Você está na página 1de 250

Universidade Federal do Rio de Janeiro Centro de Fdosofia e Ciencias Htnnll!lliS Instituto de Psicologia

A PSICANÁLISE E A MULHER:

FEMININO PLURAL

Dlssertaçlo de Meslrado como pllrte dos requisitos ne<essários à obtenção de grau de Mestre em Teoria Psicanalitica

Orientadoras:

Anna Carolina Lo Bianco Tftnia Coelho dos Santos

Rio de Janeiro, RJ- BRASJL MARÇO DE 1993

DISSERTAÇÃO SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, CENTRO DE FILOSOFIA E cffiNCIAS HUMANAS, COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS À OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM TEORIA PSICANALÍTICA

APROVADA POR:

Pro f. (a) Anna Carolina Lo Bianco (presidente do baoca)

Prof.(o)T~ Coelho dos Sootos

Rio de Janeiro, RJ • BRASIL

MARÇO DE 1993

ii

ALMEIDA. Madise Mlriam de Matos Pllicanálise e a .Mulber: Feminino Plmal Rio de Janeiro, U.F.RJ.• C-o de FDosofla e Ciencias Hummas. liJsliluto de Psicologia. 1993.

Tese: Mestre

em Teoria

Psic

Utica

1. Psicanálise e Mulher 2. Sexualidsde Feminilla 3. Son181idade Fcminin.o· Psicanálise

4. Psicanálise: SCJUIIIidade da Mulher L Uoiversidade Fedenl do Rio de Janeiro • CFCHIIP

 

n. Titulo

íii

IV

•_As pa/aVI"'2S :A& NN. 5tl!hfido q.a~~Jo ~"'!!aJGB

tltf!YIIIIO.Ir:uF•.

Je.

.,,. CllnOr" qwe 0$ ~

(Dolto,F.• in Tcmps Modcmos, Dez1!961)

v

AGRADECIMENTOS:

• A miDha !Jbulosa llmllia, pelo apoio, suporte, carinho, cuithdo e amor, que tio especialmente soubemn me dedicar. Sem eles eu oAo poderia ter chegado até aqui.

• A meu pai, que seu pleno silêncio continue, para sempre, a encher a miuba vida e a me ensinBr a amar

palavras.

• A meu marido Ricardo, pelo pad!ncia, admiraçAo e imenso amor. Nossa convivência carinhosa foi moldura e esteio p81'8 a relllizllçlo de IIUiis esse soubo.

• A minhas dwis, especiai<, orietttsdorss: Tllnia e Anna, pelo cuidado, pela seriedade, pelo amor à triiOSJnissAo do saber, pelo carinbosa sutileza e compet!ncia das correções, pela abertura ao debate e ao confronto das idéias; enfim por terem me ensinado o verdadeiro e profimdo caminho rumo à cmreira acadlmica, à pesquisa e à vida.

- A todos os meus queridos amigos, que colaboraram sempre suprindo-me do afeto e da dedicaçllo, necessários e fundamentais, nesse meu caminho. Agradeço especialmente a Marcelo Gerardin Poirot

Laod, meu companheiro das inquietantes interrogaçiJes, dos debates nonunos intenninávcis, do senso

sguçado de propriedade e competência, da sensilbilidade eurcebada por puro e limpo amor às idéias e à

A todos os meus colegas da tmma do Mestrado, que me acolheram e

consUuçllo do debate sobre elas.

me fizeram sentir menos es1111ngeira, especiabnente Maria Regina Prata e Luis Felipe Nogueira de Faria

. A todos meus professores, pelo amor ao t:aber e à SWl tnmsmisslo, indnsive aqueles de meu curso de graduaçAo em Psicologia da U-dade Federal de Minas Gerais (Moria Cecllia d! ClliVIllbo e Jeffi:rson Machedo Pinlo, especiabnente). Agradeço, com especial atençlo, a Joel Birmlm. meu professor-1111ista, na 'arte de escutar" e reabnente compreender, por sua dedicaçlo e corinho. Agradeço também a Sllnia, seeretória do memdo. pelo corinho, atençlo e cuidado.

- A uma pessoa muito eqtecisl. s. primeira que me acreditou, que depositou em mim as esperanças mais verdes e felizes de mn futuro profissional venturoso. A Mmtine Maillet-Lambert. que mesmo em sua francesa 8111êncla, r.m fimdo às minhas expectativas de futuro . meu amado espelho feminino.

. A todos os meus ahmos. por seu anônimo suporte e apoio.

A todos muito obrigada.

SINOPSE

O objetivo desta disscrtaçllo é discutir, den!ro da teoria psicanal!tica. a quostlo da mulher. Neste camioho retomamos o debate a propósito da sexualidade feminina. à proCU111 de caractcrlsticas quo possam constituir llDlll ordem de positividade para estes domloios. Vamos colocar em debate, os pontos espcdficos de Freud e Lacan. a respeito da presente temática. bem como trilharemos os camiohos de outros importantes analistss quo reftetiram sobre a mulher den!ro do rcfcrc:ncial teórico-clínico da psicanálise. Vamos relevar o desejo da m!e por llDlll filha (wn beba do sexo feminino) como ponto de partida para \811 cspedlico erotismo na mulher. bem como de um começo, através de mna forma de amor/dor particulares, quo demarcaria posilivmncntc o dcscmolar da mualidade feminina

SYNOPSIS

The main purpose oftlús dissCITBiion is to discuss, in lhe psycbolllllytic lheo<y, lhe Woman's quostioo.

lhe dcbotc about lhe fcmalc scmality, in sesrcb of spedfic

chara<tetisfics tbat may contribute for an ordcr of positiviam in tlús domain We are olso going to debate

lhe spedftc poinlll in lhe wod<s of Frcud md Lacm about t1ús subject as weB as refer to olher imporllllll

ana1ysts tbat have Biso made substlmlial considcratioos about lhe Woman quellion in a psycbolllllytic lheoretical-dinical poinl ofviow. We wiD empbasizo lhe motbcts desire for a fcmalc cbild as lhe S1alfing point ofa spcdfic eroticism andas lhe bcgirming ofwbal wc call, po<ltivoly, a partirular fcmalc seJUality

md world.

Focusiog ou tlús topic we wiD retbiok

'

INDICE

vil

INTRODUÇÃO: A Questio da Mulher, o Imaginário Social e Psicanálise

1

CAPÍTULO I - 'WEIBUC!l", "WEEllUC!IKEIT' e "WEEBUCHE SEXUA!lTÃT':

uma necessária distinçllo conceitual preliminm'

14

CAPíTULO 2 - O TEMA DA MULilER EM FREUD:

36

2.1. FREUD: Sucessllo cronológica

37

2.2. NO RASTREAMENTO CRÍTICO: Repensando Freud

47

CAPíTULo 3 - O TEMA DA MDLHER EM LACAN:

3.1. LACAN: Sucessão Cronológica

3.2.NO RASTREAMENTO CR!TICO: revendo Lacan

79

80

90

CAPíTULo 4 - O MONISMO FÁUCO: Síntese e

Critica

116

4.!.

Distinções a propósito do conceito

de casttaçlo

118

4.2. Considerando a proposta de uma fase fãlica para homens e mulheres e discutindo o conceito de Falo na teoria.

4.3. Considerações e crlticas de outroslllllores e especulllçlles sobre a sexualidade feminina

4.4. MoDismo e Narcisismo: Como é compticado viver a casttaçAo como diferença

124

134

146

viii

CAPITULO l - O"AMOR DOS COMEÇOS":

O desejo matemo. a 'positividade' feminina como mticuladores do fimcionamento psiquico feminino

5.1. O I(Ull chamamos de "positividade" do nrulher

149

150

5.2. O desejo matemo como ponto de pm1ido para a diferença

5.3. A ligaçfto pró-edipiana como fimdomental à organizaç!o do nrulher

169

5.4. Adiferença sc:xuale o inconsciente: a feminilidade como "palavra

primiüva"

5.5. A import!ncia do laço narcisico entre mie e filha

CAPÍTULO 6 • Uma inkl)lolaç!o teórico-clínica: no rastro dos marcas de nm fimcionarnento positivo e pré-genital feminino

CONCLUSÃO

NOTAS E REFEJl!:NCJAS

BlliUOGRAFIA

178

184

195

212

229

236

1

INTRODUÇÃO

"Esemserum Dr.John:Jon ou um aoe~ ouwm Carly~ ou. um Voltafre.a gente pode sentir, embora tk fonna muito diferente d2sse11 gra.ntks homens, a

M/uJ'e%a d2!1U labtnnto e

o poder tbmta .fizt.!uJtimk crlaliva allanumte

J

tk$t!nvolvida na.r ~res. ( Basta que entremos em ~r c8modo tk

tpJO}.qtmr nm para que a totaltdad6 dessa extremamenll! complexa força da

femintlidmk nos sala? aos olhos. E como poden'a ser ~ oulro modo? Ao

l'lfUJheres tlm ~mu:uuu:tdo dentro d2 casa por todO!l e!l!le!l milhlfes de anos, de

modo t:fU1! a estas allurcu as próprias pa~ds!sesMo impregnadas por rua força

criadora, a qual, dtt fato, sobl't!tXlrrt!gou de tal maneira a capczcidade dos ttjolos e da. arg<Jitta$sa que dsve precisar atrelai'-Se a ca.n2la!l e piru:ets e

~óetO!l e polltica. Mas es!le p~r crlalivo difere em grande parte do pO<kr

criativo dos horMns. Ê preciso que se conclua tJU1! seria mil vez.es lastrmável

t1tJ11fO!Jse i~dido ou desperdiçado. pols fot conquistado duranU! sAcuJ.os da

maJ.s dnútica disciplina, e nlro nada qtM p0$sa IM tomar o lugar. Seria mil vezes lastimâYel qtUt aJ mulheres escrevessem CO/ftO os hCJ~Um. ou vivessem como 01 honums, ousepareoe11sem com os honums,pois se dOis so=os sé!o bem

inst4/ci11n/Bs, Cl»'J3üiJu·ando-se a vastid/Lo e a vanedtzdlz do mundo, como nos

arranjarlt:zmos apenas com wn? Nl!o tkverla a eduatçt'Jo revelar e fortakoor as difenmça:~. e nrfo aJJ !limilartt:/tuh!ll? Pois temoo uma semelhança excet~!lfvtl do

jeito qtU1 as coisaJJ !ll!o, e !le algum explorador voltasse e trouu!lse notiQ.·as de

oulrrn sexO!J l!!!ptando alrrzv~s dos galhoo de outrw drvore!l em outro:. ctua.

nadapre!ltarla maJor serviço ó hwnanidadl!; e terlamos, de quebra, o inumso

pro:ur de ver o Professor X

sair

apresSt:ldaml!nll!

em

bwlca

de

seus

2

Se estivéssomos para oscrcvor mna ficçlio sobro o mundo das mulheros, outras palavras, talvez,

nilo nos fossem tio preciosas c csm: no dcmsrcar dessa "faculdade crialiva" tipicamente feminina. que

a autora aqui insiotc om apontar. Em cada cômodo, oro cada qwoto, de qualquer casa, a inttrioridade feminina se expõe como força E o que é mesmo isso? De que se trata?

