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'A ·Formação do Candomblé

~- História e ritual da nação jeje na Bahia

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\:.~ ~ docunH~ntos Jll.Ulusc

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l' impn·ssos, Lu i.;, Ni('ol.w P.trés

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t'Strt'Vt'U um~t história admir.l.vel dos tscr.tvos lr.u.idos par.1 o Hr<lsil d.1 r<'gi.J.o onde se lcK,llinv.l o

pmh:ruso reino do Daomé, 11.\

awa.l Repúhliça cio Henim. hse:-.

afrkanos t'r.lm conhet:ido~ 11.1

BJ.hi.l como j<'je<:õ, mn.l identidade {·lnica cuja fonnaç:in, emhor.t

conllf'cida, mmc.1 n·rel)('u o

t'scl.lrecinwnw aprotiJnci.vlo qttt.'

o !Pitor enc:omrJr.i JWSte l:'Stmlo.

Entre os procf'5."0S cultur.li~ qur:

iljudaram J. ronsti{uir ;L IM\:J.o jeje

se destM.t a rt"ligi~o dos voduns. os

dt'llSI'S <JJOilW.lllO">.

Í~ preds.111Wlltt' o estudo du

Candomblé j<'je que constiwi

o núdf'o dcst(; livro. SIM tcst.·

mais polêmica

~uslc·nt.t qu~: os

SM('I'ÔOh'~ rlos \•oduns fórnt-cl·ram

o mnch·lo organit.-tdon.U da f;unília-ck--santo do CulClomhll~

baiano, .\l('•m do JMdrd.o dl'vocion qw~ envolve o culto dé múhipla~ divind.ltk" num llll'smo tl'mplo.

Fssa lt'i.l' 4ltt~lio1l.i o pionl'irisrno,

d

m·~sf·s ·1-~ptctos,.ué .tgor;l

.ttrihuido .ls Lr.tdi<;ôcs nagc)s,

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A FORMAÇÃO DO CANDOMBLÉ

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Lun FM.liClSOO Du.s - M.ucoAulltt.to C UMAI C O

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lUIS NICOlAU PARh

A FORMAÇÃO DO CANDOMBLÉ

HISTÓRIA E RITUAL DA NAÇÃO JEJE NA BAHIA

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E RITUAL DA NAÇÃO JEJE NA BAHIA SUl Hla.ANO !e o • ,. o • •

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CopyrisJ!.t O 100'1 by f:$tonro 6 VNc:alrlp Olrdlol,~ ~,., , pcll Lei J.6104r lf.LI,.,t.

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Prbloftd In Bru.W, f'oi !dto o dcpôslto l~d .Ecllton tb Unk- mp 1\w C:l»GI'J.(o P,.du, 10-

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AGRADECIMENTOS

.E.stc uabaJho t rc1ulrado de wn longo proc.csso de pesquisa que nio teria sido pouCvcl ,sem a colab-oraçio de um g.randc. número de pusoas e insrhu.içOO, às quais gostaria de txptt.s-.sar o meu agradecimcmo. Em primeiro luga.r, devo

lembrar muito especialmente os oomu dos mais velhos, que, pacientemente,

paruJharam seu rcmpo e sua sabedoria comigo: o finado hmnb#nl Vicente Paulo dos Sancos, a lin:~dago.io.ku Luiu Fnnquelina da Roç:ha. e seu irmão carnal. Eugenio Rodrigues da Rocha, ogl kut1 Ambcosio Bispo Conceiç.lo, ogá irnpt Bema.rdino Fcrrein. c aghagigan Evcn.ldo Conceição Ouattc. AJradeço wnMm a todos o:s outtos membros das congrevç6cs religiosas jcjts c de ouuos candom-

blé$ que aceitaram minha pre-sença em suu urim6nia.s. usim como a todas aquda.s pcuou do povo-de--ttnlO que, em alguma oca.siio. ajudaram n~.mi· nha pc.J:quiu., e que aqui seria imposdvc.l enumen.r.

No lmblto acadl:mico, agradeço a inestimivel ajuda c o apolo dos profcs-

soces JoGo Jos~ Reis, Vivaldo da Casca Uma, embaixador Alberto da Casca e

Silv2, Maria lnh Corces de Oliveira, Renato da Silveira, Luit. Mon, Mariza

de Carv:Uho Soa Silvia Hunold Lara, e aos membros da linha de pesquin

Escravidlo e Invençlo da Liberdade, do Programa de Pós-Graduação em Hinó.tia da Universidade Federal da Bahia, no qual fora.m apresentadas vc.r-

sóes pre1iminarcs dos capítulos 1. 2 e 3. Sou igualmente grato aos colegas do

rcs,

Programa de P6s

Gnduaçlo

em Ci~ncia.sSociais da Univc.rsidadc Federal da

Sabia, em particular Maria Rosirio de Ca rval ho , Graça Druck e Miriam Ra

bello, que sempre propiciaram um :tmbíente acadEmico eStimulante para

minha pesquisa. Agradeço a ajuda de ouuos petquisadores c amigos, como Hypolite Bricc Sogbos.si, R.ogcr Sa.n.si, Liu Ead Çanillo, Luiz Oaudio Na.scimcnto, Fernando

Araó.jo c Pctcr Cohcn. Ta.mbhn aos funcionúios do Arquivo Regional de

Cacboc:iro, Arquivo Público do Emdo da B.U.ia e Lostituto Gtogrifico Hisró-

rico da Bahia, peta ajuda n& pcsquin documental. Meus agradecimentos. ainda, a Shdla Cavalcante dos Sa.ntos, pela. paciente revido do meu portu- su~s.c a Bete Capinao, pelo esforço na busca de rccu.rsos para publicaçlo. Esta pesquisa não teria sido posdvel sem a bolsa de fc.squiudor visitante

concedida peJo CNPq nos ano1 1999-2002 e, anceriorm"ntc, a boJsa de pro-

concedida pela CAras no períod o 1998~1999. Tamb~m. em

feuor vis-iunrc

2003, a Fuo daç~o d e Ampuo ~!'esqu i,. do Escado da Bahia (FAPESB) conce -

deu.-mc um aux ílio de public.açlo. Meu grato reconhecimento, por seu apo io,

a e.ua.s lnsrituiç6e.s br:uilciru de fomcnco à pesquisa.

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I

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SUMÁRIO

ABREVIAlURAS·-

-

----- ---- ------ -

PREFÁClO

 

_

ENTRE DUAS COSTAS, NAÇ0ES, ETNI AS, PORTOS E TRÁFI CO DE ESCRAVOS _

2 FOUIAÇÁO DE UMA IDENTIDADE flNICAJEJE

NA BAHIA DOI S{CUlOSXVQI E lll

3

DO CAlUNDU AO CANDOloiBÚ: OPROCESSO FORlllTIVO

DA REliGIÃDAFRD·BRAIJUIRA,

4 ACONTRIBUIÇÃOJEJE N411lSTITUCIOIMliZAÇÁD

00

CANDDMBLt NO S!CULO XIX _

_

S O BOGUM EA ROÇA OE CIMA, A HI STÓRI APARa LELA

OE DOI S TERREIROS JEJES NA SEGUNDA METADE 00 S!CULO XIX ---- --

6

liDERANÇAEDINÂMICAINTERNADOI nRREIROS

BOGU.IIESEJAHUNO!110S!CUIOXX--------- --

7

OPANTEÃOJEJE ESUASTRAHSFORlllç0EI _

_

8

ORITUAl, CARACTERÍSTICAS DA liTURGIA JEJE-MAHI NA BAHIA

CONCWSÃO

 

_

BIBLI OGRAFIA _

_

11

13

23

101

125

169

213

211

313

365

373

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o

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I

1

ÂAPU

ACMS

AHU

Aoa.is do Arqu i vo

ABREVIATURAS

Pdblico da Bahi~

Arquivo da Cllria Mccropoü,ana de Salvador

Arquivo Hinórico Ultramarino

ANrr

Arq uivo

Naciona l da Torre d o T ombO--

Li sboa

APEBa

Arquivo Ptlblico do Estado da Sabia.- Sa.lvo.dor, Bahia

ARC

AsMPAC

Cuo

Arquivo Regional da Cachoeira -

Cachoeira, Bahia

Arquivo da Socicd2dc

Cac.bocin. Bahia

UntrO de .Euudoa: Afro-Or-ic-nW.S

Montepio deu Aniscu Cachoeiranos

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~tudesOahomclnnta Fórum Tc:uira de Frciru- D choeira, Bahia

Fnc

IHcaa

Inniruto HiStórico e Geogrífico da Bahia -

Salvador, Bahia

UFBa

Universidade: Fede ral da Bahia

-1

11

Inniruto HiStórico e Geogrífico da Bahia - Salvador, Bahia UFBa Universidade: Fede ral da Bahia -1

\

PREFÁCIO

R.csulrado de mais de stte anO$ de p<:.squisa, cne livro~ uma contribuiçâo pau

-a rccupcraçio da memória histórica de um grupo scralmcntc t.squccido, tanto

prcsdgio da nação

nos csrudo.s afro-brasilei ros como entre o povo-dc

unro.

