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AA Colegdo Temas Bésicos de Psicologia tom por inalidade apr | sentar, deforma ddica © despretensiosa, tpicos que sao miniev dos em varias disciplinas dos cursos superiores de Psicologia ou ou ttos em cujo curriculum constem lscipinas psicologicas © objetivo fundamental ¢ ode oferocer letras intocktcias que { ‘Sivam como roteito basico para o aluno e que ajudem o professor na elaborago e desenvolvimento do conteddo programatca, * Aconselhamento psicolagieo (Rosenberg) ‘Avaliagdo da intelgéncia | (Ancona-Lopez ¢ cols) Avaliagao da inteigéncia - Testes Il (Ancona-Lopez e cols) Ciencia © pesquisa em psicologia (D'Oliveira) Gigncia e pesquisa em psicologia- Sugestées de atvidades (Oiveiray Diagnéstico psicotégico (Trinca e cot) Disturbis psicomotores (Andrade) Introdugdo & psicandlise- M.Kiein (Simon) Introdugao & psicologia cognitva (Penna) (Nova Ed.) irodugdo & Psicologia seal (Kriger) Irwestgaeso cinica da personalidade (Tinea) Psicologia da aprendizagem -| (Wier! Loménaco) Psicologia da aprencizagem - reas de aplicagao - il (Witer Loménaco) + Psicologia da aprendizagem-Aplicagdes na escola i (Witler! | Loménaeo). ) Psicologia da percepeio- | (Simées/Tiedemann) Psicologia da percapeao - Il (Simées/Tiedemann) Peicologa do excepcional (Amialian) Psicologia e epistemologia genética de Jean Piaget (Chirottino) Psicologia escolar (hour) Psicologia institucional (Nova eigso) (Guirado) Psicologia organizacional (Camacho) Psicologia organizacional- Sugest6es de atividades (Camacho) Psicopatologia infant - | (Gorayeb) Picoterapia brave (Knobel) ‘Teotias da personalidade em Freud, Reich e Jung (Reis e col) ‘Testes projetivos grticos no dlagndstico pelcoldgico (van Kolck) eeu. bj fete Le soveeronneos IMM Guirado TEM —BASICOS DE JLU + CLARA REGINA RAPPAPORT U (Coordenadora) Marlene Guirado PSICOLOGIA PSICOLOGIA INSTITUCIONAL = Ng INSTITUCIONAL Marlene Guirado PSICOLOGIA INSTITUCIONAL Sobre a autora ufo Gud ¢ utog, coins dco dono dePloglada UsPeonianatcona, se 65) | 2 Bi ee Be 26070! SS: FORD 2 edo revise empliade, 2004 ISN 85.12.6246004 He Pea Ua a, So ds, 200 Ta is ‘cum nen cen pet ua i ok sc pane pre mr he Wo a 1c tw red 3168607 - x Ont) 3-803 ‘Al ventntepuce’ Sen net ppc "Ean uj eS DN a PSP Das Psicologia lnsiucionss, 1. A psicologia institucional de fleger 1.1. O psic6ogo, a comunidad ois da concetuagio da einen a interven 11. 0 concevo de Ciencia 112. 0 conceit de Psico-igiene 113, Pscologiainsttuctona 1.2. Psicologia Insttucional: elementos Dara a compreensio ds elapSesinsttuidas 121. 0 sineretisno ec idenidade do sujet 122. A commnicapto eo grupo. = 1233. A institute organtzapio 1.3, Da compreensio postr pscanaficn. 2. A anilise institucional de Georges Lapassade 2.1. Os wtsnivels ds realidade social 22. A inatitig80 nn = 23, Estado e ldeologia ve 24, Burocrciae poder eaaeeeeeecece 25. A Andlise Instiucional = 254.4 anise nstieionale Estado 25:2. AndliseInstiueional x Anise Ovzanizacona : 2.53, Asvias de Andis: palawra ago. 2.54. Antica ao movinentoe a0 concelo de AndliteIntinclonal 2.6. is wm iro ambit onsen 2% x 3” 3 46 4 st 4 56 60 2 1 B 15 8 a 3. A andlise das intituigdes coneretas de Gailhon Albuquerque lementos para uma ailise da pita instclonal (Gost Augusto Guilhon Albuquerque). Limites da tengo médica como servigo pessal 1. Limitesorganizacionas 2. Linites stiucionas. 3. Limitesinternos da tengo médica 4, Psicologia Insttuctonl: em busea da ‘specificdade de atuagio do psieslogo 44. A Pecans, a Andlse de Instulges Conse ¢3 Picco sium 42 Revendo z 42.1 Bloger: 422. Leporsade 42.3 Gun 43. A questo do objeto eda expecificidade do trabalho institucional do psiedlogo 44, Decomtncis de uma especificdide 441. Equipe muiprofisional ‘442. Trabalho polticoe abl pscoldgica 443, A queso do comento: 0 psiedlogo na Sede Mel na Ecco. roo 4.3, Um ponto de paras, Referéncias bibllogriens Ps ve 81 97 98 102 104 hos 106 106 108 0 no 121 121 16 i21 19 Br Preficio geral da Coleco ‘A Colegio Temas Bisicos de Psicologia tem por final dade apresentar de forma didtca ¢despretensiosa Wpicas {que sio ministrados em vérias disciplinss dos cursos sipo- Hires de Psicologia ou outros em eujo curriculum constem disepinas psicologicas, ‘0 objetivo fundamental € 0 de oferecer leituras Jnzodurias que sir vam como rotcirobésico para oaluno € que ajudem 0 professor na eluboragio e desenvolvimento do conteido programitico. Neste sentido, selecionamos autores com vasta experi ia didtica em nosso meio, os quais, em vietude da profun- didade de seus conhecimentos edo contato prolongado com alunos, ientes da dificuldade de adaptagao da literatura im- Portada para o nosso estudante, se dispuseram a colaborar Esperamos, asim, contribuir para a formagio de profis- sionals psieélogos ou ndo, sistematizanda e transmitndo, deforma simples, 0 conhocimento aeadémico © pitico ad ‘uirido por nossos colaboradores ao longo dos ano, tath- bbém tomando a leitra um evento produtivoc agrivel Clara Resins Reppaport Connenadora 1 | Apresentagao da 2"edigdo revista e ampliada Este livro foi originalmente escrito em 1987. Quando e sua revisdo, buscou-se uma certa atualizaglo de expres- bes e situngdes “datadas”, caracteristicas daqueles momen tos, Os autores aqui trabalhados cram, naquela ocasito, mais freqdentemente ouvidos c/ou ctados nas diferentes ocasioes em que o psicdlogo buscassc informacto e formagio sobre como trabalhar junto a insttuigBes diferentes da do consul- {6tio. J0s6 Guilhion Albuquerque, por exemplo, dedicava-se ‘1 pensar diretamente as insituigbes de sade ¢ as questOes relativas 3 sitide mental. José Bleger era bibliogratia quise obrigatéria para 0 estudo dos grupos e Georges Lapassade cra, embora com menos freyigncia, eonvocsklo para quest- ‘onar qualquer “vigsp de protis- sionais em Psicologia. Hi al, de fato, modelos de inlerven- 0 e/ou compreensao dos pracessos institucionais que, com © tempo, vio ganhando um certo perfil “clissico”, Basico para quem quer se interesse pelo assunto e vé trabalhar com E assim que se mantém, os ts, absolutamente atw- aise fundamentais, sobretuco no que diz respeito a possi- bilidade de diferenciar as atuages dos profissionais de psi- cologia, |Nesse sentido, a concepelo de instituigao como con- junto de pritieas eoneretas (Guilhon Albuquerque) perma ‘ec, até hoje, um importante organizador da proposta que fe lard, no Capitulo 4, de uma atuago qu guranta a especi- ficidade