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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

ESTADO LIBERAL-OLIGÁRQUICO NA AMÉRICA LATINA: UMA DISCUSSÃO TEÓRICA

CESAR AUGUSTO BARCELLOS GUAZZELLI CLAUDIA WASSERMAN CARLOS RENATO HEES EDUARDO SANTOS NEUMAN

1998

ESTADO LIBERAL-OLIGÁRQUICO NA AMÉRICA LATINA:

UMA DISCUSSÃO TEÓRICA

Cesar Augusto Barcellos Guazzelli (organizador)

Este texto surgiu a partir do projeto de elaboração do livro Cinco Séculos de América Latina: o Estado Oligárquico. 1 Visava a produção de textos sobre os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais do Estado Oligárquico, que esteve presente em todos os países latino-americanos durante seus processos de construção nacional, a partir dos anos oitentas do século XIX. Coordenado por Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, para a realização do mesmo foram envolvidos pesquisadores que estavam ligados ao grupo O Americano, 2 que reunia professores do Departamento de História da UFRGS e fora dele:

Benito Bisso Schmidt, Carlos Renato Hees, Claudia Porceliis Aristimunha, Claudia Wasserman, Eduardo Santos Neumann, Fábio Kühn, Helen Osório e Susana Bleil de Souza.

Como Introdução ao livro foi proposta uma discussão sobre a natureza do Estado Liberal-Oligárquico e sua importância para as formações sociais do subcontinente. Para sequência desta, pretendia-se a produção de estudos de caso de diferentes países, compondo uma visão que fosse ao mesmo tempo geral e dando conta das especificidades assumidas pelo Estado Oligárquico. A produção do livro foi descontinuada em 2004, mas o texto introdutório se mantém atualizado em relação às publicações sobre o tema na América Latina. Esta discussão foi realizada por Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, Claudia Wasserman, Carlos Renato Hees e Eduardo Santos Neumann.

Cesar Augusto Barcellos Guazzelli 3 A primeira pergunta num trabalho como o que se pretende seria: o que é Estado oligárquico? Este questionamento remeteria imediatamente para outro: o que é oligarquia?

1 O livro seria o seguimento de: WASSERMAN, Claudia & al. História da América Latina: Cinco Séculos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1996.

2 Este foi o nome atribuído ao Boletim O Americano, publicado por Cesar A. B. Guazzelli e Eduardo S. Neumann de 1998 a 2001 (cinco edições semestrais).

3 Professor Titular do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS.

Parece necessário que mesmo que não se alcance uma ambicionada definição teórica de um termo tão polissêmico quanto este, que sejam abordadas algumas tentativas feitas em relação ao conceito de oligarquia. Numa obra já clássica, Marcos Kaplan salienta que a estruturação da América Latina emancipada se baseou e manteve os traços fundamentais da sociedade configurada no período anterior. Neste sentido, as modificações internas ocorridas durante o século XIX foram adaptações necessárias à crescente inserção das economias latino-americanas ao mercado mundial, fundamentalmente uma organização socioeconômica bastante rígida e de alta concentração de poder e riqueza. A detenção da propriedade e o controle dos recursos produtivos cimentaram o poder de uma minoria se impôs na constituição e condução de um Estado estável, indispensável para as alianças com grupos estrangeiros e a rentabilidade dos negócios comuns. Assim, “a propriedade fundiária da terra, com seu domínio monopolista da mão-de-obra e de outros recursos materiais e financeiros, constitui a forma primordial de organização. Kaplan apresenta algumas características comuns à maioria destes latifundiários, como a resistência às inovações tecnológicas e às atividades não ligadas estritamente ao trato com a terra. Sua relação com os recursos produtivos terra e mão-de-obra seria atrasada, baseada na extensão e de utilização ineficiente, carecendo “de propensão empresarial e modernizante”. A expressividade dos seus rendimentos utilizados para ampliação do patrimônio e consumo suntuário era facilitada pelas benesses recebidas pelo Estado, pela facilitação de financiamentos e isenções tributárias significativas. Ressalta, entretanto, a presença de parcelas importantes desta elite que “tornam-se, relativamente cedo, empresários capitalistas que exploram comercialmente suas terras, para a venda dos seus produtos no mercado mundial”, procurando renovação tecnológica e incremento da produtividade, dando ares de modernização ao campo e às atividades de mineração. Já Agustín Cueva afirma que a primeira tarefa histórica do Estado na América Latina consistia em “forjar um quadro jurídico-político adequado à realização da acumulação primitiva de capital”, onde o autoritarismo seria a expressão desta potência. O autor destaca a importância da coação extra-econômica estatal como uma alavanca poderosa neste processo de acumulação, apresentando-se a repressão e o autoritarismo

como os instrumentos indispensáveis à implantação desta nova ordem econômica. Assim, o

Estado seria a expressão superestrutural do processo de consolidação do capitalismo como Modo de Produção dominante.

O mecanismo essencial da acumulação consistia, pois, na extração de mais-valia

absoluta, prolongando-se as jornadas de trabalho e reduzindo-se os salários. O poder

concentrado nas mãos da oligarquia resultava do ingresso de capitais estrangeiros, com o imperialismo determinando uma via reacionária de desenvolvimento do capitalismo na América Latina.

