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A Evolução Histórica do Constitucionalismo

Marcelo Fontes Monteiro

Graduando das Faculdades Jorge Amado. 9º semestre.

Estagiário do escritório de advocacia Brito Cunha e Advogados

SUMÁRIO: I.Introdução; II.Conceito; III.Histórico; IV.Constitucionalismo Antigo; V.Constitucionalismo na


Idade Média; VI.ConstitucionalismoModerno; VII.Constitucionalismo Contemporâneo e Globalizado;
VIII.ReferênciasBibliográficas; IX. Notas de Rodapé

I. INTRODUÇÃO

O homem primitivo vivia sem regras ou condutas predeterminadas, não existia uma sociedade organizada, mas
sim uma divisão de tarefas entre os seres que habitavam conjuntamente. A única lei que perpetuava nessa
comunidade era a lei do mais forte, no qual o direito era imposto por aqueles que detinham maior força física.

Não existia um direito regulamentado, ordenado ou posto em normas escritas, mas sim um direito de defesa
própria, a chamada autotutela. Ou seja, sempre que existisse um conflito entre membros do grupo, os próprios
litigantes eram quem resolviam o litígio, não existia um órgão julgador ou pacificador, nem mesmo um soberano
que ditasse as regras.

Com o passar dos tempos, o ser humano observou a necessidade de viver em sociedade organizada com regras e
condutas predeterminadas. Foi então que surgiram as primeiras sociedades organizadas.

Ocorre que tais sociedades eram governadas por tiranos e absolutistas, para os quais a supremacia estatal era
uma forma de poder autônomo, sem regras preestabelecidas e sem nenhuma lei escrita (constituição). Não existia
uma separação de poderes-executivo, legislativo, judiciário. Esses soberanos eram quem ditavam as leis,
aplicavam-nas, e julgavam os supostos conflitos ocorridos na sociedade.

Fez-se então necessário surgir um movimento de ruptura com tais imposições e insegurança, haja vista essas leis
eram impostas e aplicadas aos desfavorecidos, sem ao menos os supostos acusados saberem por que estavam
sendo apenados. Enquanto os soberanos sequer tinham conhecimento da palavra sanção.

II. CONCEITO

Esse movimento de ruptura foi conhecido como o constitucionalismo, tendo a seguinte definição por Dirley da
Cunha Júnior :

... um movimento político-constitucional que pregava a necessidade da elaboração de Constituições escritas que
regulassem o fenômeno político e o exercício do poder, em benefício de um regime de liberdades públicas. 1

Já Manoel Gonçalves conceitua o constitucionalismo como um movimento político e jurídico ... visa estabelecer
em toda parte regimes constitucionais, quer dizer governos moderados, limitados em seus poderes, submetidos a
constituições escritas 2

Para Ramos Tavares fica evidente que o constitucionalismo foi um movimento de cunho jurídico mais também
de forças sociais.

O aspecto jurídico revela-se pela pregação de um sistema dotado de um corpo normativo máximo, que se
encontra acima dos próprios governantes - a Constituição. O aspecto sociológico está na movimentação social
que confere a base de sustentação dessa limitação do poder, impedindo que os governantes passem a fazer valer
seus próprios interesses e regras na condução do estado. 3

III. HISTÓRICO

Faz-se necessário diferenciar as duas fases do constitucionalismo: o constitucionalismo antigo e o


constitucionalismo moderno.
Canotilho traça um paralelo entre os dois constitucionalismos:

... fala-se em constitucionalismo moderno para designar o movimento político, social, cultural que, sobretudo a
partir de meados do século XVII, questiona nos planos político, filosófico e jurídico os esquemas tradicionais de
domínio político, sugerindo, ao mesmo tempo, a invenção de uma forma de ordenação e fundamentação do
poder político. Este constitucionalismo, como o próprio nome indica, pretende opor-se ao chamado
constitucionalismo antigo, isto é, o conjunto de princípios escritos ou consuetudinários alicerçadores da
existência de direitos estamentais perante o monarca e simultaneamente limitadores do seu poder. Estes
princípios ter-se-iam sedimentado num tempo longo, desde os fins da Idade Média até o século XVII 4

