departamento pau-
um elemento que foi se configurando à medida que a
lista do IAB (Instituto dos Arquitetos
gente foi fazendo as experiências de ação foi o fato de
do Brasil) com uma festa em pleno
não ter a figura isolada de uma pessoa dentro da lixeira,
centro de São Paulo e a meta de
de ser sempre mais de uma pessoa, pois a gente sem-
mostrar à sociedade que os arquite-
pre se colocou em bando dentro da lixeira. Eu acho que
tos conhecem as técnicas para cons-
isso tem uma ideia de convivência, mesmo que seja

truir uma cidade melhor.
dentro desse espaço. Mantém uma ideia de que existe

Ele diz que a segregação dos con-
um corpo coletivo.

domínios fechados é uma das cau-
Joana − Tipo “vocês não vão tirar isso da gente”.

sadoras da violência e afirma que é Maurinete − Para mim, volta aquela questão da con-
preciso que as regiões da cidade
vivência. É disso que se tem medo, da praça, da aglo-
sejam ocupadas por pessoas de
meração. Isso é uma coisa muito efetiva, a rua acabou,
todas as classes sociais. [...]
você não dialoga com a rua, você anda na rua correndo.

Também houve um tempo em que
Se alguém pergunta as horas, você responde e sai cor-

condomínios fechados eram moda,
rendo, você não dialoga, não olha para o outro, o outro

e agora há uma discussão de que
é uma pessoa perigosa. Uma coisa que me chamou

isso deve voltar a se integrar à so-
atenção, e aí já é uma função minha de socióloga, foi o

ciedade.
lugar em que a gente foi fazer a intervenção, o Largo de
Santa Cecília. A primeira coisa que você vê é a igreja
Essas afirmações que você diz, da de Santa Cecília. E é gozado, porque o pátio da igreja
moda, vamos entender isso enquanto é o que tinha de mais coletivo, o pátio era uma praça,
afirmações de direções. O con- mas hoje está todo cercado. Cortou-se o que a igreja
domínio fechado é uma privatização representava. Mas repare que em Aparecida ainda tem
do espaço. Aqui, só entra quem é
aquele pátio. Você corta as coisas mínimas e ninguém
dono. Isso, para a cidade, não é
vê. Era o lugar do perdão, o lugar a que eu tinha direito,
bom, porque a partir do momento em
entendeu? É nesse sentido que a cidade vai sendo toda
que você diz que aqui só entra quem
modificada.
é dono você está dizendo que mi- Joana − Tem uma questão que, para mim, ainda não
lhões de pessoas estão ficando fora. está muito clara, que é esse esgotamento da política de
Talvez, esse milhão de pessoas não representação. A gente descobriu toda uma forma de
fique muito contente de ficar fora embate simbólico, percebeu que o embate simbólico ins-
daquele espaço. Existem teses na creve a realidade de fato. E isso foi superapropriado,
USP que já evidenciaram que, ao mas, hoje em dia, a gente está tentando entender ou-
mesmo tempo em que cresceram os tras formas de embate, que não abrem mão da dimen-
condomínios fechados, a violência são simbólica, dessa dimensão imaterial, óbvio, que é o
também cresceu. A segregação, tec- que a gente sabe fazer, mas o que vocês estão falando
nicamente, é um elemento que au- aqui é da coisa material. Do mesmo jeito a gente do
menta a violência. Seja a segregação Contrafilé; parece que há uma urgência, uma necessi-
do rico no condomínio fechado, seja dade, então construímos um parque. Tem uma imagem,
a reprodução disso nas camadas tem um símbolo ali que circula, tem uma dimensão sim-
mais pobres, a integração é contra a bólica que circula, mas é um negócio gigantesco, então

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violência. Essa exposição, essa dis-
posição em qualificar a cidade, na
a gente criou uma dimensão material. E por que isso?

verdade, é a disposição de ver que
Por que será que a gente está indo para esse lugar

nós somos uma sociedade que tem
agora, de uma dimensão supermaterial?

diferenças. Diferenças econômicas,
Brait − Acho que existe uma pressão, de você ter que

diferenças culturais, mas que pode
criar uma representação estética. Você está sendo con-

conviver. [...] Tem aquele caso do
vocado a fazer um trabalho de intervenção urbana,

Pinheirinho, que chegou na Justiça,
então o que você vai fazer com a cidade? E o nosso tra-

se a arquitetura tivesse entrado em
balho, apesar de material, foi superefêmero, comparado

pauta o projeto mostraria que é
ao grupo que fez um monte de camisetas. Você precisa

viável, sim, a comunidade que estava
chegar numa forma, acho que isso pressiona um pouco,

lá permanecer lá, e aquilo ser um
você ter que chegar numa materialidade. Se não, a

pedaço de cidade saudável, inclusive
gente só ficava discutindo, discutindo, discutindo, e en-

com exploração imobiliária, com a
tregava um texto, não precisava nem fazer intervenção.

população de lá, e efetivamente vi-
Daniel − Desse ponto de vista, é muito mais a defesa
rando cidade, como qualquer cidade
de uma estratégia do que propriamente uma pressão. É
do mundo que não segrega. A atitude
a gente incorporando uma estratégia que sempre foi

que nós não achamos saudável é
uma estratégia nossa. Acho que essa foi uma das li-

aquilo virar um espaço segregado,
nhas que nos diferenciou nessa situação em que todos

de uso unicamente para um setor. A
os coletivos estão colocados, esse projeto é muito reve-

cidade é mais saudável quanto mais
lador disso. Acho que existe um esgotamento dessa

misturada ela está, seja do ponto de
política de representação do embate com a cidade,

vista de classe social, seja do ponto
com a sociedade hegemônica, com todas as forças do

de vista de uso, seja do ponto de
capitalismo. A gente aprendeu muita coisa sobre como

vista cultural. Isso é o que a gente
fazer isso durante dez anos, todos os grupos aqui cria-

defende. Quando a arquitetura entra
ram importantes trabalhos sobre essas dinâmicas, só

em pauta, no projeto você vê: olha,
que isso vai se esgotando. Entram outras forças em

dá pra conviver. [...]
jogo, como a publicidade, que se apropria muito dessas
imagens, da imagem do ativista, daquele que sai, como
O que o sr. está dizendo é que lei a gente fazia, colando cartazes. Hoje em dia, a propa-
deve prever a possibilidade de con- ganda de jeans faz isso. A gente sabe que tem um es-
domínios fechados, mas deve in- gotamento, mas para que lado a gente pode ir? Cada
duzir outro tipo de política de grupo tenta escolher um caminho que seja revelador,
desenvolvimento? que dê uma profundidade, uma luz no final do túnel, um

É. Deve induzir um território inte-
horizonte, e pra gente sempre foi a pesquisa, o que tam-

grado. Daí nós vamos chegar em
bém é semelhante ao Contrafilé. Diferente de outros gru-

qualificação do espaço público e po-
pos, a gente sempre teve uma ideia de que tem que

tencialização da infraestrutura exis-
pesquisar. Nosso processo de ação tem que ser colado

tente.
com a ideia de reflexão, retroalimentando-se. E tem que
ir sistematizando essa pesquisa, por isso a insistência
Isso tudo é investimento público pri- em produzir documentário, em produzir livro, em pro-
oritariamente. duzir uma obra que tenha um entendimento, em vez de

Pode ser feito em conjunto com a ini-
apontar para o nonsense completo. Ela tem um en-

ciativa privada. É investimento da
tendimento e nunca se basta como obra estética, pos-

sociedade. O governo investe muito
sui outros elementos com os quais você pode ir

na cidade, muito, mas a questão é
cercando um tema, criando um contexto. Neste sentido,

saber como investir. É a questão que
nesse trabalho a gente fez o bê-á-bá do que a gente
sabe fazer, que é iniciar um tema de pesquisa, cercar o

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Foto: Pe etssa
F oto: Marcos Villa s B oas

faz parte ir de forma mais simbólica. o que gera subnormalidade. porque os pon- em lei. em que se tem o que fazer dentro desse espaço. Nossa plo.Felipe − Mas eu acho que esse movimento também mento rico dessa discussão? tem a ver com o contexto mais amplo. era esse. de milhões de agora a gente tenta fazer a sistematização disso e colo- pessoas. Nós somos egres- política havia acabado. até ir percebendo. Então. girando. E o mundo está de olho nas cidades. Acho de uma cultura urbana. que ninguém se pergunta se é legal. que estava nos atraindo. E habitacional enorme. países de ter- ceiro mundo. e o Brasil minha geração muita gente veio de faz parte disso. países emergentes. E o pano de fundo é a inte- são aberrações. Tinham vários dispositivos é fundamental na democracia. Não é uma cidade democrática.shtml Fotos: Frente 3 de Fevereiro. é um espaço totalmente fechado a que você só pode assim como ir ao cinema.. você que a gente tinha escolhido. cidade-coibe-a-violencia-diz-arquitet Pedro Guimarães e Will Robson. Participação: Antonio Brasiliano. Felipe Brait. car dentro do livro. A gente sai. Eu enxergo Acho que a gente está mudando. Isso está previsto Maurinete − Olha..com http://www1. pautar essa discussão.com. não é uma cidade para todos. de investigação. e a questão dessa divisão do território para nós..uol.com. fora. a gente está amadurecendo a cultura urbana no Brasil. Joana Zatz (Contrafilé) e Élida Lima o. a informação estar trans- parente..br/cotidi- Frente 3 de Fevereiro. Não e faz parte dessa cultura urbana. que. A questão da mente puxando a gente. O fato de ela comprar uma calçada onde o quartinho fechado. Até que fomos chegando em uma ação que é habitação.folha. São coisas que a cidade tem que na rua. [. Qualificação do espaço público. Porque o mundo está se ur- banizando. Acho que é um momento rico nesse sentido. que o dispositivo que estava gravitacional- facilmente possível. isso vem mudando nos últimos anos. essa política mais institucional. isso faz parte que a década de 1990 foi uma década em que a da cultura urbana. sempre me incomodaram. Por exem- E essa moradia é a cidade. mas na Latina. a Constituição prevê que o Es- tos que a gente levantou são os pontos que. que envolve o corpo e tudo o mais. do campo. Eu nasci aqui. não é só o nosso da Daslu. em termos tado deve prover moradia às pessoas. na Quando a gente fala da sedimentação última década ela vem readquirindo espaço. para mim foi simples. Élida Lima. está pedestre não chega.] se serve. nesta investigação-ação.] www. ir girando. organizada.3fev naborda 06:Layout 1 11/20/12 11:53 AM Page 20 estamos discutindo. gração disso tudo. porque as pessoas têm direito à cidade. [. Peetssa e Marcos Villas Boas . a comunidade estar no trabalho dos coletivos. O sr. o que gera favela. se a política de representação se desgastou. Nós temos um deficit muito material. no tema poder andar para onde quiser o mais de acesso. um dos primeiros momentos pra gente foi a questão casa é a cidade.br frente3defevereiro@yahoogroups. ela é fundamental. Acho que isso se reflete discutir a cidade. do interior. A partir do mo- mento em que nós viramos um país urbano. Particularmente na América sos do campo. como aquele refrão. A gente essas questões mais materiais voltam num horizonte está construindo essa cultura urbana.. é formada ano/1099762-integrar-as-pessoas-da- por Daniel Lima. Maurinete Lima. Mobilidade na cidade tema.frente3defevereiro. Felipe Teixeira. acha que nós estamos num mo..

