Entre o plágio e a autoria

Entre o plágio e a autoria: qual o papel da universidade?
Obdália Santana Ferraz Silva
Universidade do Estado da Bahia, campus XIV, Departamento de Educação

Plágio no universo acadêmico: a negação da autoria
Antes de mais nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura. Lispector, 1980, p. 12

O que é um autor? Essa foi a pergunta que fez um dia o pensador francês Foucault. Considerando que a função autor sofreu variação na sua concepção ao longo do tempo, hoje, na sociedade informática em que se vive, essa pergunta poderia ser repetida com alguns acréscimos: o que é um autor e como se forma um autor no contexto de uma sociedade em que a tecnologia digital transforma a linguagem num elo virtual entre o homem e o mundo? Essa é uma questão relevante, uma vez que a informação e os textos, nos tempos atuais, se encontram cada vez mais à mão, como um convite ao sujeito para mergulhar nos labirintos hipertextuais, para o exercício e a difusão da escrita ou para forjar como seu apenas um excerto, um parágrafo ou mesmo todo um texto, mediante cópia não autorizada.

O fato é que, historicamente, desde o ensino fundamental à universidade, se tem convivido com a prática de cópias de produções textuais de outrem, de forma parcial ou total, omitindo-se a fonte. No contexto da sociedade informatizada em que vivemos, essas discussões têm-se acentuado, haja vista as possibilidades que se vêm ampliando, pela internet, no que diz respeito ao graduando apropriar-se de obras protegidas por direitos autorais. Daí partiu a necessidade de compreender questões como: de que forma os graduandos de letras, professores em formação, estão apropriando-se dos hipertextos digitais para produção de textos acadêmicos? Que concepção de plágio têm os graduandos de letras? Como a universidade tem tratado a questão da cópia entre esses futuros professores de língua materna? Na intenção de refletir sobre essas questões, realizou-se uma pesquisa de campo com 20 graduandos de letras, professores de língua materna em formação, pertencentes a uma universidade pública do estado da Bahia. Constituiu-se campo de pesquisa um curso de extensão semipresencial, a partir do uso de interfaces como fórum, chat, diário e wiki (espaço para realização

Revista Brasileira de Educação

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. Tais produções textuais escritas. um abdutor de “plagiare”.610. a co-autoria. Tal fato vem potencializando esse clássico problema no espaço acadêmico: o plágio. no qual os graduandos escreveram suas experiências de leitores/produtores de texto. Constituíram eixos de análise: a produção textual. A pesquisa realizada com os referidos sujeitos revelou indicadores sólidos que evidenciam o quanto os hipertextos digitais se vêm tornando a maior fonte de busca de informações e conhecimentos entre eles. afirmam utilizar hipertextos digitais para pesquisas nos mais variados campos do conhecimento. 2008 . os sujeitos produziram textos motivados pelas reflexões e discussões sobre o objeto. ou seja. o chat. a partir do hipertexto digital. Desse modo. na fala dos participantes os textos da internet lhes são úteis pelos seguintes motivos: • para suprir a falta de tempo para exaustivas pesquisas bibliográficas. o diário. como experiência de produção escrita em co-autoria. Além disso. como organizam suas idéias.. além da disponibilidade/acessibilidade dos hipertextos digitais. de acordo com o momento histórico e as condições sociais de cada época. “roubar” [. De acordo com Fonseca: O plágio se caracteriza com a apropriação ou expropriação de direitos intelectuais. e tendo como aliada a natureza aparentemente pública do conteúdo on-line. declara um graduando envolvido na pesquisa. Assim.Obdália Santana Ferraz Silva de escrita colaborativa). os quais. O termo “plágio” vem do latim “plagiarius”. na busca por caminhos mais fáceis e mais velozes. • para facilitar as atividades acadêmicas. s. na universidade essa prática tem-se dado de forma mais abrangente e acentuada. partindo-se dos textos que os sujeitos construíram nas seguintes interfaces: o fórum e o chat sobre leitura e escrita na internet. passa a ser aceitável e inevitável: 358 Revista Brasileira de Educação v. juntamente com os textos orais construídos pelos sujeitos em chats e entrevistas semi-abertas.]. de 19 de fevereiro de 1998. • para suprir a falta de livros na biblioteca da universidade. haja vista a velocidade na transmissão das informações – cruas ou refinadas – e a grande quantidade de textos/obras à disposição do leitor na internet: “Fica difícil não plagiar com tantas oportunidades” (GB). como apropriação de linguagem e de idéias do outro. dentro de um determinado contexto. em sua maioria. seja para dar-lhes embasamento teórico. A expropriação do texto de um outro autor e a apresentação desse texto como sendo de cunho próprio caracterizam um plágio e. Nas interfaces fórum e wiki do Moodle. computador e internet estão fortemente presentes na vida dos graduandos. disponibilizadas no ambiente virtual de aprendizagem Moodle. • embasamento teórico para ajudar na concretização de alguns trabalhos. • para esclarecimento de dúvidas em relação a determinados conteúdos. (Fonseca. lançou-se mão da observação que forneceu subsídios para a análise e discussão sobre como lêem e escrevem os graduando de letras. espaço/tempo em que se discutiu sobre plágio. o plágio. caracterizando violação da propriedade intelectual. principalmente visando à elaboração de trabalhos exigidos pela universidade. Assim.d. • como suporte para melhoria na construção dos argumentos. 9. e o texto colaborativo que construíram no wiki. segundo a Lei de Direitos Autorais. contribuíram para a análise crítico-reflexiva e interpretação sobre como os sujeitos lêem e produzem textos a partir dos hipertextos digitais. 38 maio/ago. é considerada violação grave à propriedade intelectual e aos direitos autorais.) É pertinente lembrar aqui que a concepção de plágio sofreu mudanças. seja para solucionar problemas referentes à falta de tempo. Observou-se nesse estudo que. • pela variedade de opções oferecidas pelos links. 13 n. na contemporaneidade. como constroem conhecimentos. engendradas nos encontros a distância e presenciais. além de agredir frontalmente a ética e ofender a moral acadêmica. a leitura.

