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Toye a. (ey Wr) acl aya) E POLITICAS PUBLICAS Suety Souza ve Atmeipa Essa violéncia mal-dita Essa violéncia que insiste em entrar no debate académico de- pois de ter deixado intimeras, diversificadas e profundas marcas em mulheres, em escala global io foi nominada apropriada- mente. Maldita cla € para todas/os que a experimentaram e para inda todas/os que tentaram enfrenté-la e medié-la. (Mal-dita ela & para todas/os que tentam estudd-la, De fato, tanto i meio académico quanto na enunciagio de politicas e praticas sociais, s40 utilizadas, com sentido equivalente, distintas expresses: violéncia contra a mulher, violencia doméstica, violéncia intrafamiliar e violéncia de genero. Os diversos significados de tais categorias, contudo, sém implicagSes tedricas e priticas 7 Violéncia contra a mulher enfatiza o alvo contra o qual a violén- cia é ditigida. E uma violencia que nao tem sujeito, s6 objeto; acentua 0 lugar da vitima, além de sugerir a unilateralidade do ato. Nao se inscreve, portanto, em um contexto relacional. Violéncia doméstien € uma nogdo espacializada, que designa o que € préprio 4 esfera privada — dimensao da vida social que vem sendo historicamente contraposta ao puiblico, ao politico. Enfatiza, portanto, uma esfera da vida, independentemente do sujeito, do objeto ou do vetor da agao. x + SUELY SOUZA DE ALMEIDA " Violéncia intrafzmiliar aptoxima-se bastante da categoria ante- rior, ressaltando, entretanto, mais do que o espago, a produgao ¢ a reprodugio endégenas da violéncia. E uma modalidade de violén- cia que se processa por dentro da familia. © Ministério da Satide assim define a sina selene) =... € toda aco ow omissio que prejudique o bem-estar, a integri- dade fisica, psicolégica ou a liberdade e 0 direito a0 pleno desen- volvimento de outro membro da familia. Pode ser cometida dentro ou fora de casa por algum membro da familia, incluindo: pessoas que passam a assumir fungao parental, ainda que sem lacos-de consangilinidade, ¢ em relacdo. de poder 4 outra”. Acrescenta que “o conceito de violéncia intrafamiliar nao se refere apenas a0 espago fisico onde a violincia ocorre mas ta mas também as relages em que se (Ministério da Satide, 2002, p. 15). Distingue a violénca intrafamiliar da violéncia doméstica porque esta inclui “... outros membros do grupo, sem fungae parental, que convivam no espago doméstico”. nse — Vi iPaeo A exemplo da violéncia doméstica, o suftito <0 objeto da agio 4 no sao determinados na estrutura de poder familiar ¢ o vetor da aco € dilufdo. Violincia de género designa a producao da violéncia em um con- texto de relagdes produzidas socialmente. Portanto, o seu espago de producio € societal e o seu cariter € relacional. Parece clara a incompletude conceitual de todas as formulagdes. Pode-se argumentar, a favor da categoria violéncia contra a mulber, que é tinica a ressaltar de forma inequivoca a vitima preferencial de determinada modalidade de violéncia. O risco, jd apontado na lite- wre ratura especializada, é 0 de se resvalar para uma perspectiva vitimista (Gregori, 1989; Saffioti ¢ Almeida, 1995; Almeida, 1998), levando a concepgées de passividade ¢ imobilismo. Ao contrario, pade-se tam- bém afirmar que nao € possivel isolar a mulher como categoria des- critiva e como alvo de pesquisas, andlises ¢ priticas sociais. “Fim clfesa da categoria violénciaintrafimilar, pode ser apresen\ iva de que a familia é a estrutura sexuada, por exce- | p.8h _ orh Vacs no seio da qual a subordinac&o das mulheres e das criangas | ju foi — e se mantém — juridica ¢ politicamente institufda (Louis, | yi? 2000, p. 11). Assim, vincular a violéncia a essa instituicéo possibi-~ lita pensar nos seus mecanismos de perpetuagio de processos de subordinacao das referidas caregorias. | Em prol da categoria violéncia domestica, pode-se enfatizar que forma de violéncia - facilmente mesclada ou superposta ao disciplinamento vinculado a priticas de socializagio — ¢ com a sua cronifica¢do, potenciada por um espaco simbolicamente estruturado, tendo como corolério a escalada da impunidade. we O mérito das duas categorias anteriores reside na possibilidade dle desmistificagao do cardter sacrossanto da familia e da intocabilidade | do espaco privado, Revelam que a familia pode ser uma jnstituigso violenta, a despeito dos lagos de afeto que, freqtientemente, alicergam- na, ¢ que aesfera privada nao isenta de regulagao pelo poder puibli- co, Ao contrario, nao h4 umd cisdo entre as esferas publica e privada, o que pode ser valorado positivamente na perspectiva de se assegura- rem direitos.) Contra a violencia de género, pode-se alegar que 0 seu uso deixa intocados os fundamentos da dominacao pati para o desaparccimento da andlise das relagoes de poder entre os sexos em proveite da neutralidade quanto aos mecanismos de opres- real, contribuindo so (Louis, 2000). Pode-se também atgumentar que, em razo da sua suposta neutralidade, € mais facilmente assimildvel no meio académico. - Contudo, € 0 tinico qualificative da violéncia, dentre as desig- nag6es antcriormente cnumeradas, que ultrapassa o cardter descri- tivo. Com efeito, género apresenta dupla dimensio categorial - ana- yh 1 jst 0 processo de ocultamento da violéncia perpetuada no espago pro- tegido da casa guarda intrinseca relagio com a naturalizagio dessa + ESSA VIOLENCIA MAL-DITA a5 Iitica ¢ histérica. Deve-se ressaltar o entendimento de que o género nao constitui um campo especifico de estudos,! mas, antes, WMT categoria que potencializa a apreensio da complexidade das rela- «ges sociais, em nivel mais abstrato — portanto, € uma categoria analitica, Na medida em que as relagbes de género apresentam-se como um dos fundamentos da organizacao da vida social — ao lon- go da histéria, vém sendo estruturados lugares sociais sexuados, a partic das dicotomias piblico x privado, producio x reproduca politico x pessoal e, em tiltima anilise, v vm senda sruuradas 3s ‘A tizulo de ilustragSo, podem-se citar dados aie acordo | como Instituto Brasileiro de Geografia ¢ Estatistica (IBGE), o ren- + SURLY SOUZA DE ALMEIDA =U — ® a dimento médio mensal de mulheres pretas e pardas equivale a 70,3% do rendimento médio de homens pretos ¢ pardos, 53,1% do rendimento médio de mulheres brancas ¢ 33,9% do rendimen- to médio de homens brancos (IBGE, 2002)! Trata-se de dados bas- tante clogiientes ¢ indicativos de que as desigualdades de gé ginero. e apenas na ordem simbélica, mas cstruturam lugares : sociais. . Estes indicadores constrastam visivelmente com a condlusao do Relatério de Desenvolvimento Humano da ONU (2003) de que a tinica Meta de Desenvolvimento do Milénio® jd cumprida pelo Brasil é a que se refere & igualdade de oportunida- des entre os sexos, uma ver que hd uma proporgao maior de meni- nas do que meninos matriculada no ensino fundamental ¢ médio! A utilizagio da categoria violéncia de género, também marcada pela incompletude, apresenta 0 risco adicional de ter um cardter to abrangente que, sendo aplicavel a uma multiplicidade de fend- menos ¢ de discriminagies, deixe escapar as particularidades das "CE Posficio, p. 231-232. 2 As Metas de Desenvolvimento do Milénio (MDM) foram pactuadas por 189 paises, na Céipula do Milénio, confertncia promovida pela ONU, em sua sede em ‘Nova York, em 2000. relagdes de exploragio ¢ dominagio que se exercem nas lrelagbes Ea } intimaas. © seu rico € de transbordamento, nfo de limitacao. Nao ‘bstante, permite entender a violéncia no quadro das desigualda- des de género. Corramos, pois, 0 risco! ‘A vieléncia de género sé se susenta em im guadro de desigualdades de énero, Eas integram 0 conjunto das desigualdades sociais estruta- rais, que se expressam no marco do pracesso de producio reprodi- «fo das relagbes fundamentais — as de classe, émico-raciais’ ¢ de ge- yao reso. Asta relages podem agregar 2s gracias, vito que n38- 7 orréspondem to-somente 3 localizagéo de individuos em determi J. he nados