Você está na página 1de 2

A

HISTÓRIA E O HISTORIADOR

O

que é história

"História" é uma palavra com dois significados. Falamos em história quando queremos nos referir a qualquer fato ocorrido no passado, como quando dizemos: "A independência do Brasil aconteceu em 1822"; "Meu pai se lembra da vitória do Brasil na Copa de 1970". Nesse primeiro sentido, podemos dizer que a história é o conjunto do passado, de tudo o que já passou ou aconteceu. Também falamos em história quando queremos nos referir ao trabalho do historiador, como quando dizemos: "Outro dia li um livro sobre a história do Brasil". Nesse segundo sentido, podemos dizer que a história é a interpretação do historiador sobre o passado. Ao escrever sobre a independência do Brasil, por exemplo, um historiador pode dar destaque para o papel do príncipe D. Pedro. Outro historiador, por sua vez, pode destacar a participação das elites que cercavam o príncipe.

A

história e seus registros

O

passado é o que já aconteceu, e a tarefa dos historiadores é tentar reconstruir esse tempo com a ajuda dos registros deixados pelas

pessoas que viveram naquela época. Exemplos de registros são: cartas, desenhos, livros, construções, objetos decorativos, roupas, filmes, fotografias, entre outros.

O historiador só conhece as partes do passado que têm registros preservados, isto é, que não foram destruídos em guerras, incêndios,

enchentes ou perdidos ao longo do tempo.

E não é só isso. Os registros do passado precisam ser interpretados para fazer sentido. Cada historiador faz a sua reconstrução do que aconteceu, de acordo com seus conhecimentos, sua maneira de ver o mundo etc. Por isso, os mesmos acontecimentos estudados por

diferentes historiadores podem levar a conclusões também diferentes.

A história e suas interpretações

A história é um campo de estudos que permite variadas interpretações do passado. Isso não significa que os historiadores possam dizer

qualquer coisa sobre aquilo que estudam e escrevem. Eles não podem inventar os fatos nem fugir das evidências das pistas encontra-

das.

A história é uma tentativa de explicar a realidade por meio de registros ou testemunhos reais, que comprovam os acontecimentos. Essa

é a grande diferença entre o texto do historiador e, por exemplo, o texto literário. Apesar de ambos serem narrativos, eles têm funções

e preocupações completamente distintas. Enquanto o texto literário inventa os fatos a partir da imaginação, o texto histórico tem o compromisso de explicar a realidade, de interpretar o acontecido.

História e memória As sociedades humanas sempre se preocuparam em transmitir sua memória para as gerações futuras. A memória compõe-se dos tes- temunhos preservados do passado de uma sociedade, que permitem a reconstituição da sua história. Em algumas sociedades, os testemunhos estão guardados nos mitos e nas lendas, que são passados oralmente de geração para gera- ção. Outras sociedades deixaram seus testemunhos em obras de literatura, em construções, cartas, objetos etc. Mas, em geral, os registros que chegaram até nós representam apenas uma parcela da vida dessas sociedades. Um exemplo disso é a memória deixada pela chamada Idade Média. Quase todos os registros conhecidos sobre a época medieval cartas, gravuras, construções informam-nos muito mais sobre a vida dos cavaleiros, reis e sacerdotes poderosos do que sobre o cotidiano da população pobre. O que sabemos, por exemplo, sobre o dia-a-dia dos camponeses, em geral analfabetos, baseia-se princi- palmente em registros produzidos pelos clérigos. Por essa razão, os historiadores que tentam recuperar a memória dos camponeses medievais têm a difícil tarefa de investigar fontes históricas variadas, como restos de construções, ferramentas de trabalho e lendas transmitidas de geração para geração, além dos testemunhos produzidos pelas pessoas poderosas daquela época. Investigar e elaborar uma reflexão crítica sobre os testemunhos do passado: esse é o trabalho do historiador. Portanto, a história se dife- rencia da memória porque faz uma reflexão sobre os registros preservados do passado.

