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A CHAVE DE OURO DO ILUMINISMO MÍSTICO, CRISTIANISMO TRANSCENDENTAL E IGREJA INTERIOR DE ACORDO COM A DOUTRINA DA INICIAÇÃO

por Jean-Marc Vivenza

ACORDO COM A DOUTRINA DA INICIAÇÃO por Jean-Marc Vivenza “A Igreja interior nasceu imediatamente após a

“A Igreja interior nasceu imediatamente após a queda do homem, e recebeu de Deus imediatamente a revelação dos meios pelos quais a espécie humana decaída seria reintegrada em sua dignidade e entregue à sua miséria. Ela recebeu o depósito primitivo de todas as revelações e mistérios; ela recebeu a chave da verdadeira ciência, tanto divina quanto natural.” K. von Eckhartshausen. A Nuvem Sobre o Santuário, 1802.

A partir do século XVIII, alguns maçons, oriundos da corrente iluminista, no momento em que as lojas se multiplicavam na Europa, foram convencidos que a franco-maçonaria provinha de um ramo iniciático original que participava dos mistérios relativos à natureza,

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ao mundo, aos seres e às coisas, mistérios que incluíam a própria religião e o que ela representa.

A convicção deles era que o Cristianismo fora, antes de tudo, e ainda permanece, uma autêntica iniciação. Esse discurso se espalhou junto a numerosas mentes, e muitos aderiram a esta ideia que tornou-se uma espécie de visão comum para todos aqueles que aspiravam a uma compreensão mais interior, mais sensível e sutil, de verdades que a Igreja impunha por autoridade, e que ela mesmo havia completamente esquecido.

É o que sustentará positivamente Jean-Baptiste Willermoz (1730-1824), em um ritual destinado aos membros da última classe ostensível do Regime Retificado, e em termos extremamente claros:

“Infelizmente, são os que ignoram que os conhecimentos perfeitos nos foram trazidos pela Lei espiritual do Cristianismo, que foi uma iniciação tão misteriosa quanto a que o havia precedido: é nela que se encontra a Ciência Universal. Esta Lei desvelou novos mistérios no homem e na natureza, ela tornou-se o complemento da ciência”. [1]

1. Dos Erros e da Verdade

Como chegou-se a essa ideia?

É preciso para isso examinar o contexto que preparou a emergência desta sensibilidade no interior da vasta corrente do Iluminismo europeu.

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É em Lyon, onde permanecia desde 1774, tendo deixado Bordeaux após a partida para São Domingos daquele do qual ele fora o secretário, Martinez de Pasqually (+1774), que Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803) redigiu sua primeira obra: “Dos Erros e da

Verdade ou os Homens chamados de novo para o Princípio Universal

da Ciência” [2], que foi composta na casa de Willermoz para responder às afirmações de Nicolas-Antoine Boulanger (1722-1759) que pretendia, em sua Antiguidade desvelada (1766), que suscitará, aliás, a admiração do mui materialista Barão de Holbach (1723-1789) e numerosos autores maçônicos, que as religiões haviam nascido, na origem, e pelos pavores que os homens puderam experimentar diante do espetáculo impressionante dos fenômenos naturais (eclipse, trovão, relâmpago, tremor de terra, sismo, etc.).

O homem possui em si, para além dos elementos de seu conhecimento sensível, uma luz interior “ativa e inteligente”, que é a única na fonte real do pensamento religioso.

Saint-Martin se aplicou, pois, a demonstrar que o homem possui em si, para além dos elementos que lhe são fornecidos por seu conhecimento sensível e das reações que ela produz sobre sua consciência, uma luz interior “ativa e inteligente” que é a única que está na fonte real do pensamento religioso, dando-lhe um inexplicável saber, não material, na base sobre o plano imaginário, alegoria e mitos, mas principalmente, e toca-se aqui ao ontologismo metafísico que se encontra em numerosos místicos (Mestre Eckhart [3], São

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João da Cruz [4] e evidentemente Jacob Boehme [5]) do pensamento de Deus e de sua infinidade.

Saint-Martin, em seu plano, se funda sobre a necessária explicação anterior da natureza do homem, a fim de conduzir mais adiante seu raciocínio, e muito habilmente e com uma arte consumida pela pedagogia teosófica, induz seu leitor a descobrir a ligação íntima que religa nossos conhecimentos ao Princípio Superior que está em sua fonte. Ele explica que subsiste em cada ser uma autêntica capacidade para retornar e reencontrar a “Unidade” primeira, para reencontrar em si a fonte luminosa do Espírito, e que é, pois, sempre possível de realizar, sob certas condições bem evidentemente, uma salutar harmonia entre a natureza do homem e a Divindade na medida que, pelo canal de um coração esclarecido, a mente pode ser beneficiária de luzes íntimas, que irradiam um inefável conhecimento pelo qual o próprio Verbo Divino se revela na alma; “Revelação” de alguma forma, no que consistiu, aliás, o Cristianismo em sua origem tal qual ele se apresentou segundo o Filósofo Desconhecido, o Cristo tendo anunciado ao Samaritano que convinha, no momento, adorar a Deus em “Espírito e em Verdade”. (João IV, 23-24)

Saint-Martin preveniu assim em seu Prefácio: “No entanto,

ainda que a luz seja feita para todos os olhos, é ainda mais certo que todos os olhos não estão preparados para vê-la em seu brilho. (…) o pequeno número dos homens depositários das verdades que anuncio está dedicado à prudência e à discrição pelos engajamentos mais formais”. [6]

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II.

OS PADRES ESQUECERAM AS VERDADES DO CRISTIANISMO

“São os padres que atrasaram ou perderam o Cristianismo, a Providência que quer fazer avançar o Cristianismo teve anteriormente que descartar os padres e, assim, poderia-se, de alguma forma, assegurar que a era do Cristianismo em espírito e em verdade começasse somente a partir da abolição do império sacerdotal ”

Saint-Martin, Perfil Histórico e Filosófico, (1789-1803), parágrafo

707.

Isso sobre o que, aliás, insistia Saint-Martin é que os padres tinham completamente esquecido as verdades fundadoras do Cristianismo, ao ponto mesmo de representar hoje um obstáculo à sua compreensão, em particular para as almas desejosas dos conhecimentos verdadeiros que se escondem aos seus olhos. Ele

destacava assim: “São os padres que atrasaram ou perderam o Cristianismo, a Providência que quer fazer avançar o Cristianismo teve que, anteriormente, descartar os padres e, assim, poderia-se, de alguma forma, assegurar que a era do Cristianismo em espírito e em verdade somente começasse a partir da abolição do império sacerdotal; pois, quando o Cristo veio, seu tempo estava ainda no milênio da infância, e ele deveria crescer lentamente através de todos os humores corrosivos dos quais seu inimigo [ego humano] devia tentar infectá-lo. Hoje, ele adquiriu uma idade a mais, e esta idade, sendo uma geração natural, deve dar ao Cristianismo um vigor, uma

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pureza, uma vida, da qual ele não podia desfrutar ainda em seu ”

nascimento

[7]

Saint-Martin sustentará, aliás, explicitamente um ponto de vista bastante compartilhado, que mostra bem a influência de certas teses sobre a corrente iluminista, que esclarecem bem nitidamente a natureza das fontes da doutrina iniciática: “Nos primeiros séculos de

nossa era, os santos padres que já tinham apenas um reflexo e um histórico do verdadeiro Cristianismo… tiraram dos célebres filósofos da Antiguidade vários pontos de uma doutrina oculta, que eles só conseguiam explicar pela letra do evangelho, não tendo mais a chave

do verdadeiro Cristianismo”. (O Ministério do Homem-Espírito, 1802).

Em eco direto às teses de Saint-Martin, a convicção profunda de Willermoz e dos irmãos que o cercavam e que se impôs a eles sob a influência dos ensinamentos de Martinez de Pasqually, participou desta ideia que a instituição eclesiástica havia perdido no decurso das eras, não somente o sentido de seu sacerdócio, mas que, além disso, ela se tornara hostil à essência do autêntico Cristianismo.

“A instituição eclesiástica, sustentaram os iniciados do século XVIII, perdeu no decurso das eras, não somente o sentido de seu sacerdócio, mas tornara-se hostil à essência do autêntico Cristianismo.”

Willermoz, apesar de católico respeitoso de sua religião, teve, no entanto, a exemplo de Saint-Martin, julgamentos severos a este respeito, como vamos constatá-lo, não hesitando em evocar a

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intolerância ignorante da classe sacerdotal com respeito ao que não era mais conhecido por ela, e que ela designa, por erro de não ter conservado dela o depósito, como “erros” ou “novidades perigosas”, o que na língua da Igreja é simplesmente sinônimo de “heresia”.

“Esta classe [sacerdotal] tornada a mais intolerante, a mais obstinada em seu sistema, e a mais perigosa, uma vez que ela se glorifica, algumas vezes, de sua ignorância. Aqueles que a compõem (…) cometem os abusos de até persuadir de tudo o que não é conhecido por eles… é falso, é ilusório, e que é apenas um tecido de erros e de novidades perigosas contra as quais não se poderia mais se manter em guarda. Esperamos que eles reconheçam seu erro ” J.-B Willermoz, Caderno D 5 o , Biblioteca Nacional de Paris, 1806-1818.

Eis o que escreve Willermoz sobre o assunto, em expressões

que faltam um certo rigor: “Não podíamos, pois, mais ficar em silêncio com esta classe que se tornara a mais intolerante, a mais obstinada em seu sistema, a mais perigosa, uma vez que ela se glorifica, algumas vezes, de sua ignorância. Aqueles que a compõem, altivos e afiados em suas decisões, presunçosos em suas pretensões e dominados, talvez, sem darem-se conta disso por um orgulho sacerdotal que, normalmente, toma conta dos corações mais humildes, que tende a identificar suas pessoas com o caráter sagrado com o qual foram revestidos, e afeitam muito habilmente o tom e a linguagem desdenhoso de um necrotério teológico, que desencadeia o

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menosprezo de ignorar o que é conhecido, reverenciado e procurado por outros homens estimáveis: instruídos e muito religiosos.

Eles se atrevem, enfim, até querer persuadir que tudo o que não for conhecido por eles, nem pelos professores de seus primeiros estudos é falso e ilusório, e é apenas um tecido de erros e de novidades perigosas contra as quais não se poderia mais manter-se

em guarda. Esperamos que eles reconheçam seu erro

e que voltem

atrás com suas funestas prevenções, que apenas os privam para sempre do que fazia a força e a consolação de seus predecessores no santo ministério que eles exercem.” [8]

III

A DOUTRINA DO ILUMINISMO: PERDA DO CORPO DE GLÓRIA DE ADÃO E ENCERRAMENTO NA MATÉRIA

Para compreender no que o Iluminismo recusa e se desvia das posições dogmáticas da Igreja, ainda que em termos frequentemente rigorosos, convém previamente considerar que esta corrente está no cruzamento de numerosas influências, uma vez que ela se nutriu dos ecos dos Béguinages, dos “irmãos do Livre Espírito”, da Reforma, da difusão dos escritos herméticos, dos textos cabalísticos cristãos da Renascença, das traduções das obras dos pensadores e filósofos da Antiguidade, dos escritos dos visionários, o conjunto carregado pelo sopro de uma potente renovação mística que englobou os diversos círculos espirituais na Europa. A corrente Iluminista se estendeu, assim, por um longo período de tempo, globalmente do início do século XVIII até o momento em que as Lojas Operativas se abriam aos

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letrados que não exerciam o “ofício” até os primeiros anos do século XIX, digamos, na ocasião da morte de Jean-Baptiste Willermoz em 1824, se quisermos realmente uma data, uma vez que ele foi desse movimento, sem dúvida, o último e maior representante a desaparecer.

Robert Amadou (+ 2006), falando do Iluminismo Maçônico,

assinalou bem acertadamente: “A verdade da franco-maçonaria é a gnose, iluminadora ao risco de um pleonasmo(…) a franco-maçonaria revela o Iluminismo e, em particular, o Iluminismo de seu século, o século XVIII”. [9]

“A

verdade

iluminadora

da

franco-maçonaria

é

a

gnose

R. Amadou, Enciclopédia da Franco-Maçonaria,

L.G.F., 2000.

Esta “gnose iluminadora” repousa no fato de uma concepção da “geração divina”, uma teogonia que aborda sobre a obra de desenvolvimento que toca na vida divina e em seus diferentes episódios (revolta dos anjos, queda dos primeiros espíritos, preexistência imaterial de Adão, matéria tenebrosa, mundo criado corrompido, etc.). A esse respeito, e este ponto é essencial para a compreensão do assunto, o Iluminismo vai se apoiar sobre teses originais, da qual uma, colocada na base de todo o sistema doutrinário de Martinez de Pasqually – mas esta ideia é comum aos principais pensadores dito “Iluministas” - enuncia uma teoria da Criação diferente da sustentada pela Igreja, uma vez que esta teoria

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afirma que Adão foi primitivamente um espírito puro idêntico aos anjos que, em razão de seu pecado, de seu erro original, foi encerrado em um corpo de matéria para sua punição. Esta teoria se choca bem de frente ao ensinamento da Igreja para a qual, se a matéria foi estragada pelo pecado original, ela nunca foi uma “prisão” concebida para encerrar os demônios, ou pior ainda um homem, que teria sido “despojado” de sua natureza primitiva gloriosa para ser projetado em um corpo de matéria. Essas preposições que se encontram também em Martinez, Willermoz ou Saint-Martin são absolutamente inaceitáveis para a dogmática da Igreja.

“O Iluminismo sustenta teses originais, do qual uma sobre a Criação na base do sistema doutrinário de Martinez de Pasqually – ideia comum a todo ‘Iluminismo’ - mas inaceitáveis para a dogmática da Igreja.”

É, por conseguinte, o que sustentará, com constante insistência, Martinez de Pasqually, que fará disso até mesmo, não somente o tema principal de seu Tratado sobre a Reintegração dos Seres, mas o eixo, o fundamento inicial e primeiro sobre o qual se apoiará toda sua doutrina da “Reintegração”, uma vez que esta doutrina repousa, primeiramente e antes de tudo, sobre uma concepção que postula o caráter “necessário” da Criação que responde a um drama sem o qual nunca haveria existido nem matéria, nem mundo criado, nem expulsão dos espíritos – por conseguinte Adão – da imensidade celeste. Esta ideia de uma Criação contraída a fim de punir e encerrar os demônios, encerrando, em

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seguida, Adão e toda sua posteridade na matéria em punição da prevaricação, é, pois, a “Chave Conceitual” de toda a doutrina da Reintegração que, se não compreendida ou, como mais frequentemente, ignorada, vê afundar-se todas as especulações com relação a Martinez e seu pensamento.

Este terrível despojamento de seu “corpo de glória” para ser precipitado nos ferros da matéria, assim nos é explicado por Martinez, que toma, por exemplo, sobre a Incarnação do Divino Reparador para melhor nos mostrar o que adveio para sua terrível punição ao nosso

ancestral Adão: “Esta formação corporal do Cristo nos retraça a incorporação material do primeiro homem que, após sua prevaricação, foi despojado de seu corpo de glória e assumiu ele próprio uma matéria grosseira, precipitando-se nas entranhas da terra. Pois, antes que este espírito divino duplamente potente e superior a todo ser emanado veio operar a justiça divina entre os homens, ele habitava o círculo puro e glorioso da imensidade divina. Mas, quando ele foi enviado pelo Criador, ele deixou esta morada espiritual para vir se encerrar no ventre de uma virgem. Ora, o abandono que fez este menor Cristo de sua verdadeira estada não nos lembra o primeiro homem de seu corpo de glória? A entrada deste maior espiritual, ou o verbo do Criador, no corpo de uma moça virgem não nos lembra claramente a entrada do primeiro menor nos abismos da terra para revestir-se de um corpo de matéria?” (Tratado

sobre a Reintegração dos Seres, parágrafo 9).

“Esta formação corporal do Cristo nos retraça a incorporação material do primeiro homem que, após

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sua prevaricação, foi despojado de seu corpo de glória e assumiu ele mesmo um de matéria grosseira, precipitando-se nas entranhas da terra”. (Tratado da Reintegração dos Seres, parágrafo 91)

Este termo de “Menor” designa, assim, o homem na língua de Martinez, assinalando a classe de potência “quartenária” no seio das diferentes classes de espíritos emanados e não criados, à qual Deus havia conferido grandes privilegiados. Adão foi emanado em um estado de glória, e não em um corpo vil de matéria, para que ele possa obrar para o restabelecimento da harmonia divina rompida pelos espíritos perversos. Deus colocava, pois, em seu “Menor” numerosas esperanças. Porém, o Menor foi infelizmente projetado, após sua desobediência, no centro da superfície terrestre em um corpo animal, que degenera de sua forma de glória “quartenária”, em uma forma de

matéria impura “ternária”, sendo “despojado de seu corpo de glória”

para ser revestido por um corpo “de matéria grosseira”. Desde então, os “Menores”, ou filhos de Adão, suportam as dores de uma situação

experimental, uma vez que: “O Criador deixou subsistir a obra impura do menor, a fim de que este menor fosse molestado de geração em geração, por um tempo imemorial, tendo sempre diante dos olhos o horror de seu crime”. (Tratado, 23)

O Tratado de Martinez terá uma influência considerável sobre Willermoz, enquanto fonte teórica completamente notável, que se apresenta como uma redação geral da Criação, tendo mesmo a aparição do homem e do mundo. Este texto fundamental será a base, não explícita mas bem real, da doutrina do Regime Retificado, e

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explica todo o discurso de suas Instruções a cada grau até o das classes não-ostensíveis, principalmente toda a constante temática que leva seu desafio com relação ao mundo criado, a união “apavorante” de um espírito com um corpo de animal, e a aspiração para a

emancipação da alma fora dos “vapores grosseiros da matéria”.

Esta doutrina, da qual a similitude com o pensamento de Orígenes (século III) é evidente, foi igualmente a de Louis-Claude de Saint-Martin, e daqueles que se colocaram, em seguida, em sua escola, formando, principalmente nos países do Norte uma rica corrente se reivindicando abertamente da influência do teósofo francês e de sua “mística especulativa”, da qual os escritos serão difundidos por Mathias Claudius (1740-1815) (Tradutor dos Erros e da Verdade em 1782), depois por Johann Friedrich Kleuker (1749- 1821) e Gottlieb Hienrich von Schubert (1780-1860).

“Franz von Baader (1765-1841) levou sua reflexão sobre a questão da essência primitiva do Cristianismo, do qual ele cavou a essencial substância, esclarecendo os mistérios da Revelação esquecidos pela Igreja”.

Viu-se, assim, formar-se um círculo de autênticos admiradores do Filósofo Desconhecido, composto pelo escritor pietista Jung-stilling (1740-1817), ligado a Jacobi (1743-1819), Diethelm Lavater (1743- 1826) e Justinus Kerner (1789-1862), que participaram de uma significativa renovação espiritual em seu país, sem esquecer daquele que, em razão de seu imenso brilho que foi apelidado de “mago do

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Sul”, Friedrich Christoph Oetinger (1702-1782), deixando uma obra pessoal do mais alto interesse, trabalho, em partida, na origem dos estudos realizados pelo admirador de Martinez de Pasqually, Joseph de Maistre e Saint-Martin, foi o mais pertinente e fecundo erudito Franz von Baader (1765-1841), que levou sua reflexão sobre a questão da essência primitiva do Cristianismo, do qual ele teve o prazer de, incansavelmente, cavar a essencial substância, lhe permitindo comentar e aprofundar as posições e as teorias daqueles que ele olhou, e chegará mesmo até a considerar como mestres, por excelência, da renovação que esclarece os mistérios da Revelação cristã esquecidos pela Igreja.

Esta renovação corresponde à emergência de uma ideia própria

ao Iluminismo, a de um “Cristianismo Transcendente”, isto é, um

Cristianismo que se volta para as verdades ignoradas ou perdidas pela Igreja, ideia da qual veremos o lugar considerável que ela ocupará no pensamento das principais figuras da corrente Iluminista para as quais, na origem, o Cristianismo, antes de ser uma religião, foi uma iniciação detentora de segredos essenciais.

IV

O CRISTIANISMO FOI PRIMEIRAMENTE UMA INICIAÇÃO

O Cristianismo, bem nos primórdios de sua emergência sobre o cenário da História, pensavam os Iniciados do século XVIII, foi uma via magnífica oferecida a cada “alma de desejo”, a fim de que ela pudesse reencontrar sua verdadeira origem e sua natureza essencial,

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é nisso em que consiste sua verdadeira felicidade neste mundo e no outro.

“O Cristianismo primitivo, universal, Santo Agostinho foi o primeiro que formulou disso a intuição por essa famosa sentença: ‘A verdadeira religião [que] tem mais de dezoito séculos, nasceu no dia em que nasceram os dias”.

É nesta atmosfera, que tende à busca de um Cristianismo original, que a criação da Grande Loja de Londres em 1717, manifesta algumas proposições na redação do célebre artigo primeiro das Constituições de Anderson em 1723, artigo “referente a Deus e a

Religião”: “Um Maçon está obrigado, por seu engajamento, a obedecer a lei moral; e se ele compreende justamente a Arte, ele não será nunca um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Mas, ainda que, nos tempos antigos, os Maçons tivessem o dever, em cada país, de ser da religião deste país ou nação, quaisquer que ela fosse, julgou-se agora mais prudente de restringi-los somente a esta religião na qual todos os homens concordam, deixando a cada um suas próprias opiniões, isto é, de serem homens de bem e leais, ou homens honrados e probos, por algumas confissões ou crenças em que eles possam se distinguir; pela qual a Maçonaria se torna o Centro de União, e o meio de estabelecer uma verdadeira amizade entre pessoas que poderiam ter ficado perpetualmente a distância”. [10]

A formulação deixa aparentar uma abordagem com uma evidência totalmente renovadora. É claro, “opinião própria” evocada

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por Anderson, era uma tolerância entre cristãos destinada a pôr um fim nos confrontos religiosos. Mas, quanto à “religião com a qual

religião

consequentemente universal, e à qual, na segunda edição de suas Constituições em 1738, Anderson deu o nome de “noaquismo”, e não é exatamente do deísmo que se tratava ou esta religião natural que exclui a Revelação, mas da religião fundada sobre a primeira Revelação de Deus ao homem, manifestada para a primeira Aliança de Deus com Noé, do qual fala a Bíblia. O que Anderson tinha em vista era, então de fato, uma espécie de Cristianismo Primitivo, universal do qual Santo Agostinho havia, primeiro, formulado a

intuição por esta famosa frase: “verdadeira religião [que] tem bem mais de dezoito séculos [e] nasceu no dia em que nasceram os dias”.

todos

concordam”

ou

“concordam

entre

si”,

[11]

“Um sistema iniciático devia consagrar seus trabalhos a uma percepção do que foi em sua essência e sua realidade efetiva a religião primitiva”.

Tal era a ideia primeira de Anderson que abria o Cristianismo sobre uma concepção larga, uma adesão à “religião com a qual todos os homens concordam”. Mas, convinha ainda ele, percebeu bem acertadamente Willermoz, para que uma tal compreensão surgisse nos corações, um lento trabalho interior deveria ser empreendido, um trabalho reparador do qual o objetivo seria confiado a um sistema iniciático que consagraria seus trabalhos a uma percepção do que foi, em sua essência e em sua realidade efetiva, a religião primitiva, de

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modo a oferecer a cada um as luzes sobre o que nos religa, de maneira estreita e essencial, com o Invisível.

V

O CRISTIANISMO TRANSCENDENTE

Joseph de Maistre (1753-1821), solicitado para saber sobre o que o novo sistema maçônico retificado devia se apoiar sobre o plano de seus ensinamentos, utilizou a expressão “Cristianismo Transcendente”, a fim de designar, diferenciando-o do Cristianismo professado pela Igreja, o caráter próprio desta forma singular de espiritualidade.

Joseph de Maistre acreditou sem temor ser capaz de declarar, em sua Memória para o duque de Brunswick, que ele esperava

“acrescentar ao Credo algumas riquezas”, e ele não teve nenhuma

dúvida de que essas riquezas provinham das diferentes “luzes” recebidas em loja. O leitor assíduo de Clemente de Alexandria (século II) e de Orígenes como era Maistre, encontrou então em sua doutrina do Regime Retificado, uma “gnose” cristã que concordava perfeitamente com suas próprias convicções e que lhe deu acesso a uma leitura renovada com relação à criação do mundo, uma explicação espiritual das Escrituras, uma visão cosmogônica da ordem natural e sobrenatural na qual ele compreende as estreitas ligações, e segredos, que ligam o Cristianismo à primeira religião, ao sacerdócio primitivo que exercia Adão antes da Queda.

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“Tudo é mistério nos dois Testamentos, e os eleitos de uma e da outra lei eram apenas verdadeiros iniciados ”

Joseph de Maistre, Memória ao duque de Brunswick (1782).

Assim, na Memória ao duque de Brunswick (1782), Maistre expôs, com uma precisão notável e uma precisão incomparável, o que devia ser a natureza do “Cristianismo Transcendente”, que propõe uma abordagem renovadora, absolutamente não dogmática do que é, e deve ser, o Cristianismo recusando uma interpretação literal da

Escritura: “Tudo é mistério nos dois Testamentos, e os eleitos de uma e de outra lei eram apenas verdadeiros iniciados. É preciso, pois, interrogar esta venerável Antiguidade e perguntar-lhe como ela entendia as alegorias sagradas. Quem pode duvidar que esses tipos de pesquisas não nos fornecem as armas vitoriosas contra os escritores modernos que se obstinam a ver nas Escrituras somente o sentido literal? Eles já são refutados pela única expressão dos Mistérios da Religião que empregamos todos os dias sem penetrar o sentido. Esta palavra mistério significava somente o princípio de uma verdade sob tipos por aqueles que a possuíam. Foi somente por extensão e, por assim dizer, que se aplicou a partir dessa expressão a tudo o que está escondido; a tudo o que é difícil de compreender. (…) Parece, então, que precisamos de um dicionário etimológico para refutar os partidários da letra. Mas como poderiam eles resistir ao sentimento unânime dos primeiros cristãos que se prendiam todos aos sentidos alegóricos. Sem dúvida, eles forçaram este sistema longe demais, mas como, seguindo a observação de Pascal, os falsos

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milagres provam os verdadeiros, da mesma forma o abuso das explicações alegóricas anuncia que esta doutrina tinha uma raiz real que nós perdemos de vista. De qual direito pode-se contradizer toda a Antiguidade eclesiástica que nos deixa entrever tantas verdades escondidas sobre a casca das alegorias? (…) Que vasto campo aberto ao zelo e à perseverança (…) que alguns mergulham corajosamente nos estudos de erudição que podem multiplicar nossos títulos e esclarecer aqueles que possuímos. Que outros que seu gênio conclama às contemplações metafísicas procuram na natureza própria das coisas as provas de nossa doutrina. Que outros, enfim, (e agrada a Deus que delas existam muitas!) nos dizem o que eles aprenderam deste Espírito que sopra onde ele quer, como ele quer e quando ele quer”. [12]

As

ideias

principais,

fundadoras

Transcendente” estavam colocadas.

do

“Cristianismo

“As verdades da religião estão veladas para uma instituição eclesiástica que descartou, a partir do século VI, os conhecimentos importantes que constituíam o tesouro dos primeiros cristãos”.

Característica iniciática do Cristianismo, mistérios velados

atrás do aspecto literal da Escritura, recurso ao sentido alegórico, apelo à contemplação metafísica, na realidade, o conceito de

acabara de ser colocado, mais

exatamente redefinido, exposto, proposto e, sobretudo, adaptado com

uma precisão notável para os tempos a vir com a intenção dos

“Cristianismo

Transcendente”

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espíritos que querem aceder a um contato real, imediato, com as verdades da religião, sem sofrer os limites impostos por uma instituição eclesiástica que descartou, a partir do século VI, os conhecimentos importantes que constituíam o tesouro dos primeiros cristãos, como sublinhava Willermoz: “A dúvida e o erro daqueles que

só provêm da ignorância na qual caíram, geralmente, os homens desde há muito tempo sobre a causa ocasional da criação do universo, sobre os desejos de Deus na emanação e na emancipação do homem, sobre seu alto destino no centro do espaço criado e, enfim, sobre os grandes privilégios, a grande potência e a grande superioridade que lhe foram dadas sobre todos os seres bons e maus que se encontram aí colocados com ele. Todas essas coisas que os chefes da Igreja Cristã, aos quais o conhecimento era quase exclusivamente reservado durante os cinco primeiros séculos do Cristianismo, conheceram perfeitamente. Melhores instruídos sobre os pontos importantes, eles disso concluíram que para restabelecer um ser tão grande, tão potente, era preciso Deus mesmo”. [13]

VI

A REFUNDAÇÃO DO CRISTIANISMO SOBRE BASES TRANSCENDENTES

Esta ideia da colocação em obra de um projeto refundador com relação ao Cristianismo, Willermoz fez dele o centro do que ele tomou por nome, em 1778, de Rito ou mais exatamente de Regime Escocês Retificado, “retificado” precisamente porque ele quis trazer de volta a Franco-Maçonaria à sua essência primitiva: isto é, para ser uma via

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que conduzia, tomando, por exemplo, na forma arquitetural própria

ao Templo de Jerusalém, “do Pórtico ao Santuário”.

“As verdades da iniciação: emanação dos espíritos, preexistência das almas, incorporação dos seres na matéria em punição por um erro anterior, dissolução e aniquilamento do composto material, etc., não são mais conhecidas dos ministros da religião, que os condenam qualificando-os como erros.”

Esta economia espiritual do Regime Retificado, a saber a lenta e eficácia propedêutica de reconciliação da alma de cada maçon com as verdades esquecidas da iniciação, Willermoz a explicou em termos notáveis a um reformado, Rodolphe Saltzmann (1749-1820), assinalando-lhe que as verdades da iniciação (emanação dos espíritos, preexistência das almas, incorporação dos seres na matéria pela punição de um erro anterior, dissolução e aniquilamento do composto material, etc.), não são mais conhecidos, desde já há muitos séculos pelos ministros das religiões que os condenam,

qualificando-os como erros: “A Iniciação, instruiu o Maçon, experimenta o homem de desejo, da origem e formação do universo físico, de seu destino e da causa ocasional de sua criação, em um dado momento e não em outro; da emanação e da emancipação do homem em uma forma gloriosa e de sua destinação sublime ao centro das coisas criadas; de sua prevaricação, de sua queda, do benfeito e da necessidade absoluta da incarnação do próprio Verbo para a redenção, etc, etc, etc.

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Todas as coisas das quais deriva um sentimento profundo de amor e de confiança, de temor e de respeito e de vivo reconhecimento da criatura para seu Criador, foram perfeitamente conhecidas dos Chefes da Igreja durante os quatro primeiros séculos do Cristianismo.

Mas, desde então, elas se perderam e se apagaram sucessivamente a um tal ponto que hoje, em você como em nós, os ministros da religião tratam de renovadores todos aqueles que sustentam a verdade disso. Uma vez que esta iniciação tem por objetivo restabelecer, conservar e propagar uma doutrina tão luminosa e útil, por que não se ocupar sem amálgama deste cuidado na classe que a ela é especialmente consagrada?” [14]

Não são, pois, verdades a serem admitidas em razão de uma restrição dogmática, a execução de cerimônias artificiais nas quais é preciso se afirmar cristão superficialmente e de maneira teatral. O que aspira o Regime Retificado é de redescobrir os ensinamentos escondidos, esquecidos e rejeitados pela Igreja que os designa no presente como erros, e restabelecer, enfim, a santa doutrina que perdura pela iniciação de era em era até nós, para que ela possa ajudar as almas a reencontrar sua essência divina primitiva.

Não são, pois, verdades para admitir em razão de uma autoridade eclesiástica, crenças às quais seja necessário submeter-se em razão de uma restrição dogmática, a realização por ocasião de

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cerimônias, de posturas artificiais nas quais seria preciso se afirmar cristão da boca para fora, superficialmente, de acordo com os cenários teatrais como o faziam representar uma maçonaria, que dispensa graus aos títulos prestigiosos e de denominações admiráveis, mas que, em realidade, são desprovidas dos segredos verdadeiros da iniciação; o que aspirava o Regime Retificado era bem diferente, tratava-se de redescobrir os ensinamentos escondidos desde há muitos séculos, ensinamentos esquecidos e rejeitados pela Igreja que os designa agora como erros, e restabelecer, enfim, a santa doutrina que perdura pela iniciação de era em era até nós, para que ela possa auxiliar as almas a reencontrar sua essência divina primitiva.

VII

A IGREJA INTERIOR OPERA SOBRE O CONHECIMENTO DO

MINISTÉRIO SACERDOTAL E DO VERDADEIRO CULTO

Willermoz entregou mesmo um segredo excepcional a propósito do objetivo pela Ordem estabelecido por ocasião da reforma de Lyon em 1778 em uma carta destinada ao Príncipe Charles de Hessel-

Cassel, em 8 de julho de 1781: “Por seu objetivo que era totalmente espiritual […] a inteligência, desprendendo-se, de alguma forma, do sensível ao qual ela está ligada, eleva-se à sua mais alta esfera, e estou propenso a crer que nela se encontra o conhecimento do verdadeiro culto e do verdadeiro ministério sacerdotal, pelo qual o ministro oferece seu culto ao Eterno pela meditação de nosso divino senhor e mestre Jesus Cristo para a família ou nação que ele representa.” [15]

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“A Igreja Interior recebeu o depósito primitivo dos mistérios que tocam na origem do homem e de seu futuro destino.”

O Cristianismo Transcendente ao qual conduz a iniciação, segundo o Iluminismo Cristão, está fundado sobre os mistérios conservados por uma sociedade que atravessa secretamente os séculos sob o nome de Igreja Interior, sociedade que recebeu em depósito primitivo os mistérios que tocam a origem do homem e de seu futuro destino. Seu ensinamento nunca variou, mesmo se ele assumiu nomes diferentes em razão das circunstâncias, ele está inscrito em uma Templo no qual a sabedoria habita com o amor.

“A religião não será mais um cerimonial exterior; mais os mistérios interiores e santos transfigurarão o culto exterior para preparar os homens para adoração de Deus ‘em espírito e em verdade’.”

K. von Eckhartshausen, A Nuvem Sobre o Santuário,

1802.

Pareceria, uma vez que os tempos avançam pouco a pouco para sua consumação, que o véu que reveste os olhos da família humana este Templo deixa, enfim, aparecer o brilho da luz e libera o sentido efetivo das verdades eternas que escondia a nuvem que envolvia o

Santuário: “A Igreja Interior nasceu imediatamente após a queda do

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homem, e recebeu de Deus a imediata revelação dos meios pelos quais a espécie humana decaída será reintegrada em sua dignidade, e libertada da miséria. Ela recebeu o depósito primitivo de todas as revelações e mistérios; ela recebeu a chave da verdadeira ciência, tanto quanto divina como natural. (…) Este Santuário Interior permaneceu sempre invariável, ainda que o exterior da religião, da letra, recebesse por tempos e circunstâncias diferentes modificações e, afastando-se das verdades interiores, que unicamente podem conservar o exterior ou a letra. (…) A religião e os Mistérios se dão a mão para conduzir todos nossos irmãos a uma verdade; tanto uma quanto a outra tem por objetivo uma reviravolta, uma renovação de nosso ser, ambas por fim a reedificação de um templo no qual a sabedoria habite com o amor. Deus com o homem. (…) A religião se divide em uma religião exterior e uma interior. A religião exterior tem por objetivo o culto e as cerimônias, e a religião interior, a adoração em espírito e em verdade. (…) Mas, nos aproximamos agora do tempo no qual o espírito deve ser a letra viva, no qual a nuvem que cobre o Santuário desaparecerá, no qual os hieróglifos passarão em visão real as palavras e o entendimento. Aproximamo-nos do tempo que rasgará o grande véu que cobre o Santo dos Santos. Aquele que reverencia os santos mistérios não se fará mais compreender por palavra e sinais exteriores, mas pelo espírito das palavras e da verdade dos sinais. É, assim, que a religião não será mais um cerimonial externo, mas os mistérios interiores e santos transfigurarão o culto exterior para preparar os homens para a adoração de Deus em espírito e em verdade. Em breve, a noite obscura da língua das imagens desaparecerá, a luz engendrará o dia, e a santa obscuridade dos mistérios se manifestará no brilho da mais alta verdade.” [16]

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“A nuvem que cobre o Santuário desaparecerá

CONCLUSÃO

O Cristianismo Transcendente, pelo ensinamento silencioso recebido pela Igreja Interior, nos faz compreender que há no homem alguma coisa que está fora do tempo, um lugar fora do espaço, apesar da potência de nossas determinações materiais, e é neste lugar mesmo que se realiza a revelação do espírito. Ao iniciador de coração, quando este se libera pouco a pouco das trevas, então aparece uma luz secreta, a luz que o mundo não vê, pois, como o diz São João:

“aquele que está em vós é maior do que está no mundo”. (João 4:4)

“O homem não pode esperar sua reconciliação a não ser após a reintegração de sua forma corporal que somente se operará por meio de uma putrefação inconcebível aos mortais. É esta putrefação que degrada e apaga inteiramente a figura corporal do homem e faz aniquilar este corpo miserável, da mesma forma que o sol faz desaparecer o dia desta superfície terrestre, quando a priva de sua luz”. (Tratado Sobre a Reintegração, 111)

A luz que brilha nesta câmara do coração; o “Santo Palácio”, o lugar do “Perfeito Silêncio” confere a este “centro” espiritual uma importância extrema, fazendo deste Tabernáculo Interior, que se

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encontra no Oriente do homem, lá onde se situa seu coração, lá onde

a

luz tem a sua morada, a verdadeira e autêntica Terra Santa secreta,

o

Santuário Interior que é o cadinho de nossa reintegração vindoura,

quando tivermos abandonado as coisas terrestres, deixando nascer a “grande luz” que rasgará o véu da matéria como foi rasgado de alto a baixo no do Templo de Jerusalém: “Este véu [do Templo] é o

verdadeiro tipo de liberação do menor privado da presença do Criador. Ele explica a reintegração da matéria aparente, que vela e separa todo ser menor do conhecimento perfeito de todas as obras consideráveis que opera a cada instante o Criador para sua maior glória. Ele explica o rasgo e a descida dos sete céus planetários que velam, por seu corpo de matéria, os menores espirituais da grande luz divina que reina no supra celeste. Ele explica ainda a ruptura daquele que escondia e velava à maior parte dos menores o conhecimento das obras que o Criador opera para sua maior justiça

em favor de sua criatura”. (Tratado Sobre a Reintegração, 94)

Para nos ajudar neste caminho de reintegração, para nos encorajar neste lento trabalho silencioso e secreto – que acontecerá inevitavelmente, mas isso deve ser um motivo, não de tristeza mas de intensa alegria, pelo aniquilamento de nossa forma material ilusória e aparente – poderíamos dizer e repetir com muita frequência em nosso coração, a fim de manter desperta a chama do espírito, este belo texto inédito de Jean-Baptiste Willermoz que ele destinava, assim parece, especialmente àqueles que se engajam um dia, apesar da potência das “trevas” no caminho de retorno em direção ao Santuário:

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“Verdade Eterna, tu me envolves com teus raios, mas sombras tenebrosas se elevam sem cessar de minha alma e me impedem de levar meus olhares até ti. […] Ouça a minha voz, venha acionar aquele que te apela com tanto ardor. Abjuro o amor dos objetos sensíveis; é a ti somente que quero amar e contemplar para sempre como minha única vida. Pois, é tu que és a vida do homem, e sei com evidência que meu destino é viver sempre em ti e contigo” [17]

Extraído de: A Chave de Ouro e outros Escritos Maçônicos, lançamento em 28 de fevereiro de 2013, vade mecum

Ouro e outros Escritos Maçônicos, lançamento em 28 de fevereiro de 2013, vade mecum Edições do

Edições do Astrônomo, 239 p.

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“A religião externa tem por objetivo o culto e as cerimônias, e a religião interna, a adoração em espírito e em verdade. (…) Mas nos aproximamos agora do tempo no qual o espírito deve render-se à letra viva, no qual a nuvem que cobre o Santuário desaparecerá, no qual os hieróglifos passarão em visão real, as palavras em entendimento. Aproximamo-nos do tempo que rasgará o grande véu que cobre o Santo dos Santos”.

K, von Eckhartshausen, A Nuvem sobre o Santuário, 1802.

Notas

1. Instrução para os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, 1784,

Biblioteca Municipal de Lyon, Arcevo Willermoz, MS 5921.

2. O título. Dos Erros e da Verdade prossegue assim: “Obra na qual,

fazendo notar aos observadores a incerteza de suas pesquisas, e seu desprezo contínuo, indica-se lhes a rota que eles deveriam ter seguido para adquirir a evidência física sobre a origem do bem e do mal, sobre o homem, sobre a natureza, a natureza imaterial e a natureza sagrada.”

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3. Mestre Eckhart (1260-1328), em sua doutrina da analogia da atribuição, sustenta que as criaturas e o Criador mantém uma relação comparável àquelas existentes entre os atributos e as

substâncias: “Se Eckhart procura transpassar o invólucro dos seres criados para aí alcançar Deus, é porque as criaturas são análogas ”

finitas sempre famintas pela infinidade do ser

Teologia negativa e conhecimento de Deus em Mestre Eckhart, capítulo V, Esplendor in medio, parágrafo 11, A Deo et in Deo).

(cf. Vladimir Lossky,

4. A comunhão de identidade da intelecção à Essência divina incriada

é fundada nesta convicção: só o semelhante conhece o semelhante:

“O conhecimento essencial da Divindade, sem qualquer intermediário (…) opera-se por um certo contato de alma com a Divindade, coisa que está acima de qualquer sentido e de qualquer acidente, a partir de aí trata-se de um contato de substância pura com uma outra substância pura, isto é, da alma com a Divindade”. (são João da Cruz,

Cântico Espiritual, str. 32 o ).

5. “Onde queres tu então buscar a Deus? Não o procures a não ser em tua alma que é de natureza eterna, na qual está o divino

engendramento”. (Confissões, capítulo 6, parágrafo VII, 16).

6. Dos Erros e da Verdade, Edimburgo [Lyon], 1775, p. IV-V.

7. Saint-Martin, Meu Perfil Histórico e Filosófico, (1789-1803),

parágrafo 707.

8. J.-B. Willermoz, Caderno D 5 o , Biblioteca Nacional de Paris, 1806-

1818.

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9. R. Amadou [Iluminismo], em Enciclopédia da Franco-Maçonaria, Livraria Geral Francesa, 2000, p. 427.

10. Constituições de Anderson, trad. Daniel Ligou, Lauseray

Internacional, 1978.

11. Escritos Maçônicos de Joseph de Maistre, Slatkine, 1983, p. 97.

Maistre, em seu texto, cita em realidade um verso de Racine “A Religião”, Canto III, V. 36.

12. Memória ao duque de Brunswick, 1782.

13. J.-B. Willermoz, Tratado das Duas Naturezas, 1818.

14. Carta de Willermoz a Saltzmann, de 3 a 12 de maio de 1812, em

Renascença Tradicional, no 147-148, 2006, pp. 202-203.

15. Carta de Willermoz a Charles de Hesse-Cassel, de 8 de julho de

1781.

16. K. von Eckhartshausen, A Nuvem sobre o Santuário, 1802.

17. J.-B. Willermoz, Biblioteca Municipal de Lyon, MS 5476.

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