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GB Campinas/Regional

Enlace-PSoL

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ENLACE-PSOL

CADERNO DE FORMAÇÃO PARA INTEGRAÇÃO DO ENLACE

Organizador: GB Campinas/Regional Apresentação: Vinicius Almeida Revisão: Andréia Pagani Diagramação: Daniel Nunes

2012

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

PARTE IV – OUTROS MOVIMENTOS SOCIAIS

PARTE V – NOSSO PARTIDO E NOSSA CORRENTE

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3

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76

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Apresentação: o novo que nasce do velho, e o velho renovado

“Se pretenderem desenvolver tendências novas, devem baseá-las nos alicerces que foram fundados pelos melhores pensadores e lutadores das gerações precedentes.” Ernest Mandel

Não, a revolução mundial não aconteceu! Por mais que isto seja difícil de conceber para alguns, podemos ainda admitir que não só a revolução não aconteceu de forma generalizada (constatação mais óbvia), como o capitalismo está ainda mais forte do que nos tempos de Marx e Engels. O espectro que rondou a Europa por séculos, anunciado pelos autores do Manifesto Comunista é, contudo, ainda presente.

No entanto, mesmo em 2011, no quarto ano de uma crise do capitalismo que se combina nas esferas financeira, de fornecimento, ecológica e, portanto, civilizatória, a essência da relação social Capital nunca esteve tão reproduzida e determinante no modo de vida das sociedades humanas. As relações capitalistas não são apenas de venda e troca, salário, preço e lucro; dívidas, especulação e propriedade. O capitalismo é arte, comportamento, corpo, vida, humor, política! Partes essas entrelaçadas num composto complexo, contraditório e multifacetado. A realidade precisa ser transformada, mas agora precisa de novo ser compreendida e interpretada.

APRESENTAÇÃO: O NOVO QUE NASCE DO VELHO, E O VELHO RENOVADO

O mundo devotado ao Capital já não o

faz mais tanto de forma política, mas natural. Tão natural é se render ao consumismo, aos exageros, às desigualdades, aos desperdícios, ao

individualismo e à competição que não é preciso pregar, lutar por isso. O século XX foi marcado por uma intensa disputa entre esse mundo e alternativas a ele, muitas vezes de forma bélica. Por um lado do mundo, a

estratégia utilizada foi a bonança e a ampliação

da liberdade. A participação política, restrita ao

voto, ainda transparecia semelhante a uma sociedade igualitária comparado aos regimes latino-americanos, dentre eles o brasileiro de

1964 a 1985. No outro extremo, o desejo de liberdade era sufocado em porões, em carros pretos e matagais com sangue, ferro e fogo.

Antes o mundo se via à beira do colapso,

o que poderia ter sido bom, mas não foi, nem

mesmo para os socialistas e sucessores de Marx.

A luta contra a opressão plena teve como

resposta a opressão plena. Os regimes totalitários tomaram conta do mundo por um período suficientemente importante, para que muitas lições fossem tiradas por nós.

E quem somos nós? A militância do

Enlace e do PSOL pode responder que somos uma nova experiência. Mas será mais bem definida se afirmar uma continuidade, um

resgate, uma tradição. As tradições de nosso tempo, de nosso comum, devem ser estilhaçadas

e tudo que é sagrado profanado, sem dúvida.

Porém, o costume transmitido de geração em geração, de lutar contra toda e qualquer forma

de opressão, não nos convêm ter vergonha em

reivindicar.

Nesse sentido, a formação é condição para o estado “ser militante”. E se militante do

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Enlace e do PSOL, de nosso coletivo, essa regra é ainda mais justa. Não falamos em auto- proclamação, glorificação ou desprezo por qualquer outro grupo que levante a bandeira do socialismo de forma independente, obstinada e com retidão. Ao contrário, uma formação singular e marxista, por isso, revolucionária, é aquela que dignifica o indivíduo a partir de sua construção coletiva, autocrítica e ousadia para

se transformar na luta do dia-a-dia, até que o

cotidiano seja extraordinário.

Marx em A Miséria da Filosofia afirmou

que “a dominação do capital criou para essa massa uma situação comum, interesses comuns

essa massa se reúne, se constitui

classe para si mesma”. Essa visão foi muito debatida por diversos autores. Nesse raciocínio

iniciado por Marx, é na própria realidade capitalista e no enfrentamento das relações de opressão geradas em seu seio que formamos uma resposta nova. Por isso, uma advertência necessária é quando nos deparamos com propostas ditas “inteiramente novas”. Se somos uma proposta nova, de maneira nenhuma

apontamos para uma ideia “separada da história

e isolada de todo o passado, como se esse

(

).

Na luta, (

),

passado nada tivesse a ensinar-nos nem a dar- nos”, como dizia Ernest Mandel em sua discurso para a juventude da SDS .

Não existe ideia inteiramente nova na perspectiva do marxismo, mas sim inovações diante do profundo estudo e balanço de nossas experiências de lutas passadas. Não basta sabermos o quanto os oprimidos sofreram diante dos donos do mundo, precisamos reconhecer que levamos a frente às batalhas por revolução em todo o mundo. A primeira condição para mudar a realidade é conhecê-la, como disse Eduardo Galeano. Nesse sentido,

lançamos este caderno de texto, para compilar o que avaliamos serem passos iniciais necessários a integração do pensamento e da prática do Enlace, nossa tendência interna do PSOL. Não restrita a disputa interna de nosso partido, nossa organização traz para o pensamento revolucionário brasileiro contribuições de autores de diversos países que colaboraram para que o marxismo permanecesse vivo, pulsante e intenso. O caderno de Formação para Integração do Enlace foi dividido em cinco partes, levando em conta alguns temas essenciais de nossa discussão.

Na primeira parte, o Marxismo Revolucionário Atual será debatido por Daniel Bensaïd, Michel Löwy e Ernest Mandel em dois temas: a atualidade do pensamento de Marx e um balanço inicial de Mandel sobre a proposta dos bolcheviques russos de partido revolucionário. Nessa fatia de nossa formação enuncia-se o método de observar o atual e o futuro tendo profunda consciência do passado. Essa é a essência de A atualidade do Manifesto Comunista e Por um marxismo crítico. Nesse bojo, o pensamento marxista segue um balanço de sua experiência prática mais impactante na história da humanidade: o triunfo dos trabalhadores na Rússia em construir uma revolução socialista. O papel do partido revolucionário foi decisivo, mas nem por isso preponderante diante da tomada de consciência dos oprimidos russos e sua ação voltada para a construção de um mundo novo.

Na segunda parte, investigamos através de dois textos clássicos, a relação entre partido e movimento revolucionário. O movimento de massas passou por diversas fases e a aplicação de fórmulas prontas pelos partidos, ou seu anseio em decidir sozinho o porvir, muitas vezes fez

APRESENTAÇÃO: O NOVO QUE NASCE DO VELHO, E O VELHO RENOVADO

com que o nascente socialismo fosse abortado. Rosa Luxemburgo em Greve de massas, partido e sindicatos expressa o sentimento de que o partido fundamental é aquele que reconhece o protagonismo da massa na disputa de mundo. Quando é nítido e claro o levante dos despossuídos, pelas barricadas, braços cruzados e mares de gente nas ruas acontece, o partido revolucionário celebra e se prepara para o horizonte em suas mãos. Quando o capitalismo entorpece a razão e os sonhos proletários de um mundo de pessoas apenas vivendo o hoje, cabe ao revolucionário não desanimar e encontrar formas de mudar o leme da história. No chamado refluxo que o partido tem papel ainda mais central, em As táticas da Frente Única, León Trotsky demonstra que, mesmo apenas quatro anos depois da maior revolução proletária de nosso tempo tendo ocorrido, a burguesia já respondia de forma cruel e implacável para manter seus quinhões. A unidade dos trabalhadores, em tempos de ofensiva dos possuidores, é nossa jóia, nossa riqueza, nossa esperança. Tanto quanto uma greve de massas.

Na terceira parte, iniciamos a resposta mais difícil: o que é, para nós, o socialismo. O mais difícil é controlar a ansiedade e não responder plenamente, mas sim considerar pistas e caminhos que já percorremos e que, por isso, nos ajudarão a tropeçar menos. Em Nossa concepção de socialismo abordamos como vislumbramos os primeiros passos para a sociedade futura, o que significa a materialização de nosso projeto político e de sociedade. O Ecossocialismo é um novo olhar sobre o socialismo, crítico às experiências “produtivistas” e procura responder ao “processo destrutivo do capitalismo”, pelas palavras de

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Marx e do próprio Michel Löwy, fundador do movimento mundial ecossocialista e autor do artigo que trazemos sobre o tema para este caderno.

O internacionalismoe a perspectiva de revolução permanente caminham junto desse programa radicalmente oposto ao modo de produzir do capital, depositando no poder dos oprimidos e em ninguém mais a solução para os males de nossos dias. Nossa ousadia está em reconhecer que autores que nunca se viram como Trotsky, Mariátegui e Gramsci, observaram pelo calor das lutas e o inverno do exílio e prisão, que muitas ideias se combinam e nascem da experiência real e da dedicação inexorável ao novo mundo.

Na quarta parte, que definimos precariamente aqui como Outros movimentos sociais, há um esforço em demonstrar que nossas batalhas são de diversas trincheiras e com diferentes formas de ver os mesmos atores. É uma crítica e autocrítica à esquerda, que se fecha em esquemas e esquece que os sujeitos históricos são homens e mulheres, de todas as etnias, que vivem de maneira diversa e plural. As revoluções passadas pecaram ao relegar às mulheres papéis inferiores aos dos homens; aos gays, segregação e preconceito para liderar e ter protagonismo, ao negar que em muitos países (especialmente no Brasil) a cor da pele conta tanto, muitas vezes, quanto seu dinheiro no bolso. Que de qualquer lugar é possível transgredir o status quo, até mesmo em seu pólo de reprodução intelectual, a universidade.

Para os navegantes com desejo de vento, já dizia Galeano, a memória é um ponto de partida. Em nossa quinta (e última) parte, o debate sobre nosso agrupamento partidário

retoma por completo o debate sobre o mundo futuro. Precisamos construí-lo agora, o quanto antes. E precisamos aprender com nossos erros, inovar sabendo o que passou. Um partido amplo foi uma aposta da esquerda brasileira de trinta anos atrás. Muitos dizem que seu modelo foi a razão de seu fracasso. Vamos debater a tese do Enlace apresentada no III Congresso Nacional do PSOL e, quanto possível, criticar nossa linha e direção para afinar respostas de nossos novos dilemas.

Se não estivéssemos no PSOL, onde estaríamos? De que valeria toda a autocrítica contra o autoritarismo e sectarismo na própria esquerda? Devemos reconhecer que hoje nosso desejo de construção de um partido para a revolução está distante (apesar de que a história nos prega peças e acelera-se sem avisar). O capital venceu no Brasil porque é um projeto global. O Partido dos Trabalhadores foi um lampejo sucumbido pelo neoliberalismo mundial. Sem isentá-lo de culpa, seria delírio achar que, da noite pro dia, poderíamos reconstruir uma alternativa de esquerda nacional. O modelo petista estimulou inúmeros balanços. Antes de definir por qual aderimos, identificamos que a esquerda brasileira que restou sem se perder nas malhas do poder institucional burguês, precisa se reunificar numa mesma proposta política.

O ideal era que a unidade da esquerda brasileira fosse ao redor de um partido revolucionário de massas, mas muitos companheiros e companheiras, com justeza e nosso desacordo, apontam que parte do fracasso petista está na proposta de partido de tendências permanentes. Que seja então uma Frente, um movimento, uma ação contínua que mantenha lutadores juntos contra o Capital. O PSOL só será

APRESENTAÇÃO: O NOVO QUE NASCE DO VELHO, E O VELHO RENOVADO

um partido necessário para o socialismo se assumir protagonismo na realização desse plano.

Sem fetiche com o PSOL, ou qualquer legenda partidária, nossa aposta política não se resume em sua defesa, filiação e compromisso de crescimento. Reconhecemos que nosso partido não é capaz hoje de, por si só, organizar a luta contra o capitalismo no país. Ao contrário, o risco maior é que seus passos sigam o PT e o mesmo represente mais uma afirmação do modo representativo, corrupto e ditatorial de fazer política do mundo burguês. Podemos até sentir surpresa que a capitulação deste grupo ainda não tenha se dado, diante de tanto oportunismo político de boa parte de sua direção e militância.

organização de gente concreta, real. Está repleta de segundas intenções, sem se contradizer com a primeira, a nossa apresentação e formação. Formar para nós será incompleto se for através de uma discussão em grupo de textos, ou mesmo a partir da aceitação acrítica de nossas intervenções. Queremos, acima de tudo, os descontentes, os inconformados e os indignados.

Vinicius

Campinas/Regional do Enlace

Almeida,

secretário

do

GB

Contudo, o potencial de nosso partido é claro, pois diante de imensas limitações, sua característica plural torna menos amarga a realidade desunida da classe trabalhadora tupiniquim. Sua representação pública mostra às massas, que o sonho de uma sociedade economicamente justa ainda existe. Sua expressão contraditória, e que surpreende aos mais céticos na sua crescente participação popular em movimento, pode nos iludir, mas por enquanto permite a esperança e a fé. A fé sem concretude não nos serve para nada, mas sem ela não nos movemos.

É dessa fé que anunciamos o que para nós é o mais importante da discussão apresentada por este caderno. Sua distinção é no objetivo de servir como uma ferramenta de atração da nova militância. Para isso, sua condição é a admissão de seus profundos limites, assim como de todas as ditas “formações teóricas”. Nossa formação está a serviço de uma

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PARTE I
PARTE I
MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL
MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL
PARTE I MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

A Atualidade do Manifesto Comunista

Escrito por Daniel Bensaïd, 1998

Primeira Edição: Comunicação apresentada no Congresso Internacional dos 150 anos do Manifesto Comunista, em Paris, em 1998. Transcrição de João Machado Borges Neto. Publicado nos Cadernos Em Tempo nº 310, outubro 1999.

Fonte: "Marxismo, Modernidade e Utopia", Editora Xamã, São Paulo, 2000).

Transcrição: Daniel Monteiro - Autorizada por José Corrêa Leite, organizador da coletânea.

A ronda infernal do capital

1. O Manifesto do Partido Comunista capta na fonte a extraordinária vitalidade do Capital enquanto “potência social” impessoal cujo dinamismo subverte o mundo e constitui o segredo da aceleração da história:

“Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar friamente sua posição social e suas relações mútuas”.(1)

2. Ele capta a lógica íntima deste movimento de extensão e de aceleração, pelo qual a burguesia tende à “exploração do mercado mundial”, retira da indústria sua base nacional, gera novas necessidades, desenvolve uma “interdependência universal” tanto das “produções materiais” quanto das “produções do espírito”, até gerar uma “literatura universal” a partir das literaturas locais e nacionais.

3. O que o jargão jornalístico designa pela

palavra dissimuladamente neutra de “globalização” não é senão, na realidade, a conclusão da generalização planetária das relações mercantis. A mercadoria se apossa de tudo, tudo se torna mercantil, os corpos e os órgãos, as obras e os bens comuns. Esta universalização mercantil mutilada, longe de homogeneizar um mundo em que os últimos alcançariam os primeiros, cristaliza novas desigualdades, novas divisões, novas opressões, novos particularismos: o imperialismo se transforma, não desaparece. Longe de suavizar os costumes, o comércio de todos com todos,

entregue à lei impiedosa da concorrência, alimenta a guerra de todos contra todos. O desenvolvimento das ciências e das técnicas revela possibilidades e capacidades até agora desconhecidas, mas as condições de opressão e de exploração metamorfoseiam este potencial de libertação em novas servidões e exclusões, em miséria política e moral.

4. O Manifesto anuncia a “revolta das forças

produtivas modernas contra as relações modernas de produção e contra o regime de propriedade que condicionam a existência da

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

burguesia e sua dominação”. Há 150 anos, quaisquer que sejam as saídas provisórias, este conflito nunca cessou. Tomou a forma de crises, guerras, revoluções.

Nas origens destas crises está a existência dupla da mercadoria, o desdobramento do valor em valor de uso e valor de troca, a separação da compra e da venda, da produção e da realização da mais-valia, a autonomização dos momentos da reprodução social uns com relação aos outros, cuja unidade apenas a violência restabelece periodicamente.

A generalização planetária das relações mercantis gera assim uma crise de civilização inédita, que assume a forma combinada de crise social e de crise ecológica. Esta crise se manifesta por uma nova partilha imperialista do planeta, em que desigualdades sociais e ecológicas se aprofundam e se superpõem.

5. Não se trata do “fim do trabalho” no sentido antropológico, mas sim de uma crise específica do trabalho assalariado, da relação entre trabalho assalariado e capital, da lei do valor enquanto lei impessoal de alocação de recursos e de distribuição de riquezas. O processo de troca reduz cada dia o trabalho concreto ao trabalho abstrato, o trabalho complexo ao trabalho simples, uniforme, indiferente, “por assim dizer destituído de toda qualidade”; a “uma abstração social”, cujos seres trabalham realmente, eles mesmos reduzidos a uma simples “carcaça de tempo”, tornam-se “simples órgãos”.

Marx tinha previsto que a tendência histórica à socialização, à complexificação do trabalho, à incorporação do trabalho intelectual

e coletivo à produção, tornaria esta medida (2)

cada vez mais miserável e irracional. Chegamos

a isso.

Quando o nível de desenvolvimento das forças produtivas permitiria limitar voluntariamente sua utilização, quando o produto do trabalho se torna efetivamente

social e coletivo, quando o trabalho deixa de ser “sob sua forma imediata” a grande fonte da riqueza, quando o tempo de trabalho necessário

à sociedade poderia ser reduzido em proveito do

tempo livre ou destinado à satisfação de novas necessidades não compráveis, a lei do valor continua a decidir cegamente a alocação dos recursos, a criação e a distribuição do emprego. Pela primeira vez na história do capitalismo, ela opera mesmo no curto prazo, de maneira quase instantânea em escala planetária, através dos mercados financeiros e dos deslocamentos rápidos de capitais.

Continuar a medir com base no tempo de trabalho “as gigantescas forças sociais acumuladas”, aprisioná-las na golilha da lei do valor, leva assim às injustiças, às crises, à desordem generalizada. A exploração mercantil da força de trabalho e a redução das relações sociais à medida comum do tempo de trabalho social se traduzem assim em um desemprego de massa endêmico, exclusões massivas, crises cíclicas de reprodução, mas também na incomensurabilidade crescente de atividades sociais irredutíveis apenas ao padrão do trabalho abstrato.

6. Do mesmo modo, a lógica mercantil deprecia o futuro e ignora os efeitos de limiar, de amplificação, de irreversibilidade próprios à

biosfera. Duas lógicas antagônicas se enfrentam. A da natureza maximiza os estoques a partir do fluxo de raios solares, a do capital maximiza os fluxos em detrimento dos estoques não mercantis e não renováveis, que nenhum balanço puramente contábil pode levar em conta. Enquanto os ritmos naturais se harmonizam no longo prazo, a razão econômica procura ganhos rápidos e lucros imediatos. O capital vive no dia a dia, na imediatidade do gozo e na despreocupação do amanhã. Só a burocracia, com seu egoísmo estreito, pode rivalizar com ele.

Contra as idéias aceitas do fetichismo mercantil, a ecologia crítica dá seu veredito implacável: o mercado não satisfaz as necessidades, mas a demanda; a moeda não é o real, mas sua representação fantástica; a utilidade coletiva é irredutível a uma soma de utilidades individuais; os lucros do dia não fazem necessariamente os empregos de amanhã; (3) enfim, a economia mercantil não é compatível com as leis da biosfera, e sua pequena bolha funciona em detrimento do conjunto. A crítica ecológica do cálculo econômico revela assim a contradição explosiva entre a racionalidade mercantil, que ignora por princípio o jogo das reservas, e a solidariedade da espécie através da sucessão das gerações. Ela põe a nu a incomensurabilidade entre a temporalidade do mercado e a da biosfera. Exige uma avaliação a longo prazo das necessidades e das riquezas distinta desta, imediata, do jogo da concorrência.

7. Então: Marx, gênio mau produtivista ou anjo da guarda ecologista?

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

Seria evidentemente absurdo exonerá-lo das ilusões prometeuanas de seu tempo. Mas seria abusivo fazer dele o cantor despreocupado da industrialização a qualquer custo e do progresso numa via de mão única. Sua crítica da economia mercantil enquanto campo da racionalidade parcelaria o conduz, de fato, a constatar que a reprodução sempre ampliada do capital e do consumo implica “a exploração da natureza inteira”, e a “exploração da Terra em todos os sentidos”. A natureza se torna assim “um objeto para o homem”, uma “pura questão de utilidade”, submetida ao imperativo categórico do lucro.

É por isto que Marx não se deixa levar a uma apologia cega do progresso. O desenvolvimento das forças produtivas e das necessidades enriquece certamente o desenvolvimento potencial do indivíduo e da espécie. Mas sua determinação pela coação do capital, pelo caráter alienado do trabalho e pela reificação mercantil, mutila estas necessidades:

faz das forças produtivas um fetiche hostil. A universalização engendrada pelo círculo sempre ampliado da produção e da circulação é assim uma universalização truncada, desigualitária, formal.

Não é o progresso que é condenável, mas seu caráter abstrato e unilateral: a maneira pela qual os progressos da técnica “aumentam apenas a potência objetiva que reina sobre o capital” e reduzem a natureza a um objeto de exploração oferecido gratuitamente. Este progresso, socialmente determinado pela relação de produção capitalista consiste em “mudar a forma da servidão”, sem suprimi-la. Conduz ao esgotamento das “condições naturais” da reprodução da espécie. Assim, “todas nossas invenções e nossos progressos

parecem dotar de vida intelectual as forças materiais enquanto estas reduzem a vida humana a uma força material bruta”.

Diante de seus desgastes e de suas desilusões, o progresso ainda deve portanto, ser inventado, segundo critérios conforme às necessidades humanas e que respeitem sua ligação à natureza: o da redução massiva do tempo de trabalho obrigatório, o que permitiria reencontrar o sentido do jogo e dos prazeres do corpo, hoje submetidos ao princípio do rendimento; o da transformação qualitativa das relações entre os sexos, que constituem a primeira experiência simultânea da diferença irredutível do outro e da universalidade da espécie: o critério enfim de uma universalização efetiva e solidária da humanidade, prefigurada pelo internacionalismo revolucionário.

8. A lei do mercado e a relação de exploração são indissociáveis da propriedade privada.

Esta questão está no coração do Manifesto e do projeto comunista que enuncia:

“Neste sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade privada”; “em todos os movimentos, colocam a questão da propriedade, em qualquer grau de evolução que possa ter atingido, como a questão fundamental do movimento”. Não se trata, é claro, de abolir toda forma de propriedade, mas explicitamente “a propriedade privada de hoje, a propriedade burguesa” e o “modo de apropriação” fundado sobre a exploração de uns pelos outros.

A disseminação relativa ou aparente dos proprietários marcha hoje junto com

concentração sem precedentes da propriedade privada e de seu poder em detrimento dos espaços e dos poderes públicos. Não se trata apenas da privatização ou da reprivatização da produção, mas também da informação, dos serviços, da água, do ar, da moeda, do direito, da violência.

As negociações sobre o Acordo Multilateral de Investimentos (AMI) ou sobre o Novo Mercado Transatlântico (NTM) ilustram este apetite insaciável da empresa privada, que sonha ditar sua lei aos povos varrendo os obstáculos estatais.

9.

acontecimento anunciado.

O

Manifesto

se

inscreve

na

iminência

do

Desde junho de 1848 a figura das revoluções futuras se desvela, a luta de classes parte em duas a história do mundo. O Manifesto é o enunciado programático límpido desta ruptura. Do mesmo modo que “a revolução burguesa alemã não poderia ser senão o prelúdio imediato de uma revolução proletária”, a revolução democrática torna-se daí por diante indissociável da revolução social. É esta lição que a idéia de “revolução em permanência” traduz, na Mensagem à Liga dos Comunistas, dois anos depois.

Ela conjuga, em uma só fórmula algébrica, a passagem da revolução democrática à revolução social, a passagem da revolução política à revolução econômica e cultural, a passagem enfim da revolução nacional à revolução mundial.

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

10. No momento da primavera dos povos, o

espaço estratégico da política, onde se entrelaçam as correlações de força, é o do Estado Nacional. Para os autores do Manifesto, “o

proletariado de cada país deve, em primeiro lugar, conquistar o poder político, erigir-se em classe dominante da nação, tornar-se ele mesmo a nação; ele é por isso nacional, embora de nenhuma maneira no sentido burguês da palavra”.

e o exclusivismo

nacionais tornam-se a cada dia mais impossíveis”. O que já era verdade em 1848, é mais verdade ainda hoje.

Pois

“a

estreiteza

A mundialização conduz a uma metamorfose dos espaços e dos ritmos da política, a uma crise das regulações nacionais, sem que uma regulação transnacional coerente

se imponha ainda. Nenhuma época orgânica

emerge no horizonte de nosso época crítica, em que se defrontam as ordens seculares dos territórios, das nações, dos Estados. É a hora incerta das decomposições sem recomposições, das contradições sem sínteses, dos conflitos sem

superação.

11. A crise de representação e o descrédito

freqüentemente invocado da política são apenas

o efeito visível da grande prostração das fundações modernas.

Ilustram o risco, anunciado por Hannah Arendt, de que “a política desapareça completamente do mundo”, de que a cidadania seja esmagada entre os automatismos do horror econômico e as consolações ilusórias do moralismo humanitário. Logo o mesmo

acontece com as condições de possibilidade, presentes e futuras, de uma cidadania realmente democrática.

E contudo lutam…

12. “A história de todas as sociedades até nossos

dias não foi senão a história da luta de classes”: o

Manifesto desvenda o segredo do espectro e lhe dá carne, decifrando o enigma do movimento histórico.

A Revolução Francesa consumou a transformação das ordens e estados políticos antigos em classes sociais modernas, dissociou a vida política da sociedade civil, separou a profissão da posição social. O velho espírito corporativo sobreviveu, entretanto, no coração da sociedade moderna através da burocracia do Estado, cuja supressão só é possível se o interesse geral se torna efetivo e se o interesse particular se torna geral.

13. O Manifesto não se contenta em pôr a nu a

relação de classe dominante, inerente ao reino do capital. Anuncia uma simplificação crescente desta relação, uma polarização cada vez mais despojada que confronta burgueses e proletários. Este prognóstico cumpre uma função política. Contribui para resolver a contradição presente no próprio Manifesto:

enquanto o desenvolvimento industrial aumenta a força, a concentração e a consciência do proletariado, a concorrência o “esfarela”.

Como, apesar de tudo, do nada tornar-se

tudo?

Como seres privados das finalidades de seu trabalho, mutilados pelo despotismo da fábrica, submetidos ao fetichismo da mercadoria, podem quebrar o círculo de ferro da exploração e da opressão? Por qual prodígio o proletariado realmente existente pode arrancar- se aos sortilégios do mundo encantando?(4)

A resposta do Manifesto se reduz a uma

aposta sociológica na “constituição dos proletários em classe dominante”. O prefácio de 1890 de Engels o confirma:

“Para a vitória definitiva das proposições enunciadas no Manifesto, Marx se remetia ao desenvolvimento intelectual da classe operária, que deveria resultar da ação e da discussão comuns”.

Como se o desenvolvimento sociológico do proletariado determinasse mecanicamente sua emancipação política…

A história dolorosa do nosso século arruinou este otimismo, estreitamente associado às ilusões do progresso e às tentações cientistas do século passado.

14. O Manifesto não oferece uma teoria sociológica das classes.

A construção conceptual das relações de

classe é elaborada posteriormente, até o último capítulo, inacabado, de O Capital.(5) Seja então O

Capital, enquanto exposição não sociológica da questão: a teoria de Marx não é nem uma análise econômica, nem uma sociologia empírica das classes. Contra a racionalidade instrumental, que ordena e classifica, inventaria

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

e registra, acalma e pacifica, ela se liga à lógica interna do conflito social, que permite penetrar nos segredos da fantasmagoria mercantil.(6) Não que os diversos antagonismos sejam reduzidos à relação de classe: a diagonal da frente de classe os liga, os trabalha, e os combina sem confundi- los. Enquanto a sociologia positiva pretende “tratar os fatos sociais como coisas”, Marx trata- os como relações. Não define “uma classe”. Apreende relações de oposição e luta através das quais “as classes” determinam-se reciprocamente.

15. É preciso, portanto, esperar O Capital para ver as classes desdobrarem suas determinações através do próprio movimento do capital, para vê-las aparecer enfim, no seu lugar, não no nível da produção, nem da circulação, mas no nível da reprodução de conjunto.(7)

O processo de produção traz uma primeira determinação através da relação de exploração e da luta pela partilha do tempo de trabalho entre tempo necessário e sobretrabalho; mas, “no curso ordinário das coisas”, o trabalho fica dolorosamente subordinado ao capital que dita sua lei.

O processo de circulação determina a relação de classe sob o ângulo do antagonismo entre compra e venda da força de trabalho, do conflito entre o assalariado detentor da sua força de trabalho e o capitalista detentor do capital monetário; o contexto do conflito não é mais aqui a extensão imediata da mais-valia, mas a negociação conflitiva da força de trabalho enquanto mercadoria.

No processo de reprodução de conjunto enfim, as classes são determinadas pela combinação concreta da extorsão de mais-valia, da divisão e da organização do trabalho, da distribuição da renda, da reprodução da força de trabalho em todas as esferas da vida social.

Só então as classes podem aparecer como uma coisa distinta da soma de indivíduos que cumprem uma função social análoga. Na medida em que “a taxa média de lucro depende do grau de exploração do trabalho total pelo capital total”, a luta de classe não se reduz à soma de interesses convergentes, mas manifesta “a exploração da classe operária pelo conjunto do capital”, “do trabalho total pelo capital total”.(8) As relações de classe são então irredutíveis ao face à face patrão — assalariado na empresa: pressupõem o metabolismo da concorrência, a determinação do tempo de trabalho socialmente necessário à reprodução geral da força de trabalho; dizendo de outra maneira, a própria luta que decide as condições desta reprodução.

16. Se O Capital deixa em suspenso (inacabado e talvez inacabável) o capítulo sobre as classes, por outro lado não impede uma representação simplificada do conflito de classe.

Sublinha, com efeito, que a divisão em classes, mesmo nos países mais desenvolvidos, não aparece jamais em sua forma pura, que aí também “os estados intermediários e transitórios encobrem as linhas de demarcação”.(9) Dizendo de outra maneira, a formação social real não se reduz à armação nua das relações de produção. Integra as dimensões

políticas e culturais das relações ao Estado, da memória coletiva, da experiência das lutas.

Se, “à primeira vista”, mas apenas à primeira vista, a propriedade respectiva do capital, da terra e da força de trabalho parecem determinar “as grandes classes”, “entretanto”(10), à segunda vista, estas grandes divisões se complicam no campo da luta política. É no 18 Brumário e em As lutas de classes na França que é preciso portanto ir buscar a luta de classes em atos, em toda a plenitude complexa de suas determinações.

17. O lugar dos conflitos de classe não decorre em Marx de uma descrição fenomenal dos antagonismos sociais. Está no coração das relações de produção e de troca capitalistas, da acumulação, e das crises.

Não seria possível, portanto, apreender indiferentemente o movimento histórico tanto segundo as relações de classe, quanto segundo as relações de família, de sexo, de geração, de raças, ou de nações. Na época do capital, a relação de classe constitui a chave da inteligibilidade da dinâmica histórica.

Entre as diversas representações simbólicas e políticas possíveis da conflitividade social, as construções em termos de pertencimento fechadas, corporativas ou comunitárias, se reforçam à medida que enfraquecem a construção e a consciência de classe. No encadeamento de contradições múltiplas que trabalham o corpo social, ao contrário do espírito de paróquia e de capela, a frente de classe fornece um fio condutor, portador de universalidade: para o proletário, há

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

sempre do outro lado do muro, da fronteira, ou

da fé, um outro si-mesmo.

18. A

desaparecimento das classes (quem duvida seriamente da existência da burguesia, do reforço e da concentração da propriedade privada, da realidade quotidiana da exploração?), mas a das incertezas ligadas ao processo de construção/desconstrução em obra nas metamorfoses do trabalho e do próprio salariado.

questão de hoje não é a do

Em quais condições as novas formas de organização, a individualização e a privatização

do consumo, a atomização social generalizada,

podem permitir a reconstrução de práticas e de uma consciência coletivas? Em quais condições

a fratura entre o movimento social e a

representação política pode ser superada em um

mundo em que o espaço público é entregue à privatização e onde o bem comum escapa ao controle político?

As respostas acham-se em primeiro lugar

na preparação de um novo ciclo de experiências

acumuladas: a prova suficiente das classes, é que elas lutam; a prova suficiente da burguesia, é o barão Seillières.

19. A luta não é um jogo. Como o jogo infinito, a luta de classes não conhece senão resultados provisórios (vitórias, derrotas, ou compromissos). A convocação fica aberta para sempre. Mas a teoria dos jogos tem por princípio que “ninguém pode jogar se é forçado a jogar” e que “quem é obrigado a jogar não pode jogar”.

Nas nossas sociedades modernas, pode-se sempre procurar mudar de jogo e de condições passando de uma classe a outra. A mobilidade social permite estas transferências e estas promoções dentro de certos limites. O indivíduo pode assim ter a ilusão de escolher sua classe e seu lugar em torno do pano verde. Coletivamente, os papéis não deixam de ser menos solidamente distribuídos e perpetuados pela reprodução social. O oprimido é condenado a resistir, sob pena de ser pura e simplesmente esmagado. Esta obrigação de lutar proíbe toda confusão entre a luta das classes e a teoria dos jogos: lutar não é jogar.

20. Se as classes são o resultado de múltiplas

determinações, nos níveis da produção, da circulação, da reprodução, e do Estado, a luta de classes concreta não se reduz à relação de

exploração na empresa. A estrutura social não determina mecanicamente a representação e o conflito políticos. Estes supõem múltiplas mediações (nações, Estados, partidos, relações internacionais de dependência e de dominação) que fazem da luta uma luta política.

21. As relações de opressão entre sexos são

irredutíveis às relações de classe específicas de uma época e de um modo de produção

determinados. São entretanto, imbricadas e articuladas.

No modo de produção capitalista, a economia doméstica é subordinada à economia mercantil sem se reduzir a ela. O trabalho doméstico diz respeito a uma duração distinta, a uma temporalidade distinta, a um cálculo

distinto do referente ao trabalho assalariado, mas a economia de troca capitalista não abole a economia de transferência doméstica. Explora seu papel oculto na acumulação permanente básica, tanto na escala dos mercados nacionais quanto na da troca desigual internacional.