. o caráter de descontinuidade conferido ao texto no espaço digital torna-o livre de convenções. tecnologia e política. Em virtude dessa realidade. ao passo que assume proporções notáveis e instigantes nos tempos atuais. 2007). a ação de copiar – como violação da honestidade acadêmica e intelectual – e as relações que se estabelecem a partir dessa prática vêm sendo analisadas com seriedade por outras áreas na comunidade acadêmico-científica – por exemplo.] Eu sou sincero. Sterne. 38 maio/ago. espaço em que ainda pouco se discute sobre o assunto. p. entrelaçadas por alinhavos e arremates. Será que no mundo desde os primórdios nada foi copiado? Tudo tem seu formato original? (DO) Na obra Distúrbio eletrônico.Entre o plágio e a autoria Antes do Iluminismo. o que não era a disciplina na qual plagiei da net. 83-84) [. atualmente. As obras de plagiadores ingleses como Chaucer. mas não assumem claramente. cujo poder de transformação social é tão imenso mas que.. talvez seja algo muito característico da cultura pós-livro. enquanto o plágio vai revelando sua atemporalidade. realizada por meio de entrevista com 19 dos 20 sujeitos graduandos de letras envolvidos numa pesquisa de campo de cunho qualitativo. na discussão feita no chat sobre plágio: 1 1 Obra de autoria do Critical Art Ensemble. já que o curso de letras é muito abrangente e então sei o q é de meu interesse. Aconteceu em uma disciplina que não considerava importante para mim.. esta era uma prática perfeitamente aceitável. cuja configuração permite uma leitura não-linear e inter-relacionada (Lévy. tendo em vista a atual economia da informação/conhecimento que se configura a partir do surgimento da internet e o manuseio constante e rápido do hipertexto. Revista Brasileira de Educação v. 2001. que o sujeito corre o risco de naufragar. Vale ressaltar que.].84% assumem claramente já terem cometido plágio de textos. do que no fortalecimento da estética clássica. 2 Essas são falas/escritas que fazem parte de uma discussão sobre o plágio na universidade. reproduzindo as características próprias da comunicação síncrona no ambiente on-line. Rede de nós de imagens. ciências biológicas e saúde – e pelas agências de fomento à pesquisa. Ademais. na área de direito. mas desde q não seja prejudicial na minha construção do conhecimento. E é nesse movimento descontínuo. o que acredito que seja de importância para mim e devo tentar aperfeiçoar-me.. Um poeta inglês podia se apropriar de um soneto de Petrarca. no sentido em que se almeja abordar aqui. os autores afirmam que o plágio. O verdadeiro valor dessa atividade estava mais na disseminação da obra para regiões onde de outra forma ela provavelmente não teria aparecido.] Cópia só será no momento de muita precisão [. traduzi-lo e dizer que era seu.. 2008 359 . De acordo com a estética clássica da arte enquanto imitação. 13 n.] eu sei que não é o caminho correto. dissimulando-se como produtor da linguagem. no entanto. 21% plagiam. 41.. grupo de cinco artistas cujos trabalhos discutem a relação entre arte. (Critical Art Ensemble. além de promover. sons ou textos. Spenser. Coleridge e De Quincey ainda são uma parte vital da tradição inglesa e continuam a fazer parte do cânone literário até hoje.1% dizem não ser a favor do plágio..2 que veio apenas expor à vista. (JL)3 Isso n quer dizer que só faremos copias [. A análise dos argumentos desses sujeitos revelou que 36. como a falta de acentuação das palavras ou o uso de abreviações. nessa constante navegação por entremeios de palavras e frases. Shakespeare. carece de discussões abertas sobre o assunto.. o plágio tinha sua utilidade na disseminação das idéias. apesar de este estudo referir-se ao plágio na área de letras. acredita-se ser relevante pensar-se em projetos/ações que estimulem o exercício da construção da autoria/autonomia na uni- 3 Essa declaração – como outras falas/escritas de graduandos envolvidos no estudo – foi postada num chat de discussão sobre plágio e está transcrita. aquilo que a cultura do papel sempre deixou na obscuridade. Plagiei semestre passado [. principalmente no contexto acadêmico. com a cultura digital. debate sobre as estratégias obscuras utilizadas pela indústria da biotecnologia. 1993). além de serem bastante difundidas entre pesquisadores de vários países (Vasconcelos. como afirmam os sujeitos.

mas na preservação da sua intelectualidade. Essa é uma concepção que difere do plágio. Nesse sentido. na autoria que “[. à revelia do professor – “no final do semestre cheguei a fazer um trabalho que 90% dele era cópia e tirei 9. Barthes (1992) convida também a pensar na intertextualidade quando propõe que se ouça o texto como “uma troca que espelha múltiplas vozes” (p. onde. por meio de links que fazem conexões com outros textos. professores em formação. implica a identificação. 38 maio/ago. assim como quem escreve um texto não será nunca seu autor soberano: o discurso nunca é constituído de uma única voz. pois roubar de si mesmo a possibilidade de um outro pensar. Todo dizer singular é atravessado por muitas vozes. essa noção de intertexto é atualizada nas expressões metafóricas como rede. no qual a nova escritura recobrindo a escritura anterior deixava entrever os traços da primeira. Considera-se. 13 n. não se apóia no império do autor. Torna-se vital a reflexão sobre a prática do plágio entre os graduandos. No hipertexto. nessa perspectiva. 121): “[.. à produção. à característica de não-fechamento do hipertexto digital. como um chamado à reflexão. retomandoos e revelando-os nessa retomada. num ir e vir de significados plurais..]”. o diálogo que se tenta manter nesse texto. que relaciona as mais diversas formas de linguagem e escrita. por seus links. dos quais nasce e para os quais aponta.. Destaca-se. constroem pela inserção no texto da voz de um outro locutor [. do ponto de vista da intertextualidade. visto ser esse um problema que tem tomado proporções críticas. 2005).. todo texto é um palimpsesto (Genette. passando a fazer parte da sua fala. pois. esta discussão volta-se para o espaço educacional e suas condições de fomento à criação. aqui entendido como apropriação indevida de um texto ou parte dele. o espaço acadêmico. trama e teia digitais. muitos textos que se cruzam e se entrecruzam no espaço e no tempo. no livro Palimpsestes. entendendo que “o sujeito só se faz autor se o que ele produz for interpretável” (idem. como diz João Cabral de Melo Neto. no hipertexto. Assim. portanto apresentado como sendo de autoria da pessoa que dele se apodera. como lembra Koch. produzindo um texto com unidade. o reconhecimento de remissões a obras ou a textos. amplia possibilidades de intertextualidade a partir do diálogo entre textos.. progressão.4 Essa idéia leva à compreensão de que qualquer ato de escrita se dá na presença de outro. nesse contexto.Obdália Santana Ferraz Silva versidade. coerência. apagando-se a escrita antiga para sobre ela colocar-se a nova escritura. p. à autonomia do sujeito/leitor para transformar-se num autor/co-autor. 1982). a partir das quais um texto se liga a infinitos outros textos. explica que o uso de escre- ver-se em pergaminhos fez com que o couro de animais utilizado para a escrita fosse muitas vezes reaproveitado. que possui permanente abertura do texto ao exterior. 69). permitindo tecer caminhos para outras janelas. em entre- 360 Revista Brasileira de Educação v.5” confessa um graduando com risos. “Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. Era o palimpsesto. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro. sempre em constante mutação e expansão.] as co-incidências de fragmentos de textos se 4 O autor. resultado que flui para dentro do leitor. ainda. gerado por muitas vozes. é um preço muito caro que o sujeito tem a pagar. 2004. A intertextualidade. p. estimulando o leitor a iniciar a leitura de um novo texto sem ter concluído o anterior.. da inventividade. Bentes e Cavalcante (2007. O hipertexto abre caminhos para a leitura e a escrita intertextuais. de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro” (Melo Neto. Desse modo. p. 73). 2008 . uma vez que. sem referência ao autor. Está relacionada. Daí vem a denominação palimpsesto para os textos escritos em cima de outros. É nesse sentido que todo texto mantém relação com outros textos. Entende-se aqui que as criações humanas se têm construído sobre a soma total de vozes anteriores. de seus textos. 70). é polifônico.] se realiza toda vez que o produtor da linguagem se representa na origem. não-contradição e fim” (Orlandi. que a interpretação de um texto não pode ser exclusivamente de quem o teceu.

