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HENRI CUECO

Abordagens do conceito de paisagem

Meu vizinho mais próximo, Louis Y, é agricultor aposentado. Desde que sua mãe e seu irmão morreram, ele vive só. De vez em quando, Louis atravessa a estrada e vem procurar “um pouco de companhia”. Durante as sessões de trabalho sobre a tela, diante da minha “paisagem do Pouget” que estou pintando ou desenhando, ele se senta no pasto junto a mim. Depois de enrolar um cigarro, observar meu trabalho por um momento, ele fala; ele sempre começa a conversação pela mesma observação que resume sua benevolência e sua perplexidade: “é preciso paciência”. Depois ele diz aquilo que o preocupa: o tempo, a doença, a morte, seja a de um vizinho ou de um parente, um banquete, um casamento, a cotação dos animais na feira, o preço das coisas comparado ao preço de antes da guerra. Eu tento responder, mas, na verdade, duas conversas paralelas se instalam, à beira do absurdo. Nós falamos cada um por nossa conta. Às vezes eu o observo, ele pisca os olhos observando meu desenho, faz caretas que traduzem sua perplexidade, caretas que acentuam a inércia de uma prótese inadequada. Sem dúvida, desencorajado por meus silêncios ou por minha incapacidade de retomar a conversa sobre a baixa da cotação dos bovinos ou o aumento dos preços, ele se retira depois de repetir que para fazer isso é preciso realmente ter paciência”.

Durante uma de suas visitas, os dois de frente à paisagem, eu tento fazê-lo se interessar por meus problemas, falo para ele da paisagem que aponto com o dedo afirmando que “eu a acho bonita”. Não obtenho nenhuma resposta. Eu repito, mas meu assunto não resulta em nada. Eu o ouço pegar um cigarro. Eu o pergunto, enfim, me colocando de frente para ele: “Louis, o que você acha: essa paisagem é bonita?”

Ele me olha e eu entendo que coloco para ele um problema difícil. Depois de outro longo silêncio, ele declara enfim: “Es brave lo pais 1 , dizem”. Eu finalmente entendo: a palavra PAISAGEM não existe em occitano (aliás, ela só aparece na língua francesa no final do século XVI). A incompreensão a princípio não era apenas devido à habitual dificuldade de linguagem, mas à incompreensão do conceito de paisagem. A paisagem para ele, para as pessoas, é o pays 2 .

É que a paisagem é um ponto de vista intelectual, uma abstração, uma ficção. Para produzir uma paisagem é preciso parar, bloquear o olhar, enquadrar um sítio. Essa paisagem será desenhada, fotografada, descrita. Essa imagem bloqueada, esse tempo ficticiamente parado são noções de cultura erudita e que não correspondem a nenhuma vivência habitual das pessoas. As pessoas circulam, vivem num espaço múltiplo e multidimensional. A paisagem supõe, ao contrário, o corpo parado e o olhar

1 Frase em Occitano, língua românica que hoje sobrevive como um dialeto ainda falado em algumas regiões do sul da França. (N.T.) 2 Vale ressaltar que, em francês, a formação da palavra paysage (paisagem) advém, morfologicamente, da palavra pays (país). Entretanto, o termo pays nem sempre é usado no sentido de país, e sim em referência a territórios cujos limites não são puramente administrativos. (N.T.)

fixo. Situação ainda mais fictícia, mental, que o olhar precisamente fixo e fisiologicamente impossível, pois o olho só pode perceber em movimento. É verdade que hoje existe a imagem fotográfica, mas sua inserção no meio rural é relativamente fraco e, de todo modo, recente. É que esse aparelho fotográfico, do qual se esperaria uma exibição puramente técnica, é, na verdade, a ferramenta ideal para materializar esse conceito de paisagem. Ele é uma construção destinada a restituir essa ficção e só existe através dela. Na verdade, é a concepção do espaço “renascido” que se tornou materializado, mecanizado, alguns séculos mais tarde pelo aparelho fotográfico que submete o espaço a seu ponto de vista, a seus códigos. Um ponto de vista imaginário que faz do homem o centro do mundo. Compreende-se melhor, então, as

narrativas dos camponeses 3 livres da dificuldade de ler as fotografias ou, a princípio,

a televisão. Não se trata, obviamente, de uma dificuldade relacionada tanto aos

camponeses, mas de uma discrepância cultural, de uma outra concepção do espaço. Essas observações, sem dúvida, excessivas, parecem, entretanto, plausíveis.

