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Estudo de Obra- Romanceiro da Inconfidência

Prof: Lígia
I - A HISTÓRIA NOS LABIRINTOS POÉTICOS

"Liberdade essa palavra


que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!"

O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, publicação de 1953. é uma obra de inspirado e profundo amor à


liberdade, às tradições históricas. A poeta Cecília Meireles escolheu como forma de expressão a técnica dos
romances populares medievais, de inspiração épica e lírica. Os romances, de origem Ibérica, eram narrativas
em verso (redondilha maior) escritas em linguagem popular, usual.
O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA é um longo poema, com 96 textos poéticos, em que "a autora
assume a voz de um rapsodo (cantor-poeta ambulante da Grécia antiga) para reconstituir a histórica Minas
Gerais do século XVIII. Abrange história e imaginação numa fusão perfeita. Desfilam os ambientes
auríferos e diamantinos, com sua organização sócio-política e económica. Recompõe-se poeticamente a
ventura idealista dos famosos conjurados, o auge de seus sonhos libertários - o heróico Tiradentes. Cecília
faz-nos lamentar a derrota do movimento de asas, que poderia ter liberto do poder lusitano, se não fosse a
pusilanimidade de Joaquim Silvério dos Reis. O eu poético aponta para o fato fatal do ouro ter trazido
forme, algemas, masmorras, cadafalsos. Onde houve riqueza, houve jugo do poder e houve mortes. Contudo,
a proposta era bem explícita: LIBERDADE AINDA QUE TARDE, sonho visionário e contagioso veneno.
"Cecília Meireles não é inteiramente afirmativa quanto à relação de causa e efeito entre as ações e duração
dos fatos. A sua abordagem poética é prepassada por mistérios, conduzindo-nos a reflexões, a ambíguas
indagações:
os mortos serão realmente mortos? Há tanta coisa submersa na "cova do tempo", tanto a se investigar no
âmbito da História". O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA não se subordina à história, mas sim propõe a sua
recriação poética. O passado em si não é objeto de todo decifrado, mas sim fonte curiosa de investigação a
fim de se compreender melhor a estrutura do presente, para projetar melhor um futuro. Lembremo-nos de
que o tempo é de todo soberano e os homens submissos a ele, conforme se lê nos versos Cicilianos. "Os
mortos não tem existência própria, é óbvio, só ganham-na se redivivos na reinvenção poética, sem a qual,
segundo Cecília Meireles, a vida não é possível. "
A par de um roteiro histórico, visualizado em incansáveis pesquisas com inúmeras fichas de notas, vivências
do ambiente, viagens, sonhos, observações e imersões no passado, Cecília Meireles obteve o levantamento
da época histórica que se propôs poetizar. Desencadeou-se uma transfiguração poética para enriquecer a
abordagem da história. Os poemas do romanceiro são revestidos por alucinante, comovente beleza que
transcende a própria base histórica. O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA é, portanto, uma fusão impressionante,
mística-mágica, entre História e Poesia. Cria-se no leitor mais sensível uma nostalgia dos antepassados
mineiros do Brasil, que buscavam a trilha da liberdade. Ressurgem o período aurifero-diamantino, com suas
deslumbrantes personagens embriagados pela ganância de riqueza e outros mais alucinados; os sonhadores
com liberdade. Personagens embotados no tempo viveram cada um a sua verdade: sede do brilho da fortuna,
ânsia de conquistar digna libertação. Muitos ébrios de negritude gananciosa; tantos perdidos na querência
libertária; outros, praticando a mesquinha traição. E nós, presentes, espreitando fascínios poéticos sedutores.
Cecília Meireles criou um eu poético (épico-lírico), possuído pela paixão, que se debruçou sobre a
Inconfidência Mineira - essa história política insuflada, poderosamente, pela ambição, pelo sensualismo,
pelo misticismo, pela paisagem envolta em mistério. O eu poético está atento a tudo, observador, tudo vê, de
tudo suspeita. Mergulha-se no tempo, reconstrói-se a história. A autora compôs brilhantíssima obra na qual
História, Poesia, linguagem se conjugam para constituir o mais esplêndido poema Nacional em homenagem
ao nosso passado, de apreço à nossa memória, de amor à liberdade. (LI - BER - DA - DE).
Quanto à estrutura, Cecília Meireles designou os poemas em obediência à unidade histórico-poética onde os
romances são numerados e nomeados. Há também as falas, os cenários e dois poemas avulsos. Os poemas
estão amparados na lembrança de nossa essência histórica. Existe toda uma sabedoria e amor-pátrio nos
vigorosos poemas de natureza épica-lírica, mesclados ao caráter dramático. O singular resultado de uma
poetização que honra, dignifica, glorifica a História Libertária que é nossa. Poesia que nos convence, pela
emoção, de que os fatos da nossa vida sócio-política-cultural possuem raízes históricas muito nossas que
precisam ser conhecidas e preservadas; questionadas e passadas a limpo.
Cecília Meireles foi maiúscula, plural no ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA para transformar o que
ontem eram aflições, delações, ou visões libertárias em duras indagações, algumas certezas e muitos ardentes
mistérios. Procuramos as verdades da vida do nosso passado, além das falácias do poder de manipulação e
opressão. Com muita fineza poética e autenticidade, os vultos históricos são iluminados, respeitados e
liricamente desalienados. A voz da História, ouvida através da poesia, dá-nos exata medida de uma convição
artística: a arte recria genialmente o processo histórico. E uma voz nítida, apesar de estar repleta de medo,
contradições humanas e de tons inquiridores. Há poemas que nos comunicam ao espírito a delicadeza árcade
de uma época; outros que exigem o assombro e indignação frente a execuções infames.
Cecília Meireles pôde temperar, liricamente, históricos incidentes da Inconfidência Mineira. Foi bastante
sensível para analisar os fatos históricos a fim de construir seus poemas em linguagem depurada, requintada,
firme, singela. Toda a linguagem poética em função de revalorização histórica. O "Romanceiro da
Inconfidência, apesar de conter uma resposta positiva à angústia do tempo, faz alguma concessão à utopia
romântica." (Admite uma projeção intemporal no ideário humano em busca da Liberdade.)
"Cecília Meireles, em seus poemas do Romanceiro, permanece pessimista em sua concepção de História.
Nunca se mostrou convencida de que a História fosse uma linda que vai do paraíso ao paraíso, com alguns
desvios pelo meio. Para a poeta, a História era uma infinita sucessão de erros e fardos pesados, que
ninguém sabe aonde leva. " "Uma concepção dada ao desespero. Cecília, sabiamente, soube ver os
desastres e tragédias da História e construiu tentativas de reinventar a vida, destinadas a torná-la possível.
"
O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA nos conduz a uma atmosfera de lembranças ressuscitadas na
memória do tempo, onde História e Poesia encontram abrigo numa linguagem de poderosa expressividade.
As indagações do primeiro poema (Fala Inicial)
"ó vinte e um de abril sinistro,
que intriga de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem ordena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Onde, os rostos? Onde, as almas?"
Encontram respostas mansamente formuladas numa linguagem de sensível sabedoria e temível realidade.
"Na mesma cova do tempo
cai o castigo e o perdão
Morre a tinta das sentenças
E o sangue dos enforcados"...
Imaginariamente, somos conduzidos ao tempo da Inconfidência Mineira, tempo das ideias venenosas contra
a opressão do poder. A época das delações, das sentenças de prisão, degredo e "morte natural para sempre
naforca'^ para o criminoso de lesa-majestade, Tiradentes. Tempo de idílio interrompido de Manila e
Dirceu. (A inconformada Marília em sua Imaginária Serenata.) Época da dor dramática de dona Bárbara
Eliodora, que perdeu seu esposo Alvarenga e sua filha, que morreu tão jovem, Maria Ifigênia Tempo do
poeta Cláudio Manoel da Costa, figura sobre a qual permanece o "mistério parado":
Teria Glauceste sido morto, ou se suicidado? Quem sabe foi protegido em fuga? Enigmas sobre a névoa que
se adensa na poeira do tempo. A poesia do Romanceiro traz também os ilustres assassinos. Desfila, ainda, o
resultado das vaidades de espírito, como no caso da rainha louca, Maria I, que assinou a sentença de
condenação para os inconfidentes. Cecília dedicou versos até aos cavalos da Inconfidência. Com um grau de
sensibilidade inigualável, a autora nos surpreende com sua poesia humanamente histórica.
Ao se ler o ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, é possível ver, na atemporalidade da Ouro Preto de
hoje, suas vielas tortuosas e arquiteturas seculares, sua poética com palavras de delírio, desespero, opressão,
liberdade, violência, vida, morte. Há juras de amor, há conspirações e denúncias entre pontes, chafarizes,
segredos e flores murchas pelo tempo. Há leques, colinas, janelas, portas, enterros e enormes silêncios. "O
céu é o mesmo sobre os tempos que atravessam o coração das horas aflitas." Revelam-se suspirosos
segredos, gemidos, lamentos de personagens antigas, de eras antigas donde se destacam Felipe, Chico Rei,
João Fernandes, Chica da Silva, Marília, Dirceu, Glauceste, Nise, Bárbara, Alceu, Toledo, Rolim,
Pamplona, Francisco António, Vitoriano, Silvério, Tiradentes e tantos outros. Todos ganham seu destaque
nessa obra que, como um rio de música, desagua em nossa mente e sentimento, com a certeza de que o
tempo da Memória Nacional foi plenamente reconquistado. O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA ensina-
nos um apego à História Pátria através de indagações, exclamações, cismas, lamentações, advertências. O
retraio da morte se desenha insistentemente, tendo ao lado a eternidade do sonho de Liberdade. Toda a
História das Minas Gerais, tramada na era inconfidente, transita frente a nossa imaginação. Recompomos
também os mais árcades cenários - das mais belas flores silvestres, ouvimos o toque de "sinos da agonia"
ecoando nos ares de tempos que não se findam. Por horizontes que desmaiam na luz de uma eternidade
histórica vemos a "mão do alferes que de longe acend\ Mergulhamos na máquina da memória criadora
através da poesia do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA para repetirmos, seduzidos como Cecília
Meireles.