Já Marcello Carmagnani procura analisar os diversos aspectos econômicos, sociais

e políticos presentes no processo de dominação empreendido pelas oligarquias, destacando os fatores internos que permitiram a reativação econômica, insistindo que os investimentos externos foram uma consequência e não a causa do desenvolvimento econômico. Sua análise é inovadora neste sentido, pois considera que as oligarquias se

associaram ao capital estrangeiro aliança imperialista por uma opção histórica, não pela inevitabilidade do processo.

O interesse nos investimentos externos dizia respeito à modernização tecnológica;

deveria causar fascínio às oligarquias, por exemplo, a possibilidade de ampliar seus poderes

com as ferrovias, visto que beneficiavam a produção das grandes propriedades em detrimento das pequenas. Neste aspecto, o autor supera a dicotomia entre moderno e tradicional pois considera a tecnologia como reforçadora do latifúndio, e não promovendo a sua superação. Tentando conceituar as classes dominantes latino-americanas, Alain Rouquié afirma categoricamente a impossibilidade de aplicação dos modelos europeus. As formações nacionais seguiram particularidades decorrentes da situação de dependência frente às nações desenvolvidas, e as relações e os papéis desempenhados pelas elites na América Latina acompanham as peculiaridades do status econômicos dos seus Estados. Devido à forte inserção no mercado internacional, o poder das classes dominantes expressou-se no controle da produção e comercialização dos bens exportáveis. Derivado e indissociável deste controle econômico, configurou-se o incontestável domínio político coercitivo sobre toda a sociedade característico da oligarquia. “Oligarquia” aparece assim como um termo amplificador de “burguesia exportadora”, designando “um grupo social

que não se pode simplesmente confundir com sua função econômica”, mas que “assinala também um fenômeno social que circunscreve um espaço socioeconômico e que define uma forma de dominação de classe.” Rouquié diferencia-a, pois, da velha aristocracia arcaica, cujos membros compõem os “setores pré-capitalistas rurais. Esta oligarquia “é uma elite modernizadora”, possuidora de “legitimidade histórica”, por ter “presidido a integração da economia nacional ao mercado mundial”. Para Octavio Ianni o Estado oligárquico “deve ser entendido como uma forma particular de Estado capitalista, na qual combinam-se elementos patrimoniais com as exigências da ‘racionalidade’ capitalista.”. Entre os elementos patrimoniais destaca o autoritarismo, o personalismo, o uso generalizado da violência política, o monopólio do

poder e a persistência dos valores, padrões de comportamento e relações característicos da sociedade de castas.

A natureza autoritária, ditatorial e violenta dos Estados explicava-se por uma dupla

exigência: controlar as forças políticas que emergiam na sociedade nacional em virtude do

desenvolvimento econômico, por um lado, e era necessário preservar os vínculos com o imperialismo internacional, por outro.

O papel de mediação que as oligarquias exerciam entre o imperialismo e os grupos e

classes sociais nacionais, condicionou a adoção formal do liberalismo na organização política dos Estados, o que correspondia à “racionalidade” capitalista, expressando um compromisso com a cultura dos centros hegemônicos. Apesar deste “liberalismo efetivo e retórico nas relações externas”, internamente “o poder político é controlado, ou simplesmente monopolizado, pelas burguesias ligadas à agricultura, à pecuária ou à mineração.” Oligarquia assim seria uma “burguesia” ligada ao setor primário e construtora de um Estado “capitalista”.

Em texto recente, Ansaldi procurou estabelecer o que chamou “una construcción teórica provisoria del término oligarquía”. Com o objetivo de converter o termo oligarquia em conceito, Ansaldi sustenta alguns pontos que mereceriam ser discutidos. “1) oligarquía no es una clase social;

3) oligarquía es una categoría política que designa una forma de

ejercício de la dominación, caracterizada por su concentración y la angosta

es fundamentalmente coercitiva y cuando existe consenso de

las clases subalternas, este es pasivo; 4) la dominación oligárquica puede ser ejercida por clases, fracciones o grupos sociales (incluyendo redes familiares) diversos ( ); 5) siendo una forma de organización y ejercício de la dominación de clase, mas no una clase, oligarquía define un tipo de régimen o de Estado, el régimen o Estado oligárquico, al cual no se opone el régimen o Estado

base social (

);

burgués o capitalista, sino el democrático ( ); 6) la dominación oligárquica se construye a partir de la hacienda ( );

en tal sentido, la institución familia constituye el locus inicial de gestación de las alianzas de ‘notables’, transferido luego a otras instituciones semipúblicas

(

)

y/o esencialmente públicas (

);

7) el ejercício oligárquico de la dominación genera un modo de ser también oligárquico, en cuya dominación intervienen valores tales como linaje, tradición, raza, ocio, dinero.” A oligarquia seria um grupo formado por fazendeiros, plantadores, mineiros, também por comerciantes e burgueses. O autor não identifica a pertinência destes distintos atores sociais a determinados modos de produção ou à persistência de relações de produção de tipo pré-capitalista, acentuando mais a forma ou modo de dominação que este grupo assim tão restrito exerce. Neste sentido, a oligarquia, mais que um termo que definiria um modelo de Estado, se define a partir da existência deste próprio Estado. A única referência feita em relação à estrutura produtiva, a fazenda, permite que agentes sociais pertencentes a distintas classes sociais aqui consideradas justamente em relação a suas posições em

relação ao sistema produtivo possam ser considerados como oligárquicos. Não haveria, assim, qualquer oposição entre oligarquia e burguesia, desde que esta mesma burguesia poderia fazer parte de uma composição com outros setores. A transformação do Estado oligárquico significaria uma ampliação da participação no governo, da base social de recrutamento, na condução das disputas com opositores etc. Assim, excluído o caráter de classe do Estado oligárquico, a distinção feita seria em

relação a um Estado democrático, ou mais democrático. Esta postura está afinada com as considerações de Bobbio:

“Contrapondo-se assim claramente à democracia, o termo Oligarquia, pelo fato de ter sido adotado para expressar de modo exclusivo um dos dois campos em que se divide toda a extensão ocupada pelos regimes políticos existentes (são oligárquicos todos os regimes que não são democráticos), adquire um significado descritivo bastante preciso, mesmo que conserve o significado de valor negativo que o acompanha desde a antiguidade ( )” O próprio Bobbio adverte para a possibilidade de todos os regimes serem considerados oligárquicos, na medida em que um grupo sempre restrito é responsável pelas decisões de governo; um regime poderia ser mais ou menos democrático, mas sempre seria oligárquico. As considerações de Bobbio parecem-me precárias, desde que a generalidade do critério não permite distinguir situações históricas tão díspares como, por exemplo, o período pós-independência e as recentes ditaduras militares da América Latina. Com certeza o detalhamento feito por Ansaldi permite aos estudiosos da realidade latino-americana uma maior precisão na definição do Estado oligárquico e de oligarquia. Persiste a fragilidade, no entanto, pela fluidez com que são considerados os diferentes grupos sociais que poderiam compor uma oligarquia na medida em que são enfatizadas as formas de recrutamento destes atores e as estratégias para a manutenção da dominação que exercem nas sociedades. Volto assim ao ponto inicial desta discussão, propondo uma tentativa de dar à oligarquia e ao Estado oligárquico um caráter de classe. Para dar continuidade ao debate, sugiro uma hipótese inicial. As oligarquias latino-americanas representariam a persistência de classes sociais pré-capitalistas, necessárias à implantação do Modo Capitalista de Produção nas regiões periféricas na medida em que estas careciam de setores burgueses. A lenta, mas paulatina, transformação das relações sociais permitiu e em alguns casos até exigiu a incorporação de outras frações de classe. Aqui aparecem no cenário profissionais liberais de diversos ramos e um funcionalismo público nas áreas mais diferenciadas da produção; estes grupos médios urbanos estariam no centro das grandes contradições que abalariam a estabilidade política das oligarquias.

Claudia Wasserman 4 Parece evidenciado pelas contribuições do professor Cesar Augusto Barcellos Guazzelli que os conceitos de oligarquia e de Estado Oligárquico se apresentam emaranhados nos problemas teóricos advindos da dependência cultural. Ao longo dos tempos, os cientistas sociais latino-americanos estiveram preocupados em adaptar criativamente as teorias criadas para explicar realidades empíricas européias ou, alguns deles, tentaram criar novas teorias com base na própria realidade latino-americana. Ou melhor, penso que a discussão sobre o fenômeno das oligarquias e do Estado oligárquico na América Latina encerra um tema fundamental que é: com base em que teorias vamos discutir os problemas da América Latina? Kaplan, Rouquié, Cueva, Bobbio, Ansaldi e Carmagnani, para citar apenas os autores que entraram na análise do professor Guazzelli, estiveram informados por teorias do conhecimento diversas que respondem de formas também diversas à pergunta inicial: as oligarquias são ou não são uma classe social? Ou, o Estado oligárquico é ou não representante dos interesses de determinada classe? Ansaldi e Bobbio, por exemplo, informados por diferentes aparatos conceituais, acabaram chegando as mesmas conclusões, de que as oligarquias não constituem uma classe social, mas parecem pertencer a um tipo de dominação política onde, independente de quem a exerce, importaria determinar o grau de desenvolvimento da “democracia”. Assim, observa-se que apesar de informados por diferentes teorias um autor europeu e um latino-americano chegam a mesma conclusão. Bobbio tem em mente, evidentemente, os moldes da democracia européia, enquanto Ansaldi também adota como parâmetro o desenvolvimento político dos estados europeus para demonstrar que, independente do grupo social, o termo oligarquia refere-se a existência de um Estado, cujo estágio de desenvolvimento da dominação é tributário de relações sociais pré-capitalistas, mas que pode ser exercido inclusive por burguesias. Desta maneira, o conceito de oligarquias torna-se indeterminado historicamente, podendo ocorrer em qualquer tempo, sob a liderança de quaisquer grupos sociais, desde que