O

nos csrudo.s afro-brasilei ros como entre o povo-dc unro. O jcjc de Candomblê 1 ~ ainda.

jcjc de Candomblê 1 ~ ainda. rccoobcddo entre os c-.spccialisu.s religiosos. c

os pesquisadores nio deixa.raro de se rc:fcrir ocasionalmente a aspectos parciais

do $CU rito. No cnt21ltO, nio houve at~acon nenhum livro dMic:ado ;a estudar em profundidade c de forma. porme.noriu.da es.sa •raiz."' da eulrura afro bca

tilcira.

ao mesmo tc.mpo oa ::h·ca da hiStória c da antropologia

da religião afro-brasilci~.loccrclisciplinarJ porn.nto, incide num2 plu.ralicbdc de

rema$ diversos, mas inrcrnamcntc entrelaçados, incluindo, cnu·c outros: a

consuuçlo da c-mieidade: jeje no BrasU Colônia, a c:otHribuiçlo dos cultos de

voduns no processo formadvo do Candombl~.a micro-h.iscória de dojs terreiros de naçlo jcje e uma etnografia. seletiva do pance5o e do ritual vodum contem porlnco na Bahia. Um ~ucro:aspictõ.tigii"tficac~od~ trabalho dh. re.spe it o ao uso c:ompJe- mencar,de fontes escricas e orais. em·c:6'mbinaçSo com a anilise dos comporta· mento.s'rtitlai.srEmbora-õiO-;;j"a uma metodologia toulmence nova, essa

inccrfacc entre história c croogra.fi~ foj

estudos afrcrbrasife:iros. O au.u.mc cr{lÍCO desn variedade de fontes se

monrou bastante firt.il e abriu caminhos interpret•tivos que ceri2m sido im-

nco

uriliu:da com pouca frcqüêacia nos

O

livro cnquadr

sc

possíveis a partit cb ao~ de um dnico tipo de fonte. E

dalm.ente relevante na rcconsriru.iç.ão da história dos terreiros Bogum de Sal- vador e~ja HundêdeCachoe;ra, no Rct6nQvO Baiano, ambos fundados por \1

tfricanos jejes. ainda na ~poca da e.scravld,.tp.

sse exe.rdcio foi ape

O rec;one do objero de enudo responde a crit~riosde naru reu lingülsti·

ça.

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djuc que o liwo rrara da h junrinsrafja de duu paJayras: je je e vo~

13

• • • • • • • • • • • • • • •

~UIS NICOIAI PUH

dum a primeira de conteúdo rinci almentc ttnico e a se unda d çon- teu o nota amente re I@IQ.!O. su palavru orientaram e balit.aram a pesquisa documental, a.ssim como a sclcçlo dos terreiros ond~: foi rea.liudo o traba- lho de campo, jl que: cuas consregaç6cs rdigiosas se auto4efinem como per- tencendo ~*naçlo jcjc* c se dh:tlnguem de outras po~fuhua.rcenas djvin- d•des ch>.madu vodum. Pau demarcar a irca geosdfica africana da qual provinham os grupos

étojcos que oo Bra.siJ fora.m conhecidos como jejes (tema do captru1o ll. tam- bém uciliu;i criu!riot c.uc.nc.ialmentc lingQ.bricos. Nesse sentido. ae:gu.i a su- gcs,io de H. B. C apo c adorei a exprcssio ··,ru dos gbe falantes• (Gbe- Jpultint .cu•). ou sjmplumenrc •;trca sbe·. pau designar a rcgilo seunuionaJ

o sudoeste da Nigéria. onde habit:~m os

do auW Toso. Repóblica do B.e.nito e

povw tradicionalmente designados na liruuura como adja. cwe. fon ou coro-

. ·cbe• ~o vodbulo companilbado

por todos eues grupos para designar llngua_ e, embora nlo seja um termo de

auto-idc.ntifiaç.lo autóctone, tem a nntagc.m de oio sc.r um termo •crno-

e~ntrico*que privilegia o nome de um subgrupo para designar o eonjunto. 1 .t. precisamente enue uses povos com parentesco Hngüfnico que desde tem

bioaçõa deucs 'crmor como adja

cwc

pos a o termo •vodurn"' ~ uu.do para designu u divindades ou forças

otigos

invisíveis do mundo espirituaL A dcmarc.aç.ão de uma área geográfica com buc em critérios lingüísticos responde a uma ncccuidade dcsericiva e anaHtica, mas cabe notar que a

área gbe sempre eonuic.uiu umt sociedade pluriculturaJ e polié:rnica, em

que o sincma mercantil, 1.1 guerras c o sinema. escnvocrau. favoreciam fluxos populacionais de uma ~ont pare outca, que conuibufam para essa

Cidades como Uidi e Abomcy erun centro! relarivamence

cosmopolitas, compadveis, salvando •s distinci:a'• com os núdeos urbanos do Brasil Colônia, onde também por rnôct de ordem mc:rcancil. Ligadas ao sistema escra.vocrato. adlnrico, se produúíl a lnc,sma conflu~nciae o cn· contro de grupo& huma.oos eulruu.lmenre d iversos. Essa semelhança estru-

tural .sugere que cel'Câs d.iulm.in*,-dc iôen'rid~Cdc:Cõlétivrdegrupôrmilto-=­

rhohios, bem como &uu c.scrarégias de auim i laç5o e resinêoóa em relação

aos grupos dominantes, podiam ter

Bahia c na 4.rca zbc:. Fredrlk Bar-th fala de siltnn111ot-i11J lntlobantt para referir à cstru,u.r-a ao- cia.l ou ao conjunto de relaç.6es tociaiJ comparcllhad:u por todos os membros de uma 1ocicdade plunl (o con.aen.so mJ.ç.rossocial), c fala da manutenção de fromciras cntrc.truJ#IImic#J como •organiu.çio da divccsid.ade euhunJ• (a

diferença micronocial). E.uc autor insine na ncr;essidadc de não se confun· dir cultun c ctnicidadc, pois a última seria uma dinlmica dc,envofvida .a par-

diversidade

se

reproduzido de forma paralela na

.a par- diversidade se reproduzido de forma paralela na PUFACIO tir da vllloriuçlo de apcnu a/runs
.a par- diversidade se reproduzido de forma paralela na PUFACIO tir da vllloriuçlo de apcnu a/runs

PUFACIO

tir da vllloriuçlo de apcnu a/runs elc:menco.a: culru.ra.is. os .sinais diacdticos que exprc.nam a• d1fercnçu.

