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REVISTA DIALETICA DE DIREITO TRIBUTARIO (RDDD) Reposiéri autorizado de jurisprudéacia dos seguintes tuna ‘aio de 1997 ejulgado em $ de junto de 1997), - do Teibonal Regional Federal da 4* Regio (sob nt de insergto 8 - tnaio de 1997, da Exma. Sr, JufraDiretora da Revista do TRF da 4 Regio 5 de janho de 1997, pagina 41344); € do Teibunal Regional Federal da 5* Repito (sob n° 7 - Despacho do Exmo, St Juiz Diretor da Revista do TRF da $ Regi, publicado no DIU H de 9 de setemibro de 1997, pégina 72372). 125) FEVEREIRO - 2006 Coisa Julgada em Matéria Tributéria e as “Alteragdes Softidas pela Legislagao da Contribuicdo Social sobre o Lucro (Lei n. 7.689/88) ‘Tercio Sampaio Ferraz Junior Organizagio do Trabalho ‘A questdo que se pretende examinar neste trabalho apon- ta para alguns problemas nucleares que, para efeito de uma sistematizacgo, passo a agrupar do seguinte modo: ‘emética, na sua generalidade, tem a ver como fun- damento constitucional da coisa julgada, em especial, com a seguranga jurfdica, em face da sucesso das leis ‘no tempo; ) na seqiiéncia, levanta-se o tema da relagdo entre con: trole difuso da constitucionalidade e coisa julgada; ©) um grupo temitico especifico aponta para as pecu- liaridades da coisa julgada em matéria tributaria, em ‘especial para o alcance da Siimula 239 do STF; 4) discute-se entdo a questdo da permanéncia da coisa Jjulgada, nfo obstante eventuais mudancas sofridas pela lei de regéncia (conforme a situagdo em abtil de 2005). 1, Primeiro Grupo Tematico: Coisa Julgada e Seguranca Jurfdica ‘Convém, inicialmente, tecer comentarios preliminares sobre o instituto da coisa julgada como manifestagio da se- guranga juridica, a fim de que se possa ganhar uma visio sistemiitica sobre os temas em discusséo. ‘Adota-se, nesse passo, a definigfo de Eduardo Couture: “Tratando, pues, de defini el concepto jurdico de cosa juz- gada, luego de tantas advertencias decir que es la autoridad y eftcacia de uma sentencia judi- cial cuando no existen contra ella médios de impugnacion ‘Buenos Aizes, 1973, p. 401). Segundo Merk], em sua concepeio hierdrquica do orde- namento, o fundamento da coisa julgada estaria na possibi- idade maior ou menor de reforma da sentenga, como se © estivesse na duraedo da validade da norma concre- tida na decisio judicial, (Die Lelie von der Rechts- raf, 1923, p. 166 ess.). Merk] entende que a norma jutidi- 2 é, essencialmente, imutivel no tempo, somente sendo re- Revista Disétca de Direte Tibutério nt 125 7 vogada por outra norma. Assim, se a lei néo prevé a mudanga da sentenga, ap6s 0 decurso dos prazos de recurso, essa se torna impossivel de ser mudada, donde a ex- plicagiio da coisa julgada. ‘Mas a posiga® de Merkl percebe mal 0 papel do tempo no ordenamento visto como urn sistema dindmico. Ele ignora que o tempo afeta todo o sistema enguanto ‘produsio competente de normas. Assim, o poder competente para produzir normas ni se exaure numa produgdo, mas continua. E porque continua, as nommras madam, (0 problema da coisa julgada nao est em reconhecer a permanéncia definitiva de validade de uma norina indi ‘0 decurso dos prazos recursais, mas em conferir a0 poder de mudar impossibilidade de uma segunda sentenca sobre 0 mesmo objeto da ant que com base em lei nova, frato do poder de produzir normas gerais. O problema no esté no tempo da validade das normas (viggncia), mas na temporalidade do poder (competéncia) de madar as normas. E ‘porque tem a ver com esse poder € que a coise julgeda envolve, em nivel constitu- ional, uma questio de seguranca 'Na verdade, a concepcao do ordenamento como um sistema dindmico exige a cconsideragéo especial dos problemas gerados pelo tempo, na sucessio ou convivén- cia de normas situagées normadas. CO estabelecimento de uma norma e 0 advento de uma situagto normada € fato {ue ocorre num momento e que, no