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Copyright © Ministério da Previdência Social Todos os direitos reservados.  

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1ª edição 1ª impressão (2006): 5.000 exemplares ISBN

Distribuição gratuita Esta obra faz parte da “série especial” da Coleção PREVIDÊNCIA SOCIAL

É permitida a reprodução parcial ou total desta obra desde que haja prévia autorização por escrito do detentor de copyright e dos autores, exceto quando para fins de resenha e divulgação. Proibido qualquer tipo de comercialização.

 
 

Tradições

Políticas

Previdência Social e populaçõ

Gabriel O. Alvarez

 

Alvarez, Gabriel Omar. Tradições negras, políticas brancas: previdência social e populações afro-brasileiras / Gabriel Omar Alvarez, Luiz Santos. - Brasília: Ministério da Previdência Social –

MPS,2006.

224 p. : il. – (Coleção Previdência Social. Série especial; v. 2) Fotografias de Luiz Santos ISBN - ??????????

 

1. Previdência social. 2. Assistência social.3. Aposentadoria rural. 4. Negros. 5. Populações afro-brasileiras. 6. Inclusãosocial.

I.Alvarez,Gabriel Omar II. Santos,Luiz. III.Título. IV.Subtítulo. Ministério da Previdê Secretaria de Políticas de P

I.Alvarez,Gabriel Omar II. Santos,Luiz. III.Título. IV.Subtítulo.

Ministério da Previdê Secretaria de Políticas de P

  Ministro da Previdência Social Nelson Machado Secretário Executivo Carlos Eduardo Gabas Secretário de Políticas
 

Ministro da Previdência Social Nelson Machado

Secretário Executivo Carlos Eduardo Gabas

Secretário de Políticas de Previdência Social Helmut Schwarzer

Diretor do Departamento do Regime Geral de Previdência Social João Donadon

Diretor do Departamento dos Regimes de Previdência no Serviço Público Delúbio Gomes Pereira da Silva

Chefe de Gabinete da Secretaria de Políticas de Previdência Social

Mônica Cabañas Coordenador-Geral de Estudos Previdenciários Rafael Liberal Ferreira de Santana

Ensaio antropológico e texto Gabriel O. Alvarez

Ensaio fotográfico

Luiz Santos

Projeto cartográfico Rafael Sanzio dos Anjos – CIGA/UnB

Coordenação editorial

Luiz Santos

Edição de fotografia Luiz Santos e Gabriel O.Alvarez

Revisão de texto Josiany Salles Rocha

Projeto gráfico

Sidney Rocha

Pré-impressão e impressão Artprinter Gráficos & Editores

Todos as fotos desta publicação são de Luiz Santos, com exceção daquela na página 106, que é de Gabriel O. Alvarez. Nos processos técnicos desta publicação contamos, ainda,com o valoroso apoio de Bachar Samaan, Gabriela Pires, Sebba Cavalcanti e Lorenzo Vagni.

publicação contamos, ainda,com o valoroso apoio de Bachar Samaan, Gabriela Pires, Sebba Cavalcanti e Lorenzo Vagni.
Samaan, Gabriela Pires, Sebba Cavalcanti e Lorenzo Vagni. Tradições Políticas Previdência Social e populaçõ

Tradições

Políticas

Previdência Social e populaçõ

Gabriel O. Alvarez

Pires, Sebba Cavalcanti e Lorenzo Vagni. Tradições Políticas Previdência Social e populaçõ Gabriel O. Alvarez
Sumário Introdução, 16 1. Populações negras em Minas Gerais: Irmandades,garimposequilombos,32 Remanescentes de

Sumário

Introdução, 16

1. Populações negras em Minas Gerais:

Irmandades,garimposequilombos,32

Remanescentes de quilombos: Quilombos d remanescentes da exploração do ouro, 34

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário

2. Religiões africanas na Bahia e políticas de rec

terreiros de Candomblé e Baianas do Acarajé, 96

As nações do candomblé, 112

Egum: culto aos antepassados, 126

Da descriminalização às políticas de reconh

3. Maracatu Nação do Recife:

tradições afro-brasileiras e déficit social na perif

OMaracatu-nação,158

A festa da calunga, 176

As sedes dos maracatus e a população da pe

4. Temas cruzados:

tradições afro-brasileiras e Previdência Social, 19

Bibliografiacitada,212

Anexo,215

Mapas,220

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1 Populações negras

em Minas Gerais:

irmandades, garimpos e quilombos

A população negra do estado de Minas Gerais, no interior do Brasil, é composta por

descendentes de escravos transportados para o trabalho nas minas, tanto na extração de

ouro,como de diamantes. O ciclo do ouro impulsionou o traslado dos escravos que

chegavam aos portos do Rio de Janeiro e da Bahia. Esses contingentes formaram uma população predominantemente srcinária do Congo e de Angola, com a presença de nagôs

ou iorubas em menor número.Durante a época colonial e o império, a região foi modelada

pela exploração de ouro e diamante nos garimpos. Mata Machado (1943) apresenta uma descrição das formas tradicionais de exploração aurífera. Esse autor, preocupado com a perda das tradições negras na região, coleta e traduz diversos bissungos,cantos com palavras em banto e em ioruba.

