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CALCULO das fungoes de uma variavel Volume 1 7 EDICAO Geraldo Avila LTC EDITORA [No interesse de difuséo da cultura edo conhecimento, o autor ¢ os editores envidaram © ‘maximo esforgo para loealizar os detentores dos dirsitos autorais de qualquer mat ‘utilizado, dispondo-se a possiveis acertos posteriores caso, inadvertidamente, a identificags0 de algum doles tenha sido omitida. LEdigio: 1978 —Reimpressio: 1978 2S Bdigso: 1978, 1980 198] —Reimpressdes: 1982, 1983,1985, 1986 (duas), 1988, 1989 ¢ 1991, 19902 1904 — Reimpresses: 1995 (duas), 1997, 1998, 2000, 2001 « 2002 178 Edigdo: 2003 — Reimpressto: 2006 e 2007 Dircitos exclusives para a lingua portuguesa, Copyright © 20013 by Geraldo Severo de Souza Avila LUC — Livros Técnicos e Cientificos Kditora S.A. ‘Travessa do Ouvidor, 11 Rio de Janeiro, RJ — CEP 20040040 Tel: 21-3970-9480, Fax: 21-2221-3202 te@lteeditoracom br www lteeditora.com.be Reservados todas os direitos. F proibids a duplicagao ‘ou reproduce deste volume, no todo ou em parte, fob quaisquer formas ou por quaisquer meios (elettonico, mecanico, aravago,fotocspia, dlistibuigio na Web ou outros), sem permissio expressa da Euitora, A minha recém-chegada neta Camila com muito carinho Sumé4rio Prefacio Uma palavra com o professor ‘Uma palavra com o esiudante Uma palavra com o professor ¢ 0 estudante Os agraclecimentos 1 Ntimeros reais e coordenadas na reta ld 12 13 Niimeros reais Niimeros irracionais, Arraiz quadrada de 2 Niimeros reais... 4.4 Coordenadas na reta Exerctcios . Rusposras, SuGHSTORS & SOLUGOES Intervalos, valor absoluto e inequagées Implicagao e equivaléncia . . . . . Desigualdades Valor absoluto E.quagées e inequagdes enwvolvendo 0 valor absoluto Exercicios RESPOSTAS, SUGESTORS F SOLUGOES . Notas histéricas : Representagao decimal. Grandezas incomensurdveis, 2 Equagoes e graficos 24 22 23 Coordenadas no plano EXEROICIOS . . Ruspostas, SUGBSTORS B SOLUGOES . Bquagio da reta 25 Deelive ou coeficiente angular . . . Equagdo da veta 0 dective ajuda na construgeo do grafico Equagdo geraldarcla. 0... es Reta na forma segmentaria, Retas paralelas EXBROIOIOS. . . . Ruspostas, SUGHSTORS & SOLGOES Distancia e perpendicularismo Retas perpendiculares . Exerotcios . Respostas, SuoESTOsS # SoLUGOES Equagdo da circunferéncia Completando quadrados Exerofoios « Resposnas, SuozstOss # SoLUeOEs Nota histérica: Descartes e Fermat 13 14 14 16 7 17 18 18 18 18 21 21 22, 23 25 26 26 28 29 30 30 31 33 33 34 viii Sumario Fungdes 35 3.1 | Fungdes € grificos : 35 O que caracteriza uma fungao . ee eae .. 86 ‘Terminologia e notagao Ee reastere rset ne ebevcet eer Uma notagdo precisa O contradominio . ene , argumento de uma fungao : Sees 37 Gratico e imagem 2 - * + 38 Exemplos de fungbes . . . ere 38 Translagao de gréficos.. ss eee 40 Formulas aproximadas e modelos ew +l Modelos em ciéncias exatas . . 41 Exprcictos re BELSHE STEM 2 Resposras, SUORATORS E SOLUEOES |. eee 32 Apardbola... . ore ; 43 Pardbolas mais abertas emais fechadas v2... gjutignera mes Ae Pardbolas transladadas . espacmongau nie mulla@e 45 Aparébolay = Vx « even a ‘ 47 PRWietG <7 ss aseiiwee rare: ae smmn aT wre 48 RESPOSTAS, SUOESTORSESOLUGOHS |. sss sce sv reece ctee esse eens 49 83° AHipérbole . . . : coe 49 Hipérboles do tipo y=hlt soe rrrrre reer nenreres i Uma aplicacsio em Biologia... . Snseias ganeed ass x 38 Produgao de calor no interior do Sol - 53 Bxercicios ‘ fakin ait 54 Resrostas, SuGHSTORS B SOLUGOES * 54 34 Notas histéricas z 55 Osimbolismo algébrico. ©... oe eee cee eee nnn: O conceite de fungao . gi neha A Sec usar HO OS H6 56 As segs cOnicas 57 Cleule do calor produride no Sal 60 4 Derivadas e limites ot 4.1 Reta tangente ¢ reta normal 61 Razao incremental . eee 62 Reta tangente ANd HER bu AES iUe oe 62 0 declive como limite 63 Reta normal 65 Exerotcios 65 Rusrostas, SUaESTOES & SOLUGON 66 42 Limite e contimidade wy vee eee 67 Gontinuidade e valor intermediario. «6... 