momento seguinte, sé toma fato passado. Como fato, desaparece no momento seguinte, Trta-se do tempo cronoldgico, caracter momento indefinido no (como se vé pela segunda religiio) como a capacidade de retomada reflexiva do passado e antec xiva do futuro, Trt al. Ea capacidade humana de: (0 passado (sem ama aquilo que acontec exemplo, usando-o como finalidade reguladora da agdo: planejamento. Entre 0 pas- sado ¢ 0 futuro, esse tempo cultural aparece, assim, como duracao, cuja experién- cia se dd no presente, que o homem vive como um continuo. A duragao, deste modo, desafia o tempo cronol6gico, que tudo corrsi: torna 0 passado (que no é mais) algo ainda interessante e faz do futuro (que ainds no ocorreu) um exédito, base da pro- essa, aqui que entra seguranga como um dieito fundamental Seguranga tema ver ‘com a consisténcia da duragao, isto 6, como evitar que um evento passado (o esta- belecimento de wma norma e o advento de uma situagao normativizada), de tepen te, tome-se algo ini 9. algo incerto, 0 que far colegio de surpresas desestat ssado pudesse ser at fcado a0 arbfirio de um ato presente, a validade dos atos humanos estaia sueita a uma inseguranga ¢ uma incerteza in- m Revista Dialética de Diteito Tribotrion® 125, suportéveis. A prépria vida humana perderia sentido. Nesse quadro, 0 passado con serva, para 0 ser human, um sentido, conferindo & meméria a seguranca necessé- como um direito fundamen- ), contra a inexorabilidade ico), fo francesa, a seguranga foi reconhe direito, fruto da razo humana amente, as expectativas legitimas (boa-fé, promessas, acordos, decisbes) con- vento acontecido, por fora do poder de revogagto. O princfpio da irre- de resgata e sustem um passado em face do futuro, garantindo essas ex- legitimas em face da lei nova. O sentido de um evento passado adquire, ‘um contomo préprio, conforme a legislagao entao vigente, tomando-se imune 20 sentido que Ihe atribua a lei posterioe. O principio da irretroatividade garante 0 Se o tempo cronolégico tudo corréi, o instituto da coisa ‘bata € € um instrument capaz de resgatar 0 passado em nome de um futuro incerto ¢ cambiante, pela pre- valéncia de uma incidéncia jurisdicional ocorrida sobre a efetividade de uma nova, incidéneia sobre o mesmo objeto. (cf. Ferraz Jr. Introdugdo ao Estudo do Direito, ‘Stoo Paulo, 2003, p. 249 ss.). Por essa razo, a coisa julgada é um dos instinutos que, 20 configurar a seguranca, est inserido no rol dos direitos fundamentais. ‘Na doutrina, esse fundamento ver sustentado com énfase. José Afonso da Sil- a tutela da coisa julgada tem a ver com a estabilidade dos casos julgados, que, em certo sentido, seria umm caso de ato juridico perfeito, mas que o constituinte “desta- cou como um instituto de enorme relevncia na teoria da segurange juridica”. Do ‘mesmo modo, Manoel Gongalves Ferreira Filho (Comentarios & Constituicio Bra- sileira de 1988, Sao Paul, ‘Também os processualistas enxergam na coisa jlgada ume garantia do princf- pio de seguranca juridica. Chiovends, por exemplo,citando 0 Digesto, aponta que essa qualidade j era apreendida pelos romanos, para os quais a res iudicaia confe- ria 20 reconhecimento de um bem oa direito a necesséria certeza e seguranca em ‘vida social (Chiovenda, Insttuicdes de Di- principio da imetroatividade das leis e das cldusulas pétreas da Constituigao, como Revista Dialtice de Direito Tributtion 125 78 instrumentos necessérios para se “assegurar a estabilidade das relagdes juridicas e, por conseguinte, a propria seguranga juridica” (cf. AraGjo Cintra, Comentdrias ao feito, Chiovenda aponta que a concepgdo de res judicata no di no atribui a sentenga uma funcao pragmatica de garantia da seguranca juridica. A a pretensio de se descobrit a olupdo do confito por meio da “afirmagio da verda- de” pelo juiz. A busca do processo consistia em colocar wm termo final na contro partir da prevaléncia de uma