grupos etdrios, mas também 4 localizagéo do sujeito na histo | ria na ambiéncia cultural de um dado perfodo, na partilha ou na °\ tecasa dos sos valores dominantes, nas suas priticas de sociabilida- de. © conjunto complexo ¢ contraditério dessas relagdes, que se potencializam mutuamente, coloca limites ¢ abre possibilidades 3s pritcas sociais dos sujctos individuais e colerivos. Em outros ter ok, mos, ne quadeo dessasrelagfes soins e das desiguadads da dex Ara vadas que se processam 2s priticas ¢ as lutas sociais. [As desigualdades de género fundam-se ¢ fecundam-se 2 partir | dla matriz hegeménica de género. Isto é, de concepg6es dominan- | tes de femninilidade ¢ masculinidade, que vio se configurando a partir de disputas simbélicas € materiais, processadas, dentre ou- (ros espagos, nas instituig6es cuja fancionalidade no processo de \o~ reprodugao social € inconteste — marcadamente, a familia, a escola, | 4 ipreja, os meios de comunicagio — ¢ materializadas, ainds, nas k telagbes de trabalho, no quadro politico-partidario, nas relagbes sindicais ¢ na diviséo sexual do trabalho operada nas diversas esfe- = tas da vida social, inclusive nas distintas organizagBes da sociedade i civil, F nesses espagos ¢ priticas que vao se produzindo, reatualizando 3 * Farax aio serio Thordadas neste teabalho porque exigitiam dados especificos, a dine tebrico-conceitual das polémicas envolvendo raga ¢ emia, além da discussio thvollgica sobre o ettrio da suto-representagto na coleta de dados dessa natura. © € naturalizando hierarquias, mecanismos de subordinago, 0 acesso desigual is fontes de poder e aos bens materiais ¢ simbélicos. E também nesse registro que vai se consolidando, para a mulher, a jornada extensiva de trabalho, a maior superposigio de tempos c espagos nas dimensées publica e privada da vida, as menores possi- bilidades de investimento em qualificacio, as maiores cobrangas {quanto & sua responsabilidade na reprougao familiar. \ Trata-se de processo macro e micropolitico, que ‘ desenvolve . 74m escala societal ¢ interpessoal, Na linha analitica que se vem || 9\gul adlotando, nio hd lugar para polarizagio entre violéncia estrutural| 1-0 evioléncia interpessoal ¢, portanto, entre vitimagao ¢ vitimizagao) 4 we (Azevedo e Guerra, 1989). Isto porque se entende que o lugar \ social em que se encontram os sujeitos, suas representagSes, seus \ I referenciais, seu reconhecimento social é construido a partir de sua_/ insergao nas relagées estruturadoras do ser social. Esse é um processo cuja cficacia esta diretamente hipotecada a sua possibilidade de imersio na cotidiancidade das nossas vidas, hos pequenos gestos, nas disputas domésticas mitidas, nos corti- queiros conflitos de trabalho, assim como ao grau de justificacao ¢ aceitacao dos mecanismos de heteronomia que vao se produzindo. “ / Axioléncia de género, gerada no interior de disputas pelo poder na em relag6es intimas, visa a produzir a heteronomia, a potencializar 4 controle social e, em Ultima andlise, a reproduzir a matriz hege- 5 ménica de género na sua expresso microscépica. v Enfatiza-se que a violéncia de género se passa num quadro de disputa pelo poder, o que significa que nao é dirigida a seres, em x ALMEIDA, principio, submissos, mas revela que o uso da forga ¢ necessdrio para manter a dominagio, porquanto a ideologia patriarcal — tensionada por conquistas histéricas, sobretudo ferninistas — niio se revela suficientemente disciplinadora. Nao se pode, no entanto, prescindir dessa ideologia, posto que as préticas autoritdrias, cocr- . citivas € punitivas, para que se mantenham, necessitam de uma SUELY SOUZA DE base legitimadora, que faa supor o consentimente ativo do outro — dependendo do lugar politico em que o analista se encontza no quadro das relagbes de género, pode optar por falar em “cumplici- dade”, Nesse quadro, podem-se extrait algumas inferénci JA violéncia de género, conquanto relacional, ¢ construida em bases hierarquizadas, objetivando-se nas relagdes