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Caderno Nº1

Jan. 2008

Luta Social
Dossier: África – Europa hoje

Internet: http://www.luta-social.org
E-mail: iniciativalutasocial@gmail.com
Cadernos LUTA SOCIAL

número 1

Sumário

EDITORIAL
LUTA SOCIAL: Balanço de três anos de
percurso

Para onde vai Marrocos?


Por Mutamid (de CGT-Maghreb)

Desenvolvimento socio-económico de
Moçambique nas garras do capitalismo
neo-colonialista
Por Boaventura Monjane (Maputo,
Moçambique)

Para uma estratégia anarco-sindicalista


em África
Por Jonathan - ZACF (África do
Sul)

CIMEIRA U.E.-ÁFRICA E O PÓS-CIMEIRA:


Ajuda ou perpetuação da relação neo-
colonial
Por Manuel Baptista (Portugal)

Africanos e europeus
Por Edmundo Monteiro (Angola)

Entrevista a Ana Cruz de SOS-


RACISMO (Portugal)

Um caso paradigmático de gestão


obscura: a dívida fiscal
Por Grazia Tanta (Portugal)

Cadernos "LUTA SOCIAL" / Critérios


para Publicação

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EDITORIAL

LUTA SOCIAL: Balanço de três anos de percurso


O Colectivo Luta Social surgiu em finais do mesmo ano, veio legalizar este
de 2004, após a Conferência Libertária de sindicato de base.
Setúbal, da qual algumas pessoas que
vieram a fundar o Colectivo, foram Paralelamente, o sindicato ia iniciando a
organizadoras e participantes. sua actividade:

Os pressupostos do Colectivo foram, - Tomou posição, em vários comunicados,


desde logo, anti-capitalistas e anti- face às questões que afectam os
autoritários, para realizar trabalho trabalhadores portugueses e também fez
centrado nas lutas sociais. divulgação de informação sobre as lutas
sociais em Portugal e no mundo;
Desde o início do seu percurso (Março de
2005), o Colectivo Luta Social - Realizou reuniões com militantes e
diagnosticou a óbvia necessidade, no simpatizantes para definir a sua
panorama português, de um sindicato de estratégia;
cariz anti-autoritário e anti-capitalista, que
possa renovar o sindicalismo e - Efectuou Jornadas Interprofissionais,
apresentar-se como alternativa ao ainda em 2006, com debates públicos
sindicalismo burocrático reformista. sobre precariedade laboral, privatização
da educação e globalização da luta de
Não foi portanto por acaso que surgiu o classes;
primeiro sindicato de base, após o 25 de
Abril de 74 em Portugal, mas antes pela - No ano de 2007, realizou um seminário,
acção do Colectivo, cujos membros em Lisboa, sobre «violência na escola,
decidiram fundar a Associação de Classe violência na sociedade», por iniciativa
Interprofissional (AC-Interpro) em Junho do seu sector da Educação;
de 2006.
- Em Abril-Maio de 2007, a AC-Interpro
Tinha este grupo de militantes já participou na conferência de Paris i07,
participado na fundação, um ano antes, de que contou com sindicatos
um núcleo da FESAL-E, a Federação revolucionários e autónomos dos 5
Europeia de Sindicalismo Alternativo, continentes.
ramo Educação. Pensou-se, um ano
depois, que estavam reunidas as Mas, desde cedo, surgiram dificuldades
condições para a criação de um sindicato diversas:
de cariz anti-autoritário.
As reuniões eram, por vezes, pouco
Após a Assembleia fundacional, em Junho participadas. A organização horizontal
de 2006, levou-se cabo a tarefa da necessita da participação activa de todos
legalização do sindicato, tendo havido os interessados; a ausência de hierarquias
necessidade de uma mudança dos implica a assunção das
estatutos para ficarem conformes à lei. A responsabilidades, por parte de todos.
sua aprovação ocorreu em finais de
Outubro de 2006 e a publicação no boletim Um obstáculo imprevisto foi a acção do
do Ministério do Trabalho em Novembro Ministério Público contra a AC-Interpro,
em Janeiro de 2007, com o intuito de a

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extinguir, alegando que os estatutos não
estavam conformes com a lei. É com esse espírito que lançámos estes
«Cadernos Luta Social», apostando nas
Os argumentos eram de duvidosa colaborações. Queremos que boa parte do
pertinência. No entanto, por falta de seu conteúdo seja da autoria de terceiros,
capacidade financeira, não se podia pessoas e entidades amigas do Colectivo,
contratar advogado, envolvendo o de Portugal ou do estrangeiro, que
sindicato num processo que poderia ser queiram contribuir pela reflexão e análise,
ruinoso e de desfecho incerto. Optou-se para lançar ou aprofundar o debate, num
por não contestar a acção. A sentença vasto leque de temas:
acabou por ser decretada pelo tribunal e o
sindicato foi legalmente extinto em finais - A luta de classes não se extinguiu, mas
de 2007. assume novas formas. Quais os desafios
que se nos colocam, quer no plano das
O Colectivo Luta Social reconstituiu-se. tácticas quer da organização?
Os seus militantes actuais são, na sua - À internacionalização do capital não
maioria, ex-membros do sindicato AC- corresponde uma internacionalização da
Interpro. Mas desta vez, assumindo-se solidariedade actuante dos explorados e
como Colectivo autónomo e sem procurar oprimidos. Que caminhos se abrem a
satisfazer exigências jurídicas destinadas uma cooperação directa entre os povos,
a abafar quaisquer veleidades de nas suas lutas?
contestação ao sistema instituído. A
menos que tenhamos um número - Há muitas causas transversais, como a
relativamente grande de activistas, a igualdade de géneros, o combate ao
organização de um sindicato, que racismo e à xenofobia, a luta pela
corresponda minimamente aos nossos preservação do ambiente e outras, que
anseios, no quadro da legalidade deveriam ser confluentes com e
instituída, não se nos afigura possível de fortalecimento do campo não reformista,
momento em Portugal. o campo anti-capitalista e anti-
autoritário. Como agirmos para que isso
Agora, com estatutos renovados e com ocorra?
novo «visual», quer do sítio Internet, quer
na lista de discussão a ele associado (*), o - A cultura e a educação verdadeiras são
Colectivo estará em condições de uma troca horizontal, não hierarquizada.
aproveitar a experiência acumulada e Como nos organizarmos para
continuará a desenvolver um trabalho de produzirmos a nossa própria cultura, em
intervenção, seguindo os mesmos ruptura com a esquizofrénica sociedade
princípios, adaptando-os às de consumo mas, não isolados da
circunstâncias concretas que vai generalidade das pessoas, não
encontrando. encerrados num gueto.

Uma aposta nossa é a horizontalidade. Estamos bem cientes de que apenas


Todos os membros têm igual peso na podemos começar a dar respostas a estas
tomada de decisão. e noutras questões, agindo em
solidariedade e cooperação no terreno
Outra aposta é a abertura; estamos social.
disponíveis para colaborar com outros
colectivos ou associações, sempre que Não temos soluções «prontas a servir»,
houver convergência de propósitos, até nem achamos de interesse apresentar
mesmo quando ela seja limitada a alguns receituários, ou modelos.
domínios.

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Tenhamos a inteligência crítica para
perceber que não é possível aprendermos (*) Sítio Internet: http://www.luta-social.org
com as experiências alheias, mormente no Lista de discussão:
terreno social, a não ser que partilhemos http://groups.google.com/group/iniciatival
as suas práticas construtivas. Apelamos - utasocial
por isso - à cooperação e entreajuda
permanentes, no nosso campo.

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Para onde vai Marrocos?
Por Mutamid (de CGT-Maghreb)

Para compreender Marrocos, é preciso ter manipulação do Islão ao serviço do


em conta que Marrocos actual é o príncipe dos crentes, o rei. A par disso há
resultado do encontro e aliança entre o um povo que resiste, apesar das traições e
modelo de desenvolvimento capitalista que não se deixou enganar na última farsa
(que penetrou através do colonialismo, eleitoral.
especialmente francês) e o poder feudal
tradicional do sultão, Makhzen, poder que AUMENTA A REPRESSÃO
se baseia na ideologia árabe-islâmica.
A situação actual é muito difícil. Tudo leva
No princípio de século XX, deparámo-nos a crer que há uma ofensiva das forças
com dois Marrocos claramente diferentes, conservadoras sobre o movimento de
“el bled el makhzen”, território submetido resistência, com o apoio incondicional da
à autoridade absoluta do sultão, como EU e dos EUA.
príncipe dos crentes, fazendo parte do
mundo árabe e muçulmano e “el bled es Apesar do boicote massivo das eleições
siba”, dissidentes, rebeldes, sem (oficialmente uns 63% de abstenção, ao
autoridade central, regendo-se apenas por que há que juntar uns 18% de votos nulos,
leis da própria tribo, os territórios dos muitos deles com insultos aos partidos
“imazighen” (tribos berberes) participantes, e 1 milhão de eleitores que
essencialmente. nem sequer se registaram),
povoações/aldeias inteiras que decidiram
Mas é o colonialismo, especialmente o boicotar as eleições como Sidi Ifni, onde
francês, que vai originar um aparelho de todo o tecido associativo se pronunciou
estado forte, centralizado, submetendo as favoravelmente pelo boicote, “el Makhzen”
tribos pela força ou pela corrupção, conseguiu fazer passar a imagem dumas
nomeando “caid” (chefes) e eleições transparentes e democráticas,
representantes da administração central onde participaram todos os partidos
entre as tribos, rompendo com o legais, 33 partidos, incluindo a extrema
igualitarismo dominante, impulsionando esquerda (excepto a Via Democrática).
elites dentro destas, criando as condições
para que o futuro rei de Marrocos Curiosamente, o povo marroquino é muito
Mohamed V possa subjugar um país mais consciente do que o europeu e
multifacetado, plural, a uma monarquia percebe que, nas eleições, nada está em
absoluta, que impõe uma língua não falada jogo: todo o poder está no rei, no palácio,
(o árabe normativo) no sistema de ensino onde se decide tudo o que acontece no
e na administração, a par com o francês. país. O Parlamento, onde têm assento 20
partidos, o governo a que preside El
O estado actual marroquino é fruto dessa Istiqlal, representante máximo dessa
fusão entre o estado centralista imposto ideologia nacionalista árabe-islámica,
pelo colonialismo francês e o sultanato submetida ao Makhzen, com o corrupto
medieval, baseado num rei com poderes Abbas El Fassi à frente - apesar de ser o
absolutos, numa unidade imposta com a responsável por 80 000 desempregados/as
ideologia árabe/islâmica, num país no conhecido caso Amajat, uma empresa
maioritariamente “amazigh” e na fictícia que oferecia 30 000 postos de