vontade indi- ral (dai que o verbo decidere de onde provém o nome bbusea pelo verdadeiro, zer que 0 pronunciamento do juiz coloca-se no lugar da verdade, corporifica 0 jus- to (Chiovenda, Instituigées de Direito Processual Civil, 1° Vol., Saraiva, Sio Paulo, 1942, p. 183). essa forma, percebe-se que “decisio” é termo correlato & conflito, O conflito expressa-se pelas alternativas que surgem da ra ap6s ter todos os dados relevantes. Mais ou menos |, hd sempre a necessidade de se exercer uma escolha entre as altermativas possiveis que caracterizam a situagio de inseguranga (cf. Ferraz Junior, Introdugao 307). Por isso mesmo a escolha, manifestada por uma Yor fim a absoredo da inseguranca gerada pelo contli- suranga, a absorve ¢, assim, confere seguran- to, isto €, a decisao nao el 64, justamente porque con dade de sua discussdo (cf. Ballweg, Rechtswissenchaft und Jurisprudenz, Basel, 1970, p. 105). Nessa perspectiva pragmitica, resgatada dos romanos por Chiovends, revela-se 6 cardter eminentemente prescrtivo da sentenca. Assim, no lugar de uma pretensa jade & relacio juridica, impedindo a continui- do verdadeiro, como conceitos iso- sentenga revela-se como resul- ‘uma vontade individual com se a afirmar que a vontade da I (Chiovenda, op. (¢ intermindvel) bu: Iados e por isso de tado de um procedi base em lei, vale dizer afirma ser a vontade di ra) daexisténcia de um: Frederico Marques, Jn ‘A partir dessa percepgéo da dogmética processualistaentende-se o argummento de Kelsen, segundo o qual a formulae coreta da regra de direito nfo seria “se um, ‘um 6rgio dirigird uma san¢o contra o deli inou, na ordem devida, que um uma sangilo contra esse sujet jo n2 125 7 Revieta Dialéion de Direto Tr 0 fato de a ordem juridica (ao caso brasileiro, em ni titucional) confer for- \do-se & terminologia alema, Liebman anota que o termo tradicional Re- chusloaft, forga de diteito ou forga juridica, da qual e revestiria natualmente a coisa jul- sada por haver revelado o direito, deveria ser substinafdo por Feststellungswirkung, ice, efeito de estabelecimento firme da solueio adotada. Com isso se supera a anti- ga concepedo de que o processo nio eria nem produz. mas apenas declara relagdes jutidicas e as atua. A autoridade da coisa julgada esta exatamente nessa qualidade que tora 0 comando individual imuidvei quando 0 processo tenha che- ¢gado a sua conclusio, nio sendo tio-somente um efeito da sentenga (Liebman, p. 50), ‘Compreende-se, assim, 0 conteddo do art. 468 do CPC quando afirma que a sentenga transitada ém julgado “tem forga de lei nos limites da lide”. Esse disposi- tivo, importado do projeto de Reforma do Processo Civil Italiano de autoria de Car- jeve a expressio “forga de lef” esclarecida pelo autor, afirmando que “nfo esejava exprimir seu pensamento com uma metéfora, mas queria deixar bem cla- ro que, no insttuto da coisa julgada, sentenga e ” se tocam” (Aratijo Cintra, Co- ‘mentérios..., p.299, citando Carnelutti, Studi di Dirito Processuale, Vol. 4, p. 421). 2. Coisa Julgada ¢ Controle Constitucional ‘A Constituigdo Federal consagra o principio da imretroatividade como sileira, em especial no campo tributério, exige um entendimento adequed: nos leva para além da nogtio de lef como mero enunciado. Sendo o ordenamento um sistema dindmico e as leis emanadas vo, via de regra, um comando geral que comporta mais de uma pos ite Tlbutiio 8125, n tivo, por inexisténcia de fonte legal da relagio juridica que ‘passivo, mas que depois, por decisio também incidental do STE, sando a mesma lei a set considerada cons- ca especifica de normas individuals (lex inter partes) no tempo. ida, 0 que somente se opera pelo seu tran- em processo que envolva as mesmas partes. Lembro a forea da sito em julgado, elt entre lef e coisa julgada. Se a analogia de alcance sut somente pode ser revo- gada, terse jpstados, por ouira norma individual para as mesmas