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A PASTORA

MIDU GORINI

midugorinibook
primeira edição

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2010 ©

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MIDU GORINI
A PASTORA
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MIDU GORINI
A PASTORA
(“long-short story”)

Primeira edição

midugorinibook
Brasil. Catalogação na fonte
midugorinibook
midugorini@bol.com.br
2010 ©
Midu / Gorini, Romildo Filho, 1955.
A PASTORA ® primeira edição
l. literatura brasileira. l. titulo

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A PASTORA
Epígrafe Indispensável

― Quem sabe respirar o ar de meus


escritos sabe que e um ar da altitude,
um forte ar. E preciso ser feito para
ele, senão o perigo de se resfriar não e
pequeno. O gelo esta perto... , mas
com que tranqüilidade esta todas as
coisas, a luz, com que liberdade se
respira... , o autentico livro do ar das
alturas.

Friedrich Nietzsche.

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A PASTORA
Preâmbulo

― Um livro para poucos, que possui o


ar forte da altitude, o gelo esta ao lado,
resta saber se você e feito para ele e
sabe respirar o ar forte das alturas. Um
ar, com pouco oxigênio e fragmentos
de fatos verídicos, regados a sangue
frio, dominados por violenta emoção.

Midu Gorini.

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A PASTORA
MARIA JOSÉ nasceu em 1910, em
uma pequena cidade do interior do
estado de São Paulo, em uma típica
família de classe média. Seu pai José,
agricultor austero fazia milagres de
produtividade e renda na sua fazenda
de quase duzentos alqueires paulista,
sua mãe Maria, dedicada ao lar, fazia
de tudo para dar uma boa educação à
filha, até então única, batizada com o
nome das avós, Rita Regina.
Com o passar do tempo, ficou
claro para todos que Maria José não
herdou a saúde forte da sua família, ela
era uma criança problemática e desde
os seus doze anos, ficava prostrada na
cama, não brincava, conversava pouco,
dormia mal. Se alimentava pior ainda,
às vezes apresentava uma irritabilidade
fora do comum, bem próximo a uma
crise histérica.
Os médicos não se entendiam
quanto ao seu quadro clínico. O
médico da família, não achou nada de
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errado com a menina, no entanto a
encaminhou para uma avaliação
neurológica na capital. Por sua vez o
neurologista não encontrando nada de
errado na função cerebral de Maria
José, acabou encaminhando-a para
uma consulta com um eminente
psiquiatra, que simplesmente não
conseguiu fechar diagnóstico algum.
Para ele o problema da jovem não era
de origem psicológica e sim
neurológica, que devia estar
provocando essas crises de
irritabilidade, associadas a outros
sintomas.
Neste jogo de empurra, novos
exames foram realizados e nada, não
conseguiram encontrar uma explicação
lógica para o caso de Maria José. Ela
passou a ser tratada com
medicamentos paliativos, portanto não
geravam a cura, mas geraram terríveis
efeitos colaterais que acabaram
agravando o quadro clinico,
provocando a suspensão imediata dos
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medicamentos prescritos na capital,
pelo médico da família, que preferiu
não dar remédio algum para a menina,
apenas as vitaminas rotineiras.
No entanto seu José e dona
Maria, não se conformaram com a
situação da filha caçula, pois algum
remédio, alguma solução deveria
existir em algum lugar. Eles então
descobriram por intermédio de um
primo distante, de nome Jair, a
existência de um médico espiritualista
chamado Dr. Pietro, por todos. Na
verdade ele não era um médico de
formação, mas sim um médium que
começou a ganhar fama com as suas
curas milagrosas no estado de Minas
Gerais.
A princípio os pais de Maria José,
católicos praticantes, fervorosos em
sua Fé, relutaram com a possibilidade
de levar a filha para fazer uma
consulta com esse pseudo-doutor,
contudo naquele momento o médium

