SUMÁRIO

INTRODUÇÃO CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO À ECONOMIA 1. CONCEITOS BÁSICOS 2. DEFINIÇÃO DE ECONOMIA 2.1. Os problemas econômicos fundamentais 2.2. Sistemas econômicos 2.3. Funcionamento de uma economia de mercado: fluxos reais e monetários 2.4. Divisão do estudo econômico CAPÍTULO II - INTRODUÇÃO À MICROECONOMIA 1. CONCEITO 1.1. Pressupostos básicos da análise microeconômica 1.2. Aplicações da análise microeconômica 1.3. Divisão do estudo microeconômico CAPÍTULO III - DEMANDA, OFERTA E EQUILÍBRIO DE MERCADO 1. BREVE HISTÓRICO 1.1. Demanda de mercado 1.2. Oferta de mercado 1.3. Equilíbrio de mercado 1.4. Interferência do governo no equilíbrio de mercado CAPÍTULO IV - ESTRUTURAS DE MERCADO 1. INTRODUÇÃO 1.1. Concorrência pura ou perfeita 1.2. Monopólio 1.3. Oligopólio 1.4. Concorrência monopolística 1.5. Estruturas do mercado de fatores de produção 1.6. A ação governamental e os abusos do poder econômico nos mercados MACROECONOMIA CAPÍTULO V - INTRODUÇÃO À MACROECONOMIA 1. INTRODUÇÃO 2. OBJETIVOS DA POLÍTICA MACROECONÔMICA 2.1. Alto nível de emprego 2.2. Estabilidade de preços 2.3. Distribuição eqüitativa de renda 2.4. Crescimento econômico 2.5. Dilemas de política econômica: inter-relações e conflitos de objetivos 3. INSTRUMENTOS DE POLÍTICA MACROECONÔMICA 3.1. Política Fiscal 3.2. Política monetária 3.3. Políticas cambial e comercial 3.4. Política de rendas 4. ESTRUTURA DE ANÁLISE MACROECONÔMICA 4.1. Mercado de bens e serviços 4.2. Mercado de trabalho 4.3. Mercado monetário 4.4. Mercado de títulos 4.5. Mercado de divisas 5 6 6 6 7 7 8 10 11 11 11 12 13 15 15 15 17 19 20 23 23 23 24 24 25 25 26 27 27 27 27 28 28 29 29 30 30 30 31 31 31 32 32 33 33 33

1
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

CAPÍTULO VI - CONTABILIDADE SOCIAL 1. INTRODUÇÃO 2. SISTEMAS DE CONTABILIDADE SOCIAL 2.1. Sistema de contas nacionais 2.2. Matriz de relações intersetoriais (ou matriz insumo-produto ou matriz de Leontief) 3. PRINCÍPIOS BÁSICOS DAS CONTAS NACIONAIS 4. ECONOMIA A DOIS SETORES: FAMÍLIAS E EMPRESAS 4.1. O fluxo circular de renda: análise da ótica do produto, da despesa e da renda 4.2. Formação de capital: poupança, investimento e depreciação. 5. ECONOMIA A TRÊS SETORES: AGREGADOS RELATIVOS AO SETOR PÚBLICO 5.1. Receita fiscal do governo 5.2. Gastos do governo 5.3. Superávit ou déficit público 5.4. Renda nacional, o custo de fatores e produto nacional a preços de mercado 6. ECONOMIA A QUATRO SETORES: AGREGADOS RELATIVOS AO SETOR EXTERNO 6.1. Exportações e importações 6.2. Produto interno bruto, produto nacional bruto e renda líquida do exterior 7. O PIB COMO MEDIDA DO BEM-ESTAR 7.1. PIB em dólares 7.2. Índice de Desenvolvimento Humano - IDH 7.3. IDH – Posição do Brasil 8. NÚMEROS-ÍNDICES 8.1. Índices de preços CAPÍTULO VII - ATIVIDADE FINANCEIRA DO ESTADO 1. CONCEITO 1.1. O fenômeno financeiro 1.2. Características fundamentais da atividade financeira 1.3. A instrumentalidade da atividade financeira 1.4. Instrumentalidade e política econômica 1.5. Fins da atividade financeira 2. CIÊNCIA DAS FINANÇAS 2.1. Conceito 2.2. Objeto 3. CIÊNCIA DAS FINANÇAS E DIREITO FINANCEIRO CAPÍTULO VIII - -DIREITO FINANCEIRO 1. CONCEITO 2. DELIMITAÇÃO 2.1. Autonomia 2.2. Relacionamento com os demais ramos do direito CAPITULO IX – A EVOLUÇÃO DO ESTADO 1. EVOLUÇÃO DAS FUNÇÕES DO GOVERNO E CRESCIMENTO DO SETOR PÚBLICO 2. ATRIBUIÇÕES ECONÔMICAS DO GOVERNO 2.1. Crescimento das despesas públicas 2.2. Determinantes das despesas públicas 3. DO ESTADO PROVEDOR AO ESTADO REGULADOR 3.1. Responsabilidades do Estado e tamanho do governo 3.2. Objetivos e alternativas de intervenção 3.3. Possibilidades de conflito e necessidades de coordenação 3.4. Federalismo fiscal

35 35 35 35 35 36 36 36 40 42 42 42 42 43 44 44 44 45 45 46 47 52 52 57 57 57 57 58 59 59 63 63 63 64 65 65 66 66 67 70 70 72 74 78 80 83 88 89 90 2

Professor: Raimundo N. S. Bertolesa

Curso: Direito

Disciplina: Ciência das Finanças

CAPITULO X - RECEITAS PÚBLICAS 1. CONCEITO 2. DEFINIÇÃO 3. RECEITA E INGRESSO 4. CONCEITOS E ASPECTOS LEGAIS DAS RECEITAS PÚBLICAS 5. CONCEITOS DOUTRINÁRIOS DE RECEITAS PÚBLICAS 6. CLASSIFICAÇÃO DAS RECEITAS ADOTADA PELA LEI Nº 4.320/64 7. CODIFICAÇÃO ORÇAMENTÁRIA DA RECEITA 7.1. Codificação da natureza da receita do ponto de vista contábil 7.2. Detalhamento de código da natureza da receita orçamentária 8. ESTÁGIOS DA RECEITA PÚBLICA 8.1. Resíduos ativos ou restos a arrecadar CAPITULO XI - DESPESAS PÚBLICAS 1. CONCEITO 2. CLASSIFICAÇÃO DAS DESPESAS SEGUNDO A LEI Nº. 4.320/64 2.1. Detalhamento de código da natureza da despesa orçamentária 3. DESPESA ORÇAMENTÁRIA 4. DESPESA EXTRA-ORÇAMENTÁRIA 5. PROCESSAMENTO DA DESPESA PÚBLICA 5.1. Estágios da despesa, segundo a lei 5.2. Estágios da despesa, segundo a realidade 5.3. Divida pública ou dívida passiva 5.4. Despesas de exercícios anteriores CAPITULO XII – ORÇAMENTO PÚBLICO 1. CONCEITO E DEFINIÇÃO 2. PRINCÍPIOS ORÇAMENTÁRIOS - CONCEITO 3. ORÇAMENTO TRADICIONAL DE RECEITAS E DESPESAS 4. ORÇAMENTO-PROGRAMA 4.1. Recursos para execução do Orçamento-Programa 4.2. Estimativa da receita 5. O PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO ORÇAMENTO PÚBLICO NO BRASIL 5.1. Orçamento Geral da União (OGU) 5.2. A elaboração do Orçamento 5.3. Processo de elaboração do Orçamento 5.4. Resumo das fases do Orçamento 5.5. Períodos de atividades do orçamento público 5.6. Créditos adicionais 5.7. Alterações do orçamento durante sua execução 5.8. Previsão e resultado orçamentários FISCALIZAÇÃO CAPITULO XIII – FISCALIZAÇÃO E CONTROLE 1. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL 1.1. Origens e experiências anteriores 2. OBJETIVOS DA LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL 2.1. Equilíbrio das contas públicas 2.2. Receita Corrente Líquida - RCL 3. PLANEJAMENTO 3.1. Plano Plurianual – PPA 3.2. Lei de Diretrizes Orçamentárias - LDO 3.3. Lei Orçamentária Anual - LOA 3.4. Execução orçamentária e cumprimento de metas
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

93 93 93 94 94 95 96 98 98 99 100 100 101 101 101 104 105 106 106 106 106 110 110 112 112 112 114 115 115 116 117 117 118 120 128 128 129 130 132 133 133 133 134 135 135 136 136 136 137 138 3

1.RGF 8.1. Contratação de Operação de Crédito 7.3.1. Controle particular 13.2.1. O alcance do controle judicial 14. Despesas com a seguridade social 5. Previsão e Arrecadação da Receita 4. DESTINAÇÃO DE RECURSOS PARA O SETOR PRIVADO 7. A GLOBALIZAÇÃO BIBLIOGRAFIA 4. O CONTROLE NO BRASIL 13. Antecipações de Receitas Orçamentárias – aro’s 7. DÍVIDA PÚBLICA 1. S.4. O PAPEL DO CONTROLE 12.4.1. A DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA 2. Formas de extinção da dívida pública 2.3.2.4. Renúncia de Receita 5. A LRF e a dívida pública 7.3. Relatório de Gestão Fiscal .5.7.1.1.2. DESPESA PÚBLICA 5. O Controle externo 14.2.3. O Controle interno 13. SANÇÕES PESSOAIS 11. TRANSPARÊNCIA. DÍVIDA E ENDIVIDAMENTO PÚBLICO 7. A regra de ouro 7. Transferências voluntárias 6.2. Relatório Resumido da Execução Orçamentária . As potencialidades e limitações do TCU 14. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Os Tribunais de Contas nos estados e nos municípios CAPITULO XIV – DÍVIDA PÚBLICA 1. Limites com pessoal 5. Despesas com pessoal: fiscalização e controle 5. Fiscalização da Gestão Fiscal 9.6. Transparência na Gestão Fiscal 8. Recondução da dívida aos limites 7.2.1. Restos a pagar 8. SANÇÕES INSTITUCIONAIS PARA DESCUMPRIMENTO DA LRF 10. Regime constitucional da dívida pública brasileira CAPITULO XV – GLOBALIZAÇÃO 1. O CONTROLE EXTERNO NO MUNDO 13.8. Limites de endividamento de acordo com a LRF 7.3. O Controle externo como ferramenta de aprimoramento da Administração Pública 14. CONTROLE E FISCALIZAÇÃO 8. ÓRGÃOS DE CONTROLE NO BRASIL 14.RREO 8.4. 138 139 139 140 141 141 143 143 143 144 144 145 146 147 148 148 148 149 150 150 150 151 152 152 152 153 153 154 155 155 156 157 158 158 159 161 162 162 163 164 166 168 168 171 4 Professor: Raimundo N. Garantia e contragarantia 7.RECEITA PÚBLICA 4.

embora trate do mesmo objeto de estudo do Direito Financeiro. no capítulo VIII trata-se. Com o intuito de dar um melhor embasamento ao acadêmico. XIV e XV tratar-se-á dos conceitos de Dívida Pública e Dívida Pública do Brasil e da Globalização e Direito Financeiro. demonstrando definições e importância bem como é conceituada e definida a Ciência das Finanças.INTRODUÇÃO O material de apoio ora apresentado destina-se a atender as necessidades dos acadêmicos de Direito no que diz respeito à disciplina Ciência das Finanças. diferentemente do Direito Financeiro que enfoca a parte prática. Na primeira parte que engloba do Capítulo I até o Capítulo VI tratar-se-á de assuntos à Microeconomia e Macroeconomia. XI e XII tratar-se-á das Receitas Despesas e Orçamento Público enquanto no capítulo VII será definido os modelos de Controle bem como será demonstrado a importância de cada um dentro do contexto atual do Estado. de forma bastante sucinta do Direito Financeiro e seus interdependência com o Direito Tributário e Administrativo. Nos capítulos XIII. a Atividade Financeira do Estado. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o seu enfoque é dado na parte teórica ou especulativa. Ao capítulo IX cabe destacar a evolução do Estado desde os seus primórdios até os dias atuais. No Capítulo VII é tratada a Atividade Financeira do Estado. Nos capítulos X. A Ciência das Finanças. A segunda parte que versa especificamente sobre Ciência das Finanças será tratada nos demais capítulos. 5 Professor: Raimundo N. optou-se por dividir a presente apostila em duas partes. S. qual seja.

Esses temas. a fim de satisfazer as necessidades humanas.CAPÍTULO I . diferenças de renda entre as várias regiões do país. rádio e televisão. crises no balanço de pagamentos. de Direito ou de outra área pode vir a ocupar um cargo de responsabilidade em uma empresa ou na própria administração pública e necessitará de conhecimentos teóricos mais sólidos para poder analisar os problemas econômicos que modelam a sociedade diariamente. já rotineiros no dia-a-dia da sociedade.INTRODUÇÃO À ECONOMIA 1. DEFINIÇÃO DEFINIÇÃO DE ECONOMIA A palavra economia deriva do grego oikonomía (de óikos. que significa a administração de uma casa. distribuição. como: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ aumentos de preços. diferenças salariais. que são a base e o objeto do estudo da Ciência Econômica: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ escolha. Essa definição contém vários conceitos importantes. déficit governamental. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . 2. nómos. desemprego. ou do Estado. elevação de impostos e tarifas públicas. e pode ser assim definida: Economia é a ciência social que estuda como o indivíduo e a sociedade decidem (escolhem) empregar recursos produtivos escassos na produção de bens e serviços. de forma a melhorar a qualidade de vida da sociedade. com altas doses de empirismo. escassez. ociosidade em alguns setores de atividade. necessidades. 6 Professor: Raimundo N. de modo a distribuí-los entre as várias pessoas e grupos da sociedade. O objetivo do estudo da Ciência Econômica é analisar os problemas econômicos e formular soluções para resolvê-los. dívida externa. recursos. produção. Um estudante de Economia. lei). deparar-se-á com inúmeras questões econômicas. S. têm opiniões formadas sobre as medidas que o Estado deve adotar. comportamento das taxas de juros. períodos de crise econômica ou de crescimento. valorização ou desvalorização da taxa de câmbio. que. casa. são discutidos pelos cidadãos comuns. vulnerabilidade externa. setores que crescem mais do que outros. CONCEITOS BÁSICOS Seja no cotidiano. seja nos jornais.

mas também da repartição inicial da propriedade e da maneira como ela se transmite por herança. A concorrência entre os diferentes produtores acaba decidindo como serão produzidos os bens e serviços. dos juros e dos benefícios do capital. PRODUZIR: PARA QUEM PRODUZIR a sociedade terá também de decidir como seus membros participarão da distribuição dos resultados de sua produção. A distribuição da renda dependerá não só da oferta e da demanda nos mercados de serviços produtivos. ou seja. Sistemas econômicos Um sistema econômico pode ser definido como a forma política.1. Os elementos básicos de um sistema econômico são: ♦ ♦ ♦ estoque de recursos produtivos ou fatores de produção: aqui se incluem os recursos humanos (trabalho e capacidade empresarial). de forma a atender ao máximo às necessidades humanas. complexo de unidades de produção: constituído pelas empresas. Os problemas econômicos fundamentais Da escassez dos recursos ou fatores de produção. ♦ ♦ O modo como as sociedades resolvem os problemas econômicos fundamentais depende da forma da organização econômica do país.2. originam-se os chamados problemas econômicos fundamentais: O quê e quanto produzir? Como produzir? Para quem produzir? ♦ PRODUZIR: O QUÊ E QUANTO PRODUZIR dada a escassez de recursos de produção. toda sociedade tem de escolher entre alternativas de produção e de distribuição dos resultados da atividade produtiva entre os vários grupos da sociedade. conjunto de instituições políticas. Essa é a questão central do estudo da Economia: como alocar recursos produtivos limitados. da determinação dos salários. social e econômica pela qual está organizada uma sociedade. 2. quais produtos serão produzidos e as respectivas quantidades a serem fabricadas. associadas às necessidades ilimitadas do homem. as reservas naturais e a tecnologia. 2. dentre outros) são limitados. Em função da escassez de recursos. Por outro lado. É um particular sistema de organização da produção. as necessidades humanas são ilimitadas e sempre se renovam. aquele que tiver o menor custo de produção possível. nenhum deles dispõe de todos os recursos necessários para satisfazer todas as necessidades da coletividade. a sociedade terá de escolher. dado o nível tecnológico existente. os recursos produtivos ou fatores de produção (mão-de-obra. jurídicas. então. das rendas da terra. matérias-primas. a terra. PRODUZIR: COMO PRODUZIR a sociedade terá de escolher ainda quais recursos de produção serão utilizados para a produção de bens e serviços. um problema de escassez: recursos limitados contrapondo-se a necessidades humanas ilimitadas. o capital. dentro do leque de possibilidades de produção. Tem-se. por força do próprio crescimento populacional e do contínuo desejo de elevação do padrão de vida. Os produtores escolherão. do sistema econômico de cada nação. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . distribuição e consumo de todos os bens e serviços que as pessoas utilizam buscando uma melhoria no padrão de vida e bem-estar. econômicas e sociais: que são a base da organização da sociedade. 7 Professor: Raimundo N.Em qualquer sociedade. ou seja. S. entre os métodos mais eficientes. Independentemente do grau de desenvolvimento do país.

Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . As empresas. Os países organizam-se segundo esses dois sistemas. a maioria dos preços dos bens. Diferencia-se do conceito de estoque. e não pela oferta e demanda no mercado. Nesse sistema as questões econômicas fundamentais são resolvidas por um órgão central de planejamento. Após o fim da chamada “Cortina de Ferro”’ ao final dos anos 1980. Em economias de mercado. supor-se-á uma economia de mercado que não tenha interferência do governo nem transações com o exterior (economia fechada). 2 Um fluxo é definido ao longo de um dado período de tempo (ano. há mobilidade de mão-de-obra). que atua por meio da oferta e da demanda dos fatores de produção. regido pelas forças de mercado.). predominando a propriedade pública dos fatores de produção. grande parte dos preços dos bens e serviços. ou alguma forma intermediária entre Pelo menos até o início do século XX. pela combinação dos fatores de produção. predominando a livre iniciativa e a propriedade privada dos fatores de produção. ou economia de mercado. que é definido num dado momento do tempo. chamados nessas economias de meios de produção. Era a filosofia do Liberalismo. 8 Professor: Raimundo N. eles. em que não havia a intervenção do Estado na atividade econômica. e não ao longo de um período. Principalmente a partir de 1930. que. S. passaram a predominar os sistemas de economia mista. no qual ainda prevalecem as forças de mercado. bancos. mês etc. salários. mesmo as economias guiadas por governos comunistas. mas com a atuação do Estado. com economia de mercado. saneamento e telecomunicações. como Rússia e China. As famílias são proprietárias dos fatores de produção e os fornecem às unidades de produção (empresas) no mercado dos fatores de produção. sistema socialista. Os agentes econômicos são as famílias (unidades familiares) e as empresas (unidades produtoras). caracterizando um “socialismo de mercado”: regime político comunista. tanto na alocação e distribuição de recursos como na própria produção de bens e serviços. Funcionamento de uma economia de mercado: fluxos reais e monetários Para se entender o funcionamento do sistema econômico. ou ainda economia planificada. prédios. terra. englobando os bens de capital. a partir de um levantamento dos recursos de produção disponíveis e das necessidades do país.Os sistemas econômicos podem ser classificados em: ♦ ♦ sistema capitalista. prevalecia nas economias ocidentais o sistema de concorrência pura. com os meios de sobrevivência. energia. serviços e salários é determinada predominantemente pelo mecanismo de preços. como roupas. essas questões são decididas por um órgão central de planejamento. matérias-primas1. A esse fluxo de fatores de produção. Nas economias centralizadas.2 1 Não pertencem ao Estado pequenas atividades comerciais e artesanais. cotas de produção e de recursos é calculada nos computadores desse órgão. ou economia centralizada. produzem bens e serviços e os fornecem às famílias no mercado de bens e serviços.3. nas áreas de infra-estrutura. Ou seja. 2. bens e serviços denominou-se de fluxo real da economia. têm aberto cada vez mais espaço para atuação da iniciativa privada. automóveis e móveis pertencem aos indivíduos (mas com preços fixados pelo governo). Existe também liberdade para escolha de profissão (ou seja.

que é utilizada para remunerar os fatores de produção e para o pagamento dos bens e serviços. paralelamente ao fluxo real. Como pode ser observado na figura I. Assim. tem-se um fluxo monetário da economia (ver a Figura I. No entanto. dentre outros). royalties. No mercado de bens e serviços. Unindo os fluxos real e monetário da economia. Em cada um dos mercados atuam conjuntamente as forças da oferta e da demanda. Desse modo.3: Figura I. 9 Professor: Raimundo N. enquanto as empresas os oferecem.1. as famílias oferecem os serviços dos fatores de produção (que são de sua propriedade). determinando o preço. aluguéis.1: Figura I.3). as famílias demandam bens e serviços.2: Figura I. juros.3: Fluxo circular de renda. I. o fluxo real da economia só se torna possível com a presença da moeda. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . S. no mercado de fatores de produção.2: Fluxo monetário da economia. no mercado de bens e serviços formam-se os preços dos bens e serviços. famílias e empresas exercem um duplo papel.1: Fluxo real da economia. enquanto as empresas os demandam. tem-se o chamado fluxo circular de renda (ver a Figura I. lucros.I.2). I. enquanto no mercado de fatores de produção são determinados os preços dos fatores de produção (salários.

mas não se desgastam totalmente no processo produtivo. capital e tecnologia. e não intermediários. que inclui todas as transações com mercadorias. representado pela capacidade empresarial ou gerencial dos proprietários da empresa. De acordo com sua durabilidade. Divisão do estudo econômico A análise econômica. Os bens de consumo destinam-se diretamente ao atendimento das necessidades humanas.1: Fator de produção e tipo de remuneração 2. equipamentos e instalações.4. terra. investimento agregado. produtos de limpeza). Diferenciam-se dos bens finais. bens Definição dos vários tipos de bens Os bens de capital são utilizados na fabricação de outros bens. entre outros. automóveis) ou como não-duráveis (alimentos. matérias-primas e componentes). por exemplo. é o que se estabelece entre famílias e empresas. o nível geral de preços. para fins metodológicos e didáticos. em Economia considera-se o lucro também como remuneração a um fator de produção. Os fatores de produção. também chamado de fluxo básico. e uma de suas características é contribuir para a melhoria da produtividade da mão-de-obra. 10 Professor: Raimundo N. fogões. Estuda a determinação e o comportamento dos grandes agregados nacionais. Macroeconomia. Os bens intermediários são transformados ou agregados na produção de outros bens e são consumidos totalmente no processo produtivo (insumos. chamados recursos de produção da economia. ou seja. podem ser classificados como duráveis (por exemplo. como o produto interno bruto (PIB). Examina a formação de preços em mercados específicos. bem como o setor externo. são bens finais. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de máquinas. como não são “consumidos” no processo produtivo. conforme o quadro a seguir: I. É o caso. como se observa. geladeiras. As empresas vendem bens e serviços no mercado. A cada fator de produção corresponde uma remuneração ao seu proprietário. São usualmente classificados no ativo fixo das empresas. a. O fluxo completo incorpora o setor público. Seu enfoque é basicamente de curto prazo (ou conjuntural). a poupança agregada. são constituídos pelos recursos humanos (trabalho e capacidade empresarial). Os bens de capital. serviços e o movimento financeiro com o resto do mundo. S.1: de Quadro I.Esse fluxo. como consumidores e empresas interagem no mercado e como decidem os preços e a quantidade para satisfazer a ambos simultaneamente. adicionando-se o efeito dos impostos e dos gastos públicos ao fluxo anterior. As famílias são as proprietárias dos fatores de produção. e o resultado de suas atividades (lucro/prejuízo) pertence a seus proprietários (unidades familiares). é normalmente dividida em: Microeconomia ou teoria de formação de preços. Inclusive. que são vendidos para consumo ou utilização final.

A empresa. poderem influenciá-los. como a empresa e o consumidor interagem e decidem qual o preço e a quantidade de determinado bem ou serviço em mercados específicos. em vez de serem utilizados termos como “industrial”. reconhece-se o estabelecimento como uma universalidade de direito. “banqueiro” etc. possui duas visões: a econômica e a jurídica. ou genericamente “empresário”. para avaliar a relação entre a procura e a renda dos consumidores. 11 Professor: Raimundo N. a lei reconhece o estabelecimento como uma universalidade de fato e não de direito. preferiu-se “fornecedor”. por exemplo. coeteris paribus). o preço obtido pela interação do conjunto de consumidores com o conjunto de empresas que fabricam um dado bem ou serviço. 4 É de se notar que. assim. a Microeconomia se vale da hipótese de que tudo o mais permanece constante (em latim. entretanto. que estão em outros mercados.1. se supõe que a renda permanece constante (coeteris paribus). supondo que outras variáveis interfiram muito pouco. Adotando-se essa hipótese. ou teoria dos preços. empresa ou estabelecimento comercial é a combinação realizada pelo empresário dos fatores de produção: capital. nas relações de consumo (relações jurídicas). CONCEITO A Microeconomia. A conceituação de empresa. pois tem enfoque distinto. que é o complexo de bens corpóreos e incorpóreos utilizados no processo de produção. no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. isto é. independentemente de outros fatores. A Microeconomia estuda o funcionamento da oferta e da demanda na formação do preço no mercado. utilizou-se a conceituação econômica para se definir consumidor: pessoa natural ou jurídica que no mercado adquire bens ou contrata serviços como destinatário final. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .3 O empresário é. S. incluindo-se na atividade econômica um complexo de relações jurídicas entre o empresário e a empresa. “comerciante”. nesse contexto. supor-se-á que o preço da mercadoria não varia. Sabe-se. ou que não interfiram de maneira absoluta. Do ponto de vista econômico. visando atender a uma necessidade própria. Os agentes da demanda — os consumidores — são aqueles que se dirigem ao mercado com o intuito de adquirir um conjunto de bens ou serviços que lhes maximize sua função utilidade. A teoria microeconômica não deve ser confundida com economia de empresas. Para analisar o efeito do preço sobre a procura. assim. 3 No Brasil. ou seja. o efeito “puro” ou “líquido” de cada uma dessas variáveis sobre a procura. Pressupostos básicos da análise microeconômica a. analisando-se o papel que a oferta e a demanda nele exercem. selecionando-se apenas as variáveis que influenciam os agentes econômicos — consumidores e produtores — nesse particular mercado. Tem-se. de tal modo organizados para se obter o maior volume possível de produção ou de serviços ao menor custo. que a procura de uma mercadoria é normalmente mais afetada por seu preço e pela renda dos consumidores. torna-se possível o estudo de determinado mercado. Na doutrina jurídica. o sujeito da atividade econômica. pela colocação de produtos e serviços à disposição do consumidor. terra e tecnologia. paribus A hipótese coeteris paribus Para analisar um mercado específico. e o objeto é constituído pelo estabelecimento.CAPÍTULO II .INTRODUÇÃO À MICROECONOMIA 1. é o complexo de relações jurídicas que unem o sujeito ao objeto da atividade econômica. O foco de estudo é dirigido apenas àquele mercado. na realidade o responsável. No Direito.4 1. da mesma forma. trabalho. analisa a formação de preços no mercado.

ou na compra de insumos como máquinas. como parte da ciência econômica. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . decisões ótimas de produção (escolha da melhor alternativa de produção. tudo o mais permanecendo constante. isto é.2. dentro de um horizonte de planejamento. política de subsídios (nos preços de produtos como trigo e leite. Em relação à política econômica. permanecendo inalterado o preço da soda. Agora. tanto para empresas como para políticas econômicas. política salarial. se o preço do guaraná cair em 10%. em diferentes mercados consumidores do mesmo produto). quando comparado com o do guaraná. bem como dos fatores de produção.b. deve-se salientar que. a quantidade demandada desse bem deve cair. previsões de demanda e faturamento. são mais relevantes os preços relativos. mesmo assim ela representa uma ferramenta útil para estabelecer políticas e estratégias. seu preço relativo aumentou. isto é. a questões aparentemente triviais. fertilizantes). O instrumental microeconômico procura responder. a teoria microeconômica pode contribuir na análise e tomada de decisões das seguintes questões: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ avaliação de projetos de investimentos públicos. 12 Professor: Raimundo N. diferenciação de mercados (possibilidades de preços diferenciados. do que os preços absolutos (isolados) das mercadorias. também. efeitos de impostos sobre mercados específicos. ampliação da empresa). previsões de custos de produção. Por exemplo. S. fixação de preços mínimos na agricultura. por que. e uma queda na de soda. nada deve acontecer com a demanda (procura) dos dois bens (supondo que as demais variáveis permaneceram constantes). coeteris paribus? Entretanto. se cair apenas o preço do guaraná. preocupa-se em explicar como se determina o preço dos bens e serviços. deve-se esperar um aumento na quantidade procurada de guaraná. se a teoria microeconômica não é um manual de técnicas para a tomada de decisões do dia-a-dia. da melhor combinação de fatores de produção. e do tamanho (escala) ótima de operação). os preços de um bem em relação aos demais. política de tarifas públicas (água. ou teoria dos preços. política de propaganda e publicidade (como as preferências dos consumidores podem afetar a procura do produto). Embora não tenha havido alteração no preço absoluto da soda. 1. por exemplo. a análise microeconômica pode subsidiar as seguintes decisões: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ política de preços da empresa. avaliação e elaboração de projetos de investimentos (análise custo—benefício da com pra de equipamentos. Papel dos preços relativos Na análise microeconômica. Para as empresas. fixação do salário mínimo. quando o preço de um bem se eleva. controle de preços. Aplicações da análise microeconômica A análise microeconômica. localização da empresa (se a empresa deve situar-se próxima aos centros consumidores ou aos centros fornecedores de insumos). luz e outras). mas também o preço da soda cair em 10%.

Divisão do estudo microeconômico A teoria microeconômica consiste nos seguintes tópicos: a. dependerão da particular forma ou estrutura desse mercado. As estruturas do mercado de fatores de produção são: No mercado de fatores de produção. O preço e a quantidade. As estruturas do mercado de bens e serviços são: a. são decisões necessárias ao planejamento estratégico das empresas e à política e à programação econômica do setor público. são determinados o preço e a quantidade de equilíbrio de um dado bem ou serviço. d. a. os preços dos insumos. b. Na análise das estruturas de mercado. Análise da demanda A teoria da demanda ou procura de uma mercadoria ou serviço divide-se em teoria do consumidor (demanda individual) e teoria da demanda de mercado. concorrência perfeita. 13 Professor: Raimundo N. e a teoria dos custos de produção. concorrência imperfeita ou monopolística. concorrência perfeita.♦ ♦ política de preços públicos (como petróleo. na realidade. monopólio. procura analisar se o comportamento independente de cada agente econômico conduz todos a uma posição de equilíbrio global. embora todos sejam. c. ou seja. d. interdependentes. ou concentrado em poucas ou em uma única empresa. ou seja. tanto no mercado de bens e serviços como no mercado de fatores de produção. oligopsônio. S. Teoria do equilíbrio geral A análise do equilíbrio geral leva em conta as inter-relações entre todos os mercados. oligopólio. concorrência imperfeita. avaliam-se os efeitos da oferta e da demanda. capital) está condicionada à (ou derivada da) procura pelo produto final da empresa no mercado de bens e serviços. aço). se ele é competitivo. A teoria do bem-estar. Como pode ser observado. 1. estuda como alcançar soluções socialmente eficientes para o problema da alocação e distribuição dos recursos. c. estruturas Análise das estruturas de mercado A partir da demanda e da oferta de mercado. b. b. monopsônio. leis antitruste (controle de lucros de monopólios e oligopólios). a procura de fatores produtivos é chamada de demanda derivada. ou seja. com muitas empresas produzindo um dado produto. d. c. uma vez que a demanda por insumos (mão-de-obra. Análise da oferta A teoria da oferta de um bem ou serviço também subdivide-se em oferta da firma individual e oferta de mercado. Dentro da análise da oferta da firma são abordadas a teoria da produção. ou welfare economics. que incorpora. além das quantidades físicas.3. que analisa as relações entre quantidades físicas do produto e os fatores de produção. entretanto. encontrar a “alocação ótima dos recursos”. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .

em que se analisam situações nas quais os preços não são determinados isoladamente em cada mercado. utilizando-se. modelos matemáticos de razoável grau de dificuldade. Entretanto. o objetivo deste estudo é fornecer aos estudantes e profissionais de Direito. 14 Professor: Raimundo N. tanto a teoria do equilíbrio geral e do bem-estar como a teoria do consumidor são fundamentalmente abstratas. Na realidade. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . com freqüência. conceitos básicos de Economia.Há de se destacar que no estudo microeconômico um dos tópicos consiste na análise das imperfeições de mercado. S. que dêem subsídios para sua atuação no dia-a-dia e um melhor entendimento das principais questões econômicas de nosso tempo.

DEMANDA. refletindo o fato de que a quantidade procurada de determinado produto varia inversamente com relação a seu preço. É a chamada lei geral da demanda. ou seja. no sentido da esquerda para a direita.1: Escala de procura Os economistas supõem que a curva ou a escala de procura revela as preferências dos consumidores. curva de procura ou função demanda. coeteris paribus. Conceito A demanda ou procura pode ser definida como a quantidade de certo bem ou serviço que os consumidores desejam adquirir em determinado período de tempo. como foi visto. A curva de procura inclina-se de cima para baixo. Como a utilidade está baseada em aspectos psicológicos ou preferências. Tabela III. como observamos anteriormente. Essa relação quantidade procurada/preço do bem pode ser representada por uma escala de procura (veja a Tabela III.1). inclusive com razoável grau de formalização matemática e não costuma ser aprofundada em cursos introdutórios de Economia. que envolve. considera-se cada uma dessas variáveis afetando separadamente as decisões do consumidor. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . outros. cerveja). A procura depende de variáveis que influenciam a escolha do consumidor. 15 Professor: Raimundo N. a utilidade difere de consumidor para consumidor (uns preferem uísque. ela é reativamente abstrata. o preço dos outros bens. subjacente à curva há toda uma teoria de valor.1: Tabela III. Demanda de mercado a. os fundamentos psicológicos do consumidor5. coeteris paribus. São elas: o preço do bem ou serviço.1. A utilidade representa o valor ou grau de satisfação que os consumidores atribuem aos bens e serviços que podem adquirir no mercado. ou grau de satisfação no consumo daquele produto. 1. Relação entre quantidade procurada e preço do bem: a lei geral da demanda Há uma relação inversamente proporcional entre a quantidade procurada e o preço do bem. a renda do consumidor e o gosto ou preferência do indivíduo. Para estudar-se a influência isolada dessas variáveis utiliza-se a hipótese do coeteris paribus. OFERTA E EQUILÍBRIO DE MERCADO 1. S. Ou seja. 5 Essa parte da análise microeconômica é denominada teoria do consumidor.CAPÍTULO III . sob a hipótese de que estão maximizando sua utilidade. BREVE HISTÓRICO A evolução do estudo da teoria microeconômica teve início basicamente com a análise da demanda de bens e serviços. cujos fundamentos estão alicerçados no conceito subjetivo de utilidade. b.

o consumidor perde poder aquisitivo. demanda Outras variáveis que determinam a demanda de um bem b. exponencial. tudo o mais constante (renda do consumidor e preços de outros bens estando constantes). o consumidor passa a adquirir o bem substituto (o bem Y). A curva de demanda é negativamente inclinada devido ao efeito conjunto de dois fatores: o efeito substituição e o efeito renda. 6 Apenas por questão de simplificação. Se o preço de um bem aumenta. isto é. efeito substituição: se um bem X possui um bem substituto Y. como potência. 16 Professor: Raimundo N. foi corroído. reduzindo assim sua demanda por fósforo. quando o preço do bem X aumenta. a queda da quantidade demandada será provocada por esses dois efeitos somados: a. Exemplo: se o preço da caixa de fósforos subir demasiadamente. S. Na realidade. ou seja. efeito renda: quando aumenta o preço de um bem X. c. num dado período de tempo.Outra forma de apresentar essas diversas alternativas é pela curva de procura (veja a Figura III. os consumidores passarão a demandar isqueiros. a relação entre a quantidade demandada e o preço de um bem ou serviço pode ser expressa pela chamada função demanda ou equação da demanda: f(P) Qd = f(P) em que: Qd = quantidade procurada de determinado bem ou serviço.1: Curva de procura do bem X6. reduzindo assim a demanda do bem X. e a demanda por esse produto X diminui. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . III. Assim. coeteris paribus.1: Figura III. embora seu salário monetário não tenha sofrido nenhuma alteração. depende do preço P. essa relação pode assumir outras funções matemáticas. P = preço do bem ou serviço. Matematicamente. Existe uma série de outras variáveis que também afetam a procura. a procura de uma mercadoria não é influenciada apenas por seu preço. outro bem similar que satisfaça a mesma necessidade. Efetivamente. seu salário “real”. A expressão Qd = f(P) significa que a quantidade demandada Qd é uma função do preço P.1). vamos supor que a relação entre a quantidade procurada e o preço de uma dada mercadoria ou serviço seja do tipo linear. em termos de poder de compra.

eles são chamados de bens complementares (por exemplo. Da mesma maneira que a demanda. Existe também uma classe de bens que são chamados bens inferiores. Os gastos em publicidade e propaganda objetivam justamente aumentar a procura de bens e serviços influenciando preferências e hábitos. a função oferta mostra uma correlação direta entre quantidade ofertada e nível de preços.2. cuja demanda varia em sentido inverso às variações da renda. que se aplicam ao estudo da procura pela maior parte dos bens. perspectivas da economia. Quando há uma relação direta entre preço de um bem e quantidade de outro. eles são chamados de bens substitutos ou concorrentes. ou ainda sucedâneos. Pode-se expressar uma escala de oferta de um bem X: dada uma série de preços. temse a categoria de bens superiores ou de luxo: se o consumidor fica mais rico. quais seriam as quantidades ofertadas a cada preço: 17 Professor: Raimundo N. oferta depende de vários fatores. congelamentos ou tabelamentos de preços e salários. Por exemplo.Para a maioria dos produtos. dentre eles. Quando há uma relação inversa entre o preço de um bem e a demanda de Outro. resumir as principais variáveis que afetam a demanda de determinado bem ou serviço: 1. preço dos bens substitutos (ou concorrentes). demandará mais produtos de maior qualidade. sal). alguns produtos são afetados por fatores mais específicos. Analogamente. É a chamada lei geral da oferta. Se a renda dos consumidores aumenta e a demanda do produto também. como efeitos sazonais e localização do consumidor. mercado Oferta de mercado Pode-se conceituar oferta como as várias quantidades que os produtores desejam oferecer ao mercado em determinado período de tempo. se o consumidor ficar mais rico. tem-se um bem normal. ou fatores mais gerais. tudo o mais constante. coeteris paribus. então. Além das variáveis anteriores. diminuirá o consumo de carne de segunda e aumentará o consumo de carne de primeira. Diferentemente da função demanda. a procura será também afetada por: ♦ ♦ ♦ ♦ renda dos consumidores. e preferências ou hábitos dos consumidores. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . por exemplo. do preço (custo) dos fatores de produção e das metas ou objetivos dos empresários. Finalmente. como condições de crédito. S. quando a demanda do bem não é influenciada pela renda dos consumidores (como arroz. preço dos bens complementares. de seu próprio preço. Pode-se. um aumento no preço da carne deve elevar a demanda de peixe. coeteris paribus. A demanda de um bem ou serviço também pode ser influenciada pelos preços de outros bens e serviços. farinha. a demanda de um bem ou serviço também sofre a influência dos hábitos e preferências dos consumidores. quantidade de camisas sociais e preço das gravatas). Tem-se ainda o caso de bens de consumo saciado. quantidade de automóveis e preço da gasolina.

Parece claro que a relação entre a oferta e o custo dos fatores de produção seja inversamente proporcional.2 oferta Figura III. S. salários. uma retração da oferta do produto.III. Por exemplo. num dado período. há uma relação direta entre a oferta de um bem ou serviço e o número de empresas ofertantes do produto no setor. Além do preço do bem. Da mesma forma. dado que melhorias tecnológicas promovem melhorias da produtividade no uso dos fatores de produção e. a oferta de um bem ou serviço é afetada pelos custos dos fatores de produção (matérias-primas. a função ou equação da oferta é dada pela expressão: QO = f(P) em que: QO P = quantidade ofertada de um bem ou serviço. um aumento do preço de mercado estimula as empresas a elevar a produção. preço da terra). um aumento dos salários ou do custo das matérias-primas deve provocar. coeteris paribus. aumentando a quantidade ofertada do produto. A relação entre a oferta e nível de conhecimento tecnológico é diretamente proporcional.2: Tabela III.2: Escala de oferta Essa escala pode ser expressa graficamente conforme pode ser visto na figura 4: III. novas empresas serão atraídas. Matematicamente. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . coeteris paribus. 18 Professor: Raimundo N.2: Curva de oferta do bem X. aumento da oferta. = preço do bem ou serviço. por alterações tecnológicas e pelo aumento do número de empresas no mercado. portanto. A relação direta entre a quantidade ofertada de um bem e o preço desse bem deve-se ao fato de que.

será observada essa tendência natural de o preço e a 19 Professor: Raimundo N.00 unidades monetárias.3 Na intersecção das curvas de oferta e demanda (ponto E). por exemplo). o que forçará a elevação dos preços. até atingir-se o equilíbrio (ponto E). Graficamente: Figura III. S. ou seja. Como se observa.3. teremos uma situação de escassez do produto.3: Equilíbrio de mercado. quando as filas cessarão. se não há obstáculos para a livre movimentação dos preços. Se a quantidade ofertada se encontrar abaixo daquela de equilíbrio E (A. B por exemplo). se o sistema é de concorrência pura ou perfeita. pois as quantidades procuradas serão maiores que as ofertadas. existe equilíbrio entre oferta e demanda do bem X quando o preço é igual a 6. há uma tendência natural no mercado para se chegar a uma situação de equilíbrio estacionário . Haverá uma competição entre os consumidores.sem filas e sem estoques não desejados pelas empresas. até que se atinja o ponto de equilíbrio E.3. se a quantidade ofertada se encontrar acima do ponto de equilíbrio E (B. isto é. um acúmulo de estoques não programado do produto. Equilíbrio de mercado a. representativa da oferta e da demanda do bem X: Tabela 3: Oferta e demanda do bem X Como se observa na Tabela 3. III. quando há competição tanto de consumidores como de ofertantes. ter-se-á o preço e a quantidade de equilíbrio. o que provocará uma competição entre os produtores. haverá um excesso ou excedente de produção. A. o preço e a quantidade que atendem às aspirações dos consumidores e dos produtores simultaneamente. Formar-se-ão filas. Seja a Tabela III. conduzindo a uma redução dos preços. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Analogamente. Desse modo.1. A lei da oferta e da procura: tendência ao equilíbrio A interação das curvas de demanda e de oferta determina o preço e a quantidade de equilíbrio de um bem ou serviço em um dado mercado.

Supondo. os consumidores obtêm um aumento de renda real (aumento de poder aquisitivo). um deslocamento da curva de oferta afetará a quantidade de mercado e o preço de equilíbrio. para exemplificar. fixa preços mínimos para produtos agrícolas. não inferior) esteja em equilíbrio. decreta tabelamentos ou. que ressalta a questão da incidência do tributo. para D1 Assim. por raciocínio análogo ao anterior. coeteris paribus.4. existem vários fatores que podem provocar deslocamento das curvas de oferta e demanda. Interferência do governo no equilíbrio de mercado O governo intervém na formação de preços de mercado quando fixa impostos. III. que tem poder de afetar o preço de mercado. Isso significa um deslocamento da curva de demanda para a direita. que provocará um aumento de preços até que o excesso de demanda acabe. Supondo. a. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . aos mesmos preços anteriores.4 Figura III. Para que isso ocorra. é necessário que não haja interferência nem do governo nem de forças oligopólicas. será maior. ainda. o preço de equilíbrio se tornará menor e a quantidade maior. congela preços e salários. O novo equilíbrio se dará ao preço P1 e quantidade Q1 (ponto B). Assim. Da mesma forma. e. S.quantidade atingirem determinado nível desejado tanto pelos consumidores como pelos ofertantes. O preço de equilíbrio inicial é P0 e a quantidade. com evidentes mudanças do ponto de equilíbrio. Deslocamento das curvas de demanda e oferta Como foi visto. mas isso não quer dizer que é ela quem efetivamente o paga. estabelece os critérios de reajuste do salário mínimo. saber sobre quem recai efetivamente o ônus do tributo é uma questão da maior importância na análise dos mercados. 20 Professor: Raimundo N.4: Deslocamento do ponto de equilíbrio. por exemplo. por hipótese. Se. Conseqüentemente. Estabelecimento de impostos Embora seja tratado nos capítulos de Macroeconomia o papel do governo por meio dos instrumentos da política tributária. Q0 (ponto A). 1. Sabe-se que quem recolhe a totalidade do tributo é a empresa. que haja uma redução dos preços das matériasprimas usadas na produção do bem X. que o mercado do bem X (um bem normal. a demanda do bem X. b. é interessante observar o enfoque microeconômico da tributação. ao preço P0 ter-se-á inicialmente um excesso de demanda. dá subsídios. a curva de oferta do bem X se deslocará para a direita.

Exemplo: supondo a alíquota do IPI sobre automóveis de 10%. Os impostos dividem♦ ♦ impostos indiretos: impostos incidentes sobre o consumo ou sobre as vendas. Normalmente os impostos indiretos são recolhidos pelas empresas. imposto específico: o valor do imposto é fixo. ou seja. quanto mais concentrado o mercado — ou seja. b. que mostra sobre quem recai efetivamente o ônus do imposto. ou seja. com propósito de protegê-lo das flutuações dos preços no mercado. o produtor preferirá vender sua produção para o governo ao preço anteriormente fixado. a título de imposto. o valor do IPI será de R$ 5. antes do início do plantio. Caso contrário terá de reduzir seu volume de produção. No ato do recolhimento. E essa sensibilidade (ou elasticidade) dependerá do tipo de mercado. o agricultor preferirá vendê-la no mercado. imposto ad valorem: é um percentual (alíquota) aplicado sobre o valor da venda. O mesmo ocorrerá se s consumidores dispuserem de vários substitutos para esse bem. do ponto de vista econômico. terá de elevar o preço de seu produto. aumentando o preço do produto e. Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). enquanto o valor do imposto varia com o preço do automóvel. Se. Entretanto.se em: Os tributos podem ser impostos.000 ao governo (esse valor é fixo e independe do valor do automóvel). 21 Professor: Raimundo N. a incidência refere-se a quem recolhe o imposto aos cofres públicos. com o preço mínimo acima do preço de equilíbrio de mercado. sendo a quase totalidade dos impostos incidentes sobre o consumo do gênero ad valorem valorem. Exemplos: Imposto de Renda (IR) e Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).000. Nesse caso. Quanto mais competitivo ou concorrencial o mercado. assim. diz respeito a quem arca efetivamente com o ônus. haverá um excedente de produto adquirido pelo governo. maior o grau de transferência do posto para os consumidores finais. o valor do IPI será de R$ 6. onerando o consumidor final. taxas ou contribuições de melhoria. se os preços mínimos forem superiores aos preços de mercado. que será utilizado como estoque regulador em momentos subseqüentes. Exemplo: para cada carro vendido. mas elas repassam parte do imposto. pois eles não poderão aumentar o preço do produto para nele embutir o tributo. se seu valor aumentar para R$ 60.000. Do ponto de vista legal. Há uma diferença entre o conceito jurídico e o conceito econômico de incidência. que contribuirão com maior parcela do imposto. ajudá-lo diante de ma possível queda acentuada de preços e conseqüentemente da renda agrícola. se o valor do automóvel for de R$ 50. R$ 5. como se pode notar. O produtor procurará repassar a totalidade do imposto ao consumidor. S. Assim. independentemente do valor da unidade vendida.000. garante um preço que ele pagará após a colheita do produto. a margem de manobra de repassá-lo dependerá do grau de sensibilidade desse a alterações do preço do bem. com poucas empresas —. impostos diretos: impostos incidentes sobre a renda e o patrimônio.000. Entre os impostos indiretos destacar-se-ão: ♦ ♦ No Brasil. maior a parcela do imposto paga pelos produtores. A proporção do imposto paga por produtores e consumidores é a chamada incidência tributária. por ocasião da colheita. um aumento de impostos representa um aumento de custos de produção para a empresa. Contudo. recolhe-se. Política de preços mínimos na agricultura Trata-se de uma política que visa dar uma garantia de preços ao produtor agrícola. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . os preços de mercado forem superiores aos preços mínimos. Por outro lado. procurará repassar o imposto para o consumidor. O governo. Se ela quiser continuar vendendo as mesmas quantidades anteriores. há poucos impostos específicos. Exemplos: Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). a alíquota permanece inalterada em 10%.

Nesse caso. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .5 mínimo. o governo pode adotar dois tipos alternativos de políticas: a. Bresser). S. Refere-se à intervenção do governo no sistema de preços de mercado visando coibir abusos por parte dos vendedores. que o governo optará pela política menos onerosa.Graficamente pode ser visto assim: III. comprar o excedente (Q0 menos Q’0) ao preço mínimo Pmin (política de compras). Evidentemente. Figura III. 22 Professor: Raimundo N. pagar subsídio no preço (política de subsídios): o governo deixa os produtores colocarem no mercado toda a produção Q0. então. b.5: Fixação do preço mínimo. o que provocará grande queda no preço pago pelos consumidores (Pcons) Os produtores receberão Pmin e o governo bancará a diferença (Pmin—Pcons). quando se aplicou o congelamento de preços e salários. controlar preços de bens de primeira necessidade ou. como foi adotado no Brasil (Planos Cruzado. refrear o processo inflacionário. Tabelamento c.

ESTRUTURAS DE MERCADO 1. se existirem lucros extraordinários em curto prazo. A maior parte dos modelos existentes pressupõe que as empresas maximizam o lucro total. qual seja a de concorrência perfeita. o preço de equilíbrio. na realidade. como se fossem “átomos”. e como são determinados os preços. O grande número de empresas nesse mercado faz com que elas sejam apenas tomadoras de preços. INTRODUÇÃO Foi visto anteriormente quais variáveis afetam a oferta e demanda de bens e serviços. que pressupõe que a empresa maximiza o mark-up. S. o mercado automaticamente encontra seu equilíbrio. não existe o mercado tipicamente de concorrência perfeita. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . implícitos nos custos. As várias formas ou estruturas de mercado dependem fundamentalmente de três características: a) número de empresas que compõem esse mercado. Essa é a hipótese da teoria tradicional ou marginalista. pois também não há barreiras ao acesso. que representam a remuneração implícita do empresário (seu custo de oportunidade). 23 Professor: Raimundo N. Deve-se salientar que. corresponde ao nível de produção no qual a receita marginal se iguala ao custo marginal. ou pricetakers. devem prevalecer as seguintes premissas: ♦ ♦ ♦ ♦ mercado atomizado. isso atrairá novas firmas para o mercado. veremos que existe uma teoria alternativa. conseqüentemente. são conhecidas por todos os participantes do mercado. 1. e c) se existem ou não barreiras ao acesso de novas empresas nesse mercado. quando então cessa o ingresso de novas empresas nesse mercado. e conseqüentemente também os lucros extras que tendem a zero. não existem barreiras para o ingresso de empresas no mercado. não existem lucros extras ou extraordinários (em que as receitas superam os custos). transparência do mercado: todas as informações sobre lucros. composto de grande número de empresas. estava sendo suposta uma estrutura específica de mercado. preços etc. o que.CAPÍTULO IV . sem interferências. sendo talvez o mercado de produtos hortifrutigranjeiros o exemplo mais próximo a esse modelo. que é a margem entre a receita e os custos diretos (ou variáveis) de produção. Em concorrência perfeita. no longo prazo.1. os preços de mercado tenderão a cair. como o mercado é transparente. supondo que. b) tipo do produto (se as firmas fabricam produtos idênticos ou diferenciados). de tal sorte que uma empresa. Com o aumento da oferta de mercado (devido ao aumento no número de empresas). Existirão apenas lucros normais. mas apenas os chamados lucros normais. não afeta a oferta do mercado nem. Implicitamente. como foi visto no final do capítulo anterior. Concorrência pura ou perfeita A concorrência pura ou concorrência perfeita é um tipo de mercado em que há grande número de vendedores (empresas). Discutir-se-á neste capítulo mais detidamente essa e outras formas de mercado. Especificamente para o caso de estruturas oligopolistas de mercado. Uma característica do mercado em concorrência perfeita é que. isoladamente. produtos homogêneos: não existe diferenciação entre produtos ofertados pelas empresas concorrentes. Nesse tipo de mercado.

indústria de bebidas. 1.3. de outro. e há empresas satélites que seguem as regras ditadas pelas deres. tanto as quantidades ofertadas como os preços são fixados entre as empresas por meio de conluios ou cartéis. O cartel é uma organização (formal ou informal) de produtores dentro de um setor que determina a política de preços para todas as empresas que a ela pertencem. ainda. Esse é um modelo chamado de liderança de preços. ou então em que há grande número de empresas. Nos oligopólios. Monopólio O mercado monopolista caracteriza-se por apresentar condições diametralmente opostas às da concorrência perfeita. Elas podem fazer uma concorrência extra-preço em termos de propaganda. Elas costumam adotar uma política de preços comum. As empresas já instaladas operam com grandes plantas industriais. o monopólio institucional ou estatal em setores considerados estratégicos de segurança nacional (por exemplo. o que possibilita a cobrança de preços relativamente baixos por seu produto. como a indústria automobilística. os lucros extraordinários devem persistir também no longo prazo em mercados monopolizados.2. o que acaba sendo uma grande barreira para a entrada de novos concorrentes. comunicações e petróleo). ♦ ♦ Existe. fixam o preço. setor de cosméticos. dentre outras. mas poucas dominam o mercado. deve haver barreiras que praticamente impeçam a entrada de novas firmas no mercado. Isso ocorreu e ainda ocorre com muitos desses setores no Brasil e no mundo. quando no longo prazo só existirão lucros normais. indústria química. Para que existam monopólios. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . como na indústria de bebidas. ou os consumidores se submetem às condições impostas pelo vendedor. nem produto substituto ou concorrente. publicidade. Nesse caso. Ele pode ser definido como um mercado em que há pequeno número de empresas. concorrência.1. o controle das minas de bauxita pelas empresas produtoras de alumínio. com elevadas economias de escala e custos unitários bastante baixos. patentes: enquanto a patente não cai em domínio público. ou simplesmente deixarão de consumir o produto. promoções. S. energia. de um lado. respeitando as estruturas de custos das demais. Dada a existência de barreiras à entrada de novas empresas. É possível caracterizar também tanto oligopólios com produtos diferenciados (como a indústria automobilística) como oligopólios com produtos homogêneos (alumínio. cimento). pode-se citar a indústria de bebidas. há empresas líderes que. No oligopólio. e todos os consumidores. indústria de papel. a empresa é a única que detém a tecnologia apropriada para produzir aquele determinado bem. O setor produtivo brasileiro é altamente oligopolizado. via de regra. indústria farmacêutica. Essas barreiras à entrada podem advir das seguintes condições: ♦ monopólio puro ou natural: ocorre quando o mercado. exige elevado volume de capital. sendo possível encontrar inúmeros exemplos: montadoras de veículos. diferentemente do que ocorre em concorrência perfeita. controle de matérias-primas básicas: por exemplo. agindo como monopolistas (a chamada solução de monopólio). portanto. Oligopólio O oligopólio é um tipo de estrutura normalmente caracterizada por um pequeno número de empresas que dominam a oferta de mercado. Não há. Nele existe um único empresário (empresa) dominando inteiramente a oferta. no Brasil. Como exemplo. 24 Professor: Raimundo N. etc. por características próprias.

só existirão lucros normais. embalagem. que é aparentemente contraditório). Concorrência perfeita no mercado de fatores A concorrência perfeita no mercado de fatores corresponde ao mercado cuja oferta do fator de produção (por exemplo. mercado Estruturas do mercado de fatores de produção Até aqui foram identificadas as estruturas de mercados de bens e serviços. tendo para si a totalidade da oferta de mãode-obra. a. a demanda por esses fatores é chamada de demanda derivada.5. Assim. cairá também a demanda por autopeças. pelas seguintes características: ♦ ♦ número relativamente grande de empresas com certo poder concorrencial. Os ofertantes ou fornecedores. embora o mercado seja competitivo (daí o nome concorrência monopolística. Como o mercado de fatores depende da demanda de insumos pelos setores produtores de bens e serviços. em longo prazo. O mercado de fatores de produção — mão-de-obra. ou seja.4. e.1. lucros extraordinários em curto prazo atrairão novas empresas. Oligopólio no mercado de fatores Ocorre quando poucas empresas produzem um determinado insumo (oligopólio na venda do insumo). Por exemplo. porém com segmentos de mercados e produtos diferenciados. o que torna o preço desse fator constante. deriva do mercado do produto. como são em grande número. S. torna-se demandante exclusiva da mão-de-obra local e das cidades próximas. Como em concorrência perfeita. margem de manobra para fixação dos preços não muito ampla. Concorrência monopolística A concorrência monopolística é uma estrutura de mercado intermediária entre a concorrência perfeita e o monopólio. d. seja pela prestação de serviços complementares (pós-venda). c. mercado Monopólio no mercado de fatores Quando há um monopolista na venda de insumos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . se houver redução da demanda de automóveis. capital. E o caso da empresa que se instala em determinada cidade do interior e. Monopsônio (monopólio na compra de insumos) O monopsônio ou monopólio na compra de insumos compreende uma forma de mercado na qual há somente um comprador para muitos vendedores dos serviços dos insumos. 25 Professor: Raimundo N. b. As estruturas no mercado de fatores são resumidas a seguir. como a demanda de autopeças deriva da demanda de automóveis. seja por características físicas. terra e tecnologia — também apresenta diferentes estruturas. não têm condições de obter preços mais elevados por seus serviços. por ser a única. não há barreiras ao acesso de empresas no mercado. Essas características acabam dando um pequeno poder monopolista sobre o preço do produto. mas que não se confunde com o oligopólio. uma vez que existem produtos substitutos no mercado. 1. mão-de-obra não especializada) é abundante.

e.

Oligopsônio (oligopólio na compra de insumos)

O oligopsônio ou oligopólio na compra de insumos é o mercado em que há poucos compradores negociando com muitos vendedores. Por exemplo: a indústria de laticínios, pois em cada cidade existem dois ou três laticínios que adquirem a maior parte do leite dos inúmeros produtores rurais locais. A indústria automobilística, além de oligopolista no mercado de bens e serviços, também é oligopsonista na compra de autopeças. f. Monopólio bilateral

O monopólio bilateral ocorre quando um monopsonista, na compra do fator de produção, defronta com um monopolista na venda desse fator. Por exemplo, só a empresa A compra um tipo de aço que é produzido apenas pela siderúrgica B. A empresa A é monopsonista, porque só ela compra esse tipo de aço, e a siderúrgica B é monopolista, porque só ela vende esse tipo de aço. Nesses casos, a determinação dos preços de mercado dependerá não só de fatores econômicos, mas do poder de barganha de ambos: o monopsonista tentando pagar o preço mais baixo (usando a força de ser o único comprador), e o monopolista tentando vender a um preço mais elevado (usando o poder de ser o único fornecedor).

1.6.

governamental A ação governamental e os abusos do poder econômico nos mercados

O Brasil possui, desde os anos 1960, extensa legislação que procura coibir os abusos do poder econômico em defesa da concorrência e da proteção aos consumidores. Dentro do chamado Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, o Conselho Administrativo de Direito Econômico (CADE), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) e a Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE) são os órgãos que tem por objetivo julgar os excessos administrativos relativos a abusos do poder econômico, bem como analisar fusões de empresas que podem criar situações de monopólio ou maior domínio de mercado. Quando se prova que a limitação da concorrência não propicia ganhos aos consumidores em termos de menores preços ou produtos tecnologicamente mais avançados, o Cade pode determinar que o negócio seja desfeito.

26
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

CAPÍTULO V - INTRODUÇÃO À MACROECONOMIA 1. INTRODUÇÃO
A Macroeconomia estuda a economia como um todo analisando a determinação e o comportamento de grandes agregados, tais como: renda e produto nacionais, nível geral de preços, emprego e desemprego, estoque de moeda e taxas de juros, balanço de pagamentos e taxa de câmbio. Ao estudar e procurar relacionar os grandes agregados, a Macroeconomia não tem por enfoque o comportamento das unidades econômicas individuais e de mercados específicos. A Macroeconomia trata o mercado de bens e serviços como um todo (agregando produtos agrícolas, industriais e serviços de transporte, por exemplo), assim como o mercado de trabalho (não se preocupando com diferenças na qualificação, sexo, idade, origem da força de trabalho etc.). Entretanto, embora exista um aparente contraste, não há conflito entre a Micro e a Macroeconomia, uma vez que o conjunto da economia é a soma de seus mercados individuais. A diferença é primordialmente uma questão de ênfase, de enfoque. Ao se estudar as determinações de preços num dado setor, na Microeconomia consideram-se constantes os preços dos outros setores (a hipótese de coeteris paribus). Na Macroeconomia, estuda-se o nível geral de preços, ignorando-se as mudanças de preços relativos dos bens dos diferentes setores. Em resumo, a teoria macroeconômica tradicional trata fundamentalmente das questões do desemprego e da inflação, consideradas como problemas de curto prazo ou conjunturais, enquanto as teorias de desenvolvimento e crescimento incorporam questões estruturais, que envolvem políticas cujos efeitos demandam um período maior de tempo para apresentarem resultados, pois exigem mudanças profundas na estrutura econômica e institucional do país.

