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Territorializações de Grupos Juvenis em Santa Maria-RS

Territorializaciones de Grupos Juveniles em Santa Maria-RS Territorializations of Juvenile Groups in Santa Maria-RS

Arthur Breno Stürmer

Instituto Federal de Alagoas, Campus Palmeira dos Índios. Avenida das Alagoas - Palmeira de Fora 57601220 - Palmeira dos Índios, AL - Brasil

E-mail: arthur.sturmer@gmail.com

Gustavo Pauli Herrmann

Mestrando em Geografia na Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. E-mail: gustavo-ph@live.com

Recebido: 05 de maio de 2017

Aceito: 11 de julho de 2017

Disponível on-line em http://e-revista.unioeste.br/index.php/pgeografica

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Resumo – O objetivo desta pesquisa foi estudar a juventude e sua relação com o espaço urbano na cidade de Santa Maria-RS, focalizando grupos juvenis. Através de sua territorialização, discute-se a relação intrínseca entre identidade e espaço. O método etnográfico e a ferramenta flâneur foram usados para localizar e observar grupos juvenis no Parque Itaimbé. O setor três deste Parque revelou-se um dos melhores locais para as territorializações, seja pela sua área verde e espaço amplo, seja pelo favorecimento de encontros, convivência tranquila e possibilidade de apropriação do espaço. Conclui-se que os grupos juvenis possuem necessidade de espaços de socialização que permitam a vivência em grupos. Suas territorializações demonstram suficientemente a busca por locais que contrastam com a cor cinza da cidade, o barulho, a insegurança e a falta de liberdade que estão nos arredores do Parque.

Palavras-chave: Território; Espaço; Juventude; Flâneur; Etnografia.

Resumen El objetivo de esta investigación fue estudiar la juventud y su relación con el espacio urbano en la ciudad de Santa Maria-RS, enfocando grupos juveniles. A través de su territorialización, se discute la relación intrínseca entre identidad y espacio. El método etnográfico y la herramienta flâneur se utilizaron para localizar y observar grupos juveniles en el Parque Itaimbé. El sector tres de este Parque se ha revelado uno de los mejores lugares para las territorializaciones, sea por su área verde y espacio amplio, sea por el favorecimiento de encuentros, convivencia tranquila y posibilidad de apropiación del espacio. Se concluye que los grupos juveniles poseen necesidad de espacios de socialización que permitan la vivencia en grupos. Sus territorializaciones demuestran suficientemente la búsqueda de lugares que contrastan con el color gris de la ciudad, el ruido, la inseguridad y la falta de libertad que están en los alrededores del Parque.

Palabras clave: Território; Espacio; Juventud; Flâneur; Etnografia.

Abstract – The objective of this research was to study the youth and their relationship with the urban space in the city of Santa Maria-RS, focusing on youth groups. Through its territorialization, the intrinsic relation between identity and space was discussed. The ethnographic method and the flâneur tool were used to locate and observe juvenile groups in Parque Itaimbé. Sector three of this Park has proved to be one of the best places for the territorializations, be it for its green area and wide space, or for the favor of meetings, peaceful coexistence and possibility of appropriation of the space. It is concluded that the youth groups need spaces of socialization that allow the experience in groups. Their territorializations sufficiently demonstrate the search for places that, in themselves, contrast with the gray color of the city, the noise, insecurity and lack of freedom that are in the vicinity of the Park.

Keywords: Territory; Space; Youth; Flâneur; Ethnography.

Revista Perspectiva Geográfica-Campus Marechal Cândido Rondon, v. 12, n o . 16, p. 22-32, 2017.

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Stürmer, A.B. & Herrmann, G.P. – Territorializações de Grupos Juvenis em Santa Maria-RS

Introdução

Esta pesquisa foi desenvolvida através do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIPE) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), durante o curso de Graduação em Geografia da mesma instituição, no período letivo de 2012. Teve como objetivo estudar a juventude e sua relação com o espaço urbano na cidade de Santa Maria-RS. Focalizaram-se os grupos juvenis deste município, considerando que os mesmo são visíveis no espaço geográfico através da territorialização, organizando uma relação intrínseca entre identidade e espaço. No primeiro momento da pesquisa a meta foi conceituar juventude e território. Em um segundo momento, através da etnografia e do uso da ferramenta flâneur, identificamos na cidade de Santa Maria-RS grupos juvenis e sua localização.

