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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

LICENCIATURA Em

HistóriaHistória

HISTÓRIA ANTIGA 1

pONTA gROSSA - pARANÁ

2009

Maura Regina Petruski

CRÉDITOS

João Carlos Gomes Reitor

Carlos Luciano Sant’ana Vargas Vice-Reitor

Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos Ariangelo Hauer Dias - Pró-Reitor

Pró-Reitoria de Graduação Graciete Tozetto Góes - Pró-Reitor

Divisão de Educação a Distância e de Programas Especiais Maria Etelvina Madalozzo Ramos - Chefe

Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância Leide Mara Schmidt - Coordenadora Geral Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Pedagógica

Sistema Universidade Aberta do Brasil Hermínia Regina Bugeste Marinho - Coordenadora Geral Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Adjunta Myriam Janet Sacchelli - Coordenadora de Curso

Colaborador Financeiro Luiz Antonio Martins Wosiak

Colaboradores de Informática Carlos Alberto Volpi Carmen Silvia Simão Carneiro Adilson de Oliveira Pimenta Júnior Juscelino Izidoro de Oliveira Júnior Osvaldo Reis Júnior Kin Henrique Kurek Thiago Luiz Dimbarre Thiago Nobuaki Sugahara

Colaboradores em EAD Dênia Falcão de Bittencourt Jucimara Roesler

Colaboradores de Publicação Maria Beatriz Ferreira - Revisão Sozângela Schemim da Matta - Revisão Ana Caroline Machado - Diagramação Eloise Guenther - Diagramação Anselmo Rodrigues de Andrade Júnior - Ilustração

Colaboradora de Planejamento Silviane Buss Tupich

Colaboradores Operacionais Edson Luis Marchinski Joanice de Jesus Küster de Azevedo João Márcio Duran Inglêz Maria Clareth Siqueira Mariná Holzmann Ribas

Todos os direitos reservados ao Ministério da Educação Sistema Universidade Aberta do Brasil

Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Processos Técnicos BICEN/UEPG.

Z94h

Petruski, Maura Regina História antiga. Ponta Grossa : Ed. UEPG, 2009.

115p.

Licenciatura em História – Educação a distância.

1. Antigüidade Oriental – história. 2. Antigüidade Clássica - história. I. T.

CDD : 901

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD

Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR Tel.: (42) 3220-3163 www.nutead.uepg.br

2009

ApRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL

ApRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL

Prezado estudante

Inicialmente queremos dar-lhe as boas-vindas à nossa instituição e ao curso que escolheu. Agora, você é um acadêmico da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), uma renomada instituição de ensino superior que tem mais de cinqüenta anos de história no Estado do Paraná, e participa de um amplo sistema de formação superior criado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2005, denominado Universidade Aberta do Brasil (UAB).

em 2005, denominado Universidade Aberta do Brasil (UAB). O Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) não

O Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) não propõe a criação de uma nova instituição de ensino superior, mas sim, a articulação das instituições públicas já existentes, possibilitando levar ensino superior público de qualidade aos municípios brasileiros que não possuem cursos de formação superior ou cujos cursos ofertados não são suficientes para atender a todos os cidadãos.

não são suficientes para atender a todos os cidadãos. Sensível à necessidade de democratizar, com qualidade,

Sensível à necessidade de democratizar, com qualidade, os cursos superiores em nosso país, a Universidade Estadual de Ponta Grossa participou do Edital de Seleção UAB nº 01/2006-SEED/MEC/2006/2007 e foi contemplada para desenvolver seis cursos de graduação e quatro cursos de pós-graduação na modalidade a distância. Isso se tornou possível graças à parceria estabelecida entre o MEC, a CAPES e as universidades brasileiras, bem como porque a UEPG, ao longo de sua trajetória, vem acumulando uma rica tradição de ensino, pesquisa e extensão e se destacando também na educação a distância. A UEPG é credenciada pelo MEC, conforme Portaria nº 652, de 16 de março de 2004, para ministrar cursos superiores (de graduação, seqüenciais, extensão e pós- graduação lato sensu) na modalidade a distância. Os nossos programas e cursos de EaD, apresentam elevado padrão de qualidade e têm contribuído, efetivamente, para a democratização do saber universitário, destacando- se o trabalho que desenvolvemos na formação inicial e continuada de professores. Este curso não será diferente dos demais, pois a qualidade é um compromisso da Instituição em todas as suas iniciativas. Os cursos que ofertamos, no Sistema UAB, utilizam metodologias, materiais e mídias próprios da educação a distância que, além de facilitarem o aprendizado, permitirão constante interação entre alunos, tutores, professores e coordenação. Este curso foi elaborado pensando na formação de um professor competente, no seu saber, no seu saber fazer e no seu fazer saber. Também foram contemplados aspectos éticos e políticos essenciais à formação dos profissionais da educação. Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos para facilitar o seu processo de aprendizagem e que tenha muito sucesso na trajetória que ora inicia. Mas, lembre-se: você não está sozinho nessa jornada, pois fará parte de uma ampla rede colaborativa e poderá interagir conosco sempre que desejar, acessando nossa Plataforma Virtual de Aprendizagem (MOODLE) ou utilizando as demais mídias disponíveis para nossos alunos e professores. Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois a sua aprendizagem é o nosso principal objetivo.

EQUIPE DA UAB/UEPG

SUmÁRIO

SUmÁRIO

PALAVRAS DA PROFESSORA

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OBJETIVOS E EMENTA

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ANTIgUIDADE ORIENTAL

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SEçãO 1- CRESCENTE FÉRTIL: PARTE INTEGRANTE DO ORIENTE PRÓXIMO

SEçãO

SEçãO

2- O ESTADO FARAÔNICO 3- MESOPOTÂMIA: O BERÇO DA CIVILIZAÇÃO

ANTIgUIDADE CLÁSSICA

GRÉCIA: O MUNDO DAS PÓLIS

2-

SEçãO

SEçãO

1-

ROMA: DO LÁCIO PARA O MUNDO

PALAVRAS FINAIS

REFERÊNCIAS

NOTAS SOBRE A AUTORA

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38

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60

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DO LÁCIO PARA O MUNDO ■ PALAVRAS FINAIS ■ REFERÊNCIAS ■ NOTAS SOBRE A AUTORA 12

pALAVRAS DA pROFESSORA

pALAVRAS DA pROFESSORA

Este é nosso primeiro contato. Iniciamos a disciplina de História Antiga com a plena convicção de que o tema é vasto e as sociedades extremamente variadas. Sob essa perspectiva, foram realizadas algumas escolhas em relação aos temas propostos e privilegiados no presente trabalho, não que estes sejam mais importantes que os que não foram contemplados. Em relação ao Oriente Próximo, optou-se por trabalhar a questão das monarquias, pois elas foram a forma política predominante nas regiões que contavam com um sistema agrícola estável, vida urbana e escrita. Sem dúvida, Egito e Mesopotâmia se encaixam nessa modalidade, na medida em que foram as primeiras regiões do mundo a apresentar urbanização e Estado organizados. A proposta é construir, junto com você, um conhecimento ao mesmo tempo denso e ‘enxuto’, e que lhe possibilite perceber os traços essenciais das sociedades que serão, paulatinamente, reveladas e estudadas. Quanto a Roma, apresentada como a sociedade da permanência de acordo com o estudioso francês Jacques Le Goff, embora tenha se apropriado de algumas formas da sociedade grega, teve uma trajetória diversa; no seu processo imperial, viu emergir uma forma de religiosidade que veio a marcar definitivamente o Ocidente e os sistemas de crença. O estudo será desenvolvido a partir do texto base, que pode ser considerado como ferramenta indispensável para conduzir sua caminhada. Ao mesmo tempo você trabalhará com as indicações de leituras apresentadas no decorrer do trabalho. Uma proposta densa e ao mesmo tempo fascinante. Vale lembrar que as sociedades estudadas nesta disciplina são embriões de muitas referências presentes na atualidade. Assim, vá em frente, pois o caminho está sendo aberto e você está começando a percorrê-lo. Boa sorte e bom estudo! Um abraço.

Maura

pois o caminho está sendo aberto e você está começando a percorrê-lo. Boa sorte e bom

OBJETIVOS E EmENTA

OBJETIVOS E EmENTA

ObjetivOs

Geral:

Analisar, levando em consideração a distância, no tempo e no espaço,

entre as sociedades contemporâneas e as sociedades da Antiguidade, as possibilidades da construção de um saber transformador de nossa reflexão prática profissional.

Específicos:

Perceber a importância das fontes históricas para o estudo das civilizações antigas.

Reconhecer no despotismo oriental um regime marcado pela concentração do

poder nas mãos de um monarca, sua fundamentação religiosa e aplicabilidade

no Egito Antigo.

Perceber a importância das fontes históricas para o estudo das civilizações antigas.

Reconhecer no despotismo oriental um regime marcado pela concentração do

poder nas mãos de um monarca, sua fundamentação religiosa e aplicabilidade

no Egito Antigo.

Refletir sobre a formação das cidades-estados da Mesopotâmia e

perceber, além de questões de disputas, conquistas e expansão territorial, as

sobreposições culturais e a disseminação de suas técnicas e traços (língua, escrita, religiosidade).

Compreender as contradições presentes na sociedade grega, ao desenvolver

o pensamento racional e o conceito de liberdade dos cidadãos, construídos sobre os alicerces de um sistema de produção escravista.

Reconhecer em Roma a responsabilidade pelo circuito mediterrâneo de

civilização, através da inclusão, mesmo conflituosa e conquistadora, de regiões e

povos afastados da orla mediterrânea, tanto orientais quanto ocidentais.

ementa

Elementos históricos e historiográficos das sociedades da Antiguidade Oriental e Clássica. Egito: cultura, trabalho, religião e política. A sociedade mesopotâmica (sumérios, babilônicos, assírios e caldeus). Grécia: formação da pólis. As cidades-estados gregas; cultura e sociabilidades; o Helenismo. Roma: o surgimento de uma civilização; Monarquia, República e Império; sociedade e cultura em Roma.

Antiguidade

Oriental

ObjetivOs De aPRenDiZaGem

Nesta unidade você tem três objetivos a cumprir:

Reconhecer a importância das civilizações egípcia e mesopotâmica como construtoras de referenciais do mundo contemporâneo.Nesta unidade você tem três objetivos a cumprir: Identificar os elementos que estão presentes na sociedade

Identificar os elementos que estão presentes na sociedade mesopotâmica relacionados a disputas, conquistas e expansão territorial.como construtoras de referenciais do mundo contemporâneo. Reconhecer elementos presentes nas relações de poder, nas

Reconhecer elementos presentes nas relações de poder, nas civilizações egípcia e mesopotâmica.relacionados a disputas, conquistas e expansão territorial. R OteiRO De estUDOs Para atingir os objetivos expostos

ROteiRO De estUDOs

civilizações egípcia e mesopotâmica. R OteiRO De estUDOs Para atingir os objetivos expostos acima desenvolveremos o
civilizações egípcia e mesopotâmica. R OteiRO De estUDOs Para atingir os objetivos expostos acima desenvolveremos o
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civilizações egípcia e mesopotâmica. R OteiRO De estUDOs Para atingir os objetivos expostos acima desenvolveremos o

Para atingir os objetivos expostos acima desenvolveremos o seguinte roteiro de estudos:

SEçãO 1 – Crescente Fértil: parte integrante do Oriente Próximo.acima desenvolveremos o seguinte roteiro de estudos: SEçãO 2 – O Estado Faraônico. SEçãO 3 –

SEçãO 2 – O Estado Faraônico.1 – Crescente Fértil: parte integrante do Oriente Próximo. SEçãO 3 – Mesopotâmia: o berço da

SEçãO 3 – Mesopotâmia: o berço da civilização.de estudos: SEçãO 1 – Crescente Fértil: parte integrante do Oriente Próximo. SEçãO 2 – O

Universidade Aberta do Brasil

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pARA INÍCIO DE CONVERSA

Universidade Aberta do Brasil 12 pARA INÍCIO DE CONVERSA Nosso trabalho parte da apresentação de duas

Nosso trabalho parte da apresentação de duas civilizações que se formaram e se organizaram na região do Crescente Fértil: a Egípcia e a Mesopotâmica. Essas duas civilizações possuem muitos aspectos similares e durante parte de suas histórias elas existiram concomitantemente. A região do Crescente Fértil pode ser historicamente apresentada como o lugar onde o ser humano atingiu primeiramente um nível elevado de civilização, ou seja, a estruturação de uma vida urbana, o desenvolvimento de um sistema de escrita, o estabelecimento de uma organização estatal e de um culto religioso. Construíram-se, nela, significativos elementos artísticos e desenvolveram-se os princípios de atividades científicas.

SEÇÃO 1

CRESCENTE FÉRTIL: pARTE INTEgRANTE DO ORIENTE pRÓXImO

Pelo fato de a região apresentar o formato de meia lua em sua fase crescente, recebeu a denominação de Crescente Fértil. Veja o mapa abaixo.

Foi nesse local que as comunidades neolíticas se desenvolveram, antes de qualquer outra, para estados organizados. Nelas surgiram impé- rios com base econômica agrícola sustentada por processos de irrigação e, em função disso, de- nominaram-se historica-

econômica agrícola sustentada por processos de irrigação e, em função disso, de- nominaram-se historica- UNIDADE 1

História Antiga

mente de civilizações hidráulicas ou de civilizações de regadio. Ali se criaram as primeiras cidades com governo centralizado e sob a influência da religião. É uma região de contrastes, pois nela encontramos vales férteis próximos a desertos, como também estepes e montanhas.

Estudiosos estabeleceram delimitações geográficas para essa região, como é o caso do historiador Ciro Flamarion Cardoso, que em sua obra

Antiguidade Oriental: política e religião (1990) a apresenta da seguinte

maneira:

Estendia-se do litoral meridional do mar Negro, das montanhas do Cáucaso, da costa meridional do mar Cáspio indo em direção ao sul, até a primeira catarata do Nilo, o mar Vermelho, os desertos da Arábia, o golfo Pérsico e o mar de Omã. Desta forma compreendia o espaço hoje ocupado pelos seguintes países: Egito, Turquia, Síria, Líbano, Israel, Jordânia, Iraque, Irã e Afeganistão.

Nesse espaço geográfico, as chamadas civilizações orientais se edificaram há cerca de 7000 anos aproximadamente e aproveitaram de forma sistemática as cheias dos rios presentes nessa região - Nilo, Tigre, Eufrates e Indo - quando populações concentraram-se em seu entorno e desses rios retiraram a base de seu sustento pela prática da

agricultura. É daí que vem a denominação de civilizações de regadio. As enchentes possibilitavam a organização social e geravam condições para

o desenvolvimento do trabalho agrícola e, com ele, a sedentarização de grupos humanos. No início, esses homens eram coletores e, pouco a pouco, através

de processos diferenciados, eles descobriram que era possível cultivar

a terra e criar animais, tornando-se produtores e desenvolvendo certo

controle sobre sua sobrevivência por meio da organização do trabalho coletivo. Podemos dizer, pois, que a principal atividade econômica das primeiras comunidades humanas era a agricultura, acompanhada da criação de animais, sendo a caça e a pesca apontadas como atividades

secundárias. A mudança na forma de vida e de produção foi tão significativa para tais comunidades, que historicamente passou a ser denominada de Revolução Agrícola. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado

. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado É importante destacar que nem todas as comunidades
. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado É importante destacar que nem todas as comunidades
. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado É importante destacar que nem todas as comunidades
. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado É importante destacar que nem todas as comunidades
. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado É importante destacar que nem todas as comunidades
. Assim, no conjunto desse espaço geográfico chamado É importante destacar que nem todas as comunidades

É importante destacar que nem todas as comunidades humanas fizeram essa descoberta ao mesmo tempo, pois algumas, inclusive, permanecem coletoras até os dias de hoje.

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UNIDADE 1

Universidade Aberta do Brasil

de Crescente Fértil, podemos perceber a existência de uma diversidade de atividades econômicas desenvolvidas num mesmo espaço temporal, mas adequadas às condições específicas de cada localidade e ao trabalho realizado pelos caçadores e pescadores da época, pastores nômades e, ainda, agricultores fixados ao solo. Não podemos esquecer que tais mudanças na forma de vida desses primeiros agrupamentos humanos se deram nas depressões ribeirinhas no

vale do rio Nilo, nas planícies aluviais entre os rios Tigre e Eufrates e nos vales adjacentes do rio Indo, ou seja, na região do Crescente Fértil. Ali,

a abundância e a fertilidade do solo, renovada anualmente pelas cheias,

garantiam o abastecimento certo e farto de alimentos, permitindo também

a expansão da população. De acordo com o estudioso francês A. Moret (1975, p. 13), foi na região do Oriente Próximo ou Crescente Fértil que “elaborou-se uma cultura que, logo de início, tornou-se universal, propagando-se, sobretudo, para a Europa Ocidental, onde constituiu-se ainda a base da nossa civilização”.

Considerações preliminares sobre o Egito Antigo

No início desta reflexão, iremos tratar da Terra do Nilo e das pirâmides, cuja cultura fascina os homens desde tempos mais remotos, pela presença da aura de mistério e grandiosidade que ela representa. O trabalho coletivo intenso e a organização eram seus ingredientes principais. Assim, no mapa ao lado, você pode observar a localização do Egito Antigo no continente africano, disposto numa região predominantemente desértica, com baixa pluviosidade e vale fértil. Ao longo de sua história, a civilização egípcia foi dominada por vários povos: macedônios, hicsos, persas, assírios, entre outros. Durante parte da Idade Média foi uma colônia romana e cristã, explorada como fonte de cereais baratos para a população romana. Em 693 passou para o domínio islâmico (Califa Omar), quando, a partir de então, o seu contato com a Europa Cristã diminuiu consideravelmente. Mais tarde, foi a vez de os ingleses conquistarem a região, que teve sua independência em 28 de fevereiro de 1922.

1.1 O despertar de uma civilização

Neste item, você vai ter acesso a algumas informações sobre como se conheceu a história do Egito Antigo. Os primeiros registros a seu respeito

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História Antiga

encontramos nos relatos de viajantes e historiadores antigos que visitaram

a região: Heródoto (480-425), Xenofonte (430-355) e Diodoro da Sicília

(século I d.C). Nesse sentido não podemos esquecer que esses escritos refletem o contexto e a visão daqueles que os produziram, pois assim também se dá o conhecimento: pelo olhar do observador. Essa mesma consideração pode ser aplicada a Máneton, sacerdote

egípcio do século III a.C. que viveu na cidade de Sebenitos, sob o reinado de Ptolomeu II (285-246 d.C.) e Ptolomeu III (246-221d.C). Máneton escreveu em grego o livro Aegyptiaca (na tradução Uma história do Egito), porém grande parte de seus escritos se perdeu, restando fragmentos conservados pelo historiador Flávio Josefo, que viveu no século I d.C. Essa obra serviu de referência para egiptólogos que procuram estabelecer a cronologia dos reis do Antigo Egito, a qual apresentava a organização dinástica, uma

a uma, o que foi identificado como novidade para sua época, pois foi o

primeiro autor egípcio a realizar tal distribuição. Com o desenvolvimento do movimento renascentista em solo europeu,

a

partir do século XIV, o interesse em relação à cultura egípcia renovou-se,

e

outras obras foram trazidas à tona, como a Hieroglyphica de Haropollo,

escrita no IV d.C, que fornece explicações simbólicas do significado de um certo número de sinais da escrita hieroglífica, que até esse momento ainda não havia sido decodificada. Porém, foi no século XIX que ocorreu a descoberta do Egito para o mundo, através de Napoleão Bonaparte, pois sua expedição a esse país, além da função militar, era científica, já que incluía diferentes categorias de profissionais cuja missão era explorar, escavar e descrever o Egito.

Durante a estada dessa expedição em solo egípcio, foi encontrada por militares france- ses no Forte de São Jerônimo, em 1799, uma pedra que ficou conhecida como Pedra de Roseta (uma laje sólida de basalto negro

medindo aproximadamente 1,14

x 71cm e 762 quilos). Nela estão

grafados três textos sobrepostos Pedra da Roseta

aproximadamente 1,14 x 71cm e 762 quilos). Nela estão grafados três textos sobrepostos Pedra da Roseta

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Universidade Aberta do Brasil

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em diferentes escritas: grega (54 linhas), hieroglífica (14 linhas) e demótica (37 linhas), datada de 196 a.C.

Atualmente é

uma disciplina

acadêmica em

universidades

e institutos

arqueológicos

Tais escritos foram estudados por pesquisadores de diferentes nacionalidades, entre eles, ingleses, suecos e franceses, porém foi Jean François Champollion (1790-1832) quem conseguiu decifrá-los, proporcionando o aparecimento de um novo momento para a história dessa civilização. Nesse contexto foi criada a egiptologia, que Will DURANT apresenta

foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.
foi criada a egiptologia , que Will DURANT apresenta como um “subproduto do imperialismo napoleônico”.

como um “subproduto do imperialismo napoleônico”. Entretanto, novos rumos despontaram com as escavações arqueológicas realizadas no século XX, especialmente após a divulgação, em 04/04/1923, da descoberta do túmulo do faraó Tutankamon (1361- 1352), no Vale dos Reis, pelos ingleses Howard Carter e Carnovon. Desde então, sucedem-se continuamente novos achados, como se pode verificar ainda hoje, pela divulgação dos veículos de comunicação.