Do ponto de vista de nossa cultura universitária, a “paisagem” é uma velha noção militar que codifica o espaço da conquista, o campo de batalha, a zona de combate. Os registros, os esboços das campanhas militares obedecem às convenções presentes na obra de técnicos ou de artistas. As duas atividades eram tão antitéticas quanto hoje. A “paisagem” é também a invenção do geógrafo que utiliza outros modos de representação: mapas, curvas de nível, cortes de terreno. Ele inventa a “paisagem” típica de uma região, de um país. Mas a “paisagem” é antes de tudo o assunto do artista, o terreno de uma confrontação dramatizada entre a experiência do real, a experiência interior ou mental e as restrições do espaço pictórico (superfície, materiais, história das formas, invenção das formas, organização). O artista fará dessa confrontação sua atividade permanente produzindo, a cada etapa da história, novos símbolos e novos sistemas de representação.

De fato, existe também para o meu vizinho uma noção de sítio paisagístico, mas quanto ao termo “paisagem” ele prefere o “ponto de vista”, o “vista bonita”. Trata-se, sem dúvida, de velhas noções, hoje ainda vivas, do que seja o sítio inexpugnável, o lugar alto, fácil de defender e de onde se vê chegar, o ponto culminante de onde o proprietário, o dono, contempla seu domínio, ou os montes de onde o pastor toma conta do rebanho. Nota-se que na maior parte das culturas os pontos de vista de onde se descortina amplamente o pays, os pontos culminantes, constituem os sítios aos quais se aplica a noção de beleza. É, em todo caso, uma noção comum aos habitantes do meio urbano e do meio rural. Esse sentimento de beleza associado aos panoramas poderia ser uma condensação no inconsciente coletivo de, ao mesmo tempo, considerações úteis, de sentimento de segurança e de satisfações relacionadas à possessão, ao exercício do poder, ao domínio da natureza.

Mas talvez exista ainda o traço, na cultura camponesa, de um sentido do sagrado ou

do religioso, tão presentes nas culturas antigas. Não está no nosso propósito detectar

a existência desse sentido nos ritos menos ou mais abandonados, as práticas

3 Paysan, no original em francês. É importante observar que o termo paysan se aproxima bastante do termo paysage. (N.T.)

culturais, e sim nos interrogar sobre a sobrevivência do sagrado em relação à paisagem. Talvez esses sítios elevados, esses lugares culminantes de onde se pode perceber a extensão do pays, sejam lugares privilegiados para interiorizar, hoje de maneira inconsciente, e antigamente, sem dúvida, de maneira evidente, as ligações que uniam o homem ao mundo, ao cosmo. Se o observador se sente maior quando ele domina seu território do olhar, ele captura melhor do que em outros lugares, a posição de sua dimensão relativa; ele está também, nesses lugares culminantes, mais “perto” do céu e das estrelas.

A presença da paisagem na arte marca, certamente, essa preocupação do sagrado,

onde a obra de arte, aliás, não está jamais separada da igreja ou do museu.

Notamos de passagem que a “vista bonita” nos indica uma situação dupla: trata-se, evidentemente, da vista do observador, pode se tratar reciprocamente da própria paisagem que é dotada da faculdade de ver. Essa permutação de situações que evoca uma concepção animista da natureza incorpora o homem à natureza de maneira indissociável.

Para Louis, esse ponto elevado, essa “vista bonita”, é simplesmente o território de seu conhecimento. Do ponto onde nos encontramos ele me aponta os lugares: a Rocha, Poncharal. Essa circulação do olhar incita a pensar que em nenhum momento ele paralisa sua visão para transformá-la em imagem; trata-se antes de uma circulação imaginária, se apoiando na memória e na experiência.

A “paisagem” não existe espontaneamente; ela não se torna ela mesma, apenas por existir. Ela é uma construção mental que não percebe a experiência corporal na sua relação com o espaço.

O “pays” designa primeiramente a quantidade do espaço visível; Além disso, ele é,

sem dúvida, uma entidade vaga que compreende os espaços convivência que “criamos” de maneira habitual: comuna, distrito. Ele implica a noção de espaço amplo

e contínuo, uma geometria espaço-temporal oposta a uma geometria plana da

paisagem – na qual o homem existe em movimento. O “pays” supõe a mobilidade, o intercâmbio entre o habitante e o seu meio.