A pesquisa poderia ser desenvolvida por dois vieses: acompanhar um grupo juvenil e os territórios nos quais transitam ou estudar um território específico, observando os grupos juvenis que neste local transitariam. A escolha pelo território resultou em ter como campo de pesquisa o Parque Itaimbé, no município de Santa Maria-RS, por apresentar uma considerável diversidade social. Por fim, buscamos entender a relação dos grupos juvenis com o território – a compreensão da sua territorialização –, contribuindo assim na ampliação do campo de estudo da Geografia.

Definição de juventude e contexto histórico

Primeiramente é preciso entender o termo juventude e o que se entende por essa palavra. Para Paul Singer existe uma idade que irá lhe permitir o uso do status “jovem” ou não, isto é, “compõem a juventude pessoas que estão na mesma faixa etária, digamos dos 16 aos 24 anos” (SINGER, 2008, p. 27). Assim existe, teoricamente, uma idade estabelecida para ser e estar presente dentro do grupo de pessoas jovens.

Porém, para definir juventude não podemos esquecer que ela é um fenômeno cultural e histórico (ABRAMO, 2008). Isto quer dizer que a definição de juventude pode ter variações conceituais de acordo com as diferentes culturas. Na sociedade medieval, argumenta Abramo (apud FERNANDES e TURRA NETO, 2007, p. 05) “não havia separação entre o mundo infantil e o adulto, assim como não havia uma separação pronunciada entre o universo familiar em relação ao universo do trabalho e ao social mais amplo”. Segundo a interpretação feita por Fernandes e Turra Neto (2007), não havia destaque ao grupo de jovens em outros tempos históricos. Nas sociedades mais primitivas ocorre um processo de ritualização da passagem da fase infantil para adulta. Isto nos leva a pensar que a juventude é algo recente:

Tal como foi consolidado no pensamento sociológico, a juventude ‘nasce’ na sociedade moderna ocidental (tomando um maior desenvolvimento no século XX), como um tempo a mais de preparação (uma segunda socialização) para a complexidade das tarefas de produção e a sofisticação das relações sociais que a sociedade industrial trouxe” (ABRAMO, 2008, p.

41).

Então a sociedade moderna, rompendo com a questão da ritualização, passa a encarar juventude como um conceito que atende às necessidades da sociedade industrial, passando, mais tarde, a ser estudado mais profundamente pelas Ciências Humanas.

Território e cultura

Após a conceituação de juventude, convém esclarecer a noção de território. Ele inexiste sem a cultura. Segundo Bonnemaison (2002, pp. 101-102), “é pela existência de uma cultura que se cria um território e é por ele que se fortalece e se exprime a relação simbólica existente entre a cultura e o espaço”. Dessa forma, é diante do território que se dá a relação da cultura com o espaço. E para reforçar essa relação, o autor afirma que ao

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território se associa a função social e a função simbólica, sendo o território espaço social e espaço cultural ao mesmo tempo.

Para existir território se faz necessária a cultura¹, que abrange grupos sociais que tendem a se organizar em uma determinada área: “O território surge, na tradicional Geografia Política, como o espaço concreto em si (com seus atributos naturais e socialmente construídos), que é apropriado, ocupado por um grupo social” (SOUZA, 2008, p. 84).

A partir disso, podemos afirmar que os grupos sociais, apropriando-se do espaço, produzem o território, estabelecem relações simbólicas e culturais com o local e criam uma identidade:

A ocupação do território é vista como algo gerador de raízes e identidade:

um grupo não pode mais ser compreendido sem o seu território, no sentido de que a identidade sociocultural das pessoas estaria inarredavelmente ligada aos atributos do espaço concreto (natureza, patrimônio arquitetônico, “paisagem”) (ibidem, p. 84).

Podemos notar que a definição de território está relacionada a algumas possibilidades de relação conceitual, tendo ora aproximações políticas, ora funcionais e por vezes técnicas. No caso desta pesquisa, aproximamos o território da cultura, como faz Bonnemaison (2002), a fim de entender melhor como se dão as relações localizadas de parte da juventude de Santa Maria-RS com o espaço desta cidade.