1.2 O cenário geográfico

Para que possamos entender um pouco da história do Egito Antigo, faz-se necessário conhecer o local em que ela se desenvolveu, a fim de que alguns de seus aspectos característicos possam ser compreendidos. Dessa forma, iniciamos este item com uma citação retirada da obra de Heródoto, intitulada Histórias, em que se descrevem detalhadamente os aspectos naturais da região, em função da permanência do autor no Egito durante alguns anos.

Em todo o mundo, ninguém obtém os frutos da terra com tão pouco trabalho. Não se cansam a sulcar a terra com arado ou a enxada, nem têm nenhum dos trabalhos que os homens têm para garantir as colheitas. O rio sobe, irriga os campos e, depois de irrigado, torna a baixar. Então, cada um semeia o seu campo e nele introduz os porcos que fazem com que as sementes penetrem na terra; depois, só tem de aguardar o período da colheita. Os porcos também lhe servem para debulhar o trigo, que é depois transportado para o celeiro.

(Histórias, 2, 14)

História Antiga

A citação relata o olhar de Heródoto sobre o processo das cheias que

ocorriam anualmente nos rios do Egito Antigo; porém o que o historiador não registrou foi sua origem, pois era até então desconhecida. Tanto egípcios quanto gregos apresentaram diversas explicações a respeito das chuvas que caíam na região de Assuã no início do mês de junho, que aumentavam a vazão do rio, acrescidas ao degelo das montanhas da região da Abissínia, localizadas no interior da África. A água que atingia o Egito três semanas depois, aumentava, consideravelmente, a vazão do Rio Nilo

Especificamente no caso egípcio, as cheias não eram identificadas A irrigação desenvolvida na região se
Especificamente no caso egípcio, as cheias não eram identificadas
A
irrigação desenvolvida na região se intensificava no processo

fazendo com as suas margens fossem alagadas e ganhassem um poder gerador de vida. A fertilidade gerada nessa terra era considerada mágica pelos nilóticos , a ponto de obscurecer a importância do trabalho humano

presente no processo, fazendo com que todos prestassem homenagem ao rio, em torno do deus Hapi, que foi designado como o deus do Nilo.

como negativas ou portadoras de malefícios ao homem. Muito pelo

contrário, pois era na época de maior calor na região que a terra ficava

coberta pela água, ao mesmo tempo em que se tornava fertilizada,

por meio do acúmulo de detritos orgânicos e sais minerais que nela

ficavam depositados.

O Rio Nilo é decorrente da fusão do Nilo Branco, que nasce no Sudão, eo Nilo Azul, que nasce na Etiópia.

Eram chamados de nilóticos os povos que habitavam nas comunidades que ficavam à beira do Rio Nilo.

de maturação das plantas, para que a terra não ficasse seca quando

a água não conseguia subir às terras mais altas, e era o camponês,

por meio de cântaros de barro, transportados nos ombros, que fazia

o processo. Jaime Pinsky (1988) afirma que o segredo da civilização

egípcia está exatamente na figura do camponês ou felá, pois era através de sua força de trabalho que os egípcios souberam aproveitar

as enchentes anuais.

O Rio Nilo era uma fonte de água regular e previsível; entretanto,

atualmente é difícil fazer a previsão nessa perspectiva devido às

construções de barragens e canais que regulam os níveis de água. A

tecnologia criada no local, que esteve presente desde a antiguidade

e continua sendo utilizada ainda hoje, pode ser exemplificada com o

shaduf e o sagglah , tendo este despontado no período ptolomaico.

Para tanto, foi necessário o desenvolvimento de técnicas

aperfeiçoadas de irrigação que se tornavam um desafio nas semanas

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Universidade Aberta do Brasil

Universidade Aberta do Brasil shaduf que se seguiam ao fim da cheia, pois, para melhor aproveitá-la,

shaduf

que se seguiam ao fim da cheia, pois, para melhor aproveitá-la, era necessário o trabalho manual para arrumar os canais, os diques e os regos que porventura estivessem obstruídos pela lama. Dessa forma, houve a necessidade de desenvolver certo grau de organização para o cumprimento das tarefas, de modo a permitir a exploração eficiente do solo que era realizada através da drenagem de pântanos, da construção de diques e canais.

Com a realização de tais práticas, os egípcios foram se organizando cada vez mais para controlar a natureza e garantir sua permanência nesse local. Não se pode esquecer que a necessidade de realizar as tarefas impunha trabalhos pesados e uma constante disciplina às comunidades que desfrutavam das vantagens desses recursos. Segundo Heródoto, as cheias alagavam as duas partes do rio, que poderia ser percorrido durante dois dias de marcha, quando ocorria seu transbordamento durante cem dias a partir do solsístico de verão, voltando ao normal no inverno. A terra enlameada que estava pronta para o plantio após as chuvas era denominada pelos egípcios de kemet, sendo que não mais de 10 km de extensão eram as terras adequadas à semeadura. De acordo com Ciro Flamarion Cardoso (1989), um terço de terra dessa região tornava-se arável, aproximadamente 1.25 ha/família. Para Diodoro da Sicília, o “Rio Nilo supera todos os rios do mundo pelos benefícios que proporciona à humanidade, levando consigo lama fresca e fértil impregnando os campos, tornando a tarefa do camponês leve e proveitosa (solo mole e úmido)”.

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História Antiga

As cheias também foram determinantes no estabelecimento do calendário egípcio que se dividia em três períodos: Akhet (inundação), Peret (germinação ou plantio) e o Chemu (estio e colheita). Para medir quanto o rio subia, os egípcios criaram uma unidade de medida, o nilômetro, que era muito parecido com uma régua, que ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito.

ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito
ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito
ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito
ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito
ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito
ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito
ficava fixada na região de Elefantina , no sul do Egito. A fronteira territorial do Egito

A fronteira territorial do Egito Antigo era demarcada pela primeira catarata, lo- calizada ao sul de Assuã, que podia ser dividida em três partes, como você poderá observar no mapa ao lado.

A primeira é o Alto Egito, localizada onde o Nilo corre por um leito só. Nesse local estavam localizados 20 nomos, ou seja, 20 comunidades que, de certa forma, sofriam os reflexos do isolamento geográfico em função da presença dos desertos da Líbia e da Arábia, que dificultavam invasões externas, atuando como uma espécie de defesa natural.

Vale do Rio Nilo

Elefantina

tem seu

nome

derivado do

comércio de

marfim.

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Universidade Aberta do Brasil

 

Composto por

22

nomos e com

Aberta do Brasil   Composto por 22 nomos e com Delta do Nilo aproximadamente 200 km

Delta do Nilo

aproximadamente

200 km de extensão

(PINSKY, 1988), o Vale do Delta (veja mapa ao lado) é a segunda subdivisão do Egito Antigo. Esse território não transborda total- mente se comparado ao do Alto Egito, porém é a região mais produtiva e, também, a que pos-

sui maior contato com outras localidades do Oriente Próximo. Dessa forma, é a que está mais aberta à influência externa.

As principais cidades do Vale do Delta eram Buto, Sais, Atribis,

Letópolis, Sebenitos, Tebas, Busíris, Napata, Nekheb, Siene, Mendes,

Hieracômpolis, Busatis e Heliópolis (atualmente parte do subúrbio do

Cairo).

A região do Fayum é a terceira subdivisão territorial do Egito

Antigo, porém é o primeiro oásis na beira de um lago a oeste do Vale do

Nilo ao sul da cidade de Mênfis. Habitado desde 7000 a.C., atualmente

é uma área quase desértica.

Nesses locais os egípcios construíram suas cidades, mas a

maioria da população vivia no campo em pequenas comunidades. Os

registros indicam que os egípcios possuíam termos específicos para

distinguirem seus agrupamentos humanos. NIWT era o nome usado

para designar cidade e DMI designava as aldeias, que eram a maioria

e se localizavam mais próximas do Rio Nilo, porque nelas acontecia o

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História Antiga

processo de produção. As cidades eram em menor número, e sua função

predominante era a de centros administrativos.

Encontramos hieróglifos indicativos que diferenciam as comu-

nidades egípcias. Se for uma cidade, o hieróglifo é formado por um círculo

ao redor de uma cruz diagonal que fica dentro de uma área cercada,

em formato circular ou oval (ver figura

ao lado). Porém, se a aglomeração for

uma aldeia, o indicativo é de um canal

de irrigação, que é relacionado com a

atividade de abertura dos canais de

cultivo. Esse indicativo sugere também

uma comunidade mais espontânea. Tais

sinais estão presentes na história dessa

Civilização desde a I dinastia (3000 -

2890 a.C.) e demonstram a organização

desse povo no que se refere a seu espaço

urbano.

desse povo no que se refere a seu espaço urbano. Hieróglifo indicativo de cidade A princípio

Hieróglifo indicativo de cidade

A princípio não encontramos no Vale do Nilo a cidade arquetípica da história, ou seja, uma cidade murada, solidamente delimitada e protegida por baluartes, construída para a permanência, pois muitas delas foram construídas e habitadas somente durante o período de governo do faraó que as construiu. Esse fato pode ser exemplificado com a cidade planejada de El Amarna, construída em cinco anos pelo 10º faraó da 18ª dinastia, Amenófis IV (1353-1335). As cidades muradas no Egito Antigo são formas primitivas que desapareceram tão logo os grandes faraós estabeleceram uma ordem universal e um comando unificado na região. Ela estava apoiada principalmente na crença religiosa e no apoio voluntário, antes que na coerção física, representando a ideologia predominante em todo o vale do Nilo. Vale destacar que, quando a cidade murada apareceu, era mais um agente de defesa comum contra os invasores estrangeiros que um

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Universidade Aberta do Brasil

meio de tornar efetiva a coerção local. Entretanto, a preocupação quanto à construção de cidades não esteve presente entre os faraós egípcios, que se preocupavam muito mais com a morada dos mortos do que com a morada dos vivos. Como observa Pinsky (1988, p. 67), “não se pode esquecer de que uma civilização não é uma dádiva das condições geográficas, uma vez que ela surge quando o homem atua, modificando e domando a natureza”.

SEÇÃO 2

O ESTADO FARAÔNICO

O historiador Ciro Flamarion Cardoso indica que os primeiros

sinais de atividade agrícola no Egito Antigo foram encontrados em sítios arqueológicos no extremo ocidental do Delta, do Fayum e do Médio Egito. Nesses locais os vestígios revelaram a existência de grupos sedentários que plantavam cereais e linho, fabricavam cestaria, cerâmica e tecidos, como também se utilizavam de instrumentos de sílex e outros materiais.

O sítio arqueológico de Hieracômpolis, localizado ao sul do vale

do Nilo, apresenta fortes indícios da existência de uma população que vivia em aglomerações fortificadas, em torno de um templo, e com um sistema de irrigação já organizado: os chamados nomos. Apontam-se, ainda, diferentes graus de riqueza entre seus moradores cujas tumbas demonstravam a presença de uma diferenciação social, o que se verificava também em outras localidades do Egito Antigo. Tais características perduraram nessa organização social por muitos séculos, quando no final do Período Pré-Dinástico, que corresponde ao final do IV milênio a.C., alterações significativas passaram a ser percebidas em diferentes segmentos. Até esse momento, na perspectiva política, havia o predomínio de sistemas locais de poder em torno de um líder, chamado de nomarca.

22

História Antiga

Com o passar das décadas os sistemas locais foram se unindo, ocasionando a formação de duas confederações que se tornaram rivais: a Confederação do Vale (Alto Egito), que tinha Seth como deus dinástico, e a Confederação do Delta (Baixo Egito), cujo deus era Hórus. Assim, Alto e Baixo Egito, como eram chamados o Delta e o Vale do Nilo, permaneceram como dois países separados, porém cada qual administrado de forma central, o que se refletiu em um processo de unificação lento e cheio de percalços. O início da civilização egípcia é atribuído a Menés, que teria sido o primeiro rei da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando

da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando se unificaram o Alto e o
da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando se unificaram o Alto e o
da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando se unificaram o Alto e o
da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando se unificaram o Alto e o
da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando se unificaram o Alto e o
da primeira dinastia que se formou no Egito Antigo, quando se unificaram o Alto e o

se unificaram o Alto e o Baixo Egito em torno de uma única liderança. Somente a partir da III dinastia (2649-2575 a.C.) esse representante político passou a ser chamado de faraó, identificado ao longo da história dessa civilização a diferentes deuses: primeiramente ao falcão, quando ele era Hórus; depois passou a Horo-Rá e, posteriormente, já no Novo Império, a Amon-Rá. Depois de morto ele tranformava-se em Osíris. Durante muito tempo, atribuiu-se à unificação do Egito em torno de um líder único a perspectiva de melhor controlar os sistemas de irrigação e drenagem, que eram de competência local e depois regional. Todavia essa afirmação não é mais aceita pelos estudiosos e, dessa forma, não pode ser considerada como causa direta da formação de um Estado centralizado. Nessa direção, Ciro Flamarion Cardoso (1988, p. 24) afirma que

a irrigação não pode, porém, ser vista como a

causa do surgimento do Estado centralizado e da civilização egípcia: pelo contrário, um

sistema centralizado de obras hidráulicas para

a agricultura irrigada surgiu como um resultado tardio da existência de um Estado forte.

Foram 30 as dinastias do Egito Antigo, sendo duas gregas antes que os egípcios fossem dominados pelos romanos.

No entanto, não se coloca em dúvida a enorme importância da agricultura irrigada na formação e consolidação de cerca das 40 comunidades territoriais regionais, ou seja, dos nomos, que posteriormente funcionariam como províncias do Estado faraônico unificado. Mas, se a necessidade de centralização dos sistemas de irrigação e drenagem não foi motivo para a unificação, a que atribuir então a formação do Egito como reino unificado?

23

Universidade Aberta do Brasil

A explicação defendida por Michael Hoffmann baseia-se em dados arqueológicos, através de um processo do qual não sabemos detalhes, mas que deve ter incluído sucessivas guerras. A esse respeito, o autor registrou:

Sugiro que o conflito armado ocorreu durante o fim

dos tempos pré-históricos e o início dos históricos, devido, em boa parte, às ações de chefes e reis locais, que estavam tentando monopolizar os bens armazenados, os serviços de clientelas crescentes

e

os símbolos de poder pelos quais eram definidos

o

seu próprio status e o de seus seguidores. Se

a

agressão armada foi um dos instrumentos de

extensão do Estado no fim do Pré-Dinástico e no Proto-Dinástico, então foi simplesmente um aumento das ambições e da busca do poder pelas elites – suas tentativas no sentido de dominar sistemas de trocas locais e de longo curso, e de serem enterradas em tumbas maiores e melhores

– que causou, em última análise, o conflito. (apud CARDOSO, 1990, p. 40)

Como você pode perceber, há a defesa de um outro ponto de vista no que diz respeito ao processo de unificação do Egito Antigo, apontando para aspectos ligados a disputas de poder entre líderes e moradores locais. Porém, se não se sabe ao certo como o processo de unificação ocorreu efetivamente, o que leva a interpretações diversificadas a esse respeito, as evidências demonstram que tal fato progrediu no sentido sul-norte, no território que se estendia de Hierancômpolis, ao sul, até Tura, ao norte, onde mais tarde surgiria a cidade de Mênfis. Esse período da unificação, também chamado de Proto-Dinástico, estendeu-se aproximadamente de 3100 a 3200 a.C. e, a partir de então, surgiu na história aquele que foi o primeiro reino unificado que se conhece - o Egito. Com ele aparece a figura de um rei, denominado de faraó, cujo poder foi se construindo legitimado por uma origem divina, que representava a expressão do próprio deus, ou seja, “mais que senhor dos exércitos ou supremo juiz, o faraó é o símbolo vivo da divindade”. (PINSKY, 1988, p.

70).

Esse governante acumula uma somatória de cargos: chefe militar, guerreiro, sumo sacerdote, juiz supremo e administrador, tornando-se centralizador divino e também absoluto. Os símbolos do poder por ele utilizados eram: o cetro, o látego e a coroa.

24

História Antiga

O faraó, que era o senhor do Egito, vivia com dupla função:

uma, em público, na qual era o deus vivo, objeto de culto e adoração, apresentando-se de maneira sempre formal com seus trajes específicos para cada ocasião - barba postiça, jóias e as insígnias sagradas; e a outra, em sua vida particular, na qual cultivava sua família, que geralmente era composta por várias mulheres e filhos. A palavra faraó tem seu significado remetido à casa grande, sede da administração, de onde tudo emana e para onde tudo converge. Era ele que tudo dirigia. Entretanto, em sua administração havia a figura do primeiro ministro, também chamado de grão-vizir, que auxiliava no gerenciamento da coisa pública e ocupava espaços que eventualmente o faraó deixasse vazios por motivos diversos. Existia também o escriba, executor material das ordens do rei. Era o funcionário do poder central responsável concreto pela articulação entre as ordens dadas e sua execução. Em relação ao grau de relevância do escriba na história da civilização egípcia, Jaime Pinsky não concorda com a idéia que, por muito tempo, esteve presente entre os estudiosos: eles remetem a importância do escriba ao fato de que era alguém que dominava a arte da escrita e da leitura do país. O autor considera esse argumento pouco inteligente. Para ele, “o escriba não era, pois, prestigiado por saber escrever e contar, mas sim pelo fato de estas atividades estarem a serviço do faraó, do poder central, fonte da autoridade e do poder”. (PINSKY, 1988, p. 75).

2.1 Estado Faraônico: sua construção

Agora, caro aluno, você vai entrar em contato com informações relacionadas à formação e à consolidação do Estado Faraônico, que foi entremeado por períodos intermediários, épocas de anarquia, descentralização do poder, predomínio de longas ou efêmeras dinastias, ou ainda de outras paralelas, fases de declínio econômico, pesadas lutas sociais e políticas e, também, dominação estrangeira. Para tanto, o estudo será dividido de acordo com a perspectiva política, tendo como base as distintas fases dessa organização, ou seja:

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Universidade Aberta do Brasil

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- Reino Antigo

- Reino Médio

- Reino Novo

- Época Tardia.

a) Reino Antigo e o Primeiro Período Intermediário (3200-2300 a.C.)

Após a unificação dos nomos em um único Estado, teve início o Período Dinástico da história do Egito Antigo, cuja capital do reino foi instalada em Mênfis após a administração da II dinastia. As informações referentes ao início desse período ainda são obscuras do ponto de vista da documentação escrita, sendo conhecidas por meio dos vestígios arqueológicos. É um período caracterizado pela produção de artigos de luxo e de grande beleza, os quais foram encontrados em quantidades significativas nas tumbas de reis, rainhas e nobres. Isso representa a existência, na corte, de artesãos especializados e mantidos com a produção de domínios rurais reais. Nas primeiras dinastias já estão presentes cerimônias de entronização, renovação dos poderes monárquicos e a retomada da posse através da festa da Sed, em que o rei ‘morre’ e ‘renasce’ simbolicamente, voltando a ser coroado. Essa festa marcava a realização do jubileu monárquico que celebraria, a princípio, 30 anos de reinado sobre o país unificado.

a realização do jubileu monárquico que celebraria, a princípio, 30 anos de reinado sobre o país

História Antiga

Foi durante esse período que, pelas mãos do faraó Djoser (2630 -2611 a.C.) e seu ministro, arquiteto, médico e conselheiro Imhotep, inauguraram-se grandes obras, como, por exemplo, o complexo funerário real que abrange uma superfície de seiscentos por trezentos metros e inclui a pirâmide escalonada em de- graus de Sakkara, de 63 metros de altura - a primeira grande edificação em pedra dessa civilização.

a primeira grande edificação em pedra dessa civilização. Pirâmide de Sakkara Os primeiros monarcas egípcios,

Pirâmide de Sakkara

Os primeiros monarcas egípcios, especialmente os da I e III dinastias,

enviaram expedições à Núbia, ao Sinai e aos desertos ao redor do Egito, motivados pelo comércio exterior, pela busca de minérios, entre outras coisas. Foi nesse período que as grandes pirâmides de Gizé foram construídas pelos faraós Khufu ou Quéops (2551-2528), Khafra ou Quéfrem (2520-2494)

e Menkaura ou Miquerinos (2490-2472), na margem ocidental do Nilo, nas

proximidades de Mênfis. Era uma época de paz e prosperidade no Egito. Tais monumentos, pela sua magnitude, pressupõem um sistema político e

econômico bastante organizado. Para sua edificação foi necessária a utilização de grandes contingentes de trabalhadores, pois o trabalho era manual, desde

o transporte dos blocos de pedra até o lugar da construção. Esse trabalho

exigiu esforço coletivo dos trabalhadores, bem como a fiscalização efetiva pelos funcionários do Estado, como, também, revelou um considerável conhecimento de matemática, física e engenharia. A função de tais monumentos gigantescos era estritamente funerária, ou seja, eles serviam para abrigar corpos sem vida, pois o sentido que havia era de que o rei-deus era imortal e, após a vida terrena, reinaria em outro mundo. Assim, seu corpo era embalsamado de forma ritualística e colocado na tumba, dentro da pirâmide.

ritualística e colocado na tumba, dentro da pirâmide. Para você saber mais sobre a descoberta das

Para você saber mais sobre a descoberta das pirâmides, visite o site da National Geographic Channels - www.ngcbrasil.com.br/september/ egito/egito.asp

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Universidade Aberta do Brasil

No final da IV dinastia e, sobretudo, na V dinastia, a família real dividiu os cargos mais importantes da administração do reino com a emergência de um funcionalismo público, que se constituiu em poder hereditário. Ainda nesse momento, surgem os templos como complexos administrativos e econômicos, e os sacerdotes – assim como os nobres

- tornam-se proprietários de terras, rebanhos e trabalhadores próprios, integrando o aparelho do Estado. Todavia, tal prosperidade desapareceu em pouco tempo, pois teve início uma nova fase, em que a unidade do país foi rompida e os monarcas passaram a agir como reis locais: era o Primeiro Período Intermediário. Esse período foi marcado pela anarquia, rebeliões sociais e invasões

de

nômades asiáticos em parte do Vale Delta. Foi durante o governo da

VI

dinastia que o processo de decadência teve início. A história dessa civilização nos apresentava como razão para o

declínio o progressivo enfraquecimento do poder real, somado ao

aumento considerável do poder dos nobres e sacerdotes, que teve sua origem a partir do momento em que eles receberam terras, isenções

de impostos e cargos administrativos, ocasionando o enfraquecimento

inicialmente parcial da autoridade do faraó. Noentanto,recentemente,novasinterpretaçõesforamapresentadas em relação a essa conjuntura, tais como: diminuição das cheias do Nilo nos finais do III milênio, ocasionando problemas de abastecimento, fome e diminuição da população; reforço progressivo do aparelho do Estado com o aumento do número de funcionários da burocracia, que dilapidaram os recursos já escassos, como também a insatisfação dessa mesma burocracia pela diminuição da renda e queda na qualidade dos serviços. O desequilíbrio provocado por essa situação deixou o país frágil perante o conjunto dos problemas internos e externos, contribuindo para que o Egito fosse invadido por tribos núbias e asiáticas. Nesse período formaram-se quatro centros políticos: no Delta, em Mênfis, Heracleópolis e Tebas. O tempo de “regressão” e anarquia durou cerca

de dois séculos.