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trabalho e cobrava 100 euros por exame às lutas populares face à subida de
médico obrigatório numa clínica em preços, à falta de equipamentos sanitários
Casablanca, tudo avalizado pelo ministro e educativos (repressão em Sefrou,
do trabalho do governo, el Fassi - são Bonafra, Tantan, Taroulant.); à imprensa
meras marionetas do palácio. É verdade minimamente crítica e com alguma
que os parlamentos europeus dão algo independência do Palácio; ou ainda contra
mais de credibilidade à democracia, mas determinadas organizações como a
não deixam de estar submetidos aos ANDCM, a AMDH e a Via Democrática (19
poderes económicos e reais da UE, que é presos no 1º de Maio). E não podemos
onde se decidem as coisas, e não nos esquecer a repressão sobre o povo
hemiciclos. saharaui com contínuas prisões,
encarceramentos e estados de excepção.
Em oposição ao Makhzen e ao
colaboracionismo da grande maioria dos A UNIÃO EUROPEIA E MARROCOS
partidos de todas as cores, a abstenção
foi defendida pelo movimento amazigh Marrocos faz parte da periferia da UE, a
(movimento de grande base popular, mas qual considera este território como
com orientações muito diversificadas que fazendo parte do seu mercado, apesar das
vão desde posturas racistas, a posturas ingerências dos EUA e, como garantia da
de luta consequente pela terra e as sua segurança interna e externa. O
tradições libertárias e colectivas de muitas projecto da UE para o Magreb, liderado
tribos imazigh; pelos islamitas radicais do pela França (A União Mediterrânica de
xeque Yasin, que vai alargando Sarkozy), com a não menos importante
paulatinamente a sua base de apoio colaboração do Estado espanhol, que
popular e subtraindo importantes recolhe a sua parte do negócio/capital,
quantidades de votos ao PJD, partido tem como objectivos: ampliar o mercado
islamita próximo do poder; e os marxistas- europeu, aceder aos recursos naturais e
leninistas da Via Democrática, numa energéticos marroquinos, privatizar as
posição difícil no que concerne à suas empresas e os serviços públicos
esquerda dominante social-democrata e mais lucrativos, deslocalizar empresas
que terá de optar entre continuar numa (Delphi, Renault.), controlar a imigração e
postura de confronto, cada vez mais criar uma política comum de segurança
sozinha contra o poder, (migratória e antiterrorista). Marrocos já
movida pelos movimentos sindicais e participa em manobras e reuniões da
sociais de resistência, ou aceitar parcelas NATO.
de poder, através, por exemplo, de
eleições municipais, como moeda de troca Neste contexto, em que a UE vai perdendo
para travar a mobilização operária e social, a sua legitimidade democrática, fazendo
como fez o PC Espanhol na época da um tratado de reforma subscrito
“transição democrática”. exclusivamente pelos governos,
marginalizando o próprio parlamento
El Makhzen, vai massacrar, está europeu e evitando qualquer consulta
massacrando toda a oposição real, sob popular, o povo marroquino não pode
uma fachada democrática avalizada pela esperar nenhuma pressão dos governos
UE. A repressão é brutal e viola todos os europeus para a implantação dum sistema
direitos humanos, quer se dirija contra os democrático em Marrocos. A democracia
islamitas radicais, encarcerados aos do Makhzen está homologada pela Europa
milhares; ou contra a resistência amazigh e pouco importam, para as empresas
na defesa da terra, da água e dos seus europeias e transnacionais, as
direitos culturais e linguísticos; aos continuadas violações dos direitos
estudantes do MCA de Meknes e Rachidia; humanos em Marrocos. O Mercado Único

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impõe-se e o sangue dos povos continua a repartição de parcelas de poder pelas
correr. várias associações; a clarificação do
movimento amazigh na sua oposição ao
modelo neoliberal e na defesa dos direitos
CAMINHOS DE RESISTÊNCIA económicos e sociais dos imazighen,
ampliando o reduzido limite da língua e da
O desenvolvimento e coordenação das cultura, sabendo-se que todos estes
lutas autónomas existentes, que possam elementos podem oferecer uma
criar as bases duma organização sindical resistência importante aquela que já se
autónoma; o avanço de posições que vislumbra.
potenciem movimentos sociais de luta,
autónomos e não controlados pelos Neste processo, a resistência do povo
partidos, o que pressupõe uma marroquino conta com o apoio da CGT-
transformação da mentalidade da Espanha.
esquerda marroquina, habituada à

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Desenvolvimento socio-económico de Moçambique nas
garras do capitalismo neo-colonialista
Por Boaventura Monjane (Maputo)

Depois de cerca de 500 anos da presença O capitalismo crescente, um regime no


(colonial) de Portugal no país, qual o poder político dos líderes africanos
Moçambique proclama a sua está totalmente dependente dos
independência a 25 de Junho de 1975. detentores de capitais, que são na sua
Contudo, a presença imperial de Portugal maioria europeus, americanos e,
e do resto do mundo ocidental sempre se actualmente, cada vez mais chineses, tem
fez sentir, através da forma neo- estado a pressionar no sentido de
colonialista, não apenas na política como, privatizar todo o tipo de empresas e
e sobretudo, na vida económica do país. instituições, desde as de produção até as
Aliás, Moçambique não é o único em que de prestação de serviços, como se essa
esta situação se nota no período pós- fosse a forma ideal para acelerar o
colonial; em vários outros países desenvolvimento de África. Mas, quando
africanos, se não em todos, tal situação se pretende que a privatização de todas as
prevalece até aos dias que correm. Não é áreas económicas ponha o país a salvo do
difícil entender o que estamos a dizer. poder estatal, esconde-se que o
verdadeiro problema está no monopólio
ou oligopólio, que transfere o poder de
Entendendo o neo-colonialismo como
mãos do estado para mãos de um para-
sendo o poder branco (ocidental) com face
estado manejado, não mais por uma
negra (africana, neste caso) é demasiado
minoria burocrática (que é a característica
simples compreender a vontade que os
da maioria dos governos dos países
antigos colonizadores, através de novas
africanos) senão pela minoria particular
estratégias, têm de manter um controle da
que aumenta o processo de concentração.
economia que define as limitações do
Esta minoria particular é, em última
poder político africano. O crescimento e a
instância, o imperialismo capitalista. Isto
efectividade da resistência africana à
tem caracterizado Moçambique desde que
opressão e exploração europeia
proclamou a independência até à
eventualmente obrigou a que o domínio
actualidade. Os nossos dirigentes
colonial directo fosse impossível. Esta
esquecem-se que a organização social
resistência fez com que o imperialismo
requer um tipo avançado de coordenação
europeu disfarçasse seu domínio e
a salvo de toda a concentração de poder,
exploração, adaptando-o em uma nova
seja esta privada ou estatal.
forma de domínio (colonial) indirecto. Esta
situação sufoca a liberdade política e
Mas, em volta deste enredo, verifica-se
económica dos países e o
uma cumplicidade por parte dos nossos
desenvolvimento socio-económico de
governantes em Moçambique. Na essência
Moçambique é afectado de forma
de seus actos e discursos pode-se notar o
visivelmente prejudicial. É que não são os
excesso de dependência externa, que se
moçambicanos quem define o ritmo e a
manifesta pelo crescente estender da mão.
velocidade do seu desenvolvimento e
Mas até quando, afinal, este imbróglio?
crescimento económico.
Mais não dizemos.

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Para uma estratégia anarco-sindicalista em África
Por Jonathan - ZACF (África do Sul)

O presente artigo debruça-se sobre as educação, construção, correios, saúde,


possibilidades e oportunidades para cultura, arqueologia…); e encontros
espalhar as ideias anarquistas em África destinados a regiões geográficas
através da intervenção de anarquistas e (Palestina, Europa, as Américas, Africa,
anarco-sindicalistas de fora, pela zona Mediterrânea). A conferência acabou
construção de solidariedade no terreno e com um bloco anarquista/anarco-
de apoio para os sindicatos africanos e sindicalista/sindicalista de cerca de 5 000
para outros movimentos dos participantes de cada canto do mundo, na
trabalhadores e dos pobres. manifestação do 1º de Maio em Paris.

