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DA AVALIAÇÃO À INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA: UM ESTUDO DE CASO

BLUM, Emily Ann Francisco 1 - PUCPR

CHAVES, Daiane Santos Alves 2 - PUCPR

WATANABE, Minori 3 - PUCPR

TETU, Viviane 4 - PUCPR

Grupo de Trabalho: Psicopedagogia Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

A psicopedagogia é um campo de conhecimento em que a psicologia e a pedagogia interagem, com o intuito de facilitar o processo de ensino-aprendizagem tentando remover os obstáculos desse processo. Nesse contexto, a avaliação psicopedagógica tem como objetivo investigar as relações do individuo com o conhecimento e os seus vínculos com a aprendizagem e todas as significações implícitas no ato de aprender. Após essa avaliação, de acordo com a demanda, pode-se realizar uma intervenção psicopedagógica, com o intuito de mediar o processo de aprendizagem, introduzindo novas formas de se pensar, por meio das potencialidades identificadas na avaliação e desenvolvendo novas maneiras de se relacionar com essa aprendizagem. Considerando que a avaliação e a intervenção necessitam de diferentes posturas por parte do psicopedagogo, o presente trabalho tem como objetivo diferenciar a postura do profissional nesses dois processos. Para tanto, foi realizado um estudo de caso, a fim de se identificar a postura do psicopedagogo em cada um dos processos. O sujeito caracterizado nesse estudo é um menino, com oito anos de idade, cursando o terceiro ano do ensino fundamental em uma escola pública do município de Curitiba. Na avaliação psicopedagógica, foram utilizados os seguintes recursos: Anamnese, EOCA (Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem), Técnicas Projetivas, Teste de Inteligência WISC–III, Provas Piagetianas, Atividades Pedagógicas (leitura, escrita, operações matemáticas). Os resultados comprovam que no processo de avaliação, as sessões são mais estruturadas e

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Acadêmica,

do

curso

de

Psicologia

emilyblum1@gmail.com.

da

Pontifícia

Universidade

Católica

do

Paraná.

E-mail:

  • 2 Acadêmica do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E-mail:

daianealves100@gmail.com.

  • 3 Acadêmica do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E-mail:

mih.watanabe@gmail.com.

  • 4 Professora orientadora, Psicóloga (UFPR), com mestrado em Educação (UFPR), Especialização em Psicomotricidade (CESIR), Pedagoga (CEP-Curitiba) e Psicanálise (UTP). Professora do Curso de Graduação em Psicologia da PUC-PR. E-mail:viviane.tetu@pucpr.br

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seguem uma sequência com tempo pré-estabelecido, além de serem utilizados instrumentos formais como testes. Já no processo de intervenção, o psicopedagogo atua, a longo prazo, a partir do que foi identificado como facilidades e dificuldades no processo de avaliação de cada sujeito. No processo de intervenção, o psicopedagogo também tem uma maior flexibilidade e criatividade para atuar não só nos aspectos pedagógicos, mas também comportamentais e emocionais.

Palavras-chave: Avaliação psicopedagógica. Intervenção psicopedagógica. Dificuldades de aprendizagem.

Introdução

Atualmente, muito se tem discutido sobre a origem das dificuldades de aprendizagem, sendo que não se pode atribuir uma única causa que desencadeie essa dificuldade. Com frequência, os alunos com dificuldades de aprendizagem não são vistos como tal, sendo rotulados, por exemplo, como preguiçosos ou que não aprendem porque não querem. Nesse contexto, a avaliação psicopedagógica surge como uma maneira de investigar como é o funcionamento do indivíduo nos aspectos pedagógicos e também como foi estabelecido o seu vínculo com a aprendizagem, considerando os aspectos emocionais, sociais e cognitivos. Após identificar os aspectos que envolvem a dificuldade de aprendizagem, pode-se optar por realizar uma intervenção psicopedagógica. Esta irá trabalhar a dificuldade específica do sujeito a fim de que se possa buscar um melhor desenvolvimento frente a dificuldade de aprendizagem apresentada, baseando-se em estratégias que possam recuperar por parte das crianças os conteúdos escolares que são considerados como deficitários, bem como a organização de hábitos de estudo e atividades lúdicas que visem a expressão de seus sentimentos em relação a escola e a aprendizagem. A intervenção deve compreender toda a dinâmica que envolve o processo de aprendizagem, como por exemplo, o processo do aluno em situação de sala de aula, na relação com o professor e os colegas frente às condições de ensino que lhes são oferecidas. Assim, o psicopedagogo clínico pode atuar tanto na avaliação quanto na intervenção psicopedagógica. A fim de diferenciar o papel do psicólogo nesses dois processos, pretende-se, por meio de um estudo de caso, identificar a postura profissional do psicólogo no processo de avaliação e intervenção psicopedagógica.