Ai, palavras, ai, palavras,


que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retoma
e em tão rápida existência,
Tudo se forma e transforma!"...

II - O TÍTULO: ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA

Romance = Nome dado para narrativas em verso, assunto heróico fantasioso de origem medieval -
popular, originário na Península Ibérica.
Eiro = sufixo de coleção
Coleção de romances acerca do ouro, do diamante, da liberdade, envolvendo a história (trama) da
Inconfidência Mineira

III - GÉNERO LITERÁRIO

1°) Épico = Revela a história de interesse NACIONAL. Reconstituição da memória brasileira - contexto da
nacionalidade.
2°) Lírico = Contém poemas de natureza sentimental, subjetiva e melancólica, os quais enfocam as paixões e
os sentimentos humanos.
3°) Dramático = Constam poemas de nome CENÁRIO, para contextualizar o ambiente; outros versos de
caráter representativo (teatrais) com diálogo, monólogo, fala. Uma espécie de coro de vozes prepassa todo o
ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA.

IV - DIVERSIDADE DOS ESTILOS LITERÁRIOS

1°) Barroco
A noção do efémero sempre se inscreve na obra de Cecília Meireles. A transitoriedade está em tudo, os
contrastes das realidades da vida também. O ser humano sempre em dualismo; constantes jogos de pólos
opostos em binómios: vida-morte, pecado-perdão, corajoso-pusilâmine, relativo-absoluto. O abarrocado
sentido trágico para a vida e a morte.

2°) Neoclassicismo
Recriação da ambiência árcade, registram-se paisagens bucólicas e as ideias dos poetas arcádicos - a vida
fingida de pastor; as amadas pastoras idealizadas. Cecília visita o PAÍS DA ARCÁDIA.

3°) Romantismo
A figura mística e utópica de TIRADENTES redimensionado como herói (sem perder traços humanos). O
homem que comporta o sonho de liberdade dos brasileiros. Tiradentes descrito poeticamente como o
sonhador-idealista, cavaleiro andante visionário qual Dom Quixote.
Proclamador da liberdade política e igualdade social.
A exaltação gloriosa do passado histórico acentua o sentimento romântico- nacionalista: o amor à pátria.
Elevação do sentimentalismo lírico, os amores impossíveis e trágicos:
(Marília e Dirceu); (o assassinato para impedir a paixão da donzelinha).

4°) Simbolisino
Presença de sugestões simbólicas, envolvidas em mistério e misticismo. A poeta delinea a loucura, o sonho,
a exposição dos estados d'alma.
Valoriza-se o inconsciente, o vago e etéreo. Há diversas interrogativas em tomo do inexprimível
(inexplicável) tanto humano como histórico.
O ritmo melódico e musical conjuga-se à exploração de imagens sinestésicas, em sintonia com a abstração
ou transições do concreto para o intangível.

5°) Modernismo
A mesclagem (fusão) entre os géneros literários: Épico - Lírico -Dramático, a convivência de vários estilos
de época de acordo com a expressividade temática ou com a reconstituição de época; a poetização
dos fatos históricos constituem a modernidade do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA.
A revisão da história numa perspectiva de avaliação critica e questionadora, para a tomada de consciência
guanto aos valores

Nacionalistas: defesa ideológica do sonho dos revolucionários da INCONFIDÊNCIA MINEIRA; protesto


(ataque) contra a opressão do poder da Metrópole Lusitana.
O modernismo também está na dimensão universalizante, porque CECÍLIA MEIRELES poetiza o sonho
maior do homem: conquista da LIBERDADE. Outros temas generalizados: paixões humanas, armadilhas da
traição (pusilânimes) a ganância (cobiça) por riqueza.

V - ESTRUTURA DO ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA

Publicação do ano de 1953, contém 96 poemas assim distribuídos:

(A) 85 romances - marcados em algarismos romano, com títulos, destinados a desenvolver a história que se
recria poeticamente.

(B) 5 falas = 1a Fala inicial, 2a Fala à antiga Vila Rica, 3a Fala aos pusilânimes, 4a Fala à Comarca do Rio das
Mortes, 5a Fala aos Inconfidentes Mortos.
Evidencia-se o eu lírico-poético manifestando seus sentimentos melancólicos. Há um tom de lamentação
frente à história de injustiças e desastres.

(C) 4 Cenários - cada cenário situa o local dos acontecimentos e "desenha" as paisagens de Vila Rica.

(D) l Imaginária Serenata.

(E) 1 Retrato de Marília em Antônio Dias


Focalização de Marília a lamentar a perda de Tomás António Gonzaga
(D). Marília de Dirceu já velha; próxima da morte (E).

VI - ROTEIRO DO ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA

1a Parte - FALA INICIAL

Referência à arbitrariedade do poder e à ação implacável do tempo devorador.


Cenário - Reconstituição dos ciclos do ouro, do diamante e da liberdade sonhada

a) CICLO DO OURO: romance I até romance XII (VILA RICA). A descoberta do ouro; a exploração
insana dessa riqueza; as mortes por cobiça (destaque para o R. IV da Donzela Assassinada). __
A morte do rebelde Felipe dos Santos (R. V) condenado como Traidor da Metrópole Lusa (crime de Lesa -
Majestade). A figura de Chico Rei (relação dos negros com o ouro). A figura de Tiradentes ainda menino
(R. XII): Nossa Senhora da Ajuda - prenúncio da condenação do alferes à força.

b) CICLO DO DIAMANTE. Romance Xin até romance XIX. (SERRO DO FRIO - TEJUCO)
reconstítuição da história do Contratador de Diamantes João Fernandes de Oliveira e da amante Chica da
Silva (negra exótica) O Conde de Valadares conduziu João Fernandes a Portugal para prestar contas a
Coroa Real, fim do "império" de Chica e Fernandes (R. XIX) - A fugacidade do tempo e efemeridade de
todas as riquezas.

2a Parte - CICLO DA LIBERDADE

c) A trama da INCONFIDÊNCIA MINEIRA e A TRAIÇÃO de Joaquim Silvério dos reis. O cenário:


Evocação à paisagem de Vila Rica Fala à Antiga Vila Rica:
identificação entre as figuras dos chafarizes e os homens que viveram em Vila Rica

d) Do romance XX até romance XXVIII


A vida social, política e económica de Vila Rica, com antecedentes da INCONFIDÊNCIA MINEIRA. A escassez
de riqueza aurífera, levando ao projeto da Derrama. A trama da INCONFIDÊNCIA por ideia dos
intelectuais, mineradores, padres, civis, militares: o alferes Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes).
Ergue-se a bandeira da Inconfidência Mineira: Libertas quae será tamem: Liberdade ainda que tarde). A
peregrinação do alferes Tiradentes, divulgador das ideias libertárias.

e) Do romance XXVTtI até o romance XLVII


Carta denúncia de J. Silvério. Alguns admiravam a coragem de Tiradentes; outros, porém, consideravam-
no um louco. Previsão da morte trágica de J. J. da Silva Xavier. Silvério dos Reis, comparado ao traidor
Judas. Tiradentes foi abandonado por todos os ex-companheiros, encontrava-se distante de Minas Gerais,
solitário e perdido em seus sonhos libertários. A prisão de vários inconfidentes e inúmeras arbitrariedades da
Coroa Portuguesa: a justiça (bastarda, injusta, vendida) escolheu

Tiradentes como criminoso de Lesa-Majestade: (traidor punido com a morte na forca). Arranjavam-se falsas
testemunhas para depoimentos condenatórios. Sequestro dos bens de todos os inconfidentes.