2.

POLÍTICA OBJETIVOS DA POLÍTICA MACROECONÔMICA
São os seguintes os objetivos da política macroeconômica: ♦ ♦ ♦ ♦ alto nível de emprego; estabilidade de preços; distribuição de renda socialmente justa; crescimento econômico.

As questões relativas ao emprego e à inflação são consideradas conjunturais, de curto prazo, a preocupação central das chamadas políticas de estabilização. As questões relativas ao crescimento econômico e à distribuição de renda envolvem aspectos também estruturais, que são predominantemente de longo prazo. Alguns textos colocam também como meta o equilíbrio no balanço de pagamentos, ou equilíbrio externo, mas esse não representa um objetivo em si mesmo, mas sim um meio, um instrumento que depende da orientação geral da política econômica determinada pelo governo sobre as metas já assinaladas. Isto posto, segue-se uma visão geral dessas questões.

2.1.

Alto nível de emprego

Pode-se dizer que as discussões sobre desemprego, a partir dos anos 1930, permitiram um aprofundamento da análise macroeconômica. E o livro de John Maynard Keynes, Teoria geral do emprego, dos juros e da moeda, de 1936, forneceu aos governantes os instrumentos necessários para que a economia recuperasse seu nível de emprego potencial ao longo do tempo. Deve-se salientar que antes da crise mundial dos anos 30 do século XX, o desemprego não preocupava a maioria dos governantes, pelo menos nos países capitalistas. Isso porque predominava o pensamento liberal, que acreditava que os mercados, sem interferência do Estado, 27
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

conduziriam a economia ao pleno emprego de seus recursos, ou a seu produto potencial: milhões de consumidores e milhares de empresas, como que guiados por uma “mão invisível” determinariam os preços e a produção de equilíbrio, e, desse modo, não haveria problemas de desempenho. De fato, desde a Revolução Industrial, em fins do século XVIII, até o início do século XX, o mundo econômico parece ter funcionado mais ou menos assim. Entretanto, a evolução da economia mundial trouxe em seu bojo novas variáveis, como o surgimento dos sindicatos de trabalhadores, os grupos econômicos e o desenvolvimento do mercado de capitais e do comércio internacional, de sorte a complicar e trazer incertezas sobre o funcionamento da economia. A não interferência do governo levou à quebra da Bolsa de Nova York em 1929, e uma crise de desemprego atingiu todos os países do mundo ocidental nos anos seguintes. Com a contribuição de Keynes, contudo, fincaram-se as bases da moderna teoria macroeconômica, e da intervenção do Estado na economia de mercado. Na verdade, Keynes praticamente inaugurou a seguinte discussão macroeconômica, que perdura até hoje: qual deve ser o grau de intervenção do Estado na economia e em que medida ele deve ser produtor de bens ou serviços. A corrente dos economistas liberais (hoje neoliberais) prega que, na economia, o governo deva cuidar apenas da política monetária e deixar a produção de bens e serviços para o setor privado, enquanto outras correntes apregoam maior grau de atuação do Estado na atividade econômica (keynesianos, desenvolvimentistas, socialistas, etc.).

2.2.

Estabilidade de preços

Define-se inflação como o aumento contínuo e generalizado no nível geral de preços. Esta torna-se um problema para toda a sociedade porque acarreta distorções, principalmente sobre a distribuição da renda, sobre as expectativas dos agentes econômicos e sobre o balanço de pagamentos. Costuma-se aceitar que um pouco de inflação faça parte dos ajustes de uma sociedade dinâmica, em crescimento. Efetivamente, a experiência histórica mostra que existem algumas condições inflacionárias que são inerentes ao próprio processo de crescimento econômico. As tentativas dos países em via de desenvolvimento de alcançar estágios mais avançados de crescimento econômico dificilmente se realizam sem que também ocorram, concomitantemente, elevações no nível geral de preços. Mesmo em países mais desenvolvidos, o controle da inflação também é uma preocupação sempre presente, dado que, quanto maior o nível de atividade econômica, a utilização dos recursos produtivos tende a atingir sua capacidade máxima, gerando tensões inflacionárias.

2.3.

Distribuição eqüitativa de renda

A economia brasileira cresceu razoavelmente entre o fim dos anos 1960 e a maior parte da década de 1970. Apesar disso, verificou-se uma disparidade muito acentuada de nível de renda, tanto entre diferentes grupos socioeconômicos como entre as regiões brasileiras. Tal situação fere, evidentemente, o sentido de eqüidade ou justiça social. No Brasil, os críticos do “milagre econômico” argumentam que a concentração de renda no país piorou entre os anos 1967 e 1973 devido a uma política deliberada do governo de primeiro crescer para depois distribuir (a chamada teoria do bolo). A posição oficial era de que certo aumento na concentração de renda seria inerente ao próprio desenvolvimento capitalista, dadas as transformações estruturais que ocorrem nesse processo: êxodo rural, com trabalhadores de baixa qualificação, aumento da proporção de jovens, entre outros. Em países que tiveram um crescimento bastante rápido, principalmente após a 2 guerra mundial, como Brasil, Chile, México, Coréia do Sul, gerou-se um aumento abrupto da demanda por 28
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

no Brasil e em outros países em desenvolvimento. com a maioria da mão-de-obra com baixa qualificação e. Cabe aos economistas apresentar os custos e os benefícios de cada alternativa de política econômica. 2. melhorou seu padrão de vida no período.5. Entretanto. melhoria tecnológica. em colocar à disposição da coletividade uma quantidade de mercadorias e serviços que supere o crescimento populacional. embora apresente falhas (os países árabes têm as maiores rendas per capita no mundo. É fato que. feito isso. qualificação da mão-de-obra. uma vez que as empresas estarão mais voltadas a desovar seus estoques acumulados e os sindicatos de trabalhadores não estarão tão preocupados em obter salários mais elevados. as taxas de inflação tendem a ceder. observa-se que. O que ocorreu é que a renda média por habitante (renda per capita de todas as capita) classes aumentou. pode-se aumentar o produto nacional por meio de políticas econômicas que estimulem a atividade produtiva. a falta de qualificação da mão-de-obra teria sido o principal determinante da piora distributiva nesses países. que. mas a decisão final sobre qual caminho percorrer pertence aos políticos. Nesse sentido. poder-se-ia aumentar a renda dos pobres sem diminuir a dos ricos. o que é aparentemente contraditório. 29 Professor: Raimundo N. pois os conflitos sociais sobre a divisão do bolo produtivo podem ser abrandados quando ele aumenta. numa situação recessiva (desemprego elevado). o padrão de vida de toda a população melhorou. mas menores que os mais qualificados). ou seja. S. inter nterDilemas de política econômica: inter-relações e conflitos de objetivos O crescimento econômico pode facilitar a solução de problemas relativos à pobreza. embora tenha ocorrido no Brasil uma concentração de renda naquele período. Aumentar o produto além desse limite exigirá: a) ou um aumento nos recursos disponíveis. o que explica o freqüente controle do crescimento do consumo pelas autoridades para não provocar inflação. A renda dos pobres aumentou. quando o desemprego diminui e a economia aproxima-se da plena utilização de recursos. b) ou um avanço tecnológico. Essa tendência a uma relação inversa entre inflação e desemprego é denominada na literatura econômica trade-off entre inflação e desemprego. alternando períodos de maior prosperidade com outros mais recessivos. Quando se fala em crescimento econômico. portanto. No entanto. fundamentalmente devido ao fator educacional. passam a ocorrer pressões por aumentos de preços.4. mas não o melhor padrão de vida em relação a outros países com renda per capita elevada). Assim. esta se referindo ao crescimento da renda nacional per capita. embalagens. por ser escassa. Outro conflito gerado por políticas econômicas pode ser observado entre as metas de redução de desemprego e a estabilidade de preços. com baixos rendimentos. 2. principalmente nos setores fornecedores de insumos básicos (aço. mas a participação deles na renda do país diminuiu. novas maneiras de organizar a produção. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . as metas de crescimento e eqüidade distributiva têm-se mostrado conflitantes. A renda per capita é considerada um razoável indicador o mais operacional para se aferir a melhoria do padrão de vida da população. há um limite à quantidade que se pode produzir com a tecnologia e os recursos disponíveis. Decidir qual o objetivo prioritário é tarefa que pertence mais ao âmbito do poder político. matériasprimas). mas sim com a manutenção do emprego. Deve ser observado que. mas a renda das classes mais ricas aumentou proporcionalmente mais que a renda das classes mais pobres.mão-de-obra qualificada. ou seja. Crescimento econômico Se existe desemprego e capacidade ociosa. Por outro lado. obtém ganhos extras relativamente aos trabalhadores menos qualificados (que também tiveram ganhos nesse processo. que é um reflexo de uma tendência tradecíclica da economia.

chamado princípio da anualidade). 150. Política Fiscal Refere-se a todos os instrumentos de que o governo dispõe para arrecadar tributos (política tributária) e controlar suas despesas (política de gastos). em benefício dos grupos menos favorecidos.2. regulamentação sobre crédito e taxa de juros. inciso III. Assim. Se a meta for o crescimento econômico. e de rendas. 3. monetária. por meio da manipulação da estrutura e alíquotas de impostos. e cresça de forma contínua e sustentável. Os instrumentos disponíveis para tal são: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ emissões de moeda. 3. além influir sobre o nível de tributação. A política tributária. a medida apropriada de política monetária seria diminuir o estoque monetário da economia (aumento da taxa de juros. Os principais instrumentos para atingir tais objetivos são as políticas fiscal. redescontos (empréstimos do Banco Central aos bancos comerciais). aumento das reservas compulsórias. as medidas fiscais normalmente adotadas são: a diminuição de gastos públicos e/ou o aumento da carga tributária (o que inibe o consumo). compra de títulos no open market. os instrumentos fiscais são os mesmos. da Constituição Federal de 1988. para estimular (ou inibir) os gastos de consumo do setor privado. Se o objetivo da política econômica for reduzir a taxa de inflação. Para uma política que vise melhorar a distribuição de renda. seria o inverso: redução da taxa de juros e da taxa de compulsório. com o objetivo de permitir que a economia opere a pleno emprego. cambial e comercial. Pode-se dizer que a política fiscal tem mais eficácia quando o objetivo é uma melhoria na distribuição de renda. Política monetária Refere-se à atuação do governo sobre a quantidade de moeda e títulos públicos existentes na economia. é vedado às autoridades públicas cobrar tributos no mesmo exercício financeiro em que tenha sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou. gastos do governo em regiões mais atrasadas etc.1. Por exemplo. S. anterioridade (antes conhecido como princípio da anualidade segundo o qual a implementação de uma medida só pode ocorrer a partir do ano seguinte ao de sua aprovação pelo Congresso Nacional. por exemplo. A política econômica deve ser executada por meio de uma combinação adequada de instrumentos fiscais e monetários. para elevar a demanda agregada.3. esses instrumentos devem ser utilizados de forma seletiva. com baixas taxas de inflação. com distribuição de renda justa. impostos progressivos. se o objetivo for o controle da inflação. é utilizada. open market (compra e venda de títulos públicos). b. ou venda de títulos no open market. POLÍTICA INSTRUMENTOS DE POLÍTICA MACROECONÔMICA A política macroeconômica envolve a atuação do governo sobre a capacidade produtiva (oferta agregada) e as despesas planejadas (demanda agregada). Se o objetivo for maior crescimento e emprego. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Logo. mas em sentido inverso. essas medidas visam diminuir os gastos da coletividade. reservas compulsórias (percentual sobre os depósitos que os bancos comerciais devem colocar à disposição do Banco Central). Como consta do art. tanto na taxação às rendas mais altas como pelo aumento dos gastos do 30 Professor: Raimundo N. As políticas monetária e fiscal representam meios alternativos diferentes para as mesmas finalidades. Toda política tributária deve obedecer a um princípio constitucional.

) e creditícios (taxas de juros subsidiadas) às exportações e ao controle das importações (via tarifas e barreiras quantitativas sobre importações). aumentando a defasagem entre a tomada de decisão e a implementação das medidas fiscais. o salário mínimo. S. Carlos Antonio Luque. pois depende de votação no Congresso. titular da FEA-USP. os controles sobre preços e salários situam-se em categoria própria de política econômica. o controle das taxas de juros e da taxa de câmbio. 31 Professor: Raimundo N. a estrutura básica do modelo macroeconômico compõe-se de cinco mercados que podem ser tidos como: Parte “real” da economia: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ mercado de bens e serviços mercado de trabalho mercado monetário mercado de títulos mercado de divisas Parte “monetária”da economia: 7 Colaboração do Prof. A política comercial diz respeito aos instrumentos de incentivos às exportações e/ou ao estímulo e desestímulo às importações. aluguéis). e deve obedecer ao princípio da anterioridade. nesses controles. refere-se a estímulos fiscais (crédito-prêmio do ICMS.3. com apoio do Ministério das Relações Exteriores. enquanto a política comercial é comandada pelos Ministros do Planejamento. Normalmente esses controles são utilizados como política de combate à inflação. Uma vantagem freqüentemente apontada da política monetária sobre a fiscal é que a primeira pode ser implementada logo após sua aprovação. IPI etc. depois da Secretaria Especial de Abastecimento e Preços (SEAP). Entretanto. No Brasil. política A política cambial refere-se à atuação do governo sobre a taxa de câmbio. Bresser. No Brasil. por exemplo. as decisões de política cambial são de alçada do Conselho Monetário Nacional. os preços são congelados e os agentes econômicos não podem responder às influências econômicas normais do mercado. ESTRUTURA DE ANÁLISE MACROECONÔMICA7 Tradicionalmente. da Indústria e Comércio e Agricultura. A característica especial é que. a atuação do Conselho Interministerial de Preços (CIP). 3. ou seja. Políticas cambial e comercial São políticas que atuam sobre as variáveis relacionadas ao setor externo da economia. 4.4. Política de rendas A política de rendas refere-se à intervenção direta do Estado na formação de renda (salários. 3. fiscal ou cambial. Alguns tipos de controle exercidos pelas autoridades econômicas podem ser considerados dentro do âmbito das políticas monetária. a fixação da política salarial. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . dado que depende apenas de decisões diretas as autoridades monetárias. Verão e Collor) situaram-se no contexto de políticas antiinflacionárias. com o controle e congelamento de preços. A política monetária é mais difusa no tocante à questão distributiva. enquanto o processo de implementação de políticas fiscais é muito lento. e os congelamentos de preços e salários nos planos econômicos (Cruzado. As autoridades monetárias podem fixar a taxa de câmbio (regime de taxas fixas de câmbio) ou permitir que ela seja flexível e determinada pelo mercado de divisas (regime de taxas flutuantes de câmbio).governo com destinação a setores menos favorecidos.

escolaridade. 4. Mercado de trabalho Assim como no mercado de bens e serviços não se levam em conta os diferentes tipos de bens produzidos pela economia. será discutida com mais detalhes. a oferta ou produção agregada depende da evolução do nível de emprego e da capacidade instalada na economia. importações totais. poupança agregada. nesse mercado não se distinguem os diferentes tipos de trabalho. A demanda ou procura de mão-de-obra depende de dois fatores básicos: da taxa de salário real (ou custo efetivo da mão-de-obra para as empresas) e do nível de produção desejado pelas empresas. independentemente de características como grau de qualificação.As variáveis ou agregados macroeconômicos são determinados pelo encontro da oferta e da demanda em cada um desses mercados. Admite-se a existência de um único tipo de mão-de-obra.1.2. empresas. bem como as variáveis macroeconômicas determinadas. 4. A determinação do nível geral de preços e do nível agregado de produção está condicionada pela evolução do nível de demanda e oferta agregadas de bens e serviços. bem como o nível geral de preços. que seria obtido pela agregação dos diversos bens produzidos. A condição de equilíbrio nesse mercado é dada por: mão-demão-deOferta de mão-de-obra = Demanda de mão-de-obra 32 Professor: Raimundo N. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . A demanda agregada depende fundamentalmente da evolução da demanda dos quatro grandes setores ou agentes macroeconômicos: ♦ ♦ ♦ ♦ consumidores. consumo agregado. essa estrutura. Esse mercado determina o nível de produção agregada. exportações totais. A seguir será apresentado um esboço da estrutura básica do modelo macroeconômico. governo. Esse mercado determina a taxa de salários e o nível geral de emprego. Por outro lado. nível de preços. A oferta de mão-de-obra depende do salário real (custo efetivo da cesta básica de consumo para os trabalhadores) e da evolução da população economicamente ativa. S. Nos próximos capítulos. A condição de equilíbrio do mercado é dada por: Oferta agregada de bens e serviços = Demanda agregada de bens e serviços As variáveis determinadas nesse mercado são as seguintes: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ nível de renda e produto nacional. Mercado de bens e serviços A idéia básica seria a de se idealizar a economia como se ela teoricamente produzisse apenas um único bem. setor externo. investimentos agregados. sexo etc.

De maneira semelhante aos mercados de bens e serviços e ao mercado de trabalho. que determina a taxa de inflação. ou seja. 33 Professor: Raimundo N. dada sua grande interdependência. Mercado de títulos O mercado de títulos é incluído no modelo macroeconômico básico para que seja analisado o papel de agentes econômicos superavitários e deficitários. que possuem um nível de gastos inferior a seu volume de renda. ao contrário. o mercado de trabalho determina também o salário real. Nesse mercado. Em conjunto com o mercado de bens e serviços.3. implicitamente estamos também nos referindo ao CMN. determinada pelo Banco Central8 e pela atuação dos bancos comerciais. as principais normas e decisões de política monetária são feitas pelo conselho Monetário Nacional (CMN).5. Como o Banco Central é o órgão executor dessas políticas. taxa de salários monetários. podem efetuar empréstimos para os agentes econômicos deficitários (aqueles que possuem nível de gastos superior a seu nível de renda). 4. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . descontada a inflação. supõe-se a existência de uma demanda de moeda (em função da necessidade de transações dos agentes econômicos. isto é. e como interagem. A oferta de divisas depende das exportações e da entrada de capitais financeiros. S. enquanto a demanda de divisas é determinada pelo volume de importações e saída de capital financeiro. 8 No Brasil. da necessidade de liquidez) e de uma oferta de moeda. 4. supõe-se que exista um títulopadrão. A demanda e a oferta de moeda determinam a taxa de juros. estoque de moeda (meios de pagamentos).4. a taxa de juros é determinada por esses dois mercados. A condição de equilíbrio é dada por: Oferta de moeda = Demanda de moeda As variáveis determinadas nesse mercado são: ♦ ♦ taxa de juros. Normalmente os mercados monetário e de títulos são analisados conjuntamente. Normalmente utiliza-se o título público federal como exemplo. Os agentes econômicos superavitários. existem mercados de divisas ou de moeda estrangeira. não se considera a existência de diferentes tipos de títulos. Na verdade. Mercado monetário Dado que todas as transações da economia são efetuadas com a utilização de moeda. A condição de equilíbrio nesse mercado é dada por: Oferta de títulos = Demanda de títulos e a variável determinada nesse mercado é o preço dos títulos. que podem genericamente ser chamados de mercado financeiro. Mercado de divisas Como a economia mantém transações com o resto do mundo.As variáveis determinadas são: ♦ ♦ nível de emprego. o salário monetário. admite-se também a existência de um mercado monetário. 4.

mas não são determinadas por eles. deve ocorrer uma diminuição tanto nos gastos do governo como na oferta de moeda. Diz-se que são variáveis determinadas institucionalmente. a condição de equilíbrio nesse mercado é dada por: Oferta de divisas = Demanda de divisas sendo que a variável determinante nesse mercado é a taxa de câmbio. O mercado de capitais físicos está embutido no mercado de bens e serviços por meio dos investimentos (gastos com a formação de capital) e da poupança (financiamento da formação de capital). O mercado de capitais financeiros é estudado com o mercado monetário e de títulos. 34 Professor: Raimundo N. Elas vão condicionar o comportamento de todos os demais agregados. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .Assim. devem ser adotadas políticas de expansão monetária e de gastos públicos. isto é. Na análise macroeconômica. os gastos do governo e a oferta de moeda são exógenos. S. não são determinados nesses mercados. mas praticamente determinando a taxa de equilíbrio. pois ele atua tanto na compra como na venda de divisas (o que é chamado de ”flutuação suja” ou dirty floating floating). Por exemplo. se o objetivo for desenvolvimentista. mas sim de forma autônoma pelas autoridades. já que dependem do tipo de política econômica adotado pelas autoridades. se a meta for a estabilização da taxa de inflação. O Banco Central pode interferir no mercado de divisas fixando antecipadamente a taxa de câmbio (regime de taxas de câmbio fixas) ou deixando a taxa flutuar (regime de taxas de câmbio flutuantes ou flexíveis).

a priori antes de ocorrerem). adotados na quase totalidade dos países: o sistema de contas nacionais e a matriz de relações intersetoriais. 2. empresas. em poupança agregada na contabilidade social. Nos capítulos seguintes. medem-se apenas as transações com bens e serviços finais. e trabalha com valores teóricos. INTRODUÇÃO Como foi visto anteriormente. 9 Para mais informações sobre a estrutura contábil do sistema de contas nacionais e da matriz insumo-produto. cada um representado por uma conta específica.. por incluir também as transações intersetoriais. na teoria macroeconômica é poupança planejada ou desejada (ex ante ex ante). utilizados na produção dos bens finais. previstos. M. Existem dois sistemas principais de contabilidade social. Entretanto. Já a Macroeconomia post. 2. A Organização das Nações Unidas (ONU) apresenta modelos e manuais desses sistemas. será apresentada a parte relativa à contabilidade social. o sistema de contas nacionais utiliza o método tradicional das partidas dobradas.CAPÍTULO VI . 2006.1. referi-se à poupança realizada (ex post). a teoria macroeconômica estuda a determinação e o comportamento dos agregados econômicos nacionais. a matriz de Leontief inclui as transações intermediárias. que só são obtidos nos censos econômicos. discriminando as transações dos grandes agentes (setores) macroeconômicos: famílias. Sistema de contas nacionais Assim como na contabilidade privada. Nesse sistema. B. S. planejados (ou ex priori. A análise do comportamento dos agregados econômicos constitui a teoria macroeconômica propriamente dita. CONTABILIDADE SISTEMAS DE CONTABILIDADE SOCIAL Os agregados macroeconômicos. são determinadas a partir de um sistema contábil que trata o país como se ele fosse uma grande empresa que produz um produto único. serão discutidas questões pertinentes à teoria e política macroeconômicas. Os conceitos apresentados neste capítulo baseiam-se nesse sistema9. governo e setor externo. permitindo analisar também relações econômicas entre os vários setores de atividade (o que cada setor gasta e o que vende para outros setores). permitindo obter mais rapidamente estimativas anuais dos agregados macroeconômicos. depois de ocorridos). que é o registro contábil da atividade produtiva de um país ao longo de um dado período de tempo.2. que orientam os institutos de pesquisas na medição dos agregados nacionais. A contabilidade social procura definir e medir os principais agregados a partir de valores já realizados ou efetivados (ou ex post a posteriori. A nova contabilidade social São Paulo: Saraiva. por exemplo. ela exige dados mais detalhados. quando se fala. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .. 35 Professor: Raimundo N. Assim. A parte relativa à medição desses agregados é denominada contabilidade social. o sistema de contas nacionais é o mais adotado no mundo todo. insumoMatriz de relações intersetoriais (ou matriz insumo-produto ou matriz de Leontief) Diferentemente do sistema de contas nacionais. elaborados normalmente com intervalos de cinco anos. o produto nacional bruto. que serão definidos neste capítulo. ante. Assim. antecipa ou prevê o que pode ocorrer. Essa matriz fornece informações mais completas. ver PAULANI. Neste capítulo.CONTABILIDADE SOCIAL 1. por questões operacionais. e não as transações com insumos ou matérias-primas. 2. BRAGA. L. cujo foco é a evolução desses agregados e como atuar sobre eles por meio dos instrumentos de política econômica. que é o agregado de tudo o que é produzido nessa economia.

como no Brasil. DAS NACIONAIS PRINCÍPIOS BÁSICOS DAS CONTAS NACIONAIS Alguns princípios básicos devem ser observados no levantamento e medição dos agregados macroeconômicos. mas que são amostras parciais. mas não o valor do objeto de transação (o produto em si). as transações referem-se a um fluxo. ou seja. O fluxo circular de renda: análise da ótica do produto. juros. aluguéis e lucros). Nessa mesma linha de raciocínio. como as atividades econômicas compõem-se também do setor de serviços. são definidas ao longo de certo período de tempo. serão considerados apenas dois agentes: empresas e famílias (economia a dois setores). embora existam também estimativas trimestrais. A seguir serão introduzidas as variáveis relativas do setor público (economia a três setores). ou seja. ♦ ♦ ♦ ♦ 4. Primeiro. governo e setor externo. governo e setor externo é considerado bem ou serviço final. partiremos inicialmente de algumas hipóteses simplificadoras. exportações de matérias-primas. da despesa e da renda A análise macroeconômica trata da formação e distribuição do produto e da renda gerados pela atividade econômica a partir de um fluxo contínuo que se estabelece entre os chamados agentes macroeconômicos: famílias. Os custos de produção referem-se. agrega-se o setor externo (economia a quatro setores). e. a moeda é neutra. Entretanto. já que representam geração de renda oriunda da atividade de prestação de serviços pelo setor financeiro da economia. também são considerados bens finais a reposição de peças. não sendo considerados os custos de matérias-primas e demais produtos intermediários10 mede-se apenas a produção corrente do próprio período. os salários e os lucros gerados pelas atividades financeiras são computados. transações na Bolsa de Valores) são considerados transferências financeiras entre aplicadores e tomadores11. então. Assim. 11 Deve ficar claro que não são computados os montantes dessas transações financeiras como parte da formação do produto e da renda nacionais. SETORES: EMPRE ECONOMIA A DOIS SETORES: FAMÍLIAS E EMPRESAS Seguindo a metodologia tradicionalmente adotada na teoria macroeconômica.1. não sendo computadas as transações com bens e serviços intermediários (matérias-primas. e instrumento de troca. a atividade comercial é um serviço corrente. Entretanto. no sentido de ser considerada apenas como unidade de medida. considera-se o ano. apenas à remuneração aos fatores de produção (salários. que representam diretamente alterações da renda e da riqueza. imóveis usados. empresas.3. a saber: ♦ consideram-se apenas as transações com bens e serviços finais. Ou seja. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . um padrão para permitir a agregação de bens e serviços fisicamente diferentes. a remuneração dos corretores da Bolsa de valores. Esse fluxo (fluxo circular de 10 Tudo que é vendido diretamente a famílias. Assim. 36 Professor: Raimundo N. Então. máquinas. S. dado que essas não representam diretamente acréscimos do produto real da economia. 4. considera-se a remuneração do vendedor (mesmo que de um produto de segunda mão) como parte do produto corrente. a contabilidade social preocupa-se apenas em mensurar os agregados reais. não é levado em conta o valor de transações com bens produzidos em períodos anteriores (automóveis. componentes). Normalmente. por exemplo). finalmente. bem como os estoques de matérias-primas e componentes que não chegaram a ser utilizados na elaboração de outros produtos. Esses agregados (depósitos e empréstimos bancários. as taxas de juros e a taxa de câmbio também não são apresentadas no sistema de contabilidade social. não são considerados os valores das transações puramente financeiras.

2: Tabela VI. A empresa A produz trigo. que produz a farinha de trigo. e supondo que só existam as três empresas citadas. O total de farinha de trigo produzido pela empresa B é vendido para a empresa C. Por simplificação.renda) precisa ser periodicamente quantificado. S.1: Empresa A produção de trigo VI. apenas o balancete da empresa A. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . para se avaliar o desempenho da economia no período.1: Tabela VI.2: Empresa B produção de farinha de trigo VI. sendo que o total de sua produção é vendido para a empresa B. que vem a ser a remuneração dos fatores de produção (salários. vamos supor uma economia em que só existam três empresas. o setor trigo não tem 37 Professor: Raimundo N. enquanto a da renda é medida no mercado de fatores de produção. que produz o pão e vende aos consumidores finais. As análises das óticas do produto e da despesa são medidas no mercado de bens e serviços. Supondo que os balancetes das três empresas sejam os seguintes: VI.3: Empresa C produção de pães (em $) Considerando. inicialmente. aluguéis e lucros).3: Tabela VI. Para entender melhor os conceitos dos agregados macroeconômicos.1 encontram-se relacionadas as despesas necessárias para a produção de $140 de trigo trigo. O resultado da atividade econômica do país pode ser medido de três óticas: pelo lado da produção e venda de bens e serviços finais na economia (ótica do produto e ótica da despesa). juros. e também pela renda gerada no processo de produção (ótica da renda). Do lado esquerdo da Tabela 9.

i = bens e serviços finais. nesse modelo básico.despesas com a compra de matérias-primas. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . ou consumo final. No exemplo anterior. para uso final. o produto nacional é determinado apenas pela venda de pães. diferença entre a interpretação econômica e a contábil. o trigo é um produto intermediário. Consolidando as informações das três empresas. = $ 30. Produto Nacional Produto Nacional (PN) é o valor de todos os bens e serviços finais. qi = quantidades produzidas dos bens e serviços finais. e mostrar que. O lucro é interpretado nas contas nacionais como a remuneração da capacidade empresarial. ou gerencial. = $ 10. produzidos num dado período de tempo: em que: PN = produto nacional. Quando se consideram as três empresas. é apenas a diferença entre as receitas e as despesas. levarão ao mesmo resultado numérico12. a despesa da empresa A ($140) é apenas o que ela gasta com o pagamento ou remuneração dos fatores de produção: ♦ ♦ ♦ ♦ salário. que remuneram o capital: aluguel da terra: lucro: = $ 80. o lucro é uma parcela dos custos de produção das empresas. 38 Professor: Raimundo N. Na visão contábil. = $ 20. medidos a preços de mercado. despesa nacional e renda nacional. pois. pi= preço unitário dos bens e serviços finais. o trigo pode ser também um bem final. 12 Considerando apenas a empresa A. ∑ = símbolo de somatório. desde que vendido diretamente ao consumidor. obtida da diferença entre a receita da venda ($ 140) e o pagamento dos demais fatores (80 + 30 + 20 = $ 130) Como já foi mostrado na parte de microeconomia. e o pão passa a ser o produto final. Revela quais são os setores compradores do produto nacional. que é a remuneração do trabalho: juros. de consumo (C). e não é interpretado como custo. S. que remuneram seus proprietários e acionistas. as vendas de trigo representam o produto final. ou soma. Assim. Na prática. há uma 130). e PN = C Despesa Nacional Despesa nacional (DN) é o gasto dos agentes econômicos com o produto nacional. a economia só produz bens 390. vamos introduzir os conceitos de produto nacional. embora sejam conceitos diferentes. para os economistas. que é o único bem final correspondendo a $ 390 Então.

governo e setor externo (este em termos de saldo líquido. 14 Como nesse modelo básico não há ainda formação de estoques. isto é: DN = C que é igual à compra de pão.No exemplo anterior. igualando o fluxo do produto e o fluxo dos rendimentos. é um valor idêntico ao produto nacional. Se as importações (M) forem passadas para o lado direito da identidade. 13 Rigorosamente. juros. enquanto o produto nacional é medido da ótica de quem produz e vende (ótica da produção). governo e setor externo). G = despesas do governo. aluguéis e lucros das três empresas do exemplo anterior chegar-se-ía novamente ao valor de $ 390 390. que será discutida posteriormente. que representa o total de mercadorias e serviços colocados à disposição da coletividade. entretanto. basta excluí-lo por seu total. a forma mais prática utilizada pelos estatísticos é a do valor adicionado. vendem (DN).M) em que: C = despesas das famílias com bens de consumo. Ou seja. Essas são as três óticas de medição do resultado da atividade econômica de um país num dado período. Em termos operacionais. que inclui o lucro dos empresários. é a seguinte: +I DN = C +I + G + (X . tem-se que: PN=DN=RN= $390 Isso ocorre porque. já que estamos interessados nas despesas com o nosso produto. I = despesas das empresas com investimentos. tudo o que a empresa recebe (PN = DN)14 ela gasta na remuneração aos fatores de produção (RN). Ocorre que as estatísticas dos quatro itens de despesa não permitem excluir o componente importado. consolidando-se as três empresas. que inclui os demais agentes de despesa (empresa. o que exclui as despesas com importações)13. que veremos a seguir. finalmente. mas medido pela ótica de quem compra (ótica da despesa). como existe a estatística do valor global das importações. a identidade básica das contas nacionais: Produto nacional = Despesa nacional = Renda nacional PN = DN = RN No exemplo. a identidade deveria ocorrer entre o produto nacional e a despesa com o produto nacional (PN = C + I + G + X). empresas. permitindo a identidade entre produto nacional e despesa nacional. Observe. independentemente das importações. tem-se o conceito de oferta global (soma do produto nacional com as importações). A fórmula mais completa. Isso significa que o produto nacional é vendido para os quatro agentes de despesa: consumidores. $ 390. 39 Professor: Raimundo N. entretanto. como os bens intermediários acabam se anulando (venda de empresa). bastante simplificado. tudo que as empresas produzem (PN). Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Renda Nacional Renda nacional (RN) é a soma dos rendimentos pagos aos fatores de produção no período: RN = Salários + Juros + Aluguéis + Lucros RN = w +j + a +l Se somar-se todos os pagamentos de salários. a despesa nacional é composta apenas pelos gastos das famílias com bens de consumo (C). S. X-M = despesas líquidas do setor externo (sendo X = exportações e M = importações).

chegar-se-á ao produto final da economia. o que dá. 4. VI.4. como na Tabela 9. foram consideradas apenas transações com bens de consumo corrente. há dados de salários apenas em anos de Censo). mas também bens de capital.4 – Valor adicionado VI. que as famílias não gastam toda sua renda em bens de consumo (elas também poupam para o futuro). Na Tabela 9. Admitindo-se. investimento e depreciação. já que todas essas transações são realizadas entre empresas (vendas de bens finais e intermediários) e cópias dessas notas são enviadas aos órgãos de arrecadação. que aumentarão capacidade 40 Professor: Raimundo N. Até agora. evidentemente. para obter Penda nacional. que é menos seguro do que a obtida por notas fiscais. o valor adicionado é calculado diretamente pelo somatório da remuneração dos fatores de produção.5 Tabela VI. o mesmo resultado. alocados nos três estágios da produção do pão (trigo. seria necessário medi-la somando todas as declarações de imposto de renda do país.4. o valor adicionado é calculado por diferença (valor das vendas menos os custos dos bens intermediários). em termos práticos o valor adicionado é medido por diferença. De outra forma.5. S.5 – Valor adicionado Como dificilmente se dispõe de informações tão detalhadas como as da Tabela 9. ou seja. farinha de trigo e pão). Na Tabela 9.4 Tabela VI. Somando o valor adicionado em cada estágio de produção. e as empresa não produzem apenas bens de consumo. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .Valor Adicionado Valor adicionado (ou valor agregado) é o valor que se adiciona ao produto em cada estágio de produção. ainda dentro do modelo de uma economia a dois setores. Formação de capital: poupança.5 (no Brasil. ou seja: Valor adicionado = Valor bruto da produção (receita de vendas) − Compra de bens e serviços intermediários A vantagem é que o valor adicionado pode ser obtido a partir de notas fiscais. é a renda adicionada por cada setor produtivo.2.

investimento depreciação. que é dada pela depreciação: 15 S = saving em inglês. representando então investimento. tornando-se obsoletos. e que aumentam a capacidade produtiva da economia nos períodos seguintes. que: Investimento total = Investimentos em bens de capital + Variação de estoques Deve ser observado que o investimento agregado é um conceito que envolve produtos físicos. ficando para o período seguinte. o produto nacional (PN fica: PN) I PN PN = C +I (ou seja. Isso introduz os conceitos de poupança.produtiva da economia. imóveis) não entra no investimento agregado. as máquinas e os equipamentos sofrem desgastes. o investimento em ativos de segunda mão (máquinas. não a transação na Bolsa de Valores). juros. sim. Além disso. por exemplo. no fundo. Os bens de capital são chamados. mas não foram consumidos no período. deixando-a para consumo futuro. de toda a renda recebida pelas famílias. C I Depreciação É o desgaste do equipamento de capital da economia num dado período. não é um investimento no sentido econômico. Entretanto. na forma de salários. pois. a parcela que não for gasta em consumo num dado período é a poupança agregada. ou seja. Ou seja. Sabe-se que. Poupança é o ato de não consumir no período. tem-se caracterizado um investimento no sentido macroeconômico (a compra do equipamento. investir Trata-se de uma transferência financeira. aumentam a capacidade produtiva no período seguinte. de forma que precisam ser repostos. nas contas nacionais. Poupança Agregada (S)15 É a parcela da Renda Nacional (RN) que não é consumida no período. quando a empresa utiliza esse recurso ou parte dele para a compra de equipamentos. para garantir a manutenção da capacidade produtiva. que não aumentou a capacidade produtiva da economia.). Tem-se. constitui uma transferência de ativos que se compensa: alguém “desinvestiu” Esse bem já foi computado como investimento no passado. aí. Com a introdução do Investimento (I). as empresas produzem bens de consumo (C) e bens de capital (I)). O conceito de depreciação introduz uma diferenciação entre investimento bruto e investimento líquido. Assim. de formação bruta de capital fixo fixo. se será transformada em investimentos etc. se será aplicada. “investir em ações” por exemplo. ações”. no processo de produção. Investimento Agregado (I) É o gasto com bens que foram produzidos. equipamentos. isto é: S = RN − C em que C é o consumo agregado. O investimento (também chamado de taxa de acumulação do capital é composto pelo investimento em bens de capital capital) (máquinas e imóveis) e pela variação de estoques16 de produtos que não foram consumidos (ou variação seja. em nível agregado. então. diferença entre o início e o fim do período). aluguéis e lucros. mas não foram consumidos. não importando o que será feito posteriormente com ela (se ficará embaixo do colchão. S. A depreciação é justamente a parte do produto que se destina a tal reposição. 16 Os estoques são vistos nas contas nacionais como bens que foram produzidos num período. 41 Professor: Raimundo N. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .

e não como governo. 42 Professor: Raimundo N. público. tem-se um superávit das contas públicas.−Depreciação Investimento líquido = Investimento bruto −Depreciação Da mesma forma. 5. são considerados três tipos de gastos do governo: ♦ gastos dos ministérios e autarquias. Por exemplo: Petrobras. Com sua inclusão. governo Receita fiscal do governo A receita ou arrecadação fiscal do governo constitui-se das seguintes receitas: ♦ ♦ ♦ ♦ impostos indiretos: incidem sobre transações com bens e serviços. Como os serviços do governo (justiça. educação. nas contas nacionais. gastos das empresas públicas e sociedades de economia mista: como suas receitas advêm da venda de bens e serviços no mercado. Superávit ou déficit público Se o total da arrecadação superar o total dos gastos públicos nas várias esferas de governo. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . outras receitas: taxas. Estados e Municípios. S. ♦ ♦ 5. multas.3. compras de materiais para a manutenção da máquina administrativa) e despesas de capital (aquisição de equipamentos. elas são consideradas. Por exemplo: imposto de renda. Eletrobrás. gastos com transferências e subsídios: são considerados nas contas nacionais como transferências (normalmente. que continha apenas famílias e empresas. Gastos do governo Nas contas nacionais. contribuições à previdência social (de empregados e empregadores). hospitais.1. ICMS. impostos diretos: incidem sobre as pessoas físicas e jurídicas. cujas receitas provêm de dotações orçamentárias. SETORES: RELATIVOS ECONOMIA A TRÊS SETORES: AGREGADOS RELATIVOS AO SETOR PÚBLICO Agora adicionar-se-á ao modelo anterior. caso contrário.2. o setor O setor público é considerado em suas três esferas: União. atuando como empresas privadas. Por exemplo: IPI. escolas. Por exemplo: aposentadorias e bolsas de estudo. pedágios. se introduzirá os conceitos de receita fiscal e gastos públicos. não são computados como parte da renda nacional. não ocorrendo qualquer aumento da produção corrente. construção de estradas. USP. pois representam apenas uma transferência financeira do setor público ao setor privado. o produto gerado pelo governo é medido por suas despesas correntes ou de custeio (salários. junto com empresas privadas. planejamento) não têm preço de venda de mercado. pode-se distinguir o produto nacional líquido (PNL e o produto nacional PNL) PNL bruto (PNB assim: PNB). que não são fatores de produção do período corrente. 5. prisões). tem-se um déficit (também chamado de necessidades de financiamento do setor público). donativos. aluguéis. dentro do setor de produção. PNB Depreciação Produto Nacional Líquido = Produto Nacional Bruto − Depreciação 5. pensões e subsídios).

19 Por convenção. Isso porque em seu preço estão incorporados os impostos indiretos cobrados pelo governo (ICMS.4. adiciona ao custo de fatores de produção os impostos indiretos (ICMS e IPI) e subtrai os subsídios. mas para os proprietários dos fatores de produção. mas os proprietários dos fatores de produção. quando o produto é essencial para a população. em alguns casos. aluguéis e lucros. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . 43 Professor: Raimundo N. salários. Com isso. Além disso. juros. o governo. pois o diferencial entre o preço de mercado e o preço do produto é coberto pelo governo. subsidia o preço do produto.Excluindo-se os juros da dívida pública. o governo concede subsídios ao produtor de trigo para que esse tenha condição de vendê-lo abaixo do custo de produção. muitos textos consideram isso uma convenção de pouca importância. Se forem considerados apenas os juros reais (excluindo a taxa de inflação e a variação cambial). chega-se ao PNBpm. Renda nacional. mesmo que apresente déficit nominal ou total. Assim. ganhando mais credibilidade para negociar sua dívida externa. tem-se o conceito de superávit ou déficit operacional17. 5. o conceito relevante é o fiscal ou primário). um país que apresenta superávit primário. Não é custo para a empresa. da RNL (ou PNL a custo de fatores para se chegar ao PNL a PNL) mercado. mês). 17 No Capítulo 14. da RNBcf em vez da RNLcf. por exemplo. Ou seja. expresso ao longo de terminado período de tempo (ano. já que não são as empresas que pagam. aluguéis e lucros. tem-se o conceito de superávit ou déficit total ou nominal. preços de mercado tem-se19: PNL a preços de mercado = RNL a custo de fatores + Impostos indiretos − Subsídios ou: Subsídios PNLpm = RNLcf + Impostos indiretos − Subsídios Evidentemente. a mesma diferença vale em termos brutos. com juros menores e prazos maiores18. sem sofrer prejuízo. Para o FMI. sobre o setor público. por exemplo. está com suas contas relativamente equilibradas e revela condições de honrar seus compromissos futuros. não só líquidos: se se parte. a renda. fazendo com que o preço pelo qual o produto é vendido seja inferior a seu custo de produção. Apenas os impostos indiretos. Custo de fatores é o que a empresa paga aos fatores de produção. partindo. Por exemplo. também passamos do conceito de renda para o de produto. aprofundamos um pouco mais esses conceitos e seu comportamento para o caso brasileiro no período recente. o custo de fatores e produto nacional a preços de mercado mercado O preço de mercado de um produto normalmente está acima do valor remunerado aos fatores de produção utilizados. interna e externa. enquanto o conceito de dívida pública é o saldo (estoque) acumulado até determinado instante do tempo. e ao custo de fatores. 18 É interessante ressaltar que o conceito de déficit ou superávit representa um fluxo. ao se somarem impostos indiretos e subtraírem os subsídios. tem-se o conceito de superávit ou déficit primário ou fiscal. costuma-se associar aos preços de mercado o produto. IPI e outros. Isso porque os impostos diretos não representam uma diferença entre o custo de fatores para a empresa e o preço final de mercado. Nos acordos firmados com o Fundo Monetário Internacional (FMI. que é o preço final pago na venda. Ë comum encontrarmos na literatura os conceitos de renda nacional a preços de mercado e produto nacional a custo de fatores. quando passamos de custo de fatores para preços de mercado. S. incidirá sobre salários. Contudo. Quando são incluídos os juros nominais sobre a dívida. trimestre. e não os diretos são relevantes nessa diferenciação. Assim.). torna-se necessário distinguir os conceitos de custo de fatores e preços de mercado. enquanto preço de mercado. juros.

SETORES: RELA ECONOMIA A QUATRO SETORES: AGREGADOS RELATIVOS AO SETOR EXTERNO Finalmente. pois. S. importação e renda líquida do exterior. sem se levar em consideração se os fatores de produção são de propriedade de residentes ou de não-residentes. chega-se à carga tributária líquida. Ao se deduzirem da carga tributária bruta os subsídios e as transferências do setor privado. Devem-se deduzir ainda os impostos diretos e as contribuições previdenciárias pagas pelas famílias e empresas ao governo. 44 Professor: Raimundo N. Exportações e importações As exportações representam as compras pelos estrangeiros. valorizados a preço de mercado. 6. parte desses tributos retorna ao setor privado na forma de transferências e subsídios. apesar de essa parcela da renda se encontrar de posse das empresas. como taxas. então. bolsas de estudo.a. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de mercadorias e produtos pelas empresas de capital nacional enquanto as importações representam as despesas que os brasileiros fazem com produtos estrangeiros. Carga tributária bruta e líquida A carga tributária bruta é o total da arrecadação fiscal do governo (impostos diretos e indiretos e outras receitas do governo. que é a soma dos salários. No entanto. não é transferida de imediato às famílias. Produto interno bruto. Carga tributária líquida = Carga tributária bruta Transferências − Transferências e subsídios do governo ao setor privado 6. Finalmente. e introduz-se uma diferença entre produto interno e produto nacional. Com isso. Renda pessoal disponível Esse conceito procura medir quanto da renda gerada no processo econômico fica em poder das famílias. 6. Partindo da renda nacional líquida a custo de fatores. a renda pessoal disponível mede quanto “sobra” para as famílias decidirem na compra de bens e serviços ou. poupar. aluguéis e lucros e já descontada a depreciação. como aposentadorias. produto nacional bruto e renda líquida do exterior O Produto Interno Bruto (PIB) é o somatório de todos os bens e serviços finais produzidos dentro do território nacional num dado período. b. multas e aluguéis). então: Renda pessoal disponível = Renda Nacional Líquida(cf) − Lucros retidos − Impostos diretos Contribuições − Contribuições previdenciárias − Outras receitas correntes do governo + Transferências do governo às famílias Ou seja. Tem-se. tem-se de deduzir as demais receitas correntes do governo e adicionara transferências correntes do governo às famílias. o esquema da contabilidade social fica completo quando se considera a economia “aberta” ao exterior. definem-se os conceitos de exportação. juros. é preciso deduzir os lucros retidos (não distribuídos) pelas empresas para reinvestimentos.1.2.

portanto. Por exemplo. 7. em janeiro de 1999. que toma como valor de referência os preços dos produtos dos Estados Unidos. país. que são muito afetados pela política cambial de cada país. Houve um aumento da taxa de câmbio para R$ 1. mas não os dólares correntes. 45 Professor: Raimundo N. e os royalties representam o pagamento pela utilização da tecnologia estrangeira.20 não considera os custos sociais derivados do crescimento econômico. como a sonegação fiscal. o “caixa 2” etc. aluguéis não caíram em 50%). ou paridade do poder de compra.80. isto é. o não registro de empregados. Também existem residentes que possuem fatores de produção fora do país e recebem.. para comparações internacionais. congestionamentos. e não se refere a atividades ilegais (quando essas são incluídas.Entretanto. Tem-se então: PNB = PIB + Renda recebida do exterior — Renda enviada ao exterior A diferença entre a renda recebida e a renda enviada ao exterior é chamada de renda líquida do exterior (RLE). lucros e royalties. tais como poluição.. utiliza-se o PIB em dólares.20). a diferença é chamada de renda líquida enviada ao exterior. piora do meio ambiente etc. S. Tem-se então: PNB=PIB +RLE No Brasil. cuja remuneração é remetida a seus proprietários no exterior. isso não significou que o Brasil ficou 50% mais pobre (a renda interna. grandes construtoras brasileiras no exterior etc. BEMO PIB COMO MEDIDA DO BEM-ESTAR Muitos economistas argumentam que o PIB não mede adequadamente o bem-estar da coletividade.). a ONU criou. o conceito de dólar PPP — purchasing powerparity. Para sanar esse problema. utilizam mais os serviços dos fatores de produção estrangeiros do que os estrangeiros utilizam os brasileiros. não considera diferenças na distribuição de renda entre os vários grupos da sociedade. Embora tenha caído o poder de compra dos brasileiros na compra de produtos importados. lucros. renda do exterior (extração de petróleo pela Petrobrás. as remessas de lucros são a remuneração pelo capital físico de propriedade das empresas estrangeiras instaladas no país. 7. assim: 20 A economia informal é a desobediência civil às atividades formais de mercado. que equivalia a cerca de US$ 750 bilhões (o dólar era cotado a R$ 1. residentes.1. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Somando-se ao PIB a renda recebida do exterior e subtraindo a renda enviada ao exterior tem-se o Produto Nacional Bruto (PNB) que é a renda que efetivamente pertence aos residentes do (PNB). para produzir o PIB utiliza-se dos fatores de produção que pertencem a nãoPIB. na forma de juros. o PIB brasileiro era de aproximadamente R$ 900 bilhões. Ou seja: ♦ ♦ ♦ não registra a economia informal. PIB em dólares Para comparações internacionais. como a renda enviada supera a renda recebida. da dívida externa). não reflete as condições econômicas e sociais de um país. o que reduziu o PIB do Brasil para US$ 500 bilhões. o PIB é maior que o PNB o que significa que os brasileiros PNB. Os juros representam o pagamento pela utilização do capital monetário externo (isto é. tem-se a chamada economia subterrânea ou economia submersa). salários. Então.

independentemente da idade. esse procedimento supõe que o dólar tenha o mesmo poder de compra em todos os países.1 bilhões de dólares correntes. Por isso a medição do analfabetismo se dá. e a volta do Afeganistão. que é a 4ª economia em dólares correntes (US$ 2. Critérios de avaliação ♦ educação: Índice de educação: Para avaliar a dimensão da educação o cálculo do IDH considera dois indicadores. O índice foi desenvolvido em 1990 pelos economistas Amartya Sen e Mahbub ul Haq. em dólares PPP colocando-se em 9º lugar na economia mundial. O segundo indicador é a taxa de escolarização: somatório das pessoas. a moeda nacional está desvalorizada perante o dólar (o dólar compra mais produtos no Brasil e na China que nos Estados Unidos). o Brasil apresentou um PIB de 796. com peso dois. Na edição de 2009. Todo ano. apenas classes especiais de alfabetização são descartadas para efeito do cálculo. seja ele fundamental. Também entram na contagem os alunos supletivo. Outro exemplo é a China. matriculadas em algum curso. nesta área também está incluído o sistema de equivalências Rvcc ou Crvcc. Serra Leoa.814. S. Para esse cálculo. é interessante observar que as Nações Unidas calculam periodicamente um Índice de Humano (IDH). de classes de aceleração e de pós-graduação universitária. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . consumida em todos os países.3 bilhões. os países membros da ONU são classificados de acordo com essas medidas. o IDH avaliou 182 países. que havia saído do índice em 1996. De acordo com as Nações Unidas21. médio ou superior. além de um indicador econômico (PIB per capita inclui dois indicadores sociais: um índice de expectativa de vida e um índice de educação. Afeganistão e Níger são os três últimos e apresentam os piores índices de desenvolvimento humano. 46 Professor: Raimundo N. o Ensino Fundamental) antes dessa idade. e passa para o 2º posto em termos PPP (US$ 8. considera-se uma cesta de produtos homogênea. Significa que. em 2005.ou seja. colocando-se em 10º lugar. é a taxa de alfabetização de pessoas com 15 anos ou mais de idade — na maioria dos países. educação e expectativa de vida ao nascer. tradicionalmente a partir dos 15 anos. mas não a preços desses produtos do país em dólares (dólar corrente).IDH Dentro da discussão da adequação (ou não) do PIB como medida de bem-estar.2. É uma maneira padronizada de avaliação e medida do bem-estar de uma população.566. seguida pela Austrália e Islândia.234. Índice de Desenvolvimento Humano . dividido pelo total de pessoas entre 7 e 22 anos da localidade. A Noruega continuou no topo da lista. tomam-se as quantidades produzidas em cada país. 21 PNUD — Relatório de Desenvolvimento Humano 2007-8. O primeiro. 7. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH é uma medida comparativa que engloba três IDH) IDH dimensões: riqueza. mas aos preços dos Estados Unidos.9 bilhões). Como o próprio nome diz. e um PIB de US$ 1. capita). nesses dois países. e vem sendo usado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no seu relatório anual. uma criança já concluiu o primeiro ciclo de estudos (no Brasil. Desenvolvimento Humano (IDH) que.3 bilhões). com a inclusão de Andorra e Liechtenstein pela primeira vez.

sendo os países classificados deste modo: Quando o IDH de um país está entre 0 e 0. é considerado muito elevado – país de desenvolvimento muito alto (desenvolvido) ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ 7. é considerado médio – país de desenvolvimento médio (em desenvolvimento) Quando o IDH de um país está entre 0. já que o cálculo da expectativa de vida é fortemente influenciado pelo número de mortes precoces.799. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . é considerado elevado – país de desenvolvimento alto (em desenvolvimento) Quando o IDH de um país está entre 0. Reflete as condições de saúde e de salubridade no local. faz-se a seguinte média aritmética: (onde L = Longevidade. Classificação O índice varia de zero (nenhum desenvolvimento humano) até 1 (desenvolvimento humano total). que elimina essas diferenças.800 e 0. é considerado baixo – país de desenvolvimento baixo (subdesenvolvido) Quando o IDH de um país está entre 0.♦ Longevidade: Índice de Longevidade: O item longevidade é avaliado considerando a expectativa de vida ao nascer. Renda: Índice de Renda: A renda é calculada tendo como base o PIB per capita (por pessoa) do país.899. TE = Taxa de Escolarização. deve viver. a renda medida pelo IDH é em dólar PPC (Paridade do Poder de Compra).499. ♦ Cálculo Para se calcular o IDH de uma localidade. TA = Taxa de Alfabetização. Como existem diferenças entre o custo de vida de um país para o outro. E = Educação e R = Renda) Legenda: EV = Expectativa de vida ao nascer. em um ano de referência. Esse indicador mostra a quantidade de anos que uma pessoa nascida em uma localidade. IDH – Posição do Brasil Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) o Brasil entrou pela primeira vez para o grupo de países 47 Professor: Raimundo N.500 e 0. log10PIBpc = logaritmo decimal do PIB per capita.3. S.900 e 1.

Muitas instituições afirmam que o Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil possa estar errado e que o correto seria de 0.007 com uma pontuação de 0.003 no índice final.813 valor considerado de alto desenvolvimento humano. Mas a Contagem Nacional da População. Se isso for levado em conta. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .813 ▲ 0.806. onde a diferença na qualidade de vida de ricos e pobres é imensa. S. que evoluiu 88. Em 2006.808.753 ▲ 0. Mesmo assim. mostram que o quadro começa a se alterar. Evolução do IDH no Brasil 2007 2005 2000 1995 1990 1985 1980 ▲ 0.800 no ano de 2005.789 ▲ 0. O motivo seria a não atualização de vários dados relativos ao Brasil por parte da organização.807.318 e o índice saltaria para algo entorno de 0.6% para 89. O primeiro dado seria o do PIB per capita.723 ▲ 0. isso significaria uma elevação de 0. Outro dado é a taxa de alfabetização. e o índice ganhará um acréscimo de 0. com um índice de 0.700 ▲ 0. com menos gente para repartir o PIB. obteve uma melhora no índice de 0.685 Há muitas controvérsias quanto ao relatório de 2007 divulgado pelas Nações Unidas. o Brasil continua a ser internacionalmente conhecido por ser uma das sociedades mais desiguais do planeta. com um índice medido em 0. contidos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). feita recentemente pelo instituto. Mas dados estatísticos recentes. a renda per capita subirá. que atualizando as revisões do IBGE seria de US$ 9.002.800 ▲ 0. a renda per capita de 2005 foi calculada com base em uma projeção de população de 184 milhões de brasileiros.802 a 0. 48 Professor: Raimundo N.com elevado desenvolvimento humano. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).0%. revelou que apenas em 2007 o país atingiu este número de habitantes. E há ainda um problema estatístico. No ano de 2009 encontra-se na 75ª colocação mundial.

0.799 (Médio-alto) ██ 0.5 ▲ 87. o Brasil vem conquistando grandes avanços nos últimos anos. um aumento no percentual de pessoas em idade escolar dentro das escolas e universidades.900 (Elevado) ██ 0. logo 49 Professor: Raimundo N. A explicação dos economistas brasileiros e também de técnicos do Banco Mundial para a redução das desigualdades está nos programas de distribuição de renda. O relatório captou. de 72. atualmente. 35 Emirados Árabes Unidos 36 Brasil 37 Malásia ▼ 88. de 86. Legenda ██ 0.3 ♦ Longevidade no Brasil Na área de longevidade. a taxa de alfabetização adulta evoluiu de 88.7 anos ao nascer (79ª colocação mundial. como mais de dois terços dos rendimentos das famílias brasileiras provém do trabalho assalariado. Em 2005 foi estimada em 71.699 (Médio-baixo) Entre 2001 e 2004 a renda dos 20% mais pobres cresceu cerca de 5% ao ano enquanto os 20% mais ricos perderam 1%. Segundo o IBGE. A expectativa do Brasil é.4 anos (93ª colocação mundial logo abaixo de Sri Lanka e acima da Argélia). há necessidade de crescimento da economia e do mercado de trabalho. o Brasil tem melhor desempenho que a média mundial e regional. ♦ Educação no Brasil Na área de educação. No entanto. por conta das Nações Unidas não ter atualizado os dados.0% no período.6% (64ª colocação mundial. o país ficou com um índice de alfabetização adulta de 88.0% em 2004 para 87. No relatório 2007.Mapa de estados do Brasil segundo o IDH de 2005.600 .6% para 89. S. logo abaixo da Alemanha e acima de Singapura).0.0 ▲ 87. logo abaixo dos Emirados Árabes Unidos e logo acima de São Vicente e Granadinas). Nesse mesmo período houve queda de 1% na renda per capita e o Produto Interno Bruto (PIB) não cresceu significativamente.800 – 0. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . índice igual ao encontrado em 2004.700 . como o Bolsa Família. porém.5% em 2005 (36ª colocação mundial.

de US$ 8. saúde e saneamento.407 ▲ 8. Com uma revisão de cálculos em Março de 2007.0.7 anos. 66 67 68 Turquia Brasil Tunísia ▲ 8. 91 92 93 Sri Lanka Brasil Argélia ▲ 72. mudando assim uma série de dados.0.700 .195 PPC para US$ 8.8 anos ao nascer. O que causa controvérsia pois as Nações Unidas não atualizaram as revisões do IBGE e continuam usando os métodos do chamado "Velho PIB". Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .318.900 (Elevado) ██ 0.5 ▲ 72. sendo no que o Brasil mais precisa melhorar.402 PPC. o índice era estimado em 70.699 (Médio-baixo) 50 Professor: Raimundo N.800 – 0. a renda dos brasileiros aumentou. O último relatório das nações unidas apresenta um PIB per capita (PPC) de US$ 8.3 ♦ Renda no Brasil Por fim.abaixo da Jordânia e acima da Armênia) segundo o relatório. 67.371 IDHMapa de estados do Brasil segundo o IDH-L Legenda ██ 0. entre 2004 e 2005.799 (Médio-alto) ██ 0. A expectativa de vida do brasileiro supera a média global. também a renda influi no cálculo do desenvolvimento humano.402 ▲ 8.4 ▲ 72.402 (67ª colocação mundial. e.600 .9% mais rico do que se imaginava. o IBGE descobriu que o país era 10. S. Em 2004. logo abaixo da Turquia e acima da Tunísia). entre eles o PIB per capita que deveria ser de US$ 9. Com isso. Esse aumento da longevidade é um indicativo de melhoras no acesso a alimentação. em 2000.

700 . mas padrão social relativamente baixo. Legenda ██ 0. 79 apresentavam posição IDH menor do que sua posição PlB per capita enquanto 98 tinham posição IDH maior do que sua capita.899 (Elevado-baixo) ██ 0.799 (Médio-alto) IDHMapa de estados do Brasil segundo o IDH-R.800 .0.799 (Médio-alto) ██ 0. S.600 .599 (Baixo) Há nações com diferenças notáveis entre o indicador socioeconômico (IDH) e o puramente econômico (PIB).0. Em 2005.800 – 0. Legenda ██ 0.900 (Elevado) ██ 0.999 (Elevado) ██ 0.699 (Médio-baixo) ██ 0.0.700 . principalmente os países árabes. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .0.IDHMapa de estados do Brasil segundo o IDH-E. de um total de 177 países.500 .900 – 0. que apresentam alta renda per capita.0. 51 Professor: Raimundo N.

posição PlB per capita Contudo, no geral, há uma razoável correlação do PlB per capita com o grau capita. de desenvolvimento social de um país. Se os países forem classificados em 10 grupos, o Brasil, por exemplo, localiza-se no quarto grupo (países de desenvolvimento médio), tanto em termos de renda per capita como pelo IDH. O Brasil está um pouco mais bem posicionado em termos de PlB per capita (conceito”econômico”), do que pelo IDH (conceito “sócio-econômico”), mas em 2005 atingiu pela primeira vez o”status”de país com Alto Desenvolvimento Econômico, como são classificados os países com IDH igual ou acima de 0,800. Antes, era classificado como país com Desenvolvimento Econômico Médio (IDH entre 0,500 e 0,799). Abaixo de 0,499, estão os países com Desenvolvimento Humano Baixo. Pode-se concluir que, apesar de algumas limitações, a medida do PIB é um indicador tanto para comparações internacionais como para medir o crescimento do país ao longo dos anos, captando o grau de desenvolvimento social e econômico. Entretanto, é sempre oportuno considerar também outros indicadores, como grau de distribuição de renda, taxa de analfabetismo, mortalidade infantil, expectativa de vida, leitos hospitalares per capita, consumo calorias e proteínas per capita, para que se tenha uma avaliação mais completa da real condição socioeconômica de um país.