bem antes da internet. mas com ela esse ato torna-se uma possibilidade aberta ao infinito. (2003. O transitar na constante busca de in- Acredita-se que as experiências vivenciadas com/no texto digital devam ser conduzidas dentro da universidade de modo que os professores. ultrapassar a fronteiras do transmitido. o graduando tem revelado um agir impulsivo. a teoria e aplicação de procedimentos e recursos disponíveis. a economia e a velocidade que os textos digitais oferecem – e que deveriam estimular um pensar diferenciado. uma vez que a história não gagueja nem caduca. ético.). artigos. p. resenha. 38 maio/ago. que o aluno apresenta como se fosse seu. 13 n. com uma dimensão estética que já é própria da linguagem e da humanidade. 62-63) Entende-se que é nesse sentido que vem ocorrendo o ato de copiar no espaço acadêmico. três tipos de plágio: • plágio integral – a transcrição sem citação da fonte de um texto completo. fugir das margens da timidez. a questão da formação do sujeito leitor/produtor de texto. assim. o plágio se distingue da criptomnésia. sempre preterida no Revista Brasileira de Educação v. enfim. terminam por cometer. o plágio. 2008 361 . entre outros. • plágio parcial – cópia de algumas frases ou parágrafos de diversas fontes diferentes. possam implementar ações que venham a convergir para um novo paradigma no aprendizado e. Mas é fato que essa discussão sempre se impõe e se descreve no cenário educacional por novos pontos de vista. em detrimento da construção do conhecimento que seria proporcionada pelo ato de pesquisa. estética e técnica. explica Schneider (1990): No sentido moral. tornou-se prática constante e um dos motivos expostos pelos graduandos é a falta de tempo pelo acúmulo de atividades exigidas pelos professores. sem a necessária sistematização que deve estar fundamentada em objetivos de busca no processo de aprendizagem. o que o permitirá desenvolver seu senso de criatividade e mergulhar no espaço virtual infinito que é a imaginação. que não há aspectos novos a serem tratados a respeito dessa temática. “O novo não está no que é dito. de acordo com Garschagen (s. uma sede de saber. relacionando ética. Nesse processo. ele precisa ser ativo. 26). ou de uma teoria. para dificultar a identificação. 47-48) formações na internet tem-se convertido na compulsão do simples clicar desordenadamente. quando ao aluno é proposto construir textos como resumo. os graduandos. de movimentos impensados. gerar autonomia no processo de comunicação e de aprendizagem. (p. convidem o sujeito aprendente à participação num processo interativo.Entre o plágio e a autoria vista –. • plágio conceitual – apropriação de um ou vários conceitos. mas no acontecimento de sua volta” (Foucault. Enquanto a técnica introduz a prática. Sobre essa prática. isto é. Pode parecer. com finalidade e objetivos. Como explicam Blattmann e Fragoso: Como linha mestra para criar e manter a sintonia entre os elos está o uso de ética. no entanto. O plagiário sabe que o que faz não se faz. O fato é que a praticidade. Na ética. esquecimento inconsciente das fontes. agora mais estimulados pela facilidade de transitar na tela em busca de informação. respeitar as políticas de privacidade. Então. o plágio designa um comportamento refletido que visa o emprego dos esforços alheios e a apropriação fraudulenta dos resultados intelectuais de seu trabalho. que acontece com muita freqüência entre os graduandos. estética e técnica.d. mas renova-se. A prática de plagiar existe há muito tempo. É desonesto plagiar. Assim. conhecer as normas de editoras e. ou da influência involuntária. ao observar os critérios de direitos autorais. Ademais. em busca de novos conhecimentos – têm contribuído para potencializar essa ação dentro da universidade. A estética une o belo e a harmonia. p. Em seu sentido estrito. ao contrário de ignorar a apropriação/expropriação de textos. com autonomia para lidar e apropriar-se do conhecimento. pelo caráter consciente do empréstimo e da omissão das fontes. a cópia de textos de outrem. 2005. principalmente.

Lispector. que impõe a todo mundo as mesmas maneiras de se ler [. ao passo que a leitura praticada na sociedade é uma leitura individual. Para isso. capaz de. onde cada qual pode ler como quiser e o que quiser em função de seus interesses próprios e do tempo de que dispõe. cassou a autoridade do leitor/produtor de textos. da educação básica à universidade. à realidade motriz do mundo contemporâneo.Obdália Santana Ferraz Silva espaço escolar. p. Entramos na universidade ainda com essa consciência reduzida. veículo das representações do mundo que estão ultrapassadas.. percebe-se a distância enorme e bastante inquietante entre essas margens.. repetitiva. porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. plagiadores. em que o professor não é mais detentor do saber e da informação nem alunos podem ser meros receptores de conteúdos – já que as informações. a internet. enquanto a leitura social é autêntica. A leitura escolar é uma leitura congelada. fracassados intelectualmente. gerando sentimento de eterno recomeço. No pensamento de alguns sujeitos 362 Revista Brasileira de Educação v. a escola tem sido conivente com essa situação: Fomos acostumados desde as séries iniciais a fazer os nossos trabalhos copiando na íntegra textos de livros e enciclopédias. estão ao alcance de todos. visual. que nos foi pregada durante toda a vida escolar. ritualizada. crítico. olhares diversificados. (MM) Voltando o olhar para a maneira como a escola tem tratado a leitura e a escrita.]. 1980. o contexto em que vivemos exige a formação de um aluno que. e nesse ambiente entramos em contato com outro meio da pesquisa ainda mais dinâmico e rápido que os livros. principalmente na internet. 2000) de efeitos paradoxais. isto é. 1994. e isso sempre foi aceitável pelos nossos professores. (Chartier. segundo Orlandi (2001). praticada em situações onde o leitor sabe por que ele precisa ler. passam a seres apáticos. quais sejam: a) Mecanismos do domínio do processo discursivo. interpretar e analisar a realidade. e o modo pelo qual essas práticas estão postas na sociedade industrializada. numa relação que se dá na forma de comunicação direta e transversal Então compreende-se que a escola apenas forjou leitores e produtores de textos. distando do lugar comum. seja sujeito-autor atuante. 10 envolvidos na pesquisa. 155) Em contrapartida. rápida. nas bases de uma leiturização (Senna. motivada pela cultura da cópia. 38 maio/ago. A construção do sujeito leitor/autor na escola É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo. a escola deve engendrar práticas que possam desenvolver no sujeito aprendente os mecanismos que entram em jogo no momento em que ele escreve. em vez de contribuir para a formação de sujeitos da pesquisa que tomam a palavra de uma posição autorizada. pois. 13 n. A leitura escolar é artificial. informatizada. A leitura escolar é arcaica. diferentes vertentes. sempre se apresenta com vestimentas multifacetadas. p. autônomo e interventor. retirando-se da condição de sujeito acomodado e reprodutor de modelos textuais para um sujeito capaz e consciente do seu dizer/ escrever. 80) Se por muito tempo a escola privilegiava a transmissão dos conhecimentos adquiridos por gerações passadas e treinava o aluno para submeter-se à autoridade do professor. e o quanto a escola. a partir da sua autoria. (p. praticada por meios de texto fabricados para se fazer ler. midiatizada. E é no contato com esse novo artifício que nos deslumbramos com as múltiplas possibilidades e a facilidade que ela nos proporciona e é nesse momento que muitos estudantes acadêmicos fazem o uso errôneo dessa tecnologia. reprodutores de saberes produzidos por outrem. 2008 . no contexto atual. b) Mecanismos do domínio dos processos textuais nos quais ele marca sua prática de autor. no qual ele se constitui como autor. enquanto a leitura social se prende à atualidade. com suas pseudo-atividades de leitura não reflexiva e desconectada com a vida.

na maioria das vezes. mas não é lá o único contexto em que a constituição da autoria se dá. co-autor de textos lidos e produzidos. que estimulava o aluno à cópia de textos dos livros (reprodução não autorizada. reporta-se aqui à formação do autor e não à formação do escritor. é um lugar fundamental para a elaboração dessa experiência. Na verdade. pela lógica escolar.. de fato. nesse sentido. modelos. (Matencio. em textos para serem corrigidos para uma nota e não para socialização do conhecimento e divulgação científica.Entre o plágio e a autoria “todos-todos” (Lévy. os sujeitosleitores terminam por internalizar os rituais coercitivos da leitura e da escrita nela vivenciados. mesmo fora da escola. cristalizada. organizar e decidir sobre o conteúdo temático a ser tecido. da educação básica à universidade. receitas. trilham em busca de “vozes” que indiquem caminhos e/ou confirmem suas opções. embora o autor seja formado não apenas na escola. que conduzam o sujeito-aprendente na busca da construção de novos saberes e conhecimentos.. a fim de que se constitua. Então. E. sempre reforçada pelos exercícios escolares e provas que enfatizam a memorização. a escola. percebe-se que as propostas de produção sempre foram (e ainda são!) transformadas. A esse ponto de vista acresce-se uma visão da leitura como decodificação de conteúdos que deverão ser avaliados pelo professor. vincados que são pelas experiências construídas nas suas andanças discursivas pelos caminhos da escola. que possuam autoria. o escritor se faz na vida. visto que seguiam sempre um modelo de leitura/escrita preestabelecido. Não imprimem no texto um estilo pessoal. Revista Brasileira de Educação v. um “eu” que se assume como produtor de linguagem e. urge a quebra de paradigmas e a mudança da postura pedagógica autoritária para uma abertura a outros possíveis. o que significa que a escola é um espaço muito proveitoso no que se refere à contribuição que pode dar na formação do sujeito-autor. 2008 363 . isto é. confere voz à sua identidade. na relação com a linguagem. selecionar. copiar. Portanto. já que as práticas de ler/escrever não propiciavam ao aluno refletir sobre o que liam/escreviam nem aprender a decidir por si mesmo. Orlandi (2001) declara ainda que: [. mas fora dos seus limites também. 82) A escola.. sem receita [. no sentido já explicitado. quando desafiados a produzir textos.] a escola é necessária. p. uma vez que a relação com o fora da escola também constitui a experiência da autoria. Não obstante. a da autoria. no espaço e no tempo..] o trabalho com a leitura remete-se ao uso do texto como pretexto para o estudo da gramática e à concepção redutora de texto que o vê como uma somatória de frases.. na escola. enquanto lugar de reflexão. 2002. mas terminam por apropriar-se de uma forma de dizer/escrever na qual não se dão ao direito e ao prazer de escolher. E é fato que a prática pedagógica sempre repetitiva e reprodutora adotada pela escola ocasionou a baixa auto-estima do Ocorre que. sujeitos autônomos. 38-39) sujeito/leitor/produtor de textos e a prática da escrita reduziu-se ao ato pedagógico de reproduzir. escola e criação não vivem juntas etc. Com relação à formação do autor na escola. quando diz que “a escola não forma escritores. 13 n. seqüência e hierarquização de conteúdos.] a escola não ultrapassa a formação da média. apropriação indevida. mecânica. que se responsabilizem pelo seu dizer/escrever.. esvazia-o da sua existência concreta. 112) –. visto que sua competência discursiva depende das histórias de leitura do sujeito. o essencial não é aprendido na escola. (p. vale a pena lembrar Orlandi (2001). tem pensado a escrita como prática estritamente escolar. plágio). negando ao aluno a possibilidade de assumir-se como sujeito-autor: dá-se a repetição do dito lateral dos livros e do mestre! Daí. embora não suficiente. Na escola [. 1996. quando se fala em produção de texto na escola.” (p. a leitura sempre figurou como tarefa obrigatória. 38 maio/ago. De toda forma. 75). a escola distanciou-se do objetivo de formar autores. pois esse não é um compromisso da escola. Mas a construção do autor não se dá sem a formação do leitor. p.

expressar ou silenciar. é urgente criar um espaço nos entre-lugares da academia – onde geralmente se dão os embates e as ambivalências – que engendre a constituição da autoria. seu interlocutor. as zonas não confrontadas dos dilemas. em que deixa suas nuanças. s. p. histórico-social e ético-política. 2001. fundo e forma confundem-se e fundem-se. revela-se nas palavras: palavra e sujeito misturam-se. Então. No seu dizer. ao enxergar-se como autor. da sociedade. nele.. institui. Me ocorriam idéias e eu sempre me dizia: “Tá bem.] ao longo do texto pontos de deriva possíveis. dos conhecimentos. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.) Os versos de Barros sugerem que. A constituição da autoria: um exercício de autonomia e consciência do outro O menino aprendeu a usar as palavras. descobre seu método próprio de dizer e significar o mundo. para além das questões éticas do plágio. ali. e o sujeito vai encolhendo-se por entre as margens do cruel. suas marcas. é relevante salientar que. tece o seu texto (tarefa árdua. 192) ou é superficial ou é inexistente. Então eu resolvi tomar nota de tudo que me ocorria. oculto. 1997. que é escrever. continuava o desespero toda manhã diante do papel branco. nesse silêncio (o não-dito). Amanhã de manhã eu escrevo”. grotesco e risível sistema excludente que está sempre a arremessá-lo para os bastidores do currículo – o lado encoberto. E a idéia? Não tinha mais. a sua identidade. (apud Perissé. de alguma forma. “o que é um autor?”. pelo ato da escrita. traça seu perfil na textura do seu dizer. poder-se-á percebê-lo no dito e no não-dito da sua escritura. 38 maio/ago. para constituir autores. ele mesmo responde que a noção de autor “constitui o momento forte da individualização na história das idéias. inscrito no texto que produz” (Orlandi.d. Já vem a frase feita. este como sujeito do desejo que. fundo e forma é uma coisa só. ao equívoco. forja seu “eu”. das literaturas. Mas se nas séries da educação básica o exercício da produção de texto não é potencializado. como exer- 364 Revista Brasileira de Educação v. Dessa maneira.. No entanto. Sem perceber que. Barros. 2001. Voltando à instigante pergunta de Foucault (1992).. p. 2008 . das incertezas – e. assim diz Lispector: Olha. seguindo as pegadas do ato de escrever do sujeito. Dialogando com Bakhtin (2003). a partir da tessitura de palavras e teorias construídas no seu meio social e cultural. 13 entende-se então que o autor é o sujeito capaz de criar discursos com sentido. no texto interposto: “[. mostra-se. avaliar. no mesmo ato. conseqüentemente. mas necessária!). 76). 33). no qual poderão e deverão se estabelecer as relações necessárias à construção de textos pelo aprendente. na universidade esse espaço de construção da escrita como possibilidade da constituição da autoria é ainda extremamente limitado. 2004. Não tinha conhecido ninguém ainda. em mim. na história da filosofia também e na das ciências” (p. A autoria aqui é referida nas suas dimensões criativa. o leitor. pois aí está o tripé que sustentará a escrita no espaço acadêmico. considera-se que o sujeito ao escrever inscreve-se também nas entrelinhas do seu texto. ele abre espaço para a presença do outro. Enquanto eu deixava “para amanhã”. p. eu trabalhava e tive que descobrir meu método sozinha. está a sua imagem-corpo. ao trabalho da história da língua” (Orlandi. visto que aparecem [. Ao mesmo tempo em que o sujeito escreve. p.. ele autoriza-se a examinar. nele. as peraltagens com as palavras são essenciais desde o primeiro momento em que o menino ou a menina começam a sentar-se nos bancos da escola. a aprendizagem resultante de um processo que não reivindica “a prática da linguagem como fio condutor do processo de ensinoaprendizagem” (Geraldi. E começou a fazer peraltagens. constituindo-se como autor. Dessa tarefa árdua e necessária. pois “o autor não realiza jamais o fechamento completo do texto. Compreende-se que é pelo ato criador da escrita que o sujeito se insere nesse meio sociocultural. oferecendo lugar à interpretação.Obdália Santana Ferraz Silva Ademais. 13 n. expõe-se à luz do seu próprio discurso. 77).] o sujeito está.

