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Alimentação,

Agricultura e Transgénicos
1ª edição

28 a 31 de Outubro
Peniche, na Escola Superior de Turismo e
Tecnologia do Mar

1ª Parte
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

1
ÍNDICE

Introdução e agradecimentos .................................................................................... 2


Sobre o Ciclo de Cinema ............................................................................................ 3
Programa ..................................................................................................................... 4
Ficha técnica dos filmes ............................................................................................ 5
―Quem Alimenta o Mundo‖ ..................................................................................... 5
―Transgénicos – A manipulação dos campos‖ ..................................................... 5
―Carne, uma verdade mais que inconveniente‖.................................................... 6
―O Futuro dos Alimentos‖ ...................................................................................... 6
The Meatrix 1: O que é o Meatrix ............................................................................ 7
The Meatrix 2: A revolta .......................................................................................... 7
The Meatrix 2 ½ ....................................................................................................... 8
―A Guerra da Mercearia‖ ......................................................................................... 8
―A Revolução das Bocas‖ ...................................................................................... 9
"TranXgènia: a história do verme e o milho" ........................................................ 9
Comunicações da conferência ................................................................................ 10
Apresentação dos oradores..................................................................................... 16
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

INTRODUÇÃO e AGRADECIMENTOS 2
Aqui estamos a concretizar uma ideia que surgiu há cerca de 2 anos. Não foi
fácil e houve muito trabalho até chegarmos a este momento, mas com grande
empenho e vários apoios foi possível levar por diante este evento. Assim, tivemos
acesso a alguns dos filmes através da Plataforma Transgénicos Fora, vários
produtores dos filmes concederam ao MPI os filmes e autorização para exibição
pública sem custos, houve a colaboração de vários voluntários para a tradução,
legendagem, concepção gráfica e impressões. Estamos certos que todo o esforço
investido será largamente compensado.

Uma das grandes lições que aprendemos com a organização deste ciclo de
cinema foi que trabalhar em rede compensa e muito! O facto de o MPI pertencer à
Plataforma Transgénicos Fora e à Rede CREIAS Oeste permitiu que muitas
oportunidades surgissem. Por outro lado, a rede de contactos que a participação cívica
sempre gera, e o crescente interesse por uma alimentação e modo de produção de
alimentos mais sustentáveis também constituíram importantes “ingredientes”.

Agradecemos ao Bruno Ferreira e Filomena Barros pela concepção gráfica dos


materiais de divulgação, ao Francisco Marques pela tradução das animações da Free
Range Studios, às empresas que apoiaram: Ceifa Ambiente, Sociedade Vale Poços,
Biofrade e Minhocoeste, à jornalista Fernanda Freitas e aos oradores convidados:
Prof.ª Margarida Silva, José Mariano Fonseca e João Vieira, e em especial à Escola
Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, por ter acolhido desde o primeiro momento
a esta iniciativa.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

3
SOBRE O CICLO DE CINEMA …
O Ciclo de Cinema “Alimentação, Agricultura e Transgénicos” é composto por
documentários realizados e produzidos por diversas entidades e organizações
reconhecidas mundialmente pelo seu trabalho em prol de uma planeta mais
equilibrado e vários deles premiados em competições internacionais. Teremos
também alguns filmes de animação destinados a um público mais jovem, incluindo o
filme de animação mais premiado e visto de sempre, a saga “The Meatrix”.

Destacamos ainda que no final do ciclo teremos um debate livre com algumas
personalidades e académicos ligados a esta problemática sob a moderação da
conhecida jornalista da RTP 2, Fernanda Freitas.

Doença das Vacas Loucas”, “nitrofuranos” na carne de frango, “dioxinas” na


carne de porco, antibióticos no leite e hormonas na carne de vaca… Todos nós
ouvimos com regularidade nos meios de comunicação social notícias preocupantes
sobre os alimentos que ingerimos diariamente. Por outro lado, muitas outras questões
que embora não sejam tão abordadas pela comunicação social, são igualmente motivo
de preocupação, como os riscos da contaminação pelos pesticidas ou a utilização de
alimentos transgénicos.

É por isso cada vez mais importante a consciencialização de todos nós,


consumidores, e conhecer os riscos e as alternativas que estão ao nosso alcance.

Como nos alimentamos? De onde vem a actual onda de obesidade? O que se


passa para lá das prateleiras dos supermercados? Quais as verdadeiras
consequências da industrialização da agricultura moderna? O que podem os
agricultores fazer? E os consumidores? Explorar as vantagens de uma alimentação
variada e saudável, a importância de uma agricultura sustentável e os riscos dos
transgénicos são alguns dos objectivos do ciclo de cinema que propomos.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

PROGRAMA
4
Dia 28 (4ª-feira)
21:30 – Documentário: “Quem Alimenta o Mundo” (1:33 min.)

Dia 29 (5ª-feira)
21:30 – Documentário: “O Futuro dos Alimentos” (1:29 min.)

Dia 30 (6ª-feira)
21:30 – Documentário: “Carne, uma verdade mais que inconveniente” (1:12 min.)
23:00 – Documentário: “Transgénicos – A manipulação dos campos” (23 min.)

Dia 31 (sábado)
14:00 – Animação - A (meia) hora dos mais novos (30 min.)
“The Meatrix 1, 2 e 2 ½”.
“A Guerra da Mercearia”
“A Revolução das Bocas”
14:45 – Documentário: “TranXgénia: a história do verme e o milho” (37 min.)

16:00 – Conferência e Debate

Moderador: Fernanda Freitas, jornalista

 Apresentação – Alexandra Azevedo (MPI – Movimento Pró-Informação para a


Cidadania e Ambiente)
 O que é o Creias-Oeste? - Prof.ª Ana Sofia Viana (ESTTM-IPL / Creias-Oeste)
 Alimentação, transgénicos e saúde - Prof.ª Margarida Silva (Escola Superior
de Biotecnologia – Universidade Católica do Porto)
 As variedades tradicionais, um legado ancestral para o futuro. – José
Mariano Fonseca (Colher para Semear – Rede Portuguesa de Variedades
Tradicionais)
 Alimentos saudáveis: que modelo de produção agrícola? – João Vieira
(Associação de Agricultores do Distrito de Lisboa)
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

FICHAS TÉCNICAS DOS FILMES

1– ―Quem Alimenta o Mundo‖


Título original: We feed the world
Origem: Áustria
5
Género: Documentário
Ano: 2005
Duração: 1 h 33 min
Falado em alemão, legendado em português em faixas pretas sobreposta à
legendagem em inglês.
Realização: Allegro Film
Resumo: Em foco a produção industrializada dos alimentos, não só na
agricultura mas também nas pescas, com as suas perversões e
irracionalidades.
Imagens impressionantes do desperdício e o paradoxo das estatísticas dos
famintos que existem no Mundo.
Os oligopólios no sector da produção, do fornecimento das sementes, agro-
químicos e também na distribuição dos alimentos distorcem a realidade que os
consumidores ainda têm da agricultura e do modo de produção de alimentos.

2 - ―Transgénicos – A manipulação dos campos


Título original: Aliens in the field
Origem: Reino Unido
Ano: 2005
Duração: 23 min.
Falado em inglês, legendado em português
Género: Documentário
Edição: Rob Gould
Produção e Direcção: Ulrike Julie Hensel
Resumo: As novas culturas e alimentos transgénicos estão a mudar o Mundo,
sendo apresentados como exemplos a reacção em três países: Índia, Zâmbia e
Argentina. A Índia foi aliciada ao cultivo do algodão transgénico prometendo
aumento de rendimento aos agricultores que se encontravam em situação de
desespero. A Zâmbia surpreendeu a comunidade internacional quando recusou
a ajuda alimentar quando se soube que eram alimentos transgénicos. Já a
Argentina acolheu “de braços abertos” o cultivo de soja transgénica, pelo que
metade da Argentina cultiva uma única variedade de soja.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

3- ―Carne, uma verdade mais que inconveniente‖


Título original: Meat The Truth
Duração: 1: 12 min: 27 sec 6
Origem: Holanda
Ano: 2008
Género: Documentário
Falado em inglês legendado a português (do
Brasil)
Realizador: Gertjan Zwanikken
Sinopse: Meat The Truth é um filme bem
documentado apresentado por Marianne
Thieme, membro do Parlamento Holandês,
que constitui uma adenda aos recentes filmes
sobre as alterações climáticas. Apesar destes
filmes terem atraído a atenção do público
sobre este assunto têm ignorado uma das
mais importantes causas das alterações climáticas: a pecuária intensiva. O
filme demonstra que a pecuária gera mais gases com efeito de estufa a nível
mundial do que os transportes (automóvel, camião, comboio, barco e avião) no
seu conjunto. Está baseado em dados científicos da FAO e outras fontes
credíveis.