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Pietro constituía a última esperança de
cura para a menina.
Sem saída acabaram levando
Maria José para Minas Gerais, se
hospedaram na casa de Jair. O médium
Dr. Pietro analisou criteriosamente a
menina e concluiu que ela não tinha
nada de errado espiritualmente. Ele
percebeu um fato que os outros
médicos deixaram passar em branco.
Maria José não tinha vontade de fazer
nada, preferindo ficar prostrada na
cama, porque lhe faltava um objetivo
sólido na vida e a sua irritabilidade
vinha da cobrança que a família lhe
fazia para ela levantar-se e fazer
alguma coisa.
Dr. Pietro então sugeriu ao seu
José, que ele deixasse a filha
hospedada na casa do primo distante,
acompanhada pela mãe, desse modo
ele poderia iniciar um tratamento que
devolveria Maria José à vida normal e
assim se iniciou um tratamento que
durou três longos anos.
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O médium ciente que não havia
nada de errado espiritualmente com a
sua paciente, utilizou-se dos seus
conhecimentos das teorias do Dr.
Freud, descritas no livro “Estudo sobre
Histeria”, associados aos seus
conhecimentos de hipnose, adquiridos
pela leitura das teorias do Dr. Franz
Mesmer. Um médico alemão que
abandonou a medicina para se dedicar
exclusivamente ao estudo da hipnose e
acabou ficando conhecido no mundo
todo, como Mesmer, o magnetizador.
O Dr. Pietro traça a sua linha de
tratamento para curar definitivamente
a sua jovem paciente, a única linha que
ele achava viável.
O médium sabia que a vontade,
existindo no homem em diferentes
graus de desenvolvimento, serviu, em
todas as épocas, seja para curar, seja
para aliviar. Ela desenvolve um fluído
corporal e espiritual, gerando um
magnetismo entre ambos, onde o
corpo pode pedir apoio ao espírito e
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vice versa, tudo isso aliado a um
magnetismo maior ainda, a oração que
uma alma pura e desinteressada dirige
a Deus. Que responde com a cura,
quando à Fé sincera e há pureza de
intenção, tanto do médium curador,
como da paciente a ser curada.
O primeiro passo terapêutico do
Dr. Pietro foi utilizar os recursos da
hipnose, ele queria através da sugestão
hipnótica transformar Maria José na
mais forte das mulheres, e isso lhe
parecia uma tarefa fácil, pois sua
paciente não tinha vontade, porque não
tinha nenhuma idéia a ser cumprida
com rigor.
Baseado no fato onde o homem
mais forte é sempre aquele que tem
uma idéia só, pois tudo que existe nele
de energia, vontade, força física e
inteligência e totalmente canalizado
para um único fim.
Com esses alicerces o médium
iria criar uma nova Maria José de
potencialidade pessoal infinita, onde
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dificilmente o mundo poderia resistir
ou detê-la em sua única e derradeira
intenção, levar adiante a sua única
missão na vida.
Dr. Pietro escolheu para Maria
José a missão de vida, mais nobre que
ele conhecia a de levar às pessoas
desafortunadas ou não, ateias ou não, a
Palavra Sagrada, levar a Cura Sagrada,
através da Fé. Para esse fim ele
ensinou a sua paciente tudo que sabia
sobre os Quatro Evangelhos, sobre os
Velhos Testamentos, sem influenciá-la
para essa ou aquela Religião ou
mesmo para a Doutrina Espírita.
Ensinou-lhe os seus métodos de
cura, utilizando conjuntamente a
Palavra Sagrada, associada às teorias
de Mesmer e Freud. Ensinou a ela que
grande parte das doenças tem origem
no imaginário das pessoas, as
chamadas doenças psicológicas,
facilmente curadas pelo processo de
sugestionamento hipnótico.

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Onde o hipnotizador faz
perguntas, obtendo uma resposta
verdadeira, pois sob hipnose o
paciente só responde a verdade dos
fatos, em seguida sugestiona o
paciente em renegar a doença em
questão, obtendo assim uma cura
rápida para os seus males.
Que muitas doenças são auto-
limitantes, duram certo tempo, como
um resfriado comum, cujo tratamento
com médico ou sem médico, com
remédios ou sem remédios cura em
sete dias, nestes casos uma boa oração
ajuda o paciente a curar-se mais
rápido.
Ensinou a Maria José que existem
doenças que lesam o organismo, como
a cárie dentária, nestes casos o doente
só se cura se for realmente merecedor
da Graça de Deus, se o Milagre não
ocorrer, não é culpa do médium, pastor
ou padre. É culpa do próprio paciente
que por suas ações terrenas, não foi
merecedor do milagre.
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Todo esse penoso processo durou
três longos anos, de labuta diária, onde
Maria José paulatinamente foi
transformando-se de uma menina
mimada, doente, desenganada por
todos os médicos que a consultaram.
Em uma jovem mulher austera, rígida
em seus princípios religiosos,
possuidora de uma vontade inabalável
e com uma missão nobre pela frente,
sair pelo mundo e curar em nome de
Deus.
Maria José recebeu alta e
retornou com a sua mãe para o interior
paulista, enfim de volta ao lar, na casa
da fazenda, onde a sua cura foi muito
festejada. Causando inclusive espanto
nos parentes, amigos em geral e
principalmente no médico da família,
pela boa disposição, aparência
saudável e altivez apresentada por
Maria José, todos sem exceção
consideraram a cura um verdadeiro
milagre.

