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BASES FÍSICAS PARA ENGENHARIA

1ª edição SESES rio de janeiro

2015

autores

RONALDO MOTA LIANA MACHADO SILVIA M DE PAULA

BASES FÍSICAS PARA ENGENHARIA 1ª edição SESES rio de janeiro 2015 autores RONALDO MOTA LIANA MACHADO

Conselho editorial

regiane burger; roberto paes; gladis linhares

Autores do original

ronaldo mota; liana machado; silvia m de paula

Projeto editorial

roberto paes

Coordenação de produção

gladis linhares

Projeto gráfico

paulo vitor bastos

Diagramação

bfs media

Revisão linguística

aderbal torres bezerra

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj cep 20261-063

Sumário

1. Método Científico

7

1.1

Origens da Ciência e contribuições da Grécia Antiga

8

1.1.1

Sociedades primitivas

8

1.1.2

A Grécia Antiga

9

1.1.3

O período homérico

11

1.1.4

O período arcaico

12

1.1.5

O período clássico

13

1.1.6

O período helenístico

15

1.2

Pensamentos da Idade Média e da Renascença e

o surgimento do Método Científico

19

1.2.1 Final do Império Romano e início da Idade Média

19

1.2.2 Alta e Baixa Idade Média

20

1.2.3 Transição do feudalismo para o capitalismo

22

1.2.4 A Renascença

24

1.2.5 Heliocentrismo versus geocentrismo

25

1.2.6 Galileu e a completeza do Método Científico

28

1.3

Newton e a Ciência Moderna

30

1.3.1

A vida e contribuições de Isaac Newton

30

1.3.2

Consolidação do Método Científico

32

1.3.3

Os séculos XVIII e XIX e as relações entre ciência,

tecnologia e produção

34

1.3.4

Fim do século XIX e começo do século XX

36

1.4

Os grandes filósofos da ciência do século XX

37

1.4.1

Papel da ciência e da tecnologia na sociedade contemporânea

37

1.4.2

Karl Popper e a refutabilidade

38

1.4.3

Thomas Kuhn e os paradigmas

38

1.4.4

Paul Feyerabend e o Contra o Método

39

1.4.5

Autoinfluências e tipos de falseacionismos

40

1.4.6

Programas de pesquisa científica

42

2. Grandezas Físicas, Unidades e suas Representações

47

2.1 Unidades e Representação

48

2.2 Erros e Desvios

50

2.3 Algarismos significativos, conversão e regras de arredondamento

52

2.3.1 Algarismos significativos

52

2.3.2 Conversões

53

2.4

Notação científica

55

3. Mecânica

57

3.1

Movimento dos Corpos

58

3.1.1

Movimento dos Corpos

58

3.1.2

Referencial, posição e trajetória

58

3.1.3

Movimento

59

3.1.4

Velocidade

61

3.1.5

Aceleração

62

3.2

A Causa dos Movimentos

66

3.2.1 Forças

67

3.2.2 Leis de Newton

72

3.3

Energia e Trabalho

80

3.3.1

Definição de trabalho e energia cinética

80

3.3.2

Energia Mecânica

83

4. Fluidos

89

4.1

Hidrostática

90

4.1.1

Caracterização de Sólidos, Líquidos e Gases

90

4.1.2

Fluidos

92

4.1.3

Princípio de Pascal

97

4.1.4

Principio de Arquimedes

99

4.2

Hidrodinâmica

102

4.2.1

Fluidos em Movimento

102

4.2.2 Teorema de Torricelli

105

4.2.3 Lei dos Gases

106

4.2.4 Capacidade e condutividade térmica

107

5. Calor

111

5.1 Temperatura e Calor

112

5.2 Dilatação e Contração

116

5.3 Calorimetria

118

5.4 Transferência de calor

121

5.5 Leis da Termodinâmica

126

6. Eletrostática

131

6.1

Carga Elétrica

132

6.1.1

Métodos de Eletrização

134

6.1.2

Lei de Coulomb

136

6.1.3

Campo Elétrico

137

6.1.4

Potencial Elétrico

139

6.2

Eletrodinâmica

142

6.2.1

Fluxo Elétrico

142

6.2.2

Corrente Elétrica

144

6.2.3

Resistores

145

6.2.4

Potência elétrica

148

7. Fundamentos do Eletromagnetismo

151

7.1

Magnetismo

152

7.1.1

Propriedades dos imãs.

153

7.1.2

Campos magnéticos

154

7.1.3

Fluxo magnético

157

7.2

Eletromagmetismo

161

7.2.1 Aspectos Históricos do Eletromagnetismo

161

7.2.2 Ondas eletromagnéticas

162

8. Óptica

167

8.1

Óptica Geométrica

168

8.1.1

Princípios da óptica geométrica

168

8.1.2

Espelho Plano

169

8.1.3

Características da imagem

170

8.2

Óptica Física

171

8.2.1

Fontes de Luz

172

8.2.2

Raios de Luz

173

8.2.3

Meios de propagação de Luz

173

8.2.4

Velocidade de Luz

174

8.2.5

Fenômenos ópticos

175

1

Método Científico

1.1 Origens da Ciência e contribuições da Grécia Antiga

1.1.1 Sociedades primitivas

Acredita-se que os primeiros hominídeos tenham surgido na Terra há qua- tro milhões de anos. Por sua vez, a nossa espécie, o homo sapiens, há cerca de duzentos mil anos (figura 1.1a.). As sociedades primitivas organizavam-se de tal maneira a garantir o consumo necessário e suficiente à sobrevivência do grupo (figura 1.1b). A vida era regulada também pelo rito mágico, associado às primeiras interpretações do homem para os fenômenos naturais.

a)

interpretações do homem para os fenômenos naturais. a) b) c) Figura 1.1 – a) Representação do

b)

interpretações do homem para os fenômenos naturais. a) b) c) Figura 1.1 – a) Representação do

c)

do homem para os fenômenos naturais. a) b) c) Figura 1.1 – a) Representação do Homo

Figura 1.1 – a) Representação do Homo Sapiens http://www.culturamix.com/cultura/curio- sidades/a-especie-homo-sapiens b) Representação da sociedade primitiva http://www.

historia.templodeapolo.net c) Fragmento de ferramenta de osso utilizada para polimento de peles e couros por Neandertais tem apenas alguns centímetros de comprimento http://g1.

globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/08/estudo-ve-indicios-mais-antigos-de-utensi-

lios-de-ossos-dos-neandertais.html

O misticismo e a organização social das tarefas entre os membros desses agrupamen- tos marcaram as primeiras evoluções desses grupos sociais ao longo dos primeiros milênios do aparecimento de nossa espécie na face do planeta. Os primeiros agru- pamentos sociais praticavam uma economia marcada pela sobrevivência simples e o homem dessa época, temeroso das manifestações do mundo natural, caracterizava-se por enxergar os fenômenos naturais com espanto e os atribuía a seres mitológicos envoltos em indecifráveis mistérios (DE MEIS, 1967).

8

capítulo 1

O desenvolvimento de técnicas e a melhor utilização de utensílios marca- ram esse processo evolutivo (figura 1.1c), transformando as sociedades de eco- nomia de subsistência em direção ao surgimento dos primeiros agrupamentos diferenciados, nos quais a produção ultrapassava as necessidades imediatas do grupo, ou seja, geravam, pela primeira vez, excedentes além de suas capacida- des naturais de consumo (ANDERY, 1999).

1.1.2 A Grécia Antiga

A Grécia Antiga é o lugar, ao menos sob a ética do desenvolvimento do mundo ocidental, onde os historiadores melhor localizam a ocorrência de sociedades organizadas em função dos excedentes produzidos (figura 1.2). O desenvolvi- mento da produção mercantil associado ao escravismo, auxiliados pela melhor utilização de técnicas e utensílios para subjugar outros agrupamentos, são as- pectos fundamentais para compreender aquela civilização no período que vai do século XII século ao II a.C. (KOYRE, 1922).

que vai do século XII século ao II a.C. (KOYRE, 1922). Figura 1.2 – Representação da

Figura 1.2 – Representação da Sociedade da Grécia Antiga. Disponível em – http://www. historiadomundo.com.br/grega/governo-grego.htm

Na esteira de tal dinâmica ocorrida na Grécia Antiga têm origem os primei- ros momentos em que tentativas racionais de interpretação dos fenômenos naturais são estabelecidas. Ou seja, surgem os primeiros pensamentos que dis- pensavam interpretações mediadas necessariamente pelo divino e pelo sobre- natural (figura 1.3).

capítulo 1

9

Figura 1.3 – Desenhos de deuses da Grécia Antiga. a) Dioniso e sátiros. Interior de
Figura 1.3 – Desenhos de deuses da Grécia Antiga. a) Dioniso e sátiros. Interior de

Figura 1.3 – Desenhos de deuses da Grécia Antiga. a) Dioniso e sátiros. Interior de um vaso com figuras vermelhas, 480 a.C. b) Hércules e Atena. Cerâmica grega antiga, 480–470 a.C. http://amanecemetropolis.net/el-aprendiz-del-drama/

Substitui-se uma relação de espanto com a natureza por uma tentativa embrionária de explicar racionalmente o mundo à sua volta, em contraposição às interpretações míticas de seus predecessores (MOTA, 1997).

A diferença essencial é que, ao contrário da narrativa baseada no mito e na crença, essa nova postura permite ser questionada, criticada e analisada. O con- flito, portanto, entre o conhecimento mítico e racional marcam um momento crucial do processo de evolução do homem.

Evoluções similares também ocorreram no mundo oriental, sem nenhum, ou muito pou- co, contato com esses agrupamentos. Posteriormente, intercâmbios serão estabele- cidos, mas cujas contribuições, ao menos por enquanto, não foram tão relevantes na história inicial do surgimento do pensamento racional no mundo ocidental.

Nesse período da Grécia Antiga, marcado pelo surgimento do pensamen- to racional baseado no método, o qual era centrado na observação e na lógica, em oposição às abordagens míticas, podemos destacar os seguintes períodos distintos de sua história: período homérico (séculos XII-VIII a.C.) e helenístico (séculos III-II a.C.), conforme abordaremos, a seguir, com suas características próprias.

1.1.3 O período homérico

As bases da civilização grega desenvolveram-se no período homérico, entre os sé- culos XII e VIII a.C., na região continental do Peloponeso e nas ilhas do Mar Egeu (figura 1.4) . As suas origens, no entanto, remontam ao século XX a.C. na civilização micênica, centralizada na figura do rei, estruturada na servidão coletiva e com eco- nomia baseada na agricultura, artesanato e na utilização do bronze. Nesse período, desenvolveu-se a escrita, ainda que puramente para controle palaciano.

TURQUIA BULGÁRIA SKOPIA THRACE (EX-IUGOSLÁVIA)) ALEXANDROPOULIS KAVALA THESSALONIKI MACEDÔNIA ALBÂNIA
TURQUIA
BULGÁRIA
SKOPIA
THRACE
(EX-IUGOSLÁVIA))
ALEXANDROPOULIS
KAVALA
THESSALONIKI
MACEDÔNIA
ALBÂNIA
TURQUIA
ILHAS DO NORDESTE DO EGEU
LARISSA
IOANNINA
ILHAS
VOLOS
THESSÁLIA
ÉPIRUS
SPORADES
IGOUMENITSA
HALKIDA
ÉVIA
ILHAS
GRÉCIA CENTRAL
JÔNICAS
ATENAS
PIREUS
SOUNIO
PELOPONESO
KORINTHOS
NAFPLIO
OLYMPIA
KALAMATA
ILHAS DO GOLFO
ARGO-SARÔNICO
E PELOPONESO
DODECANESO
ILHAS CICLADES
CRETA

Figura 1.4 – Mapa da Grécia Antiga http://lorraynneaudrey90.xpg.uol.com.br/geografia.html

Em torno de 1200 a.C. a invasão dos Dórios pôs fim à civilização micêni- ca, introduziu o uso do ferro, o que implicou no aprimoramento das armas de guerra, e substituiu a realeza pela aristocracia. As decisões que eram exclusiva- mente palacianas foram para as praças públicas (ágoras), compartilhadas por todos os cidadãos, o que não queria dizer escravos. Com os Dórios, as forças produtivas tiveram um significativo avanço, com aumento na produção de cereais, óleo, vinha, horticultura, pastoreio e artesa- nato (tecelagem, fiação, trabalhos em metal, cerâmica etc.). Da mesma forma, iniciaram-se as cidades (polis) com uma diversidade social mais complexa en- volvendo, além da aristocracia e dos escravos, os artesãos, trabalhadores libe- rais, pequenos proprietários e militares.

No século IX a.C. reaparece a escrita, desaparecida desde a civilização mi- cênica, agora com nova função, muito mais pública do que aquela dos tempos da realeza.

As obras de Homero (Ilíada e Odisseia) constituem, sem dúvida, o que de mais impor- tante foi escrito nesse período. Ilíada versa sobre o período de lutas (guerra de Troia) e acerca de heróis de guerra. Por sua vez, a Odisseia refere-se a um período de paz, retratando relações familiares e a vida doméstica.

Na obra de Homero, a relação homem-deuses é um tema recorrente, valo-

rizando o homem à medida que humaniza os deuses, os quais tinham formas

e sentimentos humanos. Na mesma proporção que o homem aproxima-se dos

deuses, e vice-versa, nessas obras permite-se a busca da compreensão dos fenô- menos do Universo de uma forma mais humana e menos divinizada, portanto, gradativamente mais racional e menos mágica.

1.1.4 O período arcaico

O próximo período (arcaico, nos séculos VII e VI a.C.) caracteriza-se pelo estabe-

lecimento definitivo das cidades-estados, um aprimoramento das polis do perí- odo anterior. As polis (figura 1.5) compreendiam as cidades e suas redondezas mais próximas, sendo unidades econômicas, políticas e culturais independentes entre si. Nesse período intensifica-se o comércio, surgem as moedas utilizadas nas trocas de mercadorias e que representavam os símbolos das polis respecti- vas. Ocorre também um aumento da utilização do trabalho escravo, permitindo aos cidadãos da aristocracia liberação quase total dos trabalhos manuais.

aristocracia liberação quase total dos trabalhos manuais. Figura 1.5 – Polis Grega

Figura 1.5 – Polis Grega http://www.mundoeducacao.com/historiageral/grecia-antiga.htm

O período arcaico se por um lado aprofunda o conceito de democracia, por outro distancia ainda mais os cidadãos dos não cidadãos, definindo um incre- mento da prática da cidadania nas decisões, desde que garantida a exclusão de setores não participantes. Nesse período, fruto da liberação dos trabalhos manuais e da capacidade crescente do pensamento abstrato, alguns pensadores marcaram o período com a produção de concepções complexas e profundas. Os mais importantes são Tales, Anaximandro, Anaxímenes (escola de Mileto), Pitágoras, Parmênides, Heráclito e Demócrito (BORNHEIM 1967).

Tales (625-548 a.C.) introduziu a matemática na Grécia com conhecimentos possivel- mente adquiridos, em parte, de desenvolvimentos anteriores dos egípcios. Destaque-se também o papel de Anaximandro (610-547 a.C.) na elaboração pioneira de um mapa do mundo. Esses pensadores estavam rompendo com a abordagem mítica e estabe- lecendo as bases do pensamento racional. Além disso, a natureza e os fenômenos naturais eram os temas centrais de suas investigações. Pitágoras (580-497 a.C.), contribuiu com a noção de número, a visão de harmonia por intermédio da música, e a concepção da alma. Na matemática, sua grande contri- buição foi o teorema de Pitágoras. Heráclito (540-470 a.C.) atribuía ao fogo um papel primordial, aquele que tudo transforma e para o qual tudo é transformado. A ideia da constante transformação (as coisas quentes esfriam e as coisas frias esquentam) e da tensão entre opostos marcam a essência de seus pensamentos.

1.1.5 O período clássico

No próximo período (clássico, nos séculos V e VI a.C.), uma cidade-estado di- ferencia-se das demais de forma significativa (figura 1.6). Na polis de Atenas a democracia grega consolida-se na sua plenitude, na mesma medida em que se consolida o desprezo pelo trabalho manual e a maturidade dos pensamentos de seus filósofos.

a)

a) b) Figura 1.6 – Representações da Polis de Athenas. Fonte: a) http://www.historiaybiografias.

b)

a) b) Figura 1.6 – Representações da Polis de Athenas. Fonte: a) http://www.historiaybiografias.

Figura 1.6 – Representações da Polis de Athenas. Fonte: a) http://www.historiaybiografias. com/archivos_varios1/acropolis.jpg, b) https://historiaeuropa.files.wordpress.com/

Além dos escravos e da aristocracia, há um grande contingente de estrangei- ros obrigando um refinamento do conceito de cidadão e de cidadania. Aumenta

o fluxo de troca de produtos na economia, exportando vinho, azeite e cerâmica

e importando alimentos, matérias-primas e escravos. Atenas vivia também da cobrança pela proteção militar de cidades próximas. Esse período, apogeu econômico e político de Atenas, foi também um perío-

do de muitas guerras (contra Esparta, entre outras), de grandes conflitos inter- nos e com existência de partidos políticos antagônicos.

A preocupação com a produção e a transmissão dos conhecimentos fez sur-

gir homens cujo papel era prover aos filhos dos cidadãos com posses uma edu- cação refinada e adequada ao sucesso na vida pública e privada. São os sofistas,

profissionais pagos para, por meio da filosofia, prover a educação necessária ao cumprimento de seus objetivos propostos. A medida do potencial de sucesso de um homem era, segundo os sofistas, a sua capacidade de convencer outros por meio tão somente da força de seus argumentos.

O período clássico é muito rico de importantes pensadores, mas certamen-

te três filósofos marcam esse período de uma forma singular. São eles, em or- dem cronológica, Sócrates, Platão e Aristóteles.

