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‘26.0 espaco de mil ou trés mil anos! Pois, na verdade, pode-se dizer que um homem vivew tantos milénios ‘quantos os abarcados pelo alcance de seu conhecimento do hist6ria” ®. 9, Min Prem, “Cast, a Gino Drag’ far fick, Nistor? cst nd witam’ ox!_modo ‘oblectandam, “verum= [Sea Moran uflendaan'summopere ecaserin, Sl guides pecE Bor ‘sunt, iomeraitatan ab furor Comasante. Boke “aitenta por Sant praereata, unt, velera.nuvenescunt Bee eit tabstiatamn Zan adacquant Ac st sono septa: ‘Huis Snnorum gb ipanrum vert experientam prudens babeta Sinhis'paidender, aul simoramm mile, et tum, milan imple Setatemt ‘Tot vero ganoram milia vixisse quisque videtur quot Snorum acta sista’ ab htora" 46 1, ICONOGRAFIA E ICONOLOGIA: UMA INTRODUGAO AO ESTUDO DA ARTE DA RENASCENCA I Teonografia é o ramo da histéria da arte que tata do tema ou -mensagem das obras de arte em conira- Roselo Asia arms. “Teiemos, pati, di « lingo entre tema ou significado, de um lado, e for- ma, de outro. Quando, na rua, um conhecido me cumprimenta tirando 0 chapéu, 0 que vejo, de um ponto de vista formal, é apenas a mudanga de alguns detalhes dentro da configuragio que faz parte do padrio geral de a cores, linhas e volumes que constitui o mundo da minha visio. Ao identificar, o que faco automaticamente, essa configuracio como um objeto (cavalheiro) é a mudanga de detalhe como um acontecimento (tirar 0 ‘chapéu), ultrapasso os limites da percepeo puramente formal e penetro na primeira esfera do tema ou men- sagem. O significado assim percebido é de natureza ‘elementar © facilmente compreensivel e passaremos a chamé-lo de significado fatual; 6 apreendido pela sim* ples identificaco de certas formas visiveis com certos abjetos que j conheco por experiéncia pritica e pela identificagdo da mudanca de suas relag6es com certas ages ou fatos. Ora, os objetos e fatos assim identificados produ- iro, naturalmente, uma reagio em mim, Pelo modo do meu conhecido executar sua agio, poderei saber se esti de bom ou mau humor, ou se’ seus sentimentos ‘a meu respeito sio de amizade, indiferenca ou hostili- dade, Essas nuancas psicol6gicas dardo ao gesto de ‘meu amigo um significado ulterior que chamaremos de expressional. Difere do fatual por ser apreendido, nfo por simples identificacio, mas por “empatia”. Para compreendé-lo preciso de uma certa sensibilidade, mas essa é ainda parte de minha experiéncia prética, isto é, de minha familiaridade cotidiana com objetos ¢ fatos. Assim, tanto o significado expressional como o fatual podem classificar-se juntos: constituem a classe dos significados primérios ou naturais. Entretanto, minha compreensio de que 0 ato de tirar o chapéu representa um cumprimento pertence a ‘um campo totalmente diverso de interpretacdo. - Essa forma de saudacéo é peculiar ao mundo ocidental € tum resquicio do cavalheirismo medieval: os homens armados costumavam retirar os elmos para deixarem claras suas intengOes pacificas e sua confianga nas in- tenges pactficas dos outros. Nao se poderia esperar que um bosquimano australiano ou um grego antigo compreendessem que 0 ato de tirar o chapéu fosse, no 86 um acontecimento prético com algumas conotacdes expressivas, como também um signo de polidez. Para entender 0 que gesto do cavalheiro significa, preciso no somente estar familiarizado com o mundo prético 48 dos objetos e fatos, mas, além disso, com 0 mundo ‘mais do que pritico dos costumes e tradigées culturais peculiares a uma dada civilizacgo. De modo