Caminho metodológico

A metodologia selecionada foi de fundamental importância, pois permitiu identificar os grupos juvenis na cidade de Santa Maria-RS. Para realizar esta pesquisa também houve necessidade de encontrar um meio, ou melhor, uma ferramenta metodológica para a sua viabilização.

O método que se encaixou melhor na proposta da pesquisa foi o método etnográfico. A etnografia é um método que os antropólogos usam para fazer o estudo de grupos humanos.

Etnografia significa literalmente a descrição de um povo. É importante entender que a etnografia lida com gente no sentido coletivo da palavra, e não com indivíduos. Assim sendo, é uma maneira de estudar pessoas em grupos organizados, duradouros, que podem ser chamados de comunidade ou sociedade. O modo de vida peculiar que caracteriza um grupo é entendido como sua cultura. Estudar a cultura envolve um exame dos comportamentos, costumes e crenças aprendidos e compartilhados em grupo” (AGROSINO, 2009, p. 16).

Através da etnografia é possível fazer a descrição de um grupo social e a “leitura” de sua cultura. Assim se abre a possibilidade para compreender e interpretar o convívio coletivo de um grupo. Utilizamos a ideia de flâneur como ferramenta para se aproximar e encontrar os grupos juvenis da cidade de Santa Maria-RS, dentro de uma estratégia primeira de pesquisa a compor a análise etnográfica das juventudes.

Para nosso trabalho, o flâneur se constituiu como uma ferramenta etnográfica. Em

poucas palavras, “o flâneur é esta figura capaz de devanear com astúcia (

consegue, através da observação do que se passa, fazer uma leitura ao mesmo tempo

É aquele que

).

presente e desprendida de si mesmo (

é capaz de “observar os acontecimentos da cidade moderna, infiltrando-se em locais pouco

conhecidos” (ibidem, p. 1).

(TORRES e PROCÓPIO, 2014, p. 7), bem como

)”

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Este termo é oriundo da palavra francesa flâner: passear, vagar. Uma de suas

definições pode ser: a caminhada sem compromisso, buscando por algo em meio à multidão, observando o estético e o físico, sensibilizando-se sobre o imaterial. Dessa forma,

o flâneur seria um exímio observador do espaço geográfico.

Neste sentido, “a rua se torna moradia para o flâneur que, entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes” (BENJAMIN, 2004, p. 35). O caminhar, perambular pelas ruas sem destino, o passear, são características do flâneur, que a partir do olhar do observador, enxerga além dos olhos de uma pessoa comum.

Aquela embriaguez anamnéstica em que vagueia o flâneur pela cidade não se nutre apenas daquilo que, sensorialmente, lhe atinge o olhar; com frequência também se apossa do simples saber, ou seja, de dados mortos, como algo experimentado e vivido. Esse saber sentido se transmite, sobretudo por notícias orais (ibidem, p. 186).

Neste trabalho, o comportamento se tornou uma possibilidade de postura diante da pesquisa, uma ferramenta que pudesse ser utilizada para revelar os seus propósitos. E através desta ferramenta, que adota os meandros da rua como um dos objetos de estudo –

o vagar baudelairiano –, buscamos encontrar locais com maior concentração de jovens pela cidade de Santa Maria-RS.

Localizações, trajetividades e lugares

No decorrer de aproximadamente oito meses de pesquisa, promovemos uma pesquisa etnográfica na cidade de Santa Maria-RS utilizando-se da postura do flâneur como estratégia de encontro e aproximação aos grupos juvenis.

Os propósitos se vinculavam à observação das localizações e trajetividades que tais grupos exerciam no espaço urbano. Preocupamo-nos com as marcações espaciais que faziam, procurando descrever e representar seus trajetos e seus lugares de encontros.

O conjunto de trajetos e localizações constituiu um “mapa” que deu subsídio para

entender as territorializações de convívio e de diversão grupal entre estes jovens. Não nos

ocupamos neste momento em aprofundar aspectos de suas relações coletivas e atributos de suas intersubjetividades, questões que poderão ser aprofundadas em outro momento. Nosso produto principal se evidencia na exploração do material de campo contido no caderno de anotações vinculados à estratégia etnográfica de vagar pelas ruas e ser sensibilizado pelas relações estabelecidas entre os jovens.