Daí a necessária autonomia estratégica do movimento de emancipação das mulheres.

22. O jargão da pós-modernidade é usado para pluralizar indefinidamente os conflitos, para negar qualquer modo de regulação global e toda coerência da relação social.

Levados no turbilhão de interesses fragmentados e egoístas, os indivíduos estariam condenados à solidão desolada de mônadas sem janelas e o parcelamento identitário generalizado seria o estádio supremo do fetichismo da mercadoria. O discurso pós- moderno dissolve assim o próprio capital em uma rede indiferenciada de relações e instituições.

Ora, se a acumulação do capital se alimenta de diversas opressões, e molda-as, perpetua-as, combina-as e unifica-as sob seu bastão, nem por isso o conflito de classe passa a ser apenas um conflito entre outros: ele estrutura a socialização no seu conjunto e determina os outros modos de conflito.

O movimento real em que se abole a ordem existente

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

23. O Manifesto Comunista não traça os planos

da sociedade futura. Não propõe um modelo pronto para o uso da sociedade perfeita. Não propõe substituir “a atividade social” pelo “engenho” dos inventores de sistemas, “as condições históricas da emancipação por condições fantasiosas”, a organização paciente do proletariado em classe pelas “experiências em pequena escala”, apenas pela “força do

exemplo” destinada ao fracasso.

Procura explicitar o movimento real de abolição da ordem existente para “atacar a sociedade existente em suas próprias bases”:

nada de cidade ideal, nada de “melhor dos mundos”, portanto, mas uma lógica da emancipação e do possível, enraizada na realidade do conflito.

24. A derrubada da ordem estabelecida tem por

horizonte “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

O comunismo aparece assim como o máximo de desenvolvimento individual, que não poderia ser confundido com as miragens de um individualismo sem individualidade: a espécie encontra no desenvolvimento singular de cada um (uma), de suas necessidades e de suas capacidades, a condição de seu próprio desenvolvimento universal.

livre

desenvolvimento de cada um não se concebe sem o livre desenvolvimento de todos: a emancipação não é um prazer solitário.

Reciprocamente,

o

25. Dirigido para este horizonte, o Manifesto não

propõe um programa detalhado, mas indicações, às quais, como dirá mais tarde Engels, não se deve dar uma importância

exagerada. Nem por isto deixam de ser significativas.

Tocam o essencial, e sob diversos ângulos: a “violação despótica do direito de propriedade e do regime burguês de produção”, quer se trate da “expropriação da propriedade fundiária”, do imposto fortemente progressivo ou da abolição do direito de herança.

Tendem à primazia da política sobre a economia, do bem comum sobre o interesse egoísta, do espaço público sobre o espaço privado, quer se trate da centralização do crédito, de um serviço público de transporte, da criação de empresas públicas, da reorganização do território pelo aproveitamento das terras incultas e melhora das terras cultivadas segundo um plano geral”, ou ainda da “educação pública e gratuita para todos”.

Põem enfim em questão a divisão do trabalho na sua forma mais extrema, a divisão entre cidades e campos, entre o trabalho agrícola e o trabalho industrial.

26. O Manifesto apreende praticamente no seu

nascimento as correntes políticas que, sob formas diversas, percorrem duradouramente a história do movimento operário.

O “socialismo feudal”, nostálgico de uma passado mítico, se reencontra sob múltiplas variantes do populismo reacionário. Não

encontrando as “condições materiais para a libertação do proletariado”, e procurando “uma ciência social” e “leis sociais” que possam “criar as condições”, os socialistas utópicos caem facilmente na utopia cientista. Outros enfim se contentam de corrigir as “anomalias sociais” da ordem burguesa organizando a beneficência em nome de uma moral humanitária.

Entre estas correntes reacionárias, reformadoras, utopistas, cientistas, há uma que merece uma atenção particular: o estado “embrionário do proletariado” e a “ausência de condições materiais de sua emancipação” alimentam um “igualitarismo grosseiro” ou um “comunismo grosseiro”. Suas características anunciam o fenômeno do despotismo burocrático: longe de realizar o desaparecimento das classes, generaliza o salariado; longe de realizar o desaparecimento do Estado na livre associação, cumpre a estatização integral da sociedade; longe de abolir a exploração capitalista, realiza a acumulação primitiva sob a forma de uma exploração burocrática e parasitária.

27. Sobre a via da emancipação, a conquista do poder político constitui a alavanca da transformação econômica e da libertação cultural: “O proletariado se servirá de sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo o capital à burguesia”.

No Manifesto, esta “primeira etapa da revolução operária”, na qual o proletariado se constitui em classe dominante, é rigorosamente sinônimo de “conquista da democracia” e de estabelecimento do sufrágio universal.

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

Ao fio e à medida dos progressos da associação e do desaparecimento dos antagonismos de classe, o poder público é chamado a “perder seu caráter propriamente político”. Assim, a Comuna de Paris será percebida como a “retomada do poder de Estado pela sociedade de que ele se torna a força viva, no lugar de ser a força que a domina e subjuga”, como “a forma política da emancipação social” em detrimento do Estado parasita, “aborto sobrenatural da sociedade”.

O problema, é que esta emancipação audaciosa, sua impaciência libertária, oposta a todo fetichismo burocrático do Estado, faz um curto-circuito na elaboração paciente de um pensamento institucional e jurídico da democracia: o desaparecimento anunciado deve resolver as antinomias da representação democrática.

28. Se o comunismo do Manifesto sublinha as questões sempre tão decisivas da propriedade, da conquista do poder e da democracia, da constituição do proletariado em classe, as experiências acumuladas desde então permitem medir suas lacunas e fraquezas:

— a passagem contínua da classe social à “classe

política” não permite pensar a especificidade da luta política, e das formas institucionais e

jurídicas da democracia.

— a revolução das relações de propriedade e de

produção parece determinar mecanicamente a transformação das relações de produção de conjunto, como se sua suposta mudança automática dispensasse de pensar precisamente a transformação dos conteúdos e da divisão do

trabalho, das relações de poder, ou das relações de sexo.

Boas vindas ao espectro que volta.

29. A questão para nós, já que o projeto comunista foi associado para sempre à promessa revolucionária do Outubro russo, é a de saber o que fica hoje desta imensa esperança.

Se não ficasse mais que apenas o fato de ter ousado, pela primeira vez, desafiar a servidão moderna, o acontecimento, a profecia política de que é portador, seria demasiado importante, como foi a Revolução Francesa, “para não ter de ser posto de lado em memória dos povos”. Tanto quanto a Restauração monárquica não pôde apagar da memória “a hipótese do cidadão e da representação do povo, a restauração presente não poderá afastar a hipótese da partilha” que o estalinismo traiu.

30. Se fomos duplamente vencidos, pelo inimigo declarado burguês e pelo inimigo burocrático do interior, e se algumas vezes também nos enganamos, nosso grande erro consiste nesta superestimação do homem, que compartilharam todos os “príncipes do possível”. Ninguém poderia reprová-los por ter tentado ultrapassar os limites em que se apagam os últimos traços de um Deus de sinistra memória. Seria incomparavelmente mais grave, realmente vergonhoso, e fundamentalmente humilhante, não ter nem mesmo tentado, ter dobrado a espinha diante do sentido da história, ter-se resignado a suas servidões voluntárias.

31. Terá então sido necessário o desaparecimento de suas caricaturas e de suas contrafações para que o espectro do comunismo volte a assombrar

o mundo. Pois o de hoje não é menos violento, menos desigual, menos inaceitável que o de ontem.

Trata-se sempre de revolucioná-lo. Os fracassos e as derrotas do século que transcorreu lançamentretanto, dúvidas sobre as vias e os meios desta grande transformação.

Ao fio das experiências históricas, a idéia da Revolução foi carregada de um triplo significado. Fórmula algébrica da mudança das sociedades modernas, ela se revestiu em primeiro lugar do sentido mítico (no sentido soreliano do termo) de uma imagem ainda imprecisa do futuro desejado e da humanidade libertada. Através da prova sangrenta das revoluções de 1848 e da Comuna de Paris, ela foi carregada de um conteúdo programático, que ligou indissoluvelmente a revolução democrática à revolução social. Com nosso século atormentado, o “das guerras e das revoluções”, a Revolução se enriqueceu enfim com um conteúdo estratégico, com um sentido da iniciativa e do movimento, da ação desenvolvida em uma temporalidade partida, feita de discordâncias e de contratempos.

A combinação explosiva da crise social e da crise ecológica põe em questão o futuro mesmo da civilização e da espécie humana.

Confirma, para conjurar a catástrofe, a urgência

e a atualidade de uma palavra revolucionária

de alerta e de despertar, “aberta ao que abala”, mesmo se as circunstâncias são inéditas e se é necessário explorar caminhos novos: como os

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

militares, sempre atrasados em uma guerra, porque alimentados pelas batalhas passadas, os revolucionários estão sempre atrasados em uma (ou várias) revoluções.

Mais vale sabê-lo, para libertar o mito mobilizador de sua parte de crença, e para imaginar uma revolução profana sem grande sujeito heróico. Uma revolução permanente, em que se entrelaçam, nas misérias do presente, o ato de enfrentamento político e o processo duradouro das mudanças econômicas e culturais.

32. Começado com a grande promessa dos amanhãs que cantam, o século se encerra com o desencanto de suas esperanças inaugurais. Deixando na sua esteira um amontoamento de ruínas, ele anuncia um futuro mais estreito, obscuro, e cheio de perigo, acuado entre o desgaste dos que não podem mais dominar e a impotência dos que não podem ainda.

Mudar o mundo não se torna menos necessário, mas mais difícil do que tinham imaginado os pioneiros do comunismo. Nenhum grande fetiche com maiúsculas — nem Divina Providência, nem Tribunal da História, nem Verdade Absoluta da Ciência — pode daqui por diante nos aliviar de uma responsabilidade prosaicamente humana nas incertezas da história aberta. Mudar o mundo, é então também, e ainda, interpretá-lo.

Quanto mais nos recusamos a sofrer as vontades imaginárias de uma História fetiche, mais temos a fazer, sem a bela certeza de uma fé passada, sem contarmos histórias a nós mesmos, na temível obrigação, em cada detalhe leiga e

profana, de trabalhar para a incerteza. Este compromisso sem garantia de sucesso, no perigo do erro e da derrota, é uma aposta na improvável necessidade de abolir a ordem estabelecida.

33. Mesmo quando, tendo em vista os crimes cometidos em seu nome, as palavras estejam hoje doentes e comprometidas, até o ponto de ser necessário tomar emprestadas ou inventar novas, continuaremos no fundo comunistas (comunistas marranos se preciso), simplesmente porque o comunismo é a expressão histórica e programática mais exata da luta contra a lógica despótica do capital. Expressa:

“o movimento emancipador, o levantamento requerido, desde que alguém se declare estar com a paciência esgotada por ter experimentado que os outros nomes, ? democracia e liberdade?, são dominação, exploração, e consenso em que abole-se a política; houve a haverá comunismo, porque as sociedades modernas são fendidas, disjuntas entre o irreversível princípio igualitário e a obstinação raivosa da dominação, porque o diferente se aloja no próprio oco da palavra liberdade”.(11)

Notas:

(1) As citações sem referências são extraídas do Manifesto do Partido Comunista.

(2) Bensaid se refere à lei do valor: a medida do valor das mercadorias com base no tempo de trabalho (Nota do tradutor).

(3) Referência uma um slogan lançado pela social-democracia alemã, justificando sua defesa dos lucros: “os lucros de hoje são os investimentos de amanhã e os empregos de depois de amanhã” (Nota do tradutor).

(4) Bensaid faz aqui uma referência a uma passagem de O Capital, na parte final do Capítulo XLVIII do Livro III, “A fórmula trinitária”, em que Marx resume o absurdo da visão ideológica da economia capitalista, propagada pelos economistas que ele chama de “vulgares”: “Em capital-lucro ou, melhor ainda, capital-juros, terra-renda fundiária, trabalho- salário, nessa trindade econômica que faz a conexão entre os componentes em geral do valor e da riqueza em geral com suas fontes, está consumada a mistificação do modo capitalista de produção, a coisificação das relações sociais, o amalgama direto das relações materiais de produção com sua determinação histórico- social: o mundo encantado, invertido e posto de cabeça para baixo em que Monsieur le Capital e Madame la Terre dançam sua ronda fantasmagórica como caracteres sociais e, ao mesmo tempo, como simples coisas”. Para Marx, nem o valor (ou a riqueza em geral) são formados pela soma de lucros (ou juros), renda da terra e salários, e muito menos estas três categorias econômicas correspondem à contribuição ao produto dos três “fatores de produção” (“capital”, “terra” e “trabalho”). Mas é desta maneira que as relações capitalistas são percebidas pelos que ficam presos dentro da ideologia burguesa. (Nota do tradutor).

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

(5) O Livro III de O Capital termina com o fragmento inacabado de um capítulo (Capítulo LII) chamado As Classes. (6) Nova referência à passagem de O Capital citada anteriormente. O tema da “fantasmagoria” das relações mercantis começa a ser desenvolvido no primeiro capítulo do Livro I, na famosa passagem sobre o “fetichismo da mercadoria”, atravessa todos os três Livros e é retomado na última seção do Livro III, em que estão o capítulo sobre A fórmula trinitária e o capítulo (fragmento) sobre As classes (Nota do tradutor). (7) Marx divide O Capital em três livros; o primeiro trata do processo de produção do capital, o segundo do processo de circulação, e o terceiro do processo de conjunto. É ao final deste último, como foi dito, que se inicia o fragmento sobre as classes. (8) Bensaid faz aqui referência à formação de uma taxa geral de lucro, determinada pela razão entre a mais-valia global e o capital adiantado global, estudada por Marx na segunda seção do Livro III de O Capital, especialmente no Capítulo IX, onde aparecem as expressões entre aspas (Nota do tradutor). (9) Frase do último capítulo (fragmento) de O Capital (Nota do tradutor). (10) Referências ao fragmento sobre as classes: “(…) o que forma uma classe? (…) À primeira vista, a identidade dos rendimentos e das fontes de rendimento. São três grandes grupos sociais, cujos componentes (…) vivem respectivamente de salário, lucro e renda da terra (…). Entretanto, deste ponto de vista, médicos e funcionários também formariam duas classes (…)” (Nota do tradutor). (11) Alain Brossat, “Comme en finir avec la politique (à propos d?un Livre noir et d?un énergumène)”, Critique Communiste 151, primavera 1998.

Por um marxismo crítico

Resumo:

Escrito por Michael Löwy

O resgate do marxismo como conhecimento

científico, crítico e projeto emancipatório tem que incorporar as conquistas dos marxismos do

século XX. A nova visão de mundo inaugurada por Marx é hoje — em tempos em que o mercado capitalista se tornou uma verdadeira religião secular — mais atual que nunca. Mas a herança da análise marxista apresenta também

limitações, particularmente no que diz respeito

às relações da produção com a vida social e

cultural e com o ambiente natural. E a melhor forma de superá-las é considerar o pensamento de Marx como um canteiro de obras, sobre o qual continuam a trabalhar as gerações de marxistas críticos.

Depois de mais de meio século de “marxismo” de Estado, ideologia oficial a serviço de um sistema burocrático autoritário ou (segundo os casos) totalitário, nada é mais legítimo do que o desejo de voltar a Marx, desembaçar seu pensamento das escórias acumuladas e retomar o diálogo (crítico) com a obra original.

Partilhamos desta intenção, sugerida tanto no título desta coletânea (Marx após os marxismos), como no texto proposto pelos editores da revista Futur Antérieur. Com a

condição, todavia, de evitar um sério equívoco:

crer que podemos abstrair um século de história do marxismo, uma história em que encontramos, ao lado de muitos impasses (sem falar das aberrações stalinistas), uma imensa riqueza e pistas indispensáveis para compreender nossa época. Não se pode simplesmente “voltar a Marx” negligenciando Rosa Luxemburgo e Lenin, Trotski e Gramsci, Lukács e Bloch, Walter Benjamin e Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Max Horkheimer, E.P. Thompson e Raymond Williams, Lucien Goldmann e Jean-Paul Sartre, Ernest Mandel e C.L.R. James, Henry Lefebvre e Guy Debord, José Carlos Mariátegui e Ernesto Che Guevara — poderíamos alongar a lista.

São os marxismos do século XX — partindo de Marx, mas indo bem mais além — que nos ajudaram a compreender o imperialismo e o fascismo, o stalinismo e a sociedade do espetáculo, as revoluções sociais nos países periféricos e as novas formas de capitalismo. Não se trata de uma herança homogênea ou de uma linha ortodoxa, mas de uma diversidade conflituosa e aberta, que nos é tão necessária, do ponto de vista de uma crítica do estado de coisas existente — ou da busca de uma alternativa radical — quanto as obras de Marx e Engels. Se eu continuo a me referir ao marxismo é porque não penso que Marx fosse (para retomar uma fórmula célebre) “um homem de ciências como os outros”. Seu pensamento introduz, como destaca com razão Gramsci, uma cisão no campo cultural, tanto teórica como prática, filosófica e política, cujos efeitos repercutem até o presente. Ela inaugura não uma “ciência da história” — que já existia antes dele — mas uma nova concepção de mundo, que permanece uma referência

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

necessária

emancipadores.

para

todo

pensamento

e

ação

O marxismo não tem sentido se não é

crítico, tanto em face da realidade social estabelecida — qualidade que faz imensa falta aos “marxismos” oficiais, doutrinas de legitimação apologética de uma ordem “realmente existente” — quanto ante ele próprio, ante suas próprias análises, constantemente questionadas e reformuladas em função de objetivos emancipadores que constituem sua aposta fundamental. Reclamar- se do marxismo exige portanto, necessariamente, um questionamento de certos aspectos da obra de Marx. Parece-me indispensável um inventário que separe o que permanece essencial para compreender e para mudar o mundo, do que deve ser rejeitado, criticado, revisto ou corrigido. Não pretendo que meu balanço seja o único legítimo, nem que ele seja mais “marxista” ou “marxiano” do que os outros. Eu o proponho como uma contribuição para um debate pluralista, sem temer, como dizia Lucien Goldmann, ser ortodoxo, nem herético.

A primeira e talvez maior contribuição

de Marx à cultura moderna é seu novo método de pensamento e de ação. Em que consiste esta nova visão de mundo, inaugurada pelas Teses sobre Feuerbach de 1845? A melhor definição me parece ainda a de Gramsci: filosofia da práxis. Este conceito tem a grande vantagem de destacar a descontinuidade do pensamento marxista em relação aos discursos filosóficos dominantes, rejeitando tanto o velho materialismo da filosofia das Luzes — mudar as circunstâncias para libertar o homem (com seu corolário político lógico: o apelo ao déspota esclarecido ou a uma elite virtuosa) — quanto o

idealismo neohegeliano (libertara consciência humana para mudar a sociedade). Marx cortou

o nó górdio da filosofia de sua época,

proclamando (terceira tese sobre Feuerbach) que na práxis revolucionária coincidem a mudança das circunstâncias e a transformação das consciências. Daí decorre, com rigor e coerência, sua nova concepção de revolução, apresentada pela primeira vez em A ideologia

alemã: é por sua própria experiência, no curso

de sua própria práxis revolucionária, que os

explorados e oprimidos podem quebrar ao

mesmo tempo as “circunstâncias” exteriores que

os aprisionam — o capital, o Estado — e sua

consciência mistificada anterior. Em outras palavras:a auto-emancipação é a única forma de emancipação autêntica. Deste ponto de vista, a

célebre fórmula do Manifesto inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores resume, em sua brevidade lacônica, o núcleo mais central do pensamento político marxiano:

“A emancipação dos trabalhadores será obra dos

próprios trabalhadores”. A revolução como práxis auto-libertadora é simultaneamente a mudança radical das estruturas econômicas, sociais e políticas, e a tomada de consciência,

pelas vítimas do sistema, de seus verdadeiros interesses, a descoberta das idéias, aspiraçõá

stalinista — que não é um “desvio teórico” mas um monstruoso sistema de monopólio de todos os poderes por um “Estado” (Stand) parasitário — aquele que se produziu neste nível foi sem dúvida o pior.

A filosofia da práxis tem também uma outra dimensão decisiva: contra o materialismo antigo que coloca o indivíduo contemplativo (Anschauend) ante às “circunstâncias sociais”, isto é, em face da “sociedade burguesa” enquanto conjunto de leis sociais e econômicas

“naturais”, independentes da vontade ou da ação dos indivíduos, ela percebe a sociedade como rede “prática”, concreta, de relações sociais, como estrutura criada pelos seres humanos no curso de sua atividade histórica e de sua apropriação da natureza pelo trabalho. Em outras palavras, a concepção da práxis está no coração da crítica marxista das alienações e, mais tarde, do fetichismo da mercadoria — ao mesmo tempo como “ilusão necessária” e como forma de objetivação social no capitalismo.

Hoje, quando somos mais do que nunca submetidos ao que Etienne Balibar chama “o totalitarismo da forma mercantil”, isto é, a uma condição na qual “os indivíduos são aprisionados na estrutura objetiva da troca, a partir do momento onde não somente os objetos com os quais os indivíduos têm negócios são mercadorias, mas a própria força de trabalho se torna mercadoria” e sua própria subjetividade é submetida à forma mercadoria (Balibar, 1994-95:

94).

Neste final do século XX, quando o mercado capitalista se tornou uma verdadeira religião secular, com seu culto fanático e restrito, seu cortejo de dogmas intolerantes, seus rituais de expiação, seu clero internacional de “especialistas”, sua excomunhão de todas as heresias, a crítica marxiana do fetichismo permite se desembaraçar desta capa de chumbo esmagadora, deste conformismo sufocante e desta hegemonia usurpadora do “pensamento único”. Ela inspirou alguns dos mais interessantes avanços da teoria social no século XX, da análise da reificação por Lukács até a crítica da razão instrumental pela Escola de Frankfurt e a da sociedade do espetáculo pelos situacionistas.

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

O que constitui a força do pensamento

de Marx e que explica sua persistência, sua vitalidade, seu ressurgimento perpétuo apesar das “refutações” triunfantes, dos repetidos enterros e das manipulações burocráticas, é sua qualidade ao mesmo tempo crítica e emancipadora, a saber, a unidade dialética entre a análise do capital e a convocação à sua derrocada, o estudo da luta de classes e o engajamento no combate proletário, o exame das contradições da produção capitalista e a utopia de uma sociedade sem classes, a crítica da economia política e a exigência de “eliminar todas as condições no seio das quais o homem é um ser diminuído,submetido, abandonado, desprezado” (Marx, 1971: 81).

Se a crítica marxista do capital guarda todo o seu valor é antes de tudo porque a realidade do capitalismo, como sistema mundial, apesar das mudanças inegáveis e profundas que ele conheceu depois de um século e meio, continua a ser a de um sistema baseado na exclusão da maioria da humanidade, na exploração do trabalho pelo capital, na alienação, na dominação, na hierarquia, na concentração de poderes e de privilégios, na quantificação da vida, na reificação das relações sociais, no exercício institucional da violência, na militarização, na guerra. Para compreender esta realidade, suas contradições e as possibilidades de sua transformação radical, a obra de Marx permanece um ponto de partida indispensável, uma ferramenta insubstituível, uma bússola sem a qual temos boas chances de perder o caminho.

É um fato que o mundo do trabalho

conheceu transformações profundas, principalmente no curso das últimas décadas:

declínio do proletariado industrial e desenvolvimento do setor de serviços, desemprego estrutural, formação (notadamente nos países do Terceiro Mundo) de uma massa de excluídos à margem do processo de produção — o “pobretariado”. Estes são fenômenos não previstos por Marx e que não podemos de forma alguma dar conta com conceitos como “trabalho improdutivo” ou “lumpemproletariado”.Mas o

proletariado, no sentido amplo, isto é, aqueles que vivem da venda de sua força de trabalho —

ou que tentam vender (os desempregados) —

permanecem o principal componente da população trabalhadora e o conflito de classe entre o trabalho e o capital continua a ser a principal contradição social das formações capitalistas — assim como o eixo em torno do

qual podem se articular os outros movimentos com vocação emancipadora.

O final do século XX é uma época caracterizada tanto pela globalização capitalista mais avançada – a universalização mercantil da economia-mundo – quanto pela multiplicação dos retrocessos identitários, das neuroses

territoriais obsessivas, dos fetichismos nacionais mórbidos; estas são duas faces da mesma moeda.

A reconstrução paciente das solidariedades

entre explorados e oprimidos — fundamento concreto de uma nova universalidade — permanece o único fio que permite encontrar a saída do labirinto identitário.

Tudo isso não impede a existência de problemas, dificuldades, limitações e insuficiências no pensamento de Marx. Parece-

me que os aspectos mais discutíveis da herança

marxista se situam na análise das relações da

produção com a vida social e cultural e com o ambiente natural . No quadro desta curta contribuição posso apenas assinalar estes

problemas, sem ter condições de discuti-los de forma mais sistemática.

Pode-se constatar em Marx uma certa tendência a subestimar as formas não- econômicas e não-classistas de opressão:

nacional, étnica ou sexual. A questão da dominação patriarcal sobre as mulheres, que afeta a metade da humanidade, está longe de ser um tema essencial para crítica marxiana da sociedade (Engels era muito mais atento ao problema), que permanece androcêntrico de uma maneira sofrível. Encontram-se páginas emocionantes em O Capital sobre o sofrimento das mulheres operárias impiedosamente exploradas pelos capitalistas ingleses, mas procuraremos em vão em suas obras uma análise consistente da opressão específica das mulheres enquanto tais, da construção do gênero como categoria social hierárquica ou da discriminação contra as mulheres no seio do próprio movimento operário.

Da mesma forma, a autonomia relativa dos fatos culturais como a religião ou a ética, sua irredutibilidade às relações de produção, não foram sempre levadas em conta por Marx ou Engels. Se eles tinham captado perfeitamente a natureza contraditória da religião — expressão da miséria real e protesto contra ela — estavam totalmente convencidos de que o papel de protesto da religião tinha terminado com a revolução puritana inglesa do século XVII. Sua abordagem dos fenômenos religiosos como sobrevivências do passado não permitiu darmos conta nem da persistência tenaz de formas obscurantistas e retrógradas (“o ópio do povo”) ao longo do século XX e, em particular, em nossos dias, nem da aparição de formas progressistas e mesmo revolucionárias de religiosidade (a Teologia da Libertação).

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

De outro lado, sua crítica frequentemente justificada do “moralismo” idealista e da ideologia jurídica os conduziu a recusar a formulação de valores éticos e de direitos humanos universais. Existe, é verdade, uma ética emancipadora universal que atravessa a obra de Marx e Engels, mas eles sempre se opuseram a sua explicitação e articulação teórica. Esta lacuna favoreceu, ao longo de toda a história do marxismo, as tentativas questionáveis de completar a herança marxiana com uma ética kantiana, utilitarista, fenomenológica ou liberal.

Permanece, enfim, a questão que exige talvez as revisões mais profundas do corpo teórico marxista: a relação entre produção e natureza. Dizer que “o marxismo é um produtivismo” como repetem nossos amigos ecologistas é pouco esclarecedor: ninguém denunciou tanto quanto Marx a lógica capitalista da produção pela produção, a acumulação do capital, de riquezas e de mercadorias como objetivo em si. A própria idéia de socialismo — contra o que foram suas miseráveis contrapartidas burocráticas — é a de uma produção de valores de uso, de bens necessários à satisfação de necessidades humanas. O objetivo supremo do progresso técnico para Marx não é o crescimento infinito de bens (“o ter”) mas a redução da jornada de trabalho e o crescimento do tempo livre (“o ser”).

Por outro lado, é verdade que há às vezes em Marx (e ainda mais nos marxistas posteriores) uma tendência a fazer do “desenvolvimento das forças produtivas” o principal vetor do progresso e uma postura pouco crítica frente à civilização industrial, principalmente em sua relação destruidora do ambiente. O texto “canônico” deste ponto de

vista é o célebre prefácio à Contribuição à crítica da economia política (1859), um dos escritos de Marx mais marcados por um certo evolucionismo, pela filosofia do progresso, pelo cientificismo (o modelo das ciências da natureza) e por uma visão sem nenhuma problematização das forças produtivas. Encontramos aqui e ali, em O Capital, referências ao esgotamento da natureza pelo capital, como nesta passagem bem conhecida:

“Cada progresso da agricultura capitalista é um progresso não somente da arte de explorar o trabalhador, mas ainda na arte de espoliar o solo; cada progresso na arte de aumentar sua fertilidade por um tempo, um progresso na ruína de suas fontes duráveis de fertilidade. Mais um país, os Estados Unidos da América do Norte, por exemplo, se desenvolve com base na grande indústria, mais este processo de destruição se realiza rapidamente. A produção capitalista apenas desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social esgotando ao mesmo tempo as duas fontes de onde brota toda riqueza: a terra e o trabalhador” (Marx, 1969: 363).

Pode-se encontrar outros exemplos. Mas permanece o fato de que falta a Marx uma perspectiva ecológica de conjunto. Sua concepção otimista e “prometéica” do desenvolvimento ilimitado das forças produtivas, uma vez eliminado o obstáculo representado pelas relações de produção capitalistas que o restringem, não é mais defensável hoje em dia. Não somente do ponto de vista estritamente econômico — integração dos custos ecológicos no cálculo do valor, risco de esgotamento das matérias primas — mas sobretudo considerando a ameaça de destruição do equilíbrio ecológico do planeta pela lógica

produtivista do capital (ou de sua pálida imitadora, a burocracia “socialista”). O crescimento exponencial da poluição do ar, do solo e da água, a acumulação de dejetos nucleares incontroláveis, a ameaça constante de novas Chernobyl, a destruição em um ritmo vertiginoso das florestas, o efeito estufa e o perigo de ruptura da camada de ozônio (que tornaria impossível toda a vida sobre o planeta) configuram um cenário-catástrofe que questiona a própria sobrevivência da humanidade.

A questão ecológica é, do meu ponto de vista, o grande desafio para uma renovação do pensamento marxista no limiar do século XXI. Ela exige dos marxistas uma profunda revisão crítica de sua concepção tradicional de “forças produtivas” e uma ruptura radical com a ideologia do progresso e com o paradigma tecnológico e econômico da civilização industrial moderna.

Walter Benjamin foi um dos primeiros marxistas do século XX a colocar este tipo de questão: em 1928, em seu livro Sens unique ele denunciava a idéia de dominação da natureza como “um ensinamento capitalista” e propunha uma nova concepção da técnica como “mestre da relação entre a natureza e a humanidade”. Alguns anos depois, nas Teses sobre o conceito de história ele se propunha enriquecer o materialismo histórico com as idéias de Fourier, este visionário utópico que tinha sonhado “com um trabalho que, muito longe de explorar a natureza, estava em condições de fazer nascer dela as criações que dormiam em seu seio” (Benjamin, 1978: 243).

Ainda hoje o marxismo está longe de ter superado seu atraso neste terreno. Uma das

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

pistas para uma nova abordagem é sugerida por um texto recente de um marxista italiano que — partindo de uma passagem de A ideologia alemã onde Marx evoca as forças produtivas que se tornam, sob o regime da propriedade privada, forças destrutivas — propõe: “A fórmula segundo a qual se produz uma transformação das forças potencialmente produtivas em forças efetivamente destrutivas, sobretudo em relação ao ambiente, parece-nos mais apropriada e mais significativa que o esquema bem conhecido da contradição entre forças produtivas (dinâmicas) e relações de produção (que as aprisionam). Além disso, esta fórmula permite dar um fundamento crítico e não apologético ao desenvolvimento econômico, tecnológico, científico e portanto de elaborar um conceito de progresso diferenciado (E. Bloch)” (Bagarolo, 1992: 25). Entretanto, os ecologistas se enganam se pensam poder dispensar a crítica marxista do capitalismo: uma ecologia que não leve em conta as relações entre “produtivismo” e lógica do lucro está condenada ao fracasso — ou pior, à sua recuperação pelo sistema. Como compreenderam perfeitamente os ecossocialistas — o primeiro Gorz, James O?Connor, Juan Martinez Alier, Jean-Paul Déléage, Frieder Otto Wolff — a racionalidade estreita do mercado capitalista, com seu cálculo imediatista de perdas e ganhos, é intrinsecamente contraditória com uma racionalidade ecológica que leve em conta atemporalidade longa dos ciclos naturais e a necessidade social de proteger o ambiente. Contra o fetichismo da mercadoria e a autonomização reificada da economia, o caminho do futuro é a edificação de uma economia política não-mercantil, baseada em critérios não monetários e extra-econômicos: em outros termos, a “reimbricação” (para retomar a

expressão de Karl Polanyi) da economia no ecológico, no social e no político.

Gramsci insistia na idéia de que “a filosofia da práxis se concebe, ela mesma, historicamente, como uma fase transitória do pensamento filosófico”, destinada a ser substituída em uma nova sociedade, baseada não mais sobre as contradições de classes e a necessidade, mas sobre a liberdade (Gramsci, 1979: 115-116). Mas enquanto vivermos em sociedades capitalistas divididas em classes sociais antagônicas, será em vão querer substituir a filosofia da práxis por um outro paradigma emancipador. Deste ponto de vista, penso que Jean-Paul Sartre não se enganou em ver no marxismo “o horizonte intelectual de nossa época”: as tentativas de “ultrapassá-lo” conduzem a regressão para níveis inferiores do pensamento, não para mais alémde Marx. Os novos paradigmas atualmente propostos — quer sejam a ecologia “pura” ou a racionalidade discursiva cara a Habermas, para não falar da pós-modernidade, do desconstrutivismo ou do “individualismo metodológico” — aportam freqüentemente contribuições interessantes, mas não constituem de forma alguma alternativas superiores ao marxismo em termos de compreensão da realidade, de universalidade crítica e de radicalidade emancipadora.

Como então corrigir as numerosas lacunas, limitações e insuficiências de Marx e da tradição marxista? Através de uma abordagem aberta, uma disposição para aprender e se enriquecer com as críticas e as contribuições vindas de outras partes — e antes de tudo dos movimentos sociais, “clássicos”, como os movimentos operários e camponeses, ou novos como a ecologia, o feminismo, os movimentos pelos direitos do homem ou pela

libertação dos povos oprimidos, o indigenismo, a teologia da libertação.

Mas é necessário também que os marxistas aprendam a “revisitar” as outras correntes socialistas e emancipadoras — e inclusive aquelas que Marx e Engels tinham por muito tempo “refutado” — cujas intuições, ausentes ou pouco desenvolvidas no “socialismo científico”, revelaram-se freqüentemente fecundas: os socialismos e feminismos “utópicos” do século XIX (owenistas, saint-simonistas ou fourieristas), os socialismos libertários (anarquistas ou anarco-sindicalistas), os socialismos religiosos e, em particular, o que eu chamaria os socialismos românticos, os mais críticos ante as ilusões do progresso: William Morris, Charles Péguy, Georges Sorel, Bernard Lazare, Gustav Landauer.

