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FATO TÍPICO

Elementos do Fato Típico

Noções Gerais

O crime é um fato típico e antijurídico. Para que se possa afirmar que o


fato concreto tem tipicidade, é necessário que ele se contenha
perfeitamente na descrição legal, ou seja, que haja perfeita adequação
do fato concreto ao tipo penal. Deve-se, por isso, verificar de que se
compõe o fato típico. São elementos do fato típico:

a) conduta (ação ou omissão);


b) o resultado;
c) a relação de causalidade;
d) a tipicidade.

Caso o fato concreto não apresente um desses elementos, não é fato


típico e, portanto, não é crime. Excetua-se, no caso, a tentativa, em que
não ocorre o resultado.

Teorias Sobre a Conduta

Não há crime sem ação (“nullum crimen sine conducta”).

Teoria Clássica Tradicional Causalista:


A conduta é um comportamento humano voluntário no mundo exterior,
que consiste em fazer ou não fazer. É um processo mecânico, muscular e
voluntário (porque não é reflexo), em que se prescinde do fim a que essa
vontade se dirige.

Teoria Finalista (Welzel):


Para a teoria finalista da ação, a conduta é uma atividade final humana e
não um comportamento simplesmente causal. A conduta realiza-se
mediante a manifestação da vontade dirigida a um fim.

Teoria Social da Ação ou Ação Socialmente Adequada:


Surgiu para ser uma ponte entre as teorias causalista e finalista.
O que importa é a relevância social da ação - só há uma ação típica se o
fato for inadequado socialmente.
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Conceito, Características e Elementos da Conduta

Conceito Teórico de Conduta:


Damásio: Conduta é a ação ou omissão humana consciente e dirigida à
determinada finalidade.

Características da Conduta:
É um comportamento humano, não estando incluídos, portanto os fatos
naturais.
Esse comportamento exige uma repercussão externa (não constitui
conduta o simples pensamento).

Elementos da conduta:
Elemento interno psíquico cerebral: consciência e vontade;
Elementos externos: movimento ou abstenção do movimento.

* Não constituem conduta os atos que não intervém a vontade. Na


inconsciência não há conduta, com exceção da embriaguez voluntária ou
culposa.

* Excluem a conduta o caso fortuito e de força maior (fato causado pela


força da natureza ou inevitável).

Formas de conduta

A conduta é, em regra, consubstanciada em uma ação em sentido estrito


ou comissão, que é um movimento corpóreo, um fazer, um
comportamento ativo (atirar, subtrair). Poderá, entretanto, constituir-se
numa omissão, que, segundo a teoria normativa, é a inatividade, a
abstenção de movimento, é o “não fazer alguma coisa que é devida”. O
fundamento de todo crime omissivo constitui-se em uma ação esperada
e na não-realização de um comportamento exigido do sujeito.

Quanto à omissão, ela é elemento do tipo penal (crimes omissivos


próprios ou puros), como nos delitos de omissão de socorro (art. 135),
omissão de notificação de doença (art. 269) etc., ou é apenas forma de
alcançar o resultado previsto em um crime comissivo, passando a ser,
nessa hipótese, crime comissivo impróprio (ou comissivo por omissão, ou
comissivo-omissivo).

Art. 13...

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§ 2.º - A omissão é penalmente relevante quando o
omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O
dever de agir incumbe a quem:
a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou
vigilância;
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de
impedir o resultado;
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da
ocorrência do resultado.

Caso Fortuito e Força Maior

Não há fato típico na ocorrência de resultado lesivo em decorrência de


caso fortuito ou força maior.

Fortuito:
É aquilo que se mostra imprevisível, quando não inevitável.
Ex.: quebra da direção do veículo.

Força Maior:
Ex.: coação física irresistível.

O Resultado

Não basta a conduta para que o crime exista, pois é exigido, como
vimos, o segundo elemento do fato típico, que é o resultado.

Duas são as teorias que procuram explicar a natureza do resultado:


a) teoria naturalista: modificação do mundo exterior provocado pelo
comportamento humano voluntário;
b) teoria normativa: lesão ou perigo de lesão a um interesse
protegido pela norma legal.

Nexo Causal

Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do


crime, somente é imputável a quem lhe deu causa.
Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o
resultado não teria ocorrido.