69 Continuidade e descontinuidade . 70 Limites laterals... . « ey 1 Limites infinitos e limites no infinito se a ExzRcicios 68 7 B ResPostas, SUGBSTORS BSOLUIGOES oe ee B 48° Aderivada 8B Notagao monet Rap enenp manner. Continuidade das fungSes derivaveis. re eiiseanne Tt ExERcicios 8 Reseostas, SvoastORS E SoLUGOES 8 44° Aplicagies a Cinemética . fan anid eran oe 3 79 Velocidade instamtanea. oo... se. se pasonese 80 Movimento uniformemente variado Seramens 80. Sumério ix Equagao horéria EXERCICIOS . ‘ResPostas, SUGESTOBS 8 SOLUQDES - 45 Notas histéricas As origens da ciéneia moderna ‘Tycho Brahe e Johannes Kepler . Galileu e o telescépio . Caleulo no século XVI Arreta tangente segundo Fermat Arreta normal segundo Descartes Gurvas sem tangentes e movimento brown vi de instantinea 5 O.calculo formal de derivadas 5.1 Regras de derivacao. Derivada de c* Derivacia de uma soma Derivada de um produto. Derivuda de um quociente Exerctcros Rsrostas, SORSTORS B SOL!IQOES 5.2 Fungdo composta e regra da cadeia, Expxcicos . ResPostas, SUGESTOZS & SOLLIGORS 5.3 Fungdes implicitas Bxrrcicios RESPOSTaAS, SUGESTOES B SOLLIQOES ‘ungo inversa Definigdo de funeao inversa. . Fungées crescente ¢ decres Derivada da fungao inversa ExeRctcios Resrosras, Suaus Notas historicas O formalismio na Matemeética Leibniz O sonho de Leibniz George Boole . Gottlob Frege Os Fundamentos da Matematica, 54 SOLUQOES 6 Derivadas das funcdes trigonométricas 6.1 As fungoes trigonomeétricas As fungées seno e co-seno . « Grificos de seno ¢ eo-seno As fungdes tangente, cotangente, secante e co-secante | Uma fungao importante: sen(i/zt) EXERCICIOS . : Resrostas, SuaHSTOES B SOLUGOES 62 Ientidadies trigonornstricas Exexoicios Resposras, SUGESTOES B SOLGOBS 63 Derivadas das fungdes trigonomeétricas . Derivada do seno Derivada do co-seno . 91 81 91 92 93 94 94 95 96 99 100 100 102. 102, 104 104 105, 105 - 107 25 108 0 no 0 0 uw - ul 12 113, 113 113. 15 IT 118 ug 120 120 . 122 122 122 122 124 Sumétio 64 65 66 TL a 14 15 As fungdes logaritmica e exponencial Derivada das outras quatro fungdes trigonométricas . Dois exemplos importantes ExERatcios RESPOSTAS, SUOESTODS E SOLLIGOES. Formas indeterminadas, Formas do tipo 010 Formas do tipo see Formas do tipo o — ExExclcios . RasPostas, SUGESTORS B SOLUCOES . . . FungGes trigonométricas inversas, ‘A inversa da fungao seno ‘A inversa da fungo tangente ‘A inversa da fungao secante . . Exencicios Reseosras, SUOHSTOES E SOLUGORS . « Nolashistéricas .. 0.2... 4 Origens da trigonometria = Aristarco e a Astronomia aren aa Hiparco e a precessto dos equinécios. s+ - Ptolomen ea tabela de cordas As funcoes trigonométricas A fungao logaritmica 0 logaritmo natural Omimeroe Derivada do logaritmo Logaritmo do produto, do quociente e de uma poténcia . « Varios exemplos Grafico do logaritrno EXERCICWS . .. « . Resrostas, SUGESTORS E SOLUQOES A fungio exponencial Grifico da exponencial Propriedade fundamental A exponiencial a” As derivadas de oF ¢ a Aderivada dea Varios exemplos Logaritmo numa base qualquer Exencicios f Respostas, SUGESTOES E SoLUGOES As funcées hiperbélicas Interpretacao geométrica Propriedades acicionais das fungBes hiperbélieas ExERcto108 aul 833 ResposrAs, SUoBSTORS E SOLUGOES ‘Taxa de variaglo. Aplicagies a Beonomia EXERCICIOS . Reseostas, SuGESTOWS E SoLUGOES Notas histéricas ‘A nvengdo dos logaritmos s logaritmos no célculo numérico 124 126 1a? + 128 - 129 129 132 138 134 136 136 136 138 138 ML ui 142 142 142 144 145 146 uz 447 . 148 148 149 . 15h 152. 1b - 155 156 187 158 159 159 161 161 161 163 - 164 165 166 . 167 168 son 5 188 169 - 169 172 174 176 178 178. 179 Sumério xi Caleulando com logaritmos Como Briggs construiu wna tébua de logaritinos Asséries infinitas....... 6. 8 Maximos e minimos 8.1 Méximos e minimos ey Extremos locais e absolutos Extremos de fungdes continuas Varios exemplos . . ExERcicws . .. Resrosr4s, SUGESTORS E SOLUGOES 82 OTeoremado Valor Médio. .... . . « FungSes creseentes & decrescentes ‘Testes las derivadas primeira e segunda Exercicias ResPOsTAs, SUGESTOES E SOLUGOBS. 83 Problemas de méximos e minimos Bxercicios ResposTas, SUGESTOES E SOLLCOBS 84 Notas historicas . O Principio de Fermat e as ‘eis da Optica Geométrica 9 Comportamento das funcdes 9.1 Rograde L'Hépital . . Interpretagao geométrica Varios exemplos A lentidao do logaritmo O creseimento exponencial . . Outras formas indeterminadas Onumeto ¢ ExExcicios Resrostas, StionsTORS & SoLuGOES 9.2 Concavidade, inflexao e gréficos Exercictos . Resrostas, SvGESTOES & SOLUGOES 93 Aplieagbes da fungio exponencial ‘Turos composts... . Capitalizagao continua Crescimento populacional Desintegragio radioativa . . Amelavida ... Idades geolégicas, Pressio atmosfériea . . . Gireuito elétrico Exerctctos ResPostas, SuGESTORS E SOLUQOES 94 Notas historicas ; Os naturalistas Hades geol6aicas . O carbono-14 ¢ as idades arqueoldgicas 10 © CAlculo Integral 10.1 Primitivas Bxrretcios ‘Respostas, SUGESTORS E SOLUGOZS 179 1. 180 181 182 182 182 184 187 189 190 191 194 195 198, 199 201 207 209 210 210 212 212, 218 214 215 216 216 217 218 218, 219) oan = 222 223 223 224 226 27 229 230 = 230 231 = 232 233, 234 234 - 235 285 237 » 287 = 238 + 238 xii Suméio 102 O conceito de integral = + 239 Fungées integraveis ... 0... * kesigasag os cs eva 3 SO Quando o integrando é negativo 240 Propriedades da integral... eee ee eee BAL ‘Teorerna Fundamental do Céleulo . s i wa BAD Integral definida ¢ integral indefinida egoblamersmasanmer sc 0 BE Usando primitivas para calcular integtais 244 Vérios exemplos 6... 0. 244 Exencicog. 2... nex sx oe 0 BAB) Resrostas, SUGESTORS F SOLLOOES =. rrr 4 sap 5 MAT 10.3 Pungdes com saltos e desigualdades . ore : coe BAT Desigualdades A pr nea ingen 05 « BAD) Exencioios .. . . ‘ ° 250 ResposTas, SuaesToEs & SOLLIQOES 10.4 Integrais improprias .. .. . Observacoes importantes ExeRcicios Respostas, SUGHSTORS B SOLLIGOES 105° A integral de Riemann . Definigao ce integral Trabalho eenergia. .. 0... oe a8 oyu it4s: Movimento de queda livre»... 2. Velocidade de escape : EXBROIOIS ... . « 2m ert RESPOSTAS, SUGESTORS ESOUGOES © 106 Notas histéricas : Arquimedes ¢a érea do circulo . . “Arquimedes ea drea do segmento de parabola... 1.2... Bernhard Riemann IL Métodos de integracao 267 11.1 Integragao por substituiga 6... oe 267 Exercicios peyaene 270 Respostas, SUoBSTORS & SoLUGOES aEeBre Rta a a7 112 Inegeagdo por pares... eee eee ee a7 ExERCICIOS a Parad vin we ao wu 24 RespostAs, SUGBSTOES # SOLUGOES =. 25 11.8 Fungdes definidas por integrals 6. ee 275 © logatitmo - 275 {A fungao de distribnigao normal Sita xia nw eas ee an i BPD. A integral como instrumento para definir fungdes ves 5% 276 Fungdes elementares e transcendentes.... 0... e ees ens wenn BME Métodos mumeéricos . . . . aa ara u BAT 114 Fungdes racionais. . . , 278 Decomposigio em fragbes simples... . cee 279 Exproiotas ee 282 RESPOSTAS, SUGESTOES B SOLUQOES .. . . . aor emamm aan « BED 11.5 Produtos de poténcias trigonométricas . . : 288 Exexcicios errr ween ee 286 Respostas, SUGESTOES B SOLUGOES . . 5 287 116 Substituigao inversa so. we aaah 288 ExeRcicios . . . eee rere 289 ResPOSTAS, SUGESTOES B SOLUQOES eet rer era) 11.7 _Integrandos do tipo RE") Fanmans so 1 o BB Exercteros. x im ys ame ra aa: 300) Sumério 118 _Integrandos do tipo R(sen 1, cos.) EXERCICIOS : Respostas, SucesTOES 11.9 Integrandos do tipo R, ke # Exeroicios 11.10 Integrandos do tipo Rx, Jaz? +i 0).. EXeRotci0s Z LAL Notas histéricas Os mapas e anavesagao . . . « O mapa de Mercator... . Quem foi Mereator A idéia e o trabalto de Mercator Bibliografia comentada Indice remissivo ‘Tabela de primitivas OEE ee sso ae on xiii 290 292 292 295 296 296 297 297 298 - 298 209 302 305 309 Prefacio Este livro ¢ 0 primeiro de uma obra em dois volumes sobre o Célculo das fungdes de uma varidvel, Langado pela primeira vez em janeiro de 1978, jé passou por sucessivas edigdes e reimpressoes, sem ter sofrido grandes mudan- ‘cas. Mas a presente edicio apresenta modificacbes mais significativas que as anteriores. Alguns capftulos foram des- dobrados em varios outros, seja por raz6es didaticas, seja para enfatizar certos topicos de maior importancia. E este ‘caso das fungdes logaritmica e exponencial, que agora figuram em capitulo & parte. Do mesmo modo, as regras de Hopital eas aplicagoes ca fungao exponencal tarmbém aparecem 2 parte no Capftulo 9, permitindo dar mais énfa- se a esses t6picos. 0 Capitulo 10, sobre a integral, foi bastante refundido no que diz respeito & apresentacao desse conceito como limite de somas de Riemann, 0 texto fol revisado em varies de suas partes, para tornd-lo mals claro ao 1 As “Notas histéricas”no final de cada capitulo tém sido muito apreciadas, tanto por estudantes como por colegas professores, por isso mesmo cuidamos de aumenté-las ainda taais. [Nao obstante todas as modificacoes feitas, olivro guarda as mesmas caractoristicas das edigdes anteriores. Todo o material é desenvolvido de maneira pratica, utilizando bastante a intuigao e a visualizagdo geométrica, Mas isso ndo significa que adotamos atitudes "dogméticas”, dando “receitas” sem justificativas, Nada disso, Tanto é que vari- (0s dos exerefeios propostos sio do tipo “Demonstre”, “Prove que”, “Mostre que”. O estudante tem de se exercitar em questdes desse tipo; no ha como fazer Matematica sem demonstrar resultados, provar teoremas. Uma palavra com 0 professor Quando esse texto foi escrito, ha mais de duas décadas, os estudantes chegavam ao ensino superior com graves de- ficiéncias de formagdo basica, data necessidade da inclusdo de tépieos do ensino médio, como nogdes de Geometria. Analitica, fungdes — particularmente o logaritmo e a exponencial —e Trigonometria. Infelizmente, a situacio 1&0 melhorou, desde, pelo menos, 1968, ano esse que marca o inicio da grande expanstio do ensino superior. Por causa disso, esses mesmos tpicos continuam presentes no livro, Mas 0 Cleulo propriamente 86 se inicia no Capitulo 4, com 0 conceito de derivadla, Portanto, fea a critério do professor decidir exatamente onde, no livro, iniciar seu cur- so. Isso vai depender muito de seus objetivos e do nivel de preparo basico de seus alunos. Aolongo de melo séoulo de carreira académica, tiverios oportunidade de testemunhar varias mudangas no ensi- no da Matematica, Multas delas trouxeram inovacoes importantes, como a énfese que se procura dar atualmente & participagao ativa do ahuno no aprendizado, ao mesmo tempo que se atribul menor papel as aulas expositivas. Mas outras so modistios passageiras. Dentre estes lembro-me do que aconteceu a partir de 1965 nos Estados Unidos. Propalava-se ento a idéia de que o advento do computador dispensava o ensino da "Matemética do continuo”, vale dizer, do Calculo, como ele era ensinado tradicionalmente; e que a derivada deveria ser ensinada por métodos dis cretos, com 0 auxilio do computador. Varios textos “modernos” de Céleulo surgiram naquela época, seguindo essa linha de pensamento, mas er poueos anos o modismo passou ¢ esses livros desapareceram. A partir de 1985 aproximadamente surgiu, também nos Estados Unidos, um movimento de renovacao dos livros © do ensino de Cateula. Isso trouxe boas contribulgdes, como a jé mencionada énfase no papel ativo do aluno no aprendizado, mas também tem acarretado inconvenientes, tanto na insisténcia do uso exagerado de “softwares”, como num ensino tipo “receitudtio®, sem a devida apresentacdo de conceitos ¢ leorias que 0 justifiquem. Temos acompanhada esses desenvolvimentos, cientes das virtudes de certas inovagbes, porém sem prejuizo da preserva: (glo de valores consagrados do ensino. Cremos que a utilizagao de softwares & vantajosa, desde que nao substitua zhem prejudique a apresentagio tradicional das técnicas do Calculo. & preciso também que haja disciplinas sopara- cas (de Caloulo Numérico e Equagées Diferenciais, por exemplo), em que softwares sejamt utilizados inteligente- xvi Prefiicio mente, isto €, sem que o aluno deixe de ser informado sobre as teorias matemétieas a eles subjacentes.’ Nao pode- mos nos esquecer de que um primeiro curso de Caleulo exige muito em termos de trabalho purarente matemético. Algm da quantidade de matéria a ser coberta num tal curso, os novos conceitos e técnicas a serem desenvolvidos precisam ser tratados com cuidados especiais: os alunos nao apenas estao entrando em contato com idéias total- mente novas, mas todo esse material — como os conceitos de derivadae integral, ¢ as teenicas a eles associados — contrasta bastante com a Matematica do ensino médio, Isso significa, a nosso ver, que os softwares devem servir apenas como instrumento que facilite edlculos laboriosos, onde isso for possivel e convenient, mesmo porque no vemos onde um software possa ser utilizado com vantagem no desenvolvimento de conceitos e idéias do Céleulo. Esssas consideracies —necessariamente breves —sdo inseridas aqui para alertar nossos colegas professores sobre as muitas virtudes do ensino tradicional; e sobre os perigos dos atuais modismos, tanto os de natureza computacio: nal como 0s do ensino de fatos matemticos sem justificagdes tedricas. Nosso livro esta estruturado dentro de uta filosofia ce ensino da Matematica que acolhe inovagées inteligentes e proveitosas, sem prejutzo de valores antigos & consagrados Uma palavra com 0 estudante Ninguém