um conjunto 'i$tc:mi-

Por~m a pcrainfncia dos grupos icnicos precis:~.de

tíco de rc&ru dirigindo os concacos inrer~nlicos•;etn ouua.s palavras. t prc· ciso que exisca •u.ma con&ru!ncia de código.s c valores•, o que em última in.srlocia requer e cria uma •simHaridade ou comunidade de cultura";• Os

shtcmas

cultiJral, um consenso de btJc a panir do quaJ se *rticula a diferença. Como veremos, o C!ndombll i um darp exemplo dcsu djntmjq pmaressi-va homose.oeiuçlo inStitucional. acompa.ohada ds uma djnJmjça paralda de ~ difercnciaçlo •éc.nica• enabdccida a putir de uma série clisc.rcta de clcmcn-

tO.I rituajs• Um dos problc.mu ccncrais desce uab:alho i compreender a gblese e a manutcnçio du identidade-s étnicu dos africanos no BrasiL Para abordar essa quettlo optei por ulitiur as 1corias da ccnic:idade de cará,er • td:acional• pro-

posr.u por Barth, em deuimenro daquelas de c::artcer '"'primordial

d:u por auco.rcs como Max Webcr ou Clifford Geera

proposta por Barrh entende a idenddadc: ~tnic:acomo uma dinimica rcla.-. cional. ou dia.16gica, segundo a qual "'o nós se connr6i em relação a des·. A identidade ~tnicanlo uria, portsnto, simplesmente um congloroerado de sinais diacríticos fixos (origem. pa.renresco biológico, língua. reügiio cce.), mas um proceuo histórico. dinlmico. em que uses .sinais seriam sdecionados e (re)c:laborados en\ relaçlo de contraste eom o "'outro•.' Como sugere Carnei-

sodai.s muhi~mieos comporc:am, pona.nro, uma re.laciva. simbio.se

swtcnta

J

A teoria '"'siwacional•

ro da Cunha

'"a cultura original de um grupo é.cnico, na.diispora ou em sirua-

çôes de intenso contato, n.lo se perde ou nc funde simplesmente; mas adquite uma nova funç.Ao, essencial c que se acresce às ouuas, enquanto se torna uma

cultura tU conrrasr•*·'

Por seu lado, Abner Cohen concebe os grupos étnicos como g-rupos de

intereue.s que manipulam elemcncos da sua c-uh:1.1ra "'uadicionaJ" como meio para lnc(ncivar ;. unidade do grupo na busc:a pelo poder.• Nesse sentido, ! ;nili•c rcaljzada no caplrul~b•e a e&IUIU.uçãn da idtoridade jeje na Bahi'<l;

do,.t<ulos XVlll e

nas quais os atores socia.is~em função da sua avaliaçlo da situa-

a c de manein cstrat~ i ·edvo. Por exemplo. um escravo ou libeno

ependendo do contexro e do incetlocuror. coroo nvalu.

jejc. rnjna ou africano, indo da carcgoria ma.is pa.rticuJar 2 mais gcntric:a. lu

diversas catcsoriu ficlMe-fuuduuaciaa:u;~po · · r de forma. su

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bonc~iíÕusuenc:sixada.t uma.s nas outras

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Desse: ponto de vista. não existiria ramo uma identidade !lnica, fixa e

ojgida. mas.JII.Iiltip.itu

e.cr.uzclo&.prowsos

dt idtnrificnriio.~~~­

tczto.J c incerloçyrorc.s es~Xdficos. Nesns inc:craç6c.s .sociais. ccnos sinais

diacrlticos, Auldos c flexíveis, seriam valorindos em fu.nçio da utilidade de

rcncr do momemo. Mas css:a instrumenralitaçio da identidade tem seus Ji)

uma determinada idcnt.ificação e de acordo com u\ncferências c os intc-

mhcs no sentido de que a identidade ~ cambc!m re,ulcancc da idcntificaçio

impoua pelos outro.s. c o individuo ou grupo deve c-onsiderar uses limites

na su.a esttttlJia.' A cottflu~ociado caráter "siu.aacionaJ• dos processos de identificação, com a exiscencia de um rc:pcnório variado de cucgorias re· fcrcnciais, permitem postular a. noçto de uma •'d111tidad~multiáimmsional.

O c:aso jejc .sugclt que a pliHicidade e multiplicidade idcncirárlas, que: nor-

malmente se auibuem ~modernidade tardia. foram um fen&meno que jt

u dan pelo

menos de$de o s~culo XVIII.

Ainda no caphulo 1 aponta se

para a imponlncia crítica das dinânúcu~

anociadvas c a formaç5.o de inniruic;ôes sociais, t:\ls corno irm;u\dades cat6li- c~s,gfupos de trabalho ou ca.ndombl~s.como espaços de sociabilidade nos quais

os prOCCS$os conuucivos de idc.nrifiaç2o étnica eoconuava.m um campo de e;x

s c valores: rdiglosot foi um dos

espaços cultuais mais rico$" pua a arcicu.laç:lo das diferenças c!tnicu. J!. ~

que, inrimamence imbricado com o

abord~rocesso de inscituc;ionaliz.u.do do Can-

domblé e a sua contribuição para a fgrm:u;:ío de uma

--u;;dos temas «nu-ais dos estudos comparativos sobre a rdigilo afro-ame ricanato relativo grau de continuidade ou de mudança sofrido pelas culruras

culrura afro-br;uileira•.

n~-~rasil, ~osc:apltuloa 3 e 4

pre-»io fecundo. Aliis. o âmbito das práti.c:a

problema d! jdçncidade étnica. dos afrignsn

rc:ligios:as de origem africana no Novo Mundo. Enquanto autores como Mé'l- ville Herskovhs ou Rogcr Basddc deram ~nfiue e.speciaJ à conrinuid:ade das

formas culturai

uos autores t~ norado as .dtam,t.icaf• mudanças que ocorreram no proc:esso de transferência, concluindo que 1. upcriên_cia do Novo Mundo praticamente

diluiu a herança africana. O dilcm:~ eml em saber 'C íl cultuO! negra "" .AQ

deve ssr rnrend.icb

coma adapraçfn çriativa

c:uo mais c:oncrcco que nos oc:upa,~ a religi5.o a.fro como retendo ou tobrcviv~nciade africanj3mos

l dursza da.,cscayjdjp c da raçjam;;

t~n~va va.loriz.a o conceito de Jobrcvivlncia cul-

tttrlll, inuodutido p~-~crskoviu,para designar aqueles elementos da anriga

cultura con~ervados• ict:êntico.s! cultura ''sincri!tica", bwcando provar

a qualquer preço a continuidade da cultura apesar das mudanças aparentes. Eu:a interpretaç1o, as.sumida tamWm pelo setor ·rra.dicionalista• dos pnti·

s

africanas c

tenacidade

da uadiçlo•, rnais rcc:cncemcnre ou-

bruilcjra

on

A primeira eorrcn

1

na-nova

16

rttHiCIG

~nresde Candomblé, cem rcforçadQ a ideologia 4á'"'purcn"' rnica c ritual dessa insrituic;lo e. legitimada por •mito.s• hiscóri~.s. nent2 uma idéia da uadido oomo rces.ciç3o invvi4wt. Nos atudo.s afro-a.me:riaoos csn postura se alinha normalmente com uma ideologia afro·clnrrica?•• a segunda corrente interpretativa e.ncart a u.tdição. como esdmulo para

a inovaçio e a tnudanç.a; dcsraca a hibridez. ou criouli.taçio. da religião afro-

bra.sllcira c a neceuida.dc de cstudâ 4 1a c emcndt·la n~o em rcJac;lo b origens

africanas, mas denuo da espt:cificid3de do procc.uo bjStórico c do contexto

sc>cioculrun.l bra.sileiro. Esse modelo critica a obsusiva busca por "'africa· nismos" ou sobrevivências culturais africanas empreendida pelos pesquisadores,

o que, c:m cercos caso~o como uma forma de l(c:xotizar" a religião. Vale

not:a.r que a ccse ~~io~~Jonega a continuid:ade com a África. rnas cnfatiz.a

os processos eulrufiiíque. no novo contexto colonial. inodi6car.m considera vclmrnrt all'amN-pdrõgs rituais, mantendo outras. c butrando pac:aldos

~--

Wrc djfercntet 'radj~6~§.rdjg1ous. 11

Nesse i.mbiro teórico, Sidncy Mincz. c Richard Pric:e. influenc::iados pela

antropologia simbólica americana,

sugerem um novo enfoque

nos e.scudos sa

b~ contit!iuid.a.de e mudança

dos elementos"'

Mais que: eompara.r as forma.$ c a (uncion:a.lid.ade

i ioie eschYtLUD a atençlo pan. a ncces:sidadc decompa· s e a p~ênciade cercas orientações cognitivas

n o dos 1~1\1

ra~

se

o'-'."visóes do murt~ lfior/J ,,;_~}•

re~s cuhunis :africanas e diasp6ricas, mas o que~

e.na.s representaç6c:s significam, pretende.rn e cxprwam.n O problema da permanência c da mudança, ou d:a intcraçJo cnue esuu ruu e açio, ~ um d()s tcma.s reeorrc:ntes nos estudos ancropológicos. Com ce rtas especifi cidades . essa problemática é aplic:l:vel t:a _mbém l religi~o afro· brasilc.ira. Compron-se, na biuófia do Candomblc!, a persist~nda de certos

