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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes UNIVERSIDADE DE FORTALEZA Estágio I em Direito ( PENAL ) Prof.

UNIVERSIDADE DE FORTALEZA Estágio I em Direito (PENAL) Prof. José Armando Costa Jr.

RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO (MODELOS)

1) Resposta escrita à acusação num processo de estupro

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2) Resposta escrita à acusação num processo de fraude à licitação

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3) Resposta escrita à acusação num processo de crimes contra o consumidor

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4) Resposta escrita à acusação genérica

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 12ª VARA CRIMINAL DE

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 12ª VARA CRIMINAL DE FORTALEZA/CEARÁ

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RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO

Processo nº 0085236-98.2017.8.06.0001

EDMAR FERREIRA DA SILVA, brasileiro, solteiro, estudante universitário (direito), CPF nº 528.639.417-59, com endereço na Rua das Acácias Dormentes, 258, Benfica, Fortaleza, Ceará, CEP 85.296-785, vem, perante Vossa Excelência, com o devido acato e respeito, por intermédio dos advogados subscritos, todos qualificados na anexa procuração (doc. 01), com fundamento nos artigos 396 e 396-A, do Código de Processo Penal, apresentar sua RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO, o que faz consoante os fatos a seguir expostos.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes 1) DOS FATOS O Defendente encontra-se denunciado pela prática do crime

1) DOS FATOS

O Defendente encontra-se denunciado pela prática do crime de estupro de vulnerável contra a criança FRANCISCO DOS SANTOS SANTANA, tipo previsto no artigo 217-A do Código Penal brasileiro.

Segundo a superficial denúncia, o crime teria ocorrido diversas vezes no ano de 2012, nas dependências da CASA ABRIGO, instituição onde o denunciado exercia a função de educador social.

A imprecisão da denúncia é tamanha que a defesa só tem condições mesmo de arguir sua inépcia, que é causa bastante de sua rejeição, conforme expressamente prevê o inciso I do artigo 395 do Código de Processo Penal.

2) DO DIREITO

INÉPCIA DA DENÚNCIA

Antes

de

mais

nada,

importante

consignar

que

o

SUPERIOR TRBUNAL DE JUSTIÇA já sedimentou o entendimento no

sentido de que é perfeitamente possível, após a apresentação da resposta escrita do acusado, que o magistrado reavalie o

recebimento

da

denúncia

e

a

rejeite,

desde,

é

claro,

que

se

convença da existência de qualquer das três hipóteses do artigo 395 do Código de Processo Penal:

STJ: DIREITO PROCESSUAL PENAL. POSSIBILIDADE DE RECONSIDERAÇÃO DA DECISÃO DE RECEBIMENTO DA DENÚNCIA APÓS A DEFESA PRÉVIA DO RÉU. O fato de a denúncia já ter sido recebida não impede o juízo de primeiro grau de, logo após o oferecimento da resposta do acusado, prevista nos arts. 396 e 396-A do CPP,

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes reconsiderar a anterior decisão e rejeitar a peça acusatória, ao constatarREsp 1.318.180-DF , Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 16/5/2013. Enfim, apresentada a resposta escrita, o magistrado, dependendo do caso, tomará uma dessas alternativas: (1) absolverá sumariamente o acusado; (2) rejeitará a denúncia; ou (3) ratificará o recebimento da denúncia. No caso em exame, o Denunciado roga que Vossa Excelência reaprecie a decisão de recebimento da denúncia, já que um dos principais requisitos de uma peça acusatória, “ a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias ”, nem de longe encontra-se presente na peça acusatória oferecia pelo ilustre Promotor de Justiça, o que impõe a sua pronta rejeição. A seguir, os artigos 41 e 395 do CPP, que tratam da matéria: 4 Rua João Carvalho, 310 – Aldeota – Fortaleza – Ceará – CEP 60.140-140 – Tel. (85) 3052-5252 www.armandocosta.com.br " id="pdf-obj-3-4" src="pdf-obj-3-4.jpg">

reconsiderar a anterior

decisão e rejeitar

a

peça

acusatória, ao constatar a presença de uma das

hipóteses elencadas nos incisos do art. 395

do CPP,

suscitada pela defesa. Nos termos do art. 396, se não for verificada de plano a ocorrência de alguma das hipóteses do art. 395, a peça acusatória deve ser recebida e determinada a citação do acusado para responder por escrito à acusação. Em seguida, na apreciação da defesa preliminar, segundo o art. 397, o juiz deve absolver sumariamente o acusado quando verificar uma das quatro hipóteses descritas no dispositivo. Contudo, nessa fase, a cognição não pode ficar limitada às hipóteses mencionadas, pois a melhor interpretação do art. 397, considerando a reforma feita pela Lei 11.719/2008, leva à possibilidade não apenas de o juiz absolver sumariamente o acusado, mas também de fazer novo juízo de recebimento da peça acusatória. Isso porque, se a parte pode arguir questões preliminares na defesa prévia, cai por terra o argumento de que o anterior recebimento da denúncia tornaria sua análise preclusa para o Juiz de primeiro grau.

