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Cap. 5

a estetização da vida

cotidiana

FEATHERSTONE, M. Cultura de Consumo e Pós-

Modernismo Capítulos 5 e 6

Cultura e Globalização Mestrado Indústria Criativa

questões abordadas pelo autor

Se o termo modernité assinalava a experiência de modernidade e as novas formas de sociabilidade surgidas nas cidades modernas, como Paris, no fim

do século XIX, a pós modernidade pode ser aquela baseada nas mudanças percebidas nas experiências culturais e modos de significação; na estetização da vida cotidiana e a transformação da realidade em imagens.

“ a perda do sentido de historia e a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos.”

Jameson

o apagamento da fronteira entre o real e a imagem, a hiper realidade.

Estes elementos são facilmente identificados na profusão de imagens propagadas pela mídia e na cultura de consumo, encontrada nos grandes centros urbanos.

É notável a miscelânea urbana de estilos e ambientes, o ecletismo estilístico da paisagem urbana.

É notável a miscelânea urbana de estilos e ambientes, o ecletismo estilístico da paisagem urbana.

estetização da vida cotidiana em três aspectos

1) Desafio direto contra a obra de

arte |

questionamento de sua posição de

respeitabilidade

no museu e na academia.

Sobre a estetização da vida cotidiana o autor aborda Quebra das fronteiras entre arte e

Sobre a estetização da vida cotidiana o autor aborda

Quebra das fronteiras

entre arte e vida

cotidiana e o colapso

das distinções entre

alta cultura(museus) e cultura popular ou de

massa, uma mistura de

códigos.

designa as

subculturas

artísticas

que

produziram os

movimentos

surrealista, dadaísta e de vanguarda histórica

dualidade em sua essência: um impulso

totalmente destrutivo e, ao mesmo

tempo, uma criatividade que parecia ilimitada.

A arte

pode

estar em

qualquer

lugar

Os artistas desafiavam as noções básicas do mundo artístico: menosprezavam o tradicional da estética e

Os artistas desafiavam as noções básicas do mundo

artístico:

menosprezavam o tradicional da estética e também a

expressividade de uma

obra de arte. Ou seja, promoveram a

não-estética, a

autocontradição, o

ilógico e o descartável.

A arte podia também ser

encontrada na nãoobra, como na instalação, na

performance, no happening,

no próprio corpo.

Muitas das técnicas do

surrealismo e do dadaísmo

foram mais tarde usadas pela publicidade e pela

mídia na cultura de

consumo

das técnicas do surrealismo e do dadaísmo foram mais tarde usadas pela publicidade e pela mídia

2) A estetização

da vida

cotidiana pode designar o

projeto de

transformar a

vida numa obra

de arte.

A vida deveria ser abordada

de forma estética.

na virada de século A boa vida era aquela vivida na busca de alargar o

na virada de século

A boa vida era aquela vivida na

busca de alargar o eu, viver

sempre novas possibilidades.

A pessoa fazia de seu corpo, de seu dia a dia, seu

comportamento, de toda sua

existência uma obra de arte.

(Shusterman, 1988)

Concepção de

modernidade de Baudelaire >

figura central

“ o dândi, que faz de seu corpo, seu

comportamento, seus

sentimentos e paixões, sua própria existência, uma obra de arte”

“ procura de uma superioridade especial mediante a construção de um estilo de vida exemplar,

“ procura de uma superioridade

especial mediante a construção de

um estilo de vida exemplar, na qual uma aristocracia de espírito se

manifestava no desprezo às massas e

na preocupação heroica com a realização da originalidade e

superioridade no vestuário, na

conduta, nos hábitos pessoais e até no mobiliário.”

estimulou o desenvolvimento das contraculturas artísticas, a bohème e as vanguardas de Paris (da metade

estimulou o desenvolvimento das contraculturas artísticas, a bohème

e as vanguardas de Paris (da metade

até o final do séc XIX) |

fascínio com a estetização da vida

nos escritos e nas vidas de Balzac

, Baudelaire

O duplo foco das contraculturas artísticas e intelectuais, numa vida de consumo estético e na

O duplo foco das contraculturas artísticas e intelectuais, numa vida

de consumo estético e na necessidade

de dar à vida uma forma que proporcionasse prazer estético,

deveria ser associado ao desenvolvimento do consumo de

massa em geral, à busca dos novos gostos e sensações e à construção de estilos de vida distintivos, que se

tornaram aspectos centrais da cultura

de consumo. (Featherstone, 1987)

3) O terceiro sentido da

estetização da vida

cotidiana designa o rápido fluxo de

signos e imagens

que saturam a vida cotidiana na sociedade contemporânea.

aparece de maneira forte a teoria do fetichismo

da mercadoria de Marx e a transformação da

mercadoria em signo.

A enorme manipulação de imagens por parte da

mídia e a comercialização das imagens geram uma constante reativação de desejos por meio de imagens.

a sociedade de consumo não é somente a divulgadora de um materialismo dominante, pois ela própria também apresenta às pessoas e as confronta com imagens sonho que estetizam e romanceiam a vida real.

As imagens tem um papel central na cultura do consumo.