Aos poucos, reestruturou-se o poder em dois reinos, o de Heracleópolis e o de Tebas. A vitória final para uma nova unificação coube à XI dinastia tebana, que pôs fim ao Primeiro Período Intermediário.

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História Antiga

b) Reino Médio e Segundo Período Intermediário (2050-1750 a.C.)

Mesmo levando em consideração o desequilíbrio que marcou o

Primeiro Período Intermediário, pode-se dizer que o Reino Médio foi uma restauração possível dos padrões do Reino Antigo.

O reunificador Mentuhotep II (2061-2010), da XI dinastia, retomou

a política externa típica da fase anterior: protegeu minas, pedreiras e rotas comerciais, através de expedições militares ao norte da Núbia, contra os líbios do deserto ocidental e as tribos do Sinai. A mudança da XI para a XII dinastia aconteceu quando o tjaty (vizir) Amenemhat usurpou o poder

como Amenemhat I (1991-1962). É possível que ele tenha conseguido apoio político nas famílias provinciais, posto que Mentuhotep II restringira

o poder dos monarcas, impondo a suspensão da hereditariedade.

A XII dinastia é uma das mais iluminadas pela documentação em

toda a história do Egito faraônico, cujo maior representante foi o faraó Amenemat III (1844-1797), construtor da represa de Fayum (para os gregos Lago Méris). Nessa região, as enchentes do Nilo haviam transformado em uma grande depressão, cercada de pântanos, um enorme reservatório, no qual ficavam armazenadas as águas acumuladas durante a estação das cheias, garantindo a irrigação dos campos, no caso da cheia fraca. Durante esse período foram estabelecidas relações comerciais com

a Fenícia, Síria e Creta. A Núbia, de onde vinham o ouro e o marfim, foi

conquistada por Sesóstris III (1878-1841). O contato com o estrangeiro trazia consigo certas inovações técnicas, que vieram mais tarde a ter importância. No final da XII dinastia, a região oriental do Vale do Delta oriental se apresentava densamente povoada por asiáticos que, por volta de 1649 a.C., tomaram o poder do Egito, dando início ao Segundo Período Intermediário (1640-1550 a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais

a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais pouco se sabe, em função da escassa
a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais pouco se sabe, em função da escassa
a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais pouco se sabe, em função da escassa
a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais pouco se sabe, em função da escassa
a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais pouco se sabe, em função da escassa
a.C.) Os asiáticos eram os hicsos, sobre os quais pouco se sabe, em função da escassa

pouco se sabe, em função da escassa documentação a seu respeito.

A segunda fase intermediária foi singularmente distinta da primeira.

Os soberanos hicsos foram reconhecidos como principal linhagem real em todo o país, porém toleravam outros concorrentes, isto é, a XIII dinastia egípcia continuava a existir, tal qual os representantes da XIV. Essa perspectiva é decorrente do fato de que nem toda a extensão territorial do Egito foi invadida pelos hicsos, que se fixaram principalmente na região mais próxima ao Delta.

Hicsos

significa

governantes

de terras

estrangeiras

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Universidade Aberta do Brasil

As migrações e os amplos contatos estabelecidos pelos reis hicsos facilitaram a difusão da tecnologia asiática no Egito: novas técnicas no trabalho, com a introdução do bronze, que era desconhecido até então,

tornos de ceramista mais eficientes, teares verticais mais velozes, o gado zebu, novos alimentos, o carro de guerra e o cavalo foram algumas das inovações. Tais características evidenciam o estado tecnologicamente atrasado do Egito em comparação com outras regiões do Oriente Próximo.

O encerramento desse período foi marcado pela reconquista do solo

egípcio do domínio dos hicsos, que ficaram na região cerca de um século

e meio. Khamés inicia uma verdadeira guerra de libertação com o cerco

de Avaris, a capital dos invasores. Seu sucessor, Amósis I (1550-1525),

tomou a cidade e expulsou os estrangeiros por volta de 1532 a.C., os quais foram perseguidos até o sul da Palestina. Dois testemunhos atestam o completo restabelecimento do poder político dos egípcios em relação aos hicsos: uma inscrição no túmulo de el-Kab, de Amósis I, e um texto das minas de Maâsara, ao sul do Cairo, datado do ano 22 de Amósis (esta era

a maneira como os egípcios registravam o ano).

c) Reino Novo

Com a expulsão dos hicsos por Amósis I, fundador da XVIII

dinastia, começou a história do Novo Império. Esse período se estendeu

até o governo da XX dinastia e representou o apogeu da história do Egito

Antigo. Amósis I deixou um estado unificado e com uma economia bem mais desenvolvida. Enquanto a política militar do Antigo e do Médio Reino se

caracterizou pela defensiva (o que exclui eventuais incursões contra o inimigo), o Reino Novo inaugurou uma política de conquistas. Tutmósis

III (1479-1425), o faraó guerreiro como ficou conhecido, conquistou a

Núbia, a Etiópia, a Palestina, a Síria e a Fenícia, estendendo as fronteira

do império do rio Eufrates à quarta catarata do Nilo. As campanhas

militares desse faraó foram imortalizadas nos baixos-relevos, esculpidos

nas paredes do Templo de Amon, em Karnak.

A atuação egípcia nas regiões conquistadas não era uniforme. Por

exemplo, os estados da Síria e da Palestina que formavam o “império”

30

História Antiga

egípcio estavam ligados ao faraó por juramentos de fidelidade e pagavam-

lhe tributos, mas continuavam a governar a si próprios e a procurar atingir

os seus próprios objetivos políticos locais. A presença egípcia era mantida por destacamentos militares relativamente pequenos e por alguns oficiais

de alta patente.

Já o território da Núbia era tratado como colônia, sendo administrado diretamente por um vice-rei egípcio, responsável perante o faraó. Vale

ressaltar que, tanto no Próximo Oriente como na Núbia, a principal razão

da presença egípcia era a de garantir as rotas comerciais de longo curso e

o acesso a matérias-primas, tendo a defesa sido um objetivo secundário. Nesse período, foram criadas instituições administrativas com o objetivo de aparelhar e garantir a centralização política. Dois grupos se fortaleceram e se tornaram os pilares do governo:

a) Grupo dos militares: através de técnicas militares aprendidas

com os hicsos, foram organizados exércitos permanentes, que invadiram e dominaram Jerusalém, Damasco, Assur e a Babilônia. O exército tornou- se uma categoria profissional prestigiosa e adequadamente equipada.

O sucesso pelas vitórias alcançadas resultou em privilégios políticos e

econômicos, como ocupar cargos no governo, direito a espólio de guerra

e posse de terras e escravos.

b) Grupo do clero de Amon: tornou-se uma categoria bastante

influente, da qual eram recrutados os principais funcionários do país. Seu poder era decorrente de dois tipos de privilégios: om reforço da religiosidade, que veio fortalecer a idéia da natureza divina do faraó e seu governo, e o acúmulo de riquezas provenientes de doações reais aos templos. O prestígio dos sacerdotes de Amon veio a colocar em risco a própria figura do faraó. O aumento constante da riqueza e da ingerência política desses sacerdotes parece ter sido a base do conflito que se estabeleceu durante o governo do faraó Amenófis IV (1372-1354). A faraona Hatsepsut (1473-1458) é outra referência do Novo Reino. Ficou no poder durante vinte e dois anos e governou oficialmente como uma imagem masculina em público (usava o toucado ou menés, a barba postiça, o peitoral e o látego, que são os símbolos do poder egípcio). Durante sua administração, o período foi de paz social e abundância.

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Universidade Aberta do Brasil

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A religião foi outro ponto significativo desse período, quando se introduziu a tendência monoteísta, embora o culto a outros deuses não fosse excluído totalmente. Tal perspectiva religiosa foi estabelecida pelas mãos do faraó Amenófis IV (1353-1335), que adotou o nome de Akhenaton, servidor de Áton, no quinto ano de seu reinado.

, servidor de Áton , no quinto ano de seu reinado. Nefertifi O novo culto foi

Nefertifi

O novo culto foi bastante in- fluenciado pela adesão de sua esposa Nefertiti, que teve papel quase tão importante como de Akhenaton nessas mudanças, muito embora o clero de Amon tivesse estabelecido ferrenha oposição à nova crença, que colocava em risco seus antigos privilégios. Isso porque esse mesmo clero continuava exercendo grande influência nas camadas populares, cujo politeísmo era arraigado. Para centralizar o “novo” culto religioso, Akhenaton mandou construir uma nova capital, Tell-el-Amarna.

Durante sua administração foi escrita uma das mais importantes referências da literatura egípcia, o Hino ao Sol. Em linguagem popular, o hino foi composto no século XIV, em louvor à majestade, à providência e à justiça de Áton, o único deus perante o qual nenhum outro existe. Veja, a seguir, um trecho desse hino:

Belo é teu amanhecer no horizonte do céu, ó vivente Áton, princípio da vida! Quando te levantas no Oriente, enches todas as terras com a tua beleza. ´És belo, grande e cintilante. Quando te pões no horizonte ocidental, a terra está em trevas como morta. Todos dormem em seus aposentos, as cabeças se cobrem. Mas, brilha a terra quando de novo te ergues, a árvores e a plantas florescem e os pássaros gorjeiam nos pântanos. Quão múltiplas são as tuas obras, ó único deus, cujos poderes nenhum outro possui. Criador do gérmem da mulher, criador da semente do homem. Quando te ergues, tudo vive. Quando desapareces, tudo morre. Tu formaste o mundo. Vive florescente por todo o sempre. (ISAAC; ALBA, 1968).

História Antiga

Apesar do grande incentivo por parte do faraó ao novo culto religioso, ele não durou muito tempo, pois não conseguiu sobreviver à morte do seu criador. Assim, pouco tempo depois, a antiga estrutura religiosa havia retornado. Ainda nessa fase da história da civilização nilótica, constatamos que a desordem interna e as revoltas generalizaram-se no final da XX dinastia, e o Egito, mais uma vez, ficou dividido, traço que marcou as dinastias subseqüentes. Foi nesse contexto que encontramos a presença do Terceiro Período Intermediário (1070-712 a.C.), em que se verifica uma longa fase de dinastias paralelas e tomadas do poder por líbios, etíopes e assírios.

d) Época Tardia (712-332 a.C.)

A Época Tardia é o momento da história do Egito Antigo em que definitivamente o reino perdeu sua autonomia e passou para o domínio externo por um longo tempo. Inicialmente foram os assírios que, após realizarem algumas campanhas, conquistaram-no, porém sua presença nesse solo foi passageira. Psamético I, um príncipe de Saís, inaugurou uma nova etapa de reunificação do país, chamada de Renascimento Saíta, que se deu a partir da XXVI dinastia (663-525). As referências desse período chegaram até nós através de fontes gregas, que revelaram a existência de uma tentativa deliberada de recuperação dos padrões políticos e culturais do Reino Antigo, apesar do distanciamento entre eles de dois mil anos. Todavia, a ascensão do Império Persa no oriente colocou em polvorosa a Ásia Ocidental e o mundo mediterrâneo, devido às suas conquistas e anexação de territórios. O Egito foi uma delas, pois acabou se tornando uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio

uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas
uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas
uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas
uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas
uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas
uma satrápia persa, muito embora tenha procurado apoio dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas

dos gregos para libertar-se dos persas, conseguindo apenas algumas

vitórias. Com isso, os gregos se aproveitaram da situação e se instalaram no país e, assim, o Egito passou a integrar o mundo helenístico, ou seja,

o mundo grego, fazendo com que o Egito perdesse sua autonomia por

muitos séculos. Em 30 a.C., essa região tornou-se uma província romana

e assim permaneceu até o final da Antiguidade.

Nome dado

à unidade

administrativa

territorial dos

persas

33

UNIDADE 1

Universidade Aberta do Brasil

Contudo, mesmo que esse reino tenha sido ocupado por povos de

origens diversas, vale ressaltar que pouco de sua cultura se modificou, prevalecendo o caráter conservacionista. Assim, podemos concluir que

a continuidade da civilização egípcia é um testemunho da extrema

adequação de seus valores ideológicos às suas estruturas de poder, pois mesmo após ter sido dominado por outros povos, internamente pouco ou nada mudou. Essa colocação pode ser verificada através das palavras de Jaime Pinsky (1988, p. 69), que diz:

Alexandre, quando lá chegou, aceitou a sagração segundo os rituais dos templos egípcios. A cidade que fundou, Alexandria, ficava junto do Egito e não no Egito, segundo expressão da época. Isto significa que o país continuou o mesmo, as múmias e a escrita sagrada: apenas se sobrepunha à estrutura do Egito, a estrutura do invasor.

Agora que você já conhece algumas considerações a respeito do poder no Egito Antigo, vamos tratar de alguns pontos que marcaram essa civilização fascinante e enigmática.

2.2 Formas sociais

O Egito faraônico, salvo nos períodos de crise, era um reino centralizado e nele o Estado exercia rígido controle econômico. No entanto, pesquisas recentes vêm demonstrando uma vitalidade nas estruturas locais e regionais de poder, nas quais o poder central só interferia de forma periférica. Nesse sentido, Ciro Flamarion Cardoso (1988) apresenta o sistema sócio-econômico em dois níveis:

1º) Nível estatal: era responsável pela extração do excedente das comunidades rurais e urbanas, por meio da tributação em produtos

e da corvéia real. Ou seja, pela extração de atividade para todos os

empreendimentos do Estado, em forma de trabalho agrícola nas terras reais, nas terras dos templos e dos grandes funcionários, nas construções públicas, nos trabalhos nas minas e nas pedreiras e, também, na guerra.

34

História Antiga

2º) Nível das unidades domésticas ou comunais: era em grande medida auto-suficiente. Sua economia e sistema social variavam de região para região, regidos por costumes sem interferência dos funcionários reais.

O excedente extraído das comunidades pelo Estado (cereais, gado,

alimentos, tecidos e outros) era armazenado para redistribuições futuras em um complexo sistema que variava desde a distribuição de rações e

o pagamento de artesãos altamente qualificados até a remuneração

substanciosa para funcionários (pessoal da corte, escribas e sacerdotes). Tal sistema deixa perceber a existência de uma organização burocrática eficiente, que permitia computar os recursos humanos, as riquezas e o gado, para o cálculo do imposto, e o controle das equipes de trabalho

e sua adequada remuneração. Mesmo sendo trabalho compulsório, a

corvéia era remunerada através da distribuição de rações. A burocracia de Estado, bastante numerosa, desempenhava funções de assessoria ao rei-deus, suprema autoridade em todos os domínios.

Dentre o corpo de funcionários nomeados, figurava o tjaty ou vizir, chefe dos tribunais da justiça central, das finanças e da burocracia em geral,

o qual, por meio de uma equipe de funcionários sob sua jurisdição, se

encarregava do controle dos recursos, tributos e da força de trabalho. Esse funcionamento da economia permaneceu ao longo de toda a história do Egito Antigo. No entanto, alguns egiptólogos afirmam que,

a partir da XVIII dinastia, as fontes começam a mencionar a palavra

comerciante, explicada talvez pelas conquistas que promoveram um incremento do comércio, o surgimento de numerosos escravos e a expansão da propriedade privada através de doações feitas a militares como forma de pagamento.

Nesse sentido, não se pode esquecer que,

seja em forma de colheitas, rebanhos e produtos artesanais, oficinas e expedições de mineração ou comércio, seja com a extração de impostos em espécie que taxavam a quase totalidade das terras e atividades, a maioria absoluta do excedente econômico disponível a cada ano era concentrado pelo rei e pelos templos.

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Os templos, por sua vez, funcionavam como gigantescos mecanismos de redistribuição da riqueza concentrada: nas instâncias superiores, remunerando uma aristocracia burocrática sacerdotal e, no Reino Novo,

uma aristocracia militar; nos níveis inferiores remunerando o trabalho de artesãos especializados e alimentando os trabalhadores das obras públicas.

O ápice da hierarquia social era ocupado pelo faraó, o rei-deus,

intermediário entre o povo e os outros deuses. A família real, altos sacerdotes e funcionários, as grandes famílias provinciais formavam uma aristocracia tendente à hereditariedade. As funções públicas, que na prática se confundiam com o serviço à pessoa do rei, configuravam-se como fonte direta e única dos privilégios políticos e da riqueza. No Reino Novo, uma verdadeira aristocracia hereditária de burocratas povoara a corte real e, por vezes, colocava em risco seu poder. Há registros de casos esporádicos de ascensão social por parte de pessoas de origem humilde, mas no geral, tendia-se à constituição de verdadeiras castas hereditárias em todos os níveis. As camadas intermediárias da população eram formadas por

escribas e funcionários inferiores, pelo baixo clero, por artesãos e artistas especializados a serviço da corte, do rei e dos templos.

A base da pirâmide social e da mão-de-obra agrícola eram os

trabalhadores braçais, maioria absoluta da população. Reunidos em comunidades aldeãs, eram taxados pelo Estado em cereais, linho, gado e outros. Eram submetidos à corvéia real e ao poder despótico de administradores das terras reais, dos templos ou, ainda, de proprietários de terras. Seus trabalhos eram realizados no próprio local ou em obras públicas, de forma forçada. Dificilmente poderíamos chamar o campesinato do Antigo Egito de livre, ainda que não fossem escravos nem servos. Sua principal remuneração parece ter consistido no direito de colherem para si mesmos durante um dia, após diversos dias de colheita para o dono da terra, além de receberem rações alimentares.

A escravidão teve importância econômica nas minas e pedreiras

estatais e, no Reino Novo, nas terras reais e nos templos. Houve escravidão doméstica e também existiram tropas militares constituídas de escravos. No entanto, a economia egípcia nunca foi escravista da forma como a

História Antiga

economia grega clássica e a romana do Alto Império foram.

A educação egípcia não era praticada por todos os moradores do

reino. Ela era realizada pelos padres, que proporcionavam instrução elementar às crianças nas escolas junto ao templo. Um alto sacerdote assumia a função de Chefe do Real Estabelecimento da Educação, podendo ser apresentada como muito próxima ao cargo de um ministro da educação na atualidade. Dentre os inúmeros achados pelos arqueólogos referentes à educação se encontram livros de cópia do período do Reino Novo que chegaram até a atualidade com correções dos professores nas margens. Para fazerem os livros, os egípcios emendavam as folhas, formando peças que poderiam chegar até a 30 metros de comprimento. A tinta utilizada

era feita de fuligem e gomas de vegetais, sendo passada para o livro com uma pena feita de um talo de vegetal cuja ponta tinha forma de pequeno pincel.

A civilização egípcia é um significativo exemplo de sociedade que

teve na religião o centro de suas preocupações, à medida que se organizou enquanto continuidade entre a vida e a morte. Criou ritos funerários que garantiriam a continuidade em outra dimensão, e a pirâmide, tumba real que movia governantes em vida na construção não de um túmulo, mas de morada condigna no além. O embalsamento também é um elemento constitutivo dessa crença, inicialmente restrito aos faraós e sua família. O sentido do aprimoramento dos conhecimentos anatômicos e de drogas destinadas à preservação do corpo tinha como objetivo garantir ao morto condições de continuar a vida após a morte.