Ademais, não há porque dar início à instrução processual, se o magistrado verifica que não lhe será possível analisar o mérito da ação penal, em razão de defeito que macula o processo. Além de ser desarrazoada essa solução, ela também não se coaduna com os princípios da economia e celeridade processuais. Sob outro aspecto, se é admitido o afastamento das questões preliminares suscitadas na defesa prévia, no momento processual definido no art. 397 do CPP, também deve ser considerado admissível o seu acolhimento, com a extinção do processo sem julgamento do mérito por aplicação analógica do art. 267, § 3º, CPC. Precedentes citados: HC 150.925-PE, Quinta Turma, DJe 17/5/2010; HC 232.842-RJ, Sexta Turma, DJe 30/10/2012. REsp 1.318.180-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 16/5/2013.

Enfim, apresentada a resposta escrita, o magistrado, dependendo do caso, tomará uma dessas alternativas: (1) absolverá sumariamente o acusado; (2) rejeitará a denúncia; ou (3) ratificará o recebimento da denúncia.

No caso em exame, o Denunciado roga que Vossa Excelência reaprecie a decisão de recebimento da denúncia, já que um dos principais requisitos de uma peça acusatória, “a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias”, nem de longe encontra-se presente na peça acusatória oferecia pelo ilustre Promotor de Justiça, o que impõe a sua pronta rejeição.

A seguir, os artigos 41 e 395 do CPP, que tratam da

matéria:

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato
Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas
Art. 41.
A
denúncia
ou
queixa
conterá
a
exposição
do fato
criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do
acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do
crime e, quando necessário, o rol das testemunhas.

Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando:

I - for manifestamente inepta;

II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; ou III - faltar justa causa para o exercício da ação penal.

Como se vê, demonstrado

ficou

que

a

inépcia de uma

denúncia é fundamento mais do que suficiente para sua rejeição.

Resta, agora, demonstrar que a peça acusatória que inaugurou a presente ação penal incide nessa irregularidade, o que, ver-se-á, não será difícil.

Antes,

porém,

traga-se

a

colação,

a

doutrina

de

MIRABETE e TOURINHO FILHO sobre a necessidade de exposição do fato criminoso na peça acusatória:

“É indispensável que na denúncia se descreva, ainda que sucintamente, o fato atribuído ao acusado, não podendo ser recebida a inicial que contenha descrição vaga, imprecisa, de

tal forma lacônica que torne impossível ou extremamente difícil ao denunciado entender de qual fato preciso está sendo acusado.” (MIRABETE, Código de Processo Penal Interpretado, pág. 89, Ed. Atlas, 2ª edição, 1994)

“Além da indicação do tempo e do lugar, deve ser feita referência ao modo como foi perpetrado e aos instrumentos usados. Tal exposição circunstanciada torna-se necessária, não só para facilitar a tarefa do Magistrado como também para que o acusado possa ficar habilitado a defender-se, conhecendo o fato que se lhe imputa.” (TOURINHO FILHO, Processo Penal, Volume 1, pág. 344, Ed. Saraiva, 16ª edição, 1994)

Como

se

vê,

para

que

uma denúncia seja considerada

devidamente circunstanciada (e válida), deve responder algumas perguntas representadas pelas seguintes expressões em latim: quis

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes (o autor); quibus auxiliis (os meios empregados); quid (o mal produzido);

(o autor); quibus auxiliis (os meios empregados); quid (o mal produzido); cur (os motivos); quamodo (a maneira como se praticou); ubi (o lugar); e, quando (o tempo do fato).

Repita-se: no presente caso, nem de longe, mas nem de longe mesmo, o Promotor de Justiça consegui tratar desses importantes pontos na denúncia apresentada.

A peça acusatória, confeccionada em brevíssimas duas páginas, trata do fato criminoso supostamente praticado pelo Denunciado em apenas 16 linhas, sendo que, nessas brevíssimas linhas, não se aponta absolutamente nada. Nem quando, nem quantas vezes, nem de que forma, nem os meios empregados ...

Aliás, o próprio Promotor de Justiça reconhece que o depoimentos prestados perante o inquérito policial são divergentes, mas atribui o fato à pressões sofridas e o temor de represálias, embora não os indique de maneira minimante objetiva.

Ou seja, a denúncia não descreveu adequadamente, a ponto de permitir o contraditório e a ampla defesa, o fato criminoso, nem suas circunstâncias, o que a torna inepta, merecendo, portanto, ser rejeitada.

3) DOS PEDIDOS

Diante

do

exposto,

vem

o

Defendente,

confiante,

requerer que Vossa Excelência, reto e probo aplicador do Direito, se digne de reapreciar a decisão que recebeu a denúncia, rejeitando-a, já que inepta, em razão de não ter descrito o fato criminosos em todas as suas circunstâncias.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Em caso de ratificação do recebimento da denúncia, o que se

Em caso de ratificação do recebimento da denúncia, o que se admite apenas pelo sabor do argumento, a defesa requer a notificação das testemunhas a seguir arroladas para que sejam ouvidas no curso da instrução criminal:

  • 1. JOSIANE DA SILVA, com endereço na Rua Bela Vista, 147, Meireles, Fortaleza, Ceará;

  • 2. SANDRA FERREIRA DE OLIVEIRA, com endereço na Rua General Ataulfo de Paiva Neto, 1653, Mucuripe, Fortaleza, Ceará;

  • 3. RITA ONOFRE LEITÃO, com endereço na Travessa Maravilha, 189, Mudubim, Fortaleza, Ceara;

  • 4. HILDA ANTUNES FERNADES, com endereço na Av. Lineu Marinho, 8855, Beira-Mar, Fortaleza, Ceará.

Termos em que pede deferimento.

Fortaleza, 26 de março de 2017.