4 Professor Titular do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS.

a dominação política seja exercida a partir de características não democráticas. Sendo que, evidentemente, o modelo de democracia que está na mente dos autores citados é o da democracia européia. Inoperante dessa forma, o conceito de oligarquia não serviria para explicar realidades concretas, formas de dominação social, política e econômica predominantes em toda a América Latina a partir da segunda metade do século XIX. Observa-se ainda, em todos os autores estudados, a existência de dois conceitos correlatos: oligarquias e Estado oligárquico, cuja validade teórica só pode ser detectada a partir da capacidade explicativa desses termos. Ou melhor, diante das realidades concretas latino-americanas, a aplicação desses conceitos oferece a possibilidade de compreensão dessas sociedades? Se concordássemos, por exemplo, com Ianni ou Rouquié, o termo oligarquia seria absolutamente descartável, pois tratar-se-iam de grupos de elite não modernos, mas modernizadores, uma espécie de estágio entre as elites coloniais e a burguesia européia. E. Gomariz Moraga no livro “O Estado nas Sociedades dependentes. O caso da América Latina” também considerou as oligarquias e o seu correlato, o Estado oligárquico, como estágios do desenvolvimento capitalista latino-americano, chegando inclusive a referir-se a formação política como “Estado burguês oligárquico”. Ao mesmo tempo, referiu-se ao paulatino desaparecimento do “modo de produção pré-capitalista”, devido às pressões de classe média. Existe, aparentemente, uma confusão tremenda entre os autores sobre qual o modo de produção, quais as classes sociais ou frações de classe predominantes nesse período conhecido como período oligárquico. Ou seja, não parece que o termo oligarquia seja polissêmico, mas que a própria realidade latino-americana é muito mais dada à polissemia do que gostariam os cientistas sociais.

A menção ao termo oligarquia remete o estudioso de história latino-americana à virada do século XIX para o século XX, indica o momento da implantação do capitalismo nos países mais desenvolvidos da América Latina e recorda o momento crucial da definição econômica desses países no âmbito da divisão internacional do trabalho, como economias dependentes destinadas a fornecer matérias-primas e produtos primários aos países produtores de tecnologia. Formaram-se economias e sociedades híbridas, ou melhor, vinculadas ao passado pela permanência das classes dominantes coloniais no poder político

e econômico, mas, ao mesmo tempo, com uma função especifica na divisão internacional do trabalho do mundo capitalista. O termo oligarquia remete, portanto, a uma ambiguidade pois, por um lado, lembra do progresso e, por outro, do atraso. É justamente essa a razão das dificuldades em definir o termo e seus correlatos, o Estado, o sistema, o regime, a dominação e outros. Uma das formas adequadas de romper com essas contradições do termo seria através do debate de certas perguntas como, por exemplo: “- quem são as oligarquias? - quais as suas tarefas especificas? e qual o tempo de duração do seu predomínio?As respostas a essas dúvidas seriam respondidas através do exame de termos igualmente antagônicos como “heterogeneidade versus homogeneidade”, “feudal versus capitalista”, “sistema versus regime versus Estado versus dominação”. Sendo assim, proponho discutir justamente essas perguntas através de autores consagrados que se dedicaram ao tema, mas partir em seguida para o estudo empírico dos âmbitos de atuação das chamadas oligarquias latino-americanas (o sistema econômico, o poder político), da construção das representações sociais que justificaram tal predomínio (o pensamento liberal e as cidades com seus monumentos ao progresso) e as contradições sociais geradas na (e pela) dominação oligárquica (setores populares, etnias variadas e desigualdades sociais violentas). David Rock, no livro “El radicalismo argentino 1890-1930” definiu as oligarquias argentinas como uma “elite latifundiária e comercial”. Rock também oferece pistas para o entendimento da origem do poder político dessas elites:

El origen del liderazgo político de la élite terrateniente argentina debe buscarse, entonces, en la forma en que un setor bien arraigado, compuesto en gran medida (aunque no exclusivamente) de familias criollas tradicionales, aprovechó las favorables condiciones económicas externas posteriores a 1870 para convertirse en una élite local aliada a los intereses británicos”. A preocupação de David Rock também vai na direção de determinar a heterogeneidade desses grupos, mostrando que a riqueza não estava homogeneamente distribuída entre eles e que, no caso argentino, o grupo mais poderoso era o dos criadores de gado, formado por, aproximadamente 400 famílias que participavam dos mesmos clubes e associações privadas. Assim mesmo, aponta a existência de outras atividades importantes

aos quais a elites portenha passou a se dedicar, o que permitiu ao autor dizer: “En certo sentido, la multiplicidad de sus actividades hacía de la élite tanto una entidad urbana como un grupo de intereses rurales.Mesmo assim, independentemente da existência de outras atividades, é interessante notar que, no caso da Argentina, Rock aponta a proximidade das propriedades do Rio da Prata, ou melhor, “o grau de associação com o mercado externocomo parâmetro para a supremacia política. Também observa que durante o período compreendido entre 1880 e 1912 essa elite latifundiária e comercial teve um poder concentrado e estável, o que permitiu chamar essa fase da história como “período da oligarquia”. Rock considera que o termo oligarquia é mais exato em relação ao sistema de governo que prevaleceu na Argentina até 1912, do que em relação às elites latifundiárias e comerciais, devido à heterogeneidade das atividades e às diferenças regionais existentes entre os diversos grupos dessa elite. Observa que essas diferenças foram momentaneamente

interés de la élite por preservar la estabilidad y el crecimiento

esquecidas devido ao “

económico. En la medida en que un sistema oligárquico limitado sirvió a estos fines,

sobrevivió;

Neste sentido, Rock responde aos questionamentos anteriores com algumas certezas e algumas evasivas: considera a oligarquia um grupo heterogêneo, cujo poder esteve relacionado com a maior proximidade dos vínculos com o mercado externo, e um sistema de governo, cuja estabilidade dependia da expansão econômica e da continuidade das inversões estrangeiras. Deixa em aberto, no entanto, a definição dessa elite enquanto classe social, ou melhor, o autor não apresenta definições a respeito do sistema produtivo argentino e tão pouco das classes e frações de classe que o representam, trata essas elites simplesmente como “entidade” ou “grupo”. Fundamental na sua análise é a afirmação de que a dominação política provém de um vínculo necessário com o mercado internacional datado: “famílias criollas tradicionais

que aproveitaram-se das condições externas favoráveis posteriores a 1870 para converter-