Enfim, a renovação crítica do marxismo exige também seu enriquecimento pelas formas mais avançadas e mais produtivas do pensamento não-marxista, de Max Weber a Karl Mannheim, de George Simmel a Marcel Mauss, de Sigmund Freud a Jean Piaget, de Fernand Braudel a Jürgen Habermas (para ficar em apenas alguns exemplos), assim como que levemos em conta os resultados limitados mas freqüentemente úteis de diversos ramos da ciência social universitária. É necessário se inspirar aqui no exemplo do próprio Marx, que soube utilizar amplamente os trabalhos da filosofia e da ciência de sua época — não somente Hegel e Feuerbach, Ricardo e Saint Simon, mas também de economistas heterodoxos como Quesnay, Fergunson, Sismondi, J. Stuart, Hodgskin, de antropólogos fascinados pelo passado comunitário como Maurer e Morgan, de críticos românticos do capitalismo como Carlyle e Cobbett, e de

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

socialistas heréticos como Flora Tristan ou Pierre Leroux — sem que isso diminua minimamente a unidade e a coerência teórica de sua obra. A pretensão de reservar ao marxismo o monopólio da ciência, rejeitando as outras correntes de pensamento para o purgatório da pura ideologia, não tem nada a ver com a concepção que Marx tinha da articulação conflituosa de sua teoria com a produção científica contemporânea.

A obra de Marx foi freqüentemente apresentada como um edifício monumental, de arquitetura impressionante, cujas estruturas se articulavam harmoniosamente, dos alicerces até o telhado. Mas não seria melhor considerá-la como um canteiro de obras, sempre inacabado, sobre o qual continuam a trabalhar gerações de marxistas críticos?

BIBLIOGRAFIA

BAGAROLO, Tiziano. (1992). “Encore sur marxisme et écologie”. Quatrième Internationale,nº 44, mai-juillet.

BALIBAR, Etienne. (Hiver 1994-1995). “Débat entre Jean-Marie Vincent et Etienne Balibar”. Critique Communiste, nº 140.

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(1971). Contribution à la critique de la philosophie du droit de Hegel. Paris, AubierMontaigne. [Marx, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Lisboa,Estampa

Atualidade

Organização à Luz da Experiência Histórica

da

Teoria

Leninista

da

Ernest Mandel

Transcrição autorizada

Fonte: MANDEL, Ernest. A Teoria Leninista da Organização. Lisboa: Edições Antídoto, 1975. pp.

119-154.

Transcrição: Daniel Monteiro

Direitos

Gentilmente

Socialista Revolucionária.

de

Reprodução:

cedidos

pela

©

Edições

Associação

Antídoto.

Política

1. Marx não nos deixou uma teoria acabada da formação da consciência de classe do proletariado nem, do mesmo modo, uma teoria acabada do partido. Existem nas suas obras elementos fragmentários duma tal teoria, mas esses elementos aparecem muitas vezes como contraditórios, pois evidenciam quer um quer outro dos aspectos da formação desta consciência de classe que prevalecem na análise marxista. Umas vezes surge o elemento que opta pela maturação subjetiva do proletariado a longo prazo — em função da própria condição proletária, quer dizer, em função da posição que o proletariado ocupa no processo de produção capitalista, e na sociedade burguesa em geral. Outras vezes, surge o elemento que destaque a imaturidade subjetiva imediata do mesmo proletariado — em função do peso da miséria, da alienação, do embrutecimento e, sobretudo, da sujeição à ideologia da classe dominante,

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

tudo isto resultante, igualmente, da condição proletária.

Coube a Lenin o mérito histórico de ter combinado estes elementos dispersos para formular uma teoria coerente da formação da consciência de classe proletária, teoria que constitui o alicerce da sua teoria de organização. Muitos dos mal-entendidos formulados a respeito desta teoria de organização e muitos dos processos de intenção imputados a Lenin ao longo de todo o século XX provêm da recusa em compreender este ponto de partida teórico. É certo que, quando se fala de uma teoria leninista de organização, tende-se a fazer referência exclusivamente à brochura Que Fazer? e a reconverter mais de um quarto de século de atividade incansável no domínio da organização unicamente aos princípios enunciados nesta obra. Na medida em que não

se veja em Lenin um Maquiavel hipócrita, que

passa deliberadamente em silêncio uma parte das suas intenções sempre que “a conjuntura é desfavorável" na medida em que se lhe reconheça o mínimo de boa-fé e de coesão ideológica, sem as quais a discussão das suas ideias perde todo o sentido, esta tentativa simplificadora torna-se evidentemente infundada. Há na obra de Lenin uma constância de certos temas-chaves que se encontram expostos da maneira mais clara e mais convincente em Que Fazer? Mas à medida que a

sua experiência se enriqueceu — antes de mais

a experiência das lutas revolucionárias do

proletariado russo de 1905, 1906 e 1917, e numa

medida não negligenciável, a experiência do movimento operário internacional durante e após a 1ª Guerra Mundial — Lenin integra na sua teoria de organização uma série de elementos suplementares, que encontraremos

elaborados sobretudo nos escritos sobre a falência da Social-Democracia em 1914-1916, em

O Estado e a Revolução e noutros escritos

fundamentais de 1917, nos documentos dos primeiros congressos da Internacional Comunista e em “O Esquerdismo: doença infantil do comunismo”. É o conjunto destes elementos agrupados em torno das teses fundamentais de Que Fazer? e corrigindo-as em certos aspectos, que constitui a teoria leninista neste domínio, e não um momento desta, limitado no tempo.

Outra observação preliminar refere-se à tentativa de muitos críticos recusarem a teoria leninista de organização com base nas práticas burocráticas da URSS pós-leninista. Trata-se dum manifesto erro metodológico.

Certamente que a unidade da teoria e da prática de que se reclamam os marxistas — e que Lenin teria sido o primeiro a assumir por sua própria conta — permite confrontar, constantemente, as teorias com os seus resultados práticos. Mas ela exige que se demonstre que tais resultados derivam da teoria

— e não de fatores diferentes, ou até de teorias

opostas. Condenar um manual de cirurgia porque um cirurgião falhou uma operação depois de ter feito os seus estudos com base nesse manual não é um procedimento científico muito sério. É preciso ainda demonstrar que foi a aplicação das teorias expostas no manual que causou a morte do paciente — e não um dos mil fatores diferentes, independentes do teórico, que podem influir no desenrolar da intervenção cirúrgica, ou como consequência duma recusa deliberada em seguir o ensinamento recebido.

Por fim, é necessário distinguir o que, na teoria leninista de organização possui um valor

universal, quer dizer, o que se aplica ao conjunto da época da crise geral do capitalismo,

e deriva assim do conjunto das características

fundamentais da sociedade burguesa, da produção capitalista e da natureza de classe do proletariado — e o que não é senão acidental, derivando de condições específicas do tempo e do espaço. Só para dar um exemplo: quantas vezes não se citou a passagem de Que Fazer? contra a eleição dos comitês de partido, e a favor da sua designação pelo Centro, como prova das atitudes visceralmente “antidemocráticas” de Lenin? Esquecem-se de acrescentar que Lenin justifica estas proposições exclusivamente pelas condições difíceis de clandestinidade nas quais se encontrava o jovem Partido Social- Democrata Operário Russo; que a brochura Que Fazer? proclama ao mesmo tempo a necessidade da eleição e da maior divulgação de todos os comitês e de todos os mandatários do Partido, desde que esteja assegurado o mínimo de liberdades democráticas e que as Teses do II Congresso da Internacional Comunista reafirmam o princípio da elegibilidade de todos os comitês, abrindo de novo explicitamente, exceções, para as condições de clandestinidade extrema.

2. A teoria leninista da formação da consciência

de classe proletária parte da distinção, que é essencial para o marxismo, entre a classe em si e

a classe para si, que o jovem Marx tinha já

estabelecido em A Miséria da Filosofia. Desta distinção decorrem o conceito da existência objetiva das classes sociais, independentemente do seu nível de consciência, e o conceito de luta de classes objetiva, independentemente do nível de auto-compreensão dos interesses históricos das classes em presença. Estes dois conceitos de

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

classes objetiva, e de luta de classes objetiva, são indispensáveis para a coesão interna do materialismo histórico e para se compreender a famosa definição do Manifesto Comunista: “( ) Toda a história da humanidade é a história da luta de classes.”

É evidente que os escravos da Antiguidade e que os servos da Idade Média tinham ainda muito menos consciência dos seus interesses históricos de classe que os trabalhadores britânicos ou americanos de hoje. Negar o caráter de luta de classes aos grandes afrontamentos entre o Capital e o Trabalho, às grandes ações de classe do proletariado como, por exemplo, a greve geral italiana de 14 de Julho de 1948 ou as greves gerais belgas de 1950 e de 1960-1961, sob o pretexto de que a consciência dos proletários empenhados nestas batalhas não estava à altura das exigências da história, ou que estes se batiam por objetivos políticos que não saíam do domínio da democracia burguesa, é enterrar este conceito de classe objetiva e de luta de classes objetiva, e por um ponto de interrogação sobre todo o materialismo histórico. Não seria já a existência social que determinaria a consciência, mas a consciência - e só ela - que permitiria ajuizar da realidade de uma luta social que implica milhões de indivíduos. Mas, assim como a teoria leninista de organização nega os desvios deste subjetivismo extremo, também se opõe resolutamente ao objetivismo não menos mecânico que, sob o pretexto de que a luta de classes é para Marx o resultado inevitável da existência da sociedade capitalista e dos antagonismos que a dilaceram, vê na consciência o reflexo automático da existência social, e apaga assim a particularidade essencial da luta de classe proletária, aquela que a

distingue de qualquer luta de classe do passado, a saber: a obrigação em que se encontra a classe operária de substituir uma sociedade e uma economia regidas por leis cegas e objetivas pela construção deliberada de uma sociedade e de uma economia novas e regidas pela direção consciente dos produtores associados.

Uma vez que a construção do socialismo não pode ser o resultado automático nem da luta de classes no seio da sociedade burguesa, nem da simples libertação dos elementos da nova sociedade, presentes no seio da sociedade antiga, mas de uma organização consciente dos produtores, o nível de consciência desses produtores determinará, numa medida apreciável, nas possibilidades de sucesso do empreendimento. Por outras palavras: da distinção estabelecida por Marx entre o conceito de classe em si e o de classe para si, Lenin deduziu a distinção do conceito de luta de classe elementar — resultado espontâneo, inevitável, das contradições de classe que o próprio modo de produção capitalista introduziu no seio da sociedade burguesa — e da luta de classe revolucionária, que é a única que permite transformar a primeira num assalto vitorioso contra a economia capitalista e o Estado burguês, e cujo êxito depende essencialmente do nível de consciência, de organização e de direção do proletariado.

Certamente, a crítica de “voluntarismo” tantas vezes dirigida a Lenin é injustificada porque, na sua teoria, a luta de classe revolucionária não é nunca separada, mecanicamente, da luta de classe elementar. Ela não pode ser senão o produto desta, em certas condições históricas objetivas, claramente delimitadas. Contrariamente aos populistas, Lenin jamais acreditou que a simples “vontade

revolucionária” ou “educação revolucionária” pudessem produzir uma revolução vitoriosa nas condições do czarismo. Sempre se preocupou em precisar que esta “vontade” e esta “educação” deviam partir da luta de classe elementar de uma classe social específica, o proletariado, ao qual o desenvolvimento do capitalismo na Rússia ia atribuir capacidades de luta e de organização de que não dispunha qualquer outra classe social da Rússia pré-capitalista. Nunca se esqueceu também de precisar que só em condições históricas bem determinadas — condições que geram periodicamente crises pré- revolucionárias, devido às contradições acumuladas no seio da sociedade russa sob o czarismo — o esforço de transformar a luta de classe elementar em luta de classe revolucionária podia dar os seus frutos.

Na ausência destas premissas — as únicas que permitem explicar de que modo a luta de classe elementar pode produzir uma “classe em si”, pode produzir a consciência de classe proletária — a obra de uma vanguarda revolucionária não podia ter sucesso. Será interessante examinar os fundamentos socioeconômicos destas premissas, no quadro do materialismo histórico; voltaremos mais adiante a isso. Mas retenhamos, de momento, apenas isto: o que distingue a teoria leninista de organização de outras teorias, mecanicistas ou voluntaristas, não é o fato de negar as ligações evidentes entre luta de classe elementar do proletariado e luta de classe revolucionária, nem de contestar que a primeira constitui a pré- condição da segunda (que uma maior amplitude da primeira não pode senão facilitar a eclosão da segunda). O que a distingue, é que ela contesta ligações automáticas e espontâneas entre a primeira e a segunda, prevê que a

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

segunda não derivará da primeira se, às condições objetivas que presidem à sua eclosão, não se juntarem uma série de condições subjetivas que constituem o seu corolário fatal. É

aí que encontramos todo o aprofundamento da

teoria marxista da formação da consciência de classe proletária efetuada por Lenin, através da

sua teoria de organização.

3. O nível preciso de consciência do proletariado não é nem o produto automático do seu lugar no processo de produção, nem também, o produto automático da sua experiência (e, portanto, da amplitude das suas lutas passadas e presentes). Esse nível resulta dum conjunto de fatores muito mais complexos, e só a sua interação permite explicar, em última análise, por que razão, numa época determinada, num país determinado, este nível é aquele que é.

A teoria leninista da formação da consciência de classe proletária começa por explicar que essa formação representa um processo desigual e descontínuo. Esse processo desigual e descontínuo de formação da consciência de classe proletária é, em primeiro lugar, o reflexo do processo histórico desigual e descontínuo da formação do próprio proletariado.

O conjunto dos operários assalariados, tal como aparecem num dado momento, num determinado país, não foi condenado; no mesmo momento, e nas mesmas circunstâncias

a vender a sua força de trabalho. Uns são

proletários industriais, filhos de proletários

industriais, desde há várias gerações. Outros, acabaram de ser arrancados à sua aldeia natal e

à agricultura ancestral. Uns, estão marcados

pela vida e disciplinas coletivas da grande fábrica. Outros, sofrem a influência corporativa da pequena empresa e do trabalho semi- artesanal. Uns, estão impregnados da civilização dos grandes centros urbanos, onde a vida coletiva fora da fábrica prolonga muito naturalmente os impulsos solitários derivados do próprio trabalho industrial. Outros, sofrem o duplo efeito alienante da condição proletária e do habitat semi-rural isolado e atomizante. Uns, são educados, desde a infância, nas organizações operárias. Outros, estão submetidos à influência ideológica da classe burguesa transmitida pelas organizações clericais ou “neutras”. A diversidade da consciência do proletariado, num determinado momento, é assim função duma estratificação que reflete as origens históricas e as diferentes condições de vida e trabalho das diversas camadas proletárias.

Às raízes objetivas dessa estratificação do proletariado juntam-se raízes subjetivas não menos importantes. Cada operário não sofrerá da mesma maneira e no mesmo grau a influência ideológica da classe dominante. Diferenças de experiência, de inteligência, de temperamento, de caráter, farão reagir diferentemente diferentes membros duma mesma classe social, submetida às mesmas forças de exploração e de opressão. Mais cedo ou mais tarde a grande maioria da classe empenhar-se-á na luta — mas o fato de uns o fazerem mais depressa que outros, e compreenderem melhor o alcance geral da luta, tem evidentemente, uma importância decisiva sobre o comportamento cotidiano de uns e de outros — sobretudo fora dos períodos de grandes lutas. Se a estratificação social do proletariado tem causas objetivas, a estratificação subjetiva determina em ligação com ela, ao caráter

descontínuo do desenvolvimento da consciência de classe. Este resulta por seu lado de uma característica fundamental da sociedade capitalista e da condição proletária, que é preciso lembrar a este propósito.

A classe operária sofre a exploração capitalista não em função duma qualquer prévia escolha ideológica, mas em função duma obrigação econômica inevitável à qual não pode escapar, em condições “normais”. Ela não pode deixar de trabalhar permanentemente, sem se ver condenada a morrer de fome (nos países

neocapitalistas, de legislação social “generosa”, as indenizações de desemprego são impiedosamente suprimidas passado um certo tempo, se as autoridades burguesas chegarem à conclusão de que “o rapaz não quer mas é trabalhar”). Quer dizer: no seu conjunto, a classe operária não pode estar permanentemente em luta e, fora dos períodos de luta revolucionárias que põem na ordem do dia o derrubamento do regime capitalista, toda a luta de classe neste regime desemboca inevitavelmente numa “reprivatização” parcial da classe, uma vez terminado o combate. Só os elementos mais conscientes, os mais enérgicos, os mais obstinados, resistirão a esta tendência em voltar

à “luta pela existência”, à “vida privada”, que

resulta da própria estrutura da sociedade e da

economia capitalistas.

Esta mesma estrutura objetiva reflete-se, igualmente, através de uma estrutura mental, ideológica, por uma tendência à interiorização e

à aceitação cotidiana das relações de produção

capitalista. Até os operários mais “refratários”

compram pão, pagam rendas e impostos e reproduzem assim, diariamente, as relações

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

mercantis que constituem o fundamento do modo de produção capitalista, sem se aperceberem disso. E travaram ao longo de decênios, lutas de classe ferozes, inclusivamente lutas políticas (como as dos Cartistas britânicos) inclusive insurreições, (como a dos operários de Lyon), sem por isso compreenderem que o capitalismo seria impossível sem a generalização das relações mercantis, sem a transformação da força de trabalho em mercadoria, e dos meios de produção em capital.

É indispensável um esforço de

informação e formação teórica para desnudar todos os segredos e todos os mistérios da exploração capitalista. Este esforço, por definição, pode ser individual (ou no melhor dos casos, empreendido por grupos restritos de indivíduos); não pode ser o produto imediato da experiência. Ora, a grande massa só aprende pela experiência. Chegada ao seu estádio supremo, o da elaboração e da assimilação da teoria científica, a formação da consciência de classe do proletariado torna-se portanto, inevitavelmente, um processo individualizado

e individualizante (isto é, aliás, um dos

mecanismos essenciais pelos quais o operário alienado e desumanizado pode começar a conquistar uma individualidade independente. Mas isto é outra história). Torna-se, pela mesma

razão, um processo de diferenciação no seio da classe operária.

4. O conceito leninista da consciência de classe proletária levado ao seu mais alto nível apoia-

se, também, no papel relativamente autônomo

da teoria marxista no processo histórico.

Implica, por outras palavras, a impossibilidade

de aceder a uma consciência global da condição

proletária e das condições da sua superação — a uma consciência global do capitalismo e do socialismo — numa base puramente experimental, empírica, pragmática.

A experiência dos trabalhadores e de alguns grupos de trabalhadores é, forçosamente, uma experiência fragmentária e fragmentada da realidade social, limitada pelo horizonte preciso no qual se desenrola a sua existência: algumas empresas, alguns bairros, algumas cidades. As lutas que partem dessa experiência imediata são por esse fato marcadas pelo selo duma consciência parcelarizada que reflete — mesmo que se tente negá-lo — o trabalho parcelarizado, que é característico do proletariado, com o seu corolário inevitável de reificação, de alienação e de “falsa consciência”.

O caráter, inevitavelmente corporativista, destas lutas implica que a consciência de classe elementar, que resulta das lutas de classe elementares comporta numerosos aspectos que estão em contradição com uma luta de classe no sentido profundo e histórico do termo. Pois esta consciência parcelarizada reproduz divisões no seio do proletariado, que resultam das condições da própria produção capitalista e que a burguesia se esforça por manter a todo o custo. O proletariado não se torna uma classe para si — não se “constitui em classe”, para retomar a fórmula de Marx — senão na medida em que esses fatores de divisão setorial, corporativista, localista, regionalista, nacionalista, racista, cedam o passo à consciência unificadora dos interesses comuns a todos os proletários, independentemente das particularidades de profissão, de ocupação, de qualificação, de habitat, de raça, de religião, ou de nacionalidade.

Mas se, numa certa etapa do seu desenvolvimento, o modo de produção capitalista favorece, incontestavelmente, a eclosão de lutas unificadores e gerais da classe operária, vê-se claramente que essas lutas não chegam para substituir a consciência fragmentária e parcelarizada por uma consciência global, totalizante, de todas as contradições capitalistas e de todas as condições de vitória do socialismo. Independentemente dos fatores acima mencionados, que entravam a formação duma tal consciência globalizante, há o simples fato de que essas lutas generalizadas não são mais que momentos “pontuais” da existência operária, que só se produzem uma ou duas vezes durante a vida de cada geração operária (e em certas gerações nem sequer uma única vez confrontar a Alemanha entre 1933 e 1968!). Nestas condições, a origem puramente empírica duma tal consciência de massa, baseada naquilo que foi efetivamente vivido, torna os fatores que determinam o caráter fragmentário da consciência operária infinitamente mais poderosos que os fatores que operam em sentido contrário.

Uma das ideias-mestras de Que Fazer?, que conserva hoje todo o seu valor universal como no momento em que esta obra foi redigida, é que o proletariado não pode — aceder a uma consciência global da realidade capitalista — da sua própria existência — senão através duma prática social globalizante, isto é, através duma prática política. Mais exatamente:

que só pode aceder a esta consciência de classe, levada à sua mais alta expressão, aquela minoria da classe operária disposta a (e capaz de prosseguir uma atividade política permanente mesmo nos períodos de recuo do movimento de massa, mesmo nas fases de “reprivatização” da

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

maioria dos trabalhadores, mesmo nas fases de ascenso da influência da ideologia burguesa e pequeno-burguesa no seio da classe operária. Eis o fundamento materialista da necessidade dum partido de vanguarda, proclamado por Lenin.

A maneira como Lenin privilegiou, deliberadamente, esta práxis política que traz constantemente ao de cima todos os aspectos da realidade capitalista, oposta à práxis trade- unionista (“economicista”) que se contenta em agitar os trabalhadores em torno da exploração e da opressão imediatas, sofridas na sua própria empresa, bairro, cidade, (e quando muito: região, país) está na base de inúmeros mal-entendidos e interpretações mal intencionadas. Os fundamentos teóricos desta concepção são contudo, manifestos. O que Lenin contesta — e o que contestaram antes dele Marx e Engels, salvo talvez em algumas frases das suas obras de juventude, e mesmo estas isoladas em geral do seu contexto — é que a acumulação gradual e descontínua da experiência imediata conduz “no fim de contas” a reproduzir uma análise teórica, que somente um esforço particular tinha podido produzir inicialmente (evidentemente num contexto histórico determinado, em última análise, pela existência prévia da sociedade burguesa e da luta de classe proletária). Cem greves por reivindicações imediatas, mesmo que travadas com o maior ardor do mundo, não levarão necessariamente a uma consciência de classe globalizante, socialista. Basta estudar a experiência das lutas de classe na Grã-Bretanha durante a segunda metade do século XIX, a experiência das lutas de classe nos Estados Unidos durante o período 1940-1970, para nos apercebermos disso, imediatamente.

Somente uma atividade que ultrapasse as lutas “economicistas” pode, em definitivo, conduzir a uma consciência que ultrapasse o trade-unionismo. Dificilmente se podem aceitar as premissas da dialética materialista, da teoria marxista do conhecimento, e contestar a razão de ser desta tese de Lenin. A necessidade de um partido operário de vanguarda decorre, portanto, da necessidade de desenvolver permanentemente tal atividade, e da impossibilidade em que se encontra a massa operária no seu conjunto de a desenvolver de maneira contínua em regime capitalista, em função da sua própria estratificação objetiva e dos poderosos obstáculos subjetivos que impedem uma acumulação constante, gradual, contínua, da consciência de classe no seu seio.

O partido de vanguarda funciona assim, objetivamente, como a memória coletiva da classe operária, a qual impede que os conhecimentos acumulados durante as fases de lutas generalizadas se percam nas inevitáveis fases consecutivas de refluxo dessas lutas, a qual assegura a continuidade da acumulação de consciência nas condições de descontinuidade da atividade política das massas.

5. Assim, o conceito de partido de vanguarda reconduz-nos ao da periodicidade das lutas de classe generalizadas, do caráter cíclico das grandes explosões operárias. Descobrimos, assim, um fundamento materialista suplementar da teoria leninista de organização. Porque a organização separada da vanguarda operária é função das tarefas a cumprir. Ela é um instrumento de trabalho destinado a um fim preciso: transformar as explosões operárias generalizadas, em assaltos vitoriosos contra a

economia capitalista e o Estado burguês; derrubar com sucesso o sistema capitalista e edificar um Estado operário — a ditadura do proletariado — que prepara, com êxito, a construção duma sociedade socialista.

A organização de vanguarda, separada das massas, não é o único modelo de organização operária possível. Ela é função duma perspectiva histórica precisa: a da inevitabilidade das explosões revolucionárias a médio ou longo prazo, que não se transformarão em revoluções vitoriosas senão graças à atividade da vanguarda organizada. A margem desta atualidade da revolução, a organização separada da vanguarda apenas se justifica em função de objetivos puramente ideológicos, que correm o risco de degenerar em sectarismo. Sempre que as únicas lutas previsíveis forem lutas parciais, apenas é possível para as largas massas a acumulação gradual de experiências, e o único papel mediador que a vanguarda poderia desempenhar seria o da transmissão dos conhecimentos pela propaganda e pela educação — um papel que não justifica uma organização separada e que pode ser realizada no seio das organizações de massa, com a condição que elas respeitem um mínimo de democracia interna.

É preciso sublinhar a este propósito, que antes de 1914, Lenin apenas tinha uma visão precisa da atualidade da revolução para a Rússia (e alguns outros países da Europa oriental). Em função desta perspectiva, absteve-se de preconizar a organização separada da vanguarda em relação aos partidos sociais- democratas de massa antes de 4 de Agosto de 1914. Contentou-se em promover uma coordenação bastante frouxa entre as diversas correntes de esquerda, no seio da 2ª

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

Internacional, sobretudo quando das discussões que estalaram quanto à atitude a adotar em relação à guerra imperialista que se anunciava. Só quando o deflagrar desta guerra o convenceu de que o sistema capitalista mundial passava por uma fase histórica de crise geral, que colocava a revolução na ordem do dia num grande número de países, só nessa altura, estendeu o princípio da organização separada da vanguarda ao conjunto do globo e se pronunciou pela criação da Internacional Comunista.

O caráter cíclico das explosões de grandes lutas do conjunto do proletariado, que são potencialmente revolucionárias, deriva da complexidade das circunstâncias necessárias para abalar profundamente a sociedade burguesa e para conduzir os trabalhadores a ultrapassarem o estádio das lutas pelas

reivindicações imediatas. Só excepcionalmente

o conjunto dos fatores necessários se

encontrarão reunidos, quer os fatores objetivos (crise profunda das relações de produção capitalistas) quer os subjetivos (desunião e paralisia crescentes das classes dominantes; enfraquecimento do aparelho de repressão; descontentamento crescente das massas laboriosas atingindo o nível duma cólera surda; sentimento crescente de que os motivos de descontentamento não podem ser sanados pela

via das reformas graduais e de reajustamentos

“legais”, antes exigem urna ação direta; uma confiança crescente das massas na sua própria força, quer dizer, na sua capacidade de desencadear tal ação, etc.). É evidente, que atendendo às tendências profundas à interiorização das relações capitalistas, e à reprivatização duma massa de operários, após as lutas parciais, tendências essa inerentes ao

próprio modo de produção capitalista, o concurso de circunstâncias que torna a situação madura para as explosões revolucionárias, ou potencialmente revolucionárias, tem de ser forçosamente excepcional. Pelas mesmas razões — às quais se alia neste caso o peso da derrota e do ceticismo que a engendra — uma explosão abortada, que não atingiu o seu objetivo, não pode ser seguida, a breve prazo, por uma outra vaga ascendente de lutas generalizadas, mas sim por um declínio da combatividade das massas, até que um novo conjunto de condições favoráveis desencadeie um novo ascenso. Falamos aqui de “explosões” não no sentido de acontecimentos isolados, mas de fases da luta de classes radicalizando-se e generalizando-se progressivamente, em oposição a outras fases de lutas dispersas, reduzidas e em volta de objetivos unicamente imediatos (não podemos aqui tratar das relações entre o ciclo econômico

e o ciclo da luta de classes, mas indicaremos

somente de passagem que estas relações não são as de uma relação mecânica e diretamente causal).

O papel que a organização de vanguarda tem a cumprir em relação às explosões periódicas de lutas generalizadas deve ser examinado simultaneamente pelas fases preparatórias das lutas potencialmente revolucionárias e pelas fases de lutas generalizadas propriamente ditas. Trata-se dum duplo aspecto da relação dialética “vanguarda/massas” que estão por elucidar. Mas

a própria natureza da revolução socialista, e da

tomada do poder pela destruição do aparelho de Estado burguês implica a necessidade duma ação conscientemente centralizadora de lutas parciais, mesmo que tenham uma grande amplitude. Se a sociedade burguesa pode

efetivamente começar a desintegrar-se na periferia, nas fases de crise revolucionária agudas, esta desintegração nunca pode levar à dissolução automática do Estado burguês. Este tem de ser conscientemente destruído. Sempre que esta destruição não se efetiva, um processo contra-revolucionário pode ser encetado com êxito, mesmo por forças numericamente restritas, opondo-se a massas muito numerosas. O papel desempenhado pelos restos do exército imperial durante as semanas decisivas de Novembro 1918 - Março 1919 na Alemanha é disso a melhor ilustração, com as mais trágicas consequências históricas.

6. A relação entre a vanguarda e as massas em período não-revolucionário é antes de mais uma relação pedagógica de mediação. A organização de vanguarda não funciona só como a memória coletiva da classe, mas esforça-se, constantemente, por comunicar os conhecimentos acumulados, graças às lutas e às experiências passadas, ao maior número possível de proletários.

Quando falamos de processo pedagógico, não esquecemos, evidentemente, o caráter dialético desse processo, no qual não existe uma verdade acabada que é transmitida de maneira passiva a uma multidão que se supõe ignorante, mas antes um metabolismo de experiências, um fluxo e refluxo constante de impressões e de ideias, entre a massa menos politizada e a vanguarda organizada. Só quando este fluxo é firmemente estabelecido nos dois sentidos a vanguarda terá superado, definitivamente, o risco de se tornar uma seita ou uma capela, e desempenhará verdadeiramente o papel de

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

memória e de acumulador de experiências coletivas de toda a classe.

A mediação entre o programa, resumindo todos os ensinamentos das lutas passadas e a sua generalização teórica, e às massas, cujas preocupações permanecem circunscritas em volta de objetivos imediatos, não pode fazer-se, exclusivamente, através duma pedagogia literária ainda que Lenin tenha sublinhado, justamente, que o que separa o revolucionário do reformista ou do centrista, é que o revolucionário prossegue a propaganda revolucionária e a preparação da revolução mesmo nas fases não-revolucionárias. Esta mediação exige, igualmente, uma forma específica de ação. O “grande plano estratégico” de Lenin contido em Que Fazer? que consiste em transformar o partido de vanguarda em confluente e estimulante de todos os movimentos de protesto e de rebelião contra o regime estabelecido que não sejam objetivamente reacionários, foi mais tarde estendido por ele para o conceito de reivindicações transitórias, retomado por Trotsky no seu Programa de Transição, em 1938.

A estratégia das reivindicações transitórias implica a elaboração de reivindicações que, embora partindo das preocupações imediatas das massas, não são realizáveis e assimiláveis no quadro do regime capitalista. Sempre que se tornam eixos de ações generalizadas da classe operária, as reivindicações transitórias tendem, portanto, a quebrar os quadros da economia capitalista e do Estado burguês. Só quando as massas têm imediatamente tais objetivos para as suas ações, é que estas poderão, dificilmente, ser reabsorvidas pelo regime, pela concessão de reformas. Ora elas só têm tais objetivos no

momento duma greve geral, se tiverem sido sistematicamente preparadas anteriormente, tanto pela propaganda como pelas “ações exemplares”, e pela formação no seu seio de quadros operários que encarnem todo este processo de mediação e que o transmitam quotidianamente aos seus companheiros de trabalho.

Seria acreditar em milhares de milagres supor a massa capaz de encontrar, por instinto, no momento duma grande explosão revolucionária, as reivindicações necessárias para fazer triunfar a revolução e capaz de encontrar a resposta às mil e uma manobras reformistas que permitiram o estrangulamento de todas as explosões revolucionárias na Europa Ocidental apesar das relações de força momentaneamente bastante favoráveis à revolução.

A centralização do partido, sobre a qual Lenin insistiu fortemente no debate em volta de Que Fazer? é antes de mais uma centralização política, a compreensão do fato de que a massa operária não acederá à consciência de classe, ao seu nível mais elevado, a não ser com a condição de ultrapassar o horizonte estreito das experiências nascidas de lutas parciais na condição, por outras palavras, de centralizar as suas experiências. O aspecto puramente organizacional desta centralização é secundário, no raciocínio de Lenin, e muito influenciado ainda pelas condições específicas de ilegalidade em que se construiu a social-democracia russa.

A fraqueza da argumentação de Rosa Luxemburgo contra Lenin, é que ela concentra o seu fogo sobre o aspecto organizacional da centralização leninista, menosprezando largamente o seu aspecto político. Fazendo isto,

é obrigada a sugerir uma teoria da formação da

consciência de classe proletária diferente da de

Lenin, muito mais simplista e simultaneamente muito mais otimista, que considera que esta

consciência de classe só pode ser função da luta

e que a luta é suficiente para lhe assegurar a

formação. A experiência histórica, e nomeadamente a da revolução Alemã, nega esta tese. Nem sequer as lutas mais amplas, mais

tumultuosas, mais longas (pense-se no período de agitação e de lutas de massa quase ininterruptas de 1918 a 1923) bastaram para assegurar por si próprias um nível de consciência suficientemente elevado às massas operárias alemães que lhes permitisse levar a cabo uma revolução vitoriosa. Como estas lutas estão condenadas ao declínio periódico, qualquer teoria que vê a formação desta consciência como simples função duma experiência de luta descontínua, sem papel acumulador, centralizador de experiências, e memória comitiva do partido de vanguarda, condena esta formação a um trágico trabalho de Sísifo.

Para prestar justiça a Rosa Luxemburgo, é necessário acrescentar que desde 1914, e sobretudo desde a eclosão da revolução Alemã, ela compreendeu perfeitamente que a diferenciação ideológica do proletariado não seria automaticamente ultrapassada pela amplitude das próprias lutas. É por isso que preconizou a organização autônoma da vanguarda operária, conceito que inclui nos seus escritos programáticos tais como “O Que quer a Liga Spartacus?”. Pode-se dizer, portanto, que se tornou igualmente leninista, no final da sua vida.

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

7. Quando examinamos a relação “vanguarda/massas” em período revolucionário,

o quadro muda e as insuficiências dos debates

de 1902-1903 aparecem claramente. É sobretudo

a propósito destas experiências que Lenin fez

importantes correções à sua teoria de organização, depois de 1905, de agosto de 1914 e

sobretudo em 1917.

A experiência histórica demonstrou, com efeito, que a existência dum Partido Social- Democrata organizado (para retomar a terminologia de Lenin dos anos 1902-1903) não

é de modo nenhum garantia do papel objetivo

que desempenhará na crise revolucionária. A história ofereceu-nos o exemplo de numerosos partidos que tendo, durante anos, apregoado as suas convicções marxistas, no momento duma crise revolucionária não só não se esforçaram por conduzir esta até à conquista do poder pelo

proletariado, como ainda refrearam por todos os meios o ardor revolucionário desse mesmo

proletariado, ou mesmo tomaram a iniciativa de organizar, deliberadamente, a vitória da contra- revolução. O comportamento da social- democracia alemã durante a crise revolucionária em 1918-1919 é disso o exemplo mais típico — mas não o único. A chegada ao poder de Hitler não é mais que o resultado final da derrota da revolução Alemã, derrota na qual

a responsabilidade histórica dos Noske, Ebert, Scheidemann foi evidente.

Rosa Luxemburgo e Trotsky pressentiram tal eventualidade mais cedo que Lenin, nos anos 1903-1906. Por outras palavras, compreenderam que as próprias massas operárias que, nas condições de funcionamento “normal” do capitalismo, eram fortemente influenciadas pela ideologia burguesa e pequeno-burguesa, podiam, em momentos de

crise revolucionária, dar provas de uma iniciativa, de uma combatividade, de uma energia revolucionária que ultrapassava de longe as dos militantes educados durante anos na teoria marxista.

Quando examinamos o balanço histórico das lutas de classe desde 1914, encontramos esta lição não uma vez ou duas, mas literalmente dezenas de vezes. Enumerar toda a lista de explosões revolucionárias em que os partidos operários foram ultrapassados pela atividade revolucionária das massas, é enumerar, praticamente, todas as crises revolucionárias que sucederam nos países imperialistas — e também de uma série de crises nos países coloniais e semi-coloniais.

Quererá isto dizer que a história demonstrou que a iniciativa espontânea das massas (inclusivamente as massas não organizadas) é condição suficiente de vitórias revolucionárias e que basta eliminar os “travões organizados” para assegurar a queda do capitalismo? De modo nenhum. Porque o balanço histórico é duplo a este respeito. Por um lado, as massas revelaram-se em numerosos momentos, “mais revolucionárias” que os partidos. Mas essas mesmas massas mostraram- se igualmente incapazes de assegurar por elas próprias o derrubamento do capitalismo.

Na ausência de uma vanguarda organizada que conquiste a hegemonia política no seu seio e que concentre a sua energia em objetivos precisos — destruição do aparelho de Estado burguês; tomar nas mãos os meios de produção e a sua organização num modo de produção socializado; construção de um novo poder — os seus mais corajosos assaltos, as suas mais audaciosas vitórias, permanecerão sem

futuro. O exemplo mais trágico e mais convincente a este respeito foi fornecido pela experiência espanhola de Julho de 1936. Pode- se extrair uma série de conclusões, por

conseguinte deste balanço histórico o que permite efetuar uma atualização da teoria leninista de organização — atualização essa que

o próprio Lenin efetuou no decurso do período

1914-1921.

Antes de mais, é claro que a dialética “massas/partidos” complica-se e alarga-se, à luz do 4 de Agosto de 1914. Torna-se, assim uma dialética “massas-partidos não seguindo uma linha revolucionária-partidos revolucionários”.

A existência de partidos não constitui por si só uma garantia contra a reabsorção da classe operária pela ideologia burguesa e pequeno- burguesa. Pelo contrário, pode tornar-se o motor

e o veículo desta reabsorção como foi o caso,

primeiro, da Social-Democracia e, seguidamente, de uma série de PC de massa (em

França, Itália, Grécia, etc.). Não se trata já de opor simples e mecanicamente a “organização” à “espontaneidade”, mas de examinar em que condições teóricas e práticas a organização eleva

a consciência de classe do proletariado, estimula

a sua hostilidade em relação à sociedade burguesa no seu conjunto, prepara a sua intervenção massiva nas crises revolucionárias, no sentido do seu aprofundamento e da sua generalização, e educa os seus próprios militantes (a vanguarda) para uma intervenção nas crises, com vista à sua transformação em revoluções socialistas vitoriosas.

Por outro lado, é claro que a amplitude

da atividade das massas, no momento de crises

revolucionárias, não permite confinar o processo histórico à única relação recíproca “partidos-massas não organizadas”. Toda a crise

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

revolucionária, mesmo num país mediamente industrializado, levou, quase sempre, até agora, à criação de formas de auto-organização das massas (Sovietes, conselhos operários), embriões do futuro poder proletário e instrumentos imediatos de uma dualidade de poder de fato. O aspecto profundamente revolucionário destes órgãos de autor-organização e de auto-governo das massas, é que eles abrangem precisamente o conjunto do proletariado e dos explorados, incluindo as camadas não organizadas ou inativas durante os períodos “calmos” ou de lutas de classe apenas parciais.

Lenin apreendeu a importância-chave do fenômeno dos Sovietes com um pouco de atraso relativamente a Trotsky, que via neles, desde 1906, a forma de organização geral da futura revolução russa vitoriosa, e a forma de organização universal das revoluções proletárias. Mas compreendeu-a a fundo — a não apenas de maneira “oportunista”, nos momentos revolucionários — como lhe reprovam críticos contemporâneos mal intencionados. E Lenin compreendeu melhor que Trotsky a dialética particular “Sovietes- partido revolucionário” que este último não assimilou a fundo senão em 1917: se é impossível uma revolução num país industrializado sem organização de tipo Soviético — o que não implica evidentemente que a terminologia seja por todo o lado a mesma — do conjunto do proletariado, é igualmente impossível uma revolução vitoriosa sem que no seio dos Sovietes uma vanguarda organizada conquiste a hegemonia política através de um trabalho de explicação de propaganda e de agitação incansável, sem a sua ação organizadora, centralizadora, sobre a imensa

energia das massas libertadas no momento da crise revolucionária.

Este “papel dirigente do partido” não implica nem o conceito de partido único (que contradiz pelo contrário o conceito de organização soviética, pois esta, na medida em que deve ser a organização do conjunto dos trabalhadores, há de refletir inevitavelmente a diversidade dos níveis de consciência, de filiação ideológica e organizacional do próprio proletariado, quer dizer, implica a inevitável multiplicidade dos partidos operários e das tendências operárias), nem o de uma hegemonia adquirida por medidas administrativas ou repressivas. A história da revolução russa confirma-o: o emprego de tais medidas esteve sempre na proporção inversa da hegemonia política que detinha o partido bolchevique no seio do proletariado e das mais amplas massas. Durante todo o tempo em que essa hegemonia esteve garantida — adquirida pela superioridade da sua linha política e pela sua capacidade de convencer as massas desta — não teve de recorrer a nenhuma medida repressiva no seio da classe operária e da própria organização soviética (salvo medidas de auto- defesa contra aqueles que tinham, no sentido literal do termo, desencadeado a luta armada contra o poder dos Sovietes). Toda a medida administrativa e repressiva que foi levado a tomar no seio da classe operária resultou de um declínio prévio da sua influência política no seio de determinados sectores desta.

Podem-se procurar as causas deste declínio neste ou naquele erro político conjuntural cometido pelos dirigentes bolcheviques, em determinado momento preciso; o debate a este respeito, dura desde há meio século e não terminará tão cedo. Mas para

quem estude esta época histórica com um mínimo de sentido objetivo, é evidente que as razões essenciais do isolamento progressivo dos bolcheviques no seio das massas em 1920-1921 não residem neste ou naquele aspecto secundário da situação ou da política de Lenin, mas nas condições objetivas que determinavam, por seu turno, uma passividade crescente das massas. (Não extraímos daqui, evidentemente, a conclusão menchevique, segundo a qual mais teria valido “não tomar o poder num país atrasado”, nem a conclusão apologética para o estalinismo segundo a qual “o socialismo não se podia construir na Rússia senão com meios bárbaros, terroristas”. Tudo depende do grau relativo da atividade das massas; uma política correta do Partido poderia reformá-la, depois de 1923, poderosamente).

É aqui que se pode reconhecer quanto se enganam todos aqueles que, na esteira da Rosa Luxemburgo de 1903 — a de 1918 era já mais prudente! — acreditam ainda hoje que o recurso à atividade das massas é o único remédio histórico para os riscos de burocratização conservadora do partido. Pelo menos no caso da URSS a passividade crescente das massas precedeu (e numa larga medida determinou) a burocratização crescente do partido. E pode reconhecer-se a Lenin este mérito histórico se se comparar o grau de atividade das massas nos sovietes dirigidos politicamente pelos bolcheviques e a de outros sovietes, a duração do funcionamento real dos sovietes na Rússia com a do funcionamento de organismos de tipo soviético nos países onde os bolcheviques não foram nada hegemônicos no seio da classe operária, a existência e o “papel dominante” dum partido revolucionário de vanguarda de tipo leninista, não somente não podem ser

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

considerados como a antítese de uma organização autônoma das massas em organismos de tipo soviético, mas pelo contrário asseguram-lhe uma existência mais longa e um melhor e mais eficaz funcionamento.

8. É evidente, que Lenin subestimou no decurso do debate de 1902-1903, os perigos que para o movimento operário podiam surgir do fato de se constituir uma burocracia no seu seio. Concentrou, nesta época, o seu fogo sobre a intelligentsia pequeno-burguesa e os “trade- unionistas”, de horizontes curtos. Como Rosa Luxemburgo assimilou melhor a experiência da social-democracia alemã, que já nesta época era muito ambígua, pôde, melhor do que Lenin, pressentir que o perigo maior de conservadorismo e de adaptação ao status quo, não surgiria nem de uma nem de outros, mas do próprio aparelho social-democrata. Instalado nas organizações de massa e encostado às migalhas da “democracia burguesa”, este aparelho tinha na realidade já “realizado o socialismo por sua própria conta”. Ia adotar uma orientação fundamentalmente conservadora, racionalizada pela necessidade de “defender as conquistas feitas”. O revisionismo e o reformismo encontram aí as suas raízes materiais e sociais bem como ideológicas. Esta “dialética das conquistas parciais” foi em seguida estendida pela burocracia stalinista à escala mundial.

À luz da experiência histórica, Lenin aprendeu muito melhor, a partir de 1914, o papel-chave que a burocracia das organizações operárias pode desempenhar na transformação destas, de instrumento para impulsionar revoluções socialistas, em instrumentos de

defesa do status quo social. Na sua luta contra a social-democracia internacional, deu uma importância essencial à análise da sua burocratização. A partir de 1918, apreendeu, profundamente, o perigo de burocratização do primeiro Estado operário, e consagrou uma boa parte dos últimos anos da sua vida a um combate contra este perigo.

Ao fazê-lo, Lenin elevou aliás o problema do domínio ideológico e psicológico (“os hábitos burocráticos”, “os métodos burocráticos”, “a mentalidade burocrática”) ao nível social. Para ele a burocracia é uma camada social que defende interesses sociais determinados (essencialmente no domínio da retribuição, do modo de vida, dos rendimentos. É por isso que não é uma classe social, não ocupa um lugar particular e historicamente necessário no processo de produção, coisa que fizeram, pelo menos numa época determinada da sua história, todas as classes sociais). E desde 1918, transfere uma boa parte deste raciocínio para o domínio do Estado soviético e para a luta contra a deformação burocrática deste.

Brandiu-se contra Lenin o argumento de que o modelo de organização do partido que defendia teria facilitado o processo de burocratização na URSS. Como esta crítica lhe foi efetivamente dirigida desde 1902-1903, aparece com a auréola de análise profética. Respondemos anteriormente à objeção segundo a qual Lenin teria proposto um modelo de organização não-democrático. Porém, a questão do modelo de organização possível dos partidos operários merece uma análise mais detalhada.

Na medida em que se rejeite o clube de discussão ou a reunião informal e descontínua de indivíduos, a história forneceu-nos dois

modelos essenciais de organização dos partidos operários: modelo baseado na seleção individual de militantes, a partir do seu nível de consciência individual e da sua atividade; e o das secções baseadas na circunscrição eleitoral, agrupando todos aqueles que afirmam a sua adesão aos princípios socialistas. Estes dois modelos, um “restrito”, o outro “lato”, mostram bastante bem a divisão da social-democracia russa em “bolcheviques” e “mencheviques”.

Qual dos dois modelos se revelou mais democrático? Diremos à luz da experiência histórica, que o segundo se burocratizou mais rapidamente que o primeiro e que ao burocratizar-se, se reconverteu, aliás fundamentalmente, no segundo modelo.

Não é difícil compreender que o agrupamento de grande número de membros passivos — geralmente ausentes às reuniões — sem nível de consciência e “comprometimento” elevados, é bem mais facilmente manipulável por um aparelho ou por demagogos individuais, do que uma comunidade de ativistas comprometidos toda a sua vida na luta por uma mesma causa, que julga a eficácia de cada um à luz da contribuição que ele traz para a defesa desta causa. Quantos mais elementos passivos um partido “lato” tiver, mais fácil se torna a burocratização. Quanto mais um partido de vanguarda for composto exclusivamente de militantes ativos, maior é a garantia contra a burocratização. Foi, aliás afogando os elementos ativos e conscientes num grande número de aderentes passivos, que Stalin facilitou grandemente a burocratização do partido bolchevique, depois da morte de Lenin, que já exprimira tal receio no seu famoso Testamento.

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PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

O problema da burocratização do partido

operário — fenômeno social facilitado ou entravado por um determinado modelo de organização, mas de modo nenhum causado por este — está estreitamente ligado ao da democracia operária, isto é, à possibilidade de controle dos membros sobre o aparelho, e da elaboração da linha política em função dos interesses de classe a defender (e não, tendo em vista interesses sectoriais, ou pior ainda, tendo em vista a auto-justificação, perigo que ameaça qualquer organização numa sociedade baseada na produção mercantil e na divisão social do trabalho). A este respeito, o balanço histórico é também claro. No tempo de Lenin, o partido bolchevique foi um partido vivo e democrático, atravessando periodicamente debates de tendência apaixonados, permitindo a expressão de opinião em desacordo com as da direção (ou da sua maioria) não excomungando nenhuma das posições oposicionistas, permitindo que a experiência resolvesse as divergências tácticas. Pode afirmar-se, sem cair em erro, que este partido foi mais democrático, e permitiu debates de tendência mais sistemáticos, do que qualquer partido operário importante na história — e certamente do que os partidos social- democratas.

É verdade que no momento em que foi

maior o isolamento dos bolcheviques, no momento da introdução da NEP, Lenin propôs e conseguiu que se aprovasse a interdição das frações no partido. De resto, só propôs isso por razões conjunturais e como medida passageira, e nunca como questão de princípio. Pode pensar- se que esta decisão foi errada — e à luz da história pensamos que o foi efetivamente, porque permitiu a Stalin asfixiar

progressivamente o direito de tendência, e deste modo toda a democracia no interior do partido.

Mas aqueles que citam triunfalmente este “pecado” de Lenin como a confirmação do seu “pecado original” pretensamente anti- democrático esquecem, com demasiada facilidade, que no próprio momento em que Lenin se comprometeu a favor da supressão do direito de fração, confirmou solenemente o direito do oposicionista Chliapnikov imprimir os seus pontos de vista oposicionistas e de os distribuir, pagos pelo partido, a todos os membros do partido, em centenas de milhares de exemplares: que nos mostrem um único partido social-democrata em que isto tenha sido praticado, não dizemos sistematicamente, mas mesmo, só ocasionalmente!

E até no X Congresso do PCR, em que foi tomada a decisão de proibir as frações, Lenin tornou a confirmar, não menos solenemente, o direito de tendência, opondo-se a uma emenda de Riazanov que quis impedir que se elegesse no futuro o comitê central segundo as plataformas de tendências. Se surgem divergências fundamentais, não se pode impedir que elas sejam resolvidas perante o conjunto do partido, exclamou ele (“Obras Completas”, tomo 32, página 267 da edição alemã, Dietz Verlag, Berlim 1961). Foi a partir do momento em que a burocracia impediu tais discussões, e este direito de tendência, que o partido cessou de ser o instrumento revolucionário forjado por Lenin. Um outro argumento tem ainda sido citado para justificar a “tendência burocrática inerente” às concepções bolcheviques de organização que o próprio Lenin se teve que opor ao seu próprio “aparelho” cada vez que esboçou uma viragem para o “movimento revolucionário de massas”,

PARTE I – MARXISMO REVOLUCIONÁRIO ATUAL

principalmente em Abril de 1917. Aqueles que defendem esta concepção esquecem um pequeno detalhe: é que neste drama histórico não havia apenas três personagens principais: o herói “positivo” — as massas revolucionárias; o “traidor” — o aparelho central do partido; e Lenin, oscilando entre uns e outros. Havia ainda milhares de operários bolcheviques militantes de base. Foi o empenhamento resoluto destes trabalhadores de vanguarda que permitiu que as “Teses de Abril” de Lenin triunfassem tão rapidamente sobre a resistência da maioria do comitê central, no início da revolução russa. Foi a ausência desta camada mediadora decisiva que impediu Lenin de realizar o mesmo sucesso em 1922-1923, no decurso do seu “último combate” contra Stalin.

Eis-nos, portanto, chegados a uma categoria sociológica, em lugar de considerações psicológicas e puramente ideológicas. É esta categoria de trabalhadores de vanguarda, que encarnam a consciência de classe do proletariado, quase sós nas fases de recuo ou de estagnação do movimento de massas, em comunhão intima com a maioria da sua classe quando este mesmo movimento de massas atinge o seu nível mais elevado, que constitui o elo central da concepção leninista de organização.

Resumiremos esta concepção afirmando que ela consegue efetuar a união dos elementos de continuidade e de descontinuidade, de pedagogia e de aprendizagem permanente dos educadores, de centralização e de democracia, inerentes à luta proletária. Encarna, assim, a tradição humanista e revolucionária da história contemporânea.

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PARTE II MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO
PARTE II
PARTE II
MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO
MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

Greve

de

Massas,

Partido

E

Sindicatos

(1906)

Escrito por Rosa Luxemburgo

Retirado de Textos escolhidos de Rosa Luxemburgo (org. Isabel Loureiro)

No ? m de dezembro de 1905, Rosa Luxemburgo, na época jornalista do Vorwärts (órgão central do SPD) e também membro da direção do Partido Social-Democrata da Polônia

e Lituânia (SDKPiL), parte para Varsóvia a ? m de acompanhar de perto a revolução russa, que havia começado em janeiro desse ano (Varsóvia

e uma parte da Polônia integravam o Império

russo). Em março é presa com seu companheiro Leo Jogiches. Ameaçada de execução, é libertada no ? m de junho graças a uma ? ança paga pelo SPD. Obrigada pelas autoridades tsaristas a ? xar residência em Kuokkala, pequena cidade ? nlandesa perto de São Petersburgo, onde encontra os principais revolucionários russos, Lenin entre eles, Rosa redige Greve de massas, partido e sindicatos, texto que marca o início da ruptura coma direção da social-democracia alemã.

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

Que este seja um de seus escritos mais conhecidos e mais reeditados, não é por acaso. É aqui que ao analisar um processo político concreto, a revolução de 1905 na Rússia, Rosa dá sua contribuição original à teoria marxista. Ao fazer o balanço da revolução russa (tirando lições para o movimento operário em geral e para a social-democracia alemã em particular), ela mostra que na greve de massas o momento subjetivo, a consciência de classe, se articula com o momento objetivo da história, com as tendências do desenvolvimento capitalista. A greve de massas seria a perfeita tradução da dialética entre organização e espontaneidade, política e economia, ? cando o elemento criativo do lado da espontaneidade das massas. A experiência revolucionária direta fortaleceu nela a convicção de que as grandes transformações históricas não são fabricadas pelas organizações políticas – ainda que estas tenham um papel relevante a desempenhar – e de que a consciência de classe é antes criada na ação que produzida pela leitura de obras teóricas marxistas, ou de pan? etos revolucionários.

Não só Greve de massas, partido e sindicatos, como também os artigos poloneses dessa época expõem claramente a convicção de Rosa Luxemburgo de que a revolução só pode ser obra das próprias massas, nunca de grupos armados, nem de vanguardas intelectuais que se põem no lugar das massas. Contra todos os que querem “organizar” uma revolução, é evidente para ela que a “fabricação da revolução” (Revolutionsmacherei) leva à substituição das massas, não só no decorrer da revolução,mas também depois.

34

Essa ideia, que representa uma parte importante de sua ? loso? a política, também a encontramos em trabalhos posteriores, entre outros, A Revolução russa.”

Ao voltar para Berlim em setembro de 1906, Rosa passa a divulgar incansavelmente sua concepção de greve de massas, procurando ao mesmo tempo dar novo conteúdo ao papel que desempenha no SPD: não ser apenas crítica, mas também direção intelectual e política de uma esquerda revolucionária. É quando começa a tomar corpo a formação de uma ala esquerda independente, em divergência com o centro do partido, para o qual o marxismo era apenas a ideologia legitimadora do reformismo. Em setembro participa do Congresso do SPD em Mannheim, onde suas ideias sobre a greve de massas são rejeitadas. A partir dessa época, Rosa passa a ser vista como demasiado radical pela maioria do partido, cada vez mais afeito às ideias reformistas, e a ter cada vez mais di? culdade para publicar seus artigos nos jornais do SPD. Apesar desse isolamento político, ela é convidada, à guisa de compensação, a lecionar economia política e história econômica na escola de quadros do SPD, um cargo bem remunerado que ocupa, com algumas interrupções, até 1914. A partir desses cursos, escreve Introdução à economia política (publicada postumamente em 1925) e sua obra teórica mais importante, A acumulação do capital (publicada em 1913). Greve de massas, partido e sindicatos tem 8 capítulos; começamos com excertos do capítulo 2.

Isabel Loureiro

2

A revolução russa ensina-nos assim uma

coisa: é que a greve de massas nem é “fabricada” arti? cialmente nem “decidida” ou “difundida” no éter imaterial e abstrato, é tão somente um

] [

fenômeno histórico resultante, num certo momento, de uma situação social a partir de uma necessidade histórica. […]

É tão difícil “propagar” a greve de massas como meio abstrato de luta, como “propagar” a revolução. A “revolução” e a “greve de massas” são conceitos que não representam mais do que

a forma exterior da luta de classes e só têm

sentido e conteúdo quando referidas a situações políticas bem determinadas. Empreender uma propaganda adequada à greve como forma de ação proletária, querer difundir essa “ideia” para com ela ganhar pouco a pouco a classe operária seria uma ocupação tão ociosa, tão vã e insípida como encetar uma campanha de propaganda em prol da ideia de revolução ou do combate nas barricadas. Se a greve se transformou agora

num vivo centro de interesse para a classe operária alemã e internacional é porque ela

representa uma nova forma de luta e, como tal,

o sintoma correto de transformações interiores

profundas nas relações entre as classes e nas

condições da luta de classes. […]

3

as greves de massas se apresentam na Rússia

sob formas tão variadas que é absolutamente impossível falar de “a” greve de massas, de uma greve esquemática, abstrata. Não só cada

] [

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

elemento da greve de massas, mas também a sua particular característica, segundo as cidades

e as regiões, e principalmente o seu próprio

caráter geral, se modificaram com frequência no decorrer da revolução. As greves conheceram na

Rússia uma certa evolução histórica que ainda continua. Assim, quem queira falar de greve de massas na Rússia deve, antes de tudo, ter a sua história diante dos olhos. […]

Desde a primavera de 1905 até o pleno verão, assistiu-se, nesse gigantesco Império, ao nascimento de uma poderosa luta econômica de todo o proletariado contra o capital; a agitação alcança, no topo, as pro? ssões liberais e a pequena burguesia, empregados comerciais, bancários, engenheiros, atores, artistas, e penetra na base, conquistando os empregados domésticos, os agentes subalternos da polícia, e até as camadas do lumpemproletariado, estendendo-se simultaneamente aos campos, batendo mesmo à porta dos quartéis.

Eis o painel imenso e variado da batalha geral do trabalho contra o capital; vemos re? etir- se nele toda a complexidade do organismo social, da consciência política de cada categoria

e de cada região; vemos desenvolver-se toda

uma gama de conflitos, desde luta sindical, conduzida em boa e devida forma pelo bem treinado exército de elite do proletariado industrial, até a explosão de uma revolta anarquista de um punhado de operários agrícolas e ao levantamento confuso de uma guarnição militar, até a revolta discreta e

distinta, de punhos de renda e colarinhos altos numa mesa de jogo, e aos protestos, tímidos e audaciosos, de policiais descontentes, secretamente reunidos num posto enfumaçado, escuro e sujo.

35

Os partidários das “batalhas ordenadas e disciplinadas” concebidas segundo um plano e um esquema, os que em particular querem sempre saber com antecedência como “será preciso fazer”, consideram que foi um “grave erro” retalhar a grande ação da greve política geral de janeiro de 1905 numa in? nidade de lutas econômicas, visto que isso conduziu, a seus olhos, a uma “paralisação” da ação e à sua transformação num “fogo de palha”. O próprio partido social-democrata russo que sem dúvida participou da revolução, mas não a “faz”, e é obrigado a aprender as leis da revolução ao longo do desenvolvimento da própria revolução, se encontrou desorientado por algum tempo com o re? uxo aparentemente estéril da primeira maré de greves gerais. Contudo, a história, que cometera esse “grande erro”, concluía assim um gigantesco trabalho revolucionário tão inevitável quanto incalculável nas suas consequências, sem se preocupar com as lições dos que a si mesmos se instituíram como mestres.

A brusca sublevação geral do proletariado em janeiro, desencadeada pelos acontecimentos de S. Petersburgo, era, na sua ação exterior, um ato político revolucionário, uma declaração de guerra ao absolutismo. Mas essa primeira luta geral e direta de classes provocou uma reação mais poderosa que a anterior, ao acordar, pela primeira vez, como um choque elétrico, o sentimento e a consciência de classe em milhões e milhões de homens. Esse despertar da consciência de classe imediatamente se manifesta do seguinte modo:

uma multidão de milhões de proletários descobre de súbito, com um sentimento de acuidade insuportável, o caráter intolerável da sua existência social e econômica, do qual era escravo há decênios, sob o jugo do capitalismo.

De repente, desencadeia-se uma sublevação geral e espontânea para sacudir esse jugo, para quebrar as algemas. Sob mil aspectos, os sofrimentos do proletariado moderno reavivam a recordação dessas feridas sempre sangrentas.

tudo isso é bruscamente despertado

pelo relâmpago de janeiro, lembra-se de seus direitos e procura febrilmente recuperar o tempo perdido. Na realidade, a luta econômica não constituía uma fragmentação, uma

dispersão da ação, mas uma mudança de frente;

a primeira batalha contra o absolutismo

transforma-se rápida e naturalmente num ajuste de contas geral com o capitalismo, que,de

acordo com sua natureza, assume a forma de con? itos parciais em favor dos salários. É falso dizer-se que a ação política de classe em janeiro

foi destruída porque a greve geral se fragmentou

em greves econômicas. É exatamente o

contrário: uma vez esgotado o conteúdo possível

da ação política, feito o balanço da situação e da

fase em que a revolução se encontrava, esta

fragmentou-se, ou antes, transformou-se em ação econômica.

] [

De fato, que mais podia obter a greve geral de janeiro? É preciso ser inconsciente para esperar, de uma só vez, o esmagamento do absolutismo com uma só greve geral “prolongada”, segundo o modelo anarquista. É pelo proletariado que o absolutismo na Rússia tem de ser derrubado. Mas para tanto, o proletariado tem necessidade de um alto grau

de educação política, de consciência de classe e

organização. Não pode aprender todas essas

coisas em brochuras ou em pan? etos; tal

educação ele a adquirirá na escola política viva,

na luta e pela luta, no decorrer da revolução em

marcha. Aliás, o absolutismo não pode ser derrubado, seja quando for, com a exclusiva

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

ajuda de uma dose suficiente de “esforços” e “perseverança”. A queda do absolutismo não é mais que um sinal exterior da evolução interior das classes na sociedade russa. […]

O resultado mais precioso, porque permanente, nesse brusco ? uxo e re? uxo da revolução é seu peso intelectual: o crescimento intermitente do proletariado no plano intelectual e cultural é uma garantia absoluta do seu irresistível progresso futuro, tanto na luta econômica, quanto na luta política. Mas não é tudo: as próprias relações entre operários e patrões sofrem transformações; após a greve geral de janeiro e as greves seguintes de 1905, o princípio do capitalista senhor em sua casa é praticamente suprimido. Vimos constituir-se espontaneamente comitês operários, únicas instâncias que negociam com o patrão, nas maiores fábricas de todos os centros industriais mais importantes. E, por ? m, algo mais: as greves aparentemente caóticas e a ação revolucionária “desorganizada” que sucederam à greve geral de janeiro transformam-se no ponto de partida de um febril trabalho de organização. A história ri dos burocratas apaixonados por esquemas “pré- fabricados”, guardiões ciumentos da felicidade dos sindicatos. As sólidas organizações concebidas como fortalezas inexpugnáveis cuja existência tem de ser assegurada, antes de eventualmente se pensar na realização de uma hipotética greve de massas na Alemanha, são, ao contrário, fruto da própria greve de massas. E enquanto os ciumentos guardiões dos sindicatos alemães temem, antes de tudo, ver quebrar em mil pedaços essas organizações, como uma preciosa porcelana no meio do turbilhão revolucionário, a revolução russa apresenta-nos um quadro completamente diferente: o que emerge dos turbilhões e da tempestade, das chamas e das brasas das greves de massas, como

36

Afrodite surgindo da espuma dos mares, são sindicatos novos e jovens, vigorosos e ardentes.

4

A greve de massas, tal como nos é

apresentada pela revolução russa, é um fenômeno tão móvel que re? ete em si todas as fases da luta política e econômica, todos os estágios e todos os momentos da revolução. O seu campo de aplicação, a sua força de ação, os fatores do seu desencadeamento transformam- se continuamente. Ela abre repentinamente novas perspectivas à revolução no momento em que esta parecia atravessar um impasse e falha no momento em que se pensa poder contar seguramente com ela. Ora a vaga do movimento invade todo o Império, ora se divide em uma rede gigantesca de pequenas correntes; ora brota do solo como uma fonte viva, ora se perde na terra. Greves econômicas e políticas, greves de massa, e greves parciais, greves de protesto ou de combate, greves gerais abrangendo setores particulares, ou cidades inteiras, lutas reivindicativas pací? cas ou batalhas de rua, combates de barricadas – todas essas formas de luta se cruzam ou se tocam, se interpenetram ou desaguam umas nas outras: é um mar de fenômenos eternamente novos e ? utuantes. E a lei do movimento desses fenômenos surge claramente: não reside na própria greve de massas, nas suas particularidades técnicas, mas na relação entre as forças políticas e sociais da revolução. A greve de massas é tão somente a forma adquirida pela luta revolucionária e qualquer deslocamento na correlação das forças em luta, no desenvolvimento do partido e na divisão das classes, na posição da contrarrevolução, in? ui imediatamente sobre a

] [

ação da greve por meio de inúmeros caminhos invisíveis e incontroláveis. Entretanto, a própria ação da greve de massas não para um só instante. Adquire somente outras formas, modi? ca a sua extensão, os seus efeitos. Ela é a pulsação viva da revolução e ao mesmo tempo o seu motor mais poderoso. Em resumo: a greve de massas, como nos mostra a revolução russa, não é um meio engenhoso inventado para reforçar o efeito da luta proletária, mas é o próprio movimento da massa proletária, a forma de manifestação da luta proletária na revolução.

Partindo daí, podemos deduzir alguns pontos de vista gerais que permitem julgar o problema da greve de massas.

1. É absolutamente falso imaginar a

greve de massas como ação isolada. A greve de massas é antes um termo que designa globalmente todo um período da luta de classes que se estende por vários anos, às vezes por décadas. Se considerarmos as inúmeras e diferentes greves de massa que ocorreram na

Rússia há quatro anos, uma única variante, e esta de importância secundária, corresponde à de? nição de greve de massas como ato único e breve de características puramente políticas, desencadeado e suspenso arbitrariamente segundo um plano pré-concebido: trata-se da simples greve de protesto. Ao longo de um período de cinco anos, vemos na Rússia só algumas greves de protesto, em pequeno número e, fato notável, ordinariamente limitadas a uma cidade. [ ]

Porém, o movimento no seu

conjunto não se orienta unicamente no sentido de uma passagem do econômico ao político, mas orienta-se também no sentido inverso. Cada

uma das grandes ações políticas de massas se

2.

[

]

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

transforma, após ter atingido o seu apogeu, numa multiplicidade de lutas econômicas. Isso não é somente válido para cada uma das grandes greves, também o é para a revolução no seu conjunto. Quando a luta política se estende, se clari? ca e intensi? ca, não só a luta reivindicativa continua como se estende, se organiza e se intensifica paralelamente. Há uma completa interação entre ambas.

Cada novo arranque e cada nova vitória da luta política impulsionam poderosamente a luta econômica, alargando as suas possibilidades de ação exterior, e dão novas forças ao proletariado para melhorar a sua situação aumentando a sua combatividade. Cada vaga de ação política deixa atrás de si um terreno fértil, onde em breve surgem mil rebentos: as reivindicações econômicas. E, inversamente, a incessante guerra econômica que os operários travam com o capital mantém alerta a sua energia combativa, mesmo nas horas de calma política; de certo modo, constitui um reservatório permanente de energia, no qual a luta política busca sempre novas forças. Ao mesmo tempo, o infatigável trabalho de luta econômica do proletariado provoca, ora aqui ora ali, con? itos agudos a partir dos quais explodem bruscamente os con? itos políticos.

Em suma, a luta econômica apresenta uma continuidade, é o ? o que une os diferentes nós políticos; a luta política é uma fecundação periódica que prepara o solo para as lutas econômicas. Causa e efeito sucedem-se, alternam-se incessantemente, e assim os fatores políticos e econômicos, longe de se distinguirem claramente ou de se excluírem reciprocamente como pretende o pretensioso esquema, constituem no período da greve de massas dois aspectos complementares da luta da classe

37

proletária russa. É precisamente a greve de massas que dá forma à sua unidade. A sutil teoria disseca arti? cialmente, com a ajuda da lógica, a greve de massas para obter uma “greve política pura”: ora, uma tal dissecação – como todas as dissecações – não nos permite observar o fenômeno vivo, entrega-nos um cadáver.

