PSICOLOGIA ANOMALÍSTICA, FILOSOFIA DA MENTE E
FILOSOFIA CLÍNICA: INTERFACES POSSÍVEIS
Carlos Copelli Neto*
Resumo: O presente artigo propõe levantar alguns paralelos entre a Psicologia Anomalística,
a Filosofia da Mente e a Filosofia Clínica, que implicam em pontos de similaridade, como
também em pontos de divergências, especificamente nas questões sobre as experiências
místicas religiosas. Apresenta, inicialmente, um breve panorama histórico dos estudos dos
fenômenos denominados anômalos na Psicologia da Religião e na Parapsicologia. Dá especial
ênfase à Psicologia Anomalística, que engloba os dois citados sistemas, mas com metodologia
própria. Outras visões, psicológicas e não psicológicas, também são citadas, assim como
exemplos de casos. Comportamentos mediúnicos e religiosos e as suas relações com a cultura
estão embasados nas teorias do biólogo Richard Dawkins, do filósofo da mente Daniel C.
Dennett e da psicóloga Susan Blackmore. A seguir, chega-se à Filosofia Clínica e à sua
metodologia, esboçando uma visão social do tema, assim como a postura do clínico na
condução de sua pesquisa. Finalmente, as interfaces são colocadas no texto.
Palavras-chaves: Psicologia da Religião, Parapsicologia, Psicologia Anomalística, Filosofia,
Filosofia da Mente, Filosofia Clínica, Mediunidade, Experiências Místicas.
Abstract. This article proposes to draw some parallels among Anomalistic Psychology,
Philosophy of Mind and Clinical Philosophy that imply similarity points, as divergences
points. It shows, in beginning, a concise historical view of studies of phenomena named
anomalous in the Psychology of Religion and Parapsychology. Special emphasis is given for
Anomalistic Psychology, which involves the two mentioned systems, but with its own
methodology. Other psychological or not psychological views also are mentioned, as also
examples of cases. Mediumistic and religious behaviors and their relations with the culture
are based in the theories of the biologist Richard Dawkins, of the philosopher of mind Daniel
C. Dennett and of the psychologist Susan Blackmore. After, it shows the Clinical Philosophy
and its own methodology, delineating a social view of theme, and also the behavior of the
clinical to conduct his research. Finally, the interfaces are put in the text.
Keywords: Psychology of Religion, Parapsychology, Anomalistic Psychology, Philosophy,
Philosophy of Mind, Clinical Philosophy, Mediumship, Mystical Experiences.
Introdução
O arcabouço teórico e prático da Filosofia Clínica apresenta o tópico nº. 19,
denominado Singularidade Existencial. Trata-se, como se depreende, de uma expressão de
caráter extremamente amplo, que pode referir-se a inúmeros elementos singulares. No
entanto, especificamente, nesta modalidade terapêutica, significa os eventos que não podem
ser explicados racionalmente. Assim, vivências singulares com poderes sobrenaturais,
fenômenos religiosos e espirituais, fazem parte deste tópico. A postura do filósofo clínico
diante deles é, antes de tudo, respeitar a representação do partilhante, como também
contextualizá-los na respectiva historicidade (Aiub, 2004: 90). Mas antes de entrar nesse
mérito específico, uma primeira abordagem das pesquisas sobre esses temas é fundamental
para o propósito deste artigo, cuja ênfase recai sobre as questões da mediunidade, alegações
Carl Gustav Jung e William James. as pesquisas não avançaram muito no que tange às análises psicológicas dos médiuns e místicos. há a criação da Psicologia Integral de Ken Wilber e a Psicologia Transpessoal de Stanislav Grof. inclusive em meio às farsas. entende-se. Avançando no tempo. com isenção de patologia. através de suas bases e métodos de investigação. os sentidos do sujeito” (1973: 238). Cabe aqui. como Sigmund Freud. a mesma experiência pode receber um rótulo de patologia à primeira vista. Dentre os seus membros encontravam-se figuras que seriam conhecidas como fundadoras da Psicologia Moderna. que teriam relação com a telepatia. aquele. a resposta. Aliás. tidos inicialmente como experiências com o transcendente. esse tem sido um dos objetos de estudo da Parapsicologia até a atualidade. clarividência. a qual não seria oriunda do que é apreendido pelos órgãos dos sentidos. ou seja. Ele não se refere às alterações físicas no ambiente. segundo os vários construtos teóricos da Psicologia. considerando as teorias freudianas acerca da religião e da mística. cuja origem não possa ser atribuída às fontes ordinárias da informação. Entendo por um tal conhecimento. nas pesquisas sobre precognição e outros eventos não convencionais sob a perspectiva das teorias científicas vigentes. este recaiu com mais ênfase sobre a ontologia dos fenômenos (conforme já dito). precognição e psicocinesia. Já na Psicanálise (freudiana). uma citação de William James: “O que quero atestar imediatamente é a presença – no meio de todos os ingredientes da farsa – de um conhecimento verdadeiramente supranormal. a Psicologia Analítica não descarta também os transtornos mentais e delírios esquizofrênicos. Poderia ser atribuído algum juízo de verdade a cada uma dessas teorias? Evidentemente. Em outras palavras. É inviável tentar estabelecer com quem está a razão. conforme experiências vividas por ele próprio. No entanto. Na Psicologia Analítica postulada por Jung. um ponto importante deve ser destacado: normalidade/patologia. pelo menos por enquanto. com a fundação da Society for Psychical Research. é negativa. procuraram avaliar casos de deslocamento de objetos sem o uso de meios físicos. a pesquisa científica teve início em 1882. Quanto ao objeto de estudo da Society. como nas suas variantes. em Londres. 2 de visões e audições extrafísicas e também teofanias. Estes dois sistemas admitem uma dimensão espiritual (e natural) no ser humano. quaisquer manifestações ligadas ao sobrenatural. No entanto. A primeira teria por objeto de estudo as chamadas “experiências paranormais clássicas”. as experiências “místicas” poderiam ser consideradas “normais”. Assim. Já a Psicologia da Religião ocupar-se-ia das “experiências paranormais religiosas”. como também os relacionados à comunicação com os mortos. . Histórico Especificamente no caso da mediunidade (comunicação com o mundo dos mortos). Todas essas questões estão intimamente ligadas à espiritualidade e à religiosidade decorrente. mas sim às informações. Isto se dá já no início do século XX. Retroagindo parágrafo anterior. O que se constata inicialmente são os pré-juízos dos seus teóricos responsáveis. O que se observa no pensamento de James é o viés epistemológico que ele dá daquilo é trazido pelos médiuns aos observadores (cientistas) dos eventos. ele busca a fonte do conhecimento. posto que se voltaram mais para tentar constatar a veracidade dos supostos feitos mediúnicos. como também de outras pessoas de seu círculo pessoal (um exemplo é citado adiante). portanto. Assim. quando é feita a separação entre Parapsicologia e a Psicologia da Religião. quer sejam elas ortodoxamente construídas dentro dos sistemas religiosos. sem uma preocupação maior do sujeito portador da mediunidade. Há indícios que essas duas correntes representam uma expansão dos fundamentos da Psicologia Humanista. ou seja. a esse respeito. no caminhar das pesquisas esse sujeito passa a ser enquadrado nos arcabouços teóricos das várias correntes da Psicologia. como também de outros fenômenos anômalos. Por sobrenatural entenda-se tudo o que transcende as forças da natureza e do ser humano.