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No entanto, poucos dias depois,
esta alegria familiar se transforma em
profunda tristeza quando Maria José
abre o telegrama enviado pelo primo
Jair, noticiando a morte do Dr. Pietro,
vitimado por um fulminante ataque do
coração. Ela sai pelo quintal da casa,
depois de entregar o telegrama para a
mãe, vai até as árvores frondosas de
sombra fresca, e senta-se em um
balanço rústico preso por duas cordas
a um forte galho.
E em profunda meditação,
observa à tarde que arde covarde ao
sol, anunciando o fim do dia, a
luminosidade intensa ofuscava-lhe a
visão. Neste momento intimista ela
tem pela primeira vez em sua vida a
completa consciência da sua
personalidade, da sua enorme força de
vontade de viver e vencer, dos
conhecimentos adquiridos durante o
seu processo de cura, que precisam ser
criteriosamente postos em prática.

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E surge para ela o seu momento
mais íntimo, místico e misterioso.
Onde nasce do seu jovem coração uma
nova Religião, do seu cérebro uma
nova Igreja, dos seus olhos uma nova
forma de ler os Textos Sagrados e
brotam das suas mãos o poder e a
vontade de utilizá-las como um Dom
Divino, um instrumento de Deus para
curar e salvar. Em seguida Maria José
batiza em comunhão com Deus a sua
Igreja, “Cura pela Fé”.

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O seu José e dona Maria não
gostaram nada, dessas idéias
revolucionárias da filha, católicos
fervorosos, não podiam aceitá-las. O
pai estava acostumado e curtido com
uma filha doente, prostrada na cama,
que conversava pouco e não com uma
Maria José falante, segura de si, ante a
sua nova profecia, como uma jovem
mulher-apóstolo.
Por esses motivos, eles
resolveram de comum acordo que já
estava na hora de Maria José se casar,
idéia prontamente rechaçada
veementemente por ela. Os pais se
viram desafiados nas medidas das
forças e na medida dos pesos, e lhe
dão um ultimato, ou atente a vontade
deles ou sai de casa para sempre.
Maria José deixa a fazenda e vai
morar em uma casa alugada pelo pai,
na cidade, dele recebe o suficiente para
sobreviver com modéstia e nada mais,
ao longo do tempo nenhuma visita,
nenhuma notícia. Assim nos próximos
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dois anos, sozinha ela aproveita o
tempo para estabelecer as bases
dogmáticas de sua Igreja Cura pela Fé.
Primeiro ela padroniza a Palavra
Sagrada a ser utilizada na sua Igreja,
escreve um Evangelho, comentado
passagem por passagem, segundo a
sua interpretação dos Fatos Sagrados
relatados. Depois fixa um dizimo
diferente das outras Igrejas, onde os
dez por cento não são cobrados do
bruto dos ganhos financeiros dos fiéis,
e sim do líquido.
Exemplifica esse dizimo liquido
em seus escritos; “Se um fiel tem
salário de 100 e gasta 80 para
sobreviver sem regalias, lhe sobra 20
para a poupança, o divertimento,
alguma extravagância, e é sobre esses
20 que os 10% do dizimo devem ser
cobrados de forma líquida e certa, para
ajudar na manutenção e nas obras
sociais da Igreja.
Em seguida escreve o Dogma
principal que deve nortear a sua Igreja;
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“O homem é divino, Deus é bondade,
Amor supremo. Portanto não pode
existir uma só coisa má no mundo.
Todo o mal, sofrimento de qualquer
espécie, enfermidades, não são
realidades verdadeiras, mas sim
mentirosa aparência humana, ilusões
provocadas pelo Demônio, e quem
uma só vez tenha conhecido estes fatos
não pode mais ser vítima de doença
alguma, nem capaz de sofrer dor da
menor espécie.”
Por fim Maria José idealiza um
curso pago, para formar os seus
pastores curadores, utilizando-se dos
conhecimentos aprendidos com o Dr.
Pietro.
Maria José depois de dois longos
anos decide visitar os seus pais na
fazenda, tentar uma reconciliação, foi
muito bem recebida por eles,
almoçaram juntos, conversaram
amenidades lúdicas e durante a
sobremesa ela pede autorização ao pai