3a Parte - SENTENÇAS, CONDENAÇÕES E EXECUÇÕES

Fala aos Pusilânimes (perversos, fracos) Os covardes, mesquinhos que abriam mão de qualquer sonho em
favor de denunciar falsamente até os próprios parentes. Delações devido à mesquinhez, à cobiça e ao medo.

f) Do romance XLVII até romance LXIV


A trama de destinos cruéis - misteriosos em tomo da morte de Cláudio Manuel da Costa.
Denúncia dos enganos cometidos pela justiça. Previsão da condenação de Tiradentes para o sacrifício
exemplar: morte na forca. Reflexão sobre o poder das palavras idealistas e condenatórias. A prisão do poeta
ouvidor Tomás António Gonzaga. Os bens do alferes Tiradentes (parcos pertences) destinados ao leilão.
Defesa imaginária para o sonhador e "lunático" J. J. da Silva Xavier. Cortejo do Sacrifício Exemplar para o
réu Tiradentes, o qual caminhava rumo à forca. Um bêbado questionou o aparatoso espetáculo da morte por
enforcamento. A execução de Tiradentes. Reflexões sobre o sonho de liberdade que o "herói" não
conseguiu
realizar, porém ofereceu sua vida em nome da Libertação do Brasil.

4a Parte: OUTROS DESTINOS DE INCONFIDENTES E FAMILIARES. D. MARIA I, RAINHA LOUCA

Cenário: Localiza-se, em abandono, o jardim do poeta Gonzaga.

g) Do romance LXV até o romance LXXX O exílio de Gonzaga (o "Dirceu de Marilia") em Moçambique
- terra africana escravizada por Portugal. O casamento do poeta com Juliana de Mascarenhas. O
desconsolo de Maruia {Maria Dorotéia Joaquina de Seixos Brandão) que (na Imaginária Serenata) não se
conformava com o destino do amado Dirceu (Tomás A. Gonzaga). Detalhes sobre a cruel loucura da rainha
Maria I, que condenou os inconfidentes. A majestade tomou-se prisioneira da Demência.

h) Fala à Comarca do Rio das Mortes, onde se focalizaram Pé. Toledo (caído em esquecimento) e dona
Bárbara Eliodora (desesperada pela prisão perpétua de seu marido Alvarenga Peixoto (exilado na África).
A bela Maria IHgênia, filha de Bárbara e do poeta Alvarenga, morreu ainda criança. Agravava-se a
depressão de dona Bárbara. A morte e o enterro de Bárbara Eliodora. Destaque para a ação corrosiva,
implacável do tempo.
5a Parte: MORTE DA RAINHA LOUCA. O TESTAMENTO DE MARÍLIA E A FALA AOS
INCONFIDENTES MORTOS.

i) No poema Retrato de Marília em António Dias focalizou-se Marília na velhice, ainda prisioneira do
amor por Dirceu. Poema Cenário;
agravamento da loucura de Maria I.

j) Do romance LXXXI até a Fala aos Inconfidentes Mortos.


A força bruta dos assassinos que mataram por riqueza e poder. Maria I se via condenada ao inferno;
morreu temendo a fúria de Satanás. O enterro da rainha Louca.
Cecília Meireles saúda os cavalos da Inconfidência no r. LXXXIV.
Marília escreveu seu testamento já muito velhinha, restava-lhe apenas aguardar a morte.
Na Fala dos Inconfidentes Mortos = reforço da ideia do tempo corrosivo - imenso: Tempo - água implacável
(devorador) a lavar - levar tudo e todos.
Apenas a memória possui o poder de resgatar o tempo.

VII - PROTAGONISTAS - ANTAGONISTAS E FIGURANTES EM ROMANCEIRO DA


INCONFIDÊNCIA

1°) OS PODEROSOS: A FÚRIA CRIMINOSA DO PODER

a) D. JOÃO V: Rei de Portugal (avó de Maria I) Viveu em luxo - ostentação, mas seu Reino era devedor à
Inglaterra, a qual pagava com o ouro do Brasil. Foi enganado conforme o r. VI da Transmutação dos Metais:
no lugar de caixotes de ouro recebeu chumbo, falsa paga do quinto do ouro).

b) MARIA I: Rainha da Coroa Portuguesa na época da Inconfidência Mineira (1789). Assinou as sentenças
de condenação dos inconfidentes. Enlouqueceu quando morreram seu marido e dois filhos. No enfoque
poético, roeu-se de remorsos por causa das prisões perpétuas e mortes que saíram de suas mãos. Sofreu
pavores do inferno, de demónio, aprisionada pela loucura. Em 1808 chegou ao Brasil com o filho D. João
VI. Ela morreu em profunda demência.

c) D. PEDRO DE ALMEIDA: Conde de Assomar, Governador Tirânico de Minas Gerais (1717 a 1821)
mandou executar Felipe dos Santos na forca. Alertou ao rei João V que as Minas Gerais tinham o espírito
da conspiração e exigiam o braço de ferro do governo.

d) JOSÉ LUÍS MENESES DE CASTELO BRANDO E ABRANCHES: Conde de Valadares. Designado


pela Coroa Portuguesa para prender João Fernandes, contratador do Distrito Diamantino. Antes de cumprir
sua missão, recebeu muita riqueza de J. Fernandes, omitindo-lhe as verdadeiras intenções. Depois traiu o
contador, levando-o preso por não pagar o fisco à Coroa.

e) LUÍS ANTÓNIO FURTADO DE MENDONÇA: Visconde de Barbacena. Governador de Minas Gerais


(1788 - 1792), cuja missão era cobrar a Derrama. Mandou suspender a derrama para evitar a Inconfidência
Minera, prendeu os conjurados. Sugere-se que talvez Barbacena também estivesse envolvido na
conspiração.

2°) OS INIMIGOS DO PODER

a) JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER:


Tiradentes. Recriado como herói, figura como mito, o cavaleiro da esperança, filantrópico - altruísta,
idealista qual D. Quixote. Encerrava o desejo rebelde de libertar o Brasil do jugo de Portugal. Foi corajoso
para enfrentar a morte em favor de um sonho. Apontado como criminoso de lesa-majestade, como traidor
(maior vítima da Coroa Portuguesa) executaram-no na forca e depois esquartejaram-lhe o corpo.

b) FELIPE DOS SANTOS: revoltoso português - um tropeiro que protestou contra a abusiva cobrança de
impostos, liderou um movimento rebelde (1720) condenado, sem julgamento, foi conduzido à força e depois
de morto amarraram-no em cavalos para que seu corpo fosse esquartejado. Ordens cruéis do cruel Conde de
Assumar.
c) CLÁUDIO MANUEL DA COSTA - Poeta das Minas Gerais - o árcade Glauceste Satúrnio Rico
minerador e desembargador de Vila Rica. Um articulador de ideias revolucionárias. Encarcerado num
cubículo da Casa dos Contos. Dúvidas quanto ao seu destino: Suicídio? Assassinato? Fuga? Raptado? No
ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA o mistério permanece:
Cláudio era secretário do governo e afilhado de João Fernandes.

d) TOMÁS ANTÓNIO GONZAGA - Poeta de Portugal ocupava o cargo de Ouvidor-mor de Vila Rica.
Celebre devido à lírica amorosa Marília de Dirceu. Há dúvidas sobre sua atuação como inconfidente:
rebelde, sim ou não? Prenderam-no na "Ilha das Cobras", onde escreveu a segunda parte da lírica,
transparecendo uma autodefesa. Negou qualquer participação no movimento inconfidente. Foi degredado
para Moçambique, onde exerceu cargo na magistratura. Casou-se com Juliana de Mascarenhas, rica e
analfabeta.

e) JOSÉ INÁCIO DE ALVARENGA PEIXOTO - Poeta português, magistrado, latifundiário e minerador.