400 a.1) – Dinâmica da Espiral – Este sistema foi desenvolvido por Don Edward Beck e Christopher C. em maior ou menor escala. desde o mais instintivo até os mais refinados. Há veneração aos antepassados. Considerando o exposto e ao ser observar os primórdios da história da Filosofia.2) – Mente bicameral – Trata-se de uma hipótese em que as funções cognitivas estão divididas. Segundo os seus autores. através da confiança nas relações de sangue e nos poderes mágicos do mundo espiritual. 3 O que se deduz é a interpretação do profissional da Psicologia dos relatos dos pacientes. O mesmo pode ser dito acerca do espiritismo kardecista. Ainda que esses povos primitivos pudessem estar sofrendo de delírios esquizofrênicos. como também extensos cerimoniais. portanto a racionalidade e a observação crítica e empírica da natureza ainda estavam por vir. não aparece ainda o “eu” nas narrativas. Cowan. Segundo esse pensador. tidos como “imateriais” (solidariedade. 2007: 16-23) e o uso da racionalidade começa a ter lugar. encontra-se certa consonância com o segundo estágio da Dinâmica da Espiral citado acima.em seus estudos de culturas primitivas. todas as demais ainda carregam e cultivam. obediência aos desejos dos seres espirituais. Surgem os primeiros filósofos e as suas teorias (Copelli. Sobretudo. ritos de passagem e sazonais. Trata-se de uma descrição da evolução humana e os elementos que impulsionam a mudança evolucionária. Ainda era considerado que toda e qualquer forma de conhecimento era oriunda das divindades. há fortes vínculos entre o natural e o sobrenatural. serão abordados mais adiante) com sistemas de valores As citadas mudanças evolucionárias são divididas em oito estágios. Outras teorias passíveis de aplicação . No entanto. uso de talismãs. considerado primitivo. A natureza começou a passar por uma leitura objetiva e empírica. ascensão espiritual. fornecendo-lhes informações e/ou ensinamentos. no que tange às informações transmitidas pelos espíritos mentores às mentes dos médiuns. Esses indivíduos atribuíam a um “deus” a autoria das vozes e das ordens. a despeito de haver ainda sociedades que vivam nesse contexto estrito.considerado precursor da Filosofia da Mente . cabe ressaltar que o pensamento mítico perdurou e ainda se aloja em inúmeros contextos socioculturais atuais. em um período ancestral da História não havia uma consciência em primeira pessoa. Esta hipótese foi formulada pelo filósofo inglês Julian Jaynes (1976) . culto aos espíritos da natureza. Reina o pensamento animista. Os indivíduos eram guiados por vozes externas que determinavam o que fazer.. Sheldrake faz um . mas neste artigo a sua descrição volta-se apenas para a questão epistemológica. é o chamado tribal- animista. Há um entrecruzamento do conceito de “memes” do biólogo Richard Dawkins (os memes. verifica-se que a construção do conhecimento teve lugar após uma gradual e lenta desvinculação do homem com o mito. É uma teoria longa e voltada para muitos aspectos da Biologia. onde uma delas parece que está “falando” e a outra “ouve e obedece”. Dessa forma. Outras atribuem ao Espírito Santo tais inspirações. há um sentimento de pertença grupal. eram marionetes dos deuses. ou ainda não há qualquer diferenciação. . .3) – Campos morfogenéticos – Teoria desenvolvida e ampliada pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake (1996). O segundo desses estágios. Vale destacar que esse sistema limita-se apenas a descrever os fenômenos conforme a evolução da espécie humana. É constituído pela procura de segurança da sociedade. religiões ligadas ao Cristianismo. etc. traços desses valores.). data essa fundamentada em profundos e minuciosos estudos de textos de civilizações antigas. ou seja. também formulam teses acerca da inspiração que os anjos podem exercer sobre os humanos. em especial. A ocorrência da consciência de si está datada por Jaynes por volta de 1. inclusive a partir da teoria de Jaynes. entre outros elementos. a preservação e respeito a lugares considerados sagrados. Além disso. na atualidade.C.
durante a construção da Torre de Bollingen. no presente. que podem direcionar o nosso destino. mas que não a havia conhecido. Tem como objetivo a compreensão de experiências bizarras que muitas pessoas têm. Diante da probabilidade de efetiva existência de tais campos. mas mantendo a perspectiva de necessidade de esgotar as hipóteses convencionais. sendo que este último não é visível. este foi encontrado. incluindo (mas não se limitando a) aqueles que muitas vezes são rotulados como “paranormais”. De igual forma. apud Argollo. ele percebeu que muitos eventos se repetiam. Por outro lado. consequentemente. Um dos exemplos que ele cita. Esta Psicologia se entende como abertura ao estudo ontológico de psi. como por exemplo. pode ser definida como o estudo dos fenômenos extraordinários do comportamento e da experiência. Experimentos na área educacional já estão sendo realizados. algo que foi aprendido no passado. no imaginário popular. contrair casamentos com pessoas com informações genéticas semelhantes. Teria ela exclamado que havia um cadáver no local. dos amigos e até das doenças. essa possibilidade não fica restrita ao tempo. a escolha da profissão. Transpondo esses postulados para o tema do presente artigo. ainda que o assimilador atual não tenha tido qualquer contato com os primeiros experimentadores. tudo o que foi aprendido pela espécie humana. trazemos em nossa herança genética traços comportamentais de nossos ancestrais. A Psicologia Anomalística Esta área do saber. . continua existindo em uma memória (ressonância mórfica) e pode ser assimilada por aqueles que acessarem o respectivo campo morfogenético. Feitas as escavações. 2004: 93-94). é o caso de uma mulher. Essa atração foi correspondida pela sua esposa. fica também essa hipótese de investigação acerca da mediunidade. imitadas. a possibilidade de livre escolha fica tolhida pela genética. De certa forma. Disse Jung: “Minha filha pressentira a presença do cadáver. sem assumir a priori que há algo de paranormal envolvido nessas experiências em termos de fatores psicológicos e físicos já conhecidos. situando-os na ordem da patologia. Segundo o autor. Pelas suas pesquisas em árvores genealógicas. pois memórias semelhantes estariam disponíveis. University of London). Qual seria o pano de fundo . há os céticos dogmáticos que alegam a inexistência de todo e qualquer fenômeno dessa ordem. uma vez que as distâncias não oferecem obstáculos para que o mesmo efeito ocorra.4) – Psicologia do Destino – O médico Leopold Szondi foi o criador desta modalidade da Psicologia. como por exemplo. o marido havia atraído para si uma mulher com semelhança genética de sua mãe. Seria ela uma transmissão genética? Apenas para ilustrar. vários eventos mediúnicos poderiam também ser estudados à luz dessa teoria. em refutação às alegações espiritualistas. embora em discordância com a ciência tal como está estabelecida. formalizada em 1930 e de acordo com a Anomalistic Psychology Research Unit (Goldsmiths College. pode ser assimilado com maior facilidade. . essa imitação não se daria da mesma forma que os memes (conforme adiante referidos). presentes no inconsciente coletivo. interessante é o caso narrado por Jung a respeito de uma reação de sua filha mais velha quando em visita ao pai. Alguns autores comentam que a teoria de Sheldrake tem certa similaridade com os arquétipos junguianos. Mas. passa a ter os mesmos problemas psíquicos que sua sogra tinha. Todavia. 4 paralelo entre os campos morfogenéticos e o campo gravitacional. visando recuperar os primeiros objetivos da Society. Segundo ele. para serem apreendidas e aprendidas com facilidade e. ou na melhor das hipóteses. uma vez que estes se replicam através de informações diretas e objetivas.5) – Pseudociências – Os esotéricos admitem os fenômenos ditos paranormais como plausíveis e prováveis. aparentemente saudável. no entanto ele existe. sua faculdade de pressentimento é uma herança de minha avó materna” (Jung. Muitas considerações podem ser feitas a esta teoria.