(Orlandi. o mérito de ser autêntico é diferenciado do de ser plagiador. porque. e. 78-79) Em tempos de novos desdobramentos tecnológicos e sociais da escrita. possibilidade de autoprodução. ao mesmo tempo que se remete à sua própria interioridade: ele constrói assim sua identidade como autor.. social. ao participar intensamente. ressignificada. Para tanto. que ele possa assumir uma nova posição diante da escrita: a de sujeito do conhecimento.. use e cite! (Blattmann & Fragoso. pertencimento e responsabilidade por aquilo que se cria: há um “eu” que se revela produtor de linguagem (idem). De acordo com Orlandi (2001). intervém no movimento que faz a história. da identidade do outro. No contexto atual.]. p. Seu texto vai sempre se constituir da tensão com outras vozes sociais. o hipertexto dialetiza a distinção entre texto de leitor e texto Revista Brasileira de Educação v. confesso que venho produzindo pouco ultimamente. mas alguém que também produz. A marca do autor-criador revela-se no que o sujeito produz e na forma como ele organiza sua fala e escrita num dado contexto. 38 maio/ago. 2008 365 . trapaceia com a própria). leva-o à não-consciência do outro. 13 n. o (hiper)texto configura-se como um espaço de leitura e escrita sem margens e sem fronteiras. pois nosso trabalho com produção de textos é menor” (JL). e. Pois.] cala a voz do outro que ele retoma [. não se pode esquecer de que. possa também valorizar a produção intelectual do outro. Para que o sujeito se coloque como autor. revelando a emergência de que. pelo menos no espaço acadêmico – esse como potencializador de criatividade –. têm ocorrido mudanças de paradigmas com relação a novos valores. forjando o plagiador que: [. nas instâncias pessoal. implicando outras possibilidades sociais e cognitivas. expondo suas idéias. Construído na interação texto-sujeitos. 2004.] no capital intelectual. Deve ser criada e estimulada uma cultura de respeito penetrada nas amplas esferas (pessoais. Isto é. política e educacional. se engendrem novas possibilidades de exercício de autoria. 2003. no contexto da sociedade informática e na “era do conhecimento”. a trajetória dos sentidos (nega o percurso já feito) e nos processos de identificação (nega a identidade ao outro. ele tem de estabelecer uma relação com a exterioridade. que exige a revisão das estratégias de lidar com o escrito. à negação da autoria. toma o lugar do outro indevidamente. (p. entende-se que. cada vez que a universidade ignora a necessidade da viabilização de projetos que engendrem práticas de leitura/escrita com vistas à construção da autonomia do aluno para responder pelo que diz e pelo que escreve. considerando que todo texto é reescrito no tempo da leitura e todos os discursos que são providos da função autor comportam a pluralidade de “eus” (Foucault.. [. faz-se necessária uma reconfiguração na forma como o graduando se torna sujeito da escrita ou como a ela se assujeita. a seu silenciamento como autor. de acordo com Barthes (1992). interações e papéis. em conseqüência. educacionais e profissionais) em identificar tanto a obra como o artista. relações. ele aprende a assumir o papel de autor e aquilo que ele implica. propondo assim refletir sobre as concepções de autoria e autonomia: o hipertexto. p. conseqüentemente. Regra geral: leu. 72) certamente redesenhada. a constituição da autoria é Ao falar de autoria. é preciso que se faça do leitor não apenas um consumidor de textos.Entre o plágio e a autoria cício de autonomia. exigindo posicionamento crítico. Nessa perspectiva. indagações e soluções para os desafios que incessantemente se apresentam. o autor também se apaga... constituindo-se num movimento que implica exercício de contínuo agir para a busca de novos saberes. 61) De outra forma. 1992). gostou. que. Decerto a universidade ainda precisa construir esse espaço e o professor precisará aperceber-se dessa necessidade com certa urgência: “Bom. Desse conjunto de transformações emerge um novo espaço de leitura/escrita que exige outras competências. ao mesmo tempo que se inscreve. novas organizações na educação e na sociedade..

todos lançados sobre uma mesma superfície perceptual. É assim o hipertexto. leitura. de rizomas. estimular criações na comunidade acadêmica que possam contribuir com os graduandos no desdobramento de vínculos motivadores do desenvolvimento intelectual.] o problema. não é novo. Como enuncia Ramal (2002). 96 366 Revista Brasileira de Educação v. evidentemente. é talvez uma das primeiras e mais importantes tarefas daqueles que se dedicam a formar recursos humanos nesta área. Urge então reconfigurar. pois não se circunscreve ao âmbito telemático. Nesse espaço o sujeito leitor é necessariamente chamado a estabelecer objetivos. geralmente estão apenas intuídos. 38 maio/ago. ler o mundo tornou-se virtualmente possível. social e educacional. amalgamados uns sobre os outros formando um todo significativo [. [. Não se pode. 171) aqui: representar – como autor é assumir. O melhor ainda não foi escrito. mas sim encontrar pontos de contato. recriar seu texto individual. como buscar e identificar a informação confiável.Obdália Santana Ferraz Silva de escritor. junto com elas.. o papel do sujeito-autor nesse contexto extrapola os muros da escola. Assim. “a idéia da intertextualidade permite pensar no diálogo entre épocas diferentes e entre diversos pontos de vista. muito bom. dada a possibilidade de acesso ao texto na internet e à sua modificação no ambiente digital. Coenunciador. A construção hipertextual presentifica os textos com os quais o autor dialoga. na sua relação com a linguagem. (p. encontramos sons. diante da instituição escolar e fora dela (nas outras instâncias institucionais) esse papel social. viabilizando mudanças mais profundas em atendimento a essas demandas tão urgentes.. a qualquer hora do dia e por mais de um leitor simultaneamente. 79). elegendo links entre os vários disponíveis. Se tais questões sempre estiveram colocadas e geravam preocupações com respeito à pesquisa conduzida em moldes “tradicionais”. tecer por entre metáforas de rede. e. facilitando a tarefa de validação da informação disponibilizada. bem como a subversão dessa relação. haja vista que sua natureza imaterial o faz ubíquo por permitir que seja acessado em qualquer parte do planeta. deve estar relacionado ao papel que representa na sociedade em que está inserido. gráficos e diagramas. com a manutenção de antigos problemas e o surgimento de novos. Xavier (2004) traz um conceito de hipertexto como tecnologia de leitura e escrita que medeia as relações do sujeito na sociedade da informação: Na esteira da leitura do mundo pela palavra. vemos emergir uma tecnologia de linguagem cujo espaço de apreensão de sentido não é apenas composto por palavras. O melhor está nas entrelinhas. 126). como avaliá-las. na medida em que o hipertexto gera associações com outras leituras. em uma obra impressa. Com ele.]. ensinar bom-senso e experiência. O que é bom. mas alguns balizadores podem ser estabelecidos. dentro da academia. 13 n. (In)Conclusões: muitos fios por tecer Tudo acaba mas o que te escrevo continua. Lispector. 2001.. o leitor pode decidir o rumo de sua leitura. tomar decisões. é claro. 2008 . nele a relação de intertextualidade é uma constante e concretiza-se na interação entre os vários textos de signos diferentes. p. mas. plurivocidades que se enriqueçam mutuamente” (p. ensinar a um jovem pesquisador como validar suas fontes. Com efeito. voltar o olhar para o problema do plágio na universidade torna-se ponto-chave. desenvolvendo estratégias de controle e regulamento do próprio conhecimento. co-autor. visto ser lá o lugar onde a produtividade e o conhecimento devem ser calcados na autoria/autonomia.. Não se trata de negar o passado nas vozes do futuro. constituir-se e mostrar-se autor” (Orlandi. 1980. as concepções de pesquisa. Assim sendo. De acordo com Palacio (2006). com mais força elas se colocam no âmbito da pesquisa on-line. A autoria está relacionada ao “aprender a colocar-se”: “Aprender a se colocar – Dessa forma. que. produção e autoria. p.

Entre o plágio e a autoria Compreende-se. O zapear a informação em bibliotecas e na internet. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE A LEITURA E ESCRITA NA SOCIEDADE E NA ESCOLA. ao participar das situações concretas de comunicação. intertextos. é preciso que a universidade passe a contribuir para que do seu âmago possam emergir sujeitos autônomos. p. 8-17. Expropriação de propriedade intelectual. Disponível em: <http://www. como escreve um dos graduandos. possam reverter-se em artigos para publicação em periódicos especializados ou em livros. na forma de comunicações em congressos. seres da linguagem. Belo Horizonte: Autêntica. a reflexão e a construção da identidade do graduando como autor possam ser exploradas. 2008 367 . porquanto é também conflituoso e complexo o problema da autoria na universidade: construir práticas em que a voz e a função do autor se concretizem é. 13 n. cientes do lugar múltiplo. 149-162. Sem a pretensão de fechar a discussão. Isso não tem preço!!! (CS) da palavra do outro pelo reconhecimento do que é produzir textos. Por conta disso. reinventando-se. Que saibam mover-se nesse mundo (autor. p. a partir do exposto. Maristela Petrili de Almeida. Lisboa: Edições 70. com tantos textos disponibilizados pela internet. seminários. Belo Horizonte: Fundação AMAE para Educação e Cultura. possam ser socializadas. BRASÍLIA. está clara a necessidade que têm de ser reconhecidos pela competência discursiva. assim. Para os graduandos. Nesse sentido. os estudantes da universidade fazem o plágio conscientemente. leitor. Pois há um caminho/labirinto a cada manhã. 2003. instável e provisório que ocupam na contemporaneidade. Sabem que não devem.br/materia. Anne-Marie. São Paulo: Conrad. BARTHES. Referências bibliográficas BAKHTIN. fios conflituosos. 1992. poderá constituir-se em lócus para que a inventividade. Pascoal (Coords. 1997. Que nesse contexto. pela atividade da linguagem. assumirá. hipertextos. Nas palavras de Vygotsky. o processo de autoria. p. conseqüentemente. no qual o sujeito vai contribuir com suas palavras.). SOTO. sua voz ressoará no texto – “dizer” é “ser” – e. mas são seduzidos pela facilidade em conseguir um bom trabalho com o menor esforço. em meio a essa movência de textos. São Paulo: Martins Fontes. 2003. M. Distúrbio eletrônico. FRAGOSO. a fim de que essas produções. FONSECA. já que um fio puxa o outro. In: LEITE. vale dizer que. a internet. nos tempos atuais. BARROS. que a discussão sobre a constituição do autor no espaço acadêmico continua sempre aberta. possa tomar consciência Revista Brasileira de Educação v. 1994. São Paulo: Moderna. Porém. S/Z. produzindo sentidos. O que é um autor? Lisboa: Vega. 38 maio/ago.. 2001. 1992. cumprindo sua função social. uma posição no contexto socioistórico.. cfm?tb=newsletter&id=3>.historiaehistoria. 2006. Michel. Manoel de Barros. 1994. Anais. FOUCAULT. em vez der ser vislumbrada apenas como meio facilitador do plágio. 2001. nada se compara ao prazer de se produzir um trabalho e ser reconhecido por aquilo que você foi capaz de fazer. há mesmo urgência em implementar ações/modificações com relação à prática de produção de texto na universidade. incentivando-o a construir situações em que se instaure a produção do conhecimento e. Graça Maria (Orgs. pela capacidade de produção do conhecimento. um desafio que se impõe e se propõe aos professores.com. Ursula.).. a iniciativa. Estética da criação verbal. CRITICAL ART ENSEMBLE. O menino que carregava água na peneira. CHARTIER. “somos conscientes de nós mesmos porque somos conscientes dos outros e somos conscientes dos outros porque em nossa relação conosco mesmos somos iguais aos outros em sua relação conosco” (apud Freitas. Acesso em: 23 fev. no fórum de discussão sobre leitura e escrita: Uma coisa realmente deve ficar claro. texto/hipertexto) – que se revela e é desvelado pela palavra escrita – veiculando seus saberes/conhecimentos. Randal. A escrita na escola e na sociedade: os efeitos paradoxais de uma distância constatada. 316). BLATTMANN. Palavras de encantamento: antologia de poetas brasileiros. Roland..