Encerramos este bloco com as palavras de Jaime Pinsky (1994, p.78) a respeito da civilização egípcia:

O gigantismo do Egito foi sua fraqueza e sua força.

Muitos esforços foram envidados para manter a unidade da terra do faraó; uma administração

complexa foi mantida à custa de muito trabalho

e submissão. Mas os hieróglifos e as pirâmides, os templos e os sarcófagos, o primeiro modelo de administração centralizada no mundo e uma religião fascinante são patrimônios da humanidade.

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Universidade Aberta do Brasil Ocupado pelos árabes islâmicos no ano de 632. Os ingleses interferiram na

Ocupado pelos árabes islâmicos no ano de 632. Os ingleses interferiram na sua política interna por cerca de um século, até 1932, quando este alcançou sua independência. A capital, Bagdá, é muito conhecida no Ocidente em virtude das histórias ligadas à época do califa Harun al-Rachid, onde aparece como a cidade da famosa coletânea de contos As mil e uma noites.

SEÇÃO 3

mESOpOTÂmIA: O BERÇO DA CIVILIZAÇÃO

noites . SEÇÃO 3 mESOpOTÂmIA: O BERÇO DA CIVILIZAÇÃO A região da Mesopotâmia estava situada entre

A região da Mesopotâmia estava situada entre os rios Tigre e Eufrates, que correm paralelamente, tendo suas nascentes no maciço montanhoso da Armênia. Os dois rios se juntam na parte sul do país, formando um longo estuário de cerca de 200 quilômetros de extensão, que deságua no Golfo Pérsico e é conhecido pelo nome de Chat al-Arab. Grande parte da antiga Mesopotâmia forma o atual território do Iraque, e, se fôssemos fazer uma comparação de sua extensão com a do

território brasileiro, poderíamos dizer que ele representaria apenas 5% de nossa área.
território brasileiro, poderíamos dizer que ele representaria apenas 5% de
nossa área.

Mapa da Mesopotâmia

Com predomínio de múltiplas cidades-estados, a Mesopotâmia é uma terra de contrastes, porque apresenta condições geográficas adversas. Mesmo assim, foi o local em que a humanidade realizou pela primeira vez a experiência de uma civilização, pois foi ali que se edificaram as primeiras cidades.

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História Antiga

A região da Mesopotâmia sempre esteve submetida a constantes invasões de povos de origens diversas, sendo eles: Semitas, Elamitas (2000 a.C.), Amoritas (1900 a.C.), Hititas (1600 a.C.), Cassitas (4 séculos), Assírios, Persas e, até 331 a.C., Macedônios. Uma das justificativas para tantas investidas de diferentes povos nesse local é decorrente de sua localização que o tornava mais vulnerável se comparada ao Egito e, portanto, sujeito aos ataques. Além das questões de disputa, conquista e expansão territorial, esses contínuos confrontos propiciaram sobreposições de culturas e a disseminação de técnicas e de traços culturais, como a língua, a escrita e a religiosidade. Todavia, a Mesopotâmia atingiu o seu maior esplendor sob o senhorio dos assírios e babilônicos. Sob o domínio dos árabes, foi sede dos califas e atingiu novamente esplendor. Começou a decair com a invasão dos tártaros e dos turcos e hoje é um território em guerra. Nessa região se encontra a cidade de HARRAM – citada na Bíblia, em Gênesis - onde morreu Abraão, no século XIX a.C. Atualmente esse lugar é uma aldeia com habitações construídas de terra, sem energia elétrica, cujos moradores vivem com sistemas de seus ancestrais: mulheres indo buscar água na fonte, rebanhos de carneiros, pão e forno de pedra e patriarcas com barbas zelando pela família. Tais características foram reveladas ao mundo por pesquisadores que passaram a explorar essa região e descobriram coisas fascinantes. Veja alguns elementos a esse respeito no próximo item.

3.1 Descobertas Arqueológicas

Na tradição literária, encontramos em autores gregos e romanos referências da história da civilização mesopotâmica. Heródoto, em sua obra Histórias, faz menção a essa região, denominando-a de ‘país dos assírios’. Nela, o autor registrou os costumes, as leis, os aspectos geográficos e arquitetônicos. Todavia, o pesquisador Handani apresenta o século XII como o início de uma nova etapa na produção histórica dessa civilização. Até 1843, era praticamente a Bíblia a única fonte de conhecimento da história desse território da Ásia Ocidental. Os estudiosos, em geral, apresentam alguns elementos que dificultavam a exploração sistemática nesse lugar. Por exemplo:

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- calor excessivo durante o verão (45º);

- estação chuvosa;

- rigores do inverno (-40º);

- restrições governamentais;

- falta de recursos;

- a neve, que recobre tudo, deixando as estradas e os caminhos intransitáveis e muitas aldeias isoladas do resto do mundo.

O interesse mais efetivo pela história da Mesopotâmia despontou a

partir de 1850, quando a arqueologia revelou ao mundo palácios, templos

e cidades inteiras que estavam soterradas. Naquele momento, quando as

explorações iniciaram, mais ou menos 10 mil sítios arqueológicos foram

demarcados, apresentando descobertas surpreendentes.

Dentre os exploradores que ali estiveram, destacamos o cônsul da

França Paul Émile Botta, que, em 1843, descobriu um palácio Assírio.

Até essa época, praticamente o texto bíblico era um dos únicos que fazia

menção à existência dessa civilização na Mesopotâmia. As descobertas do

cônsul revolucionaram o pensamento predominante quanto às primeiras

civilizações. Lembramos que, até então, o Egito era considerado o berço da

humanidade, porque, em parte alguma, poderiam se encontrar vestígios

da história humana tão antigos como os do país das múmias. O governo

francês enviou o desenhista Eugéne Flandin para auxiliar Botta nas suas

explorações e registros dos achados. Dentre as inúmeras descobertas na

Mesopotâmia desde o final do século XIX, algumas são citadas:

- 1898: Robert Koldewey - iniciou escavações na cidade da Babilônia,

que tiveram uma duração de 15 anos;

- 05/1978: a aldeia de Jarmo, datada de aproximadamente 6.750

a.C., foi revelada ao mundo. Veja o que Pierre Amiet escreveu sobre ela:

Essa pequena aglomeração reunindo vinte

a vinte e cinco casas foi longamente ocupada. Os onze níveis inferiores testemunharam uma civilização neolítica que ignorava a cerâmica, mas elaborava vasos de uma bela pedra com veios, e utilizava cestos permeabilizados com betume. As

casas agrupavam vários cômodos pequenos, com

). Lês civilisations

) (

lareiras construídas no solo ( antiques du Proche-Orient

- 1987: ruínas de Shubat-Enlil (antiga capital da Assíria – fazendo

40

fronteira com a Turquia).

História Antiga

Assim, podemos concluir:

A paisagem desoladora da região sul da Mesopotâmia passou a ser, a partir do século XIX, um verdadeiro paraíso para os arqueólogos. Graças às escavações ali realizadas, foram encontradas, além de cidades em ruínas, uma infinidade de inscrições que, quando foram decifradas, revelaram uma história até então desconhecida.

A escrita criada nessa região foi chamada de cuneiforme, porque era realizada em forma de cunha. Foi uma criação dos sumérios, que usavam um estilete para gravar em tabuetas de argilas traços verticais, horizontais e oblíquos. Veja um exemplo abaixo:

verticais, horizontais e oblíquos. Veja um exemplo abaixo: Escrita cuneiforme Essa escrita era usada apenas pelos

Escrita cuneiforme

Essa escrita era usada apenas pelos sacerdotes e letrados e só foi decifrada no século XIX. Tal ação resultou do esforço de inúmeras pessoas, entre eles o alemão Georg Grotefend, o primeiro a conseguir entender o significado de alguns sinais. Mais tarde, um inglês chamado Henry Rawlinson conseguiu decifrar a escrita cuneiforme em sua totalidade. Acredita-se que a sua invenção se deve, provavelmente, aos sacerdotes sumérios. Eles precisavam registrar, de alguma forma, o recebimento de produtos, sua distribuição e as despesas feitas pelos templos. As mais antigas plaquinhas gravadas foram encontradas nas ruínas da cidade de Uruk. As inscrições tinham como assunto anotações de contabilidade.

tinham como assunto anotações de contabilidade. Faça uma pesquisa em livros, revistas e Internet sobre

Faça uma pesquisa em livros, revistas e Internet sobre outros símbolos que mudaram a história, além dos sistemas de escrita utilizados na Mesopotâmia (escrita cuneiforme) e Egito Antigo (sistema hieroglífico).

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3.2 Estruturas de urbanização

Embora seus limites variassem nos diferentes períodos históricos,

a Mesopotâmia também era integrante do Crescente Fértil. De maneira

geral, esses limites se estendiam desde os Montes Zargos, ao norte, até o

Golfo Pérsico, ao sul; desde o deserto da Arábia, a oeste, até o planalto do Irã, a leste. Localize estas indicações no mapa. A Alta Mesopotâmia, ao norte, é o Planalto da Assíria, cuja terra

é menos fértil e muito mais íngreme e montanhosa. Seu relevo é mais inclinado em direção ao sul e mais elevado a leste, próximo aos Montes Zargos. O clima é desértico, chuvoso e menos árido, com neve no inverno.

A região na Bíblia é chamada de ARAN-NACHARAM.

A Baixa Mesopotâmia está localizada ao norte do Golfo Pérsico,

sendo uma região extremamente plana e a mais fértil de toda sua extensão. Território rico em recursos agrícolas e pesqueiros, porém pobre em todas as demais coisas.

A ocupação da Mesopotâmia, chamada pelos gregos de terra entre

rios, teve início na passagem do VII para o VI milênio a.C., na região montanhosa da Alta Mesopotâmia. Durante esse período, o homem do Oriente Próximo começou a se fixar nesses locais, passando da condição de nômade a sedentário. A transformação do modus vivendi do homem neolítico foi radical e suas conseqüências na sociedade e economia revelaram-se tão profundas que o arqueólogo V. Gordon Childe a denominou de Revolução Neolítica. Esse processo de sedentarização foi se cristalizando paulatinamente

e se estendendo posteriormente a todas as áreas do Oriente Próximo.

Segundo Emanuel Bouzon (1985, p. 15), “para que os homens se fixassem nessa região foi necessário que eles realizassem uma série de adequações, como desmatamentos, drenagens e irrigação artificial, esses processos vieram a permitir uma produção bem maior que nas regiões montanhosas”. Tais medidas exigiam o desenvolvimento de um trabalho coletivo para assegurar o melhor aproveitamento da região. A arqueologia revelou que o homem do neolítico viveu em aglomerações de estrutura circular, que dificultavam qualquer tipo de desenvolvimento. No Oriente Próximo, esse tipo de habitação parece ter

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História Antiga

sido substituído pela aldeia de estrutura retangular numa área de 25 a 35 m2, com vários cômodos e lugares próximos para armazenamento. Esse tipo de construção, que abrigava uma família nuclear, facilitava eventuais acréscimos e apêndices. A arqueologia também mostrou que as primeiras aldeias de estrutura retangular ocupavam uma área de 1 a 4 hectares. As técnicas produtivas que tinham sido desenvolvidas nas proximidades das montanhas espalharam-se pelos planaltos anatólicos

e iranianos e, depois, na região do aluvião mesopotâmico. Todavia,

para firmar-se na Mesopotâmia foi necessário que a colonização agro-

pastoril preparasse a sua infra-estrutura com desmatamento, drenagem e processos de irrigação.

A aldeia era constituída por poucas famílias, porém extensas, e

nelas havia parentesco generalizado, cujo poder decisório estava baseado na presença de poucos (anciãos) e não havia diferenças substanciais de caráter sócio-político entre esses chefes. Contudo, as primeiras cidades mesopotâmicas a se organizarem surgiram ao sul na planície próxima ao Golfo Pérsico, aproximadamente no quinto milênio a.C. Leia o que Samuel Noah Kramer (1985, p. 23) escreveu a esse

respeito:

Aí, há cerca de 5000 anos, o povo conhecido como sumérios criou a mais antiga das verdadeiras civilizações, cujas raízes mergulham bem fundo nas trevas da pré-história. Foi a Mesopotâmia que viu erguerem-se os primeiros centros urbanos da humanidade, com a sua opulência, complexa e variada, em que a lealdade política não era mais em relação à tribo ou ao clã, mas em relação à comunidade como um todo.

O crescimento populacional efetivo foi atingido entre os anos 6000

a 4500 a.C., também ocasionando a formação de uma estratificação

a divisão da

população ativa em especialistas e produtores de alimentos. Os primeiros

continuaram a viver nas aldeias, enquanto que os diferentes especialistas

se estabeleceram no centro urbano e, aos poucos, constituíram uma classe privilegiada”.

social, como destaca Emauel Bouzon (1985, p. 34): “(

)

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Do ponto de vista etnolingüistico, o povoamento da Baixa Mesopotâmia foi marcado por dois grupos iniciais: os sumérios, de origem

controversa, os quais, desde os finais da pré-história, predominavam no sul da Mesopotâmia, no chamado país de Sumer ou Suméria; e os acádios, que falavam uma língua de flexão do grupo semita, provavelmente originário da Arábia e estabelecido na região da Babilônia, desde o quarto milênio a.C. Pode-se dizer que, em meados do terceiro milênio a.C., quando as informações sobre esses grupos se tornaram mais abundantes, eles já se encontravam bastante mesclados.

A economia citadina e a instituição de uma forma de governo

centralizadocomcaracterísticaspolítico-militaressurgiramposteriormente. A princípio, o templo foi a primeira forma de administração das cidades- estados mesopotâmicas, passando para o modo palatino (de palácio) somente no final do terceiro milênio. Nesse caso, vale ressaltar: a unidade étnica das cidades-estados, embora tenha sido efêmera, não esteve ligada à língua ou a conquistas de novos territórios; foi a religião que a possibilitou, em meio a tantos obstáculos naturais e humanos. Assim, o templo não era apenas o centro religioso, pois a princípio ele foi centro político, econômico e militar; já o palácio separado do templo apareceu somente por volta do segundo milênio a.C. Para Ciro Flamarion Cardoso (1986, p.46),

Os templos devem ser imaginados como enormes complexos, com terras, reservas de pesca,

rebanhos, oficinas artesanais e uma participação direta e talvez predominante no comércio de longo curso e nos empréstimos usuários de

A importância social dos

complexos dos santuários era tanta que se pode falar de uma espécie de ‘sociedade dos templos’, muito estratificada, dentro da sociedade global. Esta ‘sociedade dos templos’ (shirkatu) estava constituída por indivíduos que haviam sido consagrados a divindades por seus pais ou outras pessoas, formando uma hierarquia que ia desde grandes personagens – possuidores de terras e escravos, e que participavam do grande comércio, até pastores e artesãos dependentes.

prata e cereal. (

)

O poder do templo parece ter permanecido por toda a história da

44

Mesopotâmia.

História Antiga

3.3 Organização política dos povos da Mesopotâmia

Como já foi dito no início da seção, encontramos na região da

Mesopotâmia a presença de ondas sucessivas de invasões e tomadas de

poder. Agora, você vai conhecer alguns aspectos dos grupos que ocuparam

e impuseram sua autoridade nessa região.

que ocuparam e impuseram sua autoridade nessa região. Cidades da Suméria a) Sumérios e Acádios (2800-2000

Cidades da Suméria

a) Sumérios e Acádios (2800-2000 a.C.)

A origem e a história antiga da civilização sumeriana ainda são mal

conhecidas. Supõe-se que uma população que falava sumério, língua não

semita que não se deixa explicar por nenhuma outra família lingüística

conhecida, desceu das regiões setentrionais e instalou-se na Baixa

Mesopotâmia, onde subjugou os autóctones.

Os sumérios não possuíam Estado centralizado, organizavam-se

em cidades-estados, cada qual com um governante autônomo. Dentre as

principais destacam-se Ur, Uruk, Umma, Nippur, Lagash e Eridu, que você

poderá localizar no mapa ao lado.

A maioria das cidades-estados sumerianas foi reunida por Lugalzaggisi,

o soberano de Umma, por volta de 2375 a.C., que é a primeira manifestação

da idéia imperial de que temos conhecimento. Porém, vale ressaltar que

uma geração mais tarde, a operação foi repetida, com sucesso por Sargão, o rei de Acádia, porém a civilização sumeriana manteve todas as suas estruturas, eles se reconheciam tributários do conquistador acadiano.

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Entretanto, antes da conquista dos acadianos sobre os sumerianos, desenvolveu-se uma mescla entre esses dois povos que aumentou após a unificação dos dois países. Mais ou menos 40 anos depois os eruditos falavam de uma única cultura, a babilônica, produto da fusão desses dois troncos étnicos. Em torno de 2330 a.C., o rei Sargão I, conhecido como Soberano dos quatro cantos da terra, unificou as cidades sumérias sob sua autoridade. Estabeleceu a cidade de Akkad ou Agadé como capital de seu reino. Seus domínios estendiam-se do Golfo Pérsico ao corredor Sírio-Palestino e do Elam (a leste da Mesopotâmia) até o deserto da Arábia. Nesse período houve a incorporação da cultura sumeriana a partir dos registros da nova língua semítica em caracteres cuneiformes. Durante esse período, a civilização sumeriana atinge o seu auge e também a derradeira manifestação do poder político da Suméria. O apogeu desse império foi marcado pela construção de zigurates, as pirâ- mides escalonadas, e dos canais de irrigação na região de Sumer.

e dos canais de irrigação na região de Sumer. Zigurate O Império de Sargão desmoronou depois

Zigurate

O Império de Sargão desmoronou depois de um século, em consequência dos ataques dos “gutis” (bárbaros) que viviam como nômades na região do alto Tigre.

Desde então, a história da Mesopotâmia parece repetir- se: a unidade política da Suméria e da Acádia é destruída por ‘bárbaros”, vindos do exterior, os quais são vencidos por revoltas internas.

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História Antiga

Acossado a leste pelos elamitas e a oeste pelos amoritas, que provinham do deserto sírio-arábe, o império ruiu. Por mais de dois séculos a Mesopotâmia permaneceu dividida em vários estados. Foi nesse período da história da civilização mesopotâmica que se processou a passagem das cidades-templos a cidades-estados.

b) Amoritas (2000-1600 a.C.) – I Império Babilônico

Na Média Mesopotâmia, o povo amorita havia se estabelecido em uma povoação chamada Babilônia que, posteriormente, tornar-se-ia local de convergência das diversas rotas comerciais do Oriente Próximo. Em 1700 a.C., o soberano chamado Hamurabi (2067-2025 a.C.) conseguiu impor unidade à região. Ele fixou o centro do Império no ponto norte, na cidade sobre a qual reinava. A dinastia por ele fundada durou menos de um século. Chefiando seu povo, venceu os povos vizinhos e expandiu seus domínios por toda a Mesopotâmia, desde o Golfo Pérsico até o norte da Assíria. Até aí, sua ação não apresentou grande diferença das ações realizadas pelos demais monarcas que o precederam. O que marcou e perpetuou seu nome foi a preocupação em regular a vida econômica e garantir a propriedade privada da terra. Foi através desse sobera- no que se elaborou um conjunto de leis escritas, o Código de Hamurabi, que, apesar de não ter sido a primeira coleção de leis escritas criadas pelo homem, é uma das mais conhecidas. Sua importância se deve ao fato de que chegou intacto até nossos dias. Partindo de antigas leis, o código foi organizado em 282 artigos. Nele constam dispositivos que englobam to- da a vida social da Babilônia,

282 artigos. Nele constam dispositivos que englobam to- da a vida social da Babilônia, Código de

Código de Hamurabi

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matrimônios, partilhas de terras, heranças, família, escravidão e os delitos, que são acompanhados de sua respectiva punição.

Dessa forma, pela sua preservação, permite-se que estudiosos não apenas conheçam o direito babilônico antigo, mas também encontrem informação a respeito da economia, da sociedade e da cultura da época.

A lei de talião tem o significado de lei de retaliação ou de vingança.

Essa prática, chamada de lei de talião, previa punição idêntica ao

chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente
chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente
chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente
chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente
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chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente
chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente
chamada de lei de talião , previa punição idêntica ao crime cometido. É o que comumente

crime cometido. É o que comumente chamamos de “olho por olho, dente por dente”.

A seguir, você poderá observar os códigos de leis que foram criados

anteriormente ao Código de Hamurabi.

que foram criados anteriormente ao Código de Hamurabi. Linha do tempo com outros códigos Revoltas internas

Linha do tempo com outros códigos

Revoltas internas e sucessivas invasões alteraram as estruturas sociais babilônicas. Os sucessores de Hamurabi não conseguiram manter a centralização estatal e, por volta de 1800 a.C., tribos cassitas desceram do norte e começaram a assediar os amoritas. Em 1525 a.C., conseguiram triunfar e permaneceram senhores da Mesopotâmia por quatro séculos, quando chegaram os assírios.

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c) Assírios (1300-612 a.C.)