V2lores c: pr"'tic;as j unto l rcssign ifi cação ou criaçlo de ouuos . H i, portamo.

alguma coisa que permanece ao lado de outra que muda. Defendo a necessi-

dade de entender a .simultaneidade ou sincronia dos proceuos de continuida· de c descontinuidade, a.nim como a necessidade de entender g proporção en·

enfim,

sugerem comparar nlo os aspcc·

rosth-ntturo~

s r

tre e.ssas din!micas. ~bJtma cai sobre os •africanitmos• ou as entre a.mb~

t~C:lnfase

f Q meu a~s:ntonio

U.e inven~a.wobre a cgmplua tnte.r:~cio

6, u.m:Lq

Herskoviu definiu a noção de ninurpret4fHI (ou, na sua vcrslo aruaiiud.a,

ressignifieaflfl) como "o proccsA:o pelo quai antigas .significações sio acribu( d:u: :a c!emcncos novo.s ou pelo qunl novos va.lorc.s mudam a significaçã.o cuhu · ul de formas antigas".''O intercue dos cuhuraliscu em demonstrar a cood· nuidade dos significados (inclusive nu mudanças) levou-os a dar uma ênfas.c

17

açlo". 14

mesmo

do culto de vodu

ns

na :ire~gbe, propor~

nsticucional.iuçlo

do C:tndomblê,

ns

uma "invenção" local rc.sulr~do das novas con-

11

mrlno

cüç&s: tociocuhurais do 8ruil, mas encoouaria no.s

culto.s de vodum n• África um

por v-ariados grupo.s iLDicos com suas

Estou, enfio, apesar de eieme das t rantformaç6es, cnfuiz.ando de aJgum modo cen-as continuidades, no que $C cefe.re ks linhas esr.rucurJis dos cu ltos, c a impouància de algunla.S tradições religiosas africanas nes.se processo. Po· r~m. é p reciso insinlr que nlo ~tou defendendo um Unico "modelo primor- dial" do Candombl~. nem quero rcdu.tir a sua formaçlo a um sunples con- glomerado de continuidades direc~s. Sabemos~ por uc:mplo, c:omo o carisma de um líder religio.so pode ser dere.rminantc: na lcgicima.çlo de um novo com- portamento rirual c na sua ponerior r~plica por pa.ru: de ouuos. Assim, o in divfduo como tra.nsmiuor de cuhura se coovenc em agente de mudança., e por isso a história do Candomblé precisa fazer um esforço de: aproximação

a.o.s sujeitos históricos que foram seu' protagoninas.

lt.sob essa pcrspecliva que os capítulos 5 e 6 ensaiam um11 rcconstiruiçio

histórica , em

at~ nos·

.sos dias, de dua.s e:ongrcgaç6es de Candomblé jc:jc-mahi, o Bogum c o Seja Huodé. Um dos objetivos foi orgaoita.r com o mWmo de rigor poulvcJ os c:scas.sos dados documentais c os máhiplos e concradlcórioJ cc.srcmuobos

orais sobre a história dc.sns comunidades jcjes. Tnta""$c de uma rcncadva pro- visória que.~sem dúvida, poderá ser acresc-ida e refinada por futuras pesqui- su. Com base nesse cru.umcnto de fomes escritas c onis, o esforço para a

com o interc&se geral

da Nova História por cscudu a hinória cultural dos grupos minoritários, dos l grupos subalternos. dos excluldos c dos "sem-história" . Es.scs captrutos camb~m fornecem um material intcre.uantc para exami- nar a dinlmica de coopcraç.!o, conflito e complcmc:maridade das lideranças religiosas no Candombl~. A uticulaçio de cedes de tolidaricdade e alianças csuat~gicasse misrura com a luta pelo poder nos pc:dodos de: .sucessão, a.s ri-

t/(1 flrganiz.aei(lnd c teria Jido replicado

Jvtn a es pa.nicularct.

longue dttrlt, desde a segunda mecade do s~culo XIX

recuperaçã.o da memória hisrórica dos jejcs a.ünha

se

- validade.s entre facç6e.s concorrenccs, a,s a.cusaçôe.l de feitiçaria c as .sanções das divindades para d1tlmir os confronros. A miccopoUcic:a no CandombM. e no jcje em puticular, rcvcla~se exuemame.o.ce dinlmica c comple:u4 Uti- lizando conceitos de Victor Turner, podcrtamos díter que o conflito se desenvolve no Ambito dos "dramu: sociais• (com 01 quauo cufgios de rup-

soluçlo c reincegração ou c isma) e~ rc,so lvido arrav~s do rltual ,

por sua vez entendido como algo regenerador c criativo. 16 N o ca.pltulo 7 e, sobretudo, no 8, ambicionei entender o facor cüferene:ial da identidade religiosa jeje denuo do Candombl~. recamando cerras idéias c.x-posu.s em relação ao.s proce.sso.s de idea.tific::açio l.tnic:a. O objetivo é idenci~

tura, crise~

19

tll1 II(O~JI P.\IÉS

na prim~ira pane: da ddiniçlo. Do seu lado. os defc:MOrcs da ccse crioulina tenderiam a destacar a sesunda pane da ddiniçio, privilegiando o coocc:ito de ag~ncia~ do envolvimento arivo e uan.sfor.mador dos próprlor partic:ipan·

rcs:. Sablins fala da continua •reavaliação fuocionaJ•\du categorias culturais ' 1 )

c de como "'a cuhun

é alterada histo ricamen re na

Sabemos que nem todos os legados culturais slo cond r1uos c ncnhu1n deles

i primo rdi:a.l. Ora, poderíamos nos perguJlt.a.r se o Candomblé seria o

1e o.s grupO$ africanos importado.s para o Brasil tivcu:ctn aido outros. Não há tomo responder com pteciJio ~essa questão, ma.s é. prov:lvel que sem a c:onui· buiçio do.s grupos da África ocidenul o Ca.ndomblé djficilmcntc: tcri:a che- gado à.s formas de organiuçlo convcl'ltuzl pelas quais I. reconhecido hoje em dia. Em outras palavru, a especificidade de çena.s nadiç6cs religiosas afria- nas foi t5.o importante quanto o sistema da cscravidlo para determinar a for- mação des-sa instituiçio religiosa. Uma das cest.li centrais dc.ue trabalho. exposta nos capfculos 3 e 4, sutcenca

que foram as uadiçôc-s tc:liglosas da Costa da Min:l, e em especial as da irea gbe, isto é, os cultos de vodum, Ofi que providenciaram no Brasil sececemin2

os prime

eclesial ou conveocual. O cipo de ar.ivida.:dc devoclonal dCJc.nvolvido a part.ir cb coruagraçáo de d~otos U divindad« mediante proceuos de iniciação~com a in.stalaçio de aJtuU fixos em espaços sagrados csúvcis, conua.srava com as pd.dcas teraptuticu c oracula.res: de cad.cc:r mais ind.ividua.liu.do c irinerante. pr6pria.s da maioria dos calundus coloniais.

referentes para a organitaç!o do g.rupo religioso numa estrutura

itos

Atravé-s da análiu cronológica da documt.ntaçio &obre as pririca.s rtligiosas

dos africanos nos .stcuJos XVIIT e XlX percebe~se um processo de progressjva

omplex.idade, c

gioso . Como sugeri, penso que os especialistas religiosos jc:jes, com .sua a-

canto no upc:cm cicual como na ocga_niuçlo do grupo rc:li-

peri~ncia e memória das tradiçlles

cionaram imponantcs referentes para a i

p:uticula.rmc.mc no que can&e-i ors:a.nizaçáo-de-congrcsaç6eJ cxccadom~stieas:

de tipo cclesial ba tese é çomplemc.ncada c:om o ugu.menro , do:cnvolvido no capCwlo 7~

de que a justaposiçlo de virias divinda.de& .ourn mc:nno templo e a organi- t.açio de ptrformanc' rin1al stri,da, c:arac:rerfsricas do Candombl~ comempo·

rlneo. encontram na.s uadiç6es vodu da :lrea gbe um cluo antecedtnce

desde pelo menos o stcu1o XVTtl, 4oobretudo JlO âmbito do$ cuJcos reais ou das Hnhagcns socialmente dorninantes em cidad es como Uid" ou Abomey. Por- tanto, a conscicuiçlo de culcos de múldplas divindade$ nio seria~ como tem