8.

NÚMEROSNÚMEROS-ÍNDICES

O número-índice é uma estatística da variação de um conjunto composto por bens fisicamente diferentes. Não haveria dificuldades se fosse o caso de conhecer a variação de preços de um único bem. A necessidade da construção de índices aparece quando é preciso saber a variação conjunta de bens que são fisicamente diferentes e/ou que variam a taxas diferentes. Existem índices de preços e índices de quantidade. Os índices de preços são mais difundidos, dada sua utilidade para deflacionar (tirar o efeito da inflação) ou inflacionar informações monetárias e para o acompanhamento da taxa de inflação. Os índices de quantidade (ou de quantum) são úteis para determinar a variação física de séries compostas por produtos diferentes (por exemplo, o produto real).

8.1.

Índices de preços

Existem índices de preços por atacado (indústria e agricultura) e índice de preços de varejo (consumidor e construção civil). Até agora estivemos considerando como principal base de referência os índices de preços ao consumidor (IPC), também chamados índices de custo de vida (ICV). Supondo três bens na economia e a respectiva variação de preços entre dois meses: VI. Tabela VI.8: Variação de preço (em percentagem)

52
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

No conjunto, quanto variou a taxa de inflação? Evidentemente, não se pode calcular uma média aritmética, pois os três bens têm pesos diferentes. Calcula-se, então, uma média aritmética ponderada: Média aritmética ponderada = 0,1x0,3+0,1x0,6+1x0,1=0,03+0,06+0,1=0,19 ou 19% Esse exemplo revela que, para calcular um número-índice, são necessários três componentes: a) a variação de preços no período; b) a importância relativa (ou peso relativo) de cada produto ou serviço no orçamento mensal do consumidor; c) a fórmula de cálculo. A forma como as instituições de pesquisa determinam esses componentes é o que provoca algumas diferenças entre os índices. Apresentamos, na Tabela VI.9, um resumo dos principais índices de preços no Brasil. A necessidade de se dispor de um índice de inflação nos primeiros dias do mês, para reajuste de contratos financeiros, salários etc., levou à criação de índices cujo período de coleta de preços não é do dia 1º ao último dia do mês (que só são divulgados cerca de 10 dias após o levantamento das informações), o que gera um fato curioso. Por exemplo, o IGP e o IGP-M só se diferenciam justamente no período de coleta (o IGP-M é levantado do dia 21 de um mês a 20 do outro, e o IGP corresponde ao mês completo). Se a inflação for crescente nos últimos 10 dias do mês (digamos abril), a inflação de abril medida pelo IGP será maior que a inflação de abril medida pelo IGP-M, já que o IGP captou a inflação desse final de mês, e o IGP-M não. Nota-se que os índices diferem também na região considerada. Por exemplo, o IPC-Fipe refere-se apenas ao Município de São Paulo, o IPC-Dieese cobre a Região Metropolitana de São Paulo, enquanto os demais índices são mais abrangentes, considerando dez capitais mais o Distrito Federal.

53
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

VI.9: Tabela VI.9: Principais índices que acompanham os preços

Outra diferenciação reside nas classes de renda consideradas, que é uma informação necessária para o cálculo da importância relativa dos bens e serviços no orçamento do consumidor. Assim, por exemplo, o INPC considera, em sua amostra, os preços dos bens e serviços relevantes para famílias que têm renda assalariada de 1 a 8 mínimos, enquanto o IPCA (IPC amplo) considera famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos. Obviamente, a escolha das classes renda da amostra fará com que os pesos relativos dos itens componentes do índice sejam significativamente diferentes. Por exemplo, o tem “alimentação” tem peso maior nos índices que incluem mais classes com renda menor.

54
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

S.10: Índice de preços Assim. Supondo uma série de um índice hipotético. Agora.10 Tabela VI. Ou seja. calculado pela FGV-RJ. b. representada por nota promissória. os preços cresceram 20% em fevereiro. com base em janeiro: VI.a.1 . Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . númeroInterpretação de uma série de número-índice Para se interpretar uma série de um número-índice tem-se que se saber que as séries de índices divulgados têm sempre um mês-base (ou ano) igual a 100. O juiz prolatou sentença em 31/10/2001. Exemplo de atualização de uma dívida Exemplo 1 Supondo que em 10/02/2001 A ingressou em juízo pedindo a tutela jurisdicional para cobrar dívida de B. no valor de R$ 50. o valor do índice (138) indica que os preços cresceram 38% em relação a janeiro. é usual tomar-se o IGP-Dl (Índice Geral de Preços — Disponibilidade Interna). o que é a taxa de inflação do mês. com vencimento em 31/01/2001.00. mas não indica a taxa de inflação de março. que deve ser calculada sobre o mês anterior (fevereiro) da seguinte forma: A mesma interpretação vale para os meses seguintes. publicado na Revista Conjuntura Econômica e reproduzido a seguir: 55 Professor: Raimundo N.. condenando B. Qual o valor que A deve receber? Para atualizar o valor da dívida. o índice representa uma estimativa do nível de preços do mês. Todos os demais valores da série devem ser comparados com o valor do mês-base. e não da taxa de variação. a pagar a dívida atualizada em 24 horas. em março.000. Normalmente as publicações especializadas trazem as duas séries (a do índice e sua taxa de variação).

tantas quantas forem as alterações ocorridas. têm de ser divididos por 2.00 vezes 8. S. Por exemplo.83% = R$ 4.000. Com a taxa de inflação acumulada e o valor da dívida em 31/10/2001. Em atualizações de valores muito antigos. pois podem ter bases diferentes.00.088318 ou 8. Primeiro.83% isto é. o índice apurado em outubro dividido pelo índice calculado em janeiro. Tem-se que a inflação acumulada de fevereiro a outubro de 2001 foi: Índice out01 = 101. dois pontos devem ser observados.VI. IGPTabela VI.11: IGP-Dl Deve-se levar em conta a inflação de fevereiro de 2001. Segundo.750.415. a Fundação Getulio Vargas que publica a revista Vargas. e também a inflação do mês de outubro. Econômica.92. mesmo se tratando de um só índice. em ações judiciais com início anterior à implantação do Plano Real. tomar cuidado com as constantes alterações do valor da moeda nacional. os valores em cruzeiros reais. pois o título de crédito teve seu vencimento em 31/01/2001. Nesse caso. 56 Professor: Raimundo N. b) esse valor é somado à dívida inicial de R$ 50.8333 ────── Índice jan01 = 93.415. que corresponde à dívida atualizada.5694 − 1 = 0. calcula-se o valor atual da dívida fazendo-se os seguintes cálculos: a) R$ 50. em 12 de julho de 1994.92. Conjuntura Econômica altera o mês-base de comparação de seus índices a cada dois anos. para passar para reais. O resultado dessa divisão menos a unidade indica a taxa de inflação do período fevereiro a outubro de 2001. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . a atualização deve ser feita por etapas. Por exemplo.000. tomar cuidado ainda ao utilizar números diferentes de uma mesma revista. uma vez que a sentença condenatória foi prolatada em 31/10/2001. gerando o valor de R$ 54.

Essa atividade financeira dos entes públicos é concretizada sob duas modalidades fundamentais. pela realização de um dispêndio ou investimento. principalmente por autores italianos. diferençados. visto que não é possível querer-se atingi-los. prestação de serviços públicos. de forma coercitiva. Os fins estatais diferem. 1. na verdade. importante porque torna possível a existência das demais. 1. sempre de outros recursos. O fenômeno financeiro O fenômeno financeiro se manifesta. Sabe-se que são hoje muitos os fins vistos pelo Estado: manutenção da ordem interna. CONCEITO O Estado não deixa de ser uma grande associação. asseguramento da defesa contra eventual inimigo externo. e até mesmo no campo social e econômico a presença do Estado faz-se sentir de forma acentuada. a execução destas tarefas envolve necessariamente custos impossíveis de serem cobertos exclusivamente com o patrimônio próprio do Estado.VII CAPÍTULO VII . Em síntese. da atividade financeira de uma entidade privada. a atividade financeira do Estado é toda aquela marcada ou pela realização de uma receita ou pela administração do produto arrecadado ou. a ponto de desenvolverem a atividade financeira conformada por uma dogmática jurídica própria. É uma atividade. na sua aplicação. que procuram explicar essa atividade. ao final.ATIVIDADE FINANCEIRA DO ESTADO 1. em razão da escassez de meios financeiros. na sua gestão e. a serem obtidos num volume tal que implica a utilização de métodos exclusivos seus. portanto.1. as pessoas de direito público. Daí necessitar ele.2. ainda. à existência de uma atividade financeira consistente na obtenção de recursos. Diversas são as teorias elaboradas. simultaneamente. isto é. fiscalização de muitas atividades particulares. São. O fenômeno financeiro se apresenta como objeto de análise no âmbito das ciências sociais. É a atividade política quem determina a escolha dos objetivos que devem ser perseguidos prioritariamente. portanto. Fundamentalmente o Estado dispõe daquilo que arrecada na sociedade. O importante é se reconhecer que o funcionamento do Estado conduz. necessariamente. que envolvem a prática de atos coercitivos. sobretudo na atividade de obtenção de ingressos de recursos e na realização de gastos. Presença constante de uma pessoa jurídica de direito público A atividade financeira tem sempre como sujeito um ente público. Situa-se no contexto interventivo dos entes públicos tanto no tráfico jurídico quanto na atividade econômica. existe para o atingimento de certos fins que dizem respeito aos interesses da própria coletividade. Enquanto tal. E o conjunto das atividades que têm por objeto o dinheiro. S. a. a todos. em razão das exigências e das demandas que lhes são intrínsecas. A passagem dos dinheiros arrecadados pelos diversos órgãos estatais é feita também segundo regras próprias. ora como política ou político-sociológica. profundamente diferentes das necessidades das pessoas jurídicas regidas pelo direito privado. no mais das vezes. Características fundamentais da atividade financeira O desempenho da atividade financeira revela certas características que nela estão sempre presentes e cujo estudo colabora para desvendar a sua natureza íntima. também. ora conceituando-a como puramente econômica. daqueles próprios dos particulares. aplicação do Direito aos casos controvertidos (distribuição da justiça). Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Ora. sem dúvida. 57 Professor: Raimundo N. construção de estradas. feitura das leis que regerão a comunidade.

guarda e dispêndio dos recursos públicos. um objeto econômico na medida em que lida com recursos que têm essa natureza. Entretanto. em todos os casos. o Distrito Federal e as suas respectivas autarquias. se referem à obtenção. como também aquelas que têm por objeto créditos ou débitos. a disciplina jurídica da macroeconomia. Nada obstante do ângulo do Direito Administrativo ser esta uma função que. Está fora da atividade financeira a captação de outros valores representados por bens in natura ou mesmo pela prestação pessoal de serviços. de forma mediata ou imediata. Há muitos momentos em que o Estado interfere na economia. o dinheiro.Na primeira ocorre uma relação jurídica intersubjetiva. portanto. os Estados-membros. Na atividade econômica. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . em princípio. os Municípios.). Isto faz emergir o que os autores apontam como o caráter instrumental da atividade 58 Professor: Raimundo N. qual seja. gestão e gasto de recursos monetários por parte dos entes públicos. A instrumentalidade da atividade financeira Não se pode incluir a atividade financeira nos fins últimos do Estado. Fica excluída da atividade financeira do Estado a desenvolvida por pessoas de direito privado no exercício de função ou serviço público. na qual cada uma das partes adota uma situação jurídica complementar (direito-obrigação. É o que ver-se-á a seguir. Como é reconhecido. a verdade é que a qualidade da pessoa que a desempenha. É indispensável que haja recursos econômicos para enfrentar o custo da implementação desses objetivos. Acontece. por não ser ela mesma de direito público. a presença de um ente público nas relações ou situações que este ramo do Direito regula. Conteúdo Conteúdo monetário Já foi visto que a atividade financeira tem um objeto econômico não. está sempre presente o objeto consistente na geração de bens ou serviços. poderia estar sendo prestada pelo próprio Estado. E necessário separar-se o Direito Econômico do Direito Financeiro. b. poder-sujeição. Atividade Atividade de conteúdo econômico A atividade financeira tem. Dentro desta recai. c. contudo assumir a vestimenta de uma atuação de caráter interno. Na outra. o que significa dizer que se está diante de relações entre órgãos das mesmas pessoas jurídicas. entretanto. estes compreendem a segurança pública. isto é. a realização de Direito. Mas isto não significa que toda relação econômica em que intervenha um ente público seja atividade financeira. propriamente dita. potestade-dever etc. O primeiro tem por objeto o estudo das normas que disciplinam o comportamento do Estado relativamente à economia. enquanto na atividade financeira figura sempre a preocupação com o fenômeno do ingresso ou saída de recursos exclusivamente financeiros. se tornam eles financeiros. Estão aí incluídas as operações que envolvam títulos públicos. 1. Daí a necessidade de o Estado simultaneamente levar a efeito toda uma série de atividades destinadas a arrecadar os meios financeiros e direcioná-los para a concretização dos referidos fins. da saúde etc. para poder falar de atividade financeira e de Direito Financeiro. contudo. contudo. Para que tenha os efeitos dessa atividade é necessário que concorram outros elementos. é necessária. o Direito Financeiro regula as situações e relações jurídicas que. a prestação do ensino. quer praticando. atos de economicidade manifesta. que esses fins não se cumprem sem que tenham um suporte financeiro. Essas modalidades de atividade financeira encontram o seu respaldo em duas categorias diferentes de normas jurídicas: normas de relação no primeiro caso e normas de ação no segundo. Portanto. inequivocamente. mas consistente num muito específico. confundível com quaisquer dos objetos com que lida a economia. direta ou indiretamente. Portanto. O segundo disciplina a captação. só a levada a efeito por pessoas a quem não se recusa a qualificação de públicas: a União. exclui a qualificação de atividade financeira. seria um grave erro identificar-se como financeira toda a atividade econômica do Estado. sem implicar verificação daquelas mencionadas situações correlatas. pode. quer regulamentando-a. Nem por isso.3. S.

então. o Estado necessita como fonte primordial dos recursos econômicos para a sua atuação de arrecadar valores na forma de dinheiro. dos deveres que os súditos tinham de prestar serviços ao monarca. Nem tudo.4. que começa no momento em que o Estado retira rendas das economias privadas. Ainda aqui o que interessa para o Direito Financeiro são tão-somente os aspectos de ingresso ou saída de recursos. Instrumentalidade e política econômica Admite-se que a instrumentalidade não fica comprometida mesmo naquelas hipóteses em que. S. fixando-as para o atingimento de determinados fins. A nota característica da atividade financeira é aquela que a distingue da atividade administrativa pelos mecanismos ou instrumentos através dos quais se atua. o meio de troca por excelência. O reconhecimento da atividade financeira como instrumental não deve levar à errônea conclusão de que tudo que tem caráter de meio na atuação do Estado é de natureza financeira. Há. Neste sentido a atividade financeira aparece qualificada precisamente pela nota característica de referir-se ao manejo de um bem instrumental por excelência. com o qual possa. Os fins econômicos colimados ficam fora da disciplina. ou seja. Sendo a atividade financeira uma parcela da atuação do Estado. Fins da atividade financeira Tem-se visto reiteradamente que os objetivos fundamentais da atividade financeira são os de proporcionar recursos econômicos para o custeio da manutenção e funcionamento do Estado. O dinheiro é. este sim revestido de utilidade. pretenda o Estado interferir na economia. Em síntese. Com o dinheiro pode-se adquirir todo e qualquer bem. Não. sendo seu regular desenvolvimento condição indispensável para o desempenho de todas as demais atividades. Neste sentido a atividade financeira caracteriza-se por ser atividade de gestão direta e movimento do dinheiro público. em dinheiro. só se presta a servir de instrumento de trocas. visto que são destinados a ser convertidos. Na verdade. pois. que é o dinheiro. como fontes de recursos. O traço diferenciador parece residir no objeto sempre presente na atuação financeira. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . parece claro que o papel que as finanças públicas devem cumprir dentro dessas organizações políticas é condicionado pela própria concepção que se tenha dessas entidades.5. por meio da atividade financeira. Daí porque a atividade financeira do Estado tem por objeto a obtenção de recursos monetários. uma relação de meio e fim. Na verdade o Estado é uma complexa engrenagem de serviços humanos. portanto. 59 Professor: Raimundo N. na medida em que se entenda que esta atividade não se esgota em si mesma. na medida em que é por intermédio da atividade financeira que o Estado pode cumprir suas metas de custear a sua existência. a atividade financeira não visa diretamente à satisfação de uma necessidade coletiva. mas não isolável das demais funções na concreta atuação do ente estatal. abarcando o ciclo financeiro. da exploração do seu próprio patrimônio ou. que é o dinheiro. 1. Já houve épocas em que os Estados se valiam. A primeira inferência que se pode extrair é que esta atividade de propiciar meios ao Estado está intimamente vinculada aos próprios fins do Estado. de forma praticamente generalizada. e termina no momento em que o Estado gasta os ingressos obtidos na forma de bens ou serviços com objeto de satisfazer necessidades coletivas. no futuro. 1. saldar os seus compromissos.financeira. Em conseqüência. que o Estado não arrecada recursos para o fim de armazená-los indefinidamente. a moeda possui características que lhe são muito peculiares. Afirmação verdadeira. que é meio de atuação administrativa do Estado constitui atividade financeira. as administra ou gerencia. A própria utilização de títulos da dívida pública não constitui exceção. também aqui. Em primeiro lugar é um bem que não serve em si mesmo para nada. E em dinheiro que os Estados quitam os seus débitos. só destacável para fins de conhecimento. em conseqüência. mas cumpre uma função instrumental de grande importância.

depois do intermédio das correntes estatizantes nas suas diversas modalidades. esta corrente de pensamento defende os menores gastos possíveis do Estado e o conseqüente equilíbrio orçamentário. O sigilo patrimonial deve ser respeitado. Em conseqüência. sobretudo durante o século XVIII e que viria atingir a plenitude de seu desabrochar durante o século XIX e uma retomada de vigor no último quartel do século XX. mas. ante a falta de moradia. sobretudo pelo incremento de investimentos no campo social. repartir essa arrecadação da forma mais eqüitativa possível entre todos os habitantes do país. era praticamente inevitável que o Estado fosse chamado a remediar tanta aflição. é impotente. A manipulação dos orçamentos. já havia suscitado mecanismos interventivos. sem. ou voluntariamente associado. O próprio desenrolar da guerra. A manutenção da ordem interna. o que não significa dizer inexistência ou insuficiência do Estado. pela óbvia razão de que. Surgem taxas aduaneiras protecionistas. a distribuição da justiça. As finanças tinham de conformar-se à própria descrição do perfil do Estado não interferindo na ordem econômica. Nesse contexto parece claro que as finanças públicas tinham de se ajustar a essa realidade principalmente pela sua neutralidade. ele encontra agentes mais aptos para prestá-las e que o fazem sem os ônus e os inconvenientes que toda atuação estatal acarreta (improdutividade. o que é muito importante. como se deu com a implantação da progressividade das imposições tributárias incidentes sobre as rendas e as heranças e com a acentuação do papel extra fiscal dos tributos. Era compreensível que assim ocorresse. Note-se que a idéia central do pensamento liberal consiste em conceber o Estado como um mal. Portanto. Era o pensamento liberal. inclusive. e diante da destruição quase completa dos parques industriais. a aprovação e a imposição de um Direito Penal. Enquanto tal. estimulam-se as famílias numerosas. A partir do final da Segunda Guerra Mundial a desorganização da economia. igualmente. os quais são concebidos como improdutivos do ponto de vista econômico e devem molestar o menos possível os contribuintes. S. ao qual se seguem acentuadas flutuações monetárias. grava-se o celibato. alterar os preços dos produtos. tais como os subsídios familiares. De outra parte.. as suas finanças também deveriam mostrar-se equilibradas. sem emprego. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . sobretudo dos países derrotados. com a incumbência que gerou para as finanças públicas de custearem os gigantescos gastos bélicos. Os orçamentos necessitavam de ser equilibrados e o Estado só poderia gastar aquilo que arrecadasse. procurando. não-geradoras de efeitos sobre a economia. o Estado não deveria intrometer-se nos campos econômico e social.Assim é que num primeiro momento — que coincide com o surgimento do Estado de Direito — predominou a idéia de um Estado mínimo. embora necessário. há de ser mantido e valorado na medida em que se traduza em entidade insubstituível na prestação de algumas atividades para as quais o indivíduo isolado. e. convocou a presença do Estado na tentativa de resolvê-las. formulado. de um Estado dimensionado para o atingimento tão-somente daquelas atividades que se consideravam inexoravelmente inseridas no seu campo de atuação. a prestação de um ensino público para propiciar a justiça social eram todas as atividades cuja legitimidade da prestação pelo Estado não se questionava. socorro aos desempregados. sobretudo pelo alargamento das despesas públicas. Foi uma virtualidade que só muito mais tarde veio a se descobrir. Comercial etc. instaura-se o déficit orçamentário. Para o pensamento liberal isto era inconcebível. com a conseqüente condenação de qualquer forma de inquisição fiscal. sim. isto é. prevalece uma recriminação absoluta da inflação monetária. Por outro lado. Civil. a defesa contra o inimigo externo. 60 Professor: Raimundo N. fora destas. ou seja. as despesas do Estado aumentam enormemente. era uma arma poderosa de intervenção do Estado na economia. não se permitia que o mesmo Estado ultrapassasse o círculo de suas atividades próprias. pensão por invalidez. o favorecimento do autoritarismo). do ponto de vista político. já que diante de contingentes populacionais enormes. ampliação do crédito público. As despesas devem ser cobertas por impostos. empreguismo e.

As finanças públicas — e esta parece ser a grande lição oferecida pelo passado — são. de outro. de uma classe operária cada vez mais homogênea e influente. Nos países de economia centralizada (marxista). o planejamento tem-se mostrado instrumento imperfeito para a regulação da economia. energia etc. contudo. Nos países de economia aberta (capitalista). de um capitalismo poderoso e. É certo que esse planejamento adquire uma coloração muito diversa dependendo do tipo de economia praticada pelo Estado. 3) o imposto tem finalidades extras fiscais e deve atuar positivamente como elemento regulador e redistribuidor (cerceamento de certas rendas). O que caberia agora perguntar-se é como se expressaria esse procurado bem-estar social. pois. contudo. Ganha corpo nesse período a idéia do planejamento como forma de coordenar a atividade econômico-financeira do Estado. Daí falar-se em Estadoprevidência ou mesmo liberalismo social. instrução. simultaneamente.. S. Os fundamentais são os prêmios e os incentivos. o planejamento não pode ter essa força coercitiva. à execução dessas políticas. como segurança. sobretudo com o social. quais sejam: 1) o orçamento sofre a ação da economia e. Torna-se uma nota caracterizadora desse período uma ação paralela provinda. influi sobre esta: abandona-se a mística do equilíbrio anual e procura-se um equilíbrio econômico (orçamentos cíclicos). no que diz respeito. de apresentar instrumentos tendentes a conduzir a economia nos sentidos desejados. A meta fundamental é a procura da prosperidade social como caminho para evitar que se produzam transformações por meios violentos. o atendimento pelo Estado de necessidades sociais básicas. Em primeiro lugar.). também deve cumprir funções econômicas. O destino do planejamento econômico não foi tão glorioso quanto os seus idealizadores faziam crer. Embora o seu abandono nunca possa ser total. 2) o gasto público não constitui um simples meio para atender os serviços públicos. As finanças públicas. Em três pontos fundamentais. e 5) criação da moeda em condições e circunstâncias especiais. Almeja-se. . por um plano de investimentos. como podem tornar-se um 61 Professor: Raimundo N. pela criação de novos empregos públicos em geral e pelo favorecimento e controle da atividade econômica privada e. o planejamento é vinculante e obrigatório. de um lado. porque o Estado não pode abdicar de uma antecipação de suas necessidades fundamentais e de sua atividade. Independentemente do sistema econômico. por sua vez. As tendências intervencionistas sofrem profunda acentuação no período posterior à Segunda Guerra Mundial. e podem ser sumarizadas em cinco pontos as repercussões fundamentais. absorção da economia. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . um reflexo do próprio sistema econômico adotado. a adoção de medidas voltadas ao desenvolvimento econômico do país. que são substituídos por preocupações. Defende-se a redação de um plano econômico geral. sofrem o influxo dessas novas realidades. Em segundo lugar. 4) o empréstimo já não é um recurso ‘extraordinário’. é o próprio instrumento ordenador da economia. reservando-se o Estado para uma atuação meramente supletiva das omissões da sociedade. com o objetivo do asseguramento do pleno emprego e do aumento da renda nacional. serviços públicos (correios e telecomunicações. com fins transitórios.Altera-se a concepção da atuação do Estado com o enfraquecimento dos objetivos do liberalismo. transportes. estímulo industrial etc. fomentando o incremento do poder aquisitivo. como não poderiam deixar de ser. finalmente. visa-se a redistribuição da renda nacional como forma de realização da justiça e do aumento do nível de vida. mercê da predominância das leis de mercado. Não deixa. uma revolução pacífica. pode ser empregado normalmente e utilizado nos seus efeitos sobre o mercado de capitais. a tendência moderna é de liberá-las o mais possível à iniciativa privada.

não desfruta de liberdade. à inflação. Estas últimas nada mais são do que a soma de necessidades individuais. ao ente estatal cabe a realização daquilo que for considerado como “necessidades públicas”. sobretudo com o combate ao gigantismo estatal. ao desperdício dos dinheiros públicos e. assim como.instrumento reforçador desse sistema. Em outras palavras. Este princípio dentro do âmbito do Direito Financeiro traduz-se no fato de que as necessidades públicas devem estar sempre atreladas à lei. própria do homem. Este consiste no conjunto de atividades que a Administração presta objetivando o atendimento de necessidades que surgem exatamente em decorrência da vida social. uma parte. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . porque. ficou claro que a finalidade da atividade financeira coincide com a própria finalidade do Estado. a satisfação de algo que emerge da própria vida em sociedade. As necessidades públicas encontram-se sob a égide do Direito Público. de ordem constitucional ou não. a procura de um orçamento equilibrado e a contenção dos gastos públicos continuam a ser metas almejadas. a. escrava que é da ordem jurídica. transcende à satisfação individual porque brota realmente da vida em coletividade. 62 Professor: Raimundo N. obviamente. senão. a realização do bem comum. fundamentalmente. embora possa ser fruído individualmente.. alguma influência elas haverão de cumprir. de interesses individuais. b. Como é sabido a Administração Pública não tem fins próprios. qual seja. consubstanciadas em comodidades ou serviços postos à disposição dos usuários que podem fazer uso dele na qualidade individual de cidadão. As necessidades coletivas estão a cargo do direito privado e. Portanto. e por conseqüência estão adstritas ao princípio da estrita legalidade. dela devem derivar. pois variam de acordo com o regime jurídico e político adotado pelo Estado. Já por necessidades públicas entende-se aquelas necessidades que o Estado deve prestar em virtude da existência de uma norma jurídica. entretanto.se por representarem sempre um interesse geral. porque a sua exacerbação pode conduzir a profundas distorções da economia. portanto são regidas pelo princípio da autonomia da vontade. como exemplo dos serviços de iluminação. ou como membro da coletividade. os aspectos atinentes à política financeira são preocupações importantes da própria política econômica do Estado. Atualmente a tendência é a utilização moderada desse recurso. Adverte-se que as necessidades públicas não devem ser confundidas com as “necessidades coletivas”. Embora estas não sejam sempre as mesmas. verifica-se que elas são realizadas exclusivamente pela prestação de serviços públicos. que não se reduz a mera soma de interesses individuais. as finanças públicas podem tornar-se poderoso instrumento de atuação do Estado no domínio econômico. Em síntese. portanto. ou melhor. embora também atendam interesses individuais. em regra. da qual a financeira não é. o serviço público é resultante do atendimento de um interesse que. S. Daí a importância de entender-se o que vem a ser serviço público. Em outras palavras. Trata-se de uma parte da função administrativa do Estado que tem como finalidade precípua atender às necessidades materiais. Serviço Público é uma atividade prestada pela Administração. mas há de buscá-los na própria lei. Embora não haja mais condições para voltar-se a uma concepção de finanças neutras. com vistas ao atingimento de uma necessidade coletiva. que se vale do seu regime próprio de direito administrativo. Serviços públicos Ao se estudar a atividade financeira do Estado que visa à obtenção de recursos e a sua aplicação para a realização das necessidades públicas básicas.. Crê-se que é por aí que se propiciam as condições ideais de desenvolvimento. As necessidades públicas são decorrentes de uma norma jurídica seja ela. E. Na atividade financeira busca-se prover e aplicar recursos financeiros com o intuito de satisfazer às necessidades públicas. ou melhor. Necessidades públicas No capítulo sobre a atividade financeira do Estado. As necessidades públicas caracterizam.

E dizer. que pertence ao ramo da Ciência Política. eis que as finanças públicas dizem respeito às finanças do Estado. dos fenômenos financeiros e todas as suas conseqüências. dizem respeito ao universo do ser. Como não poderia deixar de ser. entendida esta como a atividade realizada pelos poderes públicos com o objetivo de captar e aplicar recursos para o custeio da rede de serviços públicos. Objeto O objeto da Ciência das Finanças é a atividade financeira. Ela se preocupa. despesa.2. orçamento e crédito. Contudo.2. S. que é facilmente verificável em todas as fases da atividade financeira: receita. despesas. CIÊNCIA DAS FINANÇAS Primeiramente é necessário deixar claro que a atividade financeira é estudada tanto pela Ciência das Finanças. o aumento de recursos e a sua aplicação no pagamento das despesas estatais. abrange também os seus aspectos extra-fiscais. O estudo das finanças dá lugar a uma ciência informativa. por sua vez. e que tem o seu campo de atuação restrito ao auxílio do agente político no que se refere à tomada de decisões dentro da atividade financeira. qual seja. Trata-se. Pode-se afirmar que a política financeira consiste no conjunto de medidas adotadas pelo Estado tendo em vista uma determinada finalidade. E através dela que são traçadas as diretrizes a serem tomadas pelo Estado na área financeira. As finanças públicas. portanto. É interessante dizer que é a Ciência das Finanças quem fornece aos administradores públicos os elementos indispensáveis à política financeira. ou melhor. de uma ciência especulativa. com o estudo da ação desenvolvida pelo Estado para a satisfação de suas necessidades coletivas e também na escolha da ação mais adequada para o suprimento de tais necessidades. Política financeira A Política Financeira consiste na elaboração de programas de despesas e receitas com o intuito de cumprir os objetivos da política econômica assumidos pelo Estado. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Pelo contrário. ela necessita de ser disciplinada por um conjunto de regras jurídicas que compõem o Direito Financeiro. a. como pelo Direito Financeiro A Ciência das Finanças visa evidenciar o estudo. Conceito A Ciência das Finanças se caracteriza por ser a ciência que estuda a atividade financeira do Estado sob o prisma teórico. portanto. ela busca fornecer aos agentes políticos os elementos necessários para compor a política financeira. são uma realidade do Estado. em economia e política. 2. pode-se conceituar a Ciência das Finanças como sendo a ciência descritiva e informativa que busca desvendar e desenvolver os conhecimentos teóricos sobre a atividade financeira. Portanto. por sua vez. Todavia esse objeto não fica restrito apenas ao estudo da atividade financeira. orçamento e crédito público. Estas. 2. para que desse modo possa orientar os agentes públicos na formação de uma política financeira. Pode-se dizer. precipuamente. que ela tem como objeto o estudo de todos os aspectos que influenciam a atividade financeira. a atividade financeira encontra-se delimitada por princípios das ciências sociais. nos objetivos por ela perseguidos. do plano real. Não se pode negar que em toda atividade financeira há um conteúdo político. A partir daí pode-se falar em economia financeira e política financeira. no plano teórico. bem como os meios cabíveis para tanto.1. A atividade financeira consiste em tudo o que diga respeito às receitas. Sua preocupação precípua reside nos fins da atividade financeira. 63 Professor: Raimundo N. Assim sendo vai-se estudar a atividade financeira à luz do comportamento do Estado em seus diversos aspectos. a atividade fiscal. se dividem no que se refere à atividade financeira.

Há assim uma dupla forma de encarar a política financeira: por um lado. Ela encontra-se diretamente relacionada com os aspectos econômicos e administrativos das finanças públicas. ela é a expressão concreta da utilização dos instrumentos financeiros. b. depois. na medida em que a primeira visa a elaboração de programas que auxiliem no cumprimento dos objetivos impostos pela segunda. Estuda-se. a melhor distribuição de renda. a gestão e o dispêndio dos meios financeiros públicos. FINANCEIRO CIÊNCIA DAS FINANÇAS E DIREITO FINANCEIRO A Ciência das Finanças e o Direito Financeiro têm o mesmo objeto de estudo. que na primeira é o ângulo especulativo (teórico) e na segunda o normativo prático. para prosseguir determinadas utilidades e finalidades econômico-sociais. 3. 64 Professor: Raimundo N. sem. mas. O Direito Financeiro tem como objeto o estudo das normas jurídico-financeiras. E através dela que são traçadas as diretrizes a serem tomadas pelo Estado e pela sociedade (setores públicos e privado) na área econômica. assim. o crescimento. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . A diferença entre elas reside na perspectiva a partir da qual elas vêem esse objeto. Pode-se dizer que ela. para alcançar os seus objetivos. e. É preciso deixar claro que há uma relação entre a política financeira e a política econômica. designará também a teorização dos fenômenos financeiros como meios susceptíveis de realizar essas finalidades. selecionam-se e teorizam-se os traços comuns a essas experiências concretas. em seu aspecto objetivo. um tipo ou certos tipos de experiências concretas. num outro ângulo de visão. contudo contrariar seus princípios fundamentais. jurídico. a atividade financeira. levando em conta os seus aspectos econômicos e políticos. à elaboração de modelos jurídicos que sejam responsáveis pela instauração das relações entre as pessoas e o Estado enquanto agente da atividade financeira. o desenvolvimento. qual seja. a busca do pleno emprego. emerge um sistema de princípios e normas a que a atividade financeira deve se adequar. o Direito Financeiro tem como objetivo regular a obtenção. Ou seja. Portanto. a estabilidade econômica. ela é um forte meio pelo qual se vale o Estado para atingir os seus objetivos dentro do campo econômico. Pelo contrário. o controle da inflação etc. quer dizer. ou melhor. O Direito Financeiro fica adstrito ao estudo da estrutura normativa. Política Econômica A Política Econômica consiste no conjunto de medidas adotadas pelo Estado tendo em vista um objetivo. realiza algumas alterações no sistema econômico. O Direito Financeiro também pode ser conceituado como a Ciência das Finanças em seu aspecto institucional. Já a Ciência das Finanças estuda os fenômenos da atividade financeira em toda a sua extensão. exige dele algumas adaptações. a justiça social. S. O Direito Financeiro caracteriza-se por ser uma disciplina jurídica que tem como objeto de seu estudo toda a atividade do Estado no tocante à forma de realização da receita e despesa. como o progresso. Em função da política financeira do país.

Embora como ciência normativa estude o dever-ser. mas não ao modo das leis jurídicas. Não. que o torne estanque. no fundo indivisível. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . sem dúvida.-DIREITO FINANCEIRO 1. Em primeiro lugar. todavia. O que cumpre agora examinar é em que consiste. em que. Em segundo lugar. Há um processo de interpenetração do Direito Financeiro com outras áreas jurídicas. especificamente. O Direito Financeiro regula a atividade financeira sob o ponto de vista jurídico. é forçoso reconhecer-se. Quem vê. não são extrapoláveis. pois. das quais. e a sua metodologia é fundamentalmente descritiva e especulativa. da sua interpretação. sociológicas sobre as quais incidem as normas. A elas é necessário acrescentar o esforço sistematizador da ciência jurídica. Elas estão dispersas pelo ordenamento jurídico. Vimos que o Direito Financeiro tem por objeto o estudo das normas que compõem a organização e a estrutura financeira do Estado. mas as normas que o disciplinam. Isso quer dizer que regula as garantias formais e materiais do que se arrecada. As características desta já foram estudadas no capítulo precedente. começando na própria Constituição. pelos escalões normativos inferiores. objeto de seu estudo. não há por que deixar-se de reconhecer a autonomia do Direito Financeiro. São próprias do país sobre cuja ordem jurídica a doutrina se alicerçou. que é rica em normas dessa natureza. da elaboração das suas normas e mesmo para efeitos didáticos. não pode desconhecer as realidades econômicas. Em se reconhecendo essas ressalvas e em se tendo em conta que o Direito compõe um todo. a ciência deste ramo do Direito Público que não é composta tãosomente da catalogação dessas regras objetivas. assim como de. assim como destas para com ele. Aquela tem por objeto os fenômenos financeiros. o alcance da sua significação. de outra parte. uma diferença de enfoques entre a Ciência das Finanças e o Direito Financeiro. no entanto. pelo contrário. esta divisão não deve ser entendida como algo abissal e intransponível. Há. mais uma vez faz-se necessário uma ressalva. É que essas realidades interferem na compreensão do fenômeno jurídico. ao depois. como e com quem se gasta. o estudioso do Direito Financeiro não pode estar desligado. assim como criá-los imaginativamente.VIII CAPÍTULO VIII . São as fontes por excelência do Direito Financeiro. e essa dimensão só é oferecida por outras ciências sociais. É pelo trabalho dos doutrinadores que emerge um conjunto sistemático de normas e princípios ao qual se confere a condição de ciência. é preciso buscar-lhes o sentido profundo. As meras normas não são suficientes para desvendar todo o Direito Financeiro. S. e isso só é possível mediante a utilização de técnicas próprias da ciência jurídica. que. é sempre individualizado. CONCEITO O Direito Financeiro é a disciplina jurídica da atividade financeira. a regra e não a liberdade vê a lei. E especulativa. Contudo. Daí porque suas conclusões. É necessariamente referido a um país sobre cujo ordenamento jurídico se erige. deve ser tomado como uma unidade autônoma para efeito de seu estudo. o cultor do Direito Financeiro. o conjunto de normas jurídicas que o compõem. como já visto. de como se arrecada e de quem se arrecada. De outra parte há de se reconhecer no Direito Financeiro duas vertentes principais. mas não vê o Direito. Nada obstante ser ele um segmento ou uma parcela do Direito em geral. o Direito Financeiro. de tal maneira que as regras sejam a expressão dos ingressos e dos gastos livremente erigidos. descendo. Pode idealizar modelos extraídos de outros Estados. As leis financeiras vistas pelo ângulo da Ciência das Finanças são aquelas que decorrem das próprias relações financeiras regidas por um princípio de causalidade. porque não precisa cifrar-se à realidade concreta de um país. O Direito Financeiro. Contudo. em regra. e o seu objeto não são os efetivos comportamentos financeiros do Estado. A norma tal como vazada na lei é uma abstração que só se concretiza ao contato da realidade. 65 Professor: Raimundo N. Visa também a formular leis. políticas.

é alcançada através de uma série de elementos. Autonomia O Direito é uno não podendo levar-se a efeito nenhuma operação destinada a depreenderse dele uma seara de molde a que esta restasse afastada e independente do todo. por ser um produto da vontade. posta a distinção entre o Direito Financeiro e o objeto de seu estudo. uma técnica jurídica própria ao Direito Financeiro que o insere dentro do Direito Público. Todavia. enquanto o Direito Financeiro. para efeitos didáticos e científicos é possível dividi-lo em ramos que receberão tratamento próprio. na verdade tal não acontece. que por sua vez são subdivididas em vários ramos. Conviria agora distinguir um pouco melhor o Direito Financeiro de outras áreas jurídicas que lhe são próximas. existe uma constante interpenetração entre as diversas áreas do Direito. É o fato de que. 2. O Direito Financeiro é um desdobramento autônomo do Direito Público. qual seja. 66 Professor: Raimundo N.Enquanto ciência normativa. assim. A autonomia do Direito Financeiro também pode ser reconhecida em razão da existência de um objeto próprio. não passíveis de aplicação em outros ramos do Direito. quais sejam. todavia são de inegável valia para o jurista na compreensão e interpretação do texto normativo financeiro. o Direito Financeiro se vale de um regime jurídico dotado de prerrogativas que não são encontráveis em outros ramos do Direito. Note-se também que a autonomia didática de um determinado ramo do Direito. fica bem demarcada a distinção existente entre as finanças do Estado e as dos particulares. de acordo com as suas peculiaridades. Este se divide em duas grandes áreas. Destarte. Lhering observou com irrefutável acerto que toda norma jurídica. Apesar de o Direito Financeiro ser um ramo do Direito Público. Há outro ponto. não há negar-se que ele deve ser considerado como uma unidade autônoma para efeitos de interpretação. Todavia. Há. as finanças públicas e de sua finalidade consistente na normatização desta atividade. Qual seria o interesse nuclear protegido pelo Direito Financeiro? É o de os entes públicos obterem meios econômicos com que financiar os gastos públicos e conseguirem um emprego correto dos aludidos meios. a doutrina e jurisprudência próprias e o seu estudo em separado em virtude de razões didáticas. Embora o nome “Direito Financeiro” possa prestar-se a confusões e chegar-se mesmo a entender que ele cuida do sistema financeiro. uma vez que cada uma delas é dotada de especificidade e princípios jurídicos próprios. O fato é que se pode perfeitamente falar em autonomia das diversas searas integrantes do Direito. Na verdade. essa divisão não pode ser concebida como algo intransponível. DELIMITAÇÃO Cumpre tecer desde logo algumas considerações sobre a finalidade do Direito Financeiro. Neste sentido é muito claro que as normas jurídicas protegem determinados interesses que lhes são opostos.1. portanto. que torne o Direito Financeiro estático. As operações de natureza financeira levadas a efeito pelos particulares obedecem a regras do direito privado. quiçá de maior importância. pois há um processo de interpenetração dessa área jurídica com outros ramos do Direito. rege exclusivamente as finanças públicas. que são precipuamente: a existência de princípios e normas específicas que regem o seu objeto de estudo. estudo e elaboração de suas normas. Ou seja. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . a pública e a privada. S. as distinções existentes entre as áreas do Direito não impede que haja uma relação entre elas. 2. Tanto é assim que qualquer pessoa leiga é capaz de visualizar facilmente a diferença existente entre o Direito Penal e o Direito Civil. Os princípios específicos se diferenciam dos princípios gerais na exata medida em que os primeiros têm uma abrangência mais restrita. que se caracteriza pela existência de princípios jurídicos específicos. que são objeto de interesse de outras ciências. a merecer destaque. tem sempre um fim ou causa final. Fica. as quais. ramo do direito público. para o atingimento de suas finalidades. Contudo. o Direito das Finanças não se confunde com as finanças em si mesmas.

uma vez que os critérios sobre os quais se funda não são de absoluta cientificidade. ela é inexistente. fica claro que.direito tributário. A Constituição Federal de 1. restando. pertinentes a toda a Ciência Jurídica. É interessante notar que no passado não se reconhecia a autonomia do Direito Financeiro. Diante do exposto. por exemplo. 2. aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: 1. Adverte-se aqui que seu estudo é autônomo e não independente. O interesse público que a Administração deve gerir no exercício da atividade financeira está perfeitamente definido pela ordem jurídica. pois o Direito é uno. No que diz respeito. quer dizer. sendo. A razão é a seguinte: na atividade administrativa não há um delineamento exaustivo do comando legal. entre ele e o Direito Administrativo e Tributário. Relacionamento com os demais ramos do direito a. Daí decorre que há forte dependência estatal do produto da arrecadação de dinheiro por métodos originários. Essa divisão tem muito de convencional. portanto.aplicam-se a um determinado ramo do Direito. salvo casos realmente excepcionais. estanque ou absoluta independência. até aqui se procurou demonstrar o seguinte: a realidade jurídica é muito ampla e muito complexa para ser abarcada por uma única disciplina. ao administrador uma margem de apreciação subjetiva destinada a concretizar a vontade da lei nos casos a que se volta. Uma das principais diferenças entre o Direito Administrativo e o Direito Financeiro. que não deve ser. hoje não mais se aceita qualquer dúvida quanto à sua autonomia e à distinção. É bom notar que os ingressos que hoje se dão nos cofres públicos e que são produzidos ou gerados pelo próprio patrimônio estatal representam muito pouco do total dos gastos públicos. Especificidade esta a que se dá o nome de “autonomia”. já os segundos podem ser conformadores de qualquer área do Direito. Nada obstante isso. Daí a consagração do recurso à divisão do Direito em áreas.320/64 que dispõe sobre as normas gerais de Direito Financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União. ao Direito Financeiro. de forma alguma. S. em conseqüência. isto é. Há uma outra faceta ainda a diferençar o Direito Financeiro do Administrativo. confundida com separação. O Direito Financeiro é elaborado e estudado de maneira orgânica e unitária. Sabe-se que esta se mostra freqüente nos atos praticados pela Administração.” No que diz respeito às normas infraconstitucionais o Direito Financeiro é regulado pela Lei nº. deve conceber-se o Direito Financeiro como uma área específica do Direito. dos Municípios e do Distrito Federal. É a discricionariedade. através de uma coordenação sistemática de seus princípios fundamentais. Em síntese. a Administração carece de poder discricionário. dele se destaca em função da especificidade dos princípios e normas que regem a atividade financeira do Estado. reside no fato de que o primeiro cuida de administrar os bens que o Estado possui. dos Estados. Direito Financeiro e Direito Administrativo O Direito Financeiro guarda estritas relações com o Direito Administrativo. Todavia. econômico e urbanístico.988 consagrou a autonomia do Direito Financeiro “Compete à União. Falase em 10% no máximo.2. de possibilidade para definir o interesse público quando da aplicação do Direito Financeiro. penitenciário. Ora. 4. 67 Professor: Raimundo N. enquanto o segundo cuida de arrecadar os recursos que o Estado não tem. o que vale dizer. contudo. financeiro. o Direito Financeiro procede diferentemente. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . pelas normas de caráter genérico. impostos ao cidadão sem qualquer relação de derivação de um bem estatal. No entanto. O papel da tradição nesse particular é também muito grande.

como pode também ser passível de um destaque da parte tributária para merecer um estudo de menor nível de abstratividade e. Trata-se do estudo das leis econômicas que regem os preços. procedem de forma diametralmente oposta.b. a tendência moderna vai mesmo no sentido de analisar os ingressos públicos à luz dos próprios dispêndios ou gastos. c. Cremos que a questão posta em termos tão radicais remanesce insolúvel. de resto. E o que acontece com o Direito Tributário. 68 Professor: Raimundo N. a moeda. o crédito e o câmbio. ou até mesmo exclusivamente a este concerníveis. Aliás. Portanto. desde a receita até os gastos. o que já levara Baleeiro a constatar no Brasil a existência tanto de cadeiras de Direito Fiscal (outro nome pelo qual é identificado o Direito Tributário) nas Faculdades de Direito quanto de Legislação Tributária nas Faculdades de Ciências Econômicas. E óbvio que a própria extensão da matéria está a convidar que o seu estudo seja feito de forma autônoma. de maior especificidade. o Direito Tributário não pode ser destacado do Financeiro. sem que com isso queiramos significar uma divisão estanque entre ambos. Saliente-se aqui que o Direito Econômico encontra-se também voltado para o estudo do controle do poder econômico. a maior ou menor divisão do conjunto do Direito vai sempre depender do rigor com que se estabelecem os requisitos para a configuração de uma disciplina autônoma. Alguns países negam a autonomia do Direito Financeiro. que ela mantém laços com uma mais abrangente. entretanto. Isto não impede. Em síntese. portanto. O fenômeno financeiro pode. É preciso ter sempre em mente a relatividade da noção de autonomia científica de um ramo do Direito. igualmente. Em última análise. é que o reconhecer-se a autonomia relativa de uma disciplina não significa deixar de admitir-se. a dos ingressos de dinheiro nos cofres públicos de forma coercitiva. recusar-se que ele também possa ser encarado de forma vinculada com o Direito Financeiro. Outros. sob muitos aspectos. tanto no plano nacional como no internacional. Não conseguem vislumbrar no Direito Tributário princípios que possam destacá-lo do Direito Financeiro. uma justiça tributária só se perfaz com uma justiça a distribuição das despesas. O seu objeto de estudo é a base da organização jurídica e econômica. contudo. também. de resto não existe em nenhuma área do Direito. que o deixa de se constituir em uma das grandes vertentes do Direito Financeiro. portanto. a distribuição. Em última análise. De outra parte não há como se negar ser perfeitamente exeqüível a identificação de certas regras ou princípios mais acentuadamente aplicáveis ao Direito Tributário. Para esta parte da doutrina só seria considerado cientificamente autônomo o Direito Tributário. na verdade. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Isto não significa. conseqüentemente. que. Direito Financeiro e Direito Econômico O Direito Econômico tem como finalidade precípua o estudo das normas que dispõem sobre a organização econômica de um País. existe a autonomia do Direito Tributário como ramo do Direito Financeiro. Direito Financeiro e Direito Tributário Muito tormentosas são as ligações do Direito Financeiro com o Direito Tributário. a análise das leis que regem a produção. por não verificarem nela a presença de princípios homogêneos que o informem. ser passível de estudos mais abrangentes e abstratos que o tomem na sua unidade. entretanto. seria apenas um mero capítulo. O que parece certo. S. circulação e o consumo de riquezas. do qual. também públicos. Portanto. que se lhe confira uma relativa autonomia. assunto que muito justificadamente mereceu a atenção e os estudos cujas dimensões ninguém pode ignorar. a ciência jurídica é única. ou seja. qual seja. O sistema constitucional brasileiro. e há princípios que informam a todas as suas áreas. oferece suporte tanto para o estudo isolado de cada uma das concreções do fenômeno financeiro como também para a sua tomada em consideração como um fenômeno unitário.

S. às normas que regem a política econômica estatal. só ganha sentido e significação quando embutida dentro da Constituição em sentido amplo. a comercialização de bens. tendo como critério unificador o dado econômico ou a regulação da economia. ou melhor dizendo. autônoma. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . em função da qual se torna inteligível e compreensível. O seu objeto de estudo é a disciplina da captação.O Direito Econômico é um ramo do Direito Público. portanto. Ela não é. guarda e dispêndio dos recursos públicos. que já têm em si o seu valor. um conjunto de normas jurídicas. Pode-se afirmar que ele consubstancia o conteúdo da Constituição econômica. Estas últimas têm por base uma riqueza: a produção. ou seja. ele também regula as atividades econômicas dos particulares. No entanto. do conjunto das regras jurídicas que normatizam a intervenção do Estado na seara econômica. todavia. Cumpre deixar claro que as operações financeiras não se confundem com as econômicas. 69 Professor: Raimundo N. Pelo contrário. O Direito Econômico diz respeito também a intervenção do Estado na economia. Ou seja. Esta pode ser entendida como um sistema. a disciplina jurídica da macroeconomia. enquanto o objeto do Direito Econômico é o estudo das normas que regem o comportamento do ente estatal no que se refere à economia. Como é sabido as normas de direito privado tem grande relevância na configuração jurídica da intervenção econômica. O Direito Financeiro se caracteriza por ser a disciplina jurídica da atividade financeira do Estado. Trata-se. Já o campo financeiro tem por objeto o crédito e as operações com dinheiro.

não há nenhum subdesenvolvido. No segundo grupo. Na primeira categoria. entre o país de mais baixo consumo do governo (Paraguai) e o de mais alto (Suécia). estão França. Já nos países de baixa participação do governo aparecem tanto países subdesenvolvidos. segundo a participação do consumo do governo no consumo final total e no PIB: os de baixa participação. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . como Japão e Hong Kong. é forte a presença do Estado. A relação entre o total da arrecadação tributária mais o déficit do governo e o PIB elevou-se de um patamar ao redor de 16% em 1953 para níveis superiores a 30% na década de 90 do século XX Considerando apenas as despesas de consumo. mantendo-se em patamar próximo a esse em 1994 (15. a Indonésia e a Coréia do Sul. os investimentos e as transferências. a Índia e dois países do Sudeste asiático. Reino Unido.8%. a participação do consumo final do governo é menos do que a metade da participação na Suécia.IX CAPITULO IX – A EVOLUÇÃO DO ESTADO 1. No grupo de maior participação do governo.4%). Em conseqüência. 70 Professor: Raimundo N. a exemplo de Paraguai e Venezuela. a Bélgica e a Itália. isto é. elevação semelhante é também observada no volume total de recursos necessários ao financiamento da expansão das atividades. observam-se quatro países da América do Sul. Canadá. por exemplo. a participação do setor público é mais de quatro vezes superior. o setor público no Brasil apresentou uma expansão considerável nos últimos 50 anos. para 15. como os de grande capacidade econômica. além do Brasil. encontram-se os Estados Unidos.1 sugerem que a participação do governo no consumo final está mais associada ao modelo de desenvolvimento seguido por um país do que a seu grau de desenvolvimento: em países como a Suécia e a Dinamarca. CRESCIME MENTO EVOLUÇÃO DAS FUNÇÕES DO GOVERNO E CRESCIMENTO DO SETOR PÚBLICO De acordo com os índices globais.9%. entre 1948 e 1994. Tal expansão refletiu-se em crescimento significativo do volume de despesas do governo e na participação das despesas totais no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Dessa forma. Observa-se ainda que. a Holanda. país de mais alta renda per capita entre os listados. o Japão — membro do grupo dos sete países mais poderosos economicamente do mundo (G-7) —. em que as políticas de bem-estar social se destacam. os de média participação e os de elevada participação. Já no Japão. A Tabela IX. Os dados disponíveis indicam que. os números da Tabela IX. Nota-se que.1 classifica os países em três categorias. elevou-se de 17% do PIB em 1948 para uma média de 30% nos últimos anos do período considerado. Alemanha e países escandinavos. S. No Brasil. entre os países de alta participação do governo. chega-se a resultados interessantes. excluídas as empresas do governo. desconsiderando-se as despesas financeiras. a despesa total do setor público. a participação do consumo final do governo no PIB aumenta de 9. em 1991. em 1984.

IX. 71 Professor: Raimundo N. insuficiente para permitir conclusões acerca da dimensão do setor público. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .I: Participação do consumo final do governo nas despesas de consumo final e no PIB (1994) — países selecionados. todavia. A simples observação dos índices globais de relação entre despesas e tributos e o PIB é.I Participação Tabela IX. a forma pela qual a expansão das despesas é financiada é também importante. Por outro lado. S. tendo em vista os diferentes efeitos de políticas de financiamento da expansão dos gastos sobre o nível e a distribuição da Renda Nacional. E necessário que a avaliação seja feita com base na identificação das principais atribuições econômicas do Estado e do papel da diversificação dessas atribuições como determinantes do crescimento das despesas do governo.

1971. A intervenção do governo visando orientar a aplicação de recursos nesse setor seria. seriam chamados de “bens públicos”. 23 O segundo caso refere-se à produção de bens cujas características especiais de demanda tornem o mecanismo de determinação de preços no mercado incapaz de orientar a aplicação de recursos com a finalidade mencionada. refletindo uma evolução dos princípios teóricos que recomendavam a necessidade de intervenção governamental no sistema econômico. portanto. H. por exemplo. b) promover ajustamentos na distribuição da renda. Ajustamentos na alocação de recursos seriam requeridos sempre que não fossem encontradas condições que assegurassem maior eficiência na utilização dos recursos disponíveis na economia mediante o funcionamento do mecanismo de determinação dos preços no mercado. distinguem-se dos demais principalmente pela indivisibilidade de consumo. Pesquisa e planejamento. em que as características especiais de oferta e demanda não induziam o setor privado a produzir —. Rio de Janeiro Ipea/Inpes. A grande crise de depressão econômica da década de 30 do século XX deu origem a estudos que vieram justificar a necessidade de o governo intervir na economia para combater a inflação ou o desemprego de mão-de-obra. Exemplos clássicos desse tipo de bem são fornecidos por serviços de 22 MUSGRAVE. New York: McGraw-Hill. essas atribuições enquadram-se em três grandes categorias: a) promover ajustamentos na alocação de recursos. De uma posição inicial bastante modesta. As duas grandes guerras mundiais provocaram alterações definitivas nas preferências da coletividade quanto à necessidade de interferência do governo. 35-82. a preocupação com os problemas de desenvolvimento econômico constituiu-se em outro fator importante para aumentar as atribuições do governo — especialmente em países retardatários na corrida pelo desenvolvimento. na qual lhe cabia apenas a prestação de alguns serviços essenciais à coletividade — tais como justiça e segurança. p.2. Paul. ao induzir a expansão da atividade econômica em uma região. HENDERSON. considerados os efeitos diretos e indiretos sobre a atividade econômica na região. In: CAMERON. A construção de uma estrada. The theory of public finance. ou a problemas de satisfação de necessidades coletivas. 23 Um tratamento extenso do problema de análise e cálculo da rentabilidade macroeconômica de projetos de investimento do Governo é encontrado em Edmar L. S. isto é. isto é. o papel do governo na economia modificou-se substancialmente. é bastante superior à rentabilidade que resultaria da apreciação isolada do empreendimento. A análise da rentabilidade macroeconômica de projetos de investimento no Brasil. Aspects of public expenditures. 1959. jun. No pós-guerra. Bacha e outros. n 1. O primeiro era usualmente utilizado para justificar a intervenção do governo em atividades relacionadas à expansão da infra-estrutura econômica. 72 Professor: Raimundo N. e c) manter a estabilidade econômica. segundo definição de Paul Samuelson24. A. 1. Richard A. Os casos mais importantes a serem considerados referiam-se à possibilidade de existência de economias externas. 24 SAMUELSON. a rentabilidade do projeto.. Como resultado dessa evolução. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . uma distribuição de renda mais eqüitativa e uma ampliação das atividades previdenciárias e de assistência social para o atendimento das classes menos favorecidas. assim como modificações nas preferências da coletividade quanto à intervenção do governo em atividades relacionadas à distribuição da Renda Nacional. Nesses casos. visando à promoção do bem-estar social. 1966. New York: Random House. independentemente de manifestação individual de preferências. v. ampliou-se o elenco das atribuições econômicas governamentais. W Public finance selected readings. Esses bens que. ECONÔMICAS ATRIBUIÇÕES ECONÔMICAS DO GOVERNO As funções do governo na economia expandiram-se consideravelmente nos três primeiros quartéis do século passado. De acordo com a classificação tradicional de Musgrave22. poderia promover um resultado sobre o nível de Renda Nacional muito superior ao resultado individual do empreendimento do ponto de vista do setor privado. devem ser consumidos por todos. justificada.

a preocupação fundamental consiste em controlar o nível agregado de demanda. Isso significa que. por exemplo. é considerada necessária. Daí a exigência da intervenção do governo com o objetivo de satisfazer a essas necessidades coletivas. os recursos necessários à sua produção teriam que ser obtidos por meio da tributação. a exemplo dos bens públicos. utilizando a tributação para obter compulsoriamente os recursos necessários ao financiamento de sua produção. Tal é. introduzindo maior progressividade nos tributos. por exemplo. 73 Professor: Raimundo N. como também aos respectivos níveis de produtividade. a alocação de recursos para a produção desses bens por parte do setor privado afigura-se. do controle dos gastos públicos. Tal é o caso. Todavia. Musgrave denominou esses bens de “bens meritórios”25 tendo em vista que seria exatamente o caráter de mérito associado a sua produção que justificaria a intervenção do governo com o objetivo de produzir em quantidades superiores àquelas que seriam normalmente produzidas pelo setor privado. S.segurança e justiça. é importante notar que. a correção de desigualdade na repartição do Produto Nacional poderia ser efetuada mediante intervenção governamental. por motivos principalmente de idade. As exigências de manutenção da ordem interna e externa e de defesa nacional constituem uma necessidade coletiva da comunidade. de forma a impor um ônus relativamente maior sobre indivíduos de nível de renda elevada. a distribuição do Produto Nacional pelos diferentes habitantes do país está condicionada não só à disponibilidade relativa dos fatores de produção. 26 Além da redistribuição da renda gerada entre os indivíduos que contribuíram para sua formação. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Quanto ao objetivo de manutenção da estabilidade econômica. a distribuição da renda gerada pelos habitantes do país pode não ser considerada socialmente aceitável. à medida que critérios puramente econômicos de eficiência são considerados nas decisões relativas à utilização dos fatores de produção. por exemplo) as classes de renda mais baixa. com caráter gratuito ou a preços subsidiados. numa economia de mercado. do crédito e dos níveis de 25 Também chamados de “bens semipúblicos”. não integram a população economicamente ativa do país. De um lado. a determinação de um preço por meio do mercado pelo mecanismo clássico de oferta e demanda torna-se impossível. na medida em que é impossível avaliar a quantidade desses serviços que é consumida pelos diferentes indivíduos. O controle da demanda agregada implica intervir sobre o crescimento das despesas privadas e governamentais de consumo ou de investimento por meio. e. também. um elevado nível de preços pode impedir. se critérios puramente econômicos fossem utilizados. exatamente. impraticável. de outro. Tendo em vista que substanciais economias externas estão associadas à elevação do nível de educação e de saúde da comunidade. na ausência de um preço de mercado. o caso dos serviços de educação e saúde. ampliando despesas de transferência que beneficiem direta ou indiretamente (mediante manutenção de serviços gratuitos — Educação e Saúde. das atividades relacionadas ao pagamento de pensões e auxílios a aposentados ou à infância. a produção desses serviços pelo governo. com o propósito de atenuar o impacto social e econômico de crises de inflação ou depressão. tem papel importante na atividade redistributiva do governo a manutenção de grupos de indivíduos que.26 Nesse caso. Um caso intermediário entre os bens públicos definidos e os de mercado seria constituído por bens que. o acesso de uma parcela substancial dos habitantes aos benefícios resultantes da oferta dos serviços mencionados. embora passíveis de exploração pelo setor privado. Nesse caso. especialmente em países de baixa renda. e que por esse mesmo motivo teriam rendimento nulo. Um dos processos mais utilizados com vista em tal objetivo consiste. tendo em vista os benefícios sociais a eles associados. No que se refere à necessidade de ajustamentos na distribuição da renda. Embora passíveis de serem produzidos pelo setor privado. poderiam ser totalmente ou em parte produzidos pelo setor público. de forma a repartir os encargos pela comunidade. por exemplo. e. em utilizar o sistema tributário e a política de gastos governamentais.

inclusive o próprio crescimento do número de bens públicos em decorrência de maior complexidade da vida urbana. É necessário enfatizar. WISEMAN. a densidade demográfica. a demanda global de bens produzidos pelo governo apresenta-se. em virtude de modificações tecnológicas e da crescente necessidade de vultosos investimentos para a expansão de alguns setores industriais.. 70. Toronto: Canadian Tax Foundation. À medida que outros fatores — principalmente demográficos — evoluem juntamente com o próprio crescimento da renda. A contribuição de Adolph Wagner ao estudo do crescimento e das despesas públicas é sintetizada na chamada “Lei de Wagner”. 1970. com elasticidade-renda superior à unidade. de tal forma que a participação relativa do governo na economia cresce com o próprio ritmo de crescimento econômico do país. A terceira razão é em face do desenvolvimento de condições para a criação dos monopólios. na medida em que a manutenção da estabilidade constitui um requisito importante para que seja alcançado o objetivo de manutenção de taxas elevadas de crescimento. que a hipótese formulada se refere ao crescimento dinâmico da participação do governo em um mesmo país e não pode evidentemente ser comprovada com base em comparações internacionais que utilizem a relação despesas governo/PIB em um ponto do tempo para diferentes países30. a população. 1970. 76. The growth of government spending in Canada. Op. 74 Professor: Raimundo N. conforme observa Richard Bird. Entre essas se destacam as contribuições de Adolph Wagner27 e de Peacock e Wiseman28 quanto ao estabelecimento de hipóteses teóricas que expliquem o processo de evolução do setor público. cujos efeitos teriam que ser reduzidos por meio de maior intervenção direta ou indireta do governo no processo produtivo. Alan T. 2. Em ambos os casos. o setor público cresce sempre a taxas mais elevadas. a proposição estabelecida anteriormente. 27 A contribuição de Wagner é resumida por BIRD. Crescimento das despesas públicas a. Princeton : Princeton University Press. são destacados como variáveis importantes na análise e determinação do crescimento dos gastos nas diferentes funções exercidas pelo governo. todavia. Canadian Tax Papers. v. cuja demanda deveria aumentar com o crescimento econômico do país. Embora a “Lei de Wagner” não tenha sido estabelecida com base em verificações empíricas de preferências individuais por bens públicos durante o processo de crescimento. 51. cit. cit. S. processo esse que vem-se expandindo substancialmente com base em estudos econométricos. 29 BIRD. p. que estabelece a seguinte proposição: “À medida que cresce o nível de renda em países industrializados. Hipóteses teóricas Algumas generalizações sobre o comportamento dinâmico das despesas públicas têm sido formuladas.” As razões apontadas para a formulação de tal hipótese são de três tipos. em parte. normalmente. Richard. 30 Esse ponto também foi notado por BIRD.29 A primeira é relacionada ao crescimento das funções administrativas e de segurança que acompanham o processo de industrialização. sua argumentação aproxima-se de tentativas recentes de explicar o comportamento da evolução das despesas públicas baseado nos estudos econométricos da demanda dos diferentes componentes da atividade exercida pelo governo. Richard. enfatiza-se o problema da identificação dos determinantes da expansão de gastos do governo baseado na análise empírica de dados disponíveis. Jack. o grau de urbanização etc. o que comprova.tributação. The growth of public expenditure in the United Kirigdom. 28 PEACOCK. Vale a pena notar que problemas de estabilidade econômica são particularmente importantes no caso de economias subdesenvolvidas. Em praticamente todos os estudos formulados. p.1. A segunda é devida ao crescimento das necessidades relacionadas à promoção de bem-estar social (Educação e Saúde). a renda per capita. Op. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .

Em períodos normais. Para eles. é limitada pela possibilidade de crescimento da tributação. segundo Peacock e Wiseman. teriam. De outro. por sua vez. comportamento diferente quanto à demanda de bens produzidos pelo governo e quanto à disposição de contribuir com os recursos necessários à produção desses mesmos bens. como a década de 30 do século XX. se faria sentir quando grandes perturbações de natureza política ou socioeconômica — tais como as grandes guerras mundiais — contribuíssem para aliviar a mencionada resistência ao incremento na tributação. as características do “efeito-translação” citado. ao mesmo tempo em que a execução direta é atribuída aos governos locais. Como o processo só funciona enquanto persistir a ilusão monetária. elevaria imediatamente o total de gastos aos novos níveis permitidos pelo incremento na disponibilidade de recursos. nos quais o mecanismo decisório é progressivamente centralizado nas mãos do Governo Federal. a análise de Wagner enfatiza a renda per capita como principal variável a explicar a expansão da demanda de bens produzidos pelo governo. Peacock e Wiseman identificam outro efeito importante no processo de crescimento dos gastos do setor público: o “efeito-concentração”. 75 Professor: Raimundo N.Peacock e Wiseman. a resistência à elevação da carga tributária seria suficiente para impedir um crescimento dos gastos. as contribuições teóricas mencionadas parecem complementar-se na tentativa de generalização de princípios que explicam o processo de crescimento das atividades do setor público. Esse efeito de fatores exógenos sobre o comportamento dos gastos foi chamado de “efeito translação”. embora em longo prazo a participação das despesas do governo na Renda Nacional cresça. e como esta tende a desaparecer à medida que perdura a inflação. estaria limitado pelas possibilidades de expansão da oferta. Este. períodos de grande depressão econômica. pelo mecanismo normalmente chamado de “poupança forçada”. O caso da inflação é típico e interessa de perto à experiência brasileira e de outros países em processo de desenvolvimento. Este se refere à tendência à progressiva concentração das decisões em níveis mais elevados de governo. Para a análise secular do crescimento das despesas públicas. o crescimento das atividades do governo é limitado pelas possibilidades de expansão da oferta. Os indivíduos. a qual. assim. De um lado. Além do “efeito-translação”. Peacock e Wiseman estabelecem que o crescimento do setor público. Essa centralização das decisões — que não significa necessariamente centralização dos gastos — tem sido grandemente observada em países de organização federal de governo. assumindo. a despeito da pressão exercida pelo crescimento da demanda. Além das guerras mundiais. em que pese o crescimento da demanda. concomitantemente com a própria expansão da participação do governo na economia. o crescimento dos gastos totais do governo em determinado país é muito mais uma função das possibilidades de obtenção de recursos do que da expansão dos fatores que explicam o crescimento da demanda de serviços produzidos pelo governo. reconhecido pelos autores como o principal fator a explicar o processo evolutivo das despesas governamentais com base na análise empírica da experiência da Grã-Bretanha. tornado efetivo. Esta. mas obedecer a um padrão alternado de períodos de relativa estabilidade com outros de rápido crescimento. a expansão dos gastos é financiada com a emissão de papelmoeda. Isso significa que. por seu turno. assim. o efeito sobre o nível relativo das despesas do governo no produto é transitório. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o processo de crescimento não deve apresentar-se harmônico. À medida que os indivíduos sofram de ilusão monetária. limitadas pelas possibilidades de incremento na tributação. ou de acentuado processo inflacionário têm sido mencionados como fatores capazes de provocar o “efeito-translação” referido. As razões principais para a ocorrência do fenômeno mencionado estão basicamente associadas ao objetivo simultâneo de centralização das decisões para compatibilizar os problemas de política fiscal com a formulação geral de política econômica. por outro lado. abordam o problema de crescimento das despesas públicas por um ângulo completamente diferente. Nesse caso. e de descentralização das atividades executivas para aumentar a eficiência da atuação do governo. o limite à expansão dos gastos imposto pela resistência a aumentos na carga tributária pode ser superado utilizando a inflação como um substituto para aumento dos tributos. e estas. por sua vez. Isto é. S.

O total de despesas do setor público. as despesas públicas atingem a média de 39% do PIB. tornada imperiosa pela política antiinflacionária. até 1967. a expansão dos gastos públicos assumiu proporções consideráveis no período 1948/1994. a ocorrência do “efeito-translação” a que se refere o estudo de Peacock e Wiseman é notada particularmente nos períodos 1955/1960 e 1965/ 1969. Até 1993. Fontes: FGV e IBGE. de forma a não reduzir o total de recursos disponíveis para aplicação pelo setor público. nesse mesmo período. as despesas expandiramse de cerca de 17% em 1948 para 19% em 1950. devido à redução na arrecadação tributária. o total de recursos disponíveis para aplicação pelo setor público se elevasse de 16. crescendo para 20.Participação da despesa total do setor público brasileiro no PIB — 1948/ 1994.7 para 2. as despesas públicas atingem novo patamar. No primeiro caso. Em relação ao PIB.b. Tal fato pode ser. Nesse período. Em particular. De acordo com essas informações. A redução do déficit. caindo em 1994 para 26%. S. A partir de 1962. No intervalo 1960/1963. exigia.1.8% do PIB. quando experimentam novo salto: 22% em 1967 e 1968. 23% em 1969 e 26% em 1970. o total do déficit do governo financiado praticamente em sua totalidade por emissão de papel-moeda elevou-se de 0. o total de recursos disponíveis manteve-se estável. Na segunda metade da década de 80. em contrapartida. A experiência brasileira Uma boa aproximação do caso brasileiro às formulações teóricas apresentadas anteriormente é proporcionada pela análise dos dados disponíveis. cresceu cerca de oito vezes em termos reais. elevação da carga tributária. excluindo empresas do governo. a disposição do governo de promover o crescimento econômico simultaneamente com a estabilidade do nível de preços modificou substancialmente a política de financiamento dos gastos. até 1961. exceto em 1990 (32%). tendo em vista não comprometer o objetivo 76 Professor: Raimundo N. observado com base no exame dos dados apresentados na Tabela 1.2. a continuidade do processo inflacionário teria acabado com os possíveis efeitos da ilusão monetária sobre a disponibilidade real de recursos para o setor público por meio da utilização do mecanismo de emissão. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Nos anos 80. ficando em 24% em média nos anos 70. Entre 1955 e 1960. público Gráfico I . a política desenvolvimentista. inclusive. fazendo com que. elevam-se para 21% do PIB.8%. e ao redor de 20% nos demais anos.3% em 1962). em que pese a continuidade no crescimento da relação déficit/PIB (atingindo 4.6% em 1953. chegando a 28% do PIB em 1984. reunidas no Gráfico 1. teria sido o principal fator a explicar o rápido crescimento exigido pela disposição de acelerar o ritmo de crescimento econômico do país. e situando-se acima de 21% em 1957 e 1958.4 para 22. A partir de 1964. as despesas permanecem acima de 40%. com a utilização do mecanismo inflacionário para financiamento da expansão dos gastos públicos.

em conseqüência.2% do PIB. Com a farta disponibilidade de recursos no mercado internacional. 31 Certamente. contribuíram para tomar possível o incremento necessário na carga tributária. Sua importância só fica perfeitamente caracterizada com a observação apresentada sobre a alteração na estrutura do financiamento. É um período conturbado da história política e econômica do país. que eleva o valor nominal da dívida e. a redução do chamado efeito Tanzi (perda de arrecadação causada pela inflação em razão da defasagem de tempo entre o fato gerador do tributo e o efetivo recolhimento pelo governo). em parte pelo controle do gasto público.0 para 27. a receita tributária permanece em torno de 30% do PIB. prosseguia a política de investimentos públicos. as despesas públicas aumentaram consideravelmente. para não sofrer um inevitável impeachment. conforme pode ser observado na Tabela 1. A manutenção da carga tributária em patamar elevado. Titulares de ativos financeiros. A elevação total nos recursos disponíveis (22. o déficit público cresceu substancialmente. bem-sucedido apenas nos primeiros meses. o crescimento do déficit deve-se à aceleração da taxa de inflação. Além disso. incluindo conta corrente e caderneta de poupança. elevação essa parcialmente utilizada para reduzir a participação do déficit no PIB a níveis inferiores àqueles existentes em 1956. que esse ano é atípico em termos de receita tributária. Note-se que esse período corresponde ao último governo do período militar. Na primeira metade dos anos 80 do século XX. No início da década de 70 do século XX. também. Sua política econômica foi marcada pela tentativa controvertida de controle da inflação. O primeiro Presidente da República eleito após mais de 25 anos sem eleições diretas renuncia. em que o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) foi o grande símbolo. Em parte. Note-se que a receita tributária saltou de 22. Novamente. com a oposição fortalecida. nesse período. o “efeito-translação” não foi totalmente evidenciado mediante simples observação do crescimento da relação despesa/PIB. trazendo dificuldades para as contas externas. condições excepcionais. notadamente em exploração de petróleo e na substituição de importações de insumos básicos e nas atividades voltadas à exportação (Carneiro & Modiano. S. que atinge 33% do PIB31. A segunda metade dos anos 80 do século XX marca-se pela explosão do déficit público. poder-se-ia falar no efeito-translação para explicar o crescimento dos tributos: a sociedade estaria disposta a pagar mais impostos em prol da consolidação da recém-restabelecida democracia. o preço do petróleo quadruplicou. sendo difícil o aumento da carga tributária. registraram-se pequenos déficits. as baixas taxas de juros e o esforço de ajuste fiscal iniciado no final da década de 60 trouxeram superávit público em alguns anos da década de 70 do século XX. Na primeira metade dos anos 90 do século XX. o pagamento de juros. em 1963. Note-se.9% do PIB.9% do PIB em 1985 para 28. É importante notar que. Em 1978 e 1979. com a continuidade de grandes investimentos públicos. sem o correspondente aumento das receitas. 77 Professor: Raimundo N. 1990). Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . em 1968) foi bastante inferior à elevação total da carga tributária.simultâneo de promover o crescimento da economia.2. foram impedidos de sacá-los por 18 meses. para 27.3% em 1989. mas na maior parte pela redução da inflação. Entre 1963 e 1969. até 1977. embora a carga tributária tenha elevado-se.7%. em especial as despesas com juros (em decorrência do aumento do endividamento nos anos 70 do século XX e da elevação da taxa de juros americana) e com a previdência social. o governo manteve a política de crescimento econômico. Nesse período. a carga tributária elevou-se de 18. Em conseqüência. Houve superávit em 1990. que poderiam ser enquadradas nas perturbações sociais consideradas como capazes de alterar a disposição dos indivíduos quanto à aceitação de incremento nos níveis de tributação.

existindo falhas de mercado que justificam a intervenção do governo. Falhas de mercado No mundo real. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .2. S. 2. de externalidades.Participação dos recursos do setor público no PIB — 1947/1994. 78 Professor: Raimundo N. São exemplos mais comuns de tais falhas a existência de bens públicos. Fontes: FGV (até 1973) e IBGE — Departamento de Contas Nacionais (1974 em diante). Determinantes das despesas públicas a. de participantes do mercado com grau elevado de influência sobre os preços e a quantidade produzida e de assimetria de informações. mercados perfeitamente competitivos são raros.Tabela II .

o próprio processo de crescimento econômico tem provocado deseconomias externas que implicam a necessidade de manutenção de novos serviços pelo governo. Por outro lado. provavelmente. ambulatórios etc. a ampliação dos serviços assistenciais e de saúde pública etc. ampliam-se as necessidades de gasto de transferência com pensões. O regresso de um brasileiro que estava no exterior não diminui a defesa nacional dos que já estão e não seria possível ao governo excluir esse cidadão de usufruir da defesa das fronteiras do país. Há. bombeiros etc. Segundo. jardins. trânsito. como é provável em países em processo de desenvolvimento. as necessidades de escolas. A educação é um bom exemplo: até determinado limite. Maior número de habitantes implica a necessidade de crescimento dos serviços de segurança. mediante. O sistema de preços reflete apenas os custos e os benefícios privados. O que há em geral é um contínuo em que uma parte maior ou menor dessas características é observada. por exemplo. bens públicos são geralmente ofertados pelo governo. modificações na estrutura etária da população tendem a reforçar ainda mais a demanda de serviços culturais e assistenciais. o aumento do número de escolas. Além dos bens públicos puros. Em primeiro lugar. visto que não há incentivo para uma empresa ofertar um bem que pode ser consumido por qualquer um sem nenhum pagamento. outra causa importante da necessidade da expansão de gastos governamentais com a manutenção dessa atividade relaciona-se à própria ampliação do número desses bens à medida que o país se desenvolve. Há quem os classifique como bens meritórios. esses bens são insuficientemente ofertados pelo mecanismo de mercado. assim. cujo consumo é claramente não rival e não exclusivo. Além do crescimento da demanda de bens públicos e semipúblicos referidos. para dado crescimento populacional. Se esse crescimento populacional faz-se ainda acompanhar por incrementos mais que proporcionais na população urbana e por um alargamento da base da pirâmide etária. Incrementos na urbanização aumentam a demanda de serviços urbanos (ruas. sendo necessária a presença do governo para incorporar as externalidades ao custo privado. o efeito será maior sobre a necessidade de gastos em escolas. na categoria de bem semi-público. c. Se a modificação se refere a aumento da população inativa por idade elevada. ou seja. É raro encontrar bens públicos que atendam completamente às características de nãorivalidade e não-exclusividade. que possuem parte das características dos bens públicos. há os bens semipúblicos. não há rivalidade no consumo do serviço (a aula). capacidade de facilmente excluir alguém do consumo. creches. a elevação do nível de renda per capita e do padrão de vida da população amplia o tempo disponível para o lazer. parques. hospitais. isso justificando a atuação do governo no fornecimento de tais bens. ambulatórios especializados etc. Com tais características. praias etc. mais acentuados. o que a enquadra. O exemplo mais acabado é a defesa nacional. polícia. Por essa razão. não há diferença se em uma sala de aula entra um novo aluno. saneamento. Bens Públicos Bens públicos puros possuem duas características: a não-rivalidade e a impossibilidade de exclusão de seu consumo. assistência médica. o que implica criar demanda de novos tipos de bens públicos: museus. S. todavia.b. os efeitos sobre as necessidades de expansão dos bens públicos e semipúblicos são ainda. O crescimento populacional exerce efeito direto sobre o volume de bens públicos e semipúblicos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .) e ampliam mais que proporcionalmente. Caso típico consiste na poluição do meio ambiente que acompanha o processo de industrialização e que vem criando um novo tipo de obrigação para o governo: o controle da poluição e a preservação do meio ambiente. Se as alterações implicam aumento da população jovem (alargamento da base da pirâmide). a 79 Professor: Raimundo N. já que é impossível excluir alguém do consumo. praças. A atuação do governo dar-se-ia pelo mérito intrínseco que a educação possui. aposentadorias etc. Externalidades As externalidades implicam custo e benefício sociais diferentes do custo e do benefício privados.

O papel do governo é tentar mitigar a assimetria de informação por meio de leis e de fiscalização sobre as informações de que todo consumidor deve dispor. Essas estruturas de mercado fazem a produção ser menor que na de concorrência perfeita e o preço mais elevado. No Brasil. Journal of Law and Economics 3. porque um dos lados é muito mais forte que o outro. sob pena de a informação disponível ao consumidor ser deficiente. O que há. Informação assimétrica Freqüentemente. são necessárias leis especificando o que deve ser informado pelos fabricantes. com o intuito de regular as atividades desses setores. em geral. d. por natureza pouco competitivos e que prestam um serviço essencial à população. Há também o caso de externalidades positivas que podem demandar a intervenção do governo para que não haja uma sub-oferta. o governo precisa intervir. Dessa forma. é uma forma de competição imperfeita. 1960). Mesmo que a sombra eventualmente beneficie vizinhos. O governo pode aumentar o benefício privado mediante a distribuição de mudas ou descontos de taxas para moradores que plantem árvores. mercado Poder de mercado A existência de produtores e consumidores atomizados.tributação ou incentivo fiscal. Muitas vezes. o governo criou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). como matéria-prima e mão-de-obra. Após várias décadas de convivência com um Estado que absorvia grande parte das responsabilidades pela provisão de bens a serviços. seja pela limitação de fusões. Por exemplo: alguém planta uma árvore em frente de sua casa com o intuito de obter sombra para estacionar seu carro. e. estímulo à concorrência. o que muitas vezes não ocorre. muitas vezes prejudicando os consumidores. como o CADE e a Secretaria de Direito Econômico. Caso os moradores não consigam entrar em acordo com o dono da fábrica. em decorrência dos novos desafios impostos pelo avanço da privatização. que. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . na conta do que plantou a árvore só está o benefício privado. dos componentes químicos de um alimento ou medicamento que consomem. piorando a qualidade de vida dos moradores. a proposta de reforçar sua função reguladora. aplicando uma multa ou uma taxa ao fabricante e destinando seu produto aos moradores como forma de compensação32. em vários países da região. aproximando-se do custo social. como o monopólio e o oligopólio. mediante as várias formas de regulação existentes: fixação de preço máximo. Ele não incorporará em seus custos o malefício que causa. 80 Professor: Raimundo N. 32 O Teorema de Coase (ver COASE. o custo privado elevar-se-ia. de lucro máximo. não constando os gastos dos vizinhos com remédios ou purificadores de ar em conseqüência do ar poluído. há leis obrigando o sistema financeiro a informar que taxa de juros se cobra dos consumidores e o preço total a prazo. por exemplo. 3. com a privatização dos serviços de utilidade pública — Telecomunicações e Energia Elétrica —. O papel do governo é então limitar o poder de mercado das firmas. há assimetria de informação no mercado. neste caso. é menor que o social. Estes devem ser informados. AO DO ESTADO PROVEDOR AO ESTADO REGULADOR Um dos aspectos mais enfatizados no debate recente sobre a reforma do Estado na América Latina é o que aponta para uma profunda mudança na natureza de suas atribuições. Por exemplo: um fabricante que polui o ar de uma cidade. não é comum no mundo real. Também com a função de regular o mercado há diversos órgãos do governo. seja com incentivos diretos à instalação de competidores. se houver baixo custo de negociação e possibilidade de ganhos para ambos os lados. ganha corpo. The problem of social cost. com fabricantes ou outros vendedores dispondo de muito mais informações sobre os produtos que produzem ou comercializam que os consumidores. segundo o qual o resultado das negociações entre as partes será eficiente. R. Da mesma forma. lá estarão apenas seus insumos. S. tomadores de preços.

É preciso. Quanto maior for o espectro de questões a serem objeto da regulação. em face da importância da escala produtiva para a preservação de padrões de competitividade compatíveis com os apresentados por grandes conglomerados internacionais. 81 Professor: Raimundo N. Discute-se. S. a que se volta para a instituição e a operação de mecanismos eficazes de defesa da concorrência. a privatização é o fator novo que aviva o debate sobre a regulação. embora a privatização reduza o dispêndio público. maior será a transferência para o setor privado de custos até então suportados pelo governo. quanto no econômico. Segundo. tráfico de drogas e segurança firmam-se cada vez mais na agenda internacional e exigem novos esforços de cooperação. pois. e que está a exigir profundas mudanças de atitudes e de métodos com respeito ao relacionamento entre Estados e entre eles e suas sociedades. a regulação impõe custos sociais que nem sempre são facilmente percebidos. o problema de regulação dos mercados financeiros e a necessidade de maior controle sobre os fluxos internacionais de capitais para evitar a ocorrência de crises provocadas pela alta volatilidade desses fluxos. A globalização financeira. o debate sobre a necessidade de regulação enfrenta as dificuldades decorrentes da inexperiência nessa matéria. a formação de blocos regionais. estabelecer novos padrões de gerenciamento das políticas públicas. a privatização de empresas públicas. Novas instituições são criadas para arbitrar conflitos no comércio internacional. também. A transformação do Estado provedor em um Estado regulador traz importantes desafios para os países da região. prioritárias no Brasil com respeito à regulação. o fortalecimento dos poderes locais (descentralização) alteram radicalmente o contexto no qual se situavam as estratégias de desenvolvimento dos países da região. tanto no cenário político. mas não é o único aspecto a ser considerado. exigindo. a que se refere aos novos mercados que advirão do processo de privatização: a infra-estrutura e de serviços urbanos. as atribuições do poder concedente. 27 July 1996) estima que o custo da regulação imposta pelo Governo norte-americano já alcança montante equivalente a 47% do orçamento federal daquele país. nem o abandono de conhecidas práticas desleais de comércio. tanto no mercado interno. quanto no internacional. De outra parte. os referentes às relações internacionais. gerando uma situação na qual o concessionário assumia. em particular. pois. O conhecimento técnico especializado migrou da Administração Pública para as empresas estatais e outras entidades dotadas de autonomia gerencial e financeira. É preciso levar em conta que as mudanças necessárias no papel do Estado relacionam-se a um conjunto mais amplo de transformações que sacudiu o mundo nesse final de século. 33 Reportagem recente (The Economist. Após várias décadas de predominância da intervenção direta do Estado na vida econômica e social do país. Trata-se. No Brasil. a abertura comercial cria a necessidade de se repensarem os mecanismos de defesa da concorrência. Duas áreas são. na prática. profunda revisão do papel a ser desempenhado pelo Estado nesse momento. por exemplo. as exigências da competitividade demandam nova postura diante do processo de fusão e incorporação de empresas. portanto. A queda das barreiras tarifárias não significa o fim de práticas restritivas ao livre intercâmbio de mercadorias e serviços. apenas de regular os novos mercados que emergirão do processo de privatização.A rigor. de re-regular outros aspectos importantes da vida econômica. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . as entidades públicas encarregadas da produção de mercadorias e da prestação de serviços tornaram-se mais poderosas do que os órgãos que supostamente deveriam controlá-las. Problemas ambientais. nos foros internacionais. instituir novas formas de parceria e de controle social. Não se trata. Primeiro. em contrapartida. No plano doméstico. a abertura comercial. o que irá exigir maior rigor na aferição de seus benefícios33. É preciso modificar a cultura burocrática. acima de tudo. aumentar a transparência das ações do governo.

Os limites da autonomia precisam ser demarcados à luz das preocupações mais gerais com o planejamento setorial e a formulação de políticas voltadas para a expansão e modernização dos setores que estão sendo privatizados. A questão da representatividade dos interesses envolvidos. Como a estabilidade das regras — em especial a questão tarifária — é crucial para o processo da privatização. ser vista de forma dissociada das demais. b. E ponto pacífico que a administração dos órgãos reguladores deve ser cometida a um colegiado. Os limites da autonomia do órgão regulador e de seu colegiado são dados pelo enorme desafio da expansão e modernização da infra-estrutura e sua importância para o desenvolvimento do país. é preciso analisar a natureza das atribuições do órgão regulador. A separação de funções é uma alternativa a ser contemplada. o colegiado deveria ser composto por representantes dos três principais interesses envolvidos: governo. desde logo. e a tese da autonomia do órgão regulador poderia ser mais bem assimilada. para evitar conflitos que possam comprometer o próprio avanço do processo. convém destacar: a. dispondo de mandato fixo e não podendo ser demitidos ad nutum. Para outros. por exemplo. como evitar que a privatização acarrete um aumento na exclusão de um expressivo contingente de usuários em potencial do acesso aos serviços? A questão da autonomia não pode. produtores e usuários. em face das particularidades que o caso brasileiro encerra. enquanto no caso brasileiro boa parte dela ainda está por construir. um colegiado de notáveis teria maior chance de desempenhar bem esse papel. c. d. Claro está que a divergência com respeito à composição do colegiado relaciona-se às atribuições do órgão regulador. o impacto inicial da privatização sobre as desigualdades regionais e sociais requer cautela e preocupação por parte do governo. como por exemplo. a independência de opiniões dos membros do colegiado poderia ser mais facilmente aceita. de modo a preservar maior independência em relação aos interesses envolvidos. em face do alcance e do ritmo geograficamente diferenciados da privatização e suas implicações sociais. A tese de que os membros da comissão reguladora devem gozar de ampla autonomia. Nessas condições. mas a composição desse colegiado é objeto de controvérsia. a preocupação com a não-ingerência política nas decisões do órgão regulador é um aspecto central do problema. à questão da representatividade. como conciliar a autonomia do órgão regulador com a preservação de algum grau de interferência do setor público em questões estratégicas para o país. Mantido o planejamento setorial na esfera do governo. Em primeiro lugar. A questão da expansão. a tarifária? Como a privatização deverá avançar a ritmos geograficamente diferentes. o colegiado deveria ser composto por profissionais independentes. S. como o saneamento. de notória especialização e familiaridade com o tema. a britânica —. Entre essas. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . mas que envolve distintos problemas de coordenação. A questão da autonomia do órgão regulador. e A questão da eqüidade. Ela ligase. precisa ser examinada com maior rigor. em particular. Para uns.Algumas questões importantes predominaram no debate sobre a regulação no Brasil na primeira metade dos anos 90. pois. como administrar a convivência de empresas públicas e privadas em um contexto de articulação do poder público com o órgão regulador? Tendo em vista a importância social de alguns serviços a serem privatizados. com maior intensidade a partir da aprovação das emendas constitucionais que quebraram o monopólio do Estado na infra-estrutura. em uma composição paritária e tripartite. Nesse sentido. A autonomia do órgão regulador é um dos focos principais do debate. Com atribuições mais restritas. a privatização não 82 Professor: Raimundo N. Essa é uma questão que usualmente não se apresenta nos casos usados como referência para a análise da situação brasileira — a experiência européia e. Além disso. pois ali se tratava de situações nas quais a infra-estrutura já estava usualmente construída.

o Brasil estaria exigindo um sacrifício muito maior de seus cidadãos. retornando ao patamar de 30% do PIB em que se situava no auge do intervencionismo estatal dos anos 70. ao mesmo tempo em que sejam ampliadas as possibilidades de acesso da população baixa renda a esses serviços. A observação anterior nos remete à discussão da necessidade de adicionar um enfoque global à questão da regulação da infra-estrutura. a experiência mostra que nem a primazia do setor privado (transporte) nem a predominância estatal (saneamento) produziram resultados satisfatórios do ponto de vista do acesso da população pobre a esses serviços. Tal assertiva sustenta-se na constatação de que a carga total de tributos exigidos da sociedade voltou a crescer nos anos 90. Aqui. como as relacionadas à competitividade doméstica e internacional. Em relação a países do mesmo nível de desenvolvimento. E preciso considerar que o equilíbrio na oferta de energia. de transportes. apoiada em um colegiado próprio. — mas nenhuma na área de saneamento (água e esgotos). ainda estão em fase incipiente de reformulação. deles extraindo compulsoriamente recursos equivalentes aos recolhidos pelos governos de países muito mais adiantados. preocupada com um desenvolvimento espacialmente mais equilibrado. Isso significaria instituir uma instância deliberativa maior. para oferecer-lhes. a denúncia de que o Estado brasileiro teria expandido-se demasiadamente.1. S. de telecomunicações. com as responsabilidades de definir políticas para o setor. em que pesem as pressões por avanços mais rápidos nessa direção. estimular e apoiar programas integrados de investimentos e incentivar parcerias com a iniciativa privada em áreas que não apresentarem condições imediatas propícias de rentabilidade. 83 Professor: Raimundo N. também não pode ser ignorada. após ter declinado na década anterior. Uma política de expansão e modernização da infra-estrutura. A conciliação entre a autonomia do órgão regulador e a preservação de alguma forma de ingerência estatal passa por uma visão abrangente do problema. Nesse caso. em contrapartida. Cabe acrescentar que a questão da composição e da autonomia dos órgãos reguladores também depende do objeto da regulação. Nesses casos. Outras áreas prioritárias. cabendo ao primeiro grande dose de responsabilidade com respeito ao planejamento e aos investimentos com vista em evitar indesejável agravamento das disparidades regionais. Responsabilidades do Estado e tamanho do governo Tem-se intensificado. mas na ausência de uma política integrada para lidar com o problema da exclusão social. não pode ater-se a visões setoriais do problema. de serviços urbanos é indispensável para que o adequado aproveitamento das potencialidades de desenvolvimento de cada região o país seja alcançado. revelando que o problema não está na propriedade dos serviços. A maioria das questões anteriormente levantadas referese ao debate sobre a regulação dos serviços que estão sendo privatizados. Assim. o desafio está em assegurar que a remuneração do capital privado investido em saneamento e transporte urbano seja preservada. nos últimos anos. Comparações internacionais reforçam o argumento. em especial os de infraestrutura. mas uma nova forma de convivência entre ambos — público e privado —. O Brasil tem razoável experiência na área de transportes urbanos — majoritariamente explorado pela iniciativa privada. não é a privatização em si que é objeto de preocupação. serviços da qualidade dos encontrados em regiões mais pobres do planeta. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . principalmente no caso dos serviços urbanos. A preocupação social. mas a ausência de políticas eficazes para lidar com esse problema. as preocupações governamentais com o papel da infra-estrutura na nova estratégia do desenvolvimento do país poderiam ser mais bem atendidas mediante clara distinção entre as atribuições do órgão regulador setorial e as responsabilidades mais gerais do poder público.significa uma retirada do setor público das áreas que estão sendo privatizadas. 3.

S. sustentadas em parcerias do Estado com a sociedade. cuja correção não dispensa a ação coletiva voltada para a eliminação dos fatores que concorrem para a preservação dessas disparidades. com o avanço da privatização. De fato. indicando que os ganhos decorrentes do menor intervencionismo estatal na economia teriam sido absorvidos pelas crescentes exigências de sustentação dos programas sociais. e em que a crise fiscal dita a velocidade e a profundidade das mudanças que devem ser processadas. 84 Professor: Raimundo N. todavia. num contexto em que a universalização do acesso a direitos sociais básicos está longe de ser alcançada. inúmeros fatores que concorrem para distorcer o resultado e as comparações feitas com base em informações sobre o tamanho da carga tributária. o Brasil encontra-se em uma situação particularmente delicada para lidar com o problema em questão. À diferença dos países industrializados. a expansão do Estado do Bem-Estar Social foi o motivo principal do contínuo incremento das necessidades financeiras do Estado. A absorção pelo Estado moderno de responsabilidades sociais que historicamente eram atendidas no seio das famílias cresceu em sintonia com a urbanização. entretanto. como será visto a seguir. é fundamental aprofundar o debate sobre os diferentes aspectos envolvidos. Parte substancial da carga tributária de países como a Suécia. Há. como a apreciação de seu tamanho não pode ser feita isolada da análise de suas funções. Aqui. a. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . para evitar maiores danos ao objetivo de construir uma nação justa e desenvolvida. daí o recurso fácil a essa informação para formar juízos e fazer comparações. Apesar da privatização.Como de hábito. o tamanho de nossa carga tributária é significativamente maior do que a apresentada por outros países nos quais a renda per capita é igual ou maior do que a nossa. A parte mais visível da intervenção é a representada pelo montante de tributos que arrecada. à invalidez e ao desemprego. a aferição do tamanho do Estado não é uma tarefa trivial. uma vez que a forma de atuação do Estado e os instrumentos que ele utiliza variam ao longo do tempo e entre países. à velhice. a Alemanha e a França destina-se à sustentação dos programas de proteção dos riscos sociais associados à doença. Às clássicas funções do Estado sobrepõem-se aspectos culturais. trata-se de reformar o Estado. a participação feminina no mercado de trabalho e a quebra da estrutura familiar. Por isso. A experiência dos países da OECD a esse respeito é bastante elucidativa. necessariamente. Não só a escolha dos indicadores que medem o tamanho do Estado encerra aspectos que podem distorcer comparações. históricos. Nos países industrializados do Ocidente. o debate sobre esse tema é pontuado por posições que mal disfarçam opiniões preconcebidas. podem reduzir a necessidade da mobilização compulsória de recursos pelo Estado. A retirada do Estado das atividades tipicamente produtivas. as necessidades de atuação estatal sofrem a influência de desigualdades regionais e sociais. sociais e políticos que evoluem ao longo do tempo. É excessivo o tamanho do Estado brasileiro? A observação ligeira de alguns indicadores usualmente utilizados para medir o tamanho do Estado pode conduzir a uma resposta afirmativa à questão aqui formulada. A relação entre as funções do Estado e seu tamanho é complexa. alterando a intensidade e a natureza das demandas da sociedade por maior ou menor intervenção do Estado na vida socioeconômica de um país. não acarreta. uma redução no papel e no tamanho do Estado. a relação entre o gasto público e o PIB dos países que integram essa organização manteve-se no patamar alcançado previamente. maior atenção. Na verdade. e rever suas funções. mas a busca de novas formas de solidariedade social. Esse julgamento apressado merece. mas uma mudança em suas prioridades. O retorno ao passado é improvável. Em economias de mesmo tamanho. e é um dos caminhos que vêm sendo insistentemente apontados para manter o tamanho do Estado em níveis aceitáveis.

. podem criar situações artificiais de estímulo a investimentos privados com efeito muito mais poderoso do que o recurso..34 utilizam informações relativas a 31 países para analisar a relação entre a descentralização fiscal e a estabilidade macroeconômica. governos ainda maiores. mas a eficiência e a eficácia de sua atuação também o seriam. com o beneplácito das autoridades monetárias.35 que analisa uma amostra de países da América Latina e da OECD para concluir que. os resultados desses estudos indicam que. um governo cujo tamanho é quatro pontos de porcentagem maior que o dos países mais centralizados”. Decentrulization and Deficits in Latin America. Créditos generosos concedidos pelo sistema financeiro.” Interessa notar que. Uma carga tributária da ordem de 30% do PIB é alta ou baixa quando comparada com as necessidades do país? Que fatores precisam ser levados em conta nesse julgamento? Um aspecto que tem sido objeto de exame recente é o de uma possível relação entre o tamanho do governo e o grau de descentralização político-administrativa do país. em média. portanto. 85 Professor: Raimundo N. E continua: “Países descentralizados com alto grau de desequilíbrio vertical (isto é. a exemplo de renúncias tributárias e subsídios creditícios. o tamanho do governo. é preciso cuidado para avaliar. BID/OECD. É possível dizer. não cobertos com recursos do Tesouro. o tamanho do governo poderia ser maior. Além das conhecidas dificuldades para medir. que constituem opções de financiamento do governo. Luiz. que não requerem aumento de recursos privados depositados nos cofres públicos. De outra parte. ela levanta outros aspectos importantes a respeito. Democracy. Pode também revelar preferências por formas indiretas de intervenção. tomando em consideração. que a 34 FUKUSAKU. Além disso. Todas as formas indiretas de intervenção. como regimes federativos costumam apresentar grau mais elevado de descentralização. a descentralização permite lidar melhor com a diversidade de problemas e de situações. de concessão de incentivos fiscais. Informações sobre o gasto público. Em trabalho recente. Ernesto. porém. Entre outras coisas. Decentralizarion and Deficits in Latin America.1. fazendo com que expressão das demandas da sociedade e a disposição do governo em atendê-las encontrem melhor equilíbrio. por exemplo. 35 STEIN. K. mais usual entre nós. De forma estatisticamente mais rigorosa. esperase que o mais descentralizado apresente. medido pela relação entre o gasto público dessas esferas e o PIB. utilizado na construção da Figura IX. MELLO JR. o que também é importante para o bom desempenho do governo. Seria tal informação um indicador importante para julgamento sobre vícios a virtudes desses dois regimes? Se a descentralização político-administrativa acarreta um aumento no tamanho do governo. “se a diferença entre dois países em termos de grau de descentralização é de 20 pontos de porcentagem. Nesse caso. Uma baixa carga tributária pode estar associada a altos níveis de inflação ou de endividamento. mostram que o tamanho dos governos sub-nacionais. também. também não revelam toda a verdade. a descentralização aproxima governantes e governados. sob condições equivalentes. aqueles em que a descentralização sustenta-se em grande volume de transferência de recursos do governo central para os demais) apresentam. essa mesma relação é demonstrada por Stein. S. talvez fosse melhor medir o tamanho do Estado pelo montante de seu gasto e não por uma de suas modalidades de financiamento.Em primeiro lugar. BID/OECD. estariam desconsideradas. Fiscal decentralization and government size in Latin America. em média. Democracy. Fukusaku e Mello Jr. Fiscal decentralization and macroeconomic stability: the experience of large developing and transition economies. apresenta forte correlação positiva com o tamanho de todo o setor público (medido pela carga tributária global). o tamanho do governo seria maior em uma federação do que em um país unitário. nem sempre é possível saber se estão sendo utilizadas informações que abrangem a totalidade dos órgãos que compõem a estrutura político-administrativa do país ou apenas parte deles. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Os números contidos no estudo em questão.

ainda refletem padrões demográficos do passado. Outros fatores que concorrem para que as pressões sobre o Estado brasileiro devam permanecer elevadas ainda por muito tempo são o ritmo e a natureza das transformações demográficas que vêm ocorrendo.sociedade estaria mais disposta a suportar um Estado maior em situações nas quais seu relacionamento com ele é mais próximo. que hoje já formam um contingente numeroso.Pirâmide etária — Brasil — 1990. mas ainda não provocarão alívio na pressão por novos postos de trabalho. Uma parcela também crescente dos que buscam o primeiro emprego. no horizonte temporal dos próximos 20 anos. oriunda dessas famílias. Como a expectativa de vida aos 65 anos de idade não é muito diferente para os que têm muito pouco e os mais abastados. os que pertencem a famílias de baixa renda.3 expressam com clareza a magnitude das transformações esperadas no perfil da distribuição da população brasileira segundo as faixas etárias consideradas). pois aqueles que irão alcançar a idade de ingresso na força de trabalho. a pré-escola.2 . o traço marcante das transformações demográficas em curso e das projeções para as duas próximas décadas do novo milênio é o rápido envelhecimento populacional. o Brasil terá uma população de idosos quase igual à atual população da Venezuela (cerca de 18 milhões de pessoas com idade superior a 65 anos). Estima-se que. crescerão a índices cada vez mais expressivos (os Gráficos IX. mais de terça parte. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .2 e IX. No conjunto da população infantojuvenil. registra-se a continuidade do processo de acentuada urbanização. assumirão uma participação crescente. Taxas decrescentes de incremento da população jovem reduzirão as necessidades de expansão de serviços a eles direcionados — a atenção materno-infantil. Se na perspectiva nacional as mudanças demográficas já apontam para alguns problemas. A uma velocidade inimaginável há bem pouco tempo. Cerca de 80% da população brasileira já vive em áreas urbanas. a saúde e a previdência estatal continuarão sofrendo pressões acentuadas por expansão. o ensino básico —. como é o caso dos regimes mais descentralizados. etária Gráfico IX. Nas populações cujos rendimentos estão abaixo de qualquer possibilidade de serem encontradas soluções próprias para o atendimento das necessidades básicas. 86 Professor: Raimundo N. em cidades com mais de 500 mil habitantes. S. restam apenas 15% da população brasileira nas áreas rurais. o quadro revela-se ainda mais complexo quando se focaliza o tema na perspectiva regional e nas diferenças de ritmo entre segmentos socioeconômicos da população. Nas projeções para o ano 2020. sendo que. o ritmo de crescimento populacional ainda guarda padrões do passado. no campo da saúde e da previdência. Já as necessidades dos mais velhos. Paralelamente às mudanças no perfil etário. Visto na perspectiva nacional. encontrará maiores dificuldades de acesso a ocupações de melhor qualidade. bem como as previsões que a respeito se fazem para o futuro. menos da metade da população atual das grandes metrópoles. se não tiver oportunidade de melhorar seu desempenho educacional. o perfil populacional do Brasil aproxima-se do padrão europeu e sobrepõe novos desafios em um contexto no qual velhas e pesadas carências ainda estão longe de ser resolvidas. no ano 2020.

S. 87 Professor: Raimundo N. A sobreposição de hierarquias amplia os custos administrativos. Como as manifestações mais graves de pobreza ocorrem nas regiões de menor desenvolvimento e nas periferias das grandes metrópoles. já adotada por número expressivo de empresas brasileiras. a autonomia para endividamento abre brechas para descontrole na expansão do gasto. as parcerias podem vir a ser o caminho para evitar que o avanço da descentralização concorra para preservar um Estado grande. Caso seja possível ultrapassar o estágio das experiências exitosas. aceitar. em todo o país. Cresce. como é o caso do Brasil.Gráfico IX. porém localizadas. Instituições e tamanho. Distintas iniciativas. uma vez que boa parte (ou a grande maioria) do gasto não é financiada com tributos locais. A possibilidade de que a descentralização crie um novo espaço para a construção de parcerias não foi considerada nos estudos mencionados. mostra que a responsabilidade social das empresas vem sendo objeto crescente de atuação. a dependência de recursos transferidos do governo central afrouxa os controles da população local. buscamse novas parcerias entre Estado e diferentes setores da sociedade. a redefinição de propostas e a melhoria gerencial. como a proposta de elaboração do Balanço Social.Pirâmide etária — Brasil — 2020. Na relação entre o tamanho do Estado e o grau de descentralização está implícita a idéia de que os custos da descentralização superam seus benefícios. em países marcados por fortes diferenças regionais e sociais. a perspectiva de um Estado relativamente maior do que o encontrado em situações nas quais essas diversidades não são tão marcantes? b. mediante criação de instrumentos mais adequados a uma gestão eficiente dos recursos e para melhor controle dos resultados. De outra. no sentido da adoção de propostas e soluções mais ajustadas às realidades locais. a descentralização permite lidar melhor com as diversidades encontradas em distintos pontos do território brasileiro. a participação das empresas em ações que até então eram campo quase exclusivo da ação governamental. De uma parte. é aí que as responsabilidades sociais do Estado serão mais exigidas. embora seja bastante plausível. Tal fato reforça as tendências à descentralização.3 . a multiplicidade de instâncias decisórias aumenta a descoordenação. pode trazer reduções substanciais de custo. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Essa nova realidade permite reforçar a descentralização que ocorre na esfera inter-governamental ampliando-a na dimensão das relações do Estado com a iniciativa privada. De modos distintos. A perspectiva de que as crescentes responsabilidades de atendimento das demandas da população por soluções que concorrem para um desenvolvimento menos desigual possam ser mais bem resolvidas em regimes mais descentralizados traz de volta a questão do tamanho do Estado. levando em conta a relação anteriormente mencionada entre descentralização e tamanho do governo. voltadas para a mobilização de recursos. Seria inevitável. uma vez que a diversidade de situações nela encontra maiores possibilidades de adaptação. Que novos caminhos podem ser trilhados para evitar o crescimento do Estado? Um dos temas mais em voga ultimamente é o das parcerias.

Boa parte dos recursos que financiam as ações dos governos locais percorre um longo caminho — de ida e volta. com a produção de bens públicos. De um lado. por exemplo. a maior eficiência decorrente dessa parceria poderá trazer conseqüências positivas para o objetivo de conciliar a pressão pelo atendimento das necessidades dessas populações. O compromisso com um desenvolvimento mais justo e regionalmente mais equilibrado requer redobrado esforço da sociedade brasileira para propiciar iguais oportunidades de mobilidade social a todos os seus cidadãos. por exemplo. Se parte desse caminho puder ser evitado. do ponto de vista das entidades encarregadas da execução das diferentes atividades. bem como dos instrumentos utilizados. os que traduzem maior intervenção direta do governo na produção de bens e serviços e no processo de acumulação de capital. O outro subconjunto desse mesmo grupamento refere-se às atividades exercidas pelas empresas governamentais que atuam principalmente na provisão de Serviços Urbanos e Financeiros. somam-se novas demandas provocadas pelo ritmo e pela diversidade das transformações demográficas que estão mudando e vão mudar ainda mais profundamente o perfil da população brasileira. pois isso significaria aceitar que ele não apenas mantenha seu atual tamanho como até mesmo apresente algum crescimento. com respeito a condições de acesso de expressiva parcela da população brasileira a serviços básicos. que tanto pode recorrer a uma manipulação direta da taxa de câmbio pelo governo quanto advogar o controle indireto do preço da divisa estrangeira via medidas de estímulo à exportação ou contenção de importações. A intervenção indireta do governo no processo produtivo utiliza medidas que interferem nas decisões de produção do setor privado mediante alteração nos preços relativos. Os preços de determinadas mercadorias. Enquadram-se nesse caso as medidas que resultam numa expansão das atividades da Administração Direta e Indireta relacionadas. Os objetivos são agrupados em quatro grandes categorias: (1) Satisfação das Necessidades Coletivas. quotas ou regulamentação. (2) Manutenção da Estabilidade Econômica. gera possibilidades de conflito e requer um esforço organizado de planejamento e coordenação. 3. A mesma alternativa estende-se à política cambial.4 reúne os principais objetivos e instrumentos da intervenção. porém. mediante repasses e transferências para a cobertura dos serviços prestados à população. (3) Promoção do Crescimento Econômico. é preciso soldar amplas parcerias do Estado com o setor privado. e (4) Melhoria na Distribuição da Renda. o controle indireto resulta da aplicação das chamadas medidas de política econômica. Algumas iniciativas importantes nesse sentido vêm sendo tomadas. O Gráfico IX. 88 Professor: Raimundo N. Tributos recolhidos pelas empresas ao Tesouro Nacional retornam parcialmente à esfera local. Objetivos e alternativas de intervenção A diversificação dos objetivos da intervenção governamental na atividade econômica. ainda limitada. Por sua vez. entre elas a política fiscal. a política monetária e a política cambial. As enormes carências já acumuladas. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de escala. S. mediante regras que incentivem a participação direta das empresas no financiamento e na gestão dos serviços prestados à população local de menor poder aquisitivo. Da mesma forma. Para que o compromisso apontado não seja visto como uma responsabilidade exclusiva do Estado. Essa interferência pode-se dar de maneira direta ou indireta. A intervenção direta nos preços lança mão de medidas legais e traduz-se em tabela mentos. podem ser modificados por meio de uma redução no imposto cobrado sobre o valor da respectiva produção ou mediante recurso ao tabelamento. os instrumentos de intervenção podem ser agrupados em duas grandes categorias. Por sua vez. o preço do dinheiro (taxa de juros) pode ser controlado indiretamente mediante variações nos meios de pagamento provocadas por medidas usuais de política monetária ou de forma direta pela fixação de uma ou mais taxas de juros pelo governo. a produção de serviços sociais e investimentos na infraestrutura econômica.2. com o objetivo de evitar que isso signifique a preservação de um Estado grande e inoperante.

enquanto o crescimento e a distribuição de renda encerram basicamente questões de longo prazo. o uso mais intensivo de outras formas de captação. Quanto maior a centralização administrativa das ações do governo e menor a diversificação da execução de programas públicos. diferentes são os requisitos em termos de necessidade de mobilização de recursos financeiros por parte do governo. a importância relativa de cada uma das principais alternativas de financiamento no total de recursos financeiros mobilizados pelo governo depende também da organização administrativa das atividades governamentais. simultaneamente.3. em conseqüência. De acordo com a distinção usual na análise macroeconômica. por exemplo. 89 Professor: Raimundo N. refere-se à compatibilização entre os objetivos de curto prazo e os que demandam um horizonte de tempo mais longo para serem efetivamente observados. supõe-se que os problemas de estabilização econômica sejam essencialmente de curto prazo. Reduz-se. S. admite-se que maior taxa de crescimento depende primordialmente de mais alta taxa de acumulação de capital. que o governo recorra a medidas tradicionais de política fiscal para combater um surto inflacionário provocado por excesso de demanda global face à capacidade interna de produção. Maior intervenção direta do governo na produção implica maior transferência de recursos financeiros (e reais) do setor privado para o público. e que essa varia diretamente com o grau de desigualdade na distribuição pessoal da renda. freqüentemente encontrada na literatura. modificações na oferta requerem um prazo mais longo para serem observadas. Outra possibilidade de conflito. Assim. uma distribuição de carga tributária mais eqüitativa. No segundo caso. aumentando a importância de análises das alternativas de financiamento. motivada por objetivos de redistribuição da renda. necessidades Possibilidades de conflito e necessidades de coordenação A diversificação de objetivos amplia as possibilidades de conflito e aumenta a necessidade de planejamento e de coordenação na análise de alternativas de intervenção. Nesse sentido.Vale a pena notar que. supõe-se constante a capacidade de produção. Suponha-se. Por sua vez. No primeiro caso. representadas por aumentos na capacidade de produção e/ou por modificações na estrutura produtiva. for a necessidade de transferência de recursos financeiros —. Ocorre que. por conseguinte. Maior importância de órgãos descentralizados e de agências organizadas sob a forma empresarial implica. normalmente. tendo em vista que dependem da realização de novos investimentos e da incorporação de novas técnicas de produção. dependendo da opção utilizada. Particularmente notório a esse respeito é o alegado conflito entre os objetivos de alcançar. caracterizando um possível conflito entre a política antiinflacionária e os objetivos de crescimento. uma taxa mais rápida de crescimento do Produto Nacional e uma melhor repartição dos frutos desse crescimento pelas diferentes camadas da população. considera-se que tanto aumentos continuados na renda como modificações em sua distribuição dependem fundamentalmente de modificações do lado da oferta. a adoção de medidas que visem controlar a demanda pode resultar em efeitos negativos sobre as perspectivas de expansão da oferta. Tais medidas consistem em promover uma redução na renda disponível do setor privado por meio do aumento na carga tributária e uma contenção dos dispêndios governamentais. 3. O ponto de partida para essa distinção é a definição do curto e do longo prazo na análise macroeconômica. maior deve ser a importância relativa dos tributos no total dos recursos destinados ao financiamento de programas governamentais. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de tal forma que o nível de renda e o de emprego em determinado período ficam determinados pelo nível de demanda agregada efetiva e variam instantaneamente em face de variações na demanda. o volume global de investimentos e o ritmo de aumento na capacidade de produção com reflexos negativos futuros sobre a taxa de crescimento. se se aceitar a hipótese de que uma medida dessa natureza teria efeito negativo sobre a taxa global de poupança. Por seu turno. Para tanto. como a instituição de contribuições compulsórias de natureza jurídica não-tributária e a cobrança de preços pela venda de mercadorias e serviços. maiores serão os efeitos indiretos sobre o setor privado que resultam das opções utilizadas para o financiamento dos encargos governamentais. poderia conflitar com o objetivo de crescimento. quanto maior for a importância relativa do governo como produtor de bens e ser viços — e maior.

por 90 Professor: Raimundo N. o mais recente acréscimo em relação à lista apresentada no Gráfico 2. Quanto aos objetivos. em termos de atingimento dos diferentes objetivos da intervenção governamental na economia.4. Isso poderia ocorrer no caso em que a pauta de importações apresentasse uma elevada participação de bens intermediários com baixa elasticidadepreço de demanda. volume e distribuição da carga tributária etc. de forma que uma elevação no preço desses produtos repercutiria amplamente sobre os preços dos produtos industrializados no país. seja positivo. caracterizado por um elevado déficit nas transações correntes. Tal déficit poderia ser combatido mediante uma brusca elevação das alíquotas do Imposto de Importação. Em nível macroeconômico. (2) a Coordenação Administrativa. A análise agregada conduz evidentemente a recomendações de políticas governamentais em termos globais. É claro que a ocorrência de conflitos como os mencionados nos parágrafos anteriores depende da verificação de hipóteses teóricas acerca da reação de empresas e indivíduos face a modificações no nível de renda e no sistema de preços provocadas por medidas governamentais. dependendo da natureza dos bens importados. na perspectiva da análise macroeconômica. a recomendação correspondente seria a de um incremento nas despesas totais do governo. tal que o saldo líquido. e (3) a Coordenação Político-Institucional. Se é um problema keynesiano de depressão por insuficiência de demanda.1 refere-se a preocupações com a preservação do meio ambiente que provocam o surgimento de um novo conflito potencial entre esse objetivo e os propósitos de uma rápida industrialização. implica basicamente uma tentativa de avaliação do impacto do programa de gastos e das diferentes alternativas para financiamento desses gastos sobre os objetivos nacionais. visando à escolha de uma mistura apropriada de alternativas. de um ponto de vista agregativo. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .Ainda um outro exemplo refere-se a possíveis conflitos entre objetivos de estabilidade interna e externa. portanto. de intervenção que satisfaça às prioridades estabelecidas no plano. Federalismo fiscal O estudo da política fiscal do ponto de vista macroeconômico discute questões relativas a tamanho e composição dos gastos do governo. Considere-se a ocorrência simultânea de uma forte elevação interna de preços e de um acentuado desequilíbrio no Balanço de Pagamentos. 3. a complexidade das tarefas de coordenação amplia-se com a diversificação dos objetivos e das alternativas de intervenção do governo na economia. Se. Não obstante. que trata da análise das inter-relações entre instrumentos e objetivos. a análise de possibilidades de compatibilização fica sempre na dependência da adoção simultânea de um conjunto de medidas. deve-se destacar a ênfase crescente na regulação. e seus efeitos sobre a economia. S. é importante destacar três aspectos: (1) a Coordenação Macroeconômica. considerado o governo constituído por unidades diretamente subordinadas a um único centro de decisão. que trata o mesmo problema do ponto de vista da coerência na tomada de decisões e da repartição de recursos e encargos entre diferentes níveis de governo. Assim. A mistura apropriada de instrumentos é. Por outro lado. assim como os recursos necessários ao seu financiamento. Quanto a instrumentos. uma tarefa que requer esforço acentuado de coordenação de decisões baseado em análise criteriosa dos possíveis efeitos de cada medida sobre os diferentes objetivos da intervenção governamental. No entanto. o aumento no imposto pode provocar uma elevação interna de preços maior do que o efeito positivo dessa mesma medida sobre o Balanço de Pagamentos. a inserção das finanças públicas. que analisa a forma como se divide entre os diferentes segmentos da Administração a responsabilidade pela execução dos programas governamentais. isto é. Quanto aos problemas de coordenação. tal avaliação requer cuidado especial com os problemas que resultam de maior descentralização de decisões originária de uma organização federativa de governo e da proliferação de entidades administrativas encarregadas da execução dos programas governamentais. de forma a desencorajar as importações e re-equilibrar o Balanço de Pagamentos.

reduzindo o grau de liberdade dos governos subnacionais em matéria de tributação. tendo em vista acelerar o crescimento econômico do país. A esse respeito. as principais alternativas referem-se a uma transferência incondicional de recursos. Tal não ocorre. Tal é o caso. o problema é o de promover uma aplicação mais racional dos recursos públicos. então. no caso de países onde a organização é federativa. Nestes. Isso. mas também com a expansão do nível de renda. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . as necessidades de gasto nesse mesmo nível são progressivamente ampliadas. os problemas de política fiscal precisam ser analisados não apenas do ponto de vista da adequação entre o montante previsto de gastos e o volume de recursos disponíveis. a distribuição da renda e a promoção do crescimento econômico. na revisão do papel do governo destaca-se a renovada importância de sua responsabilidade como produtor de bens e serviços prioritários para a melhoria da competitividade econômica e da distribuição da renda. os efeitos sobre a aplicação de recursos serão diferentes. a autonomia dos governos estaduais estabelece. está fora do controle direto do governo central. seriam mais eficientemente produzidos em nível local. Assim. uma dicotomia entre as definições de política fiscal dentro de um ponto de vista puramente agregativo. implica considerar quais os critérios a serem empregados para a utilização dos recursos transferidos. por outro lado. ao mesmo tempo em que as necessidades de harmonização tributária limitam o poder de instituir tributos no nível local. portanto. Esses serviços.outro lado. principalmente. em parte. exatamente a que seria recomendada pela análise agregada. devido à própria expansão das atividades públicas mais eficientemente produzidas em nível local. Neste. dos serviços de educação e saúde. as decisões sobre aumento de despesas ou sobre distribuição setorial dos gastos são tomadas no mesmo nível das decisões relativas às medidas a serem utilizadas. o hiato entre rendas próprias e necessidades de gasto em nível local tende a ampliar-se à medida que: a) o processo de crescimento econômico e a conseqüente expansão da população urbana exerçam pressão cada vez maior sobre a necessidade de expansão dos gastos em nível local. Não devem. 91 Professor: Raimundo N. tendo em vista que. tendo em vista o propósito de compatibilizar as demandas federativas com os objetivos nacionais. a crescente preocupação com o ajuste fiscal imponha novos limites à autonomia para tributar. Em federações. Por outro lado. em que a presença do governo como produtor torna-se cada vez mais importante. mas também quanto à repercussão dos diferentes componentes da receita e da despesa sobre a estabilidade econômica. A implementação de políticas desse tipo não teria problemas no caso de um sistema de governo unitário. poderia ser estabelecida uma distribuição setorial ótima das despesas totais do governo do ponto de vista da maximização das taxas de crescimento do produto per capita. Isso conduz à preocupação de harmonizar a política tributária. Na ausência de uma nova abordagem para o problema da repartição de competências tributárias na federação. e a visão parcial dos problemas puramente locais que influenciam as autoridades estaduais. ocorrer a hipótese de que a aplicação total dos recursos ou a distribuição dos impostos não seja. assim como dos poderes para a obtenção dos recursos necessários. S. Pode. b) Uma das soluções para o problema consiste na transferência de recursos arrecadados pelo governo federal aos Estados e municípios. Grande parte dos recursos a serem aplicados. porém. cuja demanda se expande não só com o próprio crescimento demográfico. face às condições de proximidade do mercado consumidor. de acordo com o sistema de transferências utilizado. existir problemas relativos à falta de coordenação entre os elementos que formulam a política e aqueles encarregados de tomar as decisões necessárias a sua implementação.

a transferência incondicional pode gerar ineficiências. seja mediante obrigatoriedade adicional de utilização dos recursos transferidos em despesa de investimentos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . a decisão de aumentar o volume de dispêndio em determinados setores não fica condicionada à comparação dos possíveis benefícios de sua expansão com o sacrifício decorrente da necessidade de aumentar os tributos para financiar o acréscimo na oferta. seria mais cômodo do ponto de vista local postergar decisões relativas à elevação da carga tributária própria e confiar na obtenção dos meios necessários à expansão de suas despesas por meio das transferências federais de recursos. a utilização dos recursos transferidos influencie a aplicação dos recursos próprios. No caso das transferências vinculadas. Em outras palavras. 92 Professor: Raimundo N. à medida que essas transferências sejam efetuadas sem preocupação com o esforço próprio de arrecadação dos governos locais. a aplicação dos recursos transferidos pode não conduzir a uma aplicação mais eficiente de recursos por parte dos governos locais. para a manutenção dos novos serviços criados. e além do problema apontado no item anterior. a ineficiência nesse nível de governo poderia ser também observada quanto ao nível de esforço realizado internamente para financiar com recursos próprios as despesas programadas. os quais vão exigir. à medida que dissocie as decisões relativas à aplicação de recursos das referentes ao mecanismo de financiamento a ser utilizado. b) Por seu turno. Ademais. provocando disparidades regionais indesejáveis nesse particular. Por motivos óbvios.cujo objetivo se resume à cobertura do hiato financeiro. seja por meio de exigências de contrapartida local para que eles possam ser utilizados. S. a ampliação posterior de despesas de custeio nesses mesmos programas. ou a transferências vinculadas (total ou parcialmente) a determinados programas ou categorias de dispêndio. à medida que: a) os programas contemplados não sejam prioritários do ponto de vista do Estado ou município em virtude de diferenças regionais quanto à necessidade dos diferentes setores.

o que se passou é que o Estado veio. Uma noção meramente introdutória já indica que receita é todo ingresso de dinheiro nos cofres de uma pessoa de direito público.RECEITAS PÚBLICAS 1. não se constituem em receitas. A primeira observação que cumpre ser feita acerca da receita é que ela assume formas muito variadas no Estado Moderno. cumpre defini-las Receita Pública é o montante total em dinheiro recolhido pelo Tesouro Nacional. incluindo serviços pessoais. integrando-se no patrimônio público sem quaisquer reservas. Antonio L. Aliomar Baleeiro conceitua receita pública como: “A entrada que. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Daí porque ser lícito afirmar que são receitas públicas as que são recebidas por uma pessoa pública e. primordialmente. Kiyoshi Harada36 define receita pública como sendo o ingresso de dinheiro aos cofres do Estado para atendimento de suas finalidades. como o militar. na verdade. de Sousa Franco conceitua: “As receitas públicas podem ser assim genericamente definidas como qualquer recurso obtido durante um dado período financeiro. 7ª edição. por exemplo. Atlas. isto é. incorporado ao patrimônio do Estado. administrativo). Fundamentalmente. 2. como sendo: Receitas Públicas são os recursos. mas de outras disciplinas (Direito civil. de ser satisfeitas por receitas. vem acrescer o seu vulto. S. 36 Direito Financeiro e Tributário. na sua concepção moderna é unicamente no dinheiro e se expressa.55 93 Professor: Raimundo N. valia-se dos recursos que pudesse obter pela exploração de seu patrimônio. Os bens in natura e os serviços pessoais. observando a pequena nuance “de forma definitiva” entre uma definição e outra.” Sainz de Bujanda é mais sintético e define receita pública como: “As somas de dinheiro que recebem o Estado e os demais entes públicos para cobrir com elas seus gastos”. objeto do Direito Financeiro. cada vez de forma mais acentuada. da execução das receitas públicas. como elemento novo e positivo”. político. são privadas as receitas auferidas por uma pessoa jurídica de direito privado. o dinheiro que ingressa nos cofres públicos de maneira definitiva com a finalidade de satisfazer as despesas públicas. melhor. condições ou correspondência no passivo. DEFINIÇÃO Antes de se adentrar mais profundamente na classificação das receitas. faz referência à natureza do ente que as recebe e não à qualidade em si da receita. portanto. que serve para custear as despesas públicas e as necessidades de investimentos públicos. mediante o qual o sujeito público pode satisfazer as despesas públicas que estão a seu cargo. nem são. 2000. embora integrando o patrimônio do Estado. A obtenção dos recursos decorre.CAPITULO X . em moeda. ou melhor. adquiridos mediante expropriação ou mediante liberalidades intervivos ou causa mortis. a lançar mão da sua força coercitiva para impor aos particulares o pagamento de quantias em dinheiro. dizendo. Ed. Pode-se ainda definir. pois. obviamente. p. Já se foi o tempo em que o Estado atuava como qualquer pessoa. Quando se fala em receitas públicas. ao contrário. CONCEITO As despesas públicas têm. independentemente de contraprestação de sua parte. o qualificativo “públicas”. Quanto ao objeto das receitas.