Es brave lo païs”, tradução literal de “A paisagem é bela”, não tem, na verdade, o mesmo sentido. Entretanto falamos do mesmo objeto o espaço indicado em nossa frente , o qualificamos da mesma maneira, acreditamos nos entender, porém não dizemos a mesma coisa. Na verdade Louis diz mais que eu com o pays”, esse lugar vivo, aberto, no qual está sua existência e sua cultura. Minha “paisagem bonitame surge como uma preocupação redutora ou achatada, carregando a pretensão do saber dos intoleráveis mal entendidos.

Eu estava preso na contramão. Depois de um longo silêncio, eu quis explicar a Louis qual era meu território, aquilo que eu via; eu disse “é bonito aquele amarelo lá embaixo” designando um campo de colza 4 ou de nabos em flor brilhando ao sol,

4 Tipo de flor. (N.T.)

iluminado por um raio entre duas nuvens, uma iluminação de hall musical. Ele traduziu imediatamente minha mensagem termo a termo, e disse: é a casa de um tal, ele planta o colza, esse campo não vale grande coisa. Sobre a cor do campo ele não disse nada; sem dúvida ele havia entendido essa qualidade como um meio para mim, na minha total ignorância, de identificá-lo, de designá-lo. Meu discurso, que fazia da cor uma propriedade em si, uma qualidade particular dos objetos, suscetível de ser abstraída de um conjunto de propriedades, se deparava com sua concepção do mundo, de um mundo que existe concretamente e que é necessário conhecer em sua totalidade para modificá-lo, cultivá-lo. A cor é, então, apenas um dos avatares, uma propriedade eventual, de um objeto definível pela percepção de uma enorme quantidade de propriedades, e entre elas, outras além da cor, mais fundamentais a seus olhos, justificam o esforço do homem para o trabalho.

Ele indicou simplesmente aquilo que ele acreditava que eu era incapaz de identificar e que era elementar saber: a natureza da cultura, o colza. Em relação ao campo eu entendi em seguida, e a partir dos detalhes que ele me deu, que ele estava mal localizado, inclinado, e, portanto, difícil de se trabalhar, sendo assim uma terra ruim. Não existia então nenhuma razão dentro da sua lógica para aceitar que ele pudesse “se passar por bonito”. É que a beleza de um campo não é sua cor e nem sua forma em relação a outras cores e outras formas ao redor, como numa paisagem pintada, mas um certo número de qualidades associadas a sua função: sua situação, sua horizontalidade, sua regularidade e a qualidade da terra. É isso que na sua cultura o permitiria me conceder a beleza. Na verdade, ele teria me dito “esse é um bom ou um mau campo”.

Eu não me lembrava, na verdade, de tê-lo escutado dizer que o pays era bonito, com exceção, todavia, de uma situação particularmente dramática. Seu irmão estava no hospital, e se ele sofria depois de sua operação, era também por estar longe de casa. Ele dizia, e era Louis quem me contava: “Como o Pouget, não há nada mais belo”, e ele repetia logo em seguida, como se faz bastante no interior para deixar a palavra mais sólida através da repetição: “não há nada de mais belo que o Pouget”.

Entretanto, Louis reconhece com muito gosto a beleza de uma mulher quando ela é alta e bem feita. A “beleza” parece ser reservada às coisas vivas em geral. Uma lebre bonita significa que ela é encorpada, um porco bonito, que ele está exatamente no ponto para ser morto, uma vaca bonita, ao contrário, envolve ao mesmo tempo a qualidade da carne, e as considerações mais complexas que envolvem a definição da pureza da raça escolhida: por exemplo, a cor de trigo que cobre a Limousine 5 .

De fato, a beleza, e isso não é uma descoberta, não existe em si, ela se aplica a um objeto ou a um ser no qual se condensam um certo número de propriedades esperadas. Ela traduz o reconhecimento dessas qualidades a um nível evidente de intensidade, permitindo operar a passagem do particular, do normal, para uma super- normalidade que produz uma variedade de modelo, de referência, um arquétipo. Para cada um de nós a beleza não é, sem dúvida, apenas isso. Apenas são modificados

5 Região da França. (N.T.)

os componentes do arquétipo e isso é fundamental. Esse arquétipo da beleza, essa

idealização, essa abstração, permitem uma comunicação no interior de uma comunidade de interesses. Louis será compreendido pelo Sr. Jéretie, outro cultivador, se ele o disser que aquele campo é bom ou bonito, que aquela vaca é bonita. Seria interessante verificar se nós falamos da mesma coisa quando ele diz que uma mulher

é bonita. Mas eu não seria compreendido por Louis se eu o digo que tal paisagem é

bonita em virtude de referências puramente estéticas as quais ele nem suspeita que exista.

