Capa

Conrado Orsatti

l

SHELTERBOX Envia socorro para desabrigados em Pernambuco e alagoas

Força amiga no Nordeste

Com ajuda da ShelterBox, rotarianos trabalham para resgatar dignidade dos desabrigados pelas enchentes
Renata Coré* Desde o início de junho, os dois estados receberam um volume atípico de águas. No dia 15, uma terça-feira, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta, seguido de outros três, prevendo chuva forte na região. Segundo o Inmet, o que ocorreu foi que, na madrugada e manhã do dia 17, formou-se uma instabilidade na costa da região Nordeste, provavelmente reflexo de uma frente fria que se dissipara no dia anterior em alto mar, deslocando-se de oeste para leste e atingindo o continente na manhã do dia 17, primeiramente no litoral da Paraíba e depois nos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas e, de forma menos intensa, em Sergipe. Essa instabilidade provocou chuvas intensas, que transbordaram rios e ocasionaram enchentes e desabamentos em várias cidades. De 17 a 19 de junho, choveu no Recife o correspondente a 90% dos 389,6 mm esperados para aquele mês. No município de Surubim, localizado no agreste de Pernambuco, somente no dia 18 choveu 126 mm, superando em 30% o esperado do mês, que era de 97,2 mm. Balanço da incidência das chuvas fortes na região: 95 municípios atingidos, sendo 28 alagoanos e 67 pernambucanos. No cômputo das cidades em estado de calamidade pública, houve 15 em Alagoas e 12 em Pernambuco. Até o fechamento desta edição, quatro municípios alagoanos estavam em situação de emergência

M
16

ilhares de famílias do Nordeste jamais esquecerão o mês de junho de 2010. Infelizmente, não será uma lembrança querida. De uma hora para outra, a população de parte dos estados de Pernambuco e Alagoas viu suas cidades serem levadas pelas águas das chuvas e se transformarem em cenário apocalíptico. No final daquele mês, a Secretaria Nacional de Defesa Civil registrara a existência de 26.618 desabrigados, 47.897 desalojados, 37 mortos e 69 desaparecidos em Alagoas. Em Pernambuco, os números eram de 26.966 desabrigados, 55.643 desalojados e 20 mortos. Agosto de 2010

e, em Pernambuco, 27 continuavam nessa condição. Além disso, segundo o Ministério da Saúde, até o dia 9 de julho, 29 casos suspeitos de leptospirose haviam sido notificados em Alagoas, sendo que um fora confirmado, 21 estavam sob investigação e sete foram descartados. Também naquele estado, foram registrados 13 casos suspeitos de dengue, um caso suspeito de rubéola e 156 casos de doença diarreica aguda. Foram registrados 11 acidentes com animais peçonhentos (55% com escorpiões). Já em Pernambuco, até 12 de julho, haviam sido confirmados 4.830 casos de dengue. Foram notificados também 60 casos suspeitos de leptospirose, com dois óbitos confirmados, dois casos de meningite, dois de gripe H1N1 e 159 de doença diarreica aguda. CatástRofe inevitável? Nas cidades do Nordeste destruídas pelas chuvas, enchentes não são exatamente inesperadas. Em maio de 2009, por exemplo, inundações naquela região deixaram aproximadamente 380 mil pessoas sem casas. Para o meteorologista Luiz Cavalcanti, chefe do Centro de Análise e Previsão do Tempo do Inmet, o que poderia minimizar as destruições e danos causados a cidades atingidas por enchentes seria o desenvolvi-

mento de políticas n O nome ShelterBox é uma junção das públicas que evipalavras em inglês shelter e box, que signitassem ocupações desordenadas e em ficam, respectivamente, abrigo e caixa. Por áreas de risco. isso, pode-se dizer que uma caixa da ShelterA opinião é Box contenha abrigo para dez pessoas pelo compartilhada pelo período de seis meses a dois anos, que é o cientista político Sérgio Abranches, tempo de duração das tendas, dependendo sócio diretor da dos cuidados com ela. cada barraca mede Consultoria Polí25 metros quadrados e é impermeável. Mas tica SDA. “Não é a as caixas contêm ainda mais: livros infantis chuva que mata”, de desenho, lápis e canetas coloridas, cobergarante ele. Para Abranches, um tores térmicos, ferramentas, fogão, panelas, ponto fundamental talheres, canecas e reservatórios de água, é que não se faz preentre outros. Os kits são adquiridos por meio venção no Brasil. A de doações voluntárias de rotarianos de todo consequência disso é que acabamos o mundo e custam US$ 1.000 (aproximadatendo de gastar mente R$ 1.790). mais na reparação dos danos. “Não tem tragédia natural, ela é produzida prevenção e de reestruturação urbapela presença do ser humano”, com- na. Em curto prazo, de acordo com o cientista político, é preciso deterpleta o cientista político. Abranches cita, por exemplo, a minar quais são as áreas de risco no alteração no leito de rios em função país e adotar medidas preventivas, de construções, que podem ser du- reconstituir as margens de rios e plamente nocivas ao meio ambiente: fortalecer a Defesa Civil. além de funcionar como barragens, destroem a vegetação nativa das ajuda pReCiosa margens, que tem o poder de se- A ação devastadora das enchentes gurar a água quando o nível do rio varreu do mapa cidades inteiras, sobe. Ele alerta para a necessidade que terão de ser reconstruídas. Em de se investir em um trabalho de Pernambuco, os municípios mais
Inmet