d em os. n co a r ós p m e. 13. n o c ê c end Vo cê v Vo . SONHO MEU CRECI.171 IMÓVEIS ligue já! 11 5302 1393 o s. v en ram ó s mp .

.

.

podem ser utilizados duas árvores. uma árvore e um poste ou dois outros objetos que possam servir como suporte para a fixação da rede. 5. ATENÇÃO: recomenda-se que na parte central a rede fique a um metro do chão para que possa ceder com o seu peso. DICA: Desfrute seu momento de descanso e na hora da partida deixe tudo aquilo que puder para que outra pessoa também possa descansar. nós compramos. 2. Amarre uma corda ao suporte de fixação para que possa funcionar como o gancho da rede.70 m de altura. 1. Teste a rede antes de repousar o corpo. 6. 3. Convide seus amigos e leve livros. 13. nós vendemos.171 DESCANSE ONDE QUISER! Um passo a passo para o seu conforto urbano. A rede com a corda deve ter pelo menos 50 cm a mais que o espaço escolhido. Caso não encontre. Caso não seja alto o suficiente leve um banquinho. 4. óculos. Amarre a rede pelo menos a 1. Encontre dois postes que tenham distância de dois metros e meio. IMÓVEIS você vende. bebidas e guarda-sol se necessário. 11 5302 1393 CRECI. SONHO MEU você compra. jornais. serviços gratuitos SONHO MEU IMÓVEIS 11 5302 1393 .

3. Confira suas propriedades.2 m de altura. Monte sua imagem colando as emendas com cola branca. 9. Com o rolinho de espuma passe a mistura de cola nas superfícies onde quer colar a foto e também no verso da imagem. IMÓVEIS você vende. Faça uma placa e coloque todas as informações da venda e vista-a. Coloque a foto em seu computador. nós compramos. Faça a impressão a laser. O arquivo deve ter no máximo 1MB. Escolha o melhor lugar para colocar-se à venda.blockposter. Obs. Sugestão: aproveite muros. Acesse www. 2. 13. Depois de pronto fotografe-se. DICA: pense nas roupas. Caso não tenha alguém para fotografá-lo programe sua câmera para disparo em 10 segundos e posicione-a a 2. postes. 11. 13. SONHO MEU você compra.171 VENDA SEU CORPO! 13 passos para mudar a sua vida! 1.5 m de distância de você. 11 5302 1393 CRECI. aproximadamente a 1.com e faça o upload de sua imagem. retirando bolhas de ar e fixando-a melhor. nós vendemos. O programa irá gerar um arquivo em PDF.: você pode escolher PB ou colorida. 7. Em seguida passe o rolinho novamente na imagem em movimento de dentro para fora. 5. facilmente acessadas com o botão direito do mouse.60 m precisa de aproximadamente 6 folhas de altura por 4 folhas de largura). vitrines e pontos de ônibus. Lembre-se que o papel A4 tem 21x29 cm e calcule o seu tamanho dividido pelos papéis para descobrir quantas páginas serão necessárias (uma pessoa de 1. cabelo e expressões faciais. 4. Coloque sua imagem no sistema RGB. Deixe secar. Faça a mistura de cola branca com água. Caso a imagem exceda este tamanho. 8. Transforme-se em uma imagem vendável. colocando os dois produtos na mesma medida. serviços gratuitos SONHO MEU IMÓVEIS 11 5302 1393 . Faça o teste e ajuste a distância se necessário. 12. 6. Posicione sua fotografia e cole-a na superfície. 10. busque um editor de imagem de sua preferência. Superfícies lisas possuem melhor aderência. Você poderá escolher o tamanho que quiser.

nós compramos.171 . IMÓVEIS você vende.171 SONHO MEU você compra. nós vendemos. IMÓVEIS você vende.SONHO MEU você compra. nós compramos. 11 5302 1393 CRECI. 13. 11 5302 1393 CRECI. 13. nós vendemos.

11 5302 1393 CRECI. IMÓVEIS você vende. 13.171 .SONHO MEU você compra. nós compramos. nós vendemos.

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nos dispomos a construir cemitérios de concreto armado. Constant. qualquer que seja a sua importância.de sf (lat civitate) 1 Povoação de primeira categoria em um país. nas quais por norma legal a área coberta de edifícios não pode ultrapassar determinada e pequena porcentagem da área total. 3 / dezembro 1959) “Nosso campo de ação é portanto a rede urbana. Comunidade residencial planejada ou zona residencial planejada de uma cidade. se falta imaginação” (Outra cidade para outra vida. ficavam elas a salvo da perseguição dos vingadores e podiam ser julgadas por representantes autorizados da sociedade. expressão natural da criatividade coletiva. Internacional Situacionista n. sendo a área restante reservada para parques e jardins.cidade ci. “Diante da necessidade de construir rapidamente cidades inteiras. capaz de compreender as forças criadoras que se libertam com o declínio de uma cultura baseada no individualismo. Internacional Situacionista n.” (Outra cidade para outra vida. no Brasil. se nada acrescentam ao ócio. Área urbana especialmente reservada para asilar pessoas que cometeram delitos involuntários. Constant. em que grande parte da população está condenada a morrer de tédio. se faltam condições para tirar proveito deles. Bem.da. toda sede de município. para que servem os inventos técnicos mais assombrosos que o mundo tem à sua disposição. 3 / dezembro 1959) .

A. O que é a Cidade. Isto provoca a extensão cada vez maior da cidade. equipamentos ou grandes obras na região ou nas vizinhanças.especulação imobiliária: fenômeno pelo qual “alguns terrenos vazios e algumas localizações são retidos pelos proprietários. São Paulo: BRASILIENSE S. na expectativa de valorizações futuras. ROLNIK.”. gerando os chamados ‘vazios urbanos’. objeto de especulação. . que se dão através da captura do investimento em infraestrutura. terrenos de engorda. Raquel.

público
adj. Que se refere ao povo em
geral: interesse público.
Relativo ao governo de um
país: negócios públicos.
Manifesto, conhecido por
todos: rumor público.
A que todas as pessoas podem
comparecer: reunião pública.
Sinônimo de público:
apregoado, auditório, comum,
manifesto, notório, povo e
sabido.

privada
pri.va.da
sf (fem de privado) latrina.

privado
pri.va.do
adj (part de privar) 1 Que  se privou; desprovido, falto. 2 O que não
é público ou não tem caráter público; particular, pessoal. 3 Interior,
íntimo. Antôn (acepção 2): público. sm 1 Confidente. 2 Favorito,
valido. 3 Áulico.

posse
pos.se
ição de uma coisa ou
sf (lat posse) 1 Retenção ou fru
frui uma coisa, ou a
de um direito. 2 Estado de quem
direito de possuir a
tem em seu poder. 3 Dir Ação ou
título de propriedade.

Gentrificação/revitalização:
“Gentrificação tem origem na palavra inglesa gentry (pequena nobreza, elite)
e se refere diretamente ao processo de substituição da população mais pobre
pela de mais alta renda em determinadas regiões da cidade.” Fórum Centro
Vivo, Dossiê de Denúncia: Violações dos Direitos Humanos no Centro de
São Paulo, 2006.

propriedade
pro.pri.e.da.de
sf (lat proprietate) 1 Qualidade de
próprio. 2 Aquilo que  é próprio de alguma coisa;
o que a distingue particularmente de outra do
mesmo gênero. 