4 - ―O Futuro do Alimento‖
Título original: The future of food
Origem: E.U.A.
Ano: 2004
Duração: 1h 29 min
Género: Documentário
Falado em inglês, legendado em português (do Brasil)
Realização: Lily Films
Resumo: A Revolução Genética sucede à Revolução Verde, e consiste na
industrialização dos alimentos ao nível celular. Para reforçar que não é ético
patentear plantas (incluindo sementes), recorre-se aos testemunhos de
agricultores processados pela Monsanto, Percy Schmeiser e Rodney Nelson.
É explicado, com algum detalhe, os processos utilizados para a manipulação
genética podendo-se destacar a importância de bactérias e vírus pela sua
capacidade invasora das células, conseguindo assim ultrapassar os seus
mecanismos de autodefesa.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

5 - ―The Meatrix‖:

5.1- The Meatrix 1: O que é o Meatrix


Título original: The Meatrix 1
Origem: E.U.A. 7
Ano: 2006
Duração: 3:38 min.
Género: Animação
Falado em inglês, legendado em português
Realização: Free Range Studios
Resumo: Baseado no filme “The Matrix”, à personagem Leo, um porco, assim
como ao Neo na versão filme, é revelada a realidade que se esconde por
detrás da produção pecuária intensiva, concretamente no caso da produção de
suínos que consiste na crueldade para com os animais, no aparecimento de
germes resistentes a antibióticos, na poluição massiva do ambiente e na
destruição das comunidades rurais.
Termina lançando o desfio aos consumidores para alterarem a realidade, pois
existem alternativas!

5.2 - The Meatrix 2: A revolta


Título original: The Meatrix 2: Revolution
Origem: E.U.A.
Ano: 2006
Duração: 4:40 min.
Género: Animação
Falado em inglês, legendado em português
Realização: Free Range Studios
Resumo: Continua com as personagens da
animação anterior em que a personagem Leo
espalhou a palavra e milhões de pessoas
começaram a ter mais cuidado em relação aos
alimentos que compram. Continua a ser-lhe
revelada a realidade desta vez a produção leiteira
intensiva que consiste na administração de
antibióticos e hormonas e no risco da Doença das Vacas Loucas. Termina
continuando a desafiar os consumidores a alterarem a realidade consumindo
lacticínios biológicos e apoiando as vacarias tradicionais.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

5.3 - The Meatrix 2 1/2


Título original: The Meatrix 2 ½
Origem: E.U.A. 8
Ano: 2006
Duração: 2:30 min.
Género: Animação
Falado em inglês, legendado em português
Realização: Free Range Studios
Resumo: Desta vez o alvo da crítica são as
empresas de Fast Food, sendo as más
condições laborais dos seus trabalhadores e
más condições higiénicas do produto final
causado pela elevada cadência das linhas de produção os aspectos
denunciados.

6 - ―A Guerra da Mercearia‖
Título original: Grocery Store Wars
Origem: E.U.A.
Ano: 2005
Duração: 6:45 min.
Género: Animação
Falado em inglês, legendado em português
Realização: Free Range Studios
Resumo: Baseado no filme “Star-Wars” (Guerra
das Estrelas) os protagonistas, todos alimentos
biológicos, travam uma guerra contra os
alimentos industriais. Os consumidores são
desafiados a aderir à rebelião dos alimentos
biológicos.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

7 - ―A Revolução das Bocas‖ 9


Título original: The Mouth Revolution
Origem: E.U.A.
Ano: 2007
Duração: 4:47 min.
Género: Sátira
Falado em inglês legendado em português
Realização: Free Range Studios
Resumo: Sátira à nossa alimentação,
através da “revolução das bocas” que se
recusam a abrir-se ao “lixo” que
actualmente são muitos dos alimentos,
como as gorduras hidrogenadas,
transgénicos, alimentos contaminados pelos pesticidas e alimentos com
ingredientes artificiais. Apela ao consumo de alimentos biológicos.

8 - "TranXgènia: a história do verme e o milho"


Título original: TranXgènia – La història del cuc i el panís
Origem: Espanha
Ano: 2006
Duração: 37 min
Género: Documentário
Falado em catalão, legendado em português
Realização/Produção: Col.lectiu Serindípia
Resumo: É apresentado como os transgénicos, sem
fazer muito barulho, estão cada vez mais presentes
nas nossas vidas, desde o campo do produtor até
ao prato do consumidor. Baseado na experiência
local da Catalunha e Aragão, explora-se os
diferentes pontos da acção dos transgénicos e
expõe-se o conflito que eles provocam."
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

CONFERÊNCIA / DEBATE

Apresentação - Alexandra Azevedo, MPI – Movimento Pró-Informação para a


Cidadania e Ambiente 10

Comer é um acto: de biologia, social, de cultura, político e de agricultura. O


papel de todos como consumidores é fulcral para manter ou alterar o modelo de
produção agrícola. De facto, votamos todos os dias através das escolhas dos
alimentos, e seus modos de produção, que fazemos, compramos e consumimos.
A crescente urbanização da população em Portugal e em todo o Mundo distanciou a
produção do consumo de alimentos, mas não se pode falar de alimentação e como
alcançar uma alimentação mais saudável sem se falar de agricultura e do Mundo
Rural. São faces da mesma moeda.
A abundância de alimentos tem-nos alheado da realidade do sistema que nos
alimenta, contudo os sucessivos escândalos alimentares (“Doença das Vacas Loucas,
“nitrofuranos” na carne de frango, “dioxinas” na carne de porco, antibióticos no leite e
hormonas na carne de vaca…) e a introdução dos transgénicos na alimentação animal
e humana têm lentamente despertado algumas consciências, e alternativas à
produção industrializada de alimentos estão a ser trilhados pelos agricultores e
consumidores, como o prova por exemplo o crescente aumento do mercado de
produtos biológicos mesmo na actual situação de crise económica que vivemos.
É preciso ainda ter em conta que a comunidade científica tem recentemente
alertado para o risco de uma crise alimentar de graves proporções, devido às
alterações climáticas e aos impactos gerados pela produção agrícola intensiva. A crise
alimentar vivida o ano passado, não passou de um (pequeno) susto, pelo que é
indispensável estarmos preparados para esses tempos que se avizinham.
Os filmes exibidos neste ciclo de cinema procuram estimular questões sobre os
nossos hábitos alimentares e o modo de produção de alimentos, contribuir para a
tomada de consciência da realidade, muitas vezes não abordada pela comunicação
social, explorar as vantagens de uma alimentação variada e saudável, a importância
de uma agricultura sustentável, os riscos dos transgénicos e o papel fundamental dos
consumidores.
A conferência que se segue procura complementar a informação veiculada nos
filmes e a interacção entre os oradores convidados e o público para confrontar ideias e
eventual esclarecimento de dúvidas.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

O que é o CREIAS –OESTE? - Prof.ª Ana Sofia Viana (ESTTM-IPL / Creias-Oeste)


11
O CREIAS-Oeste é um Centro Regional de Excelência (RCE), integrado na Rede
internacional de RCE coordenada pelo Institute of Advanced Studies (IAS) da United
Nations University (UNU) em Tóquio.