As caixas da ShelterBox


l

MaPaS METEOROLógicOS do inmet mostram chegada da tempestade ao litoral do nordeste BrAsil rotário

17

Capa
afetados foram Barreiros, Palmares e Água Preta. No Estado de Alagoas, o rio Mundaú inundou a cidade de União dos Palmares e Quebrangulo ficou quase totalmente submersa. Branquinha e Santana do Mundaú também estão entre os municípios que mais sofreram. Diante da situação calamitosa, os rotarianos, como era esperado, não tardaram em estender sua rede protetora do servir sobre as populações vitimadas. Rotary Clubs ajudaram a providenciar água potável, gêneros alimentícios e roupas para quem perdeu tudo nas enchentes. O chamado mobilizou a Família Rotária como um todo. No município paulista de Indaiatuba, por exemplo, o Rotary Club, junto com o Rotaract e o Interact Clubs, e em conjunto com o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, arrecadou pelo menos 1,5 tonelada em mantimentos, roupas e itens de higiene pessoal. No entanto, o número de desabrigados é de tal maneira expressivo que alojamentos chegam a ser mais disputados do que comida, a exemplo do que ocorreu no município pernambucano de Barreiros. Tal necessidade não passou despercebida pelos rotarianos, que se esforçaram e conseguiram a parceria da ShelterBox, organização sem fins lucrativos patrocinada por milhares de Rotary Clubs do mundo para oferecer abrigo às vítimas de desastres naturais e conflitos.

Ainda em junho, a equipe da ShelterBox, composta por rotarianos ingleses, desembarcou no Recife. Aqui no país, o grupo reuniu-se com rotarianos brasileiros e representantes dos governos de Alagoas e Pernambuco para estabelecer um plano de ação. Nos dois estados, eles visitaram as áreas afetadas pelas enchentes e avaliaram os terrenos. O socorro da ShelterBox tem contribuído para resgatar a dignidade dos vitimados pelas enchentes. “Estimamos que cerca de 30 mil pessoas estejam precisando de abrigos”, conta o governador 2009-10

do distrito 4500, Francisco Leandro de Araújo Junior. Em sua primeira ação humanitária no Brasil, a ShelterBox já garantira, até 15 de julho, o envio de um total de 800 caixas para Pernambuco e Alagoas. Na ocasião, 600 haviam chegado ao país e 200 estavam a caminho. Junto aos governos estaduais, os rotarianos viabilizaram a liberação das caixas pelo serviço alfandegário. pRepaRaR o teRReno Quase totalmente destruída, a cidade de Branquinha, em Alagoas, foi a primeira a receber um acampamento da ShelterBox. Duzentas tendas foram montadas em um terreno especialmente preparado. “Há sanitários
Fotos: cortesia Marcos Buim

l

vOLUnTáRiOS da ShelterBox entregam caixas com kits na cidade de União dos Palmares, em alagoas Agosto de 2010

18

l

aciMa à esquerda, a cidade alagoana de Branquinha, uma das mais destruídas pela inundação. ao lado, tendas da ShelterBox ocupam terreno preparado no nordeste o governo do Estado também preparou um terreno seguro para receber as tendas, e instalou inclusive uma delegacia de polícia e um refeitório, onde serve três refeições por dia aos acampados. Entre os dias 15 e 16 de julho, outras 200 barracas chegaram à região, destinadas aos municípios de Água Preta e Palmares. a melhoR foRma de ajudaR Todas as tendas até agora enviadas pela ShelterBox ao Nordeste são muito bem-vindas. No entanto, até o fechamento desta edição, a quantidade conseguida ainda não correspondia àquela que lideranças distritais da região consideram ideal. A princípio, tanto o EGD Francisco Leandro quanto o governador Hugo Dórea estão na expectativa pela obtenção de um total de 3.000 barracas a serem igualmente divididas entre os estados de Pernambuco e Alagoas. O maior empecilho, entretanto, tem sido o baixo estoque da ShelterBox, já que meses antes de socorrer o Brasil a organização levara mais de 35 mil caixas ao Haiti. Por conta disso, os rotarianos têm pedido que os inte-

químicos e redes de água e eletricidade”, esclarece o governador do distrito 4390, Hugo da Cruz Dórea. Em seguida, seria a vez do município de União dos Palmares ganhar um acampamento. Além de receber os voluntários da ShelterBox e coletar donativos para os desabrigados, os rotarianos do distrito têm trabalhando também em outra frente. Os Rotary Clubs de Maceió, Maceió-Farol e União dos Palmares começaram a desenvolver o Programa de Ajuda Humanitário Psicológica, com a assistência dos Rotary Clubs de São Paulo-Butantã e Barueri-Alphaville, do distrito 4610. Os dois clubes paulistas têm experiência no apoio a populações atingidas por situações de catástrofe. “Aproximadamente 40 rotarianos irão a campo para ajudar as famílias e outro grupo capacitará multiplicadores locais. Essas famílias receberão no mínimo um ano de acompanhamento”, revela Dórea. Em Pernambuco, a cidade de Barreiros também tem um acampamento de 200 barracas, já ocupadas. Atendendo à determinação da ShelterBox,

