População, desenvolvimento e

degradação ambiental no Brasil

José Eustáquio Diniz Alves
ENCE/IBGE

Museu do Amanhã
27 de setembro de 2017
Sumário
• Positivismo: “governar é povoar e abrir estradas”;
• Familismo e pronatalismo;
• 200 anos da Independência: População, PIB e Renda per capita;
• Degradação dos biomas brasileiros;
• Destruição dos rios e crise hídrica;
• Pegada ecológica e biocapacidade;
• População e direitos reprodutivos;
• Transições demográficas;
• Envelhecimento populacional;
• Considerações finais.

ALVES, JED; MARTINE, G. Population, development and environmental degradation in
Brazil. In: ISSBERNER LR; LENA P. Brazil in the Anthropocene: Conflicts Between Predatory
Development and Environmental Policies”, Londres, NYC, Routledge, 2017
Genocídio da população indígena do Brasil
A população indígena brasileira em 1500
foi estimada entre 2 e 5 milhões de
habitantes. Em 2010 foram recenseados
821 mil pessoas que se autodeclararam
indígenas, pelo IBGE.

“É presumível que o efeito negativo do contato sobre a
população autóctone tenha tido cadências temporais
muito diferenciadas, assim como tenham sido
diferenciadas quantitativamente, segundo a zona, as
perdas demográficas. Mas os fatores determinantes da
população indígena – além da difusa hostilidade
determinada pelo povoamento europeu e das contínuas
guerras e incursões de “pacificação”, em geral bastante
cruéis, proporcionando muitas perdas”
(Livi-Bacci 2002, p. 143).
Positivismo e Povoamento
“Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta”
Augusto Comte (1798-1857)

Afonso Pena (1906-1909): "Governar é povoar"

“Governar é povoar; mas, não se povoa sem se abrir estradas, e de todas as
espécies; Governar é, pois, fazer estradas”
Washington Luís (1926-1930)

Getúlio Vargas e Marechal Rondon (positivista): “Marcha para o Oeste”
Estradas de Dutra, JK, os militares, FHC, Lula e Dilma
• Presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951): construção da BR 116 (a Via Dutra, com 402
km), inaugurada em 1951, ligando as duas maiores cidades do Brasil;
• Juscelino Kubitschek (1956-60) tinha como lema central a bandeira desenvolvimentista:
“50 anos em 5”. Ele prometia acelerar a modernização do país, construindo hidrelétricas,
indústria de base, automóveis, bens de consumo duráveis, etc.
• Sua grande obra foi a construção de Brasília (capital do cerrado)
• JK também abriu estradas: Belém-Brasília e Transbrasiliana (BR-153 com 3.595 km,
inaugurada 1959);
• Emílio Garrastazu Médici (1969 e 1974): Rodovia Transamazônica (BR-230), com 4.223 km
construída com o lema: “Levar os homens sem-terra para a terra sem homens”;
• FHC e Lula: a Transnordestina é uma obra ferroviária para ligar o Porto de Pecém, no
Ceará, ao Porto de Suape, em Pernambuco, além do Piauí, com cerca de 2 mil km;
• Dilma Rousseff (2011-2016): Rodovia Bioceânica, atravessando o continente sul-americano
no sentido leste-oeste, a partir do Porto de Santos, cortando a Bolívia e chegando aos
portos de Arica e Iquique (com cerca de 4 mil km).
• Etc.
Familismo e pronatalismo
• Getúlio Vargas apoiou a família extensa (o “salário família” visava estimular uma prole
numerosa);
• o Decreto Federal n. 20.291, de janeiro de 1932 estabelecia: “É vedado ao médico dar-
se à prática que tenha por fim impedir a concepção ou interromper a gestação”;
• a Constituição de 1937 em seu artigo 124 diz: “A família, constituída pelo casamento
indissolúvel, está sob a proteção especial do Estado. As famílias numerosas serão
atribuídas compensações na proporção de seus encargos”;
• Durante o Estado Novo, em 1941, foi sancionada a Lei das Contravenções Penais que
em seu artigo 20 proibia: “anunciar processo, substância ou objeto destinado a
provocar o aborto ou evitar a gravidez”;
• A postura pró natalista presente na cultura nacional permaneceu hegemônica até meados da
década de 1970, mas não houve uma política populacional explícita. Os militares adotaram
posturas demográficas expansionistas, expressas no Programa Estratégico de Desenvolvimento
(1968-1970) e na mensagem dirigida ao Papa Paulo VI, em 1968, na publicação da Encíclica
Humanae Vitae (O Papa Francisco deve revisar a Humanae Vitae até 25/07/2018);
• Em 1967 foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar denúncias da
existência de “esterilizações maciças” de mulheres na Amazônia;
• No vácuo da ausência de políticas públicas de saúde reprodutiva foi criada, em 1965, a
Sociedade Bem-estar da Família – BEMFAM – que passou a oferecer serviços de planejamento
familiar para uma parcela da população;
Desenvolvimento insustentável do Brasil
Na Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente,
realizada em Estocolmo, em 1972, o General Costa Cavalcante, Ministro
do Interior e representando o governo, proferiu um discurso
claramente anti-ecológico:

• "Para a maioria da população mundial, a melhoria de condições é
muito mais uma questão de mitigar a pobreza, dispor de mais
alimentos, melhorar vestimentas, habitação, assistência médica e
emprego, do que ver reduzida a poluição atmosférica“.
200 anos da
Independência
Crescimento entre
1822 e 2022

População = 46 vezes
PIB = 834 vezes
Renda per capita = 18 vz.
DEGRADAÇÃO DOS BIOMAS BRASILEIROS

O progresso humano
se deu
às custas do
regresso ambiental
Restam cerca de 10% da Mata Atlântica
em “ilhas” isoladas e difícil acesso
“A floresta precede os povos e o deserto os segue”
(Chateaubriand)

A destruição das florestas de São Paulo

Cem anos de devastação: revisitada 30 anos
depois/Ministério do Meio Ambiente.
Secretaria de Biodiversidade e Florestas:
Mauro Antônio Moraes Victor... [et al.]. –
Brasília: 2005
http://www.historiaambiental.org/biblioteca/ebo
oks/cem_anos_de_devastacao_2005.pdf#pag
e=1&zoom=60,0,803
Ministério do Meio Ambiente. Mata Atlântica.
http://www.mma.gov.br/biomas/mata-atlantica
ALVES, JED. O crime de ecocídio e a
devastação das florestas de São Paulo,
Ecodebate, RJ, 22/11/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/11/22/o-
crime-de-ecocidio-e-a-devastacao-das-
florestas-de-sao-paulo-artigo-de-jose-
eustaquio-diniz-alves/
Destruição das
florestas do
Paraná
Degradação do Cerrado

Desmatamento do cerrado supera o
da Amazônia, indica dado oficial
Sem alarde, governo divulga na internet primeiros números
do monitoramento anual por satélite do bioma, que
mostram área de 9.483 km2 devastada em 2015; Bahia,
Estado que flexibilizou o licenciamento ambiental, lidera em
número de municípios críticos

http://www.observatoriodoclima.eco.br/desmate-no-cerrado-supera-o-da-amazonia/
Holocausto Amazônico
Cresce o desmatamento da Amazônia

7.989
7.464
7.000
6.418 6.207
5.891
5.012
4.571

2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016

Fonte: PRODES/INPE
http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes

Temer extingue reserva e libera
mineração próxima a tribos e
área ecológica
http://combateaodesmatamento.mma.gov.br/
Destruição dos rios e crise hídrica
Destruição dos rios brasileiros
Tietê Carioca
Rios Pinheiros, Velhas e
Paraiba do Sul
Complexo do Cebolão - SP
Naufrágio do delta do rio São Francisco

O povoado de Cabeço, localizado em ilha na Foz do Rio São Francisco, na divisa entre
Alagoas e Sergipe, sucumbiu e, em poucos anos, o mar invadiu casas e construções da
comunidade pesqueira, que tinha 400 habitantes. A completa evacuação do povoado foi
concluída há 14 anos. O processo de avanço do mar sobre a vila é atribuído à
degradação das nascentes, ao sobreuso das águas e às represas construídas no Rio
São Francisco, como a Usina Hidrelétrica do Xingó.
Sete Quedas – crime ambiental
Usina de Itaipu – fábrica de denúncias
As Olim-piadas do Pinicão da Guanabara
http://www.ecodebate.com.br/2014/04/25/as-olim-piadas-do-pinicao-da-guanabara-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
Lixo acumulado em frente ao Museu do Amanhã, um dos novos cartões postais construídos para os Jogos Olímpicos
Rio Doce Rio Amargo
O Brasil tem o maior superávit ambiental
do mundo