do trabalho psicolégico num terreno que 6 caracte- risticamenteestudado pela sociologia: as inslituigdes. Esse quarto capitulo, cm especial, revehet uma revi so detalhada, Mesmo assim gwardou 0 "eixo” inicial da sua formulagdo. Apesar de jt ter eseritn mais sobre o tema em diferentes. artigos, ¢ livros, lecidi anter 0 escopo inicial do capitulo por se ‘de uni iv de temas basics. ‘Além disso, as devivagiesdeste modo de pensar pesquisa fno consul nas institnigaes outras onde se vena Fazer ft psicalogia povleria encontrar, em outras acasiBes, SUAS ppnsibilsinles se sesennvolviments, Por exemplo, Inst tie Kelagnes Afetvus Sununis, 1986), Psicandlise eAnd- lise dr Disenssu (Summons, 1995), A Clinica Psicanalitien ha Semibnu do Discurso (Casa da Psicdlogo, 2000) Por ora, basta desenhar as linhas mestras dessa estra- lyin de pensamento que faz a ordem do psicol6gico pasar pela do institucional Isto 6 0 que permancce suficientemen- {e original e estranhamente, até hoje, pauco compreendido, a jnlgarpelas diversas ocasides em que so discutidas fais, iis. ‘Talvez, em nenhum outro texto que eu mesma tena cs crito, fieos tio destacada a importincia de formular uma proposta de atiagfo do psiodloge que garanta, de um lado, a Especificidade de objeto da Psicologia ¢, de outro, 0 mapeamente do jogo de forgas, das relagbes de poder, €a- reteristicos das insttuigbes, De qualquer forma, wma sub- Jetividade matriciada nas relagdes instucionais concretas “Eovque se prope coma o sujito psiquico, avo das atuagses Udo psieslago onde quer que faga sua Psicologia, Este € 0 0 Benen Pt. Sal femeeiallaE all ponto a que se chega com a proposta desenvolvida no Capi- {ulo 4, com apoio em concepedes de grupos, instituigdes, relagaes de autores de destacado reconecimento na srea. AA proposta final nao é exatamente ade Bleger, nem a do Lapassade oui de Guithon. £ sim, wna possibilidade de pensar. além desses modes particulars de compreendler, uma Teitura institucional do trabalho com a Psicologia. Marlene Guirado ‘Maio de 2008 u Preémbulo: Das Psicologias Institucionais Bis uma tarefa dif: buscar o plural daguilo que €sem- pre refrido no singular! ‘O ermo Psicologia Insttucional em sido sado no Bra~ sil para signficar uma drea de atuagdo dos psicdlogos. Em Pirlcamente fo-Ihe dado um impulso pela circulagio dos tscttos de José Bleger (1) bem como pela afluéncia, ht ‘gumas décadas, de psiedlogoscpsicanaistas argentino, que por razées politicus e profssionas, acabaram por deixar SeFinitivamente ou nio Seu pas ‘Assim, o trabalho dos psicdlogos — histoicamente di ‘ribuido entre consultris, empresas escolus, hospitals ps ‘uidtricos e universidades — comegou a ser perecbido, [al «do, estidado, da perspectiva de ser, o0 de poder serum ta ‘lino “institucional”. As téenias de intervengo cm grupos nas organi2agies de sate, ensino e trabalho, os grupos ope rativose, mais tarde, as entativas de gutogestio, passaram a ‘configurar em alguns circ profssionais uma prética do- ‘inane, que buscava sua extensio no nivel das disciplinas rmesmas dos curtfculos dos Cursos de Psicologia e de For ‘magi de Psicdlogos, 2B COuiras leturas ainda, especialmente aquelas vindas da Europa, contribufram para o estudo e para o trabalho nessa Perspectiva institucional. Entre elas, pode-se citar os estu~ dos de Lourau (2), Lapassade (3), Lobrot (4), Mendel (5), Cooper (6), Foucault (7) e Castel (8). Algumas questées tor- naram-se, entio, o centro das discussdes: deverse-ia aa no plano da insituigdo, como um todo, ou apenas compreen- derasrelagées instituidas, sem nocessariamenteintervir?; que instiuigdes atingir: as instituigdes “totais” (hospitais psiquid- lticos, presi, institugdes de menores), ow aquelas como a escola, as ereches, as empresas?; que contribuigdes a Psica nalise teria a dar nesse ambito?; que contibuigdes dariam a Sociologia ea papi Psicologia? ‘Assim, una Psivologia Tnstitucional vai ge estabelecendo into inclu, eala pass, diferentes oriontagdes te6ricas ovas configures ptica profissional, Esto movimen= toe cneanlo aba por fazer com que se confun= slam os Tinites da compreensio sabre que pricelegia instal est send feta, Passos incur um resto s6tulo una variedade de teoriasrelativas ntervenglo do psi- tailogo em insttuigo, bem como as diferentes formas dessa intervengao xe dat. Criou-se a impressio de que far “Psico- login Insitucional” j& definia © que efetivamente acontece ‘quando um psiedlogo trabalha om insttugao. E sobretudo para essa indiscriminagdo que este livro se volta. Eo faz, no sentido de questionscla ‘Atribui diversidade aqui apontada 0 nome de Psicolo- ssi Institucional — ou seja, usar 0 terme no singular —é de [pouca validade. Nao se identficam, com isso as especific lies dos recorteste6ricos, nem das priticas de Psicologia insttuigdes efou organizagdes, sequer seidentificam tais priticas na aticulagzo inevitével com outeas, elativas a. this profissbes © a outras reas do conhecimento humana, “4 E diferente pensar interveneao, como a Anilise Institt- cial proposta por Lourau ou Lapassade ou pensé-la com Psicologia Insttucional, proposta por Bleger.E diferente, ainda, pensi-la com os referenciais da Antipsiguiatra, de ‘Cooper, ou da Sociopsicandlise, de Mendel. Muito pro. velmenie, articulam-se a estas conoepgdes configuragses também diversas da prética institucional da Psicologia, Seria, portant, preferivel falar em psicologias institucio- ‘ais —no plural — para garantia compreensio de como se constimem 0s discursos febricas sabre e as prticas de jn tervengdo psicolbgica nas instituigdes Noestorgo de distinguiras diferentes maneiras de pensar « fazer um trabalho institucional, est livro destaca algumas contrbuigdes que, do Angulo especitico da Psicandlise, da Psicologia ou da Sociologia, permitiram e permitem enten- der o que se tem feito sob a égide da Psicologia Institucio- nal. Com isto nio se pretende, entretanto, esgotar as diver- sas produgdes nestas dreas do conhecimento ow analisar ‘exaustivamente cada uma delas. A proposta 6 delined-las e fencaminhar 0 leitor is Fontes onde informagioe anise po- sderdo ser ampli. CCeio ser esta a contribuigie primeira de un liven sobre Paicologia Institucional inserido numa colegio dle Temas Basicos de Psicologia: apresentar as idsias dos autores que, de alguma forma, sio direta ou indiretamente, significaivas para o trabalho institucional do psicélogo. Outra contribuigdo € ade suscitar, por essa via, uma dis- eusso