O trabalho de campo em Minas Gerais, realizado no Vale do Jequitinhonha e no norte do

estado, é apresentado a partir da análise dos remanescentes de quilombos e da Irmandade

de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Nos remanescentes de quilombos,

pesquisamos uma população descendente de um antigo quilombo de resistência e uma

outra descendente de escravos que trabalharam na extração de ouro.A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, apesar de não ser uma instituição exclusivamente mineira, ainda mantém sua vitalidade no estado.Antigamente a irmandade era formada por escravos e alforriados, organizados em torno da instituição do rei do Congo, e agrupava descendentes dos povos do Congo, de Angola e Moçambique.

A contraposição entre as comunidades remanescentes de quilombos que habitam a zona

rural e as irmandades congregadas nas cidades permitiu também analisar a cobertura oferecida pela Previdência a populações rurais e urbanas, naturais de municípios do interior do estado.

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Apenas algumas pessoas em condições de pleitear a aposentadoria como “trabalhador rural” não possuem o
Apenas algumas pessoas em condições de pleitear a aposentadoria como “trabalhador
rural” não possuem o benefício. É o caso de D.Júlia, indocumentada.Apesar dessa crítica, o
serviço tem o reconhecimento da população.As comunidades visitadas apresentam bons
índices de cobertura previdenciária; a maior parte dos idosos em condições de se
aposentarem usufrui do benefício, independentemente das questões de gênero.
“Pra mim, aposentar deu bem trabalho; porque eu não tinha os papeis certos, tudo certo.
Para eu aposentar,perdi cinco anos de aposentadoria. Me aposentei tava com sessenta
anos. Foi bem difícil pra mim. Eu aposentei no sindicato é de trabalhador rural. Cresci no
serviço, trabalhando mais com meu pai, né? Então continuei na enxada, no pé de cana e na
mandioca. Desde pequena trabalhando;imagina se não vai dar para aposentar, tá ruim pra
mim. Mas hoje deu certo. Faz três anos que aposentei.”(Adelina, 63 anos, aposentada,
Córrego da Misericórdia, MG.)
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“Faz parte do nosso dia cotidiano, trabalho com mas a entidade é isso mesmo, é uma entidade fi temos é que saber respeitar a verba que entra n pro povo ver que a gente tá fazendo alguma cois

presidente da Irmandade de Nossa Senhora d Araçuaí, MG, aposentado.) Em Araçuaí,o cemitério da irmandade, nos fundos d mortos. O cemitério e os tambores são temas abor

“Nas reuniões da Irmandade, os temas são freq freqüência. Nós discutimos aí também várias cois qualquer entidade que surge, aí tem problemas p Coisas que tem pra fazer e que necessita fazer:

poder fazer isso ou aquilo, ajudar os irmãos. Ago

gente tambozeira. não precisar Nós estamos ficar abrindo pensando a igreja, em fazer porque um

levar mais a sério, não ficar ali dançando. Hoje a

dentro, só para a Irmandade. E nesse cemitério, gente fazer um negócio grande assim pra poder trabalho, cada um fazia um, cada um fazia um

72 anos, sapateiro e aposentado, Araçuaí, MG Por ser uma Irmandade de ordem vitalícia, pode-se o aposentados. Alguns, mais idosos, participam como especial em manter a tradição e evitar mudanças in aposentados fez-se de desentendido durante a entr Luiz Pereira dos Santos, de 85 anos, repetia que es nada e queixava-se das mudanças. Quando a Irmand idoso, que mal conseguia andar, parecia um jovem p

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repetia que es nada e queixava-se das mudanças. Quando a Irmand idoso, que mal conseguia andar,
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2 Religiões africanas na Bahia e políticas de reconhecimento:

terreiros de Candomblé e Baianas do Acarajé

Durante o trabalho de campo em Salvador e em outros municípios da Bahia, centramos nossa atenção no candomblé, tanto como religião, quanto como tradição cultural. A partir desse ponto de vista, os terreiros são analisados como formas de organização social, como instituições de reprodução cultural, de valores e hierarquias. Esses padrões estruturados de interação entre os membros, diferentes das relações estabelecidas com os outros grupos, contribuíram para a reprodução de tradições culturais de matriz africana no Brasil.