sustentado a lircrarura,"apcn:u:

ltn IICIUI •.uts

ficar o que torna a naçlo JCjc diferente das outras, c cuc inccressc decor-re, em primeiro lugar, da c.onnattção de que esta ~ uma prcocupaçio comum entre o povo-de-santo, expressa de v~ria.dasformu pelos próprio' pnticames. E.ue facor diferencial pode ser pensado como inclu\ndo principalmente doi$

aspectos simul t'S

rcssignificados ou nlo, Qinda persistem; e 2) um processo relacional de concra.su: com grupos concorrentes (isto~. jeje versut nag6). Privilegiei o se· gundo aspecto, no quaJ 11 relações de contraste demarcam fronteiras enue as naç6es, do meJmo modo como acontece com os grupos ~rnlcO$.A jdenri-

dade rdigiosa é, pottaQ(O-[e.àcio.nal~SC-UprCULl\o-GOo.tf'XJO de um Qln-

íe'""nso ins-tituciooaljudo, O capírulo 1 c.umina o panteio jeje em relaçlo a JCUJ antecedentes afri· canos, foca.liundo u divindtdes vod.uns que. sem dllvida, connimem u.m dos sinais diacríticos da liturgia jcje. No c,apfrulo final hli uma aprox.imaçlo mais c:mogcâfica e descritiva do titu.J jcjc. Cabe alertar que essa etnografia- resulta· do de um dado observador. num certo momento e num dado lug•r- não deixa de .ser aproxim:a.dva. e escll longe de ser c::uu.stiva. Sabc·.se que o povo jejc é muito ceserva.do e n5o convena com facilidade sobre o. sua religião, o que cal vex constitua ouuo de sew 1in:aiJ diacrlclcos. ~feccnta momentos, minha condição de csuansciro, de nlo-inici-ado. o;at[d~branco, &erou resistência mais ou menos c.xpllcira por pa.ne de certos individuas, c foi s6 com muita · paci~ociae pcNistlncia que consegui ganhar a confiança de ouuos. Inúmeros

upcC(OS da li(urgia interna da.s casas jejes permaneceram ocul(os. e outros

que porvenrura cheguei a conhecer foram censurados no cexro poc demanda ex.plfcit2 dos praticames. Foi a.ssim, auavés da as.s(dua. obtervaçlo pan:icipante dos sucessivos ciclos de feuas anu:ais, que:, ~os poucos, consegui entender

nc:os:

1) cerr.os elemenlos espc:dfit::oa\da ,,ca sbe que, embora

comportamen tos c pr.itica.s rimais de intricada

singularidade. da naçlo jeje. Pua fina.liur. cabe nO(ar que este tnbalho. pelo seu foco c rec::onc, tende a valoriuro jeje. Ora., tua valoriuçlo-não·rcspondc a nenhuma proposta-de •pur-ificar• ou rc:ificar eua uadiçlo, como podc.rtam peo.sar alguns leitores inadvectidOJ, mu ~resWudo de um interesse em reconhecer c calibrar na sua justa medida a sua. conuibuiçlo (claro que não única!) no processo formatlvo do Candomblt:. A valoritaçlo aqui elaborada em torno dos jejes n~o responde

a qualquer noçio de "superioridade c:ulcu.ral" de.ssa tradiç5o, mas a um demq-

eomplcxidadc e idenúftca.r as

rado uabalho de

fiáve is e à comprovaçlo de que cfetiva.menn: os cultos c.lc vodum tiveram um papel c-dtito na formaçlo do Candomblé. A pcupccdva histórica é impor cante na medida em que petmice emenderou avaliar o jogo das concinuid:adc.s

inferência& a parei r de d~doscmplricor relatlvamence con

20

c mudança-s. Não foi a minha intenção utiliur- •a Hiuória" d~ forma ideoló-

gica. aponta.ndo oriacns e defendendo continuidades diretu cnuc a Áftica e

o Brasil para JUStlfic.u ou legitimar qualquer hierarquia cu!cura), como cerra

Hreratura e uadiç6c:s orais ccndem a. sugerir em relação a outras nações.

NOTAI

1

s

Ao lon&o deste ua.balho, utili&O o cumo "CandombJf' com tnichl ~2i4~cula.para me

referir l in.nitui~o r c:lí&iou como um todo. c o me$ mO termo c:om 1ntc1a.l aunúscuh.

pua. me n:ftrir a cOilcrq.açk.s rcllsio.sas ou terreiros espcclficos.

Capo, C.m!«r4tiw

Fredrik Barth defiRe um• $Hutl4tlt p•lilnlic- como aqu.c.la ·intcsnda no espa-ço mtt·

a.ntiJ, sob 0 conuole: de um s:incma c.su.tal dominado por um dos grupos. mas dei·

u .ndo amplos espaços de divcuidade cuhurd nos n:rorea de atividade rcligion c do·

tn~stica•. BarLh, •Grupos

",

p. 1!17.

~ Par:t \'<lcbcr, a •comunhfo ~tnica•se redu;., em Ultima adHsc, ~e-renç:t subjctiv~nul'l\1

Barc:h, "Gr-upos

",

pp. 1?6, 200.

origem comum, rc:aJ ou ima,in•da (E~tm6min

"po~ui um p41<lcr de coaçlo indescritível c por vc:us csol1aador de c em si própria" c dc:cout "de cccto Jcnrido a.b$oluto c inc.xplicli.wcl acri.butdo ao próprio Jaç.o t.m ,i· (OIJ p. IM); pa.u a disunçio crmc te:oriu pnmordíais c relacionajs, ve:r Ra,

1

,

p.l70). l,ar11. Gurt'l, a lig:aç!o trnica

7

Rllf4

••

p.•, .

· , p. t,4. Para drodot s.obtt. a ctnicida.de como inrenç:So socia.l, com

uma ~bood.a&cm conunuiviua c toma uc:nçio pa.n & forauç.lo história, ver, coue

Banh.

,,.,,.li.n•;Cunha.

outros, Rooseo.s., Cn•tittt ,,,IJ,itity Ertlucn, Ethn;àty••', •Ema·

:

cidade

•.

Em cnudos afro·bra.si1ciros. Oanus, v• .,;:

trOuver

;

SJc.ncs, •Ma.lunau

".

Cunha,

''Ec:nicidadc

",

pp. !S-~9 (grifo nosso}.

: M. 1. C. dr:

Oliveira. Rc:-

Para ceorlu da ctnicidade corno u:ptcsslo de intctcues, ver r2mbém

Claur c Moynlhan, 8tJ6nJ Sobre a.s c:coriu de ctnicidadc in.,crumenuli.uu, ver, por exemplo, Bancon, R.ad•l Caix oottr que hi doiJ ripo.t de "outt'os" em rdaçio ao indivfduo: aqueles de seu pró·

Cotu:n. UrSttn

"

prio g.r\lpO C OI de OUUOS arupos.

Hctsko'Yiu. •Afrtcu

",

pp. 6l5-43; ~ rtl]th••• , p. u:xvii; 8anidc, s.a.t.,•

;Ve'&er.

u

~r .•• ; EJbcim dos Santa.t, Or N•t.~·-·

V'c.r, por exemplo. Dantas. V.W

;

Capooe., LA fal,

•: Mina c Pde:c, A• •t~thrtl•f•t;t•L. pp. S·7: Bunu, Afnt•L

pp. 9-lO.

\l Herskoviu. Accr.lttor~n•n .; c.jtado c

trcdu-z.ido em Cuche, A rJffll .•. , p. 118.

c trcdu-z.ido em Cuche, A rJffll .•. , p. 118. •• Sa.h.lins./Jhas PP• 7. 17. ''

••

Sa.h.lins./Jhas

PP• 7. 17.

''

Por exemplo, Vcrser, Nt~tllt , p. 15; "R~i5ons

",

pp. 144·45: O:at.tidc, Stu:ibl~tgft~ .,

pp. lll . ~16.