Sócrates (469-399 a.C.), embora educado pelos sofistas, por eles desenvolveu uma grande aversão. Sua discordância incluía a defesa de valores de virtudes permanentes contra o relativismo, assim como seu pavor pelas convenções de comportamento e modos

de vestir defendidos pelos sofistas. Nada tendo escrito, até mesmo porque acreditava que

o autoconhecimento deveria ser fruto do diálogo permanente e sem ocupar as mãos, o

que dele sabemos é por meio de seus discípulos. Era central no seu pensamento a neces-

sidade do homem primeiro reconhecer a sua própria ignorância, para, por meio do diálogo

e da ironia, descobrir em sua alma o conhecimento. Assim, a sabedoria estava na desco-

berta do conhecimento pelo homem em si mesmo. Segundo Sócrates, o bem e a virtude eram conceitos e valores universais, imutáveis e permanentes. Aristóteles (384-322 a.C.) não foi contemporâneo de Sócrates, ainda que infuenciado por ele, nasceu quando Platão já tinha 42 anos e estudou na Academia convivendo com ele por um período (Aristóteles tinha 36 anos na morte de Platão). Aristóteles, ao con- trário de Sócrates e Platão, não é de Atenas, ele era originário do norte da Grécia, região sob domínio macedônico, onde seu pai era médico de Felipe II, imperador da Macedônia. Inicialmente, assumiu as teorias de Platão para depois rejeitá-las, fundando sua própria escola denominada Liceu.

O fim do período clássico marca a oposição Aristóteles-Platão em termos da visão do homem enquanto animal racional e mortal contraposto a alma imor- tal presa no corpo mortal. Ocorre também a queda de Atenas, invadida pelos

macedônicos, patrícios de Aristóteles, que saem vitoriosos e unificam a Grécia, preparando o próximo período denominado helenístico. Nesse novo império

a vasta obra de Aristóteles, que incluía astronomia, física, biologia, botânica, política e, particularmente, sua especial preocupação com o método serão refe- rências básicas que influenciarão além dos limites do próprio império.

1.1.6 O período helenístico

No período helenístico (séculos III e II a.C.) o império macedônico centraliza-se no Monarca, primeiro Felipe II e depois seu filho Alexandre. Descaracteriza-se

a polis grega, cujas disputas internas tinham sido um dos motivos da queda de

Atenas, gerando espaço para a unificação grega necessária para enfrentar os

persas. O império expande-se muito durante Alexandre, porém, com sua morte, a disputa entre seus generais divide o império em três reinos em luta. O general Ptolomeu controlava Egito, Arábia e Palestina, o general Antígono garantia o controle de Grécia e Macedônia, e o general Seleuco tinha o controle da Síria, Mesopotâmia e Ásia Menor. Como é possível observar, da dimensão geográfica do Império Grego deu-se origem, nesse período, a uma significativa fusão da cultura grega com o conhe- cimento oriental. Em particular, o Museu de Alexandria (figura 1.9) transfor- mou-se no mais importante centro de pesquisa daquela época. Os reis egípcios participaram ativamente desse empreendimento, mesmo porque eles consi- deravam os avanços no conhecimento científico, na medicina e na literatura como parte do tesouro real. Assim, pela primeira vez na história do homem, foi criada uma instituição de caráter científico organizada e financiada pelo Estado (lembremos que a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles eram de cunho privado). O Museu tinha uma ênfase em investigação da natureza e con- tava com laboratórios de pesquisa, jardim botânico, zoológico, salas de disse- cação, observatório astronômico e uma grande biblioteca (figura 1.7).

astronômico e uma grande biblioteca (figura 1.7). Figura 1.7 – Biblioteca de Alexandria.

Figura 1.7 – Biblioteca de Alexandria. http://www.fisica-interessante.com/aula-historia-e

-epistemologia-da-ciencia-5-historia-da-epistemologia-3.html

Figura 1.8 – Movimento na Biblioteca de Alexandria. http://caosnosistema.com/wp-content/

Figura 1.8 – Movimento na Biblioteca de Alexandria. http://caosnosistema.com/wp-content/

uploads/2013/06/biblioteca-din-Alexandria-acervo.jpg

Em outubro de 2002, o Egito reinaugurou a Biblioteca de Alexandria (figu- ra 1.8). Para tentar compensar os 500 mil rolos de pergaminho queimados no século IV, o novo imóvel tem um arquivo que inclui 10 bilhões de páginas da internet, compilados desde 1996 (consultas disponíveis no site www.bibalex. gov.eg). Foi no Museu que Euclides, na primeira metade do século III a.C., apresen- tou uma síntese de todo o conhecimento matemático produzido pelo homem até então. Igualmente, Arquimedes determinou o número π, dando início ao cálculo infinitesimal, além de propor os fundamentos da mecânica (movimen- to uniforme e circular) e as bases da hidrostática (conceito de empuxo). A astronomia também teve um grande impulso, em particular a proposi- ção sistematizada do sistema geocêntrico, proposto por Ptolomeu. Antes dele, também no Museu, Aristarco de Samos havia proposto originalmente o sistema heliocêntrico, pouco compreendido por contrariar a visão aristotélica adotada como base do pensamento. Depois de seu apogeu, o Museu entra em decadência com a perda do finan- ciamento do Estado, tendo, no entanto, papel fundamental na história poste- rior, muito especialmente na segunda parte da Idade Média, a partir do século XI, quando Aristóteles e todo o conhecimento acumulado é repassado de volta para a Europa, seja aquele produzido na Grécia Antiga assim como aquele ali produzido e hibridizado com técnicas e pensamentos orientais.

No ano de 305 a.C Ptolomeu I Sóter foi proclamado faraó e se tornou um líder que acolhia os sábios do mundo inteiro de braços abertos. Demétrio de Falero, líder de Atenas, obrigado a se exilar na cidade de Ptolomeu I devido às guerras. Os dois com- partilhavam dos mesmos ideais e se tornaram grandes amigos. Com isso, decidiram

colocar em prática um projeto cuja intenção era reunir e classificar todos os tipos de conhecimento registrados em rolos de papiro ao redor do mundo, fazendo de Alexandria

a capital do conhecimento.

Iniciou-se, então, a construção do magnífico Templo das Musas [museu] com dezenas

de salas de investigação e leitura, zoológicos, diversas hortas e jardins, laboratórios para dissecações, observatório astronômico e a imponente Biblioteca de Alexandria. Sabendo que para tornar Alexandria o centro do conhecimento mundial, precisava reu- nir os intelectuais, o faraó começou a oferecer moradia, dinheiro e alimentação para que estudassem no museu em troca da dedicação integral à busca pelo conhecimento.

O sucesso foi tanto que tiveram que ampliar e o Templo de Serápis foi erguido.

Em 391 d.C., o patriarca Teófilo I destruiu a Biblioteca sob as ordens do Imperador Teodósio, que havia unido Roma ao Cristianismo e passou a perseguir os pagãos e outras religiões. Infelizmente o medo dos governantes e sacerdotes frente ao conhecimento que vinha

sendo desenvolvido destruiu o que, segundo Carl Sagan, foi, em seus tempos, a glória e

o cérebro da mais importante cidade do planeta, o primeiro instituto de investigação da história do mundo.

primeiro instituto de investigação da história do mundo. Figura 2013/06/biblioteca-alexandria.jpg 1.9 – Museu de

Figura

2013/06/biblioteca-alexandria.jpg

1.9

Museu

de

Alexandria.

http://caosnosistema.com/wp-content/uploads/

1.2 Pensamentos da Idade Média e da Renascença e o surgimento do Método Científico

1.2.1 Final do Império Romano e início da Idade Média

O Império Romano (séculos l a.C. a século V d.C.) que seguiu-se à queda do Im- pério Grego e Macedônico teve muitas contribuições no campo da retórica, de estruturas urbanizadas, aquedutos e técnicas de guerra, mas que não foram tão fundamentais na compreensão histórica e no desenvolvimento do tema espe- cífico que estamos tratando. Na verdade, o uso do latim pelos romanos consti- tuiu-se em um elemento a mais para dificultar a utilização plena do conheci- mento produzido em grego até então. Assim, abordaremos o período Medieval, no qual, ao seu final, se estabele- cerão as bases do início da ciência moderna, a partir da redescoberta de antigos pensadores da Grécia Antiga via, simbolicamente, aquele conhecimento guar- dado no Museu de Alexandria. O final do Império Romano (séculos IV e V) está associado à aceleração da destruição do modo de produção escravista, o qual tornara-se dispendioso, gerando o empobrecimento dos pequenos proprietários. Além disso, revoltas contra os altos impostos, invasões dos bárbaros do norte, que somados aos in- teresses de grandes proprietários em busca de maior autonomia, levaram ao fim de Roma e dos demais centros urbanos da época. As novas relações a partir dos séculos V e VI são centradas na figura do se- nhor feudal (grande latifundiário) e nos servos da gleba (arrendatários, peque- nos agricultores, mas não escravos). A prestação de serviços (jovens campo- neses no corpo de guarda do senhor feudal e a prática do maritagium para as jovens) e pequenos excedentes agrícolas eram as formas de pagamento usuais dos servos ao senhor em troca pela proteção dentro dos limites da gleba. A vida no feudo caracterizava-se pela autossuficiência, produção agrícola e criação de animais de pequena monta e pequena indústria caseira (MONTEIRO, 1986). Após a queda do Império Romano no século V, a Igreja de Roma é o centro da cristandade ocidental e divide com os senhores feudais o controle de boa parte da Europa. A Igreja terá do século V até o século XII um quase monopólio do saber, inclusive da leitura e da escrita, exercida via o controle do sistema educacional.

1.2.2 Alta e Baixa Idade Média

O período da Idade Média está compreendido entre os séculos V ao XV. Adota-

se como marco referencial para o início da Idade Média o período que se segue à divisão do Império Romano (oriente e ocidente) em 395 e como final a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453. Não se pode enxergar a Ida- de Média como um período homogêneo, dado que conviveram civilizações com organizações políticas e sociais muito diferentes, mesmo assim esse período tem características bastante marcantes. Entre seu início (século V) até os séculos XI e XII é correto afirmar ter sido um período em que quase nada aconteceu na dinâmica da história como um todo na Europa, sendo denominada de Alta ldade Média. Claramente houve ex- ceções em centros mais dinâmicos pontuais, como Granada, na Espanha. Em geral, nada acontecia e era muito comum alguém viver sem ter circulado além de poucos quilômetros do lugar em que nasceu. Gerações se passaram sem que transformações sociais e econômicas significativas ocorressem. Tal visão, no entanto, deixa de ser verdadeira na Baixa Idade Média (séculos XI ao XV), em que, ao contrário da fase anterior, um período de acentuada dinâmica ocorreu (GIORDANI, I983). Os séculos XI e XII são marcados por incremento da interação dos povoados com mercadores árabes do Mediterrâneo. Resultante dessas interações, um conjunto de inovações técnicas foram incorporadas gradativamente à produ- ção agrícola e artesanal. Podemos destacar as técnicas agrícolas adotadas nas margens dos rios Nilo, assim como nos rios Tigre e Eufrates. A adoção de cur- vas de nível, plantação em rodízio, correções do solo, utilização de quedas da

água, utilização da charrua e do cavalo em substituição ao arado puxado por boi ou gente, a correta encilhagem do cavalo, permitindo uma tração muito maior (preso no corpo e não na cabeça, como anteriormente) (figura 1.10). Além dis- so, a utilização da força hidráulica, a moagem de grãos por moinhos de vento,

o crescimento da atividade têxtil via o aperfeiçoamento do tear, ajudados pelo transporte de mercadorias via o aperfeiçoamento náutico (leme de popa e mas-

tro na proa), a utilização da bússola, a fundição do ferro, a introdução do papel,

o surgimento posterior da imprensa, o conhecimento da pólvora e do canhão, tudo isso foram elementos fundamentais que geraram a chamada revolução verde na Europa (MOTA, 1991). Ou seja, uma explosão, um crescimento sem precedentes da produção agrícola, gerando uma quantidade muito acima da

capacidade local de consumo, fazendo com que o intercâmbio de produtos constituísse um novo fenômeno que alteraria as relações sociais e econômicas de toda uma região, espalhando-se a partir da Península Ibérica em direção ao centro da Europa (FRANCO, 1986).

Ibérica em direção ao centro da Europa (FRANCO, 1986). Figura 1.10 – Técnicas agrícolas.

Figura 1.10 – Técnicas agrícolas. http://schafergabriel.blogspot.com.br/2015/02/o-feudalismo. html

Além disso, fruto dessas novidades e geração inédita de riquezas, entre os séculos XI e XIII, surgem grandes empreendimentos em toda a Europa, tais como construções das grandes catedrais (figura 1.11) e o surgimento das pri- meiras universidades (figura 1.12).

e o surgimento das pri- meiras universidades (figura 1.12). Figura 1.11 – Catedral de Notre Dame,

Figura 1.11 – Catedral de Notre Dame, Paris, Trança. Início da construção –1163

Figura 1.12 – Universidades de Paris (França), de Oxford (Inglaterra) e de Cambridge (Inglaterra).

Figura 1.12 – Universidades de Paris (França), de Oxford (Inglaterra) e de Cambridge

(Inglaterra). http://www.brasilescola.com/historia/universidades-na-idade-media.htm.

http://www.telegraph.co.uk/education/universityeducation/8674265/Trinity-College-

Cambridge-A-talent-for-nurturing-the-life-of-the-mind.html

1.2.3 Transição do feudalismo para o capitalismo

A decadência do regime feudal, movida pelo crescimento do comércio, a neces-

sidade de maior controle das rotas comerciais e o ambiente urbano atraente, gerando um abandono de servos em direção às cidades, acabam por resultar nas condições apropriadas para o florescimento das monarquias absolutas eu- ropeias. A partir do século XV, novas rotas no Atlântico substituem gradativa- mente as tradicionais do Mediterrâneo. Simultaneamente, Inglaterra, França, Holanda, Espanha e Portugal conquistam colônias e cada vez adentram mais o Mediterrâneo (BERNAL, 1976). Até o século XIII, a Igreja detém a única forma centralizada e hierarquizada do saber via o monopólio dos ensinamentos, em geral visando exclusivamen-

te a formação de seus próprios religiosos. Assim, essa instituição constitui, na prática, o único poder que ultrapassa os limites dos feudos e utiliza muito bem

o monopólio do saber, da leitura e da escrita em um controle educacional rígi- do e centralizado. A partir do século XIII, fruto do crescimento dos entrepostos comerciais e florescimento de uma nova classe, os burgueses (figura 1.13), que detêm re- cursos e podem ter iniciativas, esboçam os primeiros centros universitários da Europa, inicialmente na Península Ibérica. Essas primeiras Instituições de Ensino, não dispondo de mestres de suas próprias regiões e recém egres- sas de um período medieval limitador, procuram junto aos mercadores sábios do oriente que pudessem constituir-se nos primeiros professores. Embora te- nham vindo de diversas regiões, há uma concentração de sábios que são rema- nescentes de Alexandria, que haviam preservado os ensinamentos da Grécia

Antiga e mesclado esses conhecimentos com contribuições de todo o oriente. Eles conheciam, e bem, Aristóteles, que havia sido traduzido do grego para o árabe. Por ser um conhecimento completo, enciclopédico e de fácil ensina- mento, constituiu a primeira tarefa desses sábios concluir a tradução integral de Aristóteles para o latim e ensiná-lo nessas Instituições emergentes.

para o latim e ensiná-lo nessas Instituições emergentes. Figura idademedia2012.tumblr.com/.

Figura

idademedia2012.tumblr.com/. http://www.historiadigital.org/curiosidades/10-curiosidades- sobre-as-cidades-medievais/

http://

1.13

Um

Burgo

típico

e

uma

ilustração

de

comércio

medieval.

De fato, Platão já era bem conhecido da Igreja via Santo Agostinho (SANTO AGOSTINHO, 1973), tendo influenciado fortemente os círculos internos da Igreja na Alta Idade Média (séculos V ao X). Da mesma forma, a Igreja interessa- se por Aristóteles e, via São Tomás de Aquino (SÃO TOMÁS DE AQUINO, 1973), por ele é influenciada na Baixa Idade Média (séculos XI ao XV). O final da Idade Média é um período de profundas contradições. A peste negra do verão de 1347 contribuiu para a afirmação do poder da Igreja, via au- toridade papal, sendo que coube à Igreja a tarefa de coordenar os trabalhos de restauração da ordem nas cidades que haviam se desintegrado política e economicamente. Até o final da Idade Média, a Terra é inquestionavelmente o centro do Universo em torno das visões do mundo hierarquizado de Aristóteles (século IV a.C.) e do astrônomo egípcio Cláudio Ptolomeu (século II d.C.). Acreditava-se e ensinava-se que Deus criara o céu em movimento circular perfeito e eterno. Por sua vez, o nos- so mundo era imperfeito, dado que, formado de água, ar, fogo e terra, deteriorava e morria. Assim, o mundo era constituído de oito grandes esferas, sendo que o Sol ocupava a primeira, depois a Lua, após os cinco planetas conhecidos (Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno) e, por fim, na última esfera, todas as estrelas.

Após o período medieval há um grande vazio intelectual. As bases conso- lidadas da escolástica, centrada no pensamento enciclopédico de Aristóteles, pode ser questionada, porém, nada há similar que possa substitui-lo no seu conjunto. Assim, esse período caracteriza-se pela magia, feitiçaria e alquimia. Tudo pode ser aceito, mas nada era consolidado, tudo parecia aceitável e con- denável simultaneamente, carecendo de solidez os pensamentos propostos (MOTA, 1997). Por outro lado, o homem agora é a preocupação principal, ao passo que até então o essencial havia sido discutir a relação homem-Deus. Isso abre espaço para tornar-se cada vez mais relevante a relação homem-natureza. Destaque-se, nesse período, a importância das ideias de Francis Bacon (1561-1626) que, a partir da oposição ao teocentrismo, via o antropocentrismo, e da oposição à fé pela razão propõe a ciência prática em contraposição à ciência contemplativa praticada até então. De acordo com Bacon, a descoberta de fatos verdadeiros depende principalmente de observações experimentais guiadas pelo método indutivo e não de raciocínios matemáticos (BACON, 1973). Suas análises eram baseadas no exame de fatos, tipo presença e ausência. A maior falha do seu pen- samento reside exatamente na pouca importância que ele conferia à hipótese e

o menosprezo exagerado à formulação matemática. No campo religioso, essa fase de transição entre o feudalismo e o capita- lismo caracteriza-se pela ocorrência da Reforma Protestante, de alguma forma associada aos obstáculos da Igreja Católica às práticas capitalistas burguesas e também relacionado com a vontade dos Reis de não dividir o poder centraliza- do com o Papa (WEBBER, 1930). Conforme cresce a Reforma, a Igreja lança a contrarreforma, onde particularmente a Companhia de Jesus tem, entre outras missões (inquisição, por exemplo), o papel de empreender uma ação pedagógi- ca em oposição à escolaridade protestante.