A. Costa Jr. Liana Ximenes

José Armando da Costa Jr.

Advogado – OAB/CE nº 11.069

Liana Ximenes Mourão

Advogada – OAB/CE n° 18.473

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA 12ª VARA FEDERAL DA SEÇÃO JUDICIÁRIA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA 12ª VARA FEDERAL DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DO DISTRITO FEDERAL

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RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO

Processo nº 13657-88.2017.4.01.8500

FERNANDA SOBREIRA DA SILVA, brasileira, solteira, desempregada, CPF nº 786.859.854-20, RG nº 874852147963 (SSP/CE), com endereço na Rua Santidade, 178, Montese, Fortaleza, Ceará, CEP 60.745-789, vem, perante Vossa Excelência, tributando súpero respeito e máximo acatamento, por intermédio dos advogados subscritos, já constituídos, apresentar, com fundamento no artigo 396-A do Código de Processo Penal, sua RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO, o que faz consoante os argumentos fáticos e jurídicos a seguir expostos.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes 1) DOS FATOS A Defendente foi denunciada pelo órgão do Ministério

1) DOS FATOS

A Defendente foi denunciada pelo órgão do Ministério Público Federal por ter supostamente praticado, em concurso de agentes, o crime previsto no artigo 90 da Lei nº 8.666/1990 (Lei de Licitações):

Art. 90. Frustrar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro expediente, o caráter competitivo do procedimento licitatório, com o intuito de obter, para si ou para outrem, vantagem decorrente da adjudicação do objeto da licitação:

Pena - detenção, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

Conforme consta da peça acusatória, em maio 2011, a empresa CATALUNHA SERVICE LTDA., através da Defendente (sócia minoritária, com 0,5% do capital social), de ELENEUDA LIMA (sócia majoritária) e de JOSÉ PRATA NETO (gerente de licitações), teria participado do Pregão Eletrônico nº 4/2011, do INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL, cujo objeto era a contratação de empresa para prestação de serviços de limpeza, conservação e higienização em unidades pertencentes à administração central do INSS em Brasília.

A CATALUNHA SERVICE teria disputado referido pregão eletrônico na qualidade de EMPRESA DE PEQUENO PORTE – EPP, ou seja, com o tratamento diferenciado previsto nos artigos 44 e 45 da Lei Complementar nº 123/2006.

Ao final, tendo sido consagrada a vencedora do pregão, a CATALUNHA SERVICE teria finalmente celebrado contrato com o INSS (27/2011) em 1º junho de 2011.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Pois bem, após a celebração do contrato, a Controladoria- Geral da

Pois bem, após a celebração do contrato, a Controladoria- Geral da União teria analisado a documentação alusiva ao pregão e verificado erros quanto ao enquadramento da CATALUNHA SERVICE como empresa de pequeno porte. Teria, então, solicitado que o INSS apurasse a contratação.

Por

sua

vez,

o

INSS, teria

pedido

que

a

CATALUNHA

SERVICE apresentasse os documentos que comprovassem a sua

condição de empresa de pequeno porte.

A CATALUNHA SERVICE, em resposta, teria apresentado a documentação do exercício do ano de 2010, que, no entanto, mostrava a sua renda bruta acima do limite permitido para empresas de pequeno porte.

Enfim, segundo a acusação do órgão do Ministério Público Federal, a CATALUNHA SERVICE teria se utilizado indevidamente do direito de preferência concedido à empresas de pequeno porte e fraudado o caráter competitivo do pregão eletrônico em comento, razão porque suas sócias e o gerente de licitações estão sendo processados criminalmente.

2) DO DIREITO

2.1) REJEIÇÃO DA DENÚNCIA

Conforme entendimento do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, mais precisamente de sua 6ª Turma, foi decidido que é perfeitamente possível ao magistrado, após a apresentação da resposta escrita à acusação, reavaliar a anterior decisão de recebimento da denúncia e, finalmente, rejeitá-la, mas desde, é

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes claro, que se convença da presença de uma das hipóteses previstasREsp 1.318.180- DF , Ministro SEBASTIÃO REIS JR., julgado em 16/05/2013] O julgado transcrito encaixa-se, perfeitamente, no caso em exame, uma vez que, como ficará demonstrado no tópico seguinte, a denúncia é absolutamente inepta, pois não descreve o fato criminoso de maneira a permitir o exercício do direito de defesa, como sói exigir o artigo 41 do Código de Processo Penal . 2.2) INÉPCIA DA DENÚNCIA De acordo com o artigo 41 do Código de Processo Penal, uma denúncia, entre outras coisas, precisa conter a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias. Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: I - for manifestamente inepta; II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; ou III - faltar justa causa para o exercício da ação penal. Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas. 11 Rua João Carvalho, 310 – Aldeota – Fortaleza – Ceará – CEP 60.140-140 – Tel. (85) 3052-5252 www.armandocosta.com.br " id="pdf-obj-10-4" src="pdf-obj-10-4.jpg">

claro, que se convença da presença de uma das hipóteses previstas no artigo 395 do Código de Processo Penal 1 :

STJ: RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. DENÚNCIA. RECEBIMENTO. RESPOSTA DO ACUSADO. RECONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. POSSIBILIDADE. ILICITUDE DA PROVA. AFASTAMENTO. INVIABILIDADE. ACÓRDÃO RECORRIDO. FUNDAMENTO EXCLUSIVAMENTE CONSTITUCIONAL. DECRETO REGULAMENTAR. TIPO LEGISLATIVO QUE NÃO SE INSERE NO CONCEITO DE LEI FEDERAL (ART. 105, III, A, DA CF)

  • 1. O fato de a denúncia já ter sido recebida não impede o

Juízo de primeiro grau de, logo após o oferecimento da resposta do acusado, prevista nos arts. 396 e 396-A do Código de Processo Penal, reconsiderar a anterior decisão e rejeitar a peça acusatória, ao constatar a presença de uma das hipóteses elencadas nos incisos do art. 395 do Código de

Processo Penal, suscitada pela defesa.

