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Maria Madalena

ANNA PATRÍCIA CHAGAS BOGADO

Maria Madalena:
o Feminino na Luz e na Sombra

EDITORA LUCERNA
Rio de Janeiro – 2005
Copyright © 2005 by
Anna Patrícia Chagas Bogado

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Capa:
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B662m
Bogado, Anna Patrícia Chagas, 1973-
Maria Madalena: o feminino na luz e na sombra / Anna Patrícia Chagas Bogado.
– Rio de Janeiro : Lucerna, 2005.
192p. : 21cm. – (Athropos ; 1)
Contém glossário
Inclui bibliografia
ISBN 85-86930-49-0
1. Maria Madalena. 2. Mulheres no Cristianismo. 3. Mulheres e religião. 4.
Princípio Feminino – Princípio Masculino. 5. Psicologia Analítica.
I. Título. II. Série
05-2479. CDD 261.8344
CDU 261.6: -055.2

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Para a amada Dilza, que partiu,
que me ofereceu o útero:
um primeiro lugar para habitar neste mundo,
que era um lugar de amor, proteção e acolhimento.

Para o João Gabriel,


fruto amado,
que ao habitar-me o útero,
fez nascer em mim a “mãe”,
que me ensina, todos os dias, a amar melhor.

Para o Laureano,
o amor que suporta a tempestade,
o amor que me aquece a alma,
o homem que faz sorrir minha mulher.
MARIA MADALENA

Uma mulher ama,


tão loucamente ama,
que pulsa pelos desejos do mundo,
terra fértil nos ciclos naturais,
desejo de fecundar,
céus de mistério, memórias e símbolos:
desejo de desvendar.

Uma mulher bebe da água profunda,


que não se turva,
que no amor se vivifica,
amor dos pés em marcha:
nobre guerreira, doce feiticeira,
gestos suaves, virgem Madalena.

Madalena da beira do rio,


que não pode ser contida,
água das nascentes, de todas as fontes,
intensidade que se derrama em frutos,
filhos, amores.

Amor de Madalena,
Madalena que tudo quer,
Madalena mulher,
penetra o desconhecido
ousa lançar-se no abismo,
e nas entranhas de sua humanidade.

Madalena das catedrais,


dos templos de portas abertas,
dos ventos das primaveras,
que se mudam sempre.
Madalena redentora.

Anna Patrícia

SUMÁRIO
Gratidão ............................................................................................ 11
Prefácio ............................................................................................. 13
Introdução ........................................................................................ 17

PARTE I
O FEMININO COMO SOMBRA

INTRODUÇÃO
O Feminino como Sombra ................................................................ 27

CAPÍTULO 1
As mulheres mitológicas no cristianismo ....................................... 33
Adão, Eva e o pecado original ..................................................... 33
O corpo como sombra: a repressão ontem e hoje ..................... 43
Maria: a Mãe Espiritual .............................................................. 51

CAPÍTULO 2
Maria Madalena e o “feminino pecador” ......................................... 64
A Sombra da Virgem ................................................................... 64
O feminino e o mal para C.G. Jung ........................................... 67
Maria Madalena pecadora .......................................................... 76

PARTE II
O FEMININO COMO LUZ

INTRODUÇÃO
O Feminino como Luz ....................................................................... 97
Maria Madalena: a mulher que nos convida a
ser plenamente humanos ........................................................... 97
CAPÍTULO 3
O Evangelho de Maria: a hermenêutica de Jean-Yves Leloup ..... 102
Evangelhos apócrifos como o inconsciente do cristianismo .... 102
O Pecado: muito além da dimensão sexual ............................. 119

CAPÍTULO 4
Maria Madalena: da pecadora à Iniciada ...................................... 128
As sete etapas arquetípicas na vida de Maria Madalena ......... 128
O desenvolvimento psicológico das mulheres ........................ 142
Jesus e Maria Madalena: um encontro entre o Logos e a Sophia ... 150

Considerações Finais ...................................................................... 163

Notas ............................................................................................... 169


Glossário ......................................................................................... 182
Bibliografia ..................................................................................... 185
G R AT I D Ã O