partes, ‘eficécia que pode ser obtida pelo trénsito em julgado de apdo rescisria contra aquela sentenga. No caso de coisa julgada que declara a inconsticucionalidade de lei, pode- se ainda admitir sua revogagao por declaragio de constitucionalidade erga: omnes, ‘eujo Ambito subjetivo alcanga também as partes que obtiveram sua inconstitucio- nalidade anteriormente declarada. isa julgada formada em outro processo incid ‘que reconhega a constitu- ceiros revogue a coi da formada em processo anterior imutével e indiscutivel 2 sentenga do segundo processo também para as partes do primeiro proceso, o que contraria mais, que a declaragio de cons .cionalidade posterior da lei nao afeta a coisa julgada. toridade de que se revestiu a nova coisa julgada, ner pelos efeitos da sentenga so- bre terceiros, Usar uma decisio posterior do STF, que deu determinada interpretecdo consti- tucional, para ignorar uma decisto transitada em julgado, que de c ferente, seria atribuir a toda interpretagio do STR, ineidenter tantum, um efeito vin~ culative que ela ndo tem. Seria iransformar qualquer decisto judicial que aprecia, incidentalmente, a constitucionalidade, em uma sentenga condicional, ainda que transitada em julgado (ef. Bruno Noura de Moraes Rego, Acdo Rescisdria e a Re- idade das Decisdes de Controle de Constitucionalidade das Leis no Brasil, Porto Alegre, 2001, p. 351). Nesse sentido, como bem assinala Botetho de Mesquita (A Coisa Julgada, ct. p. 120), 0 “conflito entre a autoridade da coisa julgeda e alguma norma ot prinef pio constitucional resolve-se pela acdo resciséria contra a coisa julgada”, Assim, 0 “problema que surge quand o interessado nfo se vale do instrumento prOprio para a resolugio de um conflto desses nfo & problema de direito constitucional porque no tem origem no suposto conftee, sim, na ignoricis, negigéncia,imprudénci, im in ou dolo de quem, podendo e devendo propor acto rescisria, deixou passar 8 evita Dialétics de Direito Tributéio oF 125 Aliés, no Parecer PGEN/CRJ 3 401/2002, publicado “a fim de servir como orien- tact definitiva no ambito do Ministério da Fazenda”, pode-se ler que “a inconsti- tacionalidade pode ser argtlida a qualquer tempo ¢, assim, nao se teria nunca a cer- teza do Direito, pois nunca estariarnos em condigdes de saber se um ato praticado jidamente sob o império de uma lei seria assim considerado para todo 0 sempre. ‘Sempre haveria o perigo de que, uma vez argiida a inconstitucionalidade do pre~ ceito non: itucionalidade, a norma impugnada serviu de fundamento para sentencas judiciais, & passadas em julgado e execvtadas, ndo é possfvel que essas sentengas sejam atingides pela declaragdo de inconstitucionalidade a ponto de anu- lr colina dsr a exo ebranga eas)” (apd Gustave Sa a fer partes, que ocorren em outro processo, ainda que ern diti- jonal, néo 6 compattvel coma seguranca juridica,direito fun- -reconhecido pela CF. Nem mesmo em nome de tuma suposta injustiga, por criar uma desigualdade em face de quem nfo tena obtido sentenga de igual autori- dade. Somente se pode aplicar 0 principio da igualdade a situagdes analisadas em face de uma medida de comparaco (tertium comparationis). O legislador & obti- ipios que a Constituigdo estabelece ¢ que ‘uma diferenga distintiva, mas se o pardmetro que a criow legitima-se constitucional- mente. preciso, pois, diante de um parimetro, verificar se as situagbes so ou no com ele compativeis. A igualdade/desigualdade é fungo desse parimetro. Até pot- que em nome do pardmetro pode-se explicar ¢ justificar uma desigualdade: por ‘exemplo, entre quem recorre e quem nfo recorre a0 Judicigrio, No caso da coisa Julgada, o parmetro é a seguranca, sendo por forea dela que sentengas valem inter partes, admitindo, assim, a configuragao de situagdes diferentes. S em casos mui- resses difusos - admite-se, em nome da seguranga, uma igualdade , assim mesmo, para realizar