Trata-se. Atlas. outros dizem que aquelas de caráter devolutivo. o Estado utiliza a sua atividade financeira como principal instrumento. só permanecem provisoriamente nos cofres públicos. Desse fato. Diante do exposto fica claro que o critério diferenciador entre receita e ingresso não é outro senão o da permanência nos cofres públicos. primordialmente. 37 Direito Financeiro e Tributário. No entanto. na maioria das vezes de forma temporária. que corresponde a ajustamentos na distribuição da renda e da riqueza e a estabilizadora. surgiu o conceito de receita extra-orçamentária. visto que não são definitivas.3. CONCEITOS E ASPECTOS LEGAIS DAS RECEITAS PÚBLICAS O Estado. não importando a que título tenha sido. ou seja. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Para a consecução dessas funções. lança mão de suas funções econômicas: a alocativa. na busca do bem comum. no caso brasileiro. Para dar prosseguimento ao estudo das receitas públicas é necessário analisar seus principais conceitos doutrinários e os conceitos advindos de atos legais e normativos. o Poder Executivo parte do montante da receita estimada pelos órgãos competentes para. elas ingressam nos cofres públicos. RECEITA E INGRESSO Denomina-se de ingresso ou entrada todo e qualquer dinheiro que entra nos cofres públicos. contribuições de melhoria ou multas. 2000. em face das imperfeições inerentes ao mercado aberto. trata-se daqueles ingressos que têm como finalidade permanecerem definitivamente nos cofres públicos. 7ª edição. Kiyoshi Harada37 define receita pública como sendo o ingresso de dinheiro aos cofres do Estado para atendimento de suas finalidades. recentes normas expedidas pela Secretaria do Tesouro Nacional possuem entendimento contrário. Não se pode negar que existem ingressos que devem ser devolvidos. a caução e o empréstimo compulsório. Exemplos de ingresso são: a fiança. da execução das receitas públicas.55 94 Professor: Raimundo N. muito se discute sobre o conceito de receitas públicas. Alguns autores afirmam que todo e qualquer ingresso de recursos nos cofres do Estado são Receitas Públicas. As receitas podem advir do poder constritivo que o Estado exerce sobre o particular através da cobrança de impostos. ou seja. que possuem caráter devolutivo. Ed. a distributiva. Sob o ponto de vista doutrinário. fixar as despesas públicas. eis que o seu destino é de retornar para o seu proprietário. Desse entendimento. na verdade. isso porque nem todo ingresso pode ser considerado como receita. isto é. com base neste montante. que corresponde ao ajustamento na alocação de recursos. taxas. Alguns autores consideram que os ingressos de disponibilidades aos cofres públicos. de quantias em dinheiro que entram nos cofres públicos somente por um determinado período de tempo. A obtenção dos recursos decorre. Já as receitas caracterizam-se por serem ingressos definitivos de dinheiro nos cofres públicos. são receitas públicas. S. não as são. cauções etc. Contudo. 4. não se deve confundir ingresso com receita. que visa a estabilização econômica através de ações que normalizem a distribuição da renda e da riqueza na sociedade. p. É sabido que estas quantias não permanecem definitivamente nos cofres públicos. Durante o processo de elaboração orçamentária. depreende-se a importância da receita pública para a consecução da atividade financeira do Estado. tais como depósitos.

172/66).: empréstimo compulsório e o imposto extraordinário (art. 3. a. ao contrário do imposto. Contribuição de melhoria É o tributo destinado a fazer face ao custo de obras públicas de que decorra valorização imobiliária. caracterizando-se por sua exigência coercitiva e compulsoriedade. a taxa e a contribuição de melhoria. As Receitas Originárias também são denominadas como Receitas de Economia Privada ou de Direito Privado.F. instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. 2. partes integrantes das receitas. CONCEITOS DOUTRINÁRIOS DE RECEITAS PÚBLICAS Do ponto de vista doutrinário no que diz respeito à classificação as Receitas Públicas podem ser assim discriminadas: a.154. tendo como limite total a despesa realizada e como limite individual o acréscimo de valor que da obra resultar para cada imóvel beneficiado. ou aplicação em atividades econômicas (produção. corresponde. não havendo coercitividade na sua exigência. Receitas Agropecuárias. Derivada – é a receita que deriva da prevalência do Estado sobre o particular. S. em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir. II da Carta Magna). (artigo 77 da L.172/66). independentemente de uma contraprestação imediata e direta do Estado. É uma classificação da Receita Corrente. É a receita pública efetiva. imediata e direta do Estado. n. É uma classificação da Receita Corrente. pela cessão remunerada de bens e valores (aluguéis e ganhos em aplicações financeiras). comércio ou serviços).° da L.172/66). As Receitas Derivadas são formadas por Receitas Correntes. constituindo-se. (artigo 3. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . n.Antes de se estudar como a as Receitas Públicas são classificadas. Receitas Comerciais.F. (artigo 81 da L.° 5. 95 Professor: Raimundo N. em função de sua soberania. (artigo 16 da L. Do exposto verifica-se que a taxa. Isto é o que será mostrado a seguir. É pago coativamente. São espécies de tributo: o imposto. fonte regular e permanente de recursos financeiros destinados à consecução da atividade financeira do Estado. em princípio. n. É a receita pública efetiva oriunda das rendas produzidas pelos ativos do Poder Público. Quanto Quanto à origem Originária – é a receita auferida quando o Estado está na mesma condição do particular. Extraordinárias – são as que ingressam em caráter excepcional e temporário. de serviço público específico e divisível prestado ao contribuinte ou posto à sua disposição.172/66).F.° 5.F. efetiva ou potencial. Receitas de Serviço. n. b. II e art.: receita tributária. faz-se necessário definir-se aqueles recursos financeiros. assim.° 5.° 5. relativa ao contribuinte. etc. Taxa É o tributo que tem como fato gerador o exercício do poder de polícia. Penalidades. 5. etc. de contribuições etc. Imposto É o tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação independente de qualquer atividade estatal específica. que não constitua sanção de ato ilícito. obtida pelo Estado. Ex: Receitas Patrimoniais. 148. ou a utilização. Ex. 1. segundo a classificação da Receita Pública por Categoria Econômica. Quanto à regularidade Ordinárias – são aquelas que ingressam com regularidade no erário. Ex. por meio de Tributos. Indenizações e Restituições. a uma contraprestação. Tributo É toda prestação pecuniária compulsória. Receita de Contribuições. Ex: Receita Tributária.

320/64 A Lei no 4. receita de alienação de bens).: operação de crédito) ou uma diminuição do ativo. São as receitas que no momento do seu recebimento ocasionam um aumento correspondente no passivo. alteram a situação líquida patrimonial (aumentam) do ente.: recebimento da Dívida Ativa.: receita tributária) e que não se originou de uma diminuição do ativo ou de um aumento correspondente no passivo. não considera este tipo de ingresso de disponibilidade como receita pública. inclusive as provenientes de operações de crédito. 6. os concursos públicos utilizam a notação receita extra-orcamentária. ainda que não previstas no Orçamento. 340/2006. através do reconhecimento de uma obrigação (ex. não alteram a situação líquida patrimonial. Quanto à previsão orçamentária Orçamentária – é a receita prevista ou não no orçamento e que não possui caráter devolutivo.c. De acordo com o art. entretanto. 1. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Ex.320/64. que dispõe sobre as normas gerais de Direito Financeiro. 3º: A Lei de Orçamentos compreenderá todas as receitas. . Quanto à efetividade Efetiva – São ingressos orçamentários (receitas públicas) em que a entrada de disponibilidades de recursos não foi precedida de registro de reconhecimento do direito e não geram obrigações correspondentes e. quais sejam: as receitas orçamentárias e as extra-orçamentárias. 57 da Lei 4. O Manual de Receitas Públicas. por isto. através da baixa de um bem ou direito (ex. ingressando em caráter temporário na disponibilidade do Estado para posterior devolução. Não-efetiva – São ingressos orçamentários (receitas públicas) que foram precedidos de registro do reconhecimento do direito ou que geram obrigações correspondentes. aprovado pela Portaria STN nº. Trata-se de um fato contábil modificativo aumentativo. as emissões de papel-moeda e outras entradas compensatórias. inclusive as de operações de crédito autorizadas em lei.Receitas Correntes — destinadas a cobrir as depesas orçamentárias que visam a manutenção das atividades governamentais e são subdivididas em: 96 Professor: Raimundo N. S. a) rçamentária Receita Orçamentária Receitas orçamentárias são aquelas que fazem parte do orçamento público estabelecidas na Lei Orçamentária Anual – LOA e são divididas em. São receitas que no momento do seu reconhecimento passam a compor o patrimônio da Entidade Pública como elemento novo e positivo (ex. por isso. Extra-orcamentária – é a receita não prevista no orçamento. ressalvado o disposto no parágrafo único do artigo 3º desta lei serão classificadas como receita orçamentária. receita de serviços.320/64. d. Parágrafo único: Não se consideram para os fins deste artigo as operações de crédito por antecipação da receita. em seu art. no ativo e passivo financeiros. sob as rubricas próprias. todas as receitas arrecadadas. receita patrimonial. Nº CLASSIFICAÇÃO DAS RECEITAS ADOTADA PELA LEI Nº 4.: receita tributária. Este aumento do passivo ou diminuição do ativo chama-se mutação passiva. Segundo o art. 11 classifica a Receita Orçamentária em duas grandes categorias econômicas. e.

que compreende a previdência social. saúde. Outras Receitas Correntes — provenientes de multas. Receita de Contribuições38 — é a proveniente das seguintes contribuições sociais (previdência social. ♦ Receita Patrimonial — rendas obtidas pelo Estado quando este aplica recursos em inversões financeiras. de inspeção e fiscalização. Contribuições Previdenciárias para o RPPS e RGPS.♦ ♦ Receita Tributária — é a proveniente de impostos. Contribuição sobre a Receita das Empresas Prestadoras de Serviços de Telecomunicações. transporte. comunicação. Transferência de Capital — recursos recebidos de outras pessoas de direito público ou privado. SESC. Transferências Correntes — recursos financeiros recebidos de outras entidades públicas ou privadas e que se destinam a cobrir despesas correntes. cobrança da dívida ativa. processamento de dados. CSLL etc) e Contribuições Econômicas (Cota-parte do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante. Receita Agropecuária — é a proveniente da exploração de atividades agropecuárias de origem vegetal ou animal. Amortização de Empréstimos Concedidos — retorno de valores anteriormente emprestados a outras entidades de direito público. PIN.Receitas de Capita — provenientes de operações de crédito. PROTERRA. portuário. Podem ser: Contribuições Sociais (Ex. SENAI etc. PIS/PASEP. 38 97 Professor: Raimundo N. Receita Industrial — resultante da ação direta do Estado em atividades comerciais. a saúde e a assistência social. vendas de mercadorias e produtos inerentes a atividades da entidade entre outros. ♦ ♦ ♦ ♦ Operações de Crédito — oriundas da constituição de dívidas (empréstimos e financiamentos). Salário Educação. ou as rendas provenientes de bens de propriedade do Estado.: COFINS. tais como aluguéis. Receita de Serviços — é a proveniente de atividades caracterizadas pelas prestações de serviços financeiros. S. destinados à aquisição de bens. indenizações e outra receitas de classificação específica. transferências de capital e outras receitas de capitais. CIDE-Combustíveis etc). saúde e assistência social). armazenagem. judiciário. alienações de bens. Alienação de Bens — provenientes da venda de bens móveis e imóveis e de alienação de direitos. Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional. como instrumentos de intervenção nas respectivas áreas. Contribuições Sociais – destinadas ao custeio da seguridade social. Contribuições para os Serviços Sociais Autônomos – SESI. industriais ou agropecuárias. de intervenção domínio econômico (tarifas de telecomunicações) e de interesse das categorias profissionais ou econômicas(órgãos representativos de categorias de profissionais). ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ eceitas apital 2 . amortizações de empréstimos concedidos. taxas e contribuições de melhorias. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Contribuições de Interesse das Categorias Profissionais ou Econômicas – destinadas ao fornecimento de recursos aos órgãos representativos de categorias profissionais legalmente regulamentadas ou a órgãos de defesa de interesse dos empregadores ou empregados. Contribuições sobre Receitas de Concursos de Prognósticos. Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico – derivam da contraprestação à atuação estatal exercida em favor de determinado grupo ou coletividade.

Esse código busca classificar a receita identificando a origem do recurso segundo seu fato gerador. a receita extra-orcamentária pode converter-se em receita orçamentária. o código identificador da natureza de receita é desmembrado em níveis. devendo. depósitos para garantia. portanto considerados receitas extra-orçamentárias.320/64 define que os itens da discriminação da receita mencionados no seu art. Em casos especiais. serão identificados por números de código decimal. pois. é o caso de quando alguém perde. retenções na fonte. xtraReceita Extra-Orçamentária b) Receitas extra-orçamentárias são aquelas que não fazem parte do orçamento público. É a menor célula de informação no contexto orçamentário para as receitas públicas. não sendo. fianças. de serviços. e depósitos efetuados em títulos e assemelhados quando em moeda estrangeira são registrados em contas de compensação. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . A receita pública (ingresso orçamentário) também pode ser classificada como: Efetiva: quando altera a situação líquida patrimonial do ente para maior.♦ Outras Receitas de Capital — classificação genérica para receitas não especificadas na lei. CODIFICAÇÃO ORÇAMENTÁRIA DA RECEITA Codificação da natureza da receita do ponto de vista contábil O parágrafo 1º do art. Convencionou-se denominar este código de natureza de receita. portanto conter todas as informações necessárias para as devidas vinculações. fianças. em favor do Estado. S. as naturezas de receitas orçamentárias procuram refletir o fato gerador que ocasionou o ingresso dos recursos aos cofres públicos. salários não reclamados. 7. São exemplos de receitas públicas nãoefetivas. Contudo tais receitas somam-se às disponibilidades financeiras do Estado. 7. Não-efetiva: quando não há alteração da situação líquida. Dessa forma. patrimoniais. na elaboração do orçamento público a codificação econômica da receita orçamentária é composta dos níveis a seguir: 1º Nível – Categoria Econômica 2º Nível – Origem 98 Professor: Raimundo N. O mesmo acontece quando os restos a pagar têm sua prescrição administrativa decorrida. uma vez que este é apenas depositário de tais valores. Tais receitas também não constituem renda para o Estado. o valor de uma caução por inadimplência ou quando perde o valor depositado em garantia. as receitas de operações de crédito. É importante frisar que cauções. também classifica-se aqui o superávit do orçamento corrente (diferença entre receitas e despesas correntes). porém têm em contrapartida um passivo exigível que será resgatado quando da realização da correspondente despesa extra-orcamentária. ao mesmo tempo em que entra a disponibilidade de recursos o ente incorre em uma obrigação ou se desfaz de um bem ou direito a ele pertencente (fato contábil permutativo). operações de crédito em curto prazo e outras operações assemelhadas. São exemplos de receitas públicas efetivas as receitas tributárias. Face à necessidade de constante atualização e melhor identificação dos ingressos aos cofres públicos. consignações em folha de pagamento. Assim.1. 8º da Lei nº 4. embora este não constitua item orçamentário. 11. Como exemplo tem-se as cauções. Sua arrecadação não depende de autorização legislativa e sua realização não se vincula à execução do orçamento.

transferências e outras). a União. composto por títulos que permitem qualificar com maior detalhe o fato gerador dos ingressos de tais receitas. ou ainda. tal classificação serve para identificar se as receitas são compulsórias (tributos e contribuições).10 – Pessoas Físicas: 1 = Receita Corrente (Categoria Econômica). dentro da Origem Receita Tributária (receita proveniente de tributos). No caso das receitas de capital. distinguem-se as provenientes de operações de crédito. investimentos etc.04. 1 = Receita Tributária (Origem). A rubrica busca identificar dentro de cada espécie de receita uma qualificação mais específica. 1 = Receita de Impostos (Espécie).3º Nível – Espécie 4º Nível – Rubrica 5º Nível – Alínea 6º Nível – Sub-alínea 1º Nível – Categoria Econômica – utilizado para mensurar o impacto das decisões do Governo na economia nacional (formação de capital. provenientes das atividades em que o Estado atua diretamente na produção (agropecuárias. Detalhamento de código da natureza da receita orçamentária Para atender às necessidades internas. industriais ou de prestação de serviços). 5º Nível – Alínea – Funciona como uma qualificação da rubrica. o Distrito Federal e os Municípios poderão detalhar as classificações orçamentárias constantes do anexo VII. Agrega determinadas receitas com características próprias e semelhantes entre si. tais como impostos.1. que tem por objetivo identificar a origem das receitas. 3º Nível – Espécie – É o nível de classificação vinculado à Origem. a partir do nível ainda não detalhado.2. 4º Nível – Rubrica – É o detalhamento das espécies de receita. Apresenta o nome da receita propriamente dita e que recebe o registro pela entrada de recursos financeiros. 7. 6º Nível – Sub-alínea – Constitui o nível mais analítico da receita. os Estados. sendo cada uma dessas receitas uma espécie de tributo diferente das demais. de outros ingressos de capital. 04 = Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza (Alínea). S. taxas e contribuições de melhoria (conforme definido na Constituição Federal de 1988 e no Código Tributário Nacional). ou ainda. É a subdivisão das Categorias Econômicas.). da exploração do seu próprio patrimônio (patrimoniais).1. É a espécie de receita. podemos identificar as suas espécies. 99 Professor: Raimundo N. se provenientes de transferências destinadas ao atendimento de despesas correntes. originária. da alienação de bens. de outros ingressos. 10 = Pessoas Físicas (Subalínea) XX = NÍVEL DE DETALHAMENTO OPTATIVO. No caso das receitas correntes. em relação ao fato gerador dos ingressos das receitas (derivada. da amortização dos empréstimos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . custeio. 2 = Impostos sobre o Patrimônio e a Renda (Rubrica). das transferências destinadas ao atendimento de despesas de capital.2. 2º Nível – Origem – Identifica a procedência dos recursos públicos. Por exemplo. Exemplo 1: 1. A administração dos níveis já detalhados cabe à União. no momento em que as mesmas ingressam no patrimônio público.

Os estágios da receita orçamentária são os seguintes: a) Previsão – estimativa de arrecadação da receita. quando do recebimento pelo ente beneficiário. 1 = Receita Tributária (Origem). constante da Lei Orçamentária Anual – LOA. Já os créditos lançados e não arrecadados são. b) Arrecadação – entrega. que é tratado pela Lei nº 4. no ativo permanente. não sendo considerada arrecadação. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . dos recursos devidos ao Tesouro. opcionalmente pelo ente. De acordo com os exemplos. responsável pela administração e controle da arrecadação e programação financeira. incorporados ao patrimônio. compreendido em fases distintas: 1. no Brasil. 8.1. O lançamento é a legalização da receita pela sua instituição e a respectiva inclusão no orçamento. de Transp. efetuados pelos órgãos competentes que verificam a procedência do crédito a natureza da pessoa do contribuinte quer seja física ou jurídica e o valor correspondente à respectiva estimativa. cotas ou contribuições prefixadas ou decorrentes de outras fontes de recursos.Exemplo 2: 1. A primeira fase consiste na organização e no estabelecimento da metodologia de elaboração da estimativa. 2 = Taxas (Espécie). 100 Professor: Raimundo N. Marítimo de Passag.00 – Taxas de Serviço de Transporte Marítimo de Passageiros: 1 = Receita Corrente (Categoria Econômica). c) É importante observar que nenhum agente arrecadador pode utilizar o produto da arrecadação para realizar pagamentos. é o assentamento dos débitos futuros dos contribuintes de impostos diretos. Quando um ente arrecada para outro ente. Resíduos ativos ou restos a arrecadar Os créditos não lançados e não arrecadados até o último dia do exercício financeiro a que pertencem constituirão receita no exercício em que forem arrecadados. 2. Recolhimento – transferência dos valores arrecadados à conta específica do Tesouro. (Alínea) 00 = NÍVEL DE DETALHAMENTO OPTATIVO (Subalínea). XX = NÍVEL DE DETALHAMENTO OPTATIVO.320/64 nos seus artigos 51 e 53. A arrecadação ocorre somente uma vez. o detalhamento de nível de código de natureza de receita somente poderá ser efetivado nos níveis que estão com zeros. ESTÁGIOS DA RECEITA PÚBLICA Estágio da receita orçamentária é cada passo identificado que evidencia o comportamento da receita e facilita o conhecimento e a gestão dos ingressos de recursos. A segunda fase consiste no lançamento. Os pagamentos devem ser feitos com recursos específicos para este fim.1. ou em um 7º nível a ser criado. observando o Princípio da Unidade de Caixa representado pelo controle centralizado dos recursos arrecadados em cada ente.40. cumpre-lhe apenas entregar-lhe os recursos pela transferência dos recursos. 8. realizada pelos contribuintes ou devedores aos agentes arrecadadores ou bancos autorizados pelo ente. vindo em seguida o recolhimento. S. como componente da dívida ativa.1.2. 40 = Taxas Serv. 1 = Taxa pelo Exercício do Poder de Polícia (Rubrica).

a requisição de hospedagem. Despesa Orçamentária é aquela que depende de autorização legislativa para ser realizada e que não pode ser efetivada sem a existência de crédito orçamentário que a corresponda suficientemente. já não se trata de despesa. feitas pelos reis em vilegiatura. historicamente. Ora valia-se da concessão de honrarias. no Brasil Colonial. Todos esses são exemplos de uma realidade já caduca que o Estado de Direito não permitiu perdurar. houve outras modalidades de o Estado saldar obrigações.320/64 No Brasil dividem-se as despesas públicas em Despesa Orçamentária e Despesa Extraorcamentária. O dinheiro é da essência das próprias despesas. a despesa é. de emolumentos e salários diretamente das partes. uma perda de substância econômica do Poder Público feita com o propósito de saldar uma obrigação de pagar. em dinheiro. 101 Professor: Raimundo N. sem dúvida. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . sintetizando a definição: despesa pública é todo pagamento efetuado a qualquer título pelos agentes pagadores. títulos. CLASSIFICAÇÃO DAS DESPESAS SEGUNDO A LEI Nº. por parte da autoridade ou agente público competente. o recebimento pelos juízes. não integram o orçamento público. O acerto há de ser em dinheiro. ora da faculdade de exigir pagamento direto do público. Se houve o resgate da dívida por outros meios. Se resumem a devolução de valores arrecadados sob título de receitas extra-orçamentárias. CONCEITO Antes de qualquer coisa. Despesa pública é a aplicação (em dinheiro) de recursos do Estado para custear os serviços de ordem pública ou para investir no desenvolvimento econômico do Estado. As despesas públicas devem obedecer aos seguintes requisitos: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ utilidade (atender a um número significativo de pessoas) legitimidade (deve atender uma necessidade pública real) discussão pública (deve ser discutida e aprovada pelo Poder Legislativo e pelo Tribunal de Contas) possibilidade contributiva (possibilidade da população atender à carga tributária decorrente da despesa) oportunidade hierarquia de gastos deve ser estipulada em lei Portanto. ou seja. Aliomar Baleeiro define despesa pública como sendo a aplicação de certa quantia. uma aplicação. É inegável que. S. ou seja. Exceção são as chamadas despesas extraorçamentárias.CAPITULO XI . que é a forma usual pela qual se dá o resgate dos compromissos obrigacionais. Constituem Despesa Extra-orcamentária os pagamentos que não dependem de autorização legislativa. dentro de uma autorização legislativa para execução de fim a cargo do governo. 4. As despesas públicas devem ser autorizadas pelo Poder legislativo. 2.DESPESAS PÚBLICAS 1. através do ato administrativo chamado orçamento público. de forragem para cavalos.

concluída a escola. É difícil imaginar que uma dada instituição pública venha deixar de gerar despesas com energia elétrica (despesa corrente). não se desfruta de nenhuma contraprestação direta em bens e serviços. Muito embora seus dispositivos não definam explicitamente o que vem a ser uma Despesa Corrente ou uma Despesa de Capital. destinado a melhorar o padrão de vida e/ou incrementar o bem-estar pessoal. quando se realiza Despesas com Transferências. todavia. a Despesa Pública poderá assumir as modalidades de Despesas Correntes e Despesas de Capital. daí o seu nome: Despesas Correntes. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Serão consideradas como Despesas Correntes todas aquelas despesas do governo que se realizam de forma contínua. o que interessa quando se analisa a situação da aquisição do par de sapatos é a ocorrência de um benefício pessoal. pode-se dizer que as Despesas Correntes compreendem o universo dos gastos do governo imprescindíveis à sua sobrevivência e/ou à prestação dos serviços públicos. Concluindo. tendo uma data para se iniciarem e serem concluídas. ao contrário das despesas correntes. cuja conclusão é fato. Despesas com Transferências A mesma afirmação não se pode fazer. Assim. Todavia. realizada logo após se incorrer nos gastos. O mesmo ocorrerá quando a Administração Pública resolve construir uma 39 O termo “impossível de se cogitar” deverá ser tomado no sentido de improbabilidade. S. a menos que esta instituição seja extinta. Esta modalidade de despesa destina-se a atender necessidades de uma terceira pessoa Ao lado da classificação comentada nos tópicos precedentes. uma vez que estão ligadas à sua manutenção. em última análise. podese. Realiza-se a despesa. por intermédio das quais o Estado mantém os serviços anteriormente criados. Quanto às Despesas de Capitais. ao se realizar esta modalidade de despesa. Não é a pessoa da despesa que irá consumi-lo. diversamente do que ocorre com as despesas correntes. por exemplo. Assim. o rol de pessoas atendidas pelos serviços hospitalares. diante de uma despesa própria. mas não se desfruta do sorvete adquirido. mas um terceiro. quando se paga um sorvete para uma outra pessoa.As Despesas governamentais podem se classificar ainda em Despesas Próprias e Despesas com Transferências. a contraprestação se realizou no par de sapatos. É a Lei nº 4. Assim ocorre quando. se socorrer dos conceitos referidos quando se comenta as Receitas Correntes e de Capital. há sempre uma contraprestação direta em bens ou serviços. elas assumem um papel singular no rol das despesas públicas. é perfeitamente plausível a idéia de que o término da construção de uma escola (despesa de capital) esteja previsto para ocorrer em uma data no futuro. Amplia-se. por analogia. Só se compra pela necessidade de se calçar melhor. Despesas Próprias No universo das despesas pessoais. Portanto.320/64 que remete a essa classificação. por exemplo. Assim. impossível de se cogitar39. se adquire um par de sapatos. em regra. mais leitos hospitalares à população em geral. Outra característica das despesas de capital é que através delas o Poder Público expande os serviços públicos prestados. São permanentes. É o que ocorre. portanto. pode-se afirmar que ao incorrer numa despesa própria incorre-se também num gasto pessoal. Ao construir um hospital o Poder Público está disponibilizando. também estará realizada a despesa de capital correspondente. Entretanto. Esta é a marca característica dessa parcela destes gastos. Sua característica principal é a descontinuidade. 102 Professor: Raimundo N. vislumbra-se que uma parcela delas corresponde a compras de bens e serviços destinados a atender necessidades. Isto porque.

Inversões financeiras: são as dotações destinadas a: a) aquisição de imóveis. 1. As Despesas de Capital que se subdividem em: 1. com significativas conseqüências negativas para toda a economia. a redução nas taxas de desemprego no País. inclusive as destinadas à aquisição de imóveis considerados necessários à realização destas últimas. uma vez que mais pessoas estarão empregadas.nova rodovia: mais quilometragens são postas à disposição dos transportadores. inclusive para contribuições e subvenções destinadas a atender à manifestação de outras entidades de direito público ou privado. de um lado. S. já que os custos poderão ser menores. o que passa pela contratação de mais mão-de-obra. ainda. contudo. Será ampliado. Em decorrência. Por último. para produzirem mais. o que acaba por impulsionar toda a economia. Uma elevação no consumo do governo representa um estímulo para que o setor produtivo (empresas) oferte mais bens e serviços. mais rapidamente circularão as riquezas no País. capital. bem como para os programas especiais de trabalho. A divisão dos gastos públicos em despesas correntes e de capital presta-se especialmente a mensurar estas conseqüências de índole econômica advindas da atuação do governo. fato que contribuirá para uma significativa melhora do padrão sócio-econômico da população. portanto. O governo se apresenta como um gigantesco consumidor de bens e serviços. 4. enquanto as despesas de capital podem fornecer subsídios valiosos quanto à magnitude da poupança pública. muitos são os benefícios que poderão ser contabilizados a partir da elevação do consumo governamental.320/64 que estabelece as normas gerais dobre Direito Financeiro em seu art. 103 Professor: Raimundo N. Isto porque. com possibilidade até de redução nos preços dos produtos. Esta diferença positiva é chamada de superávit corrente e será aplicada em despesas de capital. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . também é verdadeiro. Transferências correntes: são aquelas dotações para despesas às quais não corresponda contraprestação direta em bens ou serviços. 12 classifica as despesas públicas nas seguintes categorias econômicas: a. b. as despesas correntes darão uma idéia do tamanho do consumo governamental. O inverso. Despesas correntes Despesas de capital Despesas de custeio: são as dotações para manutenção de serviços anteriormente criados.40 A Lei nº. 2. convém ressaltar o aspecto econômico a envolver as despesas correntes e de É que a classificação das despesas públicas em correntes e de capital decorre de uma necessidade econômica que ajuda a mensurar a demanda governamental no universo da demanda agregada do País. equipamentos e material permanente e constituição ou aumento do capital de empresas que não sejam de caráter comercial ou financeiro. aquisição de instalações. ou de financeiras: bens de capital já em utilização. Enfim. Investimentos: Investimentos: constituem-se nas dotações para o planejamento e a execução de obras. inclusive as destinadas a atender a obras de conservação e adaptação de bens imóveis. 40 A chamada poupança governamental corresponde à diferença positiva entre suas receitas correntes e o rol dos dispêndios correntes. as empresas necessitarão ampliar o seu quadro de produção. Este fato acarretará. o nível de renda na economia. Mas. b) aquisição de títulos representativos do capital de As Despesas Correntes que são subdividas em: 2.

Investimentos 5 . estes por sua vez bifurcam. por fim. agrícola ou pastoril. sem finalidade lucrativa. já constituídas.1. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças da Grupo da Natureza da Despesa ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ Modalidade de Aplicação ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ .Transferências a Instituições Privadas sem Fins Lucrativos 60 . A estrutura da conta. 3 Transferências capital: Transferências de capital: entendem-se as dotações para investimentos ou inversões financeiras que outras pessoas de direito público ou privado devam realizar. O 5º e 6º dígitos (4º nível) correspondem ao elemento da despesa. para fins de consolidação nacional dos Balanços das Contas Públicas e cumprir dispositivo da LRF.320/64.Reserva de Contingência 20 .Juros e Encargos da Dívida 3 .Despesas Correntes 4 . distinguindo-se como: a) b) subvenções sociais. c) constituição ou aumento do capital de entidades ou empresas que visem a objetivos comerciais ou financeiros.Reserva do Regime Próprio da Previdência Social .Transferências à União 30 . inclusive operações bancárias ou de seguros. 4.Amortização da Dívida 7 . Categorias Econômicas ♦ ♦ 3 . 2. em rubricas e sub-rubricas. apresenta 6 dígitos. para os efeitos da Lei n. Consideram-se subvenções. S. O 3º e 4º dígitos (3º nível) corresponde a modalidade da despesa.empresas ou entidades de qualquer espécie.Despesas De Capital 1 . subvenções econômicas. independentemente de contraprestação direta em bens ou serviços. O 2º dígito (2º nível) correponde ao grupo da despesa.Transferências a Instituições Multigovernamentais 104 Professor: Raimundo N. Detalhamento de código da natureza da despesa orçamentária As categorias econômicas dividem-se em elementos que se separam em subelementos.Transferências a Estados e ao Distrito Federal 40 . as transferências destinadas a cobrir despesas de custeio das entidades beneficiadas.RPPS 9 . as que se destinem a empresas públicas ou privadas de caráter industrial.Inversões Financeiras 6 . quando a operação não importe aumento do capital. O 1º dígito (1º nível) corresponde a categoria econômica. segundo derivem diretamente da Lei de Orçamento ou de lei especialmente anterior.Transferências a Municípios 50 . constituindo essas transferências auxílios ou contribuições. as que se destinem a instituições públicas ou privadas de caráter assistencial ou cultural.Pessoal e Encargos Sociais 2 .Outras Despesas Correntes 4 . comercial.Transferências a Instituições Privadas com Fins Lucrativos 70 . bem como as dotações para amortização da dívida pública.

Transferências ao Exterior 90 . por isso.♦ ♦ ♦ ♦ ♦ 71 . YY = Detalhamento do elemento de despesa (facultativo) (desdobramento) 3. a despesa com a aquisição de materiais para estoque e a despesa com adiantamento.Aplicações Diretas 91 . Constitui fato contábil modificativo diminutivo. 105 Professor: Raimundo N. a despesa não-efetiva coincide com a despesa de capital. 90 = Aplicação Direta (modalidade de aplicação): XX = Objeto do Gasto do benefício previdenciário (elemento de despesa). Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . e representa o fluxo de ingressos e aplicação de recursos em determinado período. no momento da sua realização. por exemplo. 3 = Despesa Corrente (Categoria Econômica). a Despesa Orçamentária Efetiva coincide com a Despesa Corrente. que representam fatos permutativos. seja pública ou privada. Fundos e Entidades Integrantes dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social. no momento da sua realização. reduz a situação líquida patrimonial da entidade. 1 = Pessoal e Encargos Sociais(grupo de despesa) . as transferências de capital que causam decréscimo patrimonial e. Neste caso. DESPESA ORÇAMENTÁRIA O orçamento é importante instrumento de planejamento de qualquer entidade. Despesa Orçamentária Privada – aquela executada por entidades privadas e que depende de autorização orçamentária aprovada por ato de conselho superior ou outros procedimentos internos para sua consecução. além da despesa orçamentária. ♦ b.YY. classificam-se como despesa efetiva. Em geral. por meio da Lei Orçamentária Anual ou de Créditos Adicionais. Despesa/Dispêndio orçamentário é fluxo que deriva da utilização de crédito consignado no orçamento da entidade. há despesa corrente não-efetiva como.Transferências a Consórcios Públicos 80 . podendo ou não diminuir a situação líquida patrimonial.90. pertencendo ao exercício financeiro da emissão do empenho. há despesa de capital que é efetiva como. 99 . ♦ Despesa Orçamentária Não-Efetiva – aquela que. por exemplo.XX. Despesa Orçamentária Efetiva – aquela que. Quanto às entidades destinatárias do orçamento: ♦ Despesa Orçamentária Pública – aquela executada por entidades públicas e que depende de autorização legislativa para sua realização. Entretanto.Aplicação Direta Decorrente de Operação entre Órgãos. Dessa forma.A Definir Exemplo: 3. registrase concomitantemente conta de variação ativa para anular o efeito dessa despesa sobre o patrimônio líquido da entidade. A despesa orçamentária pode ser classificada: a. S. Quanto ao impacto na situação líquida patrimonial: ♦ Em geral. Entretanto. não reduz a situação líquida patrimonial da entidade e constitui fato contábil permutativo.1.

a programação da despesa e a licitação que antecedem. e detalhadamente. 5.1. 5. tudo quanto for feito para que serviços e bens sejam colocados à disposição dos dirigentes públicos. Estágios da despesa. percorridos obrigatoriamente pela despesa. PROCESSAMENTO DA DESPESA PÚBLICA Entende-se por processamento da despesa pública o conjunto de atividades desempenhadas por órgãos de despesa na aquisição de bens e serviços. a liquidação e o pagamento. o estágio empenho. os serviços contábeis. de estágios. Estudar-se-á aqui apenas. os responsáveis pela inspeção dos bens adquiridos. Certamente por se aterem eles ao mandamento legal que fixa como estágios da despesa.2. não costumam ser mencionados pelos autores. A matéria relativa à despesa pública. será obrigatório a admissão de que três outros estágios. salários e vencimentos não reclamados. embora muitas operações realizadas no segundo período constituam excelentes subsídios aos trabalhos da fixação da despesa. que será detalhado a seguir. denominado realização da despesa. de considerável importância. os autorizadores de despesas. o controle interno. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . 5. nessa ordem. restituições a pagar e consignações em folha de pagamento. Os três estágios anteriormente referidos. os órgãos programadores da despesa. do Regulamento de Contabilidade Pública. Estágios da despesa. É do segundo período. Se for examinado cuidadosamente o percurso da despesa pública. a tomada de contas. Correspondem à restituição ou à entrega de valores arrecadados sob o título de receita extra-orcamentária. os encarregados da programação financeira. As atividades desenvolvidas em cada um dos períodos têm características próprias e não se confundem. fianças. Por atividades desempenhadas por órgão de despesa deve-se entender não apenas aquelas exercidas pelos caixas pagadores mas também. aqueles que não estão vinculados ao orçamento público. portanto. em conformidade com as disposições legais e regulamentares que disciplinam o processamento da despesa orçamentária. Tanto o período fixação da despesa como o período realização da despesa são constituídos. não integram o orçamento. Cada um desses grupos denomina-se estágio. todos os órgãos que requisitam recursos materiais e humanos para cumprirem os projetos e as atividades previamente incluídos no orçamento-programa. segundo a lei Os procedimentos adotados na realização da despesa pública são classificados em grupos que reúnem operações da mesma natureza. S. apenas o empenho. que toda a despesa percorre três estágios: empenho. São responsáveis pelo atingimento desse objetivo. em princípio. os estágios da realização da despesa. os agentes pagadores. o serviço de suprimento de fundos.4. Mas aqueles 106 Professor: Raimundo N. durante o qual se desenvolve um complexo de atividades específicas destinadas à elaboração da proposta orçamentária. devem ser estudados: o suprimento que antecede o estágio pagamento. EXTRADESPESA EXTRA-ORÇAMENTÁRIA Constituem despesas extra-orçamentárias os pagamentos que não dependem de autorização legislativa. São classificadas nas mesmas fichas individuais em que foram registradas as receitas extra-orçamentárias. as comissões de compra. a auditoria etc. liquidação e pagamento. em seguida. da mesma maneira que a receita pública envolve dois períodos distintos de atividades: um período que será denominado fixação da despesa. que já foi tratado anteriormente. num sentido bem mais amplo. pagamentos de restos a pagar. São exemplos de despesas extra-orçamentárias: devoluções de cauções. as comissões de licitação. segundo a realidade Dispõe o artigo 144 e seguintes.

666. estabelece modalidades de licitação: a concorrência. d) julgamento. b) expedição dos convites. liquidação. f) contrato. Este estágio divide-se nas seguintes fases: a) cronograma de desencaixes fixos. uma vez que a receita se realiza ao longo dos doze meses do exercício financeiro. licitação. de 21 de junho de 1993. A Lei n. terceiro estágio da despesa. É que ao estágio empenho se antepõem os estágios programação da despesa e licitação. em seu artigo 22. Em conformidade com o artigo 244 do Regulamento de Contabilidade Pública. 5. traçará um programa de utilização dos créditos orçamentários aprovados para o exercício (arts. Essa programação visa disciplinar os gastos à mesma medida que se realizam as receitas. b. empenho. S. c) decreto executivo normativo. o Poder Executivo. O convite tem apenas as seguintes fases: a) preparação. a. e) adjudicação. as dependências poderiam utilizar. mas esse fato constitui exceção e não regra. contratação de serviços ou de obras far-se-á sem prévia licitação. 47 a 50). Licitação O segundo estágio. Após a publicação da lei orçamentária. b) projeção do comportamento da receita. Cada um dos estágios subdivide-se em conjuntos de operações menores as quais denominamos fases da despesa.que convivem com os problemas mais íntimos do processamento da despesa pública sabem da existência do estágio suprimento antecedendo o do pagamento. o convite. Assim. c) encerramento. suprimento e pagamento. Programação da despesa Licitação Empenho Liquidação Suprimento Pagamento Programação da despesa A programação da despesa é o primeiro estágio da despesa pública. c) análise das cotações. nenhuma aquisição de material. todos os recursos orçamentários. 6. 2. gerando problemas de insuficiência de caixa. Empenho O empenho.° 8. através de decreto. a tomada de preços. entre vários fornecedores habilitados. quem oferece condições mais vantajosas. quais sejam: 1. b) edital. 4. c. é o ato emanado de autoridade competente que cria para o Poder Público obrigação de pagamento. licitação. o concurso e o leilão. fica entendido que a despesa pública percorre seis estágios: programação da despesa. logo nos primeiros meses do ano. Se não houvesse a programação da despesa. É o empenho que gera a obrigação de pagar (art. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Da mesma forma já vimos que nem todas as receitas passam pelo estágio lançamento e nem por isso ele deixa de ser um importante momento da receita. só terá início depois de decretada a programação da despesa. A concorrência e a tomada de preços desdobram-se nas seguintes fases: a) preparação. 107 Professor: Raimundo N. Em alguns casos o estágio licitação é dispensado. 58). não deixa de ser um momento da despesa. Licitação é o procedimento administrativo que tem por objetivo verificar. 3. e d) adjudicação. com a fixação das cotas trimestrais.

Compõe-se de uma única fase: entrega de meios de pagamento aos agentes pagadores. são meios de pagamento colocados à disposição dos agentes pagadores pelo Tesouro. e. no processamento da despesa também não há contato direto entre o Tesouro e os credores. c) laudo de medição. I. Essa verificação tem por fim apurar a origem e o objeto do pagamento. Não há agentes pagadores privados. d) atestado de prestação de serviços. Fases do estágio pagamento: a) liquidação da obrigação. as pagadorias. as caixas e outros órgãos públicos. nos momentos oportunos. é tratado em capítulo especial mais adiante. a importância exata e a quem se deve pagar para extinguir a obrigação. terá por base o contrato. O Tesouro Público supre os agentes pagadores com dinheiro ou com créditos bancários em contas especiais e por eles movimentadas. por fornecimentos feitos ou serviços prestados. eles são atendidos sempre pelos agentes pagadores. S. g) autorização de pagamento. Suprimento Suprimento é o estágio da despesa em que o Tesouro Público entrega aos agentes pagadores os meios de pagamento para liquidação dos compromissos financeiros marcados para determinado dia ou período. assinalando. bem como uma demonstração gráfica do fluxo de caixa. seja por limite de saque bancário em conta especial. Pagamento O pagamento é o último estágio da despesa. as exatorias. a nota de empenho e os comprovantes de entrega do material ou da prestação efetiva do serviço. f) controle interno. liquidação da despesa consiste na verificação do direito adquirido pelo credor. b) inspeção e liberação. É o suprimento de fundos. pois são atendidos pelos agentes arrecadadores. O empenhamento da despesa. e h) cheque. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . a realização dos estágios financeiros da receita e da despesa. Da mesma forma que na arrecadação. 108 Professor: Raimundo N. identifica-se. onde o contribuinte não tem acesso direto ao Tesouro. b) emissão. A liquidação da despesa. d. essa atividade constitui a última operação do processamento da despesa. São fases deste estágio: a) recebimento da mercadoria ou do serviço. d) controle interno e e) contabilização. Liquidação Segundo conceituação legal (art. f. recebe seu crédito e dá a competente quitação. o ajuste ou acordo respectivo. 63). c) assinatura. O credor comparece perante o agente pagador.Empenhar uma despesa consiste em emitir um documento denominado NOTA DE EMPENHO. Divide-se este estágio nas fases: a) autorização. Agentes pagadores Agentes pagadores são as tesourarias. Seja em dinheiro. A seguir será apresentado um quadro comparativo dos estágios da receita e da despesa. e) requisição do pagamento. tendo por base os títulos e documentos comprobatórios do respectivo crédito. b) quitação do credor: c) contabilização.

1: QuadroXI.1: Comparativo dos estágios da receita e da despesa Note-se que esses estágios. O terceiro gráfico mostra os estágios e as correspondentes fases da despesa pública. recolhimento e suprimento. segundo o qual o produto bruto da arrecadação é encaminhado a um cofre comum de onde são retirados os recursos para pagamento das despesas.2: Comparativo dos estágios da receita e da despesa 109 Professor: Raimundo N. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .QuadroXI. Quadro XI. S. são os que materializam o princípio de unidade de tesouraria.

° e parágrafo único da Lei n. poderão ser pagos à conta de dotação específica consignada no orçamento.. discriminada por elementos. Compreendem os empréstimos internos e externos. para as quais o orçamento correspondente consignava crédito próprio.3. e está mesmo consagrada em várias disposições legais como. O último artigo mencionado dispõe que são considerados restos a pagar as despesas empenhadas. pelo menos até a fase “g autorização de pagamento (v. A dívida flutuante restringese à área nacional e seu resgate é sempre programado em curto prazo. 5. obedecida. de 16 de outubro de 1949 e no art. 3. mas não paga até o último dia do ano financeiro. conforme o empréstimo seja feito no país ou no exterior. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . as restituições a pagar e os débitos de tesouraria. As duas denominações equivalem-se. que pode ser interna ou externa. menos assessorados.Restos a pagar ou resíduos passivos A despesa orçamentária empenhada. que não se tenham processado na época própria. S. Gráfico 03). nos arts. Já a constituição e a liquidação da dívida flutuante não dependem de autorização legislativa. A Lei n° 4. sua aplicação tem restrições disciplinadas pela legislação financeira em vigor.320/64. Divida pública ou dívida passiva Dívida pública e dívida passiva do Estado são expressões equivalentes. ou pelo menos de reduzir. constantes do Anexo n°4 da Lei Federal n. Entretanto. mesmo que nele já tenham ingressado. entretanto. Esse crédito foi criado com a finalidade de eliminar.° 869. ex. 36 da Lei n. Esse entendimento tem levado muitos administradores.320/64 estabelece que as despesas de exercícios encerrados.4. 110 Professor: Raimundo N. bem como os valores arrecadados a título de receita extra-orcamentária. 5. A intitulação dessa rubrica orçamentária transmite a idéia de que todas e quaisquer despesas de exercícios anteriores possam ser processadas à conta do orçamento vigente. não puderam ser pagas em exercícios anteriores. Já as despesas não processadas são as que não concluíram o estágio “liquidação”. processadas Despesas processadas e não processadas Por despesas processadas entende-se aquelas despesas que completaram o estágio “liquidação”.° e 4. A dívida pública é classificada em dois grupos: dívida consolidada ou fundada e dívida flutuante. A primeira. a abertura de créditos especiais destinados a atender pagamentos de despesas que. a procederem assim sistematicamente. mas não pagas até 31 de dezembro. Compreende a dívida flutuante toda a receita extra-orcamentária.320/64. com saldo suficiente para atendê-las.° 4. depende de autorização legislativa para ser contraída. restos a pagar tem sido a mais utilizada na prática.° 4. Do exposto conclui-se que a constituição e a liquidação da dívida consolidada dependem de autorização legislativa. p. distinguindo-se as processadas das não processadas. O resgate anual da dívida consolidada constitui despesa orçamentária do exercício. Despesas de exercícios anteriores O orçamento pode consignar dotação especial para o processamento de despesas relativas a exercícios encerrados. sempre que possível a ordem cronológica. por razões diversas. a curto e a longos prazos. os restos a pagar. bem como os restos a pagar com prescrição interrompida e os compromissos reconhecidos após o encerramento do exercício correspondente. é apropriada ao exercício em contrapartida com a conta financeira resíduos passivos ou restos a pagar. Significam o conjunto de compromissos assumidos pelo Estado com terceiros.

desde que o crédito respectivo tenha sido convertido em renda. concomitantemente. Os Estados poderão legislar supletivamente. e III — compromissos reconhecidos pela autoridade competente. como fez o Estado de São Paulo. de 12 de janeiro de 1968. 111 Professor: Raimundo N. com saldo suficiente para atendê-las. ainda que não tenha sido prevista a dotação orçamentária própria ou não tenha esta deixada saldo no exercício respectivo. mas que pudessem ser atendidos em face da legislação vigente. Outras despesas de exercícios anteriores que não se enquadram nas disposições do regulamento federal devem ser atendidas mediante abertura de crédito especial sem prejuízo de. são competentes para reconhecer dívidas de exercícios anteriores os chefes das repartições. S. Pelo regulamento mencionado podem correr à conta dos elementos acima mencionados dívidas classificadas nas seguintes categorias: 1 — despesas de exercícios encerrados. pelo artigo 35 da Lei n°10. II — despesas de restos a pagar.320. que deverão ser reconhecidas pelo Ministro de Estado. exceto as compreendidas no inciso III. dirigente de órgão subordinado à Presidência da República ou autoridade a quem estes delegarem competência. de. 2. 16 de dezembro de 1968. com prescrição interrompida. instaurar-se processo para apuração de responsabilidade.° 62. sobre a matéria. Em conformidade com o art. para as quais o orçamento respectivo consignava crédito próprio. ° desse decreto.115. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .O artigo 37 foi regulamentado pelo Decreto Federal n. que não se tenham processado na época própria.

sinceridade. e a forma material desse órgão expressar sua autorização é a lei. CONCEITO E DEFINIÇÃO Ainda não se chegou a uma definição de orçamento que fosse livre de crítica e aceita pacificamente pela maioria dos autores. destacam-se os seguintes: anualidade. exclusividade. porém. Através da autorização prévia. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . que declara ser o orçamento sempre uma lei. às vezes simplesmente contábil e. levando-se em conta o fato de que eles foram consagrados pelo nosso Direito Financeiro. natureza contábil. unidade e universalidade. periodicidade. o orçamento não é essencialmente uma lei. planos de obtenção de recursos. de sua cultura e de sua civilização”. liderada pelo financista Gaston Jèze. investimentos. assim. sobre a matéria. transferências e receitas. a definição do Professor Alberto Deodato é mais adequada. Em torno dessa necessidade movimentaram-se os autores clássicos. Divergem as opiniões e. “O orçamento é. PRINCÍPIOS ORÇAMENTÁRIOS . A primeira. inversões e transferências durante um período financeiro. Há. oferecendo um rol de regras a serem observadas. pode o órgão de representação popular exercer sua ação fiscalizadora sobre a arrecadação e a aplicação realizadas pelo Poder Executivo. um simples ato administrativo. especificação. faz-se mister que a constituição orgânica do orçamento se vincule a determinadas regras ou princípios orçamentários. S. tanto na elaboração e apresentação do orçamento. analisando o aspecto econômico. mais difundida. a questão continua aberta à discussão. 112 Professor: Raimundo N. pelas cifras. em programas de custeios. ainda. investimentos. para real eficácia desse controle.CAPITULO XII – ORÇAMENTO PÚBLICO 1.CONCEITO O orçamento público surgiu para atuar como instrumento de controle das atividades financeiras do Governo. Essas são definições do orçamento examinado sob o ângulo financeiro. torna-se extensa a relação que apresentam. mas sua substância não é a de uma lei. em outras partes. É o espelho da vida do Estado e. unidade de caixa. o quadro orgânico da economia pública. Somente sobre estes princípios faremos breve comentário. clareza. tendo à frente o economista alemão Hoennel. unidade orçamentária. Em outras palavras: orçamento público é um planejamento de aplicação dos recursos esperados. se conhecem os detalhes de seu processo. como na sua votação pelo Congresso. A terceira teoria. publicidade. exclusividade. Dos inúmeros princípios expostos sobressaem-se alguns que já se confirmaram na doutrina pela constância com que são defendidos pela maioria dos financistas: anualidade. três teorias. planos de investimentos. mas um programa de trabalho do Poder Executivo. Entretanto. orçamento bruto. em algumas de suas partes. não afetação das receitas. 2. ele é lei. sustenta que o orçamento é. entende que o orçamento possui apenas a aparência de lei. autorização prévia. exatidão. A execução desse programa de trabalho exige autorização prévia do órgão de representação popular. e aprovado pelo Poder Legislativo. na sua mais exata expressão. A segunda. Entre os princípios mais salientados pelos tratadistas. inversões. universalidade etc. Atualmente. de inversões e. Por isso entende-se que o orçamento é um programa de custeios. proposto pelo Poder Executivo para um período financeiro. precedência da despesa sobre a receita. em conseqüência. especificação. comandada pelo constitucionalista francês Léon Duguit. Divergem os escritores na fixação dos princípios e. Programa que contém planos de custeio dos serviços públicos.

2. suas novas responsabilidades no campo econômico. tanto para arrecadar tributos como para aplicar os recursos financeiros. exige que o plano de cobrança dos tributos e o programa de custeio e investimentos sejam expostos pormenorizadamente. esta regra obriga o Poder Executivo a pedir. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . constitui hoje um dos princípios básicos do orçamento público. as novas responsabilidades assumidas pelo Estado. anualmente.320/64. A dificuldade surge ao indagar-se qual o sistema ideal de classificação e quais os graus de especificação a serem adotados. a lei orçamentária não conterá matéria estranha à previsão da receita e à fixação da despesa. o orçamento deve constituir uma só peça. assim. medidas que em tramitação regular talvez não lograssem êxito. tem por escopo vedar as autorizações globais. se há equilíbrio. também denominado princípio da periodicidade. 4. sempre. é importante notar que o cumprimento desse princípio interessa tanto ao Poder Legislativo como ao próprio Poder Executivo. o Poder Legislativo revê. todas as receitas devem entrar em uma caixa única e daí deverá sair o dinheiro para pagamento de todas as despesas. defendido por alguns autores. reajustar o custo dos serviços públicos. Embora reajustado em seu conceito fundamental. No Brasil. Atualmente. o conceito de unidade refere-se à unidade de caixa. O princípio da anualidade. os sistemas e os graus de especificação são aqueles determinados pelos Anexos nº 3. para se aprovarem. denominado plano plurianual de investimentos. mas a execução de tais planos. Princípio da anualidade De conformidade com o princípio da anualidade. O período de doze meses tem sido considerado ideal. F. pelo confronto das duas somas. eficientemente e com segurança. tais vantagens beneficiam apenas os serviços públicos existentes e os investimentos em curto prazo. Esta regra reforça a ação fiscalizadora do Poder Legislativo. periodicamente. Principio da especificação O princípio da especificação. S. único modo de o Estado desempenhar. o orçamento vigora durante um ano.1. entretanto. o custo do programa governamental e autoriza a cobrança de tributos. Por outro lado. a um período limitado de tempo. saldo ou déficit. levam o Governo a elaborar programas de investimentos em longo prazo. Entretanto. ou princípio da discriminação. O princípio amplia a ação fiscalizadora do órgão de representação e propicia ao Governo a possibilidade de reformular seu programa de atividades com os preços reajustados à nova realidade econômico-financeira. com facilidades. nova autorização para cobrar tributos e aplicar o produto da arrecadação. 3. periodicamente. Assim. com base em valores novos conseqüentes da oscilação de preços. Principio da unidade De acordo com o princípio da unidade. não pode ficar na dependência de aprovações anuais e esse fato conduz à reformulação do princípio da anualidade. para outra corrente. Esse é o conceito de unidade sob o aspecto formal. em longo prazo. 4 e 5 da L. as previsões de receita e despesa devem referir-se. E isto vem sendo atendido através do orçamento paralelo. Princípio da exclusividade Segundo o princípio da exclusividade. 113 Professor: Raimundo N. Surgiu desse modo a necessidade de conciliar as vantagens dos programas anuais com a exigência de planos em longo prazo. O objetivo é impedir que seja utilizado um procedimento legislativo rápido. n° 4. os programas anuais vêm sendo acompanhados de planejamentos plurianuais. em quase todos os países. Este tem a possibilidade de. na medida necessária à boa execução do plano. em virtude dos prazos fatais a que está sujeito. o princípio da anualidade continua a dominar a constituição do orçamento público. atuando nas áreas comercial e industrial. de origem inglesa. que poderá ou não coincidir com o ano civil. compreendendo as receitas e as despesas do exercício. de modo a demonstrar. isto é.