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para abrir a sua Igreja na casa alugada
por ele.
Seu José ficou horrorizado com o
pedido, na tentativa de reconduzir a
filha ao bom caminho, para uma vida
familiar unida sem divergências
religiosas. Onde ela livremente poderia
escolher um bom partido na sociedade
local, constituindo a sua própria
família e principalmente para afastar
de vez essas suas idéias
revolucionárias, ele dá a filha um novo
ultimato. Ou ela volta para casa,
vivendo nela segundos as regras
estabelecidas por ele, ou sai
imediatamente da casa alugada.
Maria José preferiu a segunda
opção, com dezessete anos apenas e
pouquíssimo dinheiro no bolso, inicia
a sua peregrinação pela cidade vizinha,
a sua. Hospeda-se em uma pensão
familiar de preços módicos, conhece
pela primeira vez uma cama de quinta
categoria, quarto idem, sem banheiro é
claro, rústico ele ficava ao final do
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longo e escuro corredor, mesmo assim
os seus parcos recursos financeiros só
a manteria por dois dias na pensão.
Ela inicia a sua Pregação, indo de
casa em casa, de rua em rua, de cidade
em cidade, indo cada vez mais longe,
pregando com maestria a Palavra
Sagrada segundo a sua interpretação.
Conheceu a pobreza do Brasil e o povo
simples que nela vivia, onde a Bíblia
era o único alento para eles, nunca lhe
faltou um prato de comida, uma cama
para dormir. Foi de norte a sul de leste
a oeste e retornou a sua cidade natal,
quinze anos depois, da mesma maneira
que saiu, praticamente sem nenhum
dinheiro no bolso.
Maria José não encontrou mais
nada na sua cidade natal, além dos
túmulos dos pais, vitimados por
meningite meningocócica, segundo o
antigo médico da família, e o túmulo
do cunhado Milton, marido da irmã
Rita Regina. Milton se suicidou logo