sobre a especificidade da compreensio. iniervenga0 Psicolbgica, em diferentes imbitos da realidade social Desta feita, no capitulo |, Bleger€ apresentado como um fepresentante'da abordagem psicanalitica aos fendmenos insttucionaise stuagio do psic6logo, Indissociavelmente ligado aos fundamentos da teoria do vineulo, de Pichén= 1s Rivitre, Bleger, de forma mais especitica que seu mestre, ‘esereve sobre a natureza das relagdes quo se do nos grupos €enas organizagdes. Também aponta o limite, 9 aleance © 0 ‘campo da agie profissional em Psicologia, Se é verdadeiro {que € Pichén — com ele, uma certareviso da Psicanéise —quem se encontra no bojo da produgio de Bleger, vamos \deixi-lo apenas subentendido, para destacara singularidade do discurso de Bleger sobre estas quest6es. Comcle, mergu= amos no universe que entende as relagdes sociais como pos- siveis porque é pssivel,no nivel do ego, uma diferenciagso pelnclivagem do sineretismo. Comele, pensamos que € este Sintretismo ou simbiose, apesar de tudo, © movimento pri- meio para a relagio, que do maior ou menor gran de sua » depend a identidade; uma identidade que seri, 0. sempre grupale, com isto, seri sempre uma insti= No capftulo 2, um outro discurso, um outro pensamento: ‘ode Lapasde, sobretudo tal come estruturado em Grupos, Organizagdes € insttuigdes (8). Situando os tr6s conceitos {de grupo, dle organizagio ede instituigd) e, especialmente, repensando o conceto de instituigio, para além dos limites da Formulagio althusseriana (10), Lapassade inauguraoter- eno da Anilise Institucional. Propée-se como a revelagio dda dimensZo ocuta e, portant, determinante daquilo que ‘contece nos grupos-base da vida cotidiana: a dimensio institucional. Com este autor, enverecamos pela compreen- ‘io politica das relagdos institufdas, bem como pela com- preensio da produgo da ideologia do lugar da burocracia ‘neste proceso. Com cle, configuramos a necessidade de i- bernagito da palavra socal dos grupos que fazem ou que exe- «tan ess cotiiano;tomamos contato com aautogestio como lum proposta de trabalho organizativo que, do interior das instituigSies, € ocasio para que se expresse a capacidade 16 instituinte por parte desses grupos. Com ele, Finalmente, {uestionamos 6 lugar do psicossoci6logo ot do analista institucional como técnico ou como cientista social LLapassade 6, sem divida, um inflamado convite & revolu- ‘0; mais que isto, um provocante convite & revolusio per- ‘manente, 'No capitulo 3, Joxé Augusto Guilhon Albuquerque, cien- tista polttico, fala em Andlise de Instituigdes Coneretas © ‘acena para os psic6logos com a possbilidade de repensar a pritiea, 0 discurso e as representagbes intitucionals, Arti- telando de forma singular bindmioinstituigiopoder (11), Guithon define ambos como um exerefio, enfaizando ‘necessidade de se considerar a maneira pela qual se produ- ‘em, coneretamente, 08 discurSos eas representagdes que os Tegitimam, Somos convidados por ele a um trabalho de and lise que, rompendo com a ordem de um determinado discur- 0 oU de um conjunto de representagées derivadas das ‘bes insiturdas, permitird a sua reconstruesio em outa ca {egorias de pensamento (as do analista, no cas) ceendo uma outra ordom, E.com ele que temos as ritos€ 0s rmitos como objeto de anise ¢, poranto, como ajo de ‘um trabalho que nocessariamente"recit a realidad” pra ccompreendé-laem seus efeitos idealigleos, polis ot eco ndmicos. Ecom eleque abandonamos osonho de unr com preenso “totlizante” das intituigdes como entidades abs= tratas, contra € dominadoras, 0 substituimos pelo esforvo, de entendimento das relagSes concreta ene ténicos, dit gents, funciondriose clentela, numa prética institucional, ppodendo-se, no limite maximo, falar em priticas dom tes, agentes privilegiados e efeitos ideol6gicos ou politicos dde-uma determinada institigio. Finalmente, no capitulo 4, considerando os referenciais dda Psicanilise ¢ da Andlise de InstiuigBes. Maria Luisa S, ” ‘Schmidt eeu procuramos discuti a questo da especficida- ‘Conciliéveis deixaram de estar dinamicamente em jogo” © Grubigiidlade, que agiré como amortizador ou encobridor dos conflites.. "Nesta situagses (de dilema, ambigilidade ¢ "auséncia”), 0 conflito & de diffi enfentamento, pois nfo atinge aconotaeio ‘de problema, oque seria, enti, passvel de solugio, Para que se possa trabalhar, € necessirio transformar a ambigtidade tem conflitoe 0 conflitos em problemas (30). Assim, s¢ 0 Confivo € "normal e imprescindivel no desenvolvimento de ‘qualquer manifestagio humana” (31),nfo se trata de procurar ‘imino ou mascaré-lo (na ambigiidade). Tratase, sim, de permitir & insttuigdo 0 acesso ao instrumento, para sua 37 cexplicitagdo e manejo, de forma que se veja diante de pro- blemas a resolver, ‘Mas, para esta mobilizagio é necessério um ménimo de insight de seus conflitos por parte da insttuiglo.E isto que, em primeira instincia, acaba por levi-l a procurar os servi- {05 do psicdlogo. Quando esta demanda no existe, ou no foi ainda que precatiamente expressa, este profissional deve desistr de qualquer esiratégia, itiea ou técnica de interven- fo, Como se apontou antes, é tarefa ingléria buscar torcer ‘8s objetivos (explicitos) da instituigdo com relagdo ao taba: tho do psiestogo. (0 que se observa ainda € que justamente este enquadie & que mais serd “atacado” ou “sabotado” pela institugho, Quanto maior foro grau de ambigiidade ou de estereotipia (Ge paralisardo, portanto) nas relagbes ene pessoas e gru- os, maioroatague. Pode-se até (de forma intencional) com gpmetropsicslog com pessone nin como profisona nessa dindimica que o contato por assessoria protege © cenquadre e se tora condigéo melhor para que o trabalho se realize dentro de determinados limites e com maior sogu- rang CO enquadre, entio, serve como um esquema referencial para a tarefa da psicologia institucional: permite situar pa- péis ou lugares nas relagdes grupais;€ sempre o referente parao (re)estabelecimento de limites 2s inclus6es, no senti- do de anlar as dierengas eas especificidades necessérias tem certos momentos, na consecugao de determinadas tare- fas, na relagio com 0 psieélogo e no conjunto das relagSes institucionais| Experamos que o letor tenha conseguid, a partir desta breve apresentagio, compreender oque afirmamos no deste item: a considerar a Psicologia Intitucional de Bleger, Eno contexto da inlervengio do psicSlogo (no que ela tem 8 ‘de sociale psicalégico) que se articula seu contomno cient fico epsicanalitic. sto posto, passemos is jutificativasteéricas dessa intor- vengo, Qual a compreensio que 0 autor tem a respeito das ‘wlagdese vinculos que he permitriaconfigurar tal proposta? 