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COORD. Prot. Dr. Joã(· ·:~"ü.sta·Maruns

Liev S. Vigotski

TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Tradução CLAUDIA BERLlNl:1\

Martins Fontes

São Paulo

2004

Liev S. Vigotski TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA Tradução CLAUDIA BERLlNl:1\ Martins Fontes São Paulo 2004
IIIIIIIIIIIIII Esta ohra foi puhlicada origino/menIr em russo com o título SOBRANIA SOTCHINENII TOM VTOROI.
IIIIIIIIIIIIII Esta ohra foi puhlicada origino/menIr em russo com o título SOBRANIA SOTCHINENII TOM VTOROI.
IIIIIIIIIIIIII Esta ohra foi puhlicada origino/menIr em russo com o título SOBRANIA SOTCHINENII TOM VTOROI.

IIIIIIIIIIIIII

Esta ohra foi puhlicada origino/menIr em russo com o título

SOBRANIA SOTCHINENII TOM VTOROI. PROBLEMI OBCHEI PSIKHOLOGUII

por Editorial Pedagógui/

a,

Moscou. em /982.

Copyrighl © Editoriol Pedagóguika, Moscou. 1982.

Copyright © /996, LiITaria Marfill.~ FOl1tes Editora Lula

São Paulo, paro a presenre ediçao.

lª edição

maio de /996

3 11 edição

julho de 2004

Tradução

CLAUDIA BERLlNER

Revisão da tradução Ebra Arantes Revisões gráficas

Maria da Penha Faria (Tuca) Maria Cecília Vallllllcchi

Produção gráfica

Geraldo A/\'('.\'

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)

Vygotsky, Lev Semenovitch. 1896-1934. Teoria e método em psicologia / Lev Semenovilch Vygotsky ; tradução Claudia Berliner. - 3 u ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2004. - (Psicologia e pedagogia)

Título original: Sobrania sotchinenii tom vtoroi : prohlemi obchei psikhologuii. Bibliografia

ISBN 85·336·2018-7

1. Psicologia - Teoria, métodos etc. J. Título. 11. Série.

04-4190

índices para catálogo sistemático:

I. Sistemas psicológicos

150.92

Todos os direi/os desta edição para a língua portu/?uesa reseITados à

Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Rua Conselheiro Ramalho, 330 0/325-000 São Paulo SP Brasil Te/. (11) 3241.3677 Fax (11) 3105.6867

e-maU: info@marlimfolltes.com.h,. h//p:llw\-1·\-1·.rnarfin.~1"ontes.c(}m.hr

íNDICE

Primeira Parte

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

Os métodos de investigação reflexológicos e psicoló­ gicos

Psicologia geral e experimental (Prólogo ao livro de

A. F. Lazurski)

A consciência como problema da psicologia do com­

portamento Sobre o artigo de K. Koffka "A introspecção e o método da psicologia". A título de introdução

O método instrumental em psicologia

Sobre os sistemas psicológicos

A psique, a consciência, o inconsciente

Desenvolvimento da memória (Prefácio ao livro de A.

N.

Leóntiev)

O

problema da consciência

A

psicologia e a teoria da localização das funções

psíquicas

3

33

55

87

93

103

137

161

171

191

e a teoria da localização das funções psíquicas 3 3 3 5 5 8 7 9

Segunda Parte

O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA. UMA INVESTIGAÇÃO METODOLÓGICA

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lUUUIUgILd
DA PSICOLOGIA. UMA INVESTIGAÇÃO METODOLÓGICA lUUUIUgILd Uma 2 0 3 Nota de apresentação da edição ongll1al

Uma

203

Nota de apresentação da edição ongll1al em russo

421

de introdução sobre o trabalho criativo de L. S. Vigotski, por A. N. Leóntiev

425

Epílogo, por M. F. Iarochevski e G. S. Gurguenidze

471

Biblíografia cilada

517

Abreviações utilizadas para indicar os responsáveis entre colchetes do texto e notas de pé de página:

entre colchetes do texto e notas de pé de página: L.V. - Vigotski N.R.R. Nota do

L.V.

-

Vigotski

N.R.R.

Nota do revisor russo

R.R

-

Revisor russo

N.R.E. - Nota do revisor espanhol

R.E.

Revisor espanhol

N.T.E.

Nota do tradutor espanhol

N.E.B Nota do editor brasileiro

11111111111111111111

R.E. Revisor espanhol N.T.E. Nota do tradutor espanhol N.E.B Nota do editor brasileiro 11111111111111111111

1111111111111111111111111111

OS MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO REFLEXOLÓGICOS E PSICOLÓGICOS·

do homem

chegaram agora a um ponto de inflexão em seu desenvolvi­ mento. A necessidade (e a inevitabilidade) dessa virada deve­ se à desproporção que existe entre, por um lado, a imensa tarefa de estudar a totalidade do comportamento humano a que se propunha a reflexologia e, por outro, os modestos e escassos meios que para sua resolução proporcionava o experimento clássico da formação do reflexo condicionado (secretor ou motor). Ess't desproporção manifesta-se cada vez com mais clareza à medida que a reflexologia l passa do estu­ do das relações mais elementares do homem com o meio ambiente (a atividade que responde às formas e fenômenos mais primitivos) à investigação de interações muitíssimo com­ plexas e variadas, sem as quais não se pode decifrar o com­ portamento humano em suas leis mais importantes.

Os métodos de

• "Metódika ret1eksologuítcheskovo i psikhologuítcheskovo isliédovania". Este artigo foi escrito baseando-se na comunicação que L. S. Vigotski apresen­ tou no Ir Congresso Nacional de Psiconeurologia em Leningrado. a 6 de janei­ ro de 1921. e foi publicado na coleção "Problemas da psicologia atual" sob a redação de K. N. Kornílov. Moscou, 1926. 1. P;;r;; Vigotski, e segundo o ponto de vist;; impemnte em su;; época, a a rejlexologia compunha-se dos postulados de V. M. Békhterev sobre os ret1e­ xos concatenados (como aquelas reações de respost;; do organismo a estímu­ los externos em situações experimentais) e dos postulados de I. P. Pávlov sobre os ret1exos condicionados. (N.R.R.)

los externos em situações experimentais) e dos postulados de I. P. Pávlov sobre os ret1exos condicionados.

4 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Nesse sentido, para além do elementar e primitivo, só restou para a reflexologia a afirmação geral e estrita, aplicá­ vel igualmente a todas as formas de comportamento, de que estas são constituídas por um sistema de reflexos condicio­ nados. Mas essa afirmação excessivamente geral não levou em conta as particularidades específicas de cada sistema, nem as leis que regem a combinação dos reflexos condicio­ nados no sistema de conduta, nem as complcxíssimas intera­ os reflexos de uns sistemas sobre os outros, nem um caminho para a científica dessas Disso decorre o caráter declarativo e esquemático dos trabalhos reflexológicos quando se propõem resolver os do comportamento do homem em vertentes mais ou menos complexas. A reflexologia clássica mantém-se em suas investigações dentro de um princípio científico universal darwiniano, redu­ zindo tudo ao mesmo denominador comum. E, precisamente por ser excessivamente geral e universal, esse princípio não oferece à ciência um meio direto para julgar suas formas'par­ ticulares e individuais. No fim das contas, também resulta impossível para a ciência concreta do comportamento huma­ no limitar-se a assim como uma física concreta não pode se limitar apenas ao princípio da gravidade universal. São necessárias balanças, aparelhos e métodos especiais para co­ nhecer o mundo terreno concreto, material, limitado, sobre a base de um princípio geral. O mesmo ocorre com a reflexo­ logia. Tudo leva a ciência do comportamento do homem a sair dos limites do experimento clássico e procurar outros meios de conhecimento. Não só já se manifesta claramente uma tendência à am­ da metodolOl:!:Ía reflexológica, mas perfilam-se as deve seguir: uma maior aproxi­ mação e, em última instância, a fusão definitiva com os pro­ cedimentos de investigação estabelecidos há muito tempo na psicologia experimental. Embora isso pareça paradoxal no que se refere a disciplinas tão opostas e embora não unanimidade entre os próprios reflexólogos, que avaliam de formas muito diversas a psicologia experimental. apesar de

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

5

tudo isto essa fusão, ou seja, a criação de uma metodologia única de investigação do comportamento humano e, por conseguinte, de uma disciplina científica única, pode ser considerada como um fato que está se produzindo ante nos­ sos próprios olhos. A breve história dessa aproximação é a Ini­ a excitação elétrica cutânea realizava-se na planta do com o que se provocava um reflexo de defesa na do mesmo, ou nele todo. Posteriormente, V. P. Proto­ pópov 1 introduziu uma importante modificação no procedi­ mento: substituiu o pé pela mão, supondo que seria muito mais vantajoso escolher a mão como critério precisamente por ser esta um aparelho de resposta mais elaborado, mais adaptado do que o pé às de orientação sob influên­ cia do meio ambiente. E apóia com argumentos extraordina­ riamente convincentes a importância que tem a a escolha adequada do aparelho de resposta. evi­ dente que se escolhemos num gago ou num surdo seus órgãos articulatórios como aparelho de resposta, ou aquela extremidade de um cachorro que corresponda a um centro motor cortical que tenha sido extirpado ou, em geral, um aparelho pouco ou mal adaptado ao tipo de reação que se espera (como é o pé de uma pessoa com os movimentos preensores), avançaremos muito pouco no estudo da dez, da exatidão e da perfeição da orientação. embora se mantenham intactas as analisadora e combinatória do sistema nervoso. "Com efeito, nossos experimentos tor­ naram evidente diz Protopópov que a formação dos reflexos condicionados é alcançada com maior rapidez nas mãos, assim como também se obtém antes a diferenciação e se mantém de maneira mais consistente" 0923, p. 22). Nes­ se sentido, a metodologia de experimentação

p. 22). Nes­ se sentido, a metodologia de experimentação 2. Protopópov, Viktor Pávlovich (1880-1957). Psiquiatra
p. 22). Nes­ se sentido, a metodologia de experimentação 2. Protopópov, Viktor Pávlovich (1880-1957). Psiquiatra
p. 22). Nes­ se sentido, a metodologia de experimentação 2. Protopópov, Viktor Pávlovich (1880-1957). Psiquiatra

2. Protopópov, Viktor Pávlovich (1880-1957). Psiquiatra soviético. Desenvolveu os princípios e métodos de prevenção, profilaxia e tratamento das psicoses. As invest!gaçõcs de Protopópov no campo (k1 filosofia e da pato­ logia da atividade nervosa superior do homem facilitaram a introdução na psi­ quiatria da doutrina de J. P. Pávlov sobre os reflexos condicionados. (N.R.R)

6 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

começa a se parecer bastante com a psicológica. O

pode colocar com facilidade a mão sobre a mesa e os dedos

se

passa a

corrente elétrica. Por conseguinte, se no estudo dos reflexos do homem formos além do princípio e nos colocarmos o objetivo de estudar os distintos tipos de reação que determinam o comportamento, a escolha do órgão que terá de reagir será um fator de importância decisiva. Como disse Protopópov, "o homem e o animal dispõem de numerosos aparelhos de resposta, mas sem dúvida aos excitantes hetero­ gêneos do meio ambiente com os mais desenvolvidos ou mais bem adaptados ao caso em questão" (ibidem, p. 18). "O homem foge dos perigos com os pés, se defende com as mãos etc. Naturalmente, pode-se desenvolver no um re­ flexo combinado de defesa, mas se o que devemos investi­

gar não é apenas a função combinatória que realizam por si

mesmos os grandes hemisférios [= princípio geral

também estabelecer o grau de rapidez, exatidão e r.", da orientação, o aparelho de resposta que se escolherá para a observação não será indiferente" Mas quando dizemos a, também é preciso dizer b. Protopópov se vê obrigado a reconhecer que tampouco se pode deter aqui a reformulação. "O homem possui um apa­ relho eferente muito mais desenvolvido que a mão no mes­ mo âmbito motor e com ajuda dele estabelece uma comuni­ cação indubitavelmente muito mais ampla com o mundo que o rodeia: refiro-me aqui aos órgãos articulatórios. Considero perfeitamente possível e conveniente que as investigações reflexológicas passem a partir de agora a utili­ como objeto, considerando-a como um fato das condições de comunicação que determinam a inter-relação do homem com o meio circundante através de sua esfera motora" (ibidem, p. 22). Que se deva considerar a fala como um sistema de reflexos condicionados é algo que não é necessário repetir, pois para a reflexologia isso constitui uma verdade quase evidente. São também eviden­ tes as vantagens que proporcionará à reflexologia a utiliza-

em contato com a

através da

L.V.], mas

t~.ir?i"

com a a t r a v é s d a L.V.], mas t~.ir?i" PROBLEMAS TEÓRICOS

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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ção da fala para e

nos a estudar. Portanto, no que se refere ao aparelho de resposta, já não existem desacordos e divergências com a psicologia. I. P. Pávlov assinalava as vantagens da escolha precisamente

do reflexo de secreção da saliva nos cachorros, sabendo que

é a menos arbitrária. Isso era extraordinariamente importan­

te enquanto se tratasse de descobrir o próprio princípio dos reflexos condicionados, da "salivação psíquica" que se pro­

duz ao ver a comida. Mas as novas tarefas exigem também novos meios, os avanços obrigam a mudar de rota.

O segundo e mais importante fato consiste em que a própria metodologia da reflexologia tropeçou com determi­ nados fatos que qualquer criança conhece perfeitamente. O processo de diferenciação do reflexo no indivíduo nào é conseguido rapidamente. Muito tempo transcorre antes que

o reflexo que se formou passe de a diferencia­

do, isto é, para que o homem aprenda a reagir apenas ao excitante principal e para que a reação se iniba ante os estra­ nhos. "Resulta, portanto [o grifo é meu L. V.l, que ao se agir sobre o sujeito com as palavras adequadas pode-se favorecer tanto a inibição quanto a excitação das reações condiciona­ das" (ibidem, p. 16). Se explicar-se a um sujeito que·somente um determinado som aparecerá combinado com a corrente elétrica e os restantes não, a discriminação se produzirá de imediato. Com a ajuda da palavra podemos provocar a inibi­ çào e o reflexo condicionado ao excitante principal e inclusi­ ve pode-se provocar o reflexo não-condicionado à corrente:

basta dizer ao sujeito para não afastar a mão. Por conseguinte, na metodologia do experimento intro­ duz-se "a palavra adequada" para formar a discriminação. Esse mesmo meio serve nào apenas para conseguir a inibi­ ção, mas também para despertar a atividade reflexa. "Se dis­ sermos verbalmente ao sujeito que afaste a mão ante um certo sinal", o efeito não será pior do que quando afasta a mão ao passar corrente pela placa. Protopópov supõe que sempre provocamos a desejada. É evidente que, sob

o oonto de vista reflexológico, o fato de afastar a mào por

a desejada. É evidente que, sob o oonto de vista reflexológico, o fato de afastar a

o círculo dos fenôme­

8 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA intermédio de um acordo verbal estabelecido com o é

8 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

intermédio de um acordo verbal estabelecido com o

é um reflexo condicionado. E toda a entre essa condicionada e outra elaborada a partir do reflexo à corrente se decide dizendo que neste caso nos encontramos diante de um reflexo condicionado secundário, ao passo que no outro se tratava de um primário. Mas Protopópov também reconhece que essa circunstância fala, na verdade,

a favor dessa metodologia. indubitável

futuro a investigação retlexológica sobre o homem deverá se realizar fundamentalmente com a ajuda de retlexos C()Il­ dicionados secundários" (ibidem, p. 22). E, contudo, não é evidente que serâo precisamente os ref1exos de ordem su­

perior que desempenharâo um papel importantíssimo, tanto quantitativa como qualitativamente, no comportamento do homem durante a e que serão precisamente eles que explicarão o comportamento em sua estática e em sua dinâmica? Mas com estas duas suposições: 1) a excitação

e a limitação (discriminação) de reação com a ajuda de ins­ truções verbais; e 2) a utiliza~~ão de todo tipo de

inclusive a verbal, da palavra, entramos em cheio no campo da metodologia da psicologia experimental. No histórico artigo citado, V. P. Protopópov detém-se por duas vezes nesse ponto. Diz ele: "A organização dos

experimentos nesse caso

que se utiliza há algum tempo na psicologia para investigar a denominada reação psíquica seguir, introduzem-se "as mais diversas modificações na organização dos por exemplo, cabe utilizar com fins retlexológicos o denominado experimento associa­ tivo L.) e, ao fazê-lo, nâo levar em conta apenas o objeto mas descobrir também as marcas de excitações anteriores, inclusive as inibidas" (ibidem). Apesar de alto conceito em que tem os experimentos psi­ cológicos, apesar de realizar tão decididamente a passagem do experimento reflexológico clássico à riquíssima diversida­

de da experimentação psicológica, ainda vedada aos fisiólo­ gos, e apesar de traçar com enorme audácia novos caminhos

e métodos para a retlexologia, Protopópov deixa no ar dois

diz ele

que no

) é absolutamente idêntica à

no ar dois diz ele que no ) é absolutamente idêntica à PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

9

pontos extraordinariamente importantes, a cuja fundamenta­

ção e defesa está dedicado o presente artigo.

O primeiro se refere à técnica e os métodos de investi­

gação, e o segundo aos princípios e objetivos das duas .ciências. Ambos estào estreitamente ligados entre si e com os dois relaciona-se um equÍvoco importante que obscurece

o problema. A aceitação desses pontos ainda não esclareci­

dos impõe-se tanto pelas conclusôes logicamente inevitáveis das teses reflexológicas já quanto pelo próximo pas­

so, que se dará em método adotou.

O que é que ainda falta e que impede que a metodolo­

experimental fisiológica e a reflexológica coincidam e se fundam definitiva e totalmente? Tal como o formula Proto­ pópov, falta apenas uma coisa: o interrogatório do sujeito,

seu informe verbal sobre o curso de alguns aspectos dos processos e as reações, aos quais os experimentadores nào podem ter acesso de outra forma do que através do testemu­ nho do próprio indivíduo objeto do experimento. É aqui que parece estar encerrada a essência da discrepância, uma dis­ que a reflexologia não hesita em converter numa decisiva e de

Esse fato está relacionado com o segundo ponto, o rela­ tivo aos objetivos de ambas as ciências. Protopópov nào fala uma única vez do interrogatório do sujeito. V. M. Békhterev\ (1923) diz reiteradamente que, sob o ponto de vista reflexológico, a investigação subjetiva só é admissível quando é feita pela própria pessoa. No entanto,

interrogatório do sujeito é necessário precisamente sob o ponto de vista da integridade da De fato, o comportamento do novas reflexas são não apenas pelas

a que conduz a

do novas reflexas são não apenas pelas a que conduz a o 3. Békhterev, Vladímir Mikháilovich
do novas reflexas são não apenas pelas a que conduz a o 3. Békhterev, Vladímir Mikháilovich

o

do novas reflexas são não apenas pelas a que conduz a o 3. Békhterev, Vladímir Mikháilovich

3. Békhterev, Vladímir Mikháilovich (1867·1927). Fisiólogo, neurólogo c psicólogo russo. Criador da doutrina sobre o comportamento como um siste~ ma de reflexos. a partir dos quais se constitui a atividade, tanto psíquica quan­ to social. das pessoas. Deu a essa doutrina o nome de psicologia objetiva, depois de psico-reflexologia e, lInalmente, de reflexologia, considerando-a como a antítese da psicologia empírica ou subjetiva. (N.R.RJ

10 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

reaçôes (manifestadas, totalmente claramente mas também nifestos externamente, terev mostra, L M. Sétchenov4, que o pensamento não é outra coisa senão um reflexo inibido, retido, um refle­ xo interrompido em suas duas terças partes, concretamente no pensamento com que é o caso mais freqüente de reflexo verbal contido. Surge a pergunta: por que admitimos o estudo dos refle­ xos verbais em sua integridade e inclusive depositamos nesse campo as maiores expectativas e nâo levamos em con­ sideração esses mesmos reflexos quando não se manifestam externamente mas sem dúvida existem objetivamente? Se pronuncio em voz alta, para que o experimentador ouça, a palavra "tarde", que me surgiu por associação, isto é consi­ derado como uma reação verbal, um reflexo condicionado. Mas se pronuncio a palavra para mim mesmo, sem que seja ouvida, se a penso, deixa por isso de ser um reflexo e se alte­ ra sua natureza? E onde está o limite entre a palavra pronun­ ciada e a não-pronunciada? Se os lábios se moveram, se emiti um balbucio que o experimentador não percebeu, o que se deve fazer em tal caso? Poderá pedir-me que repita em voz alta a palavra ou considerar-se-á que esse é um método subjetivo, introspecção ou outras coisas Se isso é factível (e nisto coincidiria quase todo o por que não pode me pedir que diga em voz alta a pronunciada mentalmente ­ ou murmurada sem mover os lábios - na medida em que era e continuará sendo uma reaçào motora, um reflexo condicionado sem o qual nào há pensamento? E isso já é interrogatório, testemunho verbal e

E isso já é interrogatório, testemunho verbal e do sujeito a respeito das não não captadas

do sujeito a respeito das

não

não captadas pelo ouuido do experimentador mas que indu­

4. Sétchenov, Iván Mikháilovich (1829-1905). Fisiológo e psicólogo russo. Criador de wna nova corrente na investiga~'âo das funções dos centros ner7 vosos superiores, na qual se baseava o programa de estruturaçâo da psicologia objetiva. Exerceu enorme influência no estudo determinista do comportamento mediante conceitos naturais científicos e métodos objetivos. (N.R.R.)

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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bitauelmente tinham existência objetiua anterior (e é aí que

se funda toda a diferença entre os pensamentos e a lingua­ gem, só nisso!). Temos muitos meios de confirmar que exis­ tiam de fato com todos os traços próprios de sua realidade material e, o que é mais importante, elas mesmas se ocupa­ rão de convencer-nos de sua existência. Irão euidencíar-se com tanta força e clareza no curso ulterior da rea~~ão que obrigarão o experimentador a levá-Ias em consideração, ou a renunciar em geral a estudar o curso das reações em que estão inseridas. E existem muitos casos desses processos de reaçôes, de desenvolvimento de reflexos condicionados em que não se introduzem reflexos inibidos (= pensamentos)? Portanto, ou renunciamos a estudar o comportamento da pessoa em suas formas mais transcendentais, ou necessa­ riamente teremos de introduzir em nossos experimentos o controle desses reflexos não manifestados. A reflexologia é obrigada a também levar em conta os pensamentos e a tota­ lidade da psique se A psique é apenas um movimento que objetivamente se tocar e que ver. O que se vê somente através do microscópio, do teles­ ou dos raios X também é objetivo. E também o são os reflexos inibidos. O próprio Békhterev afirma que os resultados das inves­ tigações levadas a cabo escola de Wurtzburgo no âmbito do "pensamento puro", nas esferas superiores da psique, coincidem em essência com o que sabemos dos reflexos con­ dicionados. M. B. Krol' diz claramente que os novos fenôme­ nos descobertos pelos investigadores de Wurtzburgo no cam­ po do pensamento sem imagens e não-verbal não são outra coisa senão os reflexos condicionados pavlovianos. E que tra­ balho minucioso foi precisamente exigido para a análise dos informes e testemunhos verbais dos sujeitos, só para chegar à conclusão de que o próprio ato do pensamento escapa ã introspecção, que o encontramos já preparado, que não cabe em informes, ou, o que dá na mesma, que é um reflexo

em informes, ou, o que dá na mesma, que é um reflexo 5. Krol, Mikhail BOl'ísovitch

5. Krol, Mikhail BOl'ísovitch (1869-1939)

Neurólogo soviético. (N.R.RJ

11111111

12 TIORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Nl'lIl é preciso dizer que o papel desses informes e illll.'rrogatórios verbais e o valor que lhes concede tanto a investigação reflexológica quanto a psicologia de caráter científico não coincidem integralmente com os que lhes atri­ buíam os psicólogos subjetivistas. Como devem ser conside­ rados, pois, pelos psicólogos objetivistas e qual é seu papel

e

sua importância num sistema de experimentação rigorosa

e

cientificamente verificável?

Os reflexos nào existem isoladamente, nem atuam de maneira dispersa, mas estruturam-se em complexos, em sis­ temas, em complicados grupos e formações que determinam

o comportamento do homem. As leis que regem a estrutura­

ção dos reflexos em complexos, os tipos que essas forma­ ções adotam, as variedades e formas de interação dentro deles e de interação entre a totalidade dos sistemas são todas questões de primordial i.mportância dentro dos graves problemas com que defronta a psicologia científica do com­ portamento. A doutrina dos ret1exos está ainda em seus pri­ mórdios e ainda não foi investigada em todos esses âmbitos. Mas já podemos falar de uma indubitável interação entre sis­ temas isolados de reflexos, da int1uência de uns sistemas sobre outros e inclusive aproximarmo-nos de uma explica­ ção dos traços, por hora gerais e grosseiros, que regem o mecanismo dessa influência. O mecanismo seria çste: em

um reflexo qualquer, sua própria parte reativa (movimento, secreçâo) converte-se em excitante de um novo reflexo do meSmo sistema ou de outro sistema.

Apesar de eu não ter conseguido encontrar essa formu­ lação em nenhum ret1exólogo, sua veracidade é tão patente que sua ausência só se explica porque todos a subeátendem e a aceitam tacitamente. O cachorro reage ao áCido clorídri­ co secretando saliva (reflexo), mas a própria saliva constitui um novo excitante para o reflexo de deglutição ou para expulsá-la para fora. Numa associação livre, em resposta ã palavra "rosa", que age como excitante, pronuncio "capu­ chinha". Trata-se de um ret1exo, que por sua vez é excitante da palavra seguinte: "ranúnculo". (Tudo isto ocorre dentro de um mesmo sistema ou de sistemas próximos, que colabo-

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

13

ram). O uivo de um lobo provoca em mim, como excitante, reflexos somáticos e mímicos de temor; a mudans,:a da respi­ ração, as palpitações do coração, o tremor, a secura na gar­ ganta (reflexos) me fazem dizer: "Sinto medo". Por conse­ guinte, um reflexo pode desempenhar um papel de excitante para outro reflexo do mesmo sistema ou de um sistema dife­ rente e provocá-lo também como excitante externo (alheio). E, nesse sentido, pode-se considerar que a própria relação entre ref1exos está submetida a todas as leis de formação dos reflexos condicionados. De acordo com uma lei dos ret1exos condicionados, um ret1exo entra em conexão com outro convertendo-se, em determinadas circunstâncias, em

evidente e

fundamental, da relação entre os ret1exos. Esse é o mecanismo que permite compreender em linhas bastante aproximadas e genéricas o valor (objetivo) que po­ dem ter para a investigação científica os testemunhos verbais dos sujeitos em uma prova. Os reflexos não-manifestos (fala silenCiosa), os reflexos internos, inacessíveis à percepção direta do observador, podem com freqüência manifestar-se indiretamente, de forma mediada, através de reflexos acessí­ veis à observação e em relação aos quais desempenham o papel de excitantes. Através da presença do reflexo completo (a palavra) estabelecemos a do excitante correspondente, que nesse caso desempenha um duplo papel: o de excitante em relação ao reflexo completo e o de reflexo em relação ao excitante anterior. Seria um suicídio para a ciência, dado o enorme papel que a psique isto é, o grupo de reflexos inibi­ dos desempenha na estrutura da conduta, renunciar a ter acesso a ela através de um caminho indireto: sua influência em outros sistemas de reflexos. (Recordemos a doutrina de Békhterev sobre os ret1exos internos, êxtero-internos etc. E, ainda mais, se levarmos em conta que com freqüência dispo­ mos de excitantes internos que não estão ã vista, que perma­ . necem ocultos nos processos somáticos e que, no entanto, podem se revelar através dos ret1exos produzidos por eles. Neste caso, a lógica é a mesma e é idêntico o funcionamento dos pensamentos e sua manifestação material).

seu excitante condicionado. Esta é a primeira

idêntico o funcionamento dos pensamentos e sua manifestação material). seu excitante condicionado. Esta é a primeira

14 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Interpretado desse modo, o informe do sujeito não constitui de forma alguma um ato de introspecção que vem despejar sua gota de fel no barril do mel da investigação científica. Nâo se trata de introspecçâo. O sujeito de forma alguma adota a posição de observador, ou ajudá o experi­ mentador a buscar reflexos ocultos. O exame mantém-se até o final como objeto do experimento, mas tanto nele como no próprio informe introduzem-se, através das perguntas, algumas variações, transformações, introduz-se um novo excitante (uma nova pergunta), um novo reflexo que traz elementos de juízo sobre as partes não esclarecidas das per­ guntas anteriores. É como se se submetesse o experimento a um duplo objetivo. Mas também a própria consciência ou tomada de cons­ ciência de nossos atos e estados deve ser interpretada como um sistema de mecanismos transmissores de certos reflexos para outros que funcionam corretamente em cada momento consciente. Quanto maior for o ajuste com que qualquer reflexo interno, em qualídade de excitante, provoque uma nova série de reflexos procedentes de outros sistemas e se transmita a outros sistemas, mais capazes seremos de nos

darmos conta de nossas sensações, de comunicá-Ias aos demais e de vivê-las (senti-Ias, colocá-Ias em palavras etc.). Dar-se conta significa transferir certos reflexos para outros.