essa igualdade, o instramento & processual € previsto expressamente (ago civil piblica. Em summa, ainda que uma alteragio de entendimento desse ensejo & proposigdo de acdo resciséria, haja vista que a coisa julgada se baseou em inconstitucionalida- de que 0 STF passou a considerar, em outro caso, se essa ago rescis6- ria no for proposta, ¢ mais, enquanto a mesa no transitar em julgado para ope- para as partes a sentenca transitada em julgado que apon- do tributo. ento uma mengo 20 disposto no art. 146 do CIN. Revista Diskitica de Diteite Tributvio of 125 7” Dizo art. 146: vo, quanto a fato gerador ccortida posteriormente 8 sua introdugio.” ‘do dispositive do art. 146 do CTN é a impossibi istrativa, mormente em face de coisa julgada materi ‘mento jé realizado, hd de se entender, a fortiori, que, expirado o prazo para a inter posigd0 de ago rescisGra, essa inexisténcia de relagao juridica tributdra se consu- ‘ma para as partes, pois nfo se forma ofato gerador em unifo com a norma tributé- ria declarada inconstitucional. A rescis6ria €, assim, instrumento necessério para impedir a produpio de efeitos pela sentenga que transitou em julgado, que no pode sucumbir tio-somente por forga de coisa julgada formada em outro processo, para partes distntas. “Tenha-se em conta, do mesmo modo, o art. 100 do CTN, que profbe a retroa- io, ainda que em sentido genético e independente de ter havido langame 3s da jurisdic administeativa, a ) eujo pardgrafo tinico exclui a imy ‘penalidades, a cobranca de juros de morae aatualizago do valor monetério ddabase isso vale para decis6es administrativas que poem fir & oncreto, que se cristalizou por meio da coisa ju ‘Assim, desconsiderar a coisa julgada (imutabilidade e indiscutil ‘tamente pelo motivo de que sentenga posterior do STF, em sede de teria provocado dela uma espécie de revogagio, é violar a correspondente garantia ‘constitucional, ignorando que a coisa julgada tem a ver com o diteito fundamental A seguranga, do qual é inseparvel. O que Constituigao expressa e principalmente _garante é a intangibilidade da coisa julgada diante do ato legislative e também diante de atos jurisdicionais. 3, Coisa Julgada em Matéria Tributaria ‘As observagies anteriores tém uma repercussio importante no campo tributé- rio, exigindo uma consideracdo mais detalhads Gomesemos or algumss dau oes cdi, mas nessun compres: art, 467: “Denomina-se cutivel a sentenga, no julgado (cf. Botelho de Mesquita, A Coisa Julgac ‘Adimitindo-se que toda sentenga contém um jatzo ( coisa julgads interes- sas nfio fazem coisa julgada (CPC art. 469). ‘com base nela o juiz acolhe ou rejeita 0 lor é ato normativo, manifestagao de von- pedido do autor. Acolher 0 pedido 2 Avista Disléticn de Direto Tribu produgio do efeit Rejeitar o pedido sigi procedéncia Ao eo: do art 469 do CPCs motives, a verdade dos fatos, a apreciaco da questo prejudicial (Salvo o disposto no act. 470), transitada em julgado a sentenga, toma-se imutivel e indiscutivel a manifestagio de vontade de acolhimento ou a rejeicao. doutrina costuma ver na imutablidade o cere da coisa julge- , da causa petendi e substancial. No primeiro caso tem-se a coisa no segundo, a coisa julgada material. Distinguidas conceitualmen- -am, formando uma unidade: nio hé coisa julgada material sem a formal; a coisa julgada form: nduz & materi¢ Quando se examina a coisa julgada em mai aparecer certas peculiaridades que envolvem con indiretos, nfo € apenas a prestagéo devids, mas 1940 juridica concreta decorrente de aplicacdo de lei, icidentalmente inconstiacional ou a ilegalidade de Colocada assim a questio, comecemos por lembrar que a coisa julgada, em face da dinamicidade do sistema, composto por normas vélidas, que vigem a partir de tos sobre a interaco humana em constante ‘mutacio, 6 um instramento de controle da fluidez das relagSes. Para que ela ocor- ra, fala-se em identidade da coisa, da