entre sujeitos que se inscrem desigualmente na estrutura familiar ¢ societal. Assim, _y \enquanto tendencialmente essas relagdes subjugarem a categoria fe- F< \ minina, a violéncia de género produziré exponencialmente vitimas mulheres, Na medida cm que homens mulhetes se apropriam e invervém contraditoriamente nessas relacbes, em escala bastante re- duzida, a violéncia de géneto pode também vitimizar homens. ( 2.) A violéncia fisica nao se mantém sem a violéncia simbélica. Bsta fornece a base legitimadora para as aches/relagbes de forca. N violéncia de género em relag6es {ntimas, a dimensio simbélica é_. 7 potenciada, por ser o problema circunscrito a um espago fechado, . ambfguo, forremente estruturado no campo axiolégico ¢ moral, no qual as categorias de conhecimento/reconhecimento do mundo, | contém, rendencialmente, maior peso cmocional do que cognitivo., ~? — ger | Embora néo se pretenda cindir emocio rario, sabendo-se mesmo } 2°... que a primeira pode potencializar a segunda, chama-se a atencio Le “ do(a) leitor(a) para o fato de que a sobreposicao da emogio (mais do que isso, da mesclagem do medo, da dor, da culpa, da vergonha, da raiva, da indignacio, do afeto) & razio no movimento de apreen- séo do mundo, sobretudo se 0 sujeito estiver vivenciando densas| = relagdes de poder de violencia, dificulta a andlise de problema e@! 3 _. vislumbramento de possiveis safdas. = a |Assim sendo, a dimensio simbdlica ¢ fundamental acom- 4 preensio dessa modalidade de violéncia, Forjada em um campo de forgas mais amplo, vivida em limites geograficos exeremamen- = te restritos, com as caracteristicas peculiares assinaladas, aordem , 3 simbélica favorece 0 exercicio da exploracao ¢ da dominacio, por * - 29 + SUELY SOUZA DE ALMEIDA \ familia e; nia medida em que esta ¢ hierarquizada, atinge, em di- | ¥ | limitar a possibilidade de apreenso de novos referenciais simbé- licos ¢ de construgio de aliangas. Dessa forma, a familia e 0 espa- go doméstico apresentam-se como territério propicio para a re- produgio da violéncia de género, Com esta argumentacao, pre- tende-se sustentar a concepeio de que a/violéncia instala-se na | ferentes niveis © intensidades, 08 seus membros que se encontram_| | em posigies subalternizadas. Ainda que nao se apresente para to- dos em sua express4o fisica, a violéncia simbélica — altamente eficaz — é extensiva a outros membros da familia, sobretudo as geragdes imaturas ¢ aos idosos, na qualidade de vitimas ou de 7_4)A violencia de género (sobrerudo a restrita 3 dimensio simbd- lica), uma vez instalada no seio de relagdes familiares, tende a se rma ampliada, sob o olhar complacente da socieda- de, do poder piiblico ¢ cindindo de justificativas para Seu exercicio cotidiano contra suas j |testemunhas, porquanto participes dessas relagies. ios envolvides nessé campo, pres- | vitimas preferenciais. Se a violéncia visa a abrir caminho para maior | efetividade da dominagao, o que significa dizer — reitera-se — que nao se dirige a seres passivos mas aqueles capazes de oporem resis- réncia, a sua teprodugéo continua tende a acentuar a heteronomia, a fragilizar sobremaneira a auto-estima dos seus s protagonistas, 2 \ provocar sintomas psicossomdticos e a levar & crescente passividade a das suas vitimnas. A. passiy vidade €, antes, _conseqiiéncia endo causa da violéncia de género instirucionalizada. / processo de subordinacio e dependéncia experimentado por pessoas expostas a praticas sistemdticas de violéncia tem sido inves- gad por virios especialistas. Neste sentido, Lenore Walker (1979) desenvolveu o conceito de \desamparo aprevidi Para evidenciar o impacto da violéncia crénica na produgao da passividade, que se expressa através da depressdo ¢ da ansiedade, em decorréncia da culpa imputada & mulher e por esta absorvida ¢ vivenciada. De acordo com a autora, a0 nao ser capaz de exprimit sua cdlera € reagir diante da violéncia a que é exposta, a mulher apresenta ten- | déncia, em intensidade crescente, i