Encontrando territorialidades juvenis em Santa Maria-RS

A partir do método etnográfico e do uso da ferramenta flâneur, fez-se a identificação dos grupos juvenis em Santa Maria-RS. Antes de qualquer aprofundamento de como ocorreu a identificação e foco do estudo, é importante ressaltar que, antes da execução dos campos (trabalhos de campo), teríamos duas possibilidades de pesquisa a serem trabalhadas.

A primeira seria o estudo de algum grupo juvenil e os locais por onde teceria sua

rede de sociabilidade, ou seja, os territórios onde esses membros se socializariam e produziriam relações de alteridade com outros grupos. A segunda possibilidade seria o estudo de algum território específico procurando estudar a diversidade dos grupos que por ele transitam e nele se encontram com fins de se sociabilizar, interagir, flertar, etc. Como

meio de reter as informações referentes ao campo, seria registrado em diário de campo, com data, hora e as distintas informações coletadas referentes a cada campo realizado.

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Escolhemos a segunda opção: estudar um território para executar os registros etnográficos. Mas antes de detalhar esta fase, demonstraremos a realização dos trajetos no espaço urbano da cidade com o propósito de identificar a movimentação dos grupos juvenis.

Os pesquisadores, sendo também jovens moradores da cidade, já possuíam algum conhecimento da relação dos grupos juvenis com o espaço e mentalmente traçaram alguns trajetos para se orientar enquanto pretendiam adotar a postura de flâneur.

O primeiro campo foi realizado no dia 18/05 de 2012, em uma sexta-feira, e iniciado por volta das 16h49min. Como primeira experiência, observamos desde o início a necessidade de, constantemente, rever as estratégias de observação, principalmente ampliar a necessidade do “vagar” pela cidade e assim encontrar alguns propósitos de sensibilização daquilo que se pretendia encontrar. Os pesquisadores se dirigiram para um ponto em que a presença de jovens é notória – o “calçadão” de Santa Maria-RS. Neste lugar há uma grande concentração de jovens frente ao Santa Maria Shopping. A seguir o relato de diário de campo:

Avisto jovens sentados na grade (uma pequena grade não muito alta, que os permitem sentarem) em frente à Loja OI, que está na entrada do Shopping Santa Maria, escutam música no celular ou pequena caixa de som portátil (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

No primeiro campo foi possível observar a formação do grupo e entender o motivo da escolha deste local, devido a sua posição ser em frente ao Shopping e ainda estar localizado no centro da cidade, no qual ocorre grande circulação de pessoas. Segue anotação de campo:

A grade em frente à loja OI e os bancos que na frente da mesma são locais de maior aglomeração de jovens, ao mesmo tempo em que se pode fazer a análise de grupos distintos quanto ao uso desses dois espaços, também ocorrendo interação entre os mesmos – alguns membros circulam entre um e outro grupo (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

É possível notar já no primeiro campo em frente ao Santa Maria Shopping, que os grupos neste local evidenciavam uma territorialização juvenil bem clara no espaço da cidade. Os padrões observados serviram de referência para os campos que viriam depois.

Seguindo com a pesquisa, a procura de grupos juvenis e seus respectivos territórios prosseguiu em mais alguns campos, tomando-se como prática a postura urbana do flâneur, tal como se descreveu no diário de campo, da seguinte forma: “Início do flâneur às 16h30min em frente à escola de idiomas Wizard, Rua Riachuelo, e continuo ‘subindo’ pela Rua Dr. Astrogildo de Azevedo” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012). E continua-se a flanar:

“Chegando à Rua do Acampamento, com maior movimento, andando até o calçadão (da Bozano). ‘Descendo’ a rua, em direção sul, até a Praça Saturnino de Brito, que está localizada em frente ao bar do Brahma”.