O objetivo da regra é possibilitar controle mais fácil ao Poder Legislativo sobre as origens e destinações dos fundos públicos. Em decorrência da expansão das atividades comerciais e industriais do Estado, o princípio da unidade é freqüentemente violado pelo surgimento dos orçamentos paralelos, pela necessidade da descentralização das atividades governamentais, criando-se órgãos dotados de autonomia financeira, fundos especiais e regimes financeiros especiais (art. 164, § 3°, da Constituição de 1988). A tendência é a de substituir o princípio da unidade pelo princípio da totalidade orçamentária, segundo o qual o orçamento constituiria uma aglutinação dos orçamentos administrativos, plurianuais e especiais, com inclusão dos orçamentos dos órgãos descentralizados. Isso formaria um documento harmônico demonstrando, numa visão de conjunto, os montantes das receitas e das despesas, analisados por grupos orçamentários representativos dos órgãos descentralizados. 5. Principio da universalidade Conforme o princípio da universalidade, todas as receitas e todas as despesas devem ser incluídas no orçamento. De origem francesa, o princípio tem por objetivo oferecer ao Parlamento um controle seguro sobre as operações financeiras realizadas pelo Poder Executivo. Este princípio costuma ser acompanhado da regra do orçamento bruto, segundo a qual as receitas e despesas devem figurar no orçamento pelos seus valores brutos, isto é, sem subtrair da arrecadação de determinado órgão suas despesas, fazendo constar no orçamento apenas a parte líquida da arrecadação. Mas as atividades descentralizadas não permitem a aplicação dessa regra, uma vez que, das operações comerciais e industriais, apenas o resultado líquido figura no orçamento; por tais motivos a importância da regra do orçamento bruto começa a declinar. Entretanto, o princípio da universalidade continua a merecer, por parte dos tratadistas de finanças públicas, a mais franca aceitação por entenderem eles que se trata de requisito essencial de um bom sistema orçamentário, procurando-se, entretanto, dissociá-lo da regra do orçamento bruto.

3.

ORÇAMENTO TRADICIONAL DE RECEITAS E DESPESAS

Denomina-se orçamento tradicional aquele que se elaborava antes do advento do orçamento-programa. Tratava-se de um simples relacionamento das receitas a arrecadar e das despesas de custeio. Era a reunião, num só documento, das duas demonstrações analíticas que descrevemos nos títulos anteriores. Se o total das receitas fosse superior ao das despesas, a diferença positiva seria aplicada na criação de novos serviços ou na ampliação e aprimoramento de serviços já em funcionamento. Dessa forma a ampliação dos serviços públicos ficava à mercê da existência de saldo positivo entre a receita e a despesa. Não eram planejados os investimentos, os quais, por não serem especificados e quantificados a priori, ficavam ao sabor das circunstâncias. O orçamento ortodoxo nada mais era do que um extenso rol, profundamente analítico, das receitas e das despesas do exercício. Não tinha o cunho de planejamento. Os melhoramentos dos serviços públicos ocorriam somente em razão do superávit, e os graus prioridade eram sujeitos às injunções políticas e ao interesse dos governantes.

114
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

4.

ORÇAMENTOORÇAMENTO-PROGRAMA

Foi visto que o orçamento tradicional era a peça na qual a administração analisava em primeiro lugar os recursos disponíveis: e em seguida, definia a distribuição desses recursos na manutenção da rede de serviços públicos existentes. Não passava, em verdade, de um simples programa administrativo. Não criava, não ampliava, não mostrava, previamente, se havia objetivos a serem atingidos dentro do exercício financeiro. O orçamento tradicional era elaborado pelos órgãos de contabilidade sem participação efetiva da alta administração. Os autores costumavam definir o orçamento como um simples ato contendo a aprovação prévia das receitas e das despesas públicas, Alguns tratadistas, mais argutos, já admitiam, nas suas definições de orçamento, a idéia de planejamento, embora de fato eles não o fossem. Preocupava-se o orçamento comum com os meios41 e não com os fins das funções governamentais. O orçamento-programa, por sua vez, põe em destaque as metas, os objetivos e as intenções do Governo. Consolida um grupo de programas que o Governo se propõe a realizar durante um período Os planos são expressos em unidades mensuráveis e seus custos definidos. É um programa de trabalho e constitui, portanto, um instrumento de planejamento. Enquanto o orçamento tradicional mostrava o que se pretendia gastar ou comprar, o orçamento-programa realça o que se pretende realizar. Ë um programa de trabalho definindo objetivos a serem alcançados, seus custos e as fontes dos recursos. O orçamento comum restringe os gastos e as compras ao montante da receita estimada, enquanto o orçamento-programa não limita as metas governamentais aos recursos orçamentários previstos. O orçamento-programa constitui modalidade de orçamento na qual a previsão dos recursos financeiros e sua destinação decorrem da elaboração de um plano completo. Distingue-se do orçamento comum porque este parte da previsão de recursos para a execução de atividades instituídas, enquanto no orçamento-programa a previsão de recursos é a etapa final do planejamento. A elaboração do orçamento-programa abrange quatro etapas: 1. 2. 3. 4. Planejamento: é a definição dos objetivos a atingir; Programação: é a definição das atividades necessárias à consecução dos objetivos; Projeto: é a estimação dos recursos de trabalho necessários à realização das atividades; Orçamentação: é a estimação dos recursos financeiros para pagar a utilização dos recursos de trabalho e prever as fontes dos recursos.

4.1.

OrçamentoRecursos para execução do Orçamento-Programa

Elaborado o planejamento, faz-se necessário definir as fontes de recursos financeiros que deverão sustentar e assegurar o desenvolvimento do plano de ação e o atingimento dos objetivos do Governo. tributos. As primeiras e principais fontes de recursos são as receitas próprias, provenientes dos

A fim de que o volume dos recursos próprios do Governo possa atingir, ano a ano, pico mais alto de arrecadação será indispensável ficar atento às distorções do Código Tributário e corrigilas sempre em tempo hábil. É importante rever anualmente as Plantas de Valores, os ajustamentos das alíquotas e das tarifas; intensificar e atualizar os meios legais e administrativos de cobrança amigável e judicial dos tributos não recolhidos.
41

Origem provável da expressão “lei de meios”.

115
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

Outra fonte de recursos é a contribuição de melhoria que permite recuperar o custo de certas obras que beneficiam indiretamente determinados grupos de contribuintes. O financiamento de obras de infra-estrutura física, tributáveis, que garantem o retorno do capital aplicado, a curto e a médios prazos, constitui também legítima fonte de recursos para levar a bom termo as metas governamentais. Finalmente, os empréstimos a curto, a médio e a longos prazos são recursos hábeis e legais. Podem ser obtidos por meio de operações financeiras ou emissão de títulos da dívida pública.

4.2.

Estimativa da receita

O cálculo da receita a ser arrecadada no exercício seguinte constitui um trabalho relevante e de responsabilidade, pois a receita orçamentária representa uma importante fonte de recursos para a realização dos programas de trabalho — atividades e projetos — traçados pelo chefe do Poder Executivo. A tarefa não é fácil. Os procedimentos adotados na estimação da receita evoluíram, mas ainda não existem normas concretas e definitivas que conduzam a uma avaliação exata da receita. O método de tomar por base a receita arrecadada no penúltimo exercício já foi há muito abandonado. Outro procedimento adotado durante algum tempo foi o de tomar como base a média das arrecadações dos últimos três anos. Outros métodos menos técnicos já foram esquecidos. A estimativa da receita não é uma ciência, nem pode ser tratada como profecia. Muitos são os fatores que envolvem a análise e a mensuração da receita futura. A tarefa é árida e os resultados são considerados sempre em nível de aproximação. O problema agrava-se nos países de moeda instável. A oscilação dos preços, o crescimento vegetativo, o aumento demográfico, o incremento dos centros de produção, a política tributária, a revisão da Planta de Valores, as alterações de alíquotas, a eficácia na cobrança dos contribuintes faltosos e a intensificação da fiscalização são, entre outros, alguns fatores de influência direta na estimativa da receita. O órgão central de orçamento, auxiliado pelo cadastro fiscal, pela contabilidade, pela administração tributária e por outros órgãos da administração, envolvidos no processo arrecadatório, terá condições de definir, numa primeira aproximação, o montante da receita a ser arrecadada no exercício seguinte. Em seguida, a análise cuidadosa de cada um dos fatores de influência determinará, mediante sucessivas aproximações, o montante provável da arrecadação. A comissão, ou órgão centralizador do orçamento, deve catalogar, de forma sistemática e permanente, informações que auxiliarão no trabalho de estimar as receitas. O técnico orçamentista precisa ser dotado de suficiente experiência e sensibilidade para pesar bem cada um dos fatores que modificam o valor da receita prevista. Um dos procedimentos mais corretos na avaliação da receita global é dividi-la em seus diversos componentes, isto é, analisar e mensurar, separadamente, uma por uma, as fontes de arrecadação. Cada uma delas tem a sua peculiaridade. A seção central de orçamento deve conhecer profundamente as características de cada espécie de tributo. Às vezes, a alíquota de determinado tributo é aumentada sem o objetivo de se obter um aumento na arrecadação. Assim, em diversas etapas aproximatórias obtém-se uma estimativa de receita fiel ao princípio orçamentário da sinceridade.

116
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

e O controle. Trata-se de um instrumento de planejamento que espelha as decisões políticas. passa a espelhar. O PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO ORÇAMENTO PÚBLICO NO BRASIL O processo orçamentário brasileiro obedece aos ditames estabelecidos na Constituição nos artigos 165 a 169. definindo as novas despesas que serão custeadas pelos novos recursos. o artigo 165 confere ao Poder Executivo a obrigatoriedade de estabelecer o Plano Plurianual (PPA). o Congresso Nacional. colaborando assim. Apresenta múltiplas funções . estas são estimadas pelo governo. caracterizando-se por configurar quatro fases distintas quais sejam: 1. 117 Professor: Raimundo N. contribuições sociais e tarifas de serviços públicos.5. não refletindo com exatidão aquilo que foi previsto arrecadar. que expressa o esforço do governo para atender à programação requerida pela sociedade. Com a estabilização econômica. favorecendo o acompanhamento e a avaliação das ações governamentais. o governo encaminha ao Congresso um projeto de lei pedindo autorização para incorporar e executar o excesso de arrecadação.no caso do governo federal.de planejamento. Se. financeira e de controle. têm que estar autorizadas na lei orçamentária anual refletindo a co-responsabilidade entre os poderes. para serem realizadas. a receita cair. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . S. elas podem ser maiores ou menores do que foi inicialmente previsto. a qual é financiada com as contribuições de todos os cidadãos por meio do pagamento de seus tributos. A elaboração da proposta. A apreciação e votação pelo Legislativo . o que exigirá corte nas despesas programadas.1. em face da escassez de recursos. 3. O orçamento público é uma lei que. ao contrário. o orçamento se reveste da maior importância. a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA) que é o próprio orçamento. exprime em termos financeiros a alocação dos recursos públicos. Orçamento Geral da União (OGU) O Orçamento Geral da União (OGU) prevê todos os recursos e fixa todas as despesas do Governo Federal. consubstanciado no acompanhamento e avaliação da execução. contábil. Legislativo e Judiciário. Por isso mesmo. das disposições gerais que norteiam o referido processo. referentes aos Poderes Legislativo. 2. A sua execução. As despesas fixadas no orçamento são cobertas com o produto da arrecadação dos impostos. Depois que o Orçamento é aprovado pelo Congresso. taxas e contribuições federais bem como pelas operações de crédito que nada mais são do que o endividamento do Tesouro Nacional junto ao mercado financeiro interno e externo. entre outros aspectos. na medida em que os valores expressos em termos reais tendem a não ficar defasados. 4. Esta nova realidade demanda a necessidade de se difundir amplamente o conteúdo do orçamento. Em particular. Executivo e Judiciário. o governo fica impossibilitado de executar o orçamento na sua totalidade. a alocação dos recursos. são fixadas as despesas dos poderes Executivo. As despesas. voltado para os interesses da sociedade. o governo passa a gastar o que foi autorizado. estabelecendo as ações prioritárias para o atendimento das demandas da sociedade. feita no âmbito do Poder Executivo. como ocorria no período inflacionário. com maior nitidez. Com base na receita prevista. No tocante às receitas. Se a receita do ano for superior à previsão inicial. principalmente pelo contribuinte e seus representantes. Em conseqüência. 5. para a construção de um estado moderno.

5. S. de forma regionalizada. Orçamentárias Lei de Diretrizes Orçamentárias . ou seja. Foram criados três instrumentos institucionais responsáveis pela regulamentação (Plano Plurianual – PPA). a Secretaria de Orçamento Federal (SOF) elabora a proposta orçamentária para o ano seguinte. Quando de sua elaboração não se pode fixar despesas em valores superiores aos recursos disponíveis. até o dia 31 de agosto do primeiro ano do mandato de cada presidente. Com base na LDO.PLO. para ser discutido e votado. 118 Professor: Raimundo N.2. Depois de aprovado. O projeto da LDO tem como base o PPA e deve ser apreciado pelo Congresso Nacional até 30 de junho de cada exercício. assim. 2. A Constituição de 1988 gerou um novo conjunto de normas complexas para regulamentar o processo decisório do orçamento federal. a proposta detalha programas e atividades específicas que devem estar de acordo com os dois instrumentos mencionados. este se limita essencialmente à proposição de emendas ao projeto de lei orçamentária que visam direcionar para suas bases eleitorais programas e projetos de interesse local. O PPA precisa ser aprovado pelo Congresso até o final do primeiro ano do mandato do presidente eleito. o ciclo orçamentário para além da formulação do projeto de lei anual. Pela Constituição. O principal objetivo dessas inovações foi criar um sofisticado sistema hierárquico de coordenação e planejamento para um período de quatro anos. Depois de aprovado. esta tríade se liga hierarquicamente em diferentes etapas. planejamento (Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO) e distribuição dos recursos federais (Lei Orçamentária Anual – LOA). O PPA estabelece as diretrizes. é a de estabelecer objetivos e metas que comprometam o Poder Executivo e o Poder Legislativo a dar continuidade aos programas na distribuição dos recursos. o processo de elaboração do orçamento brasileiro tem alternado situações em que o Congresso efetivamente participa e define onde e como os recursos públicos são distribuídos e outras nas quais ele tem pouca ou nenhuma influência direta.PPA O projeto do Plano Plurianual precisa ser elaborado pelo governo e encaminhado ao Congresso. e precisa ser encaminhado ao Congresso até o dia 15 de abril de cada ano. ampliando. O Orçamento é elaborado pelos três poderes da República e consolidado pelo Poder Executivo. o PPA é válido para os quatro anos seguintes. como determina a Constituição.LDO As metas e diretrizes definidas pelo PPA e pela LDO são utilizadas pelo Executivo para elaborar o Projeto de Lei Orçamentária . Plano Plurianual . Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . O controle e a fiscalização da execução do PPA são realizados pelo sistema de controle interno do Poder Executivo e pelo Tribunal de Contas da União. em termos orçamentários. O projeto da LDO é elaborado pelo Poder Executivo. o projeto é sancionado pelo Presidente da República. A elaboração do Orçamento Historicamente. objetivos e metas. O acompanhamento e a avaliação são feitos pelo Ministério do Planejamento e Orçamento. Este projeto de orçamento estima o total das receitas e fixa as despesas para o exercício fiscal subseqüente. mesmo quando os parlamentares têm um papel efetivo. ele precisa ser equilibrado. ou seja. Essa limitação obriga o governo a definir prioridades na aplicação dos recursos estimados. sob a direção do Ministério do Planejamento e Orçamento e a coordenação da Secretaria de Orçamento Federal (SOF). da administração pública federal. 1. Atualmente. com a participação dos Ministérios (órgãos setoriais) e as unidades orçamentárias dos Poderes Legislativo e Judiciário. A finalidade do PPA. As metas para a elaboração da proposta orçamentária são definidas pelo Plano Plurianual (PPA) e priorizadas pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

que fica com a responsabilidade de consolidar tudo em uma proposta única. Orçamento Fiscal O orçamento fiscal abrange impostos e as despesas de toda a administração pública. ainda é possível modificar o projeto mediante créditos adicionais que abrem a possibilidade de introduzir novas emendas com potencial de redistribuir recursos.SOF estima o total de receitas e despesas de cada ministério (pessoal. A Lei Orçamentária Anual é composta de três orçamentos diferentes: a. especialmente os de mais prestígio e poder político. denominada de Lei Orçamentária Anual (LOA). é devolvido ao Executivo para sanção.LOA O Executivo é responsável pela coordenação e elaboração da Proposta de Orçamento Anual . o PLO. 119 Professor: Raimundo N. Mesmo esgotadas essas etapas. É nessa fase que se dão as negociações mais ardilosas dentro do Poder Executivo. convertendo-o em um jogo seqüencial em que Executivo e Congresso interagem em mais de uma ocasião. sendo em seguida apreciado pelas duas Casas do Congresso.POA. O PLOA. S.CMPOF. que é então encaminhado ao Congresso. fazendo constar seus pedidos já no projeto enviado pelo presidente da República. Mas o jogo orçamentário não acaba depois que o PLOA é aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente da República. pela Secretaria de Orçamento Federal . inclusive operacionais e de investimentos. É importante notar que é nessa etapa que alguns parlamentares. define os parâmetros para todas as demais despesas.). O exame da proposta é realizado pela Comissão Mista de Planos. Por determinação constitucional o presidente da República está obrigado a enviar para o Congresso o PLOA até 30 de agosto e o prazo que este tem para emendar e aprovar o projeto se estende até 15 de dezembro. do Ministério do Planejamento. mais especificamente.3. contribuições previdenciárias. Lei Orçamentária Anual . Social: Orçamento de Seguridade Social: O orçamento da seguridade social corresponde à ação do governo em três setores: saúde. posteriormente. além de especificar os limites de despesas para cada programa que cada um dos órgãos públicos se propõe a desenvolver. com ou sem vetos. recorrem às suas redes políticas dentro dos ministérios e órgãos federais para incluir projetos de seu interesse na proposta que o Executivo deve enviar ao Congresso Nacional. Esse mecanismo institucional torna o processo orçamentário quase interminável. Depois de sancionado pelo presidente da República. do Legislativo e do Judiciário. o PLOA transforma-se em lei. dívidas etc. O Executivo participa desse jogo em uma posição mais favorável. Esses parlamentares “furam a fila” num estágio importante das negociações no Congresso. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Na seqüência. Orçamento e Gestão. incluindo os três Poderes e as fundações mantidas pelo Estado. A Secretaria de Orçamento Federal . pois se utiliza da assimetria de informações e de mecanismos institucionais que lhe outorgam consideráveis poderes discricionários.SOF. previdência e assistência social. Orçamentos Públicos e Fiscalização . com cada parte buscando alargar seu quinhão do orçamento e o Tesouro procurando conter as reivindicações de todos. Após considerar esses limites orçamentários. b. com a participação dos demais Ministérios (órgãos setoriais) e as unidades orçamentárias dos Poderes Legislativo e Judiciário a coordenação e detalhamento da POA. cada ministério e órgão público devolve seu projeto à SOF.

devendo vigorar por quatro anos. o qual. a. para um período de quatro anos. S. O projeto de lei é publicado e encaminhado à Comissão Mista de Planos. até cinco emendas por Comissão Permanente da Câmara e do Senado e até cinco emendas por Bancada Estadual. passa a denominar-se Parecer Preliminar. O orçamento de investimentos das estatais é responsável pelo montante total das receitas de capital (de origem não fiscal) a ser investido pelos órgãos públicos. primeiramente. Recebido pelo Congresso Nacional. Orçamento e Gestão e encaminhado ao Congresso Nacional pelo Presidente da República. Em complemento à análise inicial. Para a elaboração e execução do PPA são obedecidas as seguintes fases: Elaboração 1. de 2006 – CN. a CMO pode realizar audiências públicas regionais para debater o projeto. que possui exclusividade na iniciativa das leis orçamentárias. Composto pelo texto da lei e diversos anexos. fortalecendo. Nenhuma obra de grande vulto ou cuja execução ultrapasse um exercício financeiro pode ser iniciada sem prévia inclusão no plano plurianual. Parecer Preliminar O parlamentar designado para ser o relator do projeto de plano plurianual (PPPA) deve. com vistas a inserir. elaborar Relatório Preliminar sobre o projeto. 120 Professor: Raimundo N. assim. suprimir. abre-se prazo para a apresentação de emendas ao projeto de plano plurianual. o projeto de lei deve ser encaminhado ao Congresso Nacional até 31 de agosto do primeiro ano de mandato presidencial. Comissões Permanentes da Câmara e do Senado e Bancadas Estaduais. Orçamentos Públicos e Fiscalização – CMO. Projeto de Lei O projeto de PPA (PPPA) é elaborado pela Secretaria de Investimentos e Planejamento Estratégico (SPI) do Ministério do Planejamento. aprovação e implementação pelos Poderes Legislativo e Executivo.3. Cada uma dessas leis tem ritos próprios de elaboração. Ao relatório preliminar podem ser apresentadas emendas por parlamentares. o exercício do controle social na aplicação dos recursos públicos. Esse parecer estabelece regras e parâmetros a serem observados quando da análise e apreciação do projeto. e iii) orientações sobre apresentação e apreciação de emendas. LDO e LOA. objetivos e metas do governo para os projetos e programas de longa duração. elaboração Processo de elaboração do Orçamento O processo orçamentário compreende as fases de elaboração e execução das leis orçamentárias – PPA. Plano Plurianual . Entender esses ritos é o primeiro passo para a participação da sociedade no processo decisório. 3. 5. observadas as normas constantes da Resolução nº. 01. que estabelece as diretrizes.PPA O plano plurianual – PPA é instrumento de planejamento de médio prazo. 2. Ao projeto podem ser apresentadas até dez emendas por parlamentar. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o projeto inicia a tramitação legislativa.c. aprovado pela CMO. Orçamento de Investimentos das Estatais. Emendas Após aprovado o parecer preliminar. substituir ou modificar dispositivos constantes do projeto. tais como: i) condições para o remanejamento e cancelamento de valores financeiros constantes do projeto. ii) critérios para alocação de eventuais recursos adicionais decorrentes da reestimativa das receitas.

que integram a CMO. Concluída a votação. Autógrafos e Leis Após aprovado. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . com o objetivo de modificar os pareceres aprovados na CMO. inclusive os decretos de contingenciamento. total ou parcialmente. que será enviado à Casa Civil da Presidência da República para sanção. para ser submetido à deliberação das duas Casas. O Comitê tem por atribuições: a. que sobre elas emite parecer conclusivo e final. designados entre os membros titulares ou suplentes da CMO. O produto final desse trabalho. contados da data do recebimento. Recebe o nome de Autógrafo o texto do projeto ou do substitutivo aprovado definitivamente em sua redação final assinado pelo Presidente do Congresso. em sessão conjunta. comunicará ao Presidente do Senado os motivos do veto. constitui a proposta de substitutivo. Os Congressistas podem solicitar destaque para a votação em separado de emendas. apreciar os Relatórios de Gestão Fiscal previstos no art. Fiscalização e Controle da Execução Orçamentária O Comitê de Avaliação. avaliar e fiscalizar a execução orçamentária e financeira. o qual será encaminhado à Secretaria-Geral da Mesa do Congresso Nacional. ♦ Execução Comitê de Avaliação. em relatório. o qual somente poderá ser modificado mediante a aprovação de destaque no Plenário do Congresso Nacional. Fiscalização e Controle da Execução Orçamentária é composto por cinco a dez membros. em até cinco dias após a instalação dessa Comissão. Deve também justificar quaisquer outras alterações que tenham sido introduzidas no texto do projeto de lei. O veto deve ser apreciado pelo Congresso Nacional. O relatório aprovado em definitivo pela Comissão constitui o parecer da CMO. 5. 4. 54 da Lei de Responsabilidade Fiscal. c. integrarão o Comitê os Relatores Setoriais e o Relator-Geral do projeto de lei orçamentária anual. Relatório O relator deve analisar o projeto de plano plurianual e as emendas apresentadas. acompanhar. sendo necessário para aprová-los a manifestação favorável da maioria dos membros de cada uma das Casas. Esse requerimento deve ser assinado por um décimo dos congressistas e apresentado à Mesa do Congresso Nacional até o dia anterior ao estabelecido para discussão da matéria no Plenário do Congresso Nacional.As emendas são apresentadas perante a CMO. O Presidente da República pode vetar o autógrafo. Além dos membros escolhidos pelo Presidente da CMO. contendo as alterações propostas ao texto do PPPA. O relatório e a proposta de substitutivo são discutidos e votados no Plenário da CMO. o cumprimento das metas fixadas na lei de diretrizes orçamentárias e o desempenho dos programas governamentais. tendo como orientação as regras estabelecidas no Parecer Preliminar. A parte não vetada é publicada no Diário Oficial da União como lei. Nesse caso. 121 Professor: Raimundo N. S. e formalizar. analisar a consistência fiscal dos projetos de lei do plano plurianual e da lei orçamentária anual. no prazo de quinze dias úteis. decorrentes das emendas acolhidas pelo relator e das por ele apresentadas. b. em conjunto com o Comitê de Avaliação da Receita. as razões pelas quais acolhe ou rejeita as emendas. o parecer da CMO é submetido à discussão e votação no Plenário do Congresso Nacional. a matéria é devolvida à CMO para a redação final.

Projeto de Lei O projeto de LDO (PLDO) é elaborado pela Secretaria de Orçamento Federal e encaminhado ao Congresso Nacional pelo Presidente da República. 2. Além disso. Orçamentos Públicos e Fiscalização – CMO. transferências de recursos para entidades públicas e privadas e política monetária. a respectiva execução orçamentária. Para a elaboração da LDO são obedecidas as seguintes fases: 1.). Também fixa limites para os orçamentos dos Poderes Legislativo e Judiciário e do Ministério Público e dispõe sobre os gastos com pessoal. o parecer preliminar avalia os cenários econômico-fiscal e social. e. os critérios e efeitos da limitação de empenho. Também bimestralmente. O projeto de lei é publicado e encaminhado à Comissão Mista de Planos. bem como outras matérias de competência do Comitê. orienta a elaboração da lei orçamentária anual. Parecer Preliminar O parlamentar designado para ser o relator do projeto de diretrizes orçamentárias (PLDO) deve. No caso do projeto de lei orçamentária anual. analisar as demais informações encaminhadas pelo Tribunal de Contas da União. S. reuniões de avaliação de seus relatórios com representantes dos Ministérios do Planejamento.LDO A lei de diretrizes orçamentárias . BNDES. o Relatório do Comitê sobre a consistência fiscal do projeto será parte integrante do Parecer Preliminar. que possui exclusividade na iniciativa das leis orçamentárias. em especial as projeções das despesas obrigatórias e de funcionamento dos órgãos e entidades para o exercício corrente e os dois seguintes. o qual. Os relatórios produzidos pelo Comitê serão encaminhados para conhecimento e deliberação pela CMO. o projeto de lei deve ser encaminhado ao Congresso Nacional até 15 de abril de cada ano. como política fiscal. dos grandes itens de despesa. inclusive das ações que foram objeto de emendas parlamentares. ii) critérios para o acolhimento de emendas. Composto pelo texto da lei e diversos anexos. Lei das Diretrizes Orçamentárias . Esse parecer estabelece regras e parâmetros a serem observados quando da análise e apreciação do projeto. bem como outras matérias de competência do Comitê. b. os critérios de aplicação de recursos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . tais como: i) condições para o cancelamento de metas constantes do projeto. o projeto inicia a tramitação legislativa. etc. Orçamento e Gestão e da Fazenda para discutir a evolução e as projeções das metas fiscais. observadas as normas constantes da Resolução nº. bem como os parâmetros macroeconômicos utilizados na elaboração do projeto e as informações constantes de 122 Professor: Raimundo N.LDO define as metas e prioridades do governo para o ano seguinte. Recebido pelo Congresso Nacional. as projeções de necessidades de recursos para os exercícios seguintes. bimestralmente. dispõe sobre alterações na legislação tributária e estabelece a política das agências de desenvolvimento (Banco do Nordeste.d. passa a denominar-se Parecer Preliminar. aprovado pela CMO. exceto as relativas a obras e serviços com indícios de irregularidades e as relativas à receita. A Lei de Responsabilidade Fiscal remeteu à LDO diversos outros temas. analisar as informações encaminhadas pelo Tribunal de Contas da União acerca da execução orçamentária e financeira e do cumprimento das metas fixadas na lei de diretrizes orçamentárias. 01. Banco da Amazônia. elaborar Relatório Preliminar sobre o projeto. o Comitê realizará encontros técnicos com representantes de outros Ministérios para discutir a avaliação dos programas de sua responsabilidade. de 2006 – CN. primeiramente. O Comitê realizará. e iii) disposições sobre apresentação e apreciação de emendas individuais e coletivas. Banco do Brasil. contingenciamento dos gastos.

contendo as alterações propostas ao texto do PLDO. abre-se prazo para a apresentação de emendas ao projeto de lei de diretrizes orçamentárias. O produto final desse trabalho. em relatório. Para essa finalidade. com o objetivo de modificar os pareceres aprovados na CMO. Relatório O relator deve analisar o projeto de diretrizes orçamentárias e as emendas apresentadas. Não se incluem nesse limite as emendas ao texto do projeto de lei. As emendas são apresentadas perante a CMO. A parte não vetada é publicada no Diário Oficial da União como lei. para ser submetido à deliberação das duas Casas. O relatório e a proposta de substitutivo são discutidos e votados no Plenário da CMO. a matéria é devolvida à CMO para a redação final. O relatório aprovado em definitivo pela Comissão constitui o parecer da CMO. Recebe o nome de Autógrafo o texto do projeto ou do substitutivo aprovado definitivamente em sua redação final assinado pelo Presidente do Congresso. a CMO realiza audiência pública com o Ministro do Planejamento. antes da apresentação do Relatório Preliminar. que será enviado à Casa Civil da Presidência da República para sanção. No entanto. A Constituição Federal não estabelece prazo final para a aprovação do projeto de lei de diretrizes orçamentárias. constitui a proposta de substitutivo. as razões pelas quais acolhe ou rejeita as emendas. suprimir. total ou parcialmente. sendo necessário para aprová-los a manifestação favorável da maioria dos membros de cada uma das Casas. o parecer da CMO é submetido à discussão e votação no Plenário do Congresso Nacional. que sobre elas emite parecer conclusivo e final. Como complemento à análise inicial. Nesse caso. c. em sessão conjunta. que somente poderá ser modificado mediante a aprovação de destaque no Plenário do Congresso Nacional. no prazo de quinze dias úteis. determina que o Congresso Nacional não tenha direito a recesso a partir de 17 de julho enquanto o PLDO não for aprovado. S. O Presidente da República pode vetar o autógrafo. e formalizar. O veto deve ser apreciado pelo Congresso Nacional. que integram a CMO.LOA 123 Professor: Raimundo N. Autógrafos e Leis Após aprovado. Comissão Permanente do Senado Federal e da Câmara dos Deputados e Bancada Estadual do Congresso Nacional pode apresentar até cinco emendas ao anexo de metas e prioridades. Lei Orçamentária Anual . Esse requerimento deve ser assinado por um décimo dos congressistas e apresentado à Mesa do Congresso Nacional até o dia anterior ao estabelecido para discussão da matéria no Plenário do Congresso Nacional. 5. Orçamento e Gestão. Deve também justificar quaisquer outras alterações que tenham sido introduzidas no texto do projeto de lei. com vistas a inserir. as emendas são ilimitadas. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . contados da data do recebimento. Ao relatório preliminar podem ser apresentadas emendas por parlamentares e pelas Comissões Permanentes da Câmara e do Senado. 3. com o objetivo de promover análises prévias ao conteúdo apresentado. 4.seus anexos. decorrentes das emendas acolhidas pelo relator e das por ele apresentadas. Emendas Após aprovado o parecer preliminar. Os Congressistas podem solicitar destaque para a votação em separado de emendas. o qual será encaminhado à Secretaria-Geral da Mesa do Congresso Nacional. Cada parlamentar. Concluída a votação. substituir ou modificar dispositivos constantes do projeto. tendo como orientação as regras estabelecidas no Parecer Preliminar. comunicará ao Presidente do Senado os motivos do veto.

com o auxílio do Comitê de Avaliação da Receita. o projeto é publicado e encaminhado à Comissão Mista de Planos. 01. também. O objetivo é verificar se o montante estimado da receita está de acordo com os parâmetros econômicos previstos para o ano seguinte. A primeira parte – geral – apresenta análise das metas fiscais. 3. conforme aprovado pelo Legislativo. Define. O relator da receita apresenta suas conclusões no Relatório da Receita. quadros orçamentários consolidados e anexos dos Orçamentos Fiscal. no caso de alterações nos parâmetros utilizados para a projeção ou na legislação tributária ocorridas durante a tramitação do projeto no Congresso. Orçamento e Fazenda do Executivo e com representantes das diversas áreas que compõem o orçamento. incluindo a execução recente. inicialmente. o exame da conjuntura macroeconômica e do impacto do endividamento sobre as finanças públicas. o qual. a composição da Reserva de Recursos a ser utilizada para o atendimento das emendas apresentadas. Caso encontre algum erro ou omissão. O Relatório da Receita deve ser aprovado pela CMO. passa a denominar-se Parecer Preliminar. entre outros assuntos. Orçamentos Públicos e Fiscalização – CMO. o demonstrativo das receitas reestimadas e os pareceres às emendas apresentadas. o projeto de lei deve ser encaminhado para apreciação do Congresso Nacional até 31 de agosto de cada ano. Relatório de Receita Cabe ao relator da receita. Esse parecer estabelece os parâmetros e critérios a serem obedecidos na apresentação de emendas e na elaboração do relatório pelo relator-geral e pelos relatores setoriais. o orçamento da seguridade social (previdência. entre outros temas. A Resolução nº. Para conhecer o conteúdo do projeto e promover o debate inicial sobre a matéria. assistência e saúde) e o orçamento de investimentos das empresas estatais. O relator da receita pode propor atualização do Relatório da Receita aprovado pela CMO. a receita prevista pelo Executivo no projeto de lei orçamentária. A segunda parte – especial – contém as regras para a atuação dos relatores setoriais e geral e as orientações específicas referentes à apresentação e apreciação de emendas. Recebido pelo Congresso Nacional. Projeto de Lei O projeto de lei orçamentária é elaborado pela Secretaria de Orçamento Federal (SOF) e encaminhado ao Congresso Nacional pelo Presidente da República. Para a elaboração e execução da LOA são obedecidas as seguintes fases: 1. O Relatório Preliminar é composto de duas partes. previstos na Constituição Federal: o orçamento fiscal. Composto pelo texto da lei.Na lei orçamentária anual (LOA) estão estimadas as receitas que serão arrecadadas durante o ano e definidas as despesas que o governo espera realizar com esses recursos. aprovado pela CMO. de 2006 – CN regula a tramitação legislativa do orçamento. 124 Professor: Raimundo N. a lei de diretrizes orçamentárias e a lei de responsabilidade fiscal. exame da compatibilidade com o plano plurianual. Parecer Preliminar O parlamentar designado para ser o relator-geral do projeto de lei orçamentária deve elaborar Relatório Preliminar sobre a matéria. avaliar. Esse documento deve conter. avaliação das despesas por área temática. inclusive as de relator. a CMO realiza audiências públicas com Ministros ou representantes dos órgãos de Planejamento. é facultado ao Legislativo reavaliar a receita e propor nova estimativa. O Executivo possui exclusividade na iniciativa das leis orçamentárias. O prazo máximo para propor alterações é de até dez dias após a votação do último relatório setorial. a análise da evolução da arrecadação das receitas nos últimos exercícios e da sua estimativa no projeto. Nessa oportunidade os parlamentares começam a avaliar a proposta apresentada e têm a possibilidade de ouvir tanto as autoridades governamentais como a sociedade. A LOA contém três orçamentos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . 2. da Seguridade Social e de Investimento das Empresas Estatais. S.

Não serão aprovadas emendas em valor superior ao solicitado. serão observados. como educação. S. a execução orçamentária recente e os efeitos dos créditos adicionais dos últimos quatro meses. saúde. Ciclos setoriais O projeto de lei orçamentária anual é divido em 10 áreas temáticas. exclusivamente. a anulação equivalente de dotações constantes do projeto. respeitado o limite global. Para cada área temática é designado um relator setorial. a redução de dotações constantes do projeto. antes de apresentar o relatório. Ciclo Geral 125 Professor: Raimundo N. ressalvados os casos de remanejamento entre emendas individuais. O Relator deve verificar a compatibilidade do projeto com o PPA. iii) não for constituída de várias ações que devam ser objeto de emendas distintas. com o objetivo de dar atenção às particularidades dos diversos temas que permeiam a proposta. entre outros. como fonte de recursos. somente poderá ser aprovada com a anulação das dotações indicadas na própria emenda. podendo ser convidados. Emendas As emendas à despesa são classificadas como de remanejamento. total ou parcialmente. Os relatórios setoriais são discutidos e votados individualmente na CMO. recompor. observada a compatibilidade das fontes de recursos. de apropriação ou de cancelamento. agricultura. a LDO e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Os critérios utilizados para a distribuição dos recursos e as medidas adotadas quanto às obras e serviços com indícios de irregularidades graves apontadas pelo TCU também devem constar do relatório. ii) indicar os recursos necessários. transporte. exceto as da Reserva de Contingência. estritamente. na oportunidade. Emenda de Cancelamento é a que propõe. a anulação equivalente de valores da Reserva de Recursos ou outras dotações definidas no Parecer Preliminar. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . dotações canceladas e atender às especificações do Parecer Preliminar. Com isso. Emenda de remanejamento é a que propõe acréscimo ou inclusão de dotações e. simultaneamente. 4. no valor total definido pelo Parecer Preliminar. Os Relatores Setoriais devem debater o projeto nas Comissões Permanentes. representantes da sociedade civil. 5. simultaneamente. Cada parlamentar pode apresentar até 25 emendas individuais. As bancadas estaduais no Congresso Nacional e as comissões permanentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados podem apresentar emendas ao projeto nas matérias diretamente ligadas às suas áreas de atuação. Emenda de apropriação é a que propõe acréscimo ou inclusão de dotações e. que deve avaliar o projeto encaminhado. Na elaboração dos relatórios setoriais. A emenda ao projeto que propõe acréscimo ou inclusão de dotações somente será aprovada se: i) estiver compatível com o plano plurianual e com a lei de diretrizes orçamentárias. e iv) não contrariar as normas regimentais sobre a matéria.Ao relatório preliminar podem ser apresentadas emendas por parlamentares e pelas Comissões Permanentes das duas Casas do Congresso Nacional. 6. como fonte exclusiva de recursos. Os relatores somente podem apresentar emendas para corrigir erros e omissões de ordem técnica e legal. analisar as emendas apresentadas e elaborar relatório setorial com as suas conclusões e pareceres. os limites e critérios fixados no Parecer Preliminar.

total ou parcialmente. Leis Autógrafos e Leis O parecer da CMO é submetido à discussão e votação no Plenário do Congresso Nacional. chamado Relatório Geral. somente terá início após a aprovação. contados da data do recebimento. em sessão conjunta. a LDO e a Lei de Responsabilidade Fiscal. que é a reserva de recursos para uma determinada despesa. Os Congressistas podem solicitar destaque para a votação em separado de emendas. Uma vez entregue o bem ou prestado o serviço. pelo Congresso Nacional. A parte não vetada é publicada no Diário Oficial da União como lei. com o objetivo de modificar os pareceres propostos pelo Relator. Execução Orçamentária Execução da Despesa Fiscal e Seguridade A execução do orçamento fiscal e orçamento da seguridade social é realizada em três estágios: empenho. Os critérios utilizados pelo relator na distribuição dos recursos e as medidas adotadas quanto às obras e serviços com indícios de irregularidades graves apontadas pelo TCU também devem constar do relatório. Empenhada a despesa. que consiste na verificação do direito adquirido pelo credor junto ao Estado. 126 Professor: Raimundo N. pela comparação entre o que foi contratado e o que foi efetivamente entregue ou realizado. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . comunicará ao Presidente do Senado os motivos do veto. que será enviado à Casa Civil da Presidência da República para sanção. a matéria é devolvida à CMO para a redação final. No relatório geral. discutido e votado no plenário da CMO. O Presidente da República pode vetar o autógrafo. é feita a aquisição do bem ou contratação do serviço objeto da dotação orçamentária. O papel do relator geral é verificar a constitucionalidade e legalidade das alocações de recursos e zelar pelo equilíbrio regional da distribuição realizada. Nesse caso. na CMO. com o objetivo de modificar os pareceres aprovados na CMO. As emendas ao texto e as de cancelamento são analisadas exclusivamente pelo relator geral. Concluída a votação. é tarefa do Relator Geral compilar as decisões setoriais em um único documento. O relatório aprovado em definitivo pela Comissão constitui o parecer da CMO.Após a aprovação dos relatórios setoriais. que será submetido à CMO. Integram. que sobre elas emite parecer. a execução orçamentária recente e os efeitos dos créditos adicionais dos últimos quatro meses. O Relatório Geral é lido. S. do projeto de plano plurianual ou de projeto de lei que o revise. assim como nos setoriais. A apreciação do Relatório Geral. 7. o qual será encaminhado à Secretaria-Geral da Mesa do Congresso Nacional. são analisados a compatibilidade do projeto com o PPA. ainda. processa-se a liquidação da despesa. Esse requerimento deve ser assinado por um décimo dos congressistas e apresentado à Mesa do Congresso Nacional até o dia anterior ao estabelecido para discussão da matéria no Plenário do Congresso Nacional. no prazo de quinze dias úteis. A partir das dotações autorizadas na lei orçamentária (dotação inicial mais/menos créditos adicionais) o gestor irá iniciar a execução das despesas por meio do empenho. para ser submetido à deliberação das duas Casas. ♦ 1. liquidação e pagamento. Os Congressistas podem solicitar destaque para a votação em separado de emendas. O veto deve ser apreciado pelo Congresso Nacional. o Relatório Geral os relatórios dos Comitês Permanentes e daqueles constituídos para assessorar o relator geral. Recebe o nome de Autógrafo o texto do projeto ou do substitutivo aprovado definitivamente em sua redação final assinado pelo Presidente do Congresso.

Até o final dos meses de maio. detenha a maioria do capital social com direito a voto. O Executivo encaminhará à Comissão Mista de Orçamento .LDO. sentenças judiciais. ficar aquém ou ultrapassar o valor estimado. programática. inicialmente. mesmo nos no caso de não haver alteração nos limites de empenho e pagamento fixados anteriormente.CMO relatório bimestral de acompanhamento da execução da receita e da despesa.Estatais O Orçamento de Investimentos das Estatais abrange a programação de investimentos das empresas em que a União. institucional e por natureza. assim. por meio da emissão de ordem bancária ou outro instrumento financeiro. podendo. § 9º da Constituição Federal. 4. Orçamento e Gestão).Após a liquidação da despesa. a realização da despesa. como pessoal. 127 Professor: Raimundo N. que a realização de receita poderá não comportar o cumprimento das metas de resultado primário ou nominal estabelecidas no Anexo de Metas Fiscais da LDO. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . inclusive aquelas destinadas ao pagamento do serviço da dívida. transferências a estados e municípios. Programação Financeira e Contingenciamento A programação orçamentária e financeira da lei orçamentária foi instituída. segundo os critérios fixados pela lei de diretrizes orçamentárias. 165. Sob a coordenação do Departamento de Coordenação e Controle de Empresas Estatais (Ministério do Planejamento. haverá recomposição das dotações cujos empenhos foram limitados de forma proporcional às reduções efetivadas. O contingenciamento das dotações não incidirá sobre as despesas que constituam obrigações constitucionais e legais do ente. ainda que parcial. são inscritas em restos a pagar. setembro e fevereiro. Execução de Despesa . o que permite que sua realização continue a ocorrer normalmente no curso do exercício seguinte. em audiência pública na CMO. 2. como resultado da execução. Finaliza-se. demonstrar e avaliar o cumprimento das metas fiscais de cada quadrimestre. limitação de empenho e movimentação financeira das dotações disponíveis (contingenciamento de dotações). principalmente as classificações funcional. como forma de controlar os fluxos de caixa do governo às necessidades de pagamento. ainda. No caso de restabelecimento da receita prevista inicialmente. por ato próprio e nos montantes necessários. mas não pagas até o dia 31 de dezembro. o Executivo deverá. O valor constante em cada item da receita orçamentária constitui-se em mera previsão. execução e prestação de contas do orçamento de investimentos das estatais. já que as empresas estatais se submetem a um regime jurídico diferenciado daquele que vige para os órgãos públicos. Receita Execução da Receita As receitas são estimadas no orçamento. As despesas são apresentadas na lei orçamentária sob diversas classificações.LRF e da obrigatoriedade de se cumprir as metas fiscais fixadas na lei de diretrizes orçamentárias . e sobre aquelas protegidas pela lei de diretrizes orçamentárias. A partir da Lei de Responsabilidade Fiscal . As despesas empenhadas. essa prática passou a ser regulada e acompanhada bimestralmente. A inexistência de determinado item – rubrica – na lei orçamentária não inibe que a receita correspondente seja arrecadada. direta ou indiretamente. se verificado. S. Não existem normas bem definidas sobre a elaboração. por ainda não ter sido editada a lei complementar sobre a matéria prevista no art. é feito o pagamento ao credor pela autoridade competente. ao final de um bimestre. esse orçamento é formulado com metodologia diferente da usada nos orçamentos fiscal e da seguridade social. os Poderes e o Ministério Público promoverão. 3. Segundo a LRF.

serviço da dívida. fazem as mudanças que consideram necessárias e votam o projeto. deputados e senadores discutem a proposta que o Executivo preparou. São consideradas receitas orçamentárias todas as receitas arrecadadas. A partir de 1988. As despesas são rigorosamente discriminadas. a Secretaria de Orçamento Federal acompanha e avalia a execução orçamentária. 128 Professor: Raimundo N. 5. Depois da aprovação pelo Legislativo. No Congresso. publicidade etc. Despesas Obrigatórias . 3ª Etapa: Com a estimativa da Receita a ser arrecadada e o montante de gastos projetados para o exercício na 2ª Etapa. b.SOF. Resumo das fases do Orçamento 1ª Etapa: Entre os meses de janeiro e maio. o projeto é enviado ao Presidente da República para ser sancionado.São consideradas do exercício as receitas nele arrecadadas. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Os mais importantes princípios orçamentários discutidos doutrinariamente pela Ciência das Finanças estão consagrados em nossa legislação financeira: anualidade. A Secretaria do Tesouro Nacional registra no Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI) a execução orçamentária realizada pelos órgãos da administração pública. deputados e senadores adquiriram o direito de emendar o orçamento. 5. Utilizando-se do Sistema Integrado de Dados Orçamentários (SIDOR). o Congresso apenas homologava o orçamento tal qual ele vinha do Executivo. na Secretaria de Orçamento Federal . através de créditos adicionais. ainda que não previstas no orçamento. contribuições. São exemplos de receitas os tributos. rendas patrimoniais e de serviços. S. Períodos de atividades do orçamento público A elaboração do orçamento obedece às diretrizes conceituais dos princípios orçamentários. transforma-se em lei.os valores necessários para expansão dos serviços. compreendendo: a. 4ª Etapa: Formaliza o documento final elaborando todos os demonstrativos exigidos pela Lei Federal no 4. é desenvolvida a análise da série histórica da execução dos últimos exercícios. Expansão de atividades . 2ª Etapa: No mês de junho. Após a sanção. o que significa que os parlamentares podem propor alterações em programas e projetos apresentados pelo Poder Executivo. inclusive as provenientes de operação de crédito. operações de crédito etc.5.gastos requeridos para aumento da capacidade física de atendimento ou inserção de uma ação nova nas atribuições dos órgãos. para definição dos limites de gastos por unidade orçamentária da União. conforme dispõem os princípios orçamentários da anualidade e da especificação. especificação. quando necessário. desde que sejam compatíveis com o Plano Plurianual e a Lei de Diretrizes Orçamentárias. benefícios previdenciários. os órgãos setoriais apresentam uma proposição detalhada relativa às suas programações em: Atividades . O orçamento é elaborado para o período de um ano.relativas a despesas com pessoal.320/64 e pela Lei de Diretrizes Orçamentárias. define um limite adicional e o remete aos órgãos para complementar a sua programação orçamentária. exclusividade. Alguns outros princípios são observados tradicionalmente: clareza. A Constituição determina que o Congresso deve votar o Orçamento até o encerramento da sessão legislativa de cada ano. procedendo a alterações. exatidão. Até à Constituição de 1988. unidade e universalidade. Projetos .4.envolvendo o montante de recursos necessários para assegurar a manutenção da execução das ações atualmente desenvolvidas para a prestação de serviços à comunidade.

c) período de confrontações das receitas estimadas com as realizadas e das despesas fixadas com as realizadas. da Constituição de 1988. A fim de evitar freqüentes pedidos de suplementações. denominam-se créditos adicionais. A lei que autoriza a abertura de um crédito adicional e uma só. Lei e Decreto. pois não serão concedidos créditos ilimitados (art. II — os provenientes de excesso de arrecadação. na medida exata de suas necessidades.° .Tanto a receita — recursos financeiros — como a despesa — aplicações — têm três períodos de atividades extremamente importantes: a) período de estimação da receita e da fixação da despesa (proposta orçamentária). as atividades mencionadas na letra “a”. parceladamente. 129 Professor: Raimundo N. da Constituição de 1988). até no mesmo dia.° 4. IV — o produto de operações de crédito autorizadas.. Os créditos adicionais. por lei e abertos por decreto. os resultados deste período servirão de base à elaboração da proposta orçamentária do ano seguinte. Eles serão adicionados aos créditos que integram o orçamento em vigor. autorizados em lei. já fixada no orçamento. E o valor do crédito adicional deverá ser expresso. Créditos suplementares. a legislação financeira permite que a própria Lei Orçamentária autorize o Poder Executivo a reajustar as dotações orçamentárias suplementando e reduzindo dentro de um limite percentual estabelecido (art. III — os resultantes de anulação parcial ou total de dotações orçamentárias ou de créditos adicionais. mas pode existir mais de um decreto abrindo. ou seja. § 8°. VI e VII. A fim de não prejudicar o equilíbrio do orçamento em execução. na prática não tem se observado tais procedimentos. segundo suas finalidades. cuja tramitação normal pelo Legislativo exige algum tempo. possibilite ao Poder Executivo realizá-las (art. da Lei n. portanto.. A Lei diz:: Fica o Poder Executivo autorizado a abrir. Créditos adicionais Durante a execução orçamentária.. atrasando os cronogramas físicos e financeiros. fica aberto um crédito. Sem a indicação de um ou mais recursos hábeis o Poder Legislativo não concederá o crédito solicitado... Esse é o espírito da Lei. A finalidade dessa processualística é a de permitir ao chefe do Poder Executivo a abertura dos créditos suplementares até o limite concedido. Os créditos adicionais aumentam a despesa pública do exercício. juridicamente. 41) e artigo 167. em forma que. classificam-se em: 1. 3. o crédito autorizado. São considerados recursos hábeis: 1 — o superávit financeiro apurado em balanço patrimonial do exercício anterior. a lei determina que cada solicitação de crédito adicional seja acompanhada da indicação de recursos hábeis (art. 5. São publicados concomitantemente. 165. este abrindo desde logo a totalidade do crédito autorizado. Créditos especiais. realimentando. b) período de realização da receita e da despesa (execução orçamentária). Sua vigência acompanha a da dotação suplementada. 43). 1. expira em 31 de dezembro.. 43). V. Entretanto.6. e este conceder. novos créditos orçamentários. Por essa razão. enquanto o Decreto é assim redigido: De acordo com a Lei n. 70. o Poder Executivo pode solicitar ao Legislativo. S. aos poucos. e Créditos extraordinários. 2. e para dar um certo dinamismo à execução orçamentária.320/64 e art. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . I. São autorizados. Créditos suplementares Os créditos suplementares destinam-se a reforçar dotação já existente no orçamento em vigor.

não se pode condenar os Municípios de orçamentos modestos pela falta de planejamento. Mais tarde elimina-se um projeto para restabelecer a dotação “C”. O que não se pode admitir. da Constituição de 1988). § 2. Também são autorizados por lei e abertos por decreto e exigem indicação de recursos (art.2. 5. Era acontecimento comum e até considerado normal à época dos orçamentos tradicionais de receita e despesa. sim. Mas as alterações orçamentárias ainda constituem matéria abundante nas publicações oficiais. 44). Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . 43 O Decreto-lei n. o Poder Executivo pode abrir créditos extraordinários para atendimento de gastos com o cumprimento de leis eleitorais e sentenças judiciais transitadas em julgado (Virginio Valsang. Aberto um crédito extraordinário. é reduzir a dotação “A” para suplementar a dotação “B”. o chefe do Poder Executivo informará imediatamente ao Legislativo. subversão interna ou calamidade publica42. se cessarem as causas que determinaram sua abertura. Destinam-se a atender despesas imprevisíveis e urgentes como as decorrentes de guerra. Créditos extraordinários A terceira modalidade de crédito adicional é a de créditos extraordinários. in Finanzas Publicas). justificando as causas determinantes do ato (art.°. o próprio orçamento pode dispor de uma reserva de contingência. dotados de poderosa infra-estrutura de planejamento. por exemplo. Se a União. Há. É um procedimento que demonstra claramente a total ausência de planejamento na elaboração do orçamento-programa. Estas alterações são aceitáveis sempre que não alterem os programas. sua vigência poderá estender-se até o final do exercício seguinte. O termo final de sua vigência é igual ao do orçamento. A insuficiência de dotações deve-se à falta de previsão adequada e mostra. de 15-07-81. além das causas aqui enumeradas. Elas se fazem presentes nos créditos orçamentários. O orçamento-programa está institucionalizado no Brasil. reduzir a dotação “C” para suplementar a “A”. ausência de planejamento. se elaborado com toda a técnica que sua filosofia sugere. Depois. Não há que se criticar também as alterações destinadas a reajustamentos de custos de programas em razão de oscilações de preços que atingiram limites imprevisíveis à época da orçamentação dos custos.875. sobretudo. exceto se for aberto nos últimos quatro meses do ano. Mas para estes casos. 130 Professor: Raimundo N. Ocorrem com freqüência casos de dotações que se esgotam antes do término do exercício financeiro. previstas e necessárias. 3.7. Créditos especiais Os créditos especiais destinam-se a amparar programas novos que não figuram no orçamento. neste caso sua vigência poderá estender-se até 31 de dezembro do exercício seguinte. São abertos por Decreto do Poder Executivo independentemente de prévia autorização legislativa. ou terminar antes. 42 Na República Argentina. 167. o orçamento público não pode ser alterado senão por outra lei.° 1. Geralmente a autorização para abertura de um crédito especial consta da própria lei que autoriza a inclusão no orçamento de um novo programa. Alterações Alterações do orçamento durante sua execução43 Aprovado por lei. E estas transposições de dotações prosseguem desregradamente pelo exercício inteiro. engrossam os Diários Oficiais com alterações orçamentárias. os Estados e os Municípios mais ricos. introduziu o orçamento simplificado para os municípios com menos de 50. mas se for aberto dentro dos últimos quatro meses do ano. No tocante à receita são incomuns as alterações orçamentárias. O orçamento-programa. não deveria sofrer durante o exercício financeiro qualquer alteração. Elas são aceitáveis. S. projetos e atividades perfeitamente definidos.000 habitantes. alterações estratégicas geradas por correção de desvios no planejamento global. A vigência do crédito extraordinário expira no final do exercício.

131 Professor: Raimundo N. S. 1. como recurso para suplementações. Também são recursos legítimos se adotados honestamente. as características extrínsecas de orçamento-programa. pelo menos teoricamente. disponível. O recurso é bom até o limite do superávit. O excesso de arrecadação. O recurso é legítimo. nada está programado. já foi visto. uma escala de prioridades para os projetos e atividades. é óbvio que. fazendo prever uma execução deficitária. Aumenta a despesa correspondente à dotação suplementada e. Em tese. Este é um recurso pernicioso. é a diferença positiva entre a arrecadação prevista e a realizada. ter mais cuidado nas reduções. Mas não se pode compreender. Isso obrigaria as prefeituras a calcularem melhor suas dotações e.°). Se um orçamento equilibrado — despesa igual à receita — teve sua receita estimada com o necessário cuidado. além de endividar o patrimônio público. 2. Ou se se tratar de casos urgentes e inadiáveis e que possam resultar sérios prejuízos à população ou ao patrimônio público. pelo menos teoricamente. os quais as Prefeituras são obrigadas a preencher. a partir do segundo semestre. principalmente. certamente. Obviamente. com base nos primeiros dois ou três meses do ano. É para evitar esse perigo que a Lei exige que as suplementações sejam compensadas por recursos adequados já descritos e que agora comentar-se-á um a um Lei 4. Somente se justifica a adoção deste recurso em aplicações que proporcionem retorno de capital. § 1. Como levará a cabo o programa cujos recursos foram reduzidos? E qual o programa que se deve reduzir ou anular? Isso ficará a critério do administrador. Superávit financeiro significa dinheiro em caixa. Se houve planejamento global. procurando sempre adotar o critério de usar um pequeno índice de subestimação de cada fonte de receita. proveniente de receita realizada a maior que a despesa. pelo menos teoricamente. se houver. 4. como o administrador pode anular parcialmente determinado programa em favor de outro. mais aproximado será o resultado final. Assim. Na verdade. quanto maior o número de meses tomados por base. constitui um dos mais legítimos recursos para amparar o aumento das despesas no orçamento em vigor. Este recurso.320/64 (art. Calcula-se o excesso de arrecadação do exercício com base nos excessos apurados mês a mês. ainda. Qualquer suplementação de dotação aumentará a despesa sem um correspondente aumento de receita. Superávit financeiro. existe. Os orçamentos aparentam planejamento por força dos modelos oficiais padronizados. 3. Os provenientes do excesso de arrecadação. em exercícios anteriores. A execução orçamentária desenvolve-se ao sabor das necessidades emergentes. não se pode aceitar como bom o cálculo de excesso de arrecadação do exercício. aumenta a despesa da operação de crédito. 43. nas pequenas Prefeituras.Os orçamentos das prefeituras modestas possuem.°. ainda. somente se pode pensar em excesso de arrecadação. Mas seu conteúdo é fictício. desfigurando totalmente o orçamento original. Operações de créditos. A prova desse fato está na fartura de suplementações e reduções desenfreadas de créditos orçamentários. Esse fato provoca desequilíbrio no orçamento. por força da lei. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Os resultantes de anulação parcial ou total de dotações orçamentárias. Nesta última hipótese nem há que se cogitar sobre vantagens ou desvantagens. os mesmos procedimentos adotados antigamente na execução do orça mento ortodoxo. há também que considerar o caso de calamidade pública. A Lei poderia bloquear esse procedimento impondo a proibição de suplementar uma dotação já reduzida. ingressarão nos cofres públicos recursos suficientes para cumprir todas as aplicações programadas. a execução orçamentária segue. observando o princípio da sinceridade.

S. abertura de créditos adicionais com recursos provenientes de operações de crédito. um superávit previsto. principalmente quando as aplicações não prevêem retorno de capital. o orçamento em que a receita orçada é inferior à despesa autorizada. Previsão e resultado orçamentários Os Orçamentos. à medida que os recursos financeiros se fizerem realmente necessários. no final do exercício. deficitário. 132 Professor: Raimundo N. e orçamento superavitário aquele em que a receita estimada supera o total da despesa. economia e ausência de créditos adicionais sustentados por operações de créditos. Esse procedimento é salutar para minimizar os efeitos perniciosos dos custos das operações de créditos. com os fatores positivos e negativos. e Fatores positivos. diz-se que há um déficit previsto. 2. Equilibrado. e Superavitário Considera-se equilibrado o orçamento em que o total da receita prevista coincide com o total da despesa fixada. Trata-se de uma situação prevista na ocasião em que a lei orçamentária é sancionada. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Deficitário. após a execução orçamentária. será igual ao resultado financeiro do exercício. PREVISÃO INICIAL EQUILÍBRIO PREVISTO SUPERÁVIT PREVISTO PROGNÓSTICOS a) Equilíbrio b) Superávit c) Déficit a) Superávit maior que o previsto b) Superávit igual ao previsto c) Superávit menor que o previsto d) Equilíbrio e) Déficit a) Déficit maior que o previsto b) Déficit igual ao previsto c) Déficit menor que o previsto d) Equilíbrio e) Superávit DÉFICIT PREVISTO Os fatores que modificam a situação prevista. partindo da previsão inicial. ou inexistindo diferença. 2.Por outro lado é de se lembrar que as operações de créditos poderão ser realizadas aos poucos. poderá coincidir ou não com a previsão da peça orçamentária original. podem ser classificados em dois grupos: 1. portanto pelos resultados finais diferentes. o resultado financeiro alcançado.8. Como fatores negativos arrolados: queda da arrecadação. 5. Como fatores positivos: excesso de arrecadação. responsáveis. Fatores negativos. No quadro seguinte mostramos as possibilidades de resultados finais. após a execução orçamentária. Assim. Entretanto. visto não terem necessariamente suas Receitas iguais às suas Despesas correspondentes. ausência de economia orçamentária. segundo a natureza da diferença entre as somas da receita e da despesa. Assim. a soma algébrica do resultado previsto no início do exercício. 3. ou um orçamento equilibrado. podem se apresentar nas seguintes condições: 1.