3. Por ? m, os acontecimentos da Rússia

mostram-nos que a greve de massas é inseparável da revolução. A história da greve de massas na Rússia confunde-se com a história da revolução. Na verdade, quando os campeões do oportunismo ouvem falar da revolução na Alemanha, pensam imediatamente no sangue vertido, nas batalhas de rua, na pólvora e no chumbo, e daí deduzem com toda a lógica que a greve de massas conduz inevitavelmente à revolução, logo nós devemos evitá-la. E de fato constatamos na Rússia que quase todas as greves levam a um confronto sangrento com as forças da ordem tsarista; isso é verdade tanto para as chamadas greves políticas, quanto para os con? itos econômicos. Mas a revolução é outra coisa, é mais que um simples banho de sangue. Com exceção da polícia, que entende a revolução simplesmente do ponto de vista das batalhas de rua e dos tumultos, quer dizer, do ponto de vista da “desordem”, o socialismo cientí? co vê na revolução uma profunda transformação interna nas relações de classe. Dessa perspectiva há entre a revolução e a greve de massas na Rússia uma relação bem mais profunda que a estabelecida pela constatação trivial, ou seja, a de que a greve de massas termina, geralmente, em um banho de sangue. [ ]

4. Basta resumir o que atrás dissemos,

para descobrir a solução para o problema da direção consciente e da iniciativa da greve de

massas. Se a greve de massas não representa um ato isolado, mas todo um período da luta de classes, e se esse período se confunde com o período revolucionário, é claro que não se pode desencadear arbitrariamente a greve de massas, mesmo se a decisão vier de instâncias supremas do mais poderoso partido socialista. Tanto não está ao alcance da social-democracia suscitar ou travar revoluções a seu bel-prazer, que o enorme entusiasmo e a enorme impaciência das hostes socialistas não conseguiram provocar um período de greve de massas que fosse um

] Mesmo

durante a revolução, as greves não caem do céu.

É preciso que sejam feitas, de uma maneira ou

de outra, pelos operários. A resolução e a decisão

da classe operária desempenham também o seu

papel, mas é necessário frisar que a iniciativa e a direção de ulteriores operações naturalmente dizem respeito ao setor mais esclarecido e mais bem organizado do proletariado, à social- democracia. Mas essa iniciativa e essa direção só se aplicam na execução de tal ou tal ação isolada, de tal ou tal greve de massas, logo que o período revolucionário esteja em curso, e mais frequentemente no interior de uma dada cidade. Já vimos, por exemplo, a social- democracia, mais de uma vez, dar expressamente, e com sucesso, a palavra de ordem para a realização de uma greve em Baku, Varsóvia, Lodz, S. Petersburgo. Tal iniciativa tem menos probabilidades de sucesso se for aplicada

a movimentos gerais que englobem todo o

movimento popular poderoso e vivo. [

proletariado. Por outro lado, a iniciativa e a

direção das operações têm os seus limites determinados. Justamente durante a revolução, é extremamente difícil a um organismo dirigente do movimento operário prever e calcular a ocasião e os fatores que provoquem ou não o levantamento. Tomar a iniciativa e a direção das operações, também aqui, não

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

consiste em dar ordens arbitrariamente, mas sim em adaptar-se à situação o mais habilmente possível, mantendo o mais estreito contato com o moral das massas. O elemento espontâneo desempenha, como vimos, um enorme papel em todas as greves de massas na Rússia, quer como elemento motor, quer como freio. Esse fato não é motivado por a social-democracia russa ser ainda jovem e fraca, mas porque em cada ato particular da luta tomam parte uma in? nidade de fatores econômicos, políticos e sociais, gerais e locais, materiais epsicológicos, de tal maneira que nenhum deles pode ser de? nido ou calculado como um exemplo aritmético. Mesmo se o proletariado, com a social-democracia à cabeça, desempenhar o papel dirigente, a revolução não é uma manobra do proletariado, mas uma batalha que se desenrola enquanto à sua volta desmoronam e se deslocam sem cessar todos os alicerces sociais. Se o elemento espontâneo desempenha um papel tão importante na greve de massas na Rússia, não é porque o proletariado russo seja “deseducado”, mas porque as revoluções não se aprendem na escola. [ ]

Mas se a direção da greve de massas, no sentido de comandar seu desencadeamento e de avaliar e cobrir seus custos, cabe ao período revolucionário, em outro sentido, totalmente diferente, a direção das greves de massas cabe à social-democracia e aos seus órgãos diretivos. Em vez de quebrar a cabeça com o lado técnico, com o mecanismo da greve de massas, a social- democracia é chamada, também em pleno período revolucionário, a tomar a sua direção política. A tarefa mais importante de “direção” no período de greve de massas consiste em dar a palavra de ordem da luta, em orientá-la, em dirigir a tática da luta política de tal modo que, em cada fase e em cada instante do combate,

38

seja realizada e posta em ação a totalidade do poder do proletariado, já comprometido e lançado na batalha, e que esse poder se exprima pela posição do partido na luta; é preciso que a tática da social-democracia, no tocante à sua energia e rigor, jamais se encontre aquém do nível da correlação de forças real, mas que, ao contrário, ultrapasse esse nível; essa é a mais importante tarefa da “direção” no período das greves de massa. E assim a direção política transformar-se-á automaticamente em certa medida numa direção técnica. Uma tática socialista consequente, resoluta, avançada, provoca na massa um sentimento de segurança, de con? ança, de combatividade; uma tática hesitante, fraca, alicerçada na subestimação das forças do proletariado, paralisa e desorienta as massas. No primeiro caso, as greves de massas explodem “espontaneamente” e sempre “oportunamente”; no segundo caso, é em vão que a direção do partido chama diretamente à greve. A revolução russa oferece-nos exemplos sugestivos de ambos os casos. [ ]

6

Segundo essa perspectiva, o problema da organização nas suas relações com o problema da greve de massas na Alemanha adquire uma ? sionomia totalmente diferente. [ ]

A concepção rígida e mecânica da burocracia só admite a luta como resultado da organização que atinja um certo grau de força. Ao contrário, a evolução dialética, viva, faz nascer a organização como produto da luta. Vimos já um exemplo magnífico desse

fenômeno na Rússia, onde um proletariado quase desorganizado começou a criar uma vasta rede de organizações depois de um ano e meio de lutas revolucionárias tumultuosas.[ ]

O plano que consistiria em desencadear uma importante greve de massas a título de ação política de classe com a exclusiva ajuda dos operários organizados é absolutamente ilusório. Para que a greve, ou melhor, as greves de massas, a luta de massas seja coroada de êxito, elas têm de transformar-se num verdadeiro movimento popular, quer dizer, têm de arrastar para a batalha as mais largas camadas do proletariado. Mesmo no plano parlamentar, o

poder da luta das classes proletárias não se apoia num pequeno núcleo organizado, mas sim na vasta periferia do proletariado com simpatias revolucionárias. Se a social-democracia quisesse conduzir a batalha eleitoral com o exclusivo apoio de algumas centenas de milhares de organizados, condenar-se-ia a si mesma ao aniquilamento. E ainda que a social-democracia deseje acolher nas suas organizações quase todo

o contingente dos seus eleitores, a experiência

de 30 anos mostra que o eleitorado socialista não aumenta em função do crescimento do partido mas, ao contrário, são as camadas

operárias recentemente conquistadas no curso da batalha eleitoral que constituem o terreno que em seguida será fecundado pela organização. Também aqui não é só a organização que fornece as tropas combatentes, mas também é a batalha que fornece, numa maior escala, recrutados para a organização. Isso

é, evidentemente, muito mais válido para a ação

política direta de massas que para a luta parlamentar. Ainda que a social-democracia, núcleo organizado da classe operária, esteja na vanguarda de toda amassa de trabalhadores e o movimento operário busque a sua força, a sua

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

unidade e consciência política nessa mesma organização, o movimento operário nunca deve ser concebido como movimento de uma minoria organizada. Toda verdadeira grande luta de classes deve alicerçar-se no apoio e na colaboração das mais largas massas; uma estratégia de luta de classes que não contasse com essa colaboração, e não visse mais que os des? les bem ordenados da pequena parte do proletariado arregimentada nas suas ? leiras, estaria condenada a uma lamentável derrota.

Na Alemanha as greves de massas, as lutas políticas de massas não podem ser conduzidas unicamente pelos militantes organizados, nem podem ser comandadas por uma “direção” saída do comitê central do partido. Nesse caso, como na Rússia, há menos necessidade de “disciplina”, de “educação”, de uma avaliação tão precisa quanto possível das despesas e subsídios do que de uma ação de classe resoluta e verdadeiramente revolucionária, capaz de atingir e arrastar as camadas mais extensas das massas proletárias desorganizadas, mas revolucionárias por sua disposição e condição.

A superestimação e a falsa apreciação do papel organizativo do proletariado na luta de classes está ligada geralmente a uma subestimação da massa proletária desorganizada e da sua maturidade política. Só num período revolucionário, na efervescência das grandes lutas de classes tempestuosas se manifesta o papel educador da rápida evolução do capitalismo e da in? uência socialista nas grandes camadas populares; em tempo normal, as estatísticas das organizações, ou até as estatísticas eleitorais, não dão mais que uma pálida ideia dessa in? uência. [ ]

39

No operário alemão esclarecido, a consciência de classe incutida pela social- democracia é uma consciência teórica, latente:

no período do domínio parlamentar burguês, geralmente não tem ocasião de se manifestar por uma ação direta de massas; é o resultado ideal das 400 ações paralelas das circunscrições durante a luta eleitoral, dos numerosos con? itos econômicos parciais etc. Na revolução, em que a própria massa aparece na cena política, a consciência de classe torna-se prática, ativa. Assim, um ano de revolução deu ao proletariado russo essa “educação” que 30 anos de lutas parlamentares e sindicais não podem arti? cialmente darao proletariado alemão. Por certo, esse vivo e ativo instinto de classe que anima o proletariado decrescerá sensivelmente, mesmo na Rússia, uma vez acabado o período revolucionário e uma vez instituído o regime parlamentar legal burguês, ou pelo menos transformar-se-á numa consciência oculta,

latente. [

Seis meses de revolução contribuirão

mais para a educação dessas massas atualmente desorganizadas do que dez anos de comícios públicos e de distribuição de pan? etos. E quando a situação na Alemanha tiver atingido o grau de maturidade necessário a um tal período, as categorias hoje mais atrasadas e mais desorganizadas constituirão, naturalmente, o elemento mais radical, mais impetuoso e mais ativo da luta. Se se produzirem greves de massas na Alemanha é quase certo que não serão os trabalhadores mais organizados– certamente não serão os grá? cos – mas os operários menos organizados ou completamente desorganizados, como os mineiros, os operários têxteis, ou talvez os camponeses, que desenvolverão maior capacidade de ação. [ ]

]

A social-democracia é a vanguarda mais esclarecida e mais consciente do proletariado.

Ela não pode nem deve esperar com fatalismo, de braços cruzados, que se produza uma

“situação revolucionária”, nem que o movimento popular espontâneo caia do céu. Ao contrário, tem o dever como sempre de preceder

o curso dos acontecimentos, de procurar

precipitá-los. Não o conseguirá, se entregar a

“palavra de ordem” de greve ao acaso de qualquer momento, oportuno ou não, mas deve fazer com que as camadas mais largas do proletariado compreendam que a chegada de um tal período revolucionário é inevitável, explicando-lhes as condições sociais internas que a isso conduzem, assim como as suas consequências políticas. Para arrastar as camadas mais largas do proletariado a uma ação política da social-democracia e, inversamente, para que a social-democracia possa assumir e manter a direção efetiva do movimento de

massas, para que domine todo o movimento no sentido político do termo, precisa saber fornecer com toda clareza, coerência e resolução a tática e

os objetivos ao proletariado alemão para o

período das lutas futuras.

7

Vimos que na Rússia a greve de massas não é o produto arti? cial de uma tática imposta pela social-democracia; é antes um fenômeno histórico natural gerado no solo da atual revolução. Ora, quais são os fatores que provocaram a nova forma em que se produziu a revolução? [ ]

[Na Rússia] A burguesia não é hoje seu [da revolução] elemento motor, como acontecia

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

outrora nas revoluções ocidentais, enquanto a massa proletária, afogada no seio da pequena burguesia, servia como massa de manobra da burguesia; ao contrário, é o proletariado consciente que constitui o elemento ativo e dirigente, enquanto as camadas da grande burguesia se mostram ou abertamente contrarrevolucionárias ou moderadamente liberais; só apequena burguesia rural e a intelligentsia pequeno-burguesa das cidades adotam uma atitude francamente opositora e até revolucionária. Mas o proletariado russo, chamado assim a desempenhar um papel dirigente na revolução burguesa, envolve-se na luta no momento em que perdeu as ilusões na democracia burguesa e em que a oposição entre capital e trabalho está fortemente acentuada; em contrapartida, possui uma aguda consciência dos seus interesses especí? cos de

tratava-se pura e simplesmente de derrubar o antigo governo; então o combate de barricadas, de curta duração, era a forma mais apropriada de luta revolucionária. Hoje, quando a classe operária é obrigada a esclarecer-se, a unir-se e a orientar-se a si mesma no decorrer da luta e quando a revolução é dirigida tanto contra a exploração capitalista como contra o antigo poder de Estado, a greve de massas aparece como o meio natural de recrutar, revolucionar e organizar as mais amplas camadas proletárias no momento da ação, sendo ao mesmo tempo um meio de minar e derrubar o antigo Estado e de conter a exploração capitalista. O proletariado industrial urbano é hoje a alma da revolução na Rússia. Mas, para empreender uma ação política de massas, é preciso primeiro que o proletariado se una em massa; para isso, é preciso que saia das fábricas e das o? cinas, das

classe. Essa situação contraditória manifesta-se, porque nessa revolução formalmente burguesa

minas e dos altos fornos, e ultrapasse a dispersão e a fragmentação a que o jugo capitalista o

o

con? ito entre a sociedade burguesa e o

condena. Desse modo, a greve de massas é a

absolutismo é dominado pelo con? ito entre o proletariado e a sociedade burguesa; porque o proletariado luta simultaneamente contra o absolutismo e a exploração capitalista; porque a luta revolucionária tem ao mesmo tempo por

primeira forma natural e espontânea de qualquer grandiosa ação revolucionária do proletariado; quanto mais a indústria se transformar na forma predominante de economia numa sociedade, tanto mais o

objetivo a liberdade política e a conquista do dia

proletariado desempenha um papel importante

de

trabalho de 8h., assim como uma existência

na revolução, tanto mais a oposição entre

material humanamente digna para o proletariado. Esse duplo caráter da revolução russa se manifesta na união e na interação estreitas entre a luta econômica e a luta política que os acontecimentos da Rússia nos deram a

trabalho e capital se aguça e tanto mais as greves de massas necessariamente adquirem amplitude e importância. O que era antes a principal forma da revolução burguesa, o combate nas barricadas, o confronto direto com

conhecer e que se exprimem precisamente na greve de massas.

Nas anteriores revoluções burguesas foram os partidos burgueses que se

as forças armadas do Estado, só constitui na revolução atual o ponto culminante, um momento de todo o processo da luta de massas proletária.

encarregaram da educação política e da direção

Assim,

a

nova

forma

da

revolução

da massa revolucionária, e, por outro lado,

permitiu

alcançar

o

estágio

“civilizado”

e

40

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

“atenuado” das lutas de classe profetizado pelos oportunistas da social-democracia alemã, os

explodindo na metade do caminho do desenvolvimento capitalista, é interrompida

Bernstein, os David e consortes. Na verdade, eles imaginavam essa luta de classes atenuada, civilizada, segundo suas ilusões pequeno- burguesas e democráticas, pensavam que a luta

pela oposição dos interesses e pelo equilíbrio das forças entre capital e trabalho, abafada por um compromisso entre o feudalismo e a burguesia, reduzida a um breve e lastimoso episódio

de

classes se limitava exclusivamente à batalha

rapidamente amordaçado. Mais meio século e a

parlamentar e que a revolução, no sentido de combate de ruas, seria simplesmente abolida. A história solucionou o problema a seu modo, que

revolução russa atual explode num ponto do caminho histórico situado já na outra vertente da montanha, passado o apogeu da sociedade

é ao mesmo tempo mais profundo e mais sutil:

capitalista: a revolução burguesa já não pode ser

fez

surgir a greve de massas revolucionária que,

sufocada pela oposição entre a burguesia e o

evidentemente, não substitui nem torna supér? uos confrontos diretos e brutais na rua,

proletariado e, ao contrário, estende-se por um largo período de con? itos sociais violentos que

mas os reduz a um momento do longo período

fazem parecer irrisórios os velhos ajustes de

de

lutas políticas e, ao mesmo tempo, liga a

contas com o absolutismo, quando comparados

revolução a um gigantesco trabalho civilizador

aos novos exigidos pela revolução. A revolução

no

sentido preciso do termo: a elevação material

realiza hoje, no caso particular da Rússia

e

intelectual de toda a classe operária,

absolutista, os resultados do desenvolvimento

“civilizando” as formas bárbaras de exploração capitalista.

capitalista internacional; aparece-nos menos como herdeira das velhas revoluções do que

A greve de massas aparece assim não como um produto especí? co do absolutismo russo, mas como uma forma universal de

como precursora de uma nova série de revoluções proletárias no Ocidente. O país mais atrasado, precisamente porque agiu com um atraso imperdoável a levar a cabo a sua

lutadas classes proletárias, determinada pelo estágio atual do desenvolvimento capitalista e da correlação de classes. As três revoluções burguesas, a grande Revolução Francesa em 1789, a revolução alemã em 1848 e a atual revolução russa constituem, segundo esse ponto

revolução burguesa, mostra ao proletariado da Alemanha e dos países capitalistas mais avançados as vias e os métodos da futura luta de classes. [ ]

de

vista, uma cadeia de evolução contínua:

re?

etem a grandeza e a decadência do século

capitalista. Na grande Revolução Francesa, os con? itos internos ainda latentes da sociedade burguesa dão lugar a um longo período de lutas brutais em que as oposições, rapidamente germinadas e amadurecidas no calor da revolução, rebentam com uma violência extrema e sem qualquer freio. Meio século mais tarde, a revolução da burguesia alemã,

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As Táticas da Frente Única

León Trotsky

Escrito: Em Moscou, em março de 1922 para o Pleno do Comitê Executivo da Internacional Comunista que entrou em sessão em fevereiro do mesmo ano, como material para um informe sobre a questão dos comunistas franceses.

Primeira Edição: Em 1924 como parte da recompilação Pyat Let Kominterna pelo Editorial do Estado, Moscou.

Fonte deste texto: Las Tácticas del Frente Único. Editorial CEPE, Buenos Aires, 1973.

Digitalização: Ramiro Alvarez, 2009.

Esta edição: Marxists Internet Archive (espanhol), maio de 2010.

Tradução para o português: Vinicius Almeida e Rodrigo Santaella.

I. CONSIDRAÇÕES GERAIS SOBRE A FRENTE ÚNICA

1. A tarefa do Partido Comunista é a de dirigir a revolução proletária. A fim de orientar o proletariado na sua conquista direta do poder, o

Partido Comunista deve se embasar na predominante maioria da classe trabalhadora.

Enquanto o Partido não contar com essa maioria, deve lutar para alcançá-la.

O Partido só pode alcançar este objetivo se for uma organização absolutamente independente, com um programa claro e uma estrita disciplina interna. Isso porque o Partido teve que romper organizativa e ideologicamente com os reformistas e os centristas que não lutam pela revolução proletária, que não têm o desejo de preparar as massas para a revolução e que, com sua conduta, limitam essa tarefa. Os membros do Partido Comunista que se aliaram em seu rompimento com os centristas em nome “das massas proletárias” ou da “unidade de frente” estão demonstrando sua incompreensão do ABC do Comunismo, e estão na fileiras do Partido Comunista apenas por acidente.

2.Assim que assegurar uma completa independência e homogeneidade ideológica de seus quadros, o Partido Comunista lutará por influenciar a maioria da classe operária. Esta luta pode assumir um caráter rápido ou lento, que depende das condições objetivas e da eficácia da tática seguida.

Mas é bem evidente que o cotidiano de classe do proletariado não se detém a esse período preparatório para a revolução. Os choques com os industriais, com a burguesia, com o aparato de Estado, respondendo sejam as iniciativas de um setor ou de outro, seguem seu curso.

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

Nestes choques, que envolvem os interesses do conjunto do proletariado, ou de sua maioria, ou de um ou outro setor, as massas operárias sentem a necessidade de uma unidade de ação:

de unidade para resistir ao ataque do capitalismo, ou da unidade para tomar a ofensiva em resposta. Todo Partido que se oponha mecanicamente a esta necessidade do proletariado de unidade na ação será condenado inevitavelmente pelos operários.

Por outro lado, a questão da Frente Única não é, nem em sua origem nem em sua essência, uma questão de relações mútuas entre a fração parlamentar comunista e a socialista, ou entre os Comitês Centrais de ambos Partidos, ou entre “L´Humanité” e “Le Populaire”. O problema da Frente Única – apesar do fato de ser inevitável uma separação nessa época entre as organizações políticas que se embasam no voto – surge da necessidade urgente de assegurar à classe operária a possibilidade de uma Frente Única na luta contra o capitalismo.

Para aqueles que não compreendem que todo Partido isolado é uma sociedade propagandística e não uma organização para a ação das massas.

3. Nos casos em que o Partido Comunista ainda permanece como uma organização composta por uma minoria numericamente insignificante, a questão de sua conduta na frente de luta de massas não assume um significado político e organizativo decisivo. Em tais condições, as ações de massas permanecem dirigidas pelas velhas organizações que continuam cumprindo um papel decisivo em virtude de sua tradição ainda poderosa.

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Por outro lado, o problema da Frente Única não surge nos países onde – Bulgária, por exemplo – o Partido Comunista é o único dirigente das massas exploradas.

Mas onde quer que o Partido Comunista constitua-se como uma força política poderosa e organizada, mas não de uma magnitude decisiva – ali onde o Partido abarque organizativamente, digamos, uma quarta parte, uma terceira e ainda uma proporção maior da vanguarda proletária organizada – o problema da Frente Única se coloca em toda a sua agudeza.

Se o Partido conta com uma terceira parte ou a metade da vanguarda proletária, logo, o resto deverá estar organizado pelos reformistas e os centristas. É bem evidente que os operários que ainda apoiam os reformistas e centristas se interessam vivamente por manter níveis de vida mais elevados e a maior liberdade de ação que seja possível. Em conseqüência, devemos projetar nossa tática a evitar que o Partido Comunista, que no futuro próximo abarcará os três terços do proletariado, se converta em um obstáculo organizativo no caminho da luta proletária atual.

Mais ainda, o Partido deve assumir a iniciativa de assegurar a unidade da luta presente. Somente assim o Partido se aproximará destes dois terços que ainda não seguem sua direção, que ainda não confiam nela porque não a compreendem. Apenas desta maneira pode o Partido ganhar-los.

Se o Partido Comunista não tivesse rompido drasticamente e de forma irreconciliável com os social-democratas, não se teria convertido no Partido da revolução

proletária. Não poderia ter dado os primeiros passos sérios no caminho da revolução. Teria permanecido como uma válvula parlamentar de segurança sob o Estado burguês.

Quem não compreende isso, não conhece a primeira letra do ABC do Comunismo.

4. Se o Partido não procurasse construir um caminho organizativo, que possibilitasse em qualquer momento ações coordenadas conjuntas entre as massas comunistas e as não- comunistas (incluindo as que apoiam a social- democracia), deixaria clara sua incapacidadede ganhar – sobre a base de ações de massas – a maioria do proletariado. Degeneraria-se numa Sociedade de propaganda comunista, nunca se desenvolveria como um Partido que luta pela conquista de poder.

Não é suficiente contar com uma espada, ela deve estar afiada; não é suficiente que esteja afiada: é preciso saber usá-la.

Depois de separar os comunistas dos reformistas, não é suficiente fundir os comunistas entre si através da disciplina organizativa; é necessário que essa organização aprenda a guiar todas as atividades coletivas do proletariado em todas as esferas da luta de classes.

Esta é a segunda letra do ABC do Comunismo.

DIRIGENTES REFORMISTAS NO INTERIOR DA FRENTE ÚNICA

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

5. A Frente Única abrange apenas as massas trabalhadoras ou inclui também seus dirigentes oportunistas?

O simples fato de fazer essa pergunta

demonstra em si uma incompreensão do problema.

Se pudéssemos simplesmente unir o proletariado em torno da nossa bandeira ou ao redor de nossas consignas práticas, e passar por cima das organizações reformistas, tanto de partidos quanto de sindicatos, logicamente, isto seria o melhor dos mundos. Nesse caso, o problema da Frente Única não existiria em sua forma atual.

A questão surge porque alguns setores

muito importantes do proletariado pertencem a

organizações reformistas ou as apoiam. Sua experiência atual é muito insuficiente para permitir-lhes que as abandonem e que se unam a nós. É precisamente a partir da intervenção naquelas atividades de massas que estão na ordem do dia, que se produzirá uma grande mudança na situação.

É isso que buscamos. Mas os fatos ainda não tem essas características: atualmente, o setor organizado do proletariado está dividido em três agrupamentos.

Um deles, os comunistas, tem como objetivo a revolução social e precisamente por isso apoia todo movimento dos explorados contra seus exploradores e contra o Estado burguês.

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Outro grupo, dos reformistas, persegue a conciliação com a burguesia, mas não querendo perder sua influência sobre os operários, é empurrada, contra os próprios desejos de seus dirigentes, a apoiar os movimentos parciais do proletariado contra a burguesia.

Finalmente, existe um terceiro grupo: os centristas, que vacilam constantemente entre os dois, e não tem uma atuação independente.

As circunstâncias, portanto, tornam completamente possíveis as ações conjuntas a respeito de uma série de questões vitais entre os trabalhadores unidos em torno dessas três organizações respectivamente, e as massas organizadas que as apóiam.

Os comunistas, como já dissemos, não só não devem se opor a tais ações como, pelo contrário, devem assumir a iniciativa, precisamente pela razão de que quanto mais sejam impulsionadas as massas para o movimento, maior será a sua confiança em si mesma, o movimento terá mais confiança nele mesmo e será mais capaz de marchar decididamente adiante, não importa quão modesta seja a consigna inicial da luta. E isto significa que o crescimento do conteúdo de massas do movimento o faz revolucionário e cria condições muito mais favoráveis para as consignas, métodos de luta e, em geral, para um papel dirigente do Partido Comunista.

Os reformistas temem o potente espírito revolucionário das massas; suas arenas mais apreciadas são a tribuna parlamentar, os gabinetes dos sindicatos, das cortes de justiça e as ante-salas dos ministérios.

Ao contrário, o que nos interessa, além de toda outra consideração, é tirar os reformistas de seu paraíso e colocá-los ao nosso lado diante das massas. Usando uma tática correta, só podemos vencer. O comunista que duvida ou teme isto, parece aquele nadador que conhece na teoria o melhor modo de nadar, mas que não quer arriscar-se a mergulhar.

6. A unidade de frente pressupõe então, dentro de certo limites e em torno a questões específicas, correlacionar na prática nossas ações com a de organizações reformistas, diante daquilo em que, ainda hoje, elas expressem a vontade de importantes setores do proletariado combativo.

Mas, afinal de contas, não nos separamos ontem deles? Sim, porque não estávamos de acordo em questões fundamentais do movimento operário; e apesar disso buscamos acordos com eles? Sim, em todos aqueles casos em que as massas que os seguem estão dispostas a ligar-se em uma luta conjunta com as massas que nos seguem, e quando os reformistas em um maior ou menor grau, são empurrados a transformarem-se em um órgão dessa luta.

Mas não dirão que mesmo depois de nos separarmos deles, ainda os necessitamos? Sim, seus charlatães poderiam dizer isso. Aqui e ali alguns elementos de nosso Partido podem se assustar com isso. Porém, no que diz respeito ao conjunto das massas proletárias – ainda aquelas que não nos seguem e que ainda não compreendem o objetivo que perseguimos, mas que vêem duas ou três organizações operárias conduzindo numa existência paralela – estas massas chegarão à seguinte conclusão de nossa

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

conduta: que apesar de toda divisão, estamos fazendo todo o possível para facilitar a unidade de ação para as massas.

7. A política que tende a assegurar a Frente Única, claro que não inclui garantias de que a unidade de ação será alcançada em todos os seus pontos. Pelo contrário, em muitos casos, e talvez na maioria deles, os acordos organizativos serão alcançados parcialmente ou não serão alcançados. Mas é necessário que as massas em luta tenham sempre a possibilidade de se convencer de que a impossibilidade de conseguir a unidade de ação não foi por conta de nossa política irreconciliável, mas sim pela falta de uma vontade real de luta por parte dos reformistas.

Ao entrar em acordos com outras organizações, naturalmente assumimos certa disciplina na ação. Porém esta disciplina não pode ser absoluta. No momento em que os reformistas comecem a frear a luta, em detrimento do movimento, e a atuar contra a situação e a vontade das massas, nós, como organização independente sempre nos reservaremos o direito de dirigir a luta até o fim, e isto sem nossos semi-aliados temporários.

Isto pode dar início a uma nova agudização da luta entre nós e os reformistas. Contudo, esta já não implicará numa simples repetição de um conjunto de idéias dentro de um círculo fechado, mas sim significará – se nossa tática for correta – a extensão de nossa influência sobre setores novos e frescos do proletariado.

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8. Só é possível ver na nossa tática uma reconciliação com os reformistas do ponto de vista do jornalista que pensa que se afasta do reformismo criticando-o ritualmente, sem sequer abandonar seu escritório de redação, que teme chocar com o reformismo diante das massas, e teme dar a estas a oportunidade para colocar aos comunistas e reformistas num mesmo plano da luta de classes. Neste aparente temor revolucionário à “reconciliação”, reside em essência uma passividade política que busca perpetuar um estado de coisas no qual os comunistas e os reformistas têm cada um suas esferas de influência rigidamente demarcadas, seu próprio público nos comícios, sua própria imprensa, e que tudo isto crie a ilusão de uma séria luta política.

9. Rompemos com os reformistas e centristas a fim de obter uma completa liberdade de criticar a deslealdade, a traição, a indecisão e o espírito passivo no seio do movimento operário. Por essa razão, toda classe com acordo organizativo que limite nossa liberdade de crítica e de agitação é completamente inaceitável para nós. Participamos da Frente Única, mas em nenhum instante nos diluímos nela. Atuamos na Frente Única como um grupo independente. É precisamente no curso da luta que o conjunto das massas deve aprender por experiência que nós lutamos melhor que os demais, que vemos melhor, que somos mais audaciosos e decididos. Desta forma, nos aproximamos cada vez mais da conquista da Frente Única revolucionária, sob a indiscutível direção comunista.

II.

FRANCÊS

SETORES

NO

MOVIMENTO

PROLETÁRIO

10. Se nos propusermos a analisar o problema da Frente Única e sua aplicação na França, se abandonar o terreno destas teses, que surgem do conjunto da linha política da Internacional Comunista, devemos então perguntar-nos: nos encontramos na França com uma situação na qual os comunistas representam, desde o ponto de vista da ação prática, uma magnitude insignificante? Ou, pelo contrário, abarcam a grande maioria dos trabalhadores organizados? Ou por um acaso ocupam uma posição intermediária? São suficientemente fortes para que a sua participação no movimento de massas a reverta a maior importância, mas não fortes o bastante para concentrar em suas mãos a direção?

É bastante claro que nos encontramos diante do terceiro caso.

11. Na esfera partidária, o predomínio dos comunistas sobre os reformistas é enorme. A organização e a imprensa comunistas superam muito a imprensa dos chamados socialistas, tanto em tiragem quanto em riqueza e vitalidade.

Esta manifesta preponderância, entretanto, longe de assegurar ao Partido Comunista Francês a direção indiscutível do proletariado francês, não conseguiu até agora, principalmente porque o proletariado está influenciado poderosamente por tendências e

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

preconceitos antipolíticos e antipartidários, alimentados principalmente pelos sindicatos.

12. A particularidade sobressalente do movimento operário francês consiste nisso, em que os sindicatos serviram por muito tempo como uma cobertura para um Partido político do particularismo, anti-parlamentar e que leva este nome: sindicalismo. Ainda que os sindicalistas revolucionários possam tratar de delimitar sua atuação da política ou de um Partido, não podem refutar o fato de que eles mesmos constituem um Partido político, que busca basear-se nas organizações sindicais do proletariado. Este Partido tem suas próprias tendências revolucionárias positivas, mas também seus próprios aspectos sumariamente negativos: a falta de um programa genuíno e definitivo e de uma organização constituída. A organização dos sindicatos não corresponde em absoluto à organização do sindicalismo. No sentido organizativo, os sindicalistas representam um núcleo político amorfo injetado nos sindicatos.

O problema se complica ainda mais pelo fato de que os sindicalistas, como todos os outros grupos no proletariado, se dividiram desde a guerra em duas partes: os reformistas, que apoiam à burguesia e portanto se inclinam à colaboração estreita com os reformistas parlamentares, e o setor revolucionário, que está buscando o caminho para esmagar seu adversário e está se movimento, nas pessoas de seus melhores elementos, para o comunismo.

É precisamente esta urgência de preservar a unidade (de classe) de frente que inspirou não só aos comunistas mas também

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aos sindicalistas revolucionários, à tática absolutamente da luta pela unidade da organização sindical do proletariado francês. Por outro lado, com o instinto de traidores que faz com que saibam que diante das massas não podem – na ação, na luta – se enfrentarem com a ala revolucionária, Jouhaux, Merrhaim e companhia, tomaram o caminho da cisão. A luta absolutamente importanet que envolve atualmente o conjunto do movimento sindical francês, a luta entre reformistas e revolucionários, constitui para nós ao mesmo tempo uma luta pela unidade da organização dos sindicatos e da Frente Única Sindical.

III. O MOVIMENTO SINDICAL E A FRENTE ÚNICA

13. O comunismo francês enfrenta uma situação sumariamente importante no que diz respeito à idéia da Frente Única. Na estrutura da organização política, o comunismo francês triunfou ao conquistar a maioria do velho Partido Socialista, com o qual os oportunistas agregaram a toda sua lista anterior de adjetivos o de “dissidentes”, ou seja, divisionistas. Nosso Partido se serviu desta expressão no sentido de que implantou a designação de divisionistas às organizações social-reformistas francesas, dando assim à vanguarda a certeza de que os reformistas são destruidores da unidade de ação e da unidade de organização.

14. No campo do movimento sindical, a ala revolucionária e sobretudo os comunistas, não

podem ocultar, nem tampouco seus adversários,

o quão profundas são as diferenças entre

Moscou e Amsterdam – diferenças que de modo algum são simples sombras que obscurecem o panorama do movimento operário, sim um reflexo do profundo conflito que comove à sociedade moderna, além, especialmente, do

conflito entre a burguesia e o proletariado. Mas

ao mesmo tempo, a ala revolucionária, ou seja,

antes de tudo e principalmente os conscientes

elementos comunistas, nunca propugnaram a tática de abandonar os sindicatos ou de dividir

as organizações sindicais. Tais consignas são

características de grupos sectários, de “localistas”,

KAPD, certos grupinhos “libertários” de anarquistas na França, que nunca tiveram influência no âmbito do proletariado, que não tentam nem aspiram a conquistar essa influência, mas que se contentam com pequenas seitas próprias e com congregações rigidamente demarcadas. Os elementos verdadeiramente revolucionários entre os sindicalistas franceses, sentiram instintivamente que a classe trabalhadora pode ser ganha na arena do movimento sindical apenas se se enfrentam o ponto de vista e os métodos revolucionários com os dos reformistas, no terreno da ação de massas, preservando ao mesmo tempo o mais alto grau possível de unidade na ação.

15. O sistema de frações nas organizações sindicais, adotado pela ala revolucionária, significa a forma de luta mais natural para a influência ideológica para a unidade da frente, sem perturbar a unidade da organização.

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

16. Tal como os reformistas do Partido Socialista, os reformistas do movimento sindical tomaram a iniciativa para a cisão. Mas se deve antes de tudo à experiência do Partido Socialista, que lhes fez ver claramente que o tempo avançava a favor dos comunistas, e que a única forma de contra-atacar essa influência era forçando uma divisão. Por parte do grupo dirigente da CGT, podemos ver todo um sistema de medidas para desorganizar a ala esquerda, para privá-la daqueles diretos que os sindicatos lhes dão e, finalmente, através da expulsão aberta – contra todo o estatuto e regulamento de forma a colocá-la formalmente fora dos sindicatos.

Por outro lado, temos à ala revolucionária lutando para defender seus direitos no terreno das normas democráticas das organizações operárias, e resistindo com toda a sua força à cisão implantada desde cima, convocando a base à unidade da organização sindical.

17. Todo o operário francês consciente deve saber que quando os comunistas eram uma sexta parte, ou uma terceira parte do Partido Socialista, não tentaram separar-se, pois tinham absoluta certeza de que a maioria do Partido os seguiria em um futuro próximo. Quando os reformistas se viram reduzidos a uma terceira parte se separaram, carentes de esperanças em ganhar a maioria da vanguarda proletária.

Todo operário francês consciente deve saber que quando os elementos revolucionários tiveram que enfrentar o problema sindical, apesar de serem neste momento uma minoria insignificante, buscaram uma saída na forma do trabalho nas organizações de base, pois estavam

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convencidos que a experiência da luta nas condições de uma época revolucionária empurraria em seguida à maioria dos trabalhadores organizados para o programa revolucionário. Quando os reformistas, entretanto, perceberam o crescimento da ala revolucionária nos sindicatos, acudiram imediatamente ao método da expulsão e da divisão.Daqui podemos tirar conclusões da maior importância:

Primeiro, a enorme profundidade das diferenças que refletem, como já dissemos, a contradição entre a burguesia e o proletariado, foi clarificada.

Segundo, o “democratismo” hipócrita dos opositores da ditadura fica desnudado até as raízes, principalmente quando os cavalheiros não se inclinam a tolerar, não só na estrutura do Estado mas também na estrutura das organizações operárias, os métodos democráticos. Onde quer que essas organizações operárias se voltam contra eles, as abandonam, tal como os dissidentes no Partido, ou expulsam aos demais como faz a camarilha de Jouhaux Desmoulins. É monstruoso supor que a burguesia poderia permitir que a luta contra o proletariado chegasse a uma decisão dentro de uma estrutura democrática, quando até os agentes da burguesia nos sindicatos e nas organizações políticas se opõem a resolver as questões do movimento operário através da base das normas da democracia proletária, adotadas voluntariamente por eles.

18. A luta pela unidade da organização operária e da ação sindical seguirá sendo, no futuro, uma das tarefas mais importantes do Partido

Comunista, não só uma luta no sentido de empurrar constantemente até a unidade de grandes setores operários em torno do programa e tática dos comunistas, mas também no sentido de que o Partido Comunista – no caminho até a realização deste objetivo – tanto de forma direta como através dos comunistas nos sindicatos, se esforça por meio da ação, por reduzir a um mínimo os obstáculos que são as divisões para o movimento operário.

Se apesar de nossos esforços por restabelecer a unidade, a divisão na CGT se afirma sem remédio num futuro imediato, isso não significa absolutamente que a “CGT Unitaire”, sem ter em conta se metade ou mais da metade dos trabalhadores organizados se unirão a ela no próximo período, deve levar adiante sua tarefa ignorando simplesmente a existência da CGT reformista. Uma política desta natureza significaria dificuldades ao extremo, e até excluiria a possibilidade de realizar ações coordenadas do proletariado, e ao mesmo tempo facilitaria ao máximo a possibilidade de que a CGT reformista cumprisse, em benefício da burguesia, o papel de “Ligue Civique” diante das greves, manifestações, etc.; e ao mesmo tempo daria à CGT reformista uma espécie de justificativa, ao argumentar que a CGT Unitaire provoca ações inoportunas, e que deve carregar toda a responsabilidade por elas. É bem evidente que em todos os casos onde as circunstâncias o permitirem à CGTU revolucionária, esta iniciará uma campanha quando considere necessária, dirigindo-se abertamente à CGT reformista com propostas e demandas para um plano concreto de ações coordenadas, e obrigá-la a sofrer a pressão da opinião pública proletária, expondo ante tal opinião pública cada um dos passos incertos e evasivos dos reformistas.

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

Ainda no caso de que a divisão na organização sindical seja um fato, os métodos de luta pela Frente Única conservaram todo seu significado.

19. Podemos, portanto, estabelecer que em relação ao o setor mais importante do movimento operário – os sindicatos – a tática da Frente Única exige que os métodos com que levamos adiante a luta contra Jouhaux e companhia, sejam aplicados de forma mais consistente e com mais persistência e decisão do que nunca.

de sindicatos reformistas, além da existência de tendências anti-comunistas nos sindicatos revolucionários, então a questão da hegemonia do Partido Comunista no movimento operário se apresenta como uma tarefa muito difícil, ainda longe de resolver-se com nossa preponderância numérica frente aos dissidentes. Estes últimos podem, sob outras condições, constituir um fator contra-revolucionário muito mais importante dentro do proletariado do que poderia parecer quando se julga somente através da debilidade de sua organização e a insignificância da tiragem e do conteúdo ideológico de seu órgão, “Le Populaire”.

IV. A LUTA POLÍTICA E A FRENTE ÚNICA

20. No plano do Partido, existe uma grande diferença com os sindicatos; a preponderância do Partido Comunista sobre o Partido Socialista é enorme. Portanto, é possível supor que o Partido Comunista como tal é capaz de assegurar a unidade da frente política, e que por conseguinte não há razões que o empurrem a dirigir-se à organização dos dissidentes com propostas para ações concretas. Esta questão, a ser pleiteada em uma estrita forma legista, baseada em relação de forças e não em um radicalismo verbal, deve ser apreciada como merece.

21. Quando consideramos que o Partido Comunista conta com 130.000 membros enquanto os socialistas tem 30.000, os êxitos enormes da idéia comunista na França se fazem evidentes. Por outro lado, se consideramos a relação entre esses números e a força numérica do proletariado em seu conjunto e a existência

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22. A fim de apreciar a situação, é preciso dar uma síntese clara de seu desenvolvimento. A transformação da maioria do velho Partido Socialista em Partido Comunista se produziu como resultado de uma onda de insatisfação e resulta engendrada pela guerra em todos os países da Europa. O exemplo da Revolução Russa e as consignas da Terceira Internacional indicaram o caminho para sair desta situação. Contudo, a burguesia pôde sustentar-se no período de 1919-20 e pôde, através de medidas combinadas, estabelecer um certo equilíbrio baseado nos cimentos do pós-guerra, equilíbrio que foi socavado pelas mais terríveis contradições e que conduz a grandes catástrofes, mas que provém de certa estabilidade no momento, e por um período muito imediato. A Revolução Russa, superando as maiores dificuldades criadas pelo capitalismo mundial, foi capaz de levar à cabo suas tarefas socialistas apenas de forma gradual, as custas de uma extraordinária drenagem de todas as suas forças. Como resultado disso, o fluxo inicial das tendências revolucionárias deu lugar a um

refluxo. Somente os setores mais decidido, audazes e jovens do proletariado mundial permaneceram sob a bandeira do comunismo.

Isso naturalmente não significa que os amplos setores do proletariado que se desiludiram nas suas esperanças de uma revolução imediata, de rápidas transformações radicais, etc., voltaram em conjunto a suas antigas posições do pré-guerra. Não, sua insatisfação é mais profunda do que nunca, seu ódio a seus exploradores mais agudo. Mas ao mesmo tempo, se encontram politicamente desorientados, não vêem o caminho da luta e, assim, permanecem passivamente na expectativa, criando a possibilidade de agudas oscilações para um ou outro lado, de acordo com como se apresenta a situação.

Esta grande reserva de elementos passivos e desorientados pode, sob determinadas circunstâncias, ser utilizada pelos divisionistas contra nós.

23. Para apoiar o Partido Comunista, é necessário ter fé na causa revolucionária, ser leal e ativo. Para apoiar aos dissidentes, são necessárias e suficientes a desorientação e a passividade. É absolutamente natural que o setor revolucionário e ativo do proletariado recrute de suas fileiras uma proporção muito maior de membros para o Partido Comunista do que é capaz de prover o setor passivo e desorientado para o Partido dos divisionistas.

O mesmo se pode dizer da imprensa. Os elementos indiferentes lêem pouco. A insignificância da circulação e conteúdo de “Le Populaire” reflete as condições de um setor do

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

proletariado. O fato de que haja uma ascendência dos intelectuais profissionais sobre os trabalhadores no Partido dos divisionistas não contradiz em absoluta nossa análise; que o proletariado passivo e parcialmente desiludido, parcialmente desorientado, serve, especialmente na França, de fonte de alimento para camarilhas políticas formadas por advogados e jornalistas, curandeiros reformistas e charlatães parlamentares.

24. Se contemplamos a organização do Partido como um exército ativo e às massas proletárias desorganizadas como as reservas, e se garantimos que nosso exército ativo é três ou quatro vezes mais poderoso que o exército ativo dos divisionistas, então, sob uma dada combinação de circunstâncias, as reservas podem se dividir entre nós e os social- reformistas em uma proporção muito menos favorável para nós.

PERIGO DE UM NOVO PERÍODO PACIFISTA

25. A idéia de um “bloco de esquerda” está penetrando na atmosfera política francesa. Depois de um novo período de Poncareismo, que se constitui numa tentativa da burguesia de servir um prato requentado – feito com as ilusões do povo de conseguir a vitória – é bem provável uma reação pacifista em amplos círculos da sociedade burguesa, especialmente entre a pequena burguesia. As esperanças de uma pacificação universal, de um acordo com a URSS, de obter desta, sob condições vantajosas,

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matérias primas e o pagamento de suas dívidas, diminuem esmagadas pelo militarismo; e, desta maneira, o programa ilusório do pacifismo democrático pode durante um certo período se transformar no programa de um bloco de esquerda, que substituirá o bloco nacional.

do

desenvolvimento da revolução na França, a mudança de regime será um passo adiante só no caso de que o proletariado tenha sido alcançado

muito pouco pelas ilusões do pacifismo pequeno burguês.

Desde

o

ponto

de

vista

26. Os divisionistas reformistas são a atuação do “bloco de esquerda” na classe trabalhadora. Seus êxitos serão maiores conforme menos o proletariado seja alcançado pela idéia prática da Frente Única contra a burguesia. Um setor dos trabalhadores, desorientado pela guerra e a demora no advento da revolução, pode aventurar-se a apoiar o bloco de esquerda como um mal menor, na crença de que não está arriscando nada, e porque não vê outro caminho.

27. Um dos meios mais efetivos para contra- atacar no proletariado as formas e as idéias do bloco de esquerda, ou seja, um bloco formado pelos trabalhadores e certo setor da burguesia contra outro setor da burguesia é insistir decidida e persistentemente na idéia de um bloco formado por todos os setores do proletariado contra o conjunto da burguesia.

28. Em relação aos divisionistas, isso significa

que não devemos permitir-lhes ocupar impunemente uma posição temporalmente evasiva para com o movimento operário, e usar declarações platônicas de simpatia pelos trabalhadores, como uma cobertura para aplicar por trás dos opressores burgueses. Em outras palavras, podemos e devemos, em todas as circunstâncias adequadas, propor aos divisionistas uma forma específica de ajuda conjunta aos grevistas, operários sob lock-out, desempregados, inválidos de guerra, etc., informando às massas sobre sua resposta a nossas propostas, e desta forma, opô-los a certos setores do proletariado politicamente indiferente ou semi-indiferentes, entre os quais os reformistas esperam encontrar logo o apoio,

em certas condições propícias.

29. Esse tipo de prática é tão mais importante

conforme os divisionistas estão intimamente ligados à CGT reformista, e constituem com esta

última as duas alas da atuação burguesa no movimento operário. Devemos tomar a ofensiva simultaneamente no campo sindical e político contra essa agenda de dupla face, aplicando os mesmos métodos táticos.

30. A lógica da nossa conduta impecável e

simultaneamente persuasiva na agitação é a seguinte: “Vocês, os reformistas do sindicalismo e socialismo”, dizemos a eles diante das massas,

“dividiram os sindicatos e o Partido mediante idéias e métodos que consideramos equivocados e criminais. Exigimos que pelo menos se abstenham de colocar obstáculos nas tarefas do proletariado, e que tornem possível a

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

unidade de ação. Na situação concreta dada, propomos tal e tal programa de luta”.

31. De forma similar, o método indicado poderia ser empregado com êxito em atividades municipais e parlamentares. Dizemos às massas:

“os dissidentes, devido a que não querem a revolução, dividiram os trabalhadores. Estaríamos loucos se confiássemos na sua ajuda para a revolução proletária. Mas estamos dispostos, dentro e fora do parlamento, a entrar em certos acordos práticos com eles, tendo em conta que esses acordos sejam sobre questões que nos obriguem a escolher entre os interesses conhecidos da burguesia e as reivindicações definitivas do proletariado; para apoiar a este último na ação, os divisionistas só podem ser capazes de tais ações se renunciam a suas ligações com os partidos da burguesia, ou seja, o bloco de esquerda e a disciplina burguesa”.

Se os divisionistas fossem capazes de aceitar essas condições, então os trabalhadores que os seguem seriam rapidamente absorvidos pelo Partido Comunista. Mas precisamente devido a isso, os divisionistas não aceitarão essas condições. Em outras palavras, ante a clara e precisa questão de se escolhem um bloco com a burguesia ou um bloco com o proletariado – nas condições concretas e específicas da luta de classes – se verão obrigados a declarar que preferem um bloco com a burguesia. Uma resposta como essa não passará em branco diante das reservas proletárias com as quais contam os reformistas.

49

V.

COMUNISTA

TAREFAS

INTERNAS

DO

PARTIDO

32. A política esboçada acima pressupõe, naturalmente, uma completa independência organizativa, clareza ideológica e firmeza revolucionária por parte do Partido Comunista.

Por isso, exemplificando, é impossível levar adiante com êxito uma linha política que tente desacreditar diante das massas a idéia de um bloco de esquerda, se nas filas do nosso próprio Partido há partidários deste bloco em quantidade suficiente para defender abertamente essa linha da burguesia. A expulsão incondicional e sem piedade dos que estejam a favor da idéia de um bloco de esquerda é uma tarefa subentendida do Partido Comunista. Isso limpará nossa linha política de elementos que disseminem o erro e a falta de clareza; atrairá a atenção dos trabalhadores da vanguarda para a importância do problema do bloco de esquerdas, e demonstrará que o Partido Comunista não brinca com as questões que ameaçam a unidade revolucionária na ação do proletariado contra a burguesia.

33. Aqueles que buscam utilizar a idéia da Frente Única para agitar a favor da unificação com os reformistas e os dissidentes, devem ser expulsos sem piedade de nosso Partido, pois servem de agência dos divisionistas em nossas fileiras, e confundem os trabalhadores sobre os motivos da divisão e sobre quem são os responsáveis por ela. Em vez de pleitear corretamente a possibilidade de tal ou qual ação prática coordenada com os dissidentes, apesar

de seu caráter pequeno-burguês e essencialmente contra-revolucionário, pedem que nosso Partido renuncie a seu programa comunista e a seus métodos revolucionários. A expulsão irrevogável destes elementos demonstrará de forma excelente que a tática da Frente Única proletária de modo algum representa uma capitulação ou reconciliação com os reformistas. A tática da Frente Única exige do Partido uma completa liberdade de manobra, flexibilidade e decisão. Para fazer isso possível, o Partido deve declarar de forma clara e específica, a todo momento, quais são seus desejos, que objetivo de luta se coloca, e deve defender com autoridade, diante das massas, seus passos e propostas.

34. Daqui surge a completa impossibilidade de admitir aos membros do Partido que publiquem individualmente, sob sua própria responsabilidade e risco, questões políticas nas quais opõem suas próprias consignas, métodos de ação e propostas às que representam o Partido.

Sob a cobertura do Partido Comunista e, em conseqüência, também no meio influenciado por uma cobertura comunista, ou seja, o meio operário, esses elementos disseminam dia a dia idéias hostis ao Partido, ou disseminam a confusão ou a desconfiança, o que resulta mais danoso do que as ideologias abertamente hostis.

Os órgãos desta classe, junto com seus editores, devem ser expulsos do Partido e a França proletária toda deve se inteirar desta ação, por

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

meio de artigos que exponham sem piedade aos contrabandistas pequeno-burguesas que atuam sob a bandeira comunista.

35. Do que foi dito até agora, surge também a completa inadmissibilidade de que nas publicações fundamentais do Partido apareçam, junto a artigos que defendem os conceitos básicos do comunismo, outros trabalhos que os combatam ou os neguem. É absolutamente inadmissível a continuação, na imprensa do Partido, de um regime sob o qual os leitores proletários achem, sob a coberta dos editoriais das principais publicações do Partido, artigos que tratem de retrocedê-los a posições de um pacifismo lacrimoso, e que propaguem entre os operários uma hostilidade que debilita a violência revolucionária diante da violência triunfante da burguesia. Sob a máscara de uma luta contra o militarismo, se conduz uma luta contra as idéias da revolução e do levantamento das massas.

Se depois da experiência da guerra e de todos os acontecimentos posteriores, especialmente na URSS e na Alemanha, os preconceitos do pacifismo humanitário ainda sobrevivem no Partido Comunista, e se o Partido considera necessário – no interesse da completa liquidação destes preconceitos – abrir uma discussão a respeito, os pacifistas e seus preconceitos em nenhum caso podem intervir na discussão com uma força igual, mas sim devem ser condenados severamente pela direção do Partido, em nome de seu Comitê Central. Logo que o Comitê Central haja decidido que a discussão está esgotada, toda tentativa de esparramar idéias do tolstoismo ou qualquer outra variante do pacifismo, deve

50

provocar

fileiras do Partido.

irrevogavelmente

a

expulsão

das

36. Se poderia afirmar, entretanto, que enquanto não se complete a tarefa de limpar o Partido dos preconceitos do passado e de completar sua coesão interna, seria perigoso colocar o Partido em situações que se aproximasse estreitamente dos reformistas e nacionalistas. Mas este ponto de vista é falso, naturalmente, não se pode negar que a transição de uma ampla atividade propagandística à participação direta no movimento de massas agrega novas dificuldades e, portanto, perigos para o Partido Comunista. Mas seria totalmente errôneo supor que o Partido pode preparar-se para todas estas provas sem participar diretamente na luta, sem entrar diretamente em contato com inimigos e adversários. Pelo contrário, só assim se pode alcançar uma limpeza e coesão interna do Partido real, não fictícia. Pode ser que alguns elementos no Partido e na burocracia operária sintam-se mais inclinados aos reformistas, dos quais se separaram acidentalmente, do que a nós. Perder a essas aves de passagem não será um perigo, sim uma vantagem, e será compensado cem vezes pela injeção no Partido dos trabalhadores e trabalhadoras que hoje seguem ainda os reformistas. O Partido se tornará então mais homogêneo, mais decidido e mais proletário.

VI.

MOVIMENTO SINDICAL

AS

TAREFAS

DO

PARTIDO

NO

37. Uma das tarefas mais fundamentais é a de adquirir uma absoluta clareza frente ao problema sindical, tarefa que ultrapassa em muito às outras que enfrenta o Partido Comunista na França.

Naturalmente, a lenda difundida pelos reformistas, de que se estão fazendo planos para subordinar os sindicatos organizativamente ao Partido, deve ser denunciada e exposta energicamente. Os sindicatos contam com trabalhadores de tendências políticas diferentes, assim como com homens sem Partido, ateus ou crentes; por outro lado, o Partido une em suas fileiras homens que pensam igual politicamente, sobre a base de um programa definido. O Partido não tem nem pode ter instrumentos nem métodos para atar aos sindicatos de fora deles.

O Partido pode ganhar influência na vida dos sindicatos se seus militantes trabalham nos sindicatos e levam para eles o ponto de vista do Partido. A influência dos membros do Partido nos sindicatos depende naturalmente de sua força numérica; e especialmente na medida em que sejam capazes de aplicar corretamente e de forma consistente e rápida os princípios do Partido às necessidades do movimento sindical.

O Partido tem o direito e o dever de se propor a conquistar, segundo a linha traçada acima, uma influência decisiva nas organizações sindicais. Só alcançará seu objetivo se o trabalho dos comunistas nos sindicatos se harmoniza completa e exclusivamente com os princípios do Partido, e se é conduzido invariavelmente sob seu controle.

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

38. As mentes de todos os comunistas devem, portanto, ser purificadas de todo preconceito

reformista, que faça o Partido aparecer como uma organização política parlamentar do proletariado e nada mais. O Partido Comunista é

a organização da vanguarda proletária para a

frutificação ideológica do movimento operário,

e para assumir sua direção em todas as esferas,

principalmente nos sindicatos. Se os sindicatos

não estão subordinados a um Partido, pois são organizações completamente autônomas, os comunistas dentro dos sindicatos nem por isso devem pretender realizar uma tarefa sindical autônoma, mas sim atuar como os transmissores do programa e da tática de seu Partido. Condenamos severamente a conduta daqueles comunistas que não só não lutam nos sindicatos pela influência das idéias do Partido, mas que também contra-atacam essa luta em nome de um princípio de “autonomia” aplicado por eles de forma absolutamente falsa. Na realidade, preparam o caminho para a influência decisiva no campo sindical de indivíduos, grupos e camarilhas que não tem nenhum programa

definido nem se agrupam em torno de uma organização, e que utilizam o amorfo dos setores

e relações ideológicas para manter o aparato

organizativo em suas mãos, e assegurar a independência de sua camarilha de todo controle por parte da vanguarda proletária.

Se o Partido, em sua atividade nos sindicatos, deve mostrar a maior atenção e cuidados para com as massas sem Partido e para com seus representantes conscientes e honestos; se o Partido deve, sobre a base de sua tarefa conjunta, aproximar-se estreitamente aos melhores elementos do movimento sindical – inclusive os anarquistas revolucionários que sejam capazes aprender – o Partido, por outro lado, não deve tolerar os pseudo-comunistas

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que utilizam dos Estatutos do Partido apenas para exercer uma influência anti-partidária nos sindicatos.

39. O Partido, através de sua imprensa, de seus propagandistas e seus membros nos sindicatos, deve submeter a uma crítica constante e sistemática os defeitos do sindicalismo revolucionário, com o intuito de resolver as tarefas básicas do proletariado. O Partido deve criticar, sem cansaço e com persistência, os aspectos teóricos e práticos débeis do sindicalismo, explicando ao mesmo tempo a seus melhores elementos que o único caminho correto para assegurar a influência revolucionária nos sindicatos e no movimento operário em seu conjunto é o ingresso no Partido Comunista, é sua participação na solução de todas as questões básicas do movimento, na busca de conclusões das experiências, na fixação de novas tarefas, na limpeza do próprio Partido e no fortalecimento de suas ligações com o proletariado.

40. É absolutamente indispensável fazer um censo de todos os membros do Partido Comunista francês, a fim de determinar seu estado social (operários, empregados públicos, camponeses, intelectuais, etc.), suas relações com o movimento sindical (pertencem aos sindicatos? Participam nos motins comunistas? Em motins dos sindicatos revolucionários? Aplicam nos sindicatos as resoluções do Partido?, etc.); sua atitude para com a imprensa do Partido (que publicações do partido lêem?), e assim sucessivamente.

Este censo deve ser levado à cabo de forma que seus principais aspectos possam se considerar antes do advento do Quarto Congresso Mundial da Internacional Comunista.

Março de 1922.

PARTE II – MOVIMENTO PROLETÁRIO REVOLUCIONÁRIO

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PARTE III
PARTE III
NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO
NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO
PARTE III NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

Ecossocialismo e planejamento democrático

Michael Löwy

Michael Löwy, sociólogo marxista, é diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) em Paris.

[Tradução do francês por Rita Calvário e Jorge Costa para o português de Portugal.]

Fonte: Vírus [http://esquerda.net/virus/]

“Se o capitalismo não pode ser reformado para subordinar o lucro à sobrevivência humana, que alternativa existe senão caminhar para um tipo de economia nacional ou globalmente planificada? Problemas como as alterações climáticas requerem a 'mão visível' do planejamento direto. (…) Os nossos empresários capitalistas não se podem ajudar a si próprios. Sobre economia e ambiente, não têm escolha senão tomar sistematicamente decisões erradas, irracionais e, em última análise – dada a

tecnologia que comandam –suicidas. Então, que outra escolha temos além de considerar uma verdadeira alternativa ecossocialista?”

Robert Smith (1)

“Ecossocialismo” é a tentativa de fornecer uma alternativa civilizacional radical ao que Marx chamou o "processo destrutivo" do capitalismo (2). Ela avança com uma política econômica fundada nos critérios não- monetários e extra-econômicos das necessidades sociais e do equilíbrio ecológico. Fundado nos argumentos básicos do movimento ecologista e da crítica marxista da economia política, esta síntese dialética – tentada por um vasto espectro de autores, de André Gorz (nos seus primeiros escritos) a Elmar Altvater, James O'Connor, Joel Kovel e John Bellamy Foster – é ao mesmo tempo uma crítica da "ecologia de mercado", que não desafia o sistema capitalista, e do "socialismo produtivista", que ignora a questão dos limites naturais.

Segundo O'Connor, o objetivo do socialismo ecológico é uma nova sociedade baseada na racionalidade ecológica, no controle democrático, na igualdade social e no predomínio do valor de uso sobre o valor de troca (3). Eu acrescentaria que estes valores requerem: (a) propriedade coletiva dos meios de produção ('coletiva' significa aqui propriedade pública, cooperativa ou comunitária); (b) planejamento democrático, que torna possível à sociedade definir os seus objetivos de investimento e produção; e (c) uma nova estrutura tecnológica das forças produtivas. Por

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PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

outras palavras, uma transformação revolucionária, econômica e social (4).

Para os ecossocialistas, o problema das principais correntes da ecologia política, representadas pela maioria dos partidos Verdes, é que eles não parecem tomar em conta a contradição intrínseca entre as dinâmicas de expansão ilimitada do capital e de acumulação de lucros, e a preservação do ambiente. Isto conduz a uma crítica do produtivismo, muitas vezes relevante, mas não vai além de uma economia de mercado ecologicamente reformada. O resultado é que muitos partidos Verdes se tornaram no álibi ecológico de governos social-liberais de centro-esquerda (5).

Por outro lado, o problema das correntes dominantes na esquerda ao longo do século XX – a social-democracia e o movimento comunista de inspiração soviética – é a sua aceitação do padrão de forças produtivas realmente existente. Enquanto a primeira se limitava a uma versão reformada do sistema capitalista, keyenesiana na melhor das hipóteses, a segunda desenvolveu uma forma autoritária de produtivismo coletivista – ou capitalista de Estado.

Os próprios Marx e Engels não ignoravam as consequências de devastação ambiental do modo de produção capitalista; há várias passagens de O Capital e de outros textos que indicam esta compreensão (6). Além disso, eles acreditavam que o objetivo do socialismo não é produzir mais e mais bens, mas proporcionar aos seres humanos tempo livre para desenvolverem plenamente as suas potencialidades. Nesta medida, têm pouco em comum com o 'produtivismo', i.e., com a ideia de

que a expansão ilimitada da produção é um objetivo em si.

Porém, as passagens dos seus escritos sobre o efeito do socialismo no desenvolvimento das forças produtivas para além dos limites impostos pelo sistema capitalista, circunscrevem a transformação socialista às relações de produção capitalistas, que se tornaram um obstáculo ('amarras' é o termo frequente) ao livre desenvolvimento das forças produtivas existentes. Socialismo significaria, acima de tudo, “apropriação social” da capacidade produtiva, colocando-a a serviço dos trabalhadores. Citando uma passagem do Anti-Dühring, uma obra canônica para muitas gerações de marxistas, sob o socialismo "a sociedade toma posse, abertamente e sem rodeios, das forças produtivas, que se tornaram demasiado grandes" para o presente sistema (7).

A experiência da União Soviética ilustra os problemas que resultam da apropriação coletivista dos aparelhos de produção capitalistas. Desde o início, predominou a tese da socialização das forças produtivas existentes. É verdade que, nos primeiros anos após a Revolução de Outubro, desenvolveu-se uma corrente ecologista e foram tomadas pelas autoridades soviéticas algumas medidas limitadas de proteção ambiental. Mas com o processo stalinista de burocratização, os métodos produtivistas na indústria e na agricultura impuseram-se por meios totalitários, enquanto os ecologistas foram marginalizados ou eliminados. A catástrofe de Chernobyl foi o exemplo acabado das consequências desastrosas desta imitação das tecnologias produtivas ocidentais. Uma mudança nas formas de propriedade a que não suceda uma gestão

democrática e a reorganização do sistema produtivo só pode levar a um beco sem saída.

Uma crítica da ideologia produtivista do “progresso” e da ideia de uma exploração “socialista” da natureza, aparecia já nos escritos de alguns dissidentes marxistas dos anos 30, tais como Walter Benjamin. Mas é sobretudo ao longo das últimas décadas que o “ecossocialismo” se desenvolve como um desafio à tese da neutralidade das forças produtivas, que continuam a predominar nas principais correntes da esquerda do século XX.

Os ecossocialistas deveriam inspirar-se nas observações de Marx sobre a Comuna de

Paris: os trabalhadores não podem tomar posse do aparelho de Estado capitalista e colocá-lo ao seu serviço. Eles têm de “quebrá-lo” e substitui-

lo por um poder político radicalmente diferente,

democrático e não-estatista. O mesmo se aplica,

“mutatis mutandis”, ao aparelho produtivo, que não é "neutro", antes transporta na sua estrutura

a marca do seu desenvolvimento a serviço da

acumulação de capital e da expansão ilimitada do mercado. Isto coloca-o em contradição com as necessidades de proteção ambiental e com a saúde da população. Ele deve portanto ser “revolucionadorizado”, num processo de transformação radical.

É claro que muitas conquistas científicas

e tecnológicas da modernidade são preciosas,

mas o conjunto do sistema produtivo deve ser mudado, e isto só pode ser feito por métodos ecossocialistas, i.e, através de um planejamento democrático da economia que tenha em conta a preservação do equilíbrio ecológico. Para alguns setores da produção, isto pode significar uma descontinuidade. Por exemplo: instalações nucleares, certos métodos de pesca industrial

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PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

em massa (responsáveis pelo quase-extermínio de numerosas espécies marinhas), o abate destrutivo de florestas tropicais, etc. – a lista é muito longa. No entanto, começa por exigir uma revolução no sistema energético, com a substituição das atuais fontes (sobretudo fósseis), responsáveis pelo envenenamento do ambiente, por fontes renováveis de energia:

água, vento, sol. Este tema é decisivo porque as energias fósseis (petróleo, carvão) são responsáveis por muita da poluição no planeta, tal como pelas mudanças no clima. A energia nuclear é uma falsa alternativa, não só pelo perigo de novos Chernobyl, mas também porque ninguém sabe o que fazer com milhares de toneladas de resíduos nucleares – tóxicos – durante centenas, milhares e por vezes milhões de anos, e com gigantescas instalações obsoletas e contaminadas. A energia solar, que nunca levantou grande interesse nas sociedades capitalistas (não sendo “rentável” ou “competitiva”), deve tornar-se objeto de investigação e desenvolvimento intensivos e ter um papel-chave no desenvolvimento de um sistema energético alternativo.

Tudo isto deve ser realizado sob as condições necessárias do pleno emprego e do emprego justo. Estas condições são essenciais, não só para cumprir um desígnio de justiça social, mas também para assegurar o apoio da classe trabalhadora ao processo de transformação estrutural das forças produtivas. Este processo é impossível sem o controle público dos meios de produção e sem planejamento, i.e. decisões públicas sobre investimento e mudança tecnológica que devem ser tomadas longe dos bancos e das empresas capitalistas, de modo a servirem o bem-comum da sociedade.

Mas não basta colocar estas decisões nas mãos dos trabalhadores. No terceiro volume de

O Capital, Marx definiu o socialismo como a

sociedade onde “os produtores associados organizam racionalmente as suas trocas ('Stoffwechsel') com a natureza”. Mas no primeiro volume da mesma obra é feita uma abordagem mais ampla: o socialismo é concebido como “uma associação de seres

humanos livres ('Menshen') que trabalha com meios de produção comuns ('Gemeinschaftlichen')” (8). Esta concepção é muito mais apropriada: a organização racional

da produção e do consumo tem que ser obra não

são só dos "produtores", mas também dos consumidores; com efeito, de toda a sociedade, com a população produtiva e também "não-

produtiva", a qual inclui estudantes, jovens, domésticas (e domésticos), pensionistas, etc.

Neste sentido, toda a sociedade poderá escolher, democraticamente, que linhas produtivas devem ser privilegiadas, e que recursos deverão ser investidos em educação, saúde ou cultura (9). Os próprios preços dos bens não serão deixados à leis da oferta e da procura, mas determinados, até onde for possível, por critérios sociais, políticos e ambientais. Inicialmente, isto envolveria apenas taxas sobre alguns produtos e preços subsidiados para outros. Mas, idealmente, com o avanço da transição para o socialismo, mais e mais produtos poderiam ser distribuídos sem custos e

de acordo com a vontade dos cidadãos.

Longe de ser “despótico” em si, o planejamento democrático é o exercício, pelo conjunto da sociedade, da sua liberdade de decisão. É isto que é necessário para a libertação das “leis da economia”, reificadas e alienantes, caixa forte das estruturas capitalistas e

burocráticas. O planejamento democrático, combinado com a redução do tempo de trabalho, seria um passo decisivo da humanidade para o que Marx chamou "o reino da liberdade". Isto porque um aumento significativo do tempo livre é de fato uma condição para a participação da população trabalhadora na discussão democrática e na gestão da economia e da sociedade.