a significação e o impacto que tais experiências têm para o sujeito. 2000: 2). Portanto. Deve ainda o pesquisador considerar que a existência de processos “paranormais” ainda são questões em aberto e que apenas mais estudos empíricos poderão oferecer maiores informações. no estudo das experiências “alegadamente anômalas”.. Seria necessário novamente enfatizar que não parece informações suficientes de como e em quê (grifos do autor) essa correlação se dá (Zangari. que enfatiza. 5 das experiências anômalas? Muitas hipóteses são levantadas. tem levado. Entretanto. as crenças. É fundamental ter uma escuta sem preconceitos. apesar da mediunidade ‘fazer uso’ de capacidades dissociativas individuais do médium. 1994: 339.. há um corpo de estudos que oferecem evidências para a existência desses processos. 2003: 54-55). . Não basta apontar a existência de correlações. ou terem sido desconectados da consciência” (Kripner. modificações neurofisiológicas. a dissociação parece estar disciplinada pelo grupo social de que o médium participa [. Prossegue. a psicopatologia e processos desconhecidos de interação entre o sujeito e o meio. porém para efeitos deste artigo há o destaque para a perspectiva fenomenológica. apud Zangari. as perspectivas de estudos da Psicologia Anomalística são várias. portanto. a fraude. independentemente da “realidade ontológica” e da interpretação adotada por aquele que observa e pesquisa. portanto. que a dissociação envolve a ocorrência de experiências e comportamentos que se supõem existirem afastados.] a diferença entre a dissociação patológica e a dissociação não-patológica reside na cultura” (Zangari. (2) um ceticismo metodológico e (3) o reconhecimento de que as teorias científicas são verdades provisórias. parece- me. ainda. Aqui se depreende três pontos: (1) uma abordagem inclusive fenomenológica. Considerações psicológicas Ainda reside uma tendência antiga de interpretar o fenômeno da mediunidade como um estado dissociativo. Zangari: Considerar a mediunidade não apenas pelo seu aspecto individual- dissociativo. Mas. Isto porque a realidade pode ser muito mais ampla que aquela prevista pelas teorias científicas atuais. Aqui o ceticismo é compreendido como uma ferramenta básica. Deslocou-se. “Depreende-se nesse conceito. Apenas se tais interpretações forem incapazes de dar conta do fenômeno investigado é que será considerado lícito o uso de interpretações heterodoxas. as relações ainda não estão bem delineadas. a uma análise das correlações entre fenômenos psicofisiológicos (como a própria dissociação) e fenômenos culturais. Como mencionado acima. na mente do médium [. 2000: 2). Ainda há que se destacar que tais experiências apresentam potenciais de complexidade.. como por exemplo. o eixo interpretativo de fatores psicopatológicos para os de caráter psicossocial. sentido e vivenciado pelo sujeito da narrativa.]. Os elementos socioculturais que darão o contorno das personalidades ‘intrusas’ estão presentes no respectivo grupo social e. as pesquisas atuais também apontam para o elemento sociocultural: “No entanto. como foi visto. Para a eficiência dos critérios de investigação não é necessário ao pesquisador assumir a existência de processos “paranormais”. primeiramente são levadas em conta as interpretações “convencionais”.. Deverá também ser levado em conta que não há uma teoria suficientemente ampla e aceita em consenso entre os pesquisadores. Outrossim. para explicar as evidências de anomalias encontradas nas pesquisas realizadas. A justificativa para esse destaque será a abordagem deste tema no âmbito da Filosofia Clínica. Estuda-se o que é narrado. de modo que há necessidade de avaliações interdisciplinares.