Nlo escrevemos mn tC1to de ficção. a proposta de caminho é outra; escrevemos a dissertação para mn Mestrado. Mas o tema 6 este: a mulher. N1o simplesmente a mulher, mas a mulher cnqumrto

posslvcl de ser capturada por mna rede/armadilha de intctprctaçlo e entendimento, cujas molhas tecem

uma tc:oria sobre o bmnano • a teoria psicanalttica.

A pstcanüse e a mulher. Esta é a nossa questl!o; juatarnonte aquilo que no• Íllllliga, nos

motiva e nos faz pensar. "Complexa força. da feminilidade". "poder criativo". "força criadora",

ao palavras parecem beirar o alcance (oempre lanJ!encialmente) de algo secreto, obscuro, mao eternamente fascinante. Aqui o cotidiano, o oenoo commn da literatura e da ficçllo, coincidem

com a teoria. Também para a poiconálioe, a mulher e oo domlnioa que lhe dizem respeito, ollo

considerados misteriosos. obscuros, iruwessfveis. É Freud quem nos diz:

"Através da histón"a. as pessoa:J ti!m quebrado a azbeça com o enigma da

naturezadafeminilidade"()'reud,S.,l933,p. 140).

A proposta nesto tnlbalho ó de invc.Ugaçlo, no campo da psicanüse, dos don:dnios que podem

Procuramos nlio estmlc;m: diante

deste estatuto de enigma. Por rua via,llguns entraves se fizeram presentes quando se disadia este tema

da mulher, na teoria. Muitos autores proCW1IIlllll outros temas de debate, que pndmem propiciar maiore• avanços, maio resposrtu. A opçlio da pstcanáliJe foi manter a questllo da mulher dcnJro do estatuto de um eoig~D~~; com certeza uma salda maio bonita, poótiea ató, tentando nllo cincusncrovl1·la. cxclnsivamcntc, dentro dos moldes das teorizações sobro a sexualidade masculina. Contudo e ao m•smo tempo, •sta opçlo pode ter selado um certo de.UOO para a referida questllo, que insiste e resisto aos novos avanços. DistinçGcs neste campo se fazem neccsdrias. propomo-nos debruçar sobre c:las c tmtar

circunscrever à mulher um estatuto de singularidade, de po-do

3

alcançar, por meio • especialmente • da invcstigaçlo detida c dctolhada das abordagens de Freud c de

Lacm a propósito da questão, uma oub"a forma de aprOJimaçlo e comprecoslo para este bofdlulo

compHcado que é a vida feminina Feminino? Feminilidade? Sexualidade feminina? Conceitos idênticos? Semelhantes? Difcrcntcs?

Para procurar lançar mais luz sobre a questão da mulher no discurso da psicanálise, é que

empreendemos este nosso percurso. Além de Freud c Lacan. passaremos m:ccssmimncntc pelos

cBDiinhos teóricos llilbodos por outros autoros, que tmnbém, com muita pertinencia, se referiram à

presente temátiçu. Temos como objetivo procurar resgatar. no desenvolvimento teórico e clínico da

psicanálise, IDDa real podUvldade para a mulher c a sua sexualidade.

Neste nosso cBDiinho uma p<rgUD(a age todo o tempo como pano de fimdo das nossas intenções c

considerações:

• O que faz da mulher, IDD8 mulher? Ou ainda: O que podemos distinguir, partindo das

contribuiçõos da psicanálise, como sendo cxclusivarncntc da ordem das nrulhercs, no que diz respeito à

sua organização anbjctiva e à 1111 sexualidade?

É a estes questionamentos que nos lançamos c csru duas questões circunscrevem e dctimitmn a

nossa problemática. Vale apontar para o coriter pretensioso de nossa aprolimaçlo do tema,

procuraremos, contudo n1o ullrapasm o espaço da seriedade, da lidotidadc c da cocr&lcia. Procuramos,

a todo tempo, nlo cair DIDD8 supcrlicialidade de abordagens que poiSa comprometer os avanços que on

pretendemos.

A literatura feminista tem sido C(118llC un&úme, em all!Car a psicanálise por IDD8 abordagem saista

e misógina da questão da mulher. Para nós este combate encoub"a-se ultrapassado. Várias autoras

4

criticaram ferozmente a proposta freudiana clássica do moDismo scmal fãlico, contudo, com alguma frequência. vemos escapar a estas postulações, wna ordem de sistcmatizaçllo, de poder de teorizaçllo, mais conmtos a respoito do que podoóarnos englobar ou mest<:ntm (além de Wiicarnente desw:titulm) dentro do disClDlo da psicanálise. O nosso interesse ó o de clarificar, esclarecer e objetivar, na medida

do posslvel essa questllo da mulher dentro da discursividadc analitica. Nesta teoria, por vários motivos, o que observamos, foi a mulher e seus domfnios ser relegada. ora ao desconhecimento e inatingibilidade

do "continente negro" de Frcud. ora ao enaltecimento e ao mistério da "mulher nllo existe

Entre sua igoorincialdesconbecimmto e SWI. CDltaçilo/"gozo a-mais", a mulher vtm sendo falada mas e infelizmente, com bastante frcquência. associada à ordem duma impossibilidade teórico-tHnica.

de Lacan.

Consideramos importmlle romper com esta maneira de pensar as questões da mulher para conseguinnos

dela um outro encaminhamento.

Em 1976, introdu2indo uma obra impo1tante para a presente discussllo, Mitchell ' vem nos dizer

que:

"1he greater part of the feminist movement lias idenbfied Freud as

the

enemy. H 13 held that psychoanalysis ciaims women are trifen-or and that they

a:m achieve true feminity only as wives and moihers. Psychoanalysis is seen as

ajwbficationfor the saiatu3-quo, burgeois and pa!riarchaJ, and Freud in his

own peraon eumplijie::1 these qual.ities.

I wouL:l asree

tha1 popularized

Frew.iüuUsm must answer to this description: but lhe ar,gument of this book is

thal a rejecbon ofpsychoanalyai:~ and (d Freud's worh i:~fatal. for feminism.

However it I'1UlJ' hav 6 been used, p~choanalysi:~i:~nol a recommendationfor a

patriarchal

socü!ty,

but

an

analy3is

of one.

li we

are

ínterested

in

wrderstandi.ng and chaUenging tire opres:~ion of women, we cannot qfford to

neglect il" (Mitchell, 1979, p. XV).

Nós tmnbém vamos. de wna certa maneira. criticar a proposta exclusivista sobre o mooismo fálico. mas nllo pretendemos ver os nossos esforços se reduzimo à exclusividade deste debate (ou combate). Nooca pensamos Frcud como "inimigo". pelo contririo. para nós ele sWJprc foi o mais

5

impo- aliado. Pretendemos, dentro do próprio discurso dn psic!lllálise, encontrnr argumentos e

consist!ncias que possam, de wna maneira muito especifica. se referir a um estatuto para a muJher que

oio apenas aquele de um papel om negativo ou em pura oposiçlo.

Sabemos que a questl!o da mulher se constitui em verdndciro ccroc de polemicss dcolro dn psicanálise. Quostl!o-chavo, que vem quase sempre orticulada à análise tanto de bomons quanto de

mulheres. Em 1956, Lacan. no Sroünário "As Psicoses" vem nos dizer, que

a mulher se interroga

sobre que é ser uma mulher, da mesma forma que o sujeito macho se interroga sohrt que é ser

mulher"J. No ootaoto, o que vamos obs<rn!l" no desenvolver da teoria, ~ esta questl!o ser enfocada quase no absolulismo teórico do moDismo ülico. A oxdusividnde desta abordagem arrlsca um comprometimento da questl!o a uma ordem de esclarecimcnlos, onde as principais roferSncias acabam por demarcar um campo (o das mulheres) como aquele de limite ou mesmo do umbigo dcnlro dn teoria e da clfnica. Nlo DOi colocamos nesta posiçlo, procununos ir almn dela, protcndcmos intcnogó-Ja.

invostigó-la.

Vamos iniciar nosso percurso por uma distinção conceitual que é, ao nosso ver, ememamentc

impo-. Trata-se da difcroociaçlo colrc: "wetblich" ou feminino, "Weiblichhlt" ou feminilidade e "weiblich Sexumlt/Jl" ou saualidade feminina. Dedicamos o primeiro capitulo a esta diseusslo. Esta mliloza teórica vai ser de grande wlor na compreenslo mais precisa das difmntcs formas de abordagem. empreendidas dcnlro do discurso da psicanálise, a rospcito da mulher. Cremos ser esta delimit>çlo necessària e fimdamentol para o eotcudimcnlo de nossa questl!o. Ela vem apontar para tras pontos distintos de ,.fcrSncia. que como veremos, vllo cirCUDllcrover para a mulher uma forma nruito especifica de abordar seu erotismo, o fimcionamento de sua soxnalidndc e as difcrontcs formas femininas de obtcnçlo de PfliZI'I". Pensamos, que a partir desta distinçlo, nruitos enganos, desvios c impropricdadca

possam ser corrigidos e esclarecidos.

o

prosseguimento da pesquisa a respeito de nossa problemática. a proposta de uma berança transmitida na

cremos ser o pressuposto bàsico

orientodor

deste nosso percurso

e aquilo

que

guia

6

relaçlio de mna mlie e sua filha. herança esta responsável por demarcar com toda a sua peculimidade

umalinhagom (filha. mf!e, avó, etc, infinitamente) absolutamente diferencial com relação a wn filho do sexo mastulino. Como ponto bãsieo, tanto da obra de Frcud quanto da de Lacan, encontramos a sexualidade da mulher atrelada a wna foiiDll snblimatória de satisfação c contentamento, exclusiva sobre wn bcb! do sexo mastulino (como substituto privilegiado do objeto fático idealizado), e wna abordagom da relação mf!e.filha na exclusividade de seu caráter conllitivo, negativo, rancoroso ou vingativo. Contudo, pretendemos propor wna outra forma para a compreensão dos domínios da mulher, forma esta que parte de wn a priori nesta relação bastante diverso. Procuraremos enfatizar na rclaç!lo pré-genital

da filha com sua milc, ou seja. na sexualidade pré-genital c: proto-c:dipiana de: todo começo feminino. wn

ponto crucial e fundamental de difercnciaçlio nos erotismos de homens c mulheres, bem como fator de

wna precoce difercnciaç:io sexual

Vamos procurar apontar como singularidade/positividade da sexualidade feminina. um "começo•

difc:rencial. através da rc:laçllo com a mãe, que marcará o erotismo da mulher, precisamente, por mn

domínio não fático de satisfaçlio h"bidinal. Aulagnier (1975) nos aponta, com bastante pcrtin!ncia. que:

o düu;u.roo da

e para

a

sombra que permite d

miie 1"gnorar o

componente ~

inerente ao seu amor

pela criança; é esle discun;o,

portanto, que vela para que ntlo relorrw o que deve ficar reprimido. Dal. o

atribulo.f'wu:jonal acresoenttuio a tudo o quJl no e~ etNif"Wll,_,

,.

&

.-lldflll'q/lle_,.ffnlil &-r

, a m1k acakn.tapo~ assim elafaz a

criança dormir e porque o sono é bom; ela lava porque~ higil!nico ou porque

aJsim o prescreve; ela alimenta segundo um modelo tnsb'tul.do de boa saU.de, e

aasjm por dümle. Felizmente isto n8o impede a presença tk falhas: o acan·ciar

poder:~er"a-mais", o sexo pode ser tocado com prazer, o beijo pode se perder

na boca. Entretanlo,

tudo o que, no 4/u.u

,I'Mt\

foliJJ a: ~=

4tJ

IJJ/IItl, 411 tiiMM'I ,.4/elllfll 4

,,.,

(Aulagnier, 1973, p.112./113, negritos

nossos).