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Não há crime sem resultado, diz a lei. Resultado é a lesão ou perigo de
lesão do bem jurídico, protegido pela lei penal.
A relação de causalidade (nexo causal) liga a conduta ao resultado.

O nosso Código Penal adotou a teoria da equivalência das condições ou


“conditio sine qua non” (condição sem a qual o resultado não teria
ocorrido).

Causa é todo antecedente que contribui para o resultado. Se suprimida,


afetaria no acontecimento final (processo hipotético de eliminação:
método para saber se a conduta do agente deu causa ao resultado).

Concausa são outras causas que confluem com a causa provocada pelo
agente. Não são admitidas no sistema atual.

Superveniência de Causa Independente

Art. 13...

§ 1.º - A superveniência de causa relativamente


independente exclui a imputação quando, por si só,
produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto,
imputam-se a quem os praticou.

Causa Superveniente:
A concausa relativamente idependente é aquela que derivando de um
fato de outrem ou de um acontecimento estranho ao agente, se intercala
na cadeia causal por este inaugurada. Logo, se a segunda causa não for
desdobramento da primeira, não teremos o nexo de causalidade. A
contrário sensu, se for um prolongamento da primeira, o sujeito ativo
será responsabilizado.

Ex.: Caso onde o agente provoca envenenamento em alguém:


O sujeito morre A ambulância que No hospital o sujeito
porque caiu um lustre transportava a morre por alergia a
na cabeça e não vítima caiu no rio e lavagem estomacal.
devido ao esta morre afogada.
envenenamento.
Causa independente. Acontecimento Acontecimento normal
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fortuito. em relação à causa.
Tentativa Tentativa Homicídio consumado.

Tipicidade

Conceito:
A tipicidade é a correspondência exata, a adequação perfeita entre o
fato natural, concreto e a descrição contida na lei.

Tipos Aberto e Tipo Fechado:


Tipos fechados são aqueles que apresentam a definição completa da
ação delituosa (ex.: homicídio – matar alguém). Tipos abertos são os que
não apresentam a definição completa da ação, o mandamento proibitivo
não observado pelo sujeito não surge de forma clara, necessitando ser
pesquisado pelo julgador no caso concreto. São exemplos:
a) delitos culposos;
b) crimes omissivos impróprios;
c) delitos cuja descrição apresenta elementos normativos (“sem justa
causa”,”indevidamente”,”sem as formalidades legais”).

Tipicidade Conglobante (Zaffaroni):


É a comparação do fato penal típico com o ordenamento jurídico para
verificar se não há neste ordenamento jurídico alguma norma de
natureza penal ou extrapenal que obrigue a realização da conduta típica.

Elementos Estruturais do Tipo Penal

Objeto Jurídico

É o bem interesse protegido pela lei penal.

Sujeito Ativo

Conceito:
Sujeito ativo do crime é aquele que pratica a conduta descrita na lei, ou
seja, o fato típico. Só o homem isoladamente ou associado a outros (co-
autoria ou participação) pode ser sujeito ativo de crime.

Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica:


Art. 5o e art. 225 da Constituição Federal.
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Sujeito Passivo

É chamado na lei de vítima e ofendido. É o titular do bem jurídico lesado


ou ameaçado (posto em risco) pela conduta criminosa.

* Nos crimes pluriofensivos há um ou mais sujeitos passivos.

Duas espécies de sujeito passivo:


a) sob o aspecto formal é o Estado;
b) sob o aspecto material é o titular do bem jurídico.

Quem pode ser sujeito passivo:


a) O homem (ser humano);
b) A pessoa jurídica (furto de patrimônio, honra objetiva ou
reputação);
c) O Estado;
d) A coletividade, grupo de pessoas (sentimento religioso, respeito
aos mortos).

Elementos Objetivos do Tipo

O tipo objetivo (descrição abstrata de um comportamento) compreende


a ação delituosa descrita com todas as suas características descritivas e,
às vezes, de elementos normativos e subjetivos.

Compõe o tipo:
a) a ação;
b) o objeto material: é a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta
criminosa, ou seja, aquilo que a ação delituosa atinge;
c) o resultado;
d) circunstâncias de tempo, lugar, modo e meios executivos,
finalidades da ação, etc.

Elementos Subjetivos

O tipo subjetivo compreende necessariamente o dolo, como elemento


intencional e genérico, e, eventualmente, outros elementos subjetivos
especiais da conduta, chamados elementos subjetivos do tipo.