O povo assírio se estabeleceu na parte setentrional da Mesopotâmia

Os assírios escolheram as margens do rio Tigre

por volta de 2500 a.C

História Antiga

para sua fixação na região, porque nesse local encontraram a abundância

da madeira, do cobre, do ferro e a possibilidade de atividades agropastoris

e de caça que garantiriam sua sobrevivência. Eram guerreiros ferozes que se organizaram em torno da cidade de Assur formando um forte estado militar, com cavalos, armas de ferro e carros de guerra. A expansão assíria incorporou a Média Mesopotâmia, grande parte da Síria e da Palestina. Uma aristocracia sacerdotal e militar dominava a massa camponesa, obrigada à corvéia de Estado e ao pagamento de tributos em metais, gado

e cereais. As populações vencidas, tratadas com grande crueldade, em geral passavam à condição de escrava. O auge do Império Assírio ocorreu nos reinados de Sargão II, Senaqueribe e Assurbanipal (veja no mapa a sua extensão).

Senaqueribe e Assurbanipal (veja no mapa a sua extensão). Mapa do domínio assírio Corvéia é um

Mapa do domínio assírio

Corvéia é um tipo de imposto cobrado em trabalho semanal para o Estado, Templo ou o proprietário da terra.

Sob a administração de Assurbanipal foram realizadas grandes conquistas assírias, incluindo o Egito. Ele era um grande entusiasta das ciências e das letras, o que justificou a construção de uma biblioteca na capital. A Biblioteca de Nínive abarcava um considerável acervo cultural, formado por milhares de tabuinhas de argila. Sobre ela, leia este fragmento:

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A partir de Hamurabi, certos templos passaram

a organizar bibliotecas, em que as tabuinhas,

cuidadosamente classificadas segundo o gênero e a obra, empilhavam-se em cestos dotados de uma etiqueta de argila, de acordo com um processo igualmente utilizado para a classificação e conservação dos arquivos. Soberanos houve que agiram de modo semelhante em seus palácios. Mas nenhum dedicou a esta atividade tanta energia sistemática como Assurbanipal, que afirmava ter recebido dos deuses ‘toda a ciência da escrita’. Ordenava a seus funcionários que procurassem e enviassem ao palácio os originais, ou pelo menos cópias, de todos os textos rituais,

religiosos, mágicos, astronômicos, históricos, etc.

Os arqueólogos ingleses puderam, assim,

descobrir, nas ruínas de Nínive, milhares de tabuinhas que constituem, atualmente, uma das principais riquezas do Bristish Museum. (AYMAR; AUBOYER apud CROUZET, 1972, p. 159).

) (

O estilo de conquista dos assírios produziu constantes revoltas nos

povos dominados. Em 612 a.C., o rei caldeu Nabopolasar, auxiliado pelos medos, destruiu Assur e Nínive: era o fim do poderio assírio.

d) O segundo Império Babilônico (612-539 a.C.)

Esta fase, também conhecida como neobabilônica ou caldaica, contou com dois soberanos que se tornaram mais conhecidos: Nabopolasar e Nabucodonossor. O primeiro, ao vencer os assírios, repartiu o produto

de sua vitória: aos medos coube a Assíria, e os babilônios mantiveram sua hegemonia no Ocidente.

A linha política dos caldeus voltou-se para o Ocidente: Síria,

Palestina e Egito vão atrair a atenção dos soberanos. O longo reinado de Nabucodonossor apontou esse caminho. Dentre suas conquistas, figuram a extinção do Reino de Judá, a destruição de Jerusalém e a deportação de milhares de judeus, episódios conhecidos genericamente como Cativeiro da Babilônia. Ainda hoje permanece o eco do sofrimento do povo conquistado, quando lemos as Lamentações atribuídas ao profeta Jeremias, contemporâneo desses eventos. O governo de Nabucodonosor foi marcado por inúmeras realizações: palácios, templos, pontes, canais, novos arruamentos, muralhas e fortificações, que tornaram a cidade da Babilônia famosa e

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História Antiga

conhecida como a maior e mais rica cidade de sua época. Leia a seguir um trecho produzido pelo descobridor da muralha da Babilônia:

No tempo de Nabucodonosor, o viajante que se aproximasse da capital Babilônia, vindo do

norte, se encontraria defronte do muro colossal que circundava a poderosa cidade. Parte desse muro ainda existe e é reconhecível, nos tempos

atuais.(

Havia um muro maciço de tijolo cru,

de 7 metros de espessura, à frente do qual, num intervalo de cerca de 12 metros se erguia outro

muro de tijolo cozido, de 7 a 8 metros de espessura.

) (

sobre o muro havia torres de 8,37 metros de

largura, que se projetavam de ambos os lados.

Medidas de centro a centro, essas torres distavam

(KOLDEWEY,

52,5 metros uma da outra (

1963, apud CERAM, 1975, p. 18).

)

).

No entanto, uma obra que eternizou a Babilônia colocando-a entre as Sete Maravilhas do Mundo Antigo foi a construção dos Jardins Suspensos, que é atribuída ao desejo do rei de agradar sua esposa, a princesa Amytis, para lhe dar a ilusão de viver em meio à vegetação de sua terra natal.

ilusão de viver em meio à vegetação de sua terra natal. Você ficou conhecendo uma das

Você ficou conhecendo uma das sete maravilhas do mundo antigo. Procure saber quais foram as outras seis que fazem parte desse conjunto.

Diferentemente das aglomerações do Oriente, a cidade da Babilônia exibia largas avenidas cortadas em ângulo reto, abrindo-se em praças, com perspectivas planejadas. Os edifícios, com três ou quatro andares, eram agrupados em quarteirões; os jardins eram cuidadosamente organizados; e os templos, monumentais. Muitas ruas desembocavam no rio Eufrates, que cortava a cidade, e terminavam em luzidios portões de metal dourado, abertos sobre a água. No reinado de Nabudonosor, a cidade atingiu um prestígio sem paralelo, sendo apresentada como referência de cultura e de bom gosto. Objeto de sonho de muitos reis e conquistadores da Antiguidade, a Babilônia foi conquistada em 331 a.C. por Alexandre, e a cidade, por sua vez, conquistou-o. Ele decidiu fazer dela a capital de seu império. Anos depois, em 323 a.C., seu conquistador faleceu no palácio de Nabucodonosor, mas Babilônia ainda resistiu por algumas décadas como simulacro do antigo esplendor.

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3.4 Formas culturais

As atividades agrícolas, pastoris, comerciais e artesanais serviram de

base para a formação de uma sociedade de castas, organizada em forma piramidal. A posição social do indivíduo era geralmente determinada por

critérios de nascimento e hereditariedade. Os sacerdotes, os aristocratas, os militares e os comerciantes formavam as castas privilegiadas, situadas no topo da pirâmide social, cujo vértice apoiava-se numa imensa base formada pelos artesãos, camponeses e escravos.

O orientalista norte-americano Samuel N. Kramer afirma que as

primeiras informações referentes ao número de instituições técnicas e concepções religiosas mesopotâmicas foram conservadas através dos textos sumerianos. Vale ressaltar que se trata dos primeiros documentos escritos cujos originais remontam ao III milênio. Ciro Flamarion Cardoso (1990, p.10) defende a idéia de que no Oriente Próximo só superficialmente podemos separar religião, política e economia, da mesma forma que só superficialmente poderíamos separar religião, mito e história. Os mitos foram a primeira forma de crença que originou a complexa religião dos mesopotâmicos, que conta as histórias de seus deuses, que eram homenageados por meio de diversificados cultos que seguem uma tradição construída. Para tanto, divulgava-se a crença de que os homens não eram apenas os servidores dos deuses, mas também seres imitadores e, por conseguinte, seus colaboradores. Isso porque se acreditava que eles foram criados com o objetivo de servir os deuses, os quais, antes de tudo, necessitavam ser alimentados e vestidos. Os deuses eram os responsáveis pela ordem cósmica, e os homens deveriam seguir suas injunções, pois elas se referiam às normas que regem o mundo. Nesse sentido, o destino dos homens não é controlável, pois ele depende dos deuses. Assim, não cabe aos humanos questionarem a vontade insondável desses seres superiores. Há textos que sustentam a noção de que, no fim das contas, a justiça divina se impõe. As incertezas quanto ao futuro geravam a angústia, o que causou, possivelmente, o desenvolvimento de técnicas de adivinhação na Mesopotâmia. Tanto o monarca como qualquer outro mortal dependiam de decisões unilaterais divinas e, portanto, elas poderiam ser mudadas a

História Antiga

qualquer momento, por interferência divina, independentemente dos atos do rei. Mircea Eliade (1988) afirma a existência de numerosas técnicas adivinhatórias na Mesopotâmia, desenvolvidas, na sua maioria, na época acadiana. Julgava-se que quaisquer desventuras podiam ser evitadas através desse processo. O autor indica dois métodos por eles utilizados:

: Extispicium: que consistia no exame das entranhas da vítima.

2º Lecanomancia: em que se derramava um pouco de óleo sobre a água ou inversamente, para interpretar os “sinais” que se podiam ler nas formas produzidas pelos dois líquidos.

Os documentos comprovam o prestígio de que gozavam essas práticas

em todas as camadas sociais, sem exclusividade dos reis e da aristocracia. Dessa forma os deuses eram soberanos, considerados os verdadeiros donos de sua cidade, do centro principal de seu culto no mundo dos homens. Ou seja, a soberania sob suas cidades era, em primeiro lugar, divina. Assim, os reis eram representados com freqüência em posição de servos dos deuses: carregando materiais de construção para o conserto ou construção dos templos - as moradas divinas. Essa referência limitou tentativas de divinização de soberanos mesopotâmicos e, mesmo quando elas ocorreram, não deram origem a uma monarquia divina comparável ao Egito; foram quase sempre efêmeras, além de limitadas. O rei mesopotâmico era o representante natural de seu povo diante dos deuses, com os quais tinham relações especiais. Os vitoriosos proclamavam em seus textos comemorativos que seu brilhante destino era decorrente de uma decisão dos deuses.

O rei ocupava o posto especial de lugar-tenente dos deuses e

representante do seu povo diante deles, cuja intervenção era necessária, não só para que a sociedade ordenada garantisse oferendas divinas, como também para a marcha regular da natureza.

De acordo com Olavo Leonel Ferreira (1993, p.58-61), as dezenas de

milhares de plaquinhas de argila que foram e continuam a ser encontradas na Mesopotâmia trouxeram à luz uma época da história que havia sido apagada pelo tempo. As inscrições mostram como era a vida comum no

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Universidade Aberta do Brasil Gilgamés foi o quinto rei da cidade de Uruk, e teve, na

Gilgamés foi o quinto rei da cidade de Uruk, e teve, na tradição dos sumérios, uma tal valorização de suas obras que foi elevado à categoria de herói.

período recuado da história da região. As obras literárias permitem uma visão diferente da época em que foram escritas. Revelam as crenças, o modo de pensar e a psicologia do povo que as elaborava, e não devem ter sido conhecidas diretamente pelo povo, que, em sua maioria, não sabia ler. Entre elas, destacam-se a Epopéia de Gilgamés, o Mito da Criação e o Poema do Justo Sofredor. A Epopéia de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que

de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que lhe deu o nome: homem fortíssimo que
de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que lhe deu o nome: homem fortíssimo que
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de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que lhe deu o nome: homem fortíssimo que
de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que lhe deu o nome: homem fortíssimo que
de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que lhe deu o nome: homem fortíssimo que
de Gilgamés revela as façanhas realizadas pelo herói que lhe deu o nome: homem fortíssimo que

lhe deu o nome: homem fortíssimo que participou de inúmeras aventuras que envolvem monstros, deuses e animais. O conhecimento da Epopéia deu-se pelas escavações realizadas em Nínive. Uma das surpresas reveladas pelo texto foi o fato de que ele inclui uma descrição do dilúvio universal muito mais antiga do que aquela existente na Bíblia. O Mito da Criação (Enuma Elish) é a obra mais recente da Epopéia de Gilgamés. Conta, entre outras histórias, a da criação do homem pelo deus Enlil, que teria utilizado argila misturada com sangue divino para realizar sua obra. Em Babilônia, na época dos cassitas, foi elaborada uma obra cheia de pessimismos e lamentações, conhecida como Poema do Justo Sofredor. Trata-se da história de um indivíduo que, em sua vida, passou por uma série de desventuras. Alguns autores vêem neste poema uma espécie de versão babilônica do Livro de Jó, que faz parte da Bíblia.

babilônica do Livro de Jó, que faz parte da Bíblia. As civilizações que floresceram na região

As civilizações que floresceram na região do Crescente Fértil foram as primeiras que surgiram na face da Terra. Tiveram uma grande importância sobre a civilização ocidental e, ainda hoje, em nossa época, influenciam o mundo todo. Assim, as grandes religiões, o uso da escrita, os sistemas de leis, as estruturas políticas e econômicas, as expressões culturais da atualidade têm seus alicerces mergulhados nas civilizações dessa região. Especificamente no caso dessas sociedades orientais, pode-se inferir que, ao longo de sua história, só se separam política, economia e religião de forma artificial. Os templos e os palácios eram parte integrante do aparelho de Estado. Templos e palácios representavam elementos centrais na operacionalização de atividades que hoje chamamos de economias (produção, distribuição e circulação de bens e serviços).

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História Antiga

A política não formava uma realidade clara e distinta, isto é, não estava rigorosamente delimitada diante de outras realidades nem era concebida como se estivesse. Só com os gregos é que se começou a percebê-la como realidade autônoma, e só no mundo moderno e por obra da cultura ocidental se levará a cabo sua radical secularização. Em todas as culturas restantes, a política, a religião e, em geral, os empreendimentos econômicos aparecem como três dimensões de uma mesma realidade. Mesmo para as pessoas da época, eram aspectos inseparáveis: “soberania celeste e monarquia terrestre se refletiam e se ligavam harmoniosamente, ambas necessárias à boa marcha do cosmo – entenda-se: dos mundos divino, natural e humano, que afinal de contas formavam um todo homogêneo”. (CARDOSO, 1990, p.73). Esse foi o caso das culturas do Oriente Próximo, em especial aquelas que foram privilegiadas neste estudo - Egito e Mesopotâmia - quando se buscou explicar, de forma geral, como funcionaram essas sociedades. Mas ainda não terminou. Aquilo que você estudou pode ser ampliado, através de outras formas, porque estudar História não pode nem deve ser maçante, muito menos enfadonho. Serão apresentadas, a seguir, algumas sugestões de leituras que você poderá realizar.

algumas sugestões de leituras que você poderá realizar. 1. Sugestão de leituras CARDOSO, Ciro Flamarion. As

1. Sugestão de leituras

CARDOSO, Ciro Flamarion. As sociedades do Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Ática,

1986.

BAKOS, Margaret M. Egiptomania: o Egito no Brasil. São Paulo. Paris Editorial, 2004.

O Egito Antigo: na fronteira entre ciência e imaginação. In. NOBRE, C., CERQUEIRA, F., POZZAR, K. Fronteiras & etnicidade no mundo antigo. 13ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos. Pelotas, 2003: Canoas: ULBRA. 2005.

Visões Modernas do Mundo Antigo: a Egiptomania. In. FUNARI, Pedro Paulo A.; SILVA, Glaydson José; MARTINS, Adilton Luís (Orgs). História Antiga: contribuições brasileiras. São Paulo: Annablume. Fapesp, 2008.

FERREIRA, Olavo Leonel. Moderna, 1993.

Mesopotâmia: o amanhecer de uma civilização. São Paulo:

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Atual. 1988.

100 textos de História Antiga. São Paulo: Hucitec, 1972.

Publicações História Viva Aventuras na História

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2. Sugestão de filmes

O egípcio (1954) - Ambientado na época do Novo Império Faraó, de Jerzy Kawalerowicz (Polônia / Legendado / 120min / Ficção / Colorido) Cleópatra, Diretor Franc Roddam, Épico, 1999.

3. Sites www.egito.net ou antigoegito.tripod.com

1999. 3. Sites www.egito.net o u antigoegito.tripod.com 1. Caracterize as “Civilizações de Regadio” que se

1. Caracterize as “Civilizações de Regadio” que se desenvolveram no Crescente

Fértil.

2. Identifique elementos comuns que se desenvolveram nas civilizações do Crescente

Fértil.

3. Quais são as relações de poder presentes nessas duas sociedades?

4. Como você analisaria a civilização mesopotâmica?

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História Antiga

História Antiga 57 UNIDADE 1
História Antiga 57 UNIDADE 1
História Antiga 57 UNIDADE 1

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Universidade Aberta do Brasil 58 UNIDADE 1
Universidade Aberta do Brasil 58 UNIDADE 1

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Antiguidade

Clássica

ObjetivOs De aPRenDiZaGem

Nesta unidade você tem os seguintes objetivos a cumprir:

Reconhecer como ocorreu o processo de desenvolvimento das cidades- estados gregas.

o processo de desenvolvimento das cidades- estados gregas. Perceber a importância do sistema escravista para as

Perceber a importância do sistema escravista para as sociedades da antiguidade clássica.o processo de desenvolvimento das cidades- estados gregas. Identificar elementos presentes no processo de formação do

Identificar elementos presentes no processo de formação do Império Romano.escravista para as sociedades da antiguidade clássica. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na romana.

presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na
presentes no processo de formação do Império Romano. Apontar elementos comuns na sociedade grega e na

Apontar elementos comuns na sociedade grega e na romana.presentes no processo de formação do Império Romano. R OteiRO De estUDOs Para atingir os objetivos

ROteiRO De estUDOs

Para atingir os objetivos expostos, desenvolveremos o seguinte roteiro de estudos:

SEçãO 1 - Grécia: o mundo das pólis

SEçãO 1 - Grécia: o mundo das pólis

SEçãO 2 - Roma: do Lácio para o mundo

SEçãO 2 - Roma: do Lácio para o mundo

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pARA INÍCIO DE CONVERSA

Universidade Aberta do Brasil pARA INÍCIO DE CONVERSA Você agora vai voltar seu olhar para um

Você agora vai voltar seu olhar para um outro espaço. Como você sabe, o processo histórico não é linear. Ou seja, enquanto no Oriente

egípcios, babilônicos, caldeus e outros povos estavam organizando suas sociedades, no Ocidente outro processo estava sendo construído. Dessa forma, neste momento do nosso estudo, serão privilegiadas duas sociedades que representam as matrizes culturais do Ocidente:

a grega e a romana. As semelhanças e diferenças entre elas você irá

perceber no decorrer do texto. Essas duas civilizações compõem o que ficou conhecido na história como a Antiguidade Clássica. Na criação por excelência da civilização grega, originária das transformações da estrutura gentílica, foi a pólis que passou a ser o centro da vida grega e a configuração de seu ideal político.

SEÇÃO 1

gRÉCIA: O mUNDO DAS pÓLIS

seu ideal político. SEÇÃO 1 gRÉCIA: O mUNDO DAS pÓLIS Em primeiro lugar, você sabe o

Em primeiro lugar, você sabe o que é uma pólis? Ou ainda, a origem

da palavra Grécia? Vamos iniciar, então, conhecendo o significado dessas duas palavras.

A palavra Grécia deriva do latim graeci, nome de uma tribo que

habitava a ilha da Eubéia (localize-a no mapa apresentado a seguir),

e os romanos começaram a designar a todos os demais moradores da

Grécia com essa denominação. Já pólis é a expressão que foi criada pelos gregos para as suas cidades, como, por exemplo: pólis de Esparta, pólis de Atenas, pólis de Corinto, e assim por diante.

A região da Grécia é banhada pelos mares Mediterrâneo, Jônico e

Egeu. Ela ocupou um território de aproximadamente 56.000 km2 e pode ser dividida em três partes, tendo como parâmetro suas características

físicas (localize-as no mapa):

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História Antiga

- Grécia Continental: ao norte, onde estão localizados o Épiro, a Tessália, a Ática e a Beócia.

- Grécia Peninsular: a Argólida, a Lacônia, a Messênia, a Élida e a Arcádia.

- Grécia Insular: são as várias ilhas espalhadas pelo mar Egeu.

Insular : são as várias ilhas espalhadas pelo mar Egeu. Mapa da Grécia A topografia recortada,

Mapa da Grécia

A topografia recortada, solo ingrato, pouco produtivo, as grandes diferenças climáticas são elementos que possibilitaram a formação de comunidades isoladas especialmente no oeste da parte continental, quando seus habitantes foram impulsionados à expansão colonial e às atividades comerciais tanto para o ocidente quanto para o oriente. O mar pode ser apresentado como um elemento ímpar em todo o processo histórico grego. Ele significou expansão territorial, vitórias militares, trocas comerciais e culturais. Glotz (1948, p.7) sintetizou a relação entre os gregos e o mar:

O Mediterrâneo inteiro é seu domínio. À procura de metais, desembarcaram em Chipre; à procura de perfumes, ganham os portos do Oriente. Levados pelos ventos etésios vão enriquecer-se no país dos faraós e sobre a costa da Líbia. O Helesponto e o Bósforo abrem-lhes o caminho das

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regiões setentrionais: chegaram até aos celeiros da planície Cítica. Ganham o mar que se chamará sempre Jônico e se lançam para as terras que, por muito tempo, terão o nome de Magna Grécia. De golfo em golfo, de ilha em ilha, do norte ao sul, e de leste a oeste, das monarquias orientais aos países bárbaros, eles vão traficando, colonizando, difundindo suas idéias e seus costumes. Sua civilização terá a ubiqüidade do Mediterrâneo.

Todavia, o ponto de partida para a história da civilização grega pode ser definido pela chegada de migrantes de língua indo-européia - aqueus, eólios, jônios e dórios - à Grécia Continental e às ilhas do Mar Egeu, entre 2200 e 2100 a.C., quando eles entraram em contato com a civilização autóctone dando início a uma nova civilização. Nesse sentido, a civilização grega faz parte de uma cultura bastante diversa do oriente e mesmo do Mediterrâneo Antigo. Vamos conhecê-la melhor?

Tradicionalmente, a civilização grega é dividia nas seguintes fases:

- Período Homérico (1700-800 a.C.);

- Período Arcaico (800-500 a.C.);

- Período Clássico (500-336 a.C.);

- Período Helenístico (336- a.C.).

Como a perspectiva mitológica tem muita importância na sociedade grega e quase tudo se explica através do Mito, vamos conhecer aquele que é considerado a origem desta civilização.

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Os gregos afirmavam que Júpiter, pai dos deuses, zangado com as maldades do homem, resolveu inundar a terra. Escaparam em uma barca apenas Deucalião (que era o mais justo dos homens) e Pirra (a mais virtuosa das mulheres). Depois do dilúvio, o casal consultou um oráculo, que lhes aconselhou atirar para trás os ossos da mãe. A mãe era a terra, e os ossos, as pedras. As pedras lançadas por Deucalião transformaram-se em homens, e as pedras atiradas por Pirra, em mulheres. De Heleno, um dos filhos de Deucalião, descenderam os gregos. Por isso se dá à Grécia o nome de Hélade, e aos gregos o nome de Helenos.

História Antiga

1. 1 Civilização Micênica: os primeiros gregos

Como foi dito no início da seção, invasores chegaram à Grécia Continental, nas Ilhas de Creta e Rodes, na segunda metade do II milênio a.C., e nesses lugares já existia uma civilização estruturada. Em Creta, desenvolveu-se uma civilização que se expandiu por toda a bacia do Mediterrâneo oriental e influenciou, posteriormente, na formação da cultura grega. As principais fontes documentais sobre Creta são os vestígios arqueológicos. As escavações de palácios e dos objetos encontrados permitiram fazer uma idéia das características arquitetônicas de suas construções e de seus conhecimentos técnicos, bem como dos contatos culturais que mantinham com outros povos. Os cretenses desenvolveram requintados trabalhos em cerâmica e vidro, tinham comércio marítimo bem desenvolvido e mantiveram relações comerciais até com o Egito. Entre os séculos XVI a XV a.C., sucessivas levas de povos vindos da atual Rússia meridional, denominados aqueus, entraram na Grécia e construíram outro padrão cultural daquele existente até então. Dessa fase são exemplos as cidades de Micenas e Tirinto. Os invasores trouxeram consigo o uso do cobre e logo aprenderam a metalurgia do bronze. Após se fortalecerem militarmente, dominaram importantes cidades cretenses, como Cnossos. O tipo de civilização que os aqueus desenvolveram chamou-se micênica, e seus vestígios foram encontrados em vários lugares. A descida dos migrantes gregos nos Bálcãs e seu estabelecimento definitivo na península quebram o quadro de homogeneidade entre o continente e Creta. As cidades cretenses formaram-se em torno de palácios, que funcionavam como sede do governo e eram construídos de forma a abrigar a administração da cidade e de todas as atividades pelas quais o governante era responsável. Em sua maioria, os palácios eram fortificados, principalmente a partir do século XIII a.C., segundo a datação estabelecida pelos arqueólogos. De acordo com Pedro Paulo Funari (1994, p.5),

Esse fato coincide com agressões e pilhagens dos aqueus na costa da Anatólia meridional e de Chipre, segundo registros de documentos

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escritos, entre os quais os relatos gregos da Ilíada, que conservaram a memória de uma coligação micênica contra a cidade de Tróia, mostrando o desenvolvimento do expansionismo militar de Micenas.

Os centros palacianos também serviram de armazenamento de produtos obtidos através de tributação e prestação de trabalho, os quais alimentavam um sistema de distribuição de rações. Todavia, entre 1200 e 1100 a.C., os centros palacianos foram destruídos em uma época de intensa movimentação de populações e das tentativas de invasão do Delta do Nilo pelos povos do mar. Observe no mapa abaixo onde estavam localizados os principais centros palacianos cretenses.

localizados os principais centros palacianos cretenses. Mapa de Creta Durante 1200 a 800 a.C., a escrita

Mapa de Creta

Durante 1200 a 800 a.C., a escrita micênica, chamada de linear A pelos arqueólogos, desapareceu junto com os palácios. A população regrediu antes de se recuperar, no momento em que os contatos do mundo grego com as outras regiões diminuiu. Algumas das localidades que haviam sido sedes palacianas foram abandonadas para sempre, e outras continuaram sendo habitadas, mas sobre novas bases de organização, enquanto regiões antes aparentemente pouco povoadas receberam muitos imigrantes. A distribuição dos centros de poder se regionalizou preparando a pulverização política típica da Grécia das pólis.

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História Antiga

A presença dessas referências despontaram a partir do século XII a.C., quando ocorreram novas invasões, vindas do norte, de povos aparentados com os aqueus, porém mais agressivos: os dórios. Eles destruíram grande parte das cidades micênicas e provocaram o deslocamento da população atacada para outras regiões. Esse fato inaugurou uma nova fase da história da Grécia denominada de Idade das Trevas ou período Homérico, uma fase ainda pouco conhecida. Todavia, com a chegada dos dórios, que representa a última onda de chegada dos invasores à Grécia, essa estrutura social mudou, porque eles possuíam uma forma de organização social tribal muito diferente da palaciana, inclusive com uma experiência religiosa mais livre das influências do sincretismo religioso micênico. Assim, um mundo novo se prepara por meio da lenta difusão da metalurgia do ferro e do progresso técnico que vai elevar consideravelmente o nível das forças produtivas. No conjunto era um tipo de sociedade que pouco tinha em comum com a Grécia posterior das cidades-estados. A religião micênica tem um peso muito grande da antiga religião egéia, proveniente do Neolítico e das influências da Anatólia, sendo que os conquistadores gregos também contribuíram para este sincretismo religioso. Nela abundam os demônios e os gênios ligados a diversos animais e à fertilidade. Em relação à organização do culto, os tabletes micênicos, as principais fontes para a história dessa civilização nos informam a respeito da utilização de uma grande variedade de oferendas aos deuses, com destaque para o incenso e os óleos típicos dos cultos orientais. Entretanto, essas mesmas fontes nada mencionam a respeito da realização de práticas de sacrifícios. Os principais deuses micênicos eram Poseidon (o deus mais importante do Panteão), Zeus, Ares, Dionísio, Hermes, Hera, Artêmis, Atenas e Wanax. Como muito das forças essenciais são uma continuidade da religiosidade neolítica, as grandes deusas são o símbolo de fecundidade, fertilidade e vida eterna. Nesse contexto têm grande importância os temas do casamento sagrado como fonte de renovação do universo, como também a figura da Grande-Mãe, representada junto a animais como a serpente e as feras selvagens, encarnações das forças vividas da

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natureza, junto a árvores ou a colunas, ligadas também a locais, como o alto de montanhas ou as cavernas. O touro guarda o valor mediterrânico tradicional de força reprodutora. Os tabletes micênicos também possibilitam conhecer as relações entre religião e a estrutura do Estado, onde há também o desenvolvimento da prática de doação de oferendas que, neste caso, possui dois objetivos:

1º) parte que se destina ao consumo do deus - tem por fim a manutenção da elite sacerdotal que apóia o rei (WANAX) no seu papel de ocultador dos antagonismos sociais;

2º) o que é estocável (ouro, objetos de luxo) - representa a forma de acumulação de riquezas provenientes da extração do excedente, ou seja, a sobra. Porém, essa estrutura começou a mudar. Veja como isso aconteceu, no próximo item.

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Termo grego

usado para

designar casa.

1.2 Do oikos a pólis

Como você viu anteriormente, com a chegada dos dórios em território grego, mudanças significativas aconteceram nesse espaço geográfico, ocasionando a formação de uma nova estrutura político-econômico- social. A nova sociedade se constituiu a partir de pequenas comunidades de origem micênica, denominadas de oikos, que compreendiam um

micênica, denominadas de oikos , que compreendiam um senhor, seus familiares, seus escravos, pessoas comuns que
micênica, denominadas de oikos , que compreendiam um senhor, seus familiares, seus escravos, pessoas comuns que

senhor, seus familiares, seus escravos, pessoas comuns que de alguma forma trabalhavam para o proprietário, seus aliados, parentes e hóspedes. Tudo e todos viviam em função do oikos. Os produtos fabricados ou colhidos para o consumo eram armazenados e depois distribuídos pelo chefe (senhor), conforme as necessidades. De acordo com Pedro Paulo Funari (1994, p. 7), nesse momento da história da Grécia,

o comércio era escasso e se resumia a adquirir objetos não produzidos pela comunidade através de um sistema no qual o gado era o valor de troca. Não havia moeda e as trocas realizadas não continham em si a idéia do lucro, tão comum às

História Antiga

sociedades que vivem do comércio. O ganho sobre outra pessoa só era permitido na guerra, quando se praticava o saque. As regras de repartição do botim (o produto do saque) seguiam o princípio da igualdade entre os guerreiros, sorteando partes iguais para cada um, embora privilegiassem o rei, que chefiava a expedição. Este recebia duas partes, podendo escolhê-las previamente.

Dentre as influências dos recém-chegados na península Balcânica e depois na ilha de Creta, destaca-se a língua, que vai se impor rapidamente ao conjunto da região, de tal forma que os primeiros documentos escritos no continente serão em grego, língua dos conquistadores. Em 1750 a.C., observa-se uma evolução que tende a reforçar a organização monárquica numa reestruturação do sistema palaciano. Tudo isso eclode no período do Bronze Recente (1580-1100) com a instalação de monarquias burocráticas em que a escrita (adaptada da escrita cretense linear A) surge como instrumento de controle da sociedade.

O surgimento da pólis ou da cidade-estado se deu com a chegada dos dórios, numa forma revolucionária de organização social que vem substituir a monarquia micênica e depois patriarcal, na transição entre os séculos IX e VIII a.C.

Porém, vale lembrar que a palavra PÓLIS vem da raiz indo-européia encontrada em outras línguas de mesma origem, sempre com o sentido de altura fortificada, cidadela. É um espaço geográfico com dimensão limitada.

Agora você vai saber como tal mudança aconteceu.

Aproximadamente em 800 a.C., as comunidades de aldeia dos tempos homéricos eram organizadas em genos, ou seja, conjunto de homens que decidiram viver dentro de uma comunidade política sob a proteção divina comum da políade, cujo centro da organização social era a família aristocrática, que também se julgava descendente de um herói ou Deus.

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O genos é o núcleo em torno do qual se organizava a “Casa Real” –

família, agregados livres e escravos. Ciro Flamarion Cardoso (1990, p.20) apresenta os seguintes componentes para o genos:

- bens: terras, rebanhos e palácios;

- tesouros: reservas de vinho e alimentos, objetos de metal e tecidos

Os poemas de Homero são Ilíada e a Odisséia.

O

poema de Hesíodo é O tempo e os dias.

preciosos;

 
 

- trabalhadores da coletividade: médicos, profetas e cantores;

- camponeses sem terra.

 

O

autor ainda destaca que, nos poemas Homéricos e no poema de

Hesíodo, o genos era invariavelmente só aristocrático e não há sinais de

propriedade coletiva. Todavia, a construção de cidadelas ou acrópoles, que asseguravam

a

defesa, fez crescer em torno delas uma cidade como sede do governo

para toda uma comunidade. Em geral, o aparecimento das pólis, segundo Cardoso (1990, p. 21), esteve ligado a um movimento de concentração

populacional e fusão política, mediante dois processos: a simpolitia, que era a união de diversas coletividades para a formação de outra maior,

e

o sinecismo, fenômeno semelhante quando, paralelamente, dava-se

o

transplante de boa parte dos habitantes para uma aglomeração mais

importante ou para uma cidade essencialmente fundada para tal. Nesse sentido, pode ser apresentada a opinião do historiador francês Fustel de Coulanges a respeito da formação da pólis grega ou da cidade- estado: ela não era uma reunião de indivíduos e sim uma confederação de grupos pré-existentes. Para esse historiador, o que dava forma a cada um desses grupos, bem como a confederação deles numa cidade-estado, era o culto, ou seja, uma concepção gentílica e religiosa acerca da origem da cidade-estado. De acordo com Cardoso (1990), essa concepção não é aceitável.

Assim, a noção de pólis como uma comunidade de

cidadãos não surgiria ainda. As oposições cidadão/estrangeiro

e livre/escravo, típicas posteriormente das pólis gregas, só existiam embrionariamente, sem clareza.

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História Antiga

Mesmo com as mudanças ocorridas no espaço organizacional das aglomerações urbanas gregas, a figura do rei não desaparece totalmente. Essa referência pode ser constatada em Esparta, onde prevalecem na administração pública dois reis que se integram numa estrutura mais vasta, e em Atenas, quando o rei passa a exercer funções religiosas e é assimilado a um dos magistrados da cidade.

Contudo, perceba, caro aluno: a principal novidade da pólis é que se trata de uma forma republicana e colegiada de governo, e não mais de uma forma monárquica.

Ao que tudo indica, as primeiras pólis organizaram-se na Ásia Menor, para onde emigraram jônios e eólios, expulsos da Grécia pelos invasores dórios, espalhando-se para outras regiões do mundo helênico.

Entretanto, somente na Grécia do período arcaico é que o sentido de pólis vai como que deslizar para um sentido mais geral de conjunto da cidadania. Isso só foi possível historicamente com o fim das monarquias centralizadas e burocráticas do período micênico.

Vale lembrar que, ao surgirem e se desenvolverem em algumas regiões e não em outras, se acentuou um desenvolvimento desigual que provavelmente tinha raízes bem mais antigas (CARDOSO, 1990, p.22). Assim, afirma-se que na Grécia Antiga existiram cidades-estados instáveis e efêmeras. As documentações mais completas sobre o assunto afirmam que as cidades-estados que se destacam são Atenas, Esparta e Corinto. Tanto uma quanto as outras atravessaram conflitos sócio-políticos graves, passaram por transformações numerosas, conheceram séculos de existência estável com forte sentimento de identidade entre os cidadãos e com foros inequívocos de legitimidade. As pólis diferiam entre si em relação à população, extensão territorial, disponibilidade de recursos e formas de organização. Naquela época,

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poucas tinham mais de 20.000 habitantes: Siracusa, Acragas (Agrigento, na Sicília) e Atenas. Contudo, de acordo Cardoso (1990), a Pólis Aristocrática se constitui plenamente caracterizada com o desaparecimento da monarquia substituída por magistrado eleito pela nobreza de sangue, conselho que era órgão consultivo do rei. Tal evolução se deu na segunda metade do

século VIII e início do seguinte, o que significou a subordinação do genos

e do oikos à comunidade. Outro elemento que pode ser acrescentado a esse momento está vinculado ao aumento da população, em 800 a.C. Por exemplo, a população

da Ática, onde a cidade de Atenas está localizada, quadruplicou entre 800 e 750 a.C., quando os aristocratas apoderaram-se das terras melhores

e mais extensas. Do ponto de vista topográfico uma pólis é composta por:

- Acrópole: colina fortificada e centro religioso, ou seja, um lugar

topográfico que conserva um grande prestígio, sobretudo religioso.

- Ágora: cidade baixa ou Ásty.

- Porto natural.

- Aldeias, khóra ou território rural.

Para Louis Gernet (1976), a pólis compreendia um território cívico, formado pela integração de centros urbanos e zonas rurais que apresentassem coerência entre si, num processo compreendido por sinoecismo. Todavia, o ideal grego de relações internacionais era o da cidade livre e soberana. Mas, para Vernant (1972), o aparecimento do setor público na pólis, além de constituir-se por si mesmo, em grande inovação, provocou o aparecimento de uma série de outras inovações, como a vida política, a publicidade da vida e o domínio da palavra. Para Ciro Flamarion Cardoso (1985, p.12), são dois os mecanismos ideológicos presentes na cidade-estado grega que sustentam a legitimidade do Estado:

1º) A religião: cada cidade-estado tinha suas divindades protetoras,

e a blasfêmia contra elas era crime de morte; a punição era incumbência do governo, exatamente como no caso de qualquer outra ofensa civil ou criminal.

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História Antiga

2º) A crença: comum a gregos e também a romanos, independia dos regimes políticos, já que na cidade-estado governavam não os homens, mas as leis. Cardoso (1990, p.7-8) também apresenta algumas características comuns das cidades-estados clássicas:

1. Ponto de vista formal: composto por uma ou mais assembléias,

um ou mais conselhos escolhidos (quase sempre anualmente) entre os homens elegíveis.

2. A participação direta dos cidadãos no processo político: a noção

de cidade-estado implica a existência de decisões coletivas, voltadas depois de discussões nos conselhos ou assembléias, o que era obrigatório para toda a comunidade. Isso quer dizer que os cidadãos com plenos direitos eram soberanos.

3. A inexistência de uma separação absoluta entre os órgãos de

governo e de justiça e o fato de que a religião e os sacerdócios integravam o aparelho do Estado.

4. A cidade-estado desconhecia o princípio da separação dos poderes que está presente nas repúblicas modernas e também nas corporações fechadas.

1.3 Colonização Grega

Paralelamente ao desenvolvimento da pólis, os gregos foram

fundando outras cidades-estados, estendendo seu território original do Mar Negro ao oceano Atlântico. Empreenderam longas viagens através

de todo o mar Mediterrâneo e entraram em contato com as populações

indígenas, fundando várias colônias pelo litoral.

Era o que eles chamavam apoikía (lar distante), que os historiadores traduziram por colônias, embora essas cidades fossem comunidades política e economicamente independentes. Essas colônias tinham com

a metrópole (que significa “cidade-mãe”) vínculos principalmente

sentimentais e religiosos, uma vez que, para a mentalidade grega, o

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primordial para a construção de uma cidade era a proteção dos deuses. Isso representava a escolha de um deus e dos sinais de sua presença, como o fogo sagrado e os instrumentos através dos quais ele se comunicava com os homens, os oráculos, que deveriam ser originários de um centro mais antigo. Porém as relações comerciais constituíam o principal elo entre a colônia e a metrópole. Uma colônia grega não era, como entendemos modernamente, uma dependência, um anexo do Estado colonizador. Era um Estado autônomo, com leis, magistrados e política próprios.

Não esqueça!

Não há laços políticos entre metrópoles e suas colônias. A concepção moderna de um império colonial, que depende do Estado colonizador, assegurando a grandeza política e a prosperidade econômica da metrópole, só vai aparecer em Atenas no século V.

De acordo com Pedro Paulo Funari (1993, p.09), muitos historiadores contemporâneos entendem que as necessidades comerciais e o grande crescimento demográfico são a causa para esse movimento de expansão da colonização dos gregos. Mas há discordância quanto aos motivos comerciais, pois alguns estudiosos constataram que muitas das regiões colonizadas não tinham nenhum atrativo comercial para os gregos – como foi o caso da Sicília, que só mais tarde se tornou grande produtora de trigo e celeiro de Roma. Observaram também que bons portos, excelentes pontos para o desenvolvimento da atividade comercial, não foram ocupados por nenhuma colônia grega, indicando que nem sempre o objetivo mercantil era o principal. Esses pesquisadores acreditam que o motivo da expansão territorial tenha sido a busca de uma solução para a crise decorrente da explosão populacional que, no século VIII a.C., acarretou o empobrecimento e o endividamento dos pequenos proprietários. A região tinha um solo pouco fértil, pedregoso, montanhoso, que não comportava

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História Antiga

tal crescimento. Esse estado crítico levou a conflitos e movimentos por redistribuição de terras e pelo cancelamento das dívidas, causando a dispersão das populações das cidades gregas e tornando-se fonte de conflitos sociais. A primeira colonização grega foi conseqüência das migrações que ocorreram por volta do século X, na bacia oriental do Mediterrâneo, e tinha como domínio as ilhas do mar Egeu e as costas da Ásia Menor. Foi no período conhecido tradicionalmente como Tempos Homéricos. Um segundo período de expansão vai do século VIII ao VI, quando

a colonização resultou da prosperidade comercial das cidades que

procuravam expandir-se, ou então das revoluções internas que obrigavam os membros dos partidos vencidos a se exilarem. Nesse momento a direção foi para o ocidente, no sul da Itália, onde os gregos criaram a Magna Grécia. Assim, a partir do século VIII a.C., os gregos começaram uma grande expansão colonizadora, um movimento que continuou durante dois séculos, aproximadamente, conhecido como o segundo movimento colonizador. Vale lembrar que o primeiro aconteceu com os jônios e outros grupos que se deslocaram em grandes contingentes para a Ásia menor, quando da invasão dos dórios. As colônias se espalharam ao longo da costa do Mediterrâneo, do Mar de Mármara, do Ponto Euxino (Mar Negro) e do Mar Egeu, tendo seus pontos de origem na Grécia Balcânica. As metrópoles mais importantes foram Mileto (Jônia), Corinto e Mégara (Grécia Européia) e Cálcis, na Ilha de Eubéia (no Mar Egeu). Observe, no mapa, a localização dessas regiões. Dentre as inúmeras colônias fundadas pelos gregos serão destacadas algumas. As do oeste do Mediterrâneo localizavam-se na Ilha da Sicília e no Sul da Itália. Pela importância dessa colonização, povos da antiguidade denominaram-na de Magna Grécia. Nos séculos VII e VII a.C., aí surgiram várias colônias: Cumes, a mais antiga, da qual se originaram outras, sendo Nápolis a mais importante; Tarento e Siracusa,

na Sicília. Avançando na direção ocidental, os gregos estabeleceram colônias

no sul da França (Massília, atual Marselha, e Nicae, atual Nice) e Sudeste da Espanha (Mainaké, atual Málaga).