1.2. Psicologia Institucional: elementos para a compreensio das relagdes instituidas Conforme destacamos, ao defini a Psicologia Insttucio- ral como um campo de atuacio do psicélogo, Bleger evi- ddencia suas preocupagdes politicase téenieas: de um lado, esta enfase na fungo socal deste profssionale, de outro, ‘esto as consideragdes a respcito do enquadre psicanalitco, Esta afirmago supte trs outras. A primeira € que a def niezo dos pardmerros téenicos se dia partir da perspectiva politica eteérica do autor, A segunda & que estas perspect- vas sypdem um duplo movimento: 0 de saida dos psicdlo- 1208 do dmbito “privilegiado” das consultrios eo de tra Tho comas institigdes como totalidede, A tetexiea & que, 30 se deter na apresentagio da Psicologia Insttucionale sie a questio do enquadre, Blezer apron a cempreensia ds rocessos intervened, conforme os cinones tle psivanli- 2, atribui tanto uma quanto outra ao terreno de trabalho do psiedlogo, Feitas estas ressalvas, partamos para o estudo da mane ra como Bleger entende as velagdes institucionais. Bm seus escritos, enfocard estas relagdes do Angulo psicanaltico, chamando a atenglo para a dindmica inconsciente das rela- (es intra e intergrupais ‘Sua conferéncia de maio de 1970, inttulada "O grupo ‘como insituigdo eo grupo nas insttuigdes”, raz, numa com- plexa sintese, seu pensamento sobre esta questo. 9 [este texto, apontamas para a maneia singular de Bleger compreende as rlagées individuo/grupofinsituigao. Partin- Go da conceituagio da personalidade como estruturada pela dlinimiea entre um ego sincrético © um ego organizado, Vai cia ca comnieagio grupal como derivada ‘io para, enim, supor uma intrineavel indissociabilidade entre 0 sujeito, n organizago grupal e a institucional 1.2.1. O sincretiono e a identidade do sujeito No Prlogo de Simbiase e Ambigiidade (32), Bleger le- ‘vanta cas hip6teses sobre a origem dos processos grupais. ‘A primeira delas € a de que 0 individuo nfo nasce no ‘solamento para vir a desenvolver uma sociabilidade. A prin- cpio, o que existe € a indiferenciagio entre o eu € 0 outro, ‘como ponta de partida para o desenvolvimento. “Teoricamente, formula a existéncia de uma “posigao aliscrocériea”, anterior is posigdes esquiso-paranide & depressiva, configuradas por Melanic Klein. A posigio gliscrocdrica detine-se pela vivéncia de ansiedade catastré- fica, pelas defesas de cisio e projeco macigas e pela rela- {10 com um objeto aglutinado, viscoso. Nascemos, portar- fo, vineulados nesta indiferenciagio, ¢ 0 desenvolvimento ser o processo de transformagio desse tipo de wineulo (que ele chama simbistico, ou sinerético) numa rlagao cada veo ‘mais diferenckada, ou seja, numa relaglo que permita a cons- trugiio da ientidade © do sentido de realidade como sujei- tos, distinguindlo-nos, om certa medida (e apenas em certa ‘etl, do mundo e dos demas ‘A segunda hipstese & de que esse vineulo se dé por vias ccorporais,pré-verbais.E, mesmo quando mais tarde, a pala ‘ra jé for 9 malo preferente da comunicago, a permanén- cia desta indiferenciagao e indiscriminagio verificar-s- 40 pelo uso da linguagem nfioem seu valor simbético, ms eo tum valor factual: ela no mobiizarésfmbolos no interlocutor. ‘mas comportamento, des ‘O surgimento da elagodiferenciada que permite disci ‘minagdo, no entanto, no anula ou elimina os aspectos indiferenciados que Ie deram origem. Havemos de contar sempre com romanescentes dos nlcleos da indiscriminagio rimitiva nami personalidale maura”. Nao hi em toda vis, {uma delimitagio absoluta entre o culo outafe 0 mundo. Bleger denomina Micleo Aglutinado a esses remanescen- tes, afirmando que sta permangneia vai determinar sempre, ‘em algum aivel, gras de sincretismo e simbiose e, portan- to, ambiglidade, na relagio social ou grupal. © vinculo sinerético, simbigtico, ambiguo, conforme explicaremos a seguir, € aquele em que nio hi diferenciacdo entre o eu © fulro, em que os “conteidos internos” so massivamente projetados num “outro-depositirio”. A presenca deste passa 8 ser eondigdo de sobrevivéncia psicoldgica, na mais com pleta confusdo entre a que sioas Fantasias do sujelto wo que 6 a realidad desse outro (uma ver. projetados, os eaters interios sio pereebidos como sendo 0 eo), wsanilesta ‘eo deste cleo & parte da cindimes da personalidad po ‘endo ser mais tensa em alguns momentos do lesenvolvi- mento normal (na adoleseéneia por exemplo), bet cami cconsttuir-se no centro da personalidad, nos momentos ou ‘quadros patoldgicos (epilepsia, melancola, entre outros). ‘Assi, a personalidade ou a identidade do sujito se ci, sempre, pelo interjogo de um ego sinerético © um ego orga nizado. O ego sinexético inclu os aspectos simbiticos, am: biguos; éo ego como ponta de langa dos impulsos agressi- vos ¢ libidinosos completamente fundidos. No ego organi- zado esti os aspectos discriminados que permite uma te- lage normatizada e regulada com 0 meio; € o ego como panta de langa dos controles superegsicos. Pelo ego a sinerétic, formamos winculos que ao permitem a dstingio entre o que ésujeito ¢ objeto da libido. Pelo ego organizado podemos nos ver em relagio com um outro. Deriva desta formulagdo te6rica a afirmagio de que a simbiose € um fortissimo vinculo, mas nfo uma relagdo. $6 na relagio se pode falar numa realidade intersubjetiva que supe coisem interacio. Ao contritio, no vinculosimbistico, ‘ ourro se constitui na projego maciga de contedidos inter- nos do wr. ‘A distingio entre o ego sinerético e 0 ego organizailo — ‘com isto © surgimento da relagio — sera possivel pela clivagem dos processos mais primitivos da sociabilidade. ‘A clivagem — mecanismo de cisio do ego que permite a ccoexisténcia de duas atitudes psiquicas em relagao a reali- ‘dade, uma levando em conta eoutra negando—ndo elimina ‘esses pracessos primitivos de sociabilidade, Pelo contro. Faz com que eles convivam ao lado dos processos do “ego organizado” sem que se influenciem reciprocamente. Assim, © sineretisma permanece como forma de comunicagao na expressio pré-verbal, ou como uma linguagem factual (sem valor simbélico). Isto se dé de maneira nao integrada, dissociada, paralela & comunicagdo por interagio. 