VII..compatibilização das funções das instituições oficiais de crédito da União. que determina o estabelecimento de limites para as despesas com pessoal ativo e inativo da União a partir de Lei Complementar. a LRF vem atender à prescrição do artigo 163 da CF de 1988. Finalmente. cuja redação é a seguinte: “Lei complementar disporá sobre: I .Cabe à Lei Complementar estabelecer normas de gestão financeira e patrimonial da administração direta e indireta.operações de câmbio realizadas por órgãos e entidades da União. a LRF incorpora alguns princípios e normas. e que tem editado e difundido algumas normas de gestão pública em diversos países. a partir do seu artigo 68.finanças públicas.CAPITULO XIII – FISCALIZAÇÃO E CONTROLE 1. bem como condições para a instituição e funcionamento de Fundos”. A Nova Zelândia.dívida pública externa e interna. Em particular. De acordo com este dispositivo. A Comunidade Econômica Européia. S. “. Os modelos que foram tomados como referencial para a elaboração da Lei de Responsabilidade Fiscal são: ♦ ♦ ♦ O Fundo Monetário Internacional. direitos e ativos de qualquer natureza.320/64. dos Estados. em adição aos recursos de sua arrecadação. VI . incluída a das autarquias. RESPONSABILIDADE INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL A Lei de Responsabilidade Fiscal . de 1994. que disporá sobre a natureza e administração desse fundo. que normatiza as finanças públicas no país.1. conforme analisaremos a seguir. III . e. mais precisamente. do Distrito Federal e dos Municípios. Estadual e Municipal. resguardadas as características e condições operacionais plenas das voltadas ao desenvolvimento regional. mediante lei. IV . a LRF vem atender à prescrição do artigo 250 da Constituição de 1988 que assim determina: “Com o objetivo de assegurar recursos para o pagamento dos benefícios concedidos pelo regime geral de previdência social. organismo do qual o Brasil é Estado-membro.” 1.concessão de garantias pelas entidades públicas.Lei Complementar n º 101. A LRF atende ainda à prescrição do artigo 165 da Constituição. atendendo também ao artigo 169 da Carta Magna.” A LRF não substitui nem revoga a Lei nº 4.fiscalização das instituições financeiras.emissão e resgate de títulos da dívida pública. a União poderá constituir fundo integrado por bens. visa a regulamentar a Constituição Federal.. o inciso II do parágrafo 9º. V . na parte da Tributação e do Orçamento que estabelece as normas gerais de finanças públicas a serem observadas pelos três níveis de governo: Federal. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . II . a partir do Tratado de Maastricht. de 4 de maio de 2000. experiências Origens e experiências anteriores No que diz respeito a experiências de outros países. fundações e demais entidades controladas pelo poder público. 133 Professor: Raimundo N. através do Fiscal Responsibility Act.

Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . com limites e condições para a renúncia de receita e a geração de despesas com pessoal. não foram os únicos parâmetros utilizados. deve estar presente em todo processo de planejamento confiável. operações de crédito. além da demissão de servidores públicos. c. Em primeiro lugar. parágrafo único). Por sua vez. b. garantindo-lhes a necessária legitimidade.♦ Os Estados Unidos. aliado ao princípio de “accountability”. via cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas. concessão de garantia e inscrição em restos a pagar. Já as correções de desvios requerem a adoção de providências com vistas à eliminação dos fatores que lhes tenham dado causa. a LRF preconiza a adoção de mecanismos para neutralizar o impacto de situações contingentes. Ação planejada e transparente.LOA. c. e Garantia de equilíbrio nas contas. durante todo o exercício. estabelecendo os seguintes postulados: a. sujeitos à apreciação e aprovação da instância legislativa. seguridade. FISCAL OBJETIVOS DA LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL O principal objetivo da Lei de Responsabilidade Fiscal consiste em estabelecer “normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal”. Ação planejada nada mais é do que aquela baseada em planos previamente traçados. assim como na ampla publicidade que deve cercar todos os atos e fatos ligados à arrecadação de receitas e à realização de despesas pelo poder público. Os instrumentos preconizados pela LRF para o planejamento do gasto público são os mesmos já adotados na Constituição Federal: o Plano Plurianual . nos termos já previstos na Constituição Federal. dívida. b. 2. Em termos práticos. através da extinção de gratificações e cargos comissionados. a transparência será alcançada através do conhecimento e da participação da sociedade. para consulta e apreciação pelos cidadãos e instituições da sociedade. Para esse fim diversos mecanismos estão sendo instituídos pela LRF. Prevenção de riscos e correção de desvios que afetem o equilíbrio das contas públicas. 134 Professor: Raimundo N. medidas serão tomadas para que esse item de gasto volte a situar-se nos respectivos parâmetros. se a despesa de pessoal em determinado período exceder os limites previstos na lei. S. característica do regime democrático de governo.PPA. tais como ações judiciais e outros eventos não corriqueiros.LDO e a Lei Orçamentária Anual . A prevenção de riscos. embora tomados como referência para a elaboração da versão brasileira da Lei de Responsabilidade Fiscal. A disponibilidade das contas dos administradores. igualmente de acesso público e ampla divulgação. O que a LRF busca é apenas. Estes exemplos. cujas normas de disciplina e controle de gastos do governo central levaram à edição do Budget Enforcement Act. a Lei de Diretrizes Orçamentárias . dentre eles: a. A participação popular na discussão e elaboração dos planos e orçamentos já referidos (artigo 48. já que não existe um manual ótimo de finanças públicas que possa ser utilizado indiferentemente por qualquer nação. é a vinculação entre as atividades de planejamento e de execução do gasto público. A emissão de relatórios periódicos de gestão fiscal e de execução orçamentária. da mesma forma que a correção de desvios.

no primeiro caso. Analisando com cuidado a definição de RCL. 2. Os objetivos das duas normas são distintos: enquanto a Lei nº 4320/64 estabelece as normas gerais para a elaboração e o controle dos orçamentos e balanços.796/99. Receita Corrente Líquida . Finalmente.1. 44 45 No caso. Com a LRF. a LRF estabelece normas de finanças públicas voltadas para a gestão fiscal. serão computados. pagamento de dívidas.2. extraindo-se as transferências constitucionais44. chega-se à RCL estadual. sem aumento da dívida pública. as informações contábeis passarão a interessar não apenas à administração pública e aos seus gestores. gastos com serviços de terceiros. a LRF atribui à contabilidade pública novas funções no controle orçamentário e financeiro. Além disso. se o saldo for negativo (valores pagos superiores aos valores recebidos).320/64 o status de Lei Complementar. Observe-se que. empresas públicas e sociedades de economia mista. prevalece a vontade da Lei mais recente. além das compensações relativas à Lei Hauly. este resultado diminuirá o valor final da RCL. a Lei de Responsabilidade Fiscal traz uma nova noção de equilíbrio para as contas públicas: aquele que prescinde de operações de crédito e. De acordo com os dispositivos legais anteriores. o que representa um desvio em relação à real participação da folha de pessoal nas receitas públicas. aos Estados e Municípios para a realização de despesas com pessoal. Mas. portanto. 50% do IPVA e 25% do IPI exportação. a partir da Receita Corrente total. este já previsto na Lei 4. Compensação financeira da União aos Estados e Municípios pela contribuição que os servidores fizeram ao INSS 135 Professor: Raimundo N. por exemplo. a contribuição de servidores para o custeio de sistema de previdência e assistência. A definição de despesa total com pessoal. pagas com receitas correntes da União. No caso dos Municípios. dos Estados. as compensações referentes à Lei nº 9. correspondia às despesas totais com pessoal ativo e inativo da administração direta e indireta. a RCL corresponde à Receita Corrente total. inclusive fundações. Desta forma. horas extras.). no cálculo da RCL dos Estados. não revoga a Lei nº 4.2. Neste caso. a Constituição Federal deu à Lei nº 4. garantindo-lhe um caráter mais gerencial. etc. A sociedade passa a tornar-se participante do processo de acompanhamento e fiscalização das contas públicas. além de especificar os itens que deveriam compor o montante desses gastos (adicionais.320/64. de acordo com a LRF. assim como os valores pagos e recebidos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério . essa norma retirava do cômputo das despesas com pessoal os gastos relativos às demissões incentivadas (PDV’s). A Lei Complementar nº 96/99 ampliou o conceito de despesas com pessoal. S. gratificações. valores pagos e recebidos devem ser entendidos como saldos da Lei Kandir e saldos do FUNDEF.FUNDEF. (a chamada “Lei Hauly”)45. etc.320/64. Equilíbrio das contas públicas Diferente do equilíbrio orçamentário. existindo algum dispositivo conflitante entre as duas normas jurídicas. subtraídas as contribuições ao regime próprio de previdência e assistência social (quando houver).RCL O conceito mais importante na operacionalização da LRF é aquele que diz respeito ao atendimento dos limites legais: a Receita Corrente Líquida . 25% do ICMS. mediante os instrumentos que a LRF incorpora para esta finalidade. Para tanto.RCL. observou-se que o legislador público continuou preocupado em identificar aquelas receitas disponíveis à União. A Lei Complementar n° 101 de 2000 . o total das despesas com pessoal não poderia ultrapassar o percentual de 60% da RCL.LRF. do Distrito Federal e dos Municípios. Por outro lado. os valores pagos e recebidos em função da Lei Complementar nº 87 (Lei Kandir). Além disso. Havia o cuidado também no sentido de evitar a dupla contagem das receitas correntes. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .

Como visto anteriormente.134.CF) 2.como os Municípios não realizam transferências constitucionais a outros entes.120 (-) Compensação Financeira (§ 9º. Isto quando não houver compensações da Lei Hauly ou outras receitas previdenciárias. 46 Dispor sobre o equilíbrio entre receitas e despesas. O quadro a seguir apresenta uma forma simplificada para o cálculo da RCL.285. Nos termos da Lei de Responsabilidade Fiscal. no exercício financeiro subseqüente. 165. Direta 6. excluídas as duplicidades.Inv. Isto significa que a verificação da RCL deve ser para o período de um ano. Exemplo de Cálculo da Receita Corrente Líquida Estadual Discriminação Valores em R$ 1. e § 1º ao 8º 136 Professor: Raimundo N. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .475 Existe ainda. quais sejam: o Plano Plurianual . apresentada no Balanço Geral do Estado da Bahia para 2000. A LRF procura aperfeiçoar a sistemática traçada pela norma constitucional. e a sua apuração começará no mesmo mês em que se estiver calculando a RCL. A receita corrente líquida será apurada somando-se as receitas arrecadadas no mês em referência e nos onze anteriores. art.227 3. objetivos e metas nele estabelecidos.980 (-) Transferências Constitucionais aos Municípios 1. S.RCL (1 . a verificação da RCL deve ser para o período de um ano. teve a clara preocupação de institucionalizar a integração entre os processos de planejamento e orçamento47.LDO A LDO.865 (-) Contribuições a fundo – FUNPREV (art. tinha como função básica orientar a elaboração dos orçamentos anuais. sendo as mais importantes: a. IV.455 (+) Receita Corrente da Adm.025.492. no tocante ao planejamento na administração pública. utilizadas no pagamento de aposentadorias e pensões. o Orçamento Anual. mas não necessariamente o ano civil.494. uma importante especificidade em relação ao cálculo da RCL.775.2. Indireta (fontes 40 e 90) 827.PPA. 201. "c") 124. Receita Corrente 6. 3.199 (+) Receita Corrente da Adm.482.007. não necessariamente o ano civil. no que diz respeito ao seu período de apuração. PLANEJAMENTO A Constituição de 1988.634.837. Lei de Diretrizes Orçamentárias .256 2. ao tornar compulsória a elaboração dos três instrumentos básicos para esse fim. 2º.1. além de estabelecer as prioridades e metas da administração. na sua concepção original.768. e a Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO. atribuindo novas e importantes funções ao Orçamento e à LDO.010.990. Receita Corrente Líquida .768 (-) Perdas para o FUNDEF (saldo negativo) 210. 3. 47 Art. sua RCL poderá corresponder simplesmente à sua Receita Corrente total46. razão pela qual todos os demais planos e programas devem subordinar-se às diretrizes. Caput.345. Plano Plurianual – PPA O que deve ser ressaltado é a condição do PPA como documento de mais alta hierarquia no sistema de planejamento de qualquer ente público. Deduções 1. 3. a LDO recebe novas e importantes funções.2) 5.

O demonstrativo da compatibilidade da programação do orçamento com as metas da LDO previstas no respectivo Anexo de Metas Fiscais. De acordo com a doutrina. Estabelecer critérios e formas de limitação de empenho. que podem a qualquer momento gerar uma despesa inesperada. a constar da LDO. o artigo 9º determina que o acompanhamento do desempenho das receitas ocorra a cada bimestre. Anexo de Riscos Fiscais da LDO O Anexo de Riscos Fiscais. 3.b. Dentre as principais. o Anexo de Metas Fiscais deverá: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ avaliar o cumprimento das metas do exercício anterior. despesas. Portanto. Estabelecer limitações à expansão de despesas obrigatórias de caráter continuado. outra inovação da LRF. S.3. de modo a comprometer as metas de resultado primário e nominal previstas para o exercício. além do montante da dívida pública para três anos. O reconhecimento de uma despesa potencial corresponderá a um novo elemento a ser avaliado nas metas propostas no Anexo de Metas Fiscais. na ocorrência de arrecadação da receita inferior ao esperado. Avaliar a situação financeira e atuarial dos regimes de previdência. pela LRF. várias alterações estão sendo introduzidas. 137 Professor: Raimundo N. o exercício a que se referir a LDO e os dois seguintes. d. resultado nominal e resultado primário. comparar as metas anuais com as fixadas nos três exercícios anteriores (consistência com as premissas e objetivos da política econômica nacional). destacam-se: I. fundos e programas de natureza atuarial. se não houver uma reserva para este tipo de contingência. Anexo de Metas Fiscais da LDO A Lei de Responsabilidade Fiscal veio fortalecer a LDO. 3. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de forma a garantir a realização das metas e objetivos contemplados no PPA.2. Essas metas correspondem às previsões para receitas e despesas. destaca aqueles fatos que poderão impactar nos resultados fiscais estabelecidos para o exercício. c. Dispor sobre o controle de custos e avaliação dos resultados dos programas financiados pelo orçamento. montante da dívida pública. isto é. e. especialmente a partir do Anexo de Metas Fiscais. onde serão estabelecidas metas anuais em valores correntes e constantes para um período de três anos. além do estabelecimento de Metas Fiscais relativas às receitas. nos últimos três exercícios (venda de ativos: demonstrar origem e aplicação dos recursos).1. Quantificar o resultado primário a ser obtido com vistas à redução do montante da dívida e das despesas com juros. 3. na sistemática de elaboração do orçamento anual.LOA Da mesma forma que na LDO. Disciplinar as transferências de recursos a entidades públicas e privadas. Lei Orçamentária Anual .2. a LDO deverá estabelecer os parâmetros necessários à alocação dos recursos no orçamento anual. resultados primário e nominal. e Demonstrativo da estimativa e da compensação da renúncia de receita e da margem de expansão das despesas obrigatórias Tendo em vista o cumprimento das metas contidas no Anexo de Metas Fiscais. Um bom exemplo disso são as sentenças judiciais. f. Demonstrar a evolução do patrimônio líquido.2.

A LOA deverá apresentar as despesas relativas à dívida pública. representavam percentual pouco significativo das receitas correntes totais. III. Estados e Municípios possuem legislação tributária própria e devem explorar com eficiência o seu potencial de arrecadação. setembro e fevereiro. S. de forma a evidenciar a ordem cronológica da sua ocorrência. pelo Chefe do Executivo. em alguns casos. tendo ainda. É o que se observa. Isso ocorreu em virtude do aumento das transferências de recursos através dos fundos de participação (FPE e FPM). até o final dos meses de maio. o demonstrativo de efeitos sobre as receitas e as despesas decorrentes de anistias. no caso da União. 3. além de outros imprevistos fiscais. cuja principal finalidade é administrar o equilíbrio entre receitas e despesas públicas. parágrafo 5º da Constituição Federal. que a LDO deverá prever para o atendimento às despesas previstas no Anexo de Riscos Fiscais. Portanto. RECEITA PÚBLICA A Carta Magna aumentou significativamente a participação dos Estados e dos Municípios na repartição do “bolo fiscal”. analisado na sessão anterior. na reserva de contingência. A dívida pública terá um tratamento especial na LOA. Assembléias Legislativas e. constitui o mais importante instrumento de gerenciamento orçamentário e financeiro da Administração Pública. previsto contratualmente. 4. Este fato não trazia estímulo para a arrecadação de impostos que. ainda.4. em geral. ainda que em exercício diverso daquele em que ocorrer o ingresso. Além disso. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . a LOA. subsídios. não foram repassados aos governos estaduais e municipais as obrigações e os encargos pertinentes. Neste caso. a LOA demonstrará que está compatível e adequada ao Anexo de Metas Fiscais. prevista no artigo 165. 138 Professor: Raimundo N. etc. desvinculando-se cada vez mais da dependência do Governo Federal. em audiência pública perante a Comissão de Orçamento da Câmara de Vereadores. Finalmente. na Comissão Mista do Congresso Nacional. Conforme o artigo 35 do ADCT. De acordo com o artigo 5º da LRF. A Lei Orçamentária Anual. e as receitas para esse fim devem estar destacadas na Lei. A previsão da reserva de contingência. O serviço da dívida (encargos mais amortizações). sendo o refinanciamento da dívida (e suas receitas) demonstrado de forma separada. os pagamentos de sentenças judiciais deverão identificar os respectivos beneficiados.” Por sua vez. isenções. também são observados pelos Estados e Municípios. Execução orçamentária e cumprimento de metas A LRF dispõe que: “Até trinta dias após a publicação dos orçamentos o Poder Executivo estabelecerá a programação financeira e o cronograma de execução mensal de desembolso. mobiliária ou contratual e respectivas receitas. Estes prazos. deve manter os objetivos definidos nesta. destinada ao pagamento de restos a pagar e passivos contingentes. sendo orientada pela LDO. na execução da LOA. na proporção do incremento das transferências. por acompanhamento. tanto na LOA como nas leis de créditos adicionais. a LRF visa a resgatar a importância das receitas próprias na realização de projetos e manutenção da máquina pública. o projeto de lei orçamentária da União será encaminhado ao Legislativo até quatro meses antes do encerramento do exercício financeiro (final de agosto) e devolvido para a sanção até o encerramento da sessão legislativa (até meados de dezembro). o parágrafo único deste artigo 8º determina a vinculação de recursos à finalidade específica e em caráter exclusivo. de acordo com o artigo 5º. em detrimento da União. em nível local. O cumprimento das metas fiscais de cada quadrimestre (elencadas no Anexo de Metas Fiscais) passa a ser demonstrado. em percentual da RCL.II.

pelo menos trinta dias antes de esgotarse o prazo de envio das respectivas propostas orçamentárias. Permanece também o mandamento constitucional que somente admite reestimativa de receita.2.028 (Lei de Crimes Fiscais).1. S. Exemplos : ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ Anistia: Anistia é a dispensa de pagamento de multa (e juros de mora) a Remissão: Remissão perdão do pagamento do principal e da sanção presumido: Crédito presumido compensação por tributo não pago em virtude de incentivo geral: Isenção em caráter não geral é uma forma de exclusão do crédito tributário Subsídio: Subsídio: redução de carga tributária para certas atividades ou mesmo pagamento em espécie para fortalecer a atividade financeiro: Benefício financeiro operação financeira custeada pelo Estado ao contribuinte. efetuar o desdobramento das receitas em metas bimestrais de arrecadação. A partir da vigência da LRF. Previsão e Arrecadação da Receita A instituição. as estimativas da receita devem estar acompanhadas de demonstrativo da sua evolução. nos casos de erro ou omissão. uma vez que tais metas bimestrais de receita servirão de parâmetro para a limitação de empenho e movimentação financeira. Para a sua previsão. Ressalte-se a importância dessa medida. Renúncia de Receita Conceito: deixar de cobrar ou reduzir a carga tributária. nos termos da Lei 10. no valor equivalente ao imposto. além de observar as normas técnicas e legais e a respectiva metodologia de cálculo.A determinação para a cobrança de tributos deve ser vista como um estímulo ao administrador para o desenvolvimento do sistema tributário próprio. nos três anos anteriores e nos dois seguintes àquele a que se referirem. até trinta dias após a publicação do orçamento anual. não só ao que dispuser a LDO. a cobrança da dívida ativa e os créditos executáveis pela via administrativa. Demonstrar que a renúncia delas decorrente foi considerada ao se estimar a receita do orçamento e que não afetará as metas de resultados fiscais previstas na LDO. previsão e a efetiva arrecadação de todos os tributos é ressaltada pelo texto da LRF como requisito essencial da responsabilidade na gestão fiscal. 4. cobrar imposto. e deve estar sujeita a regras disciplinadoras. passa a ser uma obrigação. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . pelo Poder Legislativo. mais do que um direito da administração pública. de ordem técnica ou legal. O descumprimento dessa norma terá como conseqüência a imediata suspensão das transferências voluntárias ao ente público que se mostrar negligente nessa questão. ainda. tais iniciativas deverão atender. 4. mas ainda aos seguintes requisitos: ♦ ♦ Estimar o impacto orçamentário financeiro no exercício inicial de sua vigência e nos dois seguintes. A LRF determina que o Poder Executivo deverá. A concessão indiscriminada dos chamados “incentivos fiscais” é prática danosa às finanças de qualquer ente público. A LRF prevê. 139 Professor: Raimundo N. nos termos da LRF e. Na verdade. informando quais medidas serão adotadas para o combate a sonegação. que o Poder Executivo deverá informar aos demais Poderes e ao Ministério Público os estudos e as estimativas das receitas. seja por via direta ou indireta.

A novidade aqui está no conceito de despesa obrigatória de caráter continuado que. Estas medidas deverão observar ainda. iniciativas do tipo “combate à sonegação”. sem a correspondente fonte de recursos. nos termos do Código Tributário Nacional. 140 Professor: Raimundo N. de suas medidas compensatórias48. para todo e qualquer aumento de despesa pode ser assim traduzida: toda e qualquer despesa que não esteja acompanhada de estimativa do impacto orçamentário-financeiro nos três primeiros exercícios de sua vigência. sendo que nos dois últimos casos o benefício só entrará em vigor após a ocorrência do aumento da receita. em nível municipal. de acordo com o artigo 16 da LRF. derivadas de lei e execução por período superior a dois exercícios financeiros. não só para a aquisição de bens. S. portanto. o princípio da anterioridade. “bolão fiscal” e outras medidas do gênero. projeto para criação de Territórios Federais na Região Amazônica. medida provisória ou ato administrativo normativo. Algumas ações governamentais objetivas poderão esclarecer um pouco mais este conceito: ♦ ♦ Como se vê. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . para a questão do aumento nas despesas. como também para a desapropriação de imóveis urbanos. atendem aos requisitos propostos: gerarão despesas correntes. majoração ou criação de tributo ou contribuição. a lei equipara a aumento de despesa a prorrogação daquela já criada por prazo determinado. que. serviços e obras. ampliação da base de cálculo ou novos tributos ou contribuições. o princípio que embasa tal conduta não é outro que o de “gastar apenas o que se arrecada”. No entanto.♦ Prever medidas de compensação nos três exercícios já referidos. 17 que. o PPA e a LDO e. é condição prévia. que este seja um dos pontos que mais tem suscitado críticas por parte dos governantes nos diversos níveis da Federação. é a despesa corrente: ♦ ♦ derivada de lei. DESPESA PÚBLICA A regra básica da LRF (art. irregular e lesiva ao patrimônio público. o pagamento de “bolsa-escola” para famílias carentes que comprovem a freqüência dos filhos em idade escolar na rede pública de ensino. no caso de despesa obrigatória de caráter continuado. é considerada: não autorizada. define o aumento permanente de receita como o “proveniente da elevação de alíquotas. da sua adequação orçamentária e financeira com a LOA. 15). Não é de estranhar. geradora de obrigação legal de sua execução por um período superior a dois exercícios. para que não haja a menor chance de alguma brecha ou artifício legal. Essa norma. ambas de grande ônus político: aumento permanente de receita ou redução permanente de despesa. diante das barreiras que são impostas a aumentos de despesa. 5. duas alternativas são dadas. as despesas geradas a partir dessas ações. E. 17.” De nada valerão. 48 Aumento permanente de receita e/ou redução permanente de despesa. pelo menos para esse fim. Diante do que estabelece a nova lei. nos termos do art. aprovado no Plenário do Senado Federal em 2000. Estão isentos das restrições acima apenas os cancelamentos de débitos em valor inferior aos seus custos de cobrança. deverá ser paga em dinheiro. podendo ser através de: elevação de alíquota. por exemplo. Some-se ainda a restrição do art. sem deixar margem para criatividade. de acordo com a Constituição. ampliação da base de cálculo.

6. proventos de aposentadoria. Limites com pessoal De acordo com a LRF. fica revogada qualquer outra legislação que verse sobre estes limites. e contribuições recolhidas pelo Ente às entidades de previdência. em média. Isto significa que restam 30% para a realização dos serviços públicos básicos. o conjunto dos Estados brasileiros gastou. o limite será de 50% da RCL. já que a contagem retroage 11 meses. com quaisquer espécies remuneratórias. militares e de membros de Poder.9% para o Executivo. 67% de suas receitas líquidas (receitas disponíveis) com pagamento de pessoal. e 60% da RCL para Estados e Municípios. saúde e segurança. 9. reformas e pensões. funções ou empregos.2. à estabilidade econômica e à queda nos índices inflacionários. Despesas com pessoal: fiscalização e controle Os gastos com a folha de pagamento de pessoal representam o principal item de despesas de todo o setor público brasileiro. como educação. responsável pelo crescimento deste tipo de despesa de forma continuada. vencimentos e vantagens. encargos sociais. após a publicação da LRF.1. Entre 1996 e 2000. despesas com inativos e pensionistas. horas extras e vantagens pessoais.5. Somente o RGF referente ao último quadrimestre do ano apresentará as despesas de pessoal verificadas na unicidade do exercício financeiro. 2. Certamente que o aumento da participação da folha de pagamento nas receitas de Estados e Municípios deveu-se. civis. 141 Professor: Raimundo N. Por conseguinte. 3. fixas e variáveis. adicionais de qualquer natureza. os limites a serem apresentados no Relatório de Gestão Fiscal (RGF) do primeiro e do segundo quadrimestre somarão despesas com pessoal relativas a dois exercícios financeiros. a preservação do patrimônio público etc. saneamento. a limitação dos gastos com pessoal em percentual da RCL está de acordo com o princípio de equilíbrio da Lei Fiscal. a despesa com pessoal apresenta um componente vegetativo importante. sem considerar a manutenção de estradas e vias urbanas. 8. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . 5. gratificações. S. o crescimento populacional demanda um programa de investimentos crescentes por parte dos governos. A LRF determina dois limites distintos para os gastos com pessoal no setor público: ♦ ♦ 50% da RCL para a União. Além disso. A apuração dos gastos com pessoal será feita com base em um período de 12 meses. 10. como já foi visto. assim dividido: ♦ 40. mandatos eletivos. somatório dos gastos do ente da Federação com os ativos. a partir dos recursos que lhe são entregues na forma de impostos. 5. cargos. Além disso. 7. segundo o qual as despesas devem observar preferencialmente o montante das receitas próprias arrecadadas. 4. entende-se como despesas de pessoal: 1. Na esfera federal. Cumpre ressaltar que. subsídios. A definição desses limites busca simplesmente permitir que o administrador público cumpra o papel que a sociedade lhe atribuiu: proporcionar bem-estar à população. Neste caso.

isto significa que o órgão A terá um limite de 2.5% para o Legislativo. 2. a média das despesas com pessoal tenha sido dividida entre o órgão A e o órgão B na proporção de 40% e 60%. Sua contagem no limite de pessoal desestimularia programas dessa natureza. de acordo com o § 2° do artigo 18. o limite de 60% será assim repartido: ♦ ♦ Nos Poderes Legislativo e Judiciário. não há porque serem somadas aos limites (60%). Parece lógico que. que passará então para 48. para o órgão B. este limite será igual a 3. o limite para os gastos com pessoal do Legislativo será igual a 3. as despesas com inativos custeadas com recursos de fundos próprios. quando houver. enquanto que o Executivo perderá este percentual a maior do seu limite (0. Um exemplo: digamos que nos três exercícios financeiros anteriores à publicação da LRF (1997. com a limitação dos gastos com pessoal sendo igual a 6% da RCL para o Poder Judiciário. Roraima e do Distrito Federal. em geral utilizado pontualmente e dirigido ao conjunto dos servidores.6% da RCL. 49% para o Executivo. as despesas decorrentes de decisão judicial (em geral classificadas na rubrica "Sentenças Judiciais"). incluindo o Tribunal de Contas do Estado. se estas despesas não são pagas com as receitas destes Estados. Nos Estados onde houver Tribunal de Contas dos Municípios.6%.1998 e 1999). na proporção das despesas que vinham sendo realizadas em exercícios anteriores. já que. e 2% para o Ministério Público. A partir de maio de 2000.6% para o Ministério Público. incluindo o Tribunal de Contas do Município. Em outras palavras. o servidor recebe valores superiores àqueles que receberia se continuasse na ativa. os limites serão repartidos entre os seus diversos órgãos. resta relacionar aquelas despesas que não serão computadas para o atendimento dos limites definidos nesta seção: ♦ ♦ as despesas com indenização por demissão de servidores ou empregados. 6% para o Judiciário. respectivamente. o chamado PDV. as despesas com pessoal do Estado do Amapá. as despesas relativas ao incentivo à demissão voluntária. e da competência de período anterior ao da apuração das despesas com pessoal (somando-se o mês de referência com os onze meses anteriores). Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças ♦ ♦ Atente-se para o fato de que as receitas originárias das contribuições a fundos não . Na esfera estadual. ♦ ♦ as despesas com pessoal verificadas em decorrência de convocação extraordinária do Congresso Nacional. e 0. 142 Professor: Raimundo N. e 6% para o Legislativo. Finalmente. dentro do Poder Judiciário. 54% para o Executivo. 3% para o Legislativo. custeadas pela União. o limite de 60% será repartido da seguinte forma: ♦ ♦ ♦ ♦ Na esfera municipal. enquanto que. por ocasião do afastamento. S.4% da RCL.4%).4% da RCL para as despesas com pessoal.♦ ♦ ♦ 6% para o Judiciário. Não faria sentido decisão diferente. o PDV. aumentará a despesa com pessoal no mês em que estiver sendo executado.

a criação. previamente ao recebimento dos recursos. 17. E. concessão de subvenções e a participação em constituição ou aumento de capital. As transferências voluntárias compreendem a entrega de recursos correntes e de capital. financiamentos e refinanciamentos. destacam-se : ♦ ♦ ♦ ♦ cumprimento das disposições da LDO sobre a matéria. além da sua previsão na lei orçamentária ou em crédito adicional. 5. existência de contrapartida no orçamento do ente beneficiário. o que torna nula esta operação do ponto de vista contábil. os recursos recebidos não poderão ser utilizados em finalidade diversa daquela que for pactuada no instrumento utilizado para formalizar a transferência. DF e Municípios. existência de dotação específica na lei orçamentária. saúde e assistência social) correspondem a dois terços do total de transferências voluntárias repassadas anualmente. que obedece aos limites constitucionais para gastos com educação e saúde.compõem o cálculo da RCL. não serem destinadas a pagamento de pessoal ativo. RECURSOS PRIVADO DESTINAÇÃO DE RECURSOS PARA O SETOR PRIVADO A LRF estabelece a regra básica para toda e qualquer destinação de recursos públicos ao setor privado: a sua autorização por lei específica. que inexistem pendências quanto à prestação de contas de recursos já recebidos. ♦ Como regra geral. majoração ou extensão de qualquer benefício que integre a seguridade social requer. S. a partir de mecanismos de compensação. além da indicação de sua fonte de custeio total. além daqueles relativos à dívida. prorrogação e composição de dívidas. legal ou dos destinados ao SUS. com exceção daqueles que decorram de determinação constitucional. é exigida a observância das disposições da LDO. a título de cooperação. nem por isso a LRF é menos severa em relação aos aumentos de gastos com a seguridade social. Apenas para relembrar. 5. Dentre as exigências legais para a realização de transferências voluntárias. assim como à comprovação de que não serão afetadas as metas de resultados fiscais previstas na LDO. inativo e pensionistas dos Estados.4. empréstimos e financiamentos devidos ao ente transferidor. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . que versa sobre a despesa obrigatória de caráter continuado. Despesas com a seguridade social Embora este assunto tenha merecido apenas um breve artigo. De modo idêntico aos demais aumentos de despesa. mais ou menos na linha de procedimento que já era adotada pelo governo federal ao longo da última década. que se acha em dia com o pagamento de tributos. o beneficiário deverá comprovar. Cumpre ressaltar que aquelas transferências voluntárias constantes do artigo 25 (exceções no caso de suspensão .3. de um ente para outro. Equiparam-se a transferências e sujeitam-se às mesmas normas as concessões de empréstimos. o cumprimento do art.educação. 6. como requisitos adicionais. Sempre que o ente beneficiário de uma operação de crédito não estiver sob controle direto 143 Professor: Raimundo N. aquele dispositivo obriga à demonstração da origem dos recursos que custearão qualquer aumento na despesa. auxílio ou assistência financeira. despesas com pessoal e restos a pagar. Transferências voluntárias Neste item a LRF estabelece as condições para a realização das transferências voluntárias de recursos entre os entes da Federação.

E este endividamento desproporcional e crescente arquitetou-se a partir do aumento nas despesas públicas. sem duplicidade: ♦ ♦ das obrigações financeiras do ente da Federação. Operações de crédito correspondem a compromissos assumidos com credores situados no país ou no exterior. as comissões e outras despesas não poderão ser inferiores ao que dispuser a lei ou ao seu custo de captação. Distrito Federal ou Municípios. de 21/12/2001. devendo. Por sua vez. dos precatórios judiciais emitidos a partir de 5 de maio de 2000 e não pagos durante a execução do orçamento em que tenham sido incluídos. S. mediante a criação de fundos e outras formas legais que dêem cobertura a essas instituições. A LRF e a dívida pública A Resolução do Senado Federal n° 43. abertura de crédito. sem a contrapartida do incremento das receitas próprias. R$ 555 bilhões correspondiam à Dívida Mobiliária do Tesouro Nacional. a LRF proíbe taxativamente o socorro às instituições do Sistema Financeiro Nacional (SFN). observar os termos dos arts. e os recursos de terceiros. assumidas em virtude da realização de operações de crédito para amortização em prazo superior a doze meses ou que. assumidas em virtude de leis. Considera-se dívida pública consolidada o montante total apurado.do ente transferidor dos recursos. os encargos financeiros da operação. A dívida consolidada do Governo Federal em dezembro de 2000 atingiu o montante de R$ 830 bilhões (cerca de 78% do PIB calculado para o período) . emissão e aceite de título. contratos. PÚBLICO DÍVIDA E ENDIVIDAMENTO PÚBLICO A dívida líquida do setor público brasileiro cresceu significativamente entre os anos de 1994 e 2000. 7. aquisição financiada de bens. operações de crédito e empresa estatal dependente. 29 da LRF. existem dois mecanismos fundamentais utilizados para a cobertura do déficit público: os recursos próprios. convênios ou tratados. Já a dívida pública mobiliária é representada por títulos emitidos pela União. principalmente nos Estados e Municípios. que condicionam os aumentos de despesa à: ♦ ♦ estimativa de impacto orçamentário-financeiro nos três primeiros exercícios de sua vigência. das obrigações financeiras do ente da Federação. 7. dívida pública mobiliária. inclusive as decorrentes de emissão de' títulos. 15 e 16. adequação orçamentária e financeira com o PPA. Estados. Deste total. fundações e empresas estatais dependentes ou entre estes. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . ♦ Pelo disposto no parágrafo primeiro do art. tenham constado como receitas no orçamento. autarquias. Para tanto. a assunção. de uma vez por todas. que significam endividar-se. em razão de mútuo. feito para socorrer instituições integrantes do SFN. o reconhecimento e a confissão de dívidas pelo ente público são equiparados às operações de crédito. a repetição de programas nos moldes do PROER. Além disso. o parágrafo primeiro do mesmo dispositivo já antevê a solução para eventuais situações de insolvência. recebimento antecipado de valores provenientes da venda a termo de bens e 144 Professor: Raimundo N. que provém nas receitas de impostos e transferências.1. a LDO e a LOA. ainda. Tal proibição tem como objetivo primordial evitar. Por definição. embora de prazo inferior a doze meses. define os termos relacionados à dívida pública consolidada. a dívida pública consolidada não inclui as obrigações entre cada ente público e seus respectivos fundos.

30. respectivamente. Limites de endividamento de acordo com a LRF Diz o artigo 30 da Lei de responsabilidade Fiscal: Art.Congresso Nacional: projeto de lei que estabeleça limites para o montante da dívida mobiliária federal a que se refere o inciso XIV do art. acompanhado da demonstração de sua adequação aos limites fixados para a dívida consolidada da União. VIII e IX do mesmo artigo. sem autorização orçamentária. mercadorias ou serviços.2. atendido o disposto no inciso I do § 1 ° deste artigo. S. corresponde à dívida pública consolidada deduzidas as disponibilidades de caixa. terão um prazo de 15 anos para retorno ao limite dentro de uma trajetória decrescente. Estados e Municípios. 4. na forma da legislação. direta ou indiretamente. autorização orçamentária para recebimento de recursos financeiros com idêntica finalidade. na proporção de 1/15 avos por ano. Equiparam-se a operações de crédito o recebimento antecipado de valores de empresa em que o Poder Público detenha. destinados ao pagamento de despesas com pessoal. bem como de limites e condições relativos aos incisos VII. da LRF (receita de 12 meses). mediante emissão. Síntese da Resolução n° 40 do Senado Federal: 1. no exercício anterior. a observação desses limites valerá a partir de dezembro de 2001. da LRF (receita de 12 meses).serviços. 7. Professor: Raimundo N. neste último caso. a dívida consolidada líquida dos Estados e do Distrito Federal terá por limite 2 vezes a sua RCL. Empresa estatal dependente. de custeio em geral ou de capital. O Senado Federal editou em dezembro de 2001 as Resoluções nOS 40 e 43 versando sobre limites globais para o montante da dívida pública consolidada e da dívida pública mobiliária do Distrito Federal. e sobre limites e condições para contratação de operações de crédito e concessão de garantias. inclusive com o uso de derivativos financeiros.Senado Federal: proposta de limites globais para o montante da dívida consolidada da União. 2°. cumprindo o que estabelece o inciso VI do art. recebido recursos financeiros de seu controlador. 2°. a maioria do capital social com direito a voto. 3. as aplicações financeiras e os demais haveres financeiros. arrendamento mercantil e outras operações assemelhadas. no exercício corrente. com fornecedor de bens. considerando-se ainda as obrigações a pagar que deverão ser deduzidas das disponibilidades financeiras. com fornecedores para pagamento a posteriori de bens e serviços. calculada na forma do art. a dívida consolidada líquida dos Municípios terá um limite igual a 1. o Presidente da República submeterá ao: I . e apenas eles. Bertolesa . No prazo de noventa dias após a publicação desta Lei Complementar. é empresa controlada pelo Estado. aceite ou aval de títulos de crédito e a assunção de obrigação. § 3°. de acordo com a Resolução n° 43/01. § 3°. aqueles provenientes de aumento de participação acionária. sendo que os entes que estavam acima dos limites legais (Estados acima de 2 vezes a RCL e Municípios acima de 1. 48 da Constituição. mas 145 Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças 2. dos Estados e dos Municípios. 52 da Constituição. os entes que em dezembro de 2001 estavam dentro do limite legal e ultrapassarem os limites após dezembro de 2001 não terão 15 anos. a assunção direta de compromisso. pelo Distrito Federal ou pelo Município que tenha. calculada na forma do art.2 vezes (ou 120%) a RCL. Quanto à dívida consolidada líquida. II . e tenha. excluídos. salvo lucros e dividendos.2 vezes) nessa data. confissão de dívida ou operação assemelhada.

Minas Gerais e Rio Grande do Sul. editado pelo Ministério da Fazenda. de 10 de janeiro de 2003 a 30 de abril de 2005 fica suspensa a obrigatoriedade de cumprimento dos limites e condições estabelecidos nos artigos 30 e 40 da Resolução SF na 40/01.5 vezes a RCL.3. a 7% da RCL. no exercício em que estiver sendo apurada.5% da RCL. valerão as regras contratuais. os Estados. dentro de um exercício financeiro. equivalente a 6. em dezembro de 2001. 4. Além desses Estados. o Distrito Federal e os Municípios deverão estar ajustados aos limites fixados ou à trajetória da dívida. S. No que se refere aos limites e condições para endividamento do governo federal. Já a dívida mobiliária teria um limite diferenciado. Síntese da Resolução n° 43: 1. A regra de ouro Segundo o artigo 167. inciso III. acima de 1. existiam no Brasil 6 Estados com excesso de endividamento quando da publicação da Resolução n° 40: Goiás. Distrito Federal e Municípios será o equivalente a 22% da RCL. Mato Grosso do Sul. de 7 de novembro de 2003. Maranhão. ♦ 7. a saber: ♦ ♦ o prazo para reenquadramento aos limites da dívida consolidada. reduzindo o excesso dentro de uma proporção de 1/15 avos ao ano. Enquanto não forem editadas as novas resoluções que tratarão do endividamento do governo federal. o comprometimento anual com o serviço da dívida (encargos mais amortizações) não poderá ultrapassar a 11. em 10 de maio de 2005. ressalvadas 146 Professor: Raimundo N. O saldo devedor das operações de crédito por antecipação de receita orçamentária (AROs) não poderá ultrapassar. 2. Mato Grosso. que substituiu o Banco Central nas análises dos pleitos para a contratação de operações de crédito estaduais e municipais. nas condições previstas na Resolução na 43. cerca de 20 Municípios estavam. o projeto encaminhado ao Congresso Nacional determinava um limite de endividamento (Dívida Consolidada Líquida) igual a 3.dois quadrimestres para ajustarem-se. conforme previsto inicialmente no artigo 31 da LRF. Esses Estados terão até o exercício de 2016 para chegarem a uma relação Dívida Consolidada Líquida/ Receita Corrente Líquida igual a 2. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o saldo global das garantias concedidas pelos Estados. As novas regras para contratação de operações de crédito estão dispostas no Manual de Instrução de Pleitos (MIP). alterou dispositivos da LRF e da Resolução SF na 40/01. entre eles os Municípios de São Paulo e Maceió.5 vezes (ou 350%) a RCL anual do governo federal. devem ser observadas as regras dispostas na Resolução na 96/89. a Resolução no 20 do Senado Federal. para aqueles contratos em andamento (cujo pagamento de dívidas superem os limites da Resolução nO 43).2 para a relação Dívida Consolidada Líquida/Receita Corrente Líquida. Conforme relatórios fiscais publicados em dezembro de 2001 (e republicações posteriores). Ressalte-se que a Resolução na 43/01 revogou a Resolução na 78/98. Ressalte-se que. conforme disposto no artigo 31. Finalmente. a contratação de operações de crédito para Estados e Municípios. 3. podendo chegar a 32% da RCL. da Constituição Federal de 1988: "É vedada a realização de operações de crédito que excedam as despesas de capital. passa de 3 para 4 quadrimestres. deverá observar o limite de 16% da RCL.

ou seja. Se verificada a ultrapassagem dos seus limites ao final de um quadrimestre. do ônus deste. será possível contratar operações de crédito para a cobertura de despesas correntes. crédito. Diz a citada norma: "O montante previsto para as receitas de operações de crédito não poderá ser superior ao das despesas de capital constantes do projeto de lei orçamentária. A relação dos entes que ultrapassarem esses limites será divulgada mensalmente pelo Ministério da Fazenda (art. proibição de recebimento de transferências voluntárias." Percebe-se que no texto da LRF não havia. § 3°. caso não eliminado o excesso no prazo previsto e enquanto durar o mesmo.não serão computadas nas despesas de capital as realizadas sob a forma de empréstimo ou financiamento a contribuinte. Essas regras aplicam-se tanto para os casos de excedente nos limites da dívida mobiliária como das operações de crédito internas e externas. inclusive ARO. tendo por base tributo de competência do ente da Federação. o § 2° do artigo 12. O cumprimento do limite a que se refere o inciso lV do art. 167 da Constituição deverá ser comprovado mediante apuração das operações de crédito e das despesas de capital conforme os critérios definidos no art. tudo o que se refere à "regra de ouro" tem por referência a Constituição Federal. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Em outras palavras. a ressalva constitucional. II . O Supremo Tribunal Federal (STF). desde a publicação da LRF. É matéria orçamentária. direta ou indireta. o limite das operações de crédito é o montante das despesas de capital previsto na lei orçamentária anual. os entes estarão sujeitos às seguintes sanções institucionais: ♦ ♦ ♦ proibição de realizar operação de refinanciamento da dívida mobiliária. Ressalte-se que. em cada exercício financeiro." Esse comando traz a chamada "regra de ouro".se o empréstimo ou financiamento a que se refere o inciso I for concedido por instituição financeira controlada pelo ente da Federação. Recondução da dívida aos limites A LRF estabelece prazos e condições rígidos para os entes que ultrapassarem os respectivos limites de endividamento. a partir da LRF. 7.as autorizadas mediante créditos suplementares ou especiais com finalidade precisa. contra a qual nenhuma lei pode prevalecer. o valor da operação será deduzido das despesas de capital". quando houver decisão de maioria absoluta das duas casas legislativas em nível federal. não traz prejuízos à responsabilidade fiscal dos entes públicos.4. observado o seguinte: I . que pretende coibir o financiamento. como. considerar-se-á. se resultar a diminuição. inclusive através de limitação de empenho. Durante o tempo em que estiverem acima dos limites. excetuado o obrigatoriedade de obtenção de superávit primário para redução do excesso. com o intuito de promover incentivo fiscal. tornou sem efeito alguns dispositivos da LRF. que determina. a partir do dia 9 de maio de 2002. § 1° ao 5°). por exemplo. de despesas correntes. em nosso entendimento. portanto. de fato. a eles deverão retomar nos três quadrimestres seguintes. in verbis: "§ 3° Para fins do disposto no inciso V do § 1°. passou a ser também matéria financeira. apenas em situações excepcionais. 31. via operação de crédito. 32. A decisão do STF. S. o total dos recursos de operações de crédito nele ingressados e o das despesas de capital executadas. 147 Professor: Raimundo N. aprovados pelo Poder Legislativo por maioria absoluta. eliminando pelo menos 25% já no primeiro período. Certamente que. da LRF.

além das transferências constitucionais. 32 da LRF. não está proibida a concessão de garantia por: I II empresa controlada a subsidiária ou controlada sua. Além disso. instituição financeira a empresa nacional. nos termos do art. devendo restringir-se unicamente ao atendimento de insuficiência de caixa durante o exercício e. garantido o acesso público a essas informações. o Banco do Brasil é uma empresa controlada pelo governo federal. ainda. Quanto aos encargos. sem o pagamento de juros e encargos financeiros. estará sujeita à verificação do cumprimento dos respectivos limites de endividamento. obter garantia ou contratar operações de crédito (art. Contratação de Operação de Crédito Toda e qualquer operação de crédito pleiteada. Na concessão de garantias pela União aos Estados e Municípios. devendo ser cancelada. § 3º). não poderão ser realizadas no último ano do mandato do Chefe do Poder Executivo. inclusive empresas controladas. a plena adimplência para com o ente garantidor. As operações de aro’s somente poderão ser realizadas a partir do décimo dia do início do exercício. Como pré-condição. nem tampouco se operações anteriores da mesma natureza não estiverem totalmente saldadas. Além disso. Garantia e contragarantia A concessão de quaisquer garantias em operações de crédito está sujeita às normas do art. toda e qualquer operação de crédito realizada por ente da Federação será registrada pelo Ministério da Fazenda. S. que dispõe sobre os limites e condições das operações de crédito. por ente da Federação. de curto prazo. que deverá ser prefixada ou indexada à taxa básica financeira estipulada pelo governo. estes poderão vincular as suas receitas tributárias próprias. Para a LRF empresa controlada é a sociedade cuja maioria do capital social com direito a voto pertença. 23. devolvendo-se o principal. pela instituição credora. 7. nem a prestação de contragarantia nas mesmas condições. pelo Ministério da Fazenda. aplicando as sanções cabíveis em caso de inobservância de limites. estão limitados à taxa de juros da operação.5. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . qualquer garantia exige que o seu beneficiário ofereça contragarantia. enquanto que o SERPRO configura exemplo de empresa dependente. e. esse tipo de operação está agora mais restrito. adicionalmente. Enquanto não efetuada a devolução. Antecipações de Receitas Orçamentárias – aro’s De uso bastante difundido. Trata-se de dívida flutuante. qualquer operação que contrariar as disposições da LRF será considerada nula. 33. As aro’s não estão incluídas no saldo devedor que comporá o limite de endividamento dos entes públicos. 32. direta ou indiretamente.7. 148 Professor: Raimundo N.7. Para tanto. até 10 de dezembro de cada ano. com os respectivos juros e encargos. 32.6. em valor igualou superior à garantia a ser recebida. que fará também o seu acompanhamento e controle. a instituição credora deverá certificar-se de que o beneficiário da operação atende às exigências da lei. a ente da Federação. Nesse caso. o ente não poderá receber transferências voluntárias. nos termos da lei. devendo ser paga dentro do exercício em que for contratada. Todas as operações de aro’s serão feitas através de abertura de crédito na instituição financeira que for vencedora de processo licitatório promovido pelo Banco Central. devendo ser saldadas. atender a todas as normas relativas às operações de crédito constantes do art. De acordo com o parágrafo 1º do art. Esse conceito estabelece diferença entre empresa controlada e empresa dependente. 7. De acordo com o § 6° do artigo 40 da LRF.

O orçamento do exercício seguinte. em caso de valores a serem pagos no exercício seguinte. S. sob pressão do próprio pleito. o sucessor era forçado a consumir um ou mais anos de seu mandato apenas para saldar tais dívidas. sejam irresponsavelmente contraídas novas despesas que não possam ser pagas no mesmo exercício. freqüentemente não contemplava espaço para os Restos a Pagar que. Várias dúvidas têm surgido quanto à interpretação desse dispositivo. dentro do exercício financeiro ou. Restos a pagar Pelo disposto na LRF. e. quando a pressão pela acomodação de despesas também aumentava.8. 7. 149 Professor: Raimundo N. ordenar ou autorizar a assunção de obrigação em desacordo com a determinação do referido art. Posteriormente. evitar que. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças .Portanto. na sua origem. A situação agravava quando a série de planejamentos deficientes fazia com que os problemas se acumulassem. toda dívida de ente público que tiver sido honrada em conseqüência de garantia prestada implica a suspensão de novos créditos até a completa liquidação da dívida em causa. por sua vez. O orçamento. então. sem que existam recursos em caixa para tal finalidade. A regra obriga o governante a "deixar a casa arrumada para o sucessor". A rubrica Restos a Pagar. Por último. tornando-se necessários alguns esclarecimentos. A falta de sincronia entre orçamento e execução financeira e a ausência de medidas corretivas ocasionavam uma sobra de pagamentos que não podiam ser atendidos no mesmo exercício e. Após a LRF. O art. configurandose. dando origem a uma trajetória crescente de Restos a Pagar. de 19 de outubro de 2000. destinava-se a compatibilizar o término do exercício financeiro com a continuidade da Administração Pública. e é natural que algumas despesas que pertencem a um exercício restem a pagar no exercício seguinte. nenhuma despesa poderá ser contraída nos dois últimos quadrimestres do mandato de qualquer titular de Poder ou órgão. eventuais dívidas poderiam ser roladas ao longo de um mesmo mandato. No cálculo das disponibilidades. Com o passar do tempo. mas jamais transferidas para o sucessor. sem adequada e suficiente disponibilidade de recursos para o seu atendimento. deverão ser abatidos todos os encargos e demais compromissos a vencer até o final do exercício. por isso. em último ano de mandato. eram transferidos para o exercício seguinte sob a forma de Restos a Pagar. na abertura de carta de crédito para operações de importação e exportação. Por outro lado. a Lei n° 10. os Restos a Pagar foram sendo mal utilizados como instrumento de rolagem de dívidas. Isto porque nem todos os pagamentos de despesas coincidem com o término do exercício. ainda mais. punido com reclusão de um a quatro anos. 42. o Banco do Brasil poderá prestar garantias à empresa nacional.028. Em outras palavras. por um lado. Estas seriam também transferidas sob a forma de Restos a Pagar para o terceiro exercício. Vamos utilizar como referência o ano de 2000. o fim do mandato serviria também como ponto de corte para equacionamento de todos os estoques. de deficiências do processo orçamentário como instrumento de planejamento. eivado por superestimativa de receitas e/ou subestimativa de despesas. denominada Lei de Crimes Fiscais. Da mesma forma. caracterizou como crime. elevando o volume de Restos a Pagar a tal magnitude que. em último ano de mandato. a rolagem extra-orcamentária de dívidas. A má utilização decorria. o Banco do Brasil e outras empresas controladas pelo Poder Público poderão prestar garantias às suas subsidiárias. ocasionavam deslocamento de outras despesas. por exemplo. 42 foi concebido com o espírito de. embutia autorização para assunção de compromissos que não eram acompanhados por efetiva arrecadação de receitas. o que não será possível para as empresas dependentes. que foi último ano de mandato. em grande medida. esse tipo de rolagem de dívidas fica vedado no último ano de mandato. muitas vezes. para serem atendidos.

As prestações de contas e o respectivo parecer prévio. da variação patrimonial e da conformidade do montante das operações de crédito com aquele das despesas de capital. Relatório Resumido da Execução Orçamentária e a sua versão simplificada.1. controle e avaliação do grau de sucesso obtido na administração das finanças públicas. estabelecendo regras e procedimentos de fiscalização. as despesas com juros e os valores inscritos em restos a pagar. Já os demonstrativos de suporte visam evidenciar a receita corrente líquida. Relatório Resumido da Execução Orçamentária . as receitas e despesas previdenciárias. confeccionados pelo Tesouro Nacional e pelas agências financeiras oficiais de fomento. da lei de diretrizes orçamentárias e dos orçamentos. outro. assim como relacionadas as medidas destinadas à elevação da arrecadação. cuja função é especificar. verifica-se a existência de dois blocos normativos distintos: um de caráter geral. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . voltado às contas apresentadas pelo Chefe do Poder Executivo. Por sua vez. sob risco de punições fiscais e penais. 167 da Constituição.8. no caso de frustração na previsão de receitas. as receitas e as despesas. 150 Professor: Raimundo N. Tratando-se da União. 8. exige-se a demonstração das projeções atuariais dos regimes de previdência social. A transparência da gestão pública exige também o incentivo à participação popular e pela realização de audiências públicas. Todos os Municípios brasileiros (inclusive aqueles que possuírem menos de 50 mil habitantes) deverão apresentar o RREO a cada bimestre. Nessas peças. Transparência na Gestão Fiscal Neste item. nos termos previstos no inciso III do art. Para efeito da LRF. os orçamentos e a lei de diretrizes orçamentárias. S. O quadro a seguir apresenta um modelo do Relatório Resumido de Execução Orçamentária – RREO publicado pela Secretaria do Tesouro Nacional. os resultados primário e nominal. Tratando-se do Relatório de último bimestre de cada exercício. específico. CONTROLE TRANSPARÊNCIA. consideram-se instrumentos de transparência: ♦ ♦ ♦ ♦ Os planos. 8. Relatório de Gestão Fiscal e a sua versão simplificada. grupo de natureza.RREO O Relatório Resumido da Execução Orçamentária é composto de duas peças básicas e de alguns demonstrativos de suporte.2. função e subfunção). particularmente sob o prisma das normas previstas na LRF. por categoria econômica. devem os valores referentes ao refinanciamento da dívida mobiliária ser destacados dentre as demais receitas de operações de crédito. as contas apresentadas pelo Chefe do Poder Executivo devem estar à disposição do público. tanto durante a elaboração como no curso da discussão dos planos. As limitações impostas ao empenho de dotações devem ser justificadas. CONTROLE E FISCALIZAÇÃO Este capítulo reúne todos os comandos normativos necessários à confecção e à divulgação de relatórios e demonstrativos ligados às atividades de condução das finanças públicas. as contas devem ser acompanhadas por demonstrativos. especificando as aplicações efetuadas com recursos oriundos dos orçamentos fiscal e da seguridade social. As peças básicas são o balanço orçamentário. assim como o impacto fiscal das operações realizadas pelas agências de fomento. no âmbito tanto do respectivo Poder Legislativo como do órgão técnico responsável por sua elaboração. e o demonstrativo de execução das receitas (por categoria econômica e fonte) e das despesas (por categoria econômica. dedicado à explicitação dos instrumentos de transparência na gestão fiscal.