O inconsciente baseia-se psiquicamente em que alguns

reflexos não se transmitem a outros sistemas. Pode haver graus de consciência - ou seja, interações entre sistemas no seio do mecanismo do reflexo que atua - de infinita diversi­

dade, A consciência das próprias sensações significa apenas que elas atuam como objeto (excitante) de outras sensações:

a consciência é a sensação das sensações, exatamente da mesma forma que as simples sensações são a sensação dos objetos. Mas precisamente a capacidade do reflexo (sensa­ ção do objeto) de ser um excitante (objeto de sensação) pa­

ra um novo reflexo (nova sensação) converte esse mecanis­

mo de consciência em um de transmissão de reflexos de um

sistema para outro.

11111111111111111111

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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Isso equivale mais ou menos ao que Békhterev denomi­ na reflexos subordinados e não-subordinados. Concretamen­ te, essa interpretação da consciência é confirmada pelos resultados das investigações da escola de Wurtzburgo, que

estabelecem entre outras coisas a impossibilidade de observar

o próprio ato de pensar ("não se pode pensar o pensamen­ porque escapa à percepção; isto é, não pode agir como objeto de percepção (excitante) para si mesmo, por se tratar de fenômenos de ordem e natureza distintas de tantos pro­ cessos psíquicos que podem ser observados e percebidos (da mesma maneira que podem agir como excitantes para outros sistemas), E, em nossa opinião, o ato da consciência não é um reflexo, como tampouco pode ser um excitante, mas é um

mecanismo de transmissão entre sistemas de re}7exos.

Com essa interpretação, que estabelece uma diferença metodológica radical e de princípio entre o informe verbal do sujeito e a introspecção, muda radicalmente, como é

óbvio, a natureza científica da instruçào e do interrogatório.

O que fazemos com a instrução não é pedir ao sujeito que

se ocupe de uma parte das observações, que desdobre sua atenção e a dirija para suas próprias vivências. De forma nenbuma. O que a instrução faz, na qualidade de sistema de excitantes condicionados, é provocar previamente os reflexos de orientação necessários que determinarão o curso posterior da reação e dos reflexos de orientação dos meca­

nismos transmissores, precisamente daqueles mecanismos que entrarào em jogo no curso do experimento. Neste caso,

a instrução que se dirige aos reflexos secundários, reflexos de reflexos, não se diferencia basicamente em nada da que

se refere aos reflexos primários, No primeiro caso: diga a

palavra que você acaba de pronunciar no seu interior. No segundo caso: afaste a mão, E prossigamos, O próprio interrogatório não consiste em extrair do sujeito suas próprias vivências. A questão é radicalmente distinta em princípio, A pessoa submetida à

prova não é a testemunha que declara sobre um crime que presenciou (seu antigo papel), mas é o próprio criminoso e,

o que é mais importante, no momento do crime. Não se

16 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

trata de um interrogatório depois do experimento; é uma parte orgânica, integrante do próprio e não se diferencia em absoluto dele, salvo na utilização dos próprios dados no curso do experimento.

a interrogiltório não é uma superestrutura do experimen­ to, mas o próprio experimento que ainda não terminou e que prossegue. Por isso o interrogatório deve ser construído não como uma conversa, um discurso, como o interrogatório de um fiscal, mas como um sistema de excitantes, em que se tenha a exata medida de cada som e se escolham rigorosamen­ te somente aqueles sistemas de reflexos refletidos, que possam ter no experimento um indubitável valor científico e objetivo. É por isso que todo o sistema de modificações (a surpre­ sa, o método gradual, etc.) do interrogatório é de grande importância. Devem ser criados um sistema e uma metodolo­ gia .de interrogatório estritamente objetivos, como parte dos excitantes introduzidos no experimento. E é evidente que a introspecção não organizada, assim como a maioria dos teste­ munhos, não pode ter valor objetivo. É preciso saber o que se irá perguntar. Quando os vocábulos, as definiçôes, os termos

e os conceitos sâo vagos, não podemos relacionar, através de um procedimento objetivamente confiável, o testemunho que

o sujeito oferece de "leve sentimento de dificuldade" com o

reflexo-excitante objetivo, provocado por esse testemunho. Mas seu testemunho: "diante da palavra trovão pensei em relâmpago" pode ter um valor completamente objetivo para o estabelecimento indireto do fato de que a palavra "trovão" reagiu com o reflexo não-manifesto "relâmpago". Por conseguinte, impôe-se uma reforma radical na utili­ zação do interrogatório e das instruçôes e no controle dos testemunhos do sujeito. Afirmo que é possível criar em cada caso individual uma metodologia objetiva que transforme o interrogatório do sujeito num experimento científico rigoro­ samente exato.

Gostaria aqui de assinalar dois aspectos: um, que limita

o dito anteriormente e, outro, que amplia seu valor. a sentido limitante dessas afirmações é claro por si só:

essa modificação do experimento é aplicável à pessoa adul-

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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ta normal, capaz de compreender e falar nossa linguagem. Mas nem a um recém-nascido, nem a um doente mental, nem a um criminoso que oculta algo, faremos um interroga­ tório. E não o faremos precisamente porque o entrelaça­ mento de um sistema de reflexos (consciência) e a transmis­ são destes ao sistema verbal, ou não estão desenvolvidos neles, ou estão perturbados pela doença, ou foram inibidos e retidos por outros complexos de reflexos mais potentes. Mas no caso de um adulto normal que consentiu voluntaria­ mente em realizar a prova, o experimento é insubstituível. De fato, é fácil distinguir no homem um grupo de refle­ xos, cuja denominação correta seria a de sistema de reflexos de contato social (A. B. ZalkindY'. Trata-se de reflexos que reagem a excitantes que, por sua vez, são criados pelo ho­ mem. A palavra escutada é um excitante, a palavra pronun­ ciada é um reflexo que cria esse mesmo excitante. Esses reflexos reversíveis, que originam uma base para a cons­ ciência (entrelaçamento de reflexos), servem de fundamento para a comunicação social e para a coordenação coletiva do comportamento, o que indica, entre outras coisas, a origem social da consciência. De toda a massa de excitantes, desta­ ca-se claramente para mim um grupo: o dos estímulos so­ ciais, que procedem das pessoas; eles se destacam porque eu mesmo posso reproduzir esses excitantes, porque logo se convertem para mim em reversíveis e, por conseguinte, em com os restantes, determinam meu comporta­ mento de forma distinta. Eles fazem com que eu me pareça comigo mesmo, me identificam a mim mesmo. No sentido amplo da palavra, é na fala que reside a fonte do comporta­ mento e da consciência. A fala constitui, por um lado, um sistema de reflexos de contato social e, por outro, o sistema preferencial dos reflexos da consciência, isto é, servem para refletir a influência de outros sistemas. Por isso se funda aí a solução do enigma do "eu" alheio, do conhecimento da psique dos demais. a mecanismo da

do conhecimento da psique dos demais. a mecanismo da 6. Zalkind, Arón Borísovitch (1888-1936). Pedagogo e

6. Zalkind, Arón Borísovitch (1888-1936). Pedagogo e psicólogo soviéti­ co. (N.R.R.)

18 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

consciência de si mesmo (autoconhecimento) e do reconhe­ cimento dos demais é idêntico: temos consciência de nós mesmos porque a temos dos demais e pelo mesmo mecanis­ mo, porque somos em relação a nós mesmos o mesmo que os demais em relação a nós. Reconhecemo-nos a nós mes­ mos somente na medida em que somos outros para nós mesmos, isto é, desde que sejamos capazes de de novo os reflexos próprios como excitantes. Entre o mecanis­ mo que me permite repetir em voz alta a pronuncia­ da mentalmente e o de que possa repetir isso com outra não há basicamente diferença alguma: em ambos os casos trata-se de um reflexo-excitante reversível. Por isso, é no contato social entre o experimentador e o sujeito que esse contato se desenvolve com normalidade (uma pessoa adulta etc.). O sistema de reflexos verbais do sujeito oferece ao experimentador a autenticidade de um fato científico, sempre e quando se cumpram todas as condiçôes de certe­ za, necessidade e globalidade que caracterizam um sistema de reflexos em estudo. O segundo aspecto, que amplia o exposto anteriormen­ te, pode ser expresso de forma simples da seguinte maneira. O interrogatório do sujeito com a finalidade de estudar e controlar de modo totalmente objetivo os reflexos não-mani­ festos é uma parte necessária em qualquer investigação ex­ perimental de uma pessoa normal em estado de Não estamos falando aqui do testemunho introspectivo de sensa­ subjetivas, ao qual Békhterev tinha direito de conceder um valor unicamente complementar, colateral, auxiliar, mas de uma fase objetiva da experimentação, uma fase de verifi­ cação dos dados obtidos nas fases anteriores, da qual quase nenhum experimento pode prescindir. Com efeito, a psique em desempenha nos organismos superiores e no homem um papel de complexidade reflexa crescente e o fato de não estudá-la renunciar ã análise (precisamente r.hipthla e não unilateral, subjetiva ao inverso)

humano. Nào houve nenhum caso de

provas realizadas com sujeitos normais em que o fator dos reflexos inibidos. da osiaue. não tenha determinado de uma

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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forma ou outra o comportamento do sujeito e tenha podido, portanto, ser eliminado do fenômeno a estudar ou absoluta­ mente não ser levado em consideração. Não há nenhum ato de comportamento durante o experimento no qual, junto ao curso dos reflexos que não escapem ao sujeito outros que não estão ao alcance da vista ou do ouvido. Ou seja, tampouco existe algum caso no qual possamos renun­ ciar a essa parte do experimento, mesmo que seja apenas a título de verificação. Se um sujeito lhes diz que nào entendeu a instrução, não tomarão esse reflexo verbal como uma prova inequívo­ ca de que seu excitante não provocou os reflexos de orien­ tação de que vocês necessitavam? E se perguntarem a essa pessoa: "Você entendeu a instrução?", não será que essa lógica precaução não implica recorrer à palavra acabada [emitida em sua totalidade R.E.] como refletora de réfle­

xos, como testemunho de uma série de reflexos inibidos? E quando uma reação demorou muito, nào considerará o ex­ perimentador uma do sujeito do tipo: "tembrei­ me de um assunto desagradável para mim"? E assim por diante. Na medida em que se trata de um método imprescin­ podemos encontrar milhares utiliza cientificamente. E não seria útil, talvez, dirigir-se ao uma reação que demorou mais do que se espe­ raria considerando outras para perguntar-lhe "você estava pensando em outras coisas durante o experi­ mento?", para obter a resposta: "Sim, fiquei pensando o tempo todo se as coisas deram certo hoje". E não apenas em casos tão lamentáveis é útil e necessário recorrer ao teste­ munho do sujeito. Para determinar os reflexos de orienta­ ção, para levar em conta os ref1exos ocultos necessários que nós mesmos provocamos com a finalidade de comprovar que não houve reflexos estranhos e para outros mil objeti­ vos, é necessário recorrer a uma metodologia de interroga­ tório cientificamente elaborada, em vez de utilizar conversas que inevitavelmente são filtradas no experimento. Mas é

muito

óbvio que essa metodologia requer complexas para cada caso.

inevitavelmente são filtradas no experimento. Mas é muito óbvio que essa metodologia requer complexas para cada
inevitavelmente são filtradas no experimento. Mas é muito óbvio que essa metodologia requer complexas para cada

20 TIOAIA I M~TODO EM PSICOLOGIA

Para terminar essa questão e passar para a segunda, intimamente relacionada com é curioso assinalar que os reflexólogos que adotaram a metodologia da psicologia experimental em sua integridade omitem precisamente esse aspecto, por considerá-lo, ao que tudq indica, supérfluo e não ajustado aos princípios do método objetivo etc. Neste sentido, é de grande interesse a coletânea "Novas idéias em medicina" 0924, nº 4), na qual há uma série de artigos que perfilam uma linha de desenvolvimento metodológica na direção indicada por V. P. Protopópov, com a de adicional de excluir o interrogatório O mesmo sucede na passou a realizar expe­

rimentos com seres método

na passou a realizar expe­ rimentos com seres método integralmente o sem recorrer ao interrogatório. Não

integralmente o

sem recorrer ao interrogatório. Não será esta a explicação para a escassez de conclusôes e a de resultados das investigaçôes que escutamos nos informes experimentais apresentados neste congresso? O que podem acrescentar à verificaçào do princípio geral - há muito estabelecido e de maneira mais eloqüente de que no ser humano os reflexos se estabelecem com maior rapi­ dez do que no cachorro? Sabe-se disso sem necessidade de recorrer a experimentos. A constatação do evidente e a re­ petição do a-bê-cê do que se desconhece são indefectivel­ mente atributos de todo investigador que não modifi­ car seus métodos de trabalho. neste trabalho a tarefa de elaborar um es­ quema estrutural de um método científico-objetivo comum para a e para a experimentação do comporta­ mento humano e sua defesa sob um ponto de vista teórico. Mas, como já afirmei, essa questão técnica encontra-se em estreita com outra discrepância de caráter teórico, sobre a qual insistem os reflexólogos, inclusive aqueles que reconhecem a unidade de método com os Proto­ pópov expressa-se assim: "A inclusão neste método reflexología. Red.] dos procedimentos de análise que há muito se utilizam na psicologia experimental foi resulta­ do do desenvolvimento natural da própria reflexologia e não silmifica de modo alQum a transformado desta última

e não silmifica de modo alQum a transformado desta última PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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em psicologia. O paulatino aperfeiçoamento do método reflexológico conduziu-o casualmente lo grifo é meu L.V.] a essas modalidades de investigação, que apresentam ape­

nas semelhanças externas [o grifo é meu - L. V.] com as que

em osicoloQia. Os fundamentos de o
em osicoloQia. Os fundamentos de
o

do totalmente distintos. nsíOllicos com vivências anímicas em sua mani­ ete. 0923, pp. 25-6) - o que segue é do conhecimento de todo leitor de obras de reflexologia. Creio não ser difícil demonstrar que essa aproximação não é casual e que a similitude de formas de análise não é apenas externa. Na medida em que a reflexologia tenta explicar a totalidade do comportamento do homem, ela tem de utilizar inevitavelmente o mesmo material que a psicolo­ gia. A pergunta se formula da seguinte maneira: a reflexologia omitir a e nào levá-la em conta em abso­ luto enquanto sistema de reflexos inibidos e de diferentes sistemas? Cabe explicar cientificamente o com­ ~~~'~mento do homem sem recorrer à psique? Deve a sem alma, a sem metafísica alguma, conver­ ter-se em psicologia sem psique ­ em reflexologia? Do pon­ to de vista biológico, seria absurdo supor que a psique é totalmente desnecessária para o sistema da conduta. Ou aceitamos um absurdo tào evidente ou negamos a existência da psique. Mas os fisiólogos mais extremistas não são parti­ dários disso: nem Pávlov, nem Békhterev. L P. Pávlov diz claramente que "nossos estados vos constituem uma realidade primordial, que rege nossa vida cotidiana e condiciona o progresso da convivência hu­ mana. Mas uma coisa é viver de acordo com estados vos e outra analisar seus mecanismos de um ponto de vista verdadeiramente científico" 1). De forma que há uma realidade orimordial que rege nossa vida cotidiana Ce isso é e, no entanto, a investigação objetiva da atividade nervosa superior o comportamento - pode prescindir do controle dessa instância diretora do comportamento, ou seja, da psique.

superior o comportamento - pode prescindir do controle dessa instância diretora do comportamento, ou seja, da
superior o comportamento - pode prescindir do controle dessa instância diretora do comportamento, ou seja, da
superior o comportamento - pode prescindir do controle dessa instância diretora do comportamento, ou seja, da
superior o comportamento - pode prescindir do controle dessa instância diretora do comportamento, ou seja, da
superior o comportamento - pode prescindir do controle dessa instância diretora do comportamento, ou seja, da

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TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Basicamente, diz Pávlov, na vida só nos interessa uma coisa: nosso conteúdo psíquico. O que mais ocupa o homem é a consciência e os tormentos desta. E o próprio Pávlov reconhece que é impossível não prestar atenção a eles (aos fenômenos psíquicos), porque estão muito estreitamente unidos aos fisiológicos e determinam o funciona­ Depois disso, pode-se renunciar ao E o próprio Pávlov situa muito bem o de cada ciência quando diz que a reflexologia estuda o da atividade nervosa e a

trutura. "E como o

é compreensível sem o ao passo que é impossível analisar o último sem o primeiro, nossa é melhor, já que o êxito de

nossas

sem o primeiro, nossa é melhor, já que o êxito de nossas a s u p

a superes­

não depende em absoluto de outras.

Creio que, pelo contrário, nossas investigações devem se revestir de importância maior para a psicologia, já que irão constituir posteriormente o principal fundamento do edifício da psicologia" (ibidem, p. 105). Qualquer filósofo corrobora­ que a reflexologia é o princípio geral, o fundamento. Até agora, enquanto estavam sendo construídos os alicerces, comuns para os animais e o homem, quando se tratava do simples e elementar, não era necessário contar com o psíqui­ co. Mas esse é um fenômeno temporário: quando os vinte anos de experiência com que conta a reflexologia chegarem a trinta, a situação mudará. Eu parti da tese de que a crise da metodologia começa nos reflexólogos precisamente quando passam dos fundamentos, do elementar e do simples, para uma estrutura superior, para o complexo e sutil.

V. M. Békhterev (923) mostra-se ainda mais decidido, mais resoluto, ou, dito de outra maneira, adota uma postura mais inconseqüente e contraditória intrinsecamente. Seria um grande erro considerar,reconhecer, que os processos subjeti­ vos são por natureza fenômenos completamente supérfluos ou colaterais (epifenômenos), já que sabemos que nela todo o supérfluo se atrofia e se destrói, ao passo que nossa experiência nos diz que os fenômenos subjetivos seu máximo desenvolvimento nos processos mais CUllHJ!<::l\.lJ/) de atividade correlativa [sootnosítelnaia diéiatelnostl

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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É possível, perguntamo-nos, excluir o estudo fenômenos que alcançam seu máximo desenvolvimento nos processos mais complexos ele atividade correlativa, nessa ciência que faz precisamente dessa atividade correlativa o

objeto de seu estudo? Mas Békhterev não despreza a psico­ logia subjetiva, mas a deslinda da reflexologia. Porque é evi­ dente para qualquer um que cabe adotar aqui uma das duas alternativas seguintes: 1) ou explicar a totalidade da ativida­ de correlativa sem a psique ­ fato que Békhterev reconhece -,

e neste caso, esta última se converte em um fenômeno cola­

teral, coisa que ele mesmo nega; 2) ou essa explicaçãó re­ sulta impossível e nesse caso deve-se admitir a psicologia desligando-a da ciência do comportamento etc. Em vez de optar por uma das alternativas, Békhterev fala da mútua relação de ambas as ciências, 'de sua possível aproxi­ mas, como esse momento ainda não che­ gou, supoe que por enquanto podemos nos manter no âm­

bito de certas relações mútuas e estreitas entre as duas disci­ ci entíficas.

mútuas e estreitas entre as duas disci­ ci entíficas. Békhterev fala ainda da construção no futuro
mútuas e estreitas entre as duas disci­ ci entíficas. Békhterev fala ainda da construção no futuro
mútuas e estreitas entre as duas disci­ ci entíficas. Békhterev fala ainda da construção no futuro

Békhterev fala ainda da

construção no futuro de uma especificamente de estudar os fenômenos

inevitável
inevitável

a psique é inseparável da atividade correlativa e alcança seu

máximo desenvolvimento precisamente em suas formas su­ periores, como é possível estudá-Ias em separado? Isto seria factível se se reconhecesse que as duas facetas do problema têm uma natureza e uma essência diferenciadas, como de­ fendeu insistentemente a psicologia. Mas Békhterev a teoria do paralelismo e da interação psicológicos e afirma precisamente a unidade dos processos psíquicos e nervosos. Fala muitas vezes da correlação entre os fenômenos subjetivos (psique) e os objetivos, mantendo-se veladamen­ te sempre no âmbito do dualismo. E dualismo é o verdadei­ ro nome da postura adotada por Pávlov e Békhterev. Para este último, a psicologia experimental não é aceitável justa­ mente porque recorre à introspecção para estudar o mundo a psique. Békhterev propôe que suas investigações analisadas sem levar em conta os processos da cons­

11111111

24 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

ciência. E, no que se refere aos métodos, diz claramente que a reflexologia utiliza métodos objetivos rigorosos que lhes são específicos. Sem dúvida, no que diz respeito aos méto­ dos, vimos que a própria reflexologia reconhece que coinci­ dem plenamente com os psicológicos. Em suma, duas ciências que têm o mesmo objeto de análise, o comportamento do homem, que utilizam para isso os mesmos métodos, continuam, contudo, apesar de tudo, sendo duas ciências distintas?" O que as impede de se fundi­ rem? Fenômenos subjetivos ou psíquicos, repetem aos qua­ tro ventos os retlexólogos. E em que consistem esses fenô­ menos subjetivos: o psíquico? Entre os possíveis enfoques dessa questão - que é decisi­ va -, a reflexologia adota a posição do mais puro idealismo e dualismo, cuja denominação correta seria a de idealismo ao inverso. Para Pávlov trata-se de fenômenos sem causa e que não ocupam lugar; para Békbterev carecem de qualquer exis­ tência objetiva, já que só podem ser estudados dentro de si mesmos. Mas, tanto Békbterev quando Pávlov sabem que esses fenômenos regem nossa vida. Não obstante, vêm neles, no psíquico, algo distinto - que deverá ser investigado de modo independente dos reflexos, assim como estes devem ser investigados separados do psíquico. Estamos, naturalmen­ te, ante um materialismo de pura estirpe: renunciar à psique. Mas só é materialismo num âmbito: o seu. Fora desse âmbito, age como idealismo de pura estirpe, separando a pSÍCllIe e seu estudo do sistema de conduta do homem.

A psique não existe10m do comportamento, assim como

este não existe sem aquela, ainda que seja apenas porque se

• No resumo do congresso, publicado na coletânea "Novidades em rene­ xologia" 092'5, nº O. nos comentários, diz-se sobre meu informe. referindo-se a essa idéia, que o autor "tentou mais uma vez apagar os limites entre os enfoques ref1exolôgicos e psicológicos, originando com isso alguns comentá­ rios maldosos sobre a rd1exo\ogia, que caiu em contradiçües internas" (p. 359). Em vez de desmentir essa idéia, o mediador alega que "o conferencista é um psicólogo que tenta, além do mais, assimilar também a proposta ref1exoló­ gk:a. Os resultados falam por si". Um silêncio bem eloqüente! Teria, contudo, sido mais oportuna e necessária uma formulação exata de meu erro.

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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trata do mesmo. Na opinião de Békhterev, os estados subje­ tivos, os fenômenos psíquicos, existem na tensão da corren­ te nervosa, no reflexo (anotem isso!) de concentração, líga­ do à retensão da corrente nervosa quando se estabelecem novos nexos. Que fenômenos tão misteriosos são esses? Não fica claro, já que também eles são reaçôes do organismo,

mas refletidas por outros sistemas de reflexos: a linguagem,

a emoção (reflexo mímico-somático) e outros? O problema

da consciência deve ser formulado e resolvido pela psicolo­

gia na medida em que se trata de uma interação, um reflexo, uma auto-excitação, de diferentes sistemas de reflexos. É

consciente o que se transmite na categoria de excitante para outros sistemas e produz neles uma resposta. A consciência

é o aparelho de resposta. É por isso que os fenômenos subjetivos estão unicamen­ te em meu alcance, somente eu os percebo como excitantes de meus próprios reflexos. Nesse sentido tem muita razão W. James, que mostrou em uma brilhante análise que nada nos a admitir o fato da existência da consciência como algo independente do mundo, apesar de não negar nem nos­

sas vivências, nem a consciência destas. Toda diferença entre

a consciência e o mundo (entre o reflexo ao reflexo e o re­

flexo ao excitante) decorre apenas do contexto dos fenôme­

nos. O mundo está no âmbito dos excitantes; a consciência

no de meus reflexos. Esta janela é um objeto (o excitante de meus reflexos); a mesma janela, com essas mesmas qualida­ des, é minha sensação (um ret1exo transmitido a outros siste­ mas). A consciência é apenas o reflexo dos retlexos. Ao afirmar que também a consciência deve ser interpre­ tada como reação do organismo e suas próprias reações, vemo-nos obrigados a ser mais reflexólogos que o próprio

Pávlov. O que

preciso ir de encontro a tal indecisão e ser mais papista do que o papa e mais monarquista que o rei. Os reis nem sem­ pre são bons monarquistas.

Quando a reflexologia exclui os fenômenos psíquicos do círculo de suas investigações como algo que nào é de sua competência, age da mesma maneira que a psicologia idealis­

se se

quer ser conseqüente, às vezes é

que nào é de sua competência, age da mesma maneira que a psicologia idealis­ se se

26 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

ta, que estuda a psique prescindindo de todo o resto, como se fosse um mundo fechado em si mesmo. A bem da a psicologia raramente excluiu de seu âmbito o aspecto obje­ tivo dos processos psíquicos e nem se encerrou no círculo da vida interior, como se esta fosse uma ilha deserta do espírito. Os estados subjetivos isolados do espaço e de suas causas ­ não existem por si mesmos. E, pela mesma razão, pode existir a ciência que os estuda. Estudar o comportamen­

to da pessoa sem a psique, como quer a reflexologia, é tão

impossível como estudar a psique sem o comportamento. Não é possível, portanto, abrir espaço para duas ciências dis­ tintas. E nâo é preciso ser muito perspicaz para dar-se conta de que a psique é essa própria atividade correlativa, que a consciência é uma atividade correlativa dentro do próprio organismo, dentro do sistema nervoso: a atividade correlativa

do corpo humano consigo mesmo. O estado atual dos dois ramos do saber sugere clara­

mente que a integraçâo das duas ciências não apenas é necessária mas também frutífera. A psicologia está vivendo uma séria crise no Ocidente e na URSS. Para James, ela não passa de um monte de matéria bruta. N. N. Langue7 compara

a situação da psicologia com a de Príamo nas ruínas de

Tróia (1914, p. 42). Tudo desmoronou, tal é o resultado da crise e não apenas na Rússia. Mas também a reflexologia foi parar num beco sem saída, depois de ter erguido os alicer­

ces. Uma ciência não pode prescindir da outra. É necessário

e urgente elaborar uma metodologia científica objetiva co­

mum, uma formulação comum dos problemas mais impor­ tantes que cada ciência, por separado, já não pode, não apenas formular, mas nem mesmo tentar resolver. E se nào parece claro que se pode construir a superestrutura contan­ to que se disponha de alicerces, tampouco os construtores destes, depOis de havê-los terminado, podem colocar uma

destes, depOis de havê-los terminado, podem colocar uma 7. Langue, Nikolái Nikoláievitch (Hl58-1921). Psicólogo
destes, depOis de havê-los terminado, podem colocar uma 7. Langue, Nikolái Nikoláievitch (Hl58-1921). Psicólogo

7. Langue, Nikolái Nikoláievitch (Hl58-1921). Psicólogo niSso. Professor da Universidade de Novo[{)ssiisk (Odessa) e destacado representante da corrente científico-natural na investigaçào das funções psíquicas (percepçào, atenç,lo). Defendia uma concepção genéticd e biológica dessas funções. (N.R.R.)