A religião, assim como a festa, constitui um momento especial nessa representação cultural.

Trata-se do momento em que a comunidade se reúne, quando a cultura é

performaticamente representada por meio de danças, músicas e cantos. Nessas periferias,

os terreiros configuram-se como uma forma de organização, onde uma série de tradições

imbricadas reconstruiu as crenças africanas e manteve vivas as tradições ancestrais. O terreiro proporcionava o que o Estado moderno oferece aos seus cidadãos e que foi secularmente negado às populações negras. No terreiro,o povo do candomblé encontra assistência, comida, um lugar onde ficar em caso de necessidade e um sentido para a vida,

no complexo culto aos orixás.

No candomblé, como religião iniciática, o segredo,representado por uma pequena cabaça,

igba, ocupa um lugar central. “Sabe-se que entre os Yoruba, o casal divino primitivo é constituído por Obatalá, o céu, e Odudua, a terra,e que da união do céu e da terra nascem Aganjou, o firmamento,e Yemanjá,as águas. Sabe-se também que este casal em cópula é representado por duas metades de cabaça, fechadas uma sobre a outra, uma figurando a abóbada celeste, a terra fecundada, cabaça sagrada chamada Igba.”(Bastide,1961:97.)

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  8 dos Dorme tudo, a gente acorda, tomamos um banho e vai fazer o
 

8 dos

Dorme tudo, a gente acorda, tomamos um banho e vai fazer o ossé

orixás. O ossé é a mudança da água para lavar as vasilhas dos orixás

que nós temos, é num quarto de santo para os orixás que a gente cultua. E aí a gente vai fazer as comidas, os quitutes para os orixás. Depois, a

gente

quando chegou o horário, nós oferecemos, ainda é pros orixás. A

vida é essa, uma coisa boa.

Então, essa idade toda que eu tenho de santo e de idade é aqui nessa casa do candomblé; elas todas me apóiam. Se a gente briga com o marido, se o marido larga a gente, a gente corre pra aqui, ela acolhe a gente, faz com a gente filha, filha mesmo, feito uma mãe materna. Ela acolhe a gente aqui, a gente almoça, janta, ceia, passeia, a gente faz tudo aqui nessa casa do candomblé. Coisa boa, gostosa. Quando uma se desemprega, ela vem pra aqui, ela dá almoço, janta, ceia, dá uma cesta básica pra gente comer, pra gente ter, pra gente se sustentar. Quando a gente não pode, ela vem, ela dá um dinheiro. Elas não são ruim não, ela mantêm a gente como filha, se a gente tropeçar,ela

ajuda a gente.”(Antônia Castro, 76 anos, Terreiro Mãe Menininha do Gantois, não tem aposentadoria ou benefícios previdenciários.) Por outro lado, cabe ressaltar que alguns dos terreiros desenvolvem ações sociais junto à comunidade. No terreiro Axé Opô Afonjá, por exemplo,funciona uma creche para as crianças do bairro. O terreiro Ilê Axé Opô Ajagunã oferece creche, cursos de capacitação profissional, aulas de informática, cursos sobre cultura afro e o aprendizado da construção de instrumentos musicais. Participantes do Terreiro de Mãe Menininha do Gantois organizaram as Filhas de Gandhi, um grupo de afoxé, e realizam outras atividades: oferecem, por exemplo,cursos de formação

profissional, Pela sua forma que de vão organização, da culinária os ao terreiros turismo, podem passando ser pela importantes cultura afro. parceiros na implementação de programas sociais junto às comunidades.

8 Ossé: oferecimento semanal de alimentos ao orixá no seu dia especial (Cacciatore, 1988:199).

junto às comunidades. 8 Ossé: oferecimento semanal de alimentos ao orixá no seu dia especial (Cacciatore,
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  As nações do candomblé A floresta de símbolos apresentada pelos diferentes orixás mostra também
 

As nações do candomblé

A

floresta de símbolos apresentada pelos diferentes orixás mostra também variações de

acordo com as nações africanas que ordenam as várias tradições dentro do candomblé.A

relação com as nações tradicionais da África reflete as variações dos cultos africanos no Brasil de acordo com seu lugar de origem. No candomblé,existem várias nações, as quais podem ser notadas pelos diferentes nomes atribuídos aos orixás, pelos diversos elementos

de

cultos ou nos cantos e rituais. Como exemplo,podemos indicar a diferença entre os

nomes dos orixás nas nações Keto,Djè-djè e Angola. Outra diferença já mencionada está na forma de tocar os tambores, nos nomes dos tambores e em outros detalhes.Anexas, encontram-se as hierarquias utilizadas pelas diversas nações.Algumas tradições, praticamente extintas na África, mantêm-se vigorosas no Brasil. Segundo as estimativas dos informantes, 75% dos terreiros da Bahia são Keto, 23% são Angola e o restante Keto / Djè- djè; a nação Djè-djè está quase extinta na Bahia.