Habitava a Comarca do Rio das Mortes (região de São João Dei Rei) Era marido de Bárbara Eliodora, a
quem amava profundamente. Foi preso, degredado para a África e condenado à prisão perpétua. Pouco
restou de sua obra poética (destruída pelo confisco português.) Na prisão escreveu apaixonados e
entristecidos versos a amada. Morreu precocemente.

f) PADRE OLIVEIRA ROLIM - Reflexo da devassidão do clero: culpado por crimes pequenos;envolvido
com mulheres casadas e donzelas. Possuía "livros libertinos" (Voltaire - Mably). Enquanto discutiam sua
prisão, fugiu levando seus "sete pecados": aventureiro, envolvido com maçonaria, contrabando, mulherengo.

g) CARLOS CORREIA DE TOLEDO E MELO - Padre Toledo era próspero minerador paulista. Residia na
Comarca do Rio das Mortes. Possuía diversos livros comprometedores, cheios de ideias liberais. Prenderam-
no e degredaram-no na condição de inconfidente rebelde.

h) FRANCISCO ANTÓNIO - Militar e proprietário rural, escravocrata. Envolvido na inconfidência, foi preso e
deportado para Angola.

i) SEBASTIÃO FERNANDES REGO - Responsável pela troca do quinto do ouro por grãos de chumbo,
trapaça contra o rei D. João V.

j) VITORIANO VELOSO - alferes condenado ao degredo na África, porque surpreenderam-no levando uma
carta conspiradora a Francisco António.

I) INÁCIO PAMPLONA - Minerador. Diz que talvez ele tenha vindo escondido (especulações poéticas)
para raptar o poeta Cláudio Manuel, salvando-o em surdina: Será?

3°) OS PUSILÂMINES

a) JOAQUIM SELVÉRJO DOS REIS - Minerador individado, delatou a Inconfidência Mineira para obter
perdão a suas dívidas, além de outros benefícios financeiros. Pior traidor que Judas, pois não sentiu
remorsos. Envelheceu gozando as vantagens económicas que obteve como traidor.

b) TESTEMUNHA FALSA - Configura-se o tipo de pessoa que aceitava (por dinheiro) acusar quem a Coroa
Portuguesa queria condenar.

c) DELATORES - Sempre havia gente disposta a delatar nas Minas Gerais. No "diz que me disse" das
intrigas dos meirinhos, carcereiros, capitão, ouvidor, minerador, militar, povo...

d) CAIXEIRO VICENTE VIEIRA DA MOTA - Não se lembrava, por conveniência, dos favores que lhe
fizera o alferes Tiradentes (arrumou-lhe os dentes). Testemunhou na acusação do réu-mor Joaquim José da
Silva Xavier.

e) CARCEREIRO - Uma voz em primeira pessoa que, ao encarcerar o preso Tiradentes, previu que este seria
condenado por crime de lesa-majestade.

f) MALDIZENTES - Vozes que comentaram a desgraça do poeta Gonzaga -degradado para África - falaram em
favor da punição, com prazer.

g) SENTINELAS - Soldados que espionaram e vigiaram Tiradentes para, depois, prendê-lo.

4°) DA REGIÃO DO SERRO DO FRIO (TEJUCO)

a) JOÃO FERNANDES DE OLIVEIRA - Nomeado por duas vezes consecutivas como contratador de
Diamantes. Alcançou enorme quantidade de gemas preciosas às custas da morte de inúmeros escravos,
perdidos em perigosos locais de mineração. Viveu como amante da negra que alforriou - Chica da Silva,
com quem teve 13 filhos. Ainda que oferecesse imensa fortuna ao Conde de Valadares, não conseguiu
evitar o pior: foi preso e encaminhado a Portugal, para prestar contas de sua fortuna suntuosa, arranjada em
cumplicidade com contrabandistas.

b) FRANCISCA DA SILVA (a Chica que Manda) Negra famosa no Tejuco devido à sua exuberância,
extravagância, exotismo e riqueza (coberta pêlos diamantes do amante João Fernandes). Chica, astuta,
alertou-o sobre o fingimento do Conde de Valadares, mas não foi ouvida. Acabou-se o reinado de Chica da
Silva quando o contratador foi levado para Portugal.

c) FELISBERTO - Um conde contratador de diamantes, ameaçou apunhalar até à morte o Ouvidor Bacelar,
o qual se apaixonara por uma donzela das relações do contratador.

d) SAPATEIRO CAPANEMA - (Manuel) considerado conspirador, traidor da Coroa porque disse que os
branquinhos do Reino, um dia, seriam expulsos do Brasil. Foi condenado à prisão por seu atrevimento.

5°) FIGURAS FEMININAS

a) DONZELINHA ASSASSINADA - Eu lírico da moça morta vaga como um fantasma, para contar que foi
assassinada (com um punhal de ouro) pela mãos de seu pai; pois ela se enamorou por um rapaz pobre.

b) DONZELINHA POBRE - Vivia sozinha lamentando a ausência de toda a sua família, que viajou para as
catas de ouro, movidos por imensa cobiça.

c) MARÍLIA - Maria Dorotéia Joaquina. A musa árcade inspiradora das liras de Gonzaga. Foi noiva deste
poeta-ouvidor. A bela jamais se conformou com o exílio do amado. Não pode crer que Tomás António se
casou, portanto viveu muitos anos a esperá-lo de volta a Vila Rica. Marília transformou-se numa prisioneira
de seu amor por Dirceu, para toda a vida.

d) BÁRBARA ELIODORA - A esposa amada (do norte estrela) de Alvarenga Peixoto. Nunca se
conformou com as desgraças que se abateram sobre o seu marido (Alceu): degredado para Ambaca, em
Angola. Ela viveu entre mágoas e sofrimentos, na Comarca do Rio das Mortes, até enlouquecer de tristeza,
prisioneira da dor de um amor perdido.

e) MARIA IFTGÊNEA - A linda filha de Bárbara e Alvarenga, parecia uma princesa. Morreu ainda menina,
aumentando a desgraça e tristeza da mãe.

f) JULIANA DE MASCARENHAS - Rica herdeira de um mercado de escravos. Em Moçambique desposou


o juiz Tomás António Gonzaga.

6°) OUTRAS FIGURAS

a) CHlCO REI - Foi rei em Luanda (África), entretanto capturaram-no como escravo. Em M. G. trabalhou
nas minas de ouro e atuou como uma espécie de líder entre os negros. Chico incentivava a procura e o
desvio clandestino do ouro em Vila Rica, incitando os pretos a comprarem as suas liberdades.
b) DOMINGOS - Todos relacionados a Tiradentes: Domingos Xavier Fernandes (avô); Domingos Silva
Santos (pai); Domingos Abreu (padrinho); Domingos Fernandes Cruz (hospedeiro); Domingos
Rodrigues Neves (condutor dos pedaços do corpo esquartejado do alferes Tiradentes).

c) NEGROS DAS CATAS - Inúmeros escravos que trabalhavam nas Minas de Ouro e Diamante. Vítimas de
sofrimentos - crueldades e explorações desumanas.

d) LADRÕES E CONTRABANDISTAS - Homens que atuavam principalmente roubando, extraviando ouro


para o desassossego da Coroa Portuguesa.

e) CAÇADOR FELIZ - Representante dos homens gananciosos cuja alegria estava apenas em encontrar
ouro, para tanto não se importavam de morrer.

f) D. RODRIGO CÉSAR - O suspeito inicial de ter mudado ouro em chumbo do rei D. João V; agiu em
parceria com Sebastião Fernandes Rego.

g) CIGANO - Previu a desgraçada morte de Tiradentes na forca. Intuiu que o alferes mantinha um sonho,
não o considerou louco.

h) MULATA - MINHA BOA CAMARADA - Mulher de quem Tiradentes se despediu, quando viajou ao
Rio de Janeiro, para a caminhada em função de expor as ideias de independência ao povo. Ela previu a
tragédia do sonhador, pois pobre não podia sonhar com liberdade e muito menos falar em ser livre.

i) EMBUÇADO - Alguém mascarado alertou os Inconfidentes que fugissem, pois as prisões já estavam
decretadas. Aconselhou Cláudio Manuel a desaparecer.

j) CARRASCO CAPITANIA - Acreditava nas boas intenções de Tiradentes; portanto, antes de enforcá-lo,
ajoelhou a seus pés e chorou.

l) BÊBADO DESCRENTE - Questionou o absurdo de se fazer um cortejo festivo para conduzir Tiradentes
à força ironicamente, apresentava-se mais lúcido que tantos, pois desaprovava o horror da morte na forca ser
tão festejada.

m) ILUSTRES ASSASSINOS - Aqueles gananciosos por riqueza e poder, os quais assinavam condenações à
morte dos que se punham em desfavor aos seus interesses pessoais.

n) PASCOAL DA SILVA GUIMARÃES - Imigrante português enriquecido no comércio e mineração.