Durante os trajetos, procuramos identificar locais com jovens e suas concentrações. Especulamos possibilidades como: praças, shoppings ou até mesmo o incomum, como se observa no trecho do diário: “No calçadão tem o cursinho pré-vestibular Totten. Entre 20 a 30 minutos antes de iniciar as aulas há uma grande concentração de jovens, assim como no intervalo da aula ao qual todos ficam em frente ao prédio do cursinho” (DIÁRIO DE CAMPO,

2012).

O exemplo do curso pré-vestibular merece destaque, pois há uma relação entre espaço privado do cursinho e espaço público em momentos de início e intervalo das atividades dos jovens estudantes. Naquele espaço de aglomeração de jovens eles combinam muitas outras relações com mais espaços, que iremos conhecer. Além disso, os

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pesquisadores se depararam com outras possibilidades de agregação juvenil, como a de um local específico para divulgação de festas universitárias:

Na Rua Floriano Peixoto que corta o calçadão, na sua esquina (do calçadão), ocorre divulgação de festas, em grande parte festas promovidas por jovens estudantes. Local de grande aglomeração de universitários e não universitários (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

Foram realizados em torno dez atividades de campo, durante as quais percorremos inúmeros lugares, mas dentre eles o que mais nos chamou a atenção foi o Parque Itaimbé, localizado na região central da cidade de Santa Maria-RS. Ele é um dos poucos espaços públicos do município com ampla área verde, quadras esportivas e ainda ginásio, ateliê, associações e um anfiteatro ao ar livre.

Territorialidades juvenis distintas no Parque Itaimbé

Uma das principais características do Parque é acolher grande quantidade de pessoas de idades variadas, que executam atividades diferenciadas em um mesmo local. No entanto, é muito visível a grande concentração de grupos juvenis em uma determinada área, a qual passou a ser privilegiada na pesquisa.

Como mencionado, havia possibilidade de dois vieses de pesquisa e se optou pela observação do território e dos grupos que nele transitam. O território, assim, estaria definido como sendo o Parque Itaimbé. Restava estuda-lo novamente através da etnografia e do uso da ferramenta flâneur. Primeiramente se buscou identificar os grupos juvenis no parque, para o que houve necessidade de uma dezena de campos, que foram essenciais para se conhecer a estrutura organizacional dos grupos.

Após a realização de alguns campos já foi possível notar que este Parque pode ser observado etnogeograficamente em relação a cinco setores, identificados por Benaduce (2007) utilizando a delimitação dada pelos viadutos ou “pontes” sobre a Avenida Itaimbé e o arroio de mesmo nome, hoje canalizado.

Partindo da Rua Nossa Senhora das Dores, próximo da antiga Estação Rodoviária, é possível notar o setor cinco ou quinto fragmento: “A parte de ‘cima’ do parque, seria a

entrada pelas Dores, apresenta uma área de lazer mais adulta; parque cercado por prédios,

e nessa parte, prédios mais luxuosos” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012). Neste setor do Parque

foi observado um ambiente de convivência familiar, com maior presença de pessoas de idade avançada e, em virtude da existência de playground, uma concentração de crianças brincando junto aos seus pais, todavia acolhendo recentemente jovens praticantes de parkour, como na Figura 1

.

O setor quatro do Parque Itaimbé surge ao se atravessar o Viaduto João Agostini, à Rua Pinheiro Machado, que corta a cidade na direção Leste-Oeste. Neste lugar está situada

a Concha Acústica (espécie de palco ao ar livre; ver Figura 2), que abriga eventos musicais, pré-concentração de atos públicos e outros.

Ao mesmo tempo – em virtude da configuração do espaço material – a Concha apresenta-se como um lugar mais reservado, às vezes usado como local de encontro por casais. Na Figura 3, vê-se a Concha em um dia comum, quando há pouca circulação de pessoas e ausência de territorializações juvenis.

Observamos no relato no diário de campo executado no dia 18/10 de 2012, quinta- feira: “A concha, um lugar pouco frequentado, mas não ‘deserto’, é usado por casais para ficarem mais a sós. Não é usado predominantemente por casais, pois ali ocorrem shows, eventos, pré-concentrações. Ex: Marcha das Vadias” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

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– Territorializações de Grupos Juvenis em Santa Maria-RS Figura 1: Grupo Parkour Santa Maria Fonte: Diário

Figura 1: Grupo Parkour Santa Maria

Fonte: Diário de Santa Maria, 2014.