Ao Jean-Yves Leloup, que me proporcionou, com sua hermenêutica rara e


vasta e sua presença amorosa e inspiradora, este mergulho no universo femi-
nino, através de Míriam de Mágdala.
Ao Roberto Crema, que em sua escuta vasta, foi capaz de ouvir aquilo em
que eu me tornaria, pelos encontros terapêuticos no plano onírico, pelo co-
ração onde se pode navegar.
Ao amado Carlos, meu pai, por me ensinar a amar as palavras e por ter me
iniciado no mundo espiritual.
À Andréa, minha irmã, cuja vocação terapêutica é motivo de inspiração para
mim.
Ao Ênio J. Costa Brito, que preserva, como poucos, seu sorriso e sua huma-
nidade.
À Denise Gimenez Ramos, pelas fecundas discussões em sala de aula e suges-
tões ao trabalho.
Ao Ricardo Hirata, por compartilhar comigo das transformações pessoais
implicadas em lidar com o feminino.
Aos tios Nilza e Toninho, por todo o amoroso apoio, pela presença constante.
Ao Elydio dos Santos Neto, por sua generosidade, por ensinar o caminho.
Ao Pedro Lima Vasconcelos, pelo imprescindível auxílio com os evangelhos
e questões teológicas.
A Patrícia Battonyai, irmã de alma, amiga de todas as horas.
A Maria Marta Alcântara de Oliveira, por toda ajuda e disponibilidade, por
ler o texto e dar ricas sugestões, pela amizade.
A Diva e Evanildo Bechara, por tornarem o livro possível, pela dedicação
amorosa, pela amizade.
Gratidão àqueles que me ensinaram, aos que compartilharam minha
trajetória, os amados amigos, mestres, terapeutas:
Sônia Lindemberg, Eduardo Shinyashiki, Luiz Carlos Garcia, Leda Maas,
Edméa do Rêgo, Roberto Shinyashiki, Rosana Pena, Pierre Weil, André Luiz,
Amanda Ferreira, Cinthia Lourenço, Gisele Siqueira, Jailson de Souza e Silva,
Giovani, Denise e Antônio Ewaldo Rebello, Letícia Bicudo, Rogério Montei-
ro, Alice Mesquita, André Golovati Cursino, Danielly Bellaguarda, Dé surf
(Paulo Roberto Siqueira), Zilda e Adair Almeida, Tadeu Viganó, Américo
Genzini Filho, Fábio Brunelli, Sônia M. Barros Couto (in memorian), Patrí-
cia Nogueira, Maria Inez Romeiro, Cláudio Medeiros (Cuca), Lúcia Lorena,
Ludovina Trombini, Roberto Gerosa, Reynaldo Laforgia (in memorian),
Carlos Renato, Denise Pacheco, Rubens Afonso, Consuelo Biondi (Con),
Toda gratidão aos amigos evolutivos, “pacientes”, e aos alunos, por tudo
o que compartilhamos, pela confiança e pelo crescimento mútuo.

11
PREFÁCIO


Roberto Crema
Do Colégio Internacional
dos Terapeutas – UNIPAZ

No início, apenas uma mulher, vasta e desorientada, possuída


por uma legião de paixões. Mulher de todos os desejos, sem a ne-
nhum se devotar. Em seus seios, todos os sonhos e nenhuma se-
nha, todas as buscas e nenhuma meta. Assim, pecadora por não se
saber e por não ser, os seus dias perdidos se dispersavam nos abis-
mos do não sentido.
Foi quando os seus olhos se cruzaram com o olhar de um ho-
mem inteiro e verdadeiro. Transparente olhar, que exalava melo-
dia de silêncios, louvores a terra e ao céu, tremores de infinito e de
eternidade. Homem louco de um amor devastador, embriagado
de inocência e de mistério. Neste instante numinoso, de maravi-
lha e de terror, ela se converteu ao eixo de seu desejo essencial, até
então desconhecido. Totalmente apaixonada, despossuída dos de-
mônios da distração, dos apegos, desorientação pelo passado e pelo
futuro, deixou-se guiar pelas palavras estranhas deste homem, que
caminhava na areia do mundo sem deixar pegada alguma...
Agora, já discípula, orientou a sua escuta e seus desejos, por
uma íntima e inacessível estrela, indicada por este Mestre do perdão
e da justiça. Eternamente peregrina, com passos suaves e coração
aberto, inventa seu caminho, adivinhando oásis vivos no âmago de
todos os desertos. Socorrida pelo chamado de uma maestria hu-
manamente divina, ela tem um Norte e uma bússola. Ela caminha...
Neste caminhar, descobre o tesouro do Silêncio, mãe de todas
as palavras e ações justas. Olhando para o semblante assombroso
e doce de seu amor e guia, ela contempla e, deste templo meditati-
vo, transpira preces ardentes...
Por habitar na mansão do Vazio fértil e da comunhão, em sua
pele ela sofre a dor que não é a sua, intercedendo pelo seu irmão,

13
14 Anna Patrícia Chagas Bogado

por tudo e por todos. Assim, torna-se canal precioso da lei da mi-
sericórdia...
Foi quando, da abertura de sua vidência, ela vislumbrou o
amanhã doloroso de um luto, tão inaceitável quanto inevitável.
Ajoelhou-se e, com rios de lágrimas, desconsolada fé, lavou os pés
deste homem de fogo e de doçura, enxugando-os com seus desali-
nhados cabelos fartos...
No dia do suplício, quando todos seus amigos e companheiras
fugiram, exceto uma mãe silenciosamente dilacerada e o mais sen-
sível dos amigos, ela se plantou perdidamente no chão. Tomada de
zelo e de agonia, diante de uma cruz iluminada e banhada pelo
sangue do Justo, filho amado do céu e da terra, ela testemunhou a
vitória do Vivo, que matou a morte com um leve Sopro de Amor.
No terremoto de uma sexta-feira, que se transmutou em bênção
infinita para todos os seres de todos os universos...
No Domingo de madrugada, convocada pelo chamado de seu
coração, doente de saudade e de destino, ela procurou o corpo do
Amor de todos os seus amores, para honrá-lo e banhá-lo, uma vez
mais, nas essências de seu cuidado, dedicado e órfão. Diante da
tumba vazia, seu corpo tremeu e seu olhar se agitou pelas brechas
e brenhas. Correu para fora, aflita, afoita, indagando a quem jul-
gou ser um jardineiro, com precisão impecável, Jardineiro, sim,
dos canteiros da plenitude: Dize-me onde puseste o meu Senhor?...
Maria!... foi a resposta, harmoniosa e retumbante, que segue
vibrando no ermo de nossas buscas, anseios e desolações, alma
sedenta de Ser. Oceano de perfume, Maria!...
Rabbuni!... exclamou a mulher maravilhada, jogando-se no solo
para abraçar e beijar pés que já deslizavam em nuvens majestosas
da Ressurreição. Meu querido, meu mestre, meu Deus... meu tudo!
Não me retenhas! Vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo a meu Pai
e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus. Soluçando sorrisos de êxtase,
de apaziguamento e beatitude, ela obedeceu ao inexorável impe-
rativo desta mensagem de libertação: Nada retenhas e não se deixe
reter por nada! Segue seu caminho! Anuncie a Vida! Em marcha!
Maria Ma dalena: o Feminino na Luz e na Sombra 15

E lá se foi Maria Madalena, pelas trilhas ensolaradas de Cristo,


tudo amando e tudo ofertando, mulher de coração de alabastro,
de todos os perfumes!... Sabedoria apaixonada, paixão da sabedo-
ria, uma das mais belas faces da Sophia!...
Na releitura tão sábia e íntima de Jean-Yves Leloup, Maria Ma-
dalena é este feminino plural, síntese de, pelo menos, sete arquéti-
pos: o da pecadora, da contemplativa, da intercessora, da profeti-
za, da acompanhante da passagem, da testemunha da Ressurreição
e, finalmente, da Apóstola dos Apóstolos.
Na atual crise de passagem, pela qual atravessa a nossa huma-
nidade, em processo de transe e de parto, rumo a uma nova idade
da consciência, mais do que nunca precisamos resgatar e honrar a
dimensão vasta e imperiosa do Feminino, Luz e Guia dos tempos
já chegados. Nesta tarefa imprescindível de reconstruir a inteireza
e a grandeza do projeto humano.
Este é o imenso valor desta obra tão oportuna, Maria Madale-
na: o feminino na luz e na sombra. Escrita de forma lúcida e poéti-
ca, enriquecida com aportes de grandes e notáveis pesquisadores,
sobretudo o já citado Leloup, Anna Patrícia nos brinda com uma
obra prima, de sua vasta alma, também de peregrina, das trilhas
abertas e secretas, que conduzem aos horizontes do Ser, do trans-
parecer. Por sombras e luzes, sua sensível inspiração nos leva pelos
labirintos do Anthropos, em cujo abençoado centro, no final de
todos os escombros e encontros, Logos e Sophia dançam, em bo-
das de Vida e de Plenitude.
Neste cansaço de véspera, que não tardem os sinais de um
Novo Dia...
INTRODUÇÃO