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A Psicopedagogia e as dificuldades de aprendizagem

Segundo Mariani e Mariani (2005), a psicopedagogia é um campo de conhecimento com interação entre a psicologia e a pedagogia, tendo como objeto de estudo o processo de aprendizagem que é visto como estrutural, construtivo e interacional, integrando os aspectos cognitivos, afetivos e sociais do sujeito. Tem o intuito de facilitar o processo de ensino aprendizagem na tentativa da remoção dos obstáculos que impedem que esse processo se realize. Portella e Hickel (2010) pontuam que a psicopedagogia tem como objetivo unir conhecimentos e princípios de ciências distintas, com a finalidade de estabelecer a melhor e mais adequada compreensão referente às diversas variáveis que estão inseridas nesse processo de aprendizagem. Atualmente, a psicopedagogia clínica está envolvida a toda e qualquer situação que esteja relacionado ao processo de aprendizagem e suas implicações. Este campo surge como uma resposta diante de uma demanda, que cresce cada vez mais, devido ao fracasso escolar e aos problemas de aprendizagem. As dificuldades de aprendizagem, segundo Smith e Strick (2001), são causadas por problemas neurológicos que afetam a capacidade do cérebro para entender, recordar ou comunicar informações. As deficiências que causam maiores problemas acadêmicos são:

percepção visual, processamento linguístico, habilidade motora fina e capacidade de focar atenção. Aliada a isso, alguns comportamentos tornam-se um complicador, como hiperatividade, dificuldade para seguir instruções e imaturidade social. A frustração dos pais, da escola e também da própria criança só aumenta, pois ela se vê incapaz de realizar a mesma atividade que seus colegas e passa até a questionar a sua inteligência, podendo ficar irritada, isolada socialmente e até desenvolver baixa auto-estima e depressão pelos julgamentos negativos que recebe. Segundo D’Abreu e Marturano (2010), sete em cada dez crianças encaminhadas com queixa de dificuldade de aprendizagem apresentam uma comorbidade emocional e/ou comportamental, com comportamentos externalizantes (caracterizados pela oposição, agressão, hiperatividade, impulsividade e manifestações antissociais) ou internalizantes (caracterizados pela disforia, retraimento, medo e ansiedade). Pesquisas mostram que, quando existe a associação entre dificuldade de aprendizagem e comportamentos externalizantes, a criança pode vir a ter dificuldades de se relacionar, além de que problemas de comportamento podem exacerbar as dificuldades acadêmicas. Para evitar tais consequências, Smith e Strick (2001) afirmam que os pais devem estar alertas aos sinais

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que a criança emite. Ao identificarem algum atraso na leitura, escrita ou na matemática em relação ao nível de sua série escolar, devem encaminhar para uma avaliação psicopedagógica.