6 Domínio exclusivo,
mas não ilimitado, sobre uma coisa, com direito
de usá-la ou consumi-la, mas não de abusar
dela. 7 O direito pelo qual uma coisa pertence a
alguém; posse legal de alguma coisa. 8 A coisa
possuída; a coisa cuja posse pertence por direito
a alguém.

idas
liz aç ão q u e to ma todas as med
revita
um processo de s da região cen
tral para
[...] estamos em o s m ai s p o b re a
necessárias par
a expulsar
d as cl as se s m édia e alta, com
to
a para o usufru obiliários.
poder valorizá-l sc o s em p reendimentos im
ig an te
construção de g

.de que formas a gente pode ocupar . . . nem só público. a cidade? .vender o mapa para ser uma favela. plaquinha boa. ou não. .14. o que vai dar conta? .aumenta a opção.apagar tudo o que é privado no mapa e deixar o que é público.malinha que abre.saber os desejos das pessoas.como seria o kit? . mas nem sempre é colocada como possível na proposta...frases com sutis ironias.bolar um questionário bom para o dia. .deixar mapa em branco para a.eu não sei na verdade. áreas para alugar bikes.kit pode existir ou não....a abertura do grupo à participação é importante na trajetória do grupo.demarca no mapa.mapa de alguma região da cidade. leque. Suas ideias para o local. ..itaquerão. . . .como delimitar ou não a participação? .. . quanto tempo quer usá-lo. .. Nesses lugares que ofereceremos já podemos dar algumas ideias para seu uso/fim.. etc.pinheirinho. venda e ocupação. . crítico mas bem humorado. por exemplo: loteamento do minhocão para domingo. . .o vazio mais amplo. e quais outros espaços gostaria de alugar ou comprar.o questionário e o mapa.reunião .lote. .mapa de prédios vazios no centro.como vai se dar a abertura/convite/direcionamento para a participação das pessoas? . . .ATA proposta: “uma mesa com dois corretores devidamente trajados.profissionalizar a sonho meu imóveis. . .usar a estrutura da kombi. alguns lugares improváveis para locação. . . como. nem só privado. ..questionário. .. .2012 . . .vários lugares.o que vc quer? . para fazer o stand. . mesinha boa.não contar que a imobiliária é de mentirinha.ficha de loteamento do que a imobiliária vai vender.” Encontro público: (brainstorming) .um kit mais simples.desejo de ocupar. espaços para piquenique familiar. ou talvez ele caiba.qualquer espaço público pode ser privatizado.. Um questionário que tenha o contato do possível comprador ou locatário.coletar umas imagens. .acho legal ter foto.03. espaços para churrasquinhos de gato.

. . .. “minerva cuevas”.o delírio é dentro da tua cabeça. . .intervenção física na rua..ideias de ocupação absurda..qual forma de atuar baseado neste retorno que o público deu. ..montar um questionário bom.esta área é minha. . camelô.como se valoriza uma coisa? .? .nada se perde! . . .qual estratégia a gente cria para que as pessoas.opção impressa limita tanto quanto o mapa..ensinar a fazer trambiques. . lugar comercial.. ...onde atuar. encontro público..deixar muito livre limita mais? .você não tem o que você quer aqui? então anota..as propostas de kit são importantes.. . . z...delimitar uma área? . .x.qual região? .“faça uma fila.é uma imobiliária. .... .sugestões de uso..definir neste dia.dar algumas opções.pinheirinho e itaquerão estão em voga..” .o público se vê como participante. .. não região. .restringir uma área de trabalho. vamos atuar a partir da necessidade do cliente.vamos vender o ricardo teixeira? ..ir em uma imobiliária. .... y.e a árvore? e o poste? .“o preço quem dá é você” . . de que forma. catálogo de possibilidades. nesta região. alugar um espaço para um piquenique. .coisas. imóvel deste tipo.. eu comprei.eu quero uma casa na árvore. a gente vai decidir depois do encontro público.300 questionários prontos. . ..

edificar. . dispor. escrevendo um novo texto.tru. é a regra fundamental de toda a relação social. fabricar: “Construiu uma casa para o gato angorá” (Jorge Amado) 2 Fazer construções: Cada qual poderá construir como quiser. Troca: A troca. remover o que está construído.ir (lat construere) vtd 1 Dar estrutura a. apagar. vtd 3 Arquitetar.] a cada intervenção no espaço das cidades.construir cons. entendida como movimento de intenção recíproca entre duas partes ou então cedência de um serviço ou de uma coisa como contrapartida de uma outra. desconstruir Ato de desfazer o que está construído. organizar 1. seus habitantes vão lhe conferindo um novo significado. desagregar.. [. desmontar..

171 pseudoempreendimento imobiliário que visa problematizar os processos de privatização do espaço público. SONHO MEU você compra. plataforma de cartografia das especulações imaginárias dos diversos modos possíveis de ocupar e reinventar os espaços das cidades. vazios urbanos. relações interpessoais. espaços construídos. A cidade está à venda. modos de vida. IMÓVEIS você vende. 13. agência poético-política de mapeamento dos desejos urbanos dos cidadãos. nós vendemos. 11 5302 1393 CRECI. espaços imaginários etc. nós compramos” Cidade limpa. nós compramos. cidade cinza. cidade linda. Quem pagar mais leva tudo!!! Aproveitando este boom imobiliário lançamos a SONHO MEU IMÓVEIS: “Você compra. de supervalorização especulativa de determinadas regiões urbanas e de expulsão sistemática de contingentes populacionais das áreas centrais. . Você vende. situação lúdica construída com o objetivo de estabelecer coletivamente um espaço de jogo entre os habitantes da cidade a partir da negociação de desejos. nós vendemos.

seguida por uma recusa no reconhecimento do destino ou paradeiro. bijaRi_NA_BORDA_AF. Homo Sacer (“o homem sagrado” ou “o homem amaldiçoado) é uma figura do Direito roma- no. mas não pode ser sacrificada em ritual religioso. parapolítica ou paramilitar com autorização. apoio ou consentimento do Estado. O DESAPARECIDO Desaparecido é uma pessoa que secretamente (ou não) é abduzida ou presa pelo Estado ou organização política. uma pessoa que é banida da sociedade..indd 1 18/10/12 17:49 . tem revogados seus direitos como cidadão e pode ser morta por qualquer um com impunidade. com a intenção de remover a vítima da proteção da lei.

indd 2 18/10/12 17:49 .bijaRi_NA_BORDA_AF.

Pressa paralisada.indd 3 18/10/12 17:49 . estava ele lá. A redemocratização procurou acabar com os porões da ditadura. DENÚNCIA . na Rua João Moura. como mais centenas à solta pela cidade. O desaparecimento de presos políticos é uma prática que imaginávamos abandonada em um passado remoto do nosso país. Estacionado junto ao ligustro. bijaRi_NA_BORDA_AF. Em meio às ladeiras de Pinheiros. o carro-escultura amplificava o espaço público da rua “convidando” os pedestres a se juntar ao redor de sua minifloresta. chuva e indignação pela tortura do dia a dia. típica do verão paulistano. para a rádio Sul-América Paranoia. de brutal violência nos países do Cone Sul. Estava estacionado em frente à Galeria Choque Cultural desde o dia 10 de fevereiro. mas ainda existem elementos saudosos desse período e dessas práticas… NORMALIDADE Uma manhã quente e úmida. entre o vaivém apressado da ida ao trabalho em meio ao calor abafado. uma minipraça mó- vel sobre o asfalto a piratear o espaço quente da via. A rádio. que imediatamente envia sua tropa de especialistas em remoção de veículos abandonados. Na manhã de 22 de março. repassa a denúncia para a militarizada subprefeitura de Pinheiros. Cidade em congestão. A exposição era comentário poético sobre a dinâmica das tensões políticas no espaço urbano e sobre as formas de poder que se organizam de modo a criar uma ideia de “ordem”. sempre prestativa em turbinar a neurose rodoviária entre os mora- dores da cidade. O sequestro e a prisão arbitrários realizados pelo Estado por meio das Forças Armadas ou da força policial foram uma prática recorrente das ditaduras militares nos anos 1960/1970. como obra integrante da exposição Estado do Sítio do BijaRi – o projeto investigava os “estados de sítio” não declarados que permeiam a vida cotidiana desde a dimensão coletiva até aquela da privacidade humana. plantado. sem saber que um plano sinistro estava em andamento. um cidadão faz a denúncia anônima de uma carcaça de veícu- lo abandonada na rua.

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SEQUESTRO E PRISÃO

11:30 Baixo Ribeiro (um dos proprietários da Galeria Choque Cultural) liga para o BijaRi
e avisa que os fiscais da prefeitura estão lá e deram três horas para a remoção da obra.
Combinamos com ele, então, de chamarmos um guincho para remover o carro e trazer
para o nosso estúdio. O que foi combinado seria que o guincho estaria no local por volta
das 13 horas para a remoção.

12:00 Nova ligação da Choque Cultural. A equipe de remoção chega ao local e inicia o
processo de retirada da obra, passando por cima do acordo prévio. O processo é foto-
grafado pela equipe da galeria.

12:15 Chegamos de bicicleta na Choque, mas o carro já havia sido removido. Voltamos
para o BijaRi e saímos de moto atrás do caminhão que levara nossa obra. Da moto,
tiramos fotos e seguimos o caminhão até o pátio da subprefeitura de Pinheiros.

12:40 Chegamos à subprefeitura de Pinheiros, onde se iniciam as tratativas com a buro-
cracia policial/estatal. Em conversa com um assessor de lá, conversamos sobre a ma-
téria da revista Veja São Paulo sobre carcaças abandonadas (matéria que mencionava
a intervenção verde do Grupo).

A BATALHA

Enquanto isso, no front físico, a batalha continua...

Na segunda-feira (26) pela manhã, foi agendada uma reunião com o coronel reformado
da Polícia Militar e atual subprefeito de Pinheiros, Sérgio Teixeira Alves. Nessa reunião,
foi apresentado o conceito e o histórico do projeto Natureza Urbana em suas diferentes
configurações e suportes (caçambas, outdoors, ônibus etc.) com registro fotográfico das
exposições e projetos (Annenviertel em Graz, Bienal de Arquitetura de São Paulo, Vira-
da Cultural, Zona de Poesia Árida, SWU, entre outros).

O subprefeito percebeu o erro, mas não quis admiti-lo. Transformou a multa de aban-
dono de carcaça de veículo em abandono de entulho em via pública, diminuindo o valor
do resgate para R$ 500,00 (quinhentos reais) mais diárias de pátio.

O procedimento para a liberação da instalação entrou em um labirinto burocrático de
formulários, protocolos e prazos inexistentes. Teoricamente, perdemos um prazo de
entrada do processo de retirada do carro e fomos expropriados de nossa obra, não
podendo retirar o carro, só as plantas. A carcaça iria para leilão de carcaças para ferro-

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-velho.

Enfim, de modo oral, sem qualquer notificação ou documento, foi exigida uma multa, ou
melhor, um resgate de R$ 12.000,00 – valor da multa para abandono de carcaças de ve-
ículos em vias públicas – para a devolução do refém tomado pelas forças policiais. Tudo
isso sem notificação, multa ou qualquer tipo de documento com timbre da prefeitura ou
qualquer outro órgão oficial.
A partir desse momento, é iniciada a batalha pela libertação de nosso preso político...

De um lado, está a kafkiana burocracia estatal turbinada pela infiltração militar de sua
cúpula. De outro, os artistas e a batalha midiática que passa a ser travada com ampla
cobertura dos meios de comunicação.

Em breve, o absurdo se espalha pelas redes sociais, expandindo para mídias de massa
e atravessando fronteiras.

Insólito... A notícia do sequestro do carro chega à China!

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A CIDADE NÃO PODE PARAR

Sem motor e ocupado por plantas, o “Carro-Verde” – uma carcaça destituída de sua
função original propulsora e símbolo de status e diferenciação social (um não carro)
– é uma escultura móvel que faz parte do projeto de intervenções urbanas chamado
Natureza Urbana.

Sua apreensão é paradigmática das formas de produção e controle do espaço urbano
de uma metrópole de 7 milhões de máquinas motorizadas cuja dinâmica molda a ci-
dade desde os anos 1950, quando foi cortada pelo Plano de Avenidas e seguiu sucessi-
vamente atualizada por planos de extensão viária como o “Plano das Marginais” (projeto
recente de alargamento das vias marginais que incluiu a derrubada de mil árvores em
idade adulta).

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com- petição e consumo substituem outros. o consumo e a ganância desmedida e irresponsável mostram sua face perversa. ocupa uma vaga que poderia ser ocupada por outros carros) deve ser extirpado. obstruindo a performance olímpica de nossa metrópole-luz. A ação intempestiva da prefeitura revela a ótica a partir da qual tudo que não se move e que não gera fluxo/lucro (no caso específico. sociais e políticas que moldam a cidade – configurada como um conglo- merado de interesses exclusivos e corporativos –. bijaRi_NA_BORDA_AF. Em um sistema que cada vez mais desnivela e segrega estratos sociais e culturais. A cidade não pode parar! O carro-planta afronta essa dinâmica ao propor um relaxa- mento desse sistema e neutralizar uma vaga – uma parcela de solo urbano na zona mais rica de São Paulo –. atingindo a sociedade como um todo.indd 8 18/10/12 17:49 . onde conceitos como oferta. cidadania e ecologia. A obra de arte transcende sua intenção estética e entra em choque com as dinâmicas econômicas. liberdade. como democracia.

A ARTE NÃO PODE PARAR bijaRi_NA_BORDA_AF.indd 9 18/10/12 17:49 .

toda política é espacial e cabe aos habitantes e movimentos sociais o dever de reformatar as estruturas de poder com respeito à produção do espaço nas cidades.indd 10 18/10/12 17:49 . Como o filósofo Henri Lefebvre apontava. bijaRi_NA_BORDA_AF.

O.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 2 C.I.A.B.A. A inserção da dúvida no espaço público .

mas talvez porque tais estratégias já foram integradas ao discurso institucional ou de corporações. . Hoje o próprio termo (mídia tática) já não é sequer utilizado. como havia no período em que os coletivos se juntaram em torno do Prestes Maia: 468 famílias sendo despejadas. Trabalhamos com a informação. como havia nos projetos que passaram a fazer uso das mídias de forma tática. o nerd. para um fim comum. evitar que ela nos seja imposta unilateralmente. o artista. percebemos as tensões à nossa volta. De fato. ou em torno de um ativismo anarco-artístico em questionamento ao estabelecido nos sistemas da arte. Passou a ser necessário entender os domínios da informação. o comunicador. sejamos as mídias: uma mistura do libelo punk DIY que passa a incorporar o programador. de se fazer um trabalho que acontece na esfera das mídias.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 3 Uns dez anos se passaram desde que vários dos grupos do NA BORDA se encontraram em ações anteriores. O que nos motivou em 2003 ou 2004? O que nos motiva hoje? Sabemos que não estamos apáticos. Não há um conjunto de ações coesas e precisas. com as possibilidades de articulação entre o espaço e seu contexto. da mídia e da vida urbana e pública. Mas sabemos que não há um embate com foco muito nítido. em uma empolgação percebida anos antes. da política. O COBAIA surgiu por essa via. desde então. um prédio simbolizando as contradições urbanas e acirramentos da especulação imobiliária. quando as estratégias da comunicação passaram a ser objeto de interesse comum. nem tanto devido ao seu desgaste. Usemos as mídias. não deixar que ela seja controlada. o articulador de meios de informação. a informação passou a ser mais nitidamente um campo de batalha.

No entanto. E a sobrevivência nos cobra fragmentação. adapta-se às rugosidades. revezamentos de atenção. o contexto muda. por consequência. desdobramentos. E. O cenário das mídias em São Paulo mudou em sua aparência e superfície pública – seriam necessárias novas estratégias. salto duplo de obstáculos. A visibilidade do problema requer vigília contínua. Se antes assumimos ser cobaias de uma condição. para um coletivo que atuou por algum tempo entre São Paulo. a intenção coletiva era diferente da individual: interviríamos nas mídias e. Onde tudo é descontínuo e quando imperam os percalços. Belo Horizonte. e as tensões ficam ali entranhadas. . as questões do espaço público estão também interligadas com as questões urbanas e suas materialidades. rearranjos.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 4 Desde o tempo do Formigueiro (grupo que antecede o COBAIA). no espaço. nos vemos pequenos – o que pode a arte diante de tudo isso? Passamos a incorporar também a ineficiência da comunicação em terrenos saturados. Belém e Buenos Aires.

coletivo. O que é intervenção e o que é informação? O que é necessário. à mercê do outro. agora assumiríamos o despreparo. havia também um plano de utilizarmos QR Codes ou mesmo técnicas simples de realidade aumentada para decifrá-las. Uma série de frases direcionadas para um espaço semipúblico. Aos poucos fomos compreendendo que frase “a inserção da dúvida no espaço público” nos ditou um caminho. Mas preferimos mantê-las em . que se traduziu numa frase: “a inserção da dúvida no espaço público”. as frases com palavras faltantes são uma espécie de charada. a desarticulação entre os membros (!). desarticulação. problema. a partir da unidade Consolação. sobrevivência. entendemos que não somos apenas nós. a pouca adesão apesar da coesão pressuposta. buraco. o que se desprendeu de forma clara nesse embate para a criação artística do coletivo foi o cerne da ação. No fim. As frases omitem palavras-chave que nos importam e nos representam: são aquilo que queremos ou aquilo que nos incomodam. despreparo. Seriam cerca de trinta frases. ao mesmo tempo que passou a refletir um despreparo geral frente a acontecimentos relevantes que nos rodeiam. situação. Essas e outras palavras: na tentativa de completar tais termos. em que as faltas eram presenças cortantes e reais. o que é desejado? O que são as falhas e os buracos? Enfim. espaço público. acirramento e dúvida afloraram. vida. compromisso. em direção aos arredores e espaços públicos de fato – com o uso de adesivos para serem aplicados em locais bastante específicos. mas todos estamos despreparados para a atual situação. Para serem vistas todos os dias pelos frequentadores do SESC.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 5 de estar a serviço do contexto. E o trabalho pensado para o NA BORDA acabou sendo a síntese disso. Do embate artístico travado pelo grupo. adesão. acirramento. Realidade social. de aprender com dada situação. tanto em longas discussões presenciais e pela rede. falta de tempo. questões como ineficiência. de grande circulação. quanto no próprio processo do trabalho.

a impossibilidade de fruição da vida. Nos anos 1990. como as projeções de Krzysztof Wodiczko que nos sugeriam entender o espaço público como uma associação entre . localmente. As falhas passam a ser incorporadas no processo. a condição de falta ou dúvida inserida nesse espaço semipúblico. as frases de Barbara Kruger ou de Jenny Holzer nos apontavam as estratégias “midiáticas” presentes no sistema da arte – ou para além deste. Pensamos em configurações de ações possíveis. De certa forma. Percorremos um caminho conhecido: desde as obras de Hans Haacke nos anos 1970. a imposição da disciplina). o norte original do COBAIA. preencha (ou não). que pudessem disparar mobilizações a princípio avulsas (!) em experiências individuais voltadas para o tempo presente (a prestação do mês. em dado espaço e contexto. se faz aqui ao deixar que o espectador do trabalho responda (ou não). A ação do COBAIA partiu da aversão a um tipo de empreendedorismo que despreza processos. assim como os ruídos. complete (ou não).cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 6 estado low-tech. percursos individuais e identidades locais. tem-se alguma consciência sobre a forma como o espaço público se molda sob influência dos meios de comunicação de massa. de se deixar ser “intervido” pelo outro no espaço público e urbano. as lacunas a serem preenchidas. em condição de leitura “desmediada”.

que encontraria paralelo no que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos chama de racionalidade cosmopolita. . mas que não depende dela. sofrer esse processo para que possa ser revertido em outra coisa. e hoje não há maiores dúvidas de que o entendimento de um espaço comum se faz por meio de uma mescla entre arquitetura e comunicação. Para percorrê-la. problemas crônicos envolvendo acirramentos. nos percebemos vítimas disso. assim. o contexto torna-se maleável. aferido por leitura semântica e semiótica. incorporando tanto as redes imateriais como as físicas. Lidamos assim com uma realidade urbana que tem algo de não linear. dessas mazelas cotidianas que nos tiram do prumo e afetam nossa capacidade de criação e engajamento em questões que importam. Aceitamos. Seguimos uma trilha em que o político se encontra em estado híbrido. despreparos. algo mais tangível.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 7 a arquitetura construída fisicamente e a informação a ela anexada. como efeito de determinadas estruturas urbanas constituídas a partir da comunicação e informação. em uma presença imaterial. Por meio do COBAIA. Percebemos essa camada invisível como uma superfície que esconde profundidades. Com o crescimento do chamado “espaço informacional”. próximo das preocupações reais das pessoas. angústias e embates reincidentes. Muitos outros se seguiram. e que se torna potente ao se aproximar da fisicalidade de espaços de circulação – e pensamos agora em como nos comunicar de forma simples numa rede de relações moldada pela tecnologia. são necessários procedimentos capazes de gerar uma inteligibilidade mútua entre experiências possíveis. sem destruir identidades.