causa de pedir e das partes. Esta identidade & apreciada em face do decisur, conforme 0 disposto no art. 469 do CPC, que o deli- rita, ém, esta identidade em face da fluidez temporal dos even- No mundo que nos € comum existe sempre o retomo do mesmo: coisas que sem pre ocosrem de novo, fendmenos que sempre se realizam de novo. Entre estes fen- menos estio as agGes ¢ interagBes hi ‘forma de permanéncia. Ou seja, eada passeio ou cada frase ao uma ocoreénciatnica eviata Dolio de DireltoTebutsrio nt 125 cy ¢ inrepetivel, em cada momento, um vnico e irrepetivel acontecer. O mesmo se diga yuema da acio de passear) pelo dde que todo domingo faco 0 mes- amos sempre que agimos (ages) ische Propddeutik, Mannheim, 1967, -chuva para protegé- Toso sogundo facia sol cle se protegia com um chapéu) deve se diet que btext razBes enquanto hat (fazer 0 mesmo passeio por ter adqui rmesmas ages pelas mesmas razdes cespécie de repertério potencial de fumdamentos que pomos em ago toda vez que fundamentamos nossas posigdes a0 interagir. Do esquems de agir faz parte o agente ¢ 0 que se diz para o agic vale também para o ator e seus motivos. Assim, se nunca somos o mesmo em nossas agées, & preciso distinguir a ele assume a0 agir. entre 0 ator, inguém age na integridade dos papéis socizis possfveis. Agi- contribuinte, parte processual etc. O que chamamos de per- sonalidade € a identificago de varios papéis, is mum tinico centro de atua- ‘eo. Portanto, quando dizemos que fulano bateu em sicrano repetidas vezes, esta- a Revita Dialétics de Direto Tributéio nt 125 ateu no filho ou o agressor batew na vitima repetidas vezes. nio € uma identidade fisica, mas de um papel que é assu- fo (cf. Fervaz Jt turista, que adq fard 0 passcio a0 Corcovado, sendo que 0 tsa ToRo, porto pag dius vez, fardo mesmo psseo doa Ytee Isto posto, vejamos o que ocorre na coisa julgada material em questées fiscais Quando se requer que 0 deciswm de uma sentenga, para valer para processos faturos, envolva as mesmas partes, a mesma causa petendi e o mesmo objeto, ob- viamente, pelo que dissemos, a pressuposta identidade pode-se refetir ao ato con- crezo, Snico ¢ itrepetivel (acéo), ou aos esquemas de agir (atividade). Nesse senti- do, 0 pronunciamento judicial sobre nuilidade do lancamento do imposto ou da sua prescrigéo referente a wm determinado exercicio teria por objeto 0 ato concreto, 0 gue, sendo esse tinico e i 1, daria azo a uma nova sentenga sobre um novo i to da coisa julgada. Daf o temperamen- uum periodo (um determinado exerci judicial sobre inexisténcia da fonte legal da relagdo ju- Passivo refere-se ao esquema de aco, donde a impos- sibilidade de renovar a cada exercicio 0 langamento ¢ a cobranca do tributo, pois do hd precedente vinculagdo substancial. Como se identificam, porém, estes esquemas de agit? A doutrina fala-nes aqui ddas referidas identidades. A identidade subjetiva pode referir-se a um papel social exercido on a um conjunto deles ¢ até mesmo a todos os papéis sociais que confluem num $6 indivfduo (direitos personalissimos). Assim deve ser entendido 0 conceito de parte processual, enquanto um papel ou conjunto de papéis disciplinado por norma. Jé a identidade da causa petendi nfo se confuunde com 2 mera citagao de dispositivos legais ¢ normativos em geral, mas corresponde ao préprio fundamento jutidico deduzido em juizo. Ou seja, a causa petendi,cuja identidade se busca, no if no diploma normativo a que se recorre, mas no regime juridico (esquema re- gulado de agin) que el i -gal permanecet o mesmo, hi ie de causa de pedir. Isto porque a dinfmica dos sistemas normativos 0s coloca no mundo do agir. ‘Normas promulgam-se e séo revogedas. A identidade da causa petendi $6 pode, ina, referir-se ao esquema de agir e, nesse sentido, ao fundamento deduzido em timo, a identidade do objeto, Esta também nio se refere a tinicos ¢ ime- ra, quando o decisum de uma