É a partir da soma dessas constatações banais, mas cuja amplidão até então havia

me escapado, que nasceu o desejo de entender melhor as diferenças e as sobreposições entre as culturas de um mesmo pays, de uma mesma região, na mesma época. É a partir desse ponto de partida que surgiu a idéia de um verdadeiro trabalho de confrontação entre as pessoas, sobre esse objeto aparentemente conhecido, imediato, banal e cotidiano que era para mim, até esse dia, a “paisagem”.

A partir de interrogatórios informais que nós entregamos, trazemos aqui algumas reflexões que constituem referências para um trabalho futuro.

A paisagem em Uzerche 6

Em Uzerche, a noção de paisagem foi acolhida como uma realidade implícita para as pessoas e os para os decisores. Mas enquanto no projeto inicial do pintor, sobretudo em Vigeois, trata da paisagem do interior (árvores, campo, sebe), o termo apareceu em Uzerche em função das imagens da cidade, a paisagem construída, casas, castelos, paredes, ou da relação rigorosa entre o construído e seu meio ambiente.

É verdade que a cidade é uma construção feita a partir do olhar, a cidade primitiva é

coberta de castelos altos, de casas imponentes, dominados por sua igreja monumental. Esta cidade não pode ser concebida como uma arquitetura puramente funcional e cotidiana. A presença de numerosas edificações de caráter monumental impõe uma visão estética decerto harmoniosa e que compõe uma imagem. A noção de paisagem aqui é sustentada por uma abundante produção de cartões postais, de lembranças, pinturas (pode-se ver artistas paisagistas pelas ruas), filmes, livros, por

uma reputação de cidade histórica e, no verão, por uma abundante teoria de turistas. Existe nos habitantes a consciência mais ou menos crítica do caráter “pitoresco” do sítio e de sua importância no comércio local. Se isso impõe restrições para os proprietários (restrições impostas pelas Belas Artes), tem-se orgulho, ou tinha-se, de ser de Uzerche. “Quem tem casa em Uzerche, tem castelo em Limousin”.

A

situação da cidade permite uma interessante reciprocidade das visadas. Uzerche é

o

lugar de onde se vê, de onde se domina, é também o lugar que se vê do de fora, de

diferentes pontos culminantes em torno da cidade. Existe uma vista geral que se

6 Comuna francesa situada no departamento da Corrèze, na região da Limousin. (N.T.)

percebe de diferentes pontos reconhecíveis, conhecidos pelos habitantes e pelos turistas.

Na verdade, essa consciência é bem duvidosa quando a experimentamos ao longo dos anos face às necessidades de modernização e de restauração dos edifícios antigos. Em vinte anos, o inventário das depredações constituiria uma longa lista de destruições atingindo particularmente as casas sem valor monumental, e às vezes até mesmo os monumentos. A noção de sítio histórico não resiste jamais às ambições sociais, às necessidades comerciais ou especulativas e mesmo à vontade de “modernização” dos gestores: o sítio é lentamente consumido, destruído. A mais espetacular destruição dos últimos anos foi conduzida pela prefeitura que suprimiu os antigos moinhos de casca de árvore que se tornaram inúteis e naturalmente em mal estado de conservação, os substituindo por um estacionamento pouco utilizado.

Pareceria que aqui, como no campo, a renovação vem acompanhada, freqüentemente, pela necessidade de destruir simbolicamente as imagens do passado. O “assassinato simbólico do pai” 7 é perceptível na escala da coletividade nessas limpezas que apagam todo traço de memória, essas invasões, essas violências contra o antigo.

Atualmente a noção de patrimônio ainda é vaga, e as depredações públicas apenas levantaram raros protestos, às vezes passionais, na população.

Os decisores encaram sua cidade sítio histórico protegido como uma limitação, um entrave ao progresso apreendidos em termos de crescimento e modernização.

As pessoas foram tocadas pelo trabalho da Associação 8 e o movimento iniciado deveria dar seus frutos em um prazo bastante breve. Os eleitos agora foram alertados, uma consciência cada vez mais crítica do sítio excepcional e das restrições que ele impõe começa a se tornar uma verdadeira consciência local.

Se o trabalho de formação dos habitantes iniciado pela associação se prolonga, um estímulo à vontade dos eleitos poderia levar a soluções concretas mais facilmente.