É uma instituição de carácter informal, representada oficialmente pelos


membros da sua Comissão Dinamizadora constituída actualmente pelos seguintes
membros: CEIFA ambiente, Lda (representada por Suhita Osório-Peters), Instituto
Politécnico de Leiria - Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (representado
por Ana Sofia Viana) e IET – Faculdade de Ciências e Tecnologia – Universidade
Nova de Lisboa.
O CREIAS-Oeste tem como principal objectivo contribuir para a promoção de
uma Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DS) através da construção de
uma plataforma para recolha de informações e experiências entre instituições locais e
regionais e da construção de uma base de conhecimento para apoiar pessoas e
instituições envolvidas na educação para o Desenvolvimento Sustentável.
A longo prazo pretende promover a realização dos grandes objectivos do
Desenvolvimento Sustentável, nomeadamente, a protecção do meio ambiente, a
justiça social e a promoção da qualidade de vida da geração actual, respeitando os
direitos das gerações futuras, através do envolvimento de várias pessoas e entidades
locais e regionais.
De entre as actividades desenvolvidas pelo CREIAS podemos destacar a sua
participação em várias reuniões internacionais dos RCE, o Workshop sobre “Águas
Urbanas” realizado em Torres Vedras com a colaboração da Câmara Municipal, o
Workshop sobre “Rios e Mar” realizado em Peniche com a colaboração da ESTM-IPL,
o “Passeio pelo Planalto das Cesaredas”, organizado pela Lourambi, o encontro sobre
“A Sustentabilidade do Meio Rural no Oeste”, organizado com a colaboração da
Associação dos Produtores Agrícolas da Sobrena e o Centro Operativo e Tecnológico
Hortofrutícola Nacional, e as várias Assembleias Gerais.
Qualquer pessoa ou instituição pode aderir ao CREIAS-Oeste e participar nas
suas iniciativas, bastando o preenchimento de uma ficha de adesão dirigida à sua
Comissão Dinamizadora. Participe.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Alimentação, transgénicos e saúde - Prof.ª Margarida Silva, Escola Superior de


Biotecnologia da Universidade Católica do Porto
12
Já ninguém põe em causa que existe uma relação estreita entre o que
comemos e a nossa saúde. Por isso, mesmo que não estejamos prontos para mudar
muito na nossa rotina alimentar, percebemos por exemplo que os pesticidas das
hortaliças podem não matar só pragas, que os transgénicos são uma bomba-relógio
ou que os antibióticos nas rações acabam por promover as bactérias resistentes que
depois nos vão infectar em momentos de debilidade. E quem se dá ao trabalho de
procurar para além da prateleira do hipermercado começa a familiarizar-se com os
alimentos de produção local, biológicos, da época, e até mesmo provenientes de
sementes tradicionais ou com garantias de pagamento justo para os produtores. Estes
conceitos fazem agora parte da nossa consciência colectiva e isso representa um
grande passo em frente civilizacional.
Mas quem pensar em alimentação mais do que uns minutos seguidos vai
necessariamente chegar à conclusão de que não basta tentar criar uma bolha à nossa
volta (e da nossa família) e escolher criteriosamente o que se põe na mesa para
garantir que a produção alimentar nos traz saúde. Quando passa uma avioneta a
espalhar herbicida ou insecticida por um terreno agrícola, como é que podemos evitar
respirar o ar contaminado? Não podemos. Quando bebemos um copo de água
proveniente de um aquífero inquinado pelos nitratos resultantes de uma pecuária
intensiva, como é que nos protegemos? Não protegemos.
A um nível mais global a questão torna-se ainda mais evidente. Estima-se que
a agricultura seja responsável por 17 a 32% de todas as emissões não naturais de
gases com efeito de estufa. Dito por outras palavras: a nossa maneira de comer faz
mal ao planeta, e isso começa a fazer-nos muito mal a nós. É que não há para onde
fugir quando o planeta fica com febre.
Além disso, o mais elementar conceito de justiça requer que não sejam apenas
os mais ricos ou esclarecidos a ter acesso a alimentos realmente nutritivos, limpos e
equilibrados. (O aspartame, por exemplo, é um adoçante sintético altamente tóxico,
mas o grosso da população não sabe disso e consome-o em grandes quantidades –
até em produtos "saudáveis", como iogurtes.) Qual a qualidade de vida de uma família
se vizinhos, tios ou amigos começam a morrer de cancro?
Resumindo: estamos todos no mesmo barco, pelo menos no que toca às
consequências da alimentação. E as reais soluções de que precisamos tocam tão
fundo no sistema produtivo, implicam com tantos interesses económicos e exigem
mudanças tão drásticas a tantos níveis, que é fácil desanimar e pensar em voltar para
dentro da tal bolha. No entanto o instinto de sobrevivência – porque é de sobrevivência
que se trata – acaba por falar mais alto. E as soluções começam a construir-se
devagarinho, com o passa-palavra.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Claro, há organizações onde todos podemos voluntariar-nos para o lóbi político


e a sensibilização social, como por exemplo a Plataforma Transgénicos Fora 13
(www.stopogm.net). E não custa muito organizar um debate, escrever uma carta
crítica para algum jornal ou perguntar por email aos candidatos às eleições locais,
nacionais ou europeias qual a sua posição concreta sobre as questões que nos
preocupam.
Além disso, e porque comemos todos os dias, podemos usar cada euro que
gastamos para fins alimentares como um voto que define o que queremos promover e
o que preferimos boicotar. A indústria alimentar é particularmente sensível às posições
dos consumidores e acaba por ouvir, mais cedo ou mais tarde.
Mas tudo isto demora tempo, consome energia e no curto prazo desgasta mais
do que resulta, sobretudo face à dimensão do desafio. Por muito essencial que seja
este trabalho – que é – não podemos descurar a construção no terreno das
verdadeiras alternativas. Se alguma caminho vai mostrar o que é uma agricultura
sustentável e para todos, vai ser o caminho que nós, cidadãos anónimos, podemos
traçar em conjunção de esforços. Os governos, as empresas, as fundações, aqueles
que têm poder político e muito dinheiro, já mostraram do que eram capazes e o
resultado está à vista.
Não é preciso muito para começar. Um terreno baldio pode ser o princípio de
uma horta comunitária. Uma visita à aldeia dos nossos antepassados pode abrir as
portas para variedades regionais desconhecidas. Umas perguntas na Junta de
Freguesia e ficamos a saber onde estão os produtores ecológicos mais próximos, com
os quais podemos estabelecer relações de proximidade e até apoiar através de
ferramentas como a Community Supported Agriculture - agricultura apoiada na
comunidade (www.localharvest.org/csa/). E até um vaso numa varanda é um princípio:
este bocadinho de salsa ou cebolinho que NÓS produzimos torna-se o símbolo da
nossa descoberta do que fica para lá do véu da Matrix alimentar... em direcção a uma
real e total soberania sobre o que comemos.

SIM, NÓS PODEMOS... MAS NÃO VAI SER FÁCIL!


―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

As variedades tradicionais, um legado ancestral para o futuro – José


Mariano, Colher para Semear – Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais

Os nossos antepassados que primeiro se dedicaram à domesticação das 14


espécies animais e vegetais para consumo próprio, legaram-nos um património
agrícola com mais de onze mil anos de existência, o qual não temos tido capacidade
de preservar e manter. Ao longo da
evolução das sociedades e
civilizações humanas a perda de
biodiversidade agrícola e animal,
nem sempre tem decorrido de forma
linear, tempos houve em que esse
legado inicial foi ampliado em muito,
com a utilização de novas espécies
na alimentação humana e com o
incremento da selecção doméstica realizada por agricultores e criadores de gado, cuja
dedicação permitiu apurar novas variedades de culturas e raças distintas a partir das
espécies existentes. Desta forma, todas as regiões do planeta foram sendo dotadas
com plantas e animais domésticos com características que lhes permitiam a
adaptação às exigências de cada meio e estabeleciam a diferença entre as demais
regiões. Tanto as variedades animais como as vegetais começaram por fazer parte
não só da identidade de uma região, mas também, da forma de estar e de ser de um
povo, assumindo assim uma carga cultural distinta do ponto de vista geográfico e
social.
No século XIX com a Revolução Industrial, assistiu-se à mecanização de
grande parte da actividade agrícola e ao abandono progressivo dos campos, aspectos
que contribuíram em muito para desprezar parte do legado agrícola ancestral existente
nos meios rurais. No entanto, foi durante o século XX que se registaram as maiores
perdas de património agrícola e pecuário, devido às políticas agrícolas globais e aos
esquemas de comercialização, que conduziram à industrialização dos sistemas de
produção alimentar, os quais não só privilegiaram um número muito reduzido de
espécimes domésticos (em geral manipulados laboratorialmente), como dificultaram a
coexistência de todo o restante património agrícola ancestral.
A Colher para Semear, em Portugal, a exemplo de muitas outras associações
congéneres noutros pontos do globo, tem por missão procurar e inventariar o
património agrícola nacional, implementando acções que promovam não só a sua
divulgação junto de todos os interessados, mas também, disponibilizar espécimes para
assegurar a sua continuidade nos campos de cultivo. Pretendemos desta forma que o
legado agrícola ancestral perdure no tempo e esteja disponível para as gerações
vindouras, pois estamos convictos da sua importância para enfrentar os tempos de
mudança que se avizinham, quer sejam alterações climáticas, ambientais, económicas
ou sociais.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Alimentos saudáveis: que modelo de produção agrícola? - João Vieira, 15


agricultor, Associação de Agricultores do Distrito de Lisboa (CNA – Confederação
Nacional de Agricultores)