sentenga dis- objeto - um conflito de interesses-,fixt-se um esquema de ago atua- (ra, aplicando-se o exposto ao Direito Tributitio, & preciso estabelecer distin- Ges importantes. a discutir essa questo, vale a pena uma consideragio sobre 0 fator tempo na constituisdo do fato gerador, A doutrina (Becker) costuma dizer que as coordena- das do tempo podem condicionar a realizagio de uma hipstese de incidéncia & con- temporaneidade ou & sucessividade num prazo. Quando a hipétese consiste mam ‘estado de fato, por exemplo, na medida igual ao ano civil, a hipétese realiza-se no evista Dislétics de Direte Tributiio #125 % Sitimo momento do dia 31 de dezembro e sobre ela incide a norma vigente no pri- rmeito momento do dia 1° de janeiro do novo ano (Teoria Geral do Direito Tributd- ia, Sio Paulo, 1972, p. legislador pode defi semestre, um dia, ndo importa. A hip6tese s6 se integr te prazo em um ano, ura. no titimo momento, posto que coorderiada por um tempo sucessivo, em que areal evento deve ter ocorrido no perfodo e 0 fato s6 se complet ‘No entanto, para a configuragao da coisa julgada material, temos distintas a considera. [No caso de tributos referents a fatos geradores de perfodo anual de formagio, declarazao ou de oficio), terros um esquema de acio tipico que apont mite que coincide com 0 exercfcio financeiro. A plicével que a coisa julgada a ele se limi Bato desse modo. temporaliza o tri- ‘Mas, como tem feito 0 STE, quando se trata de inconstitucionalidade do tribu- to, de isengao ou de imunidade tributéria, hd um aspecto importante a ser conside- rado quando se pensa no esquema de agir. Pois 0 decisum pode referit-se, confor- me o circunserito na lide, a propria tributabilidade. ical correspondente a um exercicio, pode ou cingir-se a discutir 0 iagamer to a ele correspondente ou ampliar-se, para colocar em debate a prOpria existéncia do poder de bus de que depend Igament. Nos tos em que propomes 20 ou imuunidade, estamos as voltas com esquemas em que o crédito tributirio ja ‘existe (ou no) desde a ocomréncia do fato legalmente previsto. Nesse sentido deve ser entendido 0 mencionado julgamento do Ag. 11.227, em ‘que Castro Nunes, referindo-se a De Sanctis, adverte que, to, atbuebiiate) Ea razgo, acrescenta, é que a revisdo no muda nem a coisa nem a natureza ju- ridica da obrigagao, ¢ sim a soma exigida (RDA 2/557). Particularmente importante, nessa linhe de entendimento, € 0 citado voto do ‘Ministro Rafael Mayer (RE 93.048, de 16.08.81 - RTJ 99/414 ss.) em que, interpre~ tando a extenséo da simula 239, aponta para um importante det “sea decisio se colocanarelagéo de iritotrbutrio material para pretensio fiscal do sueito avo, por inexsténcia de fone legal d obrigue 0 sujeito pass a cobranga do tibuto, pois nio hé a precedente vinculseao substan sada que dat decorre€ inatingivel,e novas relagdes juidico-tibusdrias 86, ladvir da mudanga dost com as suas nevas condicionantes." (rife) 66 evista Dislética de Diceito Tibutéro a 125 julgada que declara a impossi- Ou seja, prevaiec no tempo a. cagir) entre lei e fato gerador, que venha a constituir uma nova relagio jurfdico-tri- utara, 4. Coisa Julgada e Norma Juridica Nova: 0 Caso da Lei n. 7.689/88 ‘Como vimos, a anélise no tocante & revogagio de uma sentenga que ‘em julgado deve ser realizada tomando em consideragdo uma forme especffica de sucesso de normas no tempo, qual seja, a sucesso de normas indiviuais (lex in- ter partes). Assim, a revogagao de uma sentenga transitada em julgado dé-se com 0 im julgado de nova sentenca, em sede de agdo rescis6ria, Nao € possivel que suspenda sentenca transitada em juigado pois ocorreria violacio seja do tots peda Crt 5° SN _Ennesse contexto que deve ser analisado 0 tema da decisiio que se ey nare- ‘4 ago declaratéria nao é meio para a declaragio de inconstitucio- nalidade de lei em tese. Nesse sentido tem proclamado o STF que nfo cabe aco