IV. CONSTITUCIONALISMO ANTIGO

Exemplos de constitucionalismo antigo têm-se o constitucionalismo hebreu e grego, os quais unicamente


almejavam descentralizar a vida política, vez que não existiam leis escritas que regulamentassem a ordem civil,
nem as penalidades aplicáveis para quem as descumprissem. Esse constitucionalismo apenas objetivava limitar
alguns órgãos do poder estatal como reconhecimento de certos direitos fundamentais, cuja garantia se cingia no
esperado respeito espontâneo do governante, uma vez que inexistia sanção contra o príncipe que desrespeitasse
os direitos de seus súditos. 5

Os primórdios do movimento constitucionalismo surgiram entre os hebreus, através da lei do Senhor, num
Estado Teocrático, governado pela casta sacerdotal, logo existia um limite no poder político, como bem afirma
Ramos Tavares. 6

Posteriormente, teve-se o movimento do constitucionalismo nas cidades Gregas, onde os cidadãos populares
eram eleitos para cargos públicos, através de um regime de votação, peculiar na época, ocorre que por mais
primitiva que fosse essa votação, existia uma participação do povo na vida política, consolidando assim uma real
democracia.

V. CONSTITUCIONALISMO NA IDADE MÉDIA

A Idade Média é marcada pela época do despotismo, pela soberania dos governantes tratados como deuses. Uma
verdadeira forma absolutista de governar, vez que não existiam limitações a suas condutas, aplicavam
penalidades e impunham condutas desumanas não previstas em leis, não havia um poder maior que o do próprio
governante, logo esse estava imune de qualquer sanção.

Todavia, foi durante a Idade Média, mas precisamente na Inglaterra, que culminou o anseio por um luta de
liberdades e garantias fundamentais ao individuo, objetivando romper com o padrão absolutista e centralizador
até então vigente.

Contudo, é ainda na Idade Média que o constitucionalismo reaparece como o movimento de conquista de
liberdades individuais, como bem o demonstra a aparição de uma Magna Carta. Não se limitou a impor balizas
para a atuação soberana, mas também representou o resgate de certos valores, como garantir direitos individuais
em contraposição à opressão estatal. 7

...É possível afirmar que a Inglaterra, a despeito de ter sido inovadora no acabamento de u texto constitucional,
nunca criou uma Constituição escrita no modelo difundido a partir dos Estados Unidos, sendo certo que seus
institutos de natureza constitucional permanecem assentados em tradições e costumes do povo 8

Assim pode-se afirmar que o maior legado deixado pela Idade Média, em relação ao constitucionalismo foi o
fato de que todo poder político deve ser limitado em lei para que seja justo e democrático, respeitando as
garantias e direitos individuais. Porém Nicola Matteucci assevera que:

...Contudo, na Idade média, ele foi um simples principio, muitas vezes pouco eficaz, porque faltava um instituto
legitimo que controlasse, baseando-se no direito, o exercício do poder político e garantisse aos cidadãos o
respeito á leipor parte dos órgãos do Governo.A descoberta e aplicação concreta desses meios é própria, pelo
contrário, do Constitucionalismo Moderno 9

VI. CONSTITUCIONALISMO MODERNO


O constitucionalismo moderno eclodiu em meados do século XVII com características próprias e com a
ideologia de limitação do poder estatal preservando os direitos e garantias fundamentais, transcrevendo os
anseios populares, a lei do povo- A Constituição Escrita.

Foi um movimento cuja

...noção de Constituição envolve uma força capaz de limitar e vincular todos os órgãos do poder político.Por isso
mesmo, ela é concebida como um documento escrito e rígido, manifestando-se como uma norma suprema e
fundamental, porque hierarquicamente superior a todas as outras, das quais constitui o fundamento de validade
que só pode ser alterado por procedimentos especiais e solenes previstos em seu próprio texto.Como decorrência
disso, institui um sistema de responsabilização jurídico-politica do poder que a desrespeitar, inclusive por meio
de controle de constitucionalidade dos atos do Parlamento 10

O constitucionalismo moderno vem romper com as barreiras de garantias fundamentais limitadas pelos Estados
Absolutistas, destruindo o paradigma de soberania e supremacia das forças estatais. Trouxe o ideal de justiça, de
direito igualitário e acima de tudo de organização na seara da política governamental, limitando o poder de
atuação do Estado e descentralizando os poderes-executivo, legislativo e judiciário, pautando em um documento
de lei-a Constituição.