ou seja. como forma de purificação corporal em favor da evolução da alma.por acreditar que podem fotografar espíritos. No entanto. Não obstante a Filosofia ter sido o fundamento das ciências como algo natural e inerente ao ser humano dotado de razão e de senso crítico. tanto em seu aspecto grupal. Porém. trata-se de algo material. Assim. Isto para “purificar” o corpo e torná-lo apto para a recepção das entidades espirituais. a “carne” como inimiga da alma. sem descartar completamente o aspecto patológico da dissociação e das personalidades intrusas. nos quais as alegadas incorporações espirituais são a tônica dominante. posto que as teologias necessitam da “imaterialidade” para a sua sobrevivência e. em alguns grupos cristãos como o Espiritismo brasileiro e o Adventismo. seria a glândula pineal. segundo ele. Ainda que esta exceção seja considerada. no entanto. cuja vida prossegue . ao se enquadrar essa forma de espiritismo como materialista. é importante verificar os significados desses fenômenos e/ou eventos. a perspectiva é sempre ontológica. há a questão acerca da constituição do homem: matéria e mente? Apenas matéria? Tentando solucionar essa questão. que difere diametralmente da substância da mente: res extensa e res cogitans. Depreende-se. tabaco e relações sexuais. é o elemento pontual acerca das distintas substâncias. volta-se para a res cogitans. em alguns casos. expostas de forma clara e objetiva. há que se fazer um destaque em relação ao Espiritismo Kardecista. o dualismo cartesiano tornou-se o ponto de partida para as investigações e discussões acerca da Filosofia da Mente. Se uma coisa pode ser fotografada. Jejuns e abstinência de determinados alimentos em favor da elevação da alma também são prescritos. Um outro ponto importante nessa verificação é considerar que para os médiuns e seus grupos. como elemento de oposição moral à matéria tangível. Relacionando o pensamento cartesiano com o pensamento mítico. Tal não é um ponto exclusivo da tradição judaico-cristã. Ainda. é possível estendê-las a outras formas. as religiões. que essas colocações referem-se à mediunidade de incorporação. Eles são materialistas . posto que é vivenciado por outras tradições como o Budismo e o Islamismo. direta ou indiretamente a existência de elementos imateriais na existência humana. álcool. considera-se importante inserir essa abordagem nos contextos socioculturais. Dessa forma. que para as religiões e à espiritualidade em si. assim como todas as formas de espiritualidade também direcionam para existência de um mundo (ou vários mundos) em planos extrafísicos. sob a perspectiva fenomenológica. O ponto de ligação entre ambas. apontando que a matéria possui um tipo de substância. conforme pontua João Fernandes Teixeira: “Exceção a essa condição [sermos cartesianos] são os kardecistas. como individual. na res extensa. Ainda. Duas grandes linhas de pensamento disputam espaços através de suas concepções: o dualismo e o monismo materialista. o viés alegado pela mística e pela espiritualidade. 6 Conforme o exposto. respectivamente. Nos segmentos religiosos da Umbanda e do Candomblé. Sobre este último ponto é extremamente comum homilias acaloradas emocionalmente acerca da supremacia da alma sobre o corpo. identificadas pela “res cogitans” cartesiana. Ainda. Destaca-se. O que pode ser considerado importante em sua teoria nesse sentido.embora não o saibam . por outro lado. no que tange à relação mente-corpo.as religiões de todos os tempos sempre apontaram. evidentemente. 2008: 65). o materialismo é totalmente nocivo e ameaçador.1) – O dualismo. há incentivos para a adoção do vegeteranismo. Mas os espíritas certamente não admitiriam ser chamados de materialistas. as prescrições iniciáticas incluem a proibição de determinados alimentos. René Descartes no século XVII tratará diretamente desse tema." (Teixeira. o elemento mítico ainda se fez presente e é objeto de estudo tanto racional quanto transcendente. como alguns dos exemplos citados adiante. sobretudo em questões que envolvem a sexualidade. há duas substâncias distintas na formação do ser humano. por exemplo. A Filosofia da Mente .
sem a pretensão de enquadrar o filósofo da mente Daniel Dennett. tendo o próprio Dante como narrador. isto devido ao fato das tentativas de definirem do que seria a própria mente. Nesta obra. Para os dualistas isso não é possível. cunhado pelo biólogo Richard Dawkins e amplamente utilizados por Daniel C. Em contrapartida. Como também há os intermediários. A Divina Comédia de Dante Alighieri. desde tempos imemoriais. um meme não necessita apenas ser replicado pela imitação. como é o caso citado acerca da Dinâmica da Espiral. Surgiram as questões acerca da identificação da mente e da consciência com o próprio cérebro. estocadas no cérebro e passadas adiante por imitação. como também o biólogo Richard Dawkins em alguma categoria de pensamento acima mencionada. a heroína morre jovem. Assim. como também a aprendizagem.Seria isso sempre possível? O ambiente em que o indivíduo está inserido é um elemento importante para a fixação de memeplexos e a sua replicação. inclusive. mas também a literatura é rica nesse sentido. o proselitismo religioso enquadra-se nesse contexto. Por exemplo. A Memética. Outro é O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Bronte. tenderá a assimilar com mais facilidade uma nova publicidade nesse sentido. mas não totalmente.3) – A Memética. No que se refere à cultura. Quanto à propagação das crenças. cujo ambiente era a . alegando que os memes são instruções para realizar comportamentos. com a capacidade. o mesmo pode ser dito das ideias que passam de mente para mente – tais ideias são os memes. com descrições do céu. mas criou essa fantástica estória de amor. é uma das possibilidades de estudo da formação das culturas. segundo o pensamento destes. copiar-se a si mesmos. Dennett (1998). Algumas dessas transmissões perdem a sua força. são a prova contundente da transmissão memética bem sucedida. Consequentemente. foi mantida praticamente encarcerada pelo pai (pastor). as mídias são fortes fontes geradoras de memes. e nunca se casou. As pregações religiosas. As crenças também constituem objeto de estudo de alguns filósofos da mente. O mesmo pode ser dito da moda. formando poderosos memeplexos. Reforça a sua posição. que a autora viveu. juntamente com suas irmãs também escritoras. uma ideia replicada é uma ideia imitada. Segundo Dawkins (1979). passando de geração em geração. é viável a apresentação do conceito de “meme”. Vale lembrar. Transpondo a Memética para o plano das religiões. Não apenas as religiões. . do inferno e do purgatório.2) – As Crenças. Essas unidades replicadoras também são unidades de imitação. Porém. como o Emergentismo. semelhantemente isso acontece com os memes. que escaparia do tema deste artigo. mas aparece continuamente ao seu amado até que ele envelhece e morre e ela vem buscá-lo para que vivam o seu amor na eternidade. cujos valores é estar sempre vestida com os padrões da moda. ciência que estuda os memes. sob quaisquer formas. no entanto para os monistas tal seria cabível. de rejeitá-los segundo seus critérios de avaliação. cabe ao “alvo” (a pessoa) dos memeplexos interpretar corretamente os seus significados. uma pessoa. Da mesma forma como os genes se tornam mais potentes através de sua replicação pelas gerações. no qual a mente “emergiria” do cérebro e ainda os que dizem que seria uma “propriedade” cerebral (Dualismo de Propriedades). a consciência e a identidade. a psicóloga Susan Balckmore. assim como os genes tendem a replicar- se. tornando-se mais potentes à medida que se replicam. sob a rígida moral calvinista-vitoriana do século XIX. os seres humanos e os seus cérebros seriam máquinas de reprodução de ideias. descrições essas elaboradas. . como o fez Dennett (2006) e também Dawkins (1979) verifica-se a sua plausibilidade. Na concepção de Susan Blackmore (1999). algumas considerações acerca das crenças e a sua formação. são dadas a seguir. e o respectivo mecanismo para tal seria a imitação. As propagandas políticas são um exemplo claro disso. tenta-se implantar ideias de uma determinada ideologia em outras mentes. 7 independentemente da matéria do plano físico. mas também através de outras formas de aprendizado social. Dois clássicos literários a respeito são dignos de nota. dietas e costumes.