 

“Hoje, na Bahia, as casas tradicionais são as das raízes de Keto,pela história que vem do século XVIII, pelas três Marias, que é a Iacala, Iacose e Iatala. Então, dessas três fundadoras da nação Keto que nasceram: primeiro, a Casa Branca, na rua Vasco da Gama, Ilê Ialaxô; depois, veio o Gantois; e depois do Gantois, nasceu o Ilê Axé Opô Afonjá.Todos os três são sociedades: Sociedade Santa Cruz, Sociedade São Jorge e Sociedade Lia Masur, são as três irmãs. Desses três segmentos nasceu, hoje, o meu pai-de-santo, que já é a segunda geração; eu já sou a terceira geração da família de Keto. (Pai Ari, Salvador, Bahia.)

 

Podemos contrastar a fidelidade dessa genealogia com o levantamento realizado por Edson Carneiro (1948:37), no qual apresenta os principais terreiros das nações Keto, Djè-djè, Angola e Congo. Essa genealogia constatada na década de 1940 permanece fiel, exceto pelo fato de que um dos terreiros apresentados como da Nação Congo é classificado agora como Angola, possivelmente porque o informante é da nação Keto, mas não se deve descartar uma fusão das nações banto. Ela aplica-se também a outras nações do candomblé:

 

“E temos hoje a geração da família de Angola,que nasceu do Bate Folha, com Maria Neném, que foi a fundadora, e depois com o finado Bernardino. E hoje têm os segmentos: o Bate Folha, o Bate Folhinha e o Folhinha do Angola.Então, hoje, já têm três segmentos dos

E hoje têm os segmentos: o Bate Folha, o Bate Folhinha e o Folhinha do Angola.Então,

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  com o caboclo. Está aí rezando, o caboclo vinha e tinha que saudar o
 

com o caboclo. Está aí rezando, o caboclo vinha e tinha que saudar o Angola, que o inkice do Angola é como se fosse Orixá. Só que ele é um

inkice e fala. Ele só muda a tradição da srcem da nação.” (Pai Ari, Salvador, Bahia.) Em síntese, o candomblé é uma religião iniciática, de tradição oral, centrada no culto aos orixás. Os orixás são um princípio imaterial representado pelo axé, a força que se relaciona com diferentes forças da natureza, com cores distintas e com um sistema de atitudes transmitido por romances que narram a vida dos orixás. Cada terreiro tem sua comunidade moral composta pelos integrantes do axé da casa; na nação Keto, denomina-seegbé. Apesar das diferenças quanto às tradições e aos sistemas de nomes, o sistema de representações é semelhante. À medida que passamos das tradições iorubas, como Keto, às tradições banto, como Angola, os elementos do culto aos antepassados e a presença de outros tipos de entidades acentuam-se. Os limites difusos entre o candomblé e outros cultos espiritistas tornam-se mais nítidos na umbanda, nas macumbas e em outras variantes como a kimbanda. Os terreiros organizam-se em diversos segmentos de acordo com a linhagem estabelecida pelo “parentesco no santo”. Por outro lado, esses segmentos organizam-se em nações que agrupam as diferentes tradições do culto aos orixás. O candomblé poderia ser considerado um dos núcleos duros da tradição afro-brasileira.

do culto aos orixás. O candomblé poderia ser considerado um dos núcleos duros da tradição afro-brasileira.
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  Egum: culto aos antepassados Entre as diversas tradições do candomblé, abordaremos,mais uma vez, a
 

Egum: culto aos antepassados

Entre as diversas tradições do candomblé, abordaremos,mais uma vez, a nação Keto e um de seus segredos revelados nesta pesquisa. Bastide (1961:167-ss), na sua apresentação do candomblé, divide a religião em quatro partes diferenciadas: o culto aos orixás, nas mãos de babalorixás e ialorixás; o conhecimento das plantas e das folhas, sob responsabilidade do babaossain;a adivinhação do Ifá, nas mãos do babalaô; e o culto dosEgum, cujo sacerdote é o ojé. Para Bastide, tal sacerdócio corresponde a uma estrutura quatripartite do mundo:

deuses, homens,natureza e os mortos ou a linhagem. Na análise desses diferentes sacerdócios, Roger Bastide é enfático ao comentar as dificuldades encontradas na obtenção de informações sobre os terreiros de Egum.

