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QUADRINHO

S
LITERATURA
ARTE VISUAL
CINEMA
Nº01 NOV/DEZ 2009
A ARTE DE FAZER ARTE

EDIÇÃO ESPECIAL DE
LANÇAMENTO!
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“Ninguém precisa dizer que, na verdade, eu não sou tão
bom assim. Mas eu tento ser, o que é tão bom quanto”.
- Gabriel Bá
Editorial:
SOBRE PULSARTE
Quando alguns membros de um grupo literário sentiram necessidade de manifestar-
se em diferentes formas de artes e de divulgar seu trabalho com maior liberdade, criaram
o Selo Pulsarte, que se destinava facilitar a produção de publicações independentes
através da cooperação mútua.

SOBRE FANZINE
Há pessoas que recebem a arte em suas vidas como mero passatempo. Há outras que
sonham em viver pela arte; sonham em viver a arte. Escrever um livro. Pintar uma tela.
Gravar um CD. Criar uma história em quadrinhos. No entanto, quantos álbuns
revolucionários nunca foram gravados! Quantas histórias em quadrinhos nunca foram
ilustradas! Quantos clássicos da literatura foram esquecidos no fundo de uma gaveta...
Hoje, porém, com o advento da Internet e de outros meios de divulgação, muitos viram
seus sonhos se materializarem, criarem asas: Blogs, fotologs, comunidades literárias e
artísticas, periódicos, antologias e é claro, Fanzines.
Segundo Wikipédia pai dos burros (o Aurélio hoje é avô), “FANZINE é uma revista
(magaZINE) editada por um fã (do inglês, fan). Engloba todo o tipo de temas, com
especial incidência em histórias em quadrinhos, poesia, música e cinema... em padrões
experimentais”.
Resumindo: fanzine, é um passaporte que dá ao passageiro o direito de pilotar seu
próprio avião. Já divulgamos na Internet... Agora chegou a hora de alçarmos um novo
vôo. Preparem-se para as piruetas!

SOBRE A EPÍGRAFE
A epígrafe acima, é de autoria do talentoso Bá, que juntamente com seu irmão gêmeo
Fabio Moon, criou “10 pãezinhos” – o Fanzine mais bem sucedido do Brasil, e que deu a
eles, a estrutura necessária para tornarem-se os primeiros autores nacionais a receberam
o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos.
Portanto essa frase que inaugura nosso Zine serve apropriadamente como mote da
nossa publicação, afinal, o que temos de mais genuíno, de mais valoroso, é justamente a
boa vontade. Então, antes de julgar a ‘qualidade’ de nossos trabalhos, valorize nosso

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esforço. Pois se essa publicação tornou-se real, foi à base de sangue, suor, lágrimas e
xerox muito xerox!

– Marcos Roberto Moreira

A Arte de fazer Arte


O critico de cinema Ricciotto Canudo, publicou em 1923 o “Manifesto das
Sete Artes”, que pela primeira vez, classifica as diferentes formas de expressões
artísticas de acordo com sua linguagem. Como critico de cinema, Canudo via a arte
cinematográfica como a junção das seis artes precedentes. Para entender melhor,
veja a lista das sete artes e o que cada uma representa em termos de expressão
humana:
1ª Música (som);
2ª Dança/Coreografia (movimento);
3ª Pintura (cor);
4ª Escultura (volume);
5ª Teatro (representação);
6ª Literatura (palavra);
7ª Cinema (integrando os elementos das seis artes anteriores)
O objetivo de Canudo era de salientar a cinematografia como “expressão
artística máxima”. Por isso ela vinha por ultimo.
Com o tempo, porém, outros tipos de expressões, também consideradas
formas de arte, foram adicionadas ao manifesto:
8ª Fotografia (imagem);
9ª História em Quadrinhos (arte seqüencial)
Embora Canudo tivesse seus próprios objetivos ao criar tal lista, esta serve
como base para um estudo mais apurado de cada expressão artística. E muito pode e
deve ser dito a respeito de cada uma delas. E é o que nós faremos, já que esta
publicação é dedicada acima de tudo à arte, aos artistas que a representam e ao
publico que a prestigia.
Assim, incluiremos no nosso “cardápio”, tanto trabalhos como artigos
dedicados a cada tipo de arte, não deixando de fora é claro, artes marginalizadas –
como o graffiti, por exemplo – e artes digitais – computação gráfica, criação de
games, etc.
A principio, nosso foco de atuação será a região em que vivemos – Mauá e as
cidades circunvizinhas – com o intuito de estimular a criação artística da região. Mas
ficaremos atentos a quaisquer tipos de manifestações artísticas que venham a surgir.
Afinal, esta revista existe pela arte para a arte.

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Marcos Roberto Moreira

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Lidiane Santana
Licença poética

Limitar a criatividade
por rédeas na arte
seguir moldes
medi-la em centímetros
enfeitar com rimas raras
num ritmo musical
de uma cadência toante dificílima
Oh! Mil metáforas de flor!
Desculpe, senhor
se a rima não é exata
se a retórica não é intacta
se foge o motivo ao habitual
papel de parede de pôr do sol
ou de anjos voando no arrebol
blá, blá , blá e coisa e tal

Perdoe a não bajulação da forma:


só canto quando quero cantar
e canto o que bem quero
não almejo nem espero
que venha acaso te agradar

A inspiração nasce crua, desordenada


"fora do tom, sem melodia"
assim a deixe ficar

E se um borrão de tinta
figurar algum barbarismo
e ferir a norma culta da língua

Trago em mãos a licença poética


impresa em folha de seda
escrita com letras douradas
com registro e firma assinada

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devidamente esquecida e perdoada

e peço então que me deixe passar!

Programa

Ai querido, vamos visitar o hospício?

quero ver se acho graça nos loucos

Entre os normais está impossível!

Eu não suporto mais essa gente

Insossa, chata, previsível...

Vem, vamos sair daqui o quanto antes

Talvez entre os anormais e não-lúcidos

Se encontre gente interessante...

PESO NO ORçamenTO

Amar é um luxo ao qual os pobres de espírito não se


podem dar (até porque, provavelmente, eles já estouraram a
fatura do cartão este mês)...

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goiabada
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por: Jorge de Barros

(Domingo. Como um frango cozido. Lia, minha esposa, faz um


maravilhoso frango cozido. Meus filhos não gostam muito. Pegam uma
coxa um, o outro um pedaço do peito. Eu prefiro o espinhaço, o pescoço,
a asa, o pé... Chupar os ossinhos suculentos... Comer com a mão...
Depois, como meu pai sempre fazia, abro um pote de goiabada. Se
bem que, naquele tempo, não era pote, era lata. Meu pai, cerimonioso,
silencioso, abria a lata com uma faca de ponta, dando batidas no cabo e,
furo a furo, ia libertando primeiro o cheiro, depois a cor e, finalmente, o
arenoso sabor da boa goiabada cascão... E nós, ao redor, apreensivos,
aguardávamos ele distribuir o doce.
A minha goiabada é muito menos, é até pálida... aguada. Filha
distante daquela outra. Não é cascão e, com um puxão da tampa plástica,
abre-se com facilidade. As embalagens adaptam-se aos homens. Meu pai
dava murros em faca, concentrado no aço que defendia o doce. Eu puxo a
tampa flexível, entediado, e olho a data de validade. Meus filhos nem
percebem meus movimentos à mesa, já estão na sala vendo desenhos.
Passam por mim, abrem a geladeira e pegam iogurtes. Não gostam de
goiabada.
E eu fico a admirar a superfície lisa e vermelha do doce, então, com
uma faca sem ponta, daquelas de passar manteiga, talho uma fatia gorda e
brilhante e espeto na própria faca. Assim é a maneira mais gostosa de se
comer goiabada. Meu pai fazia desse jeito, ia espetando e distribuindo,
primeiro pra mamãe e depois para os filhos, do mais novo ao mais velho.
E a gente corria pela casa, pelo quintal, com a goiabada espetada na faca,
comendo devagar pra depois fazer inveja aos outros. Como era boa aquela
goiabada!
Minha mulher me observa, me examina... será que ela também sente
essa saudade?)

– Arnaldo, eu já não te disse que temos potes de sobremesa?

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Diários de Bicicleta
Roteiro por Lexy Soares

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Insert 1 – int – quarto - dia
IRMÃO segura o MENINO pelo pescoço com uma chave
de braço.
IRMÃO:
Olha o que eu faço com caçula
pentelho! Olha!

IRMÃO dá uns cascudos na cabeça do MENINO com a


outra mão.

Seq 1 – int – quarto - amanhecendo


MENINO sai do quarto. Ele caminha na direção da
porta

Seq 2 – int – corredor - amanhecendo


MENINO passa em frente o quarto da MÃE. Olha pela
porta entreaberta, vê a MÃE dormindo.

Insert 2 – int – sala - dia


MÃE segura o menino pela orelha.

MÃE:
Eu te ajeito nem que seja na
porrada!
Seq 2 – int – corredor - amanhecendo
Menino baixa a cabeça e continua andando pelo
corredor, indo até a porta

Seq 3 – ext - frente da casa - amanhecendo.


MENINO tira sua bicicleta pra fora da casa.
Empurra ela até a rua. Monta e sai pedalando.

Seq 4 – ext – ruas - dia


Vários takes do MENINO andando pelas ruas, em

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vários lugares da cidade, em várias horas do dia.
Em alguns takes, ele pedala, em outros, ele
empurra a bicicleta.

Seq 5 – ext – rua - dia


MENINO empurra a bicicleta, devagar, por uma rua
deserta. Enxuga a testa. Passa a mão na barriga.
Olha pra cima. Encosta a bicicleta em um poste,
senta na calçada, e abre a mochila. Procura por
algo, que não encontra.

MENINO:
Merda! Esqueci de trazer comida...

MENINO olha pro céu, olha pra rua, olha pra


direção pra onde estava indo. Olha para o caminho
por onde veio. Olha para a bicicleta.

Seq 6 – int – cozinha - dia


MÃE está tirando os pratos da mesa. MENINO
aparece na porta. MÃE olha pra ele, colocando os
pratos na pia.
MÃE:
Menino, onde é que você estava?
Quase perdeu o almoço... Vai lavar
as mãos, enquanto eu faço o seu
prato.

MENINO lava as mãos na pia, enquanto a MÃE faz o


prato dele. MÃE coloca o prato na mesa. MENINO se
senta, e começa a comer.

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O Poeta Medíocre (Poética da
Mediocridade)
Jorge de Barros

“o poeta medíocre é a antena da raça”


– Ezra Pound

I – Medíocres Quadras

a arte de ser medíocre os sublimes se transtornam


ensinou-ma o meu pai e infelizes quedam já,
disse ele: “sê medíocre, é só na mediocridade
que os medíocres podem mais. que a felicidade está.

no gosto médio te apura,


ser sublime é perigoso nas idéias, rédeas ponha
pesa e cria confusões para ter sorte segura,
ser medíocre é mais gostoso, sem susto, angústia ou vergonha.
evita as revoluções.
se quiser ser escritor,
escolha a mediocridade,
abra os livros e as revistas, não é preciso labor,
vede as telas e os jornais: agrade a vã mocidade.
nécios a perder de vista,
nécios a não poder mais. mas se escolher poesia,
se medíocre, não tem jeito:
amor, verso e cantoria
vede as grandes galerias só prestam se for bem feito.”
dos ilustres e eminentes,
do medíocre as alegrias mas eu fiz ouvidos moucos
são mais claras e evidentes. a saber tão reverendo:
versos dos bons tenho poucos,
misturo aos outros e os vendo!

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Um grego, um suco e o troco
Marcos Roberto Moreira
R$ 1,50, diz a placa. Suco grátis.
Dizem que não é muito higiênico. A carne assim, exposta ao ar, às
bactérias, aos coliformes...
Melhor não pensar. Não pensar na condição da gavetinha de onde
ele tira a salada. Não pensar se a colher está encardida, se a faca está
enferrujada... Não reparar que ele deixa cair mais carne no chão do que
dentro do pão – afinal, os cães também têm de comer.
Juro. Se tivesse dinheiro comia um Big-alguma-coisa. Carne de
minhoca. Mais saudável. Nota-se pelo sorriso do palhaço feliz.
Mas até que gosto do bom e velho churrasco grego. O pão francês,
sem gergilim. Daqueles cascudos, crocantes. A salada azedinha (será
estragada?), um ou outro pedaço de cenoura e pimentão no meio da carne.
“Você não vale nada, mas eu gosto de você”. É como diz a musica
tocando na caixa de som. Trilha sonora apropriada, embora não goste da
musica.
Exagerei na pimenta. Avermelho, lacrimejo, a língua arde. Tomo
três copos de suco antes de o pão terminar. O sei-lá-o-que que prepara o
pão, me olha feio. E antes de pagar, começo a encher outro copo.
– É um copo de suco, diz ele.
– O quê? Falo mastigando, dissimulando.
– O suco. É um copo por lanche.
– Tá escrito: suco grátis, contra-argumento. Não tá marcado que é
só ‘um’ copo grátis.
– Se fosse mais de um copo, estaria no plural “sucos”, e não
“suco” no singular. Isso ele não fala. Sou eu que penso o que diria no
lugar dele. Mas o coitado, se aprendeu isso, não deve se lembrar. Não é
preciso manjar de concordância para descer o facão na carne, rechear o
pão e dar o troco. Eu, depois de quatro anos cursando administração,
embora trabalhe como peão de firma, tenho pelo menos um diploma na
parede e regras gramaticais na cabeça.
Volto a encher o copo, doido para rir da cara dele. Ele, cortando a

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carne, doido pra usar a faca em mim.
Demoro. Degusto. Saboreio o suco quente e sem gosto, como se
fossa coca-cola gelada. Como se fosse água no deserto. Faço barulho para
engolir, deixando uma gota correr até o queixo. Tenho vontade de arrotar.
Não, não. Seria provocação demais.
Apanho um guardanapo de papel e um palito (que apesar da falta
de placa indicando, sei que são de graça). Palito os dentes estalando a
língua. Minha mãe detestava quando fazia isso. Aliás, ela detestaria me
ver comento aqui. Por ela, só comia canapé, caviar. Sinto muito, mamãe,
se não atingi suas expectativas gastronômicas a meu respeito. Se a tão
sonhada faculdade de administração só me rendeu um serviço no
almoxarifado. Mas o quê eu seria? Contador? Trabalharia na área
financeira de alguma multinacional? Seria mais um? Talvez aqui, entre os
não-formados, entre o povão que come churrasco grego, arrota e palita os
dentes fazendo barulho, eu me sinta especial. Eu me julgue melhor.
Tiro dois reais amassados do bolso. Dinheiro de bêbado. Hoje, vou
ter de ir a pé pra casa. Ele tira a luva plástica, apanha o dinheiro e tira
uma moeda de 50 centavos do avental.
– Guarde o troco, digo, Fica pelo suco.
Vou ter de ir a pé. Ele não precisa saber.
Saio sorrindo. Vitória! 2 x 0 nas minhas contas. Babaca. Mal dou
dez passos, escuto:
– Hei? Chefia?
Me viro. Nem cheguei a ver a moeda voando. Senti o metal me
acertar, como se quisesse atravessar minha cabeça. Aposto que o numero
50 ficou gravado na minha testa.
Olho indignado, sem dizer uma palavra. Ele retorna, sorrindo:
– Como o senhor disse: o suco é de grátis!

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Éderson Rocha

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Sentimento do mundo

Pudesse eu
Falar de amores
Da vida
Ou uma razão qualquer
Que venha a dar sentido
Um impulso, um grito
Um movimento que faz a vida surgir

Pudesse eu
Compor poemas
Rimas de flores
Contemplações, enfim
Não caberia palavra
E nem mesmo saberia
Qual seria a sina
Que esta se esgrima
Entre o sentir e o não sentir

Mas pudesse eu
Falar de flores
De amores
Contemplações
Enfim
Não seria esta vida

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Tão dura e sofrida
Por não mais existir
Verdadeiros valores
De rimas, de flores
Que o sentimento do mundo
Aos poucos
Deixa de existir...