As fontes históricas Leia com atenção o trecho a seguir, retirado do livro História e memória, do historiador francês Jacques Le Goff. "A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre ele." Esse pequeno texto explica que praticamente tudo o que as pessoas fazem, dizem ou escrevem pode ser considerado um testemunho, um documento ou uma fonte histórica, pois sempre nos dá alguma informação sobre elas e suas épocas, ajudando-nos a entender a sua história.

Documentos escritos Até o início do século XX, os historiadores acreditavam que as únicas fontes confiáveis sobre o passado humano eram os documentos escritos, datados e autenticados. São exemplos de documentos escritos: cartas, testamentos, obras de literatura, diários, registros de nascimento etc. Nas primeiras décadas do século XX, no entanto, ocorreu uma importante mudança na ideia que se tinha de documento histórico. Dife- rentes vestígios deixados pelas sociedades humanas desenhos, fotos, objetos, construções, vestimentas, vídeos, entre outros passa- ram a ser tratados como documentos ou fontes históricas, isto é, testemunhos de como viviam os seres humanos na época em que aqueles elementos foram produzidos.

Vestígios materiais Há longos períodos da história sobre os quais existem poucos documentos escritos. Nesses casos, o historiador usa como fonte os vestígios da chamada cultura material, por exemplo, móveis e utensílios domésticos, roupas e objetos de adorno, peças religiosas (es- tátuas, terços) etc.

Registros iconográficos e relatos orais Quando o testemunho está registrado em imagens, dizemos que se trata de um documento iconográfico, como fotografias, cartões- postais e desenhos, entre outros. Outro tipo de fonte que o historiador utiliza em suas pesquisas são os relatos orais. Eles são muito úteis, principalmente no estudo da vida cotidiana das sociedades sem escrita. O historiador grava e depois transcreve os depoimentos das pessoas. Esse tipo de trabalho com fontes orais se chama história oral e é muito usado atualmente.

Uma nova visão de história Além de valorizar apenas os registros escritos, a história, até o início do século XX, estava centrada na vida das grandes personagens do passado, como reis, generais e heróis. Os livros de história limitavam-se a fazer uma narrativa recheada de datas, fatos e nomes consi- derados importantes na formação de um povo e/ou de um país. D. Pedro I e a proclamação da independência; Júlio César e a conquista da Gália; Duque de Caxias e as batalhas da Guerra do Paraguai: esses são alguns exemplos de nomes e fatos que predominavam nos escritos dos historiadores. Aos poucos, os estudos de história passaram a valorizar a ação dos indígenas, dos negros, dos jovens, das crianças, dos homossexuais, dos pobres e de outros sujeitos sociais, que até então era desconhecida ou desprezada pelos historiadores. Ficamos conhecendo, en- tão, outras versões da história, escritas e contadas do ponto de vista de outros grupos. Um exemplo é o da história das mulheres. Milhões de mulheres viveram no passado, mas poucas apareceram nos relatos dos historia- dores. As mulheres tinham sido excluídas da história. Hoje, historiadores trabalham para recolocar a mulher no palco da história, desta- cando sua contribuição para as diversas culturas humanas. Recuperar a história de milhões de sujeitos sociais anônimos não significa desprezar o papel histórico dos reis, generais e de outras personagens públicas, mas sim reconhecer que a história é o resultado da ação combinada de todos os sujeitos. Operários, campone- ses, crianças, mulheres, patrões e empregados, figuras anônimas ou conhecidas: é essa diversidade de pessoas que produz a cada dia os registros estudados pelos historiadores.

Lembre-se!!!

A história é sempre escrita de um certo ponto de vista, por exemplo, do europeu colonizador, dos negros, das mulheres, da Igreja etc.

Não existe uma história única; há uma diversidade imensa de sujeitos sociais, cada um com seus interesses, medos e esperanças particulares, cada um transmitindo uma imagem diferente do passado, conforme a sua época e o seu lugar.

A história é uma tentativa de explicar a realidade mediante testemunhos ou registros reais. A memória é formada pelo estudo de testemu-

nhos sobre o passado de uma sociedade ou de grupos que dela faziam parte.