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após de perder todos os seus bens
materiais na mesa do jogo carteado.
Perdeu inclusive a fazenda que a
sua querida irmã herdou dos pais,
deixando-a na mais completa miséria.
Sem saída Rita Regina prostituiu-se na
zona do meretrício local, foi um
escândalo e tanto à época, depois de
certo tempo, ela acompanhou um
caixeiro viajante, para local incerto e
desconhecido pela população, nunca
mais tiveram notícias.
Maria José hospedou-se por
alguns dias na residência do médico da
família, um homem de meia idade,
solteiro, ateu enrustido e agnóstico
declarado. Contra a sua vontade, mas
atendendo ao singelo pedido da autora,
ele leu atenciosamente as folhas
amareladas pelo tempo, gastas pelo
uso contendo o Evangelho comentado,
segundo as convicções religiosas de
Maria José.
O bom doutor não entendeu a
metade do que leu talvez por lhe faltar
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a devida Fé, porém penalizado com o
estado do material apresentado e a boa
vontade da autora, ele foi até uma
gráfica local e encomendou uma
pequena edição, depois presenteou
Maria José com cem livros. De capa
mole, folhas finas e letras pequenas,
livros leves, fáceis de transportar,
intitulados “O Evangelho, segundo a
Pastora Maria José Silva”.
Emocionada com o presente, ela
parte rumo ao sul do Brasil, decidida a
encontrar um discípulo que se
dispusesse a pagar pelo aprendizado de
pastor curador, além de viabilizar
financeiramente a instalação da
primeira Igreja Cura pela Fé. Pois
Maria José, aos trinta e dois anos, já
estava ficando cansada de comer em
pratos que não eram seus, dormir em
camas que não eram suas, sem ver a
tão sonhada Igreja de pé e
funcionando.
Três anos após, na capital
gaucha, ela encontra esse discípulo,
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um rapaz chamado Carlos, tem apenas
vinte e dois anos, argentino, que vivia
graças à pequena herança recebida
pela morte dos pais, este encontro
marca o fim da peregrinação de Maria
José.
Carlos em curta temporada
turística pelo sul do Brasil fica
encantado com as praias catarinenses e
as pregações em praça pública de
Maria José, dia após dia volta à mesma
praça, no centro de Porto Alegre, para
ouvi-la falar, alongando assim a sua
viagem. Ela percebe que realmente ele
acredita na doutrina de cura proferida
e acabam fazendo um acordo tácito,
onde Maria José se compromete
ensiná-lo e Carlos se obriga em cuidar
da subsistência dela em Buenos Aires,
além de lhe ensinar a sua língua pátria.
Ela instala-se em um bom quarto
na casa de Carlos, volta a dormir em
uma boa cama de classe média depois
de muitos anos, em seis meses está
falando perfeitamente bem o espanhol
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ou castelhano como os argentinos
preferem chamar a sua língua pátria.
Por sua vez Carlos assimila
rapidamente e com perfeição os
conhecimentos do Dr. Pietro,
ensinados por Maria José, então eles
celebram entre si um acordo expresso,
registrado em cartório, fundando a
Igreja Cura pela Fé em 1940, quando o
mundo comemorava com tristeza o
primeiro aniversário da segunda
grande guerra mundial.
Pelo documento registrado,
Carlos se compromete em alugar um
imóvel no centro da capital argentina,
mobiliá-lo e ser responsável pelo
Processo de Cura. Maria José se
compromete em doar os cem livros
recebidos de presente para a Igreja,
além de ser a responsável pelos Cultos
e pelo curso formador de novos
pastores curadores. Os lucros seriam
divididos em partes iguais.
Enfim após vinte longos anos,
quando Maria José sentou-se em um
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rústico balanço ao por do sol e
idealizou a sua Igreja, depois muita
luta, perseverança, peregrinação e Fé,
finalmente ela vê a sua Igreja de pé e
funcionando.
O sucesso foi imediato, a dialética
da pastora Maria José empolgava os
argentinos, o pastor Carlos estava
conseguindo curas extraordinárias,
algumas pelo processo de hipnose,
outras porque a doença era auto-
limitante, mas obteve também a Cura
Sagrada, genuinamente obtida pela Fé
e pelo merecimento da Graça pelo
paciente.
O curso formador de pastores
curadores repleto de alunos, a Igreja
prosperava de forma vertiginosa, se
multiplicava duas, quatro, oito pela
capital argentina, mesmo cobrando um