Juntamente com Felipe dos Santos articulou o levante de 1720.

o) TROPEIROS - Os que conduziam animais de cargas. Alguns criticavam Tiradentes, outros admiravam-no
ao ouvi-lo falar no sonho de liberdade. Tantos consideravam-no louco.

VIII - RECONSTITUIÇÃO HISTÓRICA

l °) A ÉPOCA DO OURO - VILA RICA

Reflexões sobre os acontecimentos trágicos em consequência da ganância (fome) de ouro. Morte, prisões,
loucura não havia nada que cessasse a ambição (febre) pelo ouro. Gerações inteiras se sucederam na cata de
riqueza, perdidas num abismo de ganância que superava a própria necessidade de viver. Instaurava-se um
clima de absoluta intranquilidade e exploração; os impostos abusivos (Quinto); Casa de Fundição (1719); a
revolta de Felipe dos Santos (1720) com a execução bárbara; falsificação do quinto do ouro; Chico Rei líder
do povo negro: "tanto escravo trabalhando para não ter nada". Brancos e negros já cativos do ouro.

2°) A ÉPOCA DO DIAMANTE - SERRO DO FRIO

A coroa Lusitana declarou monopólio sobre a extração do diamante (1729), portanto houve muita atividade clandestina e
contrabando. Criou-se o imposto por captação e a intendência dos diamantes (1734). Arraial do Tejuco - limitou-se a área do
garimpo. Arrendamento por braças;
suspendeu-se a captação. O processo do contrato: famoso contratador João Fernandes e sua amante Chica da Silva. O casal
exótico foi traído pelo Conde de Valadares, resultando o fim do império dos "donos" do Tejuco.

3°) A INCONFIDÊNCIA MINEIRA


Tece-se um painel social, político, económico dos antecedentes da Inconfidência Mineira: influência das
ideias Iluministas e da Independência dos E.U.A.; movimento mineiro contra a opressão, impulsionado -
idealizado pelas elites da influência liberal; crescimento das pressões económicas através de impostos
(Derrama) porque a Coroa Real não creditava na escassez do ouro.

Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, um alferes militar do regimento dos dragões, de espírito vivo
(empreendedor) inconformado com sua situação modesta, buscava fortuna e projeção social. Tentara formar
riqueza na mineração e fracassara. Sabia da opressão política e económica sobre Minas Gerais, sobre o
Brasil.
Relacionou-se com José Álvares Maciel, recém chegado da Europa, com ideias liberais a fervilharem.
Provavelmente Maciel teria sugerido plano inconfidente. Tiradentes, influenciado também por ideias dos
intelectuais e elites de Vila Rica, passou a divulgar ideias contra a opressão, destacava o confronto entre a
pobreza do povo e a opulência da terra. Portugal impedia a prosperidade da terra brasileira. O revolucionário
conseguiu adesão do Tenente Coronel Francisco Paula Freire ao movimento revoltoso.
Os inconfidentes marcaram o levante para o dia da Derrama - ("Tal Dia é o Balizado": código dos
conjurados). A ideia de iniciar a revolta em MG foi de Tiradentes, o qual recebeu o apoio de Alvarenga
Peixoto. A denúncia de Silvério dos Reis, aos ouvidos do Visconde de Barbacena, resultou a suspensão da
Derrama e por consequência inviabilizou o movimento inconfidente. Barbacena enviou Joaquim Silvério
ao Rio de Janeiro para delatar tudo ao Vice-Rei, D. Luís Vasconcelos Sousa. Prenderam Tiradentes no Rio
de Janeiro e em Vila Rica iniciou-se a Devassa, processo que durou 3 anos. Muitos inconfidentes foram
contemplados com o perdão régio; vários exilados; alguns condenados ao cárcere perpétuo; apenas
Tiradentes recebeu a pena máxima por crime de Lesa-Majestade: enforcamento. O réu foi executado no
Campo da Lampadósia a 21 de abril de 1792. Depois de enforcado, esquartejaram-no e seus pedaços foram
exibidos aos olhos do povo. O traído serviu ao sacrifício exemplar para meter medo na população colonial.
A dimensão de herói para Tiradentes só ocorreu com o advento da República, a qual o consagrou como
Mártir da Liberdade (século XIX).

IX - PERFIL DO ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA

Há perspectivas universalistas no questíonamento das arbitrariedades -atrocidades do poder condenador. O


poder autoritário, assassino, ganancioso garante a soberania do Estado através de mecanismos punitivos. A
força bruta manda calar os que ousam protestar contra a opressão.
A densidade universal focaliza sonhos de liberdade, autonomia política, traição, destinos, amores, cobiças,
vida e morte. Defesa da luta revolucionária por liberdade, dignidade, justiça social (conspiração contra o
poder). As Ideias de Independência motivadas por pensamentos iluministas e ideias libertárias. Nenhum
brilho, nem do ouro ou do diamante, brilha mais do que o brilho da liberdade.
"A noção ou sentimento de transitoriedade de tudo é o fundamento da minha personalidade. Creio que isso
explica tudo quanto tenho feito em Literatura, jornalismo, educação". (Declaração de Cecília Meireles).
Percebe-se no Romanceiro da Inconfidência a temática da brevidade da vida, da fugacidade e ação voraz
do tempo: o homem submisso à voracidade do tempo. A necessidade de resgatar a época histórica:
valorização do sentimento nacionalista, das tradições, do passado de uma pátria. Existe na obra um lirismo
equilibrado e sóbrio, o qual revela um domínio absoluto das expressões poéticas, para transmitir sentimentos
de tristeza e de resignação frente ao desconcerto do mundo, à natureza humana, ao inevitável trágico destino,
ao homem envolto pêlos acontecimentos históricos de natureza opressora.
X - SELEÇÃO DE POEMAS
FALA INICIAL

Não posso mover meus passos e o sangue dos enforcados...


por esse atroz labirinto - liras, espadas e cruzes
de esquecimento e cegueira pura cinza agora são.
em que amores e ódios vão: Na mesma cava, as palavras,
- pois sinto bater os sinos, o secreto pensamento,
percebo o roçar das rezas, as comas e os machados,
vejo o arrepio da morte, mentira e verdade estão.
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra Aqui, além, pelo mundo,
e a sombra do carcereiro ossos, nomes, letras, poeira...
que transita sobre angústias, Onde, os rostos? onde. as almas?
com chaves no coração; Nem os herdeiros recordam
- descubro as altas madeiras rastro nenhum pelo chão.
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas, Ó grandes muros sem eco,
o pasmo da multidão. presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
Batem patas de cavalo. sua vasta solidão...
Suam soldados imóveis. Não choraremos o que houve,
Na frente dos oratórios, nem os que chorar queremos:
que vale mais a oração? contra rocas de ignorância
Vale a voz do Brigadeiro rebenta a nossa aflição.
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha, Choramos esse mistério,
-já louca e fora do trono esse esquema sobre-humano,
- na sua proclamação. a força, o jogo, o acidente
O meio-dia confuso, da indizível conjunção
O vinte-e-um de abril sinistro, que ordena vidas e mundos
que intrigas de ouro e de sonho em pólos inexoráveis
houve em tua formação? de ruína e de exaltação.
Quem ordena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente? O silenciosas vertentes
por onde se precipitam
Na mesma cova do tempo inexplicáveis torrentes,
cai o castigo e o perdão. por eterna escuridão!
Morre a tinta das sentenças
ROMANCE I OU DA REVELAÇÃO DO OURO

Lá vão pelo tempo adentro ambiciosos e avarentos,


esses homens desgrenhados: abomináveis e bravos,
duro vestido de couro para fortuitas riquezas,
enfrenta espinhos e galhos; estendendo inquietos braços,
em sua carta curtida - os olhos já sem clareza,
não pousa vespa ou moscardo; - os lábios secos e amargos.
comem larvas, passarinhos,
palmitos e papagaios; (Que efeito de vós, ó sombras
sua fome verdadeira que leva de rastos?)
é de rios muito largos,
com franjas de prata e de ouro, E, atrás deles, filhos, netos,
de esmeraldas e topázios. seguindo os antepassados,
vêm deixar a sua vida,
(Que efeito de ti, montanha, Caindo nos mesmos laços,
que a face escondes no espaço?) perdidos na mesma sede,
teimosos, desesperados,
por minas de prata e de ouro
Selvas, montanhas e rios curtindo destino ingrato.
estão transidos de pasmo. Emaranhado seus nomes
E que avançam, terra adentro, para a glória e o desbarato,
os homens alucinados. quando, dos perigos de hoje.
Levam guampas, levam cuias, outros nascerem, mais altos.
levam flechas, levam arcos; Que a sede de ouro é sem cura,
atolam-se em lama negra, e, por ela subjugados,
escorregam por penhascos, os homens matam-se e morrem,
morrem de audácia e miséria, ficam mortos, mas não fartos.
nesse temerário assalto,
ROMANCE V OU
DA DESTRUIÇÃO DO OURO POBRE

Dorme, meu menino, dorme, Dentro do tempo há mais tempo,


que o mundo vai se acabar. e, na roca da ambição, vai-se preparando
Vieram cavalos de fogo: [a teia
são do Conde de Assumar. dos castigos que virão:
PeIo Arraial de Ouro Podre, há mais forcas, mais suplícios
começa o incêndio a lavrar. para os netos da traição.