Em resumo, a paisagem existe em Uzerche, e ela existe mais freqüentemente numa perspectiva tradicional que privilegia o monumento, negligencia o sítio e os traços do cotidiano. Se a noção de paisagem é sentida, ela se articula mal com a idéia do pays. Restaurar a cidade consiste então em manter as imagens no lugar de procura, na memória, um modo de inserção e de vida numa região. Outras ambigüidades subsistem na palavra “paisagem”, as quais nós tentaremos falar mais adiante.

A dinâmica industrial e tecnológica que não podem fecundar os lugares afastados geograficamente dos centros de produção e de consumo, os condena ao sub- desenvolvimento crônico. A procura de uma especificidade regional, de uma arte de viver, o inventário dos possíveis, a valorização das riquezas, poderiam se tornar uma

7 Meurtre symbolique du père” em referência às teorias freudianas. (N.T.) 8 Trata-se da Associação “Pays-Paysage” comum às duas cidades da Corrèze, Vigeois e Uzerche. (N.E.)

fonte de esperança e fazer nascer uma nova dinâmica. Essa é a aposta mais afortunada do projeto, mas ainda é muito cedo para fazer o balanço. O mais difícil ainda está por fazer: durar.

A paisagem em Vigeois 9

A atitude das pessoas em geral, em Vigeois, confirma o posicionamento do meu vizinho, ou seja, mesmo que eles sejam de cultura linguística francesa e não occitana como é o caso dos jovens habitantes do burgo, eles não falam espontaneamente de “paisagem”, mas mais geralmente de pays. Mas existe, entretanto, uma forte percepção da paisagem quando ela faz falta, ou seja, quando ela se torna o objeto de uma reconstrução mental.

Dois tipos de situação fazem surgir uma noção de paisagem bastante nítida:

1. A paisagem da memória. Se ela faz alusão à sua percepção, à sua qualidade, “era bonita antes”, essa rememoração é frequentemente mesclada com o sentimento de afetividade, ela globaliza um passado vivido como um estado de bem estar: a juventude, por exemplo.

2. Outra situação caracterizada também pela perda, pela falta, é a situação de exílio daquele que deixou o pays, mais frequentemente o exílio econômico-social, partida obrigatória ou promocional.

Essa realidade perdida, sua reconstituição em imagem, produz uma paisagem- lembrança que se torna, às vezes, um verdadeiro arquétipo: chaumière 10 de cartão postal, com uma estrada vazia, vale florido e céu eternamente azul. A estética formal dessa imagem, se ela existe, é então confundida com o prazer subjetivo de sua evocação.

Para um de seus exilados, carteiro em Paris, originário de um vilarejo do distrito de Vigeois, a nostalgia do pays perdido se manifesta diante da paisagem parisiense percebida da janela do seu H.L.M 11 . “A paisagem é isso que eu vejo da minha janela”. Ele se opõe então paisagem urbana que ele rejeita, se recusa a achar bonita reconhecendo rapidamente a parcialidade de seu julgamento, à paisagem que ele “vê de sua janela aqui”, e que ele acha bonita. “Eu não sei por que mas esses vales, esse

Depois dessa descrição da paisagem vista da sua

pasto inclinado, o horizonte

janela, ele confessa sua incapacidade de explicar porque “ele acha isso bonito”. A descrição que ele faz vai da paisagem-janela para o “pays” do qual Louis fala; sua abstração não representa o objeto de nenhuma tomada de consciência estética. Ele descreve as variações da paisagem a partir dos diferentes momentos do dia, fala da

”.

9 Comuna francesa situada no departamento da Corrèze, na região da Limousin. (N.T.)

10 Um tipo específico de casa de campo tradicional na Europa ocidental. Na França é muito encontrada na Região da Normandia. (N.T.)

11 H.L.M. “Habitation à Loyer Modéré”, habitação de aluguel moderado, faz parte da política de habitação francesa e se aproxima dos Conjuntos Habitacionais no Brasil. (N.T.)

luz e do clima; e acrescenta: “esses lugares que foram moldados com meu pai, nós arrastamos as pedras uma a uma para drenar esse pasto em baixo dos Sailloux” 12 .

A paisagem, como para esse exilado, é mais freqüentemente associada àquilo que se

vê da janela e essa idéia ressurge freqüentemente. É normal que a janela seja o lugar da paisagem, o enquadramento que marca seus limites, as linhas horizontais e verticais produzem uma primeira referência formal, consciente ou não. Aquilo que se vê da janela é enquadrado como uma imagem e o efeito de contraste (digo contraste simultâneo) entre a paisagem clara e o ambiente sombrio do interior, oposição entre

a intensa luz solar do exterior e a luz mais amena do interior da casa, produz um efeito de quadro que é uma primeira abordagem estética. É preciso associá-la também à noção de panorama: a janela é o ponto de vista dominante de onde se vê chegar, lugar de segurança.