Assim, do meu ponto de vista, esse autor nos oferece uma pista

se em elites locais

muito interessante para entender essas “elites” e sua composição social. Apesar de heterogêneas, foram grupos que demonstraram, durante a vigência do Estado oligárquico, uma extrema uniformidade. Possivelmente, isso se deveu à necessária unidade de interesses para manutenção dos vínculos comerciais e financeiros internacionais, que permitiram a

.

esses grupos realizar a acumulação capitalista na América Latina. É esse o motivo de sabermos exatamente o momento de sua aparição, ou do início do domínio das oligarquias em todos os países da América Latina. Segundo Cueva, “Si bien es relativamente fácil ubicar el momento histórico de implantación de la modalidad oligárquico-dependiente de desarrollo del capitalismo latinoamericano, en virtud de us estrecha imbricación com la fase imperialista que se inicia en 1870-80, resulta en cambio dificil precisar, en términos cronológicos, la duración de la etapa oligárquica propiamente dicha en escala continental” A dificuldade em precisar o fim da “etapa oligárquica” está justamente relacionada com a heterogeneidade e com a variedade de intensidade das lutas sociais contra a excludência e as características não democráticas dessa etapa em cada país. Outro fator importante a destacar é a permanência desses grupos, cujos interesse residiam no setor primário-exportador, na composição do poder político da maior parte dos países latino- americanos, mesmo depois de terminada a fase estritamente oligárquica de dominação. Ou seja, depois das oligarquias perderem o monopólio do poder político, elas mantiveram uma proximidade muito grande das novas frações dominantes, devido sobretudo a sua importância econômica nos países da América Latina. Neste sentido, proponho o estudo dos Estados oligárquicos entendidos como resposta superestrutural de um processo de acumulação capitalista e como representante de frações das classes dominantes que, embora heterogêneas e difíceis de precisar, tem uma identificação inconfundível com certas atividades produtivas ligadas ao imperialismo e das oligarquias, como frações das classes dominantes latino-americanas, que sobrevivem, na maioria dos países, ao Estado que as legitimava.

Carlos Renato Hees 5 No concernente à composição da oligarquia latino-americana, as discussões desenvolvidas até aqui e os diversos autores que as embasaram têm apontado para uma heterogeneidade social, não configurando uma classe social específica. Latifundiários, comerciantes e financistas exerceram um amplo poder derivado de sua condição de

5 Mestre em História pela PUCRS. Foi Professor dos cursos de História e Pedagogia da ULBRA e de História no Instituto La Selle.

proprietários e controladores dos recursos produtivos. A conformação desse agrupamento social como dominante se estabelece e reforça com a inserção das economias do continente no mercado internacional e suas respectivas atribuições como fornecedores de matérias-primas e produtos agrícolas. Para a execução e sucesso dessa relação, os três estratos citados desempenharam papéis indispensáveis formando um conjunto indissociável, abarcando a produção, a circulação e o financiamento. O exercício da supremacia política, econômica e social dessa oligarquia consubstanciou-se no controle de todo o aparelho estatal. O resultado foi a organização e funcionamento de um Estado de cunho excludente e coercitivo com a maioria da população, enquanto que privatizado em relação aos interesses da elite. A aliança da oligarquia latino-americana com o capital estrangeiro exigia a formação de unidades nacionais com Estados centralizados, sem dispersão do controle administrativo. A salvaguarda da estabilidade e da paz interna de cada país, surgia como condição e confiança para os investidores externos.

A correlação feita por alguns autores entre Estado Liberal e Estado Oligárquico,

nos dá a idéia de que é a partir do ideário e da prática dos liberais que se conformou o chamado Estado Oligárquico. Houve uma adequação entre as demandas exigidas pelo

capital estrangeiro para investir vultosas somas na construção de uma infraestrutura básica, para a garantia e o crescimento de seus negócios e as apresentadas pela oligarquia latino-americana. Essa adequação, que para os liberais locais tomou ares de modernização, pois apoiava-se nos modelos europeus, buscava forjar a unidade interna

e a uniformidade das relações. Nessa linha, a superação da “barbárie” e a aproximação à vida civilizada, concretizava-se na formação de códigos nacionais de leis, bastante abrangentes abarcando a vida civil, penal, militar e administrativa.

O Estado Oligárquico foi, nos moldes do século XIX na América Latina, um

Estado em crescente profissionalização, com preocupações fiscais definidas visando, além da sua manutenção, o cumprimento de suas funções, de acordo com os restritos interesses dominantes. Pela sua própria caracterização, como espelho e reprodutor da organização econômica e social, manteve sua postura autoritária e violenta quando tratava de controlar a ordem e coibir qualquer oposição fora do campo da oligarquia. Com o aprimoramento desse Estado, as disputas entre liberais e conservadores