Ele foca alguns factores que devem ser O que foi particularmente interessante
tidos em consideração e algumas para nós, como referido em detalhe neste
sugestões acerca do desenvolvimento de artigo, é que, pela primeira vez, a
uma estratégia anarco-sindicalista para Conferência Sindicalista internacional teve
África. uma presença africana significativa, com
delegados representando sindicatos da
Entre 28 de Abril e o 1º de Maio de 2007 Argélia (Snapap), Marrocos (UMT, CDT,
cerca de 250 militantes dos cinco ANDCN, camponeses pobres, FDR-UDT),
continentes reuniram-se em Paris, França, Tunísia (CGTT), Guiné-Conakri (CNTG,
para a Conferência Sindicalista CEK, SLEG), Costa do Marfim (CGT-CI),
Internacional i07, na sequência das Djibouti (UDT), RD Congo (LO), Mali
Conferências Sindicalistas de São (Cocidirail, Sytrail), Benim (FNEB, UNSTB,
Francisco (EUA), de 1999, designada por AIPR), Burkina Faso (UGEB, CGT-B, AEBF)
i99 e da que foi realizada em Essen e Madágascar (Fisemare).
(Alemanha), em 2002, designada i02.
As posições políticas das confederações
Os objectivos dos encontros eram os de de trabalhadores CGT-B e estudantes
partilhar experiências, debater e iniciar a UGEB de Burkina Faso são descritas pela
reconstrução de laços entre várias CNT-F como “sindicalismo de classe,
organizações e unir trabalhadores de revolucionário, de um ponto de vista
diferentes países, para adequar os meios marxista”. De modo análogo, o Fisemare
de informação, luta e acção, na de Madagáscar é descrito como sindicato
organização da solidariedade independente marxista, enquanto o
internacional contra a exploração e Snapap argelino é independente mas não
domínio capitalistas. O fim de semana revolucionário, embora seja interessante,
incluiu discussões, oficinas e debates pois se opõe ao que era até agora a única
relativos a questões sindicais confederação sindical do país, a UGTA. A
(cooperativas, repressão, CNTG guineense é o maior sindicato do
representatividade, União Europeia, país, filiado na convencional
trabalho precário ou informal, as Confederação Sindical Mundial e obteve
deslocalizações…) assim como questões uma grande vitória numa greve, este ano.
sociais (anti-sexismo, campanha contra a Um representante do sindicato guineense
Coca-Cola, trabalhadores migrantes, de estudantes no exílio também esteve
antifascismo, lutas por casa, anti- presente no i07 e a CNT-F disse que os
imperialismo e neo-colonialismo...); membros do Cocidirail e o Sytrail,
encontros sectoriais (metalurgia, sindicatos ferroviários do Mali, filiados na

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confederação principal do Mali, a UNTM, explicitamente anti-marxista. Estas eram,
são companheiros muito sólidos. O afinal, as correntes a que a maior parte
UNSTB no Benin estava ligado ao Estado, teve acesso.
durante o período «socialista» deste país e
como resultado, é bastante reformista. É também importante ter presente que o
Existe também um sindicato «bastante «socialismo africano» foi experimentado e
insólito» da RD do Congo, Lutte Ouvrière, decepcionou e que os militantes da
que a CNT-F precisa ver no terreno para esquerda radical em África podem ter
avaliar correctamente a sua linha. Os ficado desiludidos com o socialismo de
congoleses têm, porém, conexões no seu estado, encontrando-se à procura de
sítio Internet à CNT-F e às confederações alternativas. Terá sido isto que atraiu os
CGT de Espanha e SAC, sueca. A CGT- delegados de África ao i07? Talvez eles se
Liberté e o sindicato do sector público sintam tão isolados e em situação tão
CSP dos Camarões, não puderam desesperada que os activistas, ainda que
participar, por causa de problemas com o de orientação estatista, estejam na
visto, mas são muito interessantes, disposição de experimentar contactos
segundo a CNT-F. para obter algum apoio da comunidade
internacional. Ou, talvez, como foi o caso
Como se pode ver pelos delegados dos do delegado do Burkina Faso, estivessem
sindicatos africanos presentes, presentes apenas para aprender.
inteiramente pagos pela CNT, pareciam
ser oriundos de sindicatos independentes Independentemente das motivações, foi
e radicais influenciados pelo marxismo e é uma estratégia coerente da CNT-F,
interessante saber-se o que os terá atraído estabelecer contacto com estes grupos,
a participar numa conferência anarco- visto que isso facilita um diálogo sobre
sindicalista e o que significa isso para a formas de organização, visões do tipo de
difusão das ideias socialistas libertárias sociedade que pretendemos e permite a
na Africa. Alguém me disse que estes criação de lutas solidárias entre grupos,
africanos vieram porque a CNT queria nos chamados terceiro e primeiro
mostrar-se capaz de organizar um grande mundos. Esperemos que estes delegados
acontecimento, convidando organizações vindos de África tenham aprendido algo e
africanas mas que, caso estas fossem tenham ficado inspirados pelos
europeias, teriam muito mais cuidado em movimentos anarco-sindicalista e
convidar. Eu não penso, no entanto, que sindicalista revolucionário que
isto seja verdade, que a CNT tenha feito encontraram. Estou convencido que a
isto por exibição; aliás, é crucialmente CNT-F tomou uma iniciativa que eu
importante para militantes de uma tradição adoraria ver retomada por outros
socialista libertária o relacionamento com agrupamentos anarquistas e anarco-
organizações africanas, mesmo se sindicalistas mais fortes, com capacidade
oriundas de uma tradição socialista para o fazer, dos países ex-coloniais.
autoritária (marxista ou outra). Isto,
porque se deve considerar o contexto em Há também, uma iniciativa semelhante ao
que sua identidade política se i07, a «Conferência Internacional Europa -
desenvolveu, tendo presente que existe Magreb de Coordenação do Sindicalismo
pouca tradição socialista libertária em de base e social» que será organizada pela
Africa, no seu conjunto, sendo que muitas CGT de Espanha, em Málaga, a 28, 29 e 30
tendências de esquerda foram atraídas de Setembro 2007 [*]. De acordo com a
pelos modelos autoritários/estatistas de CGT, “uma rede de relações, informações
socialismo, pelas ideias marxistas ou dum e acções solidárias tem sido desenvolvida
«socialismo africano» como o praticado, entre organizações das costas norte e sul
nomeadamente, pela Tanzânia, do Mediterrâneo…” e tais encontros terão

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como “objectivo o de se oporem à informações e ideias que recebam de
presente política neoliberal... O principal anarquistas no estrangeiro. Deveriam
objectivo não é partilhar longas assumir um compromisso de persistência
exposições sobre diversos problemas, e de paciência ao construírem tais redes.
mas realizar um consenso para Seria também aconselhável que fossem
estabelecer alguns acordos mínimos que enviados delegados para África para
nos permitam desenvolver acções de uma tomar contacto directo com militantes
forma que mostre uma clara e organizada africanos de forma a avaliar o impacto da
resposta ao neoliberalismo”. sua acção, ajustar e rever estratégias,
quando necessário e, medir a adequação
A influência do marxismo e da União da disseminação dos seus materiais,
Soviética está a esbater-se na história, e através de líderes sindicais ou de
como resultado disso, existe um vazio de contactos pessoais, junto das bases.
ideias na esquerda africana. Neste tempo
é crucial para os anarquistas entrar em Outro ponto digno de nota é que dada a
cena e tentar preencher este vácuo, numa fraca dimensão da classe operária
ocasião em que as pessoas possam estar africana, os níveis elevados de
a procurar alternativas e possam estar desemprego e a escassez relativa de
abertas a ideias socialistas libertárias. Os industrialização, a intervenção anarquista
anarquistas não deveriam ser sectários do estrangeiro em combates laborais e o
em relação à sua militância junto da cultivar de tendências anarco-sindicalistas
esquerda africana em geral pois, sem apenas na África, não serão suficientes
dúvida, se falharmos ao tomar a iniciativa para ajudar a espalhar o anarquismo no
e ao avançar com as ideias socialistas continente; deveria ser tomada especial
libertárias, mais especificamente, com atenção às lutas que têm lugar ao nível
uma alternativa comunista anarquista, os das comunidades. Em ordem a divulgar
maiores e mais bem organizados eficazmente as suas ideias por todo o
socialistas autoritários irão certamente continente, anarquistas e anarco-
aproveitar a ocasião para fornecer apoio sindicalistas não deveriam confinar-se a
material e ideológico aos sindicatos lutas laborais mas antes encontrar
africanos, aos movimentos sociais e anti- maneiras de participar e apoiar as lutas
globalização que, frequentemente, estão sociais e comunitárias, como ainda
desapoiados e por serem menos encorajar trabalhadores influenciados
experientes com os defeitos do socialismo pelas ideias anarco-sindicalistas a
estatista, irão aceitar qualquer apoio que transportarem essas ideias para junto das
consigam obter. suas comunidades e a organizarem-se
também aí.
Se, no entanto, os grupos anarquistas e
anarco-sindicalistas do estrangeiro A CNT-F já fez avançar significativamente
tentarem desenvolver contactos com o debate socialista libertário sobre África,
sindicatos em África e procurarem com a publicação do jornal irmão do
disseminar as tácticas e ideias Zabalaza [da ZACF, em inglês], o jornal em
anarquistas e anarco-sindicalistas, eles francês Afrique XXI e tenho esperança de
irão precisar de uma estratégia para o esta publicação tenha uma circulação
fazer. Um ponto chave a ter em conta, significativa em África e não se confine à
porém, quando se adopta esta estratégia, comunidade africana francófona de
é que todo o esforço se deve concentrar imigrantes na Europa (embora a sua
no contacto com os trabalhadores de circulação aí também sirva para divulgar
base, não com os burocratas sindicais; as ideias socialistas libertárias entre os
ou, tentarem que os líderes sindicais imigrantes africanos na Europa, os quais,
locais disseminem junto das bases, as por sua vez, poderiam divulgar essas

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ideias nos seus países de origem). Deve- 5. Como podem mostrar solidariedade
se ter em conta que este jornal não é feito prática com as lutas de classe em
apenas pela CNT-F mas também por África?
alguns grupos e organizações que não 6. Como podem trabalhar, para que
vêm da tradição libertária, o que poderá campanhas de objectivo único e
diluir, até certo ponto, a sua mensagem; reformistas se transformem em
mas, por outro lado, assegura um público movimentos revolucionários que
leitor mais vasto do que aquele que um promovam uma democracia horizontal,
jornal puramente anarquista poderia igualitária e participativa?
alcançar.
Nas relações com sindicatos, procurando
Dada a escassez de tradições socio- favorecer a afirmação de uma presença
políticas socialistas libertárias em África, anarco-sindicalista no continente, é
as quais se confinam sobretudo ao Norte e sensato evitar ou pôr de lado as lutas
ao Sul do continente, o pequeno e pouco sectárias internas que têm apenas
espalhado movimento anarquista, deve enfraquecido vários sectores do
beneficiar do apoio e intervenção de movimento. No antigo debate sobre se os
anarquistas vindos de regiões com anarquistas deveriam organizar-se a partir
tradições anarquistas mais desenvolvidas de dentro dos sindicatos existentes ou
é vital. Em particular, vindo de anarquistas trabalharem lado a lado com os mesmos,
das antigas potências coloniais (que têm a provavelmente reformistas, o que deveria
vantagem dos laços linguísticos e ser evitado no contexto africano seria a
culturais com África). Também a partilha linha “purista” (que argumenta contra a
de experiências de luta e métodos de organização no interior), a qual não
organização anarquista perante condições funciona, a não ser em circunstâncias
socio-económicas semelhantes, como na muito particulares, que não estão reunidas
América Latina e noutras partes do mundo presentemente em África. A dura realidade
em desenvolvimento, seriam benéficas. em África é que a posição purista que
tenta estabelecer sindicatos novos,
Para este objectivo, devemos ter em especificamente anarquistas, irá
consideração os seguintes pontos: provavelmente falhar - até ao momento
em que exista um crescimento
1. Como podem os anarquistas do significativo no movimento anarquista
estrangeiro trabalhar com os africano, propriamente dito.
indivíduos e grupos anarquistas
existentes em África e prestar-lhes o Até essa altura, as novas formações
seu apoio? anarco-sindicalistas provavelmente
2. Como podem estabelecer e manter ficariam isoladas, insignificantes do ponto
contactos com sindicatos africanos, de vista numérico e estratégico - senão
movimentos sociais e grupos de mesmo totalmente irrelevantes.
esquerda?
3. Qual a ordem de prioridades em relação Em conclusão, há duas opções possíveis
ao seguinte: divulgar a consciência que poderão ajudar na expansão das
anarquista; apoiar as lutas em curso ideias e métodos do anarco-sindicalismo
(materialmente, ideologicamente ou em África. A primeira é dos anarquistas
por acções solidárias); ou contrariar baseados em África fazerem trabalho
tradições autoritárias? anarco-sindicalista, quer nos sindicatos
4. Como podem tomar parte em actuais ou, numa fase posterior, tentando
campanhas internacionais conjuntas erguer novos sindicatos em moldes
envolvendo grupos africanos? anarco-sindicalistas a partir do zero. A
segunda opção, a mais viável, devido ao