 
  • 2. As matérias numeradas no art. 395 do Código de Processo

Penal dizem respeito a condições da ação e pressupostos processuais, cuja aferição não está sujeita à preclusão (art.

267, § 3º, do CPC, c/c o art. 3º do CPP).

 
  • 3. Hipótese concreta em que, após o recebimento da denúncia, o Juízo de primeiro grau, ao analisar a

resposta preliminar do acusado, reconheceu a ausência de justa causa para a ação penal, em razão da

ilicitude da prova que lhe dera suporte.

  • 4. O acórdão recorrido rechaçou a pretensão de afastamento do caráter ilícito da prova com fundamento

exclusivamente constitucional, motivo pelo qual sua revisão, nesse aspecto, é descabida em recurso

especial.

  • 5. Os decretos regulamentares não se enquadram no conceito de lei federal, trazido no art. 105, III, a, da

Constituição Federal. 6. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, improvido. [REsp 1.318.180-

DF, Ministro SEBASTIÃO REIS JR., julgado em 16/05/2013]

O julgado transcrito encaixa-se, perfeitamente, no caso em exame, uma vez que, como ficará demonstrado no tópico seguinte, a denúncia é absolutamente inepta, pois não descreve o fato criminoso de maneira a permitir o exercício do direito de defesa, como sói exigir o artigo 41 do Código de Processo Penal 2 .

2.2) INÉPCIA DA DENÚNCIA

De acordo com o artigo 41 do Código de Processo Penal, uma denúncia, entre outras coisas, precisa conter a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias.

1 Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando:

I - for manifestamente inepta; II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; ou III - faltar justa causa para o exercício da ação penal.

2 Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Assim, a Denúncia que não descreve, adequadamente, o fato criminoso e

Assim, a Denúncia que não descreve, adequadamente, o fato criminoso e que também deixa de estabelecer a necessária vinculação da conduta individual de cada agente ao evento delituoso qualifica-se como inepta, devendo, pois, ser sumariamente rejeitada.

E é exatamente

o

que ocorre

no

caso em exame:

a

denúncia que desencadeou o processo penal é totalmente carente

desse requisito.

Mesmo numa análise perfunctória, observa-se que o ilustre Procurador da República narra o fato supostamente criminoso de maneira totalmente genérica, superficial, sem mencionar concretamente a forma como cada um dos acusados atuou na prática da infração penal.

Afinal,

o

que

a

Defendente

fez,

efetivamente,

para

merecer a acusação de ter fraudado

o caráter competitivo do

pregão? Quais, afinal, foram os atos concretos supostamente por ela praticados?

Nem de longe há essa indicação. Nem de longe.

O que fica claro, aliás, é que a Defendente somente está sendo acusada porque seu nome consta no contrato social da empresa. Ou seja, por ser sócia da empresa, ainda que minoritária.

Ocorre, todavia, que essa imputação aleatória, sem motivação concreta configura a odiosa responsabilidade penal

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes objetiva , não permitida em nosso ordenamento jurídico, conforme, inclusive, decisões

objetiva, não permitida em nosso ordenamento jurídico, conforme, inclusive, decisões reiteradas do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA:

STJ: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HABEAS CORPUS. EVASÃO DE DIVISAS E FORMAÇÃO DE QUADRILHA. INÉPCIA DA DENÚNCIA.

RESPONSABILIZAÇÃO

PENAL

OBJETIVA.

IMPOSSIBILIDADE.

TRANCAMENTO

DA

AÇÃO

PENAL.

PEDIDO

UNIFORMIZAÇÃO

DE

DE

JURISPRUDÊNCIA.

EXTEMPORANEIDADE.

FACULDADE

DO

RELATOR.

ACÓRDÃO EMBARGADO QUE APRESENTA FUNDAMENTOS SUFICIENTES À

RESOLUÇÃO

DA

LIDE.

REEXAME

DE

MATÉRIA

DECIDIDA.

INVIABILIDADE.

3. No caso, a controvérsia foi resolvida à luz da

jurisprudência desta Corte, no sentido de que, "o simples

fato de ser sócio, diretor ou administrador de empresa não

autoriza

instauração

de

a

processo

criminal

por

crimes

praticados no âmbito

da

sociedade,

se

não

restar

comprovado, ainda que com elementos a serem

aprofundados no decorrer da ação penal, a mínima relação de

e efeito

causa

entre as

imputações e

a

sua

função

na

empresa, sob pena de se reconhecer a responsabilidade

penal objetiva"

(HC 56.058/SP, Relator Ministro Gilson Dipp, DJ

de 11/9/2006). (EDcl no HC 129.809/CE, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEXTA TURMA, julgado em 09/10/2012, DJe 19/10/2012)

STJ: HABEAS CORPUS. EVASÃO DE DIVISAS

E

FORMAÇÃO

DE

QUADRILHA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. INÉPCIA DA DENÚNCIA. PEÇA ACUSATÓRIA QUE APONTA A SUPOSTA PARTICIPAÇÃO DA EMPRESA DIRIGIDA PELOS ORA PACIENTES EM ESQUEMA VOLTADO À PRÁTICA DELITIVA, SEM, CONTUDO, INDIVIDUALIZAR AS CONDUTAS.