portanto memeticamente. enquanto as “entidades espirituais” do Kardecismo ensinam a reencarnação. através da instituição da Inquisição. mas também nas sociedades ocidentais contemporâneas. como também mantiveram suas crenças originais. Além das heresias de caráter doutrinário. Portanto. Há que se ressaltar que essas replicações foram tão poderosas. O que se depreende são os memeplexos do Cristianismo oficial dirigindo mentes espiritualistas inglesas. na Inglaterra alguns grupos afirmam categoricamente que não há reencarnação. mas ontologicamente. enaltecidos homileticamente. Este memeplexo tinha por objetivo combater as heresias. espalhadas pelo mundo. Esta. que as “entidades espirituais” desses grupos ensinam a ressurreição. é muito flexível em relação a outras. em detrimento da ressurreição. com evocação de espíritos de mortos. com facilidade. o Espiritismo desenvolvido no Brasil é bastante pontual enquanto memeplexo. Depreende-se. porém os seus memes não foram suficientemente fortes para replicarem-se na França. integrante da alta hierarquia da Igreja. Prosseguindo. acerca da universalidade salvífica de Jesus Cristo: “os fiéis devem acreditar firmemente”. Os seus divulgadores adaptaram os fundamentos desse sistema espiritualista para a cultura brasileira. Por exemplo. no tocante à espiritualidade. o seu país de origem. conforme a tese bíblica. ainda uma parte da população segue os seus ditames. imitados e “fertilizados” em ambiente favorável. outro poderoso memeplexo. grifos do original. que o Cristianismo. conforme observação pessoal do autor in loco. conseguiu com seus memeplexos (conjunto de memes iguais) anular os memeplexos pagãos. tendo em vista a Inglaterra ser um país de tradição protestante. . Este é um notável ponto de divergência que deve ser considerado. mas sim a ressurreição dos mortos. os memeplexos inquisitoriais combateram a magia e as evocações de espíritos. mas foram memeplexos bem sucedidos. Já a permeabilidade e a maleabilidade da cultura brasileira. Em outro ponto: “O fiel católico tem a obrigação de professar” (em ambos os casos. posteriormente eleito papa Bento XVI (2006: 243). Embasado na obra do francês Allan Kardec (nascido Hippolyte Léon Denizard Rivail) no século XIX. permite a aceitação da reencarnação. tais memeplexos incluíam que essas outras práticas meméticas eram consideradas satanismo. Inclusive. impedindo-os de se replicarem. Essa forma de espiritualidade integrou a nossa cultura (exemplos específicos são citados adiante). muitas mentes receberam de bom grado as informações meméticas de esperança da vida após a morte. não apenas no âmbito tribal. como os êxtases místicos. os memeplexos kardecistas encontraram aqui um campo fértil para o seu desenvolvimento. Como se depreende o tema (universalidade salvífica) já fazia parte do corpo doutrinário. Em outras palavras. as religiões indígenas e africanas sofreram pressões meméticas do Catolicismo durante a colonização. segundo Dennett). Em outras palavras. um memeplexo sendo ajudado por outro para replicar-se. de perseguido. que se expandiu rapidamente. No Espiritismo Kardecista. mas a sua crença deveria ser reforçada através da crença memética do discurso da autoridade do teólogo. Ainda no âmbito da exemplaridade. 8 sociedade tribal-animista. não é uma novidade. encontrou no Brasil um ambiente fértil para a sua expansão. Um caso exemplar é o desenvolvimento do Cristianismo. ou seja. originando o sincretismo religioso. Esta informação é dada neste artigo. não apenas fenomenologicamente. é importante destacar que há várias formas de espiritualismo. Interessante que todas as religiões pregam isso. passou a perseguidor. o bojo doutrinário (memético) da Igreja incluía toda uma mística voltada para o sobrenatural. apenas de diferentes formas. com registros de milagres. No entanto. uma outra forma de reforço memético é a crença na crença. No entanto. visões e práticas prodigiosas. conforme exposto acima. Sobre esse ponto Dennett cita um texto do cardeal Ratzinger. porém incompatíveis com práticas meméticas idênticas fora da autoridade eclesiástica. Por exemplo. e após um período de perseguições. Entretanto. que apresentam diferenças doutrinárias entre si. então. elas assimilaram as ideias cristãs. destruir outros memes que ameaçassem o poder da Igreja.
Ele simplesmente entoou um canto. como um xamã curou uma parturiente com fortíssimas dores e com dificuldade de dar a luz. plenamente consciente e recebe informações através de sua contemplação. santos e xamãs: exemplos Considerando que os místicos. pode-se depreender que há muitas similaridades. Médiuns. Assim. como indicado no subtítulo acima. as receitas. diante de um paciente ou mesmo à distância. sendo o principal o alegado contato com o sobrenatural ou o transcendente. “viaja” em espírito para outros planos. é importante frisar que o sujeito-alvo dos memes constitui uma parte do ambiente propício para a sua proliferação. determinada por memeplexos dos proselitistas em suas divulgações doutrinárias. Há que se pontuar que tal afirmação pode gerar alguns desconfortos. o elemento mediúnico se faz presente em todos eles. novamente. com as respectivas atribuições de causalidade. as repassa ao seu grupo social. este não é o único. 9 Concluindo esta parte. de certa forma. folhas e raízes e. outros têm consciência do que transmitem. denominado propriamente de xamã. Já o xamã. 2010: 25). um médium espírita de “incorporação” entende-se exclusivamente como um instrumento de uma outra entidade (sobrenatural). cujo objetivo é melhorar a condição humana. Importantíssimo é ressaltar. são classificados de formas diferentes. Além disso. bastando uma invocação por parte do xamã. Há apenas pequenas variáveis do ponto de vista ontológico dos atributos ou “dons” de cada tipo. Esta tradição também prescreve o respeito à natureza em sua totalidade. portanto. inclusive na sua preservação. normalmente. não deu qualquer remédio e tampouco tocou a paciente. considerado espiritual. e ainda há aqueles que têm consciência plena do discurso proferido e podem inclusive “filtrar” as informações que ele (o médium) considera inapropriadas. via de regra de ordem mecanicista. Ainda sobre o sistema de curas xamânicas. obtém informações e quando retorna. a eficácia dessa prática se baseia tanto na . portanto. Numa avaliação preliminar. exceto no primeiro tipo de médium aqui citado. podem ocorrer curas que dispensem as receitas acima. ele coloca em prática no plano físico o seu aprendizado. Estas considerações retomam a pergunta anterior sobre a autonomia do sujeito-alvo quanto à assimilação ou rejeição de um memeplexo.. pois observando-se mais atentamente as ações deles. são dadas ao “iniciado” do grupo. depreende-se que a sua subjetividade se faz presente. Todos aqui citados entendem-se como “instrumentos” de algo superior a eles. elemento esse caracterizado pelo sujeito-médium. linguagem e subjetividade socialmente construída. Sob a perspectiva dos memes. Para que o xamã obtenha os seus conhecimentos. o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (2008) aponta em suas observações. considerados espirituais. o ambiente sociocultural no qual eles estão inseridos. Segundo os depoimentos. O santo místico “contempla” o transcendente. Mas. que precisa dele para passar suas informações.1) – A tradição xamânica está muito ligada às curas por meio de ervas. Esse curador passa por rituais de preparação para poder estabelecer as suas práticas. em alguns casos o médium nada sabe a respeito do que fala.] são os memes que se replicam e não nós que os replicamos” (Toledo. no entanto. considerando uma eventual ausência de liberdade de escolha. com sua representação de realidade. apenas revestidas diferentemente pelas culturas e sociedades onde os sujeitos estão inseridos. Vejamos alguns exemplos comparativos: . A partir de sua visão desse plano. Por contato. Mesmo assim. não fica descartada a intenção pessoal. possuindo. Segundo ele. diz Gustavo Leal Toledo: “[. ciência do que foi visto e aprendido. ele se “desloca” em espírito para um outro plano. há.. entende-se que há um ponto de ligação entre o espiritual e o profano. vários pontos comuns entre eles. apenas não controlam a fala. entretanto é algo a ser considerado e refletido diante das assimilações de todas as ordens que são feitas no cotidiano. porém as suas subjetividades estão plenamente presentes.