'E nesse contexto que se coloca a questio da identidade, para Bleger. Ela jamais seri um corte absoluto de individvalo. Seré Sempre uma diferenciagdo possivel so- bre um fundo de indiferenciagao. Tal como formulada por teste autor, a identidade do sujeito supord, via de regra, dois niveis: 0 sincretismo & 0 "pano de fundo”, 0 c6digo primei- 10, onde se delincaro os eontornos da personalidade, nos Timites mesmos em que isto & possivel e, perpetuando em certo gra, a ind io ¢ 1 ambiglidade. 1.2.2, A comunicagio e 0 grupo Edo interior dessa descrigio sobre o que consti a iden tidad e sobre as formas de comunicaga qe se tornam n= {Go possiveis, que Blegereoiza sobre o grupo esa relagso, com aestutiragioda personalidad do sje. O gruponko fer, para cle, uma enidade "ain dos indvidios" mas sim a esultante desta ponibildade de se vincl (pel s- ciabiidade sncrtca) ede se relacionar (pela scisbldade ‘orpanizada, intraiva. Com ito, poemos dizer que a co- municagio no grupo é este permanente movimento de (in)iferenciago, ou ej, diferencngao e indierencagao ‘Mas podemos também, de outs forma, dizer qe exstamen- teporeste movimento indviduoé sempre eem primei- falnsncia grupo BBleger vai lem. firma a mesma rela ene aiden dade ¢ Organizaio,entendida aqui como um conjunto de srupos dstbutdos nm organogramae que interagem nm Aterminado espao fsico (ums escola, um hosp, me empresa, por exemple). A relago nase plas Organizagios épossivel, porque existom 0s aspectos organivados c normatizados da personalidade (e/ou de relagao) que liven dlsnormase pautas de conduta das Organiagies osu con trle ea garania da clvagem dos axpocins Niner indifereneiados. Dest forma, podemos ize qe # OF ago parte da personalidad porque a erste bem organizada E qualquer modi sue se ovo na Orgonizagio, como covuntode grupos com tetas objet ‘os comiins no espagoc no tno, npc numa madanga a propria personalidad ‘Assim, oindvio,o grape «organiasto, constitu dos 208 thos do observalor come enlidads Separadas islades,existom apenas na mais completa articlagao des- tas duas instncis a vnertca e a orgaizada da co- a ‘municagio€ da sociabilidade, Isto se dé a tal ponto que “a dissolugio de uma organizagdo, ou a tentativa de mudanga ‘da mesma, pode ser diretamente uma desagregacdo da per~ ‘sonalidade; e no por projecio, mas porque, diretamente, 0 grupo ea Organizagdo sdo a personalidade de seus integran- tes" (33) Bleger prossogue afirmando nessa nha que, algu- ‘mas vezes ¢ para alguns individuos, os grupose as organiza Bes constituer foda a sua personalidade, “Como se pode nota, cle identifica a estrutura da perso nnalidade ew do grupo, come se fossem, até certo ponto, p- fos estabelecidos formalmente para a compreensio de un Jfendmeno continuo, ‘Conclu ele que “as instituigBes e organizagbes sto depo- sitérias da sociabilidade sinerética, ov da parte psicdtica, © isto explica muito da endéneia burocracia eda esisténcia | mudanga’” (34), no interior das intituigBes. Novamente, ‘observa-se aqui como Bleger teariza os processos grupais © instiucionais, a partir do movimento proprio da dindmica imersubjetiva. Em sta fala sobre os grupos, Bleger comenta dois exem= plos no texto "O grupo como instituicto..” (35), no sentido fe denunciar os niveissineréticos da comunicagio ¢ sua re- Jago com os niveis organizados. ( pimeiro deles € 0 de uma “fla” de espera. Poderse-ia pensar que uma fila no € grupo, porque nio h4 interagio fentre os membros, Sart é um dos que véem nela apenas ‘uma seralidade em que cada individuo 6 equivalente ao ou- {to e todos se indistinguem entse si: as pessoas estio, ali, isotadas e assemelhadas neste isolamento; s6 a ordem de chegad é que os diferencia, Entretanto, Bleger vé 0 Sineretismo, exalamente nesta trasitividade © nesta seme Tanga de todos diante de uma norma (a de que hé uma oF- ddem de chegadia que deve sr respeitada parase atngieo im ‘a que cada um se dispoe), A indistingio entre sina relagio “ ‘com a norma os vineula. Hi portant af, um certo tipo de Sociabiidade e, com ela, o pano de fundo para a existencia do grupo. ‘Outro exemplo & 0 da mie e do filho diante da TV. Eles ‘flo se falam, nfo seolham, ele brinea cela costura. Aparen: temente, nie hi comunicagio entre eles; cada um executa lima agdo independentemente do outro. Entretanto, sea mie sai da’ sla, 0 Menino interrompe sua atividade € a segue, sem que nada soja dito, Bleger aponta, aqui, para aexisten- cia de uma “Tigaglo profunda, pré-verbal, que nem sequer necesita de palavra” (36); uma Tigagio que, segundo ele, sei chive perbads pel pave. B a sociiade sinerética. E a este sincretismo que Bleger atribui a ansiedade que tum determinado participante expressa diante de um grupo ‘novo (grupo terapéutico ou de trabalho, ou mesmo wma t= Tago que se inicia). Costuma-se afirmar que situagbes no- ‘vas despertam ansiedades parandides, pelo medo do “des- conhecido”.Bleger, entretatto, rformulicstahipStese. Mir sma que © que se teme nio & 0 desconhecid se for, ms sim, aquele que existe dentro do conbcvido. Ou sea, 0 que se teme é tomar contato com est forma particular dio nizagio sinerEtica que dilui 0s limites do pessoal, identi dade, ¢ que significa a ni ulilizagio de modelos estereoli= pados esoguros de relagio. Teme-se que a “figura” submerjs no “fundo homogéneo", no permitindo o destuque, a dis ‘incia ou a distingio da “identidade”. Bleger afirma que os ‘grupos temem uma regressio a niveis de sociabilidade inertia, presentes par cada partcipante, antes mesmo de virem a0 grupo, e desde os primeiros momentos de seu en- Contra com os outros nesse contexte. ‘6 pelaclivagemc imobilizaglo desses aspectos& pos vel acontecer uma cominicagdo por interaglo.e uma prod= 6 io organizada do grupo, bem como o trabalho terapéutico Eom os niveis mais integeados da personalidade e do grupo. 