A Constituição passa a ser o referencial de direito e justiça, vez que como menciona Cunha uma força capaz de
limitar e vincular todos os órgãos do aparelho estatal. 11

Para Canotilho a Constituição moderna é uma ... ordenação sistemática e racional da comunidade política através
de um documento escrito no qual se declaram as liberdades e os direitos e se fixam os limites do pode político. 12

Portanto, ... a constituição deixa de ser concebida como simples manifesto político para ser compreendida como
uma norma jurídica fundamental e suprema, elaborada para exercer dupla função: garantia do existente e
programa ou linha de direção para o futuro 13

É salutar esclarecer que a primeira constituição escrita, formalmente elaborada com as leis que regulamentavam
as condutas e determinavam a estrutura de poder, foi a Constituição da França editada em 1791, o qual tinha
como preâmbulo a Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada em 1789. 14

Insta acentuar que na visão política o constitucionalismo moderno se amalgama com o liberalismo, visto que
esse pregava por uma doutrina econômica que privilegiasse o individuo e a sua liberdade, a livre iniciativa,
limitando o poder estatal em detrimento das liberdades individuais, bem como galgava por uma maior
independência entres os poderes estatais- legislativo e o judiciário, os quais no Absolutismos eram controlados e
exercidos pelo poder executivo, por fim tinha-se uma política pela qual o Estado se submeteria ao direito, que
por sua vez garantiria aos cidadãos direitos e liberdades invioláveis.

Com Pós-1ª Guerra Mundial emergiu no constitucionalismo moderno uma nova cosmovisão política, pois deixou
de lado os idéias liberais de não intervenção do Estado (liberalismo econômico), da livre iniciativa, ou seja
aboliu o laissez-faire e priorizou um Estado do Bem Estar Social.

Passaram, pois as constituições a configurar um novo modelo de Estado então liberal e passivo agora social e
intervencionista, conferindo-lhe tarefas diretivas, programas e fins a serem executados através de prestações
positivas oferecidas à sociedade. A história, portanto, testemunha a passagem do Estado liberal ao Estado social
e, consequentemente, a metamorfose da Constituição, de Constituição Garantia, Defensiva ou Liberal para a
Constituição Social, Dirigente, Programática ou Constitutiva. 15

Tal movimento, segundo Manoel Gonçalves, ficou conhecido como a racionalização do poder.

Por um lado, o após-guerra, ao mesmo tempo que gerava novos Estados que, todos adotaram constituições
escritas, o disassocia do liberalismo.Os partidos socialistas e cristãos, cujo peso se faz então acentuadamente
sentir, impõe, às novas constituições uma preocupação com o econômico e com o social.Isso repercute
especialmente nas declarações constitucionais de direitos que combinam, de modo às vezes indigesto, as
franquias liberais e os chamados direitos econômicos e sociais. 16

Com o fim da Primeira Guerra Mundial os Estados perceberam a necessidade de intervir na sociedade de forma a
promover o bem estar social, a paz, a recondução a vida publica dos cidadãos, por meio de oferecimento de
serviços públicos, de saúde, alimentação, tratamentos médicos, educação, com fulcro sempre na promoção do
desenvolvimento econômico-social, haja vista a barbárie social que eclodia no mundo.

Essa racionalização visou implantar em normas jurídicas condutas e assistências sociais que promovessem o
desenvolvimento social e econômico, ocorre que, segundo bem acentua Manoel Gonçalves:

Em todos esses Estados faltavam as condições mínimas para que um poder democrático pudesse subsistir. Crise
econômica, minorias raciais em conflito, agitação extremista, ausência de tradição liberal etc. conspiravam
contra a sobre vivencia de suas constituições democráticas. Ora, não é possível suprir por regras jurídicas a
ausência do substrato econômico e social próprio a cada regime.A racionalização tentou obviar essa lacuna mas,
empenhando-se em tarefa impossível, não podia ter êxito como não teve. 17

A Constituição Brasileira de 1988 elenca nos seus artigos 170 e 193 ideais de um constitucionalismo moderno
seja ele numa política democrática sócio-liberal, o conhecido Estado Democrático de Direito, como pode ser
observado na transcrição dos artigos acima epífragados:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social observados os seguintes princípios:

I - soberania nacional

II -propriedade privada

III - função social da propriedade

IV - livre concorrência

V - defesa do consumidor

VI - defesa do meio ambiente ...

VII - redução das desigualdades regionais e sociais

VIII - busca do pleno emprego

IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte ...

Art.193. A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem estar social e a justiça
social.