Prazo que. até trinta dias após o encerramento do período a que corresponder. do Relatório: ♦ As informações necessárias à verificação da conformidade. devendo. demonstrativo dos limites Além disso. dívida consolidada. exceto as destinadas ao refinanciamento do principal atualizado da dívida mobiliária. Elenco de medidas adotadas com vistas à adequação das variáveis fiscais aos seus respectivos limites. O Relatório de Gestão Fiscal conterá demonstrativos comparativos com os limites de que trata a LRF. e. é punida com multa de trinta por cento dos vencimentos anuais do agente que lhe der causa. conforme determina a LRF. 151 Professor: Raimundo N. Constam. c. A divulgação do relatório com os seus demonstrativos deverá ser realizada em até trinta dias após o encerramento do semestre. das dívidas consolidada e mobiliária. e operações de crédito. concessão de garantias e contragarantias. tratando-se do último quadrimestre. inativos e pensionistas. sendo o pagamento da multa de sua responsabilidade pessoal. evidenciando as despesas com ativos. dívida consolidada. o Relatório de Gestão Fiscal. no último quadrimestre. inclusive em meios eletrônicos. para o primeiro semestre. da concessão de garantias. demonstração do montante das disponibilidades ao final do exercício financeiro e das despesas inscritas em restos a pagar. nos prazos e condições estabelecidos em lei. Cada um dos Poderes. deve emitir o seu próprio Relatório de Gestão Fiscal. se encerra em 30 de setembro e. S.3. Relatório de Gestão Fiscal . d. Prazo que. para o segundo quadrimestre. se encerra em 30 de maio. dos seguintes montantes: a. semestralmente. conterá demonstrativos com informações relativas à despesa total com pessoal. Além disso. É facultado aos Municípios com população inferior a cinqüenta mil habitantes optar por divulgar. o referido relatório indicará as medidas corretivas adotadas ou a adotar. A Lei de Responsabilidade Fiscal determina que o relatório deverá ser publicado e disponibilizado ao acesso público. ♦ O Relatório de Gestão Fiscal. abrangendo todas as variáveis imprescindíveis à consecução das metas fiscais e à observância dos limites fixados para despesas e dívida. além do Ministério Público. se encerra em 30 de janeiro do ano subseqüente ao de referência. o ente da Federação estará impedido de receber transferências voluntárias e contratar operações de crédito. se encerra em 30 de julho e.8. das operações de crédito e das despesas com juros. A não divulgação do referido relatório. b. portanto. bem como operações de crédito. para o segundo semestre. das inscrições em Restos a Pagar e da despesa com serviços de terceiros.RGF Do ponto de vista do regime de finanças públicas implantado com a LRF. se encerra em 30 de janeiro do ano subseqüente ao de referência. ser acrescido de demonstrativos referentes ao montante das disponibilidades de caixa em trinta e um de dezembro. para o terceiro quadrimestre. com os limites de que trata a LRF. concessão de garantias e contragarantias. das despesas com pessoal. o Relatório de Gestão Fiscal ocupa posição central no que diz respeito ao acompanhamento das atividades financeiras do Estado. se ultrapassado qualquer dos limites. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . despesa total com pessoal. para o primeiro quadrimestre.

além de verificar o cumprimento dos limites relativos às despesas com pessoal. assim como indícios de irregularidades na gestão. Cabe ainda aos Tribunais de Contas. o Banco Central é a instituição que vinha acompanhando a dívida pública brasileira. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Cumpre ressaltar que a Lei 10.028 alterou o Decreto-Lei nº 2. 9. caso existam tais limites. Que as despesas com inativos e pensionistas se encontram acima do limite correspondente (Lei 9. Adoção de medidas para a adequação das despesas com pessoal e das dívidas mobiliária e consolidada aos respectivos limites. Com relação ao controle das operações de crédito. Ênfase especial deve ser atribuída. Observância dos limites e das condições para a realização de operações de crédito e a inscrição de despesas em restos a pagar. A partir da Resolução n° 43. Respeito aos limites aplicáveis aos gastos do Poder Legislativo municipal. este papel passa a ser realizado pelo Ministério da Fazenda. e aos sistemas de controle interno de cada Poder e do Ministério Público. S. ao impedimento de contratação de operações de crédito e a impossibilidade para a obtenção de garantias da União para a contratação de operações de crédito externo. inclusive o volume de contratações de operações de crédito de Estados e Municípios. por intermédio do Tesouro Nacional. Sobre fatos que comprometam os custos ou os resultados de programas. descritas no próprio texto da LRF. de 10-04-1950 (define os crimes de responsabilidade e regula o respectivo processo de julgamento) e o Decreto-Lei nº 201. Observância das normas atinentes à destinação dos recursos oriundos da alienação de ativos.8. e o Banco Central do Brasil. de 7-12-1940 (Código Penal). de 21 de dezembro de 2001. a alguns aspectos específicos: ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ Verificação do cumprimento das metas previstas na lei de diretrizes. ♦ ♦ Ao Tribunal de Contas da União foi dada a especial incumbência de acompanhar a legalidade das operações com títulos públicos. o descumprimento da LRF poderá representar para o administrador público a aplicação de penalidades penais e administrativas. Fiscalização da Gestão Fiscal A responsabilidade pela fiscalização quanto ao cumprimento das normas de gestão fiscal é atribuída ao Poder Legislativo. realizadas entre a União. a Lei nº 1.028. alertar Poderes e órgãos: ♦ ♦ Sobre a possibilidade de extrapolação do limite referencial para as despesas com juros. de 10-10-2000. das operações de crédito e das garantias concedidas ultrapassarem 90 por cento dos limites a elas aplicáveis. este com o auxílio do Tribunal de Contas. de 27-02-1967 (dispõe sobre a 152 Professor: Raimundo N. Quando às despesas com pessoal e os montantes das dívidas consolidada e mobiliária. de acordo com a Lei nº 10.4. na fiscalização.717). SANÇÕES PESSOAIS Paralelamente às sanções institucionais.079. 10. INSTITUCIONAIS DESCUMPRIMENTO SANÇÕES INSTITUCIONAIS PARA DESCUMPRIMENTO DA LRF As sanções institucionais correspondem à interrupção de transferências voluntárias (e a sua contratação) realizadas pelo Governo Federal.848. a chamada Lei de Crimes.

bem como pelos trabalhos realizados. é exercida de modo difuso por todos com direito a voto. Reino Unido e Venezuela. EUA. 153 Professor: Raimundo N. como as auditorias-gerais ou controladorias da Austrália. Bélgica. exercidas por meio dos seus órgãos – instituições burocráticas que prestam serviços públicos. Colômbia. enquanto as últimas são mais comuns naqueles influenciados pela Europa continental. importando na cassação de mandato. As sanções pessoais recairão diretamente sobre o agente administrativo. contribuindo para a garantia do regime democrático. como também com as demandas específicas dos vários ministros. porém. O PAPEL DO CONTROLE Atuando sobre os próprios órgãos estatais. Nos órgãos singulares. Nova Zelândia. À medida que uma sociedade se organiza. O Estado relaciona-se permanentemente com a sociedade. O mandato é de um ano. a administração pública. ao qual compete definir os rumos da organização. mas influenciaram a organização de quase todos os Estados nacionais. o órgão precisa lidar não apenas com a curta duração do mandato de seus presidentes. inabilitação para o exercício da função pública e detenção. se seus atos estavam respaldados nas normas aplicáveis. e dá outras providências). embora geralmente os colegiados contem com um presidente49. nos termos da Lei de Crimes. Nas cortes de contas. renovável uma única vez por igual período. ligados a uma das funções fundamentais: executiva. as recomendações resultantes das fiscalizações têm caráter unipessoal. Grécia. A existência de um presidente. os dispêndios públicos são controlados por intermédio das cortes de contas. Canadá. o controle desempenha importante papel nas relações entre Estado e sociedade. Itália. S. a responsabilidade pela compatibilização entre meios e fins. Peru. As auditorias-gerais ou controladorias e as cortes de contas surgiram na Europa. serviços terceirizados e endividamento. prevalecem as determinações. como Alemanha. O conjunto de órgãos constitui. 49 No TCU. as principais decisões são tomadas por um colegiado de ministros ou conselheiros. recairá sobre aquele administrador público que não seguir as regras gerais da LRF. Assim. o que dificulta o planejamento de longo prazo das atividades. subscritas pelo auditor-geral ou controlador. ou seja: verificar se o gestor agiu conforme a legislação. Áustria. Brasil. respaldadas em deliberações do colegiado. França. surgem necessidades que devem ser preenchidas sem que os direitos e liberdades individuais sejam comprometidos. Japão. Esse controle pressupõe que o exato cumprimento da lei é uma condição necessária para a correta aplicação dos recursos públicos. em vez de recomendações. no entanto. Nessas cortes. Conseqüentemente. legislativa ou jurídica. NO O CONTROLE EXTERNO NO MUNDO Muitos países atribuem os seus controles externos a órgãos singulares. As cortes surgiram com a preocupação do controle da legalidade da gestão financeira do setor público. formalmente. China. bem como responder publicamente pelos trabalhos realizados. Em outros países. desde a confecção das leis orçamentárias nos termos da LRF (artigo 4º). foi a primeira atribuição das cortes de contas. multa de 30% dos vencimentos anuais. não impede que os demais ministros requeiram trabalhos à área técnica da corte de contas da União. 11. Dessas relações surgem as funções que lhe são próprias. a presidência é ocupada pelos ministros segundo o sistema de rodízio. As primeiras predominam nos países de tradição anglo-saxônica. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . passando pela observação dos limites para contratação de pessoal. Portugal e Uruguai. até a publicação de todos os relatórios exigidos.responsabilidade dos Prefeitos e vereadores. que poderá variar entre 6 meses e 4 anos. A sanção penal. Israel. Esses órgãos são dirigidos por um auditor-geral ou controlador. 12. Espanha.

Já os débitos e multas imputados passaram a ter eficácia de títulos executivos. no Brasil. legitimidade e economicidade dos atos das administrações direta e indireta. como pode ser posterior (i. E. o controle prévio. Outras. F. b. p. permitindo a incorporação de técnicas de controle gerencial. ou seja. Em relação ao status jurídico e à efetividade de suas decisões. TCU. A utilização de especialistas e consultores externos para o planejamento de trabalhos mais complexos. 1999. então.O controle gerencial. d. B. bem como o exame da legalidade. O Presidente. defendendo tanto a própria administração pública. as tendências em favor do controle gerencial foram assimiladas pela Constituição Federal de 1988. 50 51 Predomina. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . O CONTROLE NO BRASIL O Estado submete-se. Essa modalidade de controle prioriza a análise dos atos administrativos em relação tanto aos seus custos. A divulgação das boas práticas administrativas. as suas decisões podem ser revistas pelo Poder Judiciário.. 2000. F. S.. possuem natureza jurisdicional. 1999. uma vez que prestam contas (cf. da eficácia e da efetividade das ações governamentais. 2000. 2000. 2000. 154 Professor: Raimundo N. TCU. as mais destacadas tendências internacionais na área de controle. c. Ademais. A crescente importância das auditorias de desempenho. o controle a posteriori). em nível macro. TCU. 1999. são (cf. também as receitas passaram a ser objeto de fiscalização. e. Algumas têm natureza administrativa. abrangendo questões acerca da eficiência. além das despesas. Adicionalmente. por sua vez. à ordem e à eficiência administrativas. sobre as ações do governo constantes do Orçamento Geral da União. 14): a. realizada pelo TCU em 1999 e 2000. como apurado pela pesquisa “Tendências de Controle da Gestão Pública”51. como os direitos e garantias coletivos. como aos resultados almejados e alcançados.e. TCU. TCU. pelos atos praticados na administração dos respectivos órgãos e entidades. as cortes de contas brasileiras tiveram as suas competências substancialmente ampliadas. b. H. Efetivamente. a fiscalização a posteriori de natureza administrativa. C. Ademais. Esses princípios criam mecanismos ou sistemas de controle das atividades estatais. é a principal marca das auditorias-gerais ou controladorias.: TCU. e TCU. no qual os atos sujeitos a controle podem ser vetados antes de serem efetivados).e. em nível micro. A ampla publicidade das ações de controle. Coerentemente com esses desdobramentos. G.50 A maior presença do Estado no campo econômico e a ampliação dos serviços públicos oferecidos à população levaram as cortes de contas a buscar formas de controle que ultrapassassem a mera verificação dos aspectos formais dos atos administrativos. B. 13. No caso do Brasil. e à eficácia dos seus atos. orçamentária. operacional e patrimonial. 1999. A. 6): a. TCU. p. as suas decisões são definitivas em relação ao seu objeto. porém. Os ordenadores de despesa. as Entidades Fiscalizadoras Superiores (EFS) diferem de país para país. TCU. Cf. passando a englobar a apreciação contábil. o controle externo das finanças públicas tanto pode ser anterior à realização da despesa (i. ou seja. impera uma relação de duplo grau de “accountability”. O monitoramento sistemático pelas EFS do cumprimento de suas decisões ou recomendações.

A lei definiu em primeiro lugar a universalidade do controle. Exercer o controle das operações de crédito. que introduziu as expressões controle interno e controle externo e definiu as competências para o exercício daquelas atividades. 74 da Constituição Federal de 1988. Controle particular A respeito do controle particular veio expresso.A Carta Magna prevê três tipos de controle: o particular. De certa forma. Até hoje não se tomou conhecimento de alguém que. esses sistemas fossem mantidos de forma integrada. sem ser detentor de mandato eletivo. pela vez primeira. o qual determina que os Poderes Executivo. realizado pelos próprios órgãos do aparelho estatal. Ao Poder Executivo incumbiu-se o controle interno. 13. evitando-se. além do controle meramente legal. No que toca particularmente à fiscalização e controle. sua abrangência sobre todos os atos da Administração. ou seja. O controle particular que torna acessível ao povo a possibilidade de denunciar irregularidades ou ilegalidades perante o Tribunal de Contas da União. O controle interno encontra fundamento no art. financeira e patrimonial dos órgãos e entidades da administração. 13. a Constituição de 1988 representou um avanço. sem exceção. O controle externo. b. 155 Professor: Raimundo N. destarte. juntamente com o do Poder Executivo. essa faculdade já estava implícita no consagrado direito de petição. partido político. De fato. enquanto o externo foi atribuído ao Poder Legislativo. que conta com o auxílio da corte de contas.2. fez o controle recair sobre cada agente da Administração. poderá introduzir as impugnações e sanções que a hipótese comportar. Apoiar o controle externo. 4. a. Avaliar o cumprimento de metas do plano plurianual e a execução dos orçamentos públicos. facultando a qualquer cidadão denunciar irregularidades ou ilegalidades perante as Cortes de Contas. de 17 de março de 1964. proceder a essas denúncias. realizado pelo Poder Legislativo. pensava-se em controle de resultados na Administração Pública. 74 da Constituição Federal. na forma da lei. A expressão “na forma da lei” não deve induzir a ninguém a idéia de que o preceito por ora é inócuo. A grande inovação apareceu ao estabelecer a verificação do cumprimento do programa de trabalho. S. que. associação ou sindicato é parte legítima para. Conforme o tipo de medida a ser impugnada. . d. individualmente. Em seguida. no exercício das suas atribuições. de forma integrada. o interno e o externo. Pela primeira vez. b. expresso em termos físico-financeiros. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças c.320. qualquer cidadão. sob os aspectos de eficiência e eficácia. sistema de controle interno com a finalidade de: a. já que a referida lei não se encontra ainda editada.1. Comprovar a legalidade e avaliar os resultados. c. desde que responsável por bens e valores públicos. pode tornar-se mais conveniente e mais prático a simples denúncia ao Tribunal de Contas. O Controle interno A história do controle interno na Administração Pública Federal tem seu marco inicial na Lei nº. em virtude da criação de sistemas de controle interno nos Poderes Legislativo e Judiciário e da determinação de que. o caminho mais tortuoso de uma ação popular. já tivesse exercitado essa prerrogativa. É mais um instrumento colocado no arsenal dos direitos políticos do cidadão. da gestão orçamentária. no § 2º do art. Legislativo e Judiciário devem manter. O controle interno. quer se trate da receita quer da despesa.

3. administração. deixando de detectar as irregularidades praticadas a tempo de viabilizar a reposição dos danos causados ao erário público. cuja competência vem definida no art. 73). porém. como é de praxe. nem sempre atinge o resultado desejado. Até recentemente o sistema de controle interno era centralizado vinculado ao Ministério da Fazenda. essencial para o aprimoramento das práticas gerenciais. S. sem o desejável concurso público específico ou genérico. por sua vez. economicidade. 1989. apreciar as contas anuais do Presidente da República. É sabida a morosidade de atuação do Tribunal de Contas. para a Corregedoria-Geral da União. A regularidade dos gastos públicos e do emprego de bens. dentre outras atribuições. quer pela forma de investidura de seus membros. às atividades puramente coercitivas – não tão abrangentes e menos tempestivas em razão da busca da segurança jurídica. valores e dinheiros públicos. 156 Professor: Raimundo N. Entretanto.. quer pela morosidade de sua atuação.113.. 71 da Constituição Federal. 13. destinando-se a comprovar: a. Seu desempenho é passível de várias críticas. contabilidade. E. p. economia. que se assenta no princípio da hierarquia. Ao subordinar a função de controle ao trabalho de correição. A atuação do Tribunal de Contas. 602). finanças públicas etc. de 28 de março de 2002. É verdade que a questão da investidura dos Ministros do TCU sofreu um avanço na Constituição de 1988 (§§ 1º e 2º do art. Os parlamentares não são necessariamente versados em matérias de direito. alteraram este quadro profundamente: o primeiro decreto transferiu a Secretaria Federal de Controle Interno (SFC) para a estrutura da Casa Civil da Presidência da República. operacional e patrimonial quanto à legalidade. e 4. o último. realizar inspeções e auditorias nas unidades administrativas dos três Poderes. efetivamente. A fiel execução do orçamento. financeira. um controle político de legalidade contábil e financeira” (Meirelles. verifica-se que o Brasil se distanciou da experiência internacional. os serviços que lhes compete. A probidade dos atos da administração. quando não se produzem resultados satisfatórios. através de um critério que não elimina de todo o subjetivismo de quem os nomeia. os seus membros continuam sendo recrutados. Os Decretos da Presidência da República nº 4. O controle externo é “por excelência.O órgão central e os órgãos setoriais medem a eficiência do administrador e da organização que dirige com o sentido de saber se prestaram. c. quer pelo caráter não vinculativo de seus pareceres. Compete ao Tribunal de Contas. conforme artigos 70 a 73 da Constituição Federal. b. contribuindo para eliminar a elevada dose de suspeição que contaminava a legitimidade do julgamento das contas prestadas pelo governante. Ao proceder dessa forma. é por meio desses órgãos que se identificam as razões e procuram-se os meios para correção. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . aplicação das subvenções e renúncia de receitas. Esse controle abrange a fiscalização contábil. que eliminou o critério de livre indicação pelo Presidente da República. representar ao Poder competente sobre irregularidades ou abusos apurados etc.177. orçamentária. O controle interno. claudica sempre que as irregularidades tenham origem nos altos escalões governamentais. O Controle externo O controle externo é exercido pelo Congresso Nacional com o auxílio do Tribunal de Contas da União. de 5 de fevereiro de 2002. legitimidade. a contribuição do órgão de controle interno para o aprimoramento da administração pública pode estar sendo debilitada em decorrência da subordinação da atividade consultiva. pelo que. contam com o auxílio do TCU.

A rejeição de contas pelo Tribunal de Contas pode não implicar sua rejeição pelo Congresso Nacional. impunes sob todos os aspectos. também. Observa-se. por exemplo. que o controle externo ainda é realizado de modo parcial. Porém. possibilitando a sua sustação sempre que detectada qualquer irregularidade. propiciando a formação de um clima para implantação de um círculo vicioso. Diante da fragilidade técnica do Tribunal de Contas. a solução seria a de integrá-lo ao Poder Judiciário como uma Corte especializada. não só. ou seja. p. 76. tão somente. em sua maioria. 14. 71). no entanto. de forma monopolizada. verifica-se e registra-se. como das constituições estaduais e do Distrito Federal. obtido com a mobilização de imensos recursos materiais e pessoais. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . é preciso que sejam adotadas medidas para a sua plena execução. que estava na Constituição de 1946 (art. Assim. conhecimentos técnicos especializados. vencimentos e vantagens dos Ministros do Superior Tribunal de Justiça (§ 3º do art. existem contas de governantes da década de setenta que ainda não foram apreciadas. 77. mesmo aquela em que a Constituição confere eficácia de título executivo. aquele exercido no curso da realização da despesa. ÓRGÃOS DE CONTROLE NO BRASIL No Brasil. 73 da CF) os membros do TCU estão longe de exercer uma função judicante. uma irregularidade posterior de maior grandeza tem o condão de minimizar a anterior. segundo a máxima "o tempo apaga os vícios". financeira e orçamentária do capítulo sobre o Poder Legislativo tanto da Constituição Federal de 1988. a atuação do Tribunal está voltada para o controle posterior e assim mesmo com muito atraso. ampliou as funções desempenhadas pelas cortes de contas. e 6 tribunais de contas dos municípios. E isso porque a eficácia de suas decisões fica. Ocorre que. Outra ineficiência do TCU é a que diz respeito ao parecer meramente opinativo. à qual a Constituição confere eficácia de título executivo (§ 3º do art. o descontrole”. grande sensibilidade política. na dependência de atuação de outros órgãos do Executivo ou do Legislativo. o Tribunal de Contas tem o poder de proferir decisão imputando débito ou multa ao responsável pela ilegalidade de despesas ou irregularidade de contas. economicidade e razoabilidade aos de legalidade e regularidade. que detêm o poder decisório sobre a matéria. isto é. o pronunciamento de técnicos. se formos pesquisar o percentual de recuperação de despesas consideradas ilegais pelo TCU verificar-se-á que os malbaratadores de verbas públicas ficam. §§ 1º e 2º). ou de fazê-la cair no esquecimento. para tornar eficiente a atuação do Tribunal só restaria a otimização de seu controle concomitante. pode ser ignorado por leigos. Sua atuação serve. tomando-se o cuidado necessário na escolha do critério de sua composição por exigir. na maioria das vezes. 27 tribunais de contas dos estados. incluindo o Tribunal de Contas do Distrito Federal. mais os tribunais de contas específicos para as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário que. em tese. Os órgãos em questão constam da seção que trata da fiscalização contábil. Apesar de investidos das mesmas garantias. (Oliveira. Limita-se a julgar as contas e não as pessoas. impedimentos. Às vezes. sob pena de criar impasses político-institucionais a todo o momento. Com a eliminação do controle prévio. com ênfase nos aspectos formais de legalidade dos atos e de regularidade da despesa. acrescentando os critérios de legitimidade.) 157 Professor: Raimundo N. no estado de São Paulo. Embora atualmente. para dar embasamento aos processos de responsabilização a serem aplicados pelas instâncias próprias. como também. há o TCU. pois a sociedade não pode reconhecer a necessidade de um controle acerca do qual se tem idéia oposta. prerrogativas. tornava obrigatório o registro do contrato para ulterior realização da despesa. poderá invalidar qualquer decisão da Corte de Contas. o qual. Em nível estadual. S. A Constituição Federal. 1995. talvez. em particular. na maioria das vezes. “por omissão de fiscalização.Com o passar do tempo tudo cai no esquecimento. Assim.

oportunidade e justiça dos atos de gestão: O mérito administrativo. da conveniência. cuja missão é a de aferir a conformação do ato com a lei escrita. detectando desvios e anomalias em tempo compatível com a introdução oportuna dos aperfeiçoamentos e correções que se fizerem necessários. mesmo aqueles patrocinados pelo poder público. a começar pelo TCU. foge ao âmbito do Poder Judiciário. 14. prolongadas demonstrações de responsabilidade. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o sistema de fiscalização e controle externo está a cargo das cortes de contas. no mais das vezes. não seria permitido ao Poder Judiciário é o controle do mérito administrativo.2. 158 Professor: Raimundo N. o qual. o controle precisa atuar concomitantemente às diversas etapas do processo de produção. 14. pelo Legislativo e pelo próprio Judiciário. embora vinculados aos Poderes Legislativos municipais. estaduais. entendido como um insumo do processo de tomada de decisão. envolve riscos. distrital e federal. visando a defender os administrados e manter a administração dentro das normas legais vigentes. de um controle da legalidade dos atos administrativos. na sua falta. os registros de inoperância do controle atingem mais de perto essas instituições. associadas ou não a diagnósticos inconsistentes. deveria ser a exceção e não a regra. abrangendo o exame de sua conformidade com a legislação. é uma disfunção em termos da atuação esperada do controle. Esse entendimento pode ser assim resumido: a incompetência administrativa. relacionado a questões políticas e elementos técnicos. A sua principal função deve ser a busca de melhores resultados por parte das organizações que integra. ao despreparo dos agentes. O seu objeto são os atos administrativos praticados pelo Executivo.1.Como. todo empreendimento. bem como os elementos fáticos e princípios gerais que o legitimaram. A ocorrência de disfunções no desenrolar de quaisquer atividades é humana e inerente ao ato de fazer. em prol da segurança jurídica. A minimização dos efeitos nocivos das decisões que se mostrarem equivocadas exige a pronta ação do sistema de controle. Para poder contribuir de forma efetiva para o êxito dos empreendimentos. têm imposto seguidas restrições às competências dessas cortes. em tese. Na perspectiva do sistema de controle externo. não constitui ilicitude. S. Pelo contrário. nem todo ato de má gestão constitui um ato ilícito. o que. cioso das suas próprias prerrogativas. O alcance do controle judicial A administração pública também está sujeita ao controle judicial – distinto dos controles interno e externo. ou seja. Pronunciar-se após a consumação do dano. Muitas podem ser debitadas às falhas de planejamento. que constituem órgãos autônomos e de atuação independente. mas inerente ao estado de direito. O Controle externo como ferramenta de aprimoramento da Administração Pública O controle é parte integrante e essencial de qualquer processo de produção de bens e serviços. de natureza eminentemente jurídica. A aferição de responsabilidades. com os princípios gerais do Direito. ou. às dificuldades inesperadas de execução. no caso brasileiro. Trata-se. A questão da oportunidade é crucial: o controle somente pode ser caracterizado como tal quando contribui tempestivamente para a consecução dos objetivos da organização. Esse controle é exercido privativamente pelos órgãos do Poder Judiciário por meio da função jurisdicional. portanto. Afinal. que requer. mais esses órgãos têm-se exposto a contestações perante o Poder Judiciário. observa-se que quanto mais as cortes de contas. Atualmente. insistem na natureza jurisdicional de suas decisões. limitando-se a identificar os responsáveis.

compete ao controle promover a execução própria e. as últimas. paralelamente. ex. o controle. Considerando-se. desvios de recursos ou obtenções de vantagens indevidas – práticas ilícitas em prejuízo do interesse público. Em vez da falha eventual. S. o contexto no qual se insere o TCU não pode ser caracterizado como turbulento ou como sujeito a forte concorrência. enquanto o colegiado integrado pelos ministros continuaria exercendo a função acima citada. o Poder Judiciário e o Ministério Público). portanto. expectativas de maior transparência nos gastos e de melhor avaliação da gestão pública e pressões políticas em favor da mudança do modelo de controle externo). a unidade técnica adquiriria um mandato próprio para controlar o conjunto de atos de gestão.à subestimação dos obstáculos a serem transpostos ou mesmo à superveniência de eventos imprevisíveis e/ou incontornáveis. depara-se com disfunções que não se enquadram nas situações descritas acima. impõe-se um exame das potencialidades e limitações do TCU. ex. é primordial reforçar o papel dessas cortes como instrumentos de controle gerencial. Em relação ao ambiente externo. no contexto brasileiro. dando-lhe maior capacidade técnica e operacional. Efetivamente.3. As potencialidades e limitações do TCU Para que os rumos de uma organização sejam planejados estrategicamente. são analisadas à luz dos papéis apresentados. contudo. Esses casos extrapolam os limites da ação normal do controle. p. com ênfase nos aspectos formais. O acompanhamento físico da execução dos projetos públicos. quando possível. as ações de controle exibem inúmeras deficiências.. identificando-se oportunidades e ameaças. as mudanças por que tem passado a administração pública (p. Na prática. é limitado. Uma vez constatados. por vezes. superação das causas. pobres em evidências. Ao priorizar as exceções.. carentes de validação técnica específica. sendo primordial que as expectativas das partes 159 Professor: Raimundo N. acionar e cooperar com as instâncias competentes para a determinação das responsabilidades e para a instrução dos processos pertinentes. produzidos sob bases frágeis. desafios a serem enfrentados ou obstáculos a serem contornados.e. auxiliar daqueles que detém a competência e os meios para a investigação e a instrução dos processos criminais (i.. bem como estimulados a introduzir correções e aperfeiçoamentos voltados para a obtenção dos melhores resultados. Entende-se somente que. Não se trata de desvalorizar o papel da função judicante das cortes de contas. a interação com o ambiente externo é fundamental para que o TCU possa cumprir com eficácia a sua missão institucional. Já os trabalhos técnicos são. Para que a proposta acima possa ser mais bem compreendida. aumento na quantidade de concessões de serviços públicos. percebe-se que o TCU não está inteiramente seguro. 14. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . com freqüência. provocada pela imperícia. para que os primeiros fossem alertados e auxiliados na identificação e. os ambientes interno e externo devem ser analisados cuidadosamente. o controle deixa de ter como foco principal a melhoria dos métodos e processos administrativos. por sua vez. devendo dar respostas claras acerca da contribuição de suas ações para o bem-estar da coletividade. Nesse contexto. observam-se danos intencionais. Assim. A observação de disfunções deveria promover a interação entre gestores e controladores. a atuação do controle é essencialmente coadjuvante. na sua atuação rotineira. porém. O que não pode ocorrer é a substituição da premissa de que o controle é um instrumento gerencial por outra na qual o controle tem como finalidade apurar denúncias e crimes contra o patrimônio. Ainda assim. As primeiras representam vantagens a serem exploradas. atendo-se aos casos que demandassem pronunciamentos por maiorias qualificadas. As prestações de contas.

O processo decisório compartilhado. H.interessadas no controle externo. para que o desempenho do controle externo não continue sendo prejudicado: a. Planejamento estratégico pouco efetivo. c. f. principalmente do sistema de controle interno. As demandas por avaliações dos resultados das ações públicas. 2000. em a. o TCU entende que possui prerrogativas que podem auxiliar na melhora do desempenho do controle externo. A profusão normativa. d. 11):52 a. destacando-se (cf. a eficácia e a efetividade do controle externo. p. b. e. d. merecendo destaque (cf. As expectativas de que o TCU desenvolva ações que possam orientar e prevenir erros. 11): a. A inconstância na estrutura da administração pública. Ausência de critérios de seletividade na execução da atividade de controle. aspectos julgados positivos no presente contexto jurídico-administrativo brasileiro. d. Predomínio do controle reativo. O poder sancionador. Poder sancionador pouco reconhecido pela sociedade. b. 2000. b. O desgaste da imagem institucional. especialmente o Congresso Nacional e a sociedade civil. O poder normativo referente às matérias de sua competência. TCU. Reduzida especialização em áreas temáticas. H. Por seu turno. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o TCU também entende que deve estar atento a várias restrições. g. como as duas primeiras prerrogativas. como exposto adiante. formidáveis obstáculos ao desenvolvimento do controle de natureza gerencial. c. Por outro lado. ausência de indicadores de desempenho que favoreçam a tempestividade. a própria corte de contas da União reconhece que vários aspectos internos precisam ser aprimorados. 52 Naturalmente. p. Na já mencionada pesquisa conduzida pelo TCU. foram identificadas várias oportunidades para a atuação da corte de contas da União. e. Já no que se refere ao ambiente intra-institucional. S. 160 Professor: Raimundo N. e. A concorrência com o Ministério Público da União e com outras entidades de auditoria. A demanda superior à capacidade de atendimento. Reduzida cobertura de recursos fiscalizados. especial: A crescente demanda por serviços públicos. podem representar. A autonomia e independência institucionais. sejam identificadas corretamente. c. cuja prestação por empresas concessionárias requer acompanhamento. O assessoramento técnico ao Congresso Nacional. TCU. c. b.

h.

Política de recursos humanos e estrutura organizacional pouco flexíveis para atender às constantes mudanças do ambiente externo.

As limitações em questão estão particularmente presentes no modo como os recursos internos são alocados, na extensão dos ritos processuais e na generalização dos procedimentos recursais.

14.4.

Os Tribunais de Contas nos estados e nos municípios

Os Tribunais de Contas existem nos Estados e no Distrito Federal. O art. 75 da Constituição da República manda aplicar a estas Cortes de Contas as mesmas normas estabelecidas para o Tribunal de Contas da União. Dispõe o mencionado dispositivo, in verbis: “As normas estabelecidas nesta seção aplicam-se, no que couber, à organização, composição e fiscalização dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, bem como dos Tribunais e Conselhos de Contas dos Municípios.” São idênticas, pois, a organização, a composição e a fiscalização dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal de um lado, e o Tribunal de Contas da União, de outro. As Constituições estaduais dispõem sobre os Tribunais de Contas respectivos, que serão integrados por sete conselheiros. Há que se consignar, entretanto, uma diferença no Tribunal de Contas da União, que tem nove ministros. A situação é um tanto mais confusa com relação a estas Cortes no campo municipal. A sua disciplina vem prevista no art. 31, § 40, que dispõe no sentido de ser proibida a criação de Tribunais, Conselhos ou Órgãos de Contas Municipais. Acontece, entretanto, que o caput do art. 75 faz referência a Tribunais e Conselhos de Contas dos Municípios. Na verdade, o art. 31, § 1°, também se refere a Tribunal de Contas do Município, assim como aos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios, acrescentada a cláusula onde houver. Consagrou-se, pois, a situação estabelecida, é dizer, onde eles já existem são mantidos e constitucionalizados; onde eles não existem, não podem ser criados. Há, portanto, Estados que têm um Tribunal de Contas com o nome de Conselho de Contas Municipais, voltado, exclusivamente, à fiscalização dos Municípios. Esses Conselhos são, pois, mantidos. De outra parte, há apenas dois Municípios (o de São Paulo e o do Rio de Janeiro) que têm tribunais de Contas próprios, é dizer, municipais. Ficam também mantidos e constitucionalizados em consonância com o disposto no caput do art. 75 da Lei Maior.

161
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

XI CAPITULO XIV – DÍVIDA PÚBLICA 1. DÍVIDA PÚBLICA
Das operações de crédito, em que o Poder Público figura como tomador do dinheiro, acaba por resultar uma dívida pública. Esta é, portanto, uma decorrência das operações creditícias. Daí que seus problemas, sua natureza, suas classificações apresentam, logicamente, estreita relação com o estudo do próprio empréstimo público. O fato de o Estado ser responsável por débitos, muitas vezes avolumados, gera problemas com repercussão na ordem econômica, financeira, política, quer se trate de uma dívida interna, quer externa. Já foi visto como o Estado nas operações de crédito interno dispõe de instrumentos que não lhe são acessíveis no mercado externo. Do ponto de vista da administração destas dívidas, as mesmas diferenças se colocam. Conviria recordá-las, pois, aqui, na boca do grande mestre (Las finanças públicas, que é José Joaquim Teixeira Ribeiro: “Ora, tem muita importância ser interna ou externa a dívida dum país. Desde logo, porque não é igual o ônus que uma e outra acarretam, como ver-se-á a seguir. E, depois, porque há mais diferenças. Enquanto os encargos da dívida interna são geralmente satisfeitos em moeda nacional, os encargos da dívida externa são satisfeitos, ou em ouro, ou em moeda que goze de confiança internacional, e que por não ser, e quase sempre não é, a moeda do país devedor. Compreende-se: os credores estrangeiros querem premunir-se contra as variações desfavoráveis dos câmbios e, portanto, exigem o pagamento dos juros e a amortização ou reembolso em moeda que lhes mereça confiança. Daí resultam estas conseqüências: I. A dívida externa não assegura ao Estado devedor o benefício da desvalorização da moeda, ou pelo menos não lho assegura no mesmo grau que se se tratasse de dívida interna sem garantia contra a desvalorização; A dívida externa, ao contrário do que sucede com a dívida interna, pode provocar ou agravar o déficit da balança de pagamentos, colocando eventualmente o país devedor em situação difícil para solver os seus compromissos internacionais.

II.

Outra diferença é esta de ordem política: sendo interna a dívida, o Estado deve, na generalidade dos casos, aos seus cidadãos; mas, sendo externa, o Estado deve a cidadãos de outros países. Ora, o Estado goza de soberania perante aqueles, e não perante estes. E estes — os credores estrangeiros —muitas vezes associam-se, constituindo grupos, que têm força, e, ainda quando não se associam, os seus interesses são defendi dos pelos Governos dos respectivos países. Daí que, através dos empréstimos externos, se possa exercer pressão sobre os Estados devedores; daí que, também os Estados devedores se vejam freqüentemente inibidos de efetuar, em relação aos empréstimos externos, certas operações que às vezes realizam, sendo internos: nomeadamente, a redução forçada do capital ou do juro.” Outra classificação da dívida de aceitação bastante generalizada é a de considerá-la ou dívida fundada ou flutuante. A dívida fundada é a resultante dos empréstimos temporários a médio e em longo prazo, compreendidos também os empréstimos perpétuos. O termo “fundada” decorre de uma circunstância histórica. Na Inglaterra, outrora, quando se emitiam empréstimos desta natureza, simultaneamente era instituído um fundo para fazer face aos ônus advindos da operação: aí compreendidos os juros e o resgate do principal. Quando a dívida fundada provém de empréstimos perpétuos, recebe o nome de dívida consolidada. Dívida flutuante é a decorrente dos empréstimos em curto prazo. De fato, o tesouro pode sentir necessidade, e isso se dá muito freqüentemente, de fazer corresponder os ingressos públicos ao momento em que deverá ocorrer a despesa. Acontece, entretanto, que isto nem sempre possível, 162
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

porque o sistema arrecadador tem a sua cronologia própria, que não corresponde, necessariamente, àquela do desembolso. A diferença pode ser pequena, dois, três meses, mas, para que não ocorra a insolvência do Poder Público, cumpre antecipar as receitas, e isto é feito por intermédio dessas operações creditícias que dão lugar à chamada dívida flutuante. Ela flutua no sentido de que oscila muito rapidamente. Normalmente exige-se que a operação transcorra dentro do exercício financeiro, de modo a não haver saldo devedor a ser transferido para exercícios futuros. E uma dívida, portanto, precaríssima e que contabilmente está lastreada na previsão existente da arrecadação. Pode dar lugar à emissão de títulos representativos desse débito, por vezes chamados bilhetes do tesouro, como pode ser lastreada em abertura de crédito em conta corrente levada a efeito por instituições financeiras.

1.1.

Formas de extinção da dívida pública

Sendo a dívida pública, hoje, fundamentalmente composta de obrigações a prazo e nãoperpétuas, cumpre estudarem-se as formas pelas quais pode dar-se a satisfação do credor ou a extinção do débito. a. Amortização

A primeira delas é a mais natural, por ser a forma mais consentânea com a natureza do vínculo obrigacional. É o pagamento na data do vencimento. Dá-se a esta operação o nome de “amortização”, que significa a diminuição do principal da dívida pública no montante reembolsado ao credor. Mas nem sempre o Poder Público tem condições ou vê interesse no resgate da dívida em dinheiro. Pode, então, o Poder Público valer-se de uma alteração da dívida, de sorte a alterar-lhe o conteúdo, principalmente no que diz respeito ao prazo de vencimento. E importante notar que essas alterações hão de dar-se enquanto estiver vigente o empréstimo público. b. Conversão Conversão

A essa modalidade dá-se o nome de “conversão da dívida”. Pode ser voluntária — quando os novos termos contratuais são atingidos mediante o respeito à vontade dos credores, que, se recusarem os termos da proposta, poderão permanecer na situação em que se encontravam. Forçada — quando o Estado se vale de sua prerrogativa de, por meio de lei, alterar a relação de mútuo. Neste caso, não se toma em consideração a possível recusa dos prestamistas; daí o seu elo compulsório ou, como se disse, forçado. E, finalmente, pode ser facultativa. Esta se dá quando se coloca o credor diante da possibilidade de optar pelo recebimento do seu crédito ao par, isto é, pelo valor nominal, ou, então, preferir receber, em troca dos títulos que possua, outros, submetidos a cláusulas também novas e diversas. A questão que pode ser posta é de saber-se até que ponto o Estado pode exercer este poder de conversão no sentido de criar situações mais gravosas para o prestamista. A resposta é muito fácil no caso da conversão voluntária. Ela é sempre válida e legítima, visto que resulta do acordo livre das partes. No que diz respeito à conversão forçada, a matéria é bem mais intrincada. Não é possível uma resposta generalizadora Será sempre necessário examinar-se o alcance das alterações introduzidas e a virtualidade que elas tenham de lesar o patrimônio do subscritor dos títulos públicos. Se se tratar de diminuição dos juros ou do capital, torna-se isso impossível, por configurar-se autêntico confisco, lesando o princípio da propriedade (art. 50, XXII, da CF 88). Entretanto, pode-se imaginar hipótese em que a alteração não respeite à expressão econômica do crédito, mas procure, tão-somente, urna dilação de prazo por motivos de interesse coletivo plenamente configurado. Ressalvado, pois, o direito à indenização, quer-nos parecer que deva prevalecer aqui a regra do predomínio do interesse público sobre o individual. Aquele que empresta ao Poder Público o faz sabedor da existência de certas garantias, como, por exemplo, a 163
Professor: Raimundo N. S. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças

ainda quando sejam confrontadas com as pequenas receitas do fim do Império.se. se preferirmos a auto-desoneração das obrigações decorrentes de um empréstimo. No campo externo. Repúdio Dentro de uma ordem jurídica em funcionamento regular é inadmissível o repúdio da dívida. cujo resgate só é retornado após a celebração de um terceiro funding-loan. c. Foi o que se deu com o acesso ao Poder pelo governo soviético. haveria. Baleeiro oferece o número dezesseis para quantificar os empréstimos externos celebrados até o fim do Império. é firmado em Londres o primeiro contrato de nossa dívida externa. é fácil imaginar-se que dificuldades muito sérias iriam surgir no balanço de pagamento da União. o repúdio foi invocado por governos revolucionários que não se consideravam sucessores dos governos anteriores. Segundo eles.12. A Segunda Guerra Mundial vai favorecer o Brasil do ponto de vista das suas finanças internacionais. Entende-se por repúdio a rejeição ou. é extremamente útil para fazer-se um juízo valorativo da situação: “Estas cifras. Sousa Franco observa muito bem tratar-se de uma declaração política ou administrativa. hoje. no passado. entretanto. Tudo isso faz com que haja necessidade de recorrer-se ao funding-loan. expõe a situação financeira do país. olhadas. não podia o Brasil atuar soberanamente no campo internacional.” A situação não melhora com a República. pelo confronto de opiniões de que dá conta. Rui Barbosa.419. S. Entre outras razões. por razões de conveniência ou de validade jurídica.se. Alarmou-se. Note. a extinção de um Estado com a criação de outro. serenamente.072. agrava. Pelo contrário. cujo racionamento acaba por se impor — gasolina. ministro da Fazenda do Governo Provisório.1889 alcançou o total de 583. Quando se leva em conta a posição do comércio externo. Não pode ser jurisdicional porque. Um milhão de contos parecia algo esmagador. De outra parte crescem as exportações. até pelo estímulo 164 Professor: Raimundo N. mas um governo proletário nunca podia suceder a um governo burguês. não poderá desconhecer que os Poderes Públicos têm privilégios e prerrogativas que visam o melhor asseguramento dos interesses da comunidade. altamente baseado na exportação de produtos de caráter colonial. na condição de Colônia. o que faz com que o País seja forçado a deixar de recorrer ao mercado externo. haveria uma anulação e não um repúdio. Tornado independente o Brasil. Após a Revolução de 1930 ocorre até mesmo a suspensão do pagamento da dívida externa. 2. Já nos séculos XVI e XVII registram-se casos de empréstimos celebrados por governadores e vereanças da Colônia. A destinação do dinheiro obtido era voltada ao financiamento de guerras. Segue-se um período de abalo do crédito brasileiro.impossibilidade de falência do Poder Público. nesta hipótese. repressão a revoluções. parecem modestas. quando. por outro lado. A dívida externa andava por volta de £30.500 que. — fundada e flutuante. todavia. porque os Estados e alguns Municípios também se envolvem no processo de endividamento. visto que. A dívida interna em 31. em condições extremamente onerosas para o nosso país. já em 1824. Os benefícios para o País são manifestos. A DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA O hábito de contrair empréstimos é contemporâneo ao nascimento do próprio País. O seguinte trecho da obra de Baleeiro. um mês e meio após a inauguração do novo regime. para quem os governos burgueses poderiam suceder-se entre si.138 $. mas. O esforço de guerra dos países beligerantes impede a importação de muitos produtos. Lopez. que no rigor técnico da palavra não se podia falar numa dívida pública própria do País. — totalizava 1. somada à interna. como as de Rosas. Durante o século XIX as operações vão suceder-se a cada aperto do tesouro. trigo etc.535. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . crises e déficits crônicos.122. muito sensíveis a oscilações de preços. na verdade.700$ (cinco vezes a receita daquele ano).

ambas as medidas com vistas à adoção. S. De qualquer sorte. Em primeiro lugar. para os países endividados. todavia. cujas linhas mestras são as seguintes. também. Por outro lado. O País vê-se forçado a ingressar no processo de endividamento exacerbado a partir da Revolução de 1964. De outra parte. Observe-se. e os altos preços do petróleo foram. o que fez desencadear o Plano Brady. isto é. que não obstante o fato de alguns desses ambiciosos objetivos terem conseguido algum tipo de implementação — mercê tanto de esforços dos países devedores quanto da formulação de propostas de caráter econômico por parte dos países credores —. As conseqüências críticas da situação vão-se fazer sentir na década de 1980. É certo que ele não teve até o momento uma execução continuada que lhe permitisse alcançar volumes substanciais da dívida. surgem planos propostos por autoridades ou organismos com papel estratégico no processo de endividamento. a decretação da moratória. assim como a redução da inflação. em que dois fenômenos salientes merecem registro. As crises do petróleo da década de 1970 vão levar ao paradoxismo este processo. no ano de 1985. uma atuação continuada do Fundo Monetário Internacional — FMI. financiadas por instituições internacionais de caráter financeiro com a finalidade de promover o crescimento e o ajuste da balança de pagamentos. o precioso patrimônio em moeda estrangeira. a exaustão financeira do Estado. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Medida de grande controvérsia na história do endividamento brasileiro foi. a partir de certo momento. Em segundo lugar. assim como a elevação da taxa de juros. de medidas de grande alcance estrutural e macroeconômico.que causam ao desenvolvimento do nosso incipiente parque industrial. em conjugação com a oferta de créditos mais seletivos pelas instituições de desenvolvimento de caráter multilateral. A situação não foi diferente quanto ao relacionamento entre o Brasil e o FMI. quer vigorante por mera força da suspensão dos pagamentos. No caso brasileiro. a situação da maior parte dos países devedores continuou a agravar-se. esse agravamento deu origem a uma série de mudanças na política econômica governamental pela adoção tanto de medidas específicas quanto de diretrizes básicas. como forma de compensar as suas dificuldades advindas da mesma escassez. De um lado. quer formalmente declarada. que o leva a situações de moratória. Os dois planos que ganharam mais repercussão são os provindos da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos e que ganharam o nome dos seus respectivos ocupantes à época da edição. A verdade é que o País sai do conflito com uma folgada posição financeira da qual o governo do General Eurico Gaspar Dutra não vai tirar o proveito que era de se esperar para o desenvolvimento do País. não há como negar. a adoção. Malbaratam-se divisas com importações de produtos supérfluos. A primeira mudança refere-se ao relacionamento entre o País e seus maiores credores. fato novo desde há muitos anos para cá. cuja falta logo se fez sentir. nasce o Plano Backer. já que foi observado mercê da sua implementação um decréscimo do principal da dívida. um duro golpe. que. em Seul.se o seu sucesso. portanto. pelos principais países devedores. é adotada pelos países credores. no fundo. verificando-se momentos de grande desarmonia até um quase total acordo. os bancos comerciais privados. em terceiro lugar. E. Nesse exame no conjunto das medidas adotadas não pode deixar de ser mencionada a chamada securitização da dívida. que escolheu um modelo desenvolvimentista fortemente alicerçado na obtenção de empréstimos externos. teve grande repercussão o bem-sucedido programa de conversão da dívida em capital de risco. no qual os posicionamentos variaram desde um potencial rompimento até um “estudo de acordos”. em fevereiro de 1987. “Por securitização entende-se o processo de troca de títulos 165 Professor: Raimundo N. sem se deixar de referir a uma tímida flexibilização do lado de alguns bancos privados. de políticas orientadas para um mercado em desenvolvimento. pelos principais países devedores. Assim. dilapidando. um aumento dos empréstimos pelos bancos privados em apoio aos programas de ajuste. A necessidade de adquirir um produto com preço muitas vezes superior ao vigente antes da crise.

1. o que significa dizer que o endividamento não pode seguir uma espiral crescente com um ponto no infinito. mas o fato de ter sido retomada no plano posterior dá mostras de sua consistência. Isto colocaria problemas que afetariam a própria soberania nacional quando da dívida externa se tratasse. S. E finalmente. Esse processo é viabilizado — via de regra — pelo oferecimento de garantias aos compradores de títulos novos”. A primeira delas consiste numa incitação à reversão da tendência de fuga do capital dos países devedores. a taxas fixas. para o que esses países deverão tomar medidas adequadas. concluiu em abril de 1994 um acordo de redução da dívida externa segundo as regras do Plano Brady. a saber: Orientar as instituições financeiras internacionais — através de um trabalho de assessoramento e apoio — no sentido da viabilização de financiamentos novos. Transcrevamos um trecho do plano: Em primeiro lugar. não seria o caso aqui de discutir as vantagens e desvantagens do endividamento público. 2. Basta tão-somente ter-se em conta que é ele um processo que tem limites. Foi sob tal inspiração que o Brasil. basicamente. Não que ela tenha até o momento tido alcance prático. que incluam maiores esforços na busca da redução tanto da dívida quanto do serviço da dívida. Quando completado. assim como poderia impor aos habitantes de um país sérios gravames afetando ônus e prerrogativas para os diversos membros da coletividade. O acordo de renegociação da dívida externa com os bancos Privados consistiu. com vencimento final no ano 2024. dizendo ter a convicção de que o Brasil aceitava ali o caminho do futuro. visto que o anterior contemplava tão-somente um refinanciamento da dívida com um aumento efetivo de seu principal. inclusive. Regime constitucional da dívida pública brasileira É de reconhecer-se que a Constituição de 1988 confere um tratamento razoavelmente adequado à questão da dívida pública. Dá-se o nome de “Plano Brady” ao pronunciamento feito pelo Secretário do Tesouro dos Estados Unidos acerca da política do Presidente George Bush para a questão da dívida externa do Terceiro Mundo. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de molde. o acordo deverá reduzir em cerca de US$ 7 bilhões a conta de US$ 35 bilhões de débitos renegociados e estenderá os pagamentos de juros e do principal da dívida restante ao longo dos próximos 30 anos. a pôr em risco a própria coesão social. a fim de oferecer uma variedade mais ampla de opções para o apoio financeiro. O ministro da Fazenda de então ressaltou a importância histórica do ato. e no sentido de proporcionar novos empréstimos. De fato. A segunda traduziu-se numa proposta da redução da dívida.representativos da dívida por novos títulos com um menor valor de face. Isso requer uma ressonante política de crescimento que fomente a confiança nos investidores. as nações devedoras devem concentrar sua particular atenção na adoção de políticas que fomentem novos fluxos de investimentos. e Apoiar e incentivar os esforços dos bancos comerciais e países credores no sentido de redução do principal e do serviço da dívida. na substituição dos títulos antigos por novos. na securitização da dívida. Três são as principais propostas embutidas no plano. nestes termos: É preciso que os bancos comerciais trabalhem juntamente com as nações devedoras. fortaleçam a economia doméstica e promovam o repatriamento do capital em fuga. Chegou a dirigir-se especialmente aos bancos credores. o Secretário Brady tratou de traçar as tarefas que incumbiriam tanto ao FMI quanto ao Banco Mundial. ponto no qual realmente foi o Plano Brady bastante inovador. Não se pode ainda esquecer o problema 166 Professor: Raimundo N. último dos grandes devedores a regularizar suas relações com os bancos. tanto domésticos quanto estrangeiros. ou seja.

163. assim como a emissão e resgate de títulos da dívida pública (art. dos Estados. 167 Professor: Raimundo N. que diz caber ao Senado dispor sobre limites e condições para a concessão de garantia da União em operações de crédito externo e interno.05. a Constituição da República retoma o tema para deixar certo que a dívida pública externa e interna. de suas autarquias e demais entidades controladas pelo Poder Público federal. do Distrito Federal ou dos Municípios (art. Diante de tudo isso é natural que o Texto Constitucional tenha procurado traçar um balizamento desse processo. 52. LC no 101. entretanto. Ademais. no capítulo referente às finanças públicas. fundações e demais entidades controladas pelo Poder Público. quase que redundantes. Qualquer uma dessas pessoas de direito público pode celebrar um contrato de empréstimo pinto às praças financeiras internacionais. do Distrito Federal e dos Municípios. De outra parte. será objeto de lei complementar (atualmente. Esta deverá também disciplinar a concessão de garantias pelas entidades públicas. no entanto. § 1°. fica para ser resgatada pelas posteriores. quer sejam de interesse da União. direta ou indiretamente. Ocorre. o § 2° do mesmo artigo permite o exercício pelo Banco Central da tarefa de aumentar ou diminuir a liquidez do sistema financeiro mediante a compra e venda de títulos de emissão do Tesouro Nacional. V). Note-se. desde os econômico-financeiros até os políticoadministrativos. dos Estados. 164. O inciso VII do mesmo artigo reforça as limitações a que estão sujeitas essas pessoas pela previsão que faz da competência do Senado para fixar limites globais e condições para as operações de crédito externo e interno da União. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . o art. dos Estados. que não basta a iniciativa do Executivo. vêm prever a possibilidade de fixação de limites globais tanto para o montante da dívida consolidada da União.consistente no gasto feito por uma geração cuja conta. S. Os incisos VI e IX. O conferimento pela União de avales sofre as restrições do inciso VIII. como também para o montante da própria dívida mobiliária dos Estados. empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer órgão ou entidade que não seja instituição financeira. que seria aquele resultante não da contração de um débito. Dependem de autorização do Senado as operações externas de natureza financeira. incluída a das autarquias.2000). do Distrito Federal e dos Municípios. veda ao Banco Central conceder. de 04. lhe IV). do Distrito Federal e dos Municípios. também encontra vedação expressa na Lei Maior. cujas regras principais serão a seguir abordadas. que obviamente levará em conta aspectos de toda ordem. Mais adiante. ainda. que o endividamento indireto. mas da outorga de uma garantia. É necessário que ela seja precedida de uma autorização expedida pelo Senado.

sem dúvida. Nem mesmo se nega que alguns dos países que abandonaram o comunismo ainda guardam estruturas estatizantes e socializantes em grande escala. e o dos países socialistas. o exemplo da guerra entre Sérvios e Croatas. é. políticas. Ideologia esta. raciais. sob o comunismo. não são novas. pela imensidão das suas proporções. Não há dúvida de que os dois movimentos revolucionários ocorridos na Rússia em 1917. Embora a sua intolerância seja antiga. aliás. atingiu o seu apogeu no século XIX. Há. a nosso ver. muito embora não possa ser tido como o único a desencadear a crise. Essa trilogia aplicada a ambos os países fez com que houvesse um surto econômico o que. o liberalismo. como vimos. sobretudo na condição de uma ideologia basicamente da Europa e dos Estados Unidos. Ambos sufocaram as respectivas economias levando-as à recessão. lingüísticas. Nessas condições. mas mesmo assim não podemos dizer que o mundo tenha vivido sob uma ideologia global. que tinha como meta final a desintegração total do mundo capitalista. no início dos anos 80.. b) uma redução de tributos. Sem dúvida. ousaria dizer que o capitalismo venceria o comunismo sem o derramamento de sangue. o capitalismo saiu vencedor a ponto de se impor hoje como a única fórmula de organizarem-se economias de forma produtiva e.CAPITULO CAPITULO XV – GLOBALIZAÇÃO 1. marcando até hoje os nossos dias. A União Soviética. A bipolaridade funcionava como uma tampa de pressão que sufocava essas diversidades que. contudo. Contudo. contrastava com o marasmo e a estagnação dos demais países. O liberalismo vingou. e. consciente do fenômeno e não desejando se retardar no processo de desenvolvimento tecnológico. De outra parte. restava pouco campo para deflagrarem-se litígios sem com isto correr-se o risco de estar-se envolvendo numa conflagração mundial. Contudo. também não se pode deixar de ver o outro lado da questão. A eliminação da bipolaridade até então existente foi um dos fatores determinantes para as explosões sociais. de resto. religiosas etc. que foi distorcida em muitos lugares sem que 168 Professor: Raimundo N. E nada de político acontecia no mundo que não passasse imediatamente pelo crivo desse sistema bipolar. tudo acompanhado de uma menor tributação. vivessem no mesmo Estado pluriracial. o esboroamento do império soviético. Tudo isto. foi que essas desavenças ficaram contidas diante da disputa maior e mais abrangente que mobilizava o mundo. De fato. a contradição existente entre o capitalismo e o movimento socialista. na segunda. e em 1989. contudo. na sua vertente econômica. simultaneamente de manter-se a democracia. Esses dois Países buscaram: a) uma menor prestação do Estado no tocante a) serviço social. e é óbvio que. Cuba continua socialista. (Estados Unidos e GrãBretanha) pois conseguiram colocar fim às astronômicas contas sociais dos seus respectivos países. à leste. o seu elemento deflagrador ou catalisador. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . que consiste em encararmos o planeta Terra unido por um sistema econômico unificado no seu fundamental. estava a criar as primeiras bases para o tipo de sociedade que foi atingida no século XX. qual seja. foram tão graves que eles acabaram por demarcar um período da história. isto não impediu. A sua inserção no COMECON tirava a possibilidade de abrirem-se guerras civis. preferiu abandonar o regime comunista a ver-se definitivamente banida das potências mundiais. e) uma maior produtividade. ganhou também sensível terreno. na primeira vez. na verdade. que ganhou o nome “bipolar”: o dos países capitalistas. obrigou a que ambas as potências líderes (EUA e URSS) acumulassem vastíssimos arsenais atômicos. O capitalismo surgiu gradativamente e. um fator histórico que. S. O que aconteceu. de resto. Portanto. sem dúvida. um dos dois sistemas haveria de ceder. dois países provaram o contrário. Podemos tomar entre outros. à oeste. como se sabe. A GLOBALIZAÇÃO Não se pode negar que muitas razões colaboram para a eclosão do movimento da globalização. Ninguém. que. que se seguiram. tudo que no passado foi feito para diminuir a distância existente entre os homens acaba por parecer pouca coisa diante do que foi feito nas duas últimas décadas por força da aproximação resultante das comunicações (internet) e do intenso comércio. Não que não remanesça ainda um ou outro país marxista.

minas. Mas. na sua vertente privatizante. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . que desenvolverão uma economia a nível internacional. Na verdade. Na realidade. O que já agora é um absoluto “non sense”. integrações econômicas e financeiras que também são formas de mútua ajuda. isto já ocorria antes mesmo da queda do império soviético. geográficas. Tudo o que pode ser feito por um grupo pequeno de homens. Não se imagina nos dias de hoje nenhuma reversão. Estamos a assistir no início do século XXI a uma gradativa implantação de organizações que desempenham um papel que. embora o Estado tenha um papel a cumprir no sentido de manter os mercados fora das práticas que os viciam. bem como a inexistência de organismos internacionais na época davam ao Estado este papel formal de ser a fonte mais alta geradora do direito. Então. o comunismo. consistente na diminuição ou na distensão ou ainda na desagregação relativa ao poder soberano do Estado.se tivesse atinado para o fato de que era. portanto. no Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras entidades “transcendentais” a que todo o país deve estar ligado sob pena de desvincular-se e de ficar alheio por completo ao mundo. difundindo-se pelo resto do mundo e produzindo inclusive ressonâncias na América Latina. Estas realidades passam doravante a constar do dia a dia dos povos e é muito difícil insurgir-se contra elas. não se pode negar o caráter dominante do mercado como fator de regulação da economia. trata-se de verdades que vieram com o ar de que vão ficar. serviços públicos. ou qualquer forma que exclua as práticas democráticas do liberalismo no que concerne à política e à economia. Não. Muitas áreas de atuação dos países — retome-se o exemplo da aeronáutica civil . Mas isto leva a um entrelaçamento também fortíssimo da sociedade planetária e que. custeados e explorados pelo Estado. Afloraram. Eis que são fatos e não interpretações de fatos.não seriam possíveis de serem realizadas a partir de atividades isoladas dos Estados. sobretudo na Europa. Este é que traça o elo entre essas realidades. Este foi criado por razões políticas para resolver os problemas coletivos e não para administrar a economia. Ásia e América do Norte. É bem de ver-se que esta área necessitaria sempre de uma organização mundial que coordenasse esse transporte. Um Estado sempre teve que limitar-se a situações políticas. verificam-se diversos fenômenos tais como a reconstitucionalização e a liberalização. Dessa forma. por exemplo. sem dúvida. o mundo estará racionalmente melhor organizado na medida em que os bens provierem de regiões específicas onde eles são mais adequadamente produzidos. Acontece que o ente estatal sempre se mostrou um mau administrador’ 00. na verdade. O processo de globalização interfere diretamente nas finanças públicas de cada Estado na 169 Professor: Raimundo N. na verdade. S. Com a queda do império soviético. vai influir na órbita jurídica. funciona melhor do que uma máquina formada de homens que trabalham para uma abstração que é o Estado. E isto não é tão difícil de se antever. nunca existiu. a sua não-vinculação direta a tratados internacionais. trabalhando na defesa dos seus interesses e com repercussão nos interesses coletivos. que concebia projetos de desenvolvimentos nacionais. numa economia que havia sido estatizada. um mercantilismo promovido pelos Estados para levar adiante o ideal capitalista. Muitos países investiram grandes somas em indústrias. — daí a globalização —. se por hora ainda não é transcendental. Isto porque há algo novo no ar: a intervenção do fator globalização. temos como prognóstico desse mundo do futuro a realidade de uma economia que terá fundamentalmente essa característica: a de estar entregue a grupos de pessoas privadas. Da mesma maneira que o liberalismo econômico demonstrou que é melhor um país concentrar-se na produção daquilo de que tem melhores recursos e produtividade e relegar à importação daquilo de que necessita. Há que se falar também na Organização Mundial do Comércio (OMC). Temos. Estes fenômenos descritos não se circunscrevem a cantões específicos do mundo ou a certas paragens recônditas da terra. Não se cogita em centros sérios de estudo qualquer retorno a ideologias superadas como o nazismo. pelo menos. O projeto de ser auto-suficiente em tudo é uma absoluta utopia. A soberania absoluta. econômicas que sua realidade impunha. No Brasil. e com uma eficiência e uma produtividade até hoje não vistas no mundo. pelo menos nota-se uma predisposição significativa para chegar à administração do mundo.

de um momento para o outro. pela informática e pelo comércio e pela necessidade de se darem soluções unitárias para problemas globais. em diversos quadrantes do mundo. Infelizmente. o século XXI deverá ser marcado pela intensificação dessas características. Portanto. contornar o mais rápido possível essas manifestações de ódio. continua a existir rivalidade entre os povos em virtude de diferenças étnicas e religiosas. como o FMI. Urge. Acreditamos que chegará um momento em que. ainda assim. por colocar um fim nas diferenças que ainda separam os homens pelo rancor e pela violência. a essa explosão de ódios. levando-os a debaterem-se em cruentas guerras civis. portanto. empurrados pelo cansaço de longas disputas dissonantes no mundo em que se viver. a proximidade obtida pela informação não acabará. como vimos. lingüísticas e religiosas que realmente são um paradoxo para um mundo assim já tão unido. tendo em vista o propósito de pacificação contido no processo de globalização. concedam empréstimos aos países em desenvolvimento. 170 Professor: Raimundo N. as distinções surgidas pelo desafogo das asfixias da bipolaridade deram lugar. De outra parte.medida em que instituições. bem como fixam diretrizes a serem seguidas pelos mesmos. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . de diferenças étnicas. Haverá uma aproximação maior entre os povos. esses grupos perceberão que têm de chegar a uma pacificação. sobretudo. no que tange às finanças públicas. Nada obstante tenha se incrementado e muito o caminho para a globalização. S.

REZENDE. 2006. de 2008. Editora Saraiva. Celso Ribeiro. atualizada e ampliada. MANUAL DE RECEITA E DESPESA NACIONAL aplicado à União. São Paulo: Celso Ribeiro Bastos Editor. ao Distrito Federal e aos Municípios a partir da elaboração e execução da lei orçamentária de 2009. 2004. BASTOS. Finanças Públicas. ampliada e atualizada. João. S. 9ª edição. Bertolesa Curso: Direito Disciplina: Ciência das Finanças . Portaria Conjunta STN/SOF nº 3. 1ª Edição 171 Professor: Raimundo N. 2ª edição: Atlas. aos Estados. 2006. Fernando Antônio. 8ª edição: Atlas. Curso de Direito Financeiro e Tributário.BIBLIOGRAFIA ANGÉLICO. MANUAL DE ECONOMIA elaborado pelos Professores do Departamento de Economia e Administração da USP. 4ª edição. Contabilidade Pública. 2002.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful