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ECONOMIA VERDE
Desafios eoportunidades
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o desmatament da fresta amazônica: causas e sluções
BASTIAAN PHILIP REYDON
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1. I
NTRODUÇÃO
O debate sobre o problema do desmatamento da oresta amazônica, que tem se expresso, entre outros, no debate sobre as mudanças no Código Flo
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restal, tem se caracterizado por sua supercialidade e pelo seu caráter ideo
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lógico. Inicialmente, há a necessidade de se identicar o processo de forma clara, após isto buscar as suas causas, e, nalmente, pensar nas soluções no curto, médio e longo prazos. É inegável que as fortes políticas de comando e controle
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 e incentivo eco-
nômico
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 implementadas nos últimos anos tiveram um papel crucial na redução do desmatamento. Como essas dependem da intervenção direta do Estado, dicilmente podem ser mantidas no longo prazo, principalmente porque os
principais indutores produtivos do desmatamento – desde a pecuária passan-
do pela produção de grãos chegando à produção de energia – persistirão e soluções perenes devem ser encontradas. Este trabalho tem como objetivo central mostrar que a solução denitiva desse problema passa necessariamente pela solução dos problemas fundiários do país, que consiste principalmente no Estado brasileiro assumir em conjunto com a nação a efetiva governança sobre a propriedade da terra. Inicialmente, o presente artigo apresenta uma breve descrição das principais causas do desmatamento identicadas na literatura sobre o tema. Em segui
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da, mostra-se que dois problemas que aparecem marginalmente na literatura
1. Professor livre docente do Núcleo de Economia Agrícola e Ambiental do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (NEA/IE/Unicamp), assessor de Sustentabilidade da Agência de Inovação - Unicamp e consultor do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Banco Mundial) e da FAO. Endereço eletrônico: basrey@eco.unicamp.br.2. As principais Políticas de Comando e Controle, intervenções diretas do Estado que modicam o comportamento dos desmatadores, foram: a) as operações Curupira (2005) e  Arco de Fogo (2008), que combateram a extração ilegal de madeira; b) decreto 6321/07, que restringe a concessão de crédito pelos bancos e obriga os proprietários dos municípios que mais desmatam a se recadastrarem; c) a criação de Unidades de Conservação, somando mais 20 milhões de hectares aos mais de 80 milhões já existentes, totalizando 273 UCs; d) homologação de 87 Terras Indígenas em aproximadamente 18 milhões de hectares; e e) restrição aos produtos agropecuários advindos de propriedades nos municípios com maior incidência de desmatamento. 3. As políticas de incentivo econômico, que usam mecanismos econômicos (preços ou outros) para incentivarem ou inibir os agentes econômicos a diminuir o desmatamento, foram as seguintes: a) operação Arco Verde (2008); e b) Linha especial de crédito no âmbito do FNO, FNE e FCO para a recuperação de áreas degradadas, reorestamento, manejo e regularização ambiental na Amazônia Legal.
 
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são, de forma combinada, os principais determinantes do desmatamento da oresta: a especulação com terras através do próprio desmatamento da terra e a ausência de governança fundiária. O quarto item analisa historicamente a formação do quadro institucional que leva à ausência de regulação no mercado de terras. Finalmente, na última seção, além de se argumentar pela necessidade de uma efetiva governança na propriedade da terra, mostram-se os principais mecanismos de implantação e os benefícios que gerará.
2. O
DESMATAMENTO
 
E
 
SUAS
 
PRINCIPAIS
 
CAUSAS
Segundo a FAO (2010),
“o Brasil perdeu uma média de 2,6 milhões de hectares de orestas por ano nos últimos 10 anos, comparado com uma perda anual de 2,9 milhões de hectares anuais na década de 90; na Indonésia as
 perdas foram de 500 mil hectares no período de 2000-2010 e de 1,9 milhão de hectares no período de 1990-2000.” 
O gráco 1, que consiste no levantamento do desmatamento da Amazônia, com base em imagens de satélite, evidencia que o desmatamento nos últimos anos girou em torno de 6,4 e 7,4 milhões de hectares, o que representa uma melhora substantiva, mas ainda é um desmatamento muito elevado para um bioma com as características do amazônico. Bioma este que tem na oresta em pé sua maior riqueza, dada sua elevada biodiversidade, sua importância para a regulação do clima no planeta, sua produção de água doce e solos pobres para atividades agropastoris.
grá 1. Dsn n azôni l
Fonte: PRODES (2011)
 A pergunta que permanece é: como inviabilizar um aumento nas taxas de desmatamento e, mais, como reduzi-las signicativamente? O desmatamento da oresta amazônica é um processo complexo com múltiplos determinantes
O desmatamento da floresta amazônica: causas e soluções
 Bastiaan Reydon
 
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e objeto de diferentes estudos teóricos e empíricos
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. Margulis (2000:9) arma que: “Não acreditamos que exista uma força principal que impulsione ou que explique sozinha os desmatamentos na Amazônia. As causas são várias e decorrem de uma combinação sosticada de diversas variáveis e fatores”. Os principais grupos de variáveis que induzem ao desmatamento, presentes em Margulis (2000) e na maior parte da literatura são:a) ganhos associados ao uso da terra na Amazônia – determinados por pre
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ços agrícolas, aumento dos preços da terra, variação nos preços dos insumos, aumento nos preços da madeira e a diminuição dos salários rurais;b) políticas públicas e crédito – a disponibilidade de recursos creditícios baratos (FINAM, FNO) e de políticas de incentivo scais (SUDAM); c) acessibilidade – a construção de rodovias e/ou outras obras que facilitem o acesso a áreas de fronteira; d) macroeconomia – ciclos de crescimento do PIB, crescimento da popu
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lação. Na medida em que esses quatro agrupamentos de variáveis têm interferido diretamente no desmatamento da Amazônia, pode-se dizer que, após as inter 
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venções dos últimos anos e a crise de 2008/9, todos estariam tendo impactos positivos no desmatamento, mas nem por isso o desmatamento aumentou. Por outro lado, mesmo nos períodos nos quais essas variáveis não apresentavam crescimento, o desmatamento crescia. Isso indica que há outros fatores mais profundos cuja importância relativa não tem sido destacada.
3. O
DESMATAMENTO
 
E
 
A
 
ESPECULAÇÃO
 
COM
 
TERRAS
No nosso entender, o desmatamento da Amazônia é fruto da continuidade da tradicional forma de expansão da fronteira agrícola brasileira, que, em geral, costuma ocorrer através das seguintes etapas: a ocupação de terras virgens (privadas ou públicas), a extração de sua madeira de lei, a instalação
da pecuária
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 e, por m, o desenvolvimento de uma agropecuária mais moder 
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na. Essas atividades econômicas exercem o papel de gerar renda e legitimar a ocupação dos novos proprietários no curto prazo, quase sem necessidade
de recursos
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. No longo prazo, as terras ou permanecem com pecuária mais intensiva, ou, se existir demanda, serão convertidas para grãos ou outra ati
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vidade econômica.
O desmatamento da floresta amazônica: causas e soluções
 Bastiaan Reydon
4.Para uma revisão exaustiva, ver Soares Filho
et al.
 (2005).5. Reydon e Romeiro (2000) mostram que o principal motor da pecuarização é, por um lado, a existência de muita terra devoluta passível de ser apropriada, associada à possibilidade de, a baixos custos, instalar a pecuária tornando o desmatamento uma estratégia de valorização do capital imbatível.6. Com frequência, são estes mesmos ocupantes que se utilizam de mão de obra escrava.
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