1.2.4 A Renascença

A Renascença tem seu eixo principal na Itália, tendo sido a primeira região a

recuperar-se dos acontecimentos da Peste Negra. Além disso, a Itália era o cen- tro do trânsito crescente entre a Europa e o Oriente Médio. Por ali passavam necessariamente as especiarias, os perfumes e as sedas. Ocorre nesse período um significativo refinamento de sistemas administrativos, práticas bancárias e conhecimentos financeiros em geral. Florença em torno do século XV já detém

um efervescente sistema bancário associado ao comércio internacional. A ma- temática (geometria, trigonometria e álgebra), usada na construção, na navega- ção, na cartografia e no levantamento topográfico, se desenvolve fortemente. Por exemplo, o cosmólogo italiano Paolo Toscanelli (1397-1482) fornece a Co- lombo o mapa que o guiou na primeira viagem à América (figura 1.14).

que o guiou na primeira viagem à América (figura 1.14). Figura 1.14 – Paolo Toscanelli e

Figura 1.14 – Paolo Toscanelli e uma reconstrução hipotética do mapa que guiou Colombo. http://www.arcetri.astro.it/~ranfagni/CD/CD_TESTI/TOSCNLLI.HTM

O clima do final da Idade Média, o florescimento das artes na Renascença, a redescoberta da literatura clássica grega, as grandes navegações, o surgimen- to de Instituições de Ensino com alguma independência da Igreja, a Reforma Protestante, tudo isso são elementos que propiciam uma nova concepção acer- ca da maneira pela qual uma teoria deve estar ligada aos fatos observados que ela se propõe a explicar (KOIRÉ, 1984). Rigorosamente, submeter ao controle experimental enquanto critério de verdade tem como precursor o filósofo inglês Roger Bacon que, no século XIII, defendia a ideia da verificação e falseamento a partir da verificação experimen- tal (BACON, 1973). Ele ia além disso, propondo que o experimento era também fonte de novas e importantes verdades, as quais não poderiam ser descobertas de outra maneira, ou seja, por pensamentos puramente abstratos (de acordo

com Roger Bacon: o experimento não é só para verificar ele também é fonte de conhecimento original).

1.2.5 Heliocentrismo versus geocentrismo

Um dos marcos da transição entre o pensamento medieval e o surgimento da ciência moderna diz respeito à discussão do heliocentrismo em oposição ao ge-

ocentrismo. Em 1463, a lgreja, a pedido de agricultores e navegantes, encomen- da a um de seus agregados e protegidos, o astrônomo Johann Müller, estudos visando a correção do calendário egípcio (365 e ¼ dias), adotado desde Júlio

César no sec. I d.C. A encomenda do Papa Sisto IV não é atendida satisfatoria- mente, mas Müller publica o Epitome em 1496, sendo uma das primeiras obras

a contrapor-se a Ptolomeu, em particular à sua obra Almagesto, ao defender que a Terra não era imóvel, imutável e centro do Universo.

A tarefa não cumprida por Müller é posteriormente repassada a Nicolau

Copérnico (1473-1543) (figura 1.15), também agregado da Igreja. Em 1514, Copérnico comunica ao Papa Clemente VII que o problema da Páscoa (cada vez

a Páscoa parecia acontecer antes) não teria solução antes que as relações entre Terra, Sol e Lua fossem mais bem estabelecidas. Em 1530, Copérnico adota o heliocentrismo e, em 1543, na sua obra As Revoluções, afirma categoricamen-

te: a Terra é esférica e seis planetas giram em torno do Sol em órbitas perfeitas.

O mais importante de tudo é que Copérnico, com essas hipóteses, resolveu

o calendário, substituindo o calendário Juliano pelo Gregoriano com 365 dias,

5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Ou seja, 11 minutos e 14 segundos mais longo do que o anterior. No mesmo ano de publicação de sua obra Copérnico morre, evitando constrangimentos a ele e à Igreja que adota o calendário pro- posto, mesmo negando as hipóteses (ao menos publicamente) que lhe deram origem e respaldo.

(ao menos publicamente) que lhe deram origem e respaldo. Figura 1.15 – Nicolau Copérnico e a

Figura 1.15 – Nicolau Copérnico e a teoria heliocêntrica. http://www.infoescola.com/biogra- fias/nicolau-copernico/. http://www.astromia.com/fotohistoria/heliocentrico.htm

A chamada revolução copernicana foi fundamental, tendo sido onde, pela

primeira vez, foi elaborado de forma mais sistemática a ideia de que o sistema solar pode ser visto e estudado como uma estrutura independente das demais estrelas. Mesmo assim, contemporaneamente, logo em seguida à sua morte, suas ideias foram condenadas pela Igreja por estarem em conflito com a Bíblia e por não explicarem os fortes ventos da rotação da Terra. Mesmo líderes reli- giosos como Calvino e Lutero também o condenaram. Assim, permaneceu a Terra no centro do Universo no decorrer do Renascimento. Se Copérnico foi motivado pelo calendário, o dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) tinha, como principal propósito, medidas precisas dos movimen- tos dos corpos celestes. Ele foi motivado pela demanda crescente dos navega- dores por mapas celestes, bússolas e relógios mais exatos. Tycho descobriu o surgimento de novas estrelas, o que provaria que a imutabilidade do céu, apre- goada por Aristóteles, era um equívoco. O rei da Dinamarca (Frederico II), em 1576, concedeu a Ilha de Vem (próxima a Copenhagem) para Tycho montar um observatório. Ainda que a observação fosse a olho nu, lembre-se de que o teles- cópio ainda não fora inventado, Tycho obteve pleno sucesso no mapeamento de estrelas e dos movimentos dos planetas. Curioso observar que Tycho Brahe

foi, durante toda sua vida, geocêntrico. Seu trabalho, no entanto, teve aplica- ções imediatas para navegadores, agricultores e fabricantes de relógios.

O principal continuador da obra de Brahe foi Johannes Kepler (1571-1630)

(figura 1.16), nascido na Alemanha, que, em que pese sua infância pobre e di-

fícil, foi eternizado como o responsável pela descoberta das leis de movimento planetário. Em 1600, um ano antes da morte de Tycho Brahe, Kepler foi traba- lhar com ele, de quem recebeu todos os rigorosos registros dos movimentos dos corpos celestes. Fazendo uso desses dados, entre 1609 e 1618, Kepler anuncia as leis do Movimento Planetário:

1. Todos os planetas giram ao redor do Sol em órbitas elípticas;

2. Uma linha radial que ligue qualquer planeta ao Sol varre áreas iguais

em tempos iguais;

3. O quadrado do período da revolução de um planeta é proporcional ao

cubo de sua distância média em relação ao Sol.

Figura 1.16 – Kepler e o Movimento planetário. O grande mérito de Kepler está justamente

Figura 1.16 – Kepler e o Movimento planetário.

O grande mérito de Kepler está justamente em pensar em termos de forças físicas e não em governo divino ou coisa semelhante. Dessa forma, Kepler une a astronomia com a física. Mesmo assim, Kepler morre como um saudosista do Universo perfeito e geométrico (órbitas perfeitas e circulares) de Aristóteles que ele mesmo ajudou a desmontar.

1.2.6 Galileu e a completeza do Método Científico

As contribuições de Kepler foram fundamentais para que Galileu (1564-1642) desse prosseguimento à sua obra. O telescópio aperfeiçoado de Galileu foi um dos instrumentos responsáveis que permitiram que esse pesquisador de Pisa revelasse o céu de uma maneira que ninguém houvera feito antes. Galileu, aos 17 anos, começou estudar medicina em Pisa, abandonou o cur- so por problemas financeiros, seguiu para Florença, retornando aos 25 anos para pleitear uma cátedra na Universidade de Pisa. Para tanto, apresentou um tratado sobre centro de gravidade nos sólidos. Galileu opôs-se a Aristóteles, entre outros temas, afirmando que dois cor- pos de massa diferentes caem em tempos iguais se desprezada a resistência do ar. Tal afirmação estava em contradição profunda com os ensinamentos bá- sicos de Aristóteles e, por extensão, com a Igreja. Supostamente Galileu teria utilizado a Torre de Pisa para essa demonstração. Se de fato tal experimento ocorreu é menos relevante do que a afirmação da necessidade do experimento enquanto critério de verdade.

Se os gregos estabeleceram o pensamento racional e o primeiro método ba- seado na observação e na lógica, Galileu representa simbolicamente uma nova revolução: a afirmação do método científico enquanto observação, lógica e ex- perimentação (BANFI, 1983). No verão de 1592, Galileu renunciou à sua cátedra em Pisa e foi para Pádua

à procura de espaços mais abertos às suas novas e revolucionárias ideias. Disputou uma cátedra também pretendida por Giordano Bruno (1548-1600),

o qual viria a ser morto, queimado vivo, em 1600, por determinação do Papa

Clemente VIII. Bruno, após ter sido ordenado padre em Nápoles, dirige-se para ensinar em Paris e Londres, caracterizando-se pelo combate permanente às

ideias de Aristóteles, em particular acerca da Terra não ser o centro do Universo, afirmando ser o Universo infinito e que as estrelas não se encontravam fixas em uma esfera cristalina. Giordano influenciou bastante Galileu e marcou sua vida como mártir da liberdade de expressão. Galileu viveu 18 anos em Pádua, onde deu continuidade aos trabalhos de Kepler, organizou e sintetizou o ramo da mecânica na física, escreveu a obra O Ensaidor (GALILEU, 1973), que trata especialmente do método científico, es- creveu sobre a teoria das marés e aperfeiçoou o telescópio, o que permitiu o es- tudo das manchas solares e a compreensão da superfície montanhosa da Lua. Em 1610, Galileu observou quatro satélites em torno de Júpiter, semelhan- tes à Lua na Terra e identificou a Via Láctea como composta de estrelas e não de substância nebulosa. Lembremo-nos de que foi exatamente por motivos simi- lares que Giordano Bruno houvera sido condenado à morte alguns anos antes. Galileu, da mesma forma que Giordano, afirmou ser papel da Bíblia preocupar- se com a moral e não com a ciência. Galileu acreditava que a Bíblia não poderia ser interpretada ao pé da letra e prestava-se a diferentes interpretações. -Inicialmente, até 1614, Galileu não teve maiores problemas com a Igreja. No entanto, em 1615 ele foi convocado a comparecer junto à Igreja e desafiado

a demonstrar a conciliação da Bíblia com os pensamentos de Copérnico, ou

então a renunciar explicitamente às suas ideias. Galileu justificou que os postu- lados de Copérnico eram, para ele, uma simples suposição matemática. Em 1616, o Cardeal Belarmino decretou que o sistema copernicano era fa- lho e errôneo e proibiu as obras de Copérnico, o que não havia ocorrido até en-

tão, e afirmou que Deus fixou a Terra em seus alicerces para jamais ser movida.

Em 1624, o novo Papa, Urbano VIII, amigo de Galileu, autorizou Galileu a es-

crever Os Sistemas do Mundo. Em 1632, Galileu publica Diálogo Sobre os Dois

Máximos Sistemas do Mundo (GALILEU, 1973) (figura 1.17). Ainda que bem re- cebido na comunidade acadêmica, causa irritação na lgreja, especialmente em Urbano VIII, principalmente por não ter Galileu respeitado o decreto de 1616.

por não ter Galileu respeitado o decreto de 1616. Figura 1.17 – Galileu Galilei e seu

Figura 1.17 – Galileu Galilei e seu livro Diálogo Sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo.

Finalmente, em 1633, aos 70 anos de idade, Galileu foi uma vez mais colo- cado entre a fogueira e a negação de suas convicções. Galileu renega tudo o que fez, sentenciando, porém, ao final, em voz baixa, que mesmo assim ela (a Terra)

se move (e pur, si muove).

Galileu morre em 1642 e somente em 1757 a Igreja retirou sua obra da lista de proibidos. Em 1992, 359 anos mais tarde, o Papa João Paulo II reconheceu

oficialmente que os teólogos que condenaram Galileu não souberam reconhe- cer a distinção formal entre a Bíblia e sua interpretação. Isso os levou a traspor indevidamente para a fé uma questão pertinente à investigação científica.

1.3 Newton e a Ciência Moderna

1.3.1 A vida e contribuições de Isaac Newton

No ano em que morreu Galileu, 1642, nasceu na Inglaterra Isaac Newton. Nas- cido prematuro, tendo seu pai falecido três meses antes, aos três anos foi aban- donado pela mãe e criado pela avó. Quando completou dez anos, sua mãe re- tornou após a morte do Pastor que ela havia acompanhado e com quem teve outros filhos.

Em que pese todo esse conjunto de dificuldades, Newton formou-se aos 23 anos em Cambridge, Inglaterra, em um período marcado por uma forte incidência da peste bubônica, que levou ao fechamento da Universidade de Cambridge. Newton retornou à sua terra natal e por lá permaneceu 18 meses, os quais foram muito profícuos e criativos, gerando a formulação de teorias que revolu- cionariam toda a ciência moderna. Nesse intervalo de tempo, Newton elaborou as leis do movimento:

1. Um corpo em repouso continuará em repouso, a menos que uma for-

ça atue sobre ele e um corpo em movimento retilíneo uniforme, continuará a

mover-se em linha reta com velocidade constante a menos que uma força atue sobre ele;

2. A aceleração (taxa de variação da quantidade de movimento) é direta-

mente proporcional à força;

3. A cada ação corresponde uma reação igual e oposta.

A partir dessa formulação, em termos de leis gerais do movimento, inicia-se

plenamente a ciência mecânica ou, em outras palavras, a física clássica, ou, em termos mais gerais ainda, a ciência moderna.

A grande revolução estava justamente em encontrar leis matemáticas sim-

ples e precisas, a partir das quais tornava-se possível trabalhar minuciosamen- te com as medidas observadas experimentalmente. Newton afirmou que ele só pôde completar sua obra, indo muito além e en- xergando bem longe, porque apoiara-se em ombros gigantes. Referia-se a vá- rios, mas particularmente a Galileu e a Kepler, com justiça. Curiosamente, embora toda essa formulação estivesse acabada após os 18 meses de retorno à casa da avó, mesmo tendo retornado a Cambridge poste- riormente, Newton não publica de imediato seus achados. Somente 17 anos de- pois, em 1684, ao mostrar seus resultados e análises para Edmond Halley, um grande astrônomo da época, foi tão grande a insistência, que Newton concor- dou com a publicação, a qual foi paga por Halley. Foi Halley, com crédito para tanto, quem escreveu o prefácio daquela que é considerada a mais influente obra escrita por um único indivíduo em toda a história da humanidade (BRODY e BRODY, 2000).

O Principia (NEWTON, 1979) (figura 1.18), na verdade, é constituído de três livros:

1. Mecânica;

2. Movimento dos corpos em meios com resistência (ar ou água);

3. Estrutura e funcionamento do sistema solar, inclusive o tratamento das

marés e cometas.

sistema solar, inclusive o tratamento das marés e cometas. Figura 1.18 – Isaac Newton e o

Figura 1.18 – Isaac Newton e o Principia

Embora essa obra tenha despertado enorme interesse da comunidade cien- tífica da época, Newton perde parcialmente seu interesse pela ciência, elege- se para o Parlamento cinco anos após sua publicação, tendo também ocupado os cargos de Supervisor e Diretor da Casa da Moeda. De 1703 até sua morte, Newton foi Presidente da Royal Society de Londres. Em 1704, Newton publica Óptica (NEWTON, 1979), um tratado sobre re- flexões e cores da luz, elementos sobre os quais houvera trabalhado e escrito em 1675, cerca de trinta anos antes. Newton escreveu também sobre química, alquimia e religião, mas foi com o Principia, especialmente, complementado pelo Óptica, que ele registraria eternamente seu nome como um dos maiores cientistas de todos os tempos.

1.3.2 Consolidação do Método Científico

Os gregos têm o mérito da introdução do método, enquanto observação e lógi- ca. Galileu, simbolicamente, representa a introdução da experimentação com- pletando o método científico como tal. Por sua vez, Newton representa o ama-

durecimento e a constatação de que todo o conhecimento científico sobre o mundo deve ser construído por intermédio da utilização do método científico. Tudo pode ser racionalizado, medido e calculado. Newton estabeleceu a possi- bilidade de chegar às leis sobre a natureza com ênfase no poder da razão. Gra- dativamente, a partir de então, o racionalismo passa a ser, cada vez mais, con- siderado uma característica diferencial do ser humano. A razão é vista como mecanismo, meio de obtenção do conhecimento e guia das ações humanas. Em síntese, o método científico é definido como o método pelo qual cientis-

tas pretendem construir uma representação precisa – ou seja, confiável, consis- tente e não arbitrária – do mundo à sua volta. Em geral, podemos afirmar ter o método científico quatro etapas fundamentais:

1. Observação e descrição de um fenômeno ou grupo de fenômenos;

2. Formulação de uma hipótese para explicar os fenômenos. Muitas ve-

zes tais hipóteses assumem a forma de um mecanismo causal ou relação matemática;

3. A hipótese é utilizada para prever a existência de outros fenômenos,

ou então para predizer, quantitativamente, a ocorrência de novas observações possíveis;

4. Realização de testes experimentais acerca das previsões por vários ex-

perimentalistas independentes e confirmação dos pressupostos adotados. Caso os experimentos confirmem as hipóteses e as previsões decorrentes, po- de-se construir uma lei ou teoria científica.