13
número insignificante de anarquistas
organizados em África e a sua fraca http://www.zabalaza.net
capacidade relativa. é a dos anarquistas e
anarco-sindicalistas do estrangeiro [*] Nota do tradutor: este encontro
colaborarem e participarem no realizou-se e o seu resultado foi
estabelecimento de contactos e de noticiado nas páginas electrónicas do
construir solidariedades práticas com Luta Social:
quaisquer sindicatos africanos existentes, http://www.luta-
de preferência independentes e social.org/2007/10/concluses-do-
revolucionários onde seja possível. encontro-de-malaga.html

14
CIMEIRA U.E. - ÁFRICA E O PÓS-CIMEIRA:
Ajuda ou perpetuação da relação neo-colonial ?
Por Manuel Baptista (Portugal)

A UE RENOVA O DISCURSO EM RELAÇÃO concretas, nestes casos, por exemplo em


A ÁFRICA termos de acesso a matérias-primas?

A grande questão que se depara aos O certo é que os governos europeus, face
países da Europa, que foram grandes à Argélia e a Marrocos, preferem «assobiar
potências coloniais no passado, não é para o lado», quanto aos direitos humanos
mais a de assegurarem o controlo directo nestes países, devido aos interesses
das riquezas dos países africanos. Essa estratégicos, como o petróleo, o gás
etapa foi encerrada com as natural, os fosfatos, etc.
independências das últimas colónias, as
portuguesas, ocorridas em meados da Cada grande potência europeia está
década de 70. sobretudo interessada em prosseguir os
seus objectivos particulares de potência
Agora os governos estão apostados em neo-colonial. Uma grande potência serve-
manter o controlo no acesso e exploração, se da UE, não o contrário.
em condições «especiais», dessas
riquezas, mas usando como mandatários Quando ela acha que a UE só atrapalha,
locais homens que pertencem à casta da toma as suas medidas, sem qualquer
burguesia autóctone, que se formou e hesitação. Por exemplo, Sarkozy, em
desenvolveu à sombra das respectivas nome próprio (não da UE, nem da
potências coloniais. presidência portuguesa), foi tratar da
questão das enfermeiras na Líbia e dos
Compreende-se então que as principais “humanitários” da Arca de Zoé no Chade.
questões de política económica sejam Ou ainda, Gordon Brown não apareceu na
mascaradas com uma retórica de defesa cimeira, sem se preocupar nada, porque
dos direitos humanos, tão ao gosto dos compreendeu que tinha o circo mediático
governos e seus arautos ideológicos a seu favor, se mantivesse a sua recusa,
europeus. Porém, esses mesmos que se face à vinda de Mugabe.
escandalizam com o desempenho no
poder de certos ditadores africanos, As cimeiras são somente encenações
curiosamente «esquecem» outros. mediáticas de luxo: o orçamento oficial
(da presidência da U.E) era de 10 milhões,
Noutros casos, «acordam tardiamente», para dois dias! Mas, esse mediatismo é
como no caso do Sudão (genocídio do característico da «governança global», em
Darfur), em que se repete a inoperância. que é preciso fabricar consensos a todo o
das instâncias diplomáticas da UE, da custo.
União Africana e da ONU e se reproduz a
tragédia humanitária que ocorreu no APE: PARCERIAS PARA PERPETUAR A
Ruanda, no início da década de 90. DEPENDÊNCIA

Aliás, será real, esta incapacidade para Mas, os tão preocupados e humanitários
fazerem qualquer coisa de concreto pelas governos da U.E. sabem até que ponto são
populações, ou antes uma mera destrutivas para as populações e para as
consequência de não terem vantagens economias dos países africanos, a
manutenção e a consolidação do modelo

15
de «desenvolvimento» preconizado pelo
FMI e com o seu apoio. Por outro lado, os acordos pré-existentes
(acordos ACP), foram declarados «ilegais»
Segundo tal modelo, as economias pela OMC, tendo caducado em 31-12-2007.
africanas deveriam procurar na produção Os países mais fracos têm vindo a ser
de bens para exportação, a saída para o submetidos à chantagem. Ou assinam,
seu «subdesenvolvimento» crónico. individualmente, os acordos APE
Assim, virando um máximo da produção bilaterais com a U.E., ou serão
interna para a exportação, talvez penalizados, com elevadas tarifas
conseguissem pagar os empréstimos alfandegárias, aplicadas aos seus
ruinosos contraídos por governos produtos de exportação.
corruptos. Estas orientações políticas de
«ajustamentos estruturais» incluíam O modelo de (pseudo) desenvolvimento,
também a abertura total aos capitais de economias totalmente viradas para a
externos, a privatização de todas as infra- exportação de matérias-primas agrícolas e
estruturas, sob a batuta do Banco minerais, bens de baixo valor
Mundial, do FMI e doutras agências acrescentado, nunca é questionado nos
internacionais da globalização capitalista. discursos europeus governamentais, seja
qual for a sua coloração política. Tão
Ora a África padece de fome, de pouco esse modelo é questionado, ou
epidemias, etc. causadas, não pela muito raramente, pelo discurso reformista.
escassez na produção de bens Esta «intangibilidade» das opções
alimentares mas, pelo contrário, devido à produtivas acima citadas, não surpreende.
produção em grandes quantidades (para A manutenção da dependência dos países
exportação) de determinados bens africanos é o verdadeiro objectivo que se
agrícolas. Essas mesmas áreas de pretende alcançar. Não interessa que este
culturas para exportação, se convertidas modelo de «desenvolvimento» seja sequer
em culturas de cereais, mandioca, frutos, discutido, pois ele seria facilmente
leguminosas e outros géneros agrícolas desmascarado nos seus objectivos, tal
de que as populações necessitam, como a retórica da ajuda a África.
permitiriam uma completa satisfação de
suas necessidades alimentares. Paralelamente ao modelo de dependência
estrutural no domínio económico, os
Os «acordos de parceira económica» capitalistas e políticos da U.E. elaboraram
(APE) que a U.E. tentou impor, mas com uma estratégia no domínio social, que se
pouco sucesso, até agora, dada a poderia designar como modelo
oposição do Senegal, da África do Sul e da assistencial.
Nigéria, são um prolongamento dessa
dependência estrutural. O MODELO ASSISTENCIAL

Com efeito, pede-se a países muito fracos Segundo este modelo, os países africanos
economicamente que obtenham as divisas precisam estruturalmente de apoios em
que lhes fazem cruelmente falta, através todos os domínios sociais, visto que a
de culturas intensivas, monoculturas para «corrupção» nos seus aparelhos de
exportação, como o café, o algodão, as Estado impede que a ajuda, tão generosa
oleaginosas e outras, destinadas à Europa do ocidente, chegue às populações
e América, que ditam os preços carenciadas. Desenvolveu-se assim, ao
respectivos. Sabe-se como são longo das duas últimas décadas, a
controlados estes preços, nas bolsas de transferência sistemática de verbas e de
matérias-primas, por grandes fundos públicos, na maior parte, para
transnacionais.