O actual modelo de produção agrícola produtivista e industrializado


subordinado à lógica do lucro e baseado na teoria fraude da competitividade tem
implícito a negação mesmo da qualidade intrínseca dos produtos alimentares. É
também ambientalmente insustentável.
Está na origem dos escândalos alimentares conhecidos (doenças das vacas loucas,
dioxinas nos frangos, gripe aviaria (vírus Influenza H5N1) e agora gripe porcina ou
gripe A (H1N1). Usa e abusa dos antibióticos na alimentação animal.
É também o modelo dos transgénicos, que não vêm resolver problema
nenhum, antes pelo contrário, vêm criar problemas novos.
Este modelo tem de ser questionado e alteradas as políticas que definem os
produtos agrícolas como matéria-prima e não alimentos!
O modelo que melhor serve a sociedade é agricultura familiar, ou seja uma
agricultura de proximidade, de rosto humano, que faz ao mesmo tempo a ocupação
harmoniosa do território.
As políticas agrícolas que impõem uma drástica diminuição dos preços à
produção forçam ao abandono da agricultura e estimulam o produtivismo, como forma
de compensar rendimentos. A título de exemplo, veja-se o caso da fruticultura no
Oeste!
Verifica-se, contudo, que a baixa de preços na produção nunca foi repercutida nos
consumidores!
É do interesse da sociedade manter um Mundo Rural Vivo, isso só é possível
com agricultores a produzir, até para assegurar a Soberania Alimentar, o que significa
também segurança do ponto de vista do aprovisionamento.
Há uma necessidade urgente de alterar a actual situação, temos consciência
que será necessário tempo, faço então minhas as palavras de Colbert, comandante da
marinha francesa do Século XVIII, que quando lhe disseram que havia falta de
carvalhos para construir barcos e um carvalho levava 200 anos a crescer, respondeu:
“Sendo assim, comecemos já hoje a plantá-los!”
Sensibilizar e esclarecer é uma tarefa fundamental para que cada um dê o seu
contributo consciente e activo para criar a relação de forças necessárias para por
termo ao domínio do actual modelo.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Apresentação da moderadora

16

Fernanda Freitas: Começou a comunicar na rádio. Em 1992, mudou-se para a


televisão, depois na TVI, no CNL, na RTPi e no Canal 21. Daí seguiu para a SIC, onde
se tornou mais conhecida do público ao apresentar o programa Às Duas por Três.
Mais tarde trocou a SIC pela RTP2, para apresentar o Causas Comuns.
Desde 2006 com a Companhia de Ideias, está todas as tardes em directo com os
portugueses na RTP2 através do Sociedade Civil, e aos sábados na RTPN com o
Mais Europa. É editora e apresentadora.

Apresentação dos oradores

Maria Alexandra Santos Azevedo nasceu no Vilar, aldeia do concelho do Cadaval,


distrito de Lisboa, em 2 de Março de 1967.
Concluiu a Licenciatura em Medicina Veterinária, pela Faculdade de Medicina
Veterinária de Lisboa – Universidade Técnica de Lisboa, em 1991, ano em que iniciou
a sua actividade profissional no seu concelho natal, nas áreas de Inspecção Sanitária
e clínica privada de espécies pecuárias e pequenos animais de companhia.
Actualmente é sócia-gerente de uma Clínica Veterinária com sede no Cadaval, sendo
a sua principal actividade profissional a clínica de pequenos animais de companhia.
Desde muito cedo começou a ter preocupações ambientais e em 1993 inicia a
escrita regular de artigos de divulgação e de opinião sobre a temática ambiental,
publicados no Oestescutista (jornal do Núcleo do Oeste do CNE - Corpo Nacional de
Escutas), no boletim da freguesia do Vilar, no Jornal “Quercus Ambiente” e em
diversos jornais da região Oeste. Autora do livro “Organismos Geneticamente
Modificados e Agricultura” publicado pela Plataforma Transgénicos Fora em 2007.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Possui o Estatuto de Formadora na área da educação ambiental, atribuído pelo


Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua em 2003.
É sócia da QUERCUS – Associação Nacional de Conservação da Natureza
desde 1993, exercendo o cargo de vogal suplente da Direcção Nacional desde 2005. 17
É sócia fundadora do MPI - Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente, 6
oficializado em Abril de 2003 (embora tenha iniciado a actividade em Abril de 1999),
onde desempenha funções de Vice-presidente da Direcção desde a sua fundação.
É representante do MPI e da Quercus na Plataforma Transgénicos Fora desde
2005 e 2009, respectivamente. É representante do MPI no CREIAS Oeste (Centro de
Excelência Regional) criado em 2007 no âmbito da década para o Desenvolvimento
Sustentável 2005-2014. É representante-suplente da Quercus no Conselho de
Coordenação da Rede Rural Portugal desde 2009.

Ana Sofia Viana nasceu em Moçambique em 18 de Agosto de 1969.


Concluiu a licenciatura em Economia, pela Faculdade de Economia da Universidade
de Coimbra, em 1992, terminou o mestrado em Comércio Internacional, em 1999 na
Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, e fez uma pós-graduação
em Gestão de Produtos Turísticos, pelo INDEG, estando actualmente a tirar o
Doutoramento em Marketing e Comércio Internacional na Universidade da
Extremadura.
Professora Adjunta na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Instituto
Politécnico de Leiria, da qual é subdirectora, fazendo parte também da Assembleia de
Representantes, do Conselho Técnico Científico e do Conselho Pedagógico da
referida Escola. Foi coordenadora do curso de Gestão Turística e Hoteleira, do curso
de Marketing Turístico e do curso de Gestão do Lazer e Turismo de Negócios.
Participou na organização de várias conferências e seminários e na coordenação de
projectos através da AIRO – Associação Industrial da Região do Oeste.
Membro da equipa coordenadora do CREIAS Oeste.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

18

Margarida Silva. Nasceu em Pombal em 1963. Licenciou-se em Biologia pela


Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra em 1986. Ainda em 1986 entrou
como assistente estagiária para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade
Católica Portuguesa, no Porto, onde desempenha actualmente o cargo de professora
auxiliar e coordena o grupo de estudos ambientais. Completou entretanto o mestrado
e doutoramento na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos da América, onde se
especializou em biologia molecular. Para além das questões relativas aos organismos
geneticamente modificados, intervém igualmente nas áreas de desenvolvimento
sustentável, resíduos e educação ambiental.