RESPONSABILIZAÇÃO PENAL OBJETIVA. IMPOSSIBILIDADE.

3.

"O

simples fato de uma pessoa pertencer à diretoria de uma

empresa,

por

si

só,

não

significa

que

ela

deva ser

responsabilizada

pelo

crime

praticado,

ali

sob

pena

de

consagração da responsabilidade penal objetiva, repudiada

direito

nosso

pelo

penal"

(HC-117.306/CE, Relatora

Desembargadora convocada Jane Silva, DJ de 16.2.09).

(HC

129.809/CE, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEXTA TURMA, julgado em 03/08/2010, DJe 20/09/2010)

STJ: HABEAS CORPUS – LAVAGEM DE DINHEIRO – EVASÃO DE DIVISAS – DENÚNCIA QUE ACUSA COM BASE NO STATUS DO PACIENTE – AUSÊNCIA DE DESCRIÇÃO DE CONDUTAS TÍPICAS – NULIDADE DO PROCESSO POR INÉPCIA DA DENÚNCIA – ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA. EXTENSÃO

DO JULGADO ÀS CO-RÉS.

4. A peça acusatória que faz imputação

a uma determinada pessoa, simplesmente pelo seu status, configura caso de responsabilidade penal objetiva e deve ser

repudiada.

(HC

89.297/CE,

Rel.

Ministra

JANE SILVA

(DESEMBARGADORA CONVOCADA DO TJ/MG), QUINTA TURMA, julgado em 20/11/2007, DJ 10/12/2007, p. 419)

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Insiste-se:

o

Direito

Penal não comunga com a
Penal
não
comunga
com
a

responsabilidade penal objetiva. Ou seja, ante a verificação, em

tese, de um delito praticado por meio de uma pessoa jurídica, não

se pode atribuir objetivamente

o resultado

ilícito aos

sócios da

empresa, sob pena de se estar praticando um direito penal

sem

culpa (versari

in

re

illicita), fato inadmissível

em

um

Estado

Democrático de Direito.

Enfim, a denúncia que rendeu ensejo a instauração do presente processo penal, por não descrever de forma adequada o fato criminoso, especialmente quando não estabelece a necessária vinculação da conduta individual de cada acusado ao evento delituoso, especialmente da Defendente, qualifica-se como inepta, devendo, por via da mais lógica consequência, ser rejeitada.

3) DOS PEDIDOS

Diante de todo o exposto, vem a Defendente, confiante, requerer que Vossa Excelência, reto e probo aplicador do direito, se digne de reavaliar a decisão que recebeu da denúncia, rejeitando-a, finalmente, uma vez que, ao não descrever adequadamente o fato criminoso, revela-se absolutamente inepta.

Caso não seja esse o entendimento de Vossa Excelência, o que se admite apenas pelo sabor do argumento, requer a ouvida das testemunhas ANTÔNIO RODRIGUES DA SILVA e MARIA JOSÉ DA SILVA FERRERIA, ambas residentes em

Fortaleza/CE, que comparecerão

à

audiência

de

instrução

e

julgamento independentemente de notificação.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Termos em que pede deferimento. Fortaleza, 22 de janeiro de 2017.

Termos em que pede deferimento. Fortaleza, 22 de janeiro de 2017.

A. Costa Jr. Liana Ximenes

José Armando da Costa Jr.

Advogado – OAB/CE nº 11.069

Liana Ximenes Mourão

Advogada – OAB/CE n° 18.473

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 6ª VARA CRIMINAL DE

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA CRIMINAL DE TERESINA

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RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO

Processo nº 987099085732010

JOSÉ HENRIQUE ALMEIDA, brasileiro, casado, bancário, CPF nº 578.852.417-59, com endereço na Rua Sinésio, 258, Benfica, Teresina, Piauí, CEP 85.296-785, vem, perante Vossa Excelência, com o devido acato e respeito, por intermédio do advogado subscrito, com fundamento no art. 396-A do Código de Processo Penal, apresentar sua resposta escrita à acusação ofertada pelo órgão do Ministério Público estadual através de denúncia, o que faz consoante os argumentos a seguir alinhados, requerendo, ao final, a decretação de sua absolvição sumária.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes 1) DOS FATOS A Senhora ODETE MARIA AGUIAR, Defensora Pública, contraiu,

1) DOS FATOS

A Senhora ODETE MARIA AGUIAR, Defensora Pública, contraiu, no ano de 2011, empréstimo junto ao BANCO PANAMERICANO, através do contrato nº 501004910-3, sendo que tal empréstimo seria adimplido em 60 parcelas de R$ 1.957,00, mediante desconto em folha de pagamento.

Honradas algumas prestações, a Sra. ODETE, alegando estar passando por problemas financeiros e, também, por considerar que os juros pactuados no contrato seriam abusivos, ajuizou ação revisional com o objetivo de reduzir o valor das prestações.