7

Aquilo que participa "de W1'1 prazer cuja causa deve ser ignorada" e que pCIEiste mffida em

permanecer à "sombra". é. no nosso entender. o diferencial responsável por provocar mn efeito de subj<livaçio dislinto em homens c mulheres. E é também aquilo que pode fazer o fimcionamc:nto sexual na mulher vir a poosuir seu caráter de Ci(lccificidade; aquilo que 8fjlli designarcruos de positividade

feminina.

Gostarlamos de, desde já. deixar demarcada a nossa posiç!o: é caatam<Dtc aquilo que na psicaoüse ocupa mo lugar misterioso (ou rocalcado) de "aquém" ou mesmo "olém" do falo, 0

I"OipOD>:'M:l pela produção de IDIIa subjetividade diferencial nas mulheres. Este domlnio "nio-fálico" é

produtor, nas esferas do psiquismo c do erotismo da mulbor, de uma pulsionalidade prccisamc:ntc ollo- fálica. de mo erotismo da pulsAo que não passa pelo sexo genitol. mas é da ordem de uma crogcinizaçllo c cuidado do COijJO intciraroc:ntc pré-genitais (cuidar, lavar, cozinhar, limpar, tecer, bordar, amunar, entre outtos).

Partiremos, nós também. de uma critica do mouismo fálico; n!o p1!I11 desconsidcnj-lo como IDO piv6 arú<ulador simbólico da sexualidade biDOana que é apenas quando o prcsiiUpomos que podemos pCIIllar em seu "mais além"), mas para deslocá-lo de IDOa posição pcrlgosi!IDCOie cxcJusivis1a. que por

b- l<mpo, obstruiu uma lcilun! e crdcndimeolo mais amplos do funcionamento da sexualidade na

mulheres. bem como dos efeitos e coru;cqueocias no comportamento neurótico da mulbcr. que csSG tipo

de funcionamento acarreta. A partir do mouismo fálico, o que percebemos foi a cxclus!o ou a negação

de quaisquer oub"os domioios cxplicalivos e, priocipahnc:ntc, a negaçllo das diferença~ Buscamos.

também. a partir de IDO primeiro momcuto onde revemos e rcssituamos a mulher dcutto do discurso da psicanálise, rcccuttar a questlo da difcrcnciaçio stllllll c sua rclaçllo com o inco!lllcientc. Para alcmçarmoo tal objetivo VlllliOS empreender moa leitura. dos textos de Frcnd c de Lacan. que seria recOITCIIle c a partir de moa aproximaç!o cronológica. Procuraremos situar, a todo o tempo, as difcrcuças de cada texto, os acréscimos. culim. a cvolaçllo viva do pCDllamcnto destes autores oobrc o terna proposto. Delcuzc4 (1968), a propósito da diferença. vom nos diGcr que:

8

"0 pensamento 'estabeleoe' a diferença, mas a diferença e o monstro.

N/Jo deve causar espanto oJato de que a dtferença pareça maldita, qu2 ela seja

a falia ou o pecado, afigura do Mal destinada à expiaç/Jo. O único pecado é 0

de fazer com que o fondo suba e dissolva a forma" (Deleuze, 1968, p. 65),

semelhança essa qU<, por hora,

constrdamos a respeito da diferença. Tal qual a diferença, como nos é aqui apresentada pelo olhllr de Deleuze. encontramos o imaginário humano a construir as suas intenninávc:is histórias sobre as muOJercs.

Elas sD.o. sempre. as portadoras de misterioso poder. deusas, bruxas, sedutoras, feiticeiras. corteslls.

Monstros, espanto, maldição, falta, pecado,

Engraçada

santas, prostitutas, hereges, virgens, etc. A lista poderia ser imensa. Silo inúmeros os modelos e representações das mulheres e do feminino no irnaginãrio social da humanidade. Quase sempre, se

procurannos olhar com olhos de quem quer, de fato ver. há mn fio condutor perpassando cada wna

destas conslruçlles: trata-se do sen caráter de esclusllo e/ou marginalizaçllo, em relação aos dominios da lei organizadora fálica. Acabamos por evidenciar uma situaçlo para as mufueres que muitos autores

supõem univmal e llansist4ica: sua condição de inferioridade e subordinaçllo aos dominios ffilicos

masculinos. bem como a sua estreita articulaçllo com os domlnios do doméstico. do privado e da.

oaturezBS. Muitos pensadores mais amais (inclusive Deleuze) vllo remeter essa "nilo-ordem", proposta e evidenciada na esfera do feminino c da feminilidade, à subjetividade pós-moderna. Vamos tentar entender qual t esse dominio da mulher, da feminilidade c do feminino: que ordens s!o estas, estilo articuladas a quais desejos e silo responsãveis pela produção de quais diferenças? Procuramos resgatar a diferença nllo apenas como o "monstro• mas como descoJJiinuidade na linearidade masculina de pensar,

como diversidade.

A nossa tentativa. ao nos descartarmos de uma abordagem exclusivista sobre a proposta teó-rica do

mooismo fálico, é a de resgatar um caminho de comprcensfto para a mulher c sua sesualidade, que esteja livre da SID"dez de certos preconceitos e envicsamcntos. Um caminho onde a diferença sesnal possa, afinal. vir a ser vivida sem diferença c bierar,;uizaçlo de direitos e de poderes. DevcreUXÓ (1982), em

sua obra "MW/Jer eMito "vem esclarecer ainda mais -este ponto:

9

necessário apenas deixar claro que a comtalaçtlo da uiJ'lidade das

diferenças nllo r'mplic:z a idéia de que a desigualdade dos dJ'reitos (

J

seja uma

fonte de criabvidt:uk culturai. Paradax:almente a tentativa de acomodar-se aos

membros de

um grupo quaiquer através de

uma

hierarquizaçtlo _ uma

desigualdade -de :;ew respedivos dü'€itos repousa em.,

•R"flltfJ I/Jâlâ t14

4/tvnllltlllt.

Nélo

u: pode

resolver

probU!rnas t7U2

essa

diversidade

(nece~JcJriae rUil) levanta por meio de um Wu"co "padrtlo de base'- o do homem

adulto, forte

e ~rdotado. Foi esta interpretaçtio

da

diversidade que

oa2Sionou a conoepçtio da mulher como um

'homem defeituoso' (castrado), da

criança como um homenzinho, um aniJo e assim por diante" (Devereux. 1982, p,

1O, negritos do próprio autor).

Pretendemos nlo ser mais IDD a reforçar a "negaçlío dtJ diversidade", que:, no nosso caso, está intimamente artieulada às consideraçües sobre a diferença proposta pelo m:o na mulher. Sob o prisma da signilkaçllo e da primazia fálicas, o dis<UI>o da psicanálise veio se organizar num sistema

infi•ri- coerente e a seu modo fechado, que delimita lugares e possibilidades extremamente complicados para as nudberes. Com alguma frequfucia (e teremos a oportuni<lade de verificá-lo posteriormente). a partir da posiçllo de mo moDismo. condiçGcs. aspectos. cmctcrlsôcas c situações que portenceriam à condiçlo humana em gCf1l1 ficam destinados ao lado propriamente feminino da m.Jétka sCJU91. Podemos supor que este fenômeno (designar como pecutiaridade da nudber aspectos mais genris do Citctuo "cardápio" btDDano de referendas e deixá-la sem ou com quase nenbtDDa defilliçfto senllo aquc:la de IDD papel em negativo e enigmático) se deve à necessidade de mluslo desta outra ordem, que:

na trilhagem deste vetor do falo permanece, de fato, ignorada ou rocalcada ProCW1IfCIDos -bém situar os motivos que estariam supOJtalldo este estado de coisas e passaremos pelos tiilbos do llt!seyo matemo,

ressilusndo-o a partir de uma rclaçlo parficulannente intensa, p~Ucirosa e dolorosa, -· filha e mie,

como aquele vetor primário poro a orimtaçllo da oomalldade de toda -·

Cremos que os questionarncrdos que: dirigimos à teoria psicanalftica reduudarlo em possibilidades

de respostas

que,

por

sua

vez.

vlo

ter

extrema

ressonllncia

dentro

mesmo

de

seu

escopo

!O

metapsicológico, bem como em ma oxperi!ncia fimdamcntal: a cHnica psicanolitica. o csp!UJ!o 6 dcstll disseriação vai procurn dcmonstrnr estll novo possibilidade.

Ao detlaganoos nossas incursões de leitura dos tatos de Fr<Ud que se referem mais especificamente às mulheres, algo como orna marca nos chamou. nitidamente, a atenção: wna ceria

tendcociosidade de wn olhar masculino para construir refer!ncias sobre os domlnios da mulher. Antes

deste ser wn defeito, ele relletc a marca da inevitável imersão, do pensador FreU<l, em seu lernpo e em ma história pessoal: como todos, Freud foi também. uma •tcstemunba de sua época•.

Roith 7 (1987) inicia seu livro "O Enigma de Freud" referiudo-se explicitamente a este aspecto. Vejamos como ela vem resumir este ponto:

"At

teon"as t:k

Freud sobre

as

rmdherea

m03traram-se

altamente

conlr0'11er3as de:sde os primeiros tempos da p3icanálise. Com ma insisUncia na

irw~.fa do pDnis como força motivadora cerúral do desenvolvimento e do caráter

da mulher. ele definiuafemiru"Jidade inteiramente em rel.açélo à masculinidade.

Comeqaentemente, ele via a

sexua/.idatk feminina

em

termos

de

wna

defict/Jncia,

n([o

lhe

ain"buindo

a3Sim

qualquer

valor

intrlmeco.

Frew:i

acreditava que, em rendtado dessa deficU1ncia. as mulheres tendiam a ter uma

de:waniagem inteLectual. e eram moralmente deficientes, invejoom e vd:!r. Eram

também mais passivas e masoqujsla3 que os homens, tinham impulsos sexuais

maJ'sfracos e menos aulo-estima. Ao mesmo tempo, erifaiimva o poder paterno

di!ntro do complexo de &hpo de uma mcmeira qUI! acabava por n2gligendar em

grande medida a iriflulna·a do pap2l da t1'lé1€ no de3envolvimento do be~ e da

cn·ançapequena". (Roith, 1981, p.ll)

Passaremos em revista cada um destes pontos apontados por Roith c mais alguns outros. para

entendcnnos bem, qual a posiçlo freudiana di- da questilo propo!illl pelas mulheres. Dcstllcamos que a intençlo ollo é, ceriamente, de busca da verdade de Freud. A nmltiplicidadc de aproximações de cada

11

proposta fita agravada pelo fato de que o olhar dirigido sobre cada mna, não é um olhar desinteressado

neutro, mas mn olhar marcado pela busca de tnmsfonnaçio.