16
entidades privadas, com papel Este comportamento continuado tem
assistencial e caritativo. trazido graves consequências em muitos
aspectos da luta de classes na Europa e
Claro que a autonomia dos países tem também efeitos negativos nas
(africanos ou outros) fica impedida de se relações com África. Desta forma, a UE e o
desenvolver. Deste modo, são grande capital conseguem implementar
perpetuadas dependências, visto que não tranquilamente as suas políticas.
se poderão desenvolver as estruturas
autóctones e os meios de as fazer Sendo este «modelo de desenvolvimento»
funcionar, delas realizarem suas funções criminoso e mortífero para África, também
próprias. não é inócuo para os trabalhadores dos
países europeus, pois contribui para
Na cimeira de Dezembro último, foi clara a dificultar as suas lutas.
determinação e o propósito estratégico da
UE de cooptar as ONG, sejam elas Nos países africanos e na «Europa
internacionais, de países europeus ou fortaleza» apenas certas organizações têm
africanas, para, através delas realizar as potencial para dar combate às violações
tais parcerias estratégicas. dos direitos humanos e laborais, de forma
eficaz: os sindicatos e as associações de
Foi o que se observou, mais uma vez, em apoio a imigrantes. Verifica-se, em
toda a constelação de eventos - Portugal, uma fraca solidariedade activa
conferências, seminários, mesas- dos sindicatos em relação aos imigrantes,
redondas, realizadas sob os auspícios da nomeadamente, na construção civil e na
presidência portuguesa da UE - que restauração, sectores onde há mais
antecederam a referida cimeira, ao longo imigração «ilegal».
do último trimestre de 2007.
As cimeiras, como a de Dezembro último,
Para aumentar a pressão, a UE condiciona com a sua pompa e circunstância,
a sua ajuda humanitária à assinatura das destinam-se a fazer esquecer - entre
parcerias económicas (APE). Os outras coisas - que os governos europeus
programas ditos de auxílio estão perseguem e dificultam a vida aos
entregues às ONG, para as quais a UE imigrantes, para que o patronato tenha
canaliza fundos em quantidades uma mão-de-obra a baixo preço e tão dócil
apreciáveis. Aliás, a maior parte do quanto necessário. Essa estratégia
dinheiro dessas ONG vem de fundos alimenta também o objectivo de rebaixar
governamentais, não de donativos os preços do trabalho e as condições
privados. Eis o papel reservado pelos laborais da própria classe trabalhadora da
poderes da UE e respectivos governos, às Europa.
ONG em todo este processo: são a
cenoura… Esta estratégia patronal/governamental
deve ser combatida de modo frontal e
Quanto às confederações sindicais directo pelos trabalhadores e suas
europeias (a CES, por exemplo, na qual organizações: é do seu interesse muito
participam as confederações portuguesas concreto combater ao lado dos imigrantes
UGT e CGTP), estão de tal forma e não contra eles, pelo respeito dos seus
condicionadas pelos subsídios e pela direitos humanos e laborais.
política de «concertação social», que se
limitam a vozear umas críticas cordatas, É certo que algumas centrais sindicais e
sob forma de recomendações, ONG falam e denunciam, mas algo mais
completamente ignoradas pelos poderes. deve ser feito. Não basta apenas
denunciar, é necessário contrariar - na

17
prática - as estratégias patronais, completo. Deve-se reconhecer a liberdade
apoiadas pelos governos. de cada organização realizar outras
iniciativas, desde que elas não venham
SOLIDARIEDADE PARA COMBATER O contradizer compromissos e acções
CAPITALISMO E A GLOBALIZAÇÃO decididas em comum.
NEOLIBERAL
É tempo do movimento anti-autoritário e
Algo mais tem de ser levado a cabo, do anti-capitalista sair da adolescência. A sua
que encontros ou «contra cimeiras», que intervenção, em solidariedade com as
se ficam pelo lado festivo ou se limitam a lutas que ocorrem em África ou no apoio
reafirmar posições por demais aos imigrantes africanos, é fundamental.
conhecidas, sem avançar um milímetro no
domínio da acção coordenada, da Uma intervenção solidária verdadeira
solidariedade no terreno. evitará que pessoas e organizações do
movimento social africano se deixem
Não se pode esperar grande coisa das seduzir e cooptar pelas lógicas dos
cúpulas dos sindicatos burocratizados, ou Estados e dos partidos.
de associações que são meras capas dos
partidos. Porém, não se deve excluir Há colectivos, associações, sindicatos, ou
ninguém que queira lutar. grupos de militantes, em África, que
carecem de ser apoiados. Há muito a
Quanto ao campo anti-autoritário, ele deve fazer, no apoio a essas organizações de
incentivar as acções horizontais e África: divulgação do seu trabalho,
encontros no terreno, usando os meios e obtenção de fundos, ajuda à deslocação e
as tácticas mais apropriados. Pode-se ir estadia nos encontros inter-regionais,
mais além que a simples denúncia das apoio à criação e desenvolvimento de
situações observadas no quotidiano. sítios na Internet, apoio à edição de
imprensa periódica e de livros, etc.
As pessoas e as organizações devem
adoptar um ponto de vista aberto, unitário. Em Janeiro de 2008 haverá uma reunião
Ser unitário, neste contexto, é recusar em Madrid, de sindicatos e associações
fundamentalismos, agrupando forças europeias e do Magreb, na sequência do
sociais que lutam pelo mesmo, no encontro de Setembro de 2007 em Málaga,
concreto, seja qual for a corrente para coordenação das acções nas duas
ideológica a que pertençam os seus margens do Mediterrâneo. Mesmo que não
intervenientes. possa estar aí representado, o colectivo
português Luta Social estará disponível,
Para isso, deve-se, em primeiro lugar, na medida das suas modestas
identificar os pontos de acordo. Estes capacidades, para colaborar com as
pontos podem ser apenas dois ou três, organizações envolvidas neste processo
não precisam de ser um programa dinâmico.

18
Africanos e Europeus
Por Edmundo Monteiro (Angola)

Não são poucos os lugares onde é não democracia tendencialmente cada vez
apenas tradicional, como é norma mais formal. E a instauração progressiva
desejada, manter o conhecimento de um regime inter estatal onde os
patrimonial, em alternativa àquele lobbies e as trocas políticas e sociais,
pensamento, virado para o como as económicas, tendem para uma
desconhecido, que é o de, a todo o ditadura de poderes empresariais que
custo, pretender buscar no estranho proliferam por todos os lados - através
tanto o suporte para uma qualquer de regimes unipessoais ou de grupos de
transformação, como a necessidade de administradores e gestores - que lideram
sustentação de uma posição que organizações cada vez mais ditatoriais -
pretendemos defender ou atacar. em nome da eficácia, do lucro e do
sucesso . Entre os africanos, onde os
É o que acontece com todos os regimes cidadãos e não os Estados, infelizmente
que, inicialmente defensores de muitas não têm capacidade, por vezes até legal,
causas, a partir de certas fases, iniciam activa alguma, há um verdadeiro regime
um processo de auto-justificação misto, que balança entre o autoritarismo
assente em pressupostos que nada têm formal para quem segue à risca a
a ver com a realidade dos países onde legalidade e uma verdadeira espécie de
vigoram. O fascismo, a autocracia, o corpo escorregadio, onde a capacidade
autoritarismo, o estalinismo são formas malabarista para assegurar proventos
de reprodução de poderes que tendem, num meio de escassez, é a norma. Dito
genericamente, para essa auto - de outro modo, onde existe uma
justificação . Não há aqui qualquer verdadeira mentira institucional logo à
tentativa de juntar no mesmo “barco” a partida na maioria dos poderes - entre a
Esquerda e a Direita, que muitos hoje forma e os proventos dos seus
afirmam não existir e que têm, por vezes, detentores. Que, simultaneamente - e
como sólido apoio, Hanna Arendt. Longe esse até acabará por ser o aspecto
disso. O totalitarismo tem a sua lógica, menos negativo por via da amenização
nunca foi uma forma única - ou de do autoritarismo – são uma espécie de
sentido único - para se poder criticar a pivots entre os aparelhos repressivos e
natureza do poder de um qualquer ideológicos do Estado e uma vida de
Estado . barbárie onde a cidadania é campo
restrito e escasso.
Para que não haja dúvidas sobre o tipo
de análise aqui veiculado, entenda-se Exemplo paradigmático e emblemático
que europeus e africanos, no âmbito dos de tudo isso será Muhamar Kadafhi que,
países representados na ONU, são como no seu lugar de representante de um
um contraponto nuclear do sistema - grupo hegemónico que pretende
mundo em que vivemos. Entre os reproduzir-se politica, social e
Europeus, os cidadãos e não os economicamente, com a ajuda objectiva
Estados, felizmente ainda muito dos tais poderes internacionais, passa a
renitentes à liberalização dos seus vida a tentar “descobrir” longe, a
regimes no sentido do poder responsabilidade da barbárie - reduzida
prevalecente nos EUA, ou seja, no em exclusivo no seu país por via do
sentido da redução de vários dos seus petróleo - em que a maioria dos seus
direitos -, há a imposição de uma espaços sociais vive. E, não

19
estranhamente, após entrar directamente falando na relação eficiência/eficácia
em choque com todos os poderes, destes em si mesmo - tem acabado por,
incluindo o da comunicação social, em grande parte, ter um destes
aparece como o mais interessado em caminhos: a) os bancos europeus e
firmar acordos comerciais com os que outros, por via do enriquecimento ilícito
imediatamente antes criticava. Isto vem de variados dos intervenientes no
a propósito da Cimeira África - UE que trajecto; b) o enriquecimento ilícito e o
se “disputou” em Lisboa, num destes imediato esbanjamento dos proventos
fins de semana. aparecidos em cada país; c) o
aproveitamento, via a própria ONU e por
Procurando logo à partida dar um certo parte das suas sub-organizações, de
tom à Cimeira, o líder líbio, fugindo formas fáceis de progressão profissional
desde logo ao verdadeiro esbanjamento e de desigualdade estatutária de
gasto para a sua simples manutenção e oportunidades, como pode ser exemplo,
festim – com apoio “social” e tudo - na a diferença nem sequer do ponto de
capital portuguesa , não falou da África e vista salarial, mas do ponto de vista de
da Europa actuais de forma saliente, hierarquização da relação saber/poder,
nem dos seus problemas mais nas suas delegações em cada país-
prementes. Num ápice, descobriu que a membro - entre nomeações de
questão mundial das desigualdades e funcionários via administração central
das injustiças reside: a) na ditadura da ou através da administração de cada
ONU; b) na necessidade do colonialismo país- membro.
indemnizar a África por aquilo que
provocou ao longo do tempo. Mas, se tal é um dado adquirido - uma
desigualdade a partir de estatutos
Há que se ser muito claro. Ninguém sociais e políticos, numa espécie de
pode estar aqui a atirar “tiros” sem os feudalismo no âmbito do mercado global
justificar. Mas, há que ter não apenas os - mais importante se tornam os dados
pés no chão. Há também que medir o que se podem recolher num mesmo
alcance do conjunto dos problemas que circuito de”investimento” que têm
se colocam. Se há experiências em passado pelas ajudas globais ou
África que conduzem a que o formalismo parcelares, por via institucional, aos
das constituições nacionais e de muitos países menos desenvolvidos. Neste
projectos parcelares de campo, também é dado adquirido - e
desenvolvimento - públicos e privados, valeria a pena procurar quantificá-lo
tenham tido “sucesso”, não deixará de através de trabalhos estatísticos de
ser verdade que a grande maioria dos estudantes universitários que
projectos advindos das relações procurariam saber, em cada um dos
internacionais globais têm sido seus países, por exemplo, nos vários
desviados para um “saco sectores de cada administração central
multicolorido”que, após circulação, a ou local, quais os caminhos sociais e
maior parte das vezes indevida, tem sido económicos seguidos por alguns dos
um verdadeiro meio de retorno do seus funcionários respectivos! – que
capital investido em termos geográficos. tudo o que se evidencia,
tendencialmente, caminha num sentido
O que é que isto quer dizer? Quer dizer preciso: o de monetariamente ser retido
que as ajudas, os empréstimos, as nas mãos de um funcionário superior da
dádivas internacionais por via de administração central de um país, nas
instituições internacionais ou de ONG mãos de um ministro de um outro país,
mas, principalmente as ajudas que nas mãos de um presidente de ainda um
passam pelos governos nacionais - não outro país - como é o caso de Mobutu na