A

ação foi distribuída

à

Vara Cível

e acabou sendo

objeto de concessão de medida liminar, tendo o Magistrado competente determinado, entre outras medidas:

a) que fosse suspenso o desconto em folha das parcelas vincendas do empréstimo; e

b) que a Sra. ODETE passasse a depositar mensalmente a

quantia

de

R$

925,09

em

favor

do BANCO

PANAMENRICANO

(ou

seja,

reduziu

o

valor

das

parcelas).

Ocorre que, passados alguns poucos meses, o BANCO PANAMERICANO verificou que a margem consignável na folha de pagamento da Sra. ODETE havia sofrido um decréscimo (certamente em virtude de outros empréstimos), razão porque procedeu a alteração dos termos do contrato.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Pois bem, conforme a alteração contratual realizada pelo BANCO PANAMERICANO, a

Pois bem, conforme a alteração contratual realizada pelo BANCO PANAMERICANO, a Sra. ODETE iria saldar sua dívida junto ao banco em 60 parcelas de R$ 725,09 (ou seja, houve uma diminuição no valor da prestação mensal, mas o número de parcelas foi estendida).

Registre-se, por oportuno, que a alteração contratual, na forma como realizada pelo PANAMERICANO, em razão de falta de margem consignável, é perfeitamente possível, já que expressamente prevista nas cláusulas do contrato original, constante nos autos.

Pois

bem,

o

fato

é

que,

em

virtude

de

uma

desorganização interna – e somente por desorganização, nunca por dolo – o BANCO PANAMERICANO, ao invés de continuar acatando a decisão judicial, acabou descontando, nos meses de JULHO/2009 e AGOSTO/2009, duas parcelas no valor de R$ 725,09 na folha de pagamento da Sra. ODETE.

Podia o PANAMERICANO fazer isso? Claro que não!

Ocorre, todavia, Excelência, que esses descontos, realmente indevidos (admite-se), só ocorreram por desorganização, nunca por dolo, tanto é verdade que, quando notificado desses descontos irregulares, o que ocorreu no dia 14 de agosto de 2009 (fls. 24), pela própria Sra. ODETE, o BANCO PANAMERICANO, sem demora, fez a devolução em dobro dos valores indevidamente descontados.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Isso mesmo! O BANCO PANAMERICANO, no dia 15 de setembro de

Isso mesmo! O BANCO PANAMERICANO, no dia 15 de setembro de 2009, isto é, um mês depois de ter sido notificado dos descontos indevidos, depositou na conta da Sra. ODETE a quantia de R$ 2.900,96, justamente o dobro exigido pelo Código de Defesa do Consumidor, conforme comprova, o Depósito Judicial que dormita nos autos (fls. 83).

Enfim, por ter realizado esses descontos indevidos – mais uma vez admite-se – o Sr. JOSÉ HENRIQUE, gerente do BANCO PANAMERICANO, que não teve nenhum contato com a Sra. ODETE (não foi o funcionário que fez o empréstimo, não foi quem recebeu a ordem judicial, nem era quem tinha poderes para determinar o seu cumprimento) está sendo alvo da presente ação penal.

2) DO DIREITO

Consoante o art. 397, inciso III do Código de Processo Penal, o juiz absolverá sumariamente o réu quando verificar que o fato narrado na denúncia evidentemente não constituir crime:

Art. 397. Após o cumprimento do disposto no art. 396-A, e parágrafos, deste Código, o juiz deverá absolver sumariamente o

acusado quando verificar:

I - a existência manifesta de causa excludente da ilicitude do fato; II - a existência manifesta de causa excludente da culpabilidade do agente, salvo inimputabilidade;

III - que o fato narrado evidentemente não constitui crime; ou

IV - extinta a punibilidade do agente.

E é exatamente o que se observa no presente caso.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Antes de qualquer coisa, entretanto, importante esclarecer um pequeno equívoco em
 

Antes

de

qualquer

coisa,

entretanto,

importante

esclarecer

um

pequeno

equívoco

em

que

incorreu

a

ilustre

Promotora de Justiça quando da classificação do delito narrado na

peça acusatória.

Pois

bem,

depois

de

descrever

que

o

BANCO

PANAMERICANO teria descontado indevidamente duas parcelas na folha de pagamento da Sra. ODETE (o que de fato aconteceu), a Promotora classificou referida conduta como sendo a constante no art. 7º, inciso VII da Lei 8.137/90, um crime contra as ralações de consumo:

Art. 7° Constitui crime contra as relações de consumo:

VII - induzir o consumidor ou usuário a erro, por via de indicação ou afirmação falsa ou enganosa sobre a natureza, qualidade do bem ou serviço, utilizando-se de qualquer meio, inclusive a veiculação ou divulgação publicitária; Pena - detenção, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, ou multa.

Ora, realizar descontos na folha de pagamento de alguém quando há uma decisão judicial impedindo expressamente essa prática, isso em hipótese alguma configura referido tipo penal.

Para

que

referido

tipo

penal

se configurasse, seria

necessário que a Sra. ODETE tivesse sido induzida a erro pelo

BANCO PANAMERICANO, induzimento que precisaria ter ocorrido

através de indicação ou afirmação falsa ou enganosa sobre a

natureza,

qualidade do bem ou

serviço. Veja, a

propósito, o que

afirmam ROGÉRIO SANCHES e outros sobre esse crime:

“Induzir é incutir. Portanto, o sujeito ativo que incute, de forma dolosa, o sujeito passivo a erro, por meio de afirmações inverídicas quanto a procedência ou qualidade do produto ou serviço, utilizando-se de

publicidade

para

tal

fim,

estará cometendo a conduta

Legislação Criminal Especial, RT, pg. 852)

criminosa.”