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Dolo e Culpa

Dolo

Conceito:
O dolo é a consciência (previsão) e vontade de concretizar as
características objetivas do tipo.

Teorias:
Há três teorias sobre o dolo:
a) teoria da vontade: o agente quis o resultado (dolo direto);
b) teoria da representação: o dolo é a simples previsão do resultado;
c) teoria do assentimento: o agente assumiu o risco de produzir o
resultado (dolo indireto).

O Código Penal adotou tanto a teoria da vontade como a teoria do


assentimento.

Art. 18. Diz-se o crime:

I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu


o risco de produzi-lo;

Dolo Natural e Dolo Normativo:


O dolo pode ser considerado:
a) natural (teoria finalista da ação): corresponde à simples vontade de
concretizar os elementos objetivos do tipo;
b) normativos (teoria clássica): contém a consciência da antijuridicidade.

Elementos do Dolo:
Presentes os requisitos da consciência e da vontade, o dolo possui os
seguintes elementos:
a) consciência da conduta e do resultado;
b) consciência da relação causal objetiva entre a conduta e o
resultado;
c) vontade de realizar a conduta e produzir o resultado.

Espécies de Dolo

Dolo Determinado e Indeterminado:


1) Dolo determinado é quando o agente quis o resultado: ex.: O
elemento quis assassinar outrem e assim o fez.
2) Dolo indeterminado pode ser alternativo, cumulativo ou eventual:
a) No dolo alternativo o agente deseja um evento ou outro (ex.: matar ou
aleijar).
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b) No dolo cumulativo o agente pretende a realização de dois resultados
(ex. estuprar e matar).
c) No dolo eventual o agente assume o risco da realização do evento.

Dolo eventual:
Quando o agente fizer algo sabendo que corre o
risco da produção do evento criminoso (previsão
positiva).

Culpa Consciente:
O agente não aceita a realização do evento
(previsão negativa, o evento não se verificará),
repele mentalmente o resultado previsto, agindo
na esperança de não se verificar o evento.

Dolo Genérico e Dolo Específico:


Dolo genérico é quando o agente deseja apenas o fato descrito na norma
penal.
O dolo específico pode ser considerado como a vontade excedente, que
se aglutina ao dolo genérico de base (ex.: fim libidinoso de obter
vantagem indevida).

Dolo de Dano e Dolo de Perigo:


Dolo de dano se o sujeito quis lesar (destruir ou danificar) o bem
tutelado
Dolo de perigo se pretendeu apenas ameaçá-lo.

Dolo de Ímpeto e Dolo de Propósito:


Dolo de ímpeto é quando entre a formulação do propósito e a conduta,
não há um hiato temporal.
Dolo de propósito é quando existe um destaque notável entre a
formação do propósito e a atuação.

A Culpa

É a modalidade menos grave do elemento psicológico normativo da


culpabilidade.

Art. 18 ...

II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por


imprudência, negligência ou imperícia.

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Parágrafo único. Salvo nos casos expressos em lei,
ninguém pode ser punido por fato previsto como crime,
senão quando o pratica dolosamente.

Consiste a culpa em praticar voluntariamente, sem atenção ou o cuidado


devido, um ato do qual decorre um resultado definido na lei como crime,
que não foi querido nem previsto pelo agente, mas que era previsível.

Negligência:
Culpa in onimitendo. O agente não toma as
cautelas exigíveis por displicência ou preguiça
mental (ex.: deixar veneno ao alcance das crianças
ou não verificar os freios do veículo).

Imprudência:
Culpa in agendo. O agente atua com precipitação,
inconsideração, com afoiteza, sem cautelas, não
usando de seus poderes inibidores (ex.: limpar
arma carregada perto de pessoas, dirigir carro em
alta velocidade e com sono).

Imperícia:
É a incapacidade, a falta de conhecimento técnicos
no exercício da arte ou profissão, não tomando o
agente em consideração o que sabe ou deve saber
(ex.: dirigir uma escavadeira sem saber).
Erro Profissional é diferente de imperícia.

Elementos do fato culposo:


1) Ato voluntário realizado com negligência, impudência ou imperícia.
2) Gerar um resultado de dano ou perigo.
3) O evento não deve ser desejado pelo sujeito.