Cabe destacar, brevemente, que as palavras hipótese, modelo, teoria e lei, usadas arbitrariamente acima, apresentam conotações diferentes com relação ao estágio de aceitação do conhecimento acerca de um grupo de fenômenos. Uma hipótese é uma afirmação limitada acerca de causa e efeito em situa- ções específicas. A palavra modelo é reservada para situações nas quais é sabi- do que a hipótese tem, pelo menos, uma validade limitada. Uma teoria científi- ca ou lei representa uma hipótese, ou grupo de hipóteses relacionadas, as quais têm sido confirmadas por testes experimentais confiáveis e independentes (DA COSTA, 1997). Interessante também observar que não é a ciência nossa única forma de entender e representar o mundo. Há uma variada gama de conhecimentos que, embora sendo conhecimentos, não fazem parte daquilo que denomina- mos conhecimento científico. Incluem-se nessa categoria os conhecimentos

religiosos e populares. Para ser conhecimento científico há que ser provenien- te do uso, assim como estar submetido ao teste, do método científico. Dessa

forma, não basta ser verdade, para ser conhecimento científico há que ser ver- dadeiro e demonstrável à luz do método científico (MOTA, 2000).

A título de explicação do discutido acima, imagine alguém que firmemente

crê em vidas em outros planetas. Trata-se de crença pessoal que pode ser ver- dadeira, dado que é possível que tais seres existam. Assim, embora respeitável

enquanto fé, no entanto, não é ciência. Não por não ser verdadeiro, dado que igualmente não pode a ciência provar a impossibilidade de vidas extraterres- tres, mas sim por não haver provas que atendam aos pressupostos do método científico.

1.3.3 Os séculos XVIII e XIX e as relações entre ciência, tecnologia e produção

Consolidada a ciência moderna com Newton, foi exatamente a visão de que não

bastaria entender o mundo, era preciso modificá-lo, que implicaria nas gran- des transformações que marcaram os séculos XVIII e XIX. Em particular, a má- quina a vapor, descoberta por James Watt em 1784, representou um tremendo impulso na área da produção (ANDERY, 1999).

A partir de então, ciência e produção interferem-se mutuamente. A ciência

modifica, altera, submete a natureza à sua volta a serviço do homem. No século XIX, a ciência organiza-se formalmente, deixando suas práticas basicamente amadoras, sendo que especialmente na Inglaterra, na França e na Alemanha ela volta-se naturalmente para os interesses da produção. Esse período tem como característica a ênfase no poder da razão. O raciona-

lismo passa a ser entendido como uma marca natural do ser humano, e a razão, mais do que um mecanismo de obtenção do conhecimento, era vista como um guia das ações humanas.

A possibilidade de se chegar a leis sobre a natureza gera o pressuposto de

que há regularidades e uniformidades nos fenômenos – quer físicos ou sociais – já que todos passam a ser considerados fenômenos naturais. Em suma, em princípio, acreditava-se que tudo pudesse ser observado, medido e calculado. No decorrer do século XIX, há um grande desenvolvimento capitalista, po- dendo ser entendido como dividido em dois grandes momentos. Primeiro até

1848, período em que ocorreu uma expansão centrada principalmente nos pa- íses industrializados. Nesse período, crescem as forças produtivas e a classe operária cresce tanto em número como em nível de pobreza. Na mesma pro- porção aumenta sua consciência política, enquanto classe, dando origem à proposta do socialismo. Em 1848, há uma enorme efervescência na Europa, um período revolucio- nário, levando os capitalistas a prepararem mudanças e implementarem um novo momento do desenvolvimento capitalista (BERNAL, 1976). A unificação

da Alemanha e da Itália em meados da segunda metade do século XIX contribui

com a implantação de políticas nacionalistas e liberais. Marx, participante ativo da esquerda Hegeliana, em 1841 defendeu sua tese de doutorado acerca da filosofia de Demócrito e Epícuro (MARX, s/d). Posteriormente, ele trabalhou acerca da concepção materialista do homem e da história em contraposição à visão idealista de Hegel. Uma vasta produção posterior, incluindo os Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844) (MARX,

1984), Miséria da Filosofia (1847) (MARX, s/d), Ideologia Alemã (1848) (MARX

e ENGELS, 1980), Manifesto Comunista (1848) (MARX, 1985), O Dezoito

Brumário (MARX, 1985), O Capital I (1867), II (1885) e III (1894) (MARX, 1983), marcarão profundamente a virada do século IXI para o XX. A importância de Marx, do ponto de vista do método, está justamente na tentativa de elaboração de um sistema explicativo baseado em bases metodo- lógicas, consubstanciadas no materialismo histórico e no materialismo dialé- tico. A visão de Marx está centrada na concepção de que as transformações na sociedade se dão via contradições e antagonismos, estando o desenvolvimento associado à superação permanente desses conflitos, sendo que os elementos de transformação não estão fora da sociedade, mas sim efetivados por meio do próprio homem enquanto agente social. Tais pensamentos de Marx partem da abordagem que as ideias são decor- rentes da interação do homem com a natureza, de um homem que faz parte da natureza e que recria constantemente suas concepções da natureza, a partir de sua interação com ela. Para Marx não é a consciência dos homens que determi- na seu ser, mas o contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Interessante observar aqui que a concepção materialista de Marx carrega em sua base uma visão da natureza e da relação do homem com essa natureza.

Do ponto de vista do método, de acordo com Marx, é da produção e da base econômica que se parte para explicar a própria sociedade. Trata-se de, no limi- te, tentar descobrir nos fenômenos leis que originam e conduzem às transfor- mações. Marx alerta, no entanto, que não é possível, no campo social, pensar-se em leis abstratas, imutáveis, atemporais e a-históricas. Trata-se, segundo ele, de descobrir as leis que, sob condições históricas específicas, são as determi- nantes de um fenômeno que tem existência em condições dadas, e não uma existência que independe da história. Considerando que Marx estava atrás da descoberta das relações e conexões, envolvendo a totalidade dos fenômenos, compreendidos a partir da realidade concreta, sua obra representa tanto um marco do pensar ou agir político como, também, a questão do método nas ciências.

O conhecimento científico adquire, de forma acentuada a partir de Marx, o

caráter de ferramenta a serviço da compreensão do mundo visando sua trans- formação. No caso específico de sua visão política, a serviço de uma classe, os trabalhadores, e em conflito com os detentores dos meios de produção.

1.3.4 Fim do século XIX e começo do século XX

A ciência na virada do século XIX para o século XX explicita sua não neutrali-

dade. O caráter do conhecimento científico, enquanto comprometido com a

transformação concreta do mundo, geraria a certeza de que o século seguinte só não seria mais como houvera sido até então.

O clima dominante na Europa no começo do século XX é o positivismo ló-

gico, baseado em que algo só é verdadeiro se for possível demonstrá-lo lógica

e empiricamente. Assim, matemática e ciência são consideradas fontes supre- mas de verdade.

Charles Sanders Pierce, filósofo americano, considerado o fundador da filo- sofia do pragmatismo, afirma no começo do século XX que a verdade absoluta

é, por definição, tudo aquilo que os cientistas afirmarem ser verdadeiro quan-

do chegarem ao final de seu trabalho (WIENER, 1966).

1.4 Os grandes filósofos da ciência do século XX

1.4.1 Papel da ciência e da tecnologia na sociedade contemporânea

Ciência e tecnologia, particularmente no século XX, constituíram elementos centrais do mundo e são fundamentais para procurar entender aqueles tempos (MOTA, 2001). Curiosamente, em que pese sua relevância, jamais o conheci- mento, no sentido amplo da palavra, esteve tão distante entre aqueles que o praticam e o desenvolvem nas suas fronteiras e a população em geral. Assim, o cidadão comum do século XX, embora tão próximo dos impactos de novas descobertas científicas, em geral, sabe muito pouco sobre os dilemas da ciência atual, como ela é produzida e, particularmente, acerca do método científico e seus questionamentos. Tais dilemas tornaram muito claro que entender a história da ciência, a questão da metodologia científica e a educação científica e tecnológica cons- tituem ingredientes absolutamente fundamentais para que as sociedades con- temporâneas possam adequadamente analisar seus problemas, escolher as soluções e enfrentar seus destinos de forma esclarecida. Uma geração de filósofos tratou desse tema de forma muito profunda, ten- tando estabelecer como os cientistas do século XX e, também os atuais, lidam com suas próprias hipóteses e, fazendo uso de suas metodologias, constroem suas teorias. Em particular, examinaremos esses tratamentos à luz de três dos mais importantes filósofos da ciência que marcaram profundamente o pensa- mento do século XX: Karl Popper, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. Para entender os dilemas que cercam a adoção do método científico no sé- culo XX e nos dias de hoje é preciso conferir especial atenção aos reflexos de poder e de prestígio que a ciência adquiriu ao final do século XIX. Como res- saltado anteriormente, o positivismo lógico era a filosofia dominante na virada entre os séculos XIX e XX, definindo como verdadeiro tudo aquilo, e somente aquilo, que pudesse ser demonstrado logicamente e empiricamente.

1.4.2

Karl Popper e a refutabilidade

No decorrer do século XX há um movimento de pensadores contestando essa atitude perante a ciência. Destacam-se os esforços de Karl Popper (POPPER, 1934; ibid, 1945; ibid, 1963) em distinguir entre ciência verdadeira e pseudoci- ência. Popper, diferentemente dos positivistas lógicos, negava a afirmação de que os cientistas pudessem provar uma teoria por indução, por testes empíri- cos, ou via observações sucessivas. Popper estabelece, a partir de seu critério de refutabilidade, uma distinção entre ciência verdadeira testável, via modos empíricos de conhecimento, e ci- ência irônica, ou seja, ciência que não é experimental e que, portanto, não pode ser testada, consequentemente não sendo ciência no sentido estrito da palavra. Mesmo no contexto das ciências testáveis, ele argumenta que as observa- ções nunca são capazes de provar totalmente uma teoria. Só podemos, de fato, provar sua inverdade ou refutá-la. A partir do princípio da refutação, Popper estabelece o chamado racionalismo crítico baseado no conflito conjectura e

refutação.

Em que pese Popper afirmar que a ciência não deveria reduzir-se a um mé- todo, inegavelmente o programa por ele proposto de refutabilidade acabou por constituir-se no método que influenciou, de forma muito marcante, por um razoável período, os pensadores da filosofia da ciência no século passado. De alguma forma, a partir de seu antidogmatismo, uma vez aplicado à ciência, aca- bou tornando-se uma espécie de dogmatismo.

1.4.3 Thomas Kuhn e os paradigmas

Thomas Kuhn (KUHN, 2000), entre outros, apresenta um conjunto de diver- gências significativas acerca da visão de Popper. Segundo ele, a refutação não é mais possível do que a verificação, dado que cada processo implica na exis- tência de padrões absolutos de evidências, que transcendem os paradigmas individuais. Assim, um novo paradigma pode ser superior (melhor) do que o anterior para resolver um conjunto de enigmas propostos. O fato de a nova ciência pro- duzir mais explicações e aplicações práticas do que a outra não permite sim- plesmente qualificar a velha ciência como falha.

A partir do ponto de vista de Kuhn, qualquer método científico deverá ser avaliado não absolutamente, mas sim a partir daquilo que se possa fazer com ele. Nesse contexto, e somente nele, pode-se aplicar os conceitos de fal- so e verdadeiro, desde que necessariamente no interior de um paradigma bem estabelecido. Kuhn afirma que, em geral, os cientistas trabalham no contexto de uma ci- ência normal, ou seja, preenchem detalhes, resolvem charadas, que reforçam o paradigma dominante. Assim funciona até que haja uma ruptura, gerada a partir de perguntas não respondidas nos limites do paradigma anterior, que demanda modificações profundas em direção à construção de um novo para- digma. A adoção de novos conceitos, diferentes enfoques e originais teorias se- rão decorrentes da implementação do eventual paradigma revolucionário. Popper e Kuhn divergem a respeito da natureza essencial da ciência e a gê- nese das revoluções científicas. Popper crê que se uma refutação for bastante convincente está definida a necessidade de uma revolução. Por outro lado, se- gundo Kuhn, a maior parte do tempo, os cientistas dedicam-se ao exercício da ciência normal. Consequentemente, uma revolução científica é um fenômeno singular, muito raro e ocasional.

1.4.4 Paul Feyerabend e o Contra o Método

Um enfoque diferente de Popper e também de Kuhn é apresentado por Paul Feyerabend, em especial na sua obra intitulada: Conta o método (FEYERA- BEND, 1975). Nela, o filósofo afirma que não há, de fato, lógica na ciência. Se- gundo ele, os cientistas criam e adotam teorias científicas por razões de nature- za subjetivas, e muitas vezes irracionais. Do ponto de vista de Feyerabend, o racionalismo crítico de Popper não era tão distante do positivismo que o precedera e que ele tanto condenara. Da mes- ma forma, ainda que mais tolerante com relação a Kuhn, Feyerabend acredita- va que raramente a ciência era tão normal quanto Kuhn supunha. Em resumo, ele defendia ardentemente a ideia de que não havia método científico no senti- do estrito. O que havia eram ideias que funcionavam dentro de certas circuns- tâncias. Na ocorrência de novas situações, há que se adotar novas tentativas, afirmava Feyerabend. Reduzir a ciência a uma metodologia particular, seja a teoria da refutabi- lidade de Popper ou o modelo de ciência normal de Kuhn, seria o mesmo que

destruí-la. A ciência pode ser considerada superior às demais formas de conhe- cimento somente à medida que permite que todos que com ela trabalham pos- sam estar em contato com o maior número possível de modos de pensar dife- rentes e, a partir desse pressuposto, escolher livremente entre eles. Feyerabend findou conhecido como o filósofo da anticiência por defender que toda descrição da realidade seria necessariamente inadequada. No entan- to, a leitura atenta de sua obra mostra essencialmente uma preocupação, antes de mais nada um alerta, acerca das dificuldades em todos os empreendimentos humanos que vissem reduzir a diversidade natural inerente à realidade. Nesse sentido, ele era um cético da crença de que os cientistas pudessem um dia abar- car a realidade em uma teoria única no mundo, a partir da qual um método científico completo seria bem estabelecido.

1.4.5 Autoinfluências e tipos de falseacionismos

Fruto de todas essas discussões que marcaram o século e esses três filósofos, eles se autoinfluenciaram e foram mudando e incorporando novos elementos aos seus respectivos pensamentos. Em particular, Popper, no processo do ama- durecimento de suas teorias, podemos destacar pelo menos três fases bastante distintas nas suas concepções de falseacionismo: dogmático, metodológico e sofisticado (LAKATOS e MUSGRAVE, 1965).

O falseacionismo dogmático é influenciado, ainda que oposto, pelas visões dos

justificacionistas clássicos, os quais só admitiam como teorias científicas as te- orias provadas. Os justificacionistas neoclássicos, por sua vez, estenderam esse critério às teorias prováveis. Os falseacionistas dogmáticos só aceitavam teorias que fossem refutáveis. Dentro dos marcos do falseacionismo dogmático, tam- bém conhecido como naturismo, admite-se a falibilidade de todas as teorias científicas, uma vez que em falhando, abandonam-se as mesmas imediatamen- te. Da mesma forma, executam-se sumariamente todas as proposições que não possam ser falseadas. Obviamente, tratava-se de um critério demasiadamente rígido entre o caráter científico e não científico do conhecimento.

O falseacionismo metodológico apresenta de novidade a adoção do convencio-

nalismo, onde permite-se que o valor da verdade nem sempre pode ser prova- do por fatos. Em alguns casos, pode-se decidir por consenso. O falseacionista metodológico separa a rejeição da refutação, que o falseacionista dogmático havia fundido. O falseacionista metodológico indica a necessidade urgente de

substituir uma hipótese falseada por uma melhor. Esse critério metodológico é muito mais liberal do que o dogmático anterior. Por exemplo, as teorias pro- babilísticas merecem a qualificação de científicas, porque embora não sendo falseáveis, podem, no entanto, ser mostradas inconsistentes. Por fim, Popper, na sua fase mais recente, adotou o falseacionismo metodoló- gico sofisticado, o qual difere dos anteriores tanto nas regras de aceitação como nas regras de falseamento (eliminação). Dentro do falseacionismo sofisticado uma teoria será aceitável se tiver um excesso corroborado de conteúdo empíri-

co em relação à sua predecessora (ou rival), isto é, se levar a descoberta de fatos novos. Enquanto nos marcos do falseacionismo dogmático, uma teoria pode ser falseada se uma observação conflitar com ela, dentro dos pressupostos do fal- seacionismo sofisticado uma teoria científica T só será falseada se outra teoria T’ tiver sido proposta com as seguintes características:

1. T’ apresenta um excesso de conteúdo empírico com relação a T;

2. T’ explica com êxito tudo o que explica também T e todo o conteúdo não

refutado de T está incluído no conteúdo de T’;

3. Parte do conteúdo excessivo de T’ é corroborado.

Além disso, nessa última fase, Popper passou a trabalhar com a aceitação de hipóteses auxiliares (ad hoc). De acordo com Popper, salvar uma teoria com a ajuda de hipóteses auxiliares que satisfazem a certas condições bem definidas pode representar um progresso científico. Observando que, neste caso, qual- quer teoria científica precisaria ser avaliada juntamente com suas hipóteses au- xiliares. Assim, examinamos uma série de teorias e não mais teorias isoladas. Dessa forma, o falseacionista sofisticado transfere o problema de avaliar teo- rias para avaliação de séries de teorias. Somente uma série de teorias poderia ser científica ou não científica, e não mais uma teoria isolada. Aplicar o termo científico a uma única teoria poderia incorrer em um erro de categoria. Fundamentalmente, a grande modificação no falseacionismo sofisticado, com relação às versões anteriores de falseacionismo, é a concepção de que não há falseamento de uma teoria antes da emergência de uma teoria melhor. A proliferação de teorias é muito mais importante nesse contexto do que para as visões anteriores. Ou seja, como exemplificado por Lakatos, a teoria de Einstein não é melhor do que a de Newton porque esta foi refutada e a de Einstein não. De fato, rigorosamente existem anomalias conhecidas na teoria Einsteiniana.

O motivo central para a teoria de Einstein ser considerada progresso, quando

comparada com a de Newton, reside no simples fato que ela explica com êxito tudo que a teoria anterior explicava e decifra também algumas anomalias que a anterior não poderia entender (por exemplo, a luz não se propaga em linha reta quando próxima a corpos com grandes massas).