passaram a ocorrer cada vez menos pelas ações armadas e mais na esfera da legalidade institucional. A utilização do sufrágio como elemento definidor do exercício do poder, entretanto, na maioria dos casos, constituiu-se apenas numa casca civilizatória, cujo conteúdo aproximava-se da contestada “barbárie”. Tanto um lado quanto o outro, empenhava-se em elaborar formas de manipular os pleitos. Tais práticas variavam das fraudes rudimentares às formas coercivas de controlar os votantes, seja pela violência, seja pelo clientelismo. Comumente, no âmbito rural, os liberais acusavam os conservadores; no meio urbano, os reclamos davam-se ao contrário. Situação distinta a essa teria ocorrido na Argentina com o entendimento dos liberais portenhos de que a efetivação de um projeto nacional somente poderia vingar, como afirma Lettieri, com a “construcción de un consenso entre poder político y sociedad civil”. O autor ressalta

que estudos recentes têm demonstrado “

desarrollo de una activa esfera pública

burguesa en la ciudad de Buenos Aires, en cuyo seno se aceitó un conjunto dinámico de mecanismos de mediación permanentes e informales, contituidos fundamentalmente por la prensa escrita, la movilización pública e la actividad asociativa.” A partir dessa liberdade de organização e manifestação, a formação de uma Opinião Pública, segundo

a ótica liberal, serviria para legitimar o sistema representativo, inibindo as práticas

fraudulentas nas eleições. A aplicação dessa concepção nas Províncias do interior foi realizada de maneira impositiva, gerando no espaço rural, atitudes pragmáticas e demagógicas dos políticos conservadores, desvirtuando seu caráter. A acomodação entre os interesses liberais e conservadores distorceu a própria formação do que constituíra-se chamar de Opinião Pública, arrefecendo seu papel anterior. Com a inserção maior das ideias liberais nos grandes centros urbanos, sedes dos Estados, é possível inferir a existência de conflitos de interesses constantes entre os comerciantes e financistas versus latifundiários, refletindo-se num embate entre campo

e cidade. Mesmo que o centro de toda a organização nacional fosse inquestionavelmente

o latifúndio e que a oligarquia necessitasse encaminhar seus negócios sem rupturas

significativas em qualquer das pontas, fica claro que em determinadas ocasiões os choques pela ampliação dos réditos e do controle político tornaram-se mais críticos. O caso argentino parece ilustrar bem esse quadro, com a exacerbação do conflito entre Buenos Aires e as demais Províncias.

el

Independente da alternância no poder entre liberais e conservadores, a dita modernização do Estado foi um processo irreversível dado que se tornava indispensável para a progressiva entrada dos investimentos estrangeiros e o crescimento econômico dos negócios privados. Essa situação parece justificar que na gestão estatal as práticas muitas vezes fossem semelhantes, demonstrando que liberais poderiam, de acordo com suas demandas, agir como conservadores e vice-versa. O caráter excludente desse Estado e o forte controle social foram invariavelmente mantidos, até como meio de procurar garantir a unidade oligárquica, acima das dissensões referidas. A entronização das idéias positivistas na América Latina, a sua influência na administração dos Estados, reforçou os elos da corrente oligárquica, vinculando de modo indissociável a ordem social, tão defendida pelos conservadores, com o progresso econômico, objetivo veemente dos liberais. Uma das divergências importantes no seio da oligarquia referia-se ao sistema educacional. Esse embate revelava concepções diversas quanto à utilidade da educação, desde o processo de alfabetização à instrução universitária. A visão liberal, embasada na sua gênese europeia, pregava uma “disseminação” da educação procurando dar-lhe uma função econômica de formação de mão de obra, com determinada qualificação, para as novas necessidades urbanas e a administração estatal, exigências do progresso. Conjuntamente com essa função econômica, a constituição de quadros especializados para as tarefas burocráticas da administração, apresentava-se como um componente importante no estabelecimento de um consenso nacional, mesmo que sob a égide do clientelismo. Os conservadores mantinham sua idéia de uma educação restrita, como fator de ordem social, controlada pela Igreja e suas pregações tradicionais, desvinculada de qualquer valor econômico. A referência a esse conflito é ilustrativa pois enseja a diferença de visões sobre as mudanças na organização econômica interna dos países latino-americanos, onde a acumulação possibilitava novas formas de incremento. Como já afirmado, o aprimoramento da organização e funcionamento do Estado na América Latina no século XIX, seguiu as exigências postas pelas relações estabelecidas entre a oligarquia e o capital externo, a partir das atribuições definidas ao subcontinente na divisão internacional do trabalho. As contendas ferrenhas para assumir a gestão desse Estado, localizaram-se especialmente nas vantagens econômicas