inverso, ‘meu conhecido nfo se sentiria impelido a me cumpri- ‘mentar tirando 0 chapéu se néo estivesse cénscio do significado deste ato. Quanto s conotagdes expressio- nis que acompanham sua ago, pode ou nfo ter cons- igncia delas. Portanto, quando interpreto 0 fato de tirar 0 chapéu como uma saudacdo polida, reconhego rele um significado que pode ser chamada de secun- rio ou convencional; difere do primério ou natural por duas razdes:'em primeiro lugar, por ser inteligivel fem vez. de sensivel ¢, em segundo, por ter sido cons- elentemente conferido & apio prétca pela qual € vei culado. E finalmente: além de constituir um acontecimen- to natural no tempo e espago, além de indicar, natural- mente, disposicSes de fnimo e sentimentos, além de comunicar uma saudaco convencional, a agéo do meu conhecido pode revelar a um observador experimentado tudo aquilo que entra na composigio de sua ‘“perso- nalidade”. Essa personalidade € condicionada por ser cle um homem do século XX, por suas bases nacionais, sociais e de educagio, pela histéria de sua vida passada © pelas circunstincias atuais que o rodeiam; mas ela também se distingue pelo modo individual de encarar as coisas ¢ de reagir ao mundo que, se racionalizado, oubued 2p pie 9. Sd0 Joao Evangelista, Roma, Bibliteea do Vaticano, Cod. Barb, Tat. Til, 12-32, eu 1000. 10, Atlas © Nimrod. Roma, Biblioteca do. Vaticano, Cod. Pal, lat 1417, £71, ea. 1100, los visuais que tinham diante dos olhos, quer hajam copiado diretamentc um monumento cléssico ou imi- tado uma obra mais recente derivada de um prot6tipo cléssico através de uma série de transformagées inter- medidrias. Os artistas que representaram Medéia como uma princesa medieval ou Jipiter como um juiz medieval traduziram em imagens uma simples descri- .¢f0 encontrada em fontes literérias Isso & bem verdadeiro, ¢ a tradicao textual através da qual o conhecimento dos temas clissicos, principal- mente da mitologia cléssica, foi transmitido & Idade Média e persistin em seu decurso € da méxima impor- tincia nfo apenas para o medievalista como também para 0 estudioso da iconografia renascentista. Pois, ‘mesmo no Quatrocentos italiano, foi dessa tradico complexa © muitas vezes corrompida, mais que das fontes genuinamente clissicas, que muitos artistas hau- ram suas noses de mitologia clissica © assuntos cconexos. ‘Se nos limitarmos & mitologia cléssica, os cami- hos dessa tradigio podem ser delineados da seguinte dere. De! pte nop gts ahr brs bere seer ‘aD quevce exforga sob e peso dow oft (ch, Gy tmaam, Antice ‘Himmalsbilder, Berlim, 1898, p. 19 « s=). O Sao Mateus ‘no Cod. Ercan rd te oon meets EEG Pad Soh phate cae at ‘exemplo impressionante | “e ian v. pr. ai). Tomay (nota 13" 6 1) nfo pertsier cho Semeinanea lias Fepresenteotes de lime” iptcie deearitiae, “Tambem do. ponto Fide, "as‘Bytelstn ato ma compativel 9” Alaa, gut ‘Coblas: governess: supunha ‘Aloe os curtenfuise enum senidy slogtsicn at “eome= a maneira: os ‘tims filésofos-gregos j4 haviam come- ado 2 interpretar os deuses © semideuses pagios ‘como simples personificacdes ou de forcas naturais ou de qualidades morais, e alguns deles haviam mesmo chegado a ponto de explicé-los como seres humanos ‘comuns deificados subseqilentemente. No iiltimo sécu- Jo do Império Romano, estas tendéncias aumentaram ‘muito, Enquaato os Pais da Igreja se esforgavam por provar que os deuses pagios ou eram ilusGes ou dem6- ‘ios malignos (transmitindo assim numerosas informa- (Ges valiosas sobre eles) o proprio mundo pagio se alheara de tal modo de suas divindades que 0 pibli- ‘co cullo precisava informar-se a respeito delas em cenciclopédias, em poemas ou novelas didéticas, em tra- tados especiais de mitologia e em criticas © comenté- ios aos poctas cléssicos, Relevantes, entre esses es- critos do final da Antigiidade, nos quais as perso ‘gens mitol6gicas eram interpretadas de forma alegérica ou “moralizadas", para usar a expressio medieval, eram a Nuptiae Mercurit et Philologiae, de Marciano Capella, a Mitologiae, de Fulgéncio, e, sobretudo, 0 admirdvel comentério de Sérvio sobre Virgilio, que € trés ow quatro vezes maior que 0 texto deste que foi talvez amplamente lido. ‘Durante a Idadé Média, esses escritos e outros de mesmo tipo foram exaustivamente explorados e ainda mais desenvolvidos. Assim, a informagio mito- Iégica sobreviveu e tornou-se acessfvel aos poctas © artistas medievais. Primeiro, através das enciclopédias, cujo desenvolvimento comegou com escritores tio an- tigos como Bede ¢ Tsidoro de Sevilha, continuou com Hrabanus Maurus (século TX) e chegou ao ange nas extensas obras do alto medievo de Vicéncio de Beau- vais, Brunetto Latini, Bartolomeu Anglicus ¢ assim por diante. Segundo, nas exegeses medievais de textos clissicos ¢ do fim da Antiguidade, sobretudo a Nuptiae R de Marciano Capella, que foi anotado por erucitos irlandeses como Joao Escoto Erigena ¢ comentada com grande autoridade por Remfgio de Auxerre (século 1X)", Terceiro, nos tratados especiais de mitologia, tais como 0s assim chamados Mythographi I ¢ II, que datam de muito cedo e foram baseados sobretudo em Sérvio e Fulgéncio', A obra mais importante desse tipo, a chamada Mythographus III, foi tentativamente ‘dentificada com um inglés, o grande escoldstico Ale- xandre Neckham (falecido em 1217)"; seu tratado, um impressionante apanhado de toda ‘a informagio disponfvel por volta de 1200, merece a qualificago de compéndio conclusivo da mitografia da Alta Idade Mé- dia e chegou mesmo a ser usado por Petrarca quando este descreve as imagens dos deuses pagios no seu porma Africa. Entre a época do Mythographus II ¢ Petrarca, foi dado mais um passo para a moralizacio das divin- dades cléssicas. As figuras da antiga mitologia eram no apenas interpretadas de uma forma moralista geral mas eram também, de um modo definitive, rela- cionadas com a f cristé, de modo que, por exemplo, Piramo era interpretado como Cristo, TTisbé como a alma humana ¢ 0 leo como o Mal conspurcando suas vestes,- enquanto que Satumno servia de exemplo no bom © no mau sentido, para o comportamento dos clérigos. Exemplos desse tipo de escritos so 0 fran- e8s Ovide Moralisé, Fulgentius Metaforalis'®, de John Ridewall, Moralitates, de Robert Holcott, 0 Gesta Romanorum, ¢ sobretudo, 0 Ovidio Moralizado, cm latim, escrito por volta de 1340 por um teélogo francés chamado Petrus Berchorius ou Pierre Bersuire, ‘que conhecia pessoalmente Petrarca"#, Sua obra é precedida por um capitulo especial dedicado aos deu- dor Bibllotnek Warburg 1), Leip 1005p Is ep. ie ase SE, sambéen, Favors € Suva, op ei espclamnente, 0" Ie" Bowe. Op. ok, pete a It) thomas “Walleye” (ou Valeya), Metamorphosis Ovidiona ‘orttiter planeta, sui Geadl ‘a tale arbors Ge Is 2B ses pagios, baseada em grande parte no Mythogra- phus If, mas eoriquecida por moralizagées espectica- Imente ctistis, © esta introduelo, sem as moralizagdes ue foram cortadas em prof da brevidade, aleangou rande populzridade sob o nome de Albricus, Libellus de Imaginibus Deorum ‘Um novo e sumamente importante passo foi dado por Boccaccio. Na sua Genealogia Deorum™, nik fpenas efetuou um novo levantamento do material, grandemente aumentado desde cerca de 1200, como também tentou, conscientemente, retomar as’ fontes genuinas da Antiguidade © confronté-las, cuidadosa- Inente, umas com as outras. Seu tratado assinala 0 comego de uma atitude critica ou cientifica para com a Antiguidade clissica e cabe consideré-Io um precursor de tratados verdadciramente eruditos da Renascenga como o De dls gentium... Syntagmata, de L.G. Gy- Taldus que, de seu ponto de vista, podia olhar para 0 seu popularfssimo predecessor medieval como um “e5- ctor proletério ¢ indigno de confianea” ®. ‘Compre notar que até a Genealogia Deorum de Boccaccio, o foc0 da mitografia medieval era uma re- gito muito afastada da tradigio mediterrinica direta: Ilanda, Norte da Franca e Inglaterra. Isso também verdade quanto a0 Ciclo Troiano, o mais importante tema €pico transmitido pela Antiguidade cléssica & posteridade; sua primeira redacio medieval com auto- dade, 0 Roman de Troie, muitas vezes condensada, sumariada e traduzida para outras linguas veréculas, Geve-se 2 Benoit de Sainte More, natural da Bretanha Podemos, na verdade, falar de um movimento proto- hnumanista, ou seja, de um interesse ativo por temas cléssicos, independentemente dos motivos clésicos, centrado na Europa Setentrional, em oposigo a0 mo- Vimento. proto-renascentista, ot seja, um interesse ative por motives cléssicos independentemente de te- mas cléssicos, centrado na Provenga (Franca) ¢ na Italia, Bum fato memorivel, que devemos ter em 1, Cod, Va Reg, use Lammers, op. ots ps HT @ Sr Om SP ade a Sedo, wenestons. de, 15, He ASG SURES, Chere Setar Leyden, iss, v. 1 Col ght pein bia etl nh rect, ee "4 | mente para poder compreender 0 movimento renas- centista, que Petrarca, ao descrever os deuses de seus antepassados romanos precisasse consultar um com- péndio escrito por um inglés, e que os iluministas ita- lianos, que ilustraram a Eneida de Virgilio no século XY, fivessem de recorrer is miniaturas de manuscri tos como 0 Roman de Troie ¢ seus derivados. Pois estes, sendo matéria de leitura favorita do leigo nobre, foram amplamente ilustrados muito antes que o pr6- prio texto de Virgilio, lido por eruditos ¢ escolares, atraissem a aten¢ao dos iluministas profissionais . 'Na verdade, & fécil compreender que os artistas que desde 0 comeco do século XI tentaram traduair fem imagens esses textos proto-humanistas s6 conse guissem configuré-los de um modo totalmente diferen- te da tradi¢do cléssica. Um dos primeiros exemplos esté entre os mais importintes: uma miniatura de cer- ca de 1100, provavelmente executada na escola de Regensburgo, ¢ que representa as divindades clissicas segundo as descrigées do Comentério a Marciano Capella, de Remigio (Fig. 11)". Vése Apolo numa simples’ carroga de camponés, segurando uma espécie de ramalhete com os bustos das ‘Trés Gracas, Saturno ‘mais parece uma romantica figura de umbral que 0 pai dos deuses olimpicos, e 0 corvo de Sipiter apre- senta uma pequena auréola como a guia de Séo Joao Evangelista ou a pomba de Sio Gregorio. ‘Nao obstanie, s6 0 contraste entre a tradicao representacional © textual, por importante que sej nao pode explicar a estranta dccfomia, dos: motvos temas elissicos earacteristica da arte do alto medie~ quan’ oe Syiaio huss usredos Gurtnte'g Tondo aegi a Soret ie aie eet Se Sh ES Scale oyu ane Bae ee Sete anaes at EAE Spiele ce eh cnet Teh SiR Sey Gave eae erst deco Sav. {Outro tuanusento Go stout Coxdord” Boe Se ge Grea ate Cee Pe OP tod ad tiatgs es Seer i ladihig! Diamine ona 11s Or deses patos: M27, 1 Liv, cas 1100. ‘Moni, Staatsbiblotiok, cm. vo. Pois, mesmo quando houve uma tradicéo repre- sentativa em certos campos das imagens cléssicas, essa tradigio representativa foi deliberadamente abandona-~ da em favor de representages de caréter inteiramente nio-cléssico logo que a Idade Média alcangou estilo proprio. Exemplos desse processo encontram-se primero nas imagens cléssieas que ocorrem incidentalmente em representagdes de assuntos cristios, como as personi- ficagées das forcas naturais no Seltério de Utrecht, por exemplo, ou 0 sol'¢ a lua na Crucifixo. Enquan- to que os marfins carolingios ainda mostram os tipos perfeitamente clissicos da Quadriga Solis e Biga Lunae, esses tipos cléssicos si substituides por no-cléssicos nas representagées roménticas © goticas. ‘As personificacées da natureza tendiam a desaparecer; apenas 0s fdolos pagios, freqientemente encontrados em cenas de martitio, preservaram sua aparéncia clés- sica durante mais tempo que outras imagens por serem ‘5 sfmbolos por exceléncia do paganismo. Em segun~ do lugar, ¢ muito mais importante, genuinas imagens cléssicas aparecem em ilustragées de textos que ja ha vviam sido ilustrados no final da Antiguidade, de modo que os artistas carolingios tinham & disposigéo mode~ los visuais: as comédias de Teréncio, os textos incor- porados no De Universo, de Hrabanus Maurus, a Psychomachia de Prudéncio, ¢ escrtos cientficos, ‘so- bretudo os tratados de astronomia, em que as imagens mitol6gicas aparecem tanto entre as constelagGes (tals, como Andrémeds, Perscu, Cassiopéia) como entre os planetas (Saturno, Jépiter, Marte, Sol, Venus, Mer- cério, Lua). Em todos esses casos podemos obscrvar que as imagens cléssicas foram copiadas de maneira fiel, em- bora as vezes canhestramente, nos manuscritos ‘caro- lingios e mantidas em seus’ derivados, mas foram abandonadas ¢ substituidas por outras’ inteiramente diferentes nos séculos XIII ou XIV, no mais tardar. [Nas ilustracoes do século IX de um texto de as- tronomia, figuras mitolégicas como Bodtes (Fig. 15), 2A, Gauscmene, Die Elenbeinsulgturen ons der Zeit der aytingiachem wd’ sachalschon, Rate beta, TALUCHE, 4, DE 3G n 4 astra ‘em Pasorare © Kiss op ots pe i 7 = 12, Saturno. Da Cronogratia de 354 (Cépia ds, Renascen- 8), Roma, Biblioteca do Vaticano, Cod, Barb. lat 2154, 19 8. Monte Cassino, ms, 14. Saturno, Hapiter, Venus, Marte e Mereirio. Munique, Staatbibiothek, Cm, 10268, 7 85, século XIV. 15, Bodies. ‘siden, Bibles da Universidade, Cod, Vom Jat, 79, 1 6v,/7, stealo TX. Perseu, Hércules ou Merctirio sio representadas de ‘uma forma perfetamente cléssica e o mesmo se a as divindades pagis que aparecem na Enciclopédia de ‘Hrabanus Maurus®. Apesar de toda a sua canhes- trice, 0 que se deve principalmente & incompeténcia dos pobres copistas do século XI, responsdveis pelas ilustragdes dos manuscritos carolingios hoje perdidos, as figuras da obra de Hrabanus néo sfo, evidente- mente, moldadas apenas com base em descrigées tex- ‘ais, mas esto ligadas aos protétipos antigos por uma tradigdo representacional (Figs. 12 ¢ 13). Entretanto, alguns séculos mais tarde, essas ima- gens verdadeiras tinham cafdo no esquecimento e eram substitufdas por outras — parte inventadas ¢ parte derivadas de fontes orientais — que nenhum especta- dor modemo reconheceria como divindades cléssicas ‘Venus € mostrada como uma encantadora jovem to- cando um alatide ou cheirando uma rosa, Japiter como tum juiz com as luvas na méo © Merctrio como um yelho sabio ow mesmo como um bispo (Fig. 14) Foi s6 na Renascenca propriamente dita que Jipiter reassumiu a aparéncia do Zeus cléssico ¢ que Merci- rio readquiriu a beleza jovem do Hermes cléssico*, Tudo isso atesta que a separagdo entre os temas léssicos e 0s motivos cldssicos se deu, néo apenas por falta de tradico representacional mas também a des- peito dela. Sempre que a imagem cléssica, on seja, fa fusto de um tema cléssico com um motivo cléssico, foi copiada durante o periodo carolingio de assimila- fo febril, tal imagem cléssica foi abandonada tio ogo a civilizacio medieval chegava a0 seu para ndo ser reaproveitada até 0 Quatrocentos itali no. Foi um privilégio da verdadeira Renascenca rein- sand ulna Ell es PUB care, eae a ha Me rane Sts Beatie eee ie tenes aa Hoes Tooke Soa ae nee Bball Be Se Sey eee idatzogca i’ OSC aad "SSG sient Fal dene reattmapo (rt nag oot ot Ces © Se Ea eens ee 81 tegrar os temas com os motivos cléssicos depois de ‘um intervalo que pode ser chamado de hora zero. Para a mente medieval, a Antiguidade clissice estava ji muito distanciada e, a0 mesmo tempo, muito fortemente presente para ser concebida como um snémeno hist6rico. Por um lado, sentia-se uma tra- igo continua, pois o imperador_germénico, por exemplo, era considerado sucessor direto de César © ‘Augusto, os lingistas viam Cicero e Donato como ‘seus ancestrais ¢ os matemfticos tracavam suas ofi- gens até Euclides. Por outro lado, sentia-se que exis- tia uma brecha intransponivel entre as civilizacoes agi e cristi. Estas duas tendéncias nao podiam finda ser contrabalangadas para. permitirem um sen- timento de distincia hist6rica. Para muitos. o mundo cléssico assumia um cariter remoto, de Tenda, como © Este pagio contemporineo, de modo que Villard de Honnecourt podia chamar um timulo romano de “a sepouture d'un sarrazin”, enquanto que Alexandre Magno e Virgilio chegaram a ser considerados magos orientais. Para ‘outros, mundo cléssico era a fonte ‘lima de conhecimenios altamente apreciados ¢ de instituigdes sagradas. Porém, nenhum homem medie~ val podia encarar a civilizacdo antiga como ‘um fe- némeno completo em si mesmo, contudo pertencente ao passado e historicamente desligada do mundo con- temporineo — como um cosmo cultural a ser inves- tigado e, se possivel, a ser reintegrado, em vez de set uum mundo de maravithas ¢ uma mina informativa. Os fildsofos escolfsticos podiam usar as idéias.de Aris- t6teles fundi-las com as suas proprias, e os poetas medievais podiam basear-se livremente nos autores cléssicos, mas nenhum espirito medieval podia pensar filologia cléssica. Os artistas podiam empregar, ‘como j vimos, os motivos dos relevos e estétuas clés: sicas, mas nenhum espirito medieval podia conceber a arqueologia cléssica. Do mesmo modo que era im- 32, um, dasiiome, semethante ¢ caractersticg da atitude amedieval Teetivamente garg fub lege! por‘ lace 4 Sinegogs Starit"Wctaie' Stina! tapes per outro inda, oe profetat Faden cram considersdes como iapirades pelo Bipirito Santo ‘es pecsonoene do Antigo" Testamenio ram veneradss come Selepussadne ce Cot, 82 possivel para a Idade Média claborar um sistema mo- demo de perspectivas, que se baseia na conscientizaco de uma distancia fixa entre o olho e 0 objeto e permi- te assim ao artista construir imagens compreensiveis ¢ cocrentes de coisas visiveis, assim também Ihe era impossivel desenvolver a idéia moderna de hist6ria, ba- seada na conscientizacéo de uma distancia intelectual entre 0 presente © o passado que permite ao estudioso armar conceitos compreensiveis e coerentes de perio- dos dos. Podemos, facilmente, perceber que uma época incapaz.