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No norte da África, foram fundadas Náucratis, no Delta do Nilo, e Cirenaica, na Líbia atual. Ao contrário do que ocorreu no sul da Itália, as populações norte-africanas opuseram aos gregos séria resistência. Localize algumas dessas colônias nos mapas apresentados a seguir.

algumas dessas colônias nos mapas apresentados a seguir. Mapa das colônias gregas No final do século

Mapa das colônias gregas

No final do século VII, com a evolução das cidades-estados para a condição democrática, uma melhor distribuição de terras e a extensão dos direitos políticos a outras pessoas enfraqueceram a corrente migratória. Somada a isso, a resistência dos fenícios e dos etruscos, que disputavam o domínio do litoral do Mar Negro e do Mediterrâneo Ocidental, interrompeu a expansão marítima grega. Observe o que Glotz (1948, p.110-111) escreveu a respeito da colonização grega:

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Do Cáucaso aos Pirineus, os gregos mantiveram, em territórios relativamente extensos, em aglomerados de população densa e mesclada, esses inúmeros tipos de cidades autônomas e originais, onde tudo favorecia as experiências sociais e os progressos políticos. Dos sítios onde se instalaram, continuaram a irradiar a sua civilização pelos países circunvizinhos. Já não tinham que temer a morte por asfixia devido à falta de espaço porque possuíam todas as terras de que necessitavam, podiam abastecer-se de

História Antiga

trigo nos países mais produtivo, dominavam os mercados onde se encontravam as riquezas de todo o mundo.

Como conseqüência desse intenso movimento de colonização, muitas cidades gregas se tornaram extremamente dependentes do comércio marítimo.

1.4 O caminho para a democracia

A democracia se consolidou em Atenas. Foi um caminho com muitas lutas, desavenças e aspirações. Diz o historiador Pedro Paulo Funari (1994, p.10-12) que a primeira forma de governo em Atenas foi uma monarquia na qual o rei, um chefe militar, assumia toda a responsabilidade pelas decisões tomadas, acumulando as funções de chefe militar, político e religioso. Essa forma de governo foi substituída por outra na qual as decisões cabiam a um pequeno grupo, ou seja, constituiu-se uma aristocracia, que quer dizer “governo dos melhores”. Segundo o autor, a aristocracia funcionava da seguinte maneira: o rei (basileus) continuou a existir, mas sua função era apenas a de presidir cerimônias religiosas. O governo estava nas mãos de um grupo de pessoas denominadas eupátridas (que quer dizer os bem-nascidos), reunidas numa assembléia, o areópago. Para conduzir os assuntos da justiça e do exército eram designadas duas pessoas. O responsável pela justiça era denominado de arconte, e o chefe militar, polemarco. Porém, o abuso de poder da aristocracia provocou revoltas e reivindicações entre os excluídos das decisões políticas: os artesãos e comerciantes enriquecidos e os pequenos proprietários explorados. Essas reformas acabaram por transformar a forma de governo aristocrático em uma democracia, através de um processo. Há a exigência de leis escritas por parte da população, pois até 621 a.C. elas eram consuetudinárias e transmitidas oralmente, o que resultou

consuetudinárias e transmitidas oralmente, o que resultou em uma série de medidas promovidas pelos legisladores. Foi
consuetudinárias e transmitidas oralmente, o que resultou em uma série de medidas promovidas pelos legisladores. Foi
consuetudinárias e transmitidas oralmente, o que resultou em uma série de medidas promovidas pelos legisladores. Foi
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consuetudinárias e transmitidas oralmente, o que resultou em uma série de medidas promovidas pelos legisladores. Foi
consuetudinárias e transmitidas oralmente, o que resultou em uma série de medidas promovidas pelos legisladores. Foi

em uma série de medidas promovidas pelos legisladores. Foi Drácon quem promulgou as primeiras leis, mas estas eram tão severas que só fizeram aumentar o descontentamento popular. Até os dias de hoje a expressão lei draconiana refere-se a uma legislação rigorosa e repressiva para a população.

São leis

baseadas nos

costumes de

comunidades.

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UNIDADE 2

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Sólon, por volta de 592 a.C, foi eleito como arconte com plenos poderes, encarregado de promover reformas políticas e sociais. Isso porque a cidade de Atenas estava em uma grave crise social. Para Funari (1994), as mudanças feitas na legislação por Sólon não eliminaram as diferenças já existentes entre as classes sociais atenienses, pois através delas o poder ficou distribuído de acordo com as riquezas e, dessa forma, o dinheiro substituiu a terra como fonte de poder. Sua reforma estabeleceu quatro classes de cidadãos para Atenas, de acordo com a renda:

- pentakosiomédimnoi: capazes de possuir o equivalente a 500 medidas de grãos;

- hippeîs ou cavaleiros: 300 medidas;

- zeugîtai: 200 medidas;

- thétes: sem rendimento, a não ser o salário.

Apesar das reformas promovidas por esse legislador, as tensões persistiram, favorecendo o aparecimento dos tiranos, tanto em Atenas quanto em outras cidades. Os tiranos eram aristocratas que tomavam o poder, sustentados por forças militares mercenárias e com o apoio das classes inferiores, às quais prometiam favorecer, diminuindo os privilégios da aristocracia. A tirania, governo de pessoas baseado na vontade de seu detentor, era sustentada por tropas mercenárias, com o apoio das massas populares. Como era instalada à revelia da ordem aristocrática ou oligárquica anterior, era considerada ilegal. Um desses tiranos, Psístrato, e seus filhos, Hípias e Hiparco, tomaram o poder de 561 a 510 aC, mas a partir dessa data a tirania foi banida de Atenas, com a recomposição da atividade legislativa. Outro grupo aristocrata, chefiado por Clístenes, tomou o poder. Esse legislador, eleito arconte em 506 a.C., fez uma reforma completa da constituição e atacou diretamente o princípio do direito familiar, que Sólon deixara intocado, e redividiu o território ateniense com o intuito de misturar pessoas de diferentes classes sociais. Criou dez tribos, todas providas de antepassados e formadas por um número igual de demói (ou paróquias) não contíguas. Dividiu a Ática em três zonas: urbana, interior e costeira; cada uma das novas tribos

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continha demói urbanos, do litoral e do interior. Conseqüentemente, cada subdivisão era uma amostra da totalidade.

A partir de então, pelo fato de que cada tribo incorporava

agricultores e montanheses, artífices e barqueiros, a antiga base eleitoral da aristocracia ficou minada. O caráter das tribos tornou-se territorial e não mais gentílico, e as decisões seriam tomadas em grande assembléia integrada por parte dos cidadãos de diversas tribos, representantes de interesses de diversos setores. Nesse sistema, o órgão mais importante era a Eclésia (assembléia do povo), da qual podiam participar todos os cidadãos, e o Conselho dos Quinhentos, sorteado entre os cidadãos. A esse regime político foi dado o nome de democracia, isto é, o governo dos demói. Significava o conjunto do povo, mas não o conjunto da população, a qual era composta por metecos (estrangeiros), mulheres, escravos e outros despossuídos, que não eram considerados cidadãos e, portanto, não tinham qualquer direito à participação política. No entanto,

nos fins do período arcaico e início do século V a.C., uma parte significativa das pólis gregas já tinha adotado esse regime. Embora essa idéia possa parecer estranha para o homem moderno, a sociedade grega combinava escravismo e democracia. Para os cidadãos,

a liberdade era respeitada até as últimas conseqüências; porém, para a

enorme quantidade de escravos da Ática, não existia qualquer tipo de

respeito aos direitos humanos: ser escravo era ser propriedade jurídica de outro homem. Portanto, o escravo era obrigado a trabalhar para seu dono no campo, nas minas, nas pedreiras, no artesanato, no serviço doméstico. Ser escravo era ser mercadoria, podendo, dessa forma, ser vendido, comprado, alugado, transferido ou morto.

Os gregos, de forma unânime, não concebiam sua sociedade sem a

presença do escravo. Os escravos eram o tipo de propriedade necessária,

a melhor e a mais dócil, na opinião de Pedro Paulo Funari (1994, p. 34).

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Universidade Aberta do Brasil Escravos trabalhando Sua origem era diversa, porém freqüentemente eram provenientes do co-

Escravos trabalhando

Sua origem era diversa, porém freqüentemente eram provenientes do co- mércio de escravos entre povos vizinhos: trácios, sírios, ilírios, citas, lídios, ou, ainda, os prisioneiros de guerra. Eles exerciam as mais diferentes funções na sociedade grega: se-

cretários ou escriturários, trabalhavam no campo, nas minas, no artesanato e no serviço doméstico. Não se pode esquecer de que nem todos os trabalhos eram feitos por escravos, pois os cidadãos gregos eram agricultores, marinheiros, comerciantes, artesãos entre outras coisas. O autor apresenta a seguinte relação entre a população livre e os escravos:

No que se refere a sua proporção sofria variações de cidade para cidade, por exemplo, em meados do século V a.C., havia na cidade de Corinto 165 mil homens livres e 100 mil escravos; na Ática no mesmo período, havia 135 mil homens livres e 100 mil escravos. No campo, eram poucos os escravos, ao contrário do que ocorria nas cidades, nas oficinas de artesãos. No ramo da construção, nas fábricas de armas, na fiação de tecidos e nas sapatarias trabalhavam tanto homens livres quanto escravos, fazendo as mesmas tarefas e com a mesma remuneração, que no caso do escravo era paga ao proprietário que o havia alugado. Nessas atividades era raro encontrar mais de cem escravos. A maior parte deles se concentrava nas minas de prata e mármore, onde chegavam a mil. (FUNARI, 1994, p.35).

Assim, não esqueça:

Esta é uma contradição presente na história grega, que une as mais altas conquistas do espírito humano à justificação da ausência total da liberdade humana.

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1.5 O apogeu e a crise do Século V das cidades gregas

O século V a.C. é o período da pólis clássica. Ela é assim chamada porque representou uma época em que a cultura grega atingiu seu maior esplendor, e as instituições adquiriram seus contornos mais expressivos. Seu início, porém, foi marcado pelo confronto entre gregos e persas, nas chamadas Guerras Greco-Pérsicas ou Guerras Médicas. Os persas, considerados bárbaros pelos gregos, tinham iniciado, desde o século VI, um movimento de expansão pela Ásia Menor. Por volta de 500 a.C., já tendo conquistado um vasto território, investiram sobre a Grécia continental. As cidades gregas se uniram para enfrentar o inimigo comum. Observe no mapa a seguir o percurso dessas lutas.

comum. Observe no mapa a seguir o percurso dessas lutas. Mapa das guerras médicas Após um

Mapa das guerras médicas

Após um longo período de lutas, os persas, primeiramente chefiados pelo rei Dario e depois por Xerxes, foram sofrendo sucessivas derrotas até que, em 449 a.C., firmaram com os gregos a “Paz de Calias”. Ao longo das lutas, por volta de 478 a.C., as cidades gregas aliadas organizaram-se em uma confederação, a Liga de Delos, sob a liderança de Atenas. Cada cidade deveria contribuir com um fundo comum de recursos, em navios, homens ou dinheiro.

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Porém o antagonismo entre as cidades gregas e a desagregação política eram características dominantes: o período compreendido entre 431 e 338 a.C. foi marcado por diversos conflitos entre elas. Em especial, destaca-se a rivalidade entre Atenas e Esparta, que culminou na Guerra do Peloponeso. Essa guerra, que durou aproximadamente 30 anos, envolveu praticamente todas as cidades gregas, que se aliaram a Atenas ou a Esparta.

Veja bem! A velha rivalidade entre as duas pólis, Atenas e Esparta, era uma expressão da própria identidade grega: ligas, confederações e alianças não significavam unidade, pois as cidades continuavam se percebendo como autônomas. É possível dizer que o conflito foi o produto do embate entre duas concepções de sociedade, economia e política que arrastou as demais pólis e marcou o colapso da cidade-estado grega como “força criadora, que modela e preenche as vidas de todos os seus membros”. (KITTO, 1980, p. 253).

as vidas de todos os seus membros”. (KITTO, 1980, p. 253). Péricles Antes do colapso interno,

Péricles

Antes do colapso interno, Atenas atingiu seu esplendor sob a administração de Péricles (495-429 a.C.), de origem nobre. As suas idéias democráticas o levaram ao partido popular, cuja chefia exerceu de 461 até sua morte em 429. Grande orador, amante das letras e artes, era inimigo da violência. Sua administração foi tão significativa que o século V a.C. recebeu seu nome: “O século de Péricles”. Uma das suas medidas foi providenciar a transferência do tesouro de Delos para a cidade de Atenas, em 454 a.C.

Vale lembrar que tais recursos eram provenientes do envio de outras cidades-estados para a Liga ou a Confederação de Delos. Sua administração privilegiou o poderio comercial e marítimo, os avanços democráticos e o desenvolvimento cultural e artístico.

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História Antiga

Todavia, tudo isso caiu por terra com a Guerra do Peloponeso, levando não só a cidade de Atenas, mas também as demais cidades gregas a um processo de decadência, possibilitando a entrada de invasores que, nesse caso, eram os macedônios.

1.6 Domínio macedônio e a cultura helenística

Até a época de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), as pequenas comunidades independentes, as pólis, tinham formado a base da vida grega. A desestruturação e a fragilidade das pólis tornaram a Grécia uma presa fácil para a Macedônia, reino situado ao norte da Península Balcânica (veja no mapa) que, aproveitando-se da situação, invadiu o território grego. As disputas internas, entre outras coisas, permitiram que toda a Grécia fosse submetida por Felipe da Macedônia. Seu filho e sucessor, conhecido como Alexandre, o Grande, foi a figura de destaque do período. À frente de um poderoso exército, conquistou o grande império Persa, o Egito, a Babilônia e parte da Índia, construindo o maior império conhecido até então, como demonstrado no mapa abaixo.

construindo o maior império conhecido até então, como demonstrado no mapa abaixo. Império de Alexandre 81

Império de Alexandre

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A cultura grega foi amplamente difundida, e esse processo ficou conhecido como helenismo. Morto prematuramente aos 33 anos, em 323 a.C., Alexandre não teve tempo para a estrutura do enorme território que conquistara. Com as conquistas macedônicas, o mundo grego foi transformado

e sua área ampliada. O grau de intersecção cultural é dificilmente

mensurável e variou de região para região. Quando refletimos sobre

a construção e a desconstrução do Império de Alexandre Magno,

percebemos que ambas contribuíram para a desintegração do mundo das pólis. Isso provocou rebatimentos na arte grega, que vai ser buscada em outros espaços e sob novos parâmetros. A essa nova conformação cultural deu-se o nome de período

helenístico (séculos III a I a.C.), para distingui-lo do helênico, que era grego. Mas o que foi a cultura helenística e que aproximações apresentou com a arte grega propriamente dita? De forma suscinta, pode-se dizer que foram paulatinamente abandonados os princípios básicos da harmonia rigorosamente orgânica, do movimento em potência, para representar na escultura o movimento desencadeado pela influência asiática. O gosto pelo colossal, a estética do dramático, a representação da velhice, da fealdade e da infância e a multiplicação de retratos individuais marcaram a produção artística do período. Aos poucos a arte se torna mais uma exibição de grandeza dos governantes do que a expressão democrática dos cidadãos. Um dos grandes centros de difusão da cultura helenística foi a cidade de Alexandria, no Egito. Obras públicas e particulares, palácios

e templos foram construídos em grande quantidade. O farol, o museu e

a biblioteca de Alexandria, o Colosso de Rodes, a Vênus de Milo foram algumas das obras que marcaram esse período.

1.7 A cultura helênica

As condições socioculturais criadas com o advento da pólis grega possibilitaram o desenvolvimento de um novo pensar na passagem do século VII ao VI a.C. Não se trata de determinar datas e limites, mas de perceber nas diversas manifestações do povo grego uma nova atitude.

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História Antiga

De forma geral, podemos dizer que a Grécia contribuiu para a formação da civilização ocidental em pelo menos três aspectos distintos, porém relacionados:

1) com seu próprio processo, em especial nas artes, na política, na religião, no pensamento científico e filosófico; 2) na intermediação com as culturas do Oriente; 3) no embasamento das concepções posteriormente presentes no Renascimento europeu.

Os diversos aspectos da cultura grega fundamentavam-se no conhecimento do homem revelado por ele mesmo. Em busca de um ideal de beleza, procurou sempre subordinar a arte à razão. Ao mesmo tempo, segundo as leis da harmonia, fez a síntese do realismo com o idealismo:

reproduzir a natureza tal qual ela é vista, mas embelezando-a segundo as formas ditadas pela mente.

O panteão grego, bastante conhecido, inspirou manifestações

artísticas das mais diversas ordens. As artes plásticas, o teatro, a

arquitetura, a literatura materializaram-se em obras de grande beleza e refinamento, expressas em templos, santuários, esculturas, celebrações religiosas e outros. As festas gregas significavam sempre ocasiões de relação com os deuses. As Panatenéias eram as festas que homenageavam Atena e se realizavam anualmente. Havia festas em honra a Apolo, as Pianépsias, ou festa das sementeiras, quando lhe era oferecido um prato com favas, legumes, misturados com farinha de trigo. Depois lhe era levado em procissão um ramo de oliveira envolvido em lã e carregado de frutos da primeira safra, o que se considerava um talismã de fertilidade.

O significado dessas festas tinha caráter estritamente religioso,

havendo concursos que os gregos denominavam de areté, no qual estavam presentes várias atividades: atlética, lírica, musical, dramática (tragédia ou comédia). Os prêmios para os vencedores das competições normalmente tinham valores simbólicos, e a maior recompensa era receber honras de herói. Um concurso que só ocorria em festivais era o de teatro, presidido por um sacerdote do culto a Dionísio. Funari (1994, p. 54-5) afirma que os

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festivais eram as únicas ocasiões em que havia representações dramáticas, que tinham sempre o intuito de mostrar a conduta humana e refletir sobre

ela. Ele apresenta os três gêneros de espetáculos teatrais: as tragédias, as sátiras e as comédias. As tragédias apontavam as conseqüências terríveis de um comportamento desmedido, ao qual se dava o nome de hybris. Os três grandes autores trágicos que conhecemos melhor são todos do século

V a.C.: Ésquilo (com as obras Os Persas, Prometeu Acorrentado),

Eurípedes (com Medéia, As Troianas) e Sófocles (com Édipo Rei e a obra Antígona).

A comédia, desenvolvida entre os séculos V e IV a.C., voltou-se para

o cotidiano e satirizava os costumes e as idéias de seu tempo. Aristófanes

(As Nuvens, As Rãs) foi o principal autor. As sátiras e as comédias também tinham função educativa e apontavam o absurdo da condição humana através de personagens

estereotipados e ridículos. A sátira, como as tragédias, nasceu dos cultos

a Dionísio, quando os sátiros dançavam em homenagem ao deus. Mais tarde ela tomou uma forma literária.

A tragédia e a comédia gregas, mesmo conhecidas apenas por meio

de fragmentos, ainda hoje são representadas nos teatros, no cinema e na

televisão de muitos países.

SEÇÃO 2

ROmA: DO LÁCIO pARA O mUNDO

Roma está situada na parte central da Península Itálica, que se alonga até o mar Mediterrâneo. É banhada pelos mares Jônico, Adriático

e Tirreno. O relevo da península assim pode ser apresentado: ao norte, o

maciço dos Alpes, que a separa do restante da Europa e que funcionou, em diversas ocasiões, como barreira contra invasores; no sentido sul-norte erguem-se os montes Apeninos, que dividem a península em duas partes:

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História Antiga

a costa do Tirreno, onde se situam as planícies do Lácio e da Campânia,

e a outra, a costa do Adriático. A arqueologia aponta que a Península Itálica teria sido habitada, entre outros, pelos seguintes povos: úmbrios, latinos, sabinos, volscos, samnitas, organizados em comunidades agrícolas e pastoris. De acordo com Coarelli (1982, p.13)), a situação geográfica de Roma

é excepcional, porém o desenvolvimento de uma civilização só ocorreu

depois de dois acontecimentos históricos: a fundação das colônias gregas na Itália Meridional, na chamada Magna Grécia, e o desabrochar da civilização etrusca que vivia no norte da península. A realeza etrusca contribuiu, sobremaneira, para a formação do sistema cultural e religioso dos romanos, como também forneceu os alicerces sobre os quais Roma ergueu suas instituições políticas e militares. Ou seja, a dominação etrusca não se restringiu apenas à transformação material, mas foi acompanhada de uma fusão cultural entre os etruscos e os romanos.