Parkour Santa Maria Fonte: Diário de Santa Maria, 2014. Figura 2: Concha Acústica durante evento Fonte:

Figura 2: Concha Acústica durante evento

Fonte: Prefeit. Municipal de Santa Maria-RS, 2011.

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– Territorializações de Grupos Juvenis em Santa Maria-RS Figura 3: Concha Acústica em dia comum. Fonte:

Figura 3: Concha Acústica em dia comum.

Fonte: Ibidem.

O terceiro recorte, correspondente ao setor três, é o mais importante, pois é onde ocorre a maior concentração de grupos juvenis. Iremos chamá-lo de “gramado”, devido ao seu longo gramado que o diferencia de todos os outros fragmentos do Parque. Nesta área é visível a diversidade de estereótipos cuja atividade social é intensa, vinculadas principalmente às interações amigáveis. No campo do dia 14/10 de 2012, domingo, é ressaltado: “Gramado com grande concentração de grupo de jovens, não existe um padrão estético dos grupos que frequentam aqui e sim uma diversidade de possibilidades de expressão” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

Figura 4: “Gramado” do terceiro recorte PáginaPáginaPágina292929
Figura 4: “Gramado” do terceiro recorte
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Fonte: Idem, 2015.

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Há uma grande variedade de jovens neste local, com oscilação da idade das pessoas, mas seu comportamento é nitidamente considerado juvenil. É um local marcado pela concentração de indivíduos variando dos 16 anos aos 24 anos, estudantes do ensino médio e até universitários. Usado como espaço para encontrar amigos e se sociabilizar, entre outras atividades. No campo do dia 21/10 de 2012, domingo, faço a ressalva de algumas das atividades: “Tomam chimarrão, fumam, conversam (em grupos diferentes, mesmas atividades)” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012). Também há grande número de cães e seus donos passeando e crianças se divertindo na pracinha.

É possível notar algumas atividades se repetindo entre grupos, enquanto outras são marcadas por grupos específicos, por exemplo, que fumam a erva Cannabis sativa, mais conhecida por maconha. Complementando, percebemos no campo de 14/10 de 2012 que:

“Fumar é algo trivial e maconha aceitável” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

Por fim, o último recorte, setor dois, chegando a um terreno mais baixo em relação aos outros setores, tem-se o início do conjunto de quadras de esportes, cujo público se caracteriza por uma idade variada e suas atividades centram-se na prática de basquete e futebol. A partir daí vêm o setor um, que vai ao sentido dos trilhos de trem da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA), cuja territorialização de grupos juvenis não é significante, senão em razão de datas específicas.

É relevante citar alguns fenômenos da natureza que têm grande influência sobre a territorialização no Parque. Um deles é a chuva, não pelo simples fato de ela limitar a utilização do Parque Itaimbé como área de lazer e sociabilidade. O momento pós-chuva, ou quando há semanas seguidas de chuvas, às vezes há impossibilidade de circulação de pessoas em algumas áreas. Essas chuvas intensas são muito comuns no Rio Grande do Sul (RS) nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro.

Foi observado que em todos os dias pós-chuvosos seguidos de algum dia de sol, o

Parque recebia um fluxo muito maior de pessoas circulando como que recuperando tempo de lazer perdido no dia anterior. Isso não é uma simples coincidência, pois podem ocorrer semanas seguidas de sol e o parque não estar tão cheio como no primeiro dia ensolarado pós-chuva ou semana chuvosa. Campo do dia 20/09 de 2012, quinta-feira: “Após uma longa semana de chuva, normal no mês de setembro, todas as partes do parque com pessoas, um dia bem cheio para uma quinta-feira” (DIÁRIO DE CAMPO, 2012).

Um segundo momento e de grande importância é a entrada do horário de verão.

Tornando os dias mais “longos”, possibilita a permanência no parque por mais horas. Nele,

a noite chega por volta das 20:30 e próximo as 21:00 horas, aumentando consideravelmente

a permanência do jovens no Parque. Por outro lado, em situações de horário de inverno, o anoitecer ocorre bem mais cedo, “forçando” os jovens a sair do Parque.