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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única pedra sem verificar as diretrizes e o tipo de edifício que irão levantar. Falemos claro. Os enigmas da consciência, da psique, não podem ser eludidos com subterfúgios, nem metodológi­ cos nem teóricos. Não se pode fazer rodeios para deixar a consciência de lado. James se perguntava se a consciência existia e respondia que a respiração existia, disto tinha cer­ teza, mas quanto ã consciência, duvidava. Mas essa formula­ da questão é gnosiológica. Psicologicamente, a cons­ ciência é um fato indubitável, uma realidade primordial e um fato, nem secundário, nem casual, de enorme importân­ cia. Ninguém o discute. Podemos adiar o problema, mas não eliminá-lo por completo. Na nova psicologia, as coisas nào andarào bem até que nos coloquemos audaz e clara­ mente () problema da psique e da consciência e até que não o resolvamos experimentalmente, seguindo um procedi­ mento objetivo. Em que etapa surgem os traços conscientes dos reflexos, qual é seu significado biológico, são perguntas que devemos fazer, e é preciso preparar-se para resolvê-las experimentalmente. O problema depende apenas de formu­ lar corretamente a questão e a solução chegará mais cedo ou mais tarde. Em um arrebatamento "energético", Békh­ terev até o pan-psiquismo, a atribuir dimensão pes­ soal a plantas e animais; em outro lugar, não se decide a

a hipótese da alma. A reflexologia não abandonará esse estado de primitiva ignorância sobre a psique enquanto se mantiver afastada dela e continuar encerrada no estreito círculo do materialismo fisiológico. Ser materialista em fisio­ logia não é difícil. Mas provem como sê-lo em materialismo fisiológico. Ser materialista em fisio­ logia não é difícil. Mas provem como sê-lo em psicologia e, se não o conseguirem, continuem a ser idealistas. Ultimamente, o problema da introspecção e de seu papel na investigação psicológica aguçou-se muito sob a influência de dois fatores:

Por um lado, a psicologia objetiva que, embora aparen­ temente tenha tendido num primeiro momento a rejeitar abertamente a introspecção, considerando-a um método

nos últimos tempos tem se aventurado em mas tentativas de achar um valor objetivo nisso que se deno­ objetivo nisso que se deno­

28 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

mina introspecção, J. Watson, A, Weiss e outros começaram a falar de "concluta verbal" e relacionam a introspeq:ào como o funcionamento desse aspecto verbal de nosso com­ portamento; outros falam de "conduta interna", de "concluta verbal" manifesta etc. Por outro lado, a nova tendência da P"lLUIU15'd denominada "psicologia da M. Wertheimer e outros), que tro anos enorme importância, interveio com uma violenta crítica nas duas frentes, acusando tanto a psicologia empíri­ ca quanto o behaviorismo do mesmo pecado: sua incapaci­ dade para estudar mediante um único método (objetivo ou subjetivo) o comportamento real, vital, do homem. Os dois fatores complicam ainda mais o problema do valor da introspecção e obrigam, portanto, a analü;ar siste­ maticamente as formas, essencialmente diferentes, de intros­ a que essas três partes em discussão se referem. Tentaremos nas próximas linhas sistematizar o embora tenhamos de fazer de caráter geral. Em primeiro lugar, devemos assinalar que a solução do problema deverá surgir de dentro da crise cada vez mais patente da própria psicologia empírica. Nada mais falso do que pretender que a crise que parece ter cindido em dois c<lmpos a ciência russa é apenas uma crise local, própria da Rússia. A crise se estende hoje em dia por toda a psicologia universal. O aparecimento de uma escola psicológica (a psi­ cologia da gestalt), surgida no seio da psicologia empírica, é boa prova disso, De que esses acusam a intros­ de que com esse método de se convertem de modo inevi­ que exige aten­ analítica, arranca sempre o objeto a observar do nexo em que apareceu e o traslada para um novo sistema, "para o sistema do sujeito", para o "eu" (K. Koffka, 1924). Nessas circunstâncias, as vivências se convertem, inevitavelmente, em subjetivas. Koffka compara a introspecção, capaz apenas de observar sensaçôes claras, com os óculos e a lupa, aos

de observar sensaçôes claras, com os óculos e a lupa, aos PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA
de observar sensaçôes claras, com os óculos e a lupa, aos PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA
de observar sensaçôes claras, com os óculos e a lupa, aos PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA
de observar sensaçôes claras, com os óculos e a lupa, aos PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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quais recorremos quando não conseguimos ler uma carta. Mas, ao passo que a lente de aumento nào modifica o pró­ prio objeto, mas ajuda a vê-lo com maior clareza, a intros­ modifica o objeto a observar. Ao comparar pesos,

diz Koffka, a descrição esse ponto de

verdadeira não deverá "este objeto é mais pesado

de verdadeira não deverá "este objeto é mais pesado , mas "minha de peso se intensifí­

, mas "minha de peso se intensifí­

em subjetivo

Os novos psicólogos reconhecem também o heróico fracasso da escola de e a impotência da gia empírica (experimental). A verdade é que também reco­ nhecem a esterilidade do método puramente objetivo e pro­ põem uma perspectiva funcional e integral. Para esses cólogos, os processos conscientes "são apenas processos parciais de grandes configurações"; por isso, e continuando com sua posição, "depois da parte consciente de um grande processo - ou seja, a configuração -, depois dos limites de sua consciência", submetemos nossas teses à comprovação funcional com falOS Os psicólogos que reconhe­ nào constitui o método funclamen­ limitam-se a falar apenas da- ou através " extraídas funcionalmente dela e confirmada pelos fatos.

que, se por um lado a ret1exo­

logia russa e o behaviorismo norte-americano tentam encon­ trar uma "introspecção objetiva", os melhores representantes da psicologia empírica buscam também uma "introspecção real", fidedigna. f: para responder à pergunta do que seria tal coisa que devemos tentar sistematizar todas as formas de introspecção e estudar cada uma delas em separado. cinco formas principais. l.A à pessoa submetida à prova. Isso, natural­

l . A à pessoa submetida à prova. Isso, natural­ Vemos, por já que oressuoõe a
l . A à pessoa submetida à prova. Isso, natural­ Vemos, por já que oressuoõe a

Vemos, por

à pessoa submetida à prova. Isso, natural­ Vemos, por já que oressuoõe a m e n
já que oressuoõe a
já que oressuoõe a

mente, é em organização pessoa, Aquele que tentar evitá-Ia nos

Vemos, por já que oressuoõe a m e n t e , é e m organização

30 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

sujeitos humanos cometerá um erro, porque substituirá as ordens manifestas, e que portanto são levadas em considera- pela auto-instru):ão da pessoa em questão, ordem inculcada pelas circunstâncias do experimento etc. É impro­ vável que atualmente haja que negue a necessidade da

2. Manifestações da pessoa submetida ã prova, relativas

ao objeto externo. Por exemplo, quando se mostram dois círculos: "este é azul, aquele, branco". Esse tipo de introspec­ ção, que se comprova sobretudo recorrendo à mudança fun­ cionai de toda uma série de excitantes e declarações (não é um círculo azul, mas uma série de círculos azuis que se obs­ curecem e clareiam oaulatinamente). também pode resultar

curecem e clareiam oaulatinamente). também pode resultar 3. As declarações da pessoa submetida ã prova sobre

3. As declarações da pessoa submetida ã prova sobre

suas próprias reações internas: "dói, me sinto bem" etc. É

uma forma menos fidedigna de introspecção, embora seja acessível à comprovação objetiva e possa ser admitida.

4. A descoberta de uma oculta. A pessoa subme­

tida a uma prova diz um número que lhe ocorreu; consta

como está colocada a língua dentro de sua boca; repete uma em que pensou etc. Esta é a variedade de descober­

ta indireta da reação, que propugnamos no presente artigo.

5. Finalmente, a descrição detalhada por parte da pes­

soa submetida à prova de seus estados internos (metodolo­ gia de Wurtzburgo). Constitui a variedade de introspecção menos fidedigna e de comprovação mais inexeqüível. Aqui,

a pessoa submetida à prova é colocada na situação de observador auxiliar; o observador (observer, como dizem os psicólogos ingleses) passa a ser, neste caso, o sujeito e não do exoerimento: o exoerimentador limita-se ao Aqui, em vez de fatos se

apresentam teorias preparadas. Tenho a impressão de que o problema do valor científi­ co que cabe atribuir à introspecção deverá resolver-se de forma análoga a como resolvemos o do valor prático dos testemunhos da vítima e do réu na instrução de mento sumário. São parciais - sabemos disso a

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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por isso encerram elementos de falsidade; pode ocorrer, que totalmente falsos. Por isso é absurdo fiar-se neles. Mas, será que isso significa que não devemos escutá-los em durante o processo e prescindamos de interrogar as testemunhas? Isto tampouco seria inteligente. Escutamos o processado e a vítima, verificamos, confronta­ mos, recorremos a provas materiais, a documentos, testemunhos de testemunhas (também aqui há testemunhos e, desse modo, estabelecemos o fato. Não se deve esquecer que existem muitas ciências que não podem esmclar o assunto recorrendo à observação dire­ ta*. Os historiadores e os geólogos estabelecem fatos que não mais existem, através de méLOdos indiretos e, no entan­ to, afinal de contas estudam fatos que existiram, e não pistas c documentos que permaneceram e foram conservados. O psicólogo encontra-se com freqüência na mesma do historiador e do arqueólogo e atua então como o deteti­ ve que investiga um crime que não nrp"pnC'ir

ve que investiga um crime que não nrp"pnC'ir • Compare-se: Ivanóvski V,H lntroducción metodológica
ve que investiga um crime que não nrp"pnC'ir • Compare-se: Ivanóvski V,H lntroducción metodológica
ve que investiga um crime que não nrp"pnC'ir • Compare-se: Ivanóvski V,H lntroducción metodológica

• Compare-se: Ivanóvski V,H lntroducción metodológica a la ciellcia y la Minsk, 1923, pp. 199-200. O autor indica como alguns psicólogos se opunham à introdução do inconsciente em psicologia, baseando-se no fato de que ele não pode ser observado diretamente. Os psicólogos objetivistas tam­ bém estudam os fenômenos da consciência recorrendo ao método indireto, do mesmo modo que O.'i psicólogos anteriores estudavam o inconsciente por seus traços, suas manifestações, suas influências etc. 8. Ivanóvski, Vladimir NikoJáievitch 0867-1931). Filósofo e psicólogo russo. Ocupou-se da história do associacionismo e nessa posição criticou o conceito de atividade do espírito e da apercepção de G. W. Leibniz, J. F. Herbert e fundamentalmente de W. Wundt. Participou ativamente do desen­ volvimento da psicologia pedagógica I1Jssa. (N.R.ru

PSICOLOGIA GERAL E EXPERIMENTAL* (PRÓLOGO AO LIVRO DE A. F. LAZURSKI) 1 o livro de

PSICOLOGIA GERAL E EXPERIMENTAL*

(PRÓLOGO AO LIVRO DE A. F. LAZURSKI)

1

o livro de A. F. Lazurski 1 ganha uma nova edição quando tanto a ciência psicológica russa quanto o ensino das disciplinas psicológicas nas escolas superiores atraves­ sam um período de crise aguda. Essa crise está condiciona­ da e determinada, por um lado, pelos êxitos do pensamento fisiológico, que com os métodos das ciências naturais exatas alcançaram os setores mais complexos e difíceis da ativida­ de nervosa superior e, por outro, pela crescente oposição dentro da própria ciência psicológica aos sistemas tradicio­ nais da psicologia empírica. A isso se acrescentou, além do mais, uma tendência, totalmente inevitável e que se podia esperar - e que se expande pela quase totalidade da atual frente russa da cultura -, a revisar os fundamentos e princí­ pios da psicologia à luz do materialismo dialético e a ligar a elaboração da investigação científica e teórica, assim como

• "Predislovie k knigue A. F. Lazúrskovo Psikhologuia ohstchaia i ekspe­ rimerltalnaia". O prólogo ao livro de A. F. Lazurski foi escrito em 1924 para a terceira edição dessa obra. (Leningrado, 1925), l. Lazurski, Aleksander Fióclorovitch (1874-1917). Psicólogo russo. Iniciador do estudo da doutrina sobre as diferenças psicológicas individuais, para cuja interpretaçào mantinha uma orientaçào científico-natural.

34 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

ensino dessa ciência, a de caráter filosófíco mais gerais e fundamentais.

o

i l o s ó f í c o mais gerais e fundamentais. o Uma tanto

Uma

tanto teórica quanto pe­

da crise e da reestruturação da psi­

e torna necessários certos esclarecimentos prévios para qualquer novo trahalho que se apresente sohre esse tema. O mesmo se aplica aos textos que forem reeditados. O curso de Lazurski foi redigido há quinze anos, partin­ do das aulas ministradas aos alunos de uma das escolas su­

periores de Petersburgo e servia de manual desse curso nos centros de ensino superior. O manual atendia a seu

e era completamente satisfatório. Escrito com extraordinária

simplicidade e clareza e de uma forma que o ao alcance de todos, é dos méritos que qualquer ma­ nual deve reunir: um conteúdo plenamente científico do ma­ terial que inclui uma pedagógica e uma distri­ compendiada e sistemática. Surge agora a terceira do livro que deverá cumprir primordialmente, em nossa opinião, o mesmo objetivo: servir de guia no curso de psicologia da escola, ajudando com isso tamhém os profes­ sores e os estudantes a saírem da crise que, nos centros de

ensino, se retlete principalmente, e de forma mais grave. na ausência de um livro de texto. Foi precisamente esse fim da nova edlçao que

a não ser uma mera do livro tal como o

havia escrito o oróprio autor, mas a submetê-lo a uma certa

realizada, para a edição, pelos pro­ fessores auxiliares do Instituto Pedagógico da Universidade estatal número 1 de Moscou, V. A. Artiómov', N. F. Dobrinin 1

e A. R. Luria, assim como por quem escreve estas linhas. A

1 e A. R. Luria, assim como por quem escreve estas linhas. A 2. Artiómov. Vladimir

2. Artiómov. Vladimir Aleksándrovitch (n. 1897). Psicólogo soviético.

Durante os anos 20-30 foi um dos principais colaboradores do Instituto Psicológico, adjunto à Universidade estatal de Moscou. Seus principais traba­ lhos são dedicados à psicologia da linguagem.

3. Dobrinin, Nikolái Fiódorovitch (1890-1981). Psicólogo soviético.

Durante os

anos 20-30 foi um dos principais cola hora dores do Instituto

Psicológico, adjunto ã Universidade estatal de Moscou. Seus principais traba­

lhos dedicados à psicologia da aten(ào.

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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tarefa era difícil. Por um lado, era preciso conservar integral­ mente o respeito ao legado científico e pedagógico de tão notável erudito como era o honrado professor Lazurski, evi­ tar qualquer deformação ou vulgarização de seus pensamen­ tos, conservar intactos e exatos, na medida do possível, o espírito e inclusive a letra de seu livro e sua forma de expres­ como se se tratasse da entonação e das pausas de seu curso. Por outro lado, era necessário colocar nas mãos dos estudantes um manual do curso de psicologia a que iriam assistir em 1925, ou seja, levar em conta e introduzir no livro todas as correções que foram se acumulando nos textos des­ tinados ao ensino ao longo de um período de dez a anos, e que neste caso haviam se tornado especialmente necessárias nos anos de crise da última década. Esse objetivo, como ficará evidente para todos, não pode ser alcançado em sua totalidade. Por isso, a presente tentativa deve ser considerada necessariamente como lima solução de compromisso, capaz de proporcionar um manual temporário de caráter transitório, mas que de modo algum resolve por completo e de forma definitiva o problema da criação de um novo manual que responda a todas as colocadas atual estado da ciência. Esse manual de novo cunho é coisa do futuro. Como material didático temporário, transitó­ o curso de Lazurski pode, em nossa opinião, ser útil. A favor disso falam os fundamentos científicos, completamente sadios em geral, que serviram de base para seu trabalho pedagógico e científico e sobre os quais criou o curso. "Pode se considerar que um dos traços mais característi­ cos da psicologia atual - assim é dito no princípio do curso é sua transformaçào paulatina em ciência exata, no sentido com que utilizamos esta palavra ao nos referirmos às ciên­ cias naturais" 0925, p. 27). Nessa encontramo-nos agora diante de tentativas tão radicais de reforma de nossa ciência que o ponto de vista do autor do curso pode facilmente parecer moderado e "paulatino" de- embora Lazurski fosse, sem dúvida, um daqueles psi­ cólogos de transformar a psicologia em uma ciên­ cia exata. Lazurski partia ele um ponto de vista geral sobre a psique de caráter biológico e interpretava todos os proble­

exata. Lazurski partia ele um ponto de vista geral sobre a psique de caráter biológico e

36 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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mas da psicologia como sendo de caráter biológico. Afirma­ va, assim, que todas as funções psíquicas têm também sua faceta fisiológica, ou, em outros termos, que no organismo não existem processos psíquicos puros Co processo criativo, diz ele, entre outras coisas, é, de forma análoga a todos os processos espirituais restantes, um processo psicofisiológico, ou seja, que tem seu correlato fisiológico equivalente). Tam­ bém estava convencido da total regularidade da atividade psíquica; no que se refere a sua doutrina do caráter integral da personalidade, afirmava que nossa organização psíquica nos foi proporcionada como um todo, como uma unidade coerente e ordenada. Tudo isso coincide de tal forma com os princípios fundamentais da psicologia biológica, que o livro acaba sendo muito melhor do que toda uma série de outros cursos universitários, inclusive do que os criados há pouco tempo. A tudo isto deve-se acrescentar uma característica re­ lativamente rara nos manuais russos universitários, que é o fato de que o autor introduz no curso exemplos e dados da psicologia experimental. Destacamos, também, o espírito ponderado e diáfano, naturalista e realista, que impregna to­ do o livro. Esses méritos indiscutíveis do manual, seus pontos de contato com a psicologia científica recém-surgida são aspec­ tos que era necessário destacar em primeiro lugar, sublinhar e conseguir que aparecessem no livro em primeiro plano. Mas, para isso, foi preciso introduzir com enorme cuidado no texto que aqui se apresenta algumas modificações. Em geral, as mudanças realizadas, ou seja, a parte técnica do trabalho de redação, reduziram-se ao seguinte:

Omitiu-se o capítulo XXI Cda segunda edição), "Os senti­ mentos religiosos". Esse capítulo não mantém uma relação orgânica com o curso, não constitui parte integrante indis­ pensável do sistema do mesmo e, no aspecto científico, care­ ce de valor sério e original. Não passa de uma pequena rami­ ficação dentro do capítulo da psicologia das sensações, de modo algum obrigatória e internamente desnecessária. Além disso, em quase nenhum outro campo as teses do autor po­ dem resultar tão discutíveis, nem estar tão pouco respalda­

das cientificamente pela própria análise psicológica da fé e das concepções religiosas, nem ser tão hipotéticas e tão pouco fidedignas como nesse capítulo. Por isso, não era con­ veniente conservar num manual um material discutível e uni­ lateral, que, além do mais, perdeu nos últimos anos, devido ~1 transformação cultural geral, quase todo seu interesse. Um capítulo assim não pode ter cabimento, é evidente, num curso universitário atual e, pela mesma razão, tampouco tem sentido que figure num manual destinado ao mesmo. Também foi suprimida uma página do capítulo I - "Ob­ jeto e tarefas" -, onde o autor, ao contrário de seu ponto de vista geral, defende o direito da ciência de introduzir hipó­ teses e afirma que, neste sentido, o conceito de alma como base dos processos psíquicos tem todo direito de existir. Isso nos faz retroceder tanto, inclusive em comparação com

a psicologia empírica, essa psicologia sem alma, que consti­ tuiria uma indubitável e violenta dissonância em um curso

de psicologia científica.

No restante, reimprimiu-se integralmente o texto da segunda edição, salvo por insignificantes omissões de pala­

vras soltas, frases cortadas, observações etc. Essas omissões devem-se, em sua maioria, a exigências puramente técnicas

e estilísticas, em função de certos adendos introduzidos no

texto. Considerávamo-nos no direito de fazê-lo, já que par­

tíamos da convicção de que um manual não é uma canção,

da qual não se pode suprimir uma palavra, e que a supres­

são de um vocábulo ou sua substituição por outro mais oportuno, segundo as exigências do contexto, não podem ser consideradas de modo algum como uma tergiversação. Isto foi feito apenas em bem poucos casos, onde era com­ pletamente necessário e inevitável e onde renunciar a isto teria significado renunciar a redigir o texto. As correções realizadas e os adendos introduzidos apa­ recem entre colchetes, destacando-se do texto e aparecendo como adendos posteriores. Foi preciso recorrer a isso por­ que o próprio caráter do manual não permitiria observações extensas, chamadas, citações de obras e de outros autores.

O manual devia continuar sendo isso, ou seja, um livro que

extensas, chamadas, citações de obras e de outros autores. O manual devia continuar sendo isso, ou

38 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

oferece uma exposição coerente de um curso para o ensino de uma ciência. Os adendos e correções tiveram quase sempre, em to­

dos os lugares, o caráter de

vez que se fala das tarefas, dos métodos e do cologia, acrescentamos a palavra - K.K.J, porque tanto teórica quanto historicamente as afirmações do autor conservam sua autenticidade científica apenas com essa cor­ reçào; essa correção também estava subentendida antes, mas dispensava-se especificá-la porque, além da psicologia empírica, em nossos cursos para estudantes não existia outra. A maioria das correções em geral: esse mesmo caráter. Em alguns lugares incluiu-se uma palavra para reforçar o sentido, para estabelecer um nexo com o contex­ to, com um adendo introduzido anteriormente. Em outros

no

to, com um adendo introduzido anteriormente. Em outros no -imiu-se uma palavra que sobrava e que

-imiu-se uma palavra que sobrava e que induzia substituiu-se por outra, de novo para com o contexto l!eral dos adendos

introduzidos. Finalmente, alguns adendos mais extensos introduzidos em certos capítulos, que também figuram entre foram considerados como o mínimo de dados necessários que deviam ser incluídos no manual e sem os quais sua uti­ lização resultaria francamente impossível, já que, em tal caso, o curso ministrado da cátedra e o lido no livro divergi­ riam de forma definitiva e incorrigível. Nesse sentido, foi preciso que os adendos fossem feitos nào sob a forma de simples especificações de uma ou outra tese, citação ou mas sempre levando em considera- os estudantes e em duas palavras a essência da Os adendos foram sempre realizados conservando­ se essa perspectiva histórica e portanto, sempre o cará­ ter de um ponto de vista científico posterior. Isso resulta oportuno, sobretudo, porque o livro de Lazurski não consti­ tui um sistema psicológico estritamente fechado, completo e original. A originalidade da obra científica de Lazurski se manifesta em outras esferas de seu trabalho, mas nào no estudo do sistema geral, da psicologia teórica.

mas nào no estudo do sistema geral, da psicologia teórica. PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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Dada a ausência de um sistema universalmente reco­ nhecido, que caracterizou, durante as últimas décadas, a psicologia empírica, os psicólogos de diferentes correntes e escolas criavam quase sempre sua forma especial de expor o curso e interpretavam a sua maneira os principais princí­ pios e categorias psicológicos. Diante desse estado de coi­ sas, o curso de Lazurski só pode ser caracterizado como um curso combinado, que inclui os sedimentos de diversos sis­ temas, que une numerosas distintas e esboça uma certa linha média resultante de diferentes correntes psi­ cológicas. A linha correspondente ao ponto de vista do autor, que se fez notar, como é natural, na própria escolha do material e na suficientemente clara reunião do mesmo, poderia ser denominada provavelmente de eclética. Isto permite pensar que as teses e dados novos que foram intro­ duzidos não resultarão organicamente estranhos dentro do sistema da obra e encontrarão seu lugar junto com outras linhas do mesmo que se entrecruzam. Nesse sentido, é preciso levar em conta que, em geral, um manual não deve ser concebido de forma dogmática; deve, antes, ter um caráter informativo. Em nossa época, por mais antipedagógico que pareça, um manual de psicologia deve ter, em maior ou menor grau, um caráter crítico. Ainda não se criou um novo sistema de psicologia científica que, sem se apoiar em absoluto nos anteriores, seja capaz de organizar seu próprio curso. Os pontos de vista fundamen­ tais de nossa ciência ainda estão determinados em medida por traços negativos. Muitos nova ciência baseiam-se ainda na força de refutação e da crí­ tica. A psicologia como ciência, utilizando palavras de E. Thorndike, está mais próxima do zero do que da perfeição. Por outro lado, ainda é muito grande a necessidade de recor­ rer à experiência precedente, constituída com uma velha ter­ minologia. Ainda sào de uso comum, tanto na língua cotidia­ na quanto na científica, conceitos e categorias cotidianos. Por isso foi necessário renunciar desde o princípio à idéia de traduzir todo o curso para o idioma da nova psico­ ou de introduzir pelo menos uma terminologia, uma

à idéia de traduzir todo o curso para o idioma da nova psico­ ou de introduzir

40 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

classificação e um sistema paralelos. Isso teria signifícado escrever um livro totalmente novo, em vez de redigir a ter­ ceira da obra de Lazurski. Por isso foi necessário decidir conscientemente lançar o livro que expõe o sistema da psicologia empírica, utilizando os termos dessa psicolo­ gia, de acordo com a classificação tradicional e assim por diante. Mas desejamos reforçar tudo isso de algum modo com novo material científico e aproximá-lo um pouco da realidade. A seQunda tarefa consistiu em proporcionar ao livro um certo material essencialmente em apresen­ tar criticamente um novo ponto de vista. Em linhas gerais, o fato é que Lazurski se situa com ambos os pés no terreno da psicologia empírica tradicional

e compartilha com ela de todos os defeitos e imperfeições

que obrigam a psicologia científica que hoje se tenta cons­

truir a se confrontar com a psicologia empírica e opor-se a ela. Descobrir a linha fundamental de divergência com a su­ ficiente dureza e clareza, apresentar o novo ponto de vista com o detalhe e a sufíciente força de convicção nos aden­ introduzidos sempre por motivos circunstanciais e de forma fragmentada, era totalmente impossível. Por isso con­ sideramos conveniente dedicar a isso a segunda parte desta introdução, para, dessa maneira, orientar o pensamento de todo aquele que utilizar o livro de uma forma de certo modo crítica, proporcionando-lhe a vacina necessária e si­ tuando-o na correta disposição em relação ao ponto de vista exposto com suficiente plenitude no mesmo. Portanto

a segunda parte destina-se a servir a qualquer leitor quer

como capítulo introdutório, quer como capítulo comple­ mentar do livro. Estamos perfeitamente conscientes de que com isso, e sem invadir em absoluto o texto, modificamos o tom princi­ e o sentido do livro mais do que com todas as insignifi­ cantes omissôes, notas e correções realizadas no texto e mencionadas anteriormente. Ao agirmos assim, supusemos também que a lembrança mais lisonjeira de Lazurski seria que seu manual, embora enfocado de forma crítica, fosse novamente introduzido em nossa escola, para a qual foi