Mas esse superávit está diminuindo
dramaticamente
População e Direitos Reprodutivos
População brasileira: 1800-2100
População e direitos sexuais e reprodutivos
• Houve uma aliança “espúria” antineomalthusiana unindo os militares, a igreja
católica, a esquerda e o feminismo;
• Mesmo assim a TFT começou a cair no Brasil no quinquênio 1965-70 devido às
mudanças estruturais e institucionais (urbanização, educação, mulher na FT, etc);
• O Programa de Saúde Materno-Infantil, lançado pelo Ministério da Saúde, em
1977, foi a primeira ação estatal no sentido de oferecer o planejamento familiar e
contemplava a prevenção da gestação de alto risco;
• Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), lançado em 1983,
que concebia a questão da saúde da mulher de forma integral, não se detendo
exclusivamente nas questões de concepção e contracepção;
• Artigo 226 (§ 7º) da Constituição brasileira de 1988 sobre planejamento familiar;
• Lei n. 9.263, de 1996, que regulamenta o § 7º do art. 226 da Constituição Federal,
que trata do planejamento familiar no Brasil;
• Governo Lula, 2005, lançou a “Política Nacional de Direitos Sexuais e Direitos
Reprodutivos”.
População no século XXI

Bônus demográfico

Envelhecimento populacional
Transições urbana e demográfica: Brasil
250.000 50

População (em mil) 200.000 40

TBN e TBM (por mil)
150.000 30

100.000 20

50.000 10

0 0
1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2030 2040 2050
Total Urbana Rural TBN TBM
Fonte: IBGE e UN/ESA (rev. 2012)

George Martine, Jose Eustaquio Alves, Suzana Cavenaghi. Urbanization and fertility decline: Cashing in on
Structural Change, IIED Working Paper. IIED, London, December 2013. ISBN 978-1-84369-995-8
http://pubs.iied.org/10653IIED.html?k=Martine%20et%20alhttp://pubs.iied.org/pdfs/10653IIED.pdf
Bônus demográfico no Brasil
100
Razão de dependência
90
80
O Brasil vive
70
o seu % 60
melhor 50
momento 40
demográfico 30
20
da história!
10
0
1960

2050
1950

1970

1980

1990

2000

2010

2020

2030

2040

2060

2070

2080

2090

2100
Total Jovens Idosos
Fonte: UN/ESA, Revisão 2012

ALVES, JED, A janela de oportunidade demográfica do Brasil, Recife, Revista Coletiva, FJN, No 14, mai/ago, 2014
http://www.coletiva.org/site/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=198&Itemid=76
De pirâmide (1985) para
retângulo populacional (2085)
80+ 85 +
75-79 80-84
70-74
65-69   75-79
70-74
65-69
60-64
55-59 60-64
55-59


50-54
45-49
40-44
50-54
45-49
40-44

35-39
35-39
30-34 30-34
25-29 25-29
20-24 20-24
15-19 15-19
10-14 10-14
5-9 5-9
0-4 0-4
10.000 5.000 0 5.000 10.000 10.000 5.000 0 5.000 10.000
Brasil 1985 Brasil 2085

Fonte: ONU, 2015 Revision of World Population Prospects http://esa.un.org/unpd/wpp/
Hipótese média de fecundidade

A coorte 0-4 anos de 1980-85 foi a maior da história brasileira (4 milhões de
nascimentos por ano); Entre 2080-85 devem nascer 2 milhões de bebês por ano.
Quarta idade: envelhecimento do envelhecimento
Diminuição da PIA e
aumento dos idosos, Brasil: 2001-2060
Redução da razão de suporte: dificuldades para a previdência
Se o Brasil envelhecer antes de
“enriquecer” (deve atingir 28% de idosos
com 65 anos e mais, em 2062), será
difícil aumentar o bem-estar da
população
“Armadilha da renda media”?
O fim dos bônus demográficos em um quadro de baixa produtividade
do capital e do trabalho pode fazer o país cair na armadilha da renda
média e submergir…

No ritmo atual, dificilmente o Brasil vai cumprir com os objetivos
dos ODS….

A situação pode ficar dramática se o superávit ambiental se
transformar em deficit ecológico e o Brasil não tiver os recursos
necessários para garantir a qualidade de vida humana e
ambiental.
A degradação ambiental continua, mesmo com o
menor ritmo de crescimenteo demográfico …
O desmatamento da Amazônia continua....

Todos os biomas brasileiros estão ameaçados…
Renca: modelo baseado em matéria-prima barata
Crescem as queimadas...

Etc...

O Brasil está em um processo de
“especialização regressiva” com
fortalecimento da “ROÇA” (agronegócio)
e da “MINA” (pré-sal)
Será o fim do desenvolvimento brasileiro?

Como evitar a desordem e o regresso?
FIM

MUITO OBRIGADO

José Eustáquio Diniz Alves
Telefone ENCE: (21) 2142 4689
jed_alves@yahoo.com.br