(in

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Isso nunca aconteceu! Tanto é verdade que a Sra. ODETE, nas

Isso nunca aconteceu!

Tanto é verdade que a Sra. ODETE, nas inúmeras peças que endereçou à presente persecução, nunca sequer ousou a sugerir ter sido induzida pelo BANCO PANAMENRICANO a fazer o tal empréstimo consignado.

A Sra. ODETE reclama exclusivamente dos descontos indevidos realizados em sua folha de pagamento, o que, evidentemente, não se encaixa, nem de muito longe, num crime contra relação de consumo.

Aliás, transcreva-se uma passagem de uma intervenção da ilustre Promotora de Justiça no curso do inquérito policial, onde fica definitivamente registrado no que consiste a acusação tratada nessa ação penal:

“O ponto nodal do presente apuratório cinge-se ao suposto desconto indevido, por parte do Banco Panamericano, no salário da noticiante em razão de contrato de empréstimo em consignação firmado junto àquela Instituição Financeira, cujo adimplemento encontrava-se sub judice mediante depósito das parcelas em juízo.” (fls. 341)

Ora,

Excelência,

essa

conduta,

de

fazer

indevidos na folha de pagamento

da

Sra. ODETE,

descontos no máximo,

configuraria o crime de desobediência,

previsto

no

art.

330

do

Código Penal:

Desobediência

Art. 330. Desobedecer a ordem legal de funcionário público:

Pena: detenção, de quinze dias a seis meses, e multa.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Aliás, foi por essa exclusiva razão que o inquérito policial foi

Aliás, foi por essa exclusiva razão que o inquérito policial foi instaurado num primeiro momento: para apurar se realmente houve crime de desobediência judicial, e nunca por qualquer outra razão.

a) Emendatio libelli

Embora tenha a Promotora afirmado que o fato narrado na denúncia seria um crime contra as relações de consumo, o Acusado tem pleno conhecimento de que deve se defender dos fatos narrados na peça acusatória, e não da classificação jurídica, já que sempre é possível a figura da emendatio libelli.

Portanto, a presente reposta escrita concentra-se, ainda, em demonstrar que o fato narrado pela Promotora na denúncia também não configura crime de desobediência.

Antes de tudo, importante rememorar que crime de desobediência só admite como elemento subjetivo do tipo o dolo. A propósito, colaciona-se a lição de CELSO DELMANTO a respeito do elemento subjetivo do crime de desobediência:

Tipo subjetivo: é o dolo, ou seja, é a vontade livre e consciente de desobedecer a ordem legal que tem obrigação de cumprir. O erro ou motivo de força maior exclui o elemento subjetivo. Na doutrina tradicional pede-se o “dolo genérico”. Não há forma culposa do delito. (in Código Penal Comentado, RENOVAR, p. 821)

No caso presente, como já amplamente demonstrado, o desconto só se deu por desorganização, por erro do BANCO PANAMERICANO, que não atentou (esqueceu) que havia uma ordem judicial impedindo que os descontos fossem efetuados.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes A ausência de DOLO é tão cristalina que o PANAMERICANO, sem

A

ausência

de

DOLO

é

tão

cristalina

que

o

PANAMERICANO, sem demora, repita-se mais uma vez, assim que

soube dos descontos indevidos, fez a devolução em

dobro dos

valores indevidamente descontados, conforme exige o CDC.

Aliás, a esse propósito, a jurisprudência dos tribunais pátrios é toda no sentido de que, havendo sanção de ordem civil ou administrativa, a não ser que haja expressa previsão na norma, não se pode falar, ao mesmo tempo, em responsabilização penal.

Ou seja, não configura o crime de desobediência à ordem judicial quando existir previsão de sanção civil ou administrativa para o caso, a não ser que a norma que preveja a sanção não-penal admita expressamente sua cumulação com a penal:

STJ: HABEAS CORPUS. PREFEITO MUNICIPAL.

CRIME DE

DESOBEDIÊNCIA DE ORDEM JUDICIAL PROFERIDA EM MANDADO DE SEGURANÇA COM PREVISÃO DE MULTA DIÁRIA PELO SEU EVENTUAL DESCUMPRIMENTO. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. ATIPICIDADE DA CONDUTA. PRECEDENTES DO STJ. ORDEM

CONCEDIDA.

1.

Consoante

jurisprudência

firme

desta

Corte, para a configuração do delito de desobediência de ordem judicial é indispensável que inexista a previsão de sanção de natureza civil, processual civil ou administrativa, salvo quando a norma admitir

expressamente a referida cumulação.

2.

a decisão

Se

proferida nos autos do Mandado de Segurança, cujo descumprimento justificou o oferecimento da denúncia, previu multa diária pelo seu descumprimento, não há que se falar em crime, merecendo ser trancada a Ação Penal, por atipicidade da conduta. Precedentes do STJ. 3. Parecer do MPF pela denegação da ordem. 4. Ordem concedida, para determinar o trancamento da Ação Penal 1000.6004. 2056, ajuizada contra o paciente. (HC 92655/ES, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, QUINTA TURMA, julgado em 18/12/2007, DJ 25/02/2008, p. 352)

STJ: RECURSO

ORDINÁRIO

EM

HABEAS

CORPUS.

DIREITO

PROCESSUAL PENAL. DESOBEDIÊNCIA.