20
antiga República do Zaire! Enfim, tudo que teríamos de ir retirar da tumba John
se desencadeia no sentido da divisão Wayne, James Stewart ou Lee Marvin,
desigual de um verdadeiro “bolo” que se para melhor interpretar os papéis, no
inicia no mais alto - funcionário de sentido de impor a lei do mais forte ou,
organizações internacionais por via de simplesmente, da legalidade contra os
um estatuto profissional comparado - prevaricadores exponencialmente
completamente desadequado, e acaba, reproduzidos.
no domínio estrito do negócio individual
do empresário ou patrão privado, que vai Dá para perguntar: será que Muhamar
“untando” uma diversidade de mãos Khadafi é como aquele jornalista
dada a alta percentagem bruta de lucro “maluco”, que afirma que a ciência vai,
final que o seu negócio consegue obter. ou já deixou, de existir? Será que é
possível um chefe de estado de um país
A maior parte das vezes, no âmbito de representado na ONU, julgar que os
uma barbárie social urbana indescritível. africanos e os europeus, ou seja , as
Mas a questão central e é isso que seria “sociedades civis” são, em si mesmos,
excelente analisar, se se comprova ou estúpidos? O colonialismo é uma parte
não, não pode ser aquela que o líder da História da Colonização Moderna no
Muhamar Khadafi, desde logo com toda mundo. Se nós começarmos a exigir
a pompa e circunstância propõe. E indemnizações - e, já agora, desculpas
porquê? Porque na relação entre como o fez Joaquim Chissano – a todos
Estados mais ou menos autoritários do os poderes dos estados, reinos, castas,
ponto de vista formal, a maior parte das sobados, impérios, condados, etc. que,
vezes de uma fragilidade confrangedora por via da opressão, da discriminação e
(!), e espaços sociais barbarizados, do do racismo, que se instalaram e
ponto de vista urbano em primeiro lugar, consolidaram, através dos seus
não pode haver dúvidas. Insistir, como excessos e das suas mordomias, ao
ele diz, que os países (?) colonizados longo dos séculos anteriores ou
devem ter direito a uma indemnização posteriores à colonização moderna, na
por parte dos países colonizadores, o minha terra, eu teria de pedir
que pressuporia genericamente, sem indemnizações a certos senhores cujos
qualquer dúvida, que seriam os avós foram donos de escravos, entre os
Governos e as instituições oficiais a quais - escravos - está a minha trisavó e
receberem o “bolo” só levaria a que os ...a do meu conterrâneo que “empolou”
circuitos económicos, profissionais, essa história.
empresariais e sociais prevalecentes se
reproduzissem em escala muito maior. No âmbito geral, melhor seria que os
Ou seja, só levaria a que a questão da “povos” todos da região do Sahara
necessária organização e da corressem para o palácio dos seus
estruturação dos Estados - africanos “chefes” e colocá-los num óptimo
e...europeus! - e, principalmente, das pedestal, em Marte, a apanhar ar com
sociedades, globalmente, ainda fosse uma peneira. Seria o prémio merecido
mais protelada no tempo . Por isso, do para quem entendeu que se a ONU -
ponto de vista até operacional, absolutamente necessitada de ser
quaisquer indemnizações eventuais, só reformada! - tivesse funcionado
levariam a que aquilo que hoje se veicula legalmente há poucos anos atrás, talvez
na rua mas, formalmente, se esconde não tivesse havido a invasão do Iraque e
numa qualquer assembleia legislativa ou tudo o que ela trouxe de novo a todo o
num governo, no mínimo decuplicaria. mundo, por parte de uns senhores que,
Seria, comparando com aqueles ”belos” infelizmente, tiveram o apoio dos, ao
filmes de antigamente, um Farwest tal tempo, governos da Ibéria e ... do Reino

21
Unido. Governos esses, suportados por possa ser um verdadeiro benefício a
forças políticas que têm militantes prazo.
devidamente notórios que, aceitando
com todo o à-vontade que a UE teve Não deixo, no entanto, de me reter numa
início numa “igualdade virtual” através questão que - esperemos ! - seja cada
de uma vontade política clara entre mais periférica e considerada como
inimigos do dia anterior, não conseguem verdadeiramente desviacionista. Há que
talvez entender que, mesmo a partir de saber, com frontalidade e capacidade,
uma perspectiva das “sociedades civis” levar avante - uma ninharia que seja - ,
africanas e não dos poderes dos inclusive através da aproximação entre
Estados respectivos, o facto destes os poderes dos Estados, a defesa dos
últimos - com os Europeus - poderem reais interesses de Africanos e Europeus
partir, através de uma vontade política nos dias de hoje .
conjunta, para um projecto global com Dezembro de 2007
origem numa “igualdade virtual” entre si,

22
Entrevista a Ana Cruz de “SOS-RACISMO” (Portugal)
• Qual o vosso trabalho no terreno? como principal objectivo combater o
abandono e o insucesso escolar. O bairro
O nosso trabalho tem várias vertentes. O é constituído por pessoas de diferentes
SOS-Racismo foi criado com o objectivo origens, sendo a maioria pertencentes à
de intervir na sociedade como um todo e, comunidade cigana, com quem temos
por isso, um dos nossos principais vindo a desenvolver um trabalho há
trabalhos é nas escolas, introduzindo muitos anos.
junto das crianças, jovens, professores,
etc… temáticas como a diferença, o Infelizmente são muito poucas as
racismo, a imigração, os direitos associações que trabalham com a
humanos. comunidade cigana, o que reflecte uma
maior necessidade em unificar lutas e
Dentro desta perspectiva consideramos objectivos entre associações de diferentes
que a formação é fundamental para tipos, que no fundo têm todos o mesmo
combater todos os fenómenos de objectivo: o respeito pelos seres humanos
discriminação e publicamos diferentes como iguais.
materiais que promovam a discussão.
Na Ameixoeira realizamos também
Outra das vertentes é o trabalho junto de atendimento diário de casos relacionados
outras associações. Consideramos com a discriminação racial, que
importantíssimo que as associações infelizmente ainda há muita em Portugal.
trabalhem em conjunto, dando mais força
ao movimento imigrante e ao combate • Quais as maiores dificuldades que
contra as discriminações. Existem os imigrantes encontram para se
centenas de associações em Portugal e a legalizarem?
maior parte trabalha exclusivamente nos
problemas quotidianos, porque Uma lei que sempre foi centrada no
obviamente, temos sempre a preocupação processo imigratório, esquecendo os que
de resolver os problemas das pessoas; cá vivem. Um processo burocrático
mas, muitas vezes falta a visão mais demorado, cheio de exigências que
global das questões. dificilmente conseguem ser cumpridas, o
que faz com que as pessoas entrem sem
É importante as associações tenham voz e documentos e permaneçam sem
uma opinião sobre coisas que afectam documentos. Vivemos num país onde é
diariamente a vida das pessoas, como é o permitido que uma pessoa pague
direito ao voto, a lei de imigração, a lei da impostos e segurança social, mas sem
nacionalidade, etc… E estas posições só direito a existir. O Estado ganha muito
terão força na sociedade se as direito com os imigrantes que são
associações trabalharem como um todo. obrigados a pagar impostos, sem que
Por isso é que apostamos fortemente tenham direito de ir, por exemplo, a um
numa rede de associações mais politizada centro de saúde. Cada processo de
e com mais força. Actualmente estamos legalização é caro e demorado e, no final,
também a trabalhar diariamente junto da pode resultar numa ordem de expulsão,
população do Bairro da Torrinha, na que é no fundo um mecanismo de
Ameixoeira, Lisboa, uma população que chantagem do Estado junto dos
foi realojada há 6 anos. Temos um centro imigrantes.
educativo que procura trabalhar com
crianças e jovens dos 6 aos 24 anos e tem

23
• Quais são os sectores onde os com bancos, também, por causa dos
imigrantes mais facilidade tem de empréstimos.
vir a trabalhar? E estes são legais
ou ilegais? • Há em Portugal fenónemos de
guetização?
O mercado ainda está muito segmentado,
no sentido em que existem sectores onde Em Portugal há um fenómeno de
se encontram mais imigrantes e há guetização da pobreza. Cidades cujo
inclusive diferenças ao nível de centro é exclusivo de uma classe média
nacionalidades. Mas, geralmente, os alta para cima. As grandes cidades
sectores onde há mais imigrantes são os criaram bolsas de pobreza à sua volta que
sectores em que mão-de-obra nacional têm obviamente consequências ao nível
não quer trabalhar, como é a construção da integração social, escolar, laboral,
civil, as limpezas e a restauração. Muitas etc… A esses fenómenos de pobreza
vezes é um trabalho realizado de forma juntou-se o factor da imigração
ilegal, o que traz obviamente clandestina fortemente discriminada e das
consequências negativas para o imigrante, leis completamente desfasadas da
que várias vezes trabalha sem receber realidade. Temos que lembrar que os
porque não têm forma de reclamar e imigrantes não têm algo muito importante,
também para a própria economia nacional. que é o direito de voto, o poder de
escolherem quem lhes governa a vida.
• Existe alguma discriminação a nível Isso retira-lhe o poder de serem cidadãos
salarial entre imigrantes e em pleno e isso traz também
nacionais? consequências ao nível da forma como o
poder nacional e local os trata.
Enquanto houver imigração ilegal,
imigrantes sem documentos, essa • Quais as dificuldades de integração
discriminação vai sempre existir, porque dos filhos dos imigrantes no meio
estando mais desprotegidos os imigrantes escolar? Há, ou não,
sem documentos, submetem-se a discriminação?
empregos mal pagos e sem segurança.
Por isso é que a legalização de todos os A nossa escola tem dificuldade de integrar
imigrante é uma mais valia para todos. Os a diferença. Há um padrão cultural para o
únicos que ganham com a ilegalidade são qual está feita e por isso qualquer criança
os empresários que encontram mão- que fuja a esse padrão tem dificuldades
deobra desprotegida. em se integrar no meio escolar.
Obviamente que os filhos de imigrantes
• A nível habitacional existem não se enquadram no padrão esperado
dificuldades de arrendamento e/ou pela escola tradicional. Os resultados da
compra? escola portuguesa são escandalosos, não
só ao nível dos filhos de imigrantes.
Muita, aparecem-nos muitos casos de Quando metade da população escolar
recusas de alugar ou vender casas a desiste de estudar há algo muito errado no
imigrantes e ciganos. Muitos problemas nosso sistema de ensino.