Uma satisfação evidente acompanha o prazer da vista bonita” e justifica as satisfações conscientes-inconscientes produzidas por uma situação de domínio da natureza; a casa é o lugar construído pelo homem, a partir do qual, em segurança, abrigado, se mede essa domesticação. A janela é o instrumento de medida na dimensão do corpo.

O prazer estético que aparece como pura especulação encontra, na realidade, suas raízes originais nesse olhar vitorioso. Esse olhar é marcado, reforçado pelos arredores domesticados e “decorados” das casas de camponeses e de burgueses. Eu penso sobre a função dos espaços ajardinados, flores, canteiros, árvores ornamentais ou, no mínimo, podadas, sobre essa paisagem doméstica (que deve ser objeto de um estudo no ano que vem). Os jardins têm, sem dúvida, diversas funções: estar de acordo com a regra social do grupo, marcar o seu lugar, sua função em relação aos outros e marcar simbolicamente, hoje de uma maneira inconsciente e degradada, esse domínio do homem sobre a natureza pela fabricação de uma natureza reconstituída, domesticada. A função das plantas ornamentais, dos vasos de plantas, seria, deste ponto de vista, interessante de se analisar. Como e quando elas apareceram no meio rural? Essa função de cultivar flores, de plantá-las, é delegada àquelas poucas mulheres que competiriam, a partir de um modo metafórico e específico, com a cultura praticada pelos homens por um outro real crescimento da natureza? A plantação em vasos seria o símbolo de uma domesticação bem sucedida da natureza, ela marcaria o surgimento do luxo, dos momentos de lazer, o sinal de uma abastança social. A mulher assumiria, no plano simbólico, os sinais de um debate vitorioso, e se apoiariam nesse poder fertilizador. Com o desenvolvimento da sociedade industrial, a perda desses sinais simbólicos fez aparecer o contrário, mesmo que com essas mesmas atividades, o caráter irrelevante da esposa na casa se destinando a ocupações insignificantes e diminuídas. Visão atual de uma verdadeira civilização camponesa declinante ou perdida.

A “paisagem” doméstica, composta, organizada, codificada, é um objeto para se ver,

uma evidente formação cultural que envolve noções estéticas. Um simples gerânio

12 Sobrenome de Família na França. (N.T.)

num vaso sobre o peitoril de uma janela é, talvez, uma abordagem estética da paisagem cotidiana que se encontrará, assim, modificada ou exaltada.

Essa decoração floral e o reconhecimento de uma função estética paisagística presentes nela, são facilmente admitidas no pays. O concurso de casas floridas obteve, em Vigeois, um sucesso evidente que rendeu à cidade um prêmio nacional.

Na verdade, o jardim ornamental, se ele faz parte do registro da paisagem e se ele existe sob formas codificadas no meio rural, não é uma característica extravagante do seu habitante. Os jardins fantásticos do “cotidiano” são características dos jardins dos operários. A paisagem aparece a partir da sua ausência. O camponês, aquele que vive inserido nessa paisagem, não sente nenhuma necessidade de reconstituí-la, de diversificar seu espaço; ele só reconstitui a paisagem dentro do meio no qual ela desaparece: os arredores da casa.

No que concerne ao sítio edificado, o olhar do camponês ou o olhar do habitante da vila rural se encontram. Eles reconhecem uma vaga qualidade estética nos sítios monumentais: eleitos, eles aceitam geralmente a manutenção e as despesas decorrentes. Mas é difícil de compartilhar desse reconhecimento, daquilo que é admitido como beleza, daquilo que é reconhecido como qualidade técnica da obra, suas dimensões, e do respeito pela instituição que ele representa. Um prefeito questionado sobre o valor estético de sua cidade se contenta em fazer o inventário de alguns edifícios arquitetônicos, e nega a todas as outras construções qualquer valor arquitetônico. Nenhuma qualidade particular é reconhecida de imediato à arquitetura comum, popular, pobre, às vezes nem mesmo à evidente noção de sítio coerente de um bairro conservado ou do vilarejo em sua totalidade.