dízimo sobre o liquido dos ganhos
financeiros dos fiéis.
Então Maria José introduz uma
nova orientação para os fiéis, onde eles
teriam que preferencialmente consumir
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os produtos produzidos ou
manufaturados por outros fiéis, e estes
dariam preferência a eles na hora da
contratação de novos funcionários.
Esta orientação deu um incremento
lucrativo para todos, inclusive para a
Igreja.
Com o aumento na arrecadação
do dízimo, a Igreja conseguiu formar
caixa suficiente para adquirir, por
preço justo, uma emissora de rádio
local, onde Maria José cria e dirige a
programação para divulgar a Doutrina
da Igreja. Ela mesma tinha um
programa chamado “Moral Cristã”,
que ia ao ar de segunda a sexta-feira,
das nove ao meio dia.
A fama dos pastores começa a
correr pela Argentina, de boca em
boca, pelos jornais, pelos noticiários
de todas as rádios, todos queriam saber
quem era Carlos, o Curador e quem
era Maria José a Profetiza da Fé. A
Igreja Cura pela Fé virou moda entre
os argentinos, com apenas cinco anos
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de fundação decolou para um processo
espiritual de cura e Fé irreversível.
Durante todo esse processo Maria
José vai se apaixonando
paulatinamente por um homem,
apaixona-se por Carlos, a sua grande
obra prima pronta e acabada, porém
ele não lhe retribui os sentimentos
recebidos. Pois Carlos está cada vez
mais interessado em Tereza, uma
jovem e bela fiel que o auxilia junto
aos seus pacientes.
Ele percebe os ciúmes cada vez
mais exacerbados de Maria José e a
convida para dar um passeio em uma
noite de verão.
Conversam longamente entram
pela madrugada bem nascida com o
aroma da chuva fina, acalento suave
que diminuiu o calor em volta da lagoa
prateada, onde a lua deitava o seu
beijo sobre a pele d’água.
Carlos de maneira inconseqüente
e pueril retribui as sutis insinuações
amorosas de Maria José.
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Os ruídos da noite feriam a
madrugada sem maldade, de mãos
dadas Carlos e Maria José, trocam
olhares, palavras, trocam bocas,
gostos. A mão dele acariciava as
costas dela com malícia, os seus dedos
descansam suaves nos lábios da
mulher doce de doce abrigo.
Ele sentia o desejo nos lábios
avios de Maria José como um vulcão
em erupção, sem dizer uma palavra ela
não resistiu aos encantos sedutores
dele que fizeram o seu coração bater
enamorado. Dando-lhe um longo beijo
abrasado, ela se entregou em
movimentos ardentes, ofegantes,
alucinantes às vezes leves suaves e
tentantes, às vezes violentos como os
movimentos das grandes tempestades.
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Carlos penetrou Maria José como
um amante errante, de todos os jeitos,
de todos os lados, fez-lhe tremer em
suas carnes, abriu-lhe como uma rosa
preciosa, rasgou-lhe como folha de
papel. Ejaculou em suas pernas ternas,
para depois se perder nas gotas de suor
que serpentiavam o corpo dela com
passos embriagados de prazer. Maria
José, aos quarenta anos perde a
virgindade, tão bem guardada até
então.
Carlos inconseqüente e pueril
respirou com gosto a natureza sem
censura daquela intimidade, transpirou
com gozo o destino sem futuro
daquela relação. E tem a infeliz idéia
de colocar Maria José a par da
realidade, informa a ela que vai se
casar em breve com Tereza. O
rompimento entre os dois se deu de
forma abrupta e instantânea.
A sociedade é imediatamente
desfeita, a Igreja divida ao meio,
quatro templos para cada um, a estação
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de rádio é vendida por um bom preço,
eles também dividiram o dinheiro
recebido pela venda. A Igreja como
um todo vive longos dias de escuridão
e trevas, perdeu quase 20% dos fiéis e
nunca mais conseguiu viver o glamour
desses anos dourados, vividos até
então.
A explicação dada à imprensa e
aos fiéis para justificar tão
intempestiva divisão, foi que uma
reforma filosófica dogmática estava
sendo implementada e reestruturaria
de forma diferente as Igrejas,
capitaneadas por Carlos e Maria José,
que seguiriam a partir daquela dada
caminhos de Fé e Cura, independentes
e próprios.
Dos fiéis que permaneceram na
Igreja, 70% estavam mais interessados
na parte filosófica dogmática, no
crescimento espiritual, no estudo da
Palavra e se dirigiram para os templos
orientados por Maria José,