24
Um caso paradigmático de gestão obscura: a dívida fiscal
Por Grazia Tanta (Portugal)

UM PANORAMA NEGRO CRIADO PELO naquele ano. A redução de 2003 deve-se,


PS/PSD em parte, à titularização ordenada pela
Ferreira Leite, para baixar o deficit, (esse
Em meados de Novembro fomos tema, será desenvolvido mais adiante),
surpreendidos pela revelação de que a outra à barafunda contabilística que por lá
cobrança executiva da DGCI patinava e grassa.
que se situaria 5,4% abaixo do objectivo
dos 1600 M euros para 2007. Ainda na Segurança Social, para se saber
alguma coisa é preciso reunir informação
Ora ainda em Agosto, quando a cobrança dispersa, divulgada com intuitos
executiva começou a amainar Teixeira dos laudatórios. Referem sempre os valores
Santos apresentava-se cheio de (crescentes) de cobrança anual mas,
optimismo e Macedo, sempre tão quanto à dívida exequenda só se sabe que
mediático, preparando-se para a saida, até Janeiro de 2002 foram instaurados
não iria ensombrar a sua imagem processos no valor total de 130 M euros e
anunciando que a maré começava a vazar. que em 2003 a instauração anual se cifrou
em 222 M euros.
Segundo elementos publicitados pelo
governo, a dívida fiscal em execução era, Sabendo-se, historicamente que as
em finais de Outubro 13 355 M euros, isto empresas em dificuldades deixam de
é, mais do que a cobrança líquida de pagar, em primeiro lugar, à Segurança
IRS+IRC (12 566 M euros) ou de IVA (12 Social e só numa fase posterior à DGCI, é
400 M euros), em 2006. Segundo outro de admitir um crescimento maior do que
documento interno da DGCI, a dívida seria no caso da dívida fiscal. Por outro lado,
de 21500 M euros, sem os cidadãos serem em 2001, um estudo da Inspecção-Geral
esclarecidos das razões de números tão de Finanças apontava para 40% a parcela
distintos. de dívida incobrável em processo
executivo nas Finanças, relativo a créditos
Descobre-se, entretanto, que cerca de 90% da Segurança Social.
dos estabelecimentos de restauração,
bares e cafés tem usado programas Em suma, os sistemas de informação,
fraudulentos de facturação onde se quer na DGCI, quer na Segurança Social
contabilizam apenas 25% das vendas são um desastre; os dados são pouco
reais; e que essa prática deverá ter-se fiáveis e não há uma informação regular e
estendido largamente à venda a retalho de esclarecedora a quem paga, os
pronto a vestir e calçado. contribuintes. O que se sabe é pouco,
parcelar e misturado com a propaganda
Por seu turno, na Segurança Social, o dos governos ou de mandarins desejosos
último elemento presente em relatório de mostrar obra. O Tribunal de Contas é
refere-se a uma dívida de 2425 M euros em impotente, a imprensa cala-se e a AR
fins de 2003. Porém, em 2001 era de 2940 dorme, à sombra da maioria absoluta do
M euros (correspondentes a quase um PS e ao comprometimento do PSD com o
quadrimestre de contribuições), descalabro. Pior que tudo é a multidão
calculando-se em 714 M euros o pagar e pagar para apaziguar um deficit
acréscimo de contribuições não cobradas insaciável e abstracto, sem qualquer

25
contrapartida em termos de melhoria de um valor de 1,17 M euros, referido na
salários, pensões, saúde, educação, Conta Geral do Estado!
transportes…
A TITULARIZAÇÃO OU SECURITIZAÇÃO
AS PRESCRIÇÕES
Manuela Ferreira Leite ficará eternamente
As prescrições que vão sendo reveladas ligada a esta operação que em 2003
pelo mandarinato dão uma ideia do correspondeu à venda de 11447 M euros
descalabro das contas públicas que de dívidas dos contribuintes ao Estado ou
beneficiam alguns mas, raramente quem à Segurança Social, por 1760 M euros. O
trabalha. comprador – o Citygroup, um dos maiores
bancos mundiais – ficou com o direito a
A informatização dos processos que lhe substituam os créditos
executivos da DGCI dura há cerca de oito incobráveis ou indevidos, por outros,
anos e vem sendo conseguida apesar da cobráveis. Como a dívida cedida
grande resistência da estrutura … mais respeitava a valores anteriores a Setembro
simpatizante dos processos em papel de 2003, as substituições iriam,
geridos pelos diversos níveis da forçosamente, ser feitas com dívida
hierarquia. Assim, em todo esta longa gerada nos 12 anos seguintes, reduzindo
marcha que ainda não acabou, há assim, a cobrança desses anos.
processos que ficam para trás,
esquecidos e outros respeitam a Como foi o Estado português que
contribuintes já falidos ou desaparecidos continuou com as tarefas de cobrança da
na voragem do tempo ou da crise dívida titularizada, por conta do Citygroup,
económica. Processos que prescrevem, os valores anunciados por aí relativos a
como o do Carrapatoso, da Vodafone, do cobrança executiva, são parcialmente para
PSD ou do Compromisso Portugal para o entregar ao banco internacional. Não são
qual prescreveu uma dívida de 700000 para reduzir o deficit, como anunciam os
euros de IRS. socratóides mas, para pagar a redução
contabilizada naquele ano; nem, menos
De acordo com declarações do DGCI, até ainda, para investimento no bem estar da
Outubro último haviam prescrito 78436 população.
processos executivos no valor de 531 M
euros e considerados incobráveis A redução do deficit de 2003, foi uma
(declarados em falhas, mais tecnicamente) operação de vistas curtas que salvou a
134 750 processos no equivalente a 528 M honra do convento PS/PSD naquele ano
euros. A soma corresponde a um oitavo mas, que onera o futuro, que tem custos
da receita líquida de IRS em 2006; isto é, a elevadíssimos, operação exigida por
oitava parte do que cada um de nós paga Bruxelas no âmbito do PEC. Mais
de IRS serve para tapar o buraco aberto recentemente o Eurostat veio a
pela deliberada incúria do gang PS/PSD. demonstrar (e a inviabilizar futuramente
novas operações) que a titularização não
Em 2006 as prescrições foram de 500,4 M passou de um empréstimo que, de facto,
euros dos quais 285 M relativamente a transferiu para o futuro a redução do
IVA, 89 M a IRC e 65 M a IRS, contra 231,5 deficit contabilizada em 2003. Manuela
M euros em 2005, quase tudo dívida lavou daí as mãos como Pilatos e terá
securitizada, cujo significado pensado que quem vier atrás que feche a
explicitaremos adiante. Na “ transparente” porta e apague as luzes.
Segurança Social … parece que não há
prescrições pois só se encontra, em 2005 Só de Janeiro de 2006 a Outubro último e

26
apenas no que se refere à dívida do Estado e da Segurança Social. Atesta
titularizada administrada pela DGCI terão assim a sua impotência e, na AR, os do
prescrito cerca de 730 M euros, isto é, costume verberarão contra este estado de
quase 8% do valor nominal da dívida coisas, sabendo-se que a maioria absoluta
cedida inicialmente (9446 M euros). socratóide (com o apoio do PSD, se fosse
Desconhece-se o que se passa com a necessário) manterá o statu quo. Apesar
Segurança Social, ou a dívida anulada, por dos cães ladrarem, a caravana passa,
inexistente ou incobrável por outros impune…
motivos. No entanto, em todos os casos, o
Citygroup receberá novos créditos, O mesmo Estado que do alto da sua
correspondente a dívidas de constituição omnipotência exige verdade e
recente. transparência às contas das empresas e
dos cidadãos recusa-se a apresentar
UMA CRIMINOSA FALTA DE essas características. Com que
TRANSPARÊNCIA legitimidade se fala em deficit se não há
rigor contabilístico? Com que legitimidade
No que respeita à DGCI, só a partir de 2005 se exigem impostos crescentes e
as Contas Gerais do Estado divulgam sacrifícios se, na realidade não se sabe
alguma coisa sobre a dívida fiscal. Mas, para quê?
com muitas lacunas pois aos
contribuintes e cidadãos em geral A escassos dias do último natal, a DGCI
somente cabe pagar e calar. decidiu enviar 238 000 mensagens
electrónicas a outros tantos devedores,
No caso da Segurança Social o secretismo numa tentativa desesperada de cumprir as
ainda é maior. Existem há anos milhões de metas de cobrança executiva. Então qual a
remunerações a lançar nos sistemas de eficácia das tão propagandeadas
onde nascem as contas correntes e estas penhoras de contas bancárias e de
foram iniciadas com valores muitas vezes automóveis? Como estamos de
lançados sem qualquer rigor técnico, colaboração dos bancos se a DGCI dà
qualquer controlo de qualidade ou instruções aos seu pessoal para recolher
auditoria. Não sabem o valor da dívida e dados sobre contas bancárias aos seus
há anos que o Tribunal de Contas se vem inspectores de visita às empresas? E qual
recusando a aprovar as contas a margem de erro de comunicações com
definitivamente, tal é a confusão os contribuintes por correio electrónico
contabilística. O ministro, várias vezes sabendo-se que este endereço é, em regra
referiu que brevemente se saberá o valor bastante variável? É só porque não têm
da dívida. Curiosamente, até há alguns tempo para envios de cartas? Porque é
anos a Segurança Social publicava mais barato? E os que não têm endereço
regularmente enormes listas dos electrónico são isentados? E quantos
devedores de mais de 25000 euros e a serão? Pânico ou desespero?
dívida, ainda que com algumas falhas, era
conhecida. Recentemente e a reboque da No número acima referido incluem-se 153
DGCI passaram a divulgar listas de 000 devedores de IRS, 54 000 de IRC e 29
devedores na Internet, no meio de grande 000 de IMI. Este último aspecto é revelador
alarido socratóide; actualmente estão lá 10 da crise social que acampou em Portugal
indivíduos e 57 empresas, o que é ridículo pois atesta a existência de muitas famílias
e revelador do descalabro. que não podem pagar o imposto das
casas onde habitam que, em regra não
No final de 2007 o Tribunal de Contas têm valores muito elevados.
enviou para a AR uma queixa pela
impossibilidade de validação das contas

