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Recentemente, vários estudos têm focado na redução ou suspensão da


sedação como modo de melhorar o prognóstico dos pacientes ao curto prazo,
reduzindo o tempo de ventilação mecânica, de internação da UTI e de
complicações infecciosas (2-4). No entanto, há um receio de que níveis mais
superficiais de sedação associem-se a uma maior incidência de problemas
psicológicos posteriormente. Embora já haja literatura que mostre que tal receio
é infundado (5-6),novos estudos que explorem esse assunto são bem-vindos,
como é o caso deste aqui.

Este estudo é uma subanálise do ABC Trial que foi definida a priori. Em
linhas gerais, este estudo comparou uma estratégia de sedação que
contemplava o despertar diário associado a um teste de respiração espontânea
assim que o paciente preenchesse critérios para este com uma abordagem
usual da sedação e um teste de respiração espontânea quando possível.
Foram incluídos pacientes com mais de 18 anos e que estivessem há mais de
12h sob ventilação mecânica. Foram excluídos pacientes pós-PCR, terminais,
com comprometimento neurológico extenso e no pós -operatório de cirurgia
cardíaca ou neurocirurgia.

Os autores avaliaram os sobreviventes do estudo em um dos centros


participantes após 3 e 6 meses. Nas duas oportunidades um neuropsicólogo
aplicou questionários validados para avaliar a cognição, o estado psicológico e
a funcionalidade dos pacientes.

Um total de 76 pacientes (43 no grupo intervenção e 32 no grupo


controle) foi avaliado em 3 meses e 63 (37 e 26, respectivamente) em 12
meses. Um déficit cognitivo leve/moderado prévio existia em 10% dos
pacientes. Dezessete e 21% dos pacientes tinham algum grau de
comprometimento das atividades de vida diária nos grupos intervenção e
controle, respectivamente. Do total de pacientes, 88 e 83% eram
independentes funcionais.

Comprometimento cognitivo estava presente em 70 e 91% dos pacientes


em 3 meses nos grupos intervenção e controle, respectivamente (p=0,03). Em
12 meses, a prevalência foi de 72 e 70% (p=0 ,89). Preencheram critérios para
depressão 64 e 58% dos pacientes em 3 meses (p=0,59) e 59 e 62% em 12
meses (p=0,82). Stress pós-traumático estava presente em 14 e 10% em 3
meses (p=0,59) e 24 e 24% em 12 meses (p=0,97). O comprometimento das
atividades de vida diária ocorreu em 19 e 15% dos pacientes em 3 meses
(p=0,36) e em 11 e 8% em 12 meses (p=0,30). Incapacidade funcional ocorreu
em 8 e 10%, respectivamente (p=0,32) e em 6 e 4% em 12 meses (p=0,76). A
qualidade de vida foi considerada pior que a basa l por 72 e 74% dos pacientes
nos grupos intervenção e controle, respectivamente, em 3 meses (p=0,84) e
por 64 e 87% em 12 meses (p=0,05). Apenas 62 e 51% dos pacientes tiveram
alta para casa.

Comentários

Este estudo é mais um a somar-se a literatura que mostra a segurança


de estratégias que permitem níveis superficiais de sedação. Uma vez que
existem benefícios muito bem comprovados no curto prazo, o uso destas
estratégias é altamente recomendado.

Os problemas do estudo são aqueles comuns aos outros estudos que


seguiram a mesma linha: O uso de questionários ao invés de instrumentos
formais para se diagnosticar os problemas e a ausência de avaliação do
quadro psicológico, cognitivo e funcional prévio dos pacientes (foi feito um
questionário apenas com familia res). Quanto ao primeiro ponto, não se devem
esperar estudos que usem esses instrumentos formais, como os critérios do
DSM-IV, uma vez que eles são dispendiosos e as ferramentas justamente
foram validadas contra esses instrumentos para facilitar o rastream ento dos
problemas. Quanto ao segundo, é um problema que não será facilmente
resolvido, uma vez que não sabemos quem, em uma população, será admitido
em uma UTI em algum momento da vida.

No entanto, chamam a atenção alguns dados interessantes do estudo: A


alta prevalência de comprometimento cognitivo e de piora da qualidade de vida
dos pacientes após a alta. Estes dados já haviam sido mostrados previamente
(7) e são, sem dúvida, um campo a ser explorado por intensivistas e não -
intensivistas uma vez que simplesmente sobreviver à UTI ou ao hospital não
parece mais ser um desfecho tão favorável.

Referências

± Jackson JC, Girard TD, Gordon SM, Thompson JL, Shintani AK,
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