O que nossos leitores poderio acompanhar a seguir é, pois, uma revisão teórica. c:m sucessão

cronológica, da abordagem na obn! de Freod (capitulo 2) c Lacan (capitulo 3), da questllo da nrulhcr. Começamos em Freud, pelos ptúnciros estudos sobre a histeria para culminarmos com as postulações 8 respeito da fcrninilídade c a sua rocusa em 'Análise Termindvel e Interminável' de 1937. Logo após,

passamos às nossas considerações criticas de nove pontos. reconhecidos nesse percurso de Frcud. que

apontam para alguma especificidade, singularidade neste campo discmsivo sobre a mulher. O segundo capitulo é todo ele dedicado a essa discussão.

Logo em seguida. no capitulo 3, teromos uma revisão tarnbtm recorrente e cronológica, do

percurso da questão da mulher na obra de Lacan. Fm seguida, empreendermos nos mesmos moldes, wn

rastreamento de cinco pontos criticos; pontos estes, também, demarcados como da singularidade pm a mulher.

Freud começa as suas postulações sobre a muD:Ier referindo-se, quase exclusivamente, aos seus

dotulnios como algo adjetivo, sem uma substancialidade ou mesmo uma concretude como a que ele dará ao final de sua obra com a conceituaçllo da 'feminilidade' (Welbllclrkelt). E Lacan parece prosseguir nesse assinalarnonto final de Frcud; as colocações lacanianas do 'impossível absoluto', do 'não-todo' submetimonto à lei fllica. do gozo soplcrnontar ou mesmo a negação do quantificador univoraal. quando de sua postulaçllo das fórmulas da scxuação, apontam para uma certa continuidade exploratória do

conceito de "feminilidade" em Freud.

No capitulo 4 faremos wna discussão c rcvislio a propósito do monismo fãlico. Neste capitulo

vamos demarcar dois aspectos que organizaram o debate sobre este ponto controverso da teoria:

12

1°) · considerações sobre o complexo de castraçilo e ;

zo) · considerações sobre a proposta dt uma fase fática para o desenvolvimento hõidinal.

No capitulo S desenvolvemos, com mais hberdade, nossa hipótese de trabalho a respeito do

de wn erotismo no feliiÍllillo

e de wna identidade saual feminina precoce, 'herdada' na feminilidade da mlie. Neste mesmo capitulo

emprc;cndcmos mn qucstionamcuto a respeito da difer-enciaçllo sexual e o amor dos começos na vida de

fimcionamento saual feminino: o desejo matemo pela filha como fimdante

homens mas e, principalmente, das mulheres.

Freud e Lacan. como nos referimos acima. apenas conseguiram relevar na relaçD.o da menina com

a mie o sen caráter de concorrência, decepção, ambivalência, vingança, rivll!idade e retllliaçRo. Talvez,

além dos aspectos que destacamos de prejudicial ênfase sobre Ulllll proposta monist., o caráter assustador, nitidamente bomossaual do prazer, ao qual remetemos a primária serualização feliiÍllilla (esta oUIIll !àceta da relaçllo com a mlle) tenha sido negligenciada Além disto. esta !àceta vai cumprir

tDil8 específica funçllo dentro do desejo matemo. Há ai. mun inicio bem precoce (e anslísaremos mais

detalhad8DICI1Io todos estes aspectos) mn piliZCf, com o corpo idêntico de mlie e filha, e um contentamento muito especial, por parte da mlie, jã que atnlVés desse contato o que podemos ver também resgatado P""' ela é o scn próprio COIJlO como um bebê, bem como IDII oull:o desejo fimdamental: ter mn filho de sua mlie como IDII desejo deslocado de retomo c fusRo com esta figura.

Antes de llmr!izlflmos traremos a nossa discussRo pm o campo da cHnica psicsnalitica (capitulo

6). Attavés de wna iaterpolaçlo teórú:o-cllnica vamos jnstilicar nossas considelllÇões e aponta! o potencial cxpticativo e de entendimento de nossa hipótese para o IJliÍVcrSo da neurose e do sotiimento

psíquico nas mulheres.

13

Na cooclusllo retomamos, de certa maneira. a importfincia que todos estes questionmnentos podem possuir para o contexto dos estudos sobre o tema da mulher. Resumidamente retomamos mna aproximação das considerações psicanaliticas com outros tipos de afirmações. que cootcxtuslizam esse wüvcrso feminino, também como único c; singular. Iniciemos, cntlo, o nosso pçrcurso.

14

CAPíTULO I

"WBIBLICH", "IVBIBLICHKBIT" e "IVBIBLICHB SBXUALITÃT": 1U111Z

neceBIJiirta dlsllnçllo C01ICi!ltwlpreliminar.

" o

sentido de wna palavra 4 o resultado dos usos~ sttofeitos dela"

(Lond.M.O.P.,l990~

!S

Vamos iniciar nosso percurso pela questão da mulher separando, fszendo di<linções de conccftos e propondo alguns esclarecimentos, com o inluito de impedir que certas confusões tenninológicas tlm!bém dificultem nosso progresso dentro da questão da mulher na psicanálise. A distinção que nos propomos fazer agora é ao nosso ver, extremamente necessária e importmtc:. Trata~se de mna sutileza teórico- conceitual que muito nos auxiliará em considerações posteriores, bem como vai nos situar fora dmna arnbigllidade de termos que, às vezes, vem tnmsformar o discurso da psicmálise sobre a mulher era mn

tema da psicmálise mmnarnente confuso, equivocado. Aeredftamos, que a partir de tres distinções

wejb/icbe

conceituais, a saber: "weiblich" ou "Feminino", • Fffiblichkeit" ou "Feminilidade'" e

SfXIIIIÜtaf' ou 'Sexualidade Ferainina'; será possivel estabelecer considerações mufto mais consistentos

e coerentes a respofto do nosso presente tema de estudo - a mulher para o discurso psicanaHtico c a nossa busca de LDD cmiter positivo e singular pn estes domínios.

Faz-se necessário, contudo, antes de passarmos propriamente à referida distinçllo, untccipar qual é a nossa referência, aqui. sobre o estatuto da "pulsao de Morto". E isto, porque foi a partir de seu eixo, da

mudança freudiana da primeira t.oria das pulsões (autoconsorvaçllo c sCIUais) para a segundo (vida e mor!<), balizada pela proposta da pulsllo de Morto, quo a distinçllo protondida vai fazer algum sentido.

Entenderemos, pois, a referida pulsllo, precisamcote, no sentido que Freud veio a utiJiz:sr em 1920, em

SçU texto "MQis Além do Principio de Prazer'. A evidência de algo da ordem 00 mna 'compulsilo à repctiçllo' no psiquismo, vai levar Freod. a perceber neste mesmo psiquismo um "mais além" da dominfincia do prindpio do Prazer, mas com elelll8lllcndo moa rclaçllo estreita, algo que ele chegarà att a considerar, como primário, era rclaçllo à pulsllo de Vida. Freud nos diz que:

'"A tendnncia dominante da vüia mental e. talvez. da vida nervosa em

geral. I

11 'Pfll ,

16IIIAII ,_,

4ftttlih,

rlbt/1', 1t11fJ IIUIIIM, eM"'II"* .- ,

,.

ltlllllt'P•" 4

,

,,

&v (o 'principio

de Nirvana~ para tomar de

empréstimo uma expressélo de Barbara Low [1920. 73}) tendiJncia que encontra

expressao no pnndpio de prazer, e o reconhecimento desse falo constitui uma

de nossas mais fortes raztJes para acreditar na exislincia doo instintos de

morte'" (Freud. 1920, p. 76, negritos nosaol!l).

16

Flwd procmou articular. essa tendência a "restaurnr um estado anterior de coisas", às duas classes

de pulsões. vida e morte:; de foiiDa que no psiquismo o "esforço mais ./iutdamental de toda suhstdncia

viva: (seria) o retorno à qutesclncia do mundo inorgdnico" (Ibid,. p. 83). De maneira muito especifica, Frcud ainda vem delimitar:

"Outro falo notável é que os insb.nlos de vida Mm muito mais contato com

nossa percepçllo interna, surgindo como rompedores da paz e constantemente

produz.indo tens(Jes CUJo a11vio é senlido como praur, ao passo que .v JmtJ.ã:rt

E é desta maiiCÍnl, quo a partir da introdução deste novo modelo no entendimento freudiano,

vamos poder observar uma verdadeira revoluçll.o nos conceitos c nas proposições psicmnalíticas

anteriores c uma grande inlluêru:ia nos conceitos quo serão propostas depois. E as distinções, para nós

fundamcnlais, quo pro<11111illoS neste capítulo estabelecer, se respalda inteiramente nesta rcvir.tvolta. É

somente a partir dala quo vmas outras áreas de quostionamentos (nllo apenns os dominios das

considerações ftcudianas sobtc o feminino, a feminilidade c a sCXUlllidade feminina) dentro da teoria,

bem como da cHnica, vão poder ser melhor situadas c compreendidas.

Entendemos a postnlaçllo fi'cudiana da pulsão de Morto, como fundantc de nma forma mnito

peculiar c cspcdfica de Frcud pensar o humano. Uma forma de pensar, quo longo de ser pessimista, é

votada para sua essincla como da ordem do conflito, e neste conflito evidenciamos • tentativa

insuperável de busca do prnzer, entendido como aHvio de tensão. E nesse scnlido podemos pousar,

então, quo a pulsllo é, por cxcciincla. "pulslo de Morto•.

Para estabelecermos a distinção quo nos interessa. recorremos ao próprio texto frcndiano original.

em 11ngua aleml. Como é de dominio púb6co, as moitas mduções empreendidas da obro de Frcud,

possuem, cada nma suas próprias falbas; e a nossa mdução para o portugu!s (provcnicntc da mduçilo

do texto em alcrnlo para a llngua inglesa), talvez seja, a mais dcficitá!ia de todns. Ternos todos os

17

problemas da tradução do alemão p11111 o ingl!s acrescidos das muitas outras dificuldades p11111 a vers~o

do mesmo texto em Hngua portuguesa. São clâssicas as diforenças jã evidenciadas, entre elas a tradução de Trleb para 'instinto', Verdr4nglmg para 'repressão' c vários outros problemas. A nossa tradução para o po!1Ugtlas está. pois, nruito comprometida. Este fato vem dificultar, para o leitor apenas em portuguôs, a compreensio da nuance conceitual que destacaremos a seguir. Por este motivo recorremos à fonte no

alemão, que o nosso trabsDlo na busca de significados mais precisos para os conceitos que nos interessam mais de perto. poderia também estar comprometido se não retomássemos à fonte original. Contudo vale dizer, de antemão, que nosso conbecimcnto da Hngua alemã é ainda precário.

Os artigos dos quais nos utilizamos para empreender a análise que se segue foram:

• "Os Tr!s Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade" (1905);

• "Fantasias llistéricas e sua Relação com a Bissexualidade" (1908);

• "Sobre as Teorias Sexuais das Crianças" (1908);

• "O Tema dos Tr!s Escrlnios" (1913);

• "Sobre o Narcisismo: IDD8 Introduçlo" (1914);

• "O Talm da Vudndade" (1918);

• "0 Estranho" (1919);

• "Psicog!nese de mn Caso de HomossC11181ismo nmna mulher" (1920);

• •A OfEar!izBçlo Genital Infaolil: IDD8!Dieipolaçlo na Teoria da SO>Illllidade" (1923);

• •A Dlssoluçlo do Complexo

de Édipo" (1924);

. •o Problema Econômico do Masoquismo" (1924);

. •Algumas Consequ!ncias Psíquicas da DisHnçllo Aoat6mica entre os Sexos" (1925);

18

• "Soxualidadc Feminina" (1931);

• "Cooforencla XXXIII • Feminilidade" (1933);

• "Análise TOJIDinávol e Intenninávol" (1937).