depressio, & ansiedade ¢ & | somatizagio, a partir de variadas manifestagbes de mal-estar Aisico, - A violéncia de género erénica é extremamente nociya 4 satide da N mulher, como vém demonstrando diversas pesquisas realizadas em diferentes paises, o que, seguramente, acarreta clevaco do consu- J mo de servigos de satide, com vistas & medicalizagdo de um proble- ma que é, antes de tudo, politico, cultural e jurfdico4 Chénatdl et abi (1990) realizaram pesquisa em duas regises do | Quebec com mulheres que residiram em abrigos. Os dados obti- dos foram comparados a uma enquete oficial realizada em toda a | regidio do Quebec (Enquéte Santé Québec — ESQ) ¢ revelaram que: as mulheres investigadas apresentam um nfvel clevado de depres- | Slo psicolégica; sao trés vezes mais freqiientes as idéias suicidas dentre tais mulheres do que no seio da populagao feminina do Quebec; as mulheres sobreviventes de violéncia enfrentam mais periodos de grande nervosismo e irritabilidade, bem como uma taxa bem mais elevada de depressao, confusio ¢ perda de meméria, No que tange & sade das criangas que cestemunham cenas de violéncia ¢, em grande parte, so igualmente alvos da mesma, os efeitos também sio devastadores. Chénard (1994) realizou pesqui- ¢ sa.com eriangas cujas maes foram acolhidas em quatro abrigos loca~ lizados, respectivamente, em duas regides do Quebec, em conse- éncia de violéncia conjugal, e cujo retorno ao domicilio ocorrera~ havia menos de um ano. Dentre as criangas que compuseram a amostra, 70% haviam sofrido maus-tratos, sendo que mais da metade sofrera pelo menos duas formas de violencia. Assim, 56,3% das criangas foram alvo de violencia verbal; 54,8%, de violéncia psicolégica; 23,8% sofreram * Os dados sobre violéncia e satide a seguir apresentados esto publicados em Almeida (1999, p. 12-13), + ESSA VIOLENCIA at4d-DITA SUELY SOU w e violencia fisica; e 4,69, violéncia sexual. As criangas que vivem em familias violentas apresentam maior probabilidade de se acidenearem gravemente, a ponto de se verem obrigadas a limitar suas ativida- des normais (7,4%), do que as criangas cujas mies participaram da ESQ, que apresentam taxa duas vezes menor, A.mulher que sofre violencia erénica tende ao isolamento. A este respeito, Rinfret-Raynor et alii (1994) realizaram pesquisa elucidativa As autoras analisaram dados sobre a evolugio do estado de satide mental ou de satide psicolégica de uma amostra de mulheres violen tadas. Observaram que 82,29 das mulheres entrevistadas revelaram “sentimento de solidao mesmo com os outros”; 69,4% disseram que jamais se sentem préximas de alguém; 68,9% tém “a idéia de que alguém pode controlar seus pensamentos”; 56% tém “a impressiv de que 05 outros estZo a par dos scus pensamentos intimos”. As autoras mencionadas ressaltam que, antes de se pensar cm fazer um diagnéstico de problema mental vivido por tais mulheres, ha que se problematizar o estado confusional em que estas podem se encontrar em decorréncia do processo de violéncia sistematica vivenciado, Se este contexto for abstra(do, o profiundo isolamento 4 que so confrontadas mulheres violentadas, por cxemplo, pode ser confundido com perda de contato com a realidade. Além do inegével processo de desgaste cmocional da mullet que softe violencia de género crdnica, ou seja, da destruigao preva ce de sua vida, h4 que se considerar as condig6es socioinstitucionalt reproduroras desta forma de violéncia. A auséncia de equipamen tos sociais, em quantidade ¢ com qualidade suficientes para [aves rem face a esse quadro, torna ainda mais aguda a situacdo dos see mentos que vivenciam relagées violentas. Antes, porém, de cnloviafh este aspecto, faz-se nevessirio realgar © papel dos(as) profissivn | que lidam com a violéncia de género. | Parece daro que se trata de um campo de natureza essen¢l mente interdisciplinar, dadas as suas claras determinagocs « | plicagées politicas, econémicas, culturais, sociais, psicolégicas e ju- ridicas. A intervengao interdisciplinar