“O culto dos Egum pertence, na Bahia, à Sociedade dos Egum, e esta sociedade, aqui, como na África, é uma ‘sociedade secreta’. De duas, uma: interrogam-se exteriormente alguns dos membros, que não dão senão poucas informações e logo se refugiam no silêncio, ou então penetra-se na sociedade, mas fica-se prisioneiro da lei do segredo. A morte é a condenação de todos os que violam os mistérios dos Egum.(Bastide, 1961: 169-170) Os Egum representam o espírito dos antepassados, são os sacerdotes mortos que retornam depois de sete anos para indicar seu sucessor. Na complexa trama do parentesco ritual estabelecida pelo candomblé, “o parentesco no santo” permite construir linhagens ou segmentos nas diferentes nações. OsEgum permitem construir outras genealogias, que têm como referências os espíritos dos antepassados. Durante uma entrevista com o Pai Balbino, ao ser indagado quanto aos seus ascendentes africanos, ele respondeu:

“Nunca ninguém estudou de onde veio na África. O povo era muito ignorante, não sabia

dessas coisas. Eu encontrei famílias da gente lá, num lugar que se chama Uidá, a família do Daniel de Paula. E também tem ‘Kute Babá Egum’ nesse lugar. Mas isso foi uns doze anos

atrás. (

)

Os antigos passavam só a religião mesmo. Esse povo da geração de meu pai era

tudo ignorante e eles não ligavam para esse tipo de coisa. Eles morriam, e a gente não sabia como se chamava o bisavô, nem o tataravô. Eles não falavam, eles eram muito fechados. Não conversavam nada não. Eles só contavam essa parte de Egum. Você sabe o que é Baba Egum?”(Pai Balbino, Alapini, terreiro Ilê Axé Opô Aganju, Lauro de Freitas, BA.)

de Egum. Você sabe o que é Baba Egum?” (Pai Balbino, Alapini, terreiro Ilê Axé Opô

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  Da descriminalização às políticas de reconhecimento   Durante muito tempo, em lugar de respeito
 

Da descriminalização às políticas de reconhecimento

 

Durante muito tempo, em lugar de respeito e tolerância para com o candomblé, a política pública foi norteada pela repressão. O candomblé foi reprimido,principalmente durante a época de Vargas e do Estado Novo.Entre 1930 e 1950, as reuniões eram freqüentemente reprimidas pela polícia, e os praticantes do culto eram presos, humilhados e discriminados. Pesquisadores do início do século XX, como Nina Rodrigues e Arthur Ramos, criaram suas coleções de peças de cultos afro-brasileiros a partir do material apreendido pela polícia em suas operações nas casas de candomblé. A mesma srcem tiveram as peças que compõem o acervo de vários museus, como o Museu de História de Alagoas.A discriminação e a posterior descriminalização do culto permanecem vivas na memória dos mais velhos.

“A gente era discriminada em todos os sentidos, o candomblé era discriminado em todos os sentidos. Primeiro, anos atrás, nós não tínhamos a liberdade que se tem hoje.A polícia perseguia, os moleques abusavam, pessoas de posição mais elevada não queriam ser do

candomblé, porque achavam que era

como é que se diz?

era coisa para gente pequena,

coisa para gente muito baixa, inclusive diziam que era “negragem”, tá entendendo?

 

Porque ninguém tinha coragem, a gente era apedrejada, as gentes eram massacradas, a gente andava correndo. Quem chegou agora não alcançou isso, mas eu alcancei. Por isso que as casas, os terreiros grandes de candomblé, todos são distantes da cidade, porque não se podia fazer festas no centro.

Hoje aqui eu abro, é pequenininho, deste tamanho, mas abriga terreiro, eu registrei, tem obrigação, tudo bem, mas assim mesmo ainda tem quem persiga o candomblé. Aqui mesmo já teve quem dissesse que daria queixa de mim na polícia porque eu estava tocando. Eu

toquei dois dias das cinco da tarde às onze da noite e já estava incomodando.Mas depois, em conversa, fiquei sabendo que foi um crente [o que deu queixa]. Inclusive, os evangélicos são os que mais nos perseguem. Hoje a polícia nos deixou em paz, o governo nos deixou em paz, não tem mais ordem para ninguém prender ninguém, nós temos defesas porque já

foi criado

antes não tinha essa federação do afro. Hoje nós temos a Federação, que

qualquer problema que tenha, nós podemos ir lá, e eles tomam providência, e aquilo vai ser apurado, mas ainda continua a perseguição, porque o evangelismo nos persegue.

