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a Maria do Rosario Palma Ramalho DIREITO DO TRABALHO PARTE II - SITUACOES LABORAIS INDIVIDUAIS ne 3. EDICAO, Revista ¢ Actualizada a0 Cédigo do Trabalho de 2009 AIMED MARIA DO ROSARIO PALMA RAMALHO ko de Lisboa DIREITO DO TRABALHO PARTE II SITUACOES LABORAIS INDIVIDUAIS 32 EDICAO REVISTA E ACTUALIZADA AO CODIGO DO TRABALHO DE 2009 ALMEDINA PREFACIO A : EDICAO A terceira edigao do nosso Direito do Trabatho ~ Parte II: Situagdes Laborais Individuais, que ora se publica, procede & revisio desta obra & face do novo Cédigo de Trabalho, aprovado pela L. n.° 7/2009, de 12 de Fevereiro, tal como jé fizemos em relagdo ao primeiro tomo (Direito do Trabalho I ~ Parte I: Dogmética Geral). Como & sabido, 0 novo Cédigo do Trabalho introduziu profundas alterag6es no regime laboral, ndio s6 em termos sistematicos, com a alte- ragio da estrutura dualista do regime anterior, assente na repartigiio dos contetidos normativos entre Cédigo ¢ Regulamentacdo, ¢ ainda com rele- ‘antes modificagdes na estrutura interna do préprio Cédigo, mas também em termos substanciais, com a introdugio de modificagdes relevantes em muitos regimes laborais. ‘Acresce que, jé depois da entrada em vigor do Cédigo, foram publi- cados vérios diplomas laborais avulsos, que vieram complementar os regi- mes do Cédigo e preencher as remissdes de algumas das suas normas nas mais variadas matérias. Por fim, também ao longo deste ano, houve alteragdes significativas no quadro normative comunitério em matéria social, nio s6 por forga da entrada em vigor do Tratado de Lisboa, mas também em resultado da alte- ragio ou da actualizagao de diversos instrumentos normativos comunité- rios com incidéncia directa ow indirecta nestas matérias. Em suma, no espago de um ano, 0 quadro normativo laboral foi objecto de alteragGes sistematicas e substantivas de grande aleance. Perante este quadro ¢ tendo-se, entretanto, esgotado a2.’ edigao deste tomo do nosso Direito do Trabatho, impunha-se uma nova revisio que actualizasse a obra em face do novo quadro legal. Lisboa, 02 de Abril de 2010 ABREVIATURAS E OUTRAS INDICACOES DE LEITURA a) Abreviaturas AA ~ Acordo de Adesio : ABGB ~ Allgemeines Buirgerliche Gesetzbuch (Austria) ae. ~ Acirdao ACP. — Archiv fiir die civilistische Praxis (Heidelberg) ACT = Acordo Colectivo de Trabalho ACT = Autoridade para as Condigées de Trabalho AD — Acérdios Doutrinais do Supremo Tribunal Administrativo AE Acordo de Empre Ay ~ Actualidade Juridica AR = Assembleia da Repablica ArbR — Arbeitsrecht ~ Zeitschrift fr das gesamte Dienstrecht der Arbeiter, Angestellten und Beamten (Stuttgart) rbuR ~ Arbeit und Recht. Zs. f. Arbeitsrechtspraxis (K6In-Deutz) ArchPnDr ~ Archives de philosophie du droit (Paris) AWA — Arbeit und Arbeitsrecht. Monatszeitschrift fir die betriebliche Praxis (Miinchen) BB Der Bettiebs-Berater. Zs. f, Recht u, Wirtschaft (Heidelberg) BFDUC ~ Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coim- bra (Coimbra) BGB ~Biirgerliches Gesetzbuch (Alemanha) BMI ~Boletim do Ministério da Justiga BIE ~Boletim do Trabalho e do Emprego cc ~ Cédigo Civil Com: ~ C6digo Comercial cer —Convengio Colectiva de Trabalho / Contrato Colectivo de Trabalho ce = Comunidades Europeias CEDH ~ Convengio Europeia dos Direitos do Homem CEE = Comunidades Econsmicas Europeias CEor, = Tratado da Constituigao Europeia CITE, — Comissio para a Igualdade no Trabalho e no Emprego Civitas(REDT) a cust) Col, Conv. cP cee cPr CIRE cRcss CREF RP csc CSE cr cr 2003, Dalloz DAR DB Dee Dec, DG DG (ap) DHL, DH. (Chr.) Dir, Dir. DirRI DI DL Dlav. DLRI Doc.Lab. DR DR (Ap.) DRes, ____Abreviauiras ~ Civitas, Revista Espanola de Det a Espola de