Avaliação psicopedagógica

De acordo com Weiss (2011), todo o diagnóstico psicopedagógico em si é uma investigação do que não vai bem com o sujeito em relação a um rendimento esperado. Guimarães, Rodrigues e Ciasca (2004) complementam que na avaliação psicopedagógica, a criança é considerada como um todo, pois muitos aspectos podem estar relacionados ao problema de aprendizagem e, por isso deve ser investigado. Segundo Weiss (2011), torna-se importante o esclarecimento da queixa pelos pais, pelo próprio sujeito avaliado e também pela escola. De acordo com Guimarães, Rodrigues e Ciasca (2003), na primeira consulta, deve-se perceber que a queixa trazida pelos pais como motivo do encaminhamento para a avaliação às vezes não descreve só o “sintoma”, como também traz indícios que indicam a direção para o início da investigação. Por isso, a atitude com que o profissional acolhe o primeiro contato com a família ou o próprio paciente é muito importante para a continuação do processo. É necessário considerar sempre a carga de ansiedade demonstrada pelos pais neste primeiro contato, visto que é um movimento que poderá vir a se definir pró ou contra a avaliação. Geralmente no primeiro contato com os pais ou responsável pelo paciente é realizada a anamnese, com o intuito de obter mais dados sobre o sujeito. Para Weiss (1999), a anamnese é um ponto importante para que se possa ter um bom diagnóstico, já que através dela é possível a interação das dimensões do passado, presente e futuro do paciente, permitindo analisar a construção ou não de sua própria continuidade e das diferentes gerações, como a visão familiar da história de vida do paciente, que traz consigo todos os preconceitos, normas e expectativas, a circulação dos afetos e do conhecimento, além do peso das gerações depositadas sobre o paciente. Para Guimarães, Rodrigues e Ciasca (2003), é necessário que se verifique durante todo o processo diagnóstico a autenticidade da queixa inicial, pois não é incomum que os pais repitam a queixa formulada por quem os encaminhou, geralmente a escola, sem ter qualquer reflexão sobre ela. O profissional deve observar todas as possibilidades que possam interferir no processo de aprendizagem, pois algumas dificuldades apresentadas podem ser decorrentes da carência sociocultural, problemas de relacionamento familiar, distúrbios psiquiátricos ou

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ainda problemas de ordem orgânica, como visual, auditivo e síndromes neurológicas. Nesses casos, deve-se encaminhar a criança para outro profissional que possa investigar o caso e dar o direcionamento necessário para a intervenção. Segundo Machado (2000 apud MEIRA e ANTUNES, 2003), não se deve considerar o aluno como objeto de avaliação, mas as diferentes relações e práticas que implicam a queixa em relação ao aluno e que levam ao encaminhamento para o atendimento psicológico. Assim, a pergunta passa de "o que o aluno tem que não aprende?" para "como é o campo social no qual esta queixa foi produzida?". Assim, deve-se utilizar os dados que o aluno apresenta, para compreender melhor as várias determinações presentes no processo de produção do fracasso escolar. Para Weiss (2011), ao final do diagnóstico psicopedagógico, o terapeuta já deve ter formado uma visão global do paciente e sua contextualização na família, escola e seu meio social. Assim, se faz um laudo ou informe com a finalidade de resumir as conclusões a que se chegou na busca de respostas às perguntas iniciais que motivaram o diagnóstico. Como afirma Weiss (1999), em alguns casos será necessário realizar um encaminhamento para dar continuidade no trabalho. Esse trabalho subsequente pode ocorrer por meio da intervenção psicopedagógica.

Intervenção psicopedagógica

Segundo Santos et al. (2012), em casos de dificuldades de aprendizagem, quando são realizadas intervenções psicopedagógicas precoces, é possível melhorar a evolução do aluno e reduzir os impactos causados ao indivíduo e à sociedade. Rubinstein (1999) pontua que, em uma intervenção, o foco está no sujeito, na sua relação com a aprendizagem. O objetivo do psicopedagogo é ajudar aquele que não consegue aprender formal ou informalmente, para que consiga não apenas interessar-se por aprender, mas também possa adquirir ou desenvolver habilidades necessárias para tal. Na intervenção, embora se utilize de propostas de trabalho para mediar a relação terapêutica, as escolhas dessas propostas e as formas como são apresentadas irão depender da particularidade de cada situação, do sujeito que está sendo atendido e da capacitação e dos recursos que o psicopedagogo dispõe. Assim, o caráter dinâmico da escolha das propostas e a forma como são significadas pela dupla terapeuta- cliente é o que realmente irá provocar as mudanças pretendidas. Batalloso (2011) afirma que a intervenção está voltada para a atenção na diversidade e tem como função proporcionar ajudas