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....... e ................ e encontrar caminhos de participação política....... .... na globalização.cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 12 Observo que por se tratar de ações complicadas........... pode culminar com a não priorização da própria vida.. e moldar o comportamento ao ajudar os membros a dar sentido a seus ambientes........ dessa realidade.... facilitar o . demoradas e que requer ... se reflete nas dificuldades de participação .. dos indivíduos em questionar as instituições estabelecidas.................... demonstrou despreparo e arrogância... que é utilizado quando se busca explicar as dificuldades que enfrenta para inserir-se socialmente e politicamente na .. O tomador de decisões terá que acostumar-se à .. já que uma pergunta dá a volta ao mundo em segundos...... de todos. Para algumas lideranças.. criar uma identidade ....... de escapar do determinismo da ....... que poderiam ter sido evitadas... Não foi a primeira vez que ......... são produtos e produtores da .. Ainda. A cultura .... promover a ...... as limitações dos indivíduos em assumir responsabilidades de decisão..... pela construção de um projeto .... e .............. e passam a ter consequências negativas a longo prazo........ da grande massa da população brasileira e sobre a necessidade da participação como forma de .... para refletir. ....... Evidenciam-se então as dificuldades. e também devem ser considerados em sua dimensão ..... tem quatro importantes funções......... Ao assumirem o ....... como o ...... e econômica é um grande instrumento de estratégia .................. Distanciar o indivíduo da sua ... essa ... apontam para o desenvolvimento da "consciência" sobre uma ... as empresas preferem ''pular'' essas ações muitas vezes por falta .... de exclusão ......... Mais ainda..

cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:24 PM Page 13 belo pessoal útil caras participação catarse comprometimento política arrogância despreparo globalização arremedo falta de tempo realidade arte coletivo guarda municipal atividade sucesso consequências reação fracasso social acirramento temor econômica confronto liberdade estratégia verdade lacunas organizacional blefe enigma pergunta falsário oculto estabilidade busca amizade compromisso resposta trabalho coletivo resgate transtorno realidade resto dualidade social honesto vida mudança rancor santo individual carrasco fatos particular mágoa morte sobrevive carma corpo escrúpulos ideia fotos corrupto conceito responsabilidade dúvida palavra medo público figura significados ponteiros mácula amor tempo mágica humor relógio manejo escravidão fluxo catástrofe memória enchente compromisso maremoto vendaval raras fundo arrastão limitações entenderem .

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cobaia 05:Layout 1 11/20/12 12:25 PM Page 21 Grupo C.B. Formação durante o projeto NA BORDA: Almir Almas.I.O.A.A. Lucas Bambozzi e Rogerio Borovik Colaboradores: Ana Rosa – debate e ações Marcos Vilas Boas – fotografias da exposição Luciana Tognon – apoio nas ações .

desarrollada sobre el territorio de la ciudad donde se produce el acontecimiento antagonista. implicado na realização da vida pública. Es la lógica del agenciamento. p. como a capacidade de tornar visíveis os agenciamentos3 que produzem e inscrevem “um olhar singular diante do mundo”. ayudando a los grupos a articularse a sí mismos de una forma abierta y horizontal. no ano 2000. São Paulo. 2. O que se torna visível é um acontecimento no qual as estratégias mi- cropolíticas de disputa física e simbólica do espaço social são materiali- zadas. 44): El acontecimiento muestra lo que una época tiene de intolerable. Joana Zatz Mussi e Rafael Leona. Este texto é parte da dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) por Joana Zatz Mussi em 2012. pero también hace emerger nuevas posibilidades de vida. Esa nueva dis- tribuición de los posibles y de los deseos abre a su vez un proceso de ex- perimentación y de creación. integrante do Contrafilé. traçando um território novo e frágil. una lógica que emplea la representación por su efectivi- dad material. ao mesmo tempo. En otras palabras. Se a sistematização dos processos é uma das formas importantes de produção de “imagens” nos trabalhos aqui apresentados. o Contrafilé é um grupo de investigação e produção de arte que trabalha a partir de sua experiência cotidiana. publicação apoiada pelo VAI (Valorização de Iniciativas Culturais). Brasil. ponto de partida e território de proliferação do seu trabalho”. 1. . Fábio Invamoto. Integram atualmente este grupo: Cibele Lucena. “Formado em São Paulo. o que é. 2007. Segundo o sociólogo e filósofo italiano Maurizio Lazzarato (2006. es una lógica construc- tiva de expresión múltiple (Brian Holmes). genera un desplazamiento hacia un tipo de lógica política nueva. In: A Rebelião das Crianças.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 2 NADA É MAIS IMPORTANTE DO QUE ESSA NUANÇA FUGIDIA1 Contrafilé2 Enunciação e Emancipação Este tipo de representación gratuita. é porque a “obra” é compreendida. em si.

8). a voz de pessoas convidadas para pensar juntas a partir de uma determinada “situação”. 13) fala em uma prática de expressão autônoma. 5): [. p. mistura de corpos reagindo uns sobre os outros. 2004. p. segundo um eixo vertical orientado. a voz de pessoas comuns. horizontal. A dificuldade na sistematização de processos para a criação desse tipo de imagem está justamente em encontrar formas de enunciação que consigam captar a fragilidade que compõe a produção dessa diferença.. agenciamento coletivo de enunciação. 6). Em outras palavras. no corpo. que o estabilizam. 2006. não apenas se evidencia o “antes” e o “depois” do acontecimento. 5. um dos elementos de linguagem que foi sendo construído por nós poderia ser designado como o ato de prontidão para corresponder a uma tradução sensível dos enunciados. ao contrário. 3. 2006. ou melhor. Enunciados que podem ser de vários tipos: a voz da grande mídia. a ação de um movimento social. Ao menosprezar a fragilidade. as próprias obras-interventivas dos coletivos. um agenciamento comporta dois segmentos. captá-la é parte fundamental para a constituição da resistência política aqui relatada. de atos e de enunciados. p. transformações incorpóreas atribuindo-se aos corpos. de outro. De um lado ele é agenciamento maquínico de corpos. ela passa a provocar um sentimento de humi- lhação e vergonha. que necessariamente decorre das experiências de vulnerabilidade ao outro e das turbulências desterritorializadoras (ROLNIK. de ações e de paixões. e pontas de desterritorialização que o impelem” (Deleuze e Guattari. cuja consequência é o bloqueio do processo vital.] esta fragilidade nos é essencial pois indica a crise de um certo dia- grama sensível. Mas. Para a criação dessas imagens da diferença nas quais a fragilidade aparece. que procura romper com o menosprezo da fragili- dade. um de conteúdo. Que podem também se dar em vários espaços: na cidade. p.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 3 A construção de imagens e narrativas críticas que transformam um processo propriamente em um acontecimento ocorre quando nessas se re- aliza uma síntese disjuntiva. no meio editorial etc. de seus modos de expressão e suas cartografias de sen- tido. .4 desdobrados como intervenções –5 o Colec- tivo Situaciones (2009a. De acordo com Deleuze e Guattari: “Segundo um primeiro eixo. No entanto. 1977 apud ZOURABICHVILI.. 2004. 4. 7). o agenciamento tem ao mesmo tempo lados territoriais ou reterritorializados. outro de expressão. a ideia ocidental de paraíso prometido corresponde a uma recusa da vida em sua natureza imanente de impulso de criação e diferenciação contínuas (ROLNIK. mas o instante de constituição de uma dife- rença que faz sentido (ZOURABICHVILI. esta deixa de convocar o desejo de criação. p.

PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 4 Portanto. e de suas mães como “agentes externos incitadores de rebeliões”. líamos: cri- anças. se tratava aquilo. entre 2004 e 2006. fazendo leituras críticas e coletivas de jornais. Ao invés de “ju- ventude encarcerada”.] Para tornar público o que descobrimos no encontro com o “cir- cuito das crianças criminalizadas”. pusemos em prática a 6. “internos”. morreram mais de 28 adolescentes que se encontravam sob a responsabilidade da FEBEM. o acontecimento se dá quando um enunciado adquire propria- mente caráter de enunciação. nos deparamos com a criminalização e o extermínio social de uma parcela enorme de crianças e jovens. o que nos levou a nomear este trabalho A rebelião das crianças. afinal. “internos”. é fazer constantemente esta operação de desnudamento dos fatos. 2007): Neste processo de encarnação dos conflitos. “ban- didos”. Por exemplo. nossa urgência. Um exemplo disso pode ser visto no trabalho A rebelião das crianças. Até que começamos a substituir palavras para ver o que acontecia. Passamos a acompanhar diariamente as notícias sobre a rebelião. [.6 O dado de realidade que nos convocou a olhar com atenção para isso foi uma grande rebelião que acon- teceu no início de 2005 na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM) – cárcere juvenil onde vivem cerca de seis mil crianças e adolescentes julgados como criminosos. A partir da imagem construída pela grande mídia e pelo Estado dos meninos da FEBEM como “marginais”. pudemos entender também que o que nos move. Trechos da publicação “A rebelião das crianças” (Contrafilé. o grupo quis entender do que. para isso sendo necessário um processo de confrontação simbólica.. segundo dados levantados pela AMAR – Associação de Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco. “menores”. desencadeando todo um processo de tradução e contratradução. .. Assim.

PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 5 Interpretação de enunciados e atenção à fragilização que causam: que perguntas levantam? Que desejos disparam? Primeiro desejo disparado: trocar a palavra “internos”. Segundo desejo disparado: conhecer essas crianças através de uma intervenção que evidencie a operação enunciativa realizada. Intervenção: produção de espaços na cidade que anunciem imagens desse devir (“crianças de rua” viram “crianças na rua. “juventude encarcerada”. pela palavra “crianças”. brincando”). “menores”. .

São Paulo. 2005. .PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 6 Crianças e Contrafilé na Praça da Sé.