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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criado exclusivamente, em de arquivá-lo definitiva­ mente, ainda mais levando-se em conta que, sem além de cientista, ele era também um ativista e um pedago­ go e que não teria repetido agora sua segunda tex­ tualmente. Podemos afirmá-lo com certeza, mesmo sendo teria adotado agora. E para a escola é mais útil utilízar, ainda que seja apenas critica­ mente, um material válido, do que carecer por completo de um manual durante todo o tempo de transição.

completo de um manual durante todo o tempo de transição. 2 Seria um profundo engano considerar
completo de um manual durante todo o tempo de transição. 2 Seria um profundo engano considerar

2

Seria um profundo engano considerar que a crise da ciência psicológica teve início nos últimos anos, com o sur­ gimento de correntes e escolas que se declaram opostas ã psicologia empírica, e que antes disto tudo se desenvolvia de forma feliz. A psicologia empírica, que substitui a racio­ nal ou metafísica, realizou dentro de seu âmbito uma tante reforma. A partir da afirmação de]. Locke de que a investigação da essência da alma era uma especulação, a psicologia empírica evoluiu, de acordo com o espírito cien­ tífico geral de sua época, até converter-se em uma "psicolo­ sem alma", uma ciência experimental acerca dos fenô­ menos espirituais ou estados da consciência, estudados me­ diante a percepção interna ou a introspecção. No entanto, a psicologia não conseguiu criar sobre essas bases um sistema universal e necessário similar ao de outras ciências. Seu estado no final do século XIX, pode ser caracterizado com bastante correção pela existência de um grande desa­ cordo dentro do pensamento científico que se tinha dividido em numerosas correntes isoladas, que defendiam seu pró­ prio sistema e interpretavam e compreendiam a sua maneira as categorias e princípios fundamentais de sua ciência. "Pode-se dizer, sem medo de exagerar - manifesta a esse respeito N. N. Langue -, que a descrição de qualquer pro­ cesso psíquico apresenta distintas aparências em funç:ão de ser caracterizado ou de a ele serem aplicadas as categorias

psíquico apresenta distintas aparências em funç:ão de ser caracterizado ou de a ele serem aplicadas as

42 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

de diferentes sistemas psicológicos: o de Ebbinghaus ou Wundt, Stumpf ou Avenarius, Meinong ou Binet, James ou G. E. Müller" 0914, p. A profunda crise que dividiu a psicologia empírica teve como conseqüência inevitável, por um lado, a ausência de um sistema científico único, reconhecido por todos e, por outro, a inevitabilidade do aparecimento de novas correntes psicológicas, que tentavam encontrar uma saída para a crise, renunciando às principais premissas da psicologia empírica e adotando como fundamentos e fontes de conhecimento outras mais sólidas e cientificamente mais fidedignas. Na verdade, as teses fundamentais da psicologia empíri­ ca ainda estão tão impregnadas da herança da psicologia metafísica e tào estreitamente vinculadas ao idealismo filo­ sófico e permeadas de subjetivismo, que não constituem um terreno favorável e cômodo para a criação de um sistema científico único da psicologia como uma das ciências natu­ rais. O próprio conceito de "fenômeno espiritual" encerra toda uma série de elementos que sào inconciliáveis com essas ciências naturais. Nota-se aqui claramente a herança da psicologia racional e o caráter inconcluso de suas refor­ mas. Reconhecer os fenômenos espirituais como com­ pleta e decididamente distinto quanto a sua natureza e enti­ dade de todos os demais estudados pela ciência e atribuir­ lhes certos traços e possibilidades que não foram descober­ tos em tempo algum e em nenhum lugar do mundo nada mais significa do que renunciar à possibilidade de transfor­ mar a psicologia numa das ciências naturais exatas. Por fim, o material da psicologia empírica, sempre tingi­ do de uma tonalidade subjetiva e extraído, em todos os casos, do estreito poço da consciência individual, junto com seu método principal, que reconhece o caráter essencial­ mente subjetivo do conhecimento dos fenômenos psíquicos, mantém nossa ciência tão atada e limita tanto suas possibili­ dade que a condena, assim, à atomização da psique, a sua fragmentação em numerosos fenômenos, independentes uns dos outros, e à incap,lcidade de agrupá-los. Essa psicologia era imoolente para responder às principais questôes que

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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toda ciência deve se fazer. O testemunho subjetivo sobre as próprias sensações nunca pôde dar uma justificativa para suas explicações genéticas e causais, nem proporcionar uma análise rigorosa e pormenorizada de sua composição, nem oferecer uma constatação indiscutível e objetivamente fide­ digna de seus principais traços. Esses fatos, que se produziam dentro da própria psico­ logia, tornaram patente a necessidade de adotar um ponto de vista objetivo e, dessa maneira, determinar o objetivo, o método e os princípios de seu estudo para assegurar a pos­ sibilidade de construir um sistema científico exato e rigoro­ so. Apesar da confusão e indeterminação desse futuro siste­

ma, da falta de coordenação de pensamento dentro das dife­ rentes correntes da psicologia objetiva, da freqüente falta de clareza de suas teses fundamentais e de seus pontos de par­ tida, cabe tentar esboçar, em suas linhas essenciais, algumas idéias gerais dessa psicologia científica, à luz das quais o psicólogo de nossos dias se vê obrigado a assimilar e refazer

o material da psicologia anterior. Costuma considerar-se que o objeto da psicologia cientí­ fica é o comportamento do homem c dos animais, interpn tando como comportamento todos os movimentos que so­ mente os seres vivos realizam, em contraposição ao reino mineral. Esse movimento é sempre uma reação do organismo vivo a qualquer excitação que atue sobre ele vinda do meio

externo ou que surja dentro do próprio organismo. A reação

é um conceito biológico geral e podemos falar da mesma

maneira de reações nas plantas, quando seus talos tendem a se voltar para a luz, de reaçôes nos animais, quando a traça voa em direção à chama de uma vela ou um cachorro secreta

saliva quando lhe mostram carne, ou de reações no

secreta saliva quando lhe mostram carne, ou de reações no ouve a campainha da porta e

ouve a campainha da porta e a abre. Em todos esses casos, encontramo-nos diante de um processo totalmente claro de uma reação completa, que se inicia através de umsecreta saliva quando lhe mostram carne, ou de reações no um impulso, um estímulo (a luz,

um impulso, um estímulo (a luz, a chama da a visão da carne, a campainha), que se transforma em determi­ nados processos internos que surgem no organismo graças a esse imoulso (os processos químicos sob a influência da luzesses casos, encontramo-nos diante de um processo totalmente claro de uma reação completa, que se inicia

nados processos internos que surgem no organismo graças a esse imoulso (os processos químicos sob a

44 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

nas plantas e na a excuaçao nervosa, a percepção, a "lembrança", o "pensamento" no cachorro e no homem) e termina, finalmente, com um determinado movimento de res­ posta, uma uma mudança, um ato no organismo (a fle­ xão do talo, o vôo da traça, a secreção da saliva, o caminhar e a abertura da porta). Esses três momentos ­ a excitação, sua transformação no organismo e a ação de resposta são sem­ pre próprios de qualquer tanto em seus casos e for­ mas mais elementares, onde todos eles se manifestam e po­ dem ser facilmente identificados à simples vista, como tam­ bém naqueles em que, devido ã grande complexidade do processo ou do choque de muitos excitantes e reações ou da ação em algum dos órgãos internos de um excítante interno invisível (a contraç,lo das paredes do intestino, o afluxo de sangue a um determinado órgão), torna-se impossível identi­ ficar à simples vista esses três momentos. No entanto, uma análise exata descobrirá sempre nesses casos a presença de três partes que integram a reação.

adotam formas tão comple­

xas que exigem uma análise detalhada para que se possa distinguir os três momentos. Às vezes, os excitantes estão tão profundamente ocultos nos processos orgânicos inter­ nos ou demoraram-se tanto em relação ao momento da rea­ ção de resposta ou entram em conexão com combinações tão complexas de outros excitantes, que nem sempre é pos­ sível percebê-los e identificá-los ao simples olhar. Muitas vezes, o movimento de resposta ã ação do organismo está tão reprimido, tão condensado, tão encoberto e oculto, que pode facilmente passar despercebido e, inclusive, parecer não existir. É o que ocorre nas mudanças que a respiraçào e a circulação sanguínea experimentam em algumas sensa­ ções tênues ou em pensamentOI> silenciosos, que vem acom­ de uma fala interna silenciosa. A partir dos movi­ mentos mais rudimentares dos animais unicelulares, que se manifestam na repulsa dos excitantes desfavoráveis e na atraçào dos favoráveis, as reações vâo se complicando e ado­ tam formal> cada vez mais elevadas, chegando ao comporta­ mento t<lO complexamente organizado do

Com freqüência, as

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

45

Esses pontos de vista sobre o principal mecanismo do comportamento concordam totalmente com o esquema bio­ fundamental da vida espiritual exposto no presente manual: a percepção das impressões externas, sua transfor­ ma\:ão subjetiva e, como resultado desta, uma determinada influência no mundo externo. Essa interpretaçào também está de acordo com outra afirmação geral deste curso: que toda sensação espiritual, qualquer que seja percepções ou apreciações, esforços volitivos ou sensações já é um pro­ cesso ou uma atividade.

O comportamento dos animais e do homem conl>titui

uma forma extraordinariamente importante de ada ptação

biológica do organismo ao meio. A adaptação, que é a lei fundamental e universal do desenvolvimento e da vida no organismo, adota duas formal> principais.

A primeira produz mudanças na estrutura dos

principais. A primeira produz mudanças na estrutura dos em seul> órgãos, sob a influência do meio.

em seul> órgãos, sob a influência do meio. A outra, importância não é menor do que a da primeira, consiste na mudança de comportamento dos animais sem que se altere a estrutura de seu corpo. Todos conhecem a enorme tâncía que o instinto desempenha na conservação do indiví­ duo e da espécie, instinto este que consiste em movimentos adaptativos muito complexos do animal, sem os quais a exis­ tência deste e de sua espécie seria inconcebível. É o que torna compreensível a utilidade biológica da psique. Ao introduzir uma extraordinária complexidade no comporta­ mento do homem, ao proporcionar-lhe urna enorme tlexibi­ converte-se num dispositivo biológico muito so, sem igual no mundo orgânico e ao qual o homem deve seu domínio sobre a natureza, ou seja, as formas superiores de sua adaptação. Nestas circunstâncias, quando a é submetida a análises científicas, revela sua nature­ za motora, sua estrutura, que coincide totalmente com a da revela seu valor de dispositivo vital real do mo, sua função específica e de natureza análoga às demais funções adaptativas. Os mais delicados fenômenos da psi­ que nada mais sào do que formas organizadas de comporta­ mento particularmente complexas, que, por conseguinte, de­

que nada mais sào do que formas organizadas de comporta­ mento particularmente complexas, que, por conseguinte,
que nada mais sào do que formas organizadas de comporta­ mento particularmente complexas, que, por conseguinte,
que nada mais sào do que formas organizadas de comporta­ mento particularmente complexas, que, por conseguinte,

46 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

sempenham a mesma função de adaptação que as outras formas de acomodação dos organismos sem que varie a organização destes. Os dois procedimentos de adaptação (tanto a modifica­ ção da estrutura dos animais quanto a de seu comportamen­ to sem que varie a estrutura) podem ser divididos, por sua vez, em hereditários e não hereditários. Os primeiros sur­ gem através de um procedimento evolutivo mais lento, de­ senvolvem-se graças à seleção natural, consolidam-se e se transmitem por herança. Os segundos sào formas mais rápi­ das e flexíveis de adaptação e tem origem no processo da experiência particular do indivíduo. Se os primeiros permi­ tem adaptar-se às lentas mudanças do meio, os segundos respondem a variações súbítas, rápidas e bruscas. Por isso estabelecem formas de conexão muito mais diversas e fleXÍ­ veis entre o organismo e o meio. Também o comportamento dos animais e do homem é por reações hereditárias e adquiridas através da experiência individual. As primeiras compõem-se de refle­ xos, instintos e algumas reaçôes emocionais e constituem o capital hereditário, comum a todo o de dispositivos biologicamente úteis do organismo. Sua origem é, em geral, a mesma que a das mudanças hereditárias da estrutura do organismo e explica-se totalmente pela doutrina da evolu­ ção, desenvolvida de forma genial por Darwin. Apenas muito recentemente, graças às investigaçôes de Pávlov e Békhterev, surgiu a doutrina dos renexos condicio­ nados, que desvenda o mecanismo da origem e da produção das reaçôes adquiridas. Em sua essência, essa doutrina ser resumida assim: Se no animal atua um excitante que des­ nele uma reação inata (renexo simples ou não-condi­ cionado) e, simultaneamente (ou um pouco antes), atua ou­ tro excitante, indiferente, que normalmente nào provoca essa reaçào, e essa ação conjunta de ambos os excitantes, coincidindo no tempo, se repete várias vezes, normalmente

e em conseqüência disso, o animal começará a reagir inclusi­ ve diante de um excitante anteriormente indiferente. Por

exemplo, dá-se carne a um

e ele secreta tra-

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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ta-se de um reflexo simples ou não-condicionado, de uma reação inata. Se, ao mesmo tempo (ou um pouco começa a atuar sobre o cachorro qualquer outro excitante, como, por exemplo, uma luz o tique-taque de um me­ trônomo, uma pressão tátil etc., depois de repetir-se várias vezes a ação conjunta de ambos os excitantes, costuma apa­ recer no cachorro um reflexo condicionado, ou ele começa a secretar saliva com o simples acender da luz azul, ou ao ouvir o tique-taque do metrônomo. Por conseguinte, entre a reação do cachorro (secreção de saliva) e o meio estahelece-se um novo nexo, que não figurava na organiza- hereditária de seu comportamento e que se criou em conseqüência de certas condiçôes (COincidências no tempo) ao do processo da experiência individual do cachorro. Esse mecanismo de formação do reflexo condicionado explica muito do comportamento do animal. É um dos ad­ miráveis mecanismos de adaptação, extraordinariamente fle­ xível, que permitem ao animal estabelecer formas multiface­ tadas, complexas e flexíveis de inter-relação com o meio e proporcionam a seu comportamento um valor exclusiva­ mente biológico. Esse mecanismo evidencia claramente a lei fundamental do comportamento: as reações adquiridas (re­ flexos condicionados) surgem sobre a base das hereditárias (não-condicionad~ls) e são, na essência, as mesmas reações mas de forma desarticulada, combinadas de maneira distinta, e o fazem em conexão com elementos to­ talmente novos do meio. Fica claro que, em determinadas circunstâncias (suficiente força de excitação, coincidência no tempo com o excitante não-condicionado), podem se converter em estimulantes para qualquer reação. Em outras palavras, graças a esse mecanismo torna-se possível uma variedade infinita de nexos e correlações do organismo com o meio, graças a que o comportamento em todas as for­ mas superiores com que tropeçamos no homem se converte no mais perfeito procedimento de adaptação. Evidencia-se também que o meio, como sistema de exci­ tantes que atuam no organismo, constitui um fator decisivo no estabelecimento e na formação dos reflexos condiciona­

tantes que atuam no organismo, constitui um fator decisivo no estabelecimento e na formação dos reflexos
tantes que atuam no organismo, constitui um fator decisivo no estabelecimento e na formação dos reflexos

48 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

dos. É precisamente a organização do meio que determina as condições das quais depende a forma~:ào dos novos nexos que constituem o comportamento do animal. O meio desem­ penha, em relaçào a cada um de nós, o papel de laboratório, no qual são educados nos cachorros os reflexos con­ dicionados e onde, combinando e unindo de certa forma os excitantes carne, a luz, o pão ou o metrônomo), se za de uma maneira diferente a cada vez o comportamento do animal. Nesse sentido, o mecanismo do reflexo condiciona­ do é uma ponte lançada entre as leis biológicas dos vos hereditários estabelecidos por Darwin e as leis sociológi­ cas estabelecidas por K. Marx. É precisamente este o meca­ nismo que pode explicar e mostrar como o comportamento hereditário do homem, que constitui uma aquisição biológi­ ca geral de todo o reino animal, se converte em seu compor­ tamento social, que surge sobre a base do hereditário, sob a influência decisiva do meio social. Somente esse enfoque permite estabelecer fundamentos biossociais sólidos no estu­ do do comportamento do homem e considerá-lo como um fato biossocial. Tinha muita razão Pávlov quando dizia que essa doutrina deve servir de base para a psicologia: é a partir daquela que esta última deverá começar. A doutrina dos reflexos condicionados apenas começou a se ocupar desse ingente e complexo problema e ainda se encontra muito longe de extrair conclusões definitivas em quase todos os campos da investigação. No entanto, basean­ do-se nos resultados já obtidos, pode-se considerar estabe­ lecido que o mecanismo dos reflexos condicionados formas de comportamento extraordinariamente complexas e variadas. Parece, portanto, que os reflexos con­ podem se completar e se formar não apenas mediante a combinação do excitante não-condicionado de lima reação hereditária com um indiferente, mas também a de um novo excitante com o reflexo condiciona­ do estabelecido anteriormente. Por exemplo, se já estivesse formado no cachorro o reflexo salivar ã luz azul, ao combi­ nar a desta com um novo excitante (a campainha, o tique-taque) obteríamos depois de várias tentativas o reflexo

obteríamos depois de várias tentativas o reflexo PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 49 com a
obteríamos depois de várias tentativas o reflexo PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 49 com a
obteríamos depois de várias tentativas o reflexo PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 49 com a

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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com a sllnples intervenção do tíque-taque ou da Esse é um reflexo condicionado de segunda ordem. É muito provável que sejam possíveis super-reflexos semelhantes de uma ordem extraordinariamente alta, ou seja, que se possam

tais nexos entre o organismo e elementos concre­ tos do meio, que estejam infinitamente distantes da reação primária, inata. Estabeleceu-se também que a influência, durante o de­ senvolvimento da reação, de qualquer excitante estranho de força suficiente, a inibe e detém. Uma nova excitaçào, incor­uma ordem extraordinariamente alta, ou seja, que se possam agora às duas primeiras, passa a exercer

agora às duas primeiras, passa a exercer uma in­ fluência retardativa, inibidora, no próprio freio, inibe o freio ou desenfreia a reação. Cabe considerar casos muito cados de diferentes combinações de vários excitantes, que provocam as mais diversas e complicadas reações. Por meio do mesmo procedimento experimental estabeleceu-se a possibilidade, em determinadas circunstâncias, de educar nos animais os denominados reflexos vestigiais, nos quais a reação de resposta surge apenas quando o excitante inter­ rompe sua ação ou o fazem os reflexos retidos nos quais a parte de resposta da reação se atrasa no tempo em relação ao começo da excitação. Além disso, vislumbra­ ram-se leis extraordinariamente complexas de regulação recíproca de reflexos, de sua inibição ou reforço mútuos, de sua luta pelo órgão de trabalho. Todos esses e numerosos outros fatos, estabelecidos com a precisão indubitável e indiscutível do saber científico exato, permitem supor com bastante plausibilidade que o comportamento dos animais e do homem, em suas mais variadas formas, se compôe de reflexos condicionados em diferentes combinaçôes. Qualquer ato de comportamento se forma segundo o modelo de um reflexo. Alguns autores (Békhterev e outros) supõem que a própria ciência do com­ portamento deveria se chamar reflexologia. Os psicólogos, contudo, preferem o termo "reação", por ter um significado biologicamente mais amplo. A reação inclui o comporta­ mento humano dentro do círculo de conceitos biológicos gerais: reagem as plantas e os organismos animais mais sim­

mento humano dentro do círculo de conceitos biológicos gerais: reagem as plantas e os organismos animais
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mento humano dentro do círculo de conceitos biológicos gerais: reagem as plantas e os organismos animais
mento humano dentro do círculo de conceitos biológicos gerais: reagem as plantas e os organismos animais

50 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

pIes. O reflexo é apenas um caso particular de reação, ou da reação dos animais que possuem sistema nervo­ so. Pressupôe necessariamente o conceito de arco ou seja, do caminho nervoso constituído por um nervo cen­ trípeto que leva a excitação ã célula nervosa do sistema cen­ traI, que transmite essa reação a um nervo centrífugo e deste último leva a excitação abdutora para o órgão de trabalho. Reflexo é um conceito estritamente fisiológico. Além disso, o estado atual da doutrina do sistema nervo­ so converte em muito verossímil a probabilidade da reação que surge, não através de uma excitação nervosa dos órgãos dos sentidos, que proporciona um impulso ao aparecimento de um novo processo no sistema nervoso central, mas mediante centros espontâneos de excitação, localizados de diferentes maneiras no cérebro, condicionados por processos radioativos produzidos por sais de potássio. De acordo com P. P. Lázarev\ é possível supor a existência de rea).·ões de não reflexo (já que nelas não existe arco reflexo, por não haver excitante externo), mas que ao mesmo tempo possuem o caráter estrito de uma reação completa: encontramo-nos aqui em presença de um excitante (desintegração radioativa), de processos dentro do organismo e de uma reação. Final­ mente, o termo "reação" goza de grande tradição na psicolo­ gia experimental. Por tudo isso, os psicólogos atuais empe­ nhados em criar a nova psicologia repetem, não obstante, seguindo com prazer N. N. Langue: "Dispomos de uma deno­ minação tradicional para um grupo de fenômenos que, embora amplo, dista muito de estar delimitado com exatidão. Essa denominação nos foi transmitida desde os tempos em que não se conheciam as severas exigências científicas atuais. Deve-se suprimir o nome por ter-se modificado o objeto da ciência? Isto seria pedante e nem um pouco prático. Portanto, admitamos sem vacilar uma 'psicologia sem alma' [referência

sem vacilar uma 'psicologia sem alma' [referência 4. Lázarev, Piotr Petróvitch (1878-1942). Físico,

4. Lázarev, Piotr Petróvitch (1878-1942). Físico, biofísica e geofísico soviético. Elaborou a teoria físico-química da excitação (a denominada teoria iônica da excitaçào) e a doutrina ela adaptação do sistema central aos exci­ tantes externos.

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

51

à psicologia do comportamento L.V.). Apesar de tudo, sua denominação será útil enquanto este objeto de estudo não corresponder a nenhuma outra ciência." É necessário assinalar, além do mais, que, do ponto de vista da psicologia do comportamento, a reflexologia repre­

senta outro ponto de vista, tão inaceitável quanto o da cologia empírica. Se esta última estuda a psique sem com­ portamento, em sua vertente isolada, abstrata e separada de tudo, a primeira procura ignorá-Ia e estuda o compor

to prescindindo dela. Esse materialismo fisiológico unilateral

está tão distante do materialismo dialético quanto o está o idealismo da psicologi,l empírica. Limita o estudo do com­ portamento humano a seu aspecto biológico, ignorando o

fator social. Estuda o homem somente no que se refere a sua pertença ao mundo geral dos organismos animais, a sua

fisiologia, já que se trata de um mamífero. Em contraposição

ã adaptação passiva dos animais ao meio, a experiência his­

tórica e social, a originalidade da adaptação laboral ativa da natureza a si mesma continua inexplicada nessa perspectiva.

Além disso, a própria reflexologia reconhece a realidade e a indiscutível existência da psique. Békhterev previne contra

a consideração dos processos psíquicos como fenômenos

supérfluos, acessórios. Pávlov denomina a psique de "pri­ meira realidade". Biologicamente, seria um completo despropósito afir­ mar a realidade da psique e admitir ao mesmo tempo sua inutilidade e a possibilidade de explicar todo o comporta­ mento sem ela. Este não existe no homem sem a psique, como tampouco esta última existe sem ele, já que a psique e o comportamento são a mesma coisa. Somente o sistema científico que descobrir a importância biológica da no comportamento humano, que indicar com exatidão o que traz de novo para as reações do organismo e o explicar co­ mo um ato de comportamento, poderá aspirar ao nome de

psicologia científica. Esse sistema ainda não foi criado. Cabe afirmar com cer­ teza que não surgirá nem das mínas da psicologia empírica, nem nos laboratórios dos reflexólogos. Chegará como a am­

que não surgirá nem das mínas da psicologia empírica, nem nos laboratórios dos reflexólogos. Chegará como

52 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

síntese biossocial da doutrina do comportamento do ani­ mal c do homem social. Essa nova psicologia será um ramo da biologia geral e, ao mesmo tempo, a base de todas as ciências sociológicas. Constituirá o núcleo em que estarão unificadas as ciências da natureza e as do homem. Por isso

estará estreitamente ligada à filosofia, mas à filosofia estrita­ mente científica, que supõe uma teoria conjunta do saber

científico, e não à filosofia científicas. Até este momento,

predecessora das

filosofia científicas. Até este momento, predecessora das apenas fixar as balizas c cri­ térios gerais que

apenas fixar as balizas c cri­

térios gerais que marcarão a linha da nova os quais teremos de tratar a científica da anterior. Enquanto não tiver sido criada a nova terminologia nem elaborada a nova estaremos obrigados (e não apenas por um ano) a utilizar as velhas, sublinhando sempre, contudo, o convencionalismo, tanto dos velhos con­ ceitos quanto de suas velhas divisões.

No final das contas, e utilizando palavras de Lazurski, na maioria dos casos deve-se considerar como terminologia da "psicologia da vida cotidiana" a linguagem de uso geral, não científica, popular. Nào cra à toa que Lazurski conside­ rava que uma das tarefas de seu livro consistia em estabele­ cer uma relacão entre as

convencional

o mesmo papel que à terminologia da vida

ao próprio au­

tor suas próprias palavras sobre a terminologia da psicologia

mais essa

divisào, sem realizar nela mudanças importantes. Se a repro­

duzi integralmente foi, em primeiro lugar, devido a seu valor histórico e, em segundo, porque na vida cotidiana

racional. "Atualmente

quase com

) não podemos aceitar

com muita freqüência classificamos os processos psíquicos

quase do mesmo modo. Em geral, a

(líremos: psicologia empírica - L.V.] bas­

tante da da vida cotidiana. É difícil dizer quem

sobre as pessoas

influiu sobre quem neste caso: os

das

quem sobre as pessoas influiu sobre quem neste caso: os das PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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instruídas, ou as observações cotidianas sobre os filósofos, mas o que é de fato indubitável neste caso é uma proximi­ dade mútua. Isso deverá sempre ser levado em considera­ ção ao lembrar que a rotineira terminologia coti­ diana com freqüência, não tanto aos conheci­ mentos científicos atuais sobre a vida espiritual quanto a acrescentamos: e

ca ­ L. V.j antenor umaem, p. 74). é indubitável que na nova psicologia todos os terminologia, todo o aparato cientí­ empírica, serào revistos. reconstruídos e criados de novo. Nào há dúvida de que muito do que ali ocupa o·primeiro lugar ocupará aqui o último. A nova psico­ logia considera os instintos e os impulsos como o núcleo fundamental ela psique e provavelmente nélo os estudará na última parte do curso. Também evitará a amílise dispersa, de isolados da psique, em que era de­ composto o comportamento do indivíduo na saica. Mas, enquanto não tiver sido criado o novo não temos outro remédio senão aceitar ainda que de forma na Clencia e no aparato da lembrando que esse é o untco nr,,,rprl mento para poder incorporar à nova ciência o indiscutível valor das observações objetivas, dos experimentos exatos acumulados ao longo do secular trabalho da psicologia em­ pírica. Apenas, devemos recordar a cada momento a conven­ cionalidade dessa terminologia, o novo ângulo que cada conceito e palavra adotou, o novo conteúdo que inclui. Não se deve esquecer nem por um minuto que cada vocábulo da psicologia empírica é um odre velho que se encherá de vinho novo.

deve esquecer nem por um minuto que cada vocábulo da psicologia empírica é um odre velho
deve esquecer nem por um minuto que cada vocábulo da psicologia empírica é um odre velho
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A CONSCIÊNCIA COMO PROBLEMA DA PSICOLOGIA DO COMPORTAMENTO*

Uma aranha executa operações que se assemelham às manipulações

do tecelão, e a construção das colméias das abelhas envergonhar mais de um mestre-de-obras,

Mas há algo em que o pior mestre-de-obras leva vantagem, logo de início, sobre a melhor

é o fato de que, antes de executar a construção,

projeta-a em seu cérebro, No final do processo de trabalho, brota um resultado, que antes de começar o processo

já existia na mente do operário; ou

existência ideal.