1 ' Turncr, Sthíun

Ver

catnbt!:m M:~gg.ic, Guara

21

I

\ I

1

ENTRE DUAS COSTAS:

NAÇÕES, ETNIAS, PORTOS E TRÁFICO DE

ESCRAVOS

NAÇÕES 'AfliUNAS' EDENOMINAÇÕES 'METAÊTNICAS'

'AfliUNAS' EDENOMINAÇÕES 'METAÊTNICAS' O presente capCculo apresenta algumas informaç6cs c

O presente capCculo apresenta algumas informaç6cs c renexões .sobl'e a cha-

mada "nação

jejc: a partir de uma a.nílise do ·conccxco do. África. ocidental e

da historiografia dusc ctn6nimo em relaç4o ao cr~fico de escravos. Ma.s,

ances de avaliar quem ectm os jeje.s, ~imporu.ncc entender o que foi conside- rado como •nação" nos siculos XVII e XVIII.

Ao lado de ouuos nomes como país ou reino. o termo •naçto• era utiliza-

do, n:a.qudc pcdodo, pelos uafica.nces de escravos, miu ionjrios c oficiais admi~

nisuaüvos das feito riu curo~ias da Costa da Mina, para d6ignar os din~rsos grupos populacion.aU autóctones. O uso inicia) do termo "'naçto• pelos ingleses,

franceses, holandeses c porcugueses. no comexco da África ocidcnra.l, atava determinado pelo senso de identid3dc: colet iva que: prevalecia nos estados m~

oárqu.icos europeus dessa ~poca, e que se projetava c:m suas empresas comerciais

e administraciva.s n:t Coara da Mina. Esses e$tados soberanos europeus c:noontraram um forre e paralelo sentido de identidade coletiva a as sociedades da África ocidental. Essa idenr.idade: ba· seava-=s~sobrctudo.na ~filiaçiopor part.ntesco a cenu ehcfi:as oormalmcme

orga.n.iud-a.s em voha de in.niruiçbes monárquicas. Por ouua part:c, a. identidade coletiva das .wciedades da África ocideru:al c:.ra multiclimensional c estava a.rticu·

lada em diversos nfvcis (~rnico.reügioso. tttritotial,lingO.tstico~poUrioo). Em

primeiro lugar. J. idencidade de grupo decorria dos vtnculos de pa.rent'C.sCO das

corporações familiares que reconheciam uma anccnraBdade comum. Nme nfvd, a. atividade rellgiosa relacionada com o culto de determinados ancestrais ou de outras entidades c.spiticua.i.s era o vdculo por exod!ocia da identidade ~micaou comunitária.• TaJ pertença era normalmente assinalada por uma s~riede mar<:as físicas ou escari6c:aç6u no rosto ou em outras partes do corpo.

23

um alctl.UI u.ats

A cidade ou território de moradia e a l!ngua tambbn enm importa.ntc.s fatores e denomin:aç6e.s de idenüd.ades grup:ais Na África ocidental uine um sistema geral de nomcaçlo ptlo qual a.$ cidades companilham o mesmo nome eom .seu.s habitantes.' Finalmente. alianças polítiça.s e de:f.cnd~nciasttibutárias de certas mon2.rquias camb~mconfigunwam novas c mah a.bnJ\genre.s identidades '

'"n:r.donais"'.

Ess-a diversjdade de identidades coletivas estava sujeica a transformações hi.scórica.s, devido a diversos fator~.rais como alianças matrimoniais, guerras.

migr:a.ções. agregação de linhagens escravas~ apropriaç.to de culcos rellg.ioso.s estrangeiro.s ou mudanças pollricu. Em muitos casot, as denominaç6es de certos grupos eram criadu por povos viün.hos ou poderes urerno.s, sendo sub. seqnenumentc apropriadaJ pelos membros dot grupos a.ssim designados. Cabe notar t-a.mbc!:m que a imposiçlo dessu dcnominaç6es cxrernu muins:

veles incluía uma pluralidade de grupo$ originalmente beterog!:neos.

~ nessa perspectiva que devemos entender a formaçlo de uma série de

"nações" africanas no contexto colo .ni:tl brasileiro

No século XV1 f~lava-.sc

de "gemia da Gui n~· ou de " neg ro da Guiné" para referir

genériea :a.os africanos. Mu jil nít. primeira metade do s~culoXVII começam a distinguir-se as vlirlu naç6e.s. Em Recife, em J~7, na época d:a. guerra wn- na os bola.nde.sc.s, Henrique Dias, chefe do Regimento dos Homens PretO$~ escreveu uma carta em que mencionava: •oe quatro n•rltt se comp6e esse regimento: Minas. Atdu. Angolu e Crioulos•.) A mcnçto aos aiou1os (des- cendentes de africanos nascidos no Brasil) como uma •naçso• j:í $Ugcre que no século XVll esse conceito nlo rc.spondia a critc!:rios polfricos ou écnicos prcvalecentet na África, ma.s a dininç6es elaboradas pelas classes dominan- tes na colônia em funçlo dos inccresscs cscravisru.

se de uma forma

And ré João Antonil, padre je.suíca que viveu no s~culoXVll e publicou a obra Cultura~oprtlln ria dn Brasil, em 1706, escreveu: •_E porque comumente

(os escravos] d.o de: naç4'1 diversu [

Min:u, Çong~sde S. T~m~. d'~g~la,de ~bo Vucle, e alguns Moçambiq9k

que vlm nas naus da fndia" . • No século XVUI dcixa~se prosres.sivamenu:: de falu em "gemia da Guint", embora a denominaçio •gc.oti o da Cosra• seja ainda

comum em Salvador, c a clauificaçlo dos africanos por naç6c.s puca: impor- se. coincidindo com o incremento c dh·ersificaçio do trtfic:o, sujeito agora a uma maior complexidade de rotas c portos de origem. Os nomes de naçio, como vimos na ciração de J\ntonil, nlo do homogê- neos c podem referir-se a porras de embarque:, reinos, ctuias-, ilhas ou cidades. E.les foram utillzados pelos traficantes c senhores de escravos, .serv i ndo aos seus inte resses de classificaçlo adminiscraciva e conuo1c. Em muicos ca.sos. os pon:os

].Os

que v~rnpata o Br:a.sil s.fo Ardas~

24

1

l

pon:os ].Os que v~rn pata o Br:a.sil s.fo Ardas~ 24 1 l ou a área gcogr'-fia

ou a área gcogr'-fia d.c embarque pacec.e ter sido um dos cri,c!:rios prioritários oa elaboração dessas caacgoriu (Mina. Angola~ Cabo Verde. S1o Tomé etc.). Tra.ca.va-se. portan.to. de denominaç6es que nio correrpoodiam nec;c.ssa.riamcntc

~s autode.nominaçôcs ~tnicas utiljudas pelos africanos em

gcm. Como apooca Maria ln~sCones: de Oliveira, as naçOa africanas, "tal como

ficaram conhecidas no Novo Mundo:. não guardavam, nem no nome nem em sua c:omposição .soc i:1J, uma corre lação com as form'as de auto adscrição cor -

rentes oa. África• .' Talvez, cabe fri.sarl o proccuo não foue elo unUô\teral ou

radical, pois ex.isdram c:a.s<» em que u denominações uciliudas pc:lol trafi- cantes cortesponditm c:fcttvamentc a dc:norni.naç6es ~micat ou de identida-

de atlcciva vigcote.s na África, mas que. aos poucos, foram npandindO a s-ua abrangência semlorie:a para designar uma pluralidade de grupos anccriormen~ te diferenciados. Enc parece ter .sldo o c:aso de denominações como jeje c nagô. entre outras. Anali.sa.rei em dettlhc o caso jcje mais adiante. No segundo caso, por exem- plo. sabemos que nag6, anag6 ou anagonu era o em6nimo ou autodenomi náçio de um grupo de fala torubá que habitava a regiG.o de Egbado. na atual Nigéria. mas que emigrou e se disseminou por v{rias paues da atual Repú- blica do Bcnim. Ao mesmo tempo, os habicance.s do Daomc!:, reino que se manteve desde meados do s~culoXVll •t~o final do stculo XIX, começuam

a utilizar o termo "nasa•, que na lfngua foo tinha provavelmente um sentido

derrogatório. para duicnar uma plur.alid:a.dc de povos iorubj-faJantes sob a in~

fluência. do reino de Oyo. seu \•it.inho e temldo lnimigo. Deuc modo, uma au- todcnominação ~tnica, resrrica a um grupo panicula.r, passou a ser utilizada por membros alheios a <:$li comunidade pua assinalar um grupo de povo.s

tuas regiões de ori

mais amplo.'

