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João Ruivo (www.rvj.

pt/ruivo)

Finalmente as férias?

A educação é um projecto cultural e humanista que a obriga a estabelecer valores

e objectivos que toda a comunidade escolar tenta cumprir. Esse esforço exige uma

grande abertura aos novos horizontes, às novas solicitações e às novas oportunidades. É

por isso que para os educadores a compreensão da mudança de valores que as novas

gerações transportam para a escola, deve ser uma das fontes inspiradoras que permita

dar sentido ao fazem, clarificando a dimensão ética das suas práticas.

A sociedade do século XXI necessita de profissionais que sejam capazes de

transformar as adversidades em desafios, e estes em processos de inovação.

Profissionais que saibam identificar as suas características específicas, potenciando-as

através da identificação das funções e competências que esse impulso renovador lhes irá

exigir.

Mas, para que esse investimento pessoal e profissional resulte em eficiência

organizacional, torna-se indispensável que se conjuguem cinco condições, ou objectivos


básicos de intervenção: 1ª- Conceder aos educadores autonomia de decisão quanto à

elaboração de projectos curriculares, a partir de um trabalho sistemático de indagação,

partilhado com os seus colegas. 2ª- Prestar especial atenção à integração da diversidade

dos alunos, num projecto de educação compreensiva, que atenda às características e

necessidades individuais. 3ª- Manter um alto nível de preocupação quanto ao

desenvolvimento de uma cultura de avaliação do trabalho individual e do

funcionamento organizacional das escolas. 4ª- Associar a flexibilidade à evolução, face

ao reconhecimento que os professores detêm diferentes ritmos para atingirem os


objectivos que os aproximem dos indicadores sociais da mudança. 5ª- Manter,

finalmente, uma grande abertura às propostas e às expectativas de participação de todos

os elementos da comunidade educativa, enquanto condição para promover a ruptura que

conduz à renovação.

Infelizmente, os tempos que correm não têm permitido alimentar este tipo de

optimismos. Razões alheias ao crescimento profissional dos docentes, como o são as

ancoradas nas crise demográfica ou nas medidas de política educativa que visam a

mudança pela mudança e privilegiam os números e a estatística à promoção do

desenvolvimento pessoal dos educadores, continuam a anunciar tempos de ruptura e

contestação pouco favoráveis à reflexão serena sobre o futuro da escola.

Com o início das férias de Verão, a comunidade escolar prepara-se para entrar

num curto interregno, após mais um atribulado ano escolar. Durante o próximo mês não

é de esperar qualquer resposta positiva aos problemas que se avolumaram na lista de

lamentações dos professores. Lá para Setembro avizinha-se mais uma abertura de ano

escolar com contornos tensos. Que sacrifício ainda falta pedir aos educadores

portugueses para que os responsáveis governamentais passem a agir mais com as

pessoas e menos contra elas?

João Ruivo
ruivo@ipcb.pt