pode ter incidéncia em, pelo menos, trés perspectivas: a) no deslindamento dos dispositivos so- U*-cialmente engendrados para obstaculizar a salda de relagées violen- tas €, a0 mesmo tempo, reproduzir relagbes sociais nas quais a vio- léncia é fator fundamental de controle social da mulher; b) na and- lise do mecanismo ideolégico que atribui & mulher plena liberdade para romper/preservar a relacio violenta, ofuscando ¢ denegando | os fortes constrangimentos institucionais que impéem sélidos |i- mites a sua autonomia; ¢) na proposiggo de formas de intervengao | que permitam a apreensio do problema em sua complexidade, com base no entendimento da violéncia no quadro das relagées desi- guais de género, na necessidade de reclaborar criticamente esse quadro e de construir estrarégias de saida insticucionais. Cabe, neste ponto, uma nota sobre os efeitos deletérios de reite- radas justificativas sobre a violéncia de género ¢ a reinvengao de instrumentos que terminam por despotencializar as vitimas de vio- léncia, Ea face modernizadora do “combate & violéncia de género”. Louis chama_ 1¢a0 para o fato de que (..) as andlises que buscam suas explicagées apenas nas caracteristicas dos agressores e/ou de suas vitimas ndo podem mais ser defendidas de maneira vilida: a justica ¢ os meios de comunicacio ainda fiuncionam, contudo, lar- gamente sobre esse postulado. A andlise em termos de relagées individuais, portanto, evoluiu para a considera- ao da dimensio estructural sexuada dessas violéncias, a0 = = passo que os mecanismes que historicamente tiveram por finalidade e/ou por funcio ocultar, travestir, legitimar essa \ éncia masculina foram analisados. Assim, os “argu- > | menos” expontos ht séulos para desesponstilzar par 4 cialmente ou totalmente os autores dessas violéncias ou tara justificar parcialmente ou totalmente seus crimes foram denunciados. ep (Louis; 1996, p. 15) a4 a = = 3 a3 SURLY SOUZA DE ALMEIDA ® Argumentos dessa natureza,* contudo, sio constantemente re- postos ¢ reatualizados — o que é préprio de um campo definido a partir das disputas pelo poder ¢ das lutas simbdlicas ¢ materiais travadas Fis algumas das tendléficias identificadas na atualidad a) justificativas assentadas no alcoolismo, na loucura, na patolo- , na paixao efou na frustracéo sexual; b) centativas de medicalizaggo/tratamento dos autores de vio- léncia, que deixam de ser passiveis de punico e passam a requeret tratamento; ) titicas de transferéncia da responsabilidade do apressor para a vitima, considerada frégil, irresponsével, provocadora, descumpridora dos seus papéis, atribufdos com base na tradicional divisio sexual do trabalho: boa mae, boa esposa, baa dona-de-casa ete.; d) substituigao das téticas anteriores, na medida em que so denunciadas, por outras da mesma nature a mulher ¢ incapaz de reagit, de abandonar a relagio violenta, de manter a queixa, ou seja, ela € acusada de conformismo € de nfo usar a sua “liberdade” para dar fim & violencia; ) insisténcia no fato de que os agressores foram vitimas de-violén- cia na infincia, no tiveram uma imagem positiva da figura paterna, conyiveram com mies abusadoras ou coniventes com o abuso; ) utilizagao de grupos de reflexio pars agressores — iniciativa em si muito positiva — como alters va para aplicagio de medidas punitivas que, no limite, podem produzir o cfeito de associar a liberdade — a pu- necessidade de controle pré- reflexio critica — cujo principio incliminavel & nigéo — cujo principio indiscutivel ¢ prio limitagio da liberdade. Hi de se enfativar que toxlas as medidas inovadoras que visam a ou que produzam o cfeite de desrespensabilinaro agressorde 5 Alguns desses argumentos podem ser cncontrades em Louis (1996); outros so de minha responsabilidhle minimizar a violéncia ¢ 0 seus efeitos deletérios Para enormes con- tingentes humanos, assim como de abordar este fendmeno — de cnorme complexidade — de forma reducionista, fragmentada ¢ individualizante constituem a face moderna das