Os partidários do mercado livre apontam o falhanço do planejamento soviético como uma razão para rejeitar qualquer idéia de economia organizada. Sem entrar no debate sobre os feitos e misérias da experiência soviética, era obviamente uma forma de "ditadura sobre as necessidades" – para usar a expressão de György Markus e dos seus amigos da Escola de Budapeste: um sistema não- democrático e autoritário que deu o monopólio de todas as decisões a um punhado de tecno- burocratas. Não foi o planejamento que levou à ditadura, mas sim as crescentes limitações à democracia no Estado soviético e, após a morte de Lenin, o estabelecimento de um poder "burocrático" totalitário, que conduziu a um sistema de planejamento cada vez mais autoritário. Se o socialismo significa o controlo pelos trabalhadores e pela população em geral do processo produtivo, a URSS sob Stalin e seus sucessores era um longínquo eco disso.

O fracasso da URSS ilustra os limites e contradições do planejamento burocrático, que é inevitavelmente ineficiente e arbitrário, e não pode ser usado como argumento contra o planejamento "democrático" (10). A concepção socialista de planejamento não é senão a democratização radical da economia: se as decisões políticas não devem ser deixadas a uma elite de governantes, porque não deveria tal

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PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

princípio aplicar-se às da economia? O equilíbrio

a atingir entre planejamento e mecanismos de

mercado é uma questão assumidamente difícil:

durante os primeiros estágios de uma nova sociedade, os mercados manterão certamente um lugar importante, mas à medida que avançar a transição para o socialismo, o planejamento será cada vez mais predominante, contra as leis do valor de troca (11).

Engels insistiu que uma sociedade socialista “terá que estabelecer um plano de produção levando em conta os meios de produção, especialmente incluindo a força de trabalho. Serão, em última instância, os efeitos

úteis de vários objetos de uso, comparados entre si e em relação à quantidade de trabalho necessária à sua produção, que determinarão o plano” (12). No capitalismo, o valor de uso é apenas um meio – frequentemente, um truque

– ao serviço do valor de troca e do lucro (que

explica, aliás, porque tantos produtos na atual sociedade são essencialmente inúteis). Numa economia socialista planejada, o valor de uso é o único critério para a produção de bens e serviços, com consequências econômicas, sociais e ambientais de longo alcance. Como Joel Kovel observou: "a alta do valor de uso e a correspondente reestruturação das necessidades tornam-se o regulador social da tecnologia, em lugar da conversão do tempo em mais-valia e dinheiro, como sucede sob o capital" (13).

No tipo de sistema de planejamento democrático aqui enunciado, o plano abrange as principais opções econômicas, não a administração de restaurantes, mercearias e padarias, pequenas lojas, empresas artesãs e serviços. É importante enfatizar também que o plano não entra em contradição com a autogestão das unidades produtivas pelos seus

trabalhadores. Enquanto a decisão, tomada através do sistema de planejamento, de converter, por exemplo, uma fábrica de automóveis ao fabrico de ônibus e bondes seria tomada pela sociedade como um todo, a organização interna e o funcionamento da fábrica deveriam ser democraticamente geridos pelos seus trabalhadores. Houve muita discussão sobre a natureza “centralizada” ou “descentralizada” do planejamento, mas pode argumentar-se que o pomo da questão é o controle do plano a todos os níveis – local, regional, nacional, continental e, desejavelmente, internacional, uma vez que as questões ecológicas tais como o aquecimento global são planetárias e devem ser abordadas à escala global. Deveríamos chamar-lhe “planejamento democrático global”. Mesmo a este nível, seria bastante oposto ao que usualmente se chama “planejamento central”, uma vez que as decisões econômicas e sociais não são tomadas por qualquer "centro", mas sim democraticamente decididas pelas populações envolvidas.

Claro que haverá inevitáveis tensões e contradições entre estabelecimentos auto- geridos, administrações locais democráticas, grupos sociais alargados. Mecanismos de negociação podem ajudar a resolver alguns desses conflitos. Mas, em última análise, os maiores grupos envolvidos, se forem majoritários, devem poder impor a sua visão. Para dar um exemplo: uma fábrica autogerida decide evacuar no rio os seus resíduos tóxicos. A população de toda a região está em risco de contaminação: pode, portanto, decidir que a produção nesta unidade deve ser interrompida até ser encontrada uma solução satisfatória para o controle dos resíduos. Desejavelmente, numa

sociedade ecossocialista, os trabalhadores fabris teriam a consciência ecológica necessária para evitar decisões como aquela. Mas instituir meios para assegurar que os interesses sociais mais amplos têm a palavra final, como no exemplo anterior, não significa que assuntos relativos à gestão interna deixem de ser encaminhados no nível da fábrica, escola, bairro, hospital ou cidade.

O planejamento socialista deve se assentar no debate democrático e pluralista, em todos os níveis em que as decisões são tomadas. Organizadas sob a forma de partidos, plataformas, ou quaisquer outros movimentos políticos, os delegados para o organismo de planejamento são eleitos, e as diferentes propostas são apresentadas às populações abrangidas por elas. A democracia representativa deve ser completada – e corrigida – pela democracia direta, em que as pessoas escolhem diretamente sobre as grandes opções. Deve o transporte público ser gratuito? Devem os possuidores de viatura privada pagar impostos especiais para subsidiar os transportes públicos? Deve a energia solar ser subsidiada para competir com as energias fósseis? Deve a semana de trabalho ser reduzida a 30 ou 25 horas, ou menos, mesmo que isso signifique uma redução na produção? A natureza democrática do planejamento não é incompatível com a existência de especialistas: o seu papel não é decidir, mas sim apresentar no processo democrático as suas perspectivas (muitas vezes diferentes, senão opostas). Como Ernest Mandel afirma, “governos, partidos, conselhos de planejamento, cientistas, tecnocratas, ou seja quem for, podem fazer sugestões, avançar propostas, tentar influenciar as pessoas. Mas sob um sistema multipartidário,

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PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

tais propostas nunca serão unânimes: as pessoas terão a escolha entre alternativas coerentes. E o direito e o poder para 'decidir' deve estar nas

maioria dos

produtores/consumidores/cidadãos e nas de mais ninguém. Que há nisto de despótico ou paternalista?” (14).

mãos

da

Há garantia de que as pessoas tomarão as decisões ambientais corretas, mesmo à custa dos seus hábitos de consumo? Não existe tal “garantia”, além da razoável expectativa que a racionalidade prevaleça nas decisões democráticas quando o poder do fetichismo da mercadoria estiver quebrado. Claro que serão cometidos erros por vontade popular, mas quem acredita que os especialistas não erram? De resto, ninguém pode imaginar o advento de uma nova sociedade sem que a maioria da população tenha atingido pela sua luta, pela auto-formação e experiência social, um alto nível de consciência ecológica e socialista (15). Seja como for, não são as alternativas muito mais perigosas – o mercado cego, uma ditadura ecológica de “especialistas” – do que o processo democrático, com todas as suas limitações?

É verdade que o planejamento requer a existência de organismos executivos/técnicos, encarregados de pôr em prática o decidido, mas estes não serão necessariamente autoritários desde que colocados sob controle permanente a partir de baixo e se incluírem autogestão dos trabalhadores num processo de administração democrática. É evidente que ninguém quer imaginar a maioria do povo a gastar todo o seu tempo livre em autogestão ou reuniões de participação. Como assinalou Mandel, "a auto- administração não implica o desaparecimento da delegação, combina a tomada de decisões

pelos cidadãos com um controle mais estrito dos delegados pelo seu respectivo eleitorado" (16).

A "economia participativa" ("parecon") de Michael Albert foi objeto de algum debate no movimento da alterglobalização. Apesar de alguns atalhos na sua abordagem de conjunto, que parece ignorar a ecologia, e contrapõe a “parecon” ao socialismo de modelo soviético, ela tem elementos comuns com o tipo de planejamento ecossocialista aqui proposto:

oposição ao mercado socialista e ao planejamento burocrático, compromisso com a auto-organização dos trabalhadores, anti- autoritarismo. O modelo de planejamento participativo de Albert baseia-se numa complexa construção institucional:

“Os participantes no planejamento participativo são os conselhos e federações de trabalhadores, os conselhos e federações de consumidores e vários Conselhos de Facilitação (CFI). Conceitualmente, o planejamento é bastante simples. Um CFI anuncia o que chamaremos "preços indicativos" para todos os bens, recursos, categorias de trabalho, e capital. Os conselhos e federações de consumidores respondem com propostas de consumo, tomando os preços indicativos dos bens e serviços como estimativas do custo social do seu fornecimento. Os conselhos e federações de trabalhadores respondem com propostas de produção, listando os outputs que poderão disponibilizar e os inputs de que precisarão para isso; tomando os preços indicativos como estimativas dos benefícios sociais trazidos pelos outputs e dos verdadeiros custos de oportunidade dos inputs. Um CFI calcula então o excesso de procura ou oferta para cada bem e ajusta o respectivo preço, de acordo com algoritmos socialmente aceitos. Usando os

novos preços indicativos, os conselhos e federações de consumidores e trabalhadores revêem e reformulam as suas propostas (…) Em vez do domínio dos capitalistas ou dos

coordenadores sobre os trabalhadores, a parecon

é uma economia na qual trabalhadores e consumidores, juntos, determinam

cooperativamente as suas opções econômicas e

se beneficiam delas de forma a promover a

igualdade, a solidariedade, a diversidade e a autogestão.” (17)

O principal problema desta concepção –

a qual não é simples, mas extremamente

elaborada e por vezes mesmo obscura – é que

parece reduzir o “planejamento” a uma espécie

de negociação entre produtores e consumidores

em relação aos preços, “inputs” e “outputs”, oferta e procura. Por exemplo, o conselho dos trabalhadores da indústria de automóvel poderia reunir-se com o conselho de consumidores para discutir os preços e adaptar a oferta à procura. O que isto deixa de fora é precisamente o que constitui a questão principal no planejamento ecossocialista: a reorganização do sistema de transportes, reduzindo radicalmente o lugar para o automóvel privado. Uma vez que o ecossocialismo requer que setores inteiros da indústria desapareçam – centrais nucleares, por exemplo – e investimentos massivos em setores pequenos e praticamente inexistentes (e.g. energia solar), como pode isto ser resolvido por “negociações cooperativas” entre as unidades de produção existentes e os conselhos de

consumidores em relação a “inputs” e “preços indicativos”?

O modelo de Albert olha para a estrutura produtiva e tecnológica existente e é demasiado “economicista” para tomar em conta os

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PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

interesses gerais, socio-políticos e socio- ecológicos da população – os interesses dos indivíduos, como cidadã/os e seres humanos, os quais não podem ser reduzidos aos seus interesses econômicos como produtores e consumidores. Ele deixa de fora não apenas o Estado como instituição – uma opinião respeitável – mas também a “política” como o confronto entre as diferentes opções econômicas, sociais, políticas, ecológicas, culturais e civilizacionais, em nível local, nacional e global.

Isto é muito importante porque a transição do “progresso destrutivo” capitalista

para o socialismo é um processo histórico, uma transformação revolucionária permanente da sociedade, cultura e mentalidades – e a “política”

no sentido atrás definido não pode deixar de ser

central. É importante enfatizar que tal processo não pode começar sem a transformação revolucionária das estruturas sociais e políticas,

e o apoio ativo, pela grande maioria da

população, de um programa ecossocialista. O desenvolvimento de consciência socialista e percepção ecológica é um processo no qual o fator decisivo é a própria experiência coletiva das pessoas em luta, partindo dos confrontos locais e parciais para a transformação radical da sociedade.

Esta transição pode levar não apenas a um novo modo de produção e a uma sociedade igualitária e democrática, mas também a um "modo de vida" alternativo, a uma nova “civilização” ecossocialista, para além do reino

do dinheiro, dos hábitos artificiais de consumo

produzidos pela publicidade e da produção ilimitada de bens que são inúteis e/ou danosos para o ambiente. Alguns ecologistas acreditam que a única alternativa ao produtivismo é

“travar o crescimento”, ou substitui-lo por crescimento negativo – o que os franceses chamam de “décroissance” – e reduzir drasticamente o nível excessivamente elevado de consumo da população cortando pela metade a utilização de energia, através da renúncia às habitações individuais, aquecimento central, máquinas de lavar, etc. Uma vez que estas e outras medidas similares de autoridade draconiana se arriscam a ser bastante impopulares, alguns dos defensores do “décroissance” jogam com a ideia de uma espécie de “ditadura ecológica” (18). Contra estas perspectivas pessimistas, os socialistas otimistas acreditam que o progresso técnico e o uso de fontes de energia renovável vão permitir um crescimento ilimitado e abundância e que cada um/a receba “de acordo com as suas necessidades”.

Julgo que ambas as escolas partilham uma concepção meramente “quantitativa” de “crescimento” – positivo ou negativo – e do desenvolvimento das forças produtivas. Há, no entanto, uma terceira posição, a qual me parece mais apropriada: a “transformação qualitativa” do desenvolvimento. Isto significa colocar um fim ao monstruoso desperdício de recursos pelo capitalismo, baseado na produção, em larga escala, de produtos inúteis ou danosos: a indústria de armamento é um bom exemplo, mas uma boa parte dos bens produzidos no capitalismo – com a sua obsolescência própria – não têm outra utilidade que a de gerar lucro para as grandes empresas. A questão não é o “consumo excessivo” em abstrato, mas o “tipo” de consumo prevalecente, baseado na apropriação conspícua, desperdício massivo, alienação mercantil, acumulação obsessiva de bens e a aquisição compulsiva de pseudo-

novidades impostas pela “moda”. Uma nova sociedade iria orientar a produção para a satisfação das necessidades autênticas, começando por aquelas que podem ser descritas como “bíblicas” – água, alimentos, vestuário, habitação – mas incluindo também os serviços básicos: saúde, educação, transporte, cultura.

Obviamente, os países do Sul, onde estas necessidade estão muito longe de estarem satisfeitas, vão precisar de um nível muito mais elevado de “desenvolvimento” – construindo estradas, hospitais, sistemas de saneamento e outras infra-estruturas – do que os industrialmente avançados. Mas não há razão para isto não ser atingido com um sistema produtivo amigo do ambiente e baseado em energias renováveis. Estes países vão precisar de produzir grandes quantidades de alimentos para alimentar as suas populações esfomeadas, mas isto pode ser muito melhor conseguido – como os movimentos camponeses da “Via Campesina” têm vindo a argumentar – através da agricultura biológica baseada em unidades familiares, cooperativas ou explorações coletivizadas, do que pelos métodos destrutivos

e anti-sociais do agronegócio industrializado,

assente no uso de pesticidas, produtos químicos

e transgênicos. Em vez do presente sistema

monstruoso de dívida, e da exploração imperialista dos recursos do Sul pelos países capitalistas industrializados, haveria uma corrente de apoio técnico e econômico do Norte para o Sul, sem a necessidade – como alguns puritanos e ascéticos ecologistas parecem

acreditar – da população da Europa ou América do Norte reduzir os seus padrões de vida em termos absolutos. Em vez disso, eles apenas se livrariam do consumo obsessivo e de mercadorias inúteis que não correspondem a

59

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

nenhuma necessidade real, enquanto se redefiniria o significado de padrão de vida no sentido de modo de vida.

Como distinguir as necessidades autênticas das artificiais, falsas e criadas? A indústria da publicidade – induzindo necessidades através da manipulação mental – invadiu todas as esferas da vida humana nas sociedades modernas capitalistas: não apenas alimentação e vestuário, mas também desporto, cultura, religião e política são moldadas de acordo com as suas regras. Invadiu as ruas, caixas de correio, ecrãs de televisão, jornais, paisagens, numa forma permanente, agressiva e insidiosa, e contribui decisivamente para os hábitos de consumo compulsivo e conspícuo. Além disso, gasta uma quantidade astronômica de petróleo, eletricidade, tempo de trabalho, papel, produtos químicos e outras matérias- primas – todas pagas pelos consumidores – para um tipo de "produção" que não só é inútil, de um ponto de vista humano, mas diretamente em contradição com as reais necessidades sociais. Enquanto a publicidade é uma dimensão indispensável no mercado da economia capitalista, não teria lugar numa sociedade em transição para o socialismo, onde seria substituída por informação sobre bens e serviços providenciados pelas associações de consumidores. O critério para distinguir uma necessidade autêntica de uma artificial, seria pela sua persistência após a supressão da publicidade. Claro que durante algum tempo os velhos hábitos de consumo iriam persistir e ninguém tem o direito de dizer às pessoas o que são as suas necessidades. Alterar os padrões de consumo é um processo histórico, bem como um desafio educacional.

Algumas mercadorias, como o carro individual, levantam problemas mais complexos. Os carros privados são uma agressão pública, matando e mutilando centenas de milhares de pessoas todos os anos à escala mundial, poluindo o ar das cidades grandes – com consequências nefastas para a saúde de crianças e idosos – e contribuindo significativamente para as alterações do clima. No entanto, eles correspondem a necessidades reais nas presentes condições diárias do capitalismo. Experiências locais em cidades européias com administrações com preocupações ambientais mostram que é possível – e aceito pela maioria da população – limitar progressivamente o papel do automóvel individual a favor de ônibus e bondes. Num processo de transição para o ecossocialismo, onde o transporte público seria amplamente

expandido e libertado de tarifas, e onde os peões

e ciclistas teriam faixas de proteção, o carro

privado irá ter um papel muito menor que na sociedade burguesa, onde se tornou um fetiche promovido pela publicidade insistente e agressiva, um símbolo de prestígio, um sinal de identidade (nos EUA a carta de condução é o cartão de identificação reconhecido) e um foco da vida pessoal, social e erótica (19). Na transição para uma nova sociedade, será muito mais fácil reduzir drasticamente o transporte de mercadorias por caminhões – responsáveis por

terríveis acidentes e elevados níveis de poluição

–, substituindo-o pelo transporte ferroviário ou

pelo que os franceses chamam de ”ferroutage” (caminhões transportados nos comboios de uma cidade para outra). Só a lógica absurda da “competitividade” capitalista explica o perigoso crescimento do sistema de transporte rodoviário pesado.

Sim, responderão os pessimistas, mas os indivíduos são movidos por aspirações e desejos infinitos que têm de ser controlados, vigiados, contidos e se necessário reprimidos, e isto pode apelar a algumas limitações na democracia. Mas

o ecossocialismo é baseado na expectativa

razoável, já tratada por Marx: a predominância, numa sociedade sem classes e liberta da alienação capitalista, do “ser” sobre o “ter”, i.e. do

tempo livre para a realização pessoal através de atividades culturais, desportivas, científicas, eróticas, artísticas e políticas, em vez do desejo infinito de posse de produtos. A aquisição compulsiva é induzida pelo fetichismo das mercadorias inerente ao sistema capitalista, pela ideologia dominante e a publicidade: nada prova que é parte da “eterna natureza humana”. Como Ernest Mandel enfatizou, “a acumulação contínua de mais e mais bens (com uma 'utilidade marginal' em declínio) não significa de forma alguma uma condição universal ou sequer predominante do comportamento humano. O desenvolvimento de talentos e inclinações para benefício próprio; a proteção da vida e saúde; o cuidado pelas crianças; o desenvolvimento de relações sociais ricas (…) tudo isto se torna motivação maior assim que as necessidades materiais tenham sido satisfeitas”

(20).

Como temos insistido, isto não significa que não vão surgir conflitos, particularmente durante o processo de transição, entre os requisitos de proteção do ambiente e as

necessidades sociais, entre os imperativos ecológicos e a necessidade de desenvolver infra- estruturas básicas, particularmente nos países pobres, entre os hábitos populares de consumo e

a escassez de recursos. Uma sociedade sem

60

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

classes não é uma sociedade sem contradições e conflitos. Estes são inevitáveis: resolvê-los será uma tarefa do planejamento democrático, numa perspectiva ecossocialista, liberto dos imperativos do capital e do lucro, através de discussões plurais e abertas, com decisões tomadas pela própria sociedade. Tal democracia de base e participativa é a única forma, não de evitar erros, mas de permitir a correção, pelo coletivo social, dos seus próprios erros.

É isto Utopia? No seu sentido etimológico – “algo que não existe em lado nenhum” – certamente. Mas não serão as utopias, i.e. visões de um futuro alternativo, de imagens desejosas de uma sociedade diferente, condição necessária de qualquer movimento que queira desafiar a ordem estabelecida? Como explicou Daniel Singer no seu testamento literário e político, Whose Millenium?, num poderoso capítulo intitulado "Utopia Realista":

“… Se a ordem estabelecida agora parece tão sólida, apesar das circunstâncias, e se o movimento dos trabalhadores ou a maioria da esquerda está tão deficiente, tão paralisada, é por causa da falha em oferecer alternativas radicais (…) O princípio básico do jogo é que não se questiona nem os fundamentos dos argumentos nem as fundações da sociedade. Apenas uma alternativa global, rompendo com essas regras de resignação e desistência, podem dar ao movimento de emancipação uma perspectiva genuína.” (21)

A utopia socialista e ecológica é apenas uma possibilidade objetiva, não o resultado inevitável das contradições do capitalismo, ou das “leis de ferro da história”. Não é possível predizer o futuro, exceto nos termos tradicionais:

o que é predizível é que na ausência de uma transformação ecossocialista, de uma alteração radical do paradigma civilizacional, a lógica do capitalismo vai levar a desastres ecológicos dramáticos, ameaçando a saúde e a vida de milhões de seres humanos, e talvez até a sobrevivência da espécie.

Sonhar e lutar por um socialismo verde, ou, como alguns dizem, um “comunismo solar”, não significa que não se lute por reformas concretas e urgentes. Sem ilusões sobre um “capitalismo limpo”, deve tentar-se ganhar tempo e impor aos poderes algumas alterações elementares: banir os CFCs que estão a destruir a camada de ozônio, moratória geral aos organismos geneticamente modificados, redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, regulações estritas na indústria pesqueira, taxação dos carros poluentes, maior desenvolvimento dos transportes públicos, progressiva substituição de caminhões por comboios. Estas, e outras similares, estão no coração da agenda do movimento de Justiça Global e dos Fóruns Sociais Mundiais. Este é um novo desenvolvimento político que permitiu, desde Seattle em 1999, a convergência de movimentos sociais e ambientais na luta comum contra o sistema.

Estas exigências urgentes ecossociais podem levar a um processo de radicalização, se essas exigências não forem adaptadas para encaixar nos requerimentos da “competitividade”. De acordo com a lógica do que os marxistas chamam “um programa de transição”, cada pequena vitória, cada avanço parcial, conduz imediatamente a uma exigência maior, para uma vontade de maior radicalidade. Tais lutas em torno de questões concretas são importantes, não apenas porque as vitórias

parciais são elas próprias bem-vindas, mas também porque elas contribuem para aumentar

a consciência ecologista e socialista, e porque

promovem o ativismo e auto-organização a partir da base: ambos serão pré-condições necessárias e mesmo decisivas para uma transformação radical, i.e. revolucionária, do mundo.

Experiências locais como as áreas livre de carros em várias cidades européias, cooperativas de agricultura orgânica, cooperativas agrícolas lançadas pelo movimento camponês brasileiro do (MST), ou o orçamento participativo em Porto Alegre e, há poucos anos, no estado de Rio Grande do Sul (sob o Governador do PT Olívio Dutra), são exemplos limitados mas interessantes de alteração social/ecológica. Ao permitir que assembleias locais decidam as prioridades do orçamento, Porto Alegre foi – até a esquerda perder as eleições municipais em 2002 – talvez o

exemplo mais atraente de “planejamento a partir de baixo”, apesar das suas limitações (22). Deve ser admitido, no entanto, que mesmo existindo algumas medidas progressivas tomadas por alguns governos nacionais, no todo

a experiência da Centro-Esquerda ou coligações

“Esquerda/Verdes” na Europa ou América Latina foi uma desilusão, ficando firmemente dentro dos limites da política social-liberal de adaptação à globalização capitalista.

Não haverá transformação radical sem que as forças comprometidas com um programa socialista e ecológico radical se tornem hegemônicas, no sentido de Gramsci. Neste sentido, o tempo está do nosso lado, à medida que trabalhamos para a mudança, porque a situação global do ambiente está progressivamente a ficar pior, e as ameaças estão

61

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

a aproximar-se cada vez mais. Por outro lado, o tempo está a esgotar-se, porque dentro de alguns anos – ninguém pode dizer quantos – o estrago pode ser irreversível. Não há qualquer razão para otimismo: as elites dominantes entrincheiradas no sistema são incrivelmente poderosas, e a força da oposição radical é ainda pequena. Mas ela é a única esperança de travar o "progresso destrutivo" do capitalismo. Walter Benjamin definiu revolução como sendo não a locomotiva da história, mas a capacidade humana de travar o comboio, antes que caia no abismo… (23)

Notas:

(1) Richard Smith, 'The Engine of Eco Collapse', Capitalism, Nature and Socialism, 16(4), 2005, p.

35.

(2) K. Marx, Das Kapital, Volume 1, Berlin: Dietz Verlag, 1960, pp. 529-30. Para uma extraordinária análise da lógica destrutiva do capital, ver Joel Kovel, The Enemy of Nature. The End of Capitalism or the End of the World?, New York: Zed Books, 2002.

(3) James O'Connor, Natural Causes. Essays in Ecological Marxism, New York: The Guilford Press, 1998, pp. 278, 331.

(4) John Bellamy Foster usa o conceito de "revolução ecológica", mas argumenta que a "revolução ecológica global merecedora do nome apenas pode ocorrer como parte de uma revolução – e insisto, socialista – de maioria social. Tal revolução (…) teria de exigir, como Marx insistiu, que as associações de produtores racionalmente regulassem a relação metabólica

humana com a natureza (…) Deve tomar a sua inspiração em William Morris, um dos seguidores mais originais e ecologistas de Karl Marx, em Gandhi, e noutras figuras radicais, revolucionárias e materialistas, incluindo o próprio Marx, indo tão atrás como Epicuro". Foster, 'Organizing Ecological Revolution', Monthly Review, 57(5), 2005, pp. 9-10.

(5) Para uma crítica ecossocialista da "ecopolítica actualmente existente" – economia verde, ecologia profunda, bioregionalismo, etc – ver Kovel, Enemy of Nature, capítulo 7.

(6)

Materialism and Nature, New

Ver

John

Bellamy Foster, Marx's

Ecology.

York: Monthly Review Press, 2000.

(7) F. Engels, Anti-Dühring, Paris: Ed. Sociales, 1950, p. 318.

(8) K. Marx, Das Kapital, Volume 3, Berlin: Dietz Verlag, 1968, p. 828 and Volume 1, p. 92. Pode-se encotrar problemas similares no marxismo contemporâneo; por exemplo, Ernest Mandel argumentou por um "planejamento democraticamente centralista sob um congresso nacional de conselhos de trabalhadores desde que a sua larga maioria seja de trabalhadores reais" (Mandel, 'Economics of Transition Period', in E. Mandel, ed., 50 Years of World Revolution, New York: Pathfinder Press, 1971, p. 286). Nos seus últimos escritos, ele referiu-se antes a "produtores/consumidores". Vamos frequentemente citar os escritos de Ernest Mandel, porque ele é o teórico socialista mais articulado sobre o planejamento democrático. Mas deve ser dito que até ao final dos anos de 1980, ele não incluiu a questão ecológica como

um

econômicos.

aspecto

central

dos

seus

argumentos

(9) Ernest Mandel definiu planejamento nos seguintes termos: "Uma economia governada por um plano implica (…) que os recursos relativamente raros da sociedade não são apropriados cegamente ("nas costas do produtor- consumidor") pelo jogo da lei do valor mas que eles são conscientemente alocados de acordo com prioridades previamente estabelecidas. Numa economia de transição onde a economia socialista prevalece, a massa dos trabalhadores determina democraticamente esta escolha de prioridades". Mandel, 'Economics of Transition Period', p. 282.

(10) "Do ponto de vista da massa dos trabalhadores, os sacrifícios impostos pelas arbitrariedades burocráticas não são mais nem menos "aceitáveis" que os sacrifícios impostos pelos mecanismos cegos do mercado. Representam apenas duas formas diferentes da mesma alienação". Ibid., p. 285.

(11) No seu impressionante recente livro sobre socialismo, o economista marxista Argentino Claudio Katz enfatizou que o planejamento democrático, supervisionado de baixo pela maioria da população, "não equivale à centralização absoluta, estatização total, comunismo de guerra ou economia de comando. A transição requer a primado do planejamento sobre o mercado, mas não a supressão das variáveis do mercado. A combinação entre ambas as instâncias deve ser adaptada a cada situação em cada país". No entanto, "a vontade do processo socialista não é manter um equilíbrio inalterável entre o plano e o mercado, mas promover uma perda progressiva das posições de mercado". C. Katz, El

62

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

porvenir del Socialismo, Buenos Aires:

Herramienta/Imago Mundi, 2004, pp. 47-8.

(12) Anti-Dühring, p. 349.

(13) Kovel, Enemy of Nature, p. 215.

(14) Mandel, Power and Money, London: Verso, 1991, p. 209.

(15) Mandel observou: "Nós não acreditamos que a ? maioria tem sempre razão? (…) Todos cometem erros. Isto será certamente verdade para a maioria dos cidadãos, a maioria dos produtores e também a maioria dos consumidores. Mas haverá uma diferença básica entre eles e os seus predecessores. Em qualquer sistema de poder desigual (…) os que fazem as más decisões sobre alocação de recursos raramente são os que sofrem as consequências desses erros (…) Desde que exista uma democracia política real, escolha cultural real e informação, é difícil de acreditar que a maioria prefere ver os seus bosques morrer (…) ou os seus hospitais com falta de pessoal, do que corrigir rapidamente os seus erros de alocação". Mandel, 'In Defense of Socialist Planning', New Left Review, 1/159, 1986, p. 31.

(16) Mandel, Power and Money, p. 204.

Economics.

Life After Capitalism, London, Verso, 2003, p.

154.

(17)

Michael

Albert,

Participatory

(18) Para uma selecção do "crescimento negativo" ver Majid Rahnema (com Victoria Bawtree), eds., The Post-Development Reader, Atlantic Highlands, N.J.: Zed Books, 1997, e Michel Bernard et al., eds., Objectif Décroissance:

vers une société harmonieuse, Lyon: Éditions

Parangon, 2004. O principal teórico francês do "décroissance" é Serge Latour, autor de La planète dês naufragés, essai sur l'après- dévéloppement, Paris: La Decouverte, 1991.

(19) Ernest Mandel era céptico em relação às rápidas alterações dos hábitos de consumo, como o carro privado: "Se, em vez de todos os argumentos ambientais e outros, os produtores e consumidores quiserem manter o domínio do automóvel privado e continuar a poluir as suas cidades, eles estariam no seu direito. Alterações nas orientações de longo prazo dos consumidores são geralmente lentas – poucos acreditam que os trabalhadores nos EUA abandonariam a sua ligação ao automóvel no dia seguinte à revolução". Mandel, "In Defense of Socialist Planning", p. 30. Mandel está certo em insistir que as alterações nos padrões de consumo não podem ser impostas, mas subestima seriamente o impacto que teria um sistema extensivo e livre de encargos de transportes públicos, bem como a aceitação da maioria dos cidadãos – já hoje, em várias grandes cidades europeias – de medidas restritivas à circulação automóvel.

(20) Mandel, Power and Money, London: Verso, 1991, p. 206.

(21) D. Singer, Whose Millenium? Theirs or Ours? New York: Monthly Review Press, 1999, pp. 259-60.

(22) See S. Baierle, 'The Porto Alegre Thermidor', in Socialist Register 2003.

(23) Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, Volume I/3, Frankfurt: Suhrkamp, 1980, p. 1232.

Que

é,

(Teses)

afinal,

a

Revolução

Permanente?

Escrito por Leon Trotski e publicado no livro Revolução Permanente, em novembro de 1929.

Transcrição: Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.

Fonte: Martxists?Internet Archive

Espero que o leitor não ache inconveniente em que, antes de terminar este trabalho, procure formular minhas conclusões essenciais de maneira concisa e sem receio de repetir.

1. A teoria da revolução permanente

exige, na atualidade, a maior atenção da parte de todo marxista, uma vez que o desenvolvimento da luta ideológica e a da luta de classe fez o problema sair definitivamente do

domínio das recordações de velhas divergências entre os marxistas russos, para apresenta-lo em ligação com o caráter, os laços internos e os métodos da revolução internacional em geral.

2. Para os países de desenvolvimento

burguês retardatário e, em particular, para os países coloniais e semicoloniais, a teoria da

revolução permanente significa que a solução verdadeira e completa de suas tarefas democráticas e nacional- libertadoras só é concebível por meio da ditadura do proletariado, que, assume a direção da nação

63

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

oprimida

camponesas.

e,

antes

de

tudo,

de

suas

massas

3. Tanto a questão agrária como a

questão nacional conferem ao campesinato, como enorme maioria da população dos países atrasados, um papel primordial na revolução democrática. Sem a aliança entre o proletariado e o campesinato, as tarefas da revolução democrática não podem ser resolvidas, nem mesmo ser colocadas a sério. Essa aliança das duas classes, porém, só se realizará numa luta implacável contra a influência da burguesia

nacional-liberal.

4. Quaisquer que sejam as primeiras

etapas episódicas da revolução nos diferentes países, a aliança revolucionária do proletariado com os camponeses só é concebível sob a direção política da vanguarda proletária organizada como partido comunista. Isto significa, por outro lado, que a vitória da revolução democrática só é concebível por meio da ditadura do proletariado apoiada em sua aliança com os camponeses e destinada, em primeiro lugar, a resolver as tarefas da revolução

democrática.

5. Do ponto de vista histórico, a velha palavra de ordem bolchevique de "ditadura democrática do proletariado e dos camponeses" exprimia exatamente as relações, acima caracterizadas, entre o proletariado, o campesinato e a burguesia liberal. Isso foi demonstrado pela experiência de Outubro. No entanto, a antiga fórmula de Lenin não previa quais seriam as relações políticas recíprocas entre o proletariado e o campesinato dentro do bloco revolucionário. Por outras palavras: a fórmula admitia, conscientemente, certo número de elementos algébricos que, no curso

da experiência histórica, deviam dar lugar a elementos aritméticos mais precisos. E a experiência mostrou, em circunstâncias que excluem qualquer outra interpretação, que o papel do campesinato, por maior que seja a sua importância revolucionária, não pode ser independente nem, muito menos, dirigente. O camponês segue o operário ou o burguês. Isso significa que a "ditadura democrática do proletariado e dos camponeses" só e concebível como ditadura do proletariado arrastando atrás

de si as massas camponesas.