Agência Brasil

Conrado Orsatti

ShelterBox Brasil
n

O socorro da ShelterBox às

vítimas das enchentes em Pernambuco e alagoas foi obtido, em grande parte, por intermédio da ShelterBox Brasil, filial que está em processo de criação no país, como publicado na página 23 da edição de julho da Brasil Rotário. a base brasileira da ShelterBox está sendo instituída com o intuito de agilizar atendimentos futuros e é representada por conrado Orsatti, Marcos Buim, Pedro Paulo gonçalves Serafini, José Luiz Machado e allan Monteiro. interessados em integrar a equipe podem contactar Orsatti pelos e-mails shelterboxbrasil@gmail.com e conrado.orsatti.adv@uol. com.br.
BR

BrAsil rotário

19

Capa
ressados em ajudar os desabrigados em Alagoas e Pernambuco enviem dinheiro para que a ShelterBox possa montar novos kits. “As pessoas às vezes esquecem que o abrigo é mais importante do que enviar cesta básica. Não adianta todo mundo doar a mesma coisa”, alerta o EGD Francisco Leandro. Contando com o espírito solidário brasileiro, o Rotary Club de São Caetano do Sul-Olímpico, em São Paulo, no distrito 4420, ao qual é associado o coordenador geral da ShelterBox Brasil, Conrado Orsatti, abriu uma conta especialmente para receber as contribuições de quem deseja que cada vítima das enchentes encontre um novo abrigo, ainda que temporário. *A autora é jornalista da Brasil Rotário.

Ajudando as vítimas das enchentes em Pernambuco e Alagoas
doações em dinheiro para a ShelterBox: l Banco Bradesco – número 237 agência 0122-8 conta corrente 181.604-7 Rotary club de São caetano do Sul-Olímpico cnPJ 55.059.885/0001-96 Locais de arrecadação de alimentos não perecíveis, água mineral, roupas, cobertores, colchões, medicamentos, kits de primeiros socorros e itens de higiene pessoal e limpeza:
l Rc

de João Pessoa-Bancários, PB Sede do corfaci Rua Esmeraldo gomes vieira, 133
l Paróquia

Menino Jesus de Praga avenida Waldemar accioly, S/n Bancários João Pessoa – PB
l Paróquia

Jesus Ressuscitado avenida Projetada, S/n conjunto anatólia João Pessoa – PB

Culpa do clima?
n na edição de janeiro de 2010, a Brasil Rotário publicou uma reportagem de quatro páginas mostrando como os rotarianos de Santa catarina estavam socorrendo as vítimas das enchentes que atingiram aquele estado, em novembro do ano anterior. desde então, a revista noticiou ações rotárias também nas inundações que acometeram o nordeste e o norte fluminense, em 2009, e as cidades do Rio de Janeiro e niterói, este ano. Um possível aumento no volume e intensidade das chuvas seria sintoma das mudanças climáticas pelas quais passa o nosso planeta? Para o meteorologista Luiz cavalcanti, chefe do centro de análise e Previsão do Tempo do instituto nacional de Meteorologia, não há como garantir que sim. “Têm sido frequentes (as chuvas) porque são fenômenos cíclicos, já ocorreram no passado e tendem a se repetir num futuro que pode ser não muito distante. Sempre se espera um fenômeno meteorológico que já ocorreu no passado. não podemos afirmar, categoricamente, que estejam relacionados com as mudanças climáticas, é preciso um estudo mais profundo, com séries históricas maiores, para uma conclusão final”, explica. O doutor em meteorologia e professor da Universidade Federal de alagoas carlos Molion vai além. Em reportagem publicada na edição de maio-junho de 2010 da revista do conselho Regional de Engenharia, arquitetura, e agronomia do Estado do Rio de Janeiro, o especialista afirma que o aquecimento global gerado pela ação humana difundido nos meios de comunicação de massa não passa de catastrofismo infundado e sem embasamento científico. na edição de janeiro-março de 2010 da revista Bio, o cientista do instituto nacional de Pesquisas Espaciais carlos nobre e o professor do instituto nacional de Pesquisas da amazônia Philip Fearnside concordam que possa haver relação entre as mudanças climáticas e o aumento da intensidade das chuvas, mas não há dados suficientes para afirmar de forma conclusiva. BR

stock.xchng

20

Agosto de 2010

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful