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Letras vomitadas ao vento

Letras vomitadas ao vento Samuel Victor

Samuel Victor

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distribuído, preservando o nome do Autor e seu conteúdo. @ Copyleft 2008 por Malária Editorial Capa:

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Malucada deste mundo!

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Sumário

1. Apresentações

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2. Caminhando

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Dedicatória

Dedico estas linhas aos maiores loucos que pude encontrar nesta vida: ao Cordeiro que foi imolado antes da fundação do mundo, meus pais, Rosmil e Eliane, minhas irmãs, Ana e Raquel, meus amigos e a principal, minha metade, Itala.

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Introdução

Nunca gostei de ler! Pelo menos é o que eu pensava até os meus 24 anos, sempre tive boa leitura graças às revistas em quadrinhos e artigos do gênero. O fato é que um dia eu li um livro e quando isso aconteceu houve uma mudança sistemática na equação da minha vida. No mundo de Sofia, fui convidado a atravessar as sombras da caverna e minha mente atrofiada começou a perceber que eu era uma anomalia em um mundo assimétrico e sem sentido. Minha busca por entender o significado da vida passou para um plano mais elevado, comecei

então a devorar todo tipo de literatura, principalmente sobre filosofia e quanto mais eu lia, mais longe de um significado eu me encontrava

anos de minha vida passaram tão rápido como o efeito das

drogas que eu usava, só então descobri que o segredo não estava na resposta e sim na pergunta, mas não era qualquer pergunta, tinha que ser a pergunta certa, porque é a pergunta que nos motiva. Qual é a pergunta? Na busca desesperada de anular a minha existência, as drogas, como o crack tiveram uma participação maior na minha vida. E, finalmente cheguei no ápice do desespero e reconheci que precisava de ajuda clinica, foi quando pedi a minha mãe para que me internasse em algum lugar e logo após uma semana de espera parti para uma clínica no centro de Curitiba, embora eu tenha tido uma estadia curta de 33 dias; esse tempo foi suficiente para reconhecer que eu não estava louco, muito embora estivesse dentro de uma clínica psiquiátrica e meus colegas de quarto me chamassem de louco. Isso foi um mero detalhe comparado com os eventos que se seguiram. Após sair do internamento permaneci 6 meses utilizando apenas cigarro comum e nada mais. Nesta época bradava a todos o poder que eu tinha sobre este mundo e sobre as drogas, me glorificava e ainda era exaltado como um herege dos mais profanos pelas poucas pessoas que por algum motivo me agüentavam. Acho que a minha relutância em querer mudar este mundo fizeram com que eu ficasse 12 anos para completar o 2º grau. Mas isso foi de grande ajuda, pois os poucos amigos que descobri ter, eram exatamente aqueles eu não dava muita bola

disso, nos meu seis meses de abstinência estava às vésperas de

completar 26 anos, mais exatamente no dia 22 de maio de 2003. O meu psiquiatra me chamou para uma consulta de emergência, e na maior tranqüilidade ao chegar no consultório ele me disse que os exames que eu tinha para HIV,

tinham dado positivo. Bom, não preciso mencionar que a minha vontade de morrer era mais do que imediata e todas minhas forças foram gastas em muitos momentos de profunda internação com drogas.

Agora, com a recaída, tudo se tornou pior do que no início e finalmente me dei

Só que tirar a própria vida não é algo

conta, de que eu tinha mesmo que morrer fácil

Alguns

antes

Adriano

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Introdução do autor

Não estão escritos aqui grandes feitos. Não se achará aqui grande produção em literatura. Não há relatos aqui que tenham mudado a história da humanidade. Não haverá aqui uma linha te ensinando a ficar mais rico ou te dando os dez passos para que você se torne melhor que alguém em nada. Nenhuma mentira agradável ou heróica foi escrita para te oferecer uma melhor leitura. Não há heróis descritos além daqueles que existem enterrados bem fundo na neve em todos nós. A leitura pode vir a ser de uma verdade desagradável. Talvez como aquele arroto que quase nos faz vomitar. As coisas são assim. A vida pode muito bem ser, às vezes, um assunto insuportável se nos desligarmos de nossos mecanismos de auto-engano. Estas são linhas para seres humanos. Para os nobres titânicos que sabem que os verdadeiros heróis insurgem-se vestidos da pobreza como sapatos; da incapacidade como bandeira e do descrédito como capa. Costumam aparecer no horizonte desértico, cambaleando famintos, cegos, desnutridos e desidratados, queimados pelo sol da vida à beira da morte, mas mesmo assim, carregando nas costas outro ser humano sob as mesmas condições. Às vezes para ajudar basta estar junto no nada e experimentar o paradoxo contra-intuitivo proposto: “ como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos; como morrendo e eis que vivemos; como castigados e não mortos; como contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo e possuindo tudo”. Há aqui uma história simples de duas pessoas sem nada de especial, assim como você, e o como mudar a própria história mudando a história de alguém pode ser a melhor forma de mudar alguma coisa em si mesmo. Não pense também que este é um manual de regras concebido por alguém que pensa saber o remédio para o planeta ou pode ditar o ideal de comportamento de quem quer que seja neste mundo. Não. Não sabemos a verdade senão a que passa através de nós mesmos. E se esta verdade é a Verdade; ela pode e deve por si mesma se fazer convencer, bem longe de nossa interferência. Podem não ser grandes coisas as contadas, mas quem dera, ao menos uma vez na vida, todos nós pudéssemos ter uma experiência de filosofia aplicada como esta, e uma lição cristã prática, nestes moldes de um Cristianismo Primitivo. Quem sabe assim, o mundo talvez fosse um pouco menos, ou um pouco mais humano.

Samuel

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Apresentações

você vai conhecer os acontecimentos que se deram na vida de

Samuel e Adriano. Um quase cristão e o outro quase filósofo, na dramática viagem entre os limites da filosofia e do cristianismo; em algum lugar da fronteira entre as Br 376 e 277 Aquele havia sido um ano difícil. Esta história de ser Pastor já havia me dado no saco. Eu estava enfadado, de saco cheio de todas as implicações do envolvimento com uma estrutura religiosa nefasta. Não havia mais tesão na coisa. Sentia as penas de carregar a grande casca de tartaruga evangélica mesmo após já ter me livrado de uma versão anterior dela. Era Jovem, cria no evangelho para a vida toda, mas desconfiava que existisse algo de muito errado com a chamada “igreja”. A “igreja cristã” era tudo, menos Cristã, e por assim ser, tampouco era Igreja. Jesus era muito diferente dela, mas quem disse que sequer ela lia a Bíblia. Ainda estava na fase de esperar ligações telefônicas daquelas bem humanas e preocupadas comigo e com a igreja, de meus superiores eclesiais (teria morrido esperando). Ainda achava que a verdade do evangelho por si só se mostraria absoluta no coração das pessoas. Achava que as pessoas, quando a vissem, imediatamente se libertariam do jugo da lei do coração. Como era inocente Viria a entender mais tarde que o ser humano é mau e não quer se deixar libertar pela graça, pois teria o ônus de ter que libertar o próximo de suas próprias leis, dogmas, morais, éticas, achismos, justiças próprias e regras. Tinha vinte e um anos e já liderava uma igreja a dois. “Igreja” iniciada na casa de meus pais, sem teologia, sem equipamento, sem experiência, sem dinheiro e sem nada. Apenas, um amor inabalável e a crença abalável de que aquela parafernália protestante toda, era a melhor, senão a única forma de servir ao Velho e pregar o evangelho. Às vezes me pergunto como consegui ser tão burro e cego?! Como meu Deus? Um jovem pode ser adestrado a fazer muitas coisas, mesmo às sem explicação. É realmente trágico os preços que se pagam por participar de uma organização desunida, desinteressada e irresponsável. Uma desvairada que não cuida de seus jovens e sequer pensa em alertá-los e preveni- los. Mas, este não é essencialmente uma tese anti-religião. Era 2001 e o meu saco logo explodiria de alguma maneira. O começo da minha descrença na preocupação dos meus superiores por mim e meu trabalho, mais o meu ardente desejo por uma igreja realmente revolucionária, mais a pressão dos olhares das pessoas que me ladeavam e que esperavam de mim a atitude que elas não tomariam, mais o meu amadurecimento natural; formaram uma equação em minha alma que começava a dar sinais de desequilíbrio. Sem por na conta, a esmagadora pressão de meus inimigos religiosos (os fariseus religiosos vampiros, os dráculas da Lei, as sepulturas invisíveis, a maçonaria barata cristã), que esperavam como lobos a minha desistência e o meu desfalecimento. Tudo aquilo começou a gerar em mim sentimentos que não posso explicar hoje e não podia explicar na época. Era um descontentamento amargo e bem humorado a respeito de meu caminho e da forma como o destino

Neste,

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havia me presenteado com um nariz vermelho de palhaço e a carapuça correspondente. Eu só havia conhecido uma maioria esmagadora de cristãos covardes e já começava a me achar um também. Estava me tornado exatamente aquilo que eu mais odiava. Estava desenvolvendo um ódio sadio pelo sistema, mas não nosso bom e velho sistema rock’ll. O ódio era por um sistema muito mais sutil. O sistema religioso. Sistema que nós mesmos ajudamos a construir durante os anos. E por ter sido feito em banho-maria poucos conseguem discernir-se, percerber-se dentro dele. Como o sapo fervido, lembra? Hoje sei que todo este sentimento de alguma forma foi transformado em gemido inexprimível e de gemido inexprimível em incenso suave no nariz do Velho, que cuidadosamente, preparava várias saídas de misericórdia para um moribundo da existência tal qual eu me encontrava. Ele me daria diversas experiências além das fronteiras de Babel. Esta história é uma delas. Com dezenove anos, já havia sido expulso de uma igreja evangélica por ter interesses em levar a bandeira da contracultura e já começava a rodar o Paraná tocando com meus amigos do Brutal Sacrifice. Na minha cidade, na época, e não tenho medo de errar, não havia líderes cristãos capazes de inspirar uma juventude revolucionária. Não havia. Se existisse eu os teria achado. Não que existam hoje e tampouco seja eu esta pessoa atualmente. Só existiam crentinhos babacas que tinham medo de sequer por o rabo dentro de um bar qualquer por medo que o diabo os pegasse. Demonizadores e inquizitores babacas. Tinham eles mais fé no diabo do que em Deus. Além de teologia, me interessava em música, HQ, filosofia e leitura. Tinha uma família ótima e boa educação desinstitucional. Já havia nascido de novo há muito tempo. Minha experiência com o Cristo ressurreto ia muito além de qualquer questionamento externo. Embora, eu fosse muitas vezes contraditório, débil e relativo em minha vida pessoal, minha experiência com Deus era real e ninguém poderia tirar-me aquilo. Os músicos de Hard Rock cristãos que via na Tv e dos quais alugava cds, eram a única expressão que eu conhecia até então de cristãos corajosos, criativos e inspiradores, em detrimento de um bando de idiotas religiosos sem graça que topava quase todos os dias em Araucária. Minha identificação com os loucos era inevitável. Quanto ao Adriano, bem, conta à lenda que uma vez internado em um hospital psiquiátrico por causa de narcóticos, ele foi apelidado pelos próprios doentes mentais da instituição de “louco”. Também era conhecido como “profeta” e também já fora chamado de “herege”. Conheci o ‘figura’ no segundo ano do segundo grau com seu skate inseparável, no auge de seus vinte e seis anos. Tornamo-nos amigos. Ele, ateu existencialista como se definia, eu, talvez o mais barulhento ativista evangelizador da cidade. Apesar disso, tínhamos algo em comum, parecíamos ser os únicos que entendiam um pouco daquilo que nosso professor de filosofia tentava falar. Este professor, chamado Diovani, teve, com certeza, papel grandioso na formação de nossas vidas e caráter. E sinto que seu papel nesta história não chegou ao fim ainda. Mas esta é outra história Adriano tinha sérios problemas com drogas, álcool e tabagismo. Gostava do estilo de vida típico da malucada. Também era o vocalista pouco inspirado de

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uma banda chamada Fígados Podres, às vezes chamada pelos mais ambiciosos de Rotting Livers. A banda teve uma única apresentação que infelizmente perdi. Uma vez, na feira municipal da cidade; deprimente única opção social da juventude da época (não que hoje existam outras opções), Adriano, envenenado e turbinado, começa a fazer um escândalo memorável:

-Ei Deus, vem me matar. Vem me matar filho da puta. Ei Deus vai tomar no teu cú, lazarento. Vem. Me mata. Vá pra puta que te pariu viado. Vem me matar. Manda um raio! Ou algo parecido com isto. Apesar de triste pelo todo, não podia deixar de rir do momento. Tampouco Deus poderia deixar de rir do momento eu acho. Afinal, aquelas palavras me soaram muito mais como uma oração do que como uma blasfêmia. Em outra ocasião, eu e o Doug (amigo na fé) estávamos em um conhecido bar da cidade quando chegam Adriano e Charlie (reconhecido maluco da época, amigo comum de todos nós) com uma proposta maluca cujas motivações desconheço até hoje:

-Queremos que vocês marquem o dia de hoje. Queremos ver daqui a dez anos como vocês estarão com o Cristianismo de vocês e querermos ver onde nós estaremos com o nosso ateísmo! -Tudo bem! Respondemos. Neste dia passamos muito perto de brigar e queimar o filme tanto dos cristãos, quanto dos filósofos. Apesar de que poucos os consideravam filósofos; da mesma forma que ninguém nos considerava cristãos. Mas o fato é que quase brigamos. Eles queriam me provar que meu nascimento não havia sido planejado por Deus. Tudo bem até ai, o problema foi à argumentação empregada por eles:

-Você acha que você foi planejado? Simplesmente teu pai e tua mãe estavam se comendo e só. Minha mão se fechou, e mirei o lado esquerdo do rosto de meu amigo. O sangue subiu, mas me contive a tempo pensado no desafio dos dez anos. Hoje sei que aquilo tudo era besteira arrogante de falsos filósofos e de falsos cristãos. O Adriano eu sei como está. E o Charlie espero que esteja bem. Abraços cara. O Adriano às vezes também resolvia mexer com questões políticas nas poucas mídias de que dispunha. Tentar falar de política para a juventude araucariense logo se mostraria uma tarefa das mais indigestas. Nesta época, eu, Adriano e o Charlie (Marcelo), fundamos um zine que teve alguns números, chamava-se, “A Voz dos Mortos”. Mais tarde rebatizado de “A Voz da Necrópole”. Algumas pessoas leram, anos depois, viria a nascer uma banda de Hardcore inspirada e batizada com o nome do zine, infelizmente o número de apresentações da banda foi similar ao número de edições do zine; três ou quatro no máximo. A vida seguia aparentemente tranqüila em Araucária. Se podia trabalhar e estudar dado o grande número de empresas instaladas na cidade. À noite araucariense, graças a este fluxo enorme de trabalhadores do Brasil todo, apesar de pequena escondia muitas armadilhas, como logo perceberíamos.

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Engraçado como às vezes uma cidade pode representar um micro-cosmo figurante de uma realidade muito maior do que ela mesma. No caso de Araucária esta sensação permeava a mim e a muitos outros. Era como se ela fosse um pequeno concentrado genético do Paraná ou do Brasil, ou talvez, de algo que eu nem sequer saiba nomear. Suas químicas eram singulares, e ainda são. O fato de uma cidade apenas, ser a responsável por dez por cento da arrecadação de um estado como o Paraná e não demonstrar muitos sinais de desenvolvimento, já mostra que muitas coisas misteriosas e estranhas acontecem nela. Em Araucária é assim: Tem-se sempre uma estranha sensação de se estar sendo vitima de alguma conspiração segregatória. Passei aquele primeiro ano orando pelo cara. Eu gostava dele e ele de mim. Foram algo em torno de três anos de oração. Nesse período lá estava ele em todos os shows do Brutal Sacrifice agitando feito um louco o som que nós chamávamos de Death Metal Cristão. Acaba aquele ano. De volta das férias descobrimos que estávamos na mesma sala novamente. Ele, ao me ver, me dá um caloroso abraço e diz:

-Puxa vida que massa, mais um ano de Existencialismo versus Cristianismo! E confesso que me alegrei também, não pelas discussões, mas pela companhia, para mim quanto mais vassourados os colegas de classe, tanto melhor para o ano letivo. Aquele ano começou diferente, Adriano havia parado com as drogas e com a bebida, o que achei ótimo, apesar das palavras ofensivas dirigidas a mim na ocasião:

-Viu, não precisei de Deus e nem de igreja para parar. -Tudo bem. Pensei. Aquele estava sendo um período difícil para mim. Já havia tido a brilhante idéia de começar uma igreja institucionalizada em minha própria casa e já estava colhendo os louros da minha burrice. De fato tínhamos uma ligação, embora não soubéssemos explicar, sabíamos que de alguma forma a vida nos tinha escolhido para que fizéssemos uma troca de alguma natureza. Naquele ano viria à informação bomba, embora eu só fosse entender e saber mais tarde. Adriano ao pegar um exame de rotina, ouve secamente de seu médico e psicólogo a célebre frase:

-Teu HIV deu positivo cara.

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Caminhando

O mundo desaba para o Adriano; e as drogas e o álcool voltam a ser bons companheiros. Nunca falei nada para ele sobre sua opção em livrar-se dos vícios sem Deus. Mas ele entendeu o ocorrido. O tom das nossas conversas mudam drasticamente. Mesmo sem saber de nada disso na época, senti claramente que a profundidade das nossas discussões havia mudado e mudado muito. Tudo agora era denso e profundo. Todas as ações eram significativas e nos observávamos mutuamente num estudo minucioso da mentira e da verdade prática. Minhas pregações e procedimentos eram detalhadamente analisados e dissecados por olhos agora muito mais preocupados e conscientes. Olhos que avaliavam incisivamente, cientes de que todas as atitudes humanas geravam conseqüências. Naquele período acontece algo interessante. Poucos dias antes, eu e uns amigos havíamos conseguido autorização de um diretor de uma escola para entrarmos nas salas de aula e evangelizarmos os alunos e os professores. Ao entramos em uma das salas damos de cara com o Diovani dando aula, interrompemos e falamos do evangelho por uns quinze minutos e no final da aula para nosso espanto, e dele, a turma nos aplaudiu; e para meu espanto ele aplaudiu junto, contrariando minhas expectativas que previam uma acalorada discussão. Em outro dia na escola eu e Adriano nos aproximamos do Diovani enquanto fumava no pátio. Esboçamos uma aproximação, apesar de que ele não nos dava muita bola, meio que ignorava a devoção que tínhamos pela sua figura. Quando íamos embora Diovani me olha, provavelmente lembra do outro dia na outra escola e me diz as mais fortes palavras, em bom espírito e sem nenhuma ironia, que poderia ter dito naquele dia:

-Até mais grande homem! Aquelas palavras foram, com certeza, o maior elogio que já tinham me tecido na vida. Era quase como se Deus tivesse dito ao Adriano sobre mim:

-Este é meu filho amado em quem me comprazo, e a ele segui! A partir dali as coisas mudaram. Os olhares de Adriano sobre mim ganharam um tom mais respeitoso. Sabia desta reação graças a um outro comentário que ele nos dirigiu certa feita que nos ensoberbeceu. Eu Adriano e Charlie estávamos na escola quando Diovani, depois de nos observar um pouco chega e diz:

-Se eu fosse um ditador militar mandava matar vocês! Um dia, em aula, ao falar sobre ateísmo, Diovani surpreende-nos ao afirmar:

-Não importa o que o cara diga, quando o cara ver que vai morrer, numa cama ou em outra situação qualquer, ele vai chamar por algo no além. Adriano concorda amargamente. As coisas daí pioram. Adriano com o mundo sobre as costas, desiste da escola e cai no mundo de vez. Neste período fico sabendo que ele havia ido e voltado duas vezes de Rondônia de carona, e andava às portas de se tornar um andarilho. Em todo este tempo eu orava por ele, pois sentia que de alguma forma já éramos irmãos na eternidade.

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Em uma noite qualquer, perambulando pelas esquinas da cidade, encontro um grupo de amigos, Adriano estava de volta de Rondônia, onde seu pai morava,

e conversava com uma amiga que vendia maconha. Adriano chega a fim de

comprar um pouco. Conversamos alguma coisa e eu pergunto:

-Tudo bem cara? Ele Responde. -Graças a Deus. Fico chocado com a resposta, não pergunto nada, mas ele insiste no assunto. Acho que ansiava por me contar a forma como foi alcançado por uma crença teísta. Penso que só esta história, a de como ele encontrou a Deus, poderia ser um livro, se ele assim quisesse. Naquele dia, ele fumava a maconha, mas o único chapado ali era eu ao ouvir a forma que Deus achou de falar com o cara bem longe de mim, da igreja e do meu orgulho evangelístico protestante que ainda se achava o principal responsável pela evangelização do mundo. Dei meu telefone para ele e peguei o dele. Dias depois peguei minha bicicleta e fui na casa do cara, na época, ele tinha sérios problemas com o Crack e sua casa estava depenada, e sua mãe desesperada. Naquele dia cheguei a sua casa para vê-lo mau. Estava com a casa

vazia (coisas vendidas para a compra do crack), com as mãos calejadas e machucadas do trabalho onde estava e com uma terrível sarna que não sarava de

jeito nenhum. O homem cheirava a enxofre nos dois sentidos da coisa. Lembro de ter escrito alguns versículos na parede do quarto do Adriano. Daquele dia só o que me lembro, de tão aturdido que fiquei, é dele me dizendo que tinha AIDS. Foi um momento muito forte para mim. Agora eu tinha um problema grande em minhas mãos que me desafiava no meu evangelho ainda teórico e pouco experimentado, apesar de já ter convivido antes com um outro soro-positivo muito próximo. Mas mesmo assim, lembro de naquele dia ter pregado a cura em Cristo. Lembro de ter chorado no caminho de casa à medida que ia entendendo “os porquês” do comportamento agressivo de Adriano em relação a Deus, à vida

e a mim. Muitas vezes na escola ele escrevia frases no quadro para me agredir.

Frases como:

-Deus não existe! -Não existe amor! E etc. Às vezes eu escrevia algo também:

YWHV Às peças do quebra cabeça se encaixavam na minha mente. Poderia agora entender porque ele se tornara famoso por andar e manobrar de skate nos cemitérios à noite. Naquele ponto ele já cria em Deus, mas ainda estava nas drogas e nas demais coisas. Nossa aproximação se aprimorava. Uma vez ele chegou a ir numa das minhas células(encontros caseiros de pregação), e foi inicialmente integrado ao pessoal. Adriano já conhecia minha mãe e já havia sido evangelizado por ela na época em que trabalhava como entregador de embalagens. Conhecia o Douglas do ambiente Rocker da cidade e já conhecia o Ricardo, meu irmão de criação, de algumas quebradas macabras araucarienses, mas algo o impedia de conseguir uma libertação mais profunda e um

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envolvimento mais denso na nossa comunidade, batizada pelo povo de “Igreja dos Loucos”. Na época eu havia assistido o filme Matrix e me tornado um destes obcecados pelo filme. Tudo o que era possível ler e ter sobre o filme, em português, eu havia conseguido. Tudo no filme me arrebatava a ver significados. Tinha, pensava eu, decifrado o filme sobre o olhar cristão, como o próprio filme sugere. Tinha até mesmo começado a escrever uma tese sobre o filme. Não conseguia pensar em mais nada. A percepção era virtualmente perfeita. Paralelamente, havia lido o “Código da Bíblia” do jornalista Michael Drosnin, que para mim, vinha a completar minhas teorias matrixiológicas completamente. Eu estava verdadeiramente obcecado, mas não estava só. Minha grande surpresa foi que, ao falar deste assunto em uma determinada célula em que Adriano estava presente, descobri nele, um outro obcecado completo no assunto, o que, se para mais nada, pelo menos nos abriu uma nova ponte incrível de comunicação. Adriano dava aulas de informática básica na época e eu era um tremendo curioso no assunto. Em nossas longas conversas sobre a coisa toda chegávamos a ver as seqüências alfabéticas eqüidistantes criptografadas no cosmos descendo pelas

paredes, e os olhos profundos do arquiteto sobre dois pobres conspiradores como nós. Trinity, Morpheus, Neo, Cypher, Smith, O Oráculo, Merovingian e todos os outros ganharam vida em nosso dia a dia. Tínhamos exemplos vivos em nosso cotidiano de suas aparições. A Matrix era real. Tinha que ser. E a Matrix tal qual a conhecíamos era a maldição da lei materializada na vida dos desobedientes. Textos Bíblicos que provavam isso foram incansavelmente procurados e achados. A Bíblia é um programa de realidades. E nós sabíamos. Agora poderíamos manipular a realidade; e foi exatamente o que fizemos. Havíamos sido chamados para reprogramar certas realidades profetizadas. Manipular o presente e o futuro através de certos entendimentos e práticas Bíblicas. A Matrix era real e estava sendo usada para alimentar a grande serpente. Serpente que come barro todos os dias da sua vida. Cabia a nós, então, o treinamento. Talvez não seja eu a melhor pessoa para organizar estes pensamentos de forma científica, mas qualquer curioso pode levar um susto se comparar às coisas. Bíblia; O Código da Bíblia e o filme Matrix. Era inverno. Uma tarde qualquer de um dia frio e por hora, ensolarado. Estava em casa lendo um livro do qual não lembro o título. Mais um dia qualquer daqueles sem graça nenhuma. O dia perfeito para entrar na escola do verdadeiro amor de Deus. Nunca se sabe o que a maré pode trazer pra você num dia simples como aquele. O telefone toca. Era a primeira ligação que recebo de Adriano em toda a minha vida. Adriano fala em tom grave:

-OI.

-Oi.

É o seguinte, estou indo embora para Rondônia

agora. Só liguei para me despedir de você. Vou morar com meu pai lá que as

coisas talvez melhorem. Respondi:

-Calma cara, espera ai, o que aconteceu? Vamos nos encontrar para conversar?

-Samuel, é o Adriano

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-Onde? -Não sei. -Que tal hum -Tudo bem, te espero no bar perto da rodoviária. Peguei minha magrela feroz e fui encontrá-lo

mil coisas passavam em

minha pobre cabeça a respeito do que eu iria falar para ele

conversa -Oi. -Oi. -Beleza, o que aconteceu cara? -Fudeu! Sentei na cadeira. O sol aquecia as coxinhas dentro do bar enfeitado por velhos de chapéu e mulheres apressadas com crianças correndo para todos os lados. -Quer uma cerveja? Ele me oferece. Adriano tomava uma, essas de uma marca bem conhecida. -Não (não tomava uma gota).

-Mais o que aconteceu cara? Por que você vai embora? -Minha mãe me mandou embora de casa. É que vendi o bujão e as cobertas dela. -“Era eu ou ela.” Ela disse. -Daí saí. Seus olhos lacrimejaram. Dona Dilma era, e é uma pessoa excelente e me havia recebido muito bem

na casa dela algumas vezes. Qualquer mãe teria feito exatamente à mesma coisa. Aliás, penso que se ela não tivesse procedido desta forma, a história não teria o fim que teve. Parabéns a ela pela coragem e pela recusa em proteger aquele erro. Mas, continuando

Amargura e tristeza pesavam o

ambiente. Meus olhos se perderam num devaneio imaginando como seria fácil resolver tudo aquilo com uma boa dose do evangelho simples. -Vou embora para Rondônia, para casa do meu pai. Lá tem menos crack. -Não adiante fugir da realidade cara. Tentei. -Mas eu não tenho para onde ir Samuel. -Vamos lá pra casa, tenho certeza que meus pais te recebem. -Não. Vou acabar roubando você cara. Me conheço. Longo silêncio. -Te levo na rodoviária então. -Não, não tenho dinheiro, vou de carona. - Puta merda, não sei o que posso fazer por você cara. Disse com extremo pesar de coração. -Não se preocupe ninguém pode fazer nada por mim. Murmura ele com uma verdade indescritível. Silêncio.

Eis nossa

-Longo silêncio

Não

sabia o que dizer

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O Espírito não me permitiria passar pelo homem caído e agir como o

levita ou o sacerdote, e eu era um péssimo samaritano, estava mais para o caído.

Sei que aquele foi o momento da minha vida, até hoje, em que Deus mais falou comigo. Os rasantes do Espírito naquele bar eram evidentes. Até que tive uma idéia.

-Eu sei o que poderia fazer por você cara, eu poderia ir com você. -Sim, isso você poderia e eu gostaria. Seus olhos se alegraram novamente. -Mas entendo que você não possa, tem suas coisas a fazer e a turma precisa de você lá.

-É o culto, é minha responsabilidade, estou preso a este sistema também.

Uma terceira pessoa entra na conversa e me diz a poderosa frase a seguir:

-Você esta preso ao sistema ou usa o sistema para desculpar sua covardia? Sim, o Espírito Santo havia me falado e me encurralado em meus

Ninguém tem amor maior que este, o de dar a vida pelos seus

amigos

Adriano, estranhamente, tentava me convencer a não ir, pois julgava meu trabalho importante para a comunidade. Agora eu entendia. O evangelho havia desanuviado em minha mente em detrimento das correntes religiosas. Eu tinha a chance de fazer diferente o evangelho bem longe da igreja e do jeito tradicional. Deus havia me dado uma chance e eu estava a ponto de desperdiçá-la devido as ‘escamas nos olhos’. Havia acabado de me tornar inimigo de mim mesmo. Agora podia lutar contra a covardia evangélica com armas potentes. Agora, não só eu deveria ir, como sabia que minha ida era uma resposta de Deus para minhas aflições. Minha linha de raciocínio havia mudado drasticamente:

-Adriano, que cristão sou eu se não for com você cara? Ele estava visivelmente chocado e alegre. -Vou falar com meus pais, se eles não embaçarem eu vou mesmo. -Está bem, nos encontramos na quadra daqui a meia hora para eu te dar a resposta. Montei em meu pégaso de metal e voei baixo. Meus pais toparam prontamente. Confesso que usei de má fé exagerando a situação um pouco, disse que achava que ele ia se matar. Fiz minha mochila e me despedi do pessoal de casa.

Passei no Valter, um grande amigo, para emprestar/ganhar 37 reais. Aproveito para agradecer. Nunca em toda a eternidade vou poder pagar por aqueles 37 benditos reais. Cheguei à quadra do colégio como combinado de bicicleta e mochila. Adriano fumava um baseado. O olhar que Adriano fez, numa espécie de seriedade, para me perguntar nunca mas vi nele -Você vai mesmo. -Sim. Eu vou! -Então vamos. Lembro de ter comprado um filme para uma velha câmera fotográfica que tinha, mas só batemos duas ou no máximo três fotos da viagem, das quais só tenho uma, acho que as outras queimaram. Em vez de ter uma mochila, eu havia escolhido uma bolsa de transportar muambas daquelas com as alças bem finas. Inexperiência fatal no trecho. Logo

argumentos

Esta frase me ecoava no espírito.

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os malditos açoites estariam me cortando a pele e eu estaria com todo o peso do mundo em minhas costas. Fomos até ao ponto de ônibus onde deixei minha bicicleta cadeada para que meu pai pegasse depois. Dentro do ônibus não conseguíamos deixar de pensar em como estávamos fugindo dos nossos domínios da Matrix para fazer algo que ela não esperava de nós. Já no Interbairros III, uma das poucas lembranças que tenho, é de um raio que caiu do céu, iluminando o firmamento chuvoso, já negro e perto do anoitecer como estava. Adriano comenta:

Viu, Ele bateu a foto dele! Adriano me contava das dificuldades existentes na estrada daqui a Rondônia, e de como a viagem poderia ser interessante, me falava que quando eu visse o tanto de terra que existe no Brasil eu veria que os sem-terra poderiam não ser tão maus assim, como insistia a televisão. Eu olhava às pessoas com profundidade, voltando de seus trabalhos forçados, nem sequer imaginando o que fazíamos ali; e nos olhando com preconceito, afinal já éramos ali mendigos e na melhor das hipóteses gente do trecho, vagabundos, vadios, ou como disse Adriano, para elas, éramos pessoas sem sorte na vida. Talvez nesse ponto, elas tivessem alguma razão. Descemos no Campina do Siqueira (Terminal de ônibus em Curitiba) e compramos uns pães com mortadela e um destes refrigerantes com gosto de remédio. Entramos no Campo Largo/Curitiba e seguimos viagem. Para mim aqueles quilômetros até nosso destino foram alguns quilômetros de uma solidão absoluta, mas não poderia desistir agora. Desembarcamos em frente a uma multinacional na beira da estrada, na entrada de Campo Largo. Além do frio do inverno, uma chuva leve e constante já caia do céu. Lembro de ter na época um blusão de cobertor que tinha ganho de uma amiga e que me serviu como o único aconchego naquela noite fria. Adriano nem coberta e nem sequer uma meia havia levado, dada à tamanha insanidade incorporada. Andamos uns dois quilômetros na chuva para chegar à estrada. Já chegamos molhados. Não havia como pedir carona e nem como andar. Decidimos armar acampamento. Adriano, o mais experimentado foi a um restaurante de beira de estrada pedir dois “marmitex” por três reais. Ele mentiu que era só o que tínhamos, e não o julguei, pois minha barriga já roncava. Além de comprar as duas marmitas por três reais ele ainda pediu um café na embalagem vazia do nosso refrigerante. Estranho foi ver o dono do restaurante colocando aquele café gostoso daquelas máquinas, em uma embalagem amassada de refri e dando-a para aqueles andarilhos. Sim, naquele momento já éramos andarilhos. Achamos um canto escuro e abandonado do posto de gasolina na beira da estrada e comemos aquela refeição feita pelos anjos do céu. Por incrível que pareça, lembro de ter comido vários tipos de carne assada além de outras guloseimas, sim, de fato, fizemos uma refeição de primeira, além de tomar aquele café no bico de uma garrafa pet que parecia o suco dos elfos. Neste ponto a chuva já caia torrencialmente sobre nosso telhado de zinco, fazendo um barulho aterrador. Eu havia forrado o chão com minha blusa de cobertor e juntado um pedaço de compensado velho para quebrar o vento. Eu e o

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Adriano estávamos dividindo minha boa e velha cobertinha roxa. Então lembrei que precisava ligar para casa. Havia um telefone na porta do restaurante, mas a chuva era torrencial. Adriano acho que dormia. Me sentia só e um pouco amargurado. Orei a Deus:

-Meu Deus, dá um jeito nesta chuva para que eu possa ligar pra casa. Inexplicavelmente a chuva parou como se alguém fechasse uma torneira. Vesti minha blusa molhada e meu tênis molhado, mas agora com uma meia seca, peguei meu cartão e corri para o orelhão. Liguei para casa. Quando estava voltando, desviando das grandes poças, a uns dez metros da nossa “cama” escutei a primeira gota bater no telhado de zinco, mais um passo e outra gota caía, logo eram várias, quando sentei em cima da coberta a tempestade já havia voltado a cair no auge de seu vigor. Coincidência? Talvez. Mas gosto de pensar que naquele dia, como os heróis da fé, Deus parou a chuva por um pedido meu. À noite se arrastou lentamente, não dormi nem um segundo sequer, tinha os pés congelados e senti o pulmão congelar com as costas naquele concreto gelado. Um caminhoneiro ainda nos achou e veio com uma conversa estranha que queria comprar de nós uma blusa, que estava viajando e não sabia que no sul do país fazia tanto frio. Quem em sã consciência compraria uma blusa de andarilhos? Acho que ele queria mesmo era companhia sexual, e teve de nós uma negativa eloqüente. Logo a chuva passou e decidimos seguir viagem para esquentar. Perto das três da manhã o frio nos tirava o sossego; saquei uma meia seca e calcei com um All Star azul calcinha que tinha, péssima escolha para caminhadas longas. Logo saberia disso ao calejar da manhã. Começamos a andar. Uma das poucas lembranças que tenho é de ter uma música martelando na cabeça, uma que falava sobre o Pastor de Israel. Conversávamos sobre a Matrix e seus estratagemas para nos ferrar na vida. E sobre o que estávamos fazendo agora contra ela. E a conversa corria solta. Começamos a andar, eram umas três da manhã, depois de não ter dormido nem um segundo sequer. Uma forte neblina começava a tornar à noite ainda mais estranha. Subíamos a serra do São Luis do Purunã a todo o vapor, rasgando a neblina, aquela neblina simbólica. Descansamos em uma pequena lojinha na beira da estrada. E já ali tomamos a água que descia da serra como se fosse o melhor licor da natureza. E era. Minha mochila começava a marcar minhas costas e meus pés molhados começavam a calejar já na madrugada. Na estrada, às vezes, não se tem muito o que conversar, os caminhantes entregam-se a solidão e ao silêncio da estrada e meditam ouvindo apenas os passos ecoando no infinito. Quem já encarou esta estrada na vida sabe. Ao amanhecer, o cansaço da caminhada nos fazia perder a graça, no meio da neblina, cansados e com frio e com a infinita highway pela frente, Adriano cita Diovani:

-Lembra que o loco (era como nos referíamos a ele) disse que o nada não existia? -Sim. -O nada é aqui. Achamos ele.

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Aquilo fazia perfeito sentido, os andarilhos e mendigos representam de certa forma aqueles que não conseguiram se encaixar ou foram desencaixados da sociedade e da Matrix e andam agora nos circuitos entre os programas, sem fazer parte de nenhum deles. Eles não habitam nenhum centro, não são arquivos executáveis em nenhum sistema, vivem nos caminhos entre eles. Nos caminhos entre as cidades sem fixar residência, habitam o “nada” existencial embora sejam muitos. Logo teríamos companhia para comprovar nossas teorias. Caminhando, falo para Adriano da probabilidade do pessoal da igreja me considerar um herói, ou algo assim, por ajudá-lo naquela situação e andar com ele por alguns dias. Adriano de fato relutou a acreditar nisto e, na verdade, como pode um meio todo ser assim tão inocente e impressionável? Me pergunto até que ponto minha decisão em ir não tem um pouco a ver com a vaidade que isso me proporcionaria. É amigo, a verdade da nossa condição pecaminosa nos afronta em todos os níveis imagináveis. Desconfiar de si mesmo é, e deve ser sempre uma atitude sábia. Pensando e falando sobre isto com Adriano, acabo por citar o velho poeta Raul Seixas:

-Adriano, o meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer te ajudar! Risos Apesar das gargalhadas dadas na ocasião, me pergunto hoje se escrever este livreto não seria a manifestação final daquele espírito auto-construtor? Se sim, que Deus me perdoe, se não que Deus me perdoe também. Alguém ainda poderia achar:

-Se assim fosse você não contaria tão claramente esta impressão. A isto respondo irônica e simplesmente. - O meu egoísmo é tão egoísta que o auge de meu egoísmo é te falar a verdade! Voltando a caminhada Alguns quilômetros à frente Adriano verbaliza sua vontade de cagar. Subimos um morro, e ele abaixa as calças e começa a fazer cocô enquanto os carros passam logo abaixo subindo a serra. Fico chocado com aquela cena apocalíptica e aterradora. Ele tira o exame de HIV positivo que trazia na carteira e transpirando autoridade, limpa a bunda com o exame. Não sabia se ria ou chorava. Desonrado e pasmado eu disse só o que pude pensar:

-Isso, deixe pra trás. E lá ficou aquele exame abandonado para sempre, entregue ao desprezo e humilhação, apodrecendo onde era seu lugar, no meio da merda e do nada ao mesmo tempo. Uma Kombi com o dizer “Comunidade Amor Incondicional,” com uma pintura que a fazia parecer aquelas kombis dos hippies da década de sessenta, ou pelo menos é a forma de que me lembro dela, passa por nós no início da manhã e, me enche de esperança. Pedimos carona com o sinal velho conhecido. O motorista olha para nós e faz o sinal de positivo rindo maldosamente, pisa fundo no acelerador de sua “máquina de amor” e nos deixa somente com a “fumaça de amor” de sua Kombi velha.

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Pode se entender porque às pessoas não entendem a postura de certos cristãos diabólicos. Rimos a valer, com ironia gigantesca daquilo, além de ofender aquele motorista com todas as minhas forças mentais. Tomamos café no pedágio. Adriano pediu o pão e o café em um posto que tinha por lá. Com direito a queijo no pão. Usei o banheiro da praça de pedágio, não consegui ser tão underground como ele, e tomamos um café por lá também. Paramos em um ponto de ônibus na beira da estrada a fim de pedir carona. Lembro de ter pensado na minha barba e no meu cabelo comprido e falado:

-O cara pra dar carona pra nós dois tem que ser muito mais louco que nós

cara.

Passa um caminhão, damos com a mão e ele para com uma freiada extremamente brusca. Entramos e o maluco pergunta:

-Vão para onde? -Rondônia. -Depois eu que sou louco dizem meus amigos! Resmunga o caminhoneiro. É a única resposta que teríamos dele. Logo saberíamos que ele iria para Palmeira e nós queríamos ir para Ponta Grossa. Descemos. Meu único arrependimento daqueles dias foi o de não termos ido com o maluco estrada a fora.

Descemos no marco da estrada do café. Seus amigos não estavam errados em chamá-lo de louco, afinal, quem em sã consciência daria carona para dois tipos como nós, deveríamos estar parecendo bandidos. Travávamos conversas sobre a restauração do homem e a perspectiva cristã da coisa e sobre o problema das drogas. Falávamos de filosofia aplicada em detrimento do excesso de teoria, vaidade, implicância, orgulho, repetição e outras coisas achadas nos ditos filósofos que conhecíamos e ríamos nos perguntado quem éramos para afirmar coisas como aquelas. Já era quase a hora do almoço e eu já sentia os calos na sola dos pés além das dores na musculatura das pernas. Já estávamos a mais de 24 horas sem dormir e andando a quase doze. Diante da dramaticidade da caminhada, daquele estilo de vida e a forma prazerosa com que Adriano parecia encarar aquilo tudo, quando chegávamos perto do próximo posto de gasolina, eu falo uma palavra, que depois fiquei sabendo, foi muito forte para as decisões que Adriano tomaria em sua vida:

-Adriano eu sei qual é o teu problema cara. -Fala. -Você é masoquista, você simplesmente gosta de sofrer cara. Adriano riu impossibilitado de negar a afirmação dada às circunstâncias. Logo veio a minha surpresa. Ao chegarmos ao posto de gasolina Adriano me da à missão. -Samuel, você descola a comida. Mas, não podemos comprar, temos que economizar, você vai ter que pedir. Naquele dia eu vi como eu era orgulhoso, pedir comida em um restaurante foi como ir para morte. Já estava sujo de graxa da noite anterior no posto, já fedia também, mas os conselhos mórbidos do Adriano a respeito do como fazer me auxiliaram bastante:

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-Olhe para baixo, fale baixo como se estivesse doente, não ria E eu fui mesmo e acabei pedindo:

Tem como você arranjar um pouco de comida para

mim e para meu amigo? O dono simplesmente me disse:

-Vai lá fora que já levo. Foi fácil! Ele queria se livrar de mim o quanto antes. Fui, pedi e ganhei duas marmitas recheadas. Como estavam boas aquelas colheradas de arroz. Penso que todos nós deveríamos, uma vez por ano, pedir comida vestidos de andarilhos em um restaurante, veríamos todos o mundo de outra forma. Reza a lenda na estrada, de que muitos donos e filhos de donos de restaurantes de beira de BR’s já foram salvos de acidentes automobilísticos por andarilhos. Daí a relutância deles em negarem comida aos pedintes. Dormimos no ponto de ônibus logo depois do almoço. Que sono gostoso. Lembro de ter me coberto na frente de um ponto de ônibus, perto das pessoas e

me enrolado como um mendigo mesmo, na beira da estrada. Já dava para dormir com um pouco de calor e com os pés secos embora a neblina não estivesse dissipada. Mal eu havia dormido e o Adriano do cacete me acordava com o argumento:

Dizia ele.

-Éééééé

O cara

-“Temos que ir”! Sem muito tato respondo:

-Adriano, cacete. Posso te fazer uma pergunta séria? -Pode. -Mas afinal de contas, você esta com pressa para quê? Apesar da minha maldade em saber que ninguém o estava esperando, aquela frase nos rendeu boas risadas e duas horas de sono regenerador ao som dos caminhões passando. Havíamos pedido carona tantas vezes que já não tínhamos esperança de conseguir. Andávamos na fé de que, para o norte do Paraná às pessoas fossem mais caridosas neste nosso país cristão. Acordamos então e saímos para a mais dura prova. Começamos a caminhar, eram perto das três da tarde; partimos rumo à terra do nunca. Os dois pequenos hobbits cansados começavam a se movimentar novamente. No decorrer da caminhada a coisa mais surreal de todas aconteceu. Alcançamos na jornada um outro rapaz andarilho. Tratava-se de um jovem, negro como à noite, cabelo black-power e indumentária completamente maltrapilha. Juntamos-nos a ele na caminhada. Ele veio completar nossa teoria. Era um programa apagado da Matrix e jogado na lixeira do sistema. Seu padrasto o havia expulsado de sua casa no Bairro Alto e ali ele estava. Ao ser questionado por mim a respeito do que ele estava fazendo ali ele simplesmente respondeu:

-To ai, dando uma caminhada. Aquela resposta seca e desprovida de qualquer senso me amargurou o coração.

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Se a cena já não fosse surreal o bastante, logo um outro caminhante se juntaria a este comboio. Um homem velho e baixo, de fala rápida, se juntaria a nós. O detalhe interessante sobre este homem foi a sua garrafa de cachaça a tira colo, que ele ofereceu sem esboçar qualquer egoísmo. Eu não quis. Adriano, não lembro ao certo. Logo me vi de fato como um mendigo andando com outros três. Senti todo o peso hipócrita do olhar das pessoas que passavam de carro por nós e reagiam de diversas maneiras. Penso que as mães que passavam por nós com seus carros diziam a seus filhos:

-Olhem, estudem para não acabarem como aquelas pessoas ali filho. Mesmo ali o sistema nos usava para pregar sua doutrina manipuladora. Estranho considerando que eu não havia feito mais nada na vida a não ser estudar. Nós quatro andávamos como se fôssemos aqueles que um dia julgariam o mundo, como se fôssemos os quatro cavaleiros do apocalipse se aproximando do fim de todas às coisas, como se fôssemos testemunhas do nada e do tudo, do começo e do fim que é também o começo, da morte em vida. Sim, se pode estar morto mesmo respirando, basta não se ter para onde voltar, como aqueles homens ali. Sem propósito e sem destino, mas mesmo assim, muito mais corajosos em não estar alimentando à teia do despropósito existencial disfarçada em sonhos de consumo das nossas instituições. Marchávamos para o abismo, mas sem nos auto-enganar com miragens imbecis. Ali nós havíamos nos tornado, mesmo que por algumas horas para mim apenas, tudo aquilo que nossas mães e nossos pais não queriam que fôssemos. E mesmo assim, eu estava feliz por não estar trabalhando em algum lugar por alguns reais ao dia. Tomara que alguém tenha de alguma forma na eternidade capturado nossas almas e nos roubado o momento, pintando em algum lugar no tempo, aqueles quatro pobres homens dividindo aquela pinga sobre aquela planície neblinada e fria. Andamos algumas horas juntos como a mais medieval das famílias nômades da história. Nos falamos pouco, não tínhamos muito o que falar, nos entendíamos sem palavras. Andamos algumas horas protegidos pelos fantasmas uns dos outros, cada um perdido em seu próprio mundo de pensamentos. Quem sabe o que cada um pensou naquelas estradas mal humoradas. Eu e Adriano paramos para descansar em um ponto de ônibus ao cair da noite e eles continuaram vencendo os quilômetros sem nós. Não nos despedimos. Não dissemos “tiau” ou “adeus”, talvez soubéssemos que não estávamos nos separando ali, talvez soubéssemos que morávamos juntos para sempre naquele universo e naquela pintura e assim estaríamos juntos neste mesmo lugar comum da alma. Se as forças misteriosas que controlam o humor do universo um dia, colocarem este texto nas mãos daqueles homens, gostaria de lhes dizer algo que não disse na ocasião:

-“Ele veio para evangelizar os pobres”. Eles entenderão Comparar nossas vidas a universal figura da estrada era inevitável. A todo momento pensava nas escolhas da existência, nas pequenas saídas paralelas, nas povoações à beira da Br, nos transeuntes e nas comparações óbvias.

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À noite começava a cair, o frio e a fome se aproximavam como lobos devoradores. Às solas dos pés ardiam com se estivessem sobre brasas pelo caminhar dos pés molhados. Ali não tinha visto ainda, mas sabia que meus pés já estavam em coro vivo. Adriano tentou ligar sem sucesso para casa. Chegamos ao segundo pedágio. Lá parados descansando cheguei onde queria. Preguei para o Adriano o Evangelho. Mas não o meu evangelho de costume. Um evangelho que agora, no coração dele e no meu, poderia ser levado até as últimas conseqüências pelo amor da graça e não tratado como uma simples filosofia sem sentido. Eu estava disposto a ir longe para que ele entendesse que o evangelho que eu lhe propunha não tinha nada a ver com o que ele conhecia no catolicismo e no protestantismo televisivo. Eu estava disposto, no mínimo, a calejar meus pés para externalizar a fé que habitava e meu coração e agora ele podia ver isso. Pela primeira vez eu tinha o seu respeito total e até mesmo seu temor. Em verdade em verdade vos digo, andávamos em três pessoas aqueles quilômetros, Eu, Adriano e o Espírito daquele que É, que Era e que há de vir, o Alfa e o Omega. Sentado à beira do segundo pedágio eu abri a pequena Bíblia que havia levado e li para ele, Deuteronômio 30:11-14 “Os mandamentos que hoje estou dando a vocês não são difíceis de entender, nem de cumprir. Não estão lá em cima, no céu, de modo que vocês perguntem: - Quem subirá até o céu a fim de nos trazer os mandamentos, para os ouvirmos e os cumprirmos? Nem estão do outro lado do mar, de modo que perguntem. Quem atravessará o mar, a fim de nos trazer os mandamentos, para os ouvirmos e cumprirmos? Pelo contrário, os mandamentos estão aqui com vocês; vocês os guardam no coração e podem recitá-los e por isso devem cumpri-los.”. Depois lhe disse que não era necessário fugir da nossa realidade, mas sim voltar e vencê-la nas formas como ela se apresentava. Usando o versículo, lhe disse que a palavra capaz de fazê-lo vencer não estava longe, em Rondônia mas ali perto dele, no coração e na sua boca, para ser usada a favor da capacidade do escolhido de desviar-se das intenções homicidas de qualquer agente. Ali eu senti que de mim saiu virtude e o bicho pegou. Havia me tornado um Morpheus digno de crédito. Eu sabia disso, ele sabia disso e os agentes sabiam também. Hoje eu sei que naquele momento a batalha havia sido ganha. Sentia que aquela palavra tinha gerado fé no coração de Adriano. E agora ele considerava seriamente minhas propostas. Seus olhos me fitavam com uma seriedade grave e profunda. Começamos a andar novamente, a fome, o frio, o cansaço e os calos nos pés já não significavam muita coisa diante das novas realidades que tínhamos provocado, nas realidades que agora se reorganizavam enlouquecidas dentro dos mainframes na cabeça do criador. Havíamos acessado um novo futuro, tanto para mim, como para ele. Eu podia sentir, melhor, eu podia ver. Um gatilho de novas possibilidades dentro da existência havia sido detonado. Um novo predestino estava sendo ligado. E um predestino que os agentes não poderiam combater ou prever. Não podia evitar, andei vários quilômetros dançando de alegria. À noite caía, e só o que eu pude fazer foi soltar o meu cabelo, colocar meus óculos escuros e agitar como se estivesse em um show do Mortification. Andei muito

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tempo naquela explosão extasiada e mística. Como se fosse agora um gigante da reprogramação. Caminhoneiros passavam e buzinavam, carros esticavam seus pescoços para ver o que estava acontecendo. Adriano me observava de longe. Praticamente corríamos enlouquecidos. De repente, chegar logo se tornou uma obsessão e andávamos como se disto dependesse nossas vidas. Ali a coisa já era

outra. Subia aquela serra cheio do Espírito do verdadeiro Cristianismo. Ali entendi como os cristãos de fato, nunca precisaram ou precisarão de drogas para atingirem estados alterados de consciência. Basta amar o próximo e viver com as conseqüências. Parecia que iria explodir. Passamos as pontes. Preparávamos-nos para subir mais uma serra, serra, que segundo Adriano teria um restaurante para que pudéssemos pedir comida. A estrada estava em obras em meia pista. Uma outra cena surreal estava ali preparada. A estrada estava cheia daqueles cones iluminados com faróis na escuridão. No meio da serra sentamos encostados numa placa, em uma curva na estrada ao lado dos cones. Os carros que desciam às serras de longe nos podiam ver sentados no meio da pista esparramados. Eles vinham bem devagar pensando

que estávamos no meio da rua. Acho que evitamos algum acidente ali

garoa fina caia do céu. Eu ali já havia me entregado ao cansaço. Estava acabado para valer. Esgotado. Poderia dormir até na chuva. Poderia morrer ali que estava bom. Estava a ponto de desistir, afinal, o trato era irmos de carona para Rondônia e não a pé. Quando, de repente, como num salto, um tom grave nas palavras de Adriano, ornamentado pela coragem dos grandes, me devolveu o ânimo e me capturou a atenção. Sentados ali no asfalto, com frio, com fome, com os pés calejados, molhados, com os músculos doloridos, desanimados, com os ombros marcados pelo peso, moralmente e socialmente humilhados pelos olhares reprovadores das pessoas em seus carros eu ouvi o que queria ouvir todo aquele tempo; e ouvi de forma simples a frase que arrancou festa dos anjos no céu:

-Samuel, vamos voltar. Vou reconstruir minha vida. BOOM!!!!!!!!!!!! Fogos de comemoração no meu íntimo. E este é o final simples da história. Aquele foi o “sim” definitivo do Adriano para o Evangelho de Jesus. Deitei com a cabeça no asfalto molhado e respirei aliviado. Deitei com a cabeça serra abaixo em desnível. A neblina molhava meus cabelos. Lembro de ter orado e agradecido a Deus, mas não lembro o que falei, se é que falei. Ali já não havia mais a formalidade das palavras e da linguagem nas orações. Eu só sentia em Deus. Finalmente, ele entendeu. Deitei ali como que completamente revigorado e emocionado depois das quase vinte e quatro horas de caminhada e quase doze sem comer nada. Subimos à encosta e chegamos no restaurante. Eu ainda tinha os trinta e sete reais que o Valter havia me dado e pensei:

Uma

-Vamos entrar e comer na mesa. Pedimos a comida, o garoto diz:

-Só temos arroz, feijão, bife e alface, pode ser? -Sim. Respondemos. Abençoado dos céus!