1.4.6 Programas de pesquisa científica

Na verdade, essa discussão, que tem como protagonistas no final do século passado Popper, Kuhn e Feyerabend, não impediu que a ciência crescesse em ritmos sem precedentes na segunda metade do século XX. Parte disso decorreu

do uso apropriado de métodos científicos que, embora não unificados, atende- ram a um conjunto de receitas bem evidentes, ainda que não necessariamen-

te discutidos de forma explícita. Como veremos, essa prática assenta-se justa-

mente nos debates que envolveram os protagonistas citados (HORGAN, 1999). Em primeiro lugar, há bem estabelecido que um programa de pesquisa cien- tífica deve atender intrinsecamente a regras metodológicas claras. Podemos formulá-las como o método analítico negativo: a descrição dos caminhos que devem ser evitados, e o método analítico positivo: a descrição dos caminhos que devem ser trilhados (LAKATOS e MUSGRAVE, 1965). O que caracteriza um programa de pesquisa científica é o seu núcleo. Ao redor do núcleo temos as chamadas hipóteses auxiliares, as quais formam um cinturão de proteção com o intuito de suportar o impacto dos testes (mé- todo analítico negativo). Essas hipóteses podem tanto ser reajustadas ou mes- mo completamente substituídas, desde que o núcleo seja apropriadamente preservado. Por outro lado, o método analítico positivo consiste em um conjunto parcial articulado de sugestões ou palpites sobre como mudar e desenvolver as varian- tes refutáveis do projeto de pesquisa e sobre como modificar e sofisticar o cin- turão de proteção refutável. Baseado no que vimos antes, na concepção de Kuhn, as anomalias e inco- erências sempre abundam na ciência, mas em períodos normais o paradigma dominante assegura um padrão de crescimento, pelo menos até que de fato se instaure uma crise. Da mesma forma, as eventuais refutações de Popper não eliminam tão ra- pidamente um projeto de pesquisa. De fato, a crítica destrutiva, puramente

negativa, como a refutação ou a demonstração de uma inconsistência, não eli- minam um projeto. Mesmo mostrando a degeneração de um projeto, somente

a crítica construtiva pode, com a ajuda de projetos de pesquisas rivais, cumprir

a missão de não só falsear o primeiro, mas estabelecer de forma “definitiva” o segundo. Assim, a partir da apropriação de conceitos fundamentais de Popper e Kuhn, somados aos alertas de Feyerabend por mais tolerância e menos preten- são de rigidez desnecessária, viramos o século, e o milênio, com a produção de conhecimentos científicos em um ritmo sem precedentes comparados com períodos anteriores da humanidade. Tal constatação torna ainda mais importante que a ciência seja populari- zada sem ser vulgarizada, o que obtém-se pelo incremento substancial da edu- cação científica da população. Por fim, não pode haver educação e divulgação científica sem que o método científico seja discutido, conhecido e, acima de tudo, utilizado como instrumento de análise da realidade que nos cerca e de nós mesmos, enquanto investigadores da própria natureza.

nós mesmos, enquanto investigadores da própria natureza. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERY, M.A. et al . Para

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Agradecimento especial à Editora Cesma Edições, por cessão de direitos autorais de partes do livro "Método Científico & Fronteiras do Conhecimento".

2

Grandezas Físicas, Unidades e Suas Representações

2.1 Unidades e Representação

A medida de uma grandeza física sempre tem um valor numérico e uma unida-

de. Isto faz com que estas duas partes tenham que estar sempre bem definidas para que a grandeza esteja completamente caracterizada. A medida depende do observador e do instrumento utilizado na medida. Por exemplo, na figura 2.1, a medida pode apresentar diferentes valores, para diferentes formas de

observação.

4.8 cm

4.9 cm 4.7 cm 3 4 5 6
4.9 cm
4.7 cm
3
4
5
6

Figura 2.1 – A figura tem a observação dos valores da medida invertidos. A observação 4.9 cm deveria estar no lugar da observação 4.7 cm e vice-versa.

As medidas podem ser diretas ou indiretas. Medidas diretas são aquelas que não dependem de outras grandezas para serem realizadas, ou seja, é possível realizar sua medida diretamente com um instrumento. Tempo e temperatura são duas grandezas físicas que são normalmente determinadas de forma dire- tas. Já as medidas indiretas, precisam de uma relação matemática para serem determinadas. Essa relação matemática normalmente sintetiza uma dada lei física, ou conjunto de conhecimentos de uma dada área de interesse. A maioria das grandezas que caracterizam o movimento de um corpo, por

exemplo, são feitas de forma indireta. Dessa forma, para determinar a velocida- de de um objeto temos que determinar a distância percorrida num certo inter- valo de tempo e, a partir dessas medidas diretas, calcular a velocidade. Mesmo

a leitura do velocímetro do carro é indireta, pois há um mecanismo de calibra- ção de distância que utiliza o perímetro do pneu para determinar a distância percorrida, e um comparador que determina o tempo de cada volta, permitindo assim a determinação da velocidade. Aceleração é outro exemplo de medida

indireta, seja ela feita através das medidas diretas da força e massa ou da varia- ção de velocidade. Grandezas fundamentais como distância, tempo e massa são tipicamente feitas de forma direta, através da comparação com padrões. O padrão é basi- camente o que estabelece a unidade de uma dada grandeza. Comparando-se diretamente aquilo que queremos medir com o padrão, tiramos um valor nu- mérico, que expressa quantas vezes a grandeza de interesse é maior ou menor que aquele padrão, e assim determinamos tanto a parte numérica quanto a uni- dade daquela medida.

GRANDEZA

Unidade, símbolo: definição da unidade

COMPRIMENTO

metro, m: o metro é o comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299.792.458 do segundo.

MASSA

quilograma, kg: o quilograma é a unidade de massa, igual a massa do protótipo internacional do quilograma.

TEMPO

segundo, s: o segundo é a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação cor- respondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133.

CORRENTE

Ampère, A: o ampere é a intensidade de uma corrente elétrica constante que, mantida em dois condutores paralelos, retilíneos, de comprimento infinito, de seção circular desprezível, e situados à distância de 1 metro entre si, no vácuo, produziria entre estes condutores uma força igual a 2π x 10 -7 Newton por metro de compri- mento.

ELÉTRICA

TEMPERATURA

 

TERMODINÂ-

kelvin, K: o kelvin, unidade de temperatura termodinâmica, é a fração 1/273,16 da temperatura termodinâmica no ponto tríplice da água.

MICA

QUANTIDADE DE

mol, mol: 1. o mol é a quantidade de substância de um sistema contendo tantas entidades elementares quantos átomos em 0,012 quilogramas de carbono 12.

SUBSTÂNCIA

INTENSIDADE

candela, cd: a candela é a intensidade luminosa, numa dada direção, de uma fonte que emite uma radiação monocromática de frequência 540x10 12 hertz e cuja intensidade energética nessa direção é de 1/683 watt por Ester radiano.

LUMINOSA

Tabela 2.1 – As sete unidades de base do SI, suas unidades e seus símbolos. http://www. inmetro.gov.br/consumidor/Resumo_SI.pdf data – 25/04/2010

Existem sete grandezas físicas fundamentais. A tabela 2.1 apresenta as uni- dades padrões no Sistema Internacional (SI).

2.2 Erros e Desvios

As grandezas ou propriedades físicas têm um valor exato, mas o resultado final do processo de medida,que sempre está associado a alguma incerteza, nunca expressa o valor exato dessas grandezas. Fatores, dos mais diversos, impedem- nos de obter de forma simples o valor verdadeiro de uma grandeza. Toda medi- da está sujeita aos chamados “erros de medida”. Estes erros podem ser de dois tipos: erros estatísticos e erros sistemáticos. Os erros estatísticos, ou aleatórios, podem ser causados pelo operador do instrumento de medida, por alterações momentâneas no ambiente da medida, por flutuações no circuito do instrumento, etc. Sua característica principal é que este tipo de erro não tem uma tendência, ou direção única, para ocorrer e, por isto, caracteriza-se por uma aleatoriedade no valor medido, tipicamente em torno de um valor médio. O erro sistemático, por outro lado, advém de defeitos de calibração ou ví- cios no processo de medida. Eles ocorrem sempre na mesma direção e, por- tanto, apresentam uma tendência que provoca um desvio do valor medido do valor verdadeiro. Enquanto os erros estatísticos podem ser minimizados por medidas repetitivas e a realização de médias e análises estatísticas, os erros sis- temáticos não permitem fazer isto. Estes são os erros mais complicados de se- rem determinados e eliminados no processo de medida de qualquer grandeza. É por isso que os erros sistemáticos são hoje a grande limitação nas medidas de alta precisão, que são aquelas que permitem avançar determinados aspectos científicos na fronteira do conhecimento. As medidas com instrumentos levam aos chamados erros de medida. Eles normalmente vêm do fato que de os instrumentos têm uma precisão limitada, que não permite obter o valor verdadeiro (exato) de certa grandeza, além da pre- cisão característica daquele instrumento, mesmo quando operado de forma correta. Um bom exemplo disto é uma régua. Ao utilizarmos a régua, fazemos uma medida estritamente comparativa. A maioria das réguas mais simples tem como menor divisão o milímetro. No exemplo da figura 2.2, a régua foi utilizada para medida de uma distância cujo valor seja exatamente de 5,27 cm, teremos provavelmente certeza do valor 5,3 cm, pois a comparação direta permite ve- rificar muito bem que o objeto em questão tem dimensão que cai entre 5,2 e 5,3 cm. Porém, para definirmos o terceiro dígito desta grandeza (o segun- do depois da vírgula), teremos que “adivinhar” (ou estimar) da melhor forma

possível, já que a escala da régua não permite fazer uma comparação direta mais precisa. Mesmo se usarmos bons critérios nesta estimativa, ainda haverá um pouco de adivinhação, o que leva uma incerteza na medida. Tais incertezas resultam nos erros da medida.

1 2 3 4 5 6
1
2
3
4
5
6

Figura 2.2 – Exemplo de medida com régua. (Retirada do site http://www.stefanelli.eng.br/ webpage/metrologia/p-escala-regua-graduada-uso.html)

No uso de instrumentos, normalmente admitimos como sendo o erro ins- trumental a metade da menor divisão (escala) do instrumento utilizado. Desta forma, na medida do comprimento acima, a régua poderia, por exemplo, resul-

tar no valor 5,17 ± 0,05 cm. Este último valor, metade do milímetro, é é a melhor leitura possível e representa, portanto, o erro desta medida. Normalmente, o erro da medida está na mesma casa decimal do primeiro algarismo duvidoso. Obviamente, este erro de medida vai depender do tipo de instrumento que utilizamos na medição, e em princípio pode sempre ser me- lhorado com o uso de um instrumento melhor. Um paquímetro ou um micro- metro, por exemplo, tem precisão de medida muito maior que a régua. A medi- da de grandezas físicas com instrumentos gera a necessidade de introduzirmos

o

conceito de algarismos significativos e também certas regras de aproximação

e

arredondamento.

2.3 Algarismos significativos, conversão e regras de arredondamento

2.3.1 Algarismos significativos

Numa medida, os algarismos significativos são todos aqueles sobre os quais te- mos certeza (confiança) mais o primeiro dígito duvidoso. Estes são aqueles que de fato fazem sentido na medida. Por exemplo, na medida feita com a régua, um observador com olho mais preparado poderia dizer que a medida realizada pela régua seria de 7,534 cm. Mas será mesmo que essa medida, aparentemen- te mais “precisa” faz algum sentido? Neste caso, como o dígito “3” é o primeiro dígito duvidoso, o dígito “4” já não faz mais sentido e, na verdade, não é mais significativo. Desta forma, os algarismos significativos, neste caso, são os números 7, 5 e 3. No primeiro alga- rismo duvidoso é onde temos a nossa imprecisão, ou incerteza. Para quase todos os cálculos, os valores podem ser representados com três algarismos significativos através da notação científica. Os algarismos significativos de um número são os dígitos diferentes de zero, contados a partir da esquerda até o último dígito diferente de zero à direi- ta, caso não haja vírgula decimal, ou até o último dígito (zero ou não) caso haja uma vírgula decimal.

dígito (zero ou não) caso haja uma vírgula decimal. EXEMPLOS • 3467 - 4 algarismos significativos

EXEMPLOS

3467 - 4 algarismos significativos

346897 - 6 algarismos significativos

10001 - 5 algarismos significativos

1001,01 - 6 algarismos significativos

1001,000 - 7 algarismos significativos

0,002567 - 4 algarismos significativos

2.3.2 Conversões

Não é obrigatório o uso do sistema internacional para resolução de todos os problemas e aplicações. As medidas podem ser utilizadas em outras unidades, além de existirem outros sistemas de medidas, como o Sistema Inglês, MKS, CGS etc. Não iremos estudar outros sistemas de unidades nesta aula, mas você poderá pesquisar sobre eles clicando nos nomes em azul. Todas as unidades podem ser utilizadas, mas é importante que os cálculos tenham coerência di- mensional. O que é isto? Em Física, ou qualquer outra ciência, só podemos somar ou subtrair a mes- ma grandeza utilizando a mesma unidade. É importante reconhecer quando é necessário fazer conversão de uma unidade. Na maioria dos casos, é mais fácil usar as unidades no sistema internacional. Por exemplo, pode-se somar:

x 1 =10 m e x 2 =20 m t 1 =1 s e t 2 =30 s v 1 =15 m/s e v 2 =120 m/s

As unidades da massa e do comprimento são múltiplos de 10, e, portanto, podem ser facilmente convertidos utilizando divisões e multiplicação por 10. Observe as tabelas 2.2a e 2.2b, que relacionam múltiplos e submúltiplos de comprimento:

MÚLTIPLOS

UNIDADE

 

SUBMÚLTIPLOS

 

FUNDAMENTAL

tonelada

kilograma

grama

miligrama

micrograma

nanograma

t

kg

g

mg

µg

ng

10

6

10

3

10

0

10

-3

10

-6

10

-9

1.000.000 g

1.000 g

1

g

0,001 g

0,000001 g

0,000000001 g

Tabela 2.2a – Múltiplos e submúltiplos de comprimento.

 

MÚLTIPLOS

 

UNIDADE

 

SUBMÚLTIPLOS

 

FUNDAMENTAL

quilômetro

hectômetro

decâmetro

metro

decímetro

centímetro

milímetro

km

hm

dam

m

dm

cm

mm

1.000 m

100 m

10 m

1 m

0,1 m

0,01 m

0,001 m

Tabela 2.2b– Múltiplos e submúltiplos de comprimento.

Desta forma, se for preciso converter:

1 kg = 1.000 g = 10 3 g

1 g = 0,001 kg = 10 -3 kg

1 ton = 1.000 kg = 10 3 kg

1 mg = 0,000001 kg = 10 -6 kg

As unidades de tempo são medidas um pouco diferente, pois não são múlti- plas apenas de 10. Temos o minuto, a hora, o dia e o ano. Entretanto, podemos também expressar uma medida como milésimos de horas, nanossegundos etc. As conversões mais usuais estão descritas na tabela 2.3:

 

MÚLTIPLOS

 

UNIDADE

 

SUBMÚLTIPLOS

 

FUNDAMENTAL

Ano

dia

hora

minutos

segundos

milisegundos

nanosegundos

Ano

d

h

min

s

ms

µg

365x24x60x60

24x3600

60x60 s

60

s

1

10

-3

10

-6

31536000 s

86400 s

3600 s

60

s

1

0,001 s

0,000001 s

Tabela 2.3 – Múltiplos e submúltiplos de tempo

Desta forma, se for preciso converter:

1 ano para s = 31.536.000s = 3,15 x 10 7 s

1s para hora = 1/3.600 = 0,0002778 h = 2,78 x 10 -4 h

As médias de grandezas físicas normalmente podem ser arredondadas. O arredondamento é um procedimento para eliminar algarismos que julgamos desnecessários por alguma razão, isto é, que não são significativos. Também podemos arredondar um valor quando estamos interessados apenas em uma aproximação ou estimativa de certo valor. Considere, por exemplo, uma medida de massa que resultou num valor igual a 25,24g. Se quisermos expressar esta grandeza apenas até a primeira casa decimal, teremos que eliminar o último algarismo. A forma mais adequada de fazer isto é através da regra de arredondamento. Esta regra é muito simples: se o algarismo a ser eliminado é maior que “5”, então devemos acrescer de uma unidade o algarismo decimal anterior. Se o algarismo a ser eliminado é menor que “5”, mantemos o algarismo anterior. Assim, a medida de 25,24 g seria arredondada para 25,2 g. Por outro lado, se tivéssemos como medida 25,26 g, o arredondamento levaria a 25,3g.

2.4 Notação científica

Nas áreas científicas, e em particular na Física, é muito frequente encontrar- mos grandezas expressas tanto por números muito grandes ou muito peque- nos. Nestes casos, é muito conveniente expressarmos esses números de uma forma compacta e que dê uma ideia clara de sua magnitude. É justamente isso que nos permite fazer a chamada notação científica. A ideia básica desta notação é bem simples: utilizar potências de 10, ao in- vés de escrever todos os números decimais do número original. Nesta notação

o que se faz é expressar o número de interesse em duas partes, que são chama-

das de mantissa e a potência de 10 ou expoente. O valor absoluto (módulo) da mantissa deve ser maior do que 1 e menor do que 10, e o expoente fornece a potência de 10 correspondente. Vejamos alguns exemplos: o número de Avogadro, por ser um valor bastante grande, é normalmente expresso em notação científica como N A = 6,02 ·10 23 , as- sim como os valores usados pelos astrônomos em suas pesquisas. Outro exem- plo ilustrativo é o da carga do elétron, que é um valor bem pequeno, dado por q e = 1,60217646 ·10 19 coulombs. Os valores relativos às partículas elementares também são exemplos de números pequenos usados por pesquisadores em Física.

de números pequenos usados por pesquisadores em Física. EXEMPLOS • 524.000.000 = 5,24 x 10 8

EXEMPLOS

524.000.000 = 5,24 x 10 8

0,0000032 = 3,20x 10 -6

7.200 = 7,20 x 10 3

7.210 = 7,21 x 10 3

98.750 = 9,88 x 10 4

720.609 = 7,21 x 10 5

0,082 = 8,20 x 10 -2

0,0008800 = 8,80 x 10 -4

Uma das grandes vantagens desta notação que dá uma ideia imediata e cla-

ra de quais são os algarismos significativos de uma dada medida, assim como

a ordem de grandeza.