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individuais necessárias para solucionar as dificuldades de aprendizagem, além de desenvolver seu processo de amadurecimento pessoal a partir de suas características singulares. Rubinstein (1999) afirma ainda que as atividades escolhidas e propostas tanto pelo psicopedagogo como pelo cliente são mediadoras para modificar a forma de pensar e utilizar as funções cognitivas e a posição assumida pelo sujeito aprendente. Ao fazer uso de recursos que são escolhidos pelo cliente ou propostos pelo terapeuta, este propicia a oportunidade para experimentar situações que promovem a confrontação com a forma de relacionar-se com a modalidade que se utiliza para se estabelecer essa relação. Esse confronto pode contribuir para a tomada de consciência de um estilo de aprender, já que as diferentes modalidades de atividades permitem entrar em contato com o “como aprendo” e “como me relaciono com o saber”.

Metodologia

Este trabalho constitui uma pesquisa qualitativa realizada por meio de um estudo de caso que, de acordo com Reis (2008), é uma técnica de pesquisa que apresenta uma base empírica e consiste em selecionar um objeto de pesquisa, podendo este ser um fato ou um fenômeno a ser estudado em seus vários aspectos. A clientela foi uma criança, do gênero masculino que, a fim de preservar sua identidade, será chamado de Alex, com oito anos e sete meses no início da avaliação, cursando o terceiro ano do ensino fundamental em uma escola pública do município de Curitiba. Alex foi encaminhado pela escola ao Núcleo de Práticas em Psicologia da PUCPR com a queixa de dificuldades de aprendizagem que vinha apresentado na leitura e escrita. A avaliação psicopedagógica teve a duração de nove sessões, sendo realizadas uma vez por semana, com duração de 50 minutos cada. Foram utilizados os seguintes recursos:

Anamnese, EOCA (Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem), Técnicas Projetivas, Teste de Inteligência WISC–III, Provas Piagetianas, Atividades Pedagógicas (leitura, escrita e operações matemáticas), entrevista com a pedagoga da escola, observações e a utilização de jogos no decorrer do processo. Ao final da avaliação, foi realizada uma entrevista devolutiva com o responsável do paciente, sendo entregue o laudo da avaliação. Posteriormente, foi dado início à intervenção psicopedagógica, que está em andamento, sendo realizada uma sessão semanal, com duração de 50 minutos. Até o presente momento, foram realizadas onze

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sessões. Nas sessões de intervenção, são realizadas atividades pedagógicas e atividades lúdicas.

Resultados

Com a avaliação, observou-se que Alex apresentou maior facilidade em atividades de execução, que envolvem manipulação, memória visual e análise-síntese. No entanto, demonstrou acentuada dificuldade nas atividades verbais que envolvem a fala e nas que exigem que ele mostre os conhecimentos já adquiridos, apresentando baixa fluência verbal. Demonstrou ter falta de concentração e de interesse, além de resistência durante a realização da maioria das atividades, principalmente nas verbais. Além disso, respondia e realizava rapidamente a maioria das atividades, principalmente as pedagógicas, o que pode indicar sua

vontade de encerrá-las o quanto antes. Por esse motivo, foi necessário a avaliadora incentivar

e lhe explicar várias vezes o motivo pelo qual ele estava ali.

Durante os jogos, demonstrou ser

competitivo e não aceitar perdas. Em alguns momentos, quando percebia que estava perdendo, tentava atrapalhar o jogo da avaliadora e burlar as regras. Porém, quando questionado, aceitava que aquilo não era correto. Apresenta escrita alfabética e, na maioria das vezes em que vai escrever, Alex diz a palavra em voz alta, fica soletrando e repetindo a palavra enquanto escreve. Observa-se também dificuldades referentes à ortografia como a troca de letras que apresentam sons semelhantes e omissão de letras. Em relação à leitura, lê a maioria das palavras de forma pausada mas corretamente. Durante a execução de operações matemáticas, frequentemente fez uso de apoio de material concreto, seja contando nos dedos ou usando folha e lápis para “desenhar” riscos. Apresenta dificuldade em reconhecer os sinais matemáticos e alguns números. O responsável foi orientado a dar continuidade ao reforço escolar devido às dificuldades de leitura, escrita e matemática que apresenta. Além disso, recomendou-se ao final da avaliação uma intervenção psicopedagógica, que poderia contribuir para melhorar o seu rendimento acadêmico. A partir do que foi observado na avaliação psicopedagógica, nas sessões de intervenção foram realizadas atividades pedagógicas e lúdicas. Ressalta-se que os jogos escolhidos foram utilizados com o objetivo de se trabalhar não apenas a motivação de Alex, como também para trabalhar o aspecto pedagógico de forma lúdica. Por exemplo, utilizar o