A lógica dcs.sa generdinç5o resid~no fato de cUCJ povos comparcilharem uma. série de componentes culturais. como llngua. hibitos c cosrumcs~Com

o ccmpo, cs.se grupo de povos de fala. lorub.í passou a auimílar a. denominação

_ externa imposta pelos daomcanos c, uma vez desprendida do seu .sentido der- rogatório inicial, a udliú-la çomo autodcnominaçlo. Por sua vn. os uafican- tes europeus ap.r:optiaram -se do wo local que os d.omeanos fuiam do termo "nag6•. c este foi assim uansfcrido ao Bruil. preservando a dimensio gen~­

riC2 c inclusiva e.subdecida pelos daomea.nos. Para analisar esse ripo de processo, parece útil tentar disringuir entre deno- minações ••inccrn;.s". uülit.adas pelos membros de um determinado grupo para

iden dficar

ulilindas, seja pelos- africanos ou uma pluralitlntlt de grupos inicial·

mente heterogêneos. Para o primeiro caso. podcrla.mos uriliur a expressão

pelos esccavocra1as curopeu.s. para designar

se,

e denominaçOc-s "externas"',

75

• • • • • • • • • • • • • • • •

ltiS IICOUt fJih

T

·e:rnônimo" ou sirnplesmetttt ·denominaçlo &!mica•; pa.ra o segundo caso. pod~>

riamos uciliz

tr

a cxpreuio

denominaç.lo

mc:t;a~toica", que, segundo o pesq ui

sador cuba.no Jcnis Guanchc: P~rcz.,seria a. denominação excetni' ucilitada para

assinalar um conj ut\co de grupos ~tnicos rc:ladvam~m~ vit.inhos, com uma comunidade de uaços Ji ngü!sricos c cuhurai$, com cct~«rabiUdade territorial c, no contexto do escravismo, cmbuc.ados nos mesmO$ pono1. 1 Cabe nota.r que as dcnominaç6c.s mctdmic:u (c:xnrnu). impostas a gru- pos rdativamcnre hcrerogCncos, podem, com o tempo, transformar·se em de-

~mlcu (internas), quando apropriadas por cssc1 grupos c ucili-

nominações

u.das como

ra~tnica ~ l hil apen as para de screver o processo pelo qual novas idcndd~des coletivas do geradaJ a parl-.ir da includo, sob uma denominaçl.o de c:ar:itcr

abra.ngc:ntc, de identidades inlcialmente discretas e diferenciadas. Utilizando CSS'3 tertnino1ocia, poderíamos d.iz.er que os craficantc-s e senhores do Brasil co-

lottial foram responsáveis pela ebboraçlo de um:a. série de deoominaç6a mc:- taémiça,s- em funçio dos pontos de: compra ou embarque de escravos - .

en quan to outras, como o caso na.gb. j4 operativas no contexto afriCJno. foram

forma de '1lHO

idenúficaçJ.o.

O co nceito de dcnominaçS.o m.c-

modi ficadas no Brasil. c:begados ao Brasil el\contraw.m umíl pluralidade

de denominações de naçlio - umas incernu e ouuas ruera~tnic~.s-que lhes permitia móldplor pro<:es.so.s de i.dc:ntificaçio. Aqueles africanos nlo habitua-

apropriadas e gradua

!mente

Dc.ss.e modo 1 os africanos

dos às deoominaç6e.s meuémieaa J' na própriaÁ.ftiC2., uma vu no Bruil. n

pidunente as assimilaram e pusuam a urmt.i-las pda. sua operacionalidade

na sociedade e.scravoçraca

enquanto geralmente reservavam o uso das deno-

minaç6« ~tnieu vigen tes nas Ju&s rcgi6es de orígeJn pua o concexto socia]

mais restrito da comunidade negro-meniça.

Ma.ri2.a de Canalho Soares-utilitt o con-ceito de grupo dt procttilncid par~

rcferir

Eua autora distingue coue o uso do termo '"naçso• como emblema da iámtitilul~Je pr""Jin.ciL{naçáo.angoJa,.naçio.mina.) c o UIO do tcmlO~ çto• como rc.fcrtncia a uma itkntiüie lmiu {n.açlo kttu, naçlo makii).• Tra ra.-.sc de outra terminologia para analisar o rn«mo problema. Aqui evitarei

ca.~mka

sc

ao conjunto de povos englobados sob um a mesma dcnominaçlo me·

fala.r de grttptu áe pr4ctálnâa ou t'tün:iJtráes ti~pr11udlndn porque me parect

que os processos idencitários consuufdos .em EOrno das denominações me·

ta~tnicas (mina, angola. nagô) não se re-Stringiam exclu siva ou princi palmente

à coosci~ncia de uma proc:cd!nda

ccdlo.cia, como fator determinante n::a connruçio da id~iade naçto, está li- gado a teoriu da cmicichde de ca.dur primordial que privile-ciam a origem. enquanto a minha perspectiva se situa ma.is oo âmbiro das teorias da cmi-

gcogd.fl<:a <:omum . O conce ito de pro

'

tllU UU (ISTAS

cidade: rei acionais. A formaçlo de naç6es •fricana.s no Bruil c! aqui e.ntendj

da espec.ialcnente como o resultado de um ptoeeuo dia.lógico c de <:ontêasce culcural ocorrido entre os diverso$ grupos englobadoS' sob u v:iria.s denomi-

nações meta~cnic.a.s.

O resultado dessa dinâmica é que u denominações de naçlo adquirirun cQn- te:Wios distintos: segundo u difucnta épocas e regiõa do Brasil. Consideremos.

como ilwuadvo, o caso do termo "'mina•. Assim como a cx.prcsslo •gentio d::a

G uiné•. utili"Z.acl2 no séallo XVI, •mitul• foi uma denomioaçlo que, ao lons:o do

tempo, ;1mpliou o seu domínio semlntico até quase se tn.os(ormu em um si n6nlmo de africano-. M~t isso nlo ('Oi sempre :usim. Inicialmente, "mina• ti· nha significado re scrlco c: dC$ignava os c sc.ravos embarc.ados no C astelo de S~o Jorge da Mina (ou Siiojorgc d'Eimi na). E.•c forte foi construido na Costa do Ouro, atual Gana, pda Coroa porrugucu, entre 1482 c 1484 e, at~ 1637, quan·

do o.s hola.ndeus o ocupanm. foi o enclave portugub mais imponantc pa.ra. o

e:omércio de ouro e: o tráfico de escravos . O Forte de Sio Jorge da Mlna constirula um ccnrro pa.ra o qual escravos de

vária.s panes da cona ocidental africana eram levados. A correspondência

de Duarte Pacheco Pereira. capitão do foru e:ntr~1520 e 1522, me.nciona a pre-

sença de escravos chegados do distante reino do Benjzn, localiudo na acuai Ni· géria . na áre.a que os ingles e.s j~ endio denomin avam Cona dos Escn .vo s. Tam·

blm escravos vlndos do Congo pauava

m

pelo forte antes de serem embar-

cados para as Américas. Ji na d~cada de 1660, Wilhelm Johann Müller,

sat:e.rdotc da Oanish A.frica.n Company, pot exemplo. alude ~ presença de

e:sc.ravos de AJiada na Costa do Ouro. Vemos wim que:, desde o infcio. •mioa•

identificava um pouo de embarque e que os escravos aJi comprados podiam ter procedencio.s bem diversas.'

