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COERÊNCIA E COESÃO TEXTUAIS

A. COERÊNCIA

A coerência remete para o sentido ou conteúdo de um enunciado. (…)

A coerência exige a organização textual, assente numa estrutura (geralmente

tripartida em introdução, desenvolvimento e conclusão) que relaciona as ideias entre si, de modo a respeitar a:

1. Coerência lógico-conceptual

O conteúdo do texto está de acordo com o mundo tal como o concebemos, porque em conformidade com o conhecimento que temos desse mundo (realidade

extra-linguística). Dizer, por exemplo «O carro está amolgado porque não bateu», viola este princípio. Para haver coerência, um texto deve respeitar os seguintes princípios:

a) a regra da não contradição - sem afirmações contraditórias (*Estar vivo é

estar morto);

b) a regra da não tautologia ou da não redundância (*Estar vivo é o

contrário de estar morto) ; c) a regra da relevância (apresenta informações que se possam relacionar entre si. (*Gostei muito deste livro porque amanhã vou sair)

2. Coerência pragmático-funcional

Para se considerar um determinado texto coerente, há que atender à intenção do locutor e ao fim do enunciado, em associação com os actos de fala dos outros interlocutores. Para ser coerente, um texto tem de estar em conformidade com a intenção comunicativa do locutor e com garantia de que essa intenção comunicativa é correctamente identificada pelo interlocutor. (ver «Actos ilocutórios»)

B. COESÃO

Para que a coerência do discurso seja mantida, é necessário respeitar também o princípio da coesão. Um texto, para ser coeso, deve ser constituído por um conjunto organizado de ideias, expressas através de palavras, orações, frases e parágrafos harmoniosamente ligados. (…)

A coesão de um texto consegue-se, quando há uma correcta ligação entre os

seus componentes (palavras, orações, frases e parágrafos), de modo a transmitir

correctamente a ideia apresentada.

MECANISMOS DE COESÃO

1. COESÃO GRAMATICAL

1.1. Coesão frásica

A coesão frásica consegue-se através dos mecanismo que servem para ligar os

diversos constituintes de uma oração ou de uma frase simples, de modo a torná-los unos. São eles:

a. a ordenação das palavras e das funções sintácticas na oração/frase;

b. a concordância em género e/ou número de palavras;

c. o respeito pelas regências do verbos e adjectivos;

d. a presença de complementos exigidos pelos verbos.

Ex.: A frase «A televisão corresponde aos anseios dos jovens» é coesa porque

respeita a ordenação sintáctica das palavras; a concordância em género e número entre todos os elementos lexicais; a regência do verbo, (o verbo «corresponder» exige a regência da preposição «- contraída, na frase, com o artigo definido). Além disso, tem o complemento (aos anseios ), exigido pelo verbo principal (que é transitivo indirecto).

1.2. Coesão interfrásica

Mecanismo que liga frases simples, frases complexas e parágrafos, garantindo a sua unidade semântica e respeitando as diversas dependências existentes entre si. Esta interligação consegue-se, recorrendo:

a. à coordenação (assindética e sindética);

b. à subordinação;

c. a conectores e organizadores do discurso;

d. à pontuação.

Ex.: A coesão entre as orações da frase complexa «No meu aniversário, a Lúcia ofereceu-me uma caneta, o Joaquim deu-me um livro.», é conseguida mediante o recurso à coordenação assindética. A coesão entre as orações da frase complexa

«Li o artigo, mas não me agradou particularmente.» é conseguida mediante o recurso

à coordenação sindética (adversativa). A coesão entre as orações da frase complexa «Quando cheguei, já a loja tinha fechado.» é conseguida mediante o recurso à subordinação (oração temporal).

1.3. Coesão temporo-aspectual

Mecanismo que coordena os enunciados de acordo com uma lógica de ordenação temporal das situações. Os acontecimentos são apresentados numa sequencialização que respeita o conhecimento do mundo, partilhado pelos falantes. É conseguida através:

a. do uso correlativo dos modos e tempos verbais, atendendo ao seu valor;

b. do recurso a advérbios adjuntos de tempo e/ou locuções adverbiais;

c. da utilização de expressões preposicionais com valor temporal;

d. do uso de datas e marcas temporais;

e. do recurso a articuladores indicadores de ordenação.

Ex.: A frase «Quando me levou à escola, o meu pai já tinha deixado a minha

avó na clínica.» é coesa, porque a ordenação das duas situações distintas é indicada pelos tempos verbais («levou» e «tinha deixado»: O facto apresentado em segundo lugar - tinha deixado - é, em termos temporais, anterior ao primeiro - levou -, pelo que aparece expresso através do uso do pretérito mais-que-perfeito composto, indicador de uma acção passada anterior a outra, também passada, expressa pelo pretérito perfeito.