Se quisermos compreender o que significa “alma”,


devemos incluir o mundo.
C.G.JUNG1

Quando elegi Maria Madalena como objeto principal deste


estudo, fruto primeiramente do meu processo de crescimento pes-
soal, e depois da grande sedução que ela – enquanto personagem
histórico-bíblica – exerceu sobre mim, não sabia o que se descor-
tinaria.
É relevante dizer que Maria Madalena “apareceu” significati-
vamente em minha vida a partir de um encontro terapêutico com
Roberto Crema, em Brasília, em julho de 1996. Seu apelo simbóli-
co, portanto, me foi oferecido pela escuta terapêutica de Roberto,
e se mantém como resultado de um processo de crescimento indi-
vidual.
O primeiro objetivo era descrever como a história de Maria
Madalena, sendo recontada, resgatava o Princípio Feminino, po-
rém, muitas outras questões foram surgindo, dentre elas algumas
extrapolariam os limites deste trabalho, de forma que elas só pu-
deram ser apontadas.
O fascínio e a atualidade do apelo arquetípico de Maria Ma-
dalena têm algo de muito significativo: ela converge manifesta-
ções e interpretações – que foram lançadas sobre ela ou a partir de
sua história, uma vez que pouco se sabe sobre a vida de Míriam de
Mágdala – de naturezas opostas. Ao longo destes séculos ela foi
caluniada e adorada, sua imagem foi receptáculo de inúmeras fan-
tasias, lendas, distorções, ao mesmo tempo em que foi proclama-
da santa. Esta amplitude de conteúdos simbólicos antagônicos que
foram projetados sobre ela, por si só, fala-nos do apelo universal,
arquetípico, de um fenômeno religioso cuja complexidade exige,
aos meus olhos, uma leitura psicológica.
17
18 Anna Patrícia Chagas Bogado

As questões que só serão apontadas, e que se descortinaram a


partir do trabalho, dizem respeito à necessidade de “redesenhar”,
ou ao menos pontuar algo sobre a história das mulheres dentro da
Tradição Cristã. A esse respeito Elizabeth Fiorenza formula, em
seus estudos, uma importante e nova hermenêutica que busca re-
construir a história cristã primitiva, colocando luz sobre a partici-
pação das mulheres nesta história, a partir do que ela chamou de
uma “teologia feminista”. Esta teologia retira as mulheres da
invisibilidade habitual na qual as exegeses bíblicas e os estudos
sobre o cristianismo as colocaram. Segundo a teóloga2, trata-se de
restituir a própria história das origens cristãs às mulheres.
É preciso dizer que, para mim, a interpretação histórico-so-
ciológica que perpassa todas as reflexões teológico-exegéticas pro-
postas por esta “teologia feminista” não se opõem à forma através
da qual a psicologia analítica recoloca as discussões acerca do Prin-
cípio Feminino, nem é mais consistente ou libertadora do que a
segunda, à qual eu me propus. Na minha relação com a psicologia
sempre tive uma grande preocupação de que as análises simbóli-
cas pudessem – na medida do possível – dialogar com as questões
sociais pertinentes, que nos são também definidoras. Com isto
desejo afirmar que estas abordagens convergem entre si, ora de
maneira complementar, ora de maneira a validar as mesmas ques-
tões levantadas, ainda que por caminhos teóricos distintos.
Além disso, a própria discussão sobre a questão do Feminino
questiona a razão analítica instrumental – embora através de um
caminho diverso daquele proposto desde a escola de Frankfurt – e
o paradigma cartesiano, a partir do qual muitas destas leituras tra-
dicionais exegéticas foram feitas. Esse paradigma é colocado sob
suspeita pela nova hermenêutica, de tal forma que nos obriga, na
análise da psicologia profunda a, indo além do determinismo ra-
cionalista, estar constantemente revendo os pressupostos teóricos
através dos quais vemos o mundo e o interpretamos.
Jung afirmou, já no início dos seus trabalhos, que toda a psi-
cologia, inclusive a dele, teria um caráter de confissão subjetiva3.