que dela poderiam ser extraídas, não atingindo o cerne de seu caráter. O Estado Oligárquico teve restrita função pública, enquanto que desempenhou papel econômico decisivo na acumulação privada. Seu forte papel de intervenção na economia não sofria restrições pela elite liberal que justificava a aparente contradição com suas ideias, argumentando que na América Latina não existiam agentes econômicos suficientes e capazes para realizar as funções que lhes caberiam. Diante disso, o Estado deveria ser o fator incentivador e favorecedor da formação desses agentes, ou seja, responsável por criar todas as condições necessárias para que a iniciativa privada tivesse possibilidades e capitais para florescer. Essa postura contribuía para o acirramento da privatização do Estado, realizando isenções fiscais de monta, empréstimos a fundo perdidos, constituindo-se numa pouco disfarçada transferência de renda, gerando um destacado endividamento público. O crescimento experimentado pelos países latino-americanos com a grande injeção de capitais externos e o aumento significativo das exportações, os aproximaram do progresso do ideal liberal. Pela sua própria origem, esse modelo, na prática, restringiu-se à expansão de determinados setores e agentes ligados à produção primário- exportadora, não se constituindo num efetivo desenvolvimento econômico. O progresso decantado pela oligarquia, tem seus limites desnudados quando se constata que não atingiu amplos setores populacionais que sequer utilizavam moeda corrente em suas transações, tendo, por conseguinte, nenhuma variação importante em sua renda, além da continuidade de índices mínimos de escolarização e serviços sanitários, situação pouco modificada em alguns centros urbanos. Como concebido, o papel do Estado Oligárquico não foi o de construir de fato uma nação, mas compor uma unidade nacional pelo alto, submetendo a massa através de mecanismos autoritários típicos do latifúndio, mantidos e aperfeiçoados pelas instituições oficiais. Na tentativa de forjar o consenso, a oligarquia, além da força, utilizou-se inclusive de uma propaganda nacionalista elevando o progresso como um fator patriótico o qual também seria alcançado com a difusão da educação e do avanço científico. Esse discurso político que enaltecia as iniciativas que aproximavam cada país latino-americano do modelo europeu de civilização, em última instância serviu para legitimar o setor primário-exportador, revertendo em diminutos resultados práticos no

tocante às melhorias tecnológicas que pudessem beneficiar a maior parte da população.

Eduardo Santos Neumann 6 A dominação oligárquica na América Latina apresenta diferentes interpretações por parte dos autores comentados acima. Entretanto todos concordam quanto aos efeitos da prosperidade econômica, da acentuada concentração territorial e a mudança de valores e estilo das elites latino-americanas. Principalmente diante da manifesta preocupação dessas elites com a europeização dos hábitos e costumes, valores materializados nas reformas urbanas em curso nas principais capitais nacionais. Estas mudanças estão relacionadas a uma adesão seletiva a alguns postulados liberais, orientadas a partir de um ecletismo prudente, principalmente na segunda metade do século XIX. Entre estas manifestações figura o desapego ao clero e a Igreja, mas sem que isto implicasse em um anticlericalismo militante. Uma prova do ecletismo presente na história latino-americano diz respeito ao fato de que o liberalismo não chegou a realizar uma união frutífera com a democracia no sentido rousseauniana, não contemplando, portanto, a “vontade geral”. Creio ser este um ponto que mereça maior atenção. Antes de dedicar atenção a natureza do liberalismo praticado na América Latina, voltemos ainda a uma questão sempre presente: a definição de oligarquia, que apesar de polissêmico é um termo/conceito que expressa uma dada realidade social. A primeira aproximação a este vocábulo, quando aplicado a situação da latino-americana, remete ao caráter dessa classe dominante, diante da mesma ser uma composição social bastante heterogênea, onde podem estar ladeados grandes proprietários, industriais, comerciantes e mesmo banqueiros. Composição possível e viabilizada diante da grande capacidade de cooptação política por parte desta oligarquia e sua habilidade em assimilar os grupos economicamente emergentes. Sem dúvida esta é uma peculiaridade da oligarquia latino- americana, o que permitia assim, evitar o nascimento de uma autêntica burguesia em condições de antagonizar-se ao grupo dominante. Um aspecto enfatizado pela historiografia refere-se ao fato de que enquanto houve crescimento econômico, não ocorreram contestações a pax oligárquica, ou quando

6 Professor Associado do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS.

aconteceram foram barbaramente reprimidas. Demonstração esta do autoritarismo em curso no subcontinente, evidência de que a oligarquia não se modernizou efetivamente. Apenas conciliou, através de ajustes, elementos de modernidade, sem jamais abrir mão das formas tradicionais de controle social. O que parecia modernidade nada mais era do que uma resposta as demandas internacionais diante da inserção capitalista da América Latina. Por sua vez a primeira questão enunciada por Guazzelli, a respeito da natureza do projeto oligárquico, nos remete indissociavelmente a relação entre Estado e sociedade, onde a formação dos Estados precedeu a organização da sociedade civil. Sempre é pertinente lembrar que para a maior parte da população latino-americana, o que o Estado

fazia ou deixava de fazer era indiferente, devido ao elevado grau de exclusão política operante nestes Estados recentemente formados. Apesar da aparente indiferença, os efeitos das medidas econômicas adotadas pelo Estado faziam-se sentir por todos, de maneira positiva ou negativa, conforme a posição ocupada na escala social. Os mais prejudicados eram os camponeses, pois a população rural era a mais exposta aos efeitos da concentração de terras e do latifúndio agroexportador. Na opinião de Carmagnani a hacienda é o elemento básico a partir do qual se organiza o poder social, e não apenas o social mas o exercido sob todos os setores, pois o prestígio e o poder estão vinculados a posse de terras. O fato do grupo dominante apresentar fortes condicionantes agrários (rurais) implicou em uma repercussão social pronunciada.

O predomínio da grande propriedade e a concentração de terras nas mãos de

poucos proprietários demonstra a existência de um forte ideal aristocrático no seio das elites latino-americanas. Pois a posse de terras era um símbolo de status e de hegemonia da oligarquia através do qual ela organiza o estado. Por sua vez o estado adota formas diversas, conforme o peso das variáveis que o definem, implicando no maior ou menor grau

de democracia presente em cada nação, bem como do autoritarismo.