Para o camponês ou para os habitantes do vilarejo, fora desses edifícios monumentais, o resto dos edifícios antigos só testemunha a pobreza, a miséria. O camponês abastado, o jovem agricultor, normalmente apaga com obstinação, com fervor ou atirando fora os sinais de sua antiga vida miserável ou a de seus ancestrais. “Construir” uma casa nova é sinal de enriquecimento, de prosperidade. Enquanto os edifícios antigos, ainda sólidos, poderiam, economicamente, serem utilizados, reabilitados, esses edifícios, cuja qualidade estética é evidente, são abandonados por uma construção nova, difícil, permitindo induzir, ou sugerir um novo modo de vida. O camponês, geralmente reprimido e desprezado, abandona voluntariamente sua antiga pele para se revestir com aquela de seus dominadores.

Infelizmente, a nova casa que propõe um modo de vida mais urbano se revela inadaptada ao modo de vida do agricultor que em pouco mudou sua maneira de viver. Certamente, ele agora possui um banheiro, mas ele não se adapta bem ao aquecimento central. A casa sobre aquecida ou aquecida permanentemente prejudica as freqüentes saídas ao ar livre. O estoque de madeira, a criação de galinhas, o cachorro, a secagem de roupa, obrigam a construir edículas ao redor da casa, apêndices improvisados que produzem uma abundante arquitetura nômade ou residual: galpão, gaiolas, pilhas de madeira, telhados de meia água improvisados que

testemunham a dificuldade, quando se muda a vida simbolicamente, de mudar realmente de vida.

A paisagem-mercadoria

A paisagem, sua imagem, tornou-se parte inerente da transformação, através do

capitalismo, da natureza em mercadoria.

Se o camponês concebe a terra, objeto de trocas, em termos de superfície e de produção, por outro lado os novos operadores, os investidores imobiliários e industriais do turismo, transformam o pays em paisagem, em imagem, a fim de

produzir, com pouco custo, mais um valor adicionado ao seu objeto de negócio. A operação financeira é perniciosa, geralmente engenhosa. No caso do mercado imobiliário, por exemplo, a imagem vista da janela, a reputada vista (inexpugnável ou não) é também vendida mesmo que ela não constitua nenhuma contribuição materializada no contrato. Aquilo que se vê, uma cidade, a natureza, uma montanha,

o mar, a região, não estão à venda, mas a imagem percebida a partir do objeto adquirido é um fator de valorização.

Isso faz surgir, talvez, uma nova noção de propriedade que, fora da vista inexpugnável, modificará à longo prazo as atitudes, a mentalidade. Existiria um valor de uso daquilo que se vê que limitaria, como conseqüência, o valor de uso do objeto visto, e, por conseqüência, sua apropriação: o fragmento de pays adquirido já foi parcialmente adquirido direito à vista pelos outros; é também a parcela de uma entidade paisagística local, regional, nacional, propriedade de todos e de cada um.

Trata-se da criação de um objeto estético funcionando segundo os códigos emprestados à produção de imagens e que conduziram à criação das imagens de massa. Essa produção não foi objeto, em meu conhecimento, de nenhum estudo sistemático. O enunciado de um diploma de arquitetura ou de estética poderia ser:

estatuto e funcionamento das representações paisagísticas no mercado imobiliário, no mercado de lazeres e do turismo.

No caso do turismo e dos lazeres, a imagem da paisagem é uma maneira de tornar perceptível a noção do tempo através da representação de um espaço. É um

movimento circular, um tempo vivido dentro de um pays que é oferecido para a troca.

A imagem oferecida deve mostrar numa quantidade mínima de símbolos todas as

“possibilidades” num dado lugar; isso resulta geralmente num compromisso entre as referências estéticas ou culturais e a evidenciação das atividades oferecidas à venda.

As imagens obedecem às receitas, e os decisores locais se conformam com os exemplos provados pelo mercado do lazer. Isso se segue de documentos, em textos ou imagens, que mostram a região como qualquer outra cidade dos subúrbios de parisienses. Pode-se ver a igreja, a nova prefeitura (as pessoas se orgulham disso), o monumento aos mortos e a piscina pública. Se a natureza está excepcionalmente

apresentada, ela obedece às leis do gênero de representação paisagística: vegetação rasteira, vista para o mar, pôr-do-sol, etc.

Os panfletos turísticos da região, por exemplo, mostram a arquitetura monumental e

os

equipamentos esportivos, excluindo assim a essência da identidade local que está,

ao

mesmo tempo, no plano da habitação, do modo de vida e dos sítios naturais.