O meu nome completo é José Mariano Carapinha da Fonseca, tenho 40 anos de


idade, sou Licenciado em Ensino da Biologia e Geologia (variante Geologia) pela
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e actualmente lecciono na Escola
Secundária Alfredo da Silva, no Barreiro. Sou hortelão amador, tenho uma horta
familiar em meio urbano onde ponho em prática os princípios da Agricultura Biológica
e cultivo variedades regionais.
Nos meus tempos livres, para além da realização de todas as tarefas inerentes
à horta, sou formador em Educação Ambiental no âmbito da Agricultura Biológica.
Trabalho com escolas ao nível da implementação de hortas pedagógicas de cariz
biológico e dou formação a professores nesta área.
Em termos associativos, sou sócio da AGROBIO – Associação Portuguesa de
Agricultura Biológica, onde colaboro na área da Educação Ambiental desde 1998 e
mantenho uma rubrica na revista “Joaninha” com o nome “O Quintal Biológico”, onde
partilho com os leitores as minhas experiências em torno da Agricultura Biológica.
Desde Setembro de 2007 que com o apoio da AGROBIO implemento o curso Horta-
jardim, o qual se destina a amadores que querem praticar os princípios da Agricultura
Biológica. Sou também, sócio da Associação Colher para Semear, onde integro os
corpos directivos desde 2006. Na Colher para Semear, para além das obrigações que
abrangem os dirigentes, colaboro na implementação de oficinas de formação e
encontros sobre temáticas relacionadas com as variedades regionais. Pontualmente
escrevo artigos para a publicação da associação, “O Gorgulho”, focando assuntos
relacionados com Agricultura Urbana, Práticas Agrícolas Sustentáveis, Agroecologia e
Arqueologia Agrícola, temas pelos quais tenho especial apreço.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

19

João Rodrigues Vieira


Agricultor
69 Anos
Membro do Executivo da Direcção Nacional da Confederação Nacional da
Agricultura
Membro do Conselho Económico e Social em representação das Organizações
Representativas da Agricultura Familiar e do Mundo Rural
Presidente da Associação de Agricultores do Distrito de Lisboa
Representante da CNA na Plataforma Transgénicos Fora
Membro da Comissão Nacional do PCP para as Questões dos Pequenos e Médios
Agricultores
Membro da Comissão Concelhia do Cadaval PCP
Membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP
Candidato pela CDU à Assembleia da República pelo Distrito de Lisboa nas
Eleições de 27 Setembro
Perito dos Comités Consultivos da PAC (Política Agrícola Comum)
Foi candidato da CDU à Presidência da Câmara Municipal do Cadaval em 1997 e
2001
Foi membro da Coordenadora Agrícola Europeia.

Contactos:

MPI—Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente

tel:/fax: +351 262 771 060 email: mpicambiente@gmail.com

Web site: http://mpica.info


―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Alimentação,
1ª edição
Agricultura e Transgénicos

28 a 31 de Outubro
Peniche, na Escola Superior de Turismo e
Tecnologia do Mar

2ª Parte
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

ÍNDICE 1

Reportagem ……………………………………………………………... ............................ 2


Conferência e Debate ................................................................................................. 4

Comercialização de produtos agrícolas: o drama actual dos


agricultores, a oportunidade dos mercados locais e o papel dos
consumidores.......................................................................................................7

Variedades tradicionais........................................................................................9

O saber e as gerações. O que fazer quando se está motivado..........................9

As hortas domésticas e biológicas.....................................................................10

Alimentos transgénicos …………………………………………………………....10

Regimes alimentares …………………………………………………………….... 12

Conclusões ............................................................................................................... 14
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

REPORTAGEM
Decorreu de 28 a 31 de Outubro a primeira edição do Ciclo de Cinema
―Alimentação, Agricultura e Transgénicos”, na Escola Superior de Turismo e 2
Tecnologia do Mar, em Peniche,
As exibições de filmes
realizaram-se de 4ª-feira, dia 28, a 6ª-
feira, dia 30, pelas 21.30, e ainda no
sábado à tarde antes da conferência e
debate de encerramento que teve início
cerca das 16.15.
Na 5ª e 6ª-feira realizaram-se
degustações de alimentos biológicos
com a colaboração dos alunos dos 2º e
3º anos do curso de Restauração e
Catering sob a orientação dos docentes Cátia Siopa e Chefe Samuel Sousa,
respectivamente, e do 2º ano de Gestão Turística e Hoteleira sob a orientação do
Chefe Luís Machado, ministrados na ESTM, e que fizeram as delícias dos presentes.

No sábado degustou-se maçã biológica produzida no campo experimental da


APAS – Associação de Produtores Agrícolas da Sobrena (associação igualmente
parceira do CREIAS-Oeste).
Para encerramento deste evento realizou-se uma conferência e debate que
contou com a presença como oradores convidados do Prof. José Mariano Fonseca
(associação Colher para Semear – Rede Portuguesa de variedades tradicionais), do
Sr. João Vieira (agricultor e dirigente da Associação de agricultores do distrito de
Lisboa) e da Prof.ª Margarida Silva (Escola Superior de Biotecnologia – Universidade
Católica do Porto). A moderação foi assegurada por Alexandra Azevedo do MPI, em
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

virtude da jornalista Fernanda Freitas ter sido vítima de um acidente de viação no dia
27 de Outubro, que embora sem grande gravidade a impossibilitou de participar
conforme previsto.
3
À breve comunicação dos
oradores seguiu-se um animado
debate que se estendeu até perto das
20.30, tal foi o nível de interesse e
participação manifestado.

Para o futuro estão previstas


novas exibições dos filmes e está já
em preparação a 2ª edição deste
ciclo de cinema.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

CONFERÊNCIA E DEBATE
Para além do exposto no texto das comunicações contidas na 1ª parte há a
acrescentar mais alguns aspectos referidos pelos oradores na sua comunicação: 4
 As variedades tradicionais, um legado ancestral para o futuro – José
Mariano, Colher para Semear – Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais

A Associação Colher para Semear tem já neste momento no seu catálogo


cerca de 300 variedades de tomate e 400 variedades de feijão.
A couve tronchuda portuguesa é das variedades de couve mais antigas que se
conhece e na Península Ibérica não teríamos muitas espécies de plantas agrícolas,
para além da couve teríamos a cenoura, mas o seu aspecto era muito diferente do
actual (tinha cor branca), a salsa, e pouco mais.
Os portugueses e os espanhóis foram dos povos que mais contribuíram para a
globalização de espécies agrícolas em consequência dos Descobrimentos, mas antes
já os romanos também expandiram muitas espécies, mas em menor escala.
Esta globalização já quase nos fez esquecer o berço das principais espécies
agrícolas, recordemos a título de exemplo que a batata é originária da América do Sul,
o girassol é proveniente da América do Norte, da Europa temos a alface, o berço do
arroz é a Ásia.
A domesticação das plantas por parte do Homem conduziu a que muitas
dependam do Homem para se propagarem, pelo que deixando esta interacção elas
acabam por se extinguir, é o caso por exemplo dos cereais, em que as variedades
ancestrais não retinham o grão na espiga, pelo que foram seleccionados as plantas
que manifestaram a característica de reter o grão, e deste modo permitir o seu melhor
aproveitamento, mas prejudica que o ciclo de germinação recomece.
Já cultivámos mais de 10.000 plantas, hoje apenas 150 estão na nossa dieta, e
destas apenas 12 são responsáveis por 70% dos alimentos a nível mundial, em
particular 4 que são responsáveis por 50% (arroz, trigo, milho e batata)
É com a preocupação de preservar as espécies e variedades de plantas
agrícolas que surgiu a Colher para Semear há cerca de 3,5 anos e resultou da união
de vários apaixonados pelas variedades tradicionais e suas sementes.
A Associação é já motivo de “inveja” por parte de congéneres europeias, pois
em muitos países já não nada para procurar, como por exemplo na Alemanha, dado o
grau de erosão genética, isto é, perda de agrobiodiversidade provocada pela
industrialização da agricultura naqueles países.
É ambição da Colher para Semear recuperar as variedades tradicionais de todo
o país, que estão na maior parte na mão de agricultores familiares com cerca de 70
anos, pelo que é uma tarefa que tem de ser realizada dentro dos próximos 10 a 15
anos, sob pena de se perderem para sempre muitas destas variedades, pelo que o
tempo está a esgotar-se!
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Mas o objectivo não é guardá-las apenas em bancos de germoplasma, mas


sim cultivá-las, mantê-las vivas nos campos e na memória das pessoas!
Todos os anos a Associação realiza um evento “Ao Encontro da Semente” em 5
que se promove a descoberta de novas variedades (que muitas até se pensavam já
desaparecidas) e a livre troca de sementes.
Muitas variedades têm pouco interesse como fruto, mas quando transformadas
em sumos, por exemplo podem ser muito interessantes, havia variedades que se
conseguiam conservar em determinadas condições, por isso interessa também
recuperar o conhecimento de saber aproveitar todas as potencialidades das
variedades tradicionais.
As variedades tradicionais são extraordinariamente importantes a nível regional
para fomentar o turismo. Tendo em conta que 14% dos turistas internacionais que
visitam Portugal vêm exclusivamente à procura da gastronomia nacional, percebe-se o
potencial que está por explorar com o Turismo gastronómico com a oferta de pratos
típicos confeccionados com os ingredientes provenientes das variedades tradicionais,
vegetais e animais, típicos de cada região.
Um caso de sucesso nesse sentido que é o Festival do Chícharo que se realiza
todos os ano em Alvaiázere que atrai já 3 a 4 mil turistas.
É lamentável que mais facilmente as autarquias despendam milhares de euros
em espectáculos com artistas que podem ser assistidos em qualquer ponto do país e
não apoiem e ignorem o rico património da sua área, como o levantamento das
variedades tradicionais. Essa postura está a mudar nos concelhos em que a
associação começou a fazer esse trabalho, em que perante os resultados os autarcas
já começaram a dar alguma atenção.