o seu feito mais memorável foi a “visita” que ele fez ao céu e ao inferno. mas a uma dimensão sociocultural. uma vez que as igrejas não cumpriam esse papel por ignorância. ou a outras práticas sem o envolvimento de entidades antropomorfizadas. por conseguinte são ministrados cursos que ensinam o know how para tal. que entende que o “corpo astral” de uma pessoa pode se deslocar do corpo físico e “viajar” por outros planos. como nos casos dos milagres cristãos e de determinados feitos espíritas (principalmente no Brasil). outros tipos de mensagens podem advir através de outros tipos de médiuns. No Brasil há dois nomes nesse mister de fama internacional. ou seja. é observado em alguns segmentos espíritas de linha kardecista. No entanto. Esta área não é xamânica. lembrando que o agente curador passa por rituais iniciáticos para permitir o seu comportamento curativo. Segundo a Parapsicologia. Neste último segmento enquadra- se Francisco Cândido Xavier (kardecista). que postula a captação de energias de planos extrafísicos. como é o caso do Reiki. quanto na crença do doente de que o feiticeiro realmente cura. descritas em latim em seu livro De Caelo et ejus Mirabilibus et de Inferno. que resulta em uma construção recíproca e indissociável das regras fisiológicas e das normas sociais. localizar objetos perdidos. Mensagens de várias ordens são vistas ou ouvidas. com a total consciência do médium e da sua linguagem pessoal. 1987).3) – Além disso. entre outros prodígios. com tradução em português sob o título O Céu e as suas Maravilhas e o Inferno. era-lhe facultado conversar com os mortos. Para a sua transmissão faz-se necessário o uso de sua subjetividade. Novamente a subjetividade e a linguagem do médium se fazem presentes. Swedenborg era um investigador científico e estudou mística com afinco.5) – Prosseguindo no âmbito da Projeciologia há que se fazer um destaque especial a Emanuel Swedenborg (século XVIII). No entanto. a fim de ajudar na cura dos enfermos. os de incorporação e os de psicografia. As condutas mágicas estabelecem uma espécie de narrativa que incorpora as experiências intoleráveis do sofredor a algum esquema simbólico presente na cultura local. por exemplo. Segundo ele afirmou.2) – No tocante ainda ao tipo de prática mística relativo às informações advindas do sobrenatural. como. há também uma área abraçada por muitos no mundo inteiro que é a Projeciologia. considerado o precursor dessa área. foi-lhe concedido ouvir e ver o que havia nesses planos (céu e inferno) para trazer alento à humanidade. depreende-se uma certa similaridade com o proposto por George Canguillem (1995). com atribuições causais diversas. elevado à categoria de bispo e capelão real na Suécia. uma vez que não há possibilidade imediata e visível de constatação da efetivação do fenômeno da cura. sejam elas atribuídas a uma determinada entidade espiritual. as curas paranormais não se fixam apenas no âmbito do xamanismo..4) – Ainda no segmento de deslocamentos espirituais. a saúde e a doença não pertencem somente ao pontuado pela anatomia e a sua funcionalidade. . inclusive traz a descrição de locais extrafísicos. tendo em vista as múltiplas narrações a respeito. o qual. ed. segundo o que foi ouvido e visto (2ª. . Swedenborg era filho de um pastor luterano. na qual o seu “filtro” (citado acima) pode estar presente. passando pelas mãos do curador. 10 crença do feiticeiro na força de sua magia. receber ensinamentos. ex auditis et visis editado em 1758. mas apenas após avaliação médica. como é o caso dos médiuns videntes e ouvintes. adaptado inclusive para uma versão cinematográfica. Essas aplicações energéticas também podem ser feitas à distância. De certa forma. esses tipos de curas são enquadrados dentro da micro-cinesia. Segundo ele próprio. o corpo e seus processos. Entre eles. vislumbrar locais de sofrimento e de felicidade. Não obstante a sua origem protestante. Essas viagens podem ser espontâneas ou induzidas. Isto pode ser verificado em alguns discursos do médium brasileiro Luiz Gasparetto. o seu livro Nosso Lar. . . . que são Waldo Vieira e Wagner Borges. mas está enquadrada nos moldes da cultura contemporânea ocidental.