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providência, e aquilo vai ser apurado, mas ainda continua a perseguição, porque o evangelismo nos persegue.
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Tem um provér “Quando um ido é como se uma se incendiasse”.

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Maracatu Nação do Recife:

tradições afro-brasileiras e déficit de política social na periferia das metrópoles

A terceira etapa da pesquisa centrou-se na população negra das periferias

das cidades de grande porte. Em relação aos resultados obtidos nas duas

primeiras etapas, nos terreiros de candomblé, em Salvador,e nos quilombos

e na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em

Minas Gerais, considerou-se oportuna,de acordo com a coordenação da pesquisa, a realização do terceiro trabalho de campo na cidade do Recife, tendo como alvo a população que participa dos Maracatus-nação.

Assim como o Rio de Janeiro tem suas escolas de samba, Recife tem seus maracatus. Os Maracatus-nação são de tradição afro-brasileira, e suas sedes localizam-se na periferia da cidade, nos bairros populares, onde se concentra a população negra da cidade.As representações em torno dessa expressão cultural permitem compreender melhor certos aspectos da tradição cultural africana, registrados nas etapas anteriores.As sedes dos Maracatus-nação são instituições tradicionais que apresentam princípios de organização social semelhantes aos observados nos terreiros de candomblé

e

na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.Por outro lado, ao comparar

as

comunidades remanescentes de quilombos com as populações das

periferias das grandes cidades, destaca-se o déficit de políticas de Previdência e Assistência Social no último grupo. Pela composição da população e pela informalidade dos vínculos de trabalho, a população tem menor cobertura previdenciária, e são poucos os que têm benefícios de prestação continuada.

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  O Maracatu-nação   Concentremo-nos no Maracatu-nação, também conhecido como maracatu de baque virado.
 

O Maracatu-nação

 

Concentremo-nos no Maracatu-nação, também conhecido como maracatu de baque virado. Esse maracatu é de tradição urbana, ancorado em elementos culturais afro-brasileiros de tradição banto. O maracatu rural é um fenômeno mais recente, que traz manifestações do interior do estado, da zona da mata e que tomou emprestados elementos do maracatu tradicional. Diferenciam-se também no ritmo, daí a denominação baque virado para o maracatu tradicional, e baque solto para o maracatu rural.

O

Maracatu-nação é um fenômeno urbano, localizado geograficamente na zona norte do

Recife, em bairros com população majoritariamente negra. Neles,concentra-se a população

 

de

baixa renda, grande parte com emprego informal ou desempregada. Esses bairros sofrem

problemas de saneamento, apresentam déficit de assistência e políticas sociais e baixo índice de escolaridade. Existem ali altos índices de criminalidade, tráfico de drogas e óbitos

 

relacionados à violência. Com um pano de fundo católico, uma parte da população alinha-se sob cultos afro-brasileiros, e outra porção dela converteu-se aos cultos protestantes.A

polaridade entre crentes e praticantes do Xangô e da Jurema orienta as relações sociais. Na seção anterior,descrevemos diferentes variações do candomblé na Bahia, as quais servirão

de

base para entender a variação Xangô-Nagô, nação predominante em Recife, e suas

vinculações com o Maracatu-nação.

 

Na

introdução do livro Maracatus do Recife (Guerra Peixe, 1980),o editor e diretor

executivo da Fundação de Cultura da cidade do Recife realiza uma sintética descrição do

 

maracatu, uma definição,por extensão, de como se apresenta aos olhos de quem assiste ao desfile de carnaval:

 

“O Maracatu é apenas um cortejo. Um cortejo de coroação,onde as figuras do Rei e da Rainha destacam-se de todo o préstito: dois ou mais lampiões de carbureto, duas negras trazendo as calungas (damas-do-paço), arqueiros, baliza, porta-estandarte (embaixador), damas de frente, personagens da corte em dois cordões de baianas, soberanos (Rei e Rainha) protegidos pela umbela, que é conduzida por um escravo,lanceiros e batuqueiros, que vêm fechar o cortejo real.” (Guerra Peixe, 1980:4)

 

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  A festa da calunga Uma vez por ano, realiza-se a festa da calunga. No
 