dialogismo e construção do sentido. Disponível em: <http://www.. 2004. In: MARCUSCHI. 2000. Maceió: UFAL.. Nos textos de Bakhtin e Vygotsky: um encontro possível. In: BRAIT. Gérard. .Obdália Santana Ferraz Silva . Palimpsestes.br/Ler_Pensar_Escrever_o_livro. Clarice. 2004. João Cabral de. GERALDI. Eni p. 2007. produção de textos e a escola: reflexões sobre o processo de letramento. E-mail: beda_ferraz@yahoo. Mônica Magalhães.html>. São Paulo: Cortez. Acesso em: 11 abr. em parceria com duas bolsistas (Programa de Iniciação Científica – PICIN).. Publicações recentes: “Ler e escrever nos labirintos hipertextuais” (Educação e Contemporaneidade.facom. 2005.ufba.. Sonia R. Acesso em: 30 jun.pdf>. 1 CD-ROM). 23. 2001. é professora do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).senna. S. S. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.. Disponível em: <http://www. MELO NETO. Rio de Janeiro: Lucerna. PALACIO. Gabriel. 170-180. Porto Alegre: Artmed. escrita e aprendizagem. Acesso em: 26 fev. Campinas: Associação de Leitura do Brasil. Maria de Lourdes Meirelles.htm>.secrel. 2005. 38 maio/ago. Antonio Carlos. p. Michel. Anais.com. MATENCIO. Maceió. Paris: Seuil. Anna Christina. 51-62..pro.fev. 2007. Disponível em: <http://www. Água viva. XAVIER. 16. p. alb. RAMAL. Campinas. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 1980.. Educação na cibercultura: hipertextualidade. Disponível em: <http:// cienciaecultura. 2006. Maria Teresa A. Luiz Antonio. PERISSÉ. BENTES. 2008). 2008 . 2007. 1997.php?script=sci_arttext&pid=S000967252007000300002&lng=pt&nrm=iso>. O plágio na comunidade científica: questões culturais e lingüísticas. OBDÁLIA FERRAZ. 1996. LISPECTOR. São Paulo: Loyola. GENETTE.br/canais/docentes/publica/ principal.edu. 2002. VASCONCELOS. 12. Acesso em: 25 set.br/ciberpesquisa/ palacios/impactos. Intertextualidade: diálogos possíveis. CAVALCANTE. Rio de Janeiro: 34. 13 n. 2002. Antonio Carlos. Campinas: Editora da UNICAMP. 2005. jan.d. Tecendo a manhã. 18.). Leitura. Letramento ou leiturização? O sócio-interacionismo na lingüística e na psicopedagogia. pensar e escrever. 2006. Campinas: Editora da UNICAMP.br/jpoesia/joao. . leitura e efeitos do trabalho simbólico. ORLANDI. Pierre. Acesso em: 24 fev.. LÉVY. Universidade em tempos de plágio. Bruno. A. FREITAS. Disponível em: <http:// www. Anais. p. KOCH. Impactos e efeitos da internet sobre a comunidade acadêmica: quatro dificuldades e um possível consenso. 2007. Acesso em: 9 fev.br/biblioteca/leiturizacao_new.com. 1990. Disponível em: <http://www.php?pr=1399&nt=54>. 2006. 2007.perisse. 2006. Ingedore./jun. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido. 2000. Portos de passagem. Marcos. Beth (Org. A ordem do discurso. “O sujeito que tece/interage pelas malhas da rede digital” (In: ENCONTRO DE PESQUISA EDUCACIONAL DO NORTE E NORDESTE.html>.br Recebido em agosto de 2007 Aprovado em dezembro de 2007 368 Revista Brasileira de Educação v. v.d. Campinas: Pontes. Leitura. a pesquisa “Leitura e escrita por entre as malhas da rede: possibilidades de constituição de autoria/co-autoria”. na qual desenvolve. doutoranda em educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). 2006. L. Ler. Acesso em: 6 mar. Disponível em: <http://www. G. 311-327. O que é virtual. SENNA.bvs.htm>. São Paulo: Martins Fontes. Campinas: Editora da UNICAMP. São Paulo: 34. In: CONGRESSO DE LEITURA DO BRASIL. n.com. XAVIER. 14. texto e hipertexto. Anais. 2005). Andréa Cecília. leitura. 1982. “Nas armadilhas das trilhas hipertextuais: que lugar ocupa o aluno de letras como autor do seu dizer?” (In: CONGRESSO DE LEITURA DO BRASIL. 1997.com.br/anais16/index. a psicanálise e o pensamento. Pesquisa de doutorado em andamento: “A constituição da autoria no cenário acadêmico: que práxis pedagógica norteia a produção textual na universidade?”. Discurso e leitura.. Campinas. Ladrões de palavras: ensaio sobre o plágio. GARSCHAGEN. Bakhtin. João Wanderley. 2007.br/scielo. Campinas: Mercado de Letras. 1993. Interpretação: autoria. SCHNEIDER.

2008 413 . Na intenção de contribuir com essa discussão. objetivou-se refletir sobre a necessidade de abrir espaços objetivos Revista Brasileira de Educação v. à medida que textos de todos os tipos. em detrimento da construção da autoria. se vão ampliando entre os graduandos as facilidades de fazer cópias. 38 maio/ago.Resumos/Abstracts/Resumens Obdália Santana Ferraz Silva Entre o plágio e a autoria: qual o papel da universidade? Esse estudo tem como finalidade discutir sobre o plágio no contexto acadêmico. enquanto ato que se vem afirmando significativamente a partir dos hipertextos digitais. 13 n. circulam velozmente pela rede. e considerando que. referentes às várias áreas do conhecimento.

Key words: plagiarism. as he or she navigates the digital network. En la intención de contribuir con esa discusión. en su trayecto laberíntico por las mallas de la red digital. nesse sentido. no seu percurso labiríntico pelas malhas da rede digital. as práticas de leitura e escrita. na dialética entre o coletivo e o individual. en el contexto de la sociedad digital. with the intention of providing the student. a construção da autoria se efetive. Y que.Resumos/Abstracts/Resumens e subjetivos na universidade – lugar de produção da linguagem – para que. se refieren a las varias áreas del conocimiento. se van ampliando entre los graduados las facilidades de hacerse copias. autoría. no contexto da sociedade digital. se pretende pensar sobre la necesidad de abrir espacios objetivos y subjetivos en la universidad – lugar de producción del lenguaje – para que. In this sense. circulan velozmente por la red. possam ser vivenciadas na perspectiva de incentivo à produção intelectual. autoria. entendiendo que es el acto de escribir el que hace al autor. this study intends to reflect on the need to open objective and subjective spaces in the University – the place for the production of language – in order to make construction of authorship effective in the dialectic between the individual and the collective. entretanto. author Entre el plagio y la autoría: ¿cuál es el papel de la universidad? Este estudio tiene como finalidad discutir sobre el plagio en el contexto académico. bien como en la intención de proporcionar al graduado profesor en formación – la autonomía para escribir e inscribirse como autor. authorship. E que. Palavras-chave: plágio. la construcción de la autoría se concretice. autor 414 Revista Brasileira de Educação v. 13 n. entendendo que é o ato de escrever que faz o autor. y considerando que. bem como na intenção de proporcionar ao graduando – professor em formação – a autonomia para escrever e inscrever-se como autor. a medida que textos de todos los tipos. as a future teacher. hecho que viene afirmándose significativamente a partir de los hipertextos digitales. en este sentido. with the autonomy needed to write and to establish him or herself as author. In order to contribute to this discussion. autor Between plagiarism and authorship: what is the role of the university? This study seeks to discuss plagiarism in the academic context as an act that has increased significantly due to free access to digital hypertexts. las prácticas de la lectura y de la escrita. puedan ser experimentadas en la perspectiva de incentivo a la producción intelectual. 38 maio/ago. 2008 . en la dialéctica entre el colectivo y lo individual. undergraduate students find it easier to copy than to construct their own authorship. en detrimento de la construcción de la autoría. reading and writing practices should be experienced as the motivation for intellectual production. Considering that there are texts from diverse fields of knowledge circulating on the internet. Palabras clave: plagio.

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