2.1 A região do Lácio e a Roma Primitiva

Antes da fundação de Roma em 753 a.C., a possibilidade de reconstrução da história da região do Lácio, onde tudo começou, se dá entre os fins da Idade do Bronze e a Idade do Ferro. As fontes indicam que isso teria acontecido no mesmo período em que ocorreu a instalação das primeiras colônias gregas no ocidente: Ichia (780-770 a.C.) e Cumas (750 a.C.). Nessa região, a criação de animais era a forma de atividade econômica, e a sociedade teria como base de organização e estrutura uma classe dirigente guerreira que surgiu como resultado das invasões no final do período do bronze, quando o local, que era habitado pelos latinos e sabinos, sofreu mudanças significativas. Tal situação levou à fixação cada vez maior da população, que abandonava seu habitat disperso e concentrava-se em algumas localidades, formando aglomerações urbanas que passaram a desenvolver atividades agrícolas, com a necessidade de um grupo maior de pessoas para concretizar a produção, mais do que a atividade anterior, que era o pastoreio. Dessa forma, a integração dos antigos clãs familiares em estruturas

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Mesa onde o artesão faz seu trabalho com argila.

amplas provocou transformações, com reflexos na divisão dos ofícios, como

resultado do surgimento de novas técnicas e de novos instrumentos, como,

por exemplo, o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento

o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento
o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento
o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento
o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento
o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento
o trono do ceramista. Esse movimento de desenvolvimento produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento

produtivo incidiu sobre o comércio, levando ao aumento da produção ligada às trocas. Juntamente com tais fenômenos econômicos aconteceram fenômenos sociais de grande importância: com o surgimento de um novo tipo de relação de propriedade, marcadamente privada, houve a projeção de uma aristocracia que se aglutinou ao redor da terra. A concentração da terra, da riqueza e a emergência de uma aristocracia aconteceram entre 758 e 700 a.C. Nessa fase, a sociedade, dividida em classes, ainda era embrionária e estava composta por uma aristocracia dominante e clientes, ao lado de algum tipo de escravidão. Foi quando também surgiu uma nova classe, a do soldado-camponês, que passou a usar o arado e a lança. Tanto a pequena como a grande propriedade produziram para vender, e não mais unicamente para o consumo próprio. Dessa forma, a partir desse período, nota-se a passagem de uma agricultura, que era voltada para uma economia natural, para outra, ligada à venda de excedente.

que era voltada para uma economia natural, para outra, ligada à venda de excedente. 86 As

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As sete colinas

História Antiga

Até aqui você recebeu informações a respeito da região do Lácio, na fase que antecedeu a fundação de Roma, pois historicamente a cidade foi fundada por volta de 753 a.C.,entre as sete colinas situadas na margem esquerda do rio Tibre, a aproximadamente 25 km de distância do mar Tirreno (veja no mapa ao lado). No início, era uma pequena aldeia de pastores que, pouco a pouco, transformou-se em uma grande cidade. De acordo com Regina Maria da Cunha Bustamante (2001, p.331), “a fundação da cidade de Roma foi abordada por diversos autores antigos desde fins do século III a.C. A tradição oral sobre a origem se transformou em discurso escrito, em verso inicialmente e depois em prosa, resultando numa diversidade de versões lendárias”. Uma das versões diz respeito à fuga de um grupo de troianos, chefiados por Enéias, que abandonou sua terra natal após sua destruição. Ao chegar à Península Itálica, o grupo teria fundado um povoado, a futura cidade de Roma. Outra lenda menciona o rapto de mulheres sabinas pelos latinos. Após uma guerra entre esses dois grupos, uma aliança foi celebrada, resultando na união de sabinos e latinos num único povoamento. Menciona-se também a lenda em torno dos irmãos Rômulo e Remo, que você vai conhecer a seguir:

Roma foi fundada por dois irmãos, Rômulo e Remo, que descendiam do troiano Enéas, que se refugiara na Itália após a destruição de Tróia pelos gregos. Os gêmeos eram netos de Numitor, rei de Alba Longa, destronado por seu irmão Amúlio. Este colocou os gêmeos numa cesta de vime e os atirou no Rio Tibre. A cesta encalhou no monte Palatino e os irmãos foram salvos e amamentados por uma loba sendo, posteriormente, recolhidos por um casal de pastores. Rômulo e Remo cresceram e, tomando conhecimento de sua origem, retornaram a Alba Longa e depuseram Amúlio, recolocando no trono seu avô Numitor. Em seguida, voltaram ao monte Palatino e ali fundaram a cidade de Roma. Segundo a tradição, Rômulo matou Remo e, mais tarde, desapareceu durante uma tempestade (COSTA & MELLO, 1993, p.141).

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Universidade Aberta do Brasil Rômulo e Remo – a lenda da loba Ao lado, você pode

Rômulo e Remo – a lenda da loba

Ao lado, você pode observar a re- presentação criada a respeito dessa lenda, que foi a mais difun- dida, sendo descrita por diversos autores, que apresentaram va-

riantes diferenciadas

a seu respeito. Dentre aqueles que a registraram encontramos: Tito Lívio

(em História de Roma, escrita em meados do século I a.C.), Dionísio de Halicarnasso (em História Antiga de Roma,produzida em fins do século

I a.C.) e Plutarco (em Vidas Paralelas, escrita em meados do século I e início do século II d.C.). De acordo com Bustamante (2001, p.331-2),

os relatos escritos sobre a origem de Roma

surgiram no século III a.C., um período de afirmação da hegemonia romana na Península Itálica e no Mediterrâneo, e foram retomados com

vigor dois séculos mais tarde, quando a sociedade romana, dilacerada pelas guerras civis do final

da República, procurava resgatar a sua unidade,

ou melhor, a sua identidade coletiva agora sob a égide do poder centralizado dos Princeps.

Através de um trecho extraído da obra de Henri Bornecque e Daniel Mornet (1976, p.53-54), você vai conhecer um pouco mais a respeito daquela que foi a “capital do mundo antigo”:

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A Roma primitiva, a de Rômulo, limitava-

se ao tabuleiro do PALATINO, de forma aproximadamente quadrada (Roma quadrata):

era circundada por uma faixa de terreno sem construção, o pomerium, que constituía o recinto sagrado de Roma, onde os magistrados exerciam sua autoridade, porque era o único em que se podia sempre tirar os auspícios. O pomério foi

estendido sucessivamente por Sérvio Túlio, Silas, Cláudio, Nero, Vespasiano, Trajano e Aureliano. Sérvio Túlio aumentou o recinto da cidade; elevou um novo muro que desapareceu pouco a pouco

no tempo dos imperadores sob as construções.

Aureliano ergueu um novo muro que compreende

História Antiga

cerca de 1.400 hectares, ou seja, um pouco mais do que a superfície da Roma atual, cerca de um

quinto da superfície de Paris. No fim da realeza a população já é considerável; na época de Cícero ela é cerca de um milhão; por volta de 150 de nossa era, ela conta entre 1.500.000 e 2.000.000 de habitantes. Até os primeiros tempos do império, a cidade, construída às pressas e sem ordem depois da destruição dos gauleses, estava longe de ser suntuosa. A maioria das ruas eram tão estreitas

e tortuosas que o direito de passar de carro era um título de honra reservado às vestais e aos

triunfadores; era de liteira que a gente circulava. Nas ruas populosas, as casas, por sinal sem alinhamento, chegavam a alturas vertiginosas, tanto que Trajano teve que limitar a altura delas

a 20 metros (nossas casas de quatro andares).

AUGUSTO faz tudo para embelezar a capital do mundo: seus sucessores o imitam. O terrível incêndio que, no tempo de NERO, devorou parte da cidade, permitiu a sua reconstrução com melhor planejamento. Pouco a pouco as colinas se aplainaram, as ruas se alargam; abrem-se novas

praças rodeadas de basílicas e de pórticos, ornadas de arcos de triunfo e de coluna monumentais. Até

o quarto século, ROMA não pára de enfeitar-se

com edifícios grandiosos e passeios admiráveis.

Todavia, a história política da civilização romana ficou dividia em três períodos: Realeza ou Monarquia, República e Império, que você vai conhecer um pouco mais a seguir.

2.2 A realeza ou Monarquia Romana ( 753-509 a.C.)

A

primeira fase da história política de Roma tem início em 753

a.C., sendo Rômulo seu primeiro rei. Após sua morte governaram Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e Tarquínio o Soberbo, sendo os três últimos de origem etrusca. A presença de representantes etruscos no poder romano tem sua origem explicativa na dominação desse povo à região central da península Itálica.

O

governo dos Tarquínios associou-se principalmente a grandes

trabalhos públicos, como a construção de canais subterrâneos (Clocaca Máxima) e de novos templos, como os da Fortuna e da Tríade

Capitolina.

 

É uma das mais antigas redes de esgoto construída no século VI a.C., por Tarquínio Prisco. Media 800m de extensão por 5m de largura. Sua finalidade era de drenar águas residuais e o lixo para o rio Tibre.

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Nesse período de sua história, a sociedade romana organizou-se em grandes unidades familiares, as gentes, que eram formadas por grandes proprietários de terras. Identificavam-se por um ancestral comum, o pater, e também, em torno de um culto familiar. Daí vem a denominação de patrícios. Eles monopolizavam a vida política e econômica. Todavia, sua origem ainda é controversa. Segundo alguns, os patrícios consideravam-se descendentes diretos dos latinos, que foram os fundadores de Roma. Outros afirmam que eles seriam um segmento formado pela diferenciação econômica, que foi se estabelecendo entre latinos e etruscos. Outro segmento social presente eram os clientes, que se integravam à família patrícia. Eram sujeitos empobrecidos, em geral estrangeiros, aos quais era entregue alguma terra, mediante pagamento de uma taxa anual. Pela sua fragilidade social, colocavam-se sob a proteção de uma família patrícia para obterem proteção jurídica. Embora privados de direitos políticos, eles davam prestígio político e social às famílias que os acolhiam. A fórmula era simples: quanto maior a clientela, maior o poder dos patrícios que os “protegiam”. Os que não pertenciam às famílias patrícias, fossem eles de origem ou agregados como os clientes, formavam a plebe. A plebe representava uma multidão sem organização gentílica, de origem diversificada. Muitos eram migrantes atraídos pela prosperidade da Roma etrusca, outros eram vencidos de guerra, ou, ainda, endividados. Eram homens livres, porém desprovidos de direitos políticos, proibidos de servir o exército, casar com os patrícios e usar a terra comum. A Realeza era composta pelas seguintes instituições de poder:

- Rei (rex), de caráter eletivo e vitalício. Ele era, ao mesmo tempo,

sacerdote, comandante militar e juiz. Dentre suas atribuições estavam as de comando de milícias, julgamentos dos litígios e sacerdócio das divindades comunais.

- Senado: constituído por um conselho de anciãos (senex), com cerca

de 300 membros e formado pelos chefes das gentes. Era a assembléia dos chefes de família (patres) a quem o rei devia consultar sobre todos os assuntos políticos e religiosos. O conjunto dos senadores chamava-se Patres Conscripti.

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História Antiga

- Assembléia do Povo ou comitia curiata:

A realeza findou em 509 a.C., quando ocorreu uma revolta patrícia,

apoiada pelos plebeus, que depuseram Tarquínio o Soberbo.

2. 3 A República (509 -31 a.C.)

A República foi estabelecida em Roma por um movimento liderado

pelos nobres, que expulsaram da cidade o último de seus reis. Essa fase da história romana constituiu um longo e complexo período, repleto de alterações significativas que serão analisadas em seus aspetos fundamentais. Nesse contexto histórico, a cidade (urbs), de simples centro de populações latinas, tornou-se a sede do futuro império, que dominou o mundo conhecido da época.

Não esqueça!

A República estruturou-se a partir de uma nova concepção de poder, o poder dos cidadãos; isso significa dizer que o Estado romano tornara-se Res pública, coisa pública. Sua formação assentou-se sobre duas classes distintas e desiguais:

os patrícios e os plebeus, referendando a permanência política dos primeiros, que utilizavam a organização gentílica como instrumento de prestígio.

As grandes magistraturas, isto é, aquelas formadas pelos encarregados do exercício do poder executivo e da administração do Estado, apresentaram alterações ao longo do tempo. No entanto, deve-se ter claro que o seu exercício, assim como o dos demais cargos públicos criados nos primeiros séculos republicanos, era exercido pelo patriciado. Assim, a organização do poder apresentou-se no formato que explicamos a seguir:

- Cônsules: o poder, antes exercido por um rei, passou a ser partilhado por dois magistrados, que presidiam o Senado. Estes tinham

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funções administrativas e detinham o comando militar. Cada cônsul tinha

o poder de vetar as decisões do outro, de modo que as decisões deveriam ser tomadas em acordo. Seu governo durava um ano e, ao seu término, poderiam ingressar no Senado. Em períodos de crise, os poderes dos cônsules eram aumentados.

- Senado: órgão máximo da República. Seus membros eram

vitalícios e descendentes das grandes famílias. Possuíam amplos poderes:

preparavam as leis e decidiam as questões internas e externas do Estado. O senado foi, durante a República, o verdadeiro centro do Estado romano, cuja forma de governo se resume nas letras S.P.Q.R. – Senatus Populus qye Romanus – que se lêem nas insígnias.

- Assembléias: existiram três espécies de assembléias do povo, ou

comícios, como também elas foram chamadas: os Comícios Curiatos, fundamentados numa divisão religiosa; Comícios Centuriatos, nos quais o povo é agrupado em cento noventa e três centúrias, divisão essa baseada na fortuna de cada um e que garante aos mais ricos a maior parte

da influência política, pois contam noventa e oito centúrias; e o último é

o lugar de reunião dos comícios, o Comitium.

- Ditador: é uma função que só aparece no caso de crise. Sua nomeação suspende o exercício das outras magistraturas e não há apelação das suas decisões.

Existiam ainda outras magistraturas:

- Pretores: com a função de aplicação da justiça.

- Censores: em número de dois, que eram encarregados do censo.

A população romana era dividida em tribos, domicílio e em classes, tendo

como referência sua fortuna.

- Edis: eram dois plebeus cuja função era a de administradores da

cidade, responsáveis pelo seu abastecimento e policiamento e, também,

pela organização dos jogos e espetáculos públicos.

- Questores: organizadores das finanças e da arrecadação dos impostos.

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História Antiga

Algumas décadas depois da República ser instalada em Roma, iniciaram desavenças entre as duas principais classes sociais romanas:

patrícios e plebeus. Os últimos lutavam pela igualdade de direitos com os patrícios, que não queriam ceder. Isso era decorrente da marginalização política que os plebeus vinham recebendo desde os tempos da Monarquia, pois sofriam inúmeras discriminações e limitações. Por ocasião das guerras, por exemplo, a plebe recebia sempre uma parte menor dos espólios, distribuídos proporcionalmente à participação de cada um na campanha. Outras vezes, os plebeus eram obrigados a contrair empréstimos para pagarem os impostos, e os juros aumentavam a dívida até o ponto em que o devedor não tivesse mais condições de liquidar o débito. Como os julgamentos desses casos eram realizados por magistrados patrícios, com base em leis orais, os devedores insolventes terminavam escravizados por dívida. O monopólio do poder pelos patrícios que controlavam o Senado, as decisões da Assembléia Centuriata e as principais magistraturas levaram os plebeus a sucessivas revoltas. Para chamar a atenção para a desigualdade, conta a tradição que, por volta de 494 a.C., representantes da classe plebéia realizaram a primeira revolta social: abandonaram a cidade de Roma e dirigiram-se ao Monte Sagrado, que era uma colina que ficava a alguns quilômetros de Roma, onde pretendiam fundar uma nova cidade. Porém, os patrícios não podiam dispensar a participação dos plebeus como soldados romanos, principalmente nesse momento, em que se buscava conquistar outras regiões do Lácio, e quando grupos de invasores ameaçavam conquistar Roma. Dessa forma, após negociações, os patrícios concordaram em conceder à plebe a sua participação como magistrados especiais,

através da criação do cargo de Tribunato da Plebe, em 493 a.C

Tal fato

significou para os plebeus a defesa de suas reivindicações e seus direitos, sendo que, no início, eram dois os representantes, chegando até dez, gradativamente.

Os dois mais famosos tribunos da plebe foram os irmãos Tibério e Caio Graco. O primeiro, Tibério, foi eleito tribuno em 133 a.C. e propôs e fez votar uma lei agrária que implicava retomar as terras públicas, ilegalmente apropriadas pelos nobres, para distribuí-las aos cidadãos

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pobres. O objetivo de Tibério era reabilitar o pequeno proprietário rural, base do recrutamento militar, e fortificar o Estado. A reação senatorial explodiu em sangrenta revolta. Tibério e seus seguidores foram assassinados, e a tentativa de reforma fracassou. Dez anos depois, em 123 a.C., Caio Graco elegeu-se tribuno, retomando a luta pelas reformas. Através de dispositivos legais, propôs uma série de leis que visavam a uma reforma agrária pacífica, como a transferência de camponeses sem terras para colônias agrícolas nos territórios conquistados. Através da lei frumentária, o trigo deveria ser vendido mais barato aos mais pobres. Porém, mais uma vez, a oposição do Senado foi violenta. Contudo, pouco a pouco, os plebeus foram alcançando inúmeras conquistas. A primeira delas foi a publicação da Lei das Doze Tábuas em

Esse foi o primeiro código de leis romano, que ficou exposto no

450 a.C

fórum, no centro da cidade, para que todos pudessem consultá-lo. Até então, as leis eram baseadas em costumes e eram transmitidas oralmente. Tais leis foram identificadas como forma de proteção contra os abusos de poder, cometidos pelos patrícios contra os plebeus, pois os patrícios interpretavam a lei de forma arbitrária.

2.4 As conquistas romanas: primeiro a Itália e depois o mundo

Neste momento, você vai conhecer elementos que dizem respeito à política expansionista de Roma que, com o tempo, tornou-se altamente agressiva, visando à obtenção de novos territórios e também de mão-de-obra, atendendo principalmente aos interesses dos grandes proprietários. Os romanos empreenderam diversas campanhas militares contra povos vizinhos, antes de estabelecer alianças suficientemente fortes para enfrentar os inimigos externos. Esses conflitos se desenvolveram ao longo de todo o século V a.C. e, em meio a eles, foram se constituindo as instituições republicanas. Alternando confronto de ataque e defesa, em 338 a.C., a região do Lácio já estava toda anexada a Roma, chegando ao ponto que, em dois séculos, toda a Península estava sob seu domínio.

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Ressalta-se que a eficácia das incursões de Roma a outras regiões deve ser atribuída à somatória de alguns elementos, entre os quais se destacam os seguintes:

um exército aparelhado e organizado, que incluía cidadãos romanos e soldados de regiões conquistadas;

uma hábil atividade diplomática; a construção de uma vasta rede de estradas; investimentos em construções públicas e urbanização, aliados à fragilidade da península itálica no período.

investimentos em construções públicas e urbanização, aliados à fragilidade da península itálica no período.
investimentos em construções públicas e urbanização, aliados à fragilidade da península itálica no período.
investimentos em construções públicas e urbanização, aliados à fragilidade da península itálica no período.
investimentos em construções públicas e urbanização, aliados à fragilidade da península itálica no período.

Em relação às regiões conquistadas, pode-se dizer que elas ficavam assim ocupadas: parte delas era utilizada como terras de uso comum a todos os cidadãos; parte era arrendada a pequenos agricultores romanos; porém, a maior parte era repassada aos grandes proprietários, o que resultou na concentração fundiária, que pode ser apresentada como importante elemento na futura crise agrícola romana do século II a.C. Falando em termos de conquista, vale lembrar que nós não estamos nos referindo apenas à área campesina, pois o senado romano também teve a preocupação de incorporar áreas urbanas já dominadas. Algumas

cidades foram anexadas como território romano, e seus habitantes recebiam

o direito à cidadania: pagavam impostos, tinham possibilidade de servir o

exército e exerciam direitos (civis, políticos, jurídicos, religiosos) muitas vezes em igualdade de condições com os nascidos em Roma. Outras cidades eram consideradas aliadas do povo romano. Seus moradores mantinham as próprias leis e magistraturas, mas tinham a obrigação de aceitar o protetorado de Roma. Isso implicava o fornecimento de soldados ao exército romano, quando necessário, e a dependência do Senado para declarar guerra ou celebrar alianças. Em relação aos espaços

e populações onde qualquer colaboração era difícil de ser exigida, Roma simplesmente esmagava a resistência.

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Assim, não esqueça!

Os povos conquistados recebiam tratamento diversificado segundo as relações com o poder romano. Os que se aliavam

aos romanos recebiam direitos totais ou parc