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jogo de boliche para se trabalhar matemática. Em todos os casos em que apresentava alguma dificuldade ou não sabia como fazer, era possível intervir da forma mais adequada para a situação, como auxiliar na leitura de algumas palavras contidas em uma história. Além disso, também foram trabalhados aspectos como o estabelecimento de limites, tolerância à frustração, cumprimento de regras e aumento da autoestima.

Discussão

Foi constatado que, na avaliação psicopedagógica, já existe um roteiro pré-elaborado que necessita ser seguido. Entretanto, Giné (2004) pontua que a avaliação necessita ser coerente, tanto no que se refere ao ponto de vista conceitual como metodológico, visando atuar a partir das diferenças individuais como indicadores da natureza e do tipo de apoio que o aluno necessita. O avaliador não tem o objetivo de modificar o comportamento do paciente, mas sim de ter um olhar clínico e avaliar, para identificar tanto as dificuldades quanto o potencial do paciente e compreender como é o seu funcionamento global, focando na aprendizagem. De acordo com Giné (2004), quando se tem um encaminhamento para realizar uma avaliação psicopedagógica, basicamente essa avaliação deve ser orientada para identificar as necessidades dos alunos referentes aos apoios pessoais e materiais que são importantes para estimular seu processo de desenvolvimento. Alex demonstrou falta de interesse e resistência em realizar as atividades pedagógicas propostas. Contudo, elas são essenciais para conhecer o que a criança já aprendeu e como ela age frente a situações que envolvem conhecimentos escolares. Isso está de acordo com o que Weiss (1999) pontua sobre a avaliação do nível pedagógico, que tem por objetivo verificar o que o paciente já aprendeu, como articula os diferentes conteúdos entre si, como faz uso desses conhecimentos nas diferentes situações escolares e sociais, e como os utiliza no processo de assimilação de novos conhecimentos. Foram realizadas nove sessões de avaliação e, até o presente momento, onze sessões de intervenção. Essa diferença na quantidade de sessões ocorre pelo fato de que a avaliação deve ser realizada o quanto antes, devido aos riscos que as crianças com baixo desempenho escolar apresentam, como afirmam D’Abreu e Marturano (2010), essas crianças estão mais propensas a desenvolverem comorbidade com comportamentos internalizantes ou externalizantes, o que traz prejuízos a nível pessoal e social. Com a avaliação, é possível