Desch , ~ Colectdnea de Jurisprudéncia ammnenonc ~Colectinea de Srspréncia Acordes Colstna de usp! Acsns do Sue Ta ~Coleegao de Acros do Convenco intrnacionsl ~ Cio Pena ~Céigo de ProcessoCivi = Cin de ces Tho ~Céigo da Isotvencia «da Reeupena teri de Empres ~ Gitzo ds Reaines Conbusos de Serra Sea ~Oédigo dos Procesos Expciis de Reser Césigo os Process Epcias de Recpeagt de Esa ~Consttuiao da Repo Prt : vaesa ~ Ctig ds Sociedade Comers ~ Carta Social Europa ~Cékigo do Trai de 2009 ~Céigo do Trabalho de 2003 ~ Rect périoiqu tnt ete doctrine (Pr) - pee Arbeitsrecht (Darmstadt) Der Betried. Wochenschr fi Beeb : ir Bewibswinschat, Sever Techt, Wirtschaftrecht, Arbeitsre . “sie cht (Disseldorh ~ Decision Comuniia ~Diirio do Govern = Dio do Govern (Apénie) = Palo Hebomatate a ~Dalloz Hebdomadsire ~ Chronique Par ~ Directiva Comunitéria anes ars) ~Revisa 0 Dito Dino dele earon indo Roma — Direito e Justiga a ‘Supremo Tribunal Administrativo ique de jurisprudence, de légistation ~ Decreto-Lei Ut Diritto del Lavoro. Rivista di noes Rivista di dottina e di giurisprudenza ~Giomale di diritto del lavoro ¢ delle a delle relazioni industriale Doce Lebo Mal ~ Diério da Repiblica » = Dit da Retice Ape nice) “Dears Regaine Abreviaturas ~ Droits ~ Revue Francaise de Théorie Juridique (Pais) Droits DRdA — Das Recht der Arbeit (Wien) Drouv. Le Droit Ouvrier (Paris) Ds = Droit Social (Paris) DUDH Declarago Universal dos Direitos do Homem EGELR ~ European Gender Equality Law Review Ene Dir, — Enciclopedia del Diritto (Milano) ESC ~ Estudos Sociais e Corporativos EIN = Estatuto do Trabalho Nacional EIT Empresa de trabalho temporirio . Ex aequo —Ex aequo — Revista da Associagio Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres FDL ~ Faculdade de Direito de Lisboa Fest, — Festschrift Festg Festgabe IGT — Inspecgiio-Geral do Trabalho Ly = Industrial Law Journal (Oxford) WR ~ International Labour Review (Geneve) — vd RIT es. — Imposto sobre o rendimento das pessoas singulares ice — Jurisclasseur périodique (Paris) wd —Jehrings Jahrbiicher. Jahrbiicher fur die Dogmatik des heutigen riimischen u. deutschen Privatsrecht (Jena) JO — Jornal Oficial das Comunidades Europeias sIT — Journal des Tribunaux du Travail (Bruxelles) JBL — Tiiristische Blatter (Wien) Jud ~ Juristen Jahrbuch (Alemanba) Jur = Iuristische Wochenschrift (Berlin) Jus ~ Juristische Schulung. Zs. flr Studium u. Ausbildung (Munchen) Z = Juristenzeitung (Tubingen) KI — Kritische Justiz (Alemanha) L Lei LAP — Regime Jurfdico das Associagdes Patronais LAT — Regime Juridico dos Acidentes de Trabalho Lav.80 — Lavoro 80 (Milano) Lav.80/Quaderni — Lavoro 80 JQuaderni (Milano) Lav Dir. = Lavoro e diritto (Bologna) Lc = Lei Constitucional LccG — Regime Juridico das Cléusulas Contratuais Gerais Lect Regime Juridico da Cessago do Contrato de Trabalho € do Trabalho a Termo LComT — Regime Jurfdico das ComissGes de Trabathadores Ler — Regime Jurfdico do Contrato de Trabalho ZAS ~ Zeitschrift fr Arbeitsrecht und Sozialrecht (Wien) Zia ~ Zeitschrift fr Arbeitsrecht (Kin) ZIAS > SEischrft fr auskindisches und imtemationales Arbeits- und Sozialrecht (Heidelberg) ZRP ~ Zeitschrift fir Rechispolitik (Munchen) 5) Outras indicagdes de leitura tale, nota de rodapé, slo feitas, sem indicagdo de Autor, pela indicagio do Lulo, abreviada para Direito do Trabalho 1, Seguida da referéncia ao pardgrafo, 4@ mimero arabico e ao nero rominico para ox uais se pretende remeter, * Sempre quec uma disposigio legal é refeida sem indivaydo da tonte e excepto se Cig nn tusHo se retrar do contexto, deve entenderie ue ela se reporta ao digo do Trabalho. As referéncias, sem mais Codigo reportam-se 20 Cédigo do Trabalho de 2009, 5 FORMAGAO DAS SITUACOES JUSLABORAIS DIVIDU., c ‘TO DE TRABALHO INDIVIDUAIS: O CONTRATO DI AB. $172 Delimitacio do contrato de trabalho 57. Nogiio e elementos essenciais do contrato de trabalho 57.1, Nogio legal de contrato de trabalho L. No nosso sistema juridico, o contrato de trabalho é, tradicional- mente, objecto de definigio legal. Esta nogio constava jé do primeiro Regime Suridico do Contrato de Trabalho, aprovado pela L. n.