Por fim, Ramos Tavares afirma que a elaboração do texto constitucional teve a sua formação e influência nos
movimentos contratualistas que justificavam a agremiação do homem em sociedade com base em um pacto,
famoso contrato social de Rousseau. Não obstante o mesmo elucida que:

Não mais se justificam, contudo, aquelas teorias, à luz do constitucionalismo moderno atual, que atingiu um grau
de maturidade e independência suficiente para se legitimara si mesmo, sem a necessidade de socorrer-se
daquelas ficções contratuais anteriormente elaboradas. O constitucionalismo, pois, exala uma energia, uma
firmeza e uma estabilidade que o têm sustentado até os dias de hoje. 18

VII. CONSTITUCIONALISMO CONTEMPORÂNEO E GLOBALIZADO

Atualmente o constitucionalismo não se deu por pronto e acabado, está em constante desenvolvimento, sempre
observado as necessidades dos cidadãos e o desenvolvimento socioeconômico.

Segundo Roberto Dromi o constitucionalismo deverá ser influenciado até se identificar com a verdade, a
solidariedade, o consenso, a continuidade, a participação, a integração e a universalização. 19

O autor acima assegura que no constitucionalismo da verdade existem duas categorias de normas:
Uma parcela, que é constituída de normas que jamais passam de programáticas e são praticamente inalcançáveis
pela maioria dos Estados; e uma outra sorte de normas que não são implementadas por simples falta de
motivação política dos administradores e governantes responsáveis. As primeiras precisam ser erradicadas dos
corpos constitucionais, podendo figurar, no máximo, apenas como objetivos a serem alcançados a longo prazo, e
não como declarações de realidades utópicas, como se bastasse a mera declaração jurídica para transformar-se o
férreo em ouro.As segundas precisam ser cobradas do Poder Público com mais força, o que envolve, em muitos
casos,a participação da sociedade na gestão das verbas públicas e a atuação de organismos de controle e
cobrança, como o Ministério público, na preservação da ordem jurídica e consecução do interesse público
vertido nas cláusulas constitucionais.20

O que Dromi quis evidenciar foi que numa norma jurídica posta não pode existir normas mortas, sem eficácia
concreta na sociedade, se a lei é posta é porque deve ser comprida, se existem lei programáticas essas devem
atender as necessidades dos indivíduos e não permanecerem estáticas e cristalizadas como meras declarações
utópicas.

Já em relação àquelas que não são implementadas pelo poder público deve haver uma participação popular
cobrando a presteza dos serviços públicos, pois se tratam de um direito coletivo, o qual não está sendo respeitado
pelo gestor responsável, somente a força popular é capaz de mobilizar o aparelho estatal e fiscaliza-lo, para que o
mesmo tenha consentimento de suas obrigações, a fim de que o mesmo cumpra com deveres preestabelecidos
em lei e ofereça uma continuidade na prestação de serviços públicos e sociais.

Em contrapartida, quanto ao constitucionalismo da continuidade, Dromi assevera que é muito perigoso em nosso
tempo conceber Constituições que produzam uma ruptura da lógica dos antecedentes, uma descontinuidade com
todo o sistema precedente 21

O autor teme que as novas Constituições rompam com a continuidade histórica traçada pelo constitucionalismo,
haja vista a existência de todo um modelo ideológico do liberalismo, do Estado do Bem-Estar Social, uma vez
que esses ideais são um dos alicerces construtores do atual constitucionalismo.

No tocante a globalização, é notória que a União Européia visa consolidar uma Constituição única para os paises
que integram o bloco econômico. Com a ocorrência de tal fato poder-se-ia falar em um constitucionalismo
globalizado com uma miscigenação de povos, culturas, costumes, princípios, regras e condutas que acabariam
por eclodir na formação de uma única nação com uma única Constituição certamente como elucida Ramos
Tavares propagaria pela unificação dos ideais humanos que seriam consagrados juridicamente. 22

Poder Constituinte

Conceito:

Pode-se conceituar Poder Constituinte como o poder de criar ou reformar (revisar ou


emendar) a Constituição.

No Brasil, face ao sistema federativo instituído e consagrado desde a Constituição


Republicana de 1891, os Estados-membros integrantes da federação, possuem
competência para organizarem-se conforme suas Constituições Estaduais, bem como, de
acordo com as leis adotarem, desde que, seus ordenamentos jurídicos próprios não firam
aos ditames da Constituição Federal.

