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Contrato em jogo

Os problemas em licitações e a moralidade


administrativa no país
Por Ana Rita Tavares

Que relação existe entre o lamentável e cotidiano fato de pessoas revirando as lixeiras das
nossas portas e o instituto da licitação? Muito mais que matéria de natureza jurídica,
licitação é assunto que diz respeito a cidadania. E diante de tanta corrupção praticada nos
procedimentos licitatórios, impõe-se discutir amplamente a imprescindível aplicação do
princípio constitucional da moralidade e outros que impeçam a utilização desvirtuada de tão
importante elemento vertido do Estado Democrático de Direito.

Imperioso é propugnar pela urgente conscientização de todos os que participam desse


mecanismo pré-contratual na Administração Pública, objetivando tornar concreto o
propósito do legislador constituinte, e também do ordinário, de fazer da Licitação um
instrumento de segurança para os administrados - que ofertam seus produtos, serviços e
mão-de-obra - e para o próprio Poder Público que os contrata.

Como se sabe, licitação é o procedimento administrativo utilizado pela Administração


Pública para escolher a proposta mais vantajosa com vistas ao contrato que esta quer
celebrar. Logicamente, primeiro faz-se a licitação, depois firma-se o contrato.

O procedimento licitatório, via de regra, é conduzido por uma Comissão de Licitação


(permanente ou especial), integrada por três membros titulares e seus suplentes, que, após
obter a competente autorização, dá início ao certame (como também é chamado),
convocando os interessados, através da carta-convite, ou do edital, a apresentarem suas
propostas, e daí por diante realizando as sessões, públicas por determinação legal, com a
lavratura de ata, procedendo às fases de habilitação, julgamento e classificação das
propostas, com poder de "vida e de morte" sobre os licitantes.

É muito comum a formação de Comissões por servidores despreparados para atuar nas
licitações. É absurdo, mas é verdade que a grande maioria não detém conhecimento técnico
suficiente para conduzir esse importante processo que vai decidir, afinal, o contrato que o
Poder Público haverá de firmar com o particular, muitas vezes envolvendo expressivo
volume de recursos financeiros.

A rigor, observa-se usual desinteresse da Administração Pública de aprimorar a condição


técnica daqueles servidores, reclamando, esse comportamento administrativo, a assunção de
nova diretriz que transforme o caminho desprestigiado em prioridade necessária e útil.
Deve também residir na lista de preocupações da Administração o suporte estrutural
suficiente para que as Comissões que realizam grande número de licitações possam
desenvolver o serviço a contento, sem atropelos nem vicissitudes materiais e funcionais.

Dessa conjuntura deficiente resulta, por exemplo, o cerceamento de direitos dos licitantes,
freqüentemente impedidos de registrar em ata os seus protestos, tendo que ir ao Judiciário
para fazerem valer direitos pacificamente reconhecidos pela legislação, em sede doutrinária
e jurisprudencial.

A Lei nacional de Licitações nº 8.666/93, adotada generalizadamente no Brasil, nos três


níveis da Federação, contém princípios que asseguram aos cidadãos e aos licitantes o
direito público subjetivo de verem a licitação transcorrer dentro da legalidade, exercitando
as suas prerrogativas recursais, seus direitos de oportuna e regular interferência no
procedimento etc. etc.

Mas, lamentavelmente, os licitantes sérios ficam segregados, sendo-lhes negada, as mais


das vezes, a simples e obrigatória emissão de certidão, sem contar com a ausente ou serôdia
publicação dos atos, esta considerada pela Lei 8.429/92 como ato de improbidade
administrativa atentatório aos princípios da Administração Pública (art.11, IV). Os que já
experimentaram esse desgastante processo podem avaliar o fato.

A situação mais grave, todavia, é aquela em que o licitante se depara com uma Comissão
ímproba, deliberadamente articulada para lesar os fins da licitação. São servidores,
acobertados por autoridades hierarquicamente superiores, que se colocam a serviço da
fraude, em conluio com determinadas licitantes e com as quais dividem os lucros do
engodo. Não temem punição, mesmo sabendo que a Lei 8.666/93 tipifica como crime o ato
de frustrar o caráter competitivo do procedimento licitatório, levado pelo intuito de obter
para si ou para outrem vantagem decorrente do objeto da licitação, assinalando, a norma,
para esses casos, a pena de detenção de dois a quatro anos e multa (art.90).

É preciso acabar com prática desse gênero. É preciso que as licitantes, que se sentirem
atingidas pela ação criminosa das Comissões ou de qualquer autoridade que esteja
envolvida na prática do ato, as enfrentem, sem qualquer tipo de receio. Preparem-se, pois,
tecnicamente para se municiar contra inadmissíveis e rechaçáveis condutas que só
prejudicam a sociedade; que acabam por propiciar a contratação de empresas
desqualificadas para prestar o serviço, ou que se prestam a manipulação, celebrando
aditivos e mais aditivos contratuais, que multiplicam o valor inicialmente ajustado, sob
fundamentos ilícitos, isto sem falar nas propostas classificadas com preços superfaturados.

Os prejudicados, antes de temerem represálias das inescrupulosas autoridades e membros


de Comissões, provoquem o Ministério Público, adotem as medidas necessárias a inibir tão
repugnantes posturas, inimigas do progresso social, enodoadoras do serviço público.

É assim que poderemos redesenhar esse modelo execrável averso à ética, aos princípios da
boa administração, à moralidade e probidade administrativas.
De tudo isso exsurge que, enquanto essas práticas nefastas se dão desassombradamente nas
repartições públicas, no desenrolar das licitações desvirtuadas, os excluídos da nossa
sociedade reviram as lixeiras das nossas portas, porque o benefício social que deveria a eles
ser dirigido escoa para os bolsos dos que compartilham entre si os frutos da fraude
usurpadora da regularidade dos contratos, num tempo de tantos reclamos por menos
miséria, por menos pobreza.