Acreditamos que Freud tcnba olaborndo e se utilizado da distinçilo que por bom estamos tenllmdo relovsr ao longo das proposições toóricas destos vários textos. Do inicio de sua obra até os anos de 1919/1920, o toooo, a palavrn, que Freud vai ulilizllr para nomear os designios da parto feminina em sua

toorizaçilo sobre a subjetividade humana é precisamente "wei!JIIch", que é traduzido, do alcmilo para o portuguSs, como o adjetivo "feminino". Importa~nos ressaltar que encontnunos wna única c:xcc:çiio n esta 'regra' (sobre a qual faremos algumas coosideraçilcs a seguir). Referir-se aos domlnios da mulher como adjetivo vai ser a 'escolha' de Fremi. até aproximadamente o momento em que as suas fomrulaçõc:s sofi:crilo a reviravolla toórica na postulaçllo da "pulsllo de Morte". Até este primciro momento. ou seja.

duranto todo o periodo compreendido pela primcirn tooria pulsional, Froud apenas se refere l!jjctivamente ao lugar feminino. Fle também utiliza este adjetivo Haionado em ontru declinações. como por exemplo: "wei!JIIchen" ou apenas •.,efbllclut'; c além dirto, esta palavrn virá quosc sempre (ou com extrema fi:equ!ncia) precedida ou sucedida de seu correlato oposto, qual soja: "m4n1BIIch". Esse par antitético. "m4nnllch" c "wei!JIIch"r11lfliJ'CJIIIno" c "femlntno"· virá compor o eixo sobre o qual se orpnizario as considerações fi:cudiaoas, nlo apenas a respeito das vicissitudes da soxualidadc mascnlioa como, e sobretudo, da soxualidade feminina.

É necessário também apontmmos para mo outro aspecto. Como veremos mais adianto, no capitulo que trata do pcrCUISo de Freud sobre a sexualidade feminina, ele vai nos apontar trts destinos da sClllalidadc nas mulheres; o último deles é (ele mesmo vai afumá-lo) a "f<mioilidade". Encoutrarnos aqui

mais mo motivo que nos io1luenciou a pensar na importinda de certas distinções conccilnais; aqui também é necessário compreender, que o conceito em questllo • "WeibJit:hkett' apesar de estar intimarnenb: correlacionado a esta "feminilidade" a qual so refere Froud. nlo se idonlifica com este destino feminino; ambos os conceitos ollo slo, pois, onlidades idêolicas. Esta "f<mioilidade" como destino se refere aponas a algo da ordem de moa salda posslvd. "normal" e "final", para a sexualidade

19

das mulheres. Teremos oportunidade, posteriormente, de voltar nossa atenção para este ponto. Parece-

nos, no mfnimo curioso. const&tar que Freud uülizou os mesmos tennos para se referir a posições bastante difcm~tes. Mas neste primeiro capitulo vamos voltar mais nossa atenção à consideração da

"feminilidade"como exclusão, c não como mo destino final para a sexualidade da mulher.

Fnfim. o conceito, subilaoâvado. sobre o qual trataremos aqui refere-se à "feminilidade" na esfera psíquica tanto das mulheres quanto dos homens; e a outra "feminilidade" se refere exclusivamente aos

destinos e vicissitudes da sexualidade de mulheres. Pensamos, no entanto, que algt.UIIas correlações podem e devem ser feitas entre as duas.

A exceçilo, à qual havíamos nos referido, wn pouco mais acima, encontrn-sc no texto 'Três

Ensaios sobre a Teoria da Sexwdidade", de 1905. No segundo ensaio ("A Sexualidade Irifantll", p. 228), quando Frcud começa a introduzir lW!a novidade/distinção entre a sexualidade masculina e feminina que é, propriamente, a necessidade para as meninas de mudança de zona erógena (da atividade clitoridiana à passividade vaginal), Freud vai utilizar o termo "Welbllchkelf' c não "wdbllch". O texto

original, em alemllo c a sua tradução (ESB, Imago, 1975) para o português silo os seguintes:

H Diese Bedm.gungen hdngen also mudem Wesen der WeibJiçh}çeit mnigst z:usammen"

(Vifos nossos).

"Estas determinantes portanto esttio intimamente relacionadas com a ess~ncia da

remtmlidg.de".

Logo após estas considerações, lWlO nota de pé de pàgina. datada de ll!1JI. onde Freud. como é conmm em todo o restante do artigo retoma novos avanços nas especulações psicanaHticas, fazendo corrcç5es e acr6scimos. Os adendos deste de pAgina nos remetem ao artigo de 1920, "A Psicog~nese de wn caso de Homossexualismo numa Mu1her", que ao nosso ver foi o prb:neiro momento onde Freud se utilizou realmente do substantivo "Welbllchkeit", e, principalmente no sentido diferencial que

tentamos apontar a~ remete-nos também aos artigos de 1925 - "Aigwnas consequ!ncias PsJquicas da

20

Distinção AnaJ6mica entre os Sexos"; de 1931 • "Sexualidade Feminina" c à conferencia de 1933. É

nossa hipótese, que o ICI1Ilo "Welbllchkelt' ni!o pertencia ao texto original de 1905, tondo sido acrmentado apenas em 1920, quando da inclusllo do referido pé de página.

As traduções da obra de Froud, para o português, especificamente destes artigos mencionados,

utiti.zant.sc indiscriminadamente dos teJmos "feminino" c "feminilidade".

Várias vezes

observamos

traduzir-se "wefb/lch" por "feminilidade", como por exemplo no próprio artigo de 1905:

"Aposiçtlo, no caso das mulheres, e menos ambi.gua, po1s entre elas, a.:>

invertidas aiivas

exibem

caracteri:JUcas

masc:.dinas,

tanto jlsü;as

quanto

ps/.quioos, com singular frequi}náa, e procuram, em seus objetos sexuais, Q.

fomim{iclarJg

-

conquanto,

também

neste

IXJ.SO,

wn

conhecimento

mais

aprofundado dos fatos possa revelar maior variedade." ("Três Ensaios Sobre a

Teoria da s.:xualidade", p. 146, grifas nossos).

No original em alemlo temos o seguiu/<:

"Eindeubger sind die Verhdl.tnisse beim Weibe, wo die aktiv hvertierten

besonders hduflg :somatische und seeli~ Charai:tere cks Mannes an sich

tragen und das wetbliche von ihrem SexuaJobjekl verlangen, wiewohl auch ffler

sich bei ndherer KBnntnis grdssere lJuntheit heraisstellen dilrfe." (grifo nosso)

É interessante llllnbtm notar que o substantivo •M4nn/lchkeil' aparece desde os inicios das

considerações de Fltlld A "masculinidade" é, desde o começo, nm tenno hlrgmnente utilizado na obra

freudiana; termo este, que virá definir e o!Jl'llizar nllo apenas a sexualidade propri8111ente masculirnJ. mas (e tal coosideraçllo é-nos de grande relevância, como constataremos posterionnente) llllnbtm •

sentalidade feminina. A Utulo de exemplo citamos, sinda no artigo de 1905:

" Nao

pode haver dúvida de que uma gramk parte dos invertidos

masculinos conserva a qualidcu:k menial da mascultnidade. que eles possuem

relaltvamente poucos caraderes secum:lários do sexo oposto e que o que

21

realmente procuram em seu objeto sexual sélo traços mentais femininos"( Ibid,

p. 145, grifo nosso).

As palavras usadas, no alemlo nesta parte, slo "Charokter der Mli!1n!ichkeit". Vamos dar ainda

mais

mn exemplo.

agora

do

texto

de

1908

("Fantasias

Histéricas

e

sua

Relaçllo

com a

Homass<XU41idade"),

onde

Freud

aborda

o

"feminino"

(adjetivação)

e

nllo

a

"feminilidade"

(substanlivaçfto).

" Os

sintomas histéncos sao a expressr!lo, por um lado, de uma fantasia

sexual inconsciente masculina e, por outro lado, de wna femim'na" (Ibid, p.168,

grifo nosso).

No alemfto temos:

"

Ein

hysterisches

Sympton

ist

der

.Ausdnu:k

einerseits

einer

m4nnlfcben. anderseit: einer weiblichen unbewussten sexu2lkn Phantaste" (p.

194).

Vai s« apenas no texto de 1920 • "A Psicoglnese de um Caso de Homossexu.alidade numa

Mu/het" que Freud sul>stanlivará o conceito de "feminino". Será neste artigo, após haver escrito "O Estranho" c "Mais Além do Principio tkJ Prazer~ onde bilha as considerações sobro a pulsao de Morte,

que ele se u1iliza do sentido conceitual c diferencial que vmnos propor a respeito da "feminilidade".

No artigo sobre a homosscmalidade feminina. que Freud nl!o CipÜcita, mas trata-se do Coso

Dora, ele, Fret1<l. nl!o vai se referir a "ttelblldl" mas a "Welbllchkelt'. Enfim, ao nosso ver, estes

tcnnos em alcmfto c seus correspondentes em portugues • "feminino" e "feminilidade" • englobam ordens

de conceito bastante distintas. Fcmioino e mascu6no • "lfi!lbJJch" e "mlbuúJch" - como procuramos cnlcnde-los em Frcnd, nfto se superam, nl!o se himlrQUizam. ambos coexistem como estruturantes da dial4tica sgnal do bJgnano, Desta maneira. salientamos,. que "masculino" oito se equipara ao substantivo

"homem" ou "menino", assim como o "feminino" oito se superp6ci à "znuJher" e/ou "menina". O que

procuramos enfatizar nlo se cncoob"a muito distante daquilo que Freud procw:ou nomear pelo tenDo

22

lrissomolidade. Fle mesmo vai enfutizar este aspecto, mas, por vezes. lllgumas apticações 0

sofisticações posteriores vieram confundir-nos. Citemos a titulo de exemplo a sua correspond&!cia com

F1iess:

"Bfssexu.alidade.l No que diz respeito a ela, certamente tens raztlo.

1-hbituo-me também a considerar cada ato sexual como um acontecimento

lmpliavul.o !)llllciMtpessoas" (Freud!Flieas, agosto de 1899).

E assim, podemos supor c existência conceitual de mn "feminino" c wn "masculino", tanto nos

homens quanto nas mulheres, é a esses quatro termos que se refere Frcud na citaçio acima. Ambos,

homens e mulheres em sua caminhada nnno à subjetivaçllo estllo submetidos à Lei do simb61i<o. Uma

lei que vai compor/organizar a ordem do humano e que ao lilzê-lo termina por descenlnllizBr e dividir, ao

mesmo tempo que vai transfonnar o 'encontro' entre mulheres c homens em algo praticmnentc

imposslvel Voltaremos a esse ponto posteriormente. Na Conferência de 1933 - "Feminilidade" - Frcud

retoma a sua postulação de mo caráter bissBUal para o htunano. Vejamos suas colocaç6cs neste

momento:

.flubmçêk1 mJJilo ampku" (Freud, 1933, p. 141, p

do próprio lll.ll:or).