¢ sem vontade de compreender que tanto os motivos quanto os temas clissicos faziam parte de um todo estrutural, na realidade evitou presorvar a unio desses dois. Logo que a Idade Média estabeleceu seus proprios padres de civlizacio © encontrou seus mé- todos préprios de expressio artistic, tomou-se im- possivel apreciar ou mesmo entender qualquer fend- meno gue nfo tivesse um denominador comum com os fendmenos do mundo contemporineo. O observa- dor do alto medievo podia apreciar uma bela figura cléssica se apresentada como a Virgem Matia, ou apre- ciar uma Tisbé retratada como uma jovem do século XI sentada numa Iépide g6tica. Porém, uma Vénus ‘ou Juno de forma e significacdo cléssicas seria con- siderada um execrével fdolo pagio, enquanto que uma Tisbé vestida em roupagens clissicas e sentada num timulo cléssico seria uma reconstrucdo arquecl6gica inteiramente além de suas possibilidades de abords- gem. No século XII, mesmo a escrita cléssica era tida como algo totalmente “estrangeiro”; as inscrigées explanat6rias da obra carolingia Cod. Leydensis Voss. lat. 79, escritas em belas Capitalis Rustica, foram co- piadas, para beneficio dos leitores menos eruditos, na escrita angular do alto gético (Fig. 15). Entretanto, a impossibilidade de perceber a “uni- dade” intrinseca dos temas ¢ motivos cléssicos pode ser explicada, nfo apenas por uma falta de sentimento hhistérico, mas também pela disparidade emocional entre a Idade Média cristl © a Antiguidade paga. En- quanto o paganismo helénico — pelo menos como se refletia na arte cléssica — considerava 0 homem como 83 ¢ B SESSESBS = 2 fone, die quam aumt. our ej Ouc mpuer te guece une. ie Qe Hoc tor le wmne accra. to a, Siesta Gi wan, wen, Euaroulaleilemanow. . ths | 1) ourguyamoursu foxleuow. mt € tad atatelle cane. apn € soya pirmer aname. 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Nas cenas seculares, a0 contrio, tas formulas tinkam que ser substitutdas por outras, de conformidade com a atmosfera medieval de manciras corteses e sentimentos convencionais, de modo que as divindades pagis ¢ os hersis loucos de amor e cruel dade apareciam como prineipes e damas clegantes cuja aparéncia ¢ comportamento estavam em harmonia com 0s cdnones da vida social do medievo, Nama miniatura extraida de um Ovide Moralsé do século XIV, 0 Rapto de Europa é representado por figuras que certamente demonstram pouca agita- fo apaixonada (Fig 16)". Europa, vestida & manci- 1a do final da Idade Mécia, cavalga em seu pequeno ¢ inofensivo touro como uma jovem fazendo seu calmo passeio matinal © suas companheiras, ataviadas da mesma maneira, formam um pequeno e trangiilo ‘grupo de espectadoras. E claro que estio ali para se mostrarem angustiadas e gritarem, mas nio 0 fazem, ou pelo menos néo nos convencem de que o estojam fazendo, pois o iluminista nfo era capez nem estava propenso a visuaizar paixdes animals. Um desenho de autoria de Direr, copiado de tum protétipo iteliano, provavelmente durante sua pri- meira estada em Veneza, enfatiza a vitalidade emo- cional que néo existia na representacio medieval (Fig. 65). -A fontelteréria que Direr usou para seu Rapio de Europa ni io-em prosa em que-0 touro & comparatlo'a Cfisto e Europa a alma humana, ‘mas os proprios VeRSOS pagior de Ovidio, revividos em