A discussão sobre o caráter do Estado Oligárquico avança quando procuramos

definir quais os princípios do liberalismo foram adotados por parte da elite de cada país. Quais foram os pressupostos teóricos aplicados ou adaptados ao contexto latino-americano, visto que a adesão a certos postulados do laisser faire não implicaram obrigatoriamente uma maior participação política popular diante da permanência de formas tradicionais de

sujeição pessoal. Inclusive porque o liberalismo nunca teve e não tem o compromisso de estender ou universalizar direitos políticos. Quem analisou com acurada percepção a relação entre o liberalismo e a democracia no contexto latino-americano foi Richard Morse. Sua abordagem privilegia a integração de perspectivas numa análise comparativa, identificando a incongruência presente no pensamento político latino americanista como decorrência de sua “ cultura política”. Este autor defende a tese de que na Ibero-america o liberalismo é perfeitamente adaptável como vocabulário, ideologia, como programa seletivo ou como estratégia econômica, mas não como modo de vida político. Pois segundo Morse, na América Latina “o liberalismo e a democracia não interagiram diretamente, sendo assimilados de forma independente, e em verdade intermitente, a uma cultura política que ambos podiam afetar, mas nenhum podia suplantar”. Argumentação sustentada no fato de que a “história da democracia na Ibero- América é mais difícil de acompanhar que a do liberalismo por causa da sua diversidade, sua expressão amiúde desconcertada e popular, o desfecho geralmente infeliz de suas tentativas e, por conseguinte, a escassez de formulações ideológicas coerentes de seu “Projeto”. Expressão do claro desconforto das elites diante da mínima idéia de estender a participação nas decisões políticas às “classes perigosas”. Por esse motivo quando o liberalismo foi aplicado na América Latina, já havia perdido muito das suas conotações básicas, sofrendo uma desfiguração em relação as suas concepções iniciais. Na prática a realidade multifacetada do subcontinente na opinião das elites oferecia uma série de obstáculos a plena aplicação dos postulados liberais. Um exemplo bastante ilustrativo dos obstáculos em fixar uma nova organização política, através da lei, sustentada na adoção dos pressupostos dos liberais é o caso Argentino. Neste país prevaleceu o princípio de que o sufrágio era um ponto de partida e não uma meta e a constituição Nacional de 1853, garantia sufrágio universal a todos homens adultos sem restrições. As elites políticas e intelectuais de Buenos Aires em meados do século XIX sustentavam que a soberania popular e o sufrágio universal eram princípios básicos. Apesar desta premissa, garantida por lei federal, a participação eleitoral foi muito baixa até o início do século XX.

A participação nas eleições era limitada por ser o voto aberto e facultativo, ademais a fraude e a manipulação anulavam as mobilizações populares. Nos períodos de pleito a elite portenha controlava “su gente” através de complexos laços de clientelismo, adotando práticas eleitorais ensaiadas, nada mais que uma maneira de controlar organicamente a participação popular. A mobilização de homens era realizada de maneira coletiva e não individual, quando a massa estava a serviço dos conflitos entre facções da elite. A mobilização de setores populares e principalmente das camadas mais baixas “( ) implica formas complejas de vinculación entre dirigentes y base e imprimia a las elecciones rasgos de combates simbólico, em que no solo se contava votos, sino también fuerzas”.

A existência desta complexa vinculação entre grupo dirigente e base remete ao

problema da representatividade política, diante da prática do clientelismo político (caciquismo, caudilhismo e coronelismo), numa hábil operação de centralismo versus localismo. A grande concentração de poder em um núcleo reduzido de pessoas é muito alta, mas o espaço de atuação desse poder é muito limitada, justificando a necessidade de articular poder central e poderes locais. No entendimento do sociólogo argentino Waldo Ansaldi “la dominación

oligarquica es uma red estendida vertical, hierarquicamente, combinando centralización y descentralización entre grupos dominantes de diferente alcance (nacional, regional,

provincial o estadual, departamental y local (

fragil do sufrágio diante do clientelismo. Esta prática vincula-se a associação existente

rede que acaba por determinar o caráter

)”,

entre poder e clientela característica marcante do comportamento arcaico destas elites que primava pela centralização na tomada de decisões políticas.

A manifestação mais acabada de defesa à centralização de poder na figura de um

homem foi resumida na formulação teórica do “cesarismo-democrático”. O criador desta expressão é o político venezuelano Laureano Vallenila Lanz, autor de um livro com o mesmo título. A obra foi publicada em 1919 e definia este homem como forte, simultaneamente autoritário e democrata. A personificação do poder exerceu forte presença em boa parte da vida política dos países latino americanos no último terço do século XIX. Concluindo, ao reconhecer tais características como definidoras do comportamento e da conduta deste “agrupamento” social conhecido como oligarquia, afinal de contas qual

será o seu significado? Como é consensual o fato de que uma minoria exercia o controle político, econômico e social da maioria, estamos próximos a uma definição: grupo privado que domina a esfera pública. Ou dito de outra forma: apropriação privada do poder público, nada mais que uma monopolização do Estado e dos seus recursos por parte do grupo dominante e de seus aliados, gerando uma brutal exclusão social. A grande ilusão da oligarquia foi acreditar que sob bases frágeis e através do fluxo de novos capitais poderia manter um equilíbrio, mesmo artificial. A opção por uma política econômica que primava pelo financiamento externo das dívidas dissociando produção e consumo, determinou os limites do projeto oligárquico e sua face antissocial.