CONEXÃO

CONEXÃO

Assista aos vídeos para aprender mais sobre Notação Científica:

https://pt.khanacademy.org/math/pre-algebra/exponents-radicals/scientific-notation/v/

scientific-notation

https://pt.khanacademy.org/math/pre-algebra/exponents-radicals/scientific-notation/v/

scientific-notation-examples

Utilize o aplicativo para se familiarizar com a Notação Científica. https://pt.khanacademy.org/math/pre-algebra/exponents-radicals/scientific-notation/e/ scientific_notation Khan Academy

scientific_notation Khan Academy REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HALLIDAY, David; RESNICK,

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HALLIDAY, David; RESNICK, Robert; WALKER, Jearl. Fundamentos de Física. 8ª ed. Rio de Janeiro:

LTC, 2008. v.1. Young, H. D. e Freedman, R. A. Física II - Termodinâmica e Ondas, 10ª edição, Pearson Education, 2002 Ca

3

Mecânica

3.1 Movimento dos Corpos

Tudo ao nosso redor se move. Não há nada na natureza em repouso. Para enten- dermos este frenético mundo em movimento, é preciso saber como descrever o movimento. Mais do que descrever o movimento, temos que aprender a carac- terizá-lo. Alguns corpos se movem mais rápido que outros, bem como corpos em repouso podem começar a se mover.

3.1.1 Movimento dos Corpos

O estudo do movimento dos corpos é chamado de cinemática. Os movimentos

são caracterizados pela posição, velocidade, aceleração, e demais grandezas fí- sicas, mas não sem a preocupação de caracterizar suas causas. Para descrever estes movimentos, precisamos definir alguns concei- tos importantes: referencial, movimento, velocidade, tipos de movimento e aceleração.

3.1.2 Referencial, posição e trajetória

Vamos definir alguns conceitos importantes para o estudo da cinemática:

Ponto material: é o nome dado para qualquer móvel ou corpo estudado. Movimento: é quando a posição de um ponto material varia com o tempo em relação a um dado referencial.

Trajetória: é o caminho percorrido pelo ponto material no decorrer do tem- po. A trajetória pode ser retilínea ou curvilínea, dependendo do referencial considerado. Referencial: é o sistema adotado como referência para determinar se o pon-

to está em movimento ou em repouso. O referencial geralmente é chamado de

origem.

Vamos propor um exemplo prático: imagine que estejamos dentro de um

ônibus, fazendo a viagem entre duas cidades, em linha reta. Como caracterizar

o movimento e posição do ônibus? Precisamos determinar três condições:

4. Um ponto de referência = a origem (ou ponto zero). Podemos determi-

nar um ponto na estrada, o início da estrada pode ser a referência.

5.

A direção = um eixo (uma reta que liga a origem a posição do corpo).

Podemos adotar um eixo que passe em cima da estrada.

6. O sentido positivo do eixo = o sentido dos números crescente na escala

de medidas. Podemos escolher o sentido do movimento como positivo.

Algumas observações importantes:

•  Como o ônibus está em movimento tudo dentro dele também se move. •  A pessoa que está ao seu lado no ônibus move-se com você, mas não em relação a você. •  Se tomarmos a estrada como referência, o ônibus se move e tudo que está dentro do ônibus se move com a mesma velocidade dele. •  Mas se tomarmos o ônibus como referência, todos dentro dele estão em repouso e para todos parece que a rua se move, ficando para trás.

Parece confuso? Não é! Ao falarmos em movimento, sempre temos que di- zer em relação ao que estamos nos movendo, que constitui o referencial. Na maioria das vezes, quando nada se fala, fica subtendido que o referencial é o próprio solo do planeta. Desta forma, algo pode estar em movimento em um referencial e não em relação ao outro. Em geral, dizemos que não há movimento absoluto, o movimento depen- dente do referencial.

3.1.3 Movimento

Como já aprendemos o que é um referencial, podemos estudar o movimento. Um objeto estará em movimento quando sua posição mudar com o tempo.

A posição pode ser caracterizada por um conjunto de coordenadas num pla-

no ou no espaço. Desta forma, as coordenadas que descrevem a posição, são de extrema importância para caracterização do movimento, já que a forma com que

elas variam no tempo vai definir a existência de movimento e suas características.

O número de coordenadas necessárias para descrever a posição de um cor-

po, define a chamada dimensão do movimento. Se apenas uma coordenada for necessária, o chamamos de unidimensional (ou linear). Caso duas coordenadas sejam necessárias, chamamos de bidimensional (ou plano), e se três coordenadas forem necessárias, o chamamos de tridimen- sional (ou espacial).

O interessante é que sempre podemos olhar cada coordenada independen-

temente da outra. Um exemplo é o movimento bidimensional que uma bola de canhão execu- ta quando é lançada, como na figura 3.1.

45° 70° 20°
45°
70°
20°

Figura 3.1 – Movimento de projéteis (http://labvirfis.blogspot.com.br/2012/12/lancamento-

de-projetil.html)

O canhão foi uma importantíssima invenção bélica. A possibilidade de mo-

dificar o ângulo de lançamento melhorou a precisão de se acertar o alvo, coisa que a antiga catapulta não fazia. Um outro exemplo é o movimento circular que podemos ver na roda gigan- te, nas rodas de um carro, nos relógios e em diversos exemplos. Este movimen- to é muito importante em mecanismos de engrenagem (figura 3.2) e nas expli- cações dos movimentos dos astros.

3.2) e nas expli- cações dos movimentos dos astros. Figura 3.2 – Engrenagens de máquinas, realizando

Figura 3.2 – Engrenagens de máquinas, realizando movimento circular. Fonte: http://u.sau-

de.gov.br/images/gif/2014/maio/02/engrenagem.gif

3.1.4 Velocidade

Caso a coordenada mude no tempo, dizemos que há uma velocidade na direção da mudança. É necessário que possamos quantificar esta variação de posição com o tempo. Quão rapidamente varia a posição com o tempo? A grandeza que mede esta variação é a velocidade. Quando dizemos que um corpo se move com certa velocidade, estamos dizendo quanto a sua posição muda por unidade de tempo. Por exemplo: A velocidade de 20 m/s, significa uma mudança de 20 m a cada 1s. Se a velocidade for de 100 Km/h, significa que, a cada hora, o corpo muda em 100 km sua posição. Dependendo do tipo de movimento, uni, bi ou tridi- mensional, que cada uma das coordenadas que descrevem a posição pode estar variando de forma diferente da outra. A velocidade fornece a taxa de variação da posição naquele momento onde foi observada.

Movimento uniforme – velocidade constante A forma como a velocidade se comporta durante o movimento define o tipo de movimento. Caso a velocidade permaneça constante, temos o chamado mo- vimento uniforme (figura 3.3).

temos o chamado mo- vimento uniforme (figura 3.3). Figura 3.3. Carro em velocidade constante, ou movimento

Figura 3.3. Carro em velocidade constante, ou movimento uniforme (http://essaseoutras.xpg. uol.com.br/movimento-uniforme-m-u-explicacao-exemplos-encontro-entre-moveis/)

Os ponteiros de um relógio se movimentam com velocidade constante, caso contrario, seria impossível medir a hora correta. Quando a velocidade não é constante, o movimento é chamado de variado. Caso a variação da velocidade seja uniforme ao longo de todo tempo, define-se o chamado movimento uniformemente variado.

Movimento Uniformemente Variado – velocidade variada Na figura 3.4, temos a representação esquemática de uma pessoa em movimen- to unidimensional uniformemente variável. Podemos observar que para o mes- mo intervalo de tempo, o deslocamento da pessoa aumenta, indicando que a velocidade está aumentando.

Δ t Δ t Δ t
Δ t
Δ t
Δ t

Figura 3.4 – Variação da posição para um mesmo intervalo de tempo de uma pessoa em movimento. Fonte: https://kleberandrade.files.wordpress.com/2010/04/ma.png

3.1.5 Aceleração

Da mesma forma que definimos a velocidade para quantificar a taxa de varia-

ção da posição, podemos definir a grandeza para medir a variação da velocida- de. Esta grandeza é chamada de aceleração. Quando um corpo tem aceleração de 10 m/s 2 , estamos dizendo que em cada segundo de movimento, a velocidade muda de 10m/s. Conhecendo posição, velocidade e aceleração, o movimento de um corpo é completamente determinado. Os cálculos relativos ao movimento devem ser realizados de acordo com a própria definição das grandezas envolvidas.

A posição normalmente é definida pela posição x, (x,y) ou (x,y,z) dependen-

do do tipo de movimento.

A velocidade é definida com a variação do espaço pelo tempo, ou seja,

v = .

x

t

aceleração deve ser determinada através de a =

, onde o delta significa

a variação observada na grandeza. Há uma classe de movimento em uma dimensão, que tem interesse espe- cial. Trata-se do movimento dos corpos em queda livre, sujeitos apenas à ação da gravidade. Neste caso, temos sempre uma grandeza fixa, a aceleração da gra- vidade, que vamos considerar g = 9,81m/s 2 . Sujeito a esta aceleração, que está sempre procurando acelerar os objetos para o Centro da Terra, podemos pro- cessar o problema como movimento uniformemente acelerado, sem nenhuma distinção extra. Observe o esquema apresentado na figura 3.5.

A

v

t

h = 0 g h v
h = 0
g
h
v

Figura 3.5 – Bola em queda livre (http://pontov.com.br/site/arquitetura/54-matematica-e-

fisica/307-queda-livre-xna)

A queda livre também pode ser uma grande diversão nos saltos de paraque-

das (figura 3.6).

grande diversão nos saltos de paraque- das (figura 3.6). Figura 3.6 – Salto de paraquedas

Figura 3.6 – Salto de paraquedas (http://fisicasemenlouquecer.blogspot.com.br/2010/12/ queda-livre.html)

Os diversos movimentos podem ser representados na forma de gráficos, permitindo que se perceba rapidamente como a posição, a velocidade, ou mes- mo a aceleração variam com o tempo. As regras para montar um gráfico são simples. Basta determinar, para cada valor de tempo, o valor da posição, da ve- locidade e da aceleração para montarmos os conjuntos dos pontos como coor- denadas abscissa e ordenada de um gráfico. Os gráficos apresentados na figura 3.7 são relativos a um movimento unifor- me, ou seja, a velocidade é constante.

s s = s 0 + v · t s 0 t
s
s = s 0 + v · t
s 0
t
v v = cte. > 0 t
v
v = cte. > 0
t
a a = 0 t
a
a = 0
t

Figura 3.7 – Gráficos de movimento uniforme. a) Gráfico da posição versus o tempo, repre- sentado por uma reta. b) Gráfico da velocidade versus o tempo, representado por uma reta paralela ou eixo do tempo, demostrando que a velocidade tem valor fixo. c) Gráfico da ace- leração versus tempo, mostrando aceleração igual a zero, para qualquer t. (Retirado do site http://www.brasilescola.com/fisica/graficos-movimento-uniforme-mu.htm)

Ao analisarmos as situações diversas envolvendo movimentos, deve-se sem- pre pensar precisamente nas grandezas que são relevantes a eles. Elas são pou- cas e têm relações entre si bem conhecidas. A solução de qualquer problema en- volvendo movimentos fica mais simples se começarmos fazendo um desenho que reproduza a situação descrita, incluindo aquilo que se busca na solução.

descrita, incluindo aquilo que se busca na solução. EXEMPLOS Alguns exemplos do uso dos Estudos dos

EXEMPLOS

Alguns exemplos do uso dos Estudos dos Movimentos Se observarmos o movimento do trânsito dia após dia, perceberemos o quanto é impor- tante sua análise para evitar os terríveis engarrafamentos e também, torná-lo mais seguro. Com relação aos engarrafamentos, pode-se controlar a velocidade permitida das vias e com isso criar as famosas ondas verdes que facilitam o escoamento dos veículos. Quanto à ques- tão da segurança, é possível estipular uma velocidade segura para cada via, dependendo da

intensidade de veículos e de sua periculosidade. Quem realiza esse trabalho é o Engenheiro de Tráfego. Os freios ABS, obrigatórios pelo Contran desde 2014, é considerado um item de segu- rança dos veículos diminuindo sua derrapagem em caso de frenagem de emergência evi- tando o travamento das rodas e, com isso, aumentando sua estabilidade e melhorando o controle da direção. Seu funcionamento é explicado através do texto a seguir:

O ABS (Anti-lock Braking System) é um sistema de frenagem que evita que a roda blo- queie e entre em derrapagem quando o pedal do freio é pisado fortemente, evitando a perda de controle do veículo. Esse sistema é composto por sensores que monitoram a rotação de cada roda e a com- para com a velocidade do veículo. Esses sensores medem a rotação e passam essas infor- mações para a unidade de controle do ABS. Se essa unidade detectar que alguma das rodas está na eminência de travar, haverá a intervenção da central em milésimos de segundo, modulando a pressão de frenagem, garantindo assim que a roda não trave e proporcionando uma frenagem mais segura. Quais as diferenças em relação à frenagem sem ABS? Durante o uso normal do freio (fora da iminência de travamento das rodas), o condutor não irá perceber nenhuma diferença na utilização do freio. Contudo, quando o ABS estiver em funcionamento em condições de frenagem de emergência, em que as rodas estão no

limite de travarem, ocorrerá uma forte vibração e ruído no pedal de freio. “Esta vibração é pro- vocada pelo fluido no contrafluxo do sistema, causado pela bomba de recalque empurrando

o fluido no sentido contrário, buscando a equalização da pressão hidráulica dos freios, a fim de evitar o travamento das rodas”, explica o engenheiro mecânico André Brezolin Este efeito é absolutamente normal e o condutor não deve, em hipótese alguma, aliviar a pressão ou a força sobre o pedal de freio para não causar a ineficiência do sistema de ABS

e, consequentemente, o aumento da distância de frenagem.

Em caso de emergência, o motorista deve pressionar o pedal de freio e manter a pressão sobre ele com força máxima, pois o ABS não deixará as rodas travarem. (http://www.noticia- sautomotivas.com.br/entenda-como-funciona-o-sistema-de-freios-abs/).

Grandezas, fórmulas e unidades

Outras Unidades:

Posição: x, y, z SI: m (metro)

pés, polegadas e milhas

Tempo: t SI: s (segundos)

minutos, horas, dias, ano

Velocidade : v SI: m/s

km/h, milhas/h, mm/s v = Δx/Δt = (x – x 0 )/(t – t 0 )

Aceleração: a Unidades no SI: m/s²

km/h², milhas/h², mm/s² a = Δv/Δt = (v – v 0 )/(t – t 0 )

Saiba mais

Movimento uniforme, velocidade constante:

•  Determinação da posição: x = x 0 + v(t – t 0 )

Movimento

constante

uniformemente

variado,

velocidade

•  Determinação da posição: x = x 0 + v 0 t + (a/2)t² •  Determinação da velocidade: v = v 0 + at •  Eq. Torricelli: v² = v 0 ² + 2a (x – x 0 )

variada

e

aceleração

(para t 0 = 0)

3.2 A Causa dos Movimentos

A

Dinâmica é a parte da Física que se preocupa com as causas dos movimentos

e,

já sabemos que são as forças que atuam sobre os corpos que classificam e

alteram seus movimentos.

Caracterizar os movimentos através das equações horárias e das equações que descrevem os movimentos não explica suas causas. Quando não entende-

mos suas causas, não podemos entender de fato como o sistema chegou a uma determinada situação de estado de movimento e nem podemos saber seu fu-

Quando um corpo está em movimento com relação a um referencial, é

porque, algum esforço causou o movimento.

turo.

3.2.1 Forças

Muitos exemplos de corpos em movimento e em repouso relativo podem ser presenciados na natureza: o rio escoando colina abaixo, o pássaro voando, os

astros (Lua, Sol e estrelas) se movendo no céu, etc. A Ciência tentou explicar os movimentos durante muitos séculos e buscou descrever leis para tudo que era observado. Os primeiros filósofos já questionavam a interferência de outros cor- pos no movimento de um corpo observado, gerando alterações consideráveis.

A figura 3.8 mostra o lançamento de uma flecha voando, depois que o arco a

tivesse arremessado.

-
-

Figura 3.8 – Lançamento de uma flecha (Fonte – http://direitasja.com.br/2012/08/23/a- conquista-do-brasil-parte-v/)

O que faz a Lua girar ao redor da Terra? Qual a razão de sermos arremessa- dos ao para-brisa do carro quando se faz uma freada brusca? Ou porque que

o cavaleiro continua seu movimento quando o cavalo resolve parar repentina- mente? Essas situações não poderiam ser diferentes?

No século XVII, o físico e matemático Isaac Newton, conseguiu correlacio- nar tudo que se movia e criar novos conceitos capazes de explicar os movimen- tos de uma forma coerente.

capazes de explicar os movimen- tos de uma forma coerente. Figura 3.9 – Imagem de Isaac

Figura 3.9 – Imagem de Isaac Newton

Para entender as ideias de Newton, vamos definir alguns conceitos, para ca- racterizar as grandezas que descrevem o movimento: massa, força e aceleração.

Massa = é uma característica intrínseca de um objeto, que vai depender essencialmente da quantidade e tipo de matéria nele presente. O conceito é intuitivo.

e tipo de matéria nele presente. O conceito é intuitivo. EXEMPLO Onde tem mais massa, num

EXEMPLO

Onde tem mais massa, num saco cheio de ar ou de água? A resposta é óbvia. Mas a questão é sobre como medimos a massa. Há diversas formas de medir, a mais comum é utilizar uma balança em repouso. A tirinha da Mafalda, personagem de Quino, mostra exatamente essa forma de medição da massa de um corpo (figura 3.10).

essa forma de medição da massa de um corpo (figura 3.10). Figura 3.10 – Mafalda na

Figura 3.10 – Mafalda na balança

Pode-se associar o entendimento do significado da massa de um corpo à dificuldade de movê-lo.