.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 7 Criança no balanço instalado pelo Contrafilé. 2005. Viaduto Okuhara Koei/Avenida Paulista.

já estaríamos melhorando essa sociedade. E ver o outro criticar e olhar então. 7. um suspeito. tem de tudo que você possa pensar. Mãe de um jovem que esteve na FEBEM e referência do movimento das mães contra a tortura nas prisões (AMAR). se começássemos retirando desses meninos o olhar de suspeita em todo o lugar a que eles vão. 8. tem drogas. matando quem en- contram na rua.. no lugar. . E saíam as mães chorando bastante também.. aqui tem tudo.7 convidando três pessoas. Assembleia Pública de Olhares é uma prática criada pelo Contrafilé para potencializar o encontro entre pessoas no intuito de que compartilhem experiências cotidianas a respeito da vida na cidade. Era uma dor muito nossa.” “Aqui tem droga. pelo chinelo. agarrado comigo. ele veio e já começou a chorar. as famílias ficam muito envergonhadas. ser curado dessa maldição.. Eu vi muitos meninos chorando e muitas mães chorando. pelo tênis. quase que ele não me larga de chorar.] E quando eu ia sair dali. Às vezes eu fico pensando que. É isso que o sistema não percebe. Tortura/terrorismo de Estado: o que significa a tor- tura hoje?.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 8 ideia de “assembleia”. meu filho. quase que eu não consigo ir embora.” Eu disse: “Não. já deixava paralisada. Eu comecei a querer entender. Fazem tudo isso com esses meninos e eles saem uma loucura. aqui dentro é muito pior.. Ele falou: “Aqui é terrível..” [.. para discutir problemáticas que ressoaram no grupo ao viver este processo: 1. Maurinete Lima:9 O que se busca é destruir a potência juvenil e. você precisa se tratar. A lógica que mina a potência de criação. 2.] Quando os meninos entram na FEBEM. É essa a história. instaurar o ódio e a ideia de que existe um inimigo. aqui não vai mudar nada na minha história e eu só vou sofrer mais ainda aqui dentro. referentes de diferentes lutas. A vida se banaliza. Como ressignificar traumas sociais e culturais que impossibilitam a construção de vida pública? Conceição Paganele:8 Eu pensei: “Que coisa é essa?!”Aí. Se lá fora é ruim. A dor já era muito grande. 3. Por que todo mundo chorava se era bem-estar? Todo mundo sai chorando? [. para você saber. mãe! Aqui eles batem para valer.

] Eles tentam abafar quando a gente quer lutar por um di- reito totalmente negado. que eu só atrapalho.. . Iniciam um processo legal contra mim.] Contrafilé: O Contrafilé trabalha pensando determinadas situ- ações que partem da nossa experiência e tentando sistematizar o pensamento. sistemati- camente.. E a gente vem de- senvolvendo um trabalho a partir dessa angústia do “confina- 9. Eles me acusam de ser a incitadora de rebeliões.. No começo. porque socialmente eles estão me matando. porque está em fase de inquérito. [.. E aí também tem um trabalho de descobrir onde que essa fragilidade ecoa. [. e sistematizamos o pensamento também quando produzimos símbolos.] O processo de criminalização [da AMAR] começa quando o governador Geraldo Alckmin se declara meu inimigo.. pelo direito de quem não tem direito nenhum. mas no mundo inteiro. onde essa humilhação ressoa na história de cada um. [.. fugas. Eles matam a gente. uma estratégia do poder para cancelar os movimentos de ampliação.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 9 Conceição: [. Suely Rolnik: Mas é essa a forma como matam. ainda não estou respondendo. Socióloga e integrante da Frente 3 de Fevereiro. E hoje a humilhação está chegando de outro jeito não só no Brasil. intervenções na rua.. Porque a humilhação tem sido. E dão o nome de terro- rismo.. É humilhação mesmo. por isso a gente precisa conversar uns com os outros para não morrer. Porque eles matam transformando uma coisa que é altamente digna em uma coisa totalmente humilhante. Ele vai a uma coletiva de imprensa e diz que eu não ajudo. e sinto isso como uma coisa totalmente comum entre a gente.] Eu conheço profundamente a fragilidade em que a Conceição ficou. eu estava tentando entender o que estou sentindo. e a Conceição me ajudou.

2006. São Paulo. a situação está novamente sob seu domínio". ação realizada pelo Contrafilé no Viaduto Okuhara Koei. .PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:10 PM Page 10 “Crianças circulam livremente. Avenida Paulista.

PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 11 .

re- centemente.Aí. falado. não é só o confinamento dos outros. juntos. o outro que se configura sempre como um outro distante. daquilo que está sendo comunicado é ime- diatamente incorporado por um discurso oficial e totalmente esvaziado do movimento vital e das tensões que levaram a pen- sar as situações reais. da experiência de coisas intoleráveis que estamos vivendo. E acho que deu vontade de quebrar um pouco também esse confinamento. Não sei se vou conseguir falar direito dele ainda. entender. podemos misturar experiências para pensar. vou e volto. Esvazia e muda a direção da palavra. Tem a ver. e como. dos problemas que se está . Nos últimos anos.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 12 mento”. Suely: Então. estou sentindo que muito do que foi pensado. para ampliar o entendi- mento disso? Suely: Estou sentindo um tipo de confinamento que para mim é novo. Eu sentia que tinha gente em vários lugares em um movimento de criação. vira uma coisa “superbacana”. Contrafilé: Sim. apresentado. estava sentindo um movimento de desconfina- mento. Deu vontade de abrir isso e de misturar pessoas com ex- periências diferentes de confinamento. vendo o que estava se passando e bus- cando estratégias para combater. quando na verdade são palavras que falam das coisas complicadas. é também como a gente se sente confinado. do nosso lugar. com a dificuldade de se relacionar com o outro. mas de sen- tir o confinamento como um estado geral que chega até nós e atravessa a nossa experiência. isso vai se configurando. esse lugar de elaboração e de “pensar confinado”. sempre entre a gente. E aí eu acho que o confinamento tem a ver com várias coisas. E agora. que não é a de estar dentro de uma prisão. estava sentindo que tinha um monte de gente pipocando em um monte de lugar. mas também quando vocês se sentem confinados. Trabalho muito fora do Brasil e dentro. por exemplo. pensar. Como.

Mas.]. o sistema não dá conta. E essa experiência que se estava vivendo ao inventar essas palavras é completamente anulada. entendeu? É muito mais complexo. Toda enunciación implica una comprensión. uma coisa nova e que eu ainda não sei o que é. Concordo com você. mas não o conteúdo delas.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 13 vivendo. una ‘capacidad de respuesta activa. Podemos utilizar la concepción del dialogismo para dar cuenta de la evolución del espacio público. a vi- olência absoluta e total de exploração e dominação. e é por isso que eu fico correndo exatamente atrás do pessoal que não teme as coisas encasteladas. una “toma de posiciones”. o que sinto. Por exemplo. ao mesmo tempo. e acho que é por aí [. que você tem que enfrentar. Maurinete: Agora. los enunciados se refieren a otros enunciados. polemizan . Mas também me apego a novas coisas. mas está havendo. a experiência não está mais nelas. As palavras estão aí. O que predomina não é o que essas palavras significam. me apego exatamente a essas formas em que não acredito mais. no meu caso de con- finamento. a favela do Alemão. O que eu sinto medo é de que não dê tempo da coisa emergir e eu ter elementos para entender. porque lo que hemos visto e oído en esas noches de estallidos y esas jornadas de confrontación semi- ótico-linguística10 es la acción estratégica. de saber como agir. para mim. ontem vi o Serra falar sobre “autonomia da universidade”. cristalizadas. tal como la describe Bajtin: por un lado. e essa é uma grande comoção. una “evaluación de la respuesta”. Eles pegam as palavras fortes e esvaziam.. un “punto de vista”. sobre o “problema dos grupos”. você não acredita naquilo simplesmente. e daí eu me apego. é como se estivesse havendo um movimento. é que existe um medo.. mas a falcatrua absoluta. o medo de saber que está existindo alguma coisa nova e ainda não perceber qual a forma de atuar. E é gozado. neutralizada. “das pessoas que estão excluídas”. por mais que diga “É uma luta de traficante lá”.

vemos isso acontecendo na me- dida em que o “autor” se coloca sobretudo como um “espectador eman- cipado público”. la potencia de transformación y de subjetivación de las meras estructuras semânti- cas. [. compreendido como “a” intervenção. p. que.. aceitando o risco de expor as suas próprias intensidades no sentido de qualificar o debate. Se entendemos a emancipação do espectador como a capacidade de se dar ao direito de produzir enunciações.] defende uma recusa dessa distância radical. los completan. É preciso. que é a de tradução e contratradução daquilo com o qual se depara: “é neste poder de associar e dissociar que reside a emancipação do espectador. 8). una simple instituición. fazer e falar. ele afirma. Nisto verifica-se uma capacidade que faz cada um igual ao outro e que se exerce ‘pelo jogo imprevisível de associações e dissociações’”. geralmente descendentes de imigrantes. 23-24).. de hacer surgir las significaciones. p.. a partir do embate entre representação e contrarre- presentação. 15). dessa distribuição de papéis e das fronteiras entre esses territórios do ver. em si. que se espalharam pelas periferias da França durante dezenove dias entre outubro e novembro de 2005. portanto.] Existe entonces una imposibilidad de encerrar la enunciación en la lengua. pensador 10. reconhecer a atividade própria do espectador. quer dizer. Muitas vezes esse movimento é. a emancipação de cada um de nós como espectador. se- gundo Vera Pallamin: [. se oponen a ellos o los consienten.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 14 con ellos. una simple confirmación de las relaciones sociales ya insti- tuídas (LAZZARATO. É. Aqui o autor se refere às revoltas de jovens dos subúrbios franceses. 2006. . p. Paolo Virno (2006. Podemos aqui nos reportar ao conceito de “espectador emancipado” de Jacques Ranciére (2010. También existe una imposi- bilidad de hacer de la enunciación una simple convención. que uma atualização da dimensão pública do espaço se dá como desdobramento imprevisível. fonéticas o gramaticales de la lengua. por el otro. se apoyan en ellos..