O Conde jurou no Carmo Em baixo e em cima da terra,


não fazer mal a ninguém. o ouro um dia vai secar.
(Vede agora pelo morro Toda vez que um justo grita,
que palavra o conde tem! um carrasco o vem calar.
Casas, muros, gente aflita Quem não presta, fica vivo;
no fogo rolando vêm!) quem é bom, mandam matar.

Dorme, meu menino, dorme... Dorme, meu menino, dorme,


Dorme e não queiras sonhar. - que Deus te ensine a lição
Morreu Felipe dos Santos dos que sofrem neste mundo
e, por castigo exemplar, violência e perseguição.
depois de morto na forca, Morreu Felipe dos Santos
mandaram-no esquartejar! outros, porém, nascerão.

Cavalos a que o prenderam, Não há Conde, não há forca,


estremeciam de dó, não há coroa real
!
por arrastarem seu corpo mais seguros que estas casas,
ensanguentado, no pó. que estas pedras do arraial,
Há multidões para os vivos: desse Arraial do Ouro Podre
porém quem morre vai só. que foi de Mestre Pascoal.
ROMANCE VIII OU DO
CHICO-REI

Tigre está rugindo Mais ouro, mais ouro,


nas praias do mar. ainda vêm buscar.
Vamos cavar a terra, povo, Dobra a cabeça, e espera, povo,
entrar pelas águas: que este cativeiro
o Rei pede mais ouro, já nos escorrega dos ombros,
sempre, para Portugal. já não pesa mais!

Muito longe, em Luanda, Olha a festa armada:


era bom viver. é vermelha e azul.
Bate a enxada comigo, povo, Canta e dança agora, meu povo,
desce pelas grotas! livres somos todos!
-Lana banda em que corre o Congo Louvada a Virgem do Rosário,
eu também fui Rei. vestida de luz.
ROMANCE XIV OU
DA CHICA DA SILVA

(Isso foi lá par a os lados Gira a noite, gira,


do Tejuco, onde os diamantes dourada ciranda
transbordam do cascalho.) da Chica da Silva,
da Chica-que-manda.
Que andor se atavia
naquela varanda? E que tanque de assombro
E a Chica da Silva: veleja o navio
é a Chica-que-manda! da dona do dono
do Serro do Frio
Cara cor da noite, (Dez homens o tripulavam,
olhos cor de estrela. para, que a negra entendess
Vem gente de longe e como andam barcos nas águas.)
para conhecê-la.
Nem Santa Efigênia,
(Por baixo da cabeleira, toda em festa acesa,
tinha a cabeça rapada brilha mais que a negra
e até dizem que era feia.) na sua riqueza.
Vestida de tisso, Contemplai, branquinhas,
de raso e de holanda, na sua varanda,
-é a Chica da Silva a Chica da Silva,
é a Chica-que-manda! a Chica-que-manda!

Escravas, mordomos (Coisa igual nunca se viu.


seguem, como um rio, Dom João Quinto, rei famoso,
a dona do dono não teve mulher assim!)
do Serro do Frio.
ROMANCE XV OU DAS CISMAS DA CHICA DA SILVA

Na sua cama dourada, Aqueles folhelhos de ouro


Chica da Silva não dorme. iluminaram-lhe a vista.
Pensa nas falas do Conde, Se é pobreza que sofre,
pensa no ouro, e desta sorte que custa, dar-lhe alegria?
aconselha a João Fernandes: Não se há de dizem que a um nobre
- Hoje, todo o mundo corre, não deram socorro as Minas...
Senhor, atrás de riquezas:
nem é doutro mal que sofre E diz a Chica da Silva
esse vosso falso amigo, ao ricaço do Tejuco:
esse Conde de má sorte. - Eu neste Conde não creio;
Quem sabe o que o traz tão longe? com seus modos não me iluso;
Quais serão as suas ordens? detrás de suas palavras,
E o Contratador responde anda algum sentido oculto.
(imagino o que dizia): Os homens, à luz do dia,
- O Conde de Valadares olham bem, mas não vêm muito:
de mágoa e pesar definha, dentro de quatro paredes,
por ter uma família ausente as mulheres sabem tudo.
E a nobre Casa em ruínas. Deus me perdoe, mas o Conde
vem cá por outros assuntos.

CENÁRIO
Eis a estrada, eisaponte, eis a montanha
sobre a qual se recorta a igreja branca.

Eis o cavalo pela verde encosta.


Eis a soleira, o pátio, e a mesma porta.

E a direção do olhar. E o espaço antigo


para a forma do gesto e do vestido.

E o lugar da esperança. E a fonte. E a sombra.


E a voz que já não fala, e se prolonga.

E eis a névoa que chega, envolve as ruas,


move a ilusão de tempos e figuras.

A névoa que se adensa e vai formando


Nublados reinos de saudade e pranto.
ROMANCE XXIV ou DA BANDEIRA DAINCONFIDÊNCIA

Através de grossas portas, de lavras e de fazendas,


sentem-se luzes acesas, de ministros e rainhas
-e há indagações minuciosas e das colónias inglesas.
dentro das casas fronteiras:
olhos colados aos vidros, Atrás de portas fechadas,
mulheres e homens à espreita, à luz de velas acesas,
caras disformes de insónia, uns sugerem, uns recusam,
vigiando as ações alheias. uns ouvem, uns aconselham.
Pelas gretas das janelas, Se a derrama for lançada,
pelas frestas das esteiras, há levante, com certeza.
agudas setas atiram Corre-se por essas ruas?
a inveja e a maledicência. Corta-se alguma cabeça?
Palavras conjeturadas Do cimo de alguma escada,
oscilam no ar de surpresas, profere-se alguma arenga?
como peludas aranhas Que bandeira se desdobra?
na gosma das teias densas, Com que figura ou legenda?
rápidas e envenenadas, Coisas da Maçonaria,
engenhosas, sorrateiras. do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Atrás de portas fechadas, Um génio a quebrar algemas?
à luz de velas acesas,
brilham/ardas e casacas, Vede como está contente,
unto com batinas pretas. pelos horrores escritos,
E há finas mãos pensativas, esse impostor caloteiro
entre galões, sedas, rendas, que em tremendos labirintos
e há grossas mãos vigorosas, prende os homens indefesos
de unhas fortes, duras veias, e beija os pés aos ministros!
e há mãos de púlpito e altares,
de Evangelhos, cruzes, bênçãos. (No grande espelho do tempo,
Uns são reinais, uns mazombos; cada vida se retraía:
e pensam de mil maneiras; os heróis, em seus degredos
mas citam Vergílio e Horácio, ou mortos em plena praça;
e refletem, e argumentam, - os delatores, cobrando
falam de minas e impostos, o preço das suas cartas...)
ROMANCE XXXVII ou DE MAIO DE 1789

1° de Maio

Passou por aqui o Alferes? Já se sabe quem foi preso.


Sim, passou, mas já vai longe. Ninguém dorme. Todos falam,
Quem vem agora trás dele? todos se benzem de medo.
Quem voa pelo horizonte? Passos da escolta nas ruas
Dizem que é Joaquim Sitvério! - que grandes passos, no Tempo!
(Maldito seja tal homem: Mas o homem que vão levando
tem vilania de Judas é quase só pensamento:
com arrogâncias de Conde.}
- Minas da minha esperança,
Mesmo na Semana Santa, Minas do meu desespero!
esteve escolhendo os nomes Agarraram-me os soldados,
dos que vão ser perseguidos. como qualquer bandoleiro.
E venceu vales e montes Vim trabalhar para todos,
no encalço de um condenado, E abandonado me vejo.
para que de perto o aponte Todos tremem. Todos fogem.
(e o Tempo, que é só memória, A quem dediquei meu zelo?
com sua sombra se assombre).