Acreditamos ainda, quo subjacente à dificuldade de sep8111( e compreender conceitulllmentc a

diferença, que como constatamos, eDste entre masculino e feminino, está uma outrn (m)distinçllo. Dcsla

vez. nma (m)distinçlo entre o qnc é o iiqio - plnls - e seu úmbolo - o falo. Essa indifcrenciaçlo

costuma levar a confusGes c disscnç.6es absolutamente dcsnecessmas. e às vezes graves. dentro da

psicanálise. Frend vai colocar csla distinção muito claramente, qmmdo diferenciará a organização gcnitlll

inl1m1il da organizaçllo geoitld adulta. E isto será feito no artigo "A organi%aç/l'o Genital I>ifanttl", de

1923:

23

"A aprc«imaçao da vida sexual da criança à do adulto vai muito além e

nd'o se limita unicamente ao surgimento da escolha de wn objeto. Mesmo ntio se

realizando uma combinaçc1o adequada dos instintos parciais sob a prima%ia

dos órgélos genitais, no au&e do curso de desenvolvimento da sexualidade

fnjanti'l, o tnteresse nos genitats e em sua atividade adquire uma stgnificaçao

dominante, que estd pouco aquém da a!c:znçada na maturidade. Ao m€Smo

tempo, a característica principal dessa

'organsl:açtlo genital tnfantfi' é sua

dlferença da organiz:açao genital final do adulto. BltJ e"*"* ., ftdo M, 1'fUU

,_•

~,

,.••

e~"".,-,

6,.atl ge~.,. srlf}ti, "

~- O quR está presente, portanto, Mo é uma primazia dO!: órgOos

genitais, mas- ,n.u.r/lltltljilltl' (Freud, 1923, p.l BO, negritos nossos).

Nesta passagem. o que Freud vem considerar é a sua hipótese de, nas clllpas pré-edipianas. a sgmdjdadc lmmana (tanto do menino quanto da menina) ser prirmuimnmtt! masçuJína. ou seja. fãlica.

Esta é Ulllll eoosidcraçlo que famnos questllo de retomar posteriormente quando formos nos referir à conccituaçlo de "sexualidade feminina" c mesmo quando fonnos fazer nossa revislo detalhada sobre as propostas de Freud a respeito da smJlllidade nas mulheres. Abriremos wn capitulo especial para discutir esse ponto (cap. 4). É a este aspeete da sua teoria sobre a smJlllidade, que Freud daró o nome de 'primazia do falo' ou como designamos no presente trabalho de teoria do 'mouismo sgual fálko'. A este aspecto especial faremos ainda muitos comentários c obsCIVllÇ6cs nos cap!tulos que se seguirilo.

Acompanhando, ontllo, esta linha de raciodoio da proposta de clris!Bncia para o psiquismo

bwnano de Ulllll prevalencia do falo (teoria do mODismo sClual fálico), Freud concluirá que na oq:anizaçlo pré-gcniW. a antitesc dominante é, entre ativo c passivo, c wn pouco posteriormente, entre fático e castrado. E será assim qw; o veremos destacar ser "somente tJPÓS o deunvolvtmento haver

atingido o seu 'ompletamento, na puberdade, que a polaridade sexual coincide com masculino e

24

É desta IDllllcira que podemos compreender o 'feminino". dentro desta lógica do moDismo scXIIlll

fiílico, como corrc:spondente ao castrado. Ele compõe o par ffilico/castrndo. que, por sua vez,. é 0

responsável por wna das fonnas de organização psíquica de todo conteúdo sexual. O feminino aqui

definido, não se encontra nwn "além" da ordem sbnbólica. mas é nitid81Ilente uma de suas duas formas

de omsnização: a presença de UI® ausência. Na teorta do moDismo sexual fãlico -hipótese freudiana por excelência· o falo possui suas duas formos de manifestação:

I) presença • fálico • masculino;

2) ausência • castrado • feminino.

Nestes dois teiUIOS: masculino e feminino. é que se organiza a semalidade,. mna sexualidade

nascida sobre nm psiquismo clivado, onde os dois pólos silo, ambos, portes inequivocas do conllito humano. A nossa semalidade apresenta-se eminentemente conflitual, problemática. vem sofrer de um "desarranjo constitutivo", onde, após a constalaçllo da diferenciaçllo sexual e a entrada nos desafios do

vivência cdipica. masculino e feminino se organizam. Esta é, pois. a última oposiç!o; wna oposição que

tem como funç\\o, nos remeter ao percurso edipíco, dentro de um registro que não se apresenta como exclusivamente biológico c anatômico, inas marcado pela emergência das leis do social c da cultura.

Para buscar esclarecer melbor. quanto o conceito de feminino em Frcud. oAo vai se referir apenas

à mulher. bnscamos a noç8o <lo •muoqubmo r

,mlno"

do próprio Frcnd. Em 1933. Frend dizia:

".A su.pre:rsao

da agressividade das mulheres que lhes

é

tnslituida

da agressividade das mulheres que lhes é tnslituida &6 ,-,.,. , ,. que conse~m. conforme sabemos

&6

,-,.,.

,

,.

que conse~m. conforme sabemos ligar

eroUcamenfe as teru::Wncias ckstrutftas que foram desviadas para dentro.

zs

Asstm, o masoquismo, como dizem as pes:;O<U, é verdadeiramente feminino"

(Freud. 1933,p. 143/144,negritosnossos).

Uma tendlocia que é considerada como

inescapável do psiquismo • o masoquismo • nllo é wna c11111cterlstica da mulher, mas do fc:minino; este

OU seja. o fc:minino nllo se supctp!!e

à lDlllhor.

sim. presente em todo psiquismo~seja ele de mn homem ou mesmo tk mna mulher. Se. por acaso. as mulheres apresentam-se como mais masoquistas que os homens, Freud deixará bem claro o motivo:

lnlta-sc de algo que "lhes é imposto socialmente", nlo se trata da mulher, se a mulher vai se tomar mais masoquista, sorà por conta de nm fator externo. É o feminino, este sim intomo, tanto em homens quanto

oro mulhores, que é privilegiadomente masoquista Há, neste ponto, =• dislinçllo bastante clara dos tmnos.

Sabemos. no entanto, que a incorreta compreensão da teoria do moDismo sexual fático, aliada a IDDa supeJVll!orizaçllo sócio/cultural temerosa e questionável das caracrerlstícas da sexualidade masculíoa oro dclrimento da sexualidade fc:minina. tbo sido c!lllSa de encobrimento c distaocíamcnlo dos fatos c da realidade pré.gonílaís c inclusive gonílaís de IDOa sexualidade vívida no feminino. Esre é, para nós wn ponto fundamental. E ê para tentar organizar, elucidando melhor esses dominios, que empreendemos todo o nosso percurso. Passemos, pois, à anãlisc: do conceito de "feminilidade".

O subsllmlívo "Welb/lcllkeJf', como já apontamos em outro momento a titulo de hipótese, S1JJtiu, na obra de Freod, apenas a partir dos anos 20. Cmnos, como aJinnomos anteriormente, qne tal fato se

deveu à estreita relaçllo que vamos constatar elistír entre o referido conceito freudiano e as suas

postulaçUcs a respeílo da pulslo de Morte. Esta articnlaçlo ollo é fortuita. ambos os conceitos surgiram justamente no mesmo perlodo. E isto. porque, de alguma nnmeinl. tbo wna relllçlo, algo em co10100. Este tenoo fez soa apariçlo na obra. polll primeim vez. na seguinte passagorn do ano de 1920:

" '!Ornou-se

projündamente cOmeta do desejo de possuir um filho, um

filho homem; ~eu desejo de ter um filho de seu pai e uma imagem dele, na

conscilncta ela ndo podia reconhecer, Que :sucedeu depois? Mio for" ela quem

26

teve o filho, mas sua rival incomcientemente odiada, a mfte. Furiosamente

ressentida e amargurada, qfastou-se completamente do pai e dos homens.

PCZ$sado esse primeiro grande revés, abjurou sua

feminilidade e procurou

outro objetivo para sua libido" (Freud. 1920, p. 196, grifo nosso).

Aqui Freud se refere a 11111a mbstantivat;io dos domiDios do "feminino" como algo da ordem

do 'abjurado', do negado e/ou recusado como vicissitude da libido. Em 1931 - Confcr!ocia xxxm:

Feminilidade - esta vem emergir no estatuto de 'ml;ma', wna condiçllo que à psicanálise fuz desafio. Em 1937, em seu artigo "Andlise TennináYeJ e Análise lnlerminável". Frcud terá a preocupação de

definir wn aspecto ou c3111cterlstica muito especifico tanto de homens quanto das mulheres, diante do

"rochedo da castração"; a fmúnDidade. Ele vem postular como desta ordem de coisas. a "inveja do penis" nas mulheres e a "luta contra uma alitude passiva ou feminina dianle dos homens" nos mesmos

homens.

Freud aglutina estes dois

fenômenos

naquilo

que

ele

reafirma possuir tun

caráter

de

impossibilidade: o repúdio da r

,lnUidado

Ç4bk!hnung der We/bllchAeJi), c coloca-o como o ponto

final. o 'umbigo' de toda anális~ Nas palavras de FreU<I:

" penso

que, desde o ini.cio, 'repíviio da feminiüdade' ten·a sido a

descn·çtlo correta dessa notável caracter!sliaz da vida pslquica dos seres

humano•" (Freud, 1937, p.285/286).

Ainda no mesmo texto. referindo-se a Fere~ quando este estmia afirmando que o sucesso de

toda análise ó a supmçllo desses dois momentos - • inveja do peois c a a1itudc passiva ou feminina -

Freud continua:

"No artigo lido por ele {Ferenczt) em 1927, tramjormou num requisito

f/U2• em toda análise bem sucedida,. esses dojs complexos estivessem sido

dominados.

(Jostan·a

de

acrescentar

que,

falando

por

minha

própria

expertincia, acho que quanto a isso Fereruzi estava pedindo muito" (Ibid.

p.286).

21

"0 repUdio da feminilidade pode ser nada mais do que um fato biológico,

uma parte do grande enigma do

sexo. Seria

diflcil dizer se e quando

consegw·mos Dxito em dominar esse fator num tratamento anatWco" (Ibid, p.

281).

Em 'Análise Tonninável e Interminável', o sentido que esta paliiVIll Vlli adquirir é muito

especifico. Essa "femfnDidade" é aquilo que no psiquismo, tanto de homens quanto de mulheres,

l!Pi!Dia para um 'mais além' das dualidades 119 psiqyismo; sejam elas entre, ativo c passivo. masculino c

feminino ou outra qualquer. Começa mos a perceber aqui a articulação com a pulsiio de Morte. A "feminilidade", como Frcud parece a conceber, refere-se a wna tentativa hmnana de

elaboraçllo/mctabolizaçllo do excesso e da continuida-de dessa referida pulsão. Este conceito teria lDI1

estatuto semelhante à 'compulsão à repetição', à 'pulsão de agrcssividade' ou de 'dcstrutividade' '· Todas estas referências são tcutativas de elaboração da "pulslio de Morte', sno fenômenos que remontam à tootativa do psiquismo de elaboração, via processo de simbolização, desse dondnio das

intensidades pura.s, que Freud. desde os idos de 1919120, começou a teorizar. Desta maneira. os dondnios da feminilidade apontam para uma outra ordem. que por sua vez, escapa aos contornos e lindtos impostos pela ordem simbólica e Vlli se referir a uma tentativa do continll8f a funcionar a pa!1ir do çampo do pl1111lll0nto pulsjon!!l. da ruds39 do Mort;.

É desta IJllllldra que Freud. a algo de não coi',IIOscivel c não accssivel presento no psiquismo, vem designar a "feminilidade" e sua recusa. Talvez aqui. compreendamos melhor. como o feminino/castrado. por sua vez. pode nos remem a uma fulta no regislro simbótico; e a feminilidade bem como a sua recusa inserem-se numa outra falta, em outra ordem, mais originária. anterior mesmo à constiluiçlo de homens

c mulheres em sujeitos submetidos a uma inst&icia fálicalegisladors o organizadora.

A ICndnilidade, esta sim. cumpre a missão de apontar para um Pl1lis além do sOXUJI. ela é a marta de uma posição idcntilicatória impossivel. llmto pl1111 homens quanto para mulheres. Essa ordem da feminilidade implica numa aptidllo para a renúncia. naquilo que muito propriamente Freud veio desi!)lllf por 'repúdio' e compreende uma parte de luto 2. Esta feminilidade estaria, também, intimam- relacionada à "mie inicial" ou como nos referimos a ela nos últimos capitulos da dissertação: a mítc: do

28

"amor dos começos". No capitulo 5 lralllremos desta articulaçfto. Podemos considerar a recusa/repúdio

da fi3Dinilidadc: como wna marca dessa atraçlJ.o irresistivel c durável à "m!le dos começos": este primeiro

momento é da ordem de uma situação. que por seu perigo eminente de morte à cstruturaçllo do psiquismo, vai necessitar também de alguma elaboração. Posteriormente, quando tratarmos da relação da

mulher com a diferenciação sexual e o inconsciente:, tendo como objetivo o resgate para a mesma de algo que Dle seja absolutamente singular, teremos oportunidade de colocarmos mais algumas "luzes" 8 estas nossas rápidas considerações.

Podemos concluir, apontando, que o saber sobre a feminilidade é, da ordem de um saber em ctcmo "vir a ser", mn saber em busca de um objeto que não cessa de se esquivar. Entllo, teriamos, na própria obra de Freud apontada uma distinçfto entro o "feminino" c a "feminilidade". Tentemos wna rápida sintcse:

"welbllch" ou "femliJ/no" se organiza dcotro da ordem do sexual. do sexuada, sendo o mesmo

uma das duas formas de manifcstaçfto da instincia ffilica: a ordem da castraçllo, da mJSência ou mesmo

da presença de uma aus8ncia O feminino encontra-se intrinsicamcnte ligado à organização do registro

simbólico, enquanto referente à falta fimdaotc deste úl1imo. É em tomo desse feminino, que é ful!l!. que o simbólico vem se estrutunB'. Além de estsbclcccr este: ponto de 811Coragçm parn o simbólico, o feminino aponta p11111 uma posiçllo identificatória possível uma posiçllo, como já enfulizamos, marcada

por uma certa demanda do falo;

• • Welbilclrkdt" ou "femlnlll4lule" nos aponta para algo além da ordem do sexual, refcreutc ao campo das intensidades puras, constantem- continuas da insist- pulsllo de Morte. É em tomo da tentativa de claboraç!o desse 11 impossivel", que o inconsciente: virá se estruturar. Esse ,.impossível" refere·•• à própria inacessibilidade de se alcançar este objeto que vcnba completar a falta no sujeito. se refere-se, também, à c:Dstência de Das Ding no próprio interior do psiquismo, como Freud vem apontar desde "O Projeto" em 1895 e Lacan vai, posteriormente, retomar. É sobre o seu enigma que este sistema

29

se organiza. apontando mesmo p8I11 um 1jmjt; da cs!Iutqrn c dc qualquer possibilidade dc conhccimcnto

a respeito dcissa estrutura. Silo limites que possuem mn canitcr incogoosclvcl. inaccssivcl, mas que ao mcsmo tempo, insistcm cm sc filzcr aprcscntar. Incapaz dc rctomar na ordcm llimbótica. scri dc alguma

maneira opemdo atnwés dos mecanismos da rcpctiçlo c da dcstrutivldadc, <Vfdcndados por Ftcud nos

conhecidos fenômenos: rcaçlo terapeutica negativa, sonhos traumáticos e brincadeira do • Forl·Da".

Esse rctorno vem tniZer PIIIll o psiquismo a inescapãvcl marca da violSncia. As conlll'buiçõcs dc Frcud,

ao lidar exatamente com estes fenômenos, estio muito bem delineadas no tGxto, por nós tantas vezes

mencionado. de rtMais Além do Principio dt Prazer".

Desse modo. mcontrnmos estes dois tcnnos operando incessantemente sobre o psiquismo

hmnano,

atnwés

do

cstabclccimcnto

daquilo

limci9111111101l1o do acolllmr ps!QliÍco.

que

pretendamos

dc6nir como duas

lóticas

de

I)

a!IJ&i<a da foHa • que seria a marca distintiva do •fomlnlnolweibltch";

2)

aló;ica do m

,o

·uma marca definidora da "ftmlnllidade!Welbllchl<elf'.

O primeiro teimo ~ o feminino • pode ser considendo como wn estado em si. mn modo de referência sexuado ligado necessariamente à instância fática. tanto da subjetividade das mulheres quanto

dos homens; e o segundo • a feminilidade - é apenas \Wla v.irtuatidade, uma outra ordem, mn estado

sempre negado. precário, efemc:ro e nunca inteiramente atingivel

Julgamos importante. ainda, apontar que "feminino" e "feminilidade", tennos constituintes da

dialética de todo ser humano (Rcpresentaçllo X Pulsllo), estilo sempre referidos na psicanálise: ou a mn

espaço dc FALTA (no caso do Feminino), o que nos reporta à dialética do 'ser' e 'ter' em referSncia ao

significante fálico; ou a uma dimensllo de pura NEGATIVIDADE (no caso da Feminilidade), enquanto

privação mesmo, limite para a análise, mn ponto de impossibilidade na estrutura. A este ponto também retomm-emos: num momento posterior.

30

Passemos agora às considerações a respeito da "semalidade fanbrina", este é um conceito

simples,

possui. entre os autores, maior clareza e consenso. A sexualidade feminina se refere àqueles

aspectos, especificamente, que caracterizam uma sexualidade hwnana vivida no feminino. Ou seja. trata~

se do conceito de 'sCJ<Ulllidade' como ele é compreendido pela psicanálise, mas desta vez conjugada no

feminino e delimitado para as nrulhcrcs. Este conceito cwnpre o papel de delinear os contornos daquilo que, a propósito da sexualidade na psicanálise, seria apenas especifico das vivências na esfera dos domfnios da nrulher. Estes silo pontos que julgamos relevante colocar em evidéncia. no capitulo

primeiro, pois, sobre eles elaboraremos vários questionamentos além de partir dos mesmos para refletir

sobre aquilo que tentamos resgatar como sendo de lllllll POSITNIDADE no erotismo feminino.

Dois artigos silo centrais para a abordagem desse aspecto da nossa problemática: o artigo 'SCJ<Ulllidade Feminina' de 1931 e a Conferência de 1933, Feminilidade". Neste momente de sua obra Frend faz ruas considerações firuris sobre os deslinos e a singularidade da sexualidade feminina. ele

não postula uma similaridade de vivências para meninos c meninas mas em:ontra-se preocupado,

exatamente, em estabelecer como se dariam as diferenças. Vamos começar, então, a d~lincar como

Frend nos apresenta estus diferenças. Ele inicia o artigo de 1931. precisamente, se indagando de IDlla central distinçllo relativa às vicissitudes do desenvolvimento sexual das meninas:

"Com a menina é diferente. Tamblm seu primeiro objeto foi a m4e. Como

encontra o caminho para o pai? Como, quando e por que se desliga da md'e?

Hi muito tempo compreendemos que o ek~nvolvimento da sexualidade

feminina ~ complicado pelo falo de a menina ter a tarefa de abandonar o que

originalmente constituiu sua principal z;ona genital - o clitóris - em favor de

ai.leraçtlo da mesma esp4cie, que ntlo ~menos caraderlstica e importanú! para

0 desenvolvimento da mulher: a troca de seu objeto original- a rrnre- pelo pai"

(Freud. 1931,p.259).

31

Portanto, nmdança de zona erógena (da atividade ctitoridiana à passividade vaginal) e troca de

objeto de amor (da mik:, com sua intensa atividade de contenção e sustentaçllo desejmtes, so pai, com

sua entrada "concedida" por este primeiro desejo), constituem duas características especificamente

definidoras, para Frcud. da sexualidade feminina. Na continuidade de suas idéais veremos Freud

estabelecer dois momentos. como se fossem duas fases distintas, para o desenrolar da sexualidade nas muU:aeres: mo primeiro momento ATIVO, com caráter masculino, onde as mais importantes vivências vto se referendar, primordiahnent<, na atividade cliloridiana (que Frend considera como sendo viril); e mn segundo momento PASSIVO, com o caráter, agorn. propriamente feminino onde as expcri&lcias vão se orgunizar em tomo das sensações vaginais.

Assim. para meninos e meninas o complexo edfpico virá nitidamente marcado por uma diferença. Enquanto que para eles - meninos - este periodo ó encerrado, "dissolvido" pelo complexo/ameaça de castração, para as meninas, este último é o promotor de sua entrada no Édipo. Nos meninos, o complexo

de: castrsçllo surge após a constatação da existencia dos genitais femininos, trazendo-lhes a possibilidade

ameaçadora de descoberta que este órgão que eles tanto valorizam "nílo acompanha necessariamente o

corpo" 3. E é assim que. para ollo "perde-lo", a criança do sexo masculino 'encerra' suas investidas cdipimas. Nas meninas o mesmo nllo se dá. Frcud V1li definir nestc:s termos a situação para as meninas:

"O complexo de castraç«o fltl3 menit1Cl3 tam.bém se inicia ao verem elas

os genitais do outro 3exo. De imediato percebem a diferença e, deve-se admiti-

lo, também a s-ua únportBncia. Sentem-se i'tjusttçada3, muita3 veus declaram

qtJ1! qul!rem ter uma coisa assim tczmfJ4m', e se tomam vlttmas da 'iiM!jts 411

lfllls~·esta deixLZrá marcas indelbeis em seu desenvolvimento e na formação

de seu co.r&r,

ao•

,

SJ96tw4tl, u,-1" _, e#M'lrh IIUJã./liWfiNN/sJ /Ma

ulniMII 4/qlllilltJ ., ,

,

~·"

(Freud.

1933, p.1S4, negritos

nossos).

32

Percebc:mos assim. a tentativa de Freud em demarcar as especificidades do desenvolvimento da

sexualidade nas mulheres. E ó persei:Uinde este objetivo que ele vinl definir as trSs grandes linhas diretivos finais para este desenvolvimento:

• a primeira: "a mullio !!UI à •o:ma!ida<k" • implicando para a menina não abandono da alividade fálica inicial, mas o abandono da sexualidade c:m geral;

apenas o

• a segunda: "p complexo de ma•mJinldadr.lyirDldad&" • a menina se afCIIllf à c:spcrança de um

dia conseguir um panis, e adotar uma posição identifica!Gria nitidamente masculina. o que poderia levá-la

a uma escolha homosscmal de objeto manifesta;

• a terceira: "a atitude fpjnina Mnnal final" - implicando na adoção do pai como objeto c

obtendo a partir dai um earninbo para uma fo110a feminina do Édipo.