lo transforma en el momento mismo en que lo recibe. acredita que: Sobre todo al interior del movimiento new global. con un público activo. que o podem levar a uma elaboração dos modos de vida contemporâneos e a enunciações críticas. a conexão com a própria fragilidade. vira “medo do outro”. Assim. ya de por sí. transformando-se a partir dele. del público. Maria Galindo e Sonia Sánchez (2007) usam a imagem da relação proibida como uma força sub- versiva interpeladora para falar dessa ruptura subjetiva que ativa conexões entre mundos e o trabalho de tradução e contratradução. Uma problemática que constantemente atravessa as enunciações coletivas tem. modifica su signifi- cado: en sínteses. estamos aqui problematizando o papel do próprio “artista” enquanto “público ativo de si mesmo e das relações com o seu entorno”. quien escucha una ocurrencia o un discurso político. Tiene que ver. “alvo” do pensamento contemporâneo defensivo. a partir do qual espaços de compreensão se tornam possíveis: “Es un lugar prohibido y por eso puede ser muy subversivo. justamente. porque romperia con la forma más pro- funda de control y de poder de un ser sobre otro” (GALINDO.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 15 italiano. na medida em que o medo de entrar em contato com esse devir. es. Hoy. elabora sus desarollos posibles. Entendemos essa dificuldade como uma das responsáveis pela impossibilidade de construção coletiva da vida pública e da cidade (em suas escalas materiais e imateriais). en fin. esse fora que nos fragiliza. lo rearticula mientras lo escucha. a ver com a dificuldade de sair do lugar de “espectador passivo”. una forma de intervención activa. já que para ativar-se enquanto espectador-autor no sentido em que estamos entendendo o espectador aqui é necessária. el rol de la “tercera persona”. . como vimos. Que “outro” é este do qual se fala? No livro Ninguna Mujer Nace para Puta.

2011. . São Paulo. atelier-escola da artista Mônica Nador localizado no Jardim Miriam). Comunidade Brás de Abreu e Jardim Miriam Arte Clube (JAMAC.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 16 Parque para Brincar e Pensar. realizado pelo Contrafilé.

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ya sea que estemos en el lugar del delincuente o en el de su presa (GAC. que se coloca no centro das situações mais tensas para per- guntar: tenho medo do quê? Onde está a minha fragilidade. . aborígene australiana). También puede resultar interesante preguntarnos por qué encajamos donde encajamos. p. 165-195). qué hacer con el miedo que sentimos a lo desconocido. que nos resultan enigmáticas. 2009. o cómo dialogar con otras reali- dades que no son las propias. p. Outro elemento da linguagem construída por nós poderia ser des- crito mais ou menos assim: sair desse estado defensivo em relação a um outro supostamente externo e ameaçador convocando um estado ativo do corpo. então trabalhemos juntos (Lilla Watson. Metáforas do Confinamento Se vem para me ajudar. 2007. intentando despojarnos de los romanti- cismos que la militancia supone.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 18 SÁNCHEZ. Ar- gentina): Sería un verdadero desafío para todos nosotros indagar qué nos hace frágiles y cómo se construye la fragilidad colectiva. o que ela sig- nifica? O que aquilo que está acontecendo lá longe diz de mim? Como diz o Grupo de Arte Callejero (GAC/Buenos Aires. no qual esse tipo de aliança proibida se concretiza a partir de um “cruze de miradas” (intercâmbio de olhares). não se dê ao trabalho. porém se vem porque a tua libertação está vinculada à minha. As autoras ainda dizem que a força sub- versiva não vem simplesmente da enunciação das diferenças. desde una actitud inclusiva o analítica. 137). mas da pas- sagem para um lugar mais elaborado.

a partir da qual convido o outro a se somar à conversa. reverberando socialmente por conter. A ação é uma postura que inicia o diálogo. invocamos o sociólogo Gabriel Tarde. a possibilidade de estabelecer conexões inusitadas. sendo que essas passam a contaminar o tecido social através da repetição que se dá pela . A inves- tigação parte de nós mesmos como subjetividades situadas e em ação. quando fala sobre a re- lação entre diferença e semelhança: as minúsculas inovações ordinariamente anônimas são. autoconfinados em lugares predestinados. onde o in- vestigado não se objetualiza para ser tratado analiticamente. de nos sentirmos. Essa ação a partir do nosso próprio lugar se dá através da criação de representações (soluções plásticas) e de ir vendo como as imagens que vou produzindo dialogam com o mundo onde vivo (POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. As leituras alternativas de fatos sociais hegemônicos acabam. para ele. segundo o coletivo Política do Impossível: Uma forma de nos relacionarmos com nosso próprio contexto.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 19 Muitos trabalhos tentam encontrar formas para falar disso: a ex- periência visível e sensível de viver em uma “sociedade de controle”. na escala da ex- periência. conseguirmos agir. Aqui. cada um de nós. A investigação-ação. 2006). que am- pliam as “sinapses possíveis” e revertem as leituras estereotipadas da “realidade” ao introduzir uma representação que contém a consistência processual de “espectadores que se fazem públicos”. para tornar visível uma experiência singular de um contexto comum. a partir da qual é possível iden- tificar como acontece a “espacialização desse estado de confinamento”. por sua vez. justamente. aceitando passivamente os “discursos do medo”11 sem. acompanhada da experiência invisível. nas identidades fixas. no entanto. é. o que movem a produção do social. disforme.

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2000).]. nas quais a produção coletiva e compartilhada de dobras. têm usado o medo e a violência do crime para justificar novas tecnologias de exclusão social e a retirada de classes mais baixas dos bairros tradicionais das cidades. que singularizam e marcam a diferença no espaço social. tornando visível. A imitação. A circulação dos “discursos do medo” é.. p. não será a ação concreta e anônima na cidade. Paris. assim. constituindo um conjunto de evidências no campo do visível e do legível de como as instituições nor- malizadoras são desafiadas e atravessadas por essa vontade de romper o ciclo de confinamento das subjetividades em lugares identitários. p. no entanto. Félix Alcan. uma forma de circunscrever. para a autora.]. im- itativa. sendo constituída pela singularidade e subjetividade daquele que imitou e “Qualquer repetição. 155. não importa. e assim o normal. A partir de pensamentos e imagens dos coletivos. 11.. 1907 apud THE- MUDO.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 22 vibração (potência desejante) contida nessa capacidade de diferenciação. isto é. hereditária ou vibratória [. 2002. orgânica ou física. 27). nunca é exatamente igual àquilo que imitou. de inventar uma concretude imagética e performática para essa nuança. procede de uma inovação [. alguns deles pre- sentes nessa publicação. é o que efetiva- mente produz a experiência do comum. Les lois sociales.. diferentes classes sociais. 26). em toda a ordem de conhecimento. especialmente as mais altas. 1907. nas cidades contemporâneas. social. 1976 apud THEMUDO. 2002. esse momento diferencial de relação com o espaço – que depois afeta pela força do desejo e da crença. podemos ver como acontece efetivamente o ato de restauração permanente desse conflito.12 Dessa forma. 12. p. parte de uma fórmula que elites do mundo todo vêm adotando para reconfigurar a segregação espacial das cidades (CALDEIRA. Uma das questões mais instigantes das práticas artísticas situadas é justamente o desenvolvimento de uma espécie de saber não excludente que parte de situações reais. trans- formada em imagem que circula. . se trata.. Tiago Themudo está citando Gabriel Tarde. parece derivar do acidental” (Tarde. mais ou menos contidos na represen- tação que se faz desse instante inaugural do acontecimento? Se “nada é mais importante do que essa nuança fugidia” (Tarde. Segundo Teresa Pires do Rio Caldeira.

VIRNO. 2007. Ninguna mujer nace para puta. Madri: Associacion Cultural Brumaria. 2008. 2012. Cidade dos cartógrafos.pucsp. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. São Paulo: Oficina Cultural Oswald de Andrade. [Publicação fomentada pelo Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI)].pdf>. Suely. MUJERES CREANDO. GALINDO. Gabriel Tarde – sociologia e subjetividade. Ambivalecia de la multitud: entre la innovación y la negatividad. 2010. Tiago Seixas. ______. THEMUDO. HARVEY. HOLMES. Texto apresentado no I Simpósio de Estética – Temas em torno da Arte Contemporânea na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Invertendo expectativas. Revista Brumaria. 2006. 2010. segregação e cidadania em São Paulo. n. acciones. 2006. Sonia. 2006. practicas. POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. O espectador emancipado. Tradução de Gavin Adams. n. 2007. Inquietudes en el impasse. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. São Paulo: Editora Pressa. CONTRAFILÉ. Acesso em: jun.n. Tradução de André Telles. ZOURABICHVILI. 2006. 2009b. François. Tradução de José Miranda Justo. Disponível em: <http://www. Tradução de Pablo Esteban Rodríguez. ROLNIK. 2000. 2009. São Paulo: Editora 34. A rebelião das crianças. acciones. 2004. Rio de Janeiro: IFCH- UNICAMP [digitalização e disponibilização da versão eletrônica]. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. 2005. Lisboa: Orfeu Negro.PROJETO CONTRAFILE 09:Layout 1 11/20/12 4:11 PM Page 23 BIBLIOGRAFIA GERAL BUTLER. Revista Brumaria. Acesso em: abr. Urbânia. Brian Holmes entrevistado por Marcelo Expósito. n. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. São Paulo: [s. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. Estéticas de la igualdad. GAC. PALLAMIN. La virgen de los deseos. Um resumo do Brasil profundo. Jacques. . Politicas del acontecimiento. Tradução de Marcelo Expósito. GAC: pensamientos. SÁNCHEZ. Cidade de muros: crime.br/redelabs/2010/06/um-resumo-do-brasil-profundo>. 5. CALDEIRA. Felipe. In: Conversaciones en el impasse: dilemas políticos del presente. O vocabulário de Deleuze. Judith. Disponível em: <http://culturadigital. Paolo. COLECTIVO SITUACIONES. 2002. Marcelo. LAZZARATO. FONSECA. Que es la critica? Un ensayo sobre la virtud de Foucault. Buenos Aires: Tinta Limón Ediciones. Brian. Teresa Pires do Rio. Buenos Aires: Lavaca Editora. Vera M. Maria. A liberdade da cidade. Geopolítica da cafetinagem. EXPÓSITO. 3. 2009a. Jeroglífos del futuro.]. 2012. RANCIÉRE. Epílogo. Tradução de Emilio Sadier e Diego Picotto. In: GAC: pensamientos. Madri: Associacion Cultural Brumaria. 2006. Maurizio.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Geopolitica. 2006. David. practicas. 7.