Por que as Minas estremecem


10 de Maio com dolorosa ansiedade?
- Foi preso um simples Alferes,
Noite escura. Duro passos. que só tinha um bacamarte.

Fim de Maio

Andam as quatro comarcas


em grande desassossego:
vão soldados, vêm soldados;
tremem os brancos e os negros.
Seja levaram Gonzaga
e Alvarenga, mais Toledo!
Se a Cláudio mandam recados
para se esconda a tempo!
ROMANCE I, IIl ou DAS PALAVRAS AÉREAS

Ai, palavras, ai, palavras, Ai, palavras, ai, palavras,


que estranha potência, a vossa! i dei s pé Ia estrada afora,
Ai, palavras, ai, palavras, erguendo asas muito incertas,
sois de vento, ides no vento, entre verdade e galhofa,
no vento que não retoma, desejos do tempo inquieto,
e, em tão rápida existência, promessas que o mundo sopra...
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento, Ai, palavras, ai, palavras,
e quedais, com sorte nova! mirai-vos: que sois, agora?

Ai, palavras, ai, palavras, -Acusações, sentinelas,


que estranha potência, a vossa! bacamarte, algema, escolta;
Todo o sentido da vida - o olho ardente da perfídia,
principia à vossa porta; a velar, na noite morta
o mel do amor cristaliza - a umidade dos presídios,
seu perfume em vossa rosa; - a solidão pavorosa
sois o sonho e sois a audácia, - duro ferro de perguntas
calúnia, fúria, derrota.. com sangue em cada resposta
. - e a sentença que caminha
A liberdade das almas, - e a esperança que não volta
ai! Com letras se elabora... -e o coração que vascila
E dos venenos humanos -e o castigo que galopa
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro Ai, palavras, ai, palavras,
e mais que o aço poderosa! que estranha potência a vossa!
Reis, impérios, povos, tempos, Perdão podíeis ter sido!
pelo vosso impulso rodam... - sois madeira que se corta,
- sois vinte degraus de escada,
Detrás de grossas paredes, - sois um pedaço de corda...
de leve, quem vos desfolha? - sois povo peIas janelas,
Pareceis de ténue seda, cortejo, bandeira, tropa...
sem peso de ação nem de hora...
- e estais no bico das penas, Ai, palavras, ai, palavras
e estais na tinta que as molha, que estranha potência a vossa!
e estais nas mãos dos juizes, Éreis um sopro de aragem...
e sois barco para o exílio, - sois um homem que se enforca!
e sois Moçambique e Angola!
ROMANCE LXIII ou DO SILÊNCIO DO ALFERES

"Vou trabalhar para todos!" Mas largo é o rio na serra!


- disse a voz do alto da estrada. "Quem tivesse uma canoa...
Mas o eco andava tão longe! " (Não servira para nada...)
E os homens, que estavam perto,
Não repercutiam nada... (Já vão subindo os algozes,
com duros passos na escada.
"Bebamos, pois, ao futuro!" No bacamarte que empunha,
- exclamara na pousada. há quatro dedos de chumbo,
Todos beberam com ele, porém não dispara nada.
todos estavam de acordo. Tanto tempo na masmorra!
E agora não sabem nada. Tanta coisa mal contada!
Os outros têm privilégios,
"Levai bem pólvora e chumbo!" amigos, ouro, parentes...
disse a voz aos da boiada. Só ele é que não tem nada.
Mas o rosilho passava,
e os homens riam-se dela, E vós sabeis, ó vilas,
sem lhe responderem nada. e tu bem sabes, estrada,
quem galopava essa terra,
"Quem me segue? Que me querem? " quem servia, quem sofria,
- pergunta a voz espantada. por quem não fazia nada!
Mas o traidor escondido
e as sentinelas esquivas Dizem que por sua língua
não lhe esclarecem mais nada. anda a terra emaranhada...
Pois quem quiser faça agora
Já se afastam os amigos, perguntas sobre perguntas,
e já não tem mais amada. - que já não responde nada
Leva uma dobla no bolso, .
leva uma estrela no sonho, Já lhe vão tirando a vida.
e uma tristeza sem nada. Já tem a vida tirada.
Agora é puro silêncio,
("Ah, se eu me apanhasse em Minas...") repartido aos quatro ventos,
- suspira a voz fatigada. já sem lembrança de nada.)
FALA AOS INCONFIDENTES MORTOS

Treva da noite, Parada noite,


lanosa capa suspensa em bruma:
nos ombros curvos não, não se avistam
dos altos montes os fundos leitos...
aglomerados... Mas, no horizonte
Agora, tudo do que é memória
jaz em silêncio: da eternidade,
amor, inveja, ódio, inocência, referve o embate
no imenso tempo de antigas horas,
se estão lavando... de antigos fatos,
de homens antigos.
Grosso cascalho
da humana vida... E aqui ficamos
Negros orgulhos, todos contritos,
ingénua audácia, a ouvir na névoa
e fingimentos o desconforme,
(e covardias!) submerso curso
vão dando voltas dessa torrente
no imenso tempo, do purgatório...
- à água implacável
do tempo imenso, Quais os que tombam,
rodando soltos, em crime exaustos.
com sua rude quais os que sobrem,
miséria exposta... purificados?

XI - QUESTÕES OBJETIVAS

l) Todas as afirmativas referentes ao ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meireles estão


correias, EXCETO:

a) Tomás António foi inconfidente ativo, convicto conforme no romance "um preso chamado Gonzaga".
b) Os amores de Marília e Dirceu foram "ilusões da vida em flor", pois o antigo ouvidor se casou com outra
noiva.
c) Enfoque para o sofrimento de Marília, que se recusou a aceitar o fim de seu idílio amoroso com Gonzaga.
d) Em maio, no exílio, o poeta Tomás António Gonzaga casou-se com dona Juliana de Mascarenhas.
e) Por ocasião de sua prisão, os bens do poeta Dirceu foram sequestrados, por ordens da Coroa Portuguesa.

2) Em todas as opções há exemplo do autoritarismo da Metrópole frente ao Brasil Colónia, a partir da leitura
do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meireles, EXCETO em:

a) "- Acusações, sentinelas,


bacamarte, algema, escolta:
- o olho ardente da perfídia.
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa."
b) "Já vem o peso da morte,
com seus rubros cadafalsos,
com suas cordas potentes,
com seus sinistros machados,
com seus postes infamantes
para os corpos em pedaços;
já vem a Jurisprudência
interpretar cada caso,
- e o Reino está muito longe,
- e há muito ouro no cascalho,
- e a Justiça é mais severa
com os homens mais desarmados."

c) "Ah, quem põe cadeias


também nos meus braços?
Quem minha alma assombra
com tanto perigo?
Em sonho rodeias
Meus ocultos passos.
Ouve a tua sombra
o que, longe, digo?"

d) "Não creio que a alma padeça


tanto quanto o corpo aberto,
com chumbo e enxofre a correrem
pelas chagas, nem consiga
o inverno inventar mais dores
do que os terrenos decretos
que o trono augusto sustém."

e) "Eram muito mais os sócios:


- a trempe tem muitas pernas...
mas, por isto ou por aquilo,
por estas razões e aquelas,
agarraram-se, somente,
os que foram indicados,
- pois mais pode quem governa..."

3) Assinale a opção que aponta os pusilânimes, conforme se apresentam na obra ROMANCEIRO DA


INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meireles:

a) Inácio Pamplona e Padre Rolim.


b) Alferes Vitoriano e Caixeiro Vicente.
c) Joaquim Silvério e Carrasco Capitania.
!
d) Testemunha falsa e Padre Rolim.
e) Silvério dos Reis e Caixeiro Vicente.

4) Todos os fragmentos apontam para o ritual da morte do alferes Tiradentes, conforme se lê no


ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meireles, EXCETO:

a) "E ver levantar-se o braço,


e ver pular pelo espaço
o negro Capitania!

"Nem por pensamento traías


teu Rei..." Mas, na grande praça
há um silencioso tumulto:
grito do remorso oculto,
sentimento da desgraça...