O operário não se limita a fazer mudar de forma a matéria que lhe

um resultado que já linha

oferece a natureza, mas, ao mesmo tempo, realiza nela seu objetivo, objetivo que ele sabe que rege como lima lei

as

modalidades de sua atuação

e

à qual tem necessariamente de submeter sua vontade,

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K. MARX

• "Soznanic kak problema psikhologuiti povedicnia", Escrito em 1925 e

publicado em K, Leningrado, 1925,

N, Kornílov (Org.) Psicologia y

marxismo, Moscou e

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56 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

1

Nossa literatura científica elude insistente e intencional­ mente o problema da natureza psicológica da consciência, e procura não se dar conta dele, como se para a nova gia não existisse em absoluto. Em conseqüência disso, os sistemas de psicologia científica à criação dos quais assisti­ mos hoje em dia trazem implícitos, desde seu próprio come­ ço, uma série de defeitos orgânicos. Mencionaremos apenas alguns que, em nossa ooinião. são os mais fundamentais e importantes. 1. Ao ignorar o problema da consciência, a psicologia está fechando para si mesma () caminho da investigação de problemas mais ou menos complexos do comportamento humano. Vê-se obrigada a se limitar à explicação dos nexos mais elementares do ser vivo no mundo. É fácil comprovar essa afirmação se dermos uma olhada no índice do livro de

V. M. Békhterev Fundamentos gerais da reflexo/agia do ho­

mem (923): "Princípio da conservação da energia. Princípio da mutabilidade contínua. Princípio do ritmo. Princípio da adaptação. Princípio da igual à ação. Princípio da rela­ tividade". Em uma só palavra, princípios universais, que abar­ cam não apenas o comportamento dos animais e do ho­ mem, mas rodo o conjunto do universo, ainda que, é não apareça nem uma única lei psicológica que formule os possíveis nexos encontrados ou a interdependência entre os fenômenos e que caracterize a originalidade do comporta­ mento humano que o diferencia do comportamento animal. Por outro lado, o livro que acabamos de mencionar gira em torno do experimento clássico de formação do reflexo condicionado, uma pequena mostra, de extraordinária im­ portância básica, mas que não cobre o espaço universal des­ de o reflexo condicionado de primeiro grau até o princípio da relatividade. A inadequação entre o telhado e os alicerces e a essência de edificação entre ambos facilmente de manifesto o quanto ainda é prematuro formular princípios universais baseados no material reflexológico e o quanto é simples extrair as leis de outros ramos do saber e aplicá-las à

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

57

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psicologia. Além disso, quanto mais princípio que tomemos, mais fácil será adaptá-lo ao fato que investigamos. Não se deve esquecer, contudo, que a ampli­ tude e () conteúdo do conceito estào sempre em relação inversa. E como a amplitude dos princípios universais tende ao infinito, seu conteúdo psicológico diminui até o zero com a mesma rapidez. Mas este não é um defeito atribuível apenas ao curso de Békhterev. Esse mesmo defeito aparece e ref1ete-se de ma forma em cada tentativa de formular sistematicamente a doutrina do comportamento do indivíduo do ponto de vista da mera reflexologia. 2. A negação da consciência e a tendência a construir o sistema psicológico sem esse conceito - como uma "psicolo­ sem consciência", segundo expressão de P. p, Blonski p. 9) fazem com que os métodos se vejam privados dos meios mais fundamentais para investigar essas reações não manifestas nem aparentes à primeira vista, tais como os movimentos internos, a fala interna, as reações somáticas etc. Limitar-se a estudar as reações visíveis à primeira vista resulta estéril e injustificado, inclusive no que se refere aos problemas mais simples do comportamento humano. E, no entanto, o comportamento do indivíduo é organizado de tal forma que sào justamente os movimentos internos pouco conhecidos que o orientam e dirigem. Quando formamos o reflexo condicionado salivar no cachorro, organizamos pre­ viamente seu comportamento de um modo determinado, através de procedimentos externos, que de outra forma o experimento não é possível. Colocamos o animal no banco de experimentação, o amarramos com correias etc. Da mes­ ma maneira organizamos previamente o comportamento do sujeito por meio de movimentos internos conhecidos atra­ vés de instruçôes, esclarecimentos etc. E se esses movimen­ tos internos variam subitamente no transcurso do experi­ mento, todo o quadro do comportamento se alterará de forma brusca. Por conseguinte, limitamo-nos a falar de rea­ çôes inibidas, que sabemos estarem sendo produzidas de forma constante e ininterruota no onmnismo e que desem­

5 8 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA penham um papel regulador influente sobre o comporta­

58 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

penham um papel regulador influente sobre o comporta­ mento, já que este é consciente. Mas carecemos de instrumento para investigar essas reações internas. Para dizê-lo com todas as letras: o sempre pensa consigo mesmo e isso nunca deixa de influir em seu com­ portamento. A mudança repentina de pensamento durante a prova repercute sempre no comportamento da pessoa sub­ metida a ela (de repente, ocorre-lhe um pensamento: "Não vou olhar para o aparelho"). Mas não temos a menor idéia de como considerar essa influência. 3. Apaga-se radicalmente toda diferença entre o com­ portamento do animal e o do homem. A biologia traga a sociologia e a fisiologia o faz com a psicologia. O estudo do comportamento do homem é abordado do mesmo modo que o estudo do comportamento de qualquer mamífero. E assim fazendo, esquece-se o que acrescentam de novo a consciên­ cia e a psique ao comportamento humano. Recorrerei, a títu­ lo de exemplo, a duas leis: a de extinção (ou de inibição interna) dos reflexos condicionados, estabelecida por L P. Pávlov (923), e a dos dominantes, formulada por A. A. UkhtomskP (1923). A lei de extinção (ou de inibição interna) dos reflexos condicionados estabelece que a excitação prolongada com um excitante condicionado e não reforçada mediante um excitante incondicionado produz o enfraquecimento paula­ tino e por fim a extinção total do reflexo condicionado. Passemos ao comportamento do homem. No sujeito restrin­ gimos uma reação condicionada a um certo excitante: "Quan­ do ouvir a campainha aperte o botão do console". Re­ )etímos o experimento 40, 50, 100 vezes. Ocorre a conexão se reforça a cada vez, a cada dia. Produz-se o cansaço, mas não é isso o que supõe a lei da extinção. É evidente que, neste caso, é impossível transpor

É evidente que, neste caso, é impossível transpor 1. Ukhtomski, Aleksiéi Aleksiéicvitch (1875-191í2),
É evidente que, neste caso, é impossível transpor 1. Ukhtomski, Aleksiéi Aleksiéicvitch (1875-191í2),
É evidente que, neste caso, é impossível transpor 1. Ukhtomski, Aleksiéi Aleksiéicvitch (1875-191í2),

1. Ukhtomski, Aleksiéi Aleksiéicvitch (1875-191í2), Fisiólogo soviético, Elaborou ,I doutrina cio dominante como sistema funcíonal cspecíal (conste­ laç:ão de processos nos centros nervosos), que constitui o mecanismo fisiológi­ co de org,mização e regulação do comportamento. (N.R.R.) j

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

59

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sem mais nem menos uma lei do domínio da psicologia ani­ mai ao da psicologia do homem. Faz-se necessária, por cípio, uma certa reserva. Mas não apenas a desconhecemos, como tampouco sabemos onde buscá-la.

A lei do dominante estabelece a existência no sistema

nervoso do animal de alguns focos de excitação que atraem outros, as excitações suhdominantes, que nesses momentos vão parar no sistema nervoso. A excitação sexual nos gatos, os atos e deglutição e defecação, o reflexo de abraçar nas rãs, tudo isso, como mostram as investigações, se reforça por meio de qualquer excitante estranho. Passa-se direta­ mente disso para o ato de atenção do homem e estabclece­ se que a base fisiológica desse ato é constituída pelo domi­ nante. Mas o que se constata é que precisamente a atenção está privada desse traço característico, ou seja, da capacida­ de de ser reforçada sob a ação de qualquer excitante estra­ nho. Pelo contrário, todos eles desviam e enfraquecem a atenção. De novo, a passagem das leis do dominante, esta­ helecidas no gato e na rã, para as do comportamento huma­ no necessitam de uma séria correção.

4. O mais importante é que a exclusão da consciência do campo da psicologia científica deixa em grande medida intactos o dualismo e o espiritualismo da psicologia subjeti­ va anterior. V. M. Békhterev afirma que o sistema reflexoló­ gico não contradiz a hipótese "da alma" (923). Caracteriza os fenômenos subjetivos ou conscientes como fenômenos de segunda ordem, especificamente internos, que acompa­ nham os reflexos concatenados. O fato de admitir a possihi­ Iidade ou, inclusive, de reconhecer como algo inevitável o aparecimento no futuro de uma ciência à parte - a reflexo­ logia subjetiva -, apenas reforça o dualismo.

A principal premissa da reflexologia, a admissão da

possibilidade de explicar todo o comportamento do homem sem recorrer a fenômenos subjetivos, ou seja, ·a psicologia sem psique, representa a outra face do dualismo da psicolo­ gia suhjetiva, com sua tentativa de estudar uma psique pura, abstrata. Enquanto temos ali a psique sem comportamento, aqui temos o comportamento sem psique e, tanto lá quanto

60 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

a "psIque' e o "comportamento" são interpretados como dois fenômenos distintos. É precisamente devido a esse dua­

lismo que nenhum psicólogo, mesmo que se trate do tualista ou idealista mais incisivo, nega o materialismo fisio­ lógico da reflexologia; ao contrário, a qualquer idealismo sempre o pressupôe. indefectivelmente.

5. Ao eliminar a consciência da psicologia entramos de

maneira firme e definitiva no círculo do biologicamente ab­ surdo. O próprio Békhterev nos previne contra o grande erro que é considerar os "processos subjetivos como total­ mente supérfluos ou secundários na natureza (epifenôme­ já que sabemos que nesta tudo que é secundário se

atrofia e se destrói, ao passo que nossa nos diz que os fenômenos subjetivos seu maior desenvolvimento nos processos mais complexos da ativida­ de correlativa" (ibidem, p. 78). Por conseguinte, há de se convir que, ou é realmente assim, e neste caso é impossível estudar o comportamento do homem e as complexas formas de sua atividade, inde­ de sua

homem e as complexas formas de sua atividade, inde­ de sua neste caso a já que
neste caso a já que se
neste caso a
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com um absurdo bilidade.

6. Assim formulada a questão, fecha-se para sempre o

acesso à investigação dos problemas mais transcendentais, como a estrutura de nosso comportamento, de seus compo­ nentes e de suas formas. Estamos condenados para sempre a manter a falsa concepção de que o comportamento é uma soma de reflexos. O reflexo é um conceito abstrato:

tem grande valor mas não pode se converter no conceito principal da psicologia como ciência do comportamento do homem, porque esse comportamento nào constitui de forma alguma um saco de couro cheio de reflexos nem seu cére­ bro é um hotel para os reflexos condicionados que casual­ mente se alojam nele.

os reflexos condicionados que casual­ mente se alojam nele. 111 1 PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA

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A investigaçào das dominantes nos animais e a da integração dos reflexos demonstraram de forma convin­ cente que o trabalho de cada órgão, seu retlexo, não é algo mas somente uma função do estado geral do orga­ nismo. O sistema nervoso funciona como um conjunto ­ modelo de Ch. Sherrington -, que deve servir de base para a doutrina do Com efeito, a palavra "reflexo", no sentido em que é uti­ lizada em nosso lembra muito a história de Kannitversh­ tan, o nome que um pobre estrangeiro na Holanda escutava em resposta a suas perguntas: "Quem estão enterrando? De quem é esta casa? Quem passou no carro?" etc. Pensava inge­ nuamente o pobre estrangeiro que naquele país tudo era realizado por Kannitvershtan, quando, na verdade, essa pala­ que os holandeses com quem tropeçava não suas perguntas. O reflexo da meta ou o de liberdade parecem apenas exemplos de incom­ preensão dos fenômenos que se . Parece evidente que não se trata nesse caso de um reflexo no sentido como pode sê-lo o reflexo salivar, mas de um mecanismo de comportamento estruturalmente distinto. Somente reduzindo tudo a um denominador comum poderemos dizer: isto é um como: isto é Kannitvershtan. Mas, nesse caso, a pró­ "reflexo" perde seu sentido. O que é a sensação' É um reflexo. O que são a lingua­ gem, os gestos, a mímica? Também reflexos. E os instintos, os lapsos, as São também reflexos. Todos os fenôme­ nos que a escola de Wurtzburgo encontrou nos processos mentais superiores, a análise dos sonhos proposta por Freud, também sào reflexos. Evidentemente, isto está correto, mas a esterilidade científica de constatações tão simplistas é, de todo oonto de vista, evidente. Com esse método de análise, a

oonto de vista, evidente. Com esse método de análise, a !•• 2. conceitos de reflexo de
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2. conceitos de reflexo de meta e reflexo de liberdade for,un intro­

duzidos por I. P. Pávlov; no entanto, mIo se encaixavam no esquema deter­ minista fundamcntal da formulaç'ão do reflexo condicionado. Vigotski se man­ ifestava contrário ,) univers'llizaç;lo desse esquema, considerando que com isso M,' perdia seu valor positivo. que :,ó pode se conservar se se limita o esquema mencionado a d<:termin'HJo CÍrculo de fenômenos. (N.R.R.)

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62 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

ciência não apenas deixa de lançar a luz e claridade sobre os problemas a estudar que permita distinguir e delimitar obje­ tos, formas, fenômenos, mas, ao contrário, obriga a ver tudo em uma penumbra em que tudo se mistura e onde esmaece qualquer limite definido entre os objetos. Isto é um reflexo e isto não é, mas quem distingue um do outro? O que é preciso estudar não são os reflexos, mas o com­ portamento: seu mecanismo, composição, estrutura. Quando fazemos experiências com animais ou pessoas crendo inva­ riavelmente que estamos investigando uma reação ou um reflexo, o que sempre investigamos, na verdade, é o com­ portamento. O que ocorre é que estamos previamente orga­ nizando, de maneira preestabelecida e padronizada, o com­ portamento do sujeito para conseguir que prevaleça a reação ou o reflexo: de outro modo, não o conseguiríamos. Nos experimentos de I. P. Pávlov, será que o cachorro reage com o reflexo salivar e não com as numerosas e mais diversas reações motoras, internas e externas, sem que estas influam no processo reflexo que estamos observando? E será que não é o mesmo excitante condicionado utilizado em tais experimentos que provoca essas outras reações (a orientação das orelhas, dos olhos etc.)? Por que o fechamen­ to da conexão condicionada se produz entre o reflexo sali­ var e a campainha e não de outra maneira? Ou, dito de outra forma, por que não é a carne que começa a provocar os movimentos de orientação das orelhas? Por acaso a única reação manifesta do sujeito é apertar o botão da campainha diante de um sinal? Não são também partes essenciais da reação o relaxamento geral do corpo ou o fato de apoiar-se no espaldar da cadeira, de desviar a cabeça, suspirar etc? Que isto valha para demonstrar o caráter complicado de qualquer reação, sua dependência do mecanismo de com­ portamento a que está incorporada, a impossibilidade de estudar uma reação de forma abstrata. Tampouco devemos esquecer, antes de ampliar e exaltar nossas conclusões so­ bre os experimentos clássicos com reflexos condicionados, que a investigação se encontra apenas em seus primórdios e que cobriu uma área ainda muito limitada, que somente

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

63

foram estudadas uma ou duas classes de reflexos - o salivar

e o defensivo-motor -, e somente reflexos condicionados de

primeira e segunda ordem e numa linha biologicamente não vantajosa para o animal (por que haverão de secretar saliva em resposta a sinais muito distantes, a excitantes condicio­

nados de ordem superior?). Por isso seremos cautelosos ao trasladar diretamente as leis reflexológicas para a psicologia. Como afirma com razão V. A. Vágner ' (1923), os reflexos constituem os alicerces, mas partindo apenas deles ainda não se pode dizer nada sobre o que se vai construir em cima. Cremos que, considerando todos esses raciocínios, de­ vemos deixar de considerar o comportamento do homem .~. como um mecanismo que conseguimos desvendar totalmen­ te graças à chave do reflexo condicionado. Sem uma hipóte­ se de trabalho prévia sobre a natureza psicológica da cons­ ciência é impossível revisar criticamente todo o capital cien­ tífico nesse campo, selecioná-lo e peneirá-lo, transcrevê-lo para um novo idioma, elaborar novos conceitos e criar uma nova área de problemas. A psicologia científica não deve ignorar os fatos da cons­ ciência, mas materializá-los, transcrevê-los para um idioma objetivo que existe na realidade e desmascarar e enterrar para sempre as ficções, fantasmagorias e similares. Sem isso

é impossível qualquer trabalho de ensino, de crítica e de in­ vestigação. Não é difícil compreender que nào há necessidade de considerar a consciência nem biológica, nem fisiológica, nem psicologicamente como uma segunda categoria de fenô­ menos. É necessário encontrar para ela, como para todas as outras reações do organismo, uma interpretação e um lugar adequados. Esta é a primeira exigência de nossa hipótese de

trabalho. A segunda seria que a hipótese deverá explicar sem

a menor fissura aqueles problemas fundamentais relaciona­

3. Vágner, Vladímir Aleksándrovitch (1889-1934). Fundador da psicolo­ gia animal na Rússia. Partindo da doutrina datwinista, investigou, baseando-se no método objetivo, os instintos nos animais. Demonstrou que a regulação psíquica do comportamento se manifesta em sua singularidade ao ser estuda­ da de forma histórico-comparativa. CN.R.R.)

111

64 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

dos com a consciência: o problema da conservação da ener­ gia, a introspecção, a natureza psicológica do conhecimento de outras o caráter consciente das três pais dimensões da psicologia empírica ções e vontade), o conceito do inconSC>'-l consciência, de sua identidade e unidade. Neste breve e ráoido esboco expusemos apenas algu­ e fundamentais, con­ dará lugar ao surgimento da hipótese de trabalho da consciência no comportamento psicológico.

de trabalho da consciência no comportamento psicológico. 2 Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de
de trabalho da consciência no comportamento psicológico. 2 Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de

2

Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de fora, isto é, sem partir da psicologia. Em suas formas principais, todo o comportamento do animal compõe-se de dois grupos de reações: os reflexos inatos ou não-condicionados e os adquiridos ou condiciona­ dos. Além disso, os reflexos inatos constituem algo assim como o extrato biológico da experiência hereditária coletiva de toda a espécie e os surgem sobre a base dessa hereditária através do fechamento de novas cone­ xões, obtidas na particular do indivíduo. Desse todo comportamento animal pode ser considerado convencionalmente como a experiência hereditária mais a multiplicada pela particular. A origem da expe­ riência hereditária foi esclarecida por Darwin; o mecanismo da multiplicação dessa pela pessoal é o meca­ nismo do reflexo condicionado, estabelecido por L P. Pávlov. Mediante essa fórmula coloca-se, em geral, um ponto final no comportamento do animal. Muito diferente é o que ocorre com o homem. Aqui, para abarcar de maneira completa a totalidade do comporta­ mento é necessário introduzir novos componentes na fórmu­ la. É preciso, antes de mais assinalar o caráter extraor­ da exoeriência herdada peJo homem se animal. O homem não se

exoeriência herdada peJo homem se animal. O homem não se ~ IIIIII! PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
exoeriência herdada peJo homem se animal. O homem não se ~ IIIIII! PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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serve herdada fisicamente. Toda nossa o comportamento baseiam-se na utili­ da experiência das geraçóes ou seja, de uma que não se transmite de pais para filhos através do nascimento. Convencionaremos cha­ má-la de experiência histórica. Junto disso deve se situar a experiência social, a de outras pessoas, que constitui um importante componente do comportamento do homem. Disponho não apenas das cone­ xões que se fecharam em minha experiência particular entre os reflexos condicionados e elementos isolados do meio, mas também das numerosas conexões que foram estabelecidas na experiência de outras pessoas. Se conheço o Saara e apesar de nunca ter saído de meu país e de nunca ter olhado por um telescópio, isso se deve evidentemente ao fato de que essa experiência se na de outras pessoas que foram ao Saara e olharam É igualmente evidente que os animais não possuem essa experiência. Designá-la­ emos como componente social de nosso comportamento. Por fim, algo completamente novo no comportamento do homem é que sua adaptação e o comportamento relacio­ nado com essa adaptação adquirem formas novas em rela­ ção ã dos animais. Estes adaptam-se passivamente ao meio; o homem adapta ativamente o meio a si mesmo. É verdade que, também entre os animais, encontramos formas iniciais de adaptação ativa na atividade instintiva (a construção de ninhos, de tocas etc), mas, em primeiro lugar, no reino ani­ mal essas formas não têm um valor predominante e funda­ mental e, em segundo lugar, seus mecanismos de execução continuam sendo essencialmente A aranha que tece a teia e a abelha que constrói as col­ méias com cera o farão por do instinto, corno nas, de um modo uniforme e sem manifestar nisso urna ati­ vidade maior do que nas outras adaptativas. Outra coisa é o tecelão ou o arquiteto. Como diz Marx, eles cons­ truíram previamente sua obra na o resultado obtido

1: no processo de trabalho existia idealmente antes do começo

23, p. 189).

de trabalho existia idealmente antes do começo 23, p. 189). desse trabalho (vide K. Marx, F.
de trabalho existia idealmente antes do começo 23, p. 189). desse trabalho (vide K. Marx, F.
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desse trabalho (vide K. Marx, F. Obras, t.

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64 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

dos com a consciência: o problema da conserva,'üo da ener­ gia, a introspecçào, a natureza psicológica do conhecimento de outras consciências, o caráter consciente das três pais dimensões da ções e vontade), o conceito do consciência, de sua identidade e unidade. expusemos apenas e fundamentais, cuja con­ ao surgimento da hipótese de trabalho da consciência no comportamento psicológico.

de trabalho da consciência no comportamento psicológico. 2 Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de
de trabalho da consciência no comportamento psicológico. 2 Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de

2

Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de fora, isto é, sem partir da psicologia. Em suas formas principais, todo o comportamento do animal compõe-se de dois grupos de reações: os reflexos inatos ou nào-condicionados e os adquiridos ou condiciona­ dos. Além disso, os reflexos inatos constituem algo assim como o extrato biológico da hereditária coletiva de toda a espécie e os adquiridos surgem sobre a base dessa hereditária através do fechamento de novas cone­ obtidas na experiência particular do indivíduo. Desse todo comportamento animal pode ser considerado convencionalmente como a hereditária mais a pela particular. A origem da expe­ riência hereditária foi esclarecida por Darwin; o mecanismo da multiplicação dessa experiência pela pessoal é o meca­ nismo do reflexo condicionado, estabelecido por r. P. Pávlov. Mediante essa fórmula coloca-se, em geral, um ponto final no comportamento do animal. Muito diferente é o que ocorre com o homem. Aqui, para abarcar de maneira completa a totalidade do comporta­ mento é necessário introduzir novos componentes na fórmu­ la. É preciso, antes de mais nada, assinalar o caráter extraor­ dinariamente amplo da herdada pelo homem se for comparada com a experiêncía animal. O homem não se

se for comparada com a experiêncía animal. O homem não se 1IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIlIIIIII1I1 I I I I
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de uma que não se transmite de pais para filhos através do nascimento. Convencionaremos cha­ má-la de experiência histórica. Junto disso deve se situar a experiência social, a de outras pessoas, que constitui um importante componente do comportamento do homem. Disponho não apenas das cone­ xões que se fecharam em minha experiência particular entre os reflexos condicionados e elementos isolados do meio, mas também das numerosas conexões que foram estabelecidas na experiência de outras pessoas. Se conheço o Saara e Marte, apesar de nunca ter saído de meu país e de nunca ter olhado por um telescópio, isso se deve evidentemente ao fato de que essa experiência se origina na de outras pessoas que foram ao Saara e olharam pelo É igualmente evidente que os animais nâo possuem essa ".-.rntV'nente social de nosso comportamento. completamente novo no compo do homem é que sua e o comportamento relacio­ nado com essa adaptação adquirem formas novas em rela­ ção à dos animais. Estes adaptam-se passivamente ao meio; o homem adapta ativamente o meio a si mesmo. É verdade que, também entre os animais, encontramos formas iniciais de adaptação ativa na atividade instintiva (a construção de ninhos, de tocas etc.), mas, em primeiro lugar, no reino ani­ mal essas formas não têm um valor predominante e funda­ mental e, em segundo lugar, seus mecanismos de execução continuam sendo essencialmente A aranha que tece a teia e a abelha que constrói as col­ méias com cera o farão por do instinto, como nas, de um modo uniforme e sem manifestar nisso uma ati­ vidade maior do que nas outras adaptativas. Outra coisa é o tecelão ou o arquiteto. Como diz Marx, eles cons­

resultado obtido

truíram previamente sua obra na o

no processo de trabalho existia idealmente antes do começo desse trabalho (vide K. Marx, F. Obras, t. 23, p. 189).

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66 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Essa explicação de Marx, completamente indiscutível, nada mais significa do que a obrigatória duplicação da experiên­ cia no trabalho humano. No movimento das mãos e nas mo­ dificaçôes do material, o trabalho repete o que antes havia sido realizado na mente do trabalhador, com modelos seme­ lhantes a esses mesmos movimentos e a esse mesmo mate­ rial. Essa experiência duplicada, que permite ao homem desenvolver formas de adaptação ativa, o animal não a pos­ sui. Denominaremos convencionalmente essa nova forma de comportamento de experiência duplicada. Agora o termo novo em nossa fórmula de comporta­ mento do homem adotará a seguinte forma: experiência his­ experiência social, experiência duplicada. Continua de pé a questão: com que signos, relaciona­ dos entre si e, ao mesmo tempo, com a parte anterior, po­ dem estar relacionados esses novos componentes da fórmu­ la? O signo de multiplicação da experiência hereditária pela particular é claro para nós: significa o mecanismo do reflexo condicionado. As próximas partes deste artigo estão dedicadas à busca dos signos que faltam.

3

No ponto anterior tocamos nas vertentes biológica e social do problema. Ocupemo-nos agora, de forma igual­ mente resumida, da vertente Até mesmo os experimentos mais simples com reflexos isolados deparam com o problema da coordenação desses reflexos ou sua transformação em comportamento. Vimos, antes, que qualquer experimento de Pávlov pressupôe um comportamento previamente organizado do cachorro, de forma que no choque de reflexos se feche a única conexào necessária. Pávlov se viu obrigado (1950) a formar outros reflexos mais complexos no cachorro, e mais de uma vez comenta que no processo de experimentação surgem cho­ ques entre dois reflexos diferentes. Além disso, os resultados

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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não são sempre iguais: em um caso diz-se que o reflexo de alimentação se reforça junto com o de alerta; em outro, da vitória do primeiro sobre o último. Ambos os reflexos consti­ tuem, na verdade, algo assim como os dois pratos da balan­ ça, diz Pávlov a esse respeito, sem fechar os olhos ante a sin­ gular complexidade do processo de desenvolvimento dos reflexos. "Se levarmos em conta diz que o mencionado reflexo a uma excitação externa não só é limitado e regulado por outro ato reflexo simultâneo externo, mas também por toda uma massa de reflexos internos, assim como pela de todos os possíveis excitantes internos (químicos, térmicos etc., e isso tanto no nível dos diferentes setores do sistema nervoso central como diretamente sobre os próprios elemen­ tos tissulares de trabalho), podemos ter uma idéia da autênti­ ca complexidade dos fenômenos refletores de resposta" Cihí­ dem, p. 190).