'Fiea suposta a parti da, uma identidade grupal que pode ser pereebida nos mesmos dois niveis da dindmica com que Se compreende a identidade do sujeito: de um lado, arela- € a condig2o para um trabalho em comum, pautado por jormas eregras (aspectos insttucionalizados do grupo); de fatto, 0 vinculo expresso a tendéncia 2 anulagaio de limites te diferengas entre os participantes e as trelas (identidade ‘grupal sincrética). ‘Conform a intensiade da clivagem e, portant, conforme ‘grat de relagao entre os dos nveis da estruturagio da perso- nalidade e do grupo, remo diferentes configuraydes grupais. Em linhas geras,podemos dstinguir és dessas configuragdes ') aquelaque se compde deindividuos predominantemen- te simbioticos ou dependentese que, provavelmente,terio 2 identidade grupal com a mais completa que podem atingir; 'b) aquela que se compe de individuos neurSticos ot normais, ue alcangaram uma certaindividuagio,e que ten- derdo a desenvolver a sociabilidade por interagio, apresen- tando-se como grupos proditivos ou motivados, nesses gru- pos, segundo Bleger, as “coisas acontecem para nio aconte- er nado nivel sinerétio esté,em geral, sob forte contro- Tee apartado da produgzo consciente; ‘)aquela que Se compe de individuos para os quais o gn- po parece desempenhar um pape subsidirio e pouco impor- {ante,nimesida em que se esquivam dos vinculos simbisticos, até por que tendom cle de forma nfo manifest, 1.2.3. Ainstitwigdo ea onganizagao Bleger falar ento sobre insttuigdo.¢ organizago, a par- tir dessa teoria 4) da intensidade da clivagem, 6 ») da maior ou menor flexibilidade dos grupos para “ire vir" do nivel sineético ao organizado, bem como ©) do grau de ansiedade que isto desperta, ‘Segundo ele, “o grupo € sempre uma instituigio muito ‘compiexa, ou melhor, € Sempre um conjunto de instituigSes” (G7). Tsto porque entende a instituigo como onivel interativo (correspondente a0 ego organizado) do funcionamento sgrupal. Mas, na medida em que este funcionamento se esta- biliza excessivamente, em que se criam estereotipias muito rigidas, o grupo acaba se burocratizando. Nisto, toma as for- mas da Organiza, A normatizago da conduta para que se alinjam os objetivos explicitos transforma-se num fim em Si. exigindo a fidelidade dos integrantes, de mancira que a ‘sua perpetuagio como organizagio torna-se a meta. ‘Quando isto ocorre, o objetivo terapéutico de um grupo fica impodido ou submetido. A sociabilidade sincrética fica imobilizada por uma ago muito intensa da clivagem entre teste nivel eos da interagio. Resguardam-sc de forma fina e estivel os aspects organizados do grupo, a prpria clivagen fe se passa & imobilizagio e depésito macigo dos aspectos simbi6ticos (ou parte psiétiea do grupo. ‘Como se pode nota, Bleger bora a questo cla burocr ia das OrganizagBes como tendo espaldo nesta estruturay ticular da personalidadee, portato, nas condigies dr Tago interpessoale grupal, Assim, podemos dizer que a o1- Tocetiea mestram se em toda sta forge vigor. E nessa si- tuagdo que se expressam aguels que sio a caracterstics Finamentais da baroereco tradicional. Lapssade assim as desreve ICA buroeracia no € uma “doonga, um maw fanciona- mento ou um desfonetonsmento de uma gstio. © conto ‘nao €umadasordem na autoegolasao do coro social no. {cl bolésico de compreensto do soca), Pelo contro, é toma forma determinada de extrunaga das velages de poder 2.."A bucoratizagio implica wna slienagdo das pessoas nos paps e dos paps a0 aparclho” (62), isto porque os apes so Sempre prevstos edistrbuidos de maneir im Pessoal, ganhando sentido apenas em fungao da organiza 66 4 para a qual forem defnides. “O universo buroeritico é iessoal” (63). 3. As decisdes slo sempre tomadas por instancias andni- ‘mas, desconhecidas. 4. As comunicagdes dose, via de esta, num sentido apenas — de cima para baixo—e retornonio é esperado, tecebido ou efetivido: os portacvores da base podem até ‘exit, mas no so ouvidos; suas mensagens si “empanae 1s" no existem eanas pra tanto 5A estratura de poder em dois andares alimenta-se na ideologia do saber e apoia-se numa pedagosia dictva na clpola esto as que saber; na base, os que ignoram; pra se atngir o saber tems que passar pelo “batismo bu- rocritico". Ou saa, sero ensinados para que amaduregamy €-acondigio de aprendizagem exige que s iniiem nos pr. cedimentos da buoeraci, que se coloquem no lugar de quer Io sabe. A desigualdade € assim perpeuada Este “etorgo Dedagésico” vai formar nos grupos, cada vez mas, indi {os heterdnomos, “armades, segundo Riesman, dem a: dar para se adaptare se conduzirno terreno social" (64). ‘6. Com isso, desenvolve-seo conformismo, preservase a fala de iniciativae ratifica-se a separago nos dois niveis buroeritica 70s individvos © 0s grupos heterGnomos, votados para © cumprimento de normas establecidas defor, a pedago- sada heteronomia, bem como as caracteritess até agora ‘presenta, contrbuem para que aautonomia se, naver- dade, a da propria orpanizagdo. Ela se torna ado um meio Para que um fm se tingid (coma, por exemplo, a eduea- ‘0 de um grupo de eriangas), mas sm, um fim em si mes- tno, Hum deslocamento de objetivos. Com sso, a idelida- de dos membros e grupos 8 organizagSo acaba sendo uma exigéncia para que se tenham satistagbes e valoes prépr- 03"; uma exigéncia que acaba sendo "percebida” como do 7 sjeito: ele se sente pertencendo a0 conjunto, quando se tor- ha ustério do diseursoe das atitudes desenvolvidas no inte- rior da burocracia '8. A burocracia supe, portanto, continuamente, a resis ‘ncia A mudanga; mesmo quando certas estruturas ou for ‘mas de funcionamento se mostram inadequadas. Assimila- se mais do que se busca modificar. HA aqui, uma recusa do tempo, dahistéria, uma rigidez ideol6gica, uma reagdo dcrf- ticae A novidade, oposiglo e confit. ‘9. Assim, a burocracia é a fonte do comportamento desviante e dos grupos fragmentérios ou informais. Toda e ‘qualquer forma de organizacio que no “pertenca’” a esta, {que no comungue de seus “vicios”basicos, seré percebida ‘como excluida, como banida. E, no término desse processo,, a fragio nfo chega a ser sequer uma fragio do grupo; trans- forma-se num grupo exterior, num corpo estranho & organi- zagio, Formam-se subunidades, isto €, subgrupos que aca- bam por se dedicar a objetivos particulares 10, Por fim, hd que se destacar, na burocracia tradicional, ‘o movimento dos que se server da organizagio para conf ‘gurar uma “careira” que brota da funeo ou do papel ocw pdo; isto se dé quando um profissional procura, de todas as Formas, subir, fezendo concessBes aqui, contornando ali para cobter uma boa posiedo. CCitadas essas dez caracterfstcas, podemos dizer que é a partir de tal compreensio de burocracia que Lapassade de- senha o quadro das relagdes politicas e da dominagto ideo- Tigica. A insergo dos sujeitose dos subgrupos nos procedi- rmentos burocraticos € a via preferente para que,o cotidiano seja a singulariaagio das instituiges sociais. E a maneira privilegiada de os grupos esujeitos submeteremse a sobre- determinagio institucional (a que nos referfamos no inicio do presente capitulo). Viver a ordem burocratica € viver