A partir de 1680. os gis de Accra e os fantc·an~s de E.lmina chegaram à

á.re.a de Pequeno Popo e Glinji, na co-Jta do acuai Togo. e.supando d~sgue.r·

ru com o-S U:wamus. Os fugi rivos &b, dada a sua proccdlncia da Costa do

Ou.te, foram chamados miou pdo.s europeus. ji-no t&ulo xvtl. 1 ' Esses minas se. minuran.m çom os moradores locais. <:omo 0$ bulas c Ul.[cbis 1 constituindo, no sé<:ulo XVIII, o reino Gen ou Gcoyi, cujo maior porto se situou em Pe- queno Popo (Ancho). O reino Gen esteve envolvido no miAco de escravos,

sendo que a denominaçio

principalmente nas úl tiru:u d~cadasdo skulo

mlna"',

X:Vlll e nu primeira.s do XIX. também pod.iíl desig11ar esctavos embarcados c:m Anebo c em ouuos portos da tona ocidenra.l do rio Mono. Como foi notado por Yc.rge.r, a expre.ulo · eosra da Mina• pa.uou paulati- namerue a de.signu nio a Costa do Ouro. mu. mais pr«iumeotc-. a Co.sta dos E.sa-1vos, ino é, a <:osta a 'oravento do Cas:cdo de Slo Jorge da Mina

26

27

ltiS III(Ollf PU(S

l

que se: euendia do dcha do rio Volca, em Gana, até a desembocadura do rio Niger (rio L:ago.s), na Nis~tia. ConscqUc:mcmcmcJ como bem observou Nina Rodrigues, mina ou ''prcco mina" podia designar africanos não só da Costa do Ouro como também da Costt do Marfim c da Costa ~os.Escravos, e$ ta última

incluindo Togoland, Bcnim e Nig~rlaocidental. 11

Odfc modo, a abrang!ncia

passou a indu ir quase todos os povos do Golfo do

Benim, desde um a.shan(e at~ um nagG. EsJe procc:.sso de mudança scmSnhc:a explica por que o termo s.ignificou

coiru discintu no RJo, em Minu Ccn.isJ na Bahia ou no Maranhão. No Rio

scmlntit2 do cermo

mina"

de Janeiro. rcfcr~nciu a ucnvos da Cona da

Mina aparecem desde inícios do

s«ulo XVll c, como demonstram os compromiuos de irmandades cat6Jka.s de homcn.s pretos do slculo XVIt1, mina patccc corraponder aos povO$ da atual Repóblic:a do Bcnim, chamados je:jc na B.ahia, sendo que CJSa dcnominaçio era cnt2o de:;~conhecida no Rio de Janeiro. J4 no stc.ulo XIX, Debret menciona os mina. mina-~•liAM,mina-m./e mina-n9os. A denominaçio •m.ina.-tAIIavll•. que

ROOrigucs rranscrevc como mina-cavalos, I. provavdmentc uma refe.rência a es.- cravos embarcados no pono de Calabar, embota Oliveira pense que possam sei

tamb~rn esçravos de Abomey

valcciam prova.vclmcncc aos nag6s, ou talvez aos mina.s de Aneb.o (Pequeno

Popo). enquanro os ma{ ou mahij seriam o.s ma.his. Todo.s cues povos habica-

va.m

g~nC-iascmintlca c domlnio gcogr11.rico da dcnomjna_ção "mina". 11

No s~culoXVIU, em Minas Gcrai.s como no Rio, mina paré:cc designar os povos que na Bahia eram ebamados jcjcs. Quando c.m 1741 António da Costa

Pdxoco escreveu 1'1 Obra llDva da llngua xuaJ dt mina, a Ungu.- identificada como

Calavi, ~~ mugcns do lago Nokué. Os néjos equi -

o que confirma a ampliaç~o da abra.n-

a.

.t.rta oriental do Golfo do Bcnim,

tal correspoode

c:xprcss5.o "geme mino."~ identificada c::om o termo "guno"', refcrindo-s.e espe- cificamc:nle aos habic.amcr guns de Porto Novo.u ]i no Maranhto, autores do sl!culo XX como Nunc• Pereira mencionam os '"minas-achaotis, minas-nagôs.

àquela fa lada ao Sul da atual Repúb lica de Beoim. Aliú, •

mina.s

cavalos,

minas~ma.hys~"e os

mina

s-sam~,

mi.na.:-jejc.

_O_tavlo

da

Co.sca

Eduudo documenta expressões como mioa-nag6, mina-jcje) mina-popa, m ina-fulupil c at~ mina·ango lt. e minà.•cambinda. 14 ls.so significa que. em certos lugares. entre os quais o Maranhlo, mina chegou a designar simples mente africano, sem nenhum:a especifiC-idade de procedência.

Esse tas-o demonnu como a.s denominações mctt~tnic.:asvariam em con- teúdo segundo as diversas ~poc:u e rcgi6es. Uma s.egunda consideraçio deve ser feita. À medida que as denominaç6cs mcra~tnicuc::resccm em gcnen:Ji-

dadc, c1a.s .slo qual.ifiada.s com um se:sundo termo de conteúdo mais restrito

Essa seaunda denominação pode at~se,r utna ouua

(cavalo, mal, nag6. jeje

).

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tltU tuu conu denominaçlo mcn~tnica, poc~sn de cadtec ma.is espedfico. Cabe rete r aqui que
tltU tuu conu
denominaçlo mcn~tnica, poc~sn de cadtec ma.is espedfico. Cabe rete
r
aqui
que o rermo •mina•. a partir do s~culoXVIII, a.brangia a popula.çlo africana
da. Costa do.s Esc.ravos ou Golfo do Bcnim, e dentre e.sta. muito especialmente,

povos do reino de Daom~ c de SulU imediações. os quais na Ba.hia foram conhe6dos por jejes. As, denominaç6u meu~tnieas u.tiliudu c impona.s pela eliEe cscra,·isca,

embora na maioria c.nivcucm fortemente associadas a determinados portos ou

, mogcncid.ade de componentes culturais c lingii(sticos çomparrilbados pdos po-

vos aJsim designados. t pre.e:isamcntc' o rcconhecimenEo dessa comu.nid.ack de eomponences cuhutais o que vai fnorecer a adoção dessas denominações exter nat e a subscqO.cntc confisuraçlo de uma identidade coletiva (naç5o) assumida pelos próprios africanos. Cabe frisar que os componentes culturais não eram neces.s:ária ou cxdusi- vamente de origem africana . Como j4 foi apontado, no séc-ulo XVIII os c-s

cravo.s minas de Minas Ccrais uam aquelc,J

cionou chamar I •ttnsu:a. senl da Mina·. Portamo, na ba.sc do significado do termo "min2 escava, nlo a proccd~ncia d~ ~mbarque como também o fator lingü(S[ico e, implicica.mente, outras semelhanças culturais. Emretaoto, a •lín- gua geral da Mina", embora correspondente em especial ao gun, língua por sua vez derivada do abo, o idioma original de AJiada. pa rece ter sido uma

espécie de llngua franca dcscnvo1vida no Brasil atr.tv~sde um proces-.so de indu- d.o de itens lexitais de OUlras Unguas do grupo gbe, tais como o fon. e até mes- mo do nagô.u Um caso semelhante se di com a língua nagó falada na Bah ia

do sécu l o XIX. Essa

nagôs ou anag6s de: Egb'ldo, mas parece ter cvolufdo, no conttxw bra.si.lciro, para uma forma de "patois" a partir de v4rios d ialetos iotub<is e d a contei~ buiçlo lcxica.l de ouuas Ungua.s afrie:anu c ac~ mesmo do porrugues.

Assim, vemos como os povos incluldos sob uma mesma denominação de naçlo do definidos a partir de vdrios fatores imimamcme relacionados, a saber: as tonas ou porcos onde os escravos eram comprado$ ou embarcados, uma :hea geogr~ficarelativamente comu.m c c.sd.vel de moradia c uma .seme lhança de componcnccs lingOfuico·cuhurais. Comudo. foi a língua- a possibilidade de os a.fricano1 se C01nu.nica.rem c se cmendcrem - o que le- vou, no Brasil,l absorçlo dessas denominações como formas de auto-in$criçâo c l conseqüente criaçlo de nov.u comunida.du ou sentimentos de perrenÇ2 coletivos.

,,

gcográ/ias de embarque, podi

,

runbém faut refert.ocia a uma =a b.o-

que f21avam o que se cooven

Hngu:~. nio correspondla inceiramence ~quda falada pel os

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• o • • • • • • • • • • • • •

o

ltiS II(OUI IJIItS

OS POVOS 00 GOlFO DO IINIIII l Álli YODUII

O termo •;eje• apuccc documentado pela primeira vet. na Bahia nas primei·

nu d~c.adas do Setecentos pau designar um grupo df povo• provenientes da Cosra da Mina. Mu quais eram es-ses povos jcjcs? Óf jcjcs r~m sido usual- mente idetu ifi cados , ao menos a. p~nir do século XIX e, posce do cmeme. na

l ite ratura 2fro-brasileira, c:omo daomeanos. l $10

antigo reino de Daom~.Mu, na verdade, o cermo •jeje"' parece rer designado originariamence um grupo ~mico minoritário, provavdmenu~ loc.a.liz.ado