O princípio fundamental de coordenação dos reflexos,

como se explica nas investigaçôes de Ch. Sherrington, con­

siste na luta que se estabelece entre distintos grupos de receptores por um campo motor comum. "Visto que os neu­ rônios aferentes do sistema nervoso são em número muito maior que os eferentes, cada neurônio motor não se acha em conexão refletora com um só receptor, mas com muitos, provavelmente com todos. No organismo ocorre uma luta contínua entre diferentes receptores pelo campo motor comum, pelo domínio de um órgão de trabalho. O resultado dessa luta depende de causas muito complexas e numero­ sas. Parece portanto, que cada reação, cada reflexo

vitorioso, se produz após uma luta, depois de um conflito, no 'ponto de colisão'." (Ch. Sherrington, 1912)

O comportamento é, pois, um sistema de reaçôes triun­

fantes. Em condições normais, diz Sberrington, se se deixam de lado os problemas da consciência, o comportamento do animal é constituído por transiçôes sucessivas do campo motor final para um grupo de reflexos ou para outro. Em outras palavras, o comportamento é lima luta que não se interrompe nem por um minuto. Temos base suficiente para

68 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA

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supor que uma das funçôes mais importantes do cérebro consiste precisamente em estabelecer a coordenação entre reflexos que provêm de pontos distantes, de modo que o sistema nervoso é integrado, na verdade, oela totalidade do indivíduo. O mecanismo coordenador do campo motor geral serve de base, na opinião de Sherrington, para o importante pro­

paração com as que morreram esmagadas. Isto reflete melhor o caráter catastrófico da luta do processo dinâmico e dialético entre o mundo e o homem e no interior deste, que se denomina comportamento. Duas premissas, necessárias para formular com precisão () problema da consciência como mecanismo do comporta­ mento, depreendem-se destas consideraçôes:

cesso psíquico da atenção, e graças a este último princípio

1.

Parece que o mundo se verte no orifício largo do

vai se gerando em cada momento a unidade de ação, o que, por sua vez, serve de base para o conceito de personalida­ de, de modo que a formação do sistema de personalidade assim, sendo tarefa do sistema nervoso, segundo afir­ ma Sherrington. O ret1exo é a reação integral do organismo. Por isso. em cada músculo, em cada órgão de trabalho, é ao portador, que qualquer grupo de receptores pode possuir" (ibidem, p. Sherrington explica de maneira magnífica sua concep­ ção sobre o sistema nervoso com a seguinte compara­ ção: "o sistema de receptores mantém a mesma relação com o das vias eferentes que o orifício superior largo de um funil com o de saída. Mas cada receptor mantém nào ape­ nas com uma via eferente, mas com muitas, talvez com to­ das; naturalmente, a consistência dessa conexão pode ser diferente. Por continuando nossa comparação com o é preciso dizer que cada sistema nervoso é um funil que tem um de seus orifícios cinco vezes mais largo que o outro; dentro dele estão os feceptores, que também são funis orifício largo está voltado para a extremidade de saída

funil através de milhares de excitantes, inclinações, convi­ tes; dentro do funil têm uma luta e um enfrentamento ininterruptos; todas as excitaçôes saem em número muito reduzido pelo orifício estreito, sob a forma de reaçoes de resposta do organismo. O comportamento que se realizou é uma parte insignificante dos comportamentos possíveis. Cada minuto do homem está cheio de possibilidades não realizadas. Essas possibilidades não realizadas de nosso com­ portamento, essa diferença entre os orifícios largos e estrei­ tos do funil são uma realidade inacessível, da mesma forma que a reação vitoriosa, porque os três momentos da reação que lhes correspondem estão presentes. Quando a estrutura do campo comum final é um pouco complicada e os renexos são complexos, o comportamento nào realizado pode adotar as mais diversas formas. "Nos reflexos complexos, os arcos complexos se unem às vezes a uma parte do campo geral e lutam uns contfa os outros em relação a outra de suas partes" (Ch. Sherrington, 1912, p. 26). Por conseguinte, a pode ficar realizada pela metade ou realizar-se em alguma, sempre indeterminada, de suas

do funil geral e o cobre por completo" (ibidem, p.

partes.

r. P. Pávlov (1950) compara os grandes hemisférios ce­

2.

Graças ao complexíssimo equilíbrio que se estabele­

febrais com uma central telefônica, onde se produz o fecha­ mento de novas conexôes temporárias entre os elementos do meio e as reaçôes concretas. Mas nosso sistema nervoso lembra, muito mais do que uma central telefônica, as estrei­ tas portas de um grande edifício, em direção às quais se lança a multidão num momento de pelas portas pas­ sam apenas algumas poucas pessoas; as que conseguiram

ce no sistema nervoso atra vês dessa complicada luta de ref1exos, é freqüente que baste uma força insignificante do novo excitante para resolver o resultado da luta, e, portanto, no complicado sistema de em uma nova força insignificante pode determinaf o resultado e o sentido do resultante. Em uma grande guerra, a incorporação de um pequeno Estado a uma das partes pode decidir a vitória ou a

atravessá-Ias com sucesso são um número reduzido em com­

derrota. Seria, pois, fácil supor como reaçôes por si mesmas

7 0 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA insignificantes, inclusive pouco notáveis, podem acabar sen­ do

70 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

insignificantes, inclusive pouco notáveis, podem acabar sen­ do decisivas em função da conjuntura no "ponto de colisão" em que intervêm.

4

A lei mais elementar e mais importante, a lei geral de conexão dos reflexos, pode ser formulada assim: os reflexos se enlaçam entre si segundo as leis dos reflexos condiciona­ dos; ou a parte de resposta de um reflexo (motora, secretora) pode se converter, em condições adequadas, em um excitante condicionado (ou inibidor) de outro reflexo ao se conectar com a extremidade sensorial deste último. É pos­ sível que toda uma série de conexões semelhantes sejam hereditárias e pertençam a reflexos nâo condicionados. O res­ tante delas se cria durante o processo da - e não se estabelece de forma menos permanente no I. P. Pávlov chama esse mecanismo de reflexo em ca­ deia e o inclui na explicação do instinto. Em seus experi­ mentos, G. P. Zelionii'l (1923) descobre o mesmo mecanis­ mo ao os movimentos musculares rítmicos, que também se revelaram como um reflexo em cadeia. Por con­ seguinte, esse mecanismo é o que melhor explica as uniões inconsistentes, automáticas, de reflexos. Não obstante, se não nos limitarmos a um me.smo sistema de reflexos, mas considerarmos distintos sistemas e a possibilidade de trans­ miss:lo de um sistema para outro, encontraremos o mecanis­ mo fundamental que objetivamente caracteriza a consciên­ cia: a capacidade que tem nosso corpo de se constituir em excitante de seus atos) de si mesmo diante de outros novos constitui a base da consciência. Pode-se falar já da indubitável interação entre sistemas isolados de reflexos e da repercussão de uns sistemas sobre os outros. O cachorro reage ao ácido c1orídríco secretando

outros. O cachorro reage ao ácido c1orídríco secretando 4. Zelionii, Glleorglli Pávlovitch OH78-1951). Fisiólogo

4. Zelionii, Glleorglli Pávlovitch OH78-1951). Fisiólogo soviético, discípu­ lo de I. P. Pávlov. (N.R.lU

111111

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

71

saliva (reflexo), mas a para o reflexo da uma associação livre, para a palavra excitante "rosa" pro­ nuncio "narciso". Trata-se de um reflexo, que, por sua vez, é um excitante para a palavra seguinte: "aleli". Isso se produz dentro de um mesmo sistema ou de sistemas próximos que colaboram. O uivo do lobo produz em mim, como excitante, os reflexos somáticos e mímicos de temor; a mudan~:a de respiração, as batidas do coração, o tremor, a secura na gar­ . ganta (ref1exos) me fazem dizer ou pensar: "Tenho medo." Encontramos aqui a transmissão de uns sistemas a outros. Parece, portant(), que devemos compreender, antes de mais nada, a' própria consciência ou a conscientização por nossa parte dos atos e estados como um sistema de mecanismos transmissores de uns reflexos para outros, que funciona perfeitamente em todo momento consciente. Quan­ to mais acertadamente cada reflexo interno na qualidade excitante provocar toda uma série de reflexos diferentes de outros sistemas e transmitir-se a eles, mais consciente será sua sensação (será sentida, se verá reforçada na palavra etc.). Dar-se conta de algo significa justamente transformar certos reflexos em outros. O inconsciente. o psíquico, implica que os reflexos não se transmitem a outros sistemas. São pos­ síveis infinitas variedades de graus de consciência, ou seja, de de sistemas incorporados ao mecanismo do reflexo que atua. A consciência das próprias sensacões nada mais do que sua posse na para outras sensações. A consciência é a vivência das vivên­ são as sensaçües dos do reflexo (a sensação do objeto) de ser um excitante (objeto da constitui o mecanismo de transmissão de reflexos de um sistema a outro. É aproximadamente isto que V. M. Békhterev denomi­ na reflexos subordinados ou não-subordinados. A psicologia deve, pois, formular e resolver o problema da consciência na perspectiva de considerá-la como interaç:lo, reflexão, excitação recíproca de diferentes sistemas de refle­

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xos. É consciente o que se transmite a outros sistemas na qua­ lidade de excitante e provoca neles uma resposta. A consciên­ cia é sempre um eco, um aparelho de resposta. Três citações de diversos autores podem nos servir para apoiar essa tese. 1. Convém recordar que nas obras de psicologia se observou mais de uma vez que a reação circular é um meca­ nismo que devolve ao organismo seu próprio reflexo com a ajuda das correntes centrípetas que surgem por esse motivo, e que constitui o fundamento da consciência (N. N. Além do mais, menciona-se com freqüência o valor da reação circular: a nova excitação, enviada pelo ref1exo, produz uma nova rea~:ão, secundária, que, ou refor­ ça e repete a primeira, ou a enfraquece e inibe, em funçào do estado geral do organismo: ou seja, da valoraçào que este dá a seu próprio reflexo. Por conseguinte, a reação circular nào é uma simples união de dois mas uma umao em que uma reação e regula outra. Estamos aqui ante um novo aspecto no mecanismo da consciência: seu papel regulador em relação ao comportamento. 2. Ch. Sherrington distingue os campos exteroceptivos e interoceptivos como campos da superfície externa e interna de alguns órgãos, onde se introduz certa parte do meio externo. Distinto deles, o campo proprioceptivo é que através do próprio organismo provoca as mudanças que se produzem nos múseulos, tendões, articulacões. vasos sanguíneos etc. "Diferentes dos receptores dos campos extero e intero­ ceptivos, os do campo proprioceptivo são excitados somen­ te de forma secundária por influências que provêm do meio externo. Seu excitante é constituído pelo estado ativo de uns ou de outros por exemplo, a contração muscu­ que, por sua vez, serve de primária para a excita­ do receptor superficial por parte de fatores do meio externo. Geralmente, os reflexos que se produzem graças à excitação dos órgãos proprioceptivos combinam-se com ref1exos provocados pela excitação de exterocepti­ vos" (Ch. Sherrington. 1912, p. A combinação de reflexos secundários com pri­

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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márías, essa "segunda conexão, pode enlaçar, como mostra a investigação, tanto ref1exos compatíveis como de tipo an­ tagônico. Dito de outra forma, a reação secundária pode ou interromper a primitiva. Nisto consiste o meca­ nismo da consciência. 3. Por fim, I. P. Pávlov afirma em uma de suas obras que a reprodução dos fenômenos nervosos no mundo sub­ poder-se-ia dizer, uma refração múl­ em seu conjunto a interpretação psico­ da atividade nervosa é altamente convencional e apro­ ximada. É pouco provável que Pávlov quisesse fazer subenten­ der aqui mais do que uma simples comparação, mas, por nossa parte, estamos dispostos a interpretar suas palavras no sentido literal e exato e afirmar que a consciência é a múltipla dos reflexos".

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Com isto resolve-se () problema da psique sem perda de A consciência se reduz, por completo, a alguns me­ canismos transmissores de reflexos, que agem de acordo com leis de forma que cabe admitir que no organis­ mo nào há outros processos além das Abre-se também uma possibilidade para a resolução do da autoconscíência e da introspecção. A percep­ ção interna e a introspecção só sào possíveis graças à exis­ tência do campo proprioceptivo e dos reflexos secundários com ele relacionados. É sempre como um eco das reações. Vêem-se, assim, perfeitamente os limites da introspec­ enquanto percepção do que, segundo expressão de J. Locke, se produz na própria alma do homem. Isto deixa claro que essa experiência é acessível a uma única pessoa, aquela que a vive. Eu e somente eu posso observar e perce­ ber minhas secundárias, porque apenas para mim meus reflexos servem de novo excitante para o campo pro­ príoceptivo. Explica-se também facilmente a principal limi­

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74 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

tação do experimento; pela mesma razão que no caso ante-

o não se parece com nada que tenha relação

com excitantes sui generis, que só se encontram em meu corpo. O movimento de meu braço, ao olhar, ser um excitante, tanto para meu olhar como para o alheIO, mas a consciência desse movimento, as proprioceptivas que surgem e provocam as rea­ ções secundárias, existem apenas para mim. Não têm nada em comum com a primeira excitaçâo do olho. Aqui agem outros condutos nervosos, outros outros exci­ tantes completamente distintos.

Os dois fatos mantêm uma estreita relação com um dos problemas mais complicados da metodologia psicológica:

com o valor da introspecção. A psicologia anterior conside­ rava esta como uma fonte essencial e mais importante do conhecimento psicológico. A reflexologia a rejeita por com- ou a suhmete ao controle dos dados fonte de dados complementares (V. M. A interpretação do problema que acabamos de expor

(V. M. A interpretação do problema que acabamos de expor compreender, em suas linhas o valor
(V. M. A interpretação do problema que acabamos de expor compreender, em suas linhas o valor

compreender, em suas linhas

o valor

que acabamos de expor compreender, em suas linhas o valor vo) que pode ter para a

vo) que pode ter para a investigação científica a resposta ver­ bal de um sujeito submetido a uma prova. Os reflexos não­ manifestos (a fala silenciosa), os reflexos internos, inacessí­

veis ã percepção direta do observador, podem ser descober­ tos, muitas vezes, indiretamente ou de forma mediatizada, através de reflexos acessíveis à observação, dos quais, por sua vez, são excitantes. Pela presença de um reflexo comple­ to palavra) estabelecemos a do excitante correspondente, que no presente caso desempenha um duplo papel: primeiro, de excitante em de reflexo em Visto que a psique, o sistema de reflexos não-manifes­ tos, desempenha esse papel central e primordial no sistema do comportamento, seria um suicídio para a ciência renun­ ciar a investigá-Ia indiretamente através de seu ret1exo em outros sistemas de reflexos. Dessa maneira, levamos em con­ sideração os reflexos procedentes de excitantes internos, ocultos para nós. Desse modo, seguimos a mesma lógica, o

ocultos para nós. Desse modo, seguimos a mesma lógica, o !"" 1II111! PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA

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mesmo raciOC1l110 e processo de tando assim a vida psíquica, o informe do

a prova não é de modo algum um ato de introspecção que

aparentemente introduz uma colherada de fel no barril de mel da investigação objetivo-científica. Não há introspecção

alguma. Não se coloca, de forma alguma, a pessoa submeti­ da a prova em situação de observador e, portanto, ela não o experimentador a observar os reflexos para ele ocul­ tos. O sujeito submetido a prova mantém-se até o final e em seu próprio informe na qualidade de objeto do mento, mas neste se introduzem certas mudanças e transfor­ através de um interrogatório posterior: introduz-se um novo excitante (o novo interrogatório), um novo refle­ xo, que permite julgar sobre as partes do excitante prece­ dente que ficaram sem explicação. Nesse caso, é como se todo o experimento passasse por um duplo objetivo. É preciso, pois, que na metodologia da investigação psi­ cológica se faça o experimento passar através das secundárias da consciência. O comportamento do homem e

o estabelecimento nele de novas reações condicionadas sào determinados não pelas reações complexas, manifestas e totalmente mas também pelas não reveladas exter­ namente, que nào podem ser vistas ao simples olhar. Por

que podem ser estudados os reflexos complexos de gem e não podem ser levados em consideração os pensa­ mentos-reflexos, interrompidos em seus dois terços, embora se trate do mesmo tipo, real e inquestionável, de Se pronuncio em VO:l alta, de forma que o experimen­ tador a escute, a palavra "tarde", que me veio ã mente em uma livre. essa será considerada uma reação um reflexo condicionado. E se a pronuncio silencio­ samente, para mim, se penso nela, deixará por isso de ser um reflexo e sua natureza mudará? E onde está o limite

Se os

lábios se moveram, se emito um murmúrio que, no entanto,

lábios se moveram, se emito um murmúrio que, no entanto, entre a pronunciada e a nào
lábios se moveram, se emito um murmúrio que, no entanto, entre a pronunciada e a nào

entre a pronunciada e a nào

o

me pedir que repita a palavra em voz alta ou se neste caso, de um método subjetivo, somente admissível se

experimentador nâo escuta, o que acontecerá? Ele

neste caso, de um método subjetivo, somente admissível se experimentador nâo escuta, o que acontecerá? Ele

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76 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA aplicado à própria pessoa? Se puder (e com isto

76 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

aplicado à própria pessoa? Se puder (e com isto estarão provavelmente quase todos de acordo), por que náo pedir que diga em voz alta a palavra pronunciada mentalmente, isto é, sem mover os lábios nem emitir um murmúrio? Porque sempre foi, e continua sendo, uma reação motora de linguagem, um reflexo condicionado, sem o qual náo existe o pensamento. E isto é um interrogatório, uma manifestação do sujeito submetido a prova, sua verbal às que, embora náo tenham sido pelo ouvido do experimentador (aí se entre os pensamentos e a anteriores. tos para nos convencermos de que sua presença é real e contamos com todos e cada um dos traços que provam sua existência. É na desses procedimentos que se uma das mais importantes tarefas da Um dos procedimentos elabora-

mais importantes tarefas da Um dos procedimentos elabora- Mas o mais é que eles mesmos [os
mais importantes tarefas da Um dos procedimentos elabora- Mas o mais é que eles mesmos [os
mais importantes tarefas da Um dos procedimentos elabora- Mas o mais é que eles mesmos [os

Mas o mais é que eles mesmos [os ref1exos não-manifestos ~ R.R.1 se preocupam em nos convencer de sua existência. Pôem-se de manifesto com tal força e clareza no transcurso posterior da reação, que obrigam o experi­ mentador a levá-los em consideraçáo ou a renunciar por completo a estudar o desenvolvimento da reação em que se introduzem. E será que existem muitos exemplos de com­ portamento onde não se introduzem reflexos retidos [za­ diérjannie refleksiJ? Por conseguinte, ou renunciamos a estudar o comportamento do homem em suas formas mais essenciais, Ou introduzimos em nosso experimento o con­ trole obrigatório desses movimentos internos. Dois exemplos esclarecem essa necessidade. Se me lem­ bro de algo e um novo ref1exo de linguagem, será por acaso indiferente o que penso neste momento, tanto se

para mim a dada quanto se estabeleço uma conexão lógica entre ela e outra? Não fica claro que nos dois casos os resultados seráo substancialmente distintos?

"trovão"

, mas um pouco antes me ocorreu o

Na associacão

, mas um pouco antes me ocorreu o Na associacão ante a III! 77 PROBLEMAS TEÓRICOS

ante a

, mas um pouco antes me ocorreu o Na associacão ante a III! 77 PROBLEMAS TEÓRICOS

III!

77 PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA isto em Não fica claro que se não
77
PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA
isto em
Não fica claro que se não levar
sem dúvida alguma, uma idéia
"trovão" fosse
e náo

Fica subentendido que, neste caso, não se trata de sim­ trasladar a introspecção experimental da psicolo­

antes, da urgente ne­

experimental da psicolo­ antes, da urgente ne­ tradicional para a nova. cessidade de elaborar uma nova

tradicional para a nova.

cessidade de elaborar uma nova metodologia para investigar os reflexos inibidos [zatormozjônie refleksil. Estamos apenas defendendo aqui essa necessidade essencial e a possibilida­

de de satisfazê-Ia. Para terminar com os problemas dos métodos, detenha­ mo-nos brevemente na ilustrativa metamorfose que está vi­ vendo atualmente a metodologia da ret1exoló­ gica em sua aplicação ao homem e ã qual se referia Y. P.

Protopópov em um de seus artigos. Inicialmente, os reflexólogos praticavam a elétrica cutânea da planta do pé; depois verificou-se mais

de um

aparelho mais perfeito, mais adaptado às reacóes orientado­

vantajoso escolher como critério a

de

reacóes orientado­ vantajoso escolher como critério a de ras; a mão substituiu o pé (Y. P.

ras; a mão substituiu o pé (Y. P. Mas, ao dizer a, também é preciso dizer b. O homem um aparelho ainda mais perfeito. com a aiuda do estabelece uma conexão mais articulatórios: temos de passar às Mas o mais curioso são esses "certos casos" que o in­ enfrentar durante o processo de seu tra­ balho: o fato de que o homem alcançou muito lenta e peno­

samente a diferenciação do reflexo e de que, atuando sobre

o com as palavras adequadas, pode-se favorecer

tanto a inibiçào quanto a estimulaçào de reações condicio­ nadas (ibidem, p. 16). Em outras palavras, as descobertas realizadas reduzem-se ao seguinte: no caso do homem, po­ de-se conseguir um acordo com palavras, de modo que diante de um determinado sinal retire a mão e diante de outro não a retire. A esse respeito, Protopópov estabelece

a mão e diante de outro não a retire. A esse respeito, Protopópov estabelece dois princípios,

dois princípios, importantes para nós.

78 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA 1. "Indubitavelmente, no futuro, as investigações refle­ xológicas no

78 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

1. "Indubitavelmente, no futuro, as investigações refle­

xológicas no homem deverão se realizar, em psicologia experimental, servindo-se basicamente de reflexos condicio­ nados secundários." (Ihidem, p. 22.) Isto significa apenas que a consciência írrompe inclusive nas provas dos reflexó­ logos e modifica consideravelmente o quadro do comporta­

mento. Faça a consciência sair pela porta e ela entrará pela janela.

2. A inclusão desses procedimentos de investigação na

metodologia reflexológica funde por completo esta última com a metodologia de investigação das reações, estabeleci­ da há muito tempo na psicologia experimental. O próprio Protopópov aponta este fato, embora considere a coincidên­ cia casual e apenas externa. Para nós, está claro que se trata, neste caso, de uma capitulação completa da metodologia puramente reflexológica, cuja utilização deu bons resultados no caso do comportamento dos cachorros. Consideramos importante assinalar, nem que seja em duas palavras, que, se contemplarmos do ponto de vista da hipótese que expusemos aqui os três aspectos que a psico­ logia empírica diferenciou na psique (consciência, senti­ mento e vontade), nào será difícil identificar no plano da consciência essa mesma natureza tripla, o que é compatível tanto com nossas hipóteses quanto com a metodologia que delas se desprende. l. A teoria das emoções de W. James (905) sustenta perfeitamente essa interpretação da consciência dos senti­ mentos. James altera a ordem dos três elementos habituais (A a causa dos sentimentos; B o próprio sentimento; C sua manifestação corporal) da seguinte maneira: A C - B. Nào retornarei sua conhecida argumentação. Apenas mencionarei que nela se evidencia perfeitamente: a) o caráter reflexo do sentimento, o sentimento como sistema de reflexos A e B; o caráter secundário da consciência dos sentimentos, quando sua própria reaçâo serve de excitante a uma rea~:ão nova, interna - B e C. Também se pode ver aqui o valor bio­ lógico do sentimento como reação avaliadora rápida de todo o organismo a seu próprio comportamento, como ato do

todo o organismo a seu próprio comportamento, como ato do P,ROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA
todo o organismo a seu próprio comportamento, como ato do P,ROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

P,ROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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interesse do organismo na reação, como organizador interno de todo o comportamento presente em um momento dado. Indicarei, além do mais, que a tridimensionalidade dos senti­ dos proposta por Wundt se refere, em essência, a esse cará­ ter valorativo da emoção, a essa espécie de repercussão de todo o organismo ante sua própria reação. Daí o caráter irre­ petível, exclusivo, das emoções em cada caso concreto. 2. Os atos de conhecimento da psicologia empírica tam­ bém manifestam sua dupla natureza, já que transcorrem cons­ cientemente. A psicologia distingue claramente duas fases neles: os atos de conhecimento em si e a consciência dos mesmos. São especialmente curiosos os resultados da refinadíssi­ ma introspecção da escola de Wurtzburgo, desse destilado de "psicologia de psicólogos", que podemos encontrar nes­ sa corrente. Uma das conclusões dessas investigações esta­ belece a impossibilidade de observar o próprio ato do pen­ samento, que escapa ã percepção. Aqui, a introspecção se esgota em si mesma. Encontramo-nos no próprio fundo da consciência. A conclusão que se impõe de uma certa incons­ ciência dos atos do pensamento é paradoxal. Além do mais, os elementos que percebemos, que encontramos em nossa consciência, são antes sucedâneos do pensamento do que a essência do mesmo: correspondem a todo tipo de retalhos, farrapos, espuma. Experimentalmente conseguiu-se demonstrar, diz a esse respeito O. Külpe (916), que não podemos afastar de nós mesmos nosso "eu". É impossível pensar, pensar entregan­ do-se por completo aos pensamentos e submergindo neles e observá-los ao mesmo tempo. Nào é possível levar até o fim uma tal divisâo da psique. O que, por sua vez, significa que não se pode dirigir a consciência para si mesmo e que esta constitui um fenômeno secundário. Não se pode pensar o próprio pensamento, captar o mecanismo específico da cons­ ciência, precisamente porque nào é um reflexo, ou seja, não pode ser objeto de vivência, excitante de um novo reflexo, mas é um mecanismo transmissor entre sistemas de refle­ xos. Mas, quando se terminou o pensamento, ou seja, se

80 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA fechou o reflexo. oode-se observá-lo conscientemente: o outro": como

80 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

fechou o reflexo. oode-se observá-lo conscientemente:

fechou o reflexo. oode-se observá-lo conscientemente: o outro": como diz Külpe. M. B. Krol a esse

o outro": como diz Külpe.

M.

B.