27
A DGCI não tem tido na sua prática uma Para mostrar serviço terão apanhado
fiscalização efectiva das grandes irregularidades numa empresa de
empresas, pois acredita que em Portugal comércio de bacalhau da região Centro e
não há Arthur Andersons, nem Enrons na Iberomoldes. Esta última, geralmente
nem, obviamente, 25 anos de prisão para apontada como um modelo de
prevaricadores desse gabarito. internacionalização e inovação
tecnológica pertence a Henrique Neto, ex-
Mas, afinal parece que há, de acordo com deputado do PS, crítico de Sócrates, o que
o secretário de estado Amaral Tomás; e é decerto será … coincidência. Numa
para isso que servem consultoras telenovela cai bem uma cena de vingança.
financeiras, certos escritórios de
advogados e a figura do planeamento OS TEMPOS (MAIS) DIFÍCEIS QUE SE
fiscal. O actual caso dos favorecimentos AVIZINHAM
por parte do BCP revela que a DGCI, o
Banco de Portugal, a CMVM (do PSD No tempo de Cavaco, os excedentes da
Carlos Tavares, sucessor do seu amigo, Segurança Social foram utilizados para
Teixeira dos Santos, ministro PS), não financiar o Estado central e foi adoptada
passam de tigres de papel, muito lestos uma política de facilitismo para que as
em apanhar pardais sem tocar nos empresas se financiassem não pagando
abutres. as contribuições da Segurança Social,
durante a recessão de 1993-95. A
O plasmódio que se intitula Ministro do bandalheira foi tal que surgiu o chamado
Trabalho e da Segurança Social exulta “Plano Mateus” para que se cobrasse
sempre que divulga dados sobre baixas algum, com isenções de juros de mora,
fraudulentas ou desempregados com fórmula que Ferreira Leite repetiu, com
subsídios indevidos, tal como o seu menos êxito, em finais de 2002. Porém, a
sádico colega da Saúde ao dificultar o crise agora é muito mais funda e
acesso a consultas ou a encarecer os duradoura, a Segurança Social deixou de
medicamentos para os trabalhadores e ser maná e existe um PEC – Programa de
reformados. Estabilidade e Crescimento decretado em
Bruxelas, no qual ninguém vê onde está o
Foram surpresa as afirmações de Amaral crescimento e onde o E parece
Tomás, sobre a fraude fiscal que (imagine- corresponder à letra inicial de estagnação.
se!) também está presente nas grandes
empresas, com relevo nas de construção e Há dois tipos de fuga fiscal. Uma, é
obras públicas. O van Zeller, da CIP constituída pela evasão ilegal e a fraude
subscreveu e a federação dos grosseira de pequenos e médios
empresários da construção saiu daquela empresários, ainda que largamente
patriótica instituição. impune porque considerada
implicitamente como uma política de
Amaral Tomás, entalado entre a cobrança amortecimento da crise económica; forma
que não cresce e as obrigações de o principal entretenimento dos órgãos
cumprimento das metas orçamentais, públicos de fiscalização e polícia, como a
estrebucha, referindo a falta de meios, a mediática ASAE.
utilização da artilharia pesada da PJ e do
DIAP, a PGR e alicia a plebe com a A segunda é a evasão mais ou menos
promessa do IVA voltar aos 19% se a legal, praticada pelos chamados
balda fiscal se reduzisse, corroborado “investidores”, com a participação
pelo ministro que baixaria o IRS em 38% indispensável da banca e do sistema
ou 25% o IVA se todos pagassem os seus financeiro, que determina a configuração
impostos. Banha da cobra e rançosa. da legislação fiscal e as constantes

28
alterações presentes nos orçamentos do fórmulas legais reais de responsabilização
Estado - à revelia do bom senso que criminal e pecuniário dos mandarins,
aponta para a conveniência de um quadro desapareceria esse infame estatuto da
estável das regras de tributação - assim imunidade. Que se soubessem os custos
transformadas num verdadeiro associados a cada euro de dívida
emaranhado, confuso, incoerente e onde recuperado, por imposto, cálculos que
pululam advogados mafiosos e nunca se fazem. Que se conhecessem os
consultoras financeiras internacionais. consultores contratados e o valor dos
Englobam-se também aqui todas as contratos com a DGCI e com a Segurança
técnicas de pagamentos salariais em Social, no âmbito dos sistemas de
espécie (carro, viagens, cartões de informação, sanguessugas instaladas há
crédito, etc) de que beneficiam muitos anos nas próprias instalações
capitalistas, altos gestores e pequenos e públicas.
médios quadros, assim aliciados para as
vantagens da gestão capitalista e que Estas exigências sumárias são
redundam numa vultuosa fuga das exequíveis? Não são. O capitalismo
contribuições para a Segurança Social e sempre precisou de transgredir as suas
de IRS. próprias leis para agilizar o processo de
acumulação; de discriminar positivamente
As relações do BCP com dezenas de alguns eleitos, impondo o rigor da lei à
sociedades off-shore são um exemplo da grande maioria. A lei é a materialização
vigarice que vigora aos mais altos níveis das regras que convêm aos poderosos. E,
do capitalismo luso e, decerto, não são por isso, não há soluções técnicas
exclusivo daquele banco. O seu aplicáveis, nem reformas políticas no
conhecimento público não resultou de quadro do capitalismo, que obstem ao
uma atitude do Estado no sentido de roubo. Capitalista é sinónimo de ladrão.
“moralizar” o funcionamento do
“mercado”, abstracção assaz referida nos Para mais, a burguesia portuguesa é
discursos e nos media. Resultou antes da francamente subalterna num contexto de
zanga de comadres pelo controlo do acentuada globalização das actividades
banco, com os mandarins a arrastar os económicas e financeiras pelo que a
pés, contrariados, com o mediatismo com manipulação das contas públicas lhe é
que o assunto se rodeou. absolutamente vital. O álibi do deficit tem
sido uma ferramenta excelente para a
Pode pensar-se que, tecnicamente, deve redistribuição do rendimento em desfavor
ser exigível sejam divulgados, no que da multidão e quanto mais prolongado e
respeita ao Estado ou à Segurança Social difuso ele for, melhor.
alguns elementos sobre a dívida
exequenda, retomando assim, o tema O aparelho de Estado português está
inicial deste texto. As contas públicas infestado de dirigentes mafiosos
seriam menos opacas se se conhecesse mormente PS/PSD, enquadrados por
com regularidade: o valor da dívida, por consultores atentos e pouco
imposto relativo a 1 de Janeiro, a nova escrupulosos. E, para agravar, à
dívida gerada no ano, a dívida cobrada omnipresença desse entulho, tem vindo a
nesse ano, a dívida que prescreveu ser criado um ambiente de ameaça e
acompanhada de listagem dos intimação que paralisa as iniciativas de
beneficiários, a dívida anulada por outros quadros e dirigentes honestos.
motivos, a dívida a transitar para o ano
seguinte, os anos a que se referem as Em suma, não há uma verdadeira solução
dívidas cobradas, a parcela respeitante a no âmbito da actual democracia de
acordos de regularização. Se existissem mercado, a resvalar para um autoritarismo

29
fascizante, proporcional às dificuldades de • Como se descapitaliza a Segurança
acumulação e à resistência da multidão. Social portuguesa nas mãos do PS
31/12/2007 e do PSD
• O Orçamento para 2008
• Para que serve a burguesia
Outros artigos sobre o tema ou afins: portuguesa?
“ESQUERDA_DESALINHADA.BLOGS.SAPO.P • O relatório de Outono do Banco de
T”
Portugal
• Estratégia para um Sistema de
• A lista oculta dos devedores da Segurança Social favorável à
Segurança Social multidão de trabalhadores e ex-
• Administração pública - Ignorância, trabalhadores
preconceitos e os jogos dos • Segurança Social; estudo
salteadores preocupante divulgado
recentemente

30
Cadernos "LUTA SOCIAL" - Critérios para Publicação

1. O conteúdo dos Cadernos deve inserir- 2.2. Aspectos que estejam em


se no âmbito dos estatutos do contradição com os princípios
colectivo LUTASOCIAL. que enformam os estatutos do
colectivo serão objecto de
1.1. Os Cadernos visam constituir diálogo com o autor do texto
uma expressão da secular luta proposto;
de classes e do combate anti- 2.3. O colectivo LUTA SOCIAL poderá
autoritário, contribuindo para a fazer acompanhar a publicação
reflexão e o debate sobre os desse texto dos comentários que
mesmos, dando relevo à entender necessários, frisando
divulgação da voz de quem não assim os objectivos de debate e
tem voz; reflexão do colectivo;
2.4. Em caso de recusa de publicação,
2. A colaboração nos Cadernos está o colectivo LUTA SOCIAL não
aberta a quem neles queira intervir, deixará de expor ao autor do
dentro dos seguintes procedimentos: texto os motivos dessa recusa.

2.1. Qualquer texto proposto para 3. Os artigos não assinados são da


publicação será objecto de responsabilidade do colectivo LUTA
análise pelo colectivo LUTA SOCIAL; os que forem assinados são
SOCIAL da responsabilidade do seu autor.

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