A festa da calunga

Uma vez por ano, realiza-se a festa da calunga. No dia de nossa visita ao Maracatu Nação Porto Rico, presenciamos a festa da calunga Princesa Isabel. O início da cerimônia é similar às festas de candomblé. As pessoas vão chegando e concentrando-se no barracão onde já estão soando os atabaques nas mãos de ogãs do terreiro. São os mesmos jovens que participam do maracatu. O segmento do candomblé a que pertence o terreiro, assim como a nação Keto,toca os atabaques com baquetas, quando a batida é para o orixá. Um dos detalhes que chama a atenção é o fato de os atabaques serem tocados com as mãos. No centro do salão, as iaôs dançam em um círculo, em sentido anti-horário. Quando chegam as ialorixás, principalmente as de maior idade, sentam-se em cadeiras mais confortáveis e recebem o pedido da benção por parte dos mais jovens e de menor hierarquia. Aos poucos, somam-se à roda no centro do terreiro,onde continuam participando de um sistema no qual as saudações e as “benzas” refletem as hierarquias do terreiro.

Dona Elda, ialorixá do terreiro, sai da dança e, com um movimento de cumplicidade e escusa, mostra o joelho esquerdo inflamado. Não posso deixar de lembrar o joelho da calunga Dona Inês, detalhadamente deformado. Volta para a roda. Os tambores soam mais freneticamente. Iaôs e ialorixás começam a encarnar os espíritos. As posições das mãos, espasmos, movimentos marcados são sinais do estado de transe. Aos poucos, as pessoas em estado de transe são levadas pelas ekedesao quarto onde serão vestidas e

estado de transe. Aos poucos, as pessoas em estado de transe são levadas pelas ekedes ao
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  As sedes dos maracatus e a população da periferia Na atualidade, o maracatu tem
 

As sedes dos maracatus e a população da periferia

Na atualidade, o maracatu tem sua mais importante apresentação no carnaval da cidade do Recife. Os diferentes maracatus apresentam-se durante os três dias de folia, desfilam na passarela e participam do concurso que indicará a agremiação campeã. O carnaval, como acontecimento extraordinário, vem coroar os esforços realizados nas sedes durante todo o ano para a apresentação na passarela. Na sede do maracatu, ocorrem a confecção das fantasias exibidas pela

corte real, os ensaios gerais – realizados poucos dias antes do desfile – e

os

ensaios dos batuqueiros, intensificados nos meses que antecedem ao

carnaval. Na sede, freqüentemente,funciona também um terreiro de Xangô e/ouJurema.

A

sede do maracatu, muitas vezes,funciona na casa do “dono” do

maracatu, que pode ser a rainha, o presidente, o diretor ou a pessoa que organiza as atividades da agremiação. O ideal, para alguns dos entrevistados,

seria que cada maracatu funcionasse em uma casa própria em seu bairro. Nos maracatus visitados, os barracões funcionam na casa de quem os organiza. Em algumas ocasiões, o terreiro,construído junto a casa, serve de lugar de ensaio. Quando não dispõem de terreiro e funcionam na casa do organizador,a alternativa é organizar o batuque na rua. As ruas da periferia, visitadas durante o trabalho de campo, contrastam com o resto da cidade pelo escasso número de carros e pela grande quantidade de pedestres: pessoas sentadas na calçada, nas mesas dos botecos, ou simplesmente paradas às portas das casas, conversando e tomando um ar fresco ao final do dia.As crianças brincam na rua, jogam bola, mas,quando o baque do maracatu começa a soar,aglomeram-se para brincar e dançar.Muitos dos maracatus oferecem aulas de percussão para

as

crianças do bairro.Em outros, como no Maracatu Nação Cambinda

Estrela, para estar no batuque os jovens têm de freqüentar a escola.

bairro.Em outros, como no Maracatu Nação Cambinda Estrela, para estar no batuque os jovens têm de
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Temas

cruzados:

tradições afro-brasileiras e Previdência Social

O

princípio que orientou a pesquisafoi o da tradição cultural como resistência e como forma

de

organização social. A negritude não pode ser reduzida à cor da pele, nem a política social

pode ser pensada como se pensava a modernidade antigamente, inscrita sobre uma tábula rasa. O desafio é formular uma política que tenda à universalização dos benefícios e contemple a diversidade das tradições culturais. Observamos a presença ativa dos aposentados nas diversas instituições: aposentados rurais nas comunidades remanescentes de quilombos, aposentados como ministros de ordem religiosa nos candomblés, funcionários públicos e autônomos nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário.

O sistema previdenciário foi instituído há mais de oitenta anos no Brasil. Inicialmente

pensado para operários brancos urbanos e, por que não, católicos, só recentemente foi

reconhecido o direito dessas populações negras aos benefícios previdenciários: a aposentadoria rural, que se fez extensiva na Constituição de 1988; a aposentadoria para as baianas do acarajé, reconhecidas como trabalhadoras autônomas na década de 90; e a aposentadoria para os pais-de-santo, ebômins, como ministros de ordem religiosa, no ano

2000.