a dimensiio oculta e, portant, determinante do que se dino 6s nivel dos grupos e das organizagées. A inserglo nesta or- dem ¢ a fidelidade a ela sto a maneira pela qual se dé a conformagio ao Estado e suas les. ‘De urna forma ou de outra, as condigSes burocratizadas de vida ede trabalho sio a alienagio primeira, que faz com que pregam naturais enecessras todas as outras,e que transfor- ima, em necessidade absolut, o que é necessidade de uma determinada organizacto social, politica e econmica. ‘A buroeracia 6, portanto, 0 ritual de iniciagl0 no univer- so institucional 2.5. A Anélise Institucional ‘com vistas suspensio das instuiges dominanes (en- quanto dominantes), "provocanda” as rlagSes de poder tf sidase hierarquizadas, que Lapassade prope a Andlise Ins- titugional portant com vistas ao rompimento do cielo buocrti- ‘co que ela se define. Nao ser fel, no entanto,apresentar deforma ddatia ecompreensiva ao letor como Lapassade define Andlise Tstitucional. Seu pensamento muda muito, ‘em fungio da sua pritiea edo moment histérico em que se ‘De inicio, uma breve colocopio a respeitodessas mudan- «as, Ao que parece, no decorrer da década de 60, Lapassade nunca a importincia de tal tipo de trabalho para que se transforme a natureza mesma das insituig6es soca. Are betido de 1968 na Franca parece, entretanto, ter-the masta do as limitagdes do método, ELapassade, coma mesma for- gacom que o propte, desacreditao, Nem sempre fica claro, ho entanto, se suacrftica, nessa hoa, ange a AndliseInsti- tucional eomoum too ou forma como vinha sendolevada {0s Semingtios de Formago nas Universidades). Tudo in- ica que a explictago da dimenstoinstucionaloculanas feSes cotidianas, ase ver, dena acontecer (Ea finalidade thuima da andise). Mas @ Andis Institucional, al como a pensavam até endo seus criadores eos que participavam do movimento como tenicos-analistas, no sé mostava mais ingrimento adequado. importante, no entanto, esclarecer que Lapassade revé ‘a AniliseInstitcional come pratica eo como torizagao (que aqui apresentamos) sobre a burocracia: os tés nfveis de realidade social, o conceit de instiuigdo de Estado e de ‘deologa. Estes permanecem. Fle questiona o aleance de transformagio que o método de AndliseInsttucional possa ter nesse sentido, Os esritos de 1973 uazem Lapassadefazendo interven- es scio-anallicas novamente. Quase no usa mais ot ‘no andlise institucional, exceo como andlse institucional fem stuagdo, ¢ modifica a ténica, Mas permanece o lugar 4p analisia. Agora, como odetonador daandlse. Teme a Impressio de que « ete, fita anos antes, com relagio a0 papel do téenico-analista no se manlém: este profissional Pode continua existndo, desde que reformule os meios para {Landis e desde que nto exe vinulos de dependencia; deve aocontéri desencadear, com frga, aincisto, um pro testo que 0 dia-adia dos grupos em organizagoes se enca regario de prossegur, fazer ou recrian. ’Aiém disso, nt mudange da proposta observase tam bm uma oseilagdo do referencia tdrico: logo apbs 68, a andlise socoldgica epoca do papel doanalista€0 ponto de partic das erica de Lapassade: um ou dois anos de pois, esgataacompreensto psicamalitic ds elagSesint- {ujdas edo possvel ugar do aalist; do ou és anos mas, rev a andlise concebida desta forma ea redimiensiona com base na teoria das Uéenicas da pricologia existencial- 0 Juonansta eda bioenerética (a via de bertagao das amar- ras intticionals no sets palava, aso corpo). "Em meio a toda esta varia, para que se possa dar @ conhecer a letor a andlise institucional de Lapassade com "am minimo de contnuidade, aresentaremes ses textos na ‘ondem quae inversa do lempo em que foram escrito. Pat ‘mos do. Chaves. (1971) e do “El encuentro insttional” (1973), para chegar ao "Prlogo & 2 edo" de Grupos, Organizagdese sttuigdes (1970). sta uma linearis mmeramente formal, consruida da nossa prspectiva como ntdiosos de Lapse, visando facitaracompeetat Soconcete importante, no entano, eafrmar questo em nada cor- responde ao movimento mesino do pensarneno eda praica lipasadiane Tanto quanto posse, ferta-se-retormar a esse movi- Convida-te assim, litor, a0 tortooso caminho desta linaridade forada.Refaa-se 0 convite, para que nfo se prenda tela, afim de que nio percaariqueea das contribu hes de Lapassade 25.1.4 andlise insiucional eo Estado Em Chaves da Sociologia (1971), Lapassade define 3 andlise institucional como um método de aulise da realida de social, Bem como um metodo de intervened Enguanto método de anise, andlise institucional, con- forme dissemos anteriormente, redefine o conceito de insti- ‘wig, afastando-s, até certo pono, da toria marxistaclas- sca. Com isso, permite compreender 0 que so passa nas grt os e nas organizages como sobre ado pelasinsti= luigOes de uma sociedade. Permite compreender&expé nm cia cotidiana como estando aprisionada num sistema institucional Enquaato intervened, propOe-se st a condigdo concre~ tapara que se revele a determinagao institucional, oculta pela repressto do sentido e pelo encobrimento ideolégico. Pro~ vyocando 0 grupo a falar e atvar, promove-se a andlise em situagio e desvendam-se as instituigdes determinantes do iscurso e da agio grupal. ‘Como se pode notar, 20 definir Andlise Intituciorial em 1971 (em Chaves da Sociologia), Lapassade confirma mui- tos dos pressupostos sobre organizacio social que desenvo veem 1970 no “Prélogo 82 edigio” de Grupos, Organiza (aes e Institigdes. Ele considera a sobredeterminagao do {ue se passa nos grupos, a redefini¢Zo do conceito de insti- tiglo, a repressio do sentido e 0 envolvimenta ideol6gico. Eé sobre isto que se daria interveneo ou ago do analista institucional. ‘Lapassade afirma, em 1970, que “hé uma dimenso ocul- ta, nfo analisada e, portanto, determinante”, nos grupos: a dimensilo institucional. A andlise institucional é 0 método {ue “visa a revelar nos grupos, esse nivel oculto de sua vida de seu furcionamento” (65). ‘Com isso, 0 que a anilise institucional faz é chegar a0 Estado que crva o cotidiano das instiuig6es. Mas o Estado fa que se chega 6 o Estado de Classes. Assim, a andlise institucional, uma Ver efeiva, atingira, em cada grupo, & ‘questo das relagbes sociais de classe. Lembramos que a repressio do sentido acontece nos gtt~ pos, para que neles sc cale a possibilidade de revolugio e {ue 0 simbolo da revolugio € 0 rei decapitado, porque se ‘corte A sociedade o poder centalizador do Estado. (Ora, a andlise institucional, em