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denominados de a “Nova Igreja Cura
pela Fé”.
Os outros 30% buscavam a Cura
Sagrada e seguiram para os templos de
Carlos, rebatizados com o nome
“Igreja Independente Cura pela Fé”,
ele continuou a utilizar o método de
Cura do Dr. Pietro aprendido com a
ex-sócia.
Maria José tem uma grave recaída
no seu estado de saúde, a insônia
apodera-se de suas noites, o seu
coração remói ódio, não consegue
perdoar Carlos pela humilhação
sofrida, chega à conclusão que ele é o
demônio em pessoa e precisa ser
destruído.
Quando ela consegue dormir tem
pesadelos, seguidos de alucinações e
crises de histeria, tudo fechado entre
quatro paredes, na calada da noite
ninguém desconfia do seu estado
psicológico em frangalhos, pois
durante o dia, Maria José age com
naturalidade, como nada tivesse
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acontecido durante a noite mal
dormida.
Contudo a vitalidade e a força de
vontade de Maria José para
reestruturar a sua parte da Igreja são
elogiáveis. Ela baniu a hipnose e
qualquer influencia das teorias dos
Doutores Mesmer e Freud no seu novo
método de Cura Sagrada, cujo método
utilizaria apenas e tão somente a
Palavra Sagrada acompanhada de
Orações fervorosas, para obter o seu
fim.
Maria José cria um dogma,
escrito de forma simples, sutil e sui
generis, onde se posiciona contra a
Doutrina Espírita, o dogma dizia; “Se
uma pessoa recebe pelo correio uma
multa de transito, a primeira medida
que essa pessoa toma é saber do que se
trata, porque foi multada, aonde, qual a
infração cometida. Portanto não pode
Deus reencarnar uma pessoa a terra,
para pagar por atos, infrações
acontecidas em vidas passadas, sem
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que ela tenha consciência desses atos,
dessas infrações.”
Outra medida importante que ela
toma tem como finalidade orientar os
fiéis de sua Igreja, a orientação dizia;
“Deus é o Médico Supremo, o Único
capaz de Curar todas as doenças,
redimir todos os males a pó, na Sua
Bondade infinita deu inteligência e
livre arbítrio aos Homens. Que
aprenderam tratar as doenças através
das Ciências Médicas descobriu os
Medicamentos através das Ciências
Farmacêuticas, portanto os Médicos e
os Medicamentos são coisas de Deus e
não devem ser renegados por
ninguém”.
Esta orientação não foi feita por
acaso, pois resguardava a sua nova
Igreja de eventuais processos por
prática ilegal da Medicina, já que
Carlos continuava a utilizar o método
de Cura do Dr. Pietro livremente. Seis
meses depois da divisão da Igreja Cura
pela Fé, Maria José envia uma carta-
35
denúncia ao promotor de justiça de
Buenos Aires.
Ela denuncia Carlos por
charlatanismo pela utilização da
hipnose com fins terapêuticos
curativos, uma pratica restrita a
Médicos e aos Psicólogos,
caracterizando pratica ilegal da
Medicina e da Psicologia, um
escândalo mortal para ele.
Carlos é preso na sua Igreja em
flagrante delito por prática ilegal da
Medicina, quando hipnotizava um fiel
que procurava a Cura Sagrada, seu
nome cai em desgraça, ele é julgado e
condenado. A Igreja Independente
Cura pela Fé é interditada, lacrada e
definitivamente banida do mapa de
Buenos Aires pela justiça argentina,
quando Carlos foi cumprir a sua
sentença de seis anos, preso na
penitenciária local.
Enfim Maria José voltou a dormir
bem estava curada da sua insônia e das
suas crises noturnas de histeria, pois o
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demônio Carlos estava destruído.
Então ela percebeu que estava
cometendo um pecado mortal, e deu
uma missão a um pastor auxiliar de
sua mais estrita confiança, viajar ao
Brasil e resgatar a sua irmã Rita
Regina que devia estar passando por
dificuldades enormes.
Mas infelizmente a atitude de
Maria José foi tardia, o pastor
chegando Brasil se dirigiu à cidade
natal de Rita Regina no interior
paulista, encontrou apenas o túmulo
dela, enterrada como indigente
vitimada por uma neurosífilis de difícil
tratamento.
Carlos morreu assassinado na
penitenciária quando não obteve o
devido sucesso na cura do irmão de
um perigoso detento. A igreja
capitaneada por Maria José cresceu
lentamente, pois cobrava o dízimo
sobre o liquido e não sobre o bruto dos
vencimentos dos fiéis, criou
ramificações por quase todos os países
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da América do Sul, que falavam a
língua espanhola, contudo nunca teve
uma Igreja filial no Brasil.
Maria José morreu aos oitenta
anos quando inaugurava uma Igreja na
Venezuela, falecia ali uma mulher
extraordinária que deixou uma história
de Fé e perseverança inigualável.
A Nova Igreja Cura pela Fé
continuou a prosperar lentamente, mas
com muito respeito e admiração das
outras Igrejas Evangélicas, rumo à
América Central e ao México com o
objetivo de chegar enfim até a
Espanha, coisa que aconteceu em
2006.

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A PASTORA
Midu Gorini
©
2010
Primeira Edição

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MIDU GORINI
A PASTORA
(“long-short story”)

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A Pastora
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