Pára o tempo, de repente.,


Fica o dia diferente.
E agora a carreta passa.”

b) "Já vai o mártir andando


cercado da clerezia.
Franjas, arreios dourados,
clarins, cavalos, soldados,
e uma carreta sombria,

Ah, quanto povo apinhado


pêlos morros e janelas!
Ouvidores e ministros
Carregam perfis sinistros
No alto de faustosas selas.

c) "Era o clero, a nobreza, o povo


e, entre aspersões e responsórios,
estolas, reverências, velas,
a oscilação dos incensórios.
E cavalos de mantas pretas
levando a vagos territórios
um pequeno corpo sozinho,
perdido em régios envoltórios."

d) "- agora estão vendo ao longe,


de longe escutando o passo
do alferes que vai à forca,
levando ao peito o baraço,
levando no pensamento
caras, palavras e fatos:
as promessas, as mentiras,
línguas vis, amigos falsos,
coronéis, contrabandistas,
ermitões e potentados,
estalagens, vozes, sombras,
adeuses, rios, cavalos..."

e) 'Parecia um santo
de mãos amarradas,
no meio de cruzes,
bandeiras e espadas.
- Se aquela sentença
já se conhecia,
por que retardaram
a sua agonia.
(Não soube. Ninguém sabia.)"

5) Todas as opções apresentam características da obra de Cecília Meireles,


ROMANCEIRO D AINCONFIDÊNCIA, EXCETO:

a) Mistura de subjetividade em reinterpretação histórica.


b) Descrição de cenários da antiga Vila Rica.
c) Indignação frente ao autoritarismo do poder da metrópole sobre a Colónia.
d) Excludência de uma avaliação crítica sobre a história que se reescreve.
e) Defesa do direito ao pensamento libertário, e à dignidade humana.

6) Em todas as opções, os versos do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de


CecHia Meireles, expressam claramente a ideia de opressão política,
EXCETO em:

a) "Lá vai para a serra,


comentando fatos:
Haverá derrama?
Haverá levante?
Já mandou recados,
Conspira, organiza,
anda em sobressalto."

b) "Dorme, meu menino, dorme


- que Deus te ensine a lição
dos que sofrem neste mundo
violência e perseguição.
Morreu Felipe dos Santos:
outros, porém, nascerão."

c) "É por isso que se entreolham


com duas pupilas de aço;
que uns aos outros se destroçam
com seus facões e machados;
companheiros e parentes
são rivais e amigos falsos."

d) "(Agora são tempos de ouro.


Os de sangue vêm depois.
Vêm algemas, vêm sentenças,
vêm cordas e cadafalsos,
na era de noventa e dois)."

e) "... A que um dia fora aclamada


envolta em vestes lampej antes,
onde o que não fosse ouro e prata
era de flores de brilhantes...
A que de olhos tristes mirava
Paisagens, multidões, semblantes,..."

7) Todas as estrofes do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília


Meireles, identificam a mesma personagem da Inconfidência Mineira,
EXCETO:

a) "E sua mulher tão bela;


e sai mulher tão nobre,
Bárbara - que ele dizia
a sua Estrela do Norte, ,
nem lhe dirigia a vida
nem o salvara da morte."

b) "Inocente, culpado?
Enganoso? Sincero?
por muito que o confesse,
o amor não recupero
No entanto, ó surda gente,
daqui nem ouro quero"...
c) "Era em maio, foi por maio,
quando a ti, pobre pastor,
te vieram cercar a casa,
de prisão danto-te voz.
Iguais corriam as fontes,
como em dias de primor."

d) "- Pêlos modos, me parede


que lhe hão de fazer bem falta?
Dizem que tinha um cavalo
que Págasos se chamava.
Não pisava neste mundo,
mas nos planaltos da Arcádia."

e) "Escapaste aqui da forca,


da forca e das línguas bravas;
vê se te livras das febres,
que se levantam nas vagas,
e vão seguindo navio
com seus cintilantes miasmas..."

8) Todos os episódios relacionados nas opções podem ser lidos no


ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meireles, EXCETO:

a) A morte de Felipe dos Santos, na forca, em 1720. Ele foi condenado pelo
Conde de Assumar, porque organizou uma revolta contra o poder lusitano.

b) A trama da Inconfidência articulada por intelectuais, militares, religiosos


(mozambos e reinóis) contra a opressão da Metrópole portuguesa, que
sufocava a colónia com altíssimos impostos.

c) Ênfase para a loucura da Rainha Maria I, que assinou a condenação dos


Inconfidentes e a sentença de morte na forca para Joaquim José da Silva
Xavier.

d) A execução sigilosa do Pé. Toledo, que por ser membro da Igreja, não foi
submetido ao sacrifício exemplar, em praça pública, e sim morto às
escondidas.

e) A liderança de Chico Rei que estimulava os negros a extraviar o ouro nas


catas, para comprarem a liberdade.

9)

"Maldito
esse ouro que faz escravos,
esse ouro que faz algemas,
que levanta densos muros
para as grades nas cadeias,
que arma nas praças as forcas,
lavra as injustas sentenças,
arrasta pêlos caminhos
vítimas que se a esquartejam."
A melhor temática para os versos extraídos do ROMANCEIRO DA
INCONFIDÊNCIA, de Cecüia Meireles esta na opção:

a) A força indomável da ambição que se alimenta de ouro e diamante, de


coisas e de gente.
b) A inútil defesa, a irremediável saudade, levando as vítimas da inveja e da
fome de ouro e diamante.
c) O efeito da cobiça, do desespero da maledicência daqueles que almejavam
a liberdade e a riqueza.
d) O fracasso das inconfidências e dos inconfidentes traídos, amaldiçoados
pela desgraça.
e) A ambição e as injustiças dos cobiçosos, agindo em nome do ouro e
fazendo vítimas.

10) Há apenas uma opção INCORRETA quanto ao ROMANCEIRO DA


INCONFIDÊNCIA de Cecília Meireles assinale-a:

a) As personagens poético-históricas apresentam-se tão estáticas como se


estivessem realmente paradas no tempo remoto.
b) Há recriação da fala/ pensamentos das personagens com o emprego de
diálogos e monólogos.
c) O ambiente social, político e económico de Minas Gerais, por ocasião da
Inconfidência Mineira, é resgatado na memória.
d) Observam-se muitas realidades contraditórias expressas através de
antíteses e paradoxos.
e) Os vocativos, as vozes anónimas são constantemente utilizadas como
recursos expressivos.
Pag 38

11) Em todos os fragmentos do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecflia


Meireles, há vozes no passado a ecoarem no tempo, EXCETO:

a) "E diz o Vigário ao Poeta;


"Escreva-me aquela letra
do versinho de Verfílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados,
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE."

b) "Tigre está rugindo


nas praias do mar...
Hoje, os brancos também, meu povo,
são tristes cativos!
Virgem do Rosário, deixai-nos
Descansar em paz."

c) "Ou fala? E apenas


o nosso ouvido,
na terra surda
que os homens pisam,
já nada entende
do vosso longo,
triste discurso,
- amáveis sombras."

d) "Vou para o Inferno!"- murmura.


"Já estou no Inverno!" "Não
quero que o Diabo me veja!"...
- clama.

e) "- Ordens são, que hoje recebo...


Fala o Conde mui fingido:
- Padece por vós meu zelo:
de um lado, o dever de amigo,
mas, de outro, a lealdade ao
Reino..."

12) Assinale a opção INCORRETA quanto à identificação dos inconfidentes,


registrados por Cecïïia Meireles, no ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA.

a) "Sete pecados consigo


sorridente carregava.
Se setenta e sete houvera,
do mesmo modo os levara.
Por escândalos de amores, Padre Oliveira Rolim
sacerdote se ordenara.
Só Deus sabia os limites
entre seu corpo e sua alma!”

b) "Com seus vários camaradas?


E as cadeiras de cabiúna,
que se viam nesta sala?
E os seus brilhantes damascos, Alvarenga Peixoto
de ramagens encarnadas?
Onde, as feras? Onde, os vinhos?
Onde, as temerárias falas?"

c) "Foi trabalhar para todos...


- e vede o que lhe acontece!
Daqueles a quem servia, Joaquim José da Silva Xavier
Já nenhum mais o conhece.
Quando a desgraça é profunda,
que amigo se compadece?"

d) "Inocente, culpado?
Enganoso? Sincero?
Por muito que o confesse, Tomás António Gonzaga
o amor não recupero.
No entanto, ó surda gente,
Daqui nem ouro quero..."

e) "Que fugisse, que fugisse...


- bem lhe dissera o embuçado! - Cláudio Manoel da Costa
que não tardava a ser preso,
que já estava condenado,
que, os papéis, queimasse-os todos..."
Vede agora o resultado:
mais do que preso, está morto,
numa estante reclinado,
e com o pescoço metido
num nó de atilho encarnado."

XII-RESPOSTAS

01-A 04-C 07-A 10-A


02-C 05-D 08-D 11-C
03-E 06-E 09-A 12-B

Maria Betânia Diniz Ferreira.

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