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Rogério BoroviK. Fabio Meira. Eduardo Verderame. Guto Lacaz. Paulo Zeminian. Augusto Citrangulo. Marcos Vilas Boas. Mauro de Souza. Rubens Zaccharias Jr. Mariana Cavalcante.indd 160 13/11/12 14:16 . o esquecimento.” NOVA PASTA: Antonio Brasiliano. aos burros. Fabiana Mitsue. Túlio Tavares livro3 . Flávia Sammarone. Lucas D.nova pasta. “A REVOLTA DOS BURROS” “Aos nossos cavalos o eterno reconhecimento.

A primeira é a pintura Independência ou morte (1888). como comprovam os dados históricos. A segunda ação do Nova Pasta toma como ponto de partida a escultura Monumento às bandeiras (1921-1953). Este animal. A representação do burro na história da arte parece secundária. Os animais foram também historicamente negligenciados. “Monumento às Bandeiras” (1921-1953) de Victor Brecheret20 A Revolta dos Burros proclama o resgate histórico do burro como importante desbravador de caminhos. A ação do coletivo acontece por meio de uma intervenção urbana no espaço público. está sendo esquecido pelas novas gerações informatizadas e urbanas. Já o cavalo figura como símbolo de status e potência. de carga. que foi fundamental para o transporte e ocupação dos territórios. Os bravos animais chamados de burros subiam e desciam os morros. O desafio seria eleger o burro como novo símbolo do país e resgatar sua importância histórica. no lugar dos cavalos. pois sabemos que muitos trajetos irregulares são realizados no lombo de burros e eles foram agentes participantes da história. e sua função se transformou. A Revolta dos Burros questiona o lugar dos burros em passagens históricas. no qual a escultura de Brecheret é questionada como espaço legítimo de representação do animal burro. com suas diversas etnias e animais puxando uma canoa. Com a modernidade.indd 161 13/11/12 14:16 . O coletivo propõe uma releitura contemporânea da pintura por meio de uma nova configuração do conjunto pictórico com as representações dos artistas atuantes e animais. de gente. principalmente na cultura brasileira. de Victor Brecheret. e muitas vezes a sua representação foi substituída pela representação de outros animais. transportando todo tipo de coisa. o dia da Independência. os burros passaram a ser substituídos pelas ferrovias. A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .nova pasta. Esse quadro retrata uma das cenas mais celebradas no imaginário nacional: simboliza o 7 de setembro. O burro ainda tem lugar na contemporaneidade? E qual o espaço desses bravos animais na história da arte? O coletivo Nova Pasta elegeu duas obras de referência para seus trabalhos. do artista Pedro Américo. A escultura popularmente conhecida como “Deixa que eu empurro” representa o monumento símbolo às bandeiras.

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indd 163 13/11/12 14:16 .nova pasta. 202 Orelha plastionda 1.60 x 0.60 x 0.plastionda 5 mm A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .70 m .70 m Orelha 1.

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indd 167 13/11/12 14:16 .nova pasta. Imagens de gravuras do burro Goya A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 .

cuja perfeição clássica é criação do helenismo. A exemplo desses seres. esfinges. Para ele. carregador de todos em todos os tempos. porque o burro sempre está em toda a sua verdade. A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 . Ao contrário do cavalo.. assemelha-se a tantos animais ideia criados pela fantasia mítica do homem: dragões. faunos. não evocam o transcendente. No entanto. é deixar que nossas proposições deixem de servir como medida universal do cosmos. deuses egípcios. puro movimento. repulsão. o metafísico. a máscara e o não natural. vai para o informe. Assim. “O cuspe. filosóficos. Ele é o burro. o transporte. limitam-na em sentidos. ou seja. O corpo impossível. Informe Devemos a Georges Bataille o conceito de bassesse (baixeza) para designar um mecanismo que serve para obter o informe. mais especificamente o burrico! E nesse esforço demonstrar que arte é a hipótese da nossa própria irrealidade. então. Esses comportamentos sucedem a idealização. deletério em seu estado físico informe. águias. ao contrário do burro. que está em toda a sua plenitude biológica. acontece muita coisa. Nossa fusão é a abstração dos conceitos. reações. tais como orangotangos. 2002. a distância. atração.. centauros. e do informe se alimenta. tal como o burro.” Bataille acredita que esta metáfora suprime as fronteiras por meio das quais os conceitos organizam a realidade. Aqui no caso. tigres. livre do humano. a carga. mas somos nós. saindo do prumo. como “sobrecasacas matemáticas”. cômico. mas que dizem mais respeito a uma separação: nós estamos aqui. parecem nos levar a crer que é necessário levar a sério um projeto radical. combinar a figura humana com outros seres. psicológicos. grotesco. sátiros. e o burro sabe disso. só têm uma parte da gente. Afinal. minotauros etc. sociológicos. Nossa fusão com o burro é da ordem do informe. das noções de definição. sua voz esganiçada. Os incontáveis contornos de nossa própria imagem. O burro alado “Os grandes problemas estão na rua” Nietzsche A figura do burro e o imaginário. o que vem. recortam-na. Recriar em nossas mentes o que é ou poderia ser um burro. Em contrapartida. contato. não se coloca nem acima nem abaixo. a própria vida veio do informe. corpo fisiológico. Ser um burro. São Paulo: Iluminuras. Nesse sentido.nova pasta. o testemunho de forças primitivas. Não é o que nós queríamos ser. o que vai. esses animais projetam sempre um vir a ser animal. Entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno do universo. é a água. Vamos agradecer ao burro por esta revelação! Grupo Nova Pasta Referência Bibliográfica MORAES. vamos negar que as coisas tenham uma forma que lhes é própria. como prêmio. representava a fauna selvagem. é deixar de ter a pretensiosa percepção de onde o mundo se organiza. instinto. o informe é a categoria que permite desconstruir todas as demais categorias. sensório. Todos uma espécie de fusão entre homem e bicho. é o feno. uma expressão acabada e eterna da ideia. sereias. são as fantasmagorias do duplo e da imortalidade. mas não são a gente. da verticalidade e do ponto de vista.. aranhas. introduzem a desordem no pensamento. já que este não tem sentido. ele é o caminho. Vamos desfazer as categorias formais. O burro é aquele cuja existência foi subjugada à razão do homem. hipopótamos. indianos. e de todas as cargas imagináveis. não nos é objeto de adoração e esperança. apolíneas.. que sempre foi associado a formas acadêmicas. fisiológicos. O burro é a fusão com a paisagem e com a gente. estes são os deuses. Vamos crer por um momento que não somos nós os donos da nossa percepção. sua polaridade entre a obediência e a teimosia já o aproxima do homem. os burros diferenciam-se do ideal: cavalos. Seu comportamento é desmesurado. o burro pertence a uma classe de animais cujas formas são aquilo que Bataille chamou de dementes. algo que está presente no homem. o cavalo. O burro. e sim o presente. fora de nosso controle. vamos para a horizontalidade animal. Justamente por estas características. a insignificância e o anonimato. Eliane Robert. antes chamado onagro pelos sumérios.indd 168 13/11/12 14:16 .

Fotos Museu do Ipiranga A Casa do Grito no Parque do Ipiranga São Paulo (Pq. é um museu localizado na cidade de São Paulo.indd 169 13/11/12 14:16 . sendo parte do conjunto arquitetônico do Parque da Independência. da Independência) O Museu Paulista da Universidade de São Paulo.nova pasta. conhecido também como Museu do Ipiranga ou simplesmente Museu Paulista. 1888) A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 . “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” ou “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo (óleo sobre tela.

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indd 186 13/11/12 14:17 .nova pasta. Avelino Neto. Bruna Tavares. A REVOLTA DOS BURROS | NOVA PASTA livro3 . educadores: Carolina Teixeira. Lucas D e Renato Almeida.

NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 11/20/12 11:19 AM Page 46 naborda.com.br Baixe esta e outras edições em .

facebook.NABORDA LIVRO finalizado 10:Layout 1 12/1/12 6:47 AM Page 47 Série Invisíveis Produções Receba esta e outras publicações.com/invisiveisproducoes . Coletivos Curta www.

UMA CIDADE NA BORDA Foram realizadas intervenções em espaços públicos da cidade de São Paulo ao longo de três meses pelos grupos Bijari. Contrafilé. Ocupeacidade e Projeto Matilha. SECRETARIA DA CULTURA. Nova Pasta. NA BORDA é um projeto que reúne nove coletivos artísticos em torno da prática e da reflexão sobre a intervenção urbana hoje. UMA CIDADE NOVE COLETIVOS. As intervenções geraram uma exposição e este livro com os registros desenvolvidos pelos coletivos.NABORDA LIVRO capa 09 ebook:Layout 2 12/21/12 3:19 PM Page 1 Série Coletivos NA BORDA NOVE COLETIVOS. UMA CIDADE Portal Realização Apoio Invisíveis Produções Invisíveis Produções PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. EIA. Bijari COBAIA Contrafilé EIA Esqueleto Coletivo Frente 3 de Fevereiro Nova Pasta Ocupeacidade Projeto Matilha DISTRIBUIÇÃO GRATUITA NA BORDA NOVE COLETIVOS. Esqueleto Coletivo. Frente 3 de Fevereiro. PROGRAMA DE AÇÃO CULTURAL 2011 . COBAIA.