Zaíra

pensar que neste espaço nada havia


hoje é disputado
em cada centímetro
casas, ruas e praças

pensar que
passados remotos de árvores
e tardes de sol
abrigava este lugar

e ver como busca


a raça humana seu habitat
o seu território
neste canto que nada havia
hoje parece cidade...

XAMPU
Jorge de Barros
Seo Onofre era um homem pacato, coitado do Seo Onofre. Pois
quem diria? Um homem pode até morrer sem uma paixão, acredito que
sim, mas às vezes acontece que, no crepúsculo da vida, pimba! Os olhos

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caem numa beleza qualquer e enlouquecem. Não é incomum, é o último
bracejar do afogado, inútil, mas vigoroso; é o bem-estar súbito do doente
terminal, minutos antes da morte; um engolfar de vida completamente
sem sentido, mas, porém: Vida.
E ele... Viúvo, aposentado, fora a vida inteira sapateiro. Morria
junto com a profissão, costumava dizer. Católico, rezava o terço
diariamente às ave-marias; praticava caminhada “pra junta não enferrujar”
e fazia sua fezinha no bicho. Parara de beber aos sessenta, mas antes, sua
presença no bar do Juca era religiosa, de se acertar o relógio.
Acontece que o Seo Onofre, no alto de seus 86 anos, apaixonou-se
perdidamente pela foto de uma modelo, uma garota propaganda que
sorria, na embalagem do xampu da neta. É, acreditem.
Mas ele não escondeu a paixão não, alardeou aos quatro cantos. A
moça era a mais bonita do mundo, a moça do xampu. E a única maneira
que ele imaginou para se aproximar da amada foi usando o dito xampu
(embora quase não tivesse mais cabelo). Passou a tomar seis banhos por
dia, comprava várias unidades do tal xampu. Vivia com o recorte da moça
na carteira e levava pra cima e pra baixo. Deu até um nome a ela. Como,
no xampu, o nome “Aloe Vera” vinha quase por baixo da figura da moça,
achou que aquele fosse o seu nome; mas ele achava o “Aloe” muito feio,
e passou a chamá-la Aloísia Vera. “Nome de princesa”, repetia. Quando a
nova netinha ia nascer, queria porque queria que a menina se chamasse
Aloísia, em homenagem à sua Dulcinéia. A sorte é que nasceu menino,
mesmo assim, pra não contrariar o patriarca, botaram o nome de
“Aluísio”.
Um dos filhos achava absurda a paixão do pai. Tentava convencê-lo
de que, provavelmente, a tal “Aloísia” era uma modelo magricela, metida
e esquisitona da capital, que jamais se importaria com um velho gagá
babão. Mas Seo Onofre não dava ouvidos. O filho não sabia nada da
beleza daquele amor singelo.
Com o tempo, a mania agravou-se. Seo Onofre passou a inventar a
“biografia” de Aloísia. Eles teriam se conhecido num cruzeiro, o navio
teria afundado e os dois sobrevivido durante cinco meses numa ilha
deserta, comendo coco e lagarto. Então um navio francês os resgatava,
mas a bandeira era falsa: tratava-se de um navio pirata... e assim
prosseguia a estória com aventuras e estripulias, que envolviam Rapunzel,
Getúlio Vargas, Lobisomem, Minotauro, Lampião e até a Viúva Porcina.