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Mal sabia o rapaz o estado de fome em que estávamos. Eu tremia de fome quando o rapaz chegou com o prato. Literalmente quase chorei quando ele o colocou na mesa. Sem medo de dizer, afirmo, “aquela foi a melhor refeição que comi em toda a minha vida”. Meu Deus, como estava bom aquilo. Um manjar. Tomamos café também. Pagamos com o dinheiro do Valter. Que Deus abençoe as mãos da pessoa que preparou aquela refeição naquele dia. Celebramos com certeza íntima e profunda uma santa ceia maluca ali naquele restaurante, com café e arroz e feijão. Saímos do restaurante e tratamos de achar papelão para forrar nossa cama naquela noite. Nossos amigos andarilhos já estavam dormindo ao lado de um barracão. Ainda conseguimos achar um velho canil abandonado do restaurante, o que nos pareceu um hotel cinco estrelas, mas logo fomos tocados de lá por um infame dum cara. Escolhemos então, uma parede mais ao lado, que nos protegesse do vento. Estendemos nossos travesseiros virtuais nos fundos do restaurante, no chão, e com a barriga cheia. O corpo destruído e o dever espiritual cumprido; com as mochilas amarradas nas pernas para evitar furtos, nos rendemos. Estendemos nossa coberta roxa sobre os papelões ao lado de nossos amigos mendigos e dormimos como anjos naquela serra congelada de fundos para um galpão abandonado e sujo. Tesouros em vasos de barro. Pensei nos meus pés duramente castigados e calejados, mas não quis olhá- los, preferia não vê-los, uma vez que, o que os olhos não vissem talvez o coração não sentisse. Embora, no solado dos pés eu sentia e sentia para valer as bolhas estouradas de sangue. Agora eu só queria dormir. Desmaiei. Desta vez tínhamos papelão. E aqui vai uma dica importante para quem vai dormir no chão. O papelão é um ótimo isolante térmico. Basta achar um cachorro de rua e observar, ele estará dormindo sobre um. Bem como os idosos, que sempre usam papelão embaixo do colchão. Acordei de manhã debaixo da coberta úmida. Ironicamente sonhava que tinha que caminhar por uma longa e difícil estrada. Não descansei nem dormindo. Adriano já estava pedindo o café na nossa embalagem de pet. Tomamos um gole. Nossos amigos já haviam começado a caminhar cedo. Fomos para o ponto de ônibus onde ficamos por uma meia hora. Adriano fuma seu ultimo baseado na vida (que eu saiba). Mas uma vez nego a oferta. Batemos uma foto na placa da quilometragem em que resolvemos voltar (esta eu tenho). E esperamos o Ponta-Grossa/Curitiba. Entramos no ônibus como se entrássemos nas portas do céu. Aqueles bancos nunca foram tão macios e aconchegantes. Uma criança de colo, um neném na verdade, nos olhava dentro do ônibus como se fossemos as coisas mais interessantes do mundo. Seus olhos infantis representavam ali algo como um anjo, ou quem sabe um guardião atento ou até mesmo o próprio Deus, tamanha a atenção que nos dispensava. A estrada parecia nova, às pessoas pareciam novas, Curitiba parecia nova e a rodoferroviária parecia nova. O mundo havia ganho dimensões em minha percepção completamente novas e desprendidas das verdades anteriores internalizadas. Minha perspectiva da vida e de sociedade tinham amadurecido.

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No centro, lembro de termos lido a Bíblia no trecho de Deuteronômio que dizia: - Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo! Rimos muito com isto. Não adiantava fugir. Descemos em Curitiba e fomos ao cinema. Sim estava passando na época

o Matrix Reloaded que eu já havia assistido, mas o Adriano não. Agora eu poderia começar a lhe ensinar algumas coisas sobre o evangelho. Compramos os ingressos e nos sentamos no imponente Shopping Curitiba. O representante máximo da miragem capitalista e burguesa da velha e careta Curitiba e dos domínios da teia sobre os desavisados. Os seguranças nos encaravam com receio. Ainda estávamos como mendigos, não sei como, mas conseguimos entrar.

O filme nos caiu como uma revelação bombástica. Era quase como se ele nos

tivesse dado as coordenadas para nossas próximas ações na nossa realidade. As coincidências foram fortes o bastante para me provocar náuseas. Tudo o que nem eu e nem Adriano sabíamos como fazer nos próximos passos da vida, nos foram claramente explicados na trajetória do escolhido. As figuras do filme eram assombrosamente claras para nós quando confrontadas com nossa realidade. Era como se os diretores do filme o tivessem feito pensando na nossa necessidade no

momento. Até mesmo a forma como Neo se sentia confundido no início do filme nos provocou risos. Adriano há poucos minutos tinha dito a mesma frase que Neo no começo do filme. Na saída, uma das cenas mais tocantes que poderia ter visto. Adriano, a exemplo do filme, pegou um cartão telefônico e ligou para sua mãe, o teor da conversa não ouvi, preferi me afastar, e é bom que aquelas palavras fiquem guardadas para eles apenas. Sentei-me a certa distância, já no ponto de ônibus do Araucária-Curitiba e observei a Nabucodonosor indicar a linha para o retorno. Sei que pouco tempo depois eles se acertaram e voltaram a viver em harmonia. Interessante minha relação nostálgica com os lugares onde dormimos aqueles dias. Era como se me fossem casas. Lembranças de casas onde morei na infância ou algo assim. Existe uma poética muito grande nisso. Andarilhos, ao contrário do que todos nós pensamos, têm uma relação de casa com os ambientes em que dormem sim. Claro, todas as conclusões psicológicas podem ser desenvolvidas a partir disto, mas o sentimento de casa ainda está lá, por menor que seja. Igualmente a cama. Lá, na estrada da vida, a refeição é muito mais sagrada do que nas nossas vidas comuns. Viver um tempo no deserto, assim como Jesus em sua vida, pode ser uma ótima experiência antes de resolver fazer qualquer outra realização, queira ela ser grande ou pequena. Água, o maior bem de que dispomos.

A

principal lição que poderia me arrogar a ensinar nestas linhas é a

seguinte:

-A

Matrix sempre responde se provocada!

Acredite, ela não falhará em se reorganizar. Não pode se conter. Faça e se prepare, pois ela colocará do teu lado toda a milícia necessária. Não use a figura de sistemas para justificar nenhuma covardia. A. Já. Aja. Haja. Seja realista, exija

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o impossível! Como disse o poeta. Se é impossível, então é bem provável. Faça a sua escolha! Tomar a atitude de coragem em amor sempre atrairá ajuda humana, atenção espiritual, circunstancialidades benéficas e alegria. Sim. Muita alegria no Espírito. Manter o traseiro em frente da televisão pode anestesiar a consciência ao longo dos anos, mas nunca, sobre hipótese alguma, dar à vida a qualidade necessária para a imprevisibilidade, felicidade e aventura. Para o respirar aliviado do ser. É bom não saber onde se vai dormir à noite, ou onde se vai acordar de manhã. É bom não saber o que se vai comer na hora do almoço ou em que parte do globo se tomará o próximo banho. É interessante saber o porquê de ser este o estilo de vida escolhido por Jesus, os apóstolos e os heróis da fé. O porquê fomos chamados para ser o povo em constante “IDE”! Voltamos para casa e Adriano pode então, não sem muito tempo, trabalho, investimentos, suor e dedicação, reconstruir sua vida e constituir família para glorificar ao Velho programador. Muita água ainda rolou debaixo desta ponte, águas boas e águas amargas. Os próximos meses foram meses de negociações e fugas, favelas, hospitais e etc. O fim desta história não é o fim de um conto de fadas onde todos viveram felizes para sempre. Nossa humanidade ainda continua latejante e sempre capaz de nos surpreender com novas perversões mas, sabemos disto com cada célula de nosso ser. Sejamos todos mentirosos e Ele, o Único Verdadeiro. Já em Araucária, fomos fazer uma visita a minha avó. Ela, crente pentecostal, sem saber de nada incorpora o Oráculo por alguns minutos e olhando firme para os olhos de Adriano revela:

-Fique firme filho. Mesmo quando na longa estrada a neblina parecer indissipável, siga com Jesus. Ambos ficamos chocados. Em outra ocasião, dentro de um ônibus para Curitiba. O inexplicável acontece. Uma mulher vestida de palhaço que trabalhava para algum hospital entra em nosso ônibus e começa a fazer propaganda de alguma coisa que não lembro. De repente, o Oráculo aparece novamente, ela ao nos ver, interrompe seu discurso, toma uma postura séria, aponta o dedo para Adriano e fala para o ônibus todo ouvir:

-Escute o que este cara te diz! Ela aponta para mim e repete:

-Escute o que este cara te diz! O biarticulado para em seu próximo tubo e ela desce nos deixando ambos atônitos. Deus (Oráculo) nos apareceu vestido de palhaço. Estas e outras manifestações sobrenaturais aconteceram nesta história, e serão divulgadas mais tarde.

Aquela foi à primeira de muitas caminhadas para longe da realidade estabelecida. E a primeira de algumas outras histórias vividas nesta estrada. Fiquemos com essa por agora.

Todo começo tem um fim.

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Obrigado por ler. Este é um e-book e por assim ser, foge de todas as formas de controle de mercado e representa hoje talvez a única forma de mídia literária acessível a todos os tipos de marginais. Por isto, para poder ter algum retorno do efeito deste texto, um comentário seu no blog abaixo seria muito bem-vindo. E não somente para meu retorno, mas para você que gostaria de receber literatura desta natureza, minha e de outros autores. E mesmo para você que tem seus escritos e poderia contar com esta ajuda de divulgação; uma grande caixa de contatos. Abraço.

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