Art. 25 da CF/88 - “Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que
adotarem, observados os princípios desta Constituição”.

Então, se os Estados-membros podem criar e reformar suas Constituições, ainda que


somente no âmbito estadual, também há o exercício do Poder Constituinte. Assim,
ampliando o conceito inicial de Poder Constituinte, define-se a este como o poder de criar
e de reformar a Constituição e, no Estado Federado, de organizar os Estados-membros.

Na federação brasileira, existem 26 Estados-membros, e cada um possui a sua


Constituição. O Distrito Federal, face as sua característica “híbrida” de funcionamento,
ora com competência própria de Estado-membro, ora com competência municipal, não
possui uma Constituição, tendo como referencial máximo de sua organização a Lei
Orgânica.

No dizer de Nagib Slaibi Filho, enquanto na Constituição passada, “o Distrito Federal é


mais que um Município e menos que um Estado”, sob o regime constitucional atual
afirma: “é um super-Estado pois o art. 32 lhe assegura a autonomia política pela eleição
direta do Governador e do Vice-Governador, bem como dos deputados distritais que
comporão sua Câmara Legislativa e, além disso, que ao Distrito Federal são atribuídas as
competências legislativas reservadas aos Estados e Municípios”.

Art. 32 - O Distrito Federal, vedada sua divisão em Municípios, reger-se-á por lei orgânica, votada em
dois turnos com interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços da Câmara Legislativa,
que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição.
§ 1º - Ao Distrito Federal são atribuídas as competências legislativas reservadas aos Estados e
Municípios.
§ 2º - A eleição do Governador e do Vice-Governador, observadas as regras do art. 77, e dos
Deputados Distritais coincidirá com a dos Governadores e Deputados Estaduais, para mandato de
igual duração.
§ 3º - Aos Deputados Distritais e à Câmara Legislativa aplica-se o disposto no art. 27.
§ 4º - Lei federal disporá sobre a utilização, pelo Governo do Distrito Federal, das polícias civil e
militar e do corpo de bombeiros militar.

Titular e exercentes do Poder Constituinte

Observação:

Isoladamente afirmamos que o titular do Poder Constituinte é quem detém a soberania.


Nos Estados democráticos, a titularidade pertence ao povo, decorrendo a soberania da
vontade popular. Nesses Estados, o consenso (consensus), que não equivale a
unanimidade, é o fundamento de validade do Poder Constituinte.

Já nos Estados totalitários, onde o Poder do Estado foi obtido através da força, o titular é
quem detém o Poder, para criar ou modificar a Constituição, independentemente da
vontade popular, confundindo-se titular e exercente em uma só pessoa.

Afirmam os autores, em esmagadora maioria, ser o povo o titular do Poder Constituinte,


entretanto, o seu exercício nem sempre tem se realizado democraticamente, portanto,
preferimos atribuir a titularidade há quem detém a soberania, embora saibamos que
nossa posição seja isolada.

Na dogmática tradicional, distingue-se a titularidade e o exercente do Poder Constituinte,


onde nem sempre o titular é o exercente e, nem sempre o exercente é o titular.

Há um consenso teórico quanto aos exercentes (agentes), dizendo que são aqueles que
exercem o Poder Constituinte em nome do povo, entretanto, tal exercício pode ser
legítimo ou ilegítimo, portanto, as Constituições podem ser impostas (outorgadas) ou
consensuais (promulgadas).

Os exercentes legitimados pelo povo surgem quando são eleitos para assembléias ou
convenções constituintes, bem como, quando conduzem comandos revolucionários,
encarregados de instauração de uma nova ordem social querida pelo povo (consenso). Já
os exercentes ilegítimos seriam os lideres dos golpes de Estado, agentes não de um
desejo de nova ordem social, de um querer do povo, mas autores de um movimento
jurídico respaldado pela força.

Embora particularmente veja com clareza a distinção entre a revolução e golpe de


Estado, entendendo que na primeira situação foi vencedor o povo através de seus
lideres, que atendendo ao consenso da sociedade depuseram o tirano ilegítimo, enquanto
que na segunda situação, no golpe, tal legitimação popular não existe, não sendo o
movimento outra coisa senão usurpação do Poder em nome pessoal ou de um grupo, não
é pacífica essa compreensão entre os autores. A propósito, o professor Nagib comenta,
que “a distinção entre revolução e golpe de Estado é uma distinção que foge ao campo
jurídico, devendo ser notado que disse alguém, humoristicamente, que a diferença entre
o subversivo e o revolucionário é que o segundo foi vencedor”.