A arte perde sua aura de superioridade e respeitabilidade e tudo passa a poder ser

A arte perde sua aura de

superioridade e respeitabilidade e tudo

passa a poder ser

encarado como arte

(produtos de vida cotidiana são hoje vendidos como arte, desde canetas e facas a

moveis, tudo passa a ter por trás um conceito, um design, uma pouco

desta antiga aura sagrada da arte.

Um outro bom exemplo é a moda, com estilista querendo ser identificados como artistas e

bolsas e sapatos que

podem ser encarados com objetos “de arte”.

A fascinação estética está

em toda parte. O banal e

diário é

classificado como arte e se torna estético.

SARA RAMO - instalação, chamada Making Worlds” apresentada na 53° Bienal de Veneza, em 2009.

A vida cotidiana foi tomada pela dimensão simulacional do hiper – realismo. A contradição entre

A vida cotidiana foi tomada pela dimensão simulacional do hiperrealismo.

A contradição entre real e imaginário é suprimida.

Rommulo Vieira Conceição - 10ª Bienal do Mercosul Obra do artista explora relações entre a percepção do espaço e a condição do homem contemporâneo

As simulações aparecem em todo lugar, a própria cidade se renova através de simulações, de

ambientes simulados

com o uso de imagens.

O próprio museu tenta atrair e formar um novo publico através de uma transformação em espaço de espetáculos, ilusões, sensações e montagens.

Novos espaços e

realidades se constroem pela simulação e uso da imagem.

A estética moderna desenvolveu-se a partir do séc. XVIII, e uma tradição surgiu após a Critica do juízo estético de Kant, na qual a

característica distintiva do julgamento de gosto estético é o desprendimento-dessa perspectiva, tudo

pode ser observado de um ponto de vista estético, inclusive qualquer coisa cotidiana.

Esta atitude desprendida, distanciada é observada no flaneur das grandes cidades, que passeia, mergulha, vagueia

com as multidões, mas se mantém

distanciado, as sensações e impressões passam por um filtro.

O flaneur tem atitude desprendida,

observa distanciado. O inverso deste é

o desdistanciamento ou instantaneamento.

Baudelaire

desenvolveu um significado para flâneur de "uma

pessoa que anda pela

cidade a fim de experimentá-la”

Deleuze entra na relação com a estetização

da vida cotidiana e a pós modernidade ele dizia que a obra não é propriedade do autor, ela é um encontro, do autor e do espectador e muda sempre, a cada novo

encontro ela é entendida e apreendida de uma diferente maneira e se faz nova.

O desdistanciamento pressupõe a capacidade

de desenvolver um descontrole das emoções, abrir-se para tudo que o objeto pode provocar.

O artista oscila entre o descontrole

emocional total, o absoluto envolvimento e

o desprendimento completo.

È um descontrole controlado.

modernité

Na modernité , a atitude era de distanciamento. Os flaneurs divagavam através das grandes cidades,

Na modernité, a atitude era de distanciamento. Os

flaneurs divagavam através das grandes cidades, pela

multidão, queriam

transformar a vida em obra de arte.

A concepção era de que os

artistas deveriam olhar

sua própria época, e retrata-la.

Deveria se esforçar para

perseguir uma beleza que

mudava a cada instante, que mudava em uma velocidade cada vez maior.

Na modernité,

a cultura do

consumo já aparecia nos mundos

encantados das

vitrines tornadas arte

e do mundo das

lojas de

departamentos,

materializações

(vide Marx quando elaborou sua teoria sobre o marxismo da mercadoria).

A mercadoria era cultuada como fetiche. A força da arte e sua autoridade se deslocou

A mercadoria era cultuada como

fetiche.

A força da arte e sua autoridade

se deslocou para a indústria, para

a propaganda e as artes

industriais, produzindo uma

cultura de massa.

A realidade e a arte trocaram de

lugar no capitalismo industrial.

O simulacro de Platão virou vida.

A paisagem e artificial.

O mundo é das mercadorias.

A atitude da modernidade em relação a esta estetização é a de distanciamento . O

A atitude da modernidade em

relação a esta estetização é a de distanciamento.

O flaneur e o dandi observam e

apreendem.

O observador é desprendido, e este senso de desprendimento do observador é notado por Baudelaire, Simmel e Benjamin.

É possível mover-se na massa,

deixar carregar-se. Ver o mundo,

estar nele e permanecer escondido dele.

Featherstone mostra como aspectos associados a pós modernidade têm uma base na modernidade. 1. A
Featherstone mostra como aspectos associados a pós
modernidade têm uma base na modernidade.
1. A estetização da vida cotidiana é uma linha
continua entre a modernidade e a pós
modernidade.
2. Os espetáculos simulados do fim do século XX
muito têm a ver com as lojas de departamentos e
feiras descritos por Benjamin e Simmel.
3. A estetização da vida cotidiana é um fio
condutor, diz respeito tanto à modernidade
(atitude distanciada) e a pós – modernidade
(desdistanciamento).

O que muda nos dois períodos é a atitude perante ela.