Territorialidades juvenis no setor três do Parque Itaimbé

O motivo pelos quais os grupos juvenis ocupam o Parque Itaimbé, mais

especificadamente o “gramado”, pode variar a partir do olhar do pesquisador. Foram observados jovens menores de idade fumando, usando-o como um local “seguro” – longe de um olhar adulto –, seja para sentir-se livre, seja para praticar atos ilícitos. Paradoxalmente, o Parque tem policiamento ostensivo, embora isso não os impeça de usarem o Parque como local para uso de drogas.

O Parque Itaimbé está quase asfixiado pela urbanização, porém conserva objetos da natureza que o diferenciam da cidade “cinza” ao seu redor. Os jovens buscam, em meio a uma cidade agitada, um espaço amplo e momentos de descanso. E é no setor três que encontram o fragmento que mais lhes agradam. Ali buscam o verde do “gramado”, a convivência, a experiência do encontro com o outro em meio a certa tranquilidade e, de

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certa forma, buscam a apropriação espacial que proteja suas relações sociais, territoriais e identitárias.

Souza (2008, p. 84) afirma que o território “é apropriado, ocupado por um grupo social”. Essa apropriação do território que os grupos juvenis fazem está ligada diretamente

à sociabilidade que os membros dos grupos desfrutam entre si. A necessidade de se

socializar ou mesmo praticar atividades ilícitas (fumar, beber) para eles exige um local propício, local que transmita uma segurança para a realização das atividades buscadas

pelos grupos juvenis.

Considerações finais

Após construir um conceito sobre juventude e território e sua relação de forma intrínseca, o principal objetivo desta pesquisa foi estudar de grupos juvenis na cidade de Santa Maria-RS e suas formas de territorialização.

O método etnográfico escolhido se fez muito eficaz para a identificação dos grupos juvenis, principalmente pelo uso da ferramenta flâneur. Através dela foi possível encontrar os grupos juvenis e o território como campo de pesquisa, que, no caso do Parque Itaimbé, se mostrou rico em possibilidades para futuras problematizações e modo de compreensão da dinâmica que envolve os grupos juvenis em suas ações no espaço.

Com a realização dos campos no Parque Itaimbé, foi possível notar a forte ligação que os jovens têm com o “gramado” – o terceiro fragmento do Parque – selecionado para esta pesquisa. Há uma identificação do jovem com a área verde, o espaço amplo, a movimentação de pessoas, o formato do relevo em forma de “berço”, as experiências estéticas e o clima de liberdade de interação e organização dos grupos.

Ao enfatizar as territorializações, acreditamos na capacidade da Geografia – como ciência do espaço (social) – de se ocupar com a pesquisa sobre as diversidades dos sujeitos e grupos sociais que compõem a cidade. Além de se ter uma visão sobre a organização política e econômica, faz-se indispensável promover e aprofundar os estudos da pluralidade cultura, dos espaços de vivências dos grupos juvenis.

O Parque Itaimbé, em Santa Maria-RS, requer atenção quanto à manutenção de seus diversos setores, pois acolhem jovens em permanente territorialização, desejo de convivência, com processos de identificação e práticas culturais que buscam esse espaço.

O Parque representa para os jovens um escape para diversas formas de estar na cidade e

vivenciar o espaço, criando territórios, especialmente aqueles que autorizam novas

experiências em meio ao “cinza” urbano.

Esperamos que este texto sirva de subsídio a outros trabalhos que visem a dar mais visibilidade às territorializações no cotidiano das pequenas e médias cidades, hoje tão carentes de espaços de liberdade, para a socialização humana e a vivência em grupos.

Notas de Referência

¹ A cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo e nação ou de grupos no interior de uma sociedade.

Referências

; BRANCO, P. M.

(Orgs.). Retratos da Juventude Brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo:

Instituto Cidadania/Fundação Perseu Abramo, 2008.

ABRAMO, H.W. Condição Juvenil no Brasil Contemporâneo. In:

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AGROSINO, M. Etnografia e observação participante. Trad. José Fonseca. Porto Alegre:

Artmed, 2009.

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(Figura

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Disponível

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Revista Perspectiva Geográfica-Marechal Cândido Rondon, v. 12, n o . 16, p. 22-32, 2017.