De tudo que, observe-se, entretanto, que nos três caso citados (assembléia, golpe ou
revolução), houve exercício do Poder Constituinte, o que se questiona é se esse exercício
é legítimo ou ilegítimo.

Espécies de Poder Constituinte

Ao poder de criar uma nova Constituição, uma nova ordem social, um novo Estado dá-se
o nome de Poder Constituinte Originário. Enquanto que, ao poder que retira do próprio
texto Constitucional suas forças para reformar esse mesmo texto, dá-se o nome de Poder
Constituinte Derivado.

Segundo o professor Alexandre de Moraes, são características dessas duas espécies de


Poder Constituinte:

Originário:

“O Poder Constituinte caracteriza-se por ser inicial, ilimitado, autônomo e incondicionado”


(e permanente).
“O Poder Constituinte é inicial, pois que sua obra – a Constituição – é a base da ordem
jurídica.
O Poder Constituinte é ilimitado e autônomo pois não está de modo algum limitado pelo
direito anterior, não tendo que respeitar os limites postos pelo direito positivo
antecessor.
O Poder Constituinte também é incondicionado, pois não está sujeito a qualquer forma
prefixada para manifestar sua vontade; não tem ela que seguir qualquer procedimento
determinado para realizar sua obra de constitucionalização.
Ressalte-se ainda que o Poder Constituinte é permanente, pois não desaparece com a
realização de sua obra, ou seja, com a elaboração de uma nova Constituição. Como
afirmou Sieyès, o Poder Constituinte não esgota sua titularidade, que permanece latente,
manifestando-se novamente mediante uma nova Assembléia Nacional Constituinte ou
um ato revolucionário”.

Derivado:

“Apresenta as características de derivado, subordinado e condicionado. É derivado


porque retira sua força da do Poder Constituinte originário; subordinado porque se
encontra limitado pelas normas expressas e implícitas no texto constitucional, às quais
não poderá contrariar, sob pena de inconstitucionalidade; e, por fim, condicionado
porque seu exercício deve seguir as regras previamente estabelecidas no texto da
Constituição Federal”.

Cite-se ainda o Poder Constituinte Derivado Decorrente, referente ao art. 25 da


Constituição Federal, organizando os Estados-membros da federação, já anteriormente
comentado. É decorrente do Poder Constituinte Derivado, sendo subordinado,
condicionado e limitado.

Formas históricas de manifestação do Poder Constituinte originário

Podem-se relacionar historicamente algumas formas de manifestação do Poder


Constituinte, ou seja, através de Assembléia Nacional Constituinte, revoluções, golpes de
Estado, além do chamado método “bonapartistas”, ou “cesarista”, que se desenvolveu
através de plebiscito. Refere-se a Napoleão Bonaparte. Ele editou as Constituições
francesas (1799, 1802 e 1804), tal método consistia em perguntar ao povo, após a
elaboração da Constituição, se estava ou não de acordo com o texto pronto e acabado.
Sem dúvida, era uma farsa.

Quanto ao Poder Constituinte derivado, este só se manifesta através do órgão instituído


pela Constituição, é ela que vai dizer como e quando poderá ser alterada.

Alteração da norma constitucional

A Constituição pode ser alterada de maneira formal (reforma), sendo por Revisão
Constitucional ou por Emenda Constitucional, nos termos do art. 60 da CF/88, ou de
maneira informal (mutação), através da interpretação ou aplicação dos usos e costumes
constitucionais.

Quando a Constituição é alterada pela via formal, há alteração do texto constitucional,


através de um novo comando editado pelo legislador constituinte derivado, ou seja,
dentro dos limites traçados de conteúdo e, da maneira prescrita no próprio texto
constitucional, poderá haver alteração do texto constitucional se assim quiser o titular do
Poder Constituinte, através do órgão encarregado e autorizado para tal modificação.

Quando a alteração se dá pela via informal, não há modificação da letra da lei, havendo
alteração do significado, alcance da norma ou do conteúdo constitucional em razão da
interpretação ou aplicação dos usos e costumes.