Resumindo:

Maior Massa Maior Dificuldade de Movimento Menor Massa Menor Dificuldade de Movimento

As forças não são fáceis de definir, mas são mais fáceis de sentir. Todos sentem algo quando tomam um empurrão. Aquele esforço do empurrão é ca- racterizado por uma força. Quando jogamos bola, o chute que faz a bola adquirir velocidade também é caracterizado por uma força (figura 3.11).

também é caracterizado por uma força (figura 3.11). Figura 3.11 – Chute o gol

Figura 3.11 – Chute o gol (http://www.foxsports.com.br/blogs/view/68440-aprenda-a-ba-

ter-penalti-no-fifa-13).

A força que atua nos objetos sempre depende de um segundo agente para fazê-la ocorrer. A maioria dos exemplos citados envolve força por contato.

Observação:

As forças de contato mais comuns são:

1. Força Normal (N): Sua existência depende do contato entre um corpo e

uma superfície. Ela é a força que uma superfície exerce sobre um corpo.

2. Força de Tração (T): Está relacionada com a existência de fios que se-

guram ou unem corpos, também chamada de Tensão. Esses fios restringem o

movimento dos corpos daí a existência da força de Tração.

3. Força de Atrito (Fat): Ela ocorre uma vez que as superfícies não são

completamente lisas. Mesmo superfícies aparentemente lisas, como a lousa branca, possuem pequenas rugosidades (que aparecem a nível atômico) fazen-

do com que uma superfície penetre na outra criando uma resistência ao movi- mento do corpo. A Fat dificulta o movimento do corpo.

4. Força Elástica (FE): Para nós, a força elástica, também conhecida como

Lei de Hooke, está associada aos elásticos e as molas, uma vez que ambos são capazes de sofrer deformações e depois voltar ao seu estado de equilíbrio. Para tal, exercem uma força sobre o corpo que os levou à deformação.

Mas existem forças que atuam a distância, como as forças magnéticas, elé- tricas e gravitacionais. A força que mantém a Lua presa na Terra, não age por contato, mas a distância.

Lua presa na Terra, não age por contato, mas a distância. Figura 3.12 – Imagem do

Figura 3.12 – Imagem do Sistema Terra-Lua (http://www.brasilescola.com/quimica/diferen- ca-entre-massa-peso.htm).

A força Gravitacional é a força devido à massa dos corpos. Ela está associada a corpos

bem pesados, como os corpos celestes. Cada corpo gera ao seu redor um Campo Gra- vitacional que por conta de sua massa atrai outros corpos. Desse modo, são geradas as órbitas celestes. Um corpo com maior massa atrai para

si um corpo com menor massa, por esse motivo a Lua gira em torno da Terra e a Terra

gira em torno do Sol. Essa força, na verdade, atua tanto na Lua, quanto na Terra. Ou seja, a Terra atrai a Lua da mesma forma que a Lua atrai a Terra, criando, assim, a órbita da Lua em torno da Terra.

a Terra, criando, assim, a órbita da Lua em torno da Terra. Na superfície dos corpos
a Terra, criando, assim, a órbita da Lua em torno da Terra. Na superfície dos corpos

Na superfície dos corpos celestes, a força gravitacional chama-se força Peso e é deter- minado pela massa do corpo na proximidade do corpo celeste multiplicada pela acele- ração da gravidade deste corpo celeste. Exemplos:

Na Terra seu valor é determinado pela massa do corpo multiplicado pela aceleração da gravidade da Terra (g = 9,8 m/s 2 ou 10 m/s 2 – aproximadamente). Na Lua seu valor é determinado pela massa do corpo multiplicado pela aceleração da gravidade da Lua (g LUA = 1,6 m/s 2 – aproximadamente). Cada corpo no universo terá a sua aceleração da gravidade, que está diretamente pro- porcional a sua massa

Importante:

É importante não confundir massa com Peso. Massa:

Característica do corpo. Mantém seu valor em qualquer lugar.

É medido em uma balança.

Sua unidade, no SI, é o kg. Peso:

É uma Força: P = mg.

Seu valor depende da aceleração da gravidade de onde o corpo se encontra

É medido em por um dinamômetro – instrumento usado para medir Forças. Sua unidade, no SI, é o kg. m/s 2 , chamado de N (Newton).

A força é uma grandeza física, capaz de agir sobre corpos seja em contato

ou a distância, e tem diversas naturezas. A força é uma forma de quantificar

a ação de um agente sobre um objeto, de corpo sobre outro corpo. A noção de

força existia mesmo antes de Newton, mas não se tinha notado o quanto ela

é necessária para nos ajudar a investigar as causas dos movimentos e de seus vários estados.

3.2.2 Leis de Newton

Newton criou três princípios, ou leis, que permitem relacionar o movimento de um corpo e toda sua variação com sua a massa e a força aplicada sobre o sistema. Segundo estas Leis, só podemos entender o comportamento do movi- mento de um objeto se pudermos relacionar as grandezas que caracterizam o movimento, ou seja: aceleração, massa e força. As Leis de Newton não atuam apenas explicando o movimento dos corpos na Terra, elas explicam muito mais! Seus enunciados regem, também, os mo- vimentos dos corpos celestes. Para tanto, Newton usou o conceito de forças

e o modo como elas são responsáveis pelos movimentos dos corpos quando

aplicadas sobre eles. Em sua famosa obra Philosophiae Naturalis Principia

Mathematica, publicada em 1687, além das suas três leis para as forças e os movimentos, ele estabelece a base para toda a Física Moderna.

A tirinha da Mônica recria a história de que Isaac Newton concebeu as suas

Leis sobre os Movimentos observando a queda de uma maçã (figura 3.13).

os Movimentos observando a queda de uma maçã (figura 3.13). Figura 3.13 – Magali e Newton

Figura 3.13 – Magali e Newton

Primeira Lei de Newton ou Princípio da Inércia

1. Um corpo permanece em repouso ou em movimento retilineo unifor-

me até que uma força é aplicada sobre ele. Nesta lei, Newton reconhece que repouso e movimento retilíneo unifor- me são conceitos equivalentes e, definidos como estados de equilíbrio e con- seqüência da ausência de repouso absoluto. O interessante é que para mudar este estado, um agente externo tem que agir e modificar esta situação. Isto, no entanto, só ocorre se o objeto tiver massa, o que explica o fato de continuar- mos em movimento quando estamos dentro do ônibus que freia bruscamente. Tendemos a ficar no estado de movimento inicial. Também explica a razão de ser mais fácil parar um carrinho de bebê do que um automóvel que se deslocam na mesma velocidade. As tirinhas do Garfield da figura 3.14 mostram a Primeira Lei de Newton ou Princípio da Inércia.

mostram a Primeira Lei de Newton ou Princípio da Inércia. Figura 3.14 – Lei da Inércia
mostram a Primeira Lei de Newton ou Princípio da Inércia. Figura 3.14 – Lei da Inércia

Figura 3.14 – Lei da Inércia do Garfield. Fonte – oglobo.globo.com

De acordo com a Primeira Lei de Newton, classifica-se o estado de equilíbrio em:

Equilíbrio Estático Corpo em Repouso Velocidade igual a zero 8

Equilíbrio Dinâmico constante

Segunda Lei de Newton

Corpo em movimento uniforme Velocidade

2. A quantidade de mudança do estado de movimento de um corpo de-

pende das forças que agem sobre ele e de sua massa. Quantitativamente, f r = massa x acelereção (F r = ma). O resultado da soma de todas as forças que agem em um corpo é chamado de Força Resultante. Quando esta força age sobre um corpo, provoca a sua ace- leração, o que implica em uma mudança de velocidade a cada instante. Para causar esta mudança o esforço mecânico através da força resultante é necessá- rio. Para um mesmo esforço, o resultado dependerá da massa do corpo. Para mudar o estado de movimento de um vagão de trem, do repouso a 1 km/h é necessário mais esforço do que fazer o mesmo com uma bicicleta (figura 3.15). Nesta lei, Newton criou a forma de quantificarmos a mudança de movimento, sempre sendo necessário o conhecimento da força.

 

Maior Massa   Menor Aceleração 9

  Maior Massa Menor Aceleração 9

Menor Aceleração 9

F

 

r

 

Menor Massa  Maior Aceleração

  Menor Massa Maior Aceleração

Maior Aceleração

Figura 3.15 – Relação força, massa e aceleração

Terceira Lei de Newton ou Lei da Ação e Reação

3. Quando um agente atua sobre um corpo através de uma força, este úl-

timo reage de volta sobre o agente com uma força igual e oposta. Elas são ação e reação. Toda força precisa de um agente e quando ele age, ele sente de volta a re- sistência agindo sobre ele. Quando empurramos uma caixa, parece que a caixa não quer ir, pois ela age de volta sobre nós. A ação e reação agem em partes diferentes, e é por isto que o esforço realizado gera resultado. Se eles agirem no mesmo corpo, o resultado é nulo. Tente puxar seu próprio cabelo para cima para ver se você levantará do chão? Claro que não, certo? A razão neste caso é que a Ação e a Reação se fecham no mesmo corpo e o resultado é nulo. Peça ago- ra ao seu amigo para puxar seu cabelo para cima, com certeza que você vai sair do chão se ele puxar com bastante força. No entanto, ele sente que sua cabeça está puxando ele para baixo. Usando adequadamente estas leis, podemos resolver praticamente todos os problemas de mecânica tradicional envolvendo movimento, tendência de mo- vimento e variações dos movimentos.

Uma força especial.

A força centrípeta é de extrema importância para a explicação de fenômenos da natu-

reza. Se simplificarmos as órbitas de corpos celestes elas passam a executar movimen-

tos circulares. Da mesma forma, a nível atômico, a trajetória simplificada de um elétron

é uma circunferência ao redor do núcleo. Assim, o movimento circular está presente na natureza em fenômenos de escalas celestes até fenômenos de escalas atômicas.

Nas duas situações citadas, a força centrípeta é uma força de campo, ou seja, não há necessidade de contato entre os corpos. Porém, isso não é uma regra. Existem forças centrípetas que apenas se manifestam apenas por meio do contato entre corpos, como

é o caso de um menino brincando de girar uma pedra amarrada em uma corda. A pedra

só executa um movimento circular por que está presa à corda e assim, a própria tração da corda é a força centrípeta. Assim, a força centrípeta é a responsável pelos movimentos circulares – círculos com- pletos ou semicírculos.

Grandezas e unidades:

Massa

aceleração força

Símbolo: m No si: kg (kilograma)

símbolo: a no si: m/s 2

símbolo: f no si: [kg] · [m/s 2 ] = N (newton)

Fórmulas:

Força resultante: F R = ma Força peso: P = mg, onde g é a aceleração da gravidade. Força de atrito: fat = µN, onde µ é chamado de coeficiente de atrito (dependente das superfícies de contato) e N é a força normal. Força elástica: F E = kx, onde k é a constante elástica (dependente do material da mola/elástico) e x é o deslocamento da mola/elástico.

A seguir, exemplos práticos da importância das forças e das Leis de Newton. Vamos usar o exemplo mais famoso: a aceleração de um foguete no espaço. Como um foguete altera a sua velocidade no espaço? No espaço, não há nada que em que o foguete possa se apoiar ou que possa empurrá-lo, gerando uma força, para que ele seja acelerado. Porém, seu tanque de combustível armazena uma substância que, ao sofrer reações químicas ade- quadas, expele gases pela parte de trás do foguete. Esses gases são constituídos por partículas que saem com uma velocidade muito alta e, portanto, são responsáveis pelo aparecimento de uma força no sentido oposto ao que o foguete pretende se locomover. Essa força gera uma força de reação que faz com que o foguete acelere na direção e sentido desejado (figura 3.16).

acelere na direção e sentido desejado (figura 3.16). Figura 3.16 – As forças em vermelho são

Figura 3.16 – As forças em vermelho são devido à aceleração das partículas do gás, ao

serem expelidas do tanque de combustível do foguete por causa das reações químicas. As

forças em verde são de reação às forças vermelhas.

Exemplo da Primeira Lei de Newton Continuamos com o movimento do foguete Quando o foguete entra no espaço os propulsores podem ser desligados, nesse momento, ele passa a adquirir uma velocidade constante e permanece com a mesma velocidade até que os propulsores sejam acionados novamente.

Exemplo da Terceira Lei de Newton para força de contato Qual a importância da força de atrito?

A força de atrito está presente em quase todos os movimentos. Muitas vezes ela é benéfica, como por exemplo:

1. No ato de andarmos: se não houvesse atrito entre a sola de nossos sa-

patos e o chão jamais poderíamos andar. Imagine-se andando no gelo, onde o atrito é muito pequeno? Um pequeno vídeo pode mostrar o que acontece 7 .

Um pequeno vídeo pode mostrar o que acontece 7 . CONEXÃO Link para o vídeo: Fernanda

CONEXÃO

Link para o vídeo: Fernanda escorregando no gelo.

http://www.youtube.com/watch?v=90cqTghSoRk

Na tirinha de Maurício de Souza, Chico Bento e seus amigos tentam fazer com que seu preguiçoso primo, Zé Lelé, se mova. Porém, a força de atrito entre Zé Lelé e o chão é maior que a forças que os meninos exercem sobre ele por meio da tração da corda. Dessa forma, ele continua parado.

meio da tração da corda. Dessa forma, ele continua parado. 2. O atrito entre as rodas

2. O atrito entre as rodas de um carro e a superfície das ruas: com pouco

atrito não há o rolamento das rodas, elas patinam tornando o carro instável.

podemos constatar outros exemplos através do vídeo.

CONEXÃO

CONEXÃO

Link para o vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=Qjy4ksPOeIE

 f a
f
a

– f a

Há casos, em que a força de atrito é prejudicial, como no desgaste de peças de máquinas.

Exemplo de Forças Produzidas por Molas. Podemos nos divertir saltando de bungee jump

por Molas . Podemos nos divertir saltando de bungee jump

http://sitedofonseca.blogspot.com.br/2011/10/meu-1-salto-de-bungee-jump.html

O dinamômetro é um instrumento usado para medir forças. Ele é construí- do com uma mola e funciona devido à força elástica.

http://www.reinalab.com.br/media/catalog/product/u/2/u20032_02_dinamometro-de -precisao-1-n.jpg No sistema de suspensão

http://www.reinalab.com.br/media/catalog/product/u/2/u20032_02_dinamometro-de

-precisao-1-n.jpg

No sistema de suspensão de automóveis as molas têm efeito primordial. Do

site

suspensao/, temos as seguintes explicações:

http://www.infomotor.com.br/site/2009/06/componentes-do-sistema-de-

O

sistema de suspensão conta com o principal componente denominado amortecedor.

O

amortecedor é um componente que foi desenvolvido na década de 30 com o objetivo

de ajudar, com o auxílio da mola, a absorver os impactos gerados na condução do au- tomóvel. Na verdade, o amortecedor é um componente essencial no funcionamento da suspensão. Sem o amortecedor o automóvel só contaria com a mola, com velocidades acima de 30 km/h o efeito de ação e reação da mola torna-se um inconveniente, fazen-

do o carro quicar o tempo todo. O amortecedor foi criado para cortar o efeito da mola, assim, a mola se comprime ou se estende e o amortecedor, com o efeito mais lento e dinâmico, corta a ação da mola e o automóvel se mantém estável.

A mola de suspensão é outro componente ligado diretamente à função de absorver

as irregularidades da pista. A mola de suspensão pode ser do tipo helicoidal ou do tipo feixe de molas e trabalha em conjunto com o amortecedor montado na coluna de

suspensão ou em suportes específicos para ela. A mola de suspensão é produzida com

o material aço tipo mola e é muito flexível, tornando este componente essencial no fenômeno do amortecimento.

3.3 Energia e Trabalho

O Conceito de energia parece estar bastante disseminado na civilização moder-

na. É mais ou menos comum entendermos que quando uma pessoa tem muita energia, deve ter uma enorme capacidade de fazer coisas, como correr longas distâncias, subir escadas, carregar pesos, etc. De fato, o conceito de energia está relacionado com esta capacidade toda. Na mecânica dos corpos, este con-

ceito deve estar associado com o movimento ou a capacidade de produzir mo-

vimento. O Estado de movimento é caracterizado por velocidade e aceleração,

e podemos definir energia a partir das capacidades desenvolvidas pelo corpo,

devido à presença destas quantidades. Do ponto de vista da mecânica, quando um objeto tem energia é porque ela já desenvolveu seu movimento, ou poderá desenvolver a qualquer momento, se a situação física assim permitir.

3.3.1 Definição de trabalho e energia cinética

Imagine um carro que translada na rua com certa velocidade. O fato de ele ter uma velocidade, já lhe dá uma série de capacidades como subir uma ladeira, derrubar um poste, colocar outros corpos em movimento, etc. Quanto mais velocidade o carro tiver, maior será esta capacidade de fazer estas coisas, isto mostra que a energia contida no corpo deve depender da velocidade (figura

3.17).

Da mesma forma, se um caminhão ou um carro tem a mesma velocidade, quem terá maior capacidade de realizar tudo aquilo que discutimos acima? O caminhão, certamente. Isto nos mostra que a quantificação desta energia contida nos corpos em movimento, deve depender da massa e não apenas de sua velocidade.

deve depender da massa e não apenas de sua velocidade. Figura 3.17 – Caminhão e carro

Figura 3.17 – Caminhão e carro com a mesma velocidade batem em um poste. O caminhão que tem mais massa causa mais estrago no poste do que o carro que tem menor massa.

(http://www.cefetsp.br/edu/okamura/quantidade_movimento_resumo_teorico.htm)

Com essas verificações podemos definir a Energia Cinética (K):

A energia cinética é a energia associada ao movimento dos corpos. Todo

corpo em movimento possui energia cinética.