 Alimentos saudáveis: que modelo de produção agrícola? - João


Vieira, agricultor, Associação de Agricultores do Distrito de Lisboa (CNA –
Confederação Nacional de Agricultores)

Hoje pede-se aos agricultores que sejam competitivos. É-lhes imposto um


modelo produtivista. Não produção de qualidade assente neste modelo.
A qualidade dos alimentos não é uma preocupação das grandes corporações,
mas o lucro, e cada vez mais lucro, e para isso são precisas matérias-primas ao mais
baixo preço possível. Ora, o preço dos produtos agrícolas não pode ser abaixo do
preço de custo.
É preciso preservar ar espécies agrícolas, mas também outra espécie que está
em vias de extinção, os agricultores, pois estamos a perder conhecimentos que não
estão a ser transmitidos a ninguém.
É precisamente a agricultura familiar, que está a desaparecer, que pode
assegurar melhor qualidade dos alimentos.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Nestes tempos de desemprego a agricultura podia gerar emprego. As notícias


falam das centenas ou dos milhares de desempregados quando uma fábrica fecha,
mas quantos agricultores despede Portugal? Em Portugal desapareceram 2/3 dos
6
agricultores em apenas 20 anos! Há 10 anos havia 30.000 produtores de leite, agora
são 10.000 e com as novas cotas da União Europeia não vão ficar nem metade!
Quanto mais se concentrar a produção de leite, mas a sua qualidade são
passará de um líquido branco, nada mais do que isso, no entanto o produtor é
competitivo!
Há uma grande diferença entre exploração agrícola e empresa agrícola. A
primeira procura a sua sustentabilidade, sobrevivência procurando produzir bem, a
segunda a sua principal preocupação é apenas o lucro, e para obter lucro, vale tudo!
Como se mundializou a produção agrícola. Agora está cotada em bolsa. Há
uma multinacional que controla 75% dos cereais produzidos mundialmente! É um
autêntico colosso económico.
A juntar a tudo isto temos os agrocombustíveis, que de nada têm de “bio” pois
estão a competir com o nosso estômago, ao dedicar produções agrícolas para a
produção de combustíveis.
É pois necessário um novo modelo que preserve as variedades e os
agricultores para termos alimentos saudáveis.

 Alimentação, transgénicos e saúde - Prof.ª Margarida Silva, Escola


Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto

A imaginação humana é enorme e tanto pode ser usada no melhor como no


pior sentido. Os transgénicos são um exemplo dessa imaginação usada no pior
sentido. Para muitos, os transgénicos parecem ficção científica, mas eles já estão nas
prateleiras dos supermercados há cerca de uma década. Mas o cidadão comum
normalmente acha que se já há transgénicos no mercado é porque são seguros, ou
seja, que algum governo se preocupou em saber se eram ou não seguros e só depois
disso é que os aprovou. Mas a realidade é muito diferente.
O que é que se está a passar? Só há variedades transgénicas aprovadas na
União Europeia para cinco espécies de plantas: milho, soja, colza, beterraba e
algodão. A principal característica das plantas transgénicas é a da resistência a
herbicidas, uma outra característica é a capacidade de produzir um insecticida
transformando-se a planta numa planta pesticida. As empresas pretendem novas
autorizações, como para o arroz e o trigo. Querem à viva força colocar mais
transgénicos no mercado. O problema nisto tudo está no sistema europeu de
avaliação prévia da segurança dos transgénicos.
A lei prevê que se façam uma série de estudos, mas a lei não obriga a que haja
uma avaliação independente, ou seja, as empresas que querem vender os
transgénicos é que fazem esses ensaios. Resultado: chegam sempre à conclusão de
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

que está tudo óptimo e seguro! E a Agência Europeia de Segurança Alimentar, cujo
painel para transgénicos é composto por cientistas muitos dos quais recebem
financiamentos dessas indústrias, concorda sempre que os transgénicos são 7
seguríssimos sem fazer qualquer teste adicional nem pedir nenhuma avaliação
independente.
Porque é que as empresas estão tão interessadas em colocar no mercado
variedades manipuladas sobre as quais não existe qualquer garantia de segurança (e
numerosas provas de insegurança)? A razão é simples: ao contrário das variedades
tradicionais, que podem ser trocadas e semeadas livremente ano após ano, as
sementes transgénicas são patenteadas e já não temos o direito de as guardar e voltar
a semear. Ao comprar sementes transgénicas apenas compramos o direito de as
semear uma única vez! Aqui é que reside o grande lucro das empresas: pegam no
património que sempre pertenceu à humanidade, fazem um “passo de mágica” no
laboratório e passam a ser donos desse património.
Quem controla as sementes, controla a comida. E quem controla a comida
pode ter os lucros que quiser, porque nós para comer pagamos o que for preciso.
Uma forma de boicotar o actual sistema alimentar é estabelecendo relações de
proximidade entre consumidores e produtores ecológicos, apoiando os que ainda
existem através de ferramentas inspiradas em modelos como a Community Supported
Agriculture - agricultura apoiada na comunidade (www.localharvest.org/csa) ou as
AMAP - associações para a manutenção da agricultura camponesa (www.reseau-
amap.org).

Do animado debate que se seguiu à breve intervenção dos oradores convidados,


compilaram-se as principais ideias e questões abordadas:

Comercialização de produtos agrícolas: o drama actual dos agricultores, a


oportunidade dos mercados locais e o papel dos consumidores

O Eng.º João Azevedo da APAS – Associação de Produtores Agrícolas da


Sobrena (parceira do CREIAS-Oeste) denunciou que o agricultor hoje em dia está num
grande dilema, pois está na mão da grande distribuição, cujo lema é: ”Preços baixos
sempre e todo o ano!”, e ninguém tem a noção o terrorismo económico que isso
representa.
Está a assistir-se ao monopólio da comercialização, ao desaparecimento do
agricultor intermédio e a começar a agricultura de subsistência.
Quem compra aos agricultores impõe o preço, e se o agricultor reclamar é
completamente cilindrado.
Qual a solução?
A APAS tendo a noção do problema está a tentar implementar um projecto dos
mercados rurais ou de produtores com base na experiência Inglesa. Estes mercados
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