TRANCAMENTO DE

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes INQUÉRITO POLICIAL. NORMA EXTRAPENAL. CUMULAÇÃO EXPRESSA DE SANÇÕES. 1. Esta Corte

INQUÉRITO POLICIAL. NORMA EXTRAPENAL. CUMULAÇÃO

EXPRESSA DE SANÇÕES.

1.

Esta

Corte

Federal

Superior

firmou já entendimento no sentido de que não há falar em crime de desobediência quando a lei extrapenal não trouxer previsão expressa acerca da possibilidade de sua cumulação com outras sanções de natureza civil ou

administrativa.

2. Recurso provido. (RHC 15596/SP, Rel. Ministro

HAMILTON CARVALHIDO, SEXTA TURMA, julgado em 16/12/2004, DJ 28/02/2005, p. 370)

No caso concreto, o CDC, no parágrafo único do art. 42, prevê, para o caso de cobrança indevida, que o consumidor seja ressarcido com o dobro do valor indevidamente cobrado, não havendo, frise-se, previsão de cumulação com a sanção penal.

E

como

incansavelmente

dito

até

aqui,

o

BANCO

PANAMERICANO, logo que notificado da cobrança irregular, cumpriu os ditames da norma consumerista, ou seja, pagou em dobro o valor indevidamente exigido da Sra. ODETE (fls. 83).

b) Participação do Sr. JOSÉ HENRIQUE

Como se não bastasse tudo isso, importante perquirir o porquê da inclusão do Sr. JOSÉ HENRIQUE no polo passivo da presente ação penal.

Por que, afinal, o Sr. JOSÉ HENRIQUE foi escolhido para ser o acusado desse crime de desobediência?

Registre-se que o Sr. JOSÉ HENRIQUE sequer trabalha

com empréstimos

consignados,

mas

tão-somente

com

financiamento de carros, o que definitivamente não foi o caso da Sra. ODETE.

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes Aliás, o Sr. JOSÉ HENRIQUE sequer teve contato com a Sra.

Aliás, o Sr. JOSÉ HENRIQUE sequer teve contato com a Sra. ODETE. No único momento que se envolveu nessa celeuma toda, foi quando recebeu a notificação dos descontos irregulares e a encaminhou para São Paulo, sede do PANAMENRICANO, para que as providências legais fossem tomadas, como efetivamente foram.

O fato de, por alguma razão, ser o responsável pela filial do PANAMERICANO em Teresina não o transforma no autor da pretensa desobediência (que sequer existiu, como se demonstrou).

Outra coisa, o Sr. JOSÉ HENRIQUE não tem condições materiais de fazer desconto na folha de salário de quem quer que seja. Essa providência é tomada em São Paulo, na matriz. O máximo que faz é encaminhar as intimações/notificações. Portanto, nunca poderia ser responsabilizado por qualquer desconto.

Outra coisa, há nos autos, precisamente às fls. 117, informação sobre quem foram as pessoas que acessaram o sistema SisconsigNET e oportunizaram o desconto indevido na conta da Sra. ODETE. De se observar que essas pessoas também não agiram com dolo. Aliás, ninguém, nesse caso, agiu com dolo. Tudo não passou, insista-se, de uma desorganização, de um erro, de um equívoco.

3) DO PEDIDO

Diante do exposto, vem o Acusado, confiante, requerer que Vossa Excelência, reto e probo aplicador do direito, se digne de absolvê-lo sumariamente das imputações assacadas, pois que o fato veiculado na denúncia, conforme ampla demonstração aqui

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes realizada, evidentemente não constitui crime de desobediência, muito menos crime contra

realizada, evidentemente não constitui crime de desobediência, muito menos crime contra as relações de consumo.

Termos em que pede deferimento.

Fortaleza, 19 de agosto de 2014.

A. Costa Jr. Liana Ximenes

José Armando da Costa Jr.

Advogado – OAB/CE nº 11.069

Liana Ximenes Mourão

Advogada – OAB/CE n° 18.473

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Armando Costa Jr. Liana Ximenes

Armando Costa Jr. Liana Ximenes EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA CRIMINAL DA COMARCA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA VARA CRIMINAL DA COMARCA DE FORTALEZA

##

RESPOSTA ESCRITA À ACUSAÇÃO#

Processo nº 0078536-98.2015.8.06.0001

JOSÉ AUGUSTO DE OLIVEIRA, já qualificado nos autos em destaque, vem, perante Vossa Excelência, com o devido acato e respeito, por intermédio do advogado subscrito, conforme procuração em anexo (doc. 01), com fundamento no artigo 396-A do Código de Processo Penal, apresentar sua RESPOSTA ESCRITA, o que faz consoante os fatos a seguir expostos.

Consoante o que irá exsurgir, de modo induvidoso, dos elementos probatórios a serem carreados aos autos, os fatos não ocorreram da forma narrada pelo ilustre membro do Parquet estadual em sua peça denunciatória.

Para a instrução criminal, onde ficará demonstrada a inocência aqui alegada, requer a audição das testemunhas RONNIE VON DA SILVA e ERASMO CARLOS, que comparecerão à audiência de instrução independentemente de notificação.

Termos em que pede deferimento.

Fortaleza, 09 de março de 2015.

A. Costa Jr. Liana Ximenes

José Armando da Costa Jr.

Advogado – OAB/CE nº 11.069

Liana Ximenes Mourão

Advogada – OAB/CE n° 18.473

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