A modernidade se destaca pela atitude distanciada dos flaneurs , pelo filtro, pelo distanciamento da estetização, enquanto a pós modernidade se caracteriza pelo desdistanciamento/

instantaneamento, pelo mergulho

total instantâneo sem filtros.

As classes

médias o

controle do

carnavalesco

No séc. XIX surgiram

as boemias, que em sua arte e seu estilo de

vida eram

transgressores, viviam fora da sociedade burguesa e se identificavam com os

proletários e a

esquerda.

Hauser (1982) designa os boêmios como o

primeiro proletariado

artístico autêntico, composto por pessoas cuja vida era completamente

insegura.

As boêmias podem ser encaradas como inventoras de “repertórios simbólicos liminares” parecidos com aqueles
As boêmias podem ser
encaradas como inventoras
de “repertórios simbólicos
liminares” parecidos com
aqueles usados nas antigas
formas de carnaval.
com aqueles usados nas antigas formas de carnaval. As boemias e seus movimentos como o surrealismo

As boemias e seus

movimentos como o

surrealismo e o

expressionismo se apropriaram, de certa maneira, de muitas das

inversões e transgressões simbólicas usadas no

carnaval.

O autor sugere que possam remeter aos carnavais da

Idade Media aspectos como a sucessão de imagens desconexas, as sensações,

descontrole emocional e

desdiferenciação, que depois vieram a ser associados ao pós modernismo e à estetização da vida cotidiana.

Featherstone cita Stallybrass e White, em seu livro Politics and poetics of transgression

os autores discutem os

carnavais como festas de

inversão e transgressão

na qual as clássicas distinções superior/inferior,

erudito/ popular, clássico/grotesco são desfeitas,

desconstruidas.

Stallybrass e White também discorrem sobre o papel das feiras e mercados.

Os locais abertos com mercadorias expostas

são espaços de

encontro, de prazer- eram espaços de

transformação popular,

de encontro de

culturas, onde se encontravam habitantes de diferentes espaços.

Trazia a diferença cosmopolitizando” o espaço e as pessoas.

As feiras foram as percussoras das lojas de departamento e exposições do fim do século XIX e os autores presumem que produziam os mesmos efeitos

que estas, de maneira menos

domesticada.

Cap. 6 - estilo de vida

e cultura do

consumo

O autor usa o termo cultura do consumo pra enfatizar que o mundo das mercadorias e seus princípios são fundamentais para a compreensão da atual sociedade.

Há aqui um duplo caráter:

Primeiro, na dimensão cultural da economia, o uso de bens materiais como comunicadores, e em segundo lugar os princípios de mercado que operam “dentro” da esfera dos estilos de vida, bens culturais e mercadorias.

Os bens materiais e sua produção troca e consumo são um

aspecto da cultura contemporânea e como tal só fazem sentido dentro de um todo, em relação aos demais aspectos.

A mercadoria é agora um signo. Isso se deu quando o valor de troca predominou sobre o valor de uso.

A mercadoria foi então transformada num signo, cujo

significado é determinado por sua posição num sistema auto-referenciado de significantes.

O consumo é o consumo de signos. Daí o papel crucial da cultura na sociedade de consumo e na reprodução no

capitalismo contemporâneo. Jamais nenhuma outra

sociedade foi tão visual.

Os bens de consumo passam a ser associados a luxo, beleza, exotismo, escape, fantasia, ficando mais e mais difícil decodificar seu uso original ou funcional.

Os meios de comunicação tem aqui um papel chave.

A televisão produz um excesso de imagens que confunde

nosso sentido de realidade, abolindo a diferenciação entre o real e o imaginário

A noção de que a vida é uma obra de arte recebe uma aceitação mais ampla.

Passa-se a consumir estilo de vida. Este, a

estilização da vida, sugere que as praticas de consumo não podem ser entendidas somente racionalmente.

O que há é um hedonismo calculista.

O estilo passa a ser um

projeto de vida visando a

manifestação da individualidade.

Estão ai incluídas as roupas,

as casas, a comida, o carro.

Tudo entra no pacote do

estilo de vida e pode ser

classificado. São

instrumentos de comunicação.

A cultura de consumo sugere que todos nós podemos nos

aperfeiçoar, melhorar sempre. O consumo é de bens culturais, de

ideias.

A ideia é que através da cultura de consumo se pode ser

livre e ser também um individuo diferenciado.

Em “A Distinção”, Bourdieu afirma que a preferência

por bens culturais funciona como um marcador de classe.

Os grupos dominantes tendem a desejar e consumir o que é

chamado ( Leiss) de bens posicionais- mercadorias cujo

prestigio se dá justamente pela escassez de oferta. Quanto

mais escasso o produto, mais legitimo.

Para os intelectuais e acadêmicos, o

prestigio e a escassez estão

justamente na negação do mercado de bens culturais e da negação da

necessidade de converter capital cultural em capital econômico.

Assinalam assim a aura sagrada e superior

da esfera cultural pela qual transitam.

Os intelectuais contribuem para a reprodução das relações vigentes entre classes e frações de classes.

Compartilham com a burguesia um interesse me conservar o estado corrente das relações sociais, nas quais o capital

econômico se transforma em prestigio

quando transformado em capital cultural.

FIM