fica também a hipótese que essa expressão – Imaculada Conceição – já fosse do seu conhecimento. há uma pequena diferença em relação aos acima citados. guardando para si a experiência? Ele também fica em dúvida se estava em seu corpo ou não. ao contrário do anterior. é importante frisar que a Igreja já possuía. na Educação. desde o século XV. diante da formação do Reino da Itália. Essa dúvida. A Filosofia Clínica. Ora. . este foi a preparação do ambiente para a proclamação de outro dogma. encaixa-se no perfil do reforço memético da infalibilidade. na qual uma forte luz o cega. seria ele mesmo. para evitar o contato com os protestantes. pois o “homem que ele conhece”. não obstante já estarem em curso novas aplicações. a “Senhora” se apresentou como sendo a Imaculada Conceição. Apenas que neste caso. educadores e alunos. uma vez que pretende abranger determinados grupos sociais. um dos pontos mais nevrálgicos nas diferenças teológicas entre católicos e protestantes. uma “Senhora” lhe apareceu várias vezes e deixou mensagens. Neste exemplo. Seria essa negação a sua postura legalista como fariseu que fora antes de sua conversão? Ou a sua incapacidade semântica de relatar o evento? Ou ainda porque simplesmente não o quis.6) – Em aditamento. Por ser um dogma. o da infalibilidade papal (idem: 111). Este tipo de aplicação pode ser considerado de caráter social. por se tratar de algo ilícito. embora falando em terceira pessoa. considerando que o apóstolo não informa o que ouviu. esse poder já existia. seguida de uma voz se dirige a ele. À guisa de ilustração acerca do reforço memético (crença sobre a crença). volta-se para o atendimento clínico da pessoa individualmente. Segundo a vidente. sendo. Isto se deu em março de 1858. uma vez que algumas aproximações com o Catolicismo já se faziam presentes. foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis.(Gonzalez. tal como foi concebida.7) – As aparições em Lourdes na França no século XIX descritas por Bernadete Soubirous. continua em plena vigência. sem deter-se unicamente em apenas uma pessoa. e o papa Pio IX havia proclamado um dogma com o mesmo nome em 1854. No . Ainda com relação a Paulo. Pio IX ao proclamar o mencionado dogma. jovem com pouquíssima instrução e muito doente. portanto. uma festa dedicada à Imaculada Conceição. como professores. se no corpo ou fora do corpo. considerando que o pronunciamento do então cardeal Ratzinger foi ratificado pelo papa João Paulo II (Dennett: 2006. 1988: 109). assim como do conhecimento do ambiente socialmente religioso em que ela vivia. 243). é interessante notar o exposto na Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios (capítulo 12. versículos 2 a 4): “Conheço um homem em Cristo que. Após várias vezes perguntando quem era ela. No entanto. a narrativa de sua conversão constitui um exemplo de teofania. uma vez que Bernadete não teria tido acesso à informação da proclamação do dogma. mas foi reforçado memeticamente pelo mencionado dogma. há quatorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. como por exemplo. que dão sustentação a esses sistemas religiosos. não sei. ele narra o que foi ouvido. O exemplo de Dennett citado anteriormente. Como esse pontífice proclamou o referido dogma sem o apoio de um Concílio - como é previsto pela lei canônica . o fez intencionalmente. muitas vezes é narrada por alguns médiuns. as quais não é lícito ao homem referir”. restando-lhes o poder espiritual. Considerando esse dogma um meme. a sua disseminação reforçaria a posição da Igreja em relação à Maria. Esta questão das datas causou estranheza aos teólogos da época. Uma Filosofia Clínica Social Introdução ao tema e exemplificação. assim como a sua família. Deus o sabe. o faz por modéstia. Um grande número de exegetas afirma que Paulo. as encíclicas um caráter de absoluta verdade. Sendo a vidente muito religiosa e devota da Virgem Maria. O contexto sociopolítico dessa proclamação foi a perda do poder temporal dos papas. Vale destacar que a tradição judaico- cristã é rica em teofanias. 11 . considerando a sua pouquíssima instrução.
O mesmo pode ser dito dos videntes cristãos no que tange à especificidade de cada um e as circunstâncias históricas pertinentes. epistemologia (tópico e submodo). os tópicos da estrutura de pensamento envolvidos e até os submodos aplicados pelas partes interessadas. comportamento e função. a historicidade social seria considerada. Por exemplo. Aplicações variadas voltadas para grupos. pois mostraria como os indivíduos se consideravam dentro desse contexto. igualmente seria importante. a cultura protestante desenvolvida no século XVI. conforme a hipotética exemplificação acima. sob o prisma social. que compreende o ceticismo como uma ferramenta básica. o tópico fundamental seria como o mundo se parece. observando-se criteriosamente as subjetividades envolvidas nos respectivos contextos. A título de exemplificação do exposto. semiose. . então. Parece que foram em direção às ideias complexas. posto que o seu método é compreensivo. através do reexame das escrituras. Singularidade existencial social. roteirizaram. considerando as múltiplas visões de mundo das pessoas nessa época. considerando a Reforma que foi levada a efeito. usaram argumentação derivada e busca. julgamentos e interpretações. é passível de ser empreendida uma avaliação social pelo método da Filosofia Clínica – o descritivo e compreensivo – sem julgamentos e/ou críticas. Em contrapartida. também seria possível abordar o tópico de singularidade existencial. expressividade. além da avaliação clínica individual. teria grande importância. como seria a categoria circunstância na Europa do século XVI. busca. Tomando como ponto de partida o exemplo acima. ainda valeram-se de informação e intencionalidade dirigidas. A coleta dessas informações não ficariam condicionadas a um estudo genérico da historicidade contida nos registros. cada tipo de médium insere-se em contextos culturais. Dessa forma. inclusive as que exerciam o poder. A categoria tempo. a Igreja Católica também teve o seu assunto imediato. Outros tópicos com probabilidade de serem utilizados seriam: emoções. sociedades. levando em conta os significados que representaram para a população estudada. doutrinários e sociais diferentes. buscaram. axiologia (tópico e submodo). estruturação de raciocínio (genericamente situada na época). as da Igreja e do povo. hipótese. a postura filosófico-clínica seria idêntica. fundamentalmente. entre outros. como o religioso. dada a sua ocorrência em diversos grupos socioculturais específicos. Com relação a uma estrutura de pensamento social. mas também os dados divisórios e os enraizamentos teriam lugar de relevância para a exata compreensão dos eventos. termos agendados no intelecto. como as relações entre as autoridades seculares. Teríamos nesse caso. mas apenas à historicidade dos fatos e eventos. principalmente àqueles utilizados pelos reformadores. poderia ser descrita segundo os exames categoriais. O que acha de si mesmo. ação. poderá o docente por em prática essa teoria em discentes específicos. adicionaram. em alguns casos. significado. Esta seria. Tal poderia ser feito através de avaliações de culturas. Prosseguindo. é fundamental a suspensão dos pré-juízos e dos juízos do pesquisador. uma abordagem de uma possível Filosofia Clínica Social da História. base em registros históricos. Em outras palavras. É importante salientar que a abordagem clínico-filosófica não conteria críticas. discurso. períodos históricos. Para tanto. os três eixos da Filosofia Clínica que poderiam ser nomeados como sociais. experimentação e interseções de estruturas de pensamento. 12 entanto. entabularam esquemas resolutivos. Tal postura é compatível com os critérios da Psicologia Anomalística. No que se refere aos submodos. percepcionaram. Tópicos esses sempre sob a perspectiva social. pré-juízos. padrão e armadilha conceitual. Haveria algum assunto imediato? A resposta pode ser positiva. pois empreendeu a Contra-Reforma. conforme as necessidades. poderiam atribuir à Filosofia Clínica um caráter social. tanto em seu aspecto político.