estratégias de res- tauragdo da ordem vigente. A intervengio ~ necessariamente interdisciplinar — nesse feno- meno requer: a) capacidade analitica das suas deverminag6es estrururais, dos seus condicionamentos conjunturais, das relagdes intersubjetivas envolvidas_e des mecanismos institucionais disponiveis e/ou mobilizaveis; b) escura qualificada no sentido de identificar as demandas cfe- tivas dos sujeitos envolvidos em selagdes violentas ¢ favorecer a reconstituigie ¢ apropriago critica das suas proprias experiéncias, identificando os mecanismos que operam na producio da violén- Gia, as justificativas construidas para a existéncia da situacdo, os efeitos produzidos nas suas condigées de vida ¢ nas suas relagbes, as saidas jd tentadas, os obstéculos encontrados e, sob retudo, as alter- hativas possiveis em termos de seguranca ¢ de reestruturac: um espago sem violéncia; ©) nesse itinerdrio reflexive — individual e coletivo —, as visGes de mundo, as ideologizagées do real, as identidades sociais bdsi- Cas, os processos intersubjetivos precisam ser interrogados tanto pelos(as) profissionais quanto pelos(as) Protagonistas de relagdes violentas, sob pena de se contribuir para a reprodugao acritica do fendmeno. Ressalte-se que o exetcicio analitico nao é circunserito A experiéncia académica, mas condigao da propria pratica cons- ciente ¢ conseqiiente; d) condenagio clara das priticas de violéncia como ato politico de defesa da liberdade, da cidadania e dos direitos humanos, ¢ nio como julgamento moral ou expressao de solidariedade vitimista, que tende a construir dicotomicamente os lugares do algoz e da vitima, a bus- ESSA VIOLENCIA MAL-DITA SUELY SOUZA DE ALMEIDA e car culpados, a encontrar solugdes magicas ¢ a reforcar uma perspec- tiva fatalista e/ou messiénica. Cabe &s/aos profissionais dar visibilida- de ao problema pot meio de dados, andlises, debates e manifestagies piiblicas que thes possibilitem ultrapassar a cotidiancidade e 2 imediaticidade das suas rotinas institucionais. “Trata-se de um problema que, por sua magnitude, exige uma politica interministerial, envolvendo diferentes esferas do poder pablico em concertagao com entidades da sociedade civil. Uma politica social voltada para a eliminacio da violéncia de géncra necessita superar o cardter focalista e descontinuo que tem carac- terizado as politicas puiblicas no Brasil. Para que a violéncia de género seja enfrentada nas suas manifestagdes imediatas ¢ me- diatas sio necessdrias ages diversas, dentre as quais a criagao de politicas pablicas que contemplem o aperfeigoamento dos equi pamentos sociais existentes ¢ a criagao de novos, a formagao con- tinuada de profissionais que atuam nessa drea, 0 monitoramento dessas politicas, por intermédio da construgao de indicadores, ¢ a realizagdo de avaliacbes periddicas ¢ sistemdticas. E fundamental que sejam avaliadas as iniciativas em curso ¢ em fase de estruturagao, para que deixem de ser um conjunto de ages fragmentadas e com concepgbes heterogéneas ¢ tarnem-se passiveis de se integrarem a uma politica cocrente, articulada e orginica, capar de ofrecer seguranga pliblica a mulheres que sofrem violén- Gia de género, como também de contribuirem para a formulagio de programas de prevengio nessa rea. Imprescindivel se far quic uma avaliagao abrangente resulte em medidas, tais como: a) mapeamento dos secvigos existentes ne pais (Centros de Atendimento, com supnrte psicoldgico, social ¢ jurtdi- co, casas-abrigo, delegacias especializadas, servigos médico-legais e de atendimento juridico), com scus critérios de seletividade, capa- cidade operacional ¢ scus fluxes de referencia e contra-referéncia; b) formulagio de normas de seguranga ¢ protegaa.amulheres que a » softem violéncia de género, considerando a rede de servigas exis tente e tendo em vistaa sua ampliagao ¢ otimizagio; c) definigio de critétios de qualidade para funcionamento dos servigos de apoio a ~etnulheres que sofrem violéncia de género; d) fornecimento de um