Krol

a esse

em um de seus

outro": como diz Külpe. M. B. Krol a esse em um de seus (922), que os

(922), que os novos fenômenos descobertos pelas investi­

gaçôes realizadas escola de Wurtzburgo nos processos superiores da consciência lembram de modo extraordinário os reflexos condicionados pavlovianos. A

do pensamento, o fato de o encontrarmos complexas da atividade, as buscas etc. falam na­ turalmente disso. A impossibilidade de observá-lo fala a favor dos mecanismos que indicamos aqui. 3. Por último, é precisamente a vontade que descobre melhor e de forma mais simples a essência da própria cons­ ciência, A presença prévia de representações motoras (ou de secundárias ao movimento de órgàos) ex­ de que se trata, Qualquer movimento deverá se reali­

cineste­

zar da vez inconscientemente, Depois, sua

sia (ou sua secundária) se converte na base de sua consciência (H, Münsterberg, 1914; H. Ebbinghaus, 1912),

É a consciência da vontade que proporciona a i1usào de dois em fazê-lo e o fiz. E aqui, com efeito, encontramo-nos em presen<,~a de duas ordem inversa: orimeiro a secundária e

de duas ordem inversa: orimeiro a secundária e vezes, o processo se ato volitivo e de
de duas ordem inversa: orimeiro a secundária e vezes, o processo se ato volitivo e de
de duas ordem inversa: orimeiro a secundária e vezes, o processo se ato volitivo e de
de duas ordem inversa: orimeiro a secundária e vezes, o processo se ato volitivo e de

vezes, o processo se ato volitivo e de seu mecanismo, confundida com os moti­ vos, ou pelo enfrentaj11ento de várias secundá­ rias, concorda também com os pensamentos desenvolvidos anteriormente. Mas, talvez, o mais importante seja que à luz desses pensamentos explica-se o desenvolvimento da consciência desde o momento em que se nasce, sua procedência da seu caráter secundário e, por conseguinte, sua dependência psicológica em relaçào ao meio, A experiência determina a consciência: esta lei pode obter aqui pela pri­ meira vez, recorrendo a uma certa redução, um significado

exato e descohrir o próprio mecanismo de tal determinabilidade.meira vez, recorrendo a uma certa redução, um significado t IlIIJi PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA

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e descohrir o próprio mecanismo de tal determinabilidade. t IlIIJi PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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6

Existe no homem um grupo de reflexos facilmente identi­ ficáveis cuja denominaçào correta seria a de reversíveis: sâo reflexos a excitantes que podem, por sua vez, ser criados pelo homem, A palavra escutada é: um excitante, a pronunciada, um reflexo que cria esse mesmo excitante. Aqui, o reflexo é porque o excitante pode se transformar em reação e vice-versa, Esses reflexos reversíveis, que criam a base do comportamento social, servem de coletiva do Dentro de toda a massa de excitantes há um grupo que, a meu ver, se destaca com a dos excitantes das pessoas. E se destaca porque eu individualmente, esses mesmos excItantes; porque logo se convertem para mim em reversíveis e, por conseguinte, determinam meu mento de um modo diferente dos demais, Assemelham-me a outras pessoas, tornam meus atos idênticos a mim mesmo. No sentido amplo da palavra é na que se encontra pre­ cisamente a fonte do comportamento social e da consciência, É muito importante, ainda que apenas de passagem, estabelecer aqui a idéia de que, se isto for realmente assim, o mecanismo do comportamento social e o da consciência é o mesmo, A linguagem é, por um lado, um sistema de "refle­ xos de contato social" (A, B. Zalkind, 1924) e, por outro la­ preferencialmente um sistema de reflexos da consciên­ isto é, um aparelho de reflexo de outros sistemas, É aqui que está a raiz da do "eu" alheio, do conhecimento da psique alheia. O mecanismo do conheci­ mento de si mesmo e o do outro é o mes­ mo, As doutrinas habituais sobre o conhecimento da alheia, ou assumem sua incognoscibilidade (A. L Vvediens­ ki" 1917). ou então tentam construir um mecanismo verossÍ­

1917). ou então tentam construir um mecanismo verossÍ­ '1111 ,Iilll s. Vveuienski, Aleksandr Ivánovitch
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s. Vveuienski, Aleksandr Ivánovitch 0856-192'». Professor da Universi daele ele São Petersburgo, filósofo idealista. Em slIa opinião, a viela espiritual nào possui nenhum traço objetivo e por isso a alma alheia é incognoscíveL Considerav,) que a tarefa ela psicologia se limita a descobrir os fenôL1Ienos espirituais e que () único meio de aceder a eles (: a introspecção, (N.RR)

82 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA mil que é essencialmente o mesmo, ainda que as

82 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

mil que é essencialmente o mesmo, ainda que as hipóteses distintas, tanto pela teoria das sensações quanto pela das analogias; conhecemos os outros na medida em que conhecemos a nós mesmos; ao conhecer a cólera alheia

a minha prõpria. Na verdade, seria mais correto dizer precisamente o contrário. Temos consciência de nós mesmos porque a le­ mos dos demais e pelo mesmo procedimento através do qual conhecemos os demais, porque nós mesmos emque conhecemos a nós mesmos; ao conhecer a cólera alheia a nós mesmos somos o mesmo

a nós mesmos somos o mesmo que os demais em relação a

nós. Tenho consciência de mim mesmo somente na medida em que para mim sou outro, ou seja, porque posso perceber outra vez os reflexos próprios como novos excitantes. Entre

o fato de que eu possa em voz alta a palavra dita em

silêncio e o fato de que possa repetir a palavra dita por outro não existe nenhuma diferença, como tampouco em princípio, nos mecanismos: ambos são um reflexo rever­ sível um excitante. Por como conseqüência da adoção da hipótese proposta, decorre diretamente a socialização de toda a cons­

ciência. Disso se conclui que o reconhecimento, a priorida­ de temporal e efetiva pertencem à vertente social e à cons­ ciência, A vertente individual se constrói como derivada e secundária sobre a base do social e segundo seu exato modelo. Vem daí a dualidade da consciência: a idéia do é a mais próxima da idéia real da consciência. O que não deixa de ter uma certa afinidade com a divisão da per­ sonalidade em "ego" e "id" que S. Freud descobre analitica­ mente. O "ego" se comporta em relação ao "id" de modo semelhante a um cavaleiro, diz Freud, que deve domar um

cavalo, com a única diferença de que o cavaleiro terá de realizá-lo com suas próprias forças, ao passo que o "ego" deve fazê-lo com forças emprestadas, Essa compara­ çào pode ser levada adiante. Assim como o cavaleiro que, se nào quiser se separar do cavalo, não terá outro remédio se­ nào conduzi-lo aonde este queira ir, também o "ego" trans­ forma em geral em ação a vontade do "id", como se se tra­ tasse da sua própria (S, Freud, 1924b).modo semelhante a um cavaleiro, diz Freud, que deve domar um illHHUllIllI1 fi 11 11 I

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

83

A educação da consciência da linguagem nos surdos­ mudos e, em parte, o desenvolvimento das reações táteis nos cegos podem ser uma magnífica confirmação da idéia da identidade dos mecanismos da consciência e do contato social e de que a primeira é algo assim como o contato con­ sigo mesmo. Em geral, a linguagem não se desenvolve nos surdos-mudos, detendo-se no estágio de grito refletor, não porque tenham lesões nos centros da linguagem, mas por­ que, devido à falta de audição, paralisa-se a possibilidade de que o ret1exo da linguagem seja reversível. A linguagem não retorna como excitante ao próprio falante, Por isso é inconsciente e associaI. Geralmente, os surdos-mudos se li­ mitam ao idioma convencional dos gestos, que os familiari­ za com o reduzido círculo da experiência social de outros surdos-mudos e desenvolve neles a consciência, graças ao fato de que esses reflexos retornam ao próprio mudo atra­ vés do olhar. A educação do surdo-mudo em sua vertente psicológica consiste precisamente em restabelecer ou compensar o me­ canismo alterado de reversibilidade de reflexos. Os surdos aprendem a falar verificando nos lábios do falante os movi­ mentos feitos para pronunciar e eles próprios aprendem a falar utilizando as excitações cinestésicas secundárias que surgem nas reações motoras da linguagem. O mais admirável é que a consciência da linguagem e a experiência social apa­ recem ao mesmo tempo e de forma totalmente paralela. É como um experimento montado especialmente nature­ za, que confirma a tese fundamental de nosso artigo. Em outro trabalho espero mostrar isso com maior clareza e de forma mais completa. O surdo-mudo aprende a ter consciên­ cia de si mesmo e de seus movimentos na medida em que aprende a ter consciência dos demais, A identidade dos dois mecanismos é surpreendentemente clara e quase evidente, agora, reunir os elementos da fórmula do comportamento humano, descrita antes. Evidentemente, a experiência histórica e a social não constituem nada psico­ logicamente distinto, já que, na verdade, nào podem ser separadas e sempre se apresentam juntas. Unamos ambas

psico­ logicamente distinto, já que, na verdade, nào podem ser separadas e sempre se apresentam juntas.
84 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA com o signo +. Seu mecanismo é absolutamente o

84 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

com o signo +. Seu mecanismo é absolutamente o mesmo que o da consciência, como procurei demonstrar, porque também esta última deve ser considerada como um caso particular da experiência social. Por isso, é fácil designá-las com o mesmo índice de experiência duplicada.

7

Considero extraordinariamente importante e essencial indicar, a título de resumo deste ensaio, a coincidência de conclusões que existe entre os pensamentos desenvolvidos nele e a análise da consciência realizada por W. James. Idéias procedentes de campos totalmente distintos e que fo· ram desenvolvidas por caminhos completamente diferentes conduziram a um mesmo ponto de vista, já mencionado por James em sua análise especulativa. Vejo nisso uma certa confirmação parcial de minhas idéias. Já em Psicologül (1911), ele dizia que a existência de estados de consciência enquanto tal não constitui um fato plenamente demonstrado e sim um preconceito profundamente arraigado. Foram pre­ cisamente os dados de sua brilhante introspecção que o convenceram disso. "Cada vez que tento notar em meu pensamento - diz ele a atividade enquanto tal tropeço infalivelmente em um ato puramente físico, uma impressão qualquer que provém da cabeça, das sobrancelhas, da garganta e do nariz." E no artigo "Existe a consciência?" (913), explica que a única di­ ferença entre a consciência e o mundo (entre um reflexo ao reflexo e um reflexo ao excitante) reside apenas no contex­ to dos fenômenos. No contexto dos excitantes trata-se do mundo, no de meus reflexos, da consciência. Esta é apenas um reflexo de reflexos. Por conseguinte, a consciência como categoria específi­ ca, como procedimento especial da existência, não aparece. Conclui-se que é uma estrutura muito complexa do compor­ tamento, concretamente a duplicação do mesmo, como se diz em relaçào ao trabalho nas palavras que servem de epí­

:111

relaçào ao trabalho nas palavras que servem de epí­ :111 PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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grafe. "No que me diz respeito, estou convencido - diz

é

James - de que em mim a corrente dos pensamentos (

)

apenas uma denominação imprecisa do que, em um exame mais minucioso, se demonstra, na verdade, uma corrente

'Penso', que segundo Kant deveexame mais minucioso, se demonstra, na verdade, uma corrente todos os meus objetos, nào é mais

todos os meus objetos, nào é mais do que 'respiro', que os

acompanha de verdade

do mesmo material que as coisas. (19] 3, p. 126.) Neste ensaio apontamos rápida e sucintamente apenas algumas idéias de caráter prévio. No entanto, parece-me que é justamente a partir daqui que se deverá iniciar o estu­ do da consciência. O estado em que se encontra nossa ciên­ cia ainda a mantém muito afastada da fórmula final de um teorema geométrico que coroe o último argumento: como queríamos demonstrar. Cremos que no momento atual ainda continua importante definir com precisão o que é que se deve demonstrar para depois nos dedicarmos a demonstrá­ lo: primeiro, formular a tarefa; depois, resolvê-Ia'. Para essa formulaçào da tarefa confiamos que, dentro do o presente ensaio sirva.

confiamos que, dentro d o o presente ensaio sirva. ) sào feitos ) Os pensamentos (

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sào feitos

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o presente ensaio sirva. ) sào feitos ) Os pensamentos ( I"" dllll • o presente

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dllll

• o presente artigo fie encontrava na fase de correç;io das prova., tomei conhecimento de alguns trahalhos relacionados com esse pro­

hlema e pertencentes a

resolvem o prohlema da consciência de forn1o próxima às idéias aqui desen­

volvidas, como um problema de relação entre reaçües (cotejar com "compor­ tamento verb;llizado"l.

psicólogos behavioristas. Estes autores propõem e

Iliil,

Iliil, IIIII SOBRE O ARTIGO DE K. KOFFKA "A INTROSPECÇÃO E O MÉTODO DA PSICOlOGIA"*. A

IIIII

SOBRE O ARTIGO DE K. KOFFKA "A INTROSPECÇÃO E O MÉTODO DA PSICOlOGIA"*. A TíTULO DE INTRODUÇÃO

Quando os organizadores desta obra selecionaram o artigo de K. Koftka "A introspecção e o método da psicolo­ gia", o que os guiava era a consideração de que para cons­ truir um sistema psicológico marxista é necessário orientar-se corretamente entre as correntes psicológicas atuais. Já faz muito tempo que a ciência e seu desenvolvimento saíram do estado em que cada país podia elaborar seus problemas sepa­ radamente, de forma isolada e relativamente independente. Não pode haver erro maior para compreender a atual crise da psicologia do que reduzi-la aos limites e fronteiras do pensa­ mento científico russo. E esta é a maneira pela qual os repre­ sentantes de nossa psicologia empírica avaliam a questão: se lhes déssemos crédito, na psicologia do Ocidente tudo per­ maneceria tão imutável e tranqüilo como "a mineralogia, a física e a química", ao passo que nós, os marxistas, empreen­ demos nada mais do que a reforma da ciência. Repetimos mais uma vez: não se pode apresentar o estado real das coi­ sas sob um aspecto mais falso e tergiversado. O começo da crise russa é marcado pela orientação em direção ao agressivo behaviorismo norte-americano. No prin­ cípio, isso era necessário. Era preciso conquistar posições

• "Po póvodu statí K. Koffki 'Samonabliudenie i metod v psikhologuii'," Escrito em 1926 como introdução a um artigo de K, Koffka e publicado em K. N, Kornílov (org,), Problemas de psicologia atual, Moscou, 1926,

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88 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

UlJ)eLlv.t:> em psicologia e libertar-se do cativeiro do :>UlJ)C:lI vismo espiritualista e idealista. Mas agora todos percebem

que a psicologia marxista só pode seguir até um certo ponto

o

caminho escolhido pelo behaviorismo norte-americano e

a

reflexologia russa. Surge a necessidade de separar-se dos companheiros de viagem e traçar o próprio caminho. Os aliados de ontem na guerra comum contra o subjeti­ vismo e o empirismo provavelmente se converterão amanhã em nossos inimigos na luta pela afirmação dos fundamentos básicos da psicologia social do homem social, pela libertação da psicologia do cativeiro biológico e por devolver a ela o significado de ciência independente, e deixar de ser um dos capítulos da psicologia comparada. Em outras palavras, quan­ do passarmos a construir a psicologia como ciência do com­ portamento do homem social e não do mamífero superior, aparecerá claramente a linha de discrepância com nosso alia­ do do passado. A luta aprofunda-se e passa para uma nova fase. É ne­ cessário lembrar (para dirigi-la e calcular cada passo) que não se desenvolve dentro da idílica e pacífica paisagem do empirismo "científico", mas em circunstâncias muito tensas e dentro de uma violentíssima luta científica, da qual participa tudo que há de vivo em psicologia. O que menos evoca o estado atual da ciência psicológica é uma paisagem bucólica. "Tudo tranqüilo em Shipka'" só para quem não vê nada. Con­ cretamente, na psicologia ocidental foi realizado um trabalho crítico tão destrutivo que o empirismo pré-crítico, ingênuo e feliz que nos é apresentado parece algo pré-diluviano na ciência européia. "O psicólogo de nossos dias parece-se com Príamo sen­ tado nas ruínas de Tróia - constata N. N. Langue, ao resumir

o

estado atual da psicologia." 0914, p. 42.) Ele mesmo fala

o

tempo todo da crise da psicologia como se se tratasse de

um terremoto, que "destrói num instante uma cidade de as­

1. Shipka é o nome de um desfiladeiro da cadeia montanhosa central da Bulgária, Stara-Platina, onde, em 21/26-8-1877, as forças russas e búlgaras repeliram com êxito os duríssimos ataques do exército do rajá Solimão na guerra russo-turca daquele ano. (N.T.E.)

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

89

pecto florescente" e compara a queda da psicologia associa­ cionista com a da alquimia. Realmente. a crise iniciou-se com a decadência da teoria associacionista; a partir de en­ tão, a psicologia científica deixou de pisar em terreno firme e começou o terremoto. Atualmente assistimos a uma mudança de direção extraordinariamente interessante e sig­ nificativa da crise e das principais for~~as em litígio. Se o princípio da crise européia se caracteriza pela intensificação do momento idealista e subjetivista (E. Husserl, A. Meinong, escola de Wurtzburgo), hoje em dia a direção é justamente a contrária. Como afirma I. Everguétov (924), a psicologia e seu método estão se transformando em materialistas no sentido mais estrito da palavra. Mesmo se isto não for exatamente assim, não há a menor dúvida de que indica com acerto a direção. A psicologia tende a se transformar em embora seja possível que nesse caminho se afunde por mais de uma vez no lodo idealista. A psicologia divide-se clara­ mente em duas correntes: uma se apóia no bergsonismo, aprofundando e corrigindo a linha do espiritualismo em psi­ cologia, e a outra tende ostensivamente para a construção monista e materialista da psicologia

orientar-se com precisão na luta científica que atualmente ocorre na psicologia ocidental. Temos a inten­ ção de publicar em russo os trabalhos seminais mais tantes que caracterizam cada corrente e oferecer em uma das próximas seleções um resumo das correntes psicológi­ cas atuais do Ocidente". Começaremos pela corrente mais influente e interessante de todas, pela chamada da gestalt, entre cujos representantes se destaca K. Koffka. Não procuraremos oferecer lima exposição detalhada e lima apreciação dessa teoria no presente comentário: limitar-nos­ emos a fazer algumas breves observações sobre ela. A Dsicologia da Gestalt (teoria da imagem, psicologia da psicologia estrutural, como costuma ser traduzida em outros idiomas) foi se formando ao longo dos últimos dez

em outros idiomas) foi se formando ao longo dos últimos dez É • Tinha razão Everguétov
em outros idiomas) foi se formando ao longo dos últimos dez É • Tinha razão Everguétov

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outros idiomas) foi se formando ao longo dos últimos dez É • Tinha razão Everguétov ao

• Tinha razão Everguétov ao intitular seu resumo: "Depois do empirismo".

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90 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

11' anos. Já superou há muito os limites da investigação experi­ mental de percepção da forma que presidiu seus primórdios e que constitui, por enquanto, seu principal conteúdo psico- Procura transformar-se em teoria psicológica geral, como diz Koffka em outro artigo. Extrapola suas condições para a psicologia comparada e para a psicologia da crian­ ça, para a psicologia social e para todas as ciências limítro­ fes, procurando formular de novo seus princípios fundamen­ tais. E é precisamente na qualidade de nova doutrina psico­ lógica que essa nova teoria se contrapõe, por um lado, à psi­ cologia empírica tradicional (a associacionista e a de Wurtz­ burgo) e, por outro, ao behaviorismo. E é precisamente enquanto doutrina psicológica nova que essa teoria é objeto de atenção em todos os países: podem-se encontrar artigos sobre ela em revistas francesas, inglesas, norte-americanas, espanholas, sem falar das alemãs. A própria oposição da psi­ cologia da Gestalt ao empirismo e ao behaviorismo puro, a própria tentativa de encontrar um ponto de vista unificador para o comportamento e de elaborar uma metodologia sinte­ tizadora transformam essa corrente em um aliado nosso de

imenso valor em toda uma série de problemas. Isto não signi­

fica que nossa aliança irá constituir um bloco de princípios firme e duradouro; já nesse momento poderíamos assinalar com precisão toda uma série de pontos em que divergimos dessa teoria. O leitor encontrará no artigo de Koffka a expo­ sição dos critérios mais importantes, tanto críticos quanto positivos, dessa escola. De nossa parte, indicaremos seus pontos de contato e de discrepância com a psicologia mar- deixando para outra oportunidade a análise detalhada e a avaliaçào da mesma.

1. l'j,faterialismo monísta da nova teoria. A psique e o

comportamento "interno e externo" (segundo a terminologia de W. Kõhler), as reações fenomênicas e corporais (Koffka), não constituem duas esferas distintas e de natureza diferen­ te. "O interno é externo" (Kôhler). A nova teoria parte da identidade fundamental das leis que constroem os "conjun­ tos" (Gestalten) na física, na fisiologia, na psique. A nOVa teoria admite o princípio dialético da transição da

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admite o princípio dialético da transição da li ! PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 111

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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91

de em qualidade, quando o utiliza para explicar a diversida­ de qualitativa das vivências (fenômenos). Os processos cons­ cientes já não sào declarados como o único objeto da inves­ tigação, mas são interpretados como partes de processos psicofisiológicos integrais de maior envergadura. Aqui, os "fenômenos psíquicos" da psicologia empírica perdem defi­ nitivamente sua importância excludente e independente. A psique é considerada como um "aspecto fenomênico do comportamento", como parte integrante deste.

Ao

reconhecer a unidade, mas não a identidade do interno e do externo no comportamento, os psicólogos da nova escola renunciam com a mesma firmeza, tanto ã introspecção anali­ sadora, que não pode constituir em si mesma um método da psicologia e nunca será seu principal método, quanto ao objetivismo puro que alcança sua forma extrema de Watson, Embora adiram por completo a toda uma série de acusações que o behaviorismo lança contra a introspecção, consideram errôneo nào levar de forma alguma em consideraçào a face­ ta "interna" do comportamento (Koffka). A nova metodolo­ procura fundamentar um método subjetivo-objetivo fun­ cionai que abarque os pontos de vistas descritivos (descriti­ trospectivoVe funcional (objetivo-reacional).

3. Pontos de divergência. Dentro de nossa indiscutível

coincidência com a psicologia da Gestalt, não podemos fe­ char os olhos para os pontos de divergência que existem entre ambos os sistemas - e que irão crescer à medida que as duas correntes se desenvolverem em muito do que se refe­ re à elaboração do objeto e do método de nossa ciência. Para nós, contudo, isto não retira nenhum valor da nova corrente. Não pensamos em absoluto encontrar na ciência ocidental um sistema psicológico marxista elaborado. Seria quase um milagre se este tivesse surgido. Mas esses pontos de

2. Metodologia sintética e funcional da investigação.

2. Par& L. S. Vígotski. a psicologia descritiva ou descritivo-introspectiva consiste na análise dos fenômenos da consciência por meio de uma auto­ observação especialmente organizada (introspecçáo). É preciso distinguir essa corrente da psicologia descritiva (ou "compreensiva") tal como ê interpretada por W. Dilthey. (N.R.lU

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92 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

servem para aguçar o fio da nova ciência. Em nossa luta contra o empirismo aprendemos muito e, nesse, 1I1~11I11. 92 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA é útil tomarmos como ponto de partida o

é útil tomarmos como ponto de partida o behavioris­ mo puro. Dessa forma, poderemos provavelmente realçar útil tomarmos como ponto de partida o behavioris­ mo puro. Dessa forma, poderemos provavelmente realçar algumas das teses da psicologia marxista em nossos debates com a psicologia da Gestalt e em sua crítica. Talvez a crítica pudesse se desenvolver na linha de questões tais como a ten­ tativa da nova teoria de evitar o vitalismo e o mecanicismo; a excessiva assimilação dos problemas da psique aos procedi­ mentos teóricos e dados da física atual; a falta de um ponto de vista social, a teoria "intuitiva" da consciência e muitas outras mais. Mas não esqueçamos que o próprio fato de apa­ recer no Ocidente uma corrente como a psicologia da Gestalt

mostra, sem a menor dúvida, que as forças motoras objetivas inseridas no desenvolvimento da ciência psicológica agem na mesma direção que a reforma marxista da psicologia. Para

oe,ro~hj~-Io. basta olhar o princípio que se desenvolve na cologia, não através da estreita abertura de nossa discussão com os mas na escala da ciência universal.

o MÉTODO INSTRUMENTAL EM PSICOLOGIA*

ciência universal. o MÉTODO INSTRUMENTAL EM PSICOLOGIA* 2. Essa do homem surge uma série de para
ciência universal. o MÉTODO INSTRUMENTAL EM PSICOLOGIA* 2. Essa do homem surge uma série de para

2. Essa

do homem surge uma série de para o domínio dos próprios com a técnica, esses dis­ de pleno direito, a denominação convencional de ferramentas ou instrumentos psicológicos a terminologia de E. Claparede, R. Thurnwald).

como qualquer outra, nâo pode chegar

até a total coincidência de todos os traços de ambos os conceitos; por isso, não se pode

esperar de antemão que encontremos nesses dispositivos todos os traços dos instrumentos de trabalho.

3. Os instrumentos psicológicos sào criações artificiais;

estruturalmente, são dispositivos sociais e nâo orgânicos ou

individuais; destinam-se ao domínio dos processos próprios ou alheios, assim como a técnica se destina ao domínio dos processos da natureza.

4. Como exemplo de instrumentos psicológicos e de

seus complexos sistemas podem servir a linguagem, as dife­ rentes formas de numeração e cálculo, os dispositivos mne­

• "Instrumentalnii metod v psikhologuíi". Conferência proferida em 19.:\0 na academia de educação comunista N. K. Krupskaia. Do arquivo pessoal de L. S. Vigotski. Primeira publicação.

/

94 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

motécnicos, O simbolismo algébrico, as obras de arte, a es­ crita, os diagramas, os mapas, os desenhos, todo tipo de nos convencionais etc.

5. Ao inserir-se no processo de comportamento, o instru­

mento psicológico modifica de forma global a evolução e a

estrutura das funções psíquicas, e suas propriedades determi­ nam a configuração do novo ato instrumental do mesmo mo­ do que o instrumento técnico modifica o processo de adapta- natural e determina a forma das operações laborais.

6. Além dos atos e processos de comportamento natu­

rais, é preciso distinguir as funções e formas de comporta­ mento artificiais ou instrumentais. Os primeiros surgiram e se desenvolveram como mecanismos especiais ao longo do processo da evolução e são comuns ao homem e aos animais superiores; os segundos constituem uma realização posterior da humanidade, um produto da evolução histórica e são a forma específica de comportamento do homem. Nesse senti­ do, T. Ribot chamou de natural a atenção involuntária e de artificial a voluntária, vendo nela um produto do desenvolvi­ mento histórico (cf. o ponto de vista de P. P. Blonski). 7. Os atos artificiais (instrumentais) não devem ser consi­ derados como sobrenaturais ou supranaturais, criados segun­ do determinadas leis novas, especiais. Os atos artificiais são precisamente os mesmos atos naturais, que podem ser decom­ postos até o fim e reduzidos a estes últimos, da mesma manei­ ra que qualquer máquina instrumento técnico) pode ser decomposta em um sistema de forças e processos naturais. O artificial é o resultado de uma combinação (constru­ e é ao que tende a substituição e o emprego desses processos naturais. A relação entre os processos instrumen­ tais e os naturais pode ser explicada por meio do seguinte esquema: um triângulo.