será possível identificar a lógica existente. conforme a teoria de Szondi? Haveria também uma ressonância mórfica. e procuraria compreendê-lo à luz daquilo que já é conhecido a partir dos registros históricos. rica em imagens do sobrenatural. não caberiam. ela passou pela catequese de sua época. inserida em seu respectivo contexto sociocultural. como também a possibilidade de haver processos ainda desconhecidos entre o sujeito e o meio. . Socialmente no início ocorreu um assunto imediato (a sua veracidade ou não). especificamente. como também as descrições da época em que os eventos ocorreram. sem julgar (interdisciplinaridade). como uma possibilidade aventada pela Psicologia Anomalística? Ou ainda. esta não estaria facilitada pelas últimas duas teorias citadas acima? Esta colocação é feita. uma observação mais crítica da estruturação de raciocínio. mas a uma dimensão social muito mais ampla. voltada para os significados deles decorrentes. não estaria em concordância com as investigações iniciais da Psicologia Anomalística. e também os lugares existenciais. mas há a possibilidade de outros tempos subjetivos individuais e coletivos. uma vez que pessoas e eventos não estariam enquadrados em quaisquer sistemas teóricos já previamente estabelecidos. ter como ponto de partida de sua investigação uma rigorosa ótica epistemológica. caberia ao filósofo clínico pesquisador. como relatos e depoimentos de pessoas que visitaram o santuário erguido em Lourdes. com a Memética e as teorias dos campos morfogenéticos e da Psicologia do Destino. Por uma questão didática. como também de uma compreensão da Estrutura de Pensamento da vidente. A exemplo da Psicologia Anomalística. As circunstâncias seriam inúmeras. 13 Conforme prescreve a Filosofia Clínica. uma vez que outros videntes cristãos já haviam narrado feitos semelhantes? Com relação à assimilação memética. posto que não estariam restritos aos eventos em si. no entanto. buscando o conhecimento profundo de toda a historicidade dos eventos. quão extensos seriam os exames categoriais. são considerados insuficientes para o estabelecimento de uma explicação ontológica dos mesmos. Filosofia da Mente. como também os impactos sociais ocorridos na ocasião e os consequentes para o mundo cristão. Estas seriam algumas das bases epistemológicas de investigação. qual era a sua axiologia em relação à religião e à Virgem Maria? Apesar de sua pouquíssima instrução. haveria alguma implicação neurofisiológica que poderia dar margem à vidência. estabelecendo interfaces com a Psicologia Anomalística. os fatos atinentes a esse tópico não podem ser explicados racionalmente. tendo em vista o postulado pela Psicologia Anomalística. sem necessariamente ser a Lógica Clássica. As interpretações. evidentemente. o que então. Aqui se percebe. ela teria sido alvo dos memes da festa da Imaculada Conceição já existente na Igreja? Devido à sua frágil saúde. Esta avaliação das categorias incluiria o viés epistemológico da assimilação memética por parte da vidente e daqueles que creram no alegado fenômeno. Especificamente para Bernadete. para o filósofo clínico bastaria a visão fenomenológica. como também outras poderiam surgir. Além disso. Tomando o caso de Bernadete Soubirous e suas visões. cuja função é simplesmente descrever. O tempo das ocorrências é cronológico. da Sociologia e também da Antropologia. no que se refere à complexidade dos eventos e a inexistência de uma teoria de consenso. que se desenvolveram em assuntos últimos (grandes discussões a respeito). será feita através de um exemplo citado neste artigo. assim como as relações. o pesquisador filosófico não tomaria imediatamente o caso como paranormal. no entanto. Esses relatos e depoimentos. a opção para apresentar a hipótese social deste tópico. se fosse possível investigar alguma herança genética que facultaria esse seu comportamento no entorno em que vivia.
utilizando-se exaustivamente dos dados divisórios e dos enraizamentos. será possível fazer a análise da estrutura. a utilização de todos os seus submodos disponíveis para o estabelecimento da investigação. Isto porque os fenômenos provocaram inúmeros significados nas mentes das pessoas (até hoje) e talvez a forma como foram expressos. isto não facilitaria memeticamente os conteúdos mariológicos? Evidentemente. Assim. Pesquisa. poderão ser consideradas. tendo em vista que as suas metodologias contribuem sobremaneira para a compreensão dos referidos fenômenos. dos exames categorias e de seus submodos. não estaria a vidente ampliando a sua axiologia. no entanto. além do atendimento individual no consultório. não apenas no âmbito da Memética. o filósofo clínico teria que usar os tópicos ação. o qual poderia implicar em psicopatologia. aberto e muito fértil para muitos tipos de pesquisas. as descrições antropológicas como a de Lévi-Strauss. tendo em vista as peregrinações ao santuário que foi erguido em Lourdes. bem como os submodos que foram empregados na historicidade dos eventos. não haveria o uso de submodos por parte do clínico. Ainda no tocante à singularidade existencial. por exemplo. a despeito dessas fronteiras ainda não estarem totalmente delineadas. não fornecem a dimensão epistemológica plena. e até o segundo nível da Dinâmica da Espiral poderão ser usadas. uma lógica que permita outras atribuições de causalidade e seus efeitos. cabendo. implicando em uma elevação de suas emoções? Em caso positivo. suspensão de pré- . há que se considerar o “terceiro excluído”. como a precognição e ufologia. No que diz respeito a uma Estrutura de Pensamento Social deste caso. Assim. 14 Ainda. em interfaces com a Psicologia Anomalística e a Filosofia da Mente. Não apenas aos feitos mediúnicos de qualquer espécie. Percorrendo todos esses passos da clínica filosófica. mas também elementos outros. mas também as suas relações com a cultura na qual o médium está inserido. Todos os demais exemplos registrados no presente artigo são passíveis de serem avaliados pela Filosofia Clínica. vinculada às emoções e aos valores. Conclusão A Filosofia Clínica é um campo vasto. Esta pequena abordagem que estabelece algumas interfaces com outras áreas do saber é uma pequena amostra de como áreas tão complexas como a Parapsicologia e a Religião podem ser abordadas pelo prisma da Filosofia Clínica. para compreender os fenômenos apresentados. mas também sob outras abordagens. que poderiam alterar intencionalmente alguma parte da referida estrutura. aliada à linguagem expressa por ela (dados de semiose) seriam elementos a serem avaliados. para tentar fixar uma análise indireta. os campos morfogenéticos. Caberá ainda ao filósofo clínico. hipótese e experimentação. Evidentemente. evidentemente a visões de mundo e dos envolvidos terão uma conotação diferenciada. portanto. Teorias complementares como a Psicologia do Destino. Uma interface muito importante com a Psicologia Anomalística reside na avaliação do médium (qualquer que seja a sua natureza) não apenas em seu aspecto individual. se houver a possibilidade de uma análise da Estrutura de Pensamento de Bernadete. No que tange à estruturação de raciocínio da vidente e de seus seguidores. torna-se passível ao pesquisador filosófico investigar elementos que desafiam a Lógica Clássica e aquilo que se conhece como real. como o exemplo aqui referido. a subjetividade de Bernadete. além daquelas que dão título ao artigo. integrante de seu aparato religioso-devocional. Especificamente os tópicos Significado e Expressividade teriam lugar de destaque. outras interfaces. uma vez que os fenômenos não podem ser explicados empiricamente. a despeito da construção teológica que fora erigida. haveria uma possibilidade maior da compreensão de suas narrativas acerca do que viu. neste artigo não há como responder. Portanto. O mesmo poderia ser dito daqueles que nela creram e creem até a atualidade.
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