O

paradoxo é que a evasão que é sugerida no texto é geralmente negada pela

imagem, a qual precisa se esforçar, diminuindo o quadro limitado e limitativo do contrato para manter o desejo de acordo com aquilo que é proposto na troca. O consumo da liberdade se opera, assim, dentro de um quadro programado obedecendo

a uma regulação do mercado e do investimento. Esses modelos contaminam todos os

setores. Os restaurantes locais se rendem normalmente a uma comida nacional de supermercado, de restaurante urbano ou de cantina. Os pratos locais, a cozinha pobre, se tornaram o luxo do turismo, a especialidade. É preciso dizer que o comportamento dos turistas atua no sentido da destruição das culturas; os equipamentos que eles esperam encontrar, o conforto, a comida, seu processamento em massa obriga a destruir e a transformar de acordo com o modelo das periferias. Administram-se os vilarejos a partir da dinâmica de Sarcelles 13 .

Essa sociedade dinamizada pelo desenvolvimento da indústria e da sociedade

tecnológica produz modelos definitivamente mortais uma vez que eles são aplicados

no pays. Eles acabam por fazer desaparecer as culturas antigas e contribuem com a

dissipação dos agricultores tradicionais criando desempregados urbanos.

Poderíamos imaginar um outro funcionamento que propusesse aos visitantes outros pontos de vista. Isso implica que a sociedade em geral e, certamente, a sociedade local, se apropriassem desse outro modo de ver. Uma arte de viver, uma harmoniosa relação com a natureza, uma cultura original, e, à longo prazo, uma outra maneira de pensar as trocas humanas e sociais.

A paisagem não existe, é preciso a inventar.

Para que se constitua uma paisagem, para além da abordagem estética deliberada, consciente, é necessário uma situação de falta ou de ocultação que desenvolva o imaginário. A janela é a forma mais presente e mais característica dessa situação; ela esconde e ao mesmo tempo mostra, ela estimula o imaginário e produz ao mesmo tempo, através do enquadramento das linhas verticais e horizontais, os primeiros símbolos de uma construção mental. O construído intervém como formatação, geometrização da natureza disforme e opressiva. A cidade, a casa, encobrem uma parte da paisagem e introduzem na extraordinária complexidade da natureza a marca humana.

O olhar reconhece, dentro dessas linhas horizontais e verticais, onde quer que elas

estejam, a marca de uma capacidade de viver em harmonia com a natureza. O sítio construído focaliza o olhar, o obriga a se fixar e produz a paisagem. Essa passagem

13 Cidade emblemática da periferia parisiense. (N.T.)

do “pays” para a “paisagem”, do vivido em movimento para a abstração mental, produz, para aquele que sabe a reconhecer em meio a riqueza e a complexidade do imaginário, uma jubilação interior que é a marca, para o homem, do reconhecimento da sua própria existência e de seu estatuto.

Em resumo, a noção de paisagem, para além das noções cultivadas, é uma noção vaga. Os antigos camponeses preferem falar do pays.

Existe, entretanto, uma paisagem do exilado, uma paisagem de lembranças: o imaginário assume a retransmissão de uma realidade perdida.

Existe também uma paisagem urbana que se reduz muito frequentemente ao respeito das instituições, manifestado em relação aos monumentos que os representam.

Existe ainda vivo um gosto pelos sítios pitorescos, os panoramas, as paisagens “selvagens” onde se confundem, se sobrepõem os traços de uma cultura sagrada e os símbolos da dominação da natureza.

Essas associações com a natureza se encontram ainda nas paisagens reconstituídas

ao redor das casas camponesas ou burguesas, nos jardins domésticos. Novas noções de paisagens aparecem com o desenvolvimento da imagem, veiculadas pelas mídias e propagadas a fins mercantis pelo desenvolvimento do mercado imobiliário, de lazer

e do turismo. A transformação da natureza em mercadoria se opera através da imagem, imagem que é, ela mesma, uma mercadoria.

O impacto dessa propagação de imagens, as novas apreensões da paisagem são

ainda difíceis de medir nas suas incidências sobre os habitantes de pequenas cidades ou vilarejos ainda “protegidos” em relação aos centros urbanos e as regiões de grande desenvolvimento industrial.

Nos parece urgente, num primeiro instante, orientar nossas interrogações para uma percepção da paisagem pelos tradicionais camponeses ou habitantes do vilarejo sobre o risco de os fazer parecerem hoje como seres de ficção. Mas esse camponês em estado puro existiu realmente um dia?

Do livro: La Théorie du Paysage en France (1974-1994). Sous la direction d’Alain Roger. Paris: Champ Vallon, 1995 (pp.168-181).