Observamos que a Constituição de 1934 estabeleceu diferença entre emenda e revisão,


sendo a primeira instrumento de alteração de alguns dispositivos do texto constitucional;
e sendo a segunda um processo de alteração amplo, geral e ilimitado, teoria que não é
perfeita vez que a revisão é produto do Poder Constituinte derivado e este, como já
visto, tem como características ser secundário, condicionado e limitado. Na prática
confundem-se os dois instrumentos de alteração, não sendo de maior importância essa
distinção.
Outro ponto a ser considerado no trato das alterações do texto constitucional, são os
limites dessas modificações. O legislador constituinte originário, estabeleceu limites ao
poder de reforma do texto constitucional, assim, esse poder é absoluto, é limitado,
porque é produto do Poder Constituinte derivado.

Três são as limitações ao poder de modificação do texto constitucional: a) limitação


temporal; b) limitação circunstancial; e c) limitação material ( expressa / implícita ).

Limitação de ordem temporal – Algumas Constituições limitam a alteração da norma


constitucional a um período temporal, com o objetivo de permitir a maturação do texto
constitucional. Observe-se, entretanto, que no Brasil não há mais limitação temporal. A
referência é feita ao nível de direito constitucional comparado.

No Brasil historicamente, podemos registrar a Constituição de 1824, onde no seu art.


174 falava em 4 anos para se poder modificar ou acrescentar emenda;

Art. 174. Se passados quatro anos, depois de jurada a Constituição do Brasil, se conhecer que algum
dos seus artigos merece reforma, se fará a proposição por escrito, a qual deve ter origem na Câmara
dos Deputados, e ser apoiada pela terça parte deles.

Também a Constituição francesa de 1741 possuia limitação temporal para aceitar sua
alteração.

Limitação de ordem circunstancial – Inibe a alteração do texto constitucional diante da


ocorrência de determinadas circunstâncias. Na Constituição brasileira temos a proibição
de modificação de seu texto, durante a vigência de intervenção federal, estado de defesa
e estado de sítio (art. 60, § 1º). É medida garantidora dos princípios democráticos.

Limitação de ordem material – Inibe a alteração do texto constitucional em face de


determinadas matérias. Segundo o Prof. Nelsom de Souza Sampaio, essas limitações
podem ser expressas ou implícitas.

Exemplos:

Expressa - está localizada nas cláusulas pétreas – art. 60, § 4º da CF/88

Art. 60 - A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:

§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:


I - a forma federativa de Estado;
II - o voto direto, secreto, universal e periódico;
III - a separação dos Poderes;
IV - os direitos e garantias individuais.

Implícita - está fora do poder de reforma , ainda que não explicitamente.

São 3 exemplos:

1º - Titularidade do Poder Constituinte originário (art. 1º, § único). motivo = princípios


fundamentais e regime adotado pela Constituição democrática.
Art. 1º - A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios
e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.

Parágrafo único - Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes
eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

2º - Titularidade do Poder Constituinte de reforma (art. 60 e § 2º da CF/88) motivo =


princípios fundamentais e regime adotado pela Constituição democrática.

Art. 60 - A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:

§ 2º - A proposta será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos,
considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, três quintos dos votos dos respectivos membros.

3º - Processo de reforma da Constituição – (Art. 34, VII, a, da CF/88) motivo =


princípios fundamentais e regime adotado pela Constituição democrática. Forma
Federativa de Estado.

Art. 34 - A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:

VII - assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais:


a) forma republicana, sistema representativo e regime democrático;

Natureza Jurídica do Poder Constituinte Originário

Quando se pergunta qual a natureza jurídica de alguma coisa, quer se saber o que
aquela coisa representa para o Direito. Assim, abordando finalmente esse ponto, indaga-
se qual a natureza jurídica do Poder Constituinte Originário.

É matéria controvertida. Para uns é poder de fato, para outros é poder de direito.

Seguindo-se a primeira corrente, pode-se afirmar que é Poder de Direito, isto porque o
Poder Constituinte não está fundado em norma de Direito. Para essa corrente o Direito só
é Direito enquanto norma escrita. Como antes do Poder Constituinte não existia norma
não existia direito.

Se aceitarmos a segunda corrente, vamos dizer que a natureza é de Poder de Fato, isto
sustentado em princípios de Direito natural. Para essa corrente, mesmo que houvesse
norma escrita, já existia anteriormente o Direito, os homens se organizavam e se

adequavam a normas naturais para a convivência.