6. Uma ditadura democrática do proletariado e dos camponeses, como regime diferente, quanto ao conteúdo de classe, da ditadura do proletariado, só seria realizável se pudesse existir um partido revolucionário independente que exprimisse os interesses da democracia camponesa e pequeno-burguesa em geral e, com o auxilio do proletariado, fosse capaz de conquistar o poder e determinar o seu programa revolucionário. A experiência de toda

a história contemporânea e, sobretudo, da

história da Rússia no transcurso dos vinte e cinco últimos anos, nos mostra qual é o obstáculo intransponível que se opõe à formação de um partido camponês. É a falta de independência econômica e política da pequena burguesia (campesinato) e a sua profunda diferenciação interna que permitem a aliança de suas camadas superiores com a grande burguesia por ocasião dos acontecimentos decisivos, sobretudo por ocasião das guerras e das revoluções, enquanto as

camadas inferiores se aliam ao proletariado, obrigando as camadas médias a escolher entre

as duas forças. Entre o regime de Kerensky e o

poder bolchevique, entre o Cuomintang e a ditadura do proletariado, não há nem pode

haver nenhum regime intermediário, isto é, nenhuma ditadura democrática dos operários e

dos camponeses.

7. Só pode ter um sentido reacionário a

tendência da Internacional Comunista a impor, hoje, aos países do Oriente, a palavra de ordem de ditadura do proletariado e dos camponeses, há tanto tempo superada pela história. Oposta à de ditadura do proletariado, essa palavra de ordem contribui, politicamente, para a dissolução e a decomposição do proletariado nas massas pequeno-burguesas, criando, assim,

condições favoráveis à hegemonia da burguesia nacional e, por conseguinte, à falência e ao desmoronamento da revolução democrática. Introduzir essa palavra de ordem no programa da Internacional Comunista só pode significar a traição ao marxismo e às tradições bolcheviques de Outubro.

8. A ditadura do proletariado, que sobe

ao poder como força dirigente da revolução

democrática, será colocada, inevitável e muito rapidamente, diante de tarefas que a levarão a fazer incursões profundas no direito burguês da

propriedade. No curso do seu desenvolvimento,

a revolução democrática se transforma

diretamente em revolução socialista, tornando- se, pois, uma revolução permanente.

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

caráter permanente da própria revolução socialista, quer se trate de um país atrasado que apenas acabou de realizar sua revolução democrática, quer se trate de um velho país capitalista que já passou por um longo período de democracia e de parlamentarismo.

10. A revolução socialista não pode

realizar-se nos quadros nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de as forças produtivas por ela engendradas tenderem a ultrapassar os limites do Estado nacional. Daí as guerras imperialistas,

de um lado, e a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa, de outro lado. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e termina na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só ter-mina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta.

11. O esquema, acima traçado, do

desenvolvimento da revolução mundial elimina a questão dos países "maduros" ou "não maduros" para o socialismo, segundo a classificação pedante e rígida que estabelece o programa atual da Internacional Comunista.

9.

Em lugar de pôr termo à revolução, a

Com a criação do mercado mundial, da

conquista do poder pelo proletariado apenas a inaugura. A construção socialista só é concebível quando baseada na luta de classe em

divisão mundial do trabalho e das forças produtivas mundiais, o capitalismo preparou o conjunto da economia mundial para a reconstrução socialista.

escala nacional e internacional. Dada a

 

dominação decisiva das relações capitalistas na

Os

diferentes

países

chegarão

ao

 

Em

arena mundial, essa luta não pode deixar de acarretar erupções violentas: no interior, sob a

socialismo com ritmos diferentes. determinadas circunstâncias, certos

atrasados podem chegar à ditadura do

países

forma de guerra civil; no exterior, sob a forma de guerra revolucionária. É nisso que consiste o

64

proletariado antes dos países avançados, ~mas só depois destes chegarão eles ao socialismo.

Um país atrasado, colonial ou semicolonial, cujo proletariado não esteja bastante preparado para conduzir o campesinato e conquistar o poder é, por isso mesmo, incapaz de levar a bom termo sua revolução democrática. Por outro lado, num país em que o proletariado chegue ao poder em virtude de uma revolução democrática, o. destino ulterior da ditadura e do socialismo dependerá, afinal, menos das forças produtivas nacionais do que do desenvolvimento da revolução socialista internacional.

12. A teoria do socialismo num só país, brotada no estrume da reação contra Outubro, é a única que se opõe, de maneira conseqüente e definitiva, à teoria da revolução permanente.

Ao tentarem os epígonos, compelidos pela crítica, limitar à Rússia a aplicação da teoria do socialismo num só país, por causa de suas peculiaridades (extensão territorial e riquezas naturais), as coisas só fazem piorar, em lugar de melhorar. A renúncia à atitude internacionalista conduz, inevitavelmente, ao messianismo nacional, isto é, ao reconhecimento de vantagens e qualidades peculiares ao país, capazes de lhe conferir um papel que os demais países não poderiam desempenhar.

A divisão mundial do trabalho, a subordinação da indústria soviética à técnica estrangeira, a dependência das forças produtivas dos países avançados em relação às matérias primas asiáticas etc., etc., tornam impossível a Çonstrução de uma sociedade

sociafis~ autônoma e isolada em qualquer região do mundo.

13. A teoria de Stalin—Bukhárin não só opõe, mecanicamente, e a despeito de toda a

experiência das revoluções russas, a revolução democrática à revolução socialista, como separa

a revolução nacional da revolução internacional.

Colocando diante das revoluções dos

países atrasados a tarefa de instaurar o regime irrealizável da ditadura democrática, oposta à ditadura do proletariado, essa teoria cria ilusões

e ficções políticas, paralisa a luta do proletariado do Oriente pelo poder e retarda a vitória das revoluções coloniais.

Do ponto de vista da teoria dos epígonos (01), a conquista do poder pelo proletariado

constitui, por si só, a realização da revolução (em seus "nove décimos", segundo a fórmula de Stalin), e inaugura a época das reformas nacionais. A teoria da integração do kulak no socialismo (02) e a teoria da "neutralização" da burguesia mundial são, por conseguinte, inseparáveis da teoria do socialismo num só

país, equilibrando-se e caindo juntas.

A teoria do nacional-socialismo degrada

a Internacional Comunista, que fica reduzida ao papel de arma auxiliar na luta contra a intervenção armada. A política atual da Internacional Comunista, o seu regime e a escolha dos seus dirigentes correspondem

perfeitamente à sua decad ncia e transformação

num exército de emergência, que não se destina

a resolver, de maneira autônoma, as tarefas que

se lhe apresentam.

65

PARTE III – NOSSA CONCEPÇÃO DE SOCIALISMO

14. O programa da Internacional Comunista, obra de Bukhárin, é eclético do princípio ao fim. É uma tentativa desesperada de ligar a teoria do socialismo num só país ao internacionalismo marxista, que não pode, entretanto, ser separado do caráter permanente da revolução mundial. A luta da Oposição de Esquerda () por uma política justa e um regime são na Internacional Comunista está indissoluvelmente ligada à luta por um programa marxista. A questão do programa, por sua vez, é inseparável da questão das duas teorias opostas: a teoria da revolução permanente e a teoria do socialismo num só país. O problema da revolução permanente já ultrapassou, há muito tempo, o limite das divergências episódicas entre Lênin e Trotsky, inteiramente esgotadas pela história. Trata-se, agora, da luta entre as idéias fundamentais de Marx e de Lênin, de um lado, e o ecletismo centrista, de outro lado.

(1) Epígonos - Assim Trotsky classifica os burocratas stalinistas, que dominam o governo soviético, após a morte de Lênin. (N. do T). (02) Lançando a palavra de ordem de "Camponeses, enriquecei-vos!", achava Bukhárin que os kulaks, em lugar de se orientarem para o capitalismo, marchavam pacificamente para o socialismo. Essa política só foi abandonada pelo Partido Comunista da URSS em 1928, quando os kulaks, com a "greve do trigo", fizeram à cidade o cerco da fome. – (N. do T).

Ponto de Vista Antiimperialista [1*]

Escrito por José Carlos Mariátegui e publicado em Junho 1929

Fonte: O Marxismo na América Latina - Uma antologia de 1909 aos dias atuais. Michael Löwy (org). São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1999. Transcrito do sítio da Revista Marxismo Revolucionário Atual.

Transcrição e HTML de: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2005.

1º – Até que ponto a situação das repúblicas latino-americanas pode ser assimilada à dos países semicoloniais? Sem dúvida, a condição econômica destas repúblicas é semicolonial, e, à medida que crescer seu capitalismo e, conseqüentemente, a penetração imperialista, este caráter de sua economia tende a se acentuar. Mas as burguesias nacionais, que vêem na cooperação com o imperialismo a melhor fonte de lucro, sentem-se suficientemente donas do poder político para não se preocuparem seriamente com a soberania nacional. Estas burguesias na América do Sul, que ainda não conhecem – com exceção do Panamá – a ocupação militar ianque, não estão predispostas de forma alguma a admitir a necessidade de lutar pela segunda independência, como supunha ingenuamente a propaganda aprista. O Estado, ou melhor, a classe dominante, não sente falta de um grau mas amplo e certo de autonomia nacional. A revolução da Independência está demasiado próxima, relativamente, seus mitos e símbolos

demasiado vivos, na consciência da burguesia e

da pequena burguesia. A ilusão da soberania

nacional conserva-se em seus principais efeitos. Pretender que nesta camada social surja um

sentimento de nacionalismo revolucionário, parecido com o que, em condições diferentes, representa um fator da luta antiimperialista nos países semicoloniais avassalados pelo imperialismo nas últimas décadas na Ásia, seria um erro grave.

Em nossa discussão com os dirigentes do aprismo, reprovando sua tendência a propor um Kuomitang à América Latina, a fim de evitar a imitação européia e situar a ação revolucionária em uma apreciação exata de nossa própria realidade, sustentávamos há mais de um ano a seguinte tese:

A colaboração com a burguesia, assim como muitos elementos feudais na luta antiimperialista chinesa, explica-se por motivos de raça, de civilização nacional que não existem entre nós. O chinês nobre ou burguês sente-se profundamente chinês. Ao desprezo do branco por sua cultura estratificada e decrépita, responde com o desprezo e o orgulho de sua tradição milenar. A antiimperialismo na China pode, portanto, basear-se no sentimento e no fator nacionalista. Na Indo-América as circunstâncias não são as mesmas. A aristocracia

e a burguesia nacional não se sentem

solidarizadas com o povo pelo laço de uma história e de uma cultura comuns. No Peru, o aristocrata e o burguês brancos desprezam o popular, o nacional. Sentem-se, acima de tudo,

brancos. O pequeno-burguês mestiço imita este exemplo. A burguesia de Lima confraterniza com os capitalistas ianques, e mesmo com seus meros funcionários, no Country Club, no Tennis e nas ruas. O ianque casa-se sem inconveniente

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de raça nem de religião com a senhorita nativa, e esta não sente escrúpulo de nacionalidade nem de cultura em preferir o casamento com

um indivíduo da raça invasora. A moça de

classe média também não tem este escrúpulo. A huachafita que conquista um ianque empregado de Grace ou da Foundation sente

com satisfação sua condição social melhorar. O

fator nacionalista, por estas razões objetivas que

todos vocês compreendem, não é decisivo nem fundamental na luta antiimperialista em nosso meio. Só em países como a Argentina, onde existe uma burguesia numerosa e rica, orgulhosa do grau de riqueza e poder em sua pátria, e onde a personalidade nacional tem por estas razões contornos mais claros e nítidos que nestes países atrasados, o antiimperialismo pode (talvez) penetrar facilmente nos elementos burgueses; mas por motivos de expansão e crescimento capitalistas, não por razões de justiça social e doutrina socialista, como é nosso caso.

A traição da burguesia chinesa, a falência do Kuomitang ainda não eram

conhecidas em toda sua magnitude. Um conhecimento capitalista, e não por motivos de justiça social e doutrinária, demonstrou quão pouco se podia confiar, mesmo em países como

a China, no sentimento nacionalista revolucionário da burguesia.

Enquanto a política imperialista conseguir manéger os sentimentos e formalidades da soberania nacional destes Estados, enquanto não for obrigada a recorrer à intervenção armada e à ocupação militar, contará com a colaboração das burguesias. Embora enfeudados à economia imperialista, estes países, ou suas burguesias, considerar-se-ão tão donos de seus destinos como a Romênia, a

Bulgária, a Polônia e demais países "dependentes" da Europa.

Este fator da psicologia política não deve ser descuidado na estimativa precisa das possibilidades da ação antiimperialista na América Latina. Seu adiamento, seu esquecimento, tem sido uma das características da teorização aprista.

2º – A divergência fundamental entre os elementos que aceitaram em princípio o APRA no Peru – como um plano de frente única, nunca como partido e nem mesmo como organização efetiva – e os que, fora do Peru, definiram-no depois como um Kuomitang latino-americano consiste em que os primeiros permaneceram fiéis à concepção econômico- social revolucionária do antiimperialismo, enquanto os segundos explicam assim sua posição: "Somos de esquerda (ou socialistas) porque somos antiimperialistas". Assim, o antiimperialismo é elevado à categoria de um programa, de uma atitude política, de um movimento que basta a si mesmo e que conduz espontaneamente, não sabemos em virtude de que processo, ao socialismo, à revolução social. Este conceito leva a uma desorbitada superestimação do movimento antiimperialista, ao exagero do mito da luta pela "segunda independência", ao romantismo de que já estamos vivendo as jornadas de uma nova emancipação. Daí a tendência a substituir as ligas antiimperialistas por um organismo político. Do APRA, concebido inicialmente como frente única, como aliança popular, como bloco das classes oprimidas, passa-se para o APRA definido como o Kuomitang latino- americano.

Para nós, o antiimperialismo não constitui nem pode constituir, sozinho, um programa político, um movimento de massas apto para a conquista do poder. O antiimperialismo, admitindo que ele pudesse mobilizar a burguesia e a pequena burguesia nacionalistas, ao lado das massas operárias e camponesas (já negamos terminantemente esta possibilidade), não anula o antagonismo entre as classes, nem suprime sua diferença de interesses.

Nem a burguesia, nem a pequena burguesia no poder podem realizar uma política antiimperialista. Temos a experiência do México, onde a pequena burguesia acabou pactuando com o imperialismo ianque. Um governo "nacionalista" pode usar, em suas relações com os Estados Unidos, uma linguagem diferente que o governo de Leguía no Peru. Este governo é francamente, desaforadamente, pan-americanista, monroísta; mas qualquer outro governo burguês faria praticamente o mesmo que ele em matéria de empréstimos e concessões. Os investimentos do capital estrangeiro no Peru crescem em estreita e direta relação com o desenvolvimento econômico do país, com a exploração de suas riquezas naturais, com a população de seu território, com o aumento das vias de comunicação. Que pode contrapor a mais demagógica pequena burguesia à penetração capitalista? Nada, exceto uma embriaguez nacionalista temporária. O assalto ao poder pelo antiimperialismo, como movimento demagógico populista, se fosse possível, nunca representaria a conquista do poder pelas massas proletárias, pelo socialismo. A revolução socialista encontraria seu mais encarniçado e perigoso inimigo – perigoso por sua confusão,

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sua demagogia – na pequena burguesia assentada no poder, conquistado mediante suas vozes de ordem.

Sem prescindir da utilização de nenhum elemento de agitação antiimperialista, nem de nenhum meio de mobilização dos setores sociais que eventualmente podem auxiliar esta luta, nossa missão é explicar e demonstrar às massas que só a revolução socialista contraporá um obstáculo definitivo e verdadeiro ao avanço do imperialismo.

3º – Estes fatos diferenciam a situação dos países sul-americanos da situação dos países centro- americanos, onde o imperialismo ianque, recorrendo à intervenção armada sem qualquer pudor, provoca uma reação patriótica que pode fazer facilmente com que uma parte da burguesia e da pequena burguesia abracem o antiimperialismo. A propaganda aprista, conduzida pessoalmente por Haya de la Torre, não parece ter obtido melhores resultados em nenhuma outra parte da América. Suas pregações confusas e messiânicas que, embora pretendam se situar no plano da luta econômica, na verdade apelam particularmente aos fatores raciais e sentimentais, reúnem as condições necessárias para impressionar a pequena burguesia intelectual. A formação de partidos de classe e poderosas organizações sindicais, com clara consciência classista, nesses países não parece destinada ao mesmo desenvolvimento imediato que na América do Sul. Em nossos países, o fator classista é mais decisivo, está mais desenvolvido. Não há motivo para recorrer a vagas fórmulas populistas, por trás das quais não podem deixar de prosperar tendências reacionárias.

Atualmente o aprismo, como propaganda, está circunscrito à América Central; na América do Sul, devido ao desvio populista, caudilhista, pequeno-burguês, como o definia o Kuomitang latino-americano, está em fase de extinção. A resolução do próximo Congresso Antiimperialista de Paris, cujo voto tem de decidir a unificação dos organismos antiimperialistas e estabelecer a distinção entre as plataformas e agitações antiimperialistas e as tarefas que competem aos partidos de classe e às organizações sindicais, colocará um ponto final na questão.

4º – Em nossos países, os interessas do capitalismo imperialista coincidem necessária e fatalmente com os interesses feudais e semifeudais da classe dos latifundiários? A luta contra o feudalismo identifica-se forçosa e completamente com a luta antiimperialista? Certamente, o capitalismo imperialista utiliza o poder da classe feudal, já que a considera a classe politicamente dominante. Mas seus interesses estratégicos não são os mesmos. A pequena burguesia, sem excetuar a mais demagógica, se atenuar na prática seus impulsos mais nacionalistas, poderá chegar à mesma estreita aliança com o capitalismo imperialista. O capital financeiro sentir-se-á mais seguro se o poder estiver em mãos de uma classe social mais numerosa que, satisfazendo certas reivindicações mais prementes e atrapalhando a orientação classista das massas, estará em melhores condições de defender os interesses do capitalismo, de ser seu custódio e servo, que a velha e odiada classe feudal. A criação da pequena propriedade, a desapropriação dos latifúndios, o fim dos privilégios feudais não são contrários aos

interesses do imperialismo, de modo imediato. Pelo contrário, na medida em que os últimos resquícios de feudalismo travam o desenvolvimento de uma economia capitalista, esse movimento de extinção do feudalismo coincide com as exigências do crescimento capitalista, promovido pelos investimentos e pelos técnicos do imperialismo; que desapareçam os grandes latifúndios, que em seu lugar se constitua uma economia agrária baseada naquilo que a demagogia burguesa chama "democratização" da propriedade do solo, que as velhas aristocracias sejam deslocadas por uma burguesia e uma pequena burguesia mais poderosa e influente – e, por isso mesmo, mais apta para garantir a paz social -, nada disso está contra os interesses do imperialismo. No Peru, o regime de Leguía, embora tímido na prática diante dos interesses dos latifundiários e caciques, que em grande parte o apoiam, não tem qualquer inconveniente em recorrer à demagogia, em reclamar contra o feudalismo e seus privilégios, em bradar contra as antigas oligarquias, em promover uma distribuição do solo que transformará cada peão agrícola em um pequeno proprietário. Justamente desta demagogia, o regime de Leguía extrai suas maiores forças. O leguiísmo não se atreve a tocar na grande propriedade. Mas o movimento natural do desenvolvimento capitalista – obras de irrigação, exploração de novas minas etc. – vai contra os interesses e privilégios feudais. Os latifundiários, com o crescimento das áreas cultiváveis, com o surgimento de novos focos de trabalho, perdem sua principal força: a disposição absoluta e incondicional da mão-de- obra. Em Lambayeque, onde atualmente são efetuadas obras de irrigação, a atividade capitalista da comissão técnica que as dirige, presidida por um perito dos Estados Unidos, o

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engenheiro Sutton, entrou rapidamente em conflito com as conveniências dos grandes proprietários feudais. Estes grandes latifundiários são, principalmente, produtores de açúcar. A ameaça de perder o monopólio da terra e da água, e com ele o meio de dispor livremente da população de trabalhadores, enlouquece essas pessoas, levando-as a uma atitude que o governo, ainda que vinculado a muitos de seus elementos, qualifica de subversiva ou antigovernista. Sutton tem as características do empresário capitalista norte- americano. Sua mentalidade, seu trabalho chocam o espírito feudal dos latifundiários. Por exemplo, Sutton estabeleceu um sistema de distribuição das águas, baseado no princípio de que seu domínio pertence ao Estado; os latifundiários achavam que o direito sobre as águas estava ligado ao seu direito sobre a terra. Segundo sua tese, as águas lhes pertenciam; eram e são propriedade absoluta de seus terrenos.

5º – E a pequena burguesia, cujo papel na luta contra o imperialismo é tão superestimado, necessariamente se opõe à penetração imperialista, como tanto se diz? Sem dúvida, a pequena burguesia é a classe social mais sensível ao prestígio dos mitos nacionalistas. Mas o fato econômico que acompanha a questão é o seguinte: em países de pauperismo espanhol, onde a pequena burguesia, pelos seus enraizados preconceitos, resiste à proletarização; onde a mesma, pela miséria dos salários, não tem força econômica para transforma-la, pelo menos em parte, em classe operária; onde imperam o empreguismo, o recurso ao pequeno cargo do Estado, a caça ao salário e ao posto "decente" o estabelecimento de grandes empresas que, embora explorem enormemente

seus empregados nacionais, sempre representam para esta classe um trabalho mais bem remunerado, é recebido e considerado favorável pelas pessoas da classe média. A empresa ianque representa melhor salário, possibilidade de promoção, emancipação do empreguismo do Estado, no qual não há futuro, exceto para os especuladores. Este fato atua decisivamente na consciência do pequeno- burguês, que busca ou possui um posto de trabalho. Nestes países de pauperismo espanhol, repetimos, a situação das classes médias não é a mesma constatada nos países em que estas classes passaram por um período de livre concorrência, de crescimento capitalista propício à iniciativa e ao sucesso individuais, à opressão dos grandes monopólios.

Em suma, somos antiimperialistas porque somos marxistas, porque somos revolucionários, porque contrapomos ao capitalismo o socialismo como sistema antagônico, chamado a sucedê-lo, porque na luta contra os imperialismos estrangeiros cumprimos nossos deveres de solidariedade com as massas revolucionárias da Europa.

Notas:

[1*] Este texto pertence a um documento redigido por Mariátegui apresentado pela delegação peruana na I Conferência Comunista Latino-Americana (Buenos Aires, junho de 1929). Ele tenta delimitar a questão chave da relação dialética entre a luta de classes e a luta contra o imperialismo, e esboça uma análise penetrante e insólita das relações e contradições entre a metrópole norte-americana, a burguesia local e os latifundiários. É um dos textos políticos

mais conhecidos de Mariátegui, e tem sido objeto de múltiplas reedições por grupos revolucionários latino-americanos depois da Revolução Cubana. (Michael Löwy)

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Hegemonia e Revolução permanente.

Texto escrito por Daniela Mussi

Apresentação

Esse texto tem por objetivo contribuir para o processo de formação política e integração de militantes do Enlace (corrente interna do PSOL). Inicialmente composto para um curso sobre o pensamento político do dirigente comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937), a presente versão foi adaptada, e trata especialmente a relação das ideias deste com as do revolucionário russo Leon Trotsky (1879-1940).

O principal objetivo deste texto é propor um diálogo indireto, mediado pelos problemas teóricos e políticos que tanto Gramsci como Trotsky enfrentaram: a) o problema da relação entre força e consenso, ou de hegemonia na conquista do poder pelo pelos trabalhadores, pensado especialmente por Gramsci nos Cadernos do Cárcere; b) e sua relação com a teoria da revolução permanente, de Trotsky.

As diferenças entre estratégia militar e luta política para pensar a revolução

Vamos partir da ideia central de que “a compreensão da justa relação entre força e consenso é o que dá força à teoria do Estado presente em Gramsci” (BIANCHI, 2008, p. 199).

Essa “justa relação”, para Gramsci, dizia respeito

à articulação orgânica e contraditória entre

estrutura e superestrutura, entre sociedade civil

e sociedade política, e nos permite compreender

“as resistências do Estado às crises do capitalismo, as formas da crise e a superação desses momentos cruciais” (idem, ibidem). A teoria do Estado capitalista em Gramsci é forte justamente por que contém em si o

desenvolvimento de uma relação útil para pensar uma teoria da formação do Estado, mas também de suas crises e da revolução.

Nesse sentido, é perceptível a preocupação de Gramsci nos escritos carcerários por estabelecer a relação adequada entre estratégia militar e luta política. Já no Caderno 1, escrito em meados de fevereiro/março de 1930, Gramsci estabeleceu que o que existe entre luta militar e luta política é uma relação de analogia, não de equivalência (Q.1, §§117 e 118 ). Isso significa que, embora comparáveis, luta política

e luta militar não são a mesma coisa. Além

disso, mesmo na luta militar, Gramsci sinalizava

a importância do predomínio da direção política

na organização do exército, importância esta que aumenta na medida em que o exército aumenta (Q.1, p. 110 e 111). Assim, existia para Gramsci uma relação de diferença e unidade entre as funções técnico-militar e política, compondo uma dimensão político-militar das relações de forças (BIANCHI, 2008, p. 200).

Para o prisioneiro do fascismo, porém, existia uma limitação para as comparações entre entre a arte e ciência militar e a arte e ciência política, que deveriam ser realizadas apenas “estímulos ao pensamento e como termos simplificadores”. Isso por que na luta política, “o elemento de hierarquia e disciplina não é sustentado por sanções penais, mas sim pelo

convencimento” (idem, ibidem). Gramsci afirmava, dessa maneira, o caráter mais complexo da luta política em relação à guerra militar, especialmente pelo caráter multivariado das formas de luta no âmbito político.

Se, por um lado, a metáfora militar era adequada para pensar o universo tático (instrumental) do conflito, sua limitação era clara quando se tratava de dimensionar um modelo para a política (Q.1, §133, p. 121). Na guerra militar, o fim é a destruição do exército inimigo, ocupação do seu território e a paz. “Para a guerra chegar a seu término, sequer seria necessário que o fim estratégico fosse atingido de fato” (BIANCHI, 2008, p. 201). A luta política, porém, e esse problema era central para Gramsci, não se encerra com a destruição do inimigo, mas exige do exército vitorioso a ocupação de modo estável do território (Q.1, §134, p. 122).

Nesse caso, os diferentes momentos da luta política exigem diferentes formas de luta, que podem se suceder no tempo ou coexistir. A análise das formas de luta política, dessa maneira, deve subordinar as táticas e técnicas militares. Assim, embora todo conflito possua um caráter militar fundamental, é necessário considerar seu caráter político preponderante nas formas de luta mistas (idem, ibidem). Nesse caso, emprego do “ataque frontal” requer um desenvolvimento tático original, “para cuja concepção a experiência da guerra oferece um estímulo e não um modelo” (idem, ibidem).

“Desenvolvimento tático original”

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O desenvolvimento teórico no interior dos Cadernos é extremamente revelador da reflexão levada a cabo por Gramsci a respeito da relação entre guerra militar e luta política para pensar a revolução socialista. É interessante, para captar o desenvolvimento teórico realizado por Gramsci na prisão sobre esse tema apreender um parágrafo, escrito e reescrito em momentos diferentes nos Cadernos (Q.7, §10, p. 858-859 (A) e Q.13, §24, p. 1614-1615 (C)).

No parágrafo “A” do Caderno 7, escrito provavelmente em novembro de 1930, como parte dos “Apontamentos sobre filosofia, materialismo e idealismo. Segunda Série”, Gramsci polemiza com o opúsculo Greve de massas, partidos e sindicatos de Rosa Luxemburgo:

Recordar o opúsculo de Rosa (…) cuja teoria era baseada na experiência história de 1905 (por outro lado, ao que parece, sem estudá-la com exatidão, por que eram desprezados os elementos voluntários e organizativos muito mais difundidos do que pudesse crer Rosa (…); esse opúsculo me parece o mais significativo da teoria da guerra de movimento aplicada à ciência histórica e à arte da política. O elemento econômico imediato (crises, etc.) é considerado como a artilharia de campo de guerra, cuja finalidade é abrir a brecha na defesa inimiga, suficiente para que as tropas irrompessem e obtivessem um sucesso estratégico definitivo, ou pelo menos na linha necessária para o sucesso definitivo (Q. 7, §10, p. 858-859, ver BIANCHI, 2008, p. 203).

Escrito por Rosa em 1906 na Finlândia, durante período exílio, como balanço dos acontecimentos de 1905 na Rússia , esse opúsculo tinha por finalidade apreender as “lições para luta de classes na Alemanha”, em especial a da greve de massas (PETIT, 1969, p. 10- 11). Neste texto, Rosa buscava propor “não um modelo de revolução, mas o emprego tático de uma arma revolucionária que mostrou ser eficiente” (idem, p. 12). Além disso, pensava a educação do proletariado na “passagem a ação”. O proletariado, para Rosa, tinha necessidade de alto grau de educação política, consciência de classe e organização, porém “não pode aprender todas essas coisas em brochuras ou em pan? etos; tal educação ele a adquirirá na escola política viva, na luta e pela luta, no decorrer da revolução em marcha” (LUXEMBURG, 1969, p. 114). Ou ainda, ao falar dos acontecimentos de 1905 na Rússia:

Na realidade, a luta econômica não constituía uma fragmentação, uma dispersão da ação, mas uma mudança de frente; a primeira batalha contra o absolutismo transforma-se rápida e naturalmente num ajuste de contas geral com o capitalismo, que, de acordo com sua natureza, assume a forma de con? itos parciais em favor dos salários” (LUXEMBURG, 1969, p. 114).

Para Gramsci, a brochura de Rosa poderia ser recuperada para pensar no “confronto com a técnica da guerra assim como foi transformada na última guerra [I Guerra Mundial], com a passagem da guerra de manobra à guerra de posição” (Q. 7, §10, p. 858). Na verdade, Gramsci tinha em mente um programa de renovação do materialismo histórico, à luz de uma metáfora militar, mas

buscando ir além dela. Com ele, pretendia: 1) desenvolver a relação entre crise econômica e crise política, presente na ideia de “brecha na defesa inimiga” tal como colocada por Rosa, “como uma crise que se manifesta no âmbito da estrutura econômica da sociedade e outra que se apresenta na esfera das superestruturas políticas” (BIANCHI, 2008, p. 203). O “vetor” de Gramsci aqui era propriamente político, buscando investigar as formas da luta proletária:

A verdade é que não se pode escolher a forma de guerra que se quer, a menos que se tenha imediatamente uma superioridade esmagadora sobre o inimigo; sabe-se quantas perdas custou a obstinação dos Estados-maiores em não querer reconhecer que a guerra de posição era “imposta” pela relação geral de forças em presença. A guerra de posição não é de fato constituída apenas das trincheiras propriamente ditas, mas de todo sistema organizativo e industrial do território que está detrás do exército alinhado, sendo imposta pelo tiro rápido dos canhões, das metralhadoras, dos mosquetões e pela própria concentração de armas em um determinado ponto, bem como pela própria abundância do fornecimento que permite substituir rapidamente o material perdido depois de uma penetração e de um recuo. (Q.13, §24, p. 1614-1615. Grifos meus).

Por meio da política, Gramsci introduz o plano das relações de forças na análise da tática militar, como “um antídoto contra toda leitura reducionista das noções de guerra de movimento e guerra de posição” (BIANCHI, 2008, p. 205). A guerra de posição, nesse caso, emerge não como um “programa positivo de

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ação”, mas como uma “exigência objetiva”, imposta pela relação de forças políticas, uma relação que “impõe a forma da luta”. Portanto, não era, para Gramsci, uma categoria abstrata e técnica, idealizada, mas uma constatação do próprio movimento da luta, que confere “uma forma de luta favorável às classes dominantes” no pós- I Guerra, apesar da Revolução de Outubro de 1917. A guerra de posição era, ao mesmo tempo, uma forma de luta imposta e uma “relação de forças”, que as classes dominantes precisam manter a todo custo.

A ação política das classes subalternas, por sua vez, deveria ter por objetivo central desarticular essa relação, ganhar posições favoráveis para imprimir nova forma de luta ao conflito. Tendo isso claro, ou seja, por perceber que as classes dominantes pós I Guerra passavam a impor a forma da luta, Gramsci se dedicou a pensar – no lugar da arte da guerra, que apenas pode informar os exércitos em sentido restrito às formas de luta impostas – a arte e ciência da política. Seu plano de investigação, que era ao mesmo tempo um programa político, consistia em: a) definir as modalidades de luta preponderantes; e b) pensar em um “desenvolvimento tático original”, orientado pelo “realismo revolucionário”, mas ao mesmo tempo com vistas à reversão da correlação das forças em luta.

Esse desenvolvimento tático original não é unívoco nos textos carcerários de Gramsci, o que mais uma vez permite perceber que se tratava de uma investigação e reflexão em curso. Em todo caso, é interessante recuperar um parágrafo de escritura única, no qual ele se desenhava:

A guerra de posição demanda enormes sacrifícios das massas extraordinárias da população; por isso é necessária uma concentração inaudita da hegemonia e,

portanto, uma forma de governo mais “intervencionista”, que mais abertamente tome

a ofensiva contra os opositores e organize

permanentemente a “impossibilidade” de desorganização interna: controles de todo tipo, políticos, administrativos, etc., reforço das “posições” hegemônicas do grupo dominante, etc. Tudo isso indica que se entrou em uma fase culminante da situação político-histórica, por que na política a “guerra de posição”, uma vez vencida, é definitivamente decisiva. Ou seja, na política subsiste a guerra de movimento enquanto se trata de conquistar posições não decisivas e quando não são mobilizáveis todos os recursos de hegemonia e do Estado, mas quando, por uma razão ou outra estas posições perderam seu próprio valor e só aquelas decisivas têm importância, então se passa à guerra de assédio, tensa, difícil, na qual se exigem qualidades excepcionais de paciência e de espírito inventivo (Q. 6, § 138, p. 802; ver BIANCHI, 2008, p. 208; COUTINHO, 2011, p.

296).

Esse parágrafo “permanece sem um

desenvolvimento posterior que pudesse esclarecer melhor seu conteúdo”, nele “guerra de movimento” e “guerra de posição” não parecem

se restringir à conquista do poder, mas diriam

respeito tanto àquilo que antecede esse momento – a luta pelo poder político – como àquilo que lhe sucede – a construção de uma nova ordem. Tendo em vista o processo de construção do socialismo, a desarticulação do próprio Estado capitalista – concebido em seu

sentido estrito como o conjunto de aparelhos repressivos (sociedade política) – por meio do “ataque frontal” poderia ser concebida como uma posição “não decisiva”, muito embora imprescindível. A conquista do Estado seria, assim, o começo do fim, mas não o fim. (BIANCHI, 2008, p. 208).