aprende Matemvitica ouvindo o professor em sala de aula, por mals organizadas e claras que sejam suas prelegdes, por mais que se entencia tndo o que ele explica. [sso ajucla muito, mas € preciso estudar por conta prépria logo apés as aulas, antes que o beneficio delas desapareca com tempo. Portanto, vocé, leitor, nao vai aprender Matemdtica porque assiste aulas, mas porque estuda. E esse estudo exige muita disciplina e concentragio: estuda- se sentado A mesa, com lépis e papel A mio, prontos para serem ulilizados a todo momento. Voce tem de interron per a leitura com freqiiéncia para ensaiar a sua parte: fazer um grafico ou diagrama, escrever alguma coisa ou sirt- plesmente rabiscar uma figura cue ajude a seguir o raciocinio do livro, sugerir ou testar uma idéia; escrever uma formula, resolver urna equagdo ou fazer um célculo que verifique se alguma afirmacao do livro est mesmo correta. Por isso mesmo, nao espere que 0 livro seja completo, sem lacunas a serem preentchidas pelo leitor; do contrario, esse leitor seré induzido a uma situacao passiva, quando o mais importante & desenvolver as habilidades para 0 tra- talho independente, despertando a capacidade de iniciativa individual e a criatividade, Vocé estara fazendo pro- _gresso realmente significative quando sentir que est conseguindo aprender sozinho, sem ajuda do professor; quan- do sentir que esti realmente “aprendendo a aprender”, Os exercicios so uma das partes mais importantes do livro. De nada adianta estudar a teoria sem aplicar-se na resolugio dos exercivios propostos. Muitos desses exercicios sflo complements da teoria e nao postem ser negligen- clados, sob pena de grande prejufzo no aprendizado. Como em outros livros de nossa autoria, as istas de exercicios slo sempre seguidas de respostas para a maioria deles, sugestdes para alguns e solugdes para os mais dificeis ow menos familiares, Mas 0 leitor precisa saber usar esses recursos com proveito, s6 consultando-vs apés razodvel es- forgo proprio. E nao espere que uma sugesto ou resolugao seja completa, as vezes é apenas uma dica para dar inicio ‘ao trabalho inclependente do leitor. Uma palavra com o professor e o estudante Livros, é claro, sao feitos para serem lidos. Infelizmente, muitos livros didéticos so pouco utilizados de maneira adequada. O presente livro foi escrito com especial atenao a0 leitor. E uma das coisas que mais nos agradam a seu respeito so os comentarios que muitas vezes recebemos de estudantes que o utilizaram ou o utilizam, observando que se trata de um texto claro ¢ de facil compreensao, Houve mesmo quem nos escrevesse dizendo, entre outras coisas, que consegula estudar pelo livro sem precisar de ajuda de professor. £ exatamente esta a atitude que esperamos dos leitores: que utilizem o livro por iniciativa propria. O professor nao tem obrigagao de “repetir” o livro em sala de aula; nem deve fazer isso. A nosso ver, uma prelegao deve ser uti- lizada para “esbocar as idéias”, enfatizar os pontos mais importantes, demonstrar um teorema ou outro, deixando aos alunos a tarefa de descer aos detalhes em seu trabalho individual. Uma prelegdo ininterrupta de mais de meia hora pode comecar a ficar cansativa e pouco produtiva. A nosso ver, o professor deve utilizar parte da aula para {ieja nosso artigo no ndmero 19 da Revista Matemtica Universita (da Sociedate Brasileira de Matemtea), dezersbro de 1986, aborts essa questo.

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