1.4. Coesão referencial

Mecanismo que assenta na existência de cadeias de referência ou anafóricas, constituídas por um elemento linguístico - o referente - que é retomado por outro(s) - co-referente(s), cujo entendimento só é possível se soubermos o significado do referente. A coesão referencial concretiza-se com o recurso:

a. à anáfora: os termos anafóricos retomam, no decorrer do discurso, o

referente já mencionado antes. Ex.: Ao sair da escola, encontrei o Armando e ele disse-me que o seu médico o atendera rapidamente. Partindo do referente Armando,

encontramos como termos anafóricos os pronomes pessoais ele e o e o determinante possessivo seu. Estes elementos co-referentes, em conjunto com o referente que os antecede (Armando), configuram uma cadeia anafórica ou referencial. b. à catáfora: processo semelhante ao da anáfora, mas em que os termos co- referentes surgem antes do referente. Ex.: Após a consulta e o que nela lhe fora dito, o jovem sossegou. O elemento «lhe» é catafórico em relação ao referente (o jovem), explicitado no final da frase. c. à elipse: processo em que o(s) termo(s) anafórico(s) ou catafórico(s) não surge(m) lexicalmente realizado(s), isto é, estão subentendidos. Ex.: O Armando foi à consulta e [ ] sossegou. Nesta frase, verifica-se a elipse do sujeito na segunda oração, mas facilmente se subentende que esse sujeito não expresso tem como referencial o mesmo sujeito da oração antecedente «O Armando». d. à co-referência não anafórica: processo que consiste na utilização de duas ou mais expressões relativas ao mesmo referente, sem que nenhuma delas dependa da outra (o que apenas pode ser compreendido por elementos extradiscursivos e pelo contexto). Ex.: O pequeno gato aventurou-se no mundo. A

cria ganhou liberdade. As expressões «O pequeno gato» e «A cria» podem ser co-

referentes, ou seja, podem identificar a mesma entidade, sem que nenhuma delas funcione como termo anafórico. Mas só informação de carácter extralinguístico

(conhecida pelos interlocutores) permite afirmar se há ou não co-referência entre as duas expressões nominais.

e. à deixis: processo de referenciação conseguido através do emprego de

deícticos. Os deícticos assinalam o sujeito da enunciação (EU), o sujeito a quem se dirige o acto enunciativo (TU), o tempo e o espaço de enunciação. Classificam-se, por isso, em deícticos pessoais, temporais e espaciais. Deixis pessoal

A categoria de pessoa manifesta-se nos pronomes pessoais, determinantes e pronomes possessivos e na flexão verbal. Ex.: Eu sei (1ª pes.); Tu sabias (2ªpes.); Estávamos em minha casa (1ª pes. Verbal e deterninante possessivo). Deixis temporal

Especificação do tempo linguístico, expresso através dos tempos verbais, advérbios e locuções adverbiais com valor temporal, alguns adjectivos (por exemplo,

actual, contemporâneo, futuro

),

alguns nomes (por exemplo, véspera), algumas

preposições e locuções prepositivas (por exemplo, após, depois de O tempo

ordena-se em função do momento da enunciação (ponto de referência fundamental). Exemplo: O João foi operado ontem.). Ordena-se também, secundariamente, a partir de um ponto de referência discursivamente construído: Exemplo: Quando o táxi

).

chegou, o João tinha desaparecido. No primeiro exemplo, o advérbio de predicado ontem é deíctico, já que o seu valor referencial depende de um conhecimento tido pelos interlocutores: se estes não souberem, quando foi produzido o enunciado, será impossível interpretar o valor temporal do advérbio «ontem». A forma verbal «foi operado», no mesmo enunciado, indica um valor de anterioridade relativamente ao momento da enunciação. No segundo exemplo, a forma verbal «chegou» marca um valor de anterioridade relativamente ao momento da enunciação e simultaneamente fixa o ponto de referência a partir do qual se estabelece uma nova relação de anterioridade, expressa através do pretérito mais-que-perfeito composto (tinha

desaparecido).

Deixis espacial Especificação da localização espacial de objectos ou indivíduos, a partir de um ponto de referência. Por exemplo, o advérbio "aqui" correspondente ao espaço ocupado pelo locutor. Integram a deixis espacial advérbios e locuções adverbiais com valor locativo e pronomes e determinantes demonstrativos, algumas

preposições e locuções prepositivas (perante, ao lado de Ex.:Estou a

tempo Passa-me esse livro. (neste último exemplo, o determinante demonstrativo

«esse» aponta para um livro localizado num espaço próximo do interlocutor).

Nota:

).

;

Há também a Deixis textual que serve para demarcar e organizar o tempo e o espaço do

/ como se referiu no capítulo

próprio texto, tanto escrito como oral. Ex.: A ideia antes exposta

anterior

/ como se demonstrou acima

/ veremos seguidamente

2. COESÃO LEXICAL

Mecanismo que se baseia na repetição da mesma palavra ao longo do texto ou na sua substituição por outras que com ela se relacionam, em termos de hierarquia, equivalência ou oposição semântica. Processos que a concretizam:

a. repetição Ex.: A criança é a força do futuro. A criança é a expectativa de

renovação e é na criança que assenta a esperança de um mundo melhor. b. sinonímia Ex.: Adoro as lembranças que certos odores me despertam. Os cheiros do mar e da areia, por exemplo, trazem-me imediatamente à memória as férias em família. c. antonímia Ex.: Ao ver a caixa cheia, desejava no seu íntimo que estivesse já vazia.

d. hiperonímia/hiponímia Ex.: Certos ossos do nosso corpo são mais

vulneráveis às quedas. O fémur, por exemplo, exige atenções redobradas quando se praticam esforços violentos.

e. holonímia/meronímia Ex.: Naquela casa tudo a atraía. Os quartos

luminosos, as salas coloridas, a cozinha espaçosa e funcional.