só podem sobreviver se houver clientes e a situação actual só muda se houver


mudança de atitudes dos consumidores.
Isto pode ser muito bonito, mas a que preço? O consumidor pode comprar
produtos biológicos, por exemplo, ao mesmo preço ou a preço inferior do que nas lojas 8
e o agricultor receber um preço mais justo, nestes mercados. A ideia é evitar os
intermediários.
O Eng.º João Azevedo apelou à plateia para privilegiar os mercados de
produtos produzidos localmente sempre que possível. Advertiu que os mercados
existentes na região que se realizam apenas um dia por mês, e apenas no Verão não
são uma alternativa e o futuro para os agricultores.
Maria de Jesus Henriques confessou ter visitado o primeiro mercado rural do
Bombarral, mas não os seguintes, porque foi concretamente à procura de peras
Lawson e as que encontrou tinham sido colhidas demasiado cedo e questionou como
é que se vai controlar os agricultores para a apanharem a fruta na altura certa.
Maria João Ferreira Lopes lamentou que há agricultores que se aproveitam do
termo “biológico” para pedirem mais dinheiro pelos seus produtos, sabendo que o não
são.
O Engº João Azevedo compreendeu a crítica, de facto, nos mercados que se
dizem de produtores, mais de 50% dos produtos não são produzidos localmente ou
não são do produtor que os está a comercializar, além disso não há controlo de
qualidade, sabendo-se que há um uso muitas vezes desregrado dos pesticidas, por
exemplo.
A filosofia do projecto de mercados de produtores que a APAS pretende que
seja implementado é precisamente a de dar garantias aos consumidores da origem
dos produtos e da sua qualidade. Pretende-se criar uma imagem e um local
identificado para os produtos locais com qualidade ou os produtos biológicos.
A pêra Lawson tem pouca capacidade de conservação, por isso o mercado só
privilegia as variedades que se conservam mais tempo, pelo que apenas os mercados
de proximidade permitirão ressurgir as variedades tradicionais.
Relativamente ainda a esta questão o Prof. José Mariano Fonseca referiu que
nós, consumidores, somos os principais culpados pela actual situação e agora temos
de ser nós a ajudar a melhorá-la. Assim, temos também de ser nós a dizer ao
agricultor que não apanhou a fruta na altura certa, temos de ser mais pró-activos.
No hipermercado a fruta também é apanhada cedo, mas são-lhe aplicados
produtos químicos para que amadureça!
Continuou dizendo que às vezes as pessoas têm as variedades, mas já não
sabem como manipulá-las. Esses saberes também precisam de ser recuperados.
A moderadora do debate, Alexandra Azevedo, reforçou que a fruta vendida nos
hipermercados, na sua maioria, é colhida demasiado cedo para suportar o tempo de
armazenagem e o transporte demasiadas vezes de longa distância. A edição de
Setembro de 2004 da Revista The Ecologist publicou diversos trabalhos de jornalismo
de investigação absolutamente demolidores sobre a má qualidade dos produtos que
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

são vendidos nos hipermercados em Inglaterra (bom seria que se fizesse um


levantamento semelhante em Portugal). Concretamente, no que diz respeito à fruta,
quem quiser comprar fruta colhida no momento óptimo em termos das suas 9
qualidades organolépticas e nutritivas terá de as pagar mais caras, ou seja, comer
fruta colhida no momento de maturação ideal é um luxo para os consumidores das
grandes superfícies!
João Rosa considerou que os produtores conscientes deviam reunir-se para
terem dimensão e apresentar-se no mercado.

Variedades tradicionais

Helena Marques perguntou qual a reacção dos agricultores tradicionais ao


trabalho da Colher para Semear, tendo o Prof José Mariano Fonseca respondido que
o levantamento das variedades tradicionais está a ser realizada por praticamente uma
única pessoa da associação, José Miguel Fonseca – presidente da associação, ex-
agricultor e que agora se dedica exclusivamente à associação, e do seu contacto com
os agricultores a primeira reacção é a de que “eu não tenho variedade nenhumas”, ou
seja, os agricultores menosprezam as variedades que cultivam fruto também da ideia
de “modernidade” que lhe é incutida levando-os a considerar estas variedades
desprezíveis, mas depois de se criar alguma empatia, eles acabam por mostrar o que
têm e tem-se vindo a descobrir autênticas preciosidades!
O Prof. José Mariano Fonseca lamentou que as variedades tradicionais
estejam impedidas legalmente de serem comercializadas, porque só podem ser
comercializadas as variedades que estejam inscritas no Catálogo Nacional de
Variedades Agrícolas, mas para isso têm de ter um grau de homogeneidade de cerca
de 98%. Um novo Decreto-Lei publicado recentemente (DL n.º 257/2009, de 24 de
Setembro) permite alargar a inscrição no catálogo de uma variedade que apresente
uma variabilidade até 10%, mas ainda assim não satisfaz, porque nenhuma variedade
tradicional tem essa variabilidade. As variedades tradicionais são livres, a variabilidade
é enorme, e é precisamente neste facto que está a sua riqueza, pois assim poderão
mais facilmente manifestar características que melhor se adaptem às condições que
tenham de enfrentar!

O saber e as gerações. O que fazer quando se está motivado

Maria João Ferreira Lopes lamentou que as pessoas mais velhas têm já muitas
ideias erradas. Lamentou ainda que as pessoas em geral não têm consciência do que
se está a passar, mesmo as pessoas que trabalham no sector da saúde (médicos,
enfermeiros, etc), que dão mais valor ao aspecto exterior e não ao conteúdo dos
produtos. Pergunta o que é que poderá ser feito para as pessoas serem mais
conscientes sobre o que se passa à volta delas.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Alexandra Azevedo desabafou dizendo que essa é a sua pergunta de todos os


dias e procurando responder referiu que eventos como este, o ciclo de cinema, e
outros que o MPI – Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente tem 10
organizado como o jantar ecológico e saudável com projecção de filme, projecção de
filmes seguido de debate, e eventos que se pretende organizar no futuro, como novas
edições do ciclo de cinema, mais jantares e oficinas de formação, espera que sejam
bons contributos.
José Mariano Fonseca referiu que nas pesquisas que tem feito em alfarrabistas
se apercebeu da propaganda aos pesticidas e aos adubos químicos que foi editada
nos anos 50 e 60 e tendo em conta que muitas vezes era essa a principal leitura que
as pessoas faziam até porque era distribuída gratuitamente, não é de admirar os mitos
que se criaram nas mentalidades de que “sem química não há agricultura”. O nosso
exemplo é muito importante, testemunhando que quando se instalou na Moita, era o
único a fazer agricultura biológica e os seus vizinhos não acreditavam ser possível,
mas hoje já lhe vêm perguntar como é que ele faz.
Johan Niels referiu que não devemos apostar apenas nos nossos hábitos
individuais, precisamos de movimentos, de activismo, de cooperar. Nós não vamos
conseguir a boa agricultura se continuar a agricultura com transgénicos, porque não é
possível a coexistência. Os consumidores não querem OGM, mas muitos os governos
não respeitam essa vontade, por isso há um problema de democracia. É importante
sabermos o que os políticos estão a fazer.

As hortas domésticas e biológicas

Paulo Diogo, representante da Minhocoeste, confessou-se hortelão aficionado


e referiu que na sua opinião há demasiada relva e piscinas nos quintais ao invés de
hortas. As hortas podem desempenhar um importantíssimo papel de tratamento anti-
stress, produção de alimentos saudáveis e baratos e contribuir para a redução dos
lixos que colocamos nos aterros sanitários através da utilização de todos os resíduos
orgânicos na produção de fertilizantes por processo de compostagem, ou melhor
ainda, por vermicompostagem.

Alimentos transgénicos

Lara Barroco, aluna do curso de Biotecnologia da ESTM de Peniche,


questionou porque é que só se escolheram 5 espécies de plantas alimentares para
criação de variedades transgénicas. Referiu ainda o que lhes foi transmitido nas aulas
acerca do arroz dourado, em que esta variedade de arroz transgénico foi criada com o
objectivo de contribuir para o combate à carência em vitamina A.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

Helena Marques pediu que se explicitasse melhor se os transgénicos são ou


não prejudiciais à saúde.
A Prof.ª Margarida Silva começou por referir que nos EUA há também árvores
11
11
transgénicas (ameixeiras, papaieiras). As empresas têm mais variedades
transgénicas, mas não estão a ser comercializadas porque o mercado tem mostrado
resistência. Introduzi-los no mercado implica cumprir uma obrigatoriedade de
segregação (entre transgénicos e não transgénicos) que raramente é atingida e
frequentemente resulta em contaminação.
Por exemplo, no Canadá, desde 2001 que foi proibida uma determinada
variedade de linho transgénico. As sementes de linho, recorde-se, são usadas por
exemplo no pão de cereais. Mas apesar da proibição esse linho transgénico, que
também não está autorizado na União Europeia, apareceu em mais de 20 Estados-
Membros em lotes importados do Canadá. Em poucas semanas as exportações do
Canadá para a UE colapsaram e os canadianos perderam um dos seus mercados
mais importantes. O prejuízo para os agricultores é muito grande. Já aconteceu a
mesma coisa nos Estados Unidos com o arroz transgénico, e é inevitável que continue
a acontecer em cada vez mais sementes e países. Um dos objectivos das empresas
parece ser contaminar primeiro e forçar a legalização a seguir, face ao facto
consumado e à dificuldade de encontrar sementes limpas (não contaminadas por
transgénicos).
Os países que tiverem a noção dos riscos de perda de mercados não permitem
o cultivo de transgénicos!
Acerca da questão levantada sobre se existem transgénicos bons, pode dizer-
se que o arroz dourado costuma ser o exemplo mais frequentemente apontado. No
entanto neste caso estamos a falar de algo que ainda nem sequer é comercializado.
Existe de facto um grande problema de carência de vitamina A, que leva à cegueira de
milhares e milhares de crianças em todo o mundo, mas a quantidade de pró-vitamina
A presente neste arroz transgénico é tão pequena, que seria necessário a uma mulher
adulta comer 9 kg de arroz cozido por dia para obter a quantidade necessária desse
precursor da vitamina A!
Os milhões e milhões que foram gastos na pesquisa do arroz dourado teriam
sido melhor empregues no apoio às populações afectadas de forma a aprenderem a
diversificar a sua alimentação e a cultivar algumas plantas naturalmente ricas nos
nutrientes que resolvem a cegueira e muitas outras deficiências. Seria ainda mais
vantajoso a distribuição de terras para cultivo, mas isso não é uma oportunidade de
negócio para as empresas!
Criar transgénicos sob o pretexto de corrigir carências nutricionais é uma
falácia, então teríamos de criar transgénicos que corrigissem mais de uma deficiência,
é esse o caminho que queremos, ou queremos uma dieta variada?
Relativamente à segurança ou não dos transgénicos, é preciso ter em atenção
que uma coisa é comer transgénicos um dia, outra coisa é comer durante anos. A
nossa lei refere que é necessário realizar estudos de longo prazo, mas não há um
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

único alimento transgénico no mercado que tenha sido sujeito a essa avaliação!
Também refere que é necessário fazer testes intergeracionais, o que uma vez não é
aplicado.
O que é que se sabe em relação aos transgénicos que estão no mercado? 12
Bem, temos de saber a quem perguntar. Se formos perguntar às empresas a resposta
é que não há problema, se formos perguntar aos cientistas independentes a resposta
já será de que há demonstração de impacto na saúde! Sobre alguns sabemos alguma
coisa, mas sobre outros não sabemos nada, porque não financiamento suficiente para
pesquisas independentes.

Regimes alimentares

Joana Simões, da CREA Caldas da Rainha pela Ética Animal, questionou se


devemos beber leite, pois o Homem é o único animal que continua a beber leite na
idade adulta, além disso, há muitos outros alimentos mais ricos em cálcio do que o
próprio leite, como os bróculos e a couve, e pessoas que toda a vida beberam leite na
quantidade recomendada para evitar a osteoporose, afinal não a conseguiram evitar.
O Prof. José Mariano Fonseca considera que devemos de facto diminuir o
consumo de carne e produtos de origem animal, mas seja qual for o regime alimentar
que adoptemos devemos ser bem aconselhados, pois conhece casos de graves
deficiências em pessoas com regimes vegetarianos. Considera ainda que as raças
autóctones de animais também são um património a preservar. O próprio presidente
da Colher para Semear que é vegetariano há 30 anos considera que a riqueza do
Homem está também na variedade das opções que faz.
Ricardo Petinga, da CREA Caldas da Rainha pela Ética Animal, manifestou
que na sua opinião é condenável olhar para um animal com o objectivo de se servir
dele, e não como um ser que merece uma vida digna.
A Prof.ª Margarida Silva confessou já ter sido mais dogmática em matéria de
opções alimentares no entanto, afirmou, as pessoas dos países ricos não têm o direito
de consumir tantos recursos naturais que o planeta entra em colapso e quase 80% da
população, os que vivem nos países pobres, não têm acesso ao minimamente
indispensável. Acontece que a pecuária intensiva é dos maiores responsáveis pelas
alterações climáticas, uma desestabilização do planeta que está a pôr em causa a
nossa própria sobrevivência. É fundamental que os ocidentais reduzam drasticamente
o seu consumo de carne e de produtos de origem animal para aliviar a pressão que se
faz sentir a todos os níveis. Além disso seria altamente recomendável, para as poucas
vezes em que se optar por carne e outros produtos de origem animal, escolher
produtos biológicos embora sejam mais caros.

Para encerrar o debate a moderadora, Alexandra Azevedo, agradeceu o


interesse e a resistência dos presentes, fez votos de encontrar os participantes neste
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

ciclo de cinema em futuros eventos, desafiou ao contributo activo de cada um para


melhorar a actual situação e leu duas pequenas histórias divulgadas por Mário Martins
na lista virtual ogm_pt@yahoogrupos.com.br:
1- 13
Cada vez que o comprador vem fingir que negoceia ali com o vizinho produtor
de cerejas há uma conversa de surdos.
Comprador – Isto está mal, não se vendem, estragam-se mais de metade.
Produtor de cerejas – Pois está. Eu é que pago a contribuição da terra; eu é
que as cavo, rego, podo e apanho e você é que tem dois carros, casa e apartamento
na cidade.

2-
Um, julgamos que médico, parava junto ali da vizinha que apascentava a
cabrita.
Médico – Venda-se lá o cabritinho.
A vizinha que apascentava a cabrita – Não posso. Não tem dinheiro para a
pagar.
Médico – Como assim? Tenho, tenho.
A vizinha que apascentava a cabrita – Quanto é que o senhor ganha?
Médico – Mais ou menos 150€ à hora.
A vizinha que apascentava a cabrita – Está a ver, não tem. Gasto todos os dias
duas horas a tratar da cabrita, há já um ano. Faço um trabalho que o senhor não quer
fazer. Tenho de lhe levar 200€ à hora. Está a ver, não tem mesmo dinheiro para a
pagar!

Contactos:

MPI—Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente

tel:/fax: +351 262 771 060 email: mpicambiente@gmail.com

Web site: http://mpica.info


―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

CONCLUSÕES
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Longe de se esgotar o assunto, podemos salientar como principais questões
abordadas neste evento, as seguintes:
- A industrialização da agricultura e da pecuária tem conduzido ao drástico
desaparecimento de produtores (e concentração não apenas da produção, mas
também da distribuição e da comercialização de alimentos por grupos económicos
cada vez mais poderosos), à introdução de cultivos com variedades transgénicas, ao
drástico desaparecimento de variedades agrícolas tradicionais, à diminuição da
qualidade dos alimentos e a grandes impactos ambientais.
- Consumo de carne e produtos de origem animal de tal modo excessivo nos
países mais desenvolvidos que a produção pecuária intensiva é a maior
responsável mundial pelo aquecimento global, aspecto não focado no filme de Al
Gore “Uma Verdade Inconveniente”. Por outro lado, esse consumo excessivo é ainda
um das causas para muitas das doenças que estão a aumentar, como alguns tipos de
cancro e problemas cardio-vasculares.
- A ameaça dos transgénicos é uma questão muito séria e real. Para os
agricultores, devido às patentes ficam reféns das empresas multinacionais que
produzem e comercializam sementes transgénicas, e sofrem prejuízos e perda de
mercados devido à contaminação das culturas convencionais e biológicas. Para o
ambiente, pela contaminação por pesticidas, em particular dos herbicidas que
aumentou com a introdução dos transgénicos, danos em espécies não-alvo e à
poluição genética. Para os consumidores, pelos danos na saúde já identificados em
estudos independentes, mas que não impediram que os transgénicos continuem a ser
comercializados.
- A redução do consumo de carne, a produção em modo biológico, os
mercados de proximidade entre produtores e consumidores são alternativas e
possíveis soluções para os problemas identificados, competido a maior
responsabilidade aos consumidores para estas mudanças, pois serão as suas opções
do dia-a-dia, ou seja o seu voto através da carteira que irão ditar o futuro do sistema
que nos alimenta.
- As variedades tradicionais são um património por explorar e podem
potenciar o turismo gastronómico.
- Os mercados de produtores têm de dar garantias de qualidade e
autenticidade aos consumidores e estar disponíveis todo o ano para serem uma
alternativa eficaz.
―Alimentação Agricultura e Transgénicos‖

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