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identificar o que acontece com o sujeito em relação à aprendizagem e, posteriormente, a intervenção precoce poderá diminuir os prejuízos que ele enfrentará. Na intervenção psicopedagógica, é possível ter uma maior flexibilidade, trabalhando com aspectos que forem surgindo ao longo da sessão. Nessa segunda etapa é necessário ter maior criatividade para poder trabalhar as dificuldades do paciente de uma forma lúdica e prazerosa, pois é importante que o paciente tenha vontade de aprender. O objetivo é a longo prazo. A todo momento, como no caso apresentado, é fornecido ajuda quando o paciente apresenta dificuldades, pois como afirma Smith e Strick (2001), é necessário “preparar o terreno” para que as crianças consigam obter sucesso de forma regular, pois este é o único incentivo que funciona a longo prazo. Com o tempo, são estruturadas circunstâncias para que possam obter sucesso sozinhas. Além disso, é trabalhada a autoestima do paciente com constantes elogios, pois vários autores como Roeser e Eccles (2000 apud STEVENATO et al, 2003) afirmam que a criança com dificuldade de aprendizagem tem uma tendência em apresentar baixo autoconceito por se sentir inferior às outras crianças da mesma idade. Para os autores, as crianças que apresentam dificuldade de aprendizagem conferem essa dificuldade a si mesmas e apresentam sentimentos de vergonha, dúvidas em relação ao seu desempenho, baixa autoestima e distanciamento das demandas da aprendizagem, caracterizando problemas emocionais e comportamentos internalizados. Outra característica da intervenção psicopedagógica é atuar nas dificuldades por meio das atividades lúdicas. Para Brenelli (2001), os jogos podem revelar a realidade interna da criança e a linguagem lúdica é a mais apropriada para crianças e adolescentes. Brenelli (2008) afirma ainda que a utilização de jogos em contextos educacionais com crianças que apresentam dificuldades poderia ser eficaz em dois sentidos: iria lhes garantir o interesse e a motivação, e por outro, estaria atuando com o intuito de possibilitar-lhes a construir ou aprimorar seus instrumentos cognitivos, facilitando a aprendizagem dos conteúdos. Além de se trabalhar a dificuldade que a criança apresenta, na intervenção também é possível intervir no comportamento. No processo de Alex, foi importante trabalhar com regras e limites, pois na maioria dos atendimentos se fazia necessário fazer um acordo para que ele realizasse as atividades que não desejava. Porém, nem sempre Alex conseguia cumprir o acordo. De acordo com Souza (2009), a criança precisa interiorizar a ideia de que muitas vezes ela pode fazer o que deseja, mas nem sempre isso será possível. Entretanto, entre

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escolher seu próprio desejo e pensar no direito que os rodeiam, muitos optam por satisfazer seu próprio desejo, mesmo que, por vezes, prejudiquem alguém.

Considerações finais

A atuação da psicopedagogia passa por muitos desafios relacionados aos atendimentos com crianças que apresentam dificuldade de aprendizagem, pois o número de crianças das quais a família e a escola formulam queixas têm crescido cada vez mais. Quando não se sabe a causa, são atribuídos diversos rótulos como “incapaz” para aprender, “preguiçoso”, “lento”, “distraído”, entre outros, o que pode trazer consequências desastrosas tanto para o sujeito como para outros que o rodeiam. Por isso, é importante olhar todo o contexto em que ele está inserido. As dificuldades para aprender podem aparecer de diferentes maneiras e não existe uma única causa que possa desencadear essa dificuldade. Por esse motivo, a avaliação e a intervenção sempre diferem para cada caso. Atualmente, as escolas valorizam principalmente os aspectos pedagógicos. Contudo, como afirmam Veiga e Garcia (2006), como psicopedagogos, “Não devemos partir do princípio que a inteligência acadêmica é a única maneira de garantir o sucesso na vida” (p. 110). O papel do psicólogo enquanto psicopedagogo é o de ter um olhar clínico sobre o sujeito, identificar seu potencial e seus obstáculos para, em seguida, poder fortalecer suas estratégias, para que possa se desenvolver dentro de suas capacidades. Cabe também ao profissional comunicar aos pais e familiares as potencialidades do sujeito, muitas vezes ignoradas pela escola. É importante ressaltar que na intervenção, as propostas de atividades do psicopedagogo são mediadoras com o objetivo de modificar a maneira de pensar e usar as funções cognitivas. Ressalta-se, ainda, que durante a pesquisa de literatura, não foram encontrados muitos artigos que abordassem a postura do psicólogo nesses processos de avaliação e intervenção psicopedgógica. A literatura encontrada e utilizada para o presente trabalho faz referência à psicopedagogia, às dificuldades de aprendizagem e à avaliação e intervenção psicopedagógica. Contudo, pode-se observar que esses dois processos são vistos de forma geral. Por isso, destacamos a importância desse tema e recomendamos que os profissionais que atuam nessa área realizem e publiquem mais estudos sobre a sua atuação, contribuindo assim, para um maior aperfeiçoamento desse campo de atuação.

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