principio, é esse caminho para destacar a presenga desse Estado no fazer difrio dos ‘grupos e das organizagbes. Esta € a instituigdo por excelén- tia que se quer desvendar no entanto,sobretudo nesse momento — ainda sob feito do fervilhar das movimentos socais de 1968 na Fran- ‘ga —que Lapassade menciona o Estado como alvo da Ani- lise Insttucional. Em outras ocasides, especialmente nos tr balhos posteriores a 1971, sio as “instituigBes mediadoras” as quo maiscita: a educagio, a sexualidade, o casamento, os partidos politicos a Igreja entre outros. Parece claro, no en- tanto, que permanece como objetivo da andlise institucional a revelagio da presonga da “instituigfo-primeira”. ‘Algm dessas colocagSes sobre o fim sihtime da andlise instituctonal, outras nos parccem também significative a clas nos dedicamos a partir de agora 2.5.2. Audlise Inticional x Andlise Organizacional Em Chaves da Sociologia (1971), Lapassade estabelece uma diferenciagdo entre a anilise institucional ¢ a organizacional. Embora no primeiro caso seja o grupo, tal como se configura nas organizagdes, o lugar da intervengio, deve-se, no trabalho com ele, colacar em questio sua di- ‘mensio institucional eno, buscar a reorganizago ou are~ ceuperagao da buracraci. ‘A anilise organizacional parece caleada numa concep- Jo das organizagBes como totalidades fechadas,a-histri- as, “Tem, muito fequentemente, atendéncia a tratar aem= presa como uma ilhota sociale cultural, com suas leis pré- pris, sua vida interna, ago parecido com o que os bidlogos chamam de meio interior do organismo, com sua auto- regulacHo relativamente independente do meio exterior” (66). Daf, alé fazer da anise um insirumento de reorganizagz0 das relagdes ede recuperagio da estrutura é apenas um pas- so suti 73 ‘Comisso, este trabalho nega sva finalidade dtima, que é 0 de explicitar © quanto as relagbes que se criam na empresa, sofrem um corte transversal de outras instituigbes, sobretudo do Estado, Deixa-se de lado todo 0 movimento histérico que perpassa o conjunto das relagdes insttudas e, com ele, 0 Interogo da contradigdo no “interior” de uma dada organi ‘2agio (como uma empresa, uma escola, um hospital). Para Lapassade, “o sentido das organizagbes e dos gru- pos é sempre externo a cles; esta na histéria, no modo de produgio © na formagdo social em que esta organizagio & constitufda” (67). Por essa razdo, cle propoe a anclise institucional came um instrumento de anise das contra 6es sociais, enquanto, como dissems, revela a dimensio ‘eulta da que se passa nos grupos. Ele enftiza que esse “aspecto oculto nada tem de mister ‘05000 metafisico”. Eo que nose sabe; o nfo saber é deter rminado pelo lugar que se ocupa na produgdo‘e nas relagdes de classe. Desse higar, que & conhecido s6 0 é da perspectiva {que esse lugar permite, jamais, da perspectiva de quem ests ‘cima daestratarae com “visto do todo”. Assim, pela posi- ‘glo que se ocupa no modo de producio, pela clase a que se pertence, tem-se determinada possbilidade de “saber” sobre ‘oque se passa nas rages, Esso 6 verdadero até para aque Tes que ocupam Ingares privilegiados na ordem das coisas. Hi, sempre ¢ para todos, uma regido de “nio-saber”. ‘Desenvolvendo este raciocinio em Chaves da Sociolo- ‘a, Lapassade requinta 0 seu entender sobre o que é objeto ‘de anise nos grupos. Ele afirma que o que & analisivel 6, ‘exatamente, a “relugio com o no-saber”. “Anise institucional asume pr objetivo o faze sug na sua realidad conoeta (on expen doe tore) aspect alc, to mcemno fempo positivae negative de todo grupamento Sania” (p15 ” ‘A tarefa da andlie institucional é “provocar”(suscitar) palavra social liberta, tomé-la audivel, de tal maneira que fsses “atores” tenhum diante do si "o negativo da imagem {que forma desi mesmos e da sociedade” (68). Aquilo que ‘io se sabe, uma vez defrontado, faz mover a pritica social ica cada vez mais definida, entio, adiferenga entre & ‘Anélise Insitucional ea Andlise Organizacional, Sto méto- dos de compreensio e de intervengio na tealidade social, ‘com fins justificativaste6ricas, se nfo opostas, no mini- mo, diversi. Tulgamos oportuno trazer& uz ais diferenciag®es, consi- derando-se a utlizagio cada ver mais frequente da Anise ‘Organizacional por profissionais de Psicologia, dizendo-se fazer Analise Institucional 2.5.3, As vias de Andlise: palavra x ago Alm das questbes relatvas a definigdo da Anise Inst- tucional, de seu objeto e de sen mbito, existem outras ain da trazidas por Lapassade— sempre em fungao da reflexio ‘que ele faz sobre sta ritiea, Por isso, em geral, confitivas. ‘Uma delas, a que nos interessa mais de perto no momen- to, pelo lugar central que ccupa no movimento da Anise Instituefonal,é a quostto das “vias” de anslise, ou seja, das ‘éenicas mesmas pelas quais se provede a andlise. Ag weseritura de Chaves da Sociologia (1971), inter~ vvengio dos analistas nos grupos apresenta-se come caleada ha palavra, visando inclusive a libertagio da palaura social ‘Quando, entrotanto, 1é-se “El encuentro institucional” (1973), essa diregio no se mantém. Embora permanega ‘camo “norte” a revelagio do oculto (institucional) e, como ceontrapanto da crstalizagio do insttuido, a autogestio dos ‘grupos, Lapassade revé a manera de se atingir ist. PropOe 15 a utilizagio de técnicas originadas da Bionergética eda Psi- Cologia do Potencial Humano, em oposigdo ao que ele passa, ‘a chamar Socioandlise, baseada no discurso,na linguagem. ‘A Socioanilise, segundo ele, 6 romperé com a cultura e ‘estabelecerd a novidade ea possibilidade de transformagio {quando se utilizar do trabalho com o corpo, quando se wtili- zat do grito, das momentos crftcos de transe, da terapia de ‘laque A exacerbagio das emagées, os elementos da gestalt- terapiae da bioenergia, Assim, ela provoca a autogestio em ‘aoe no s6.em palavras; uma ago politica de fato. Assim, la é mais “ativa”, mais subversiva. E o rompimento neste nivel € 0 verdadeiro rompimento, para Lapassade. E a con- Aigo de anise das “amarras institucionais”, ao mesmo tem- poem que se di sua efetiva negugio. NNote-se, inclusive, ue o autor, esta data, 1973, j€ quase no fala em Andlise Insitucional. Prefere 0 termo Socio- fanilise, definido como anndlise institucional em sitwagdo, imais especificamente, como um entconiro institucional (con- forme se esclarecers adiante). [Lapassade retoma nesta redefinigfo da técnica, os grupos

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