1

K = m v

2

2

(

E q 1

)

Onde m é a massa do corpo em movimento e v é a sua velocidade. •  Unidades no SI:

•  m é em kilograma (kg) •  v é em m/s (metro por segundo) •  K é em J (Joule)

A unidade Joule foi uma homenagem ao Físico James Prescott Joule. Sua

biografia pode ser lida em: http://www.ahistoria.com.br/biografia-james- prescott-joule/ Vamos agora, imaginar outra situação. Tomemos um corpo, que apresenta certa massa e o elevamos do solo, na presença da gravidade. Vamos soltá-lo e esperar que ele realize algo ao chegar ao solo, como por exemplo, enfiar uma es- taca no chão. Apesar de ele ficar parado no ponto elevado, ele está pronto para realizar esta tarefa, que certamente precisa de energia. Sabemos que quando mais ele for elevado, maior será sua capacidade de enfiar a estaca no chão. Quando ele está na altura, ele possui um tipo de energia capaz de se converter em movimento assim que liberado.

O Bate Estacas é um equipamento utilizado na Construção Civil para realizar obras de Fundações e Contenções. Sua função é cravar estacas no solo. O aparelho Bate Estacas compreende um martelo de queda, ou seja, um corpo de massa, entre valores de 600 a 7000 Kg, utilizado para aplicar golpes, e um dispositivo de içar o martelo de queda entre sucessivos golpes.

Fundação indireta - estacas Bate estacas Estaca Nível do terreno Tubo metálico ou de concreto,
Fundação indireta - estacas
Bate estacas
Estaca
Nível do terreno
Tubo metálico
ou de concreto,
para evitar
desmoronamentos
pré-moldada
Solo resistente
Nível do terreno
Estaca
Tubulão a céu aberto como um poço,
é escavado manualmente
pré-moldada
cravada com
Nível do Terreno
auxílio de
bate-estacas
Solo perfurado
com broca, ou
trado
Nível do terreno
Pilão
Concreto
Armação
Estaca tipo STRAUSS,
ou broca, moldada
in loco
Estaca tipo FRANKI,
moldada in loco
Concreto
Solo resistente
Solo resistente
Tubo de aço
cravado
previamente, é
retirado à
medida que a
estaca vai
sendo
concretada

Figura 3.18 – Bate Estacas (http://tecponto.blogspot.com.br/2009_12_01_archive.html)

Assim, podemos deduzir que qualquer corpo que tem o potencial de pro- duzir o movimento, possui uma energia. A essa energia chamamos de Energia

Potencial (U). A energia potencial gravitacional é gerada por um corpo que está

a uma distância da superfície do solo. •  U = mgh (Eq 2) •  Onde m é a sua massa, h é a altura que se encontra em relação ao solo e g

é a aceleração da gravidade. •  Unidades no SI:

•  m é em kilograma (kg) •  g é em m/s 2 (metro por segundo ao quadrado) •  U é em J (Joule)

Outro exemplo de Energia Potencial é a Energia Potencial Elástica. Ela é oriunda da compressão e distensão de molas ou elásticos. Quando um corpo comprime ou estende uma mola/elástico ele possui um potencial para o movimento.

k m A x F el m B
k
m
A
x
F
el
m
B

Figura 3.19 – Esquema de deformação de uma mola.

A energia potencial elástica é dada por:

2

Onde k é a constante da mola e x é a deformação da mola

U

E = 1

k x

2

3.3.2 Energia Mecânica

Tanto o conteúdo energético do corpo em movimento, ou daquele que

poderá adquirir movimento precisam ser quantificados do ponto de vista da Mecânica e daí surgem as definições de energia mecânica.

A energia mecânica (E) de um corpo é definida como a soma de sua energia

cinética e energia potencial.

E = K + U

(Eq. 3)

A energia mecânica pode ser vista como um valor constante do corpo em

algumas situações especiais e, dessa forma, a energia cinética pode transfor-

mar-se em energia potencial. No caso de uma bola caindo temos inicialmente energia potencial vinda da altura em que a bola se encontra e não há energia cinética, pois não há movimento da bola (figura 3.20).

h = 0 g h v
h = 0
g
h
v

Figura 3.20 – Bola caindo.

Quando a bola começa a cair, passamos a ter os dois tipos de energia, a ener- gia potencial – pois a bola ainda não chegou ao chão – e a energia cinética – uma vez que a bola passou a ter movimento. Antes de chegar ao solo, a energia potencial vai se transformando em ener- gia cinética. Quando a bola chega ao solo ela só tem movimento. Antes de realizarmos estas definições, é necessário criar o conceito de tra- balho mecânico. Se você notar, as situações que colocamos acima, na qual dis- semos que o corpo precisa de energia para realizá-las, corresponde a situações onde do ponto de vista da mecânica, forças envolvidas tiveram que ser desloca- das. O carro que tem movimento, e sobe ladeira acima, é capaz de vencer sua própria massa e, portanto, é capaz de produzir deslocamento na presença da força, chamada peso. Dar movimento a outro corpo, também exige força, ou mesmo para enfiar uma estaca no chão é necessário vencer sua força de resis- tência. Em todas estas situações, dizemos que houve realização de trabalho. Definimos trabalho mecânico com sendo o produto da força pela distância deslocada (figura 3.21).

 F A B d
F
A
B
d

Figura 3.21 – Homem puxando um corpo e realizando trabalho. Fonte: http://cepa.if.usp.br/

energia/energia2000/turmaB/grupo5/trabalho/trabalho1.jpg

Definimos trabalho (τ) mecânico com sendo o produto da força pela distância des- locada. Matematicamente, temos:

τ = F x d Onde τ representa o Trabalho, F a força aplicada sobre o corpo e d a distância percorrida pelo corpo.

 

Unidades no SI:

F é em N (Newton)

d é em m (m)

τ é em J (Joule)

Para vencer uma força por maior distância, será necessário mais trabalho do que para curtas distâncias. Que o trabalho seja dependente da distância e do valor da força, nos parece natural. De uma forma mais geral, dizemos que um objeto tem energia mecânica quando ele é capaz de realizar trabalho me- cânico, isto é vencer ou exercer uma força concomitante com a existência de deslocamento. Podemos traçar uma relação entre o trabalho mecânico e a variação da ener- gia de uma forma bastante simplificada, podemos dizer que se trata da trans- formação de um estado físico. Quando realizamos Trabalho sobre um corpo, estamos alterando o seu esta- do físico, fazendo-o se movimentar. Em relação à Energia, sabemos que a sua maior característica é a transfor- mação, ou seja, a mudança de um estado físico. A relação matemática para essas duas Grandezas Físicas é:

τ = ΔK ou ΔU

Impulso de uma força Definimos o impulso de uma força F como sendo a grandeza cujo módulo é o produto do módulo da força aplicada ao corpo pelo intervalo de tempo no qual esta força é aplicada. A direção e o sentido do impulso serão os mesmos da força F .

I = F ∙ Δt

Unidade de I = Newton∙segundo = N ∙ s Duas forças com módulos diferentes podem produzir a mesma impulsão, pois esta depende não somente da força aplicada mas, também do tempo no qual esta força é aplicada.

mas, também do tempo no qual esta força é aplicada. EXEMPLO Considere dois carrinhos, um azul

EXEMPLO

Considere dois carrinhos, um azul e outro vermelho, inicialmente em repouso sobre uma superfície horizontal plana, sem atrito. No carrinho azul, aplicamos uma força de 15N durante 2,0 segundos. No carrinho vermelho, aplicamos uma força de 3,0N. Sabemos que o impulso é o mesmo nos dois carrinhos. Pede-se determinar o intervalo de tempo no qual a força atuou no carrinho vermelho.

Pensando no carrinho azul:

F A = 15 N Δt A = 2,0s I A = F A · Δt A = 15 N · 2,0 s = 30 N.s.

Pensando no carrinho vermelho:

F V = 3,0 N Δt V = ? I V = F V · Δt V 30 = 3,0 · Δt V Δt V = 10 s

Impulso de uma força em um gráfico força x tempo Em um gráfico Força x tempo (F x t), a área compreendida entre a curva e o eixo dos x (tempo) nos fornece o módulo do impulso da força aplicada, no inter- valo de tempo considerado.

EXEMPLO

EXEMPLO

Sabe-se que uma força variável é aplicada a um corpo, conforme o gráfico abaixo. Determine o impulso desta força no intervalo de tempo de 0s até 5,0 s.

F(N) 10,0 2,0 5,0 t(s)
F(N)
10,0
2,0
5,0 t(s)

Precisamos encontrar o valor da área sob o gráfico da reta. Observe que a figura em questão é um trapézio retângulo, cuja área pode ser calculada pelo produto da base pela altura.

 B b + I = S =    ⋅ h T 
B b
+
I
=
S
=
 
h
T
 
2
10 2
+
I =
2
  ⋅ 5 = 3 0 N . s
EXEMPLO

Um jogador de futebol chuta uma bola, aplicando nela uma força de 500 N, em 0,1 s. Qual a intensidade do impulso da força exercida?

I = F · Δt

I = 500 N · 0,1s = 50 N.s

Temos uma bicicleta e um caminhão, ambos com a mesma velocidade, o que é mais fácil parar? Claro! A bicicleta, pois o caminhão tem mais massa. No início da aula de hoje chegamos à conclusão de que para se conseguir a mesma variação de velocidade precisamos considerar tanto a intensidade da força quanto o intervalo de tempo. Através do cálculo do impulso a partir da força aplicada e do intervalo de tempo, pode- mos verificar o efeito da força aplicada ao corpo, e prever como o movimento ocorrerá.

Este conceito é muito aplicado em Engenharia Mecânica para desenvolvimento de mo- tores, carros e aviões.

para desenvolvimento de mo- tores, carros e aviões. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Discovery na Escola Elementos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Discovery na Escola Elementos da Física, Energia e Trabalho. http://www.youtube.com/ results?search_query=trabalho+e+energia+discovery&oq=trabalho+e+energia+discovery&gs_ l=youtube.3 6737.10810.0.11521.10.10.0.0.0.0.186.1635.0j10.10.0 0.0 1ac.1.NWez6TNERY0 Energia do sol, tecnologia do povo - mabcomunicacao. http://www.youtube.com/ watch?feature=endscreen&v=bPRbF8kB4YQ&NR=1. http://educacao.uol.com.br/fisica/ult1700u9. jhtm HALLIDAY, David; RESNICK, Robert; WALKER, Jearl. Fundamentos de Física. 8ª ed. Rio de Janeiro:

LTC, 2008 . v.1. TREFIL, James; HAZEN, Robert M. Física Geral. 1ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006. v.1. TIPLER, Paul A. Física para cientistas e engenheiros. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, c2000. v.1 YOUNG, Hugh D.; FREEDMAN, Roger A. Sears e Zemansky. Física, I: mecânica. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2006. v.1

4

Fluidos

4.1 Hidrostática

4.1.1 Caracterização de Sólidos, Líquidos e Gases

É do conhecimento de todos que as diversas substâncias conhecidas podem apresentar-se em diferentes estados. O que diferencia os estados é a forma de agregação molecular de cada um deles. A seguir, seguem as explicações sobre alguns estados físicos.

Sólido:

O estado sólido é caracterizado por uma forte agregação molecular, ou seja,

a coesão entre as moléculas é consideravelmente forte, garantindo a forma e vo- lume bem definidos. Um exemplo bastante conhecido da água no estado sólido

é o iceberg, que são enormes blocos de gelo encontrados nos oceanos.

Observação:

Os cristais de gelo ou de neve apresentam formatos geométricos belíssi- mos. Cada formato depende da temperatura em que se encontram (figura 4.1).

depende da temperatura em que se encontram (figura 4.1). Figura 4.1 – Geometria de um cristal

Figura 4.1 – Geometria de um cristal de gelo ou neve

Líquido Nesse estado observamos que o volume é bem definido, mas a forma é va- riável. Um suco, por exemplo, terá o formato do copo em que o colocarmos.

Isso ocorre porque, nos líquidos, as moléculas não apresentam forte coesão (figura 4.2).

O H H O H H O H H O H H
O
H
H
O
H
H
O
H
H
O
H
H

H

H

O

H

O

H

H

O

H

Figura 4.2 – Moléculas da água. http://www.alunosonline.com.br/quimica/polaridade-das- moleculas.html

Gasoso Os gases não possuem forma e volume definidos, isso ocorre devido ao fato da interação entre as moléculas dos gases ser, praticamente, inexistente, fazen- do com que a substância se distribua por todo o espaço disponível (figura 4.3).

se distribua por todo o espaço disponível (figura 4.3). Figura 4.3 – Moléculas da água no

Figura 4.3 – Moléculas da água no estado gasoso. http://www.manualdaquimica.com/quimi- ca-geral/mudancas-estado-fisico.htm

O estado gasoso e omotor a vapor O motor a vapor foi desenvolvido no século XVIII para movimentar máqui- nas a partir da energia gerada pelo vapor de água. Com essa descoberta, ini- ciou-se a Revolução Industrial. A partir de estudos, o vapor do ar foi utilizado para mover os trens e barcos queimando carvão para aquecer o ar. Hoje ainda usamos essa ideia para gerar energia elétrica nas Usinas Termoelétricas.

4.1.2 Fluidos

O estado de agregação da matéria depende das condições de temperatura e pressão a que está submetida. Como exemplo, podemos citar a água, sabemos que essa substância se apresenta em diferentes fases da matéria. Definimos os fluidos basicamente como líquidos e gases. Certamente tere- mos muitos assuntos para discutir que fazem parte do cotidiano de todos nós e que depende dos conceitos de fluidos. Ao iniciarmos os nossos estudos, temos que entender o conceito de fluido. De maneira simples, podemos dizer que um fluido é qualquer substância que facilmente escoa e que muda sua forma quando submetido à ação de pequenas forças. Os fluidos tomam a forma do recipiente onde são colocados. Embora o termo “fluido” não seja corriqueiro, em nossas vidas diárias res- piramos (gases) e bebemos fluidos (líquidos), até nas horas vagas nadamos em fluidos. O estudo dos fluidos explica alguns fatos interessantes como a razão do tubarão precisar nadar constantemente para não afundar, o porquê dos na- vios, apesar dos seus pesos, não afundarem e muitos outros fatos que discutire- mos no decorrer deste livro (figuro 4.4).

que discutire- mos no decorrer deste livro (figuro 4.4). Figura 4.4 – Tubarão mergulhando. Fonte –

Figura 4.4 – Tubarão mergulhando. Fonte – http://tubaroes.com.sapo.pt/Whihark.jpg

Devido a característica dos fluidos de terem forma acomodada segundo as condições de contorno, o conceito de força é mais bem empregado se definir- mos pressão, que é a força por unidade de área. Na natureza temos dois fluidos extremamente importantes: a água dos oceanos e o ar atmosférico.

A seguir abordaremos os conceitos de densidade e pressão e a estática dos

fluidos discutida nos teoremas de Pascal e Arquimedes.

Conceito de densidade Como os fluidos não possuem forma definida, ao invés da massa, o melhor

é sempre lidar com a chamada densidade, que representa a massa por unidade

de volume. Quando os fluidos têm densidade que não variam com a pressão de

forma considerável, são chamados de incompressíveis. A água é um exemplo

deste tipo de fluido. Por outro lado, quando a densidade pode variar dependen- do da pressão, temos os fluidos compressíveis. O ar atmosférico é exemplo des- te tipo de fluido.

A densidade (p), também conhecida como massa específica, é definida como

o quociente entre a massa (m) e o volume (V) de um corpo, resumidamente:

p =

m

v

( Eq. 1)

É importante lembrar que mesmo quando dois materiais constituídos do

mesmo material possuem volumes e massas diferentes, suas densidades são

iguais. Imagine a imersão de um cubo de ferro de dois quilogramas (kg) de mas- sa em um reservatório contendo água e de outro cubo com massa igual a 4 kg, constituído do mesmo material, em outro reservatório contendo água, a quan- tidade de líquido deslocado durante a imersão será proporcional a massa dos cubos.

É importante lembramos algumas unidades no SI (Sistema Internacional de

Medidas) que utilizaremos no estudo da densidade. Seguem algumas unidades:

Unidades no SI:

•  Massa (m) – unidade kg •  Volume (V) – unidade m³ •  Densidade (p) – unidade kg/m³

Lembrete : 1m³ = 10 6 cm³

Na tabela 4.1 são mostrados alguns valores de densidades de algumas subs- tâncias conhecidas:

MATERIAL

DENSIDADE (KG/M³)

Ar (1 atm a 20 °C) Benzeno Água Concreto Alumínio

1,20

0,9.10³

1,0.10³

2,0.10³

2,7.10³

Cobre

8,9.10³

Ouro

19,3.10³

Tabela 4.1– Densidades de algumas substâncias

É importante observarmos que a densidade de alguns materiais possui va-

riações em seu interior. A atmosfera terrestre é um desses materiais que apre- senta menor densidade em altitudes elevadas, o nosso corpo possui densida- des diferentes, em nosso organismo temos gordura que possui baixa densidade

e ossos que possuem alta densidade.

Você sabia que mesmo sendo de aço os navios não afundam. Isso acontece porque são dotados de partes ocas, apresentando assim, densidade menor do que a água. É importan- te lembrar que o aço maciço em grandes quantidades afunda rapidamente.

Observação:

Os icebergs flutuam nos oceanos, pois a densidade do gelo é menor que a densidade da água do mar. Da mesma forma, os lagos no frio do inverno criam gelo em sua superfície pois sua densidade é menor que a densidade da água.

Conceito de pressão No caos do ar atmosférico, que é uma camada de gás envolvendo o planeta,

o próprio peso deste fluido faz uma força nas camadas inferiores, e esta força

por unidade de área chama-se pressão atmosférica. No nível do mar, esta pres- são é da ordem de 10 5 N/m 2 , que é o valor chamado de atmosfera (igual a 1 atm).

Para definirmos a pressão, podemos considerar uma pequena superfície de área A localizada em um ponto do fluido e a força normal exercida pelo fluido em cada lado da superfície é F. A partir dessas considerações, definimos a P pelo quociente entre a força F e a área A:

p =

F

A

Analisando a expressão dada anteriormente, verificamos que se a força é uniforme em uma placa plana de área A podemos concluir que:

p =

F

A

(