° 1952, de 10 de Marco de 1937 (art. 1.°)!, e foi mantida, com algumas alteragdes, tanto no Cédigo Civil (art. 1152.°) como na LCT de 1966 «, depois, na LCT de 1969, de onde passou para a0 Cédigo do Trabalho (art. 10.° do CT de 2003 ¢ att, 11.° do CT de 2009). ‘Actualmente,a nociio de contrato de trabalho consta do art, 1152.° do “CC que correspondia 0 art, 1" da LCT de 1969) ¢ do art, 11 do ch Para o Cédigo Civil, «contrato de trabalho é aquele pelo qual uma pessoa se obtiga, mediante retribuicio, a prestar a sug actividade intelectual ou ‘hanual a outra pessoa, sob a autoridade e direcgio desta»?. J4 o art. 11° 1 Bao seguinte o texto do ar, 1.° da LCT de 1937: «Contrato de trabalho é toda & convengdo por forga da qual uma pessoa se obriga, mediante remuneragdo, a pres & cota n sux eetividade profissional, ficando, no exercicio desta, sob as ordens,direcgio ou fiscalizagao da pessoa servid> 2 Bota redacgdo tem origem no Projecto de GaLvAo TLL para o regime do con- rato de trabalho, apresentado em 1961, que, oxlavia, nfo referia o elemento da autoridade thas apenas oclemento da direcqlo~ cfr. 1. GaLvho Tete, Parecer n.°45/VIL@ Camara Corporativa ~ Regime do Contrato de Trabalho (Projecto de Proposta de L1.* 517), in Pareceres da Camara Corporativa (VII Legislatura), 1961, 11, Lisboa, 1962, 515-560 (525), Esta nogdo de contrato de trabalho estava lis, em eonsonaneia com aque Fo pro~ posta por este autor na Exposigio de Motivos sobre a Proposta que o ator elaboro para pertlo do Codigo Civil de 1966 sobre os contratos em especial ~ oft... GALVAO TELLS, Conmratos Civis (Projecto completo de um titulo do fururo Codigo Civil Portugués e res 18 0 do contrato de trabalho Go CT define contrato de trabalho como «...aquele pelo qual uma pessoa Singular se obriga, mediante retribuigdo, a prestar a sua actividade » outra Ou ultras pessoas, no ambito de organizagaio e sob a autoridade destase Naturalmente, as duas nogdes no se opdem mas devem ser conjugadas, tendo, hoje, a nogdo do Cédigo Civil especial interesse para integrar‘o con, {etido da actividade do trabalhador: esta aetividade pode ser intelectual on manual Mantendo-se estavel na LCT e no Cédigo Civil, a nogaio de contrato de trabalho foi objecto de alguma evolugao com a codificagio do Direito. do Trabalho, tendo sido introduzidas alteragées tanto no Trabalho de 2003 como no Cédigo do Trabalho de 2009. Ao identificar o contrato de trabalho como «aquele pelo qual uma Pessoa se obriga, mediante retribuicdo, a prestar a sua actividade a outra Cu outras pessoas, sob a autoridade e direceio destas», 0 art. 10.° do CT de 2003 introduziu duas modificagées na nogao tradicional deste contrato: 8 primeira tinha a ver com a setividade do trabathador, que deixou de ser qualificada como manual ou intelectual, distingdo que traduzia a diferenga entte operitios e empregados, mas yue nao tem actualmente grandes pro- Jecgdes juridicas; a segunda foi a referéncia expressa A titularidade da Posigio juridica de empregador nao apenas por uma mas também por duas ou mais entidades, por forma a enquadrar a figura da pluralidade de empregadores (que 0 Cédigo do Trabalho de 2003 previa no art, 92° ¢ que © actual Cédigo trata no art. 101.°)3, Jano componente de «autoridade» em rel mento