Na lembrança natural estabelece-se uma conexão asso­ ciativa direta (um reflexo condicionado) A B entre os dois estímulos A e R. Na lembrança artificial, mnemotécnica, des­ sa mesma marca através do instrumento psicológico X (nó no lenço, esquema mnemônico), no lugar da conexão direta A - B estabelecem-se duas novas conexões:

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

A,

95

7B

x

A X e X - 13, cada uma das quais é um reflexo condi­

cionado, determinado propriedades do tecido cere­

bral, da mesma forma que a conexão A - fi. O novo, o artifi­ o instrumental é dado pela substituição de uma cone­

xão A - B por duas:

resultado, mas por outro caminho. O novo é a direção artifi­ cial que o instrumento imprime ao processo natural de fe­ chamento da conexão condicionada, ou seja, a utilização ativa das propriedades naturais do tecido cerebral. 8. Nesse esquema, apreende-se a essência do método ins­ trumental e a singularidade implicada nesse enfoque sobre o comportamento e seu desenvolvimento em relação aos outros dois métodos científico-naturais de estudo do comportamen­ to, nos quais não interfere em momento algum, e os tampouco rebate. Às vezes estudaremos o comportamento humano como um complexo sistema de processos naturais cujas leis diretrizes podem ser desvendadas, da mesma manei­ ra que se poderia fazer com a atuação de qualquer máquina enquanto sistema de processos físicos e químicos. Outras vezes, faremos o estudo sob o ponto de vista da utilização dos processos psíquicos naturais que lhe sào próprios e das for­ mas que essa utilização adota, procurando compreender como o homem maneja as propriedades naturais de seu tecido

cerebral e como controla os processos que nele ocorrem, 9. O método instrumental estabelece um novo ponto de vista sobre a relação entre o ato de conduta e () fenõmeno

A - X e X 13, que conduzem ao mesmo

96 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

externo. Dentro da relação geral estímulo-reação (excitante­ formulada pelos métodos científico-naturais em o método instrumental distingue dois tipos de rela­ entre o comportamento e o fenômeno externo: este últi­ mo, o estímulo, pode em certos casos, desempenhar o papel de objeto para o qual se o ato de comportamento para resolver alguma das tarefas a que o indivíduo se propõe comparar, escolher, valorar, ponderar etc); em outros casos, pode desempenhar o papel de meio com a ajuda do dirigimos e executamos as operações psíquicas necessá­ rias para resolver essas tarefas (lembrança, comparação, esco­ lha etc). A natureza psicológica da entre o ato de comportamento e o estímulo externo é essencialmente distin­ ta nos dois casos: o estímulo determina, condicíona e organi­ za o comportamento de forma totalmente diferente e por meio de procedimentos absolutamente singulares. No primei­ ro caso, o correto seria denominar o estímulo de objeto e, no segundo, de ferramenta psicológica do ato instrumental. 10. A singularidade do ato instrumental, cuja descoberta é a base do método instrumental, apóia-se na presença si­ multânea nele de estímulos de ambas as classes, isto é, de e de ferramenta, cada um dos quais desempenha um papel distinto qualitativa e funcionalmente. Por conseguin­ te, no ato instrumental entre o objeto e a operação psicoló­ gica a ele dirigida, surge um novo componente intermediá­ rio: o instrumento psicológico, que se converte no centro ou foco estrutural, na medida em que se determinam funcional­ mente todos os processos que dão lugar ao ato instrumental. Qualquer ato de comportamento transforma-se então em uma operação intelectual. 1L A inclusão do instrumento no processo de compor­ tamento provoca, em primeiro lugar, a atividade de toda uma série de funções novas, relacionadas com a do mencionado instrumento e de seu manejo. Em segundo suprime e torna desnecessária toda uma série de pro­ cessos naturais, cujo trabalho passa a ser efetuado pelo ins­ trumento. Em terceiro lugar, modifica também o curso e as diferentes características (intensidade,

o curso e as diferentes características (intensidade, PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA
o curso e as diferentes características (intensidade, PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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97

etc.) de todos os processos psíquicos que fazem parte do

ato instrumental, substituindo certas funçôes por outras. Ou recria e reconstrói por completo toda a estrutura do comportamento, do mesmo modo que o instrumento técni­

co recria totalmente o sistema de operaçôes de trabalho. Os

processos psíquicos globalmente considerados (na medida em que constituem uma completa unidade estrutural e fun­ cional) orientam-se para a resolução de uma tarefa que é pelo objeto de acordo com a evolução do pro­

cesso, que é ditada pelo instrumento. Nasceu uma nova estrutura: o ato instrumentaL

12. Se considerarmos do ponto de vista da psicologia

científico-natural, a totalidade dos conteúdos do ato instru­ mental cabe integralmente dentro de um sistema de estímu­ los e reaçôes. A natureza de conjunto do ato instrumental

determina a singularidade de sua estrutura interna, cujos aspectos mais importantes foram enumerados anteriormente ( estímulo-objeto e o estímulo-instrumento, ou seja, a recria­ ção e combinaçào das com ajuda do instrumento). Em termos da psicologia científico-natural, podemos defini­

lo por seus componentes como uma função complexa, glo­

balmente sintética (sistema de mas que é ao mes­ mo tempo o fragmento mais simples de comportamento com que depara a investigação e a unidade elementar de

comportamento do ponto de vista do método instrumental.

13. Uma diferença muito importante entre o instrumen­

to psicológico e o técnico é a orientaçào do primeiro para a

e o comportamento, ao passo que o segundo, que também se introduziu como elemento intermediário entre a atividade do homem e o objeto externo, orienta-se no senti­

do de provocar determinadas mudanças no próprio objeto.

O instrumento psicológico, ao contrário, nào modifica em

nada o objeto: é um meio de influir em si mesmo (ou em - na psique, no comportamento -, mas nào no obje­ to. É por isso que no ato instrumental reflete-se a atividade relacionada a nós mesmos e nào ao objeto.

14. Na singular direção que adquire do instrumento

cológico não há nada que contradiga a própria natureza, já

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98 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

que, nos processos de atividade e de trabalho, o homem "se confronta como um poder natural com a matéria da nature­ za" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 23, p. 188), entendendo por matéria a substância e o produto da própria natureza. Quando o homem atua dentro desse processo sobre a natu­ reza exterior e a modifica, também está atuando sobre sua própria natureza e a está modificando, fazendo com que dependa dele o trabalho de suas forças naturais. Subordinar também essa "força da natureza" a si mesmo, ou seja, a seu próprio comportamento, é a condição necessária do traba­ lho. No ato instrumental o homem domina a si mesmo a partir de fora, através de instrumentos psicológicos.

15. É evidente que alguns estímulos não se transformam

em instrumentos psicológicos pelas propriedades físicas que atuam no instrumento técnico (dureza do aço etc.). No ato

instrumental atuam as propriedades psicológicas do fenôme­ no externo, o estímulo se transforma em instrumento técnico graças a sua utilização como meio de influência na psique e no comportamento. Por isso, todo instrumento é necessaria­ mente um estímulo: se não o fosse, ou seja, 'se não gozasse da faculdade de influir no comportamento, não poderia ser um instrumento. Mas nem todo estímulo é um instrumento.

16. O emprego de um instrumento psicológico eleva e

amplia infinitamente as possibilidades do comportamento,

pois põe ao alcance de todos o resultado do trabalho dos gênios (como se comprova na história da matemática e de outras ciências).

17. Por sua própria essência, o método instrumental é

um método histórico-genético que proporciona à investiga­ ção do comportamento um ponto de vista histórico. O com­ portamento só pode ser entendido como história do compor­ tamento (P. P. Blonski). Os principais âmbitos de observação em que se pode aplicar com êxito o método instrumental são: a) o âmbito da psicologia histórico-social e étnica, que estuda o desenvolvimento histórico do comportamento e seus distintos graus e formas; b) o âmbito da investigação das funções psíquicas superiores, isto é, as formas superiores da memória (vide as investigações mnemotécnicas), a aten­

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

99

ção, o pensamento verbal ou matemático e assim por diante; e c) a psicologia infantil e pedagógica. O método instrumen­ tal nada tem em comum (exceto o nome) com a teoria da lógica instrumental de J. Dewey e outros pragmatistas.

18. O método instrumental não estuda apenas a criança

que se desenvolve, mas também aquela que se educa, fato este que qualifica como uma diferenciação crucial para a história do filhote humano. A educação não pode ser quali­ ficada como o desenvolvimento artificial da criança. A edu­ cação é o domínio artificial dos processos naturais de de­ senvolvimento. A educação não apenas influi em alguns processos de desenvolvimento, mas reestrutura as funções do comportamento em toda sua amplitude.

19. Se a teoria do talento natural (A. Binet) procura cap­

tar o processo de desenvolvimento natural da criança, inde­ pendentemente da experiência escolar e da influência da educação, ou seja, estuda a criança sem levar em considera­ ção seu nível de escolarização, a teoria da aptidão ou do talento escolar tenta captar unicamente o processo de de­ senvolvimento escolar, isto é, estudar o aluno de um deter­ minado curso escolar, independentemente do tipo de crian­ ça. O método instrumental estuda o processo de desenvolvi­ mento natural e da educação como um processo único e considera que seu objetivo é descobrir como se reestrutu­ ram todas as funções naturais de uma determinada criança em um determinado nível de educação. O método instru­ mental procura oferecer uma interpretação acerca de como a criança realiza em seu processo educacional o que a humanidade realizou no transcurso da longa história do tra­ balho, ou seja, "põe em ação as forças naturais que formam

sua corporeidade

) para assimilar desse modo, de forma

útil para sua própria vida, os materiais que a natureza lhe

brinda" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 23, pp. 188-9). Se a primeira metodologia estuda a criança, independentemente do fato de ser escolar, e a segunda estuda o escolar, inde­ pendentemente de outras particularidades da criança como criança, a terceira estuda a criança como escolar.

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100 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

o desenvolvimento de numerosas funções psíquicas naturais na idade infantil (a memória, a atenção) ou não se reflete em absoluto no resultado mais ou menos evidente de

uma mensuração, ou, se se reflete, o alcance é tão reduzido que não há maneira de justificar a enorme diferença que existe entre a atividade da criança e a atividade correspon­ dente do adulto. A criança se equipa e se reequipa ao longo de seu processo evolutivo com os mais diversos instrumen­ tos; aquela que pertence ao nível superior se diferencia, entre outras coisas, daquela que pertence ao nível inferior nível e pelo tipo de instrumental, isto é, pelo grau de domínio do próprio comportamento. Os principais marcos no desenvolvimento são o período no qual não há gem e aquele no qual a linguagem aparece.

20. A diferença nos tipos de desenvolvimento infantil (o

talento, a anormalidade) está estreitamente vinculada com

as características do desenvolvimento instrumental. quer tipo de desenvolvimento infantil é determinado, em

grande medida, pela incapacidade da criança de utilizar por

si mesma suas próprias funções naturais e de dominar os

instrumentos psicológicos.

21. Investigar as características e a estrutura do compor­

tamento da criança exige desvendar seus atos instrumentais

e levar em consideração a reestruturação das funções natu­

rais que o compõem. O método instrumental é aquele que investiga o comportamento e seu desenvolvimento por meio da descoberta dos instrumentos psicológicos que estão implicados e do estabelecimento da estrutura dos atos ins­ trumentais.

22. O domínio de um instrumento psicológico e, por

seu intermédio, da correspondente função psíquica natural, eleva esta última a um nível superior, aumenta e amplia sua atividade e recria sua estrutura e seu mecanismo. Os proces­

sos psíquicos naturais não são eliminados com isso, mas entram em combinação com o ato instrumental e dependem

funcionalmente, em sua estrutura, do instrumento utilizado.

23. O método instrumental proporciona ao estudo psi­

cológico da criança tanto os princípios quanto os procedi-

da criança tanto os princípios quanto os procedi- PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 101

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

101

mentos e pode utilizar qualquer metodologia, ou quer procedimento técnico de investigação: o experimento, a observação etc. 21. As investigações sobre a memória, o cálculo, a for­ mação dos conceitos nas crianças em idade escolar realiza­ das pelo autor e por iniciativa sua podem ser consideradas como exemplos de aplicação do método instrumental.

II

SOBRE OS SISTEMAS PSICOLÓGICOS*

o que exporei a é fruto de um trabalho ceill­ de experimentaçào e constitui uma tentativa ainda não concluída de interpretar teoricamente o que foi tomando forma ao longo de uma série de trabalhos destinados a inte­ grar duas linhas de a e a patológica, Por­ tanto, podemos considerar como uma tentativa básica c nào somente formal de concentrar nossa atenção naqueles problemas novos que foram surgindo diante de nós como fruto de uma comparação entre uma série de problemas que até agora só tinham sido estudados do ponto de vista do de­ senvolvimento funcional e aqueles formulados quando essas funções se desintegram, selecionando todos aqueles aspec­ tos das pesquisas que levamos a cabo em nosso laboratório que possam tcr algum valor prático. Visto que o que vou cx­ por supera, por sua complexidade, o sistema de conceitos com que operamos até agora, quero começar explicação que a maioria de nós conhece. criminavam o fato de que estávamos problemas extraordinariamente simples, sempre respondía­

problemas extraordinariamente simples, sempre respondía­ • ''o Psikhologuítcheskikh sístemakh",

• ''o Psikhologuítcheskikh sístemakh", Transcriçào estenográfica corrigi­ da da comunicação lida a 9 de outubro de 1930 na Clínica de Enfermidade~ Ment<lis d,l l' Universidade estatal de Moscou. Do arquivo pessoal de L 5, Vigotski, publicado pela primeira vez.

d,l l' Universidade estatal de Moscou. Do arquivo pessoal de L 5, Vigotski, publicado pela primeira

104 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

mos que, na verdade, deviam nos acusar do contrário:

cam de forma excessivamente um problema de gran­ de importância. E agora vocês verão uma tentativa de tratar uma série de fenômenos, que interpretamos como mais ou menos compreensíveis ou primitivos, para nos aproximar­ mos de uma interpretação de sua complexidade, que é maior do que parecia a princípio. Gostada de lembrar que esse movimento no sentido da

dos problemas que

lembrar que esse movimento no sentido da dos problemas que cada vez mais estudamos não é

cada vez mais

estudamos não é casual, e que está contido numa deter­ minada fase de nossa investigação. Como sabem, o traço

de nosso enfoque do estudo das funções superio­ res é que atribuímos a estas um papel distinto do das fun­ ções psicológicas primitivas no desenvolvimento da perso­ nalidade. Quando dizemos que o homem é dono de seu comportamento e que o dirige, estamos exolicando coisas simples (como a atenção arbitrária ou a através de outras mais complexas, como a Vinham nos acusando de esquecer do conceito de persona­ lidade e, no entanto, este está presente em todas as explica­ ções que damos das funções psicológicas. De fato, estamos procedendo de acordo com os preceitos da investigação científica que, segundo a magnífica de Goethe, transforma os problemas em postulados, ou seja, parte da formulação de hipóteses que devem ser resolvidas e verificadas durante o próprio processo de Gostaria de lembrar que por mais

o próprio processo de Gostaria de lembrar que por mais que tenha sido o modo como
o próprio processo de Gostaria de lembrar que por mais que tenha sido o modo como
o próprio processo de Gostaria de lembrar que por mais que tenha sido o modo como

que tenha sido o modo como superiores, recorremos, no entanto, ao conceito específico de personalidade de natureza mais complexa e mais integral, em relação ao qual tentamos explicar funções relativamente tão simples como a atenção involuntária ou a memória lógica. Fica claro assim que, à medida que o traba­ lho avançava, tínhamos de preencher essa a hipótese, transformá-la paulatinamente em um conheci­ e escolher em nos­ sas lllvesugaçoes os momentos que preenchessem a lacuna entre a personalidade (concebida do ponto de vista genético

entre a personalidade (concebida do ponto de vista genético 11111111 I l l i PROBLEMAS TEÓRICOS
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Illi

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e que mantém uma relação especial em relação a essas fun­ ções) e o mecanismo relativamente simples que admitíamos em nossa explicação.

com o tema so­

bre o falar. Denominei essa comu

Já em
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anteriores tropeçamos

os sistemas

devido às
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que surgem entre as concretas que se dão no processo de desenvolvimento e as que se desintegram ou experimentam mudanças patológicas duran­ te um processo de alteraçào. Ao estudar a evolução do pensamento e da linguagem na idade infantil, vimos que o processo de desenvolvimento dessas funções não consiste fundamentalmente no fato de que dentro de cada uma delas se produza uma mas em que a mudança é no nexo inicial entre o que é característico tanto da no plano zoológico quanto do desenvolvimento da criança na idade mais precoce. Esse nexo e essa relação não permanecem iguais durante o de­ senvolvimento posterior da criança. Por isso, uma das idéias centrais no âmbito da evolução do pensamento e da lingua­ gem é que não existe uma fórmula fixa que determine a rela­ entre ambos e que válida para todos os níveis de desenvolvimento e formas de alteração: em cada um deles encontramo-nos com em conexões concretas. É a isto que esta minha comunicaç'ão se dedica. (extraordinariamente simples) consiste em que durante o processo de desenvolvimento do comporta­ mento, especialmente no processo de seu desenvolvimento histórico, o que muda não são tanto as fun\~ões, tal como tínhamos considerado anteriormente (era esse nosso nem sua estrutura, nem sua parte de que o que muda e se modifica são ou o nexo das entre de maneira que surgem novos agrupamentos desconhecidos no nível anterior. É por isso que, quando se passa de um nível a outro, com freqüên­ cia a diferença essencial não decorre da mudança intrafun­ cional, mas das mudanças interfuncionais, as mudanças nos nexos interfuncionais, da estrutura interfuncional.

intrafun­ cional, mas das mudanças interfuncionais, as mudanças nos nexos interfuncionais, da estrutura interfuncional.
intrafun­ cional, mas das mudanças interfuncionais, as mudanças nos nexos interfuncionais, da estrutura interfuncional.
intrafun­ cional, mas das mudanças interfuncionais, as mudanças nos nexos interfuncionais, da estrutura interfuncional.
1 0 6 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA Denominaremos sistema psicológico o aparecimento des­ sas

106 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Denominaremos sistema psicológico o aparecimento des­ sas novas e mutáveis relações nas quais se situam ali fun­ ções, dando-lhe o mesmo conteúdo que se costuma dar a esse conceito - infelizmente amplo demais. Duas palavras a respeito de como vou distribuir o mate­ rial. É conhecido de todos o fato de que muitas vezes o pro­ cesso de exposição segue um caminho contrário ao da inves­ tigação. Teria sido mais fácil para mim abordar o material de uma perspectiva teórica e não fazer referência às investiga­ ções levadas a cabo no laboratório. Mas não posso fazer isto:

ainda nào possuo um ponto de vista teórico geral que que esse material, e considero um equívoco teorizar antes do tempo. Exporei de forma simples e sistemática a escala co­ nhecida de fatos, que vão de baixo para cima. Tenho de reconhecer previamente que ainda não sou capaz de abarcar toda a escala dos fatos em um nível teórico realmente com­ preensivo, estabelecendo correspondências lógicas termo a termo entre os fatos e as relações que os unem. Indo de baixo para cima quero me limitar a mostrar a enorme quanti­ dade de material acumulado que encontramos com freqüên­ cia em outros autores, para colocá-la em relação com os pro­ blemas para cuja solução este material desempenha um pa­ pel primordial: recorrerei para isso concretamente ao proble­ ma da afasia e ao da esquizofrenia em patologia e ao da idade de transição na psicologia genética. Permitir-me-ei ir expondo as considerações teóricas ao mesmo tempo: creio que, hoje em dia, é o único que temos para oferecer.

1

Permitam-me começar pelas funções mais simples: as relações entre os processos sensoriais e os motores. Na psi­ cologia atual, o problema dessas relações coloca-se de forma totalmente distinta do que lie fazia antes. Se para a velha plii­ cologia constituía um problema estabelecer quais eram os de associação que apareciam entre as funções, para a psicologia moderna o problema se coloca de forma inversa:

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como se ajustam entre si. Tanto as considerações teóricas quanto a linha experimental mostram que a sensório-motrici­ dade constitui um conjunto psicofisiológico único. Esse ponto de vista é defendido, em particular, pelos psicólogos gestaltistas (K. Goldstein do ponto de vista neurológico, W. Kóhler, K. Koffka e outros, do psicológico). Não posso enu­ merar todas as alegações a favor desse ponto de vista. Direi apenas que depois de estudar atentamente as investigações experimentais dedicadas a essa questão vemos até que ponto os processos motores e sensoriais constituem um todo único. Assim, a solução motora para as tarefas nos macacos nada mais é do que a continuação dinâmica desses mesmos processos, dessa mesma estrutura que se fecha no campo sensorial. Todos conhecem a convincente tentativa de Kóhler (930) e outros de demonstrar, contrariando a opini~lo de K. Bôhler, que os macacos não resolvem a tarefa dentro do âmbito intelectual, mas do sensorial, e isso se confirma nos experimentos de E. )aensch, que mostrou que nos sujeitos com imagens eidéticas o movimento do instrumento rumo ao objetivo ocorre no campo sensorial. Por conseguinte, na medida em que se pode resolver integralmente uma tarefa nele, não se trata de algo estático. Se prestarem atenção a esse processo, verão que a idéia da unidade sensório-motora se verá plenamente confirmada enquanto nos limitemos a sujeitos animais ou tratemos com crianças muito pequenas ou com adultos, para quem estes processos estão muito próximos dos afetivos. Mas quando avançamos mais produz-se uma mudança surpreendente. A unidade dos processos sensório-motores, a conexão segun­ do a qual o processo motor constitui um prolongamento dinâmico da estrutura que se fechou no campo sensorial, se destrói. A matricidade adquire, assim, um caráter relativa­ mente independente em relação aos processos sensoriais e estes últimos isolam-se dos impulsos motores diretos, sur­ gindo entre eles relações mais complexas. As experiências de A. R. Luria com o método motor combinado (928) ofere­ cem-nos uma nova faceta à luz dessas considerações. O mais interessante é que, quando o processo retorna de novo a

tdHiliidí

tdHiliidí 108 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA uma na qual o está em tensão emocional, se

108 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

uma na qual o está em tensão emocional, se restabelece a conexão direta entre os impulsos motores e sensoriais. Ao passo que, quando o homem não se dá conta do que faz e age sob a influência de uma reaç~ão comprovar seu estado interno e suas características perceptivas através de sua motricidade, observando-se no­ vamente o retorno à estrutura característica de estados pre­ coces de desenvolvimento. Se o experimentador que realiza a prova com o macaco deixa de lado a tarefa experimental e se coloca diante do animal, sem se preocupar com o que este vê, mas unicamen­ te com sua ação, será então capaz de se dar conta através dela do que o animal submetido ã prova vê. É precisamente isto que Luria denomina método motor combinado. Pelo tipo de movimento pode-se estabelecer a curva das reações inter­ nas, como é característico nas etapas precoces de desenvol­ vimento. Com muita freqüência, ocorre na criança uma rup­

motores e senso­

riais. Por enquanto sem nos adiantarmos) podemos esta­ belecer que os processos motores e sensoriais, interpretados

belecer que os processos motores e sensoriais, interpretados tura da conexão direta entre os no plano

tura da conexão direta entre os

no plano psicológico, adquirem uma relativa independência mútua, relativa no sentido de que já não existe a unidade, a conexão direta, própria do primeiro nível de desenvolvimen­ to. Por outro lado, os resultados das investigações sobre as formas inferiores e superiores da motricidade em

hereditários dos

inferiores e superiores da motricidade em hereditários dos e que separar os fatos do desenvolvimento cultural,

e que

separar os fatos

do desenvolvimento cultural, levam a concluir que, do ponto de vista da psicologia diferencial, o que caracteriza a motrici­ dade do adulto evidentemente não é sua constituição inicial, mas as novas conexões, as novas relações em que a motrici­ dade se acha em relação com as outras esferas da personali­

dade, com as demais Continuando essa idéia, quero deter-me na percepção. Na criança, esta adquire uma certa independência. Diferente do animal, a pode contemplar a situação

não agir

de imediato. Não vamos nos deter em como isto se produz, mas nos centraremos no que ocorre com a percepção.

produz, mas nos centraremos no que ocorre com a percepção. durante certo tempo e, sabendo o

durante certo tempo e, sabendo o que deve

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Vimos que a percepção se desenvolve segundo o mesmo padrão que o pensamento e a atenção arbitrária. O que acontece? Como já dissemos, desenrola-se um determinado processo de "interiorização" dos procedimentos com a dos quais a criança que percebe um objeto o compa­ ra com outro e assim por diante. Embora essa linha de investigação tenha nos conduzido a um beco sem outras investigaçôes evidenciaram com toda clareza que o desenvolvimento posterior da percepção consiste em esta­ belecer uma complicada síntese com outras funções, con­ cretamente com a da linguagem. Essa síntese é tão comple­ xa que, salvo nos casos patológicos, se torna impossível estabelecer a estrutura básica da percepção. Darei um exemplo muito Se investigamos a percepção de um quadro, como fez W. Stern, observaremos que quando a transmite o conteúdo do mesmo nomeia objetos isolados e quando brinca de dizer o que este último repre­ senta expressa todo seu conjunto, omitindo detalhes isola­ dos. Nos experimentos de Kohs, nos quais se analisa a per­ cepção em suas manifestações mais ou menos puras, a - sobretudo a surda-muda - constrói figuras que se ajustam por completo ao modelo, reproduz o desenho cor­ respondente, uma mancha de cor; mas, quando recorremos à linguagem para denominar os cubinhos, obtemos no prin­ cípio uma união incongruente, que carece ele estrutura: a coloca os cubinhos um ao lado do outro sem inte­ em uma estrutura de Para suscitar uma percepção clara é preciso colocar o sujeito em determinadas condições artificiais, o que consti­ desafio metodológico nas provas com os num experimento em que temos de apresentar absurda ao sujeito, lhe mostrarmos nâo apenas um Objeto, mas também uma figura geométrica, estaremos acrescentando conhecimento à (por exemplo, que se trata de um triângulo). E para que, como diz Kóhler, não formemos a imagem de um objeto, mas apenas de "material visual", é necessário apresentar uma combinação de coisas confusa e absurda ou então o obieto conhecido

visual", é necessário apresentar uma combinação de coisas confusa e absurda ou então o obieto conhecido
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visual", é necessário apresentar uma combinação de coisas confusa e absurda ou então o obieto conhecido
1 1 0 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA em uma exposição muito breve - para

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em uma exposição muito breve - para que não reste mais do que a impressão visuaL Em outras condições, não pode­ remos retroceder a uma percepção direta equivalente. Na afasia, ou em formas profundas de desintegração das funções intelectuais, concretamente da percepção (co­ mo observou, em particular, O. Petzel), encontramo-nos diante de um certo retorno à separação da percepção do complexo em que se desenvolve. Não posso dizer isso de forma mais simples e breve, a nào ser indicando que, de a percepç~ão do homem atual se transformou em uma parte do pensamento em imagens, porque ao mesmo tempo em que percebo vejo que objeto percebo. O conhecimento do objeto é simultâneo à percepção do mesmo, e vocês sabem que esforços são necessários no laboratório para separar um do outro: uma vez isolada da motricidade, a per­ cepçâo nào continua se desenvolvendo intrafuncionalmen­ te, mas o desenvolvimento ocorre precisamente devido ao de que a percepção estabelece novas relações com outras funções, entra em complicadas combinações com novas fun­ ções e começa a atuar em conjunto com elas como um siste­ ma novo, que se revela bastante difícil de decompor e desintegração só pode ser observada na patologia.

Se avançarmos um pouco mais, veremos como a cone­

xão inicial, característica da relação entre as funções, se desintegra e surge uma nova conexão. Este é um fenômeno geral, com que tropeçamos a cada passo e do qual não nos damos conta porque não lhe prestamos atenção. Isso é observado em nossa prática experimental mais simples.

Darei dois exemplos.

O primeiro refere-se a qualquer processo intencional­

mente mediado, como é o caso da lembrança de palavras com ajuda de imagens. Aqui já encontramos um desloca­ mento de funções. A criança que lembra uma série de pala­ vras com ajuda de imagens apóia-se não apenas na memó­ mas também na fantasia, em sua habilidade para encon­ trar a analogia ou a diferença. Por conseguinte, o processo de recuperação nâo depende dos fatores naturais da memó­ mas de uma série de funções novas, que intervém no

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

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lugar da lembrança direta. No trabalho de A. N. Leóntiev (1931) e no de L. V. Zankov\ mostra-se que o desenvolvi­ mento dos fatos gerais da memória segue curvas distintas. Referimo-nos à reestruturação das funções naturais, a sua substituição e ao aparecimento de uma complicada fusão do pensamento com a memória, que recebeu a denominaç.·ào empírica de memória lógica. um fato notável nas experiências de Zankov que atraiu minha atenção. Verificou-se que na memória mediada o pensamento passa a ocupar um primeiro plano, e as pes­ soas, segundo suas características genéticas, agem sobre a lembrança de uma lista de palavras de acordo nào com as propriedades da memória, mas com as da memória lógica. Esse pensamento se diferencia profundamente do pensa­ mento no sentido estrito da palavra. Quando dizemos a uma pessoa adulta para lembrar uma sucessào de 50 palavras pelas imagens que lhe oferecemos, ela recorre ao estabeleci­ mento de relações mentais entre o signo, a imagem e o que se lembra. Esse pensamento nào tem correspondência algu­ ma com o pensamento real do homem, mas é arbitrário; a pessoa não está interessada se está correto ou não, se é verossímil ou inverossímil o que lembra. Nenhum de nós, quando lembra algo, pensa em como faz para resolver o pro­ blema. Todos os critérios fundamentais, as conexôes, os fatores característicos do pensamento enquanto tal se defor­ mam por completo no pensamento orientado para a lem­ brança. Teoricamente, deveríamos ter dito antes que na lembrança mudam todas as funções do pensamento. Seria absurdo que nos ativéssemos, neste caso, a todas as cone­ xões e estruturas do pensamento que são necessárias quan­ do este serve para resolver tarefas práticas ou teóricas. Repi­ to, a memória nào apenas muda quanto contrai matrimônio, se nos permitirem dizê-lo assim, com o pensamento, mas este, ao modificar suas funções, nào é o mesmo que conhe­