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Estórias que divertiam os netos, os filhos dos vizinhos e até os adultos.
Foi uma fase boa e divertida.
Passou a preocupar os filhos quando Seo Onofre começou a ensinar
os netos a pedir a bênção à embalagem de xampu. Dava presentes a ela,
fazia serenatas, passeava aos domingos na praça. Grave foi quando ele
quis obrigar o padre a fazer o casamento dos dois. Lembrava-se de que
não era casado oficialmente com Aloísia e teve medo de estar vivendo em
pecado. Só sossegou quando o filho convenceu o padre a simular pequeno
casamento, dentro de casa, longe dos curiosos. E assim foram os últimos
anos do velho Onofre, o velho do xampu, figura folclórica daquela
cidadezinha.
Seu final foi um pouco trágico, mas não desprovido de certa poesia.
Conto:
Naquele dia, quando foi ao supermercado, como fazia todo mês,
para comprar o xampu de sua amada, descobriu, horrorizado, que haviam
trocado a embalagem e, consequentemente, a modelo. Não disse palavra,
voltou pra casa quietinho e triste, causando estranheza nos vizinhos, que
sempre o cumprimentavam, recomendando lembranças à Aloísia. Não
respondeu a ninguém, mirava o chão e suspirava. O Maneco chaveiro
disse que o ouvira dizer, “Como ela pode me abandonar…”, mas o
Maneco é muito mentiroso. E Seo Onofre foi pra casa, entrou no banheiro
e nunca mais saiu. Foram encontrá-lo debaixo do chuveiro, abraçado à
última embalagem vazia de sua “Aloísia”, com um sorriso no rosto.
A autópsia por fim revelou: ele havia bebido todo o xampu, o
pobrezinho.

POR: JESIEL GOMES

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Uma Tempestade de Idéias
Mesmo com os sempre-em-alta Comics americanos, e com a recente onda de
Mangás, os autores nacionais de quadrinhos têm ganhado cada dia mais
espaço. Dentre estes, o mauáense Alex Mir tem se destacado como um dos
quadrinhista mais produtivos. Convidamos o artista para um bate-papo sobre
essa nova cara dos quadrinhos nacionais, e sua participação nesse meio.

Como você passou de leitor para prêmios importantes em dois anos de


autor de quadrinhos? vida. Isso dá uma visibilidade
R// Eu sempre gostei de escrever enorme. Além disso, a revista só
histórias e desde os doze anos criava chega ao Brasil todo por causa da
meus personagens. Mas só aconteceu malha de distribuição do Quarto
mesmo quando ganhei o concurso de Mundo.
roteiro da revista Comics Generation.
Conheci então o editor da revista,
Daniel Vardi. Ele me apresentou o
Clóvis Valle, que foi quem desenhou
minha primeira HQ, Macabeu.
Acabamos vendendo para a editora
Magnum, que até hoje não publicou a
história.

Como você vê o atual cenário de


quadrinhos independentes?
R// Em constante crescimento. Está
menos difícil publicar uma revista
independente ou um fanzine.
Algumas gráficas facilitam muito os Segurando um numero de sua revista
Tempestade Cerebral
preços. O problema é a falta de
anunciantes e a distribuição, que faz Que dica você pode dar para quem
com que as revistas tenham uma deseja ingressar no ramo de
periodicidade maior que as revistas de quadrinhos.
editora e não sejam conhecidas pelos R// Ser persistente e não desistir na
amantes dos quadrinhos. primeira dificuldade. Publicar
quadrinhos no Brasil é muito
De que forma o coletivo de complicado, mas muitos estão aí para
quadrinhos quarto mundo, tem provar que é possível. Tem que ter
sido de ajudado na divulgação do muito amor à arte (dos quadrinhos),
seu trabalho. MRM
R// O quarto Mundo ganhou três

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poemarquia
autor: marcos roberto moreira

Decidimos desmascarar quem está no trono


Mas nos disseram:
“Tome cuidado
Desafiar o poder imposto
significa estar à margem da lei”

é deveras perigoso
estabelecer a anarquia
a liberdade, ainda que tardia
contra o que se nos impõem
contra o quê (ou quem )
está disposto a nos deter

? mas podemos deixar


nos calar, nos castrar
nos render a qualquer custo

tirar nossa identidade


nossa originalidade
nossa cara
nosso gosto?

não, nem a pau


nem vem com essa

somos jovens
temos pressa
de nos afirmar no mundo
correr com nossos próprios pés
viver mil anos por segundo

– ABAIXO A TIRANIA INTELECTUAL!

– ABAIXO A HOMOGENIA CULTURAL!


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