Outro uspecto a ser enfatizado. rcfercH:c à nc:ccssidadc de Frcud em marcu a importincia run fase:

pré-edipiana nas vicissitudes da sexualidade fc:mioioa. Nas considerações freudianas a fase de ligação

exclusiva à mãe tm1 uma importftncia nruito maior nas muD:Jcrcs do que nos homMs. Freud vm definir,

que na eleição posterior. adulta. de um objeto (ele cita o casamento como exemplo), é esto primeiríssima

relação com a mie que vai ser reeditada. F1c8lldo~ pois. claro que "o conteúdo principal de seu desenvolvimento partl o estado de nuúher jaz na trans/er2ncla, da m6e para o pai, de suas ligaçffes objetais qfetivas" 4.

Freud viri cstnbcleccr c esclarecer. apenas o afastamento dessa mie. como sendo importante para

o desenvolvimento da menina. A ele vai escapar uma outra dimenslo (parliciÚlHDlcnte positiva) dessa

relação. E 6 este aspecto que irc:mos rclOVBr e eotàtizar. Ele apresentará uma s6rie de motivos que

poderiam concorrer para que esta separação se efetivasse. motivos estes que agora nao nos interessam e

que discutiremos num momento posterior. Contudo gostarlamos de rcatinnar que para esta passagem.

esto ttansfo!IDaçllo para um "estado de mulhef', venha a se dar, Frend vai considerar "um acentuado

abaixamento dos impulsos sexuais ativos e uma ascensllo dos passivos" s. Sendo &sta foiDla. que a

33

transiçllo para o objeto paterno vai se dsr: através do IIUldlio das tendfncias passivas. Assim fica definido para as mulheres um desejo (respaldado pela 'inveja do penis?, que Freud marcanl como sendo, par

excetJence, o desejo feminino: o desejo de mn pênis-bebê do pai.

Sendo a menina forçada a abandonar a ligaçllo com sua mãe através da inveja do pênis, sua entrada nas vivências edfpicas, na ausência do temor de castração, será reconhecida como wn alivio ou mesmo mo refUgio. Por isso, Freud afimta, que à menina faltam motivos para abandonar o Édipo e

tambémpor isso ela permaneceria nele por tempo indctcmJinado e "solucionmin4", apenas tardim:nc:nte. Tal caractcrlstica o possibilitam apont.r para wn outro aspceto do desenvolvimento da sexualidade nas mulheres: o canltcr menos rigoroso de seu supercgo. A formaçllo do supcrego sofre um prejuízo diante dessas situações especificamente femininas, nllo ocorrendo dele, por sua vez. adquirir todas as caractcrlsticas de intensidade c indcpendfncia encontnodas por Frcud no supcrego masculino.

Podemos definir desta forma. sinteticamente, as principais caractcrlsticas que se incwnbem de transformar o descruolar da sexualidade feminina uum complexo singular c bastmtc diverso daquele do universo masculino, Algumas destas caractetisticas sC!ilo extensamente discutidas no próximo capludo.

Temos, pois:

- I) o desligamento da menina de seu primciro objeto de amor- a mllc - é mais compticado;

- 2) necessidade de mudança de zona erógena e mudança na clciçllo objetai;

- 3) vida scmal divididc em doas fuscs: uma inicial de canltcr masculinolviril c ontnl propriamente feminina;

_4) difcrenciaçllo em relaçllo ao posicionamento diantc do complexo de caslraçllo: na menina este viiíl preparar para o complexo de Édipo ao invés de destruí-lo;

34

·

5)

postulaçllo

de

três

linhas

gcrllis,

três

destinos

para

a

sexualidade

femi!lina;

a

catástrofe/abandono da vida erótica, o complexo de masculinidade e a feminilidade propriamente ditll;

· 6) lixaçllo feminina na fase pré-edipiana de ügaçllo à mllc;

• 7) postulação da 'inveja do penis' e do desejo de nm 'pênis-bebê' como destino primaz dessa sexualidade;

• 8) estruturaçllo/organizaçllo deficitária do snpercgo feminino.

9) eutàso sobre "fins passivos" para a satisfaçllo hlridinal;

· 10) enfasc sobre mn "masoquismo" e um "narcisismo" considerados como 'tipicamente' femininos;

• ll) fuJilse na bistcria como a "salda" privilegiadamente feminina para a dialética edipiana.

Passamos em dctaJhada revisão estes tr!s conceitos "lfeibJldJ". "WeiblichkeJt' c "wetbliche

8eiauliiiiJt' para podermos, após a discussllo com Frend e Lacan, procum nos centrar na tenlldiva de

resgate de mna especificidade, positividade para as mulheres, ou seja. algo que possa vir a constituir a

subjetividade feminina sob nm efeito bastante distinto da constituiçllo da subjetividade no hom=

Continumnos à proCllnl de algnma r<ferencia que nos possibilite ontras condições para entender esta

questio insistentcm- colocada pela mulher. Na confcrfncia de 1933, Frend marca uma posiçllo a este

respeito e gostmiamos de terminar aqui nos remetendo. mais tDDa vez. às suas paliVJllS:

"De acordo com sua naturua p«:Uliar, 'rle1111411R lliJJq *arilll 4flzentWr

p

w.,

I

r

,.,

-seria uma tarefa dijla'l de cumprir- mas se ~-.,-.,_ -•

e,. I ,_ • ,

,

n ,_,

,

como a

mullu!r se r.ksenvolve desde a

cn"ança dotada de (Üsposiçdo bissexuoi." (Freud, 1933,p. 144, negritos nossos).

35

E é, mesmo, no 111Stro daquilo que 'foiDla" diferenciahnente a subjetividade feminina que

estamos.

36

CAPÍTUL02

O TEMA DA MVLHI!R EM Fl!EUD

"Foi em tais mulheres que efetuei as observaçlles que me proponho

comunicar aqui e que me conduziram a adotar um ponto de vista especifico

sobre a sexualtdade feminina. Dois fatores sobretudo me impressionaram. O

primeiro foi

o

de

que

onde

a

/igaç{fo

da

mulher

com

o

pai

era

particulannente intensa, a andlise mostrava que esJ.WJ /lgaçiJo fora precedida

por lll1lfl j/Jse de llgaçilo exchlsiYa li m8e, lgw/mellk! lnteMJ e apalxOIIIJda.

Com

exceção da mudança de seu objeto

amoroso,

a segunda fase mal

acrescentara aigwn aspecto novo à sua vida erótica. SUa re/aÇIJo prtmárla com a mllefora c01JSiruid!J de manelns 1/11liiO rlaJ e mutttflcada. O segundo

foto ensin~u~me que a duraç{fo dessa ltgação também fora grandemente

subestimada" (Frcud, 1931, ps. 259fl60, negritos nossos).

37

2.1. FREVD: SUCESSÃO CRONOLÓGICA

O que pretendemos neste momento é uma revisão, na obra de Freud. dos pressupostos teóricos que cumprem a ftmçllo de circlDlScrever à mulher e aos seus dominios, o seu estatuto dentro da teoria. Não nos preocuparemos em estabelecer estas considerações a partir de um olhar critico. A isto nos

lançaremos no próximo tópico. Nos interessa agora situar nossos leitores. dentro da obra freudiana. sobre

a questão da mulher. Optamos por acompanhar, de maneira recorrente e cronologícamentc, o desonvo!Wnento desta temática. no próprio percw-so de Freud.

A mulher, ldriiVés do histérica. foi S1lll parceinl na construção da psicanálise o aprosontou-sc desde

o inicio como uma interrogoçlo. Desafiando-o, ela SUfl'iu eru primeiro plano na "tslking cure" dos iniciais "Estudos Sobre a Histeria" (1895) oinaugurou a S1lll grande descoberlll: o paradigma estabelecido sobro

a organizaçlo de um psiquismo clivodo, a partir de um sistema designado como 'sistema inconsci-'.

No entanto, paradonlmcnte, aquelas que tanto contribuíram para significativos aVll!lços no campo do príltica o do construção teórica psicanaliticas, vlo sendo relegadas ao plano do obscuro, do mistério e mesmo do 'negativo' dentro do discurso analítico de nosso mc:strc.

A partir de Freud. a questl!o do sao o do sexual. wi se inserir dentro do campo estrilo do subjetividade. Durante~. décadas o tema do mulher percorrerá a S1lll obra como que desafiando-o; em todo osso percurso fica-lhe uma marca: a mulbcr apreendendo a S1lll "ferninilidnde problemática• sempre

pelo viés do olhar de mo homem.

Vsi ser no ano de 1920 (no artigo "Psicoglnese de um caso de Homossexualismo) que Freud iotroduzjni um aspecto para nós absolullun- fimdnmenlld: allxaçio primária à mie, aquilo quo mais tm"de será designado como a "pré-história" do Édipo fernin!oo ou enJUc na relação pré-genital com a fignra matema. que, para as nossas considerações, repercutirá enormemente em todo concepçllo da

33

questllo feminina na psicanálise. É sobre este ponto que iremos poder propor wna oulrn chave ou grade

de entendimento para o funcionamento se>WJJ da mulher. naquilo que ele possui de especifico e de

singular. PostcrioiUiente. então. vamos tentar relevar este aspecto como sendo, possivehnente, aquilo que vui constituir wna "positividade" à esfera e aos domínios da mulller e de sua se:mali.dndc.

Num primeiro momento de seus escritos, Frnul pensou a mulher c os domlnios que se referiam à sna sexualidade como estritamente simétricos ao homem; c procurou estabelecer um paralelismo

rigoroso entre o Édipo da JDCDina c do JDCDino. Nl>s BDOJ! de 1825 a 1900, trabalhando seus primeiros

casos de histeria. Frcud cnfoca a mulher ora no plano do não rcconhcdvcl do mutismo c até mesmo da repulsa (dando especial &!Jàsc sobre um aspecto sintomático da histeria: as crises cOII\'CfSivas, em sua

relaçllo estreita com o corpo c o co~poral); e no plano de: mna outra orientação que aos poucos absorve o

todo de sna obra: o primado do falo, ou como vamos preferir dcsitnar aqui neste trabalho, a teoria do

moDismo se>WJ! fillico.

Em 1200. Frcud não consegue obter um bom resultado na análise de uma jovem paciente bisttrica chamada /JoNI. Numa rcanátisc posterior ele mesmo reconhece que teria sido, exatamente por sua incapacidade de'="" o cnig~~~aque representava para a paciente uma oulrn mulher (a SJ:a. K), que o caso acaba por liacassar. Nesta análise. Frcud não foi capaz de estabelecer uma clara distinçllo entre o objeto de amor de Dora c seu objeto de idcnlificaçllo; permanecendo na escmidllo teórica (e tambóm

clfnica) alguns aspectos

fimdmncntais para a sexualidade feminina. De nossa parte, podemos ruspdtar

que o &acosso deste caso, tambóm deveu-se à insist!ncia freudiana. sobre um paralelismo e uma simetria excessivos, entre a organizaç!o sexwd masculina c feminina.

Fm 1205. nos