O principal déficit de políticas previdenciárias localiza-se nas periferias das grandes cidades,

onde mora uma população urbana majoritariamente negra, com altos índices de desemprego e trabalho informal. Em um país como o Brasil, onde a pobreza é negra, o principal desafio é pensar uma política previdenciária não-bismarckiana, orientada para essas

populações que, do ponto de vista do Ministério da Previdência Social, poderiam estar enquadradas na situação de risco social. Um olhar orientado pela tradição cultural acerta em cheio as populações excluídas das políticas sociais. Nesse sentido, as instituições analisadas podem constituir-se em importantes parceiras para a ampliação da cobertura do sistema previdenciário. O reconhecimento das tradições favorece o fortalecimento e a auto-estima desses grupos. Sem reconhecimento reproduz-se a situação de invisibilidade e de exclusão sofrida por estes grupos.

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JJJJJeeeeejjjjjeeeee ///// MMMMMaaaaarrrrr rrrrriiiiimmmmm Acicinacaba: Vodum. Açobá:Título deAziri. Açoinodum: todos os voduns juntos. Adamachiô: iniciador do cântico. Adunoblé: nome de Averequete. Adunxo: nome de iniciado de Azoane. Agajá Maçan: nome do Vodum. Agonglô: Vodum real. Ainã,Airoço: título de Xapatá. Ajunto, Ajato, Junto: espécie de anjo da guarda.

Alafrequetiana: Aladanu: nome de nome Ajantó. do cântico Averequete. Alogue:Vodum da família de Dambirá. Aloje: bracelete de Xapatá. Alopé,Aloque: pedido de benção (sic). Arronoviçavá:Vodumda família de Dariece, irmão de Noedona. Aseto: altar dos voduns. Assem,Axé: os objetos sagrados, o fundamento do terreiro. Ataxô: nome de Leba. Atigã: Zelador do atim. Atimlocô: gameleira branca. Atinsá: árvore consagrada a um vodum, matagal. Atinsen: nome do ronko. Avamunha: toque de atabaque. Axegã: zelador do axé. Babá: pai (Fon:Bábá) Bacanão: sacerdote (Fon: boko nó)

Badê: quni-oço título (Fon: de gbáde). Sobô-Badê Vodum família de Bagono, Bagone, Bagalo:Vodum de família de Dambirá. Bajigan: a mesma coisa que Axogum. Baranatô: nome iniciativo de Zomadonu

Bagone, Bagalo:Vodum de família de Dambirá. Bajigan: a mesma coisa que Axogum. Baranatô: nome iniciativo de

(Fon:Bábáwato). Barriseton: iniciatório de Averequete. Cota Guaré:Título de entidades de chefes religiosos. (Fon: Senhor Bará Leba). Dejô: Ekedi Derê: mãe pequena Dioroji: Família da Nice (Fon: Basuhô Gedeji). Dote: mãe-de-santo Gaiakú:mãe-de-santo Mutô: Ogan Pejigan: zelador do Peji. Rombono: pai-de-santo Ruedô: saudação para Besseim.

Umbanda Babãs: mãe-de-santo Cambando: autoridade com cargo de homem ou Ogan. Cambas: todos os filhos. Ganga: pai-de-santo Mucamba: autoridade com cargo (Ekedi).

Obs.:As Cambas só poderão abrir templos de Umbanda, após a obrigação de 7 anos, ou

seja, o cargo. (

)

EEEEEggggguuuuummmmm Alabá: espécie de pai pequeno. Alagba Osi: auxiliar 3ª pessoa. Alagba Otum: auxiliar 2ª pessoa. Alágba: chefe ou sacerdote Ojé. Alapini: cargo supremo Amuichan: cargo de iniciação na nação Baba Egum. Ojé: cargo de Ebomi, pessoa com sete anos de iniciada em Baba Egum. Osi Alabá: 3ª pessoa. Otum Alabá: 2ª pessoa.

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Este livro foi composto nas fontes Century Schoolbook 11/14 e GillSans 11/14, miolo impresso em
Este livro foi composto nas fontes Century Schoolbook 11/14 e GillSans 11/14,
miolo impresso em papel sappi 150 g/m 2 , capas em papel Couché 120 g/m 2 revestido
de papelão pinho, e sobrecapas em couché 150 g/m 2 , com tiragem de 5.000 exemplares,
entre os meses de outubro e novembro de 2006.