Em direito penal não se admite a compensação de culpas. Ex.: indivíduo


A atravessa sinal vermelho e indivíduo B que corria acima do limite de
velocidade batem. Os dois são culpados, não há compensação.

Graus de Culpa:
1) Leve.
2) Levíssima.
3) Grave.

* O juiz leva em consideração os graus de culpa para a fixação da pena


(doutrina).
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Agravação Pelo Resultado:

Art. 19. Pelo resultado que agrava especialmente a


pena, só responde o agente que o houver causado ao
menos culposamente.

Crimes Preterdolosos

O crime preterdoloso ou preterintencional é aquele em que a conduta


produz um resultado mais grave que o pretendido pelo sujeito. O agente
quer um “minus” e seu comportamento causa um “majus”, de maneira
que se conjugam o dolo na conduta antecedente e a culpa no resultado
(conseqüente). Daí falar-se que o crime preterdoloso é um misto de dolo
e culpa: dolo no antecedente e culpa no conseqüente, derivada da
inobservância do cuidado objetivo. Constitui elemento subjetivo-
normativo do tipo (o dolo é o elemento subjetivo; a culpa,o normativo).

Consumação e Tentativa

Crime Consumado e Tentativa

Art. 14 - Diz-se o crime:

I - consumado, quando nele se reúnem todos os


elementos de sua definição legal;

II - tentado, quando, iniciada a execução, não se


consuma por circunstâncias alheias à vontade do
agente.

Está consumado o crime quando o tipo está inteiramente realizado, ou


seja, quando o fato concreto se subssume no tipo abstrato descrito na lei
penal. Preenchidos todos os elementos do tipo objetivo pelo fato natural,
ocorreu a consumação.

O iter criminis é o itinerário a percorrer entre o momento da idéia da sua


realização até aquele em que ocorre a consumação do crime e é
composto de uma fase interna (cogitação) e de uma fase externa (atos
preparatórios, atos de execução e consumação).

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A cogitação não é punida.

Os atos preparatórios são externos ao agente, que passa da cogitação à


ação objetiva, como a aquisição de arma para a prática de um homicídio
e também escapam, regra geral, a aplicação da lei penal; por vezes,
contudo, o legislador transforma esses atos em tipos penais especiais,
quebrando a regra geral, como nas hipóteses de “apetrechos para a
falsificação da moeda”.

Atos de execução são os dirigidos diretamente à prática do crime,


“quando o autor se põe em relação direta e imediata com a ação típica”.

A tentativa situa-se no iter criminis a partir da prática de um ato de


execução, desde que não haja consumação por circunstâncias alheias à
vontade do agente. São pois, elementos da tentativa: a conduta (ato de
execução) e a não consumação por circunstâncias independentes da
vontade do agente. Iniciada a prática dos atos executórios, a execução
do fato típico pode ser interrompida:
a) por desejo do agente;
b) por circunstâncias alheias à vontade do sujeito ativo.

Na primeira hipótese não há que se falar em tentativa, havendo apenas


a desistência voluntária ou o arrependimento eficaz. Na segunda, por
interrupção externa, haverá tentativa.

O elemento subjetivo da tentativa é o dolo do delito consumado, tanto


que no artigo 14, II, é mencionada a vontade do agente. Não existe dolo
especial de tentativa.

Pelo elemento subjetivo é que se pode distinguir, por exemplo, um delito


de lesão corporal da tentativa de homicídio: no primeiro, o dolo é a
vontade de causar a lesão; no segundo, é a de matar.

Pena de Tentativa:

Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se


a tentativa com a pena correspondente ao crime
consumado, diminuída de um a dois terços.

Há duas teorias existem a respeito da punibilidade da tentativa:


a) teoria subjetiva: o agente deveria responder pelo crime
consumado;
b) teoria objetiva: alicerçada na lesão efetiva do bem tutelado pela
norma, a tentativa poderá ficar até mesmo isenta de pena.

Sistemas penais mistos, como o nosso, adotam para o conatus uma


solução intermediária: pune-se a tentativa, de forma abrandada.
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* Adota-se porém a teoria subjetiva por exceção (“salvo disposição em
contrário”).
Ex.: No crime de evasão de presos: “evadir-se ou tentar evadir-se”.

Em adendo sobre a inadimissibilidade da tentativa, vale dizer que não se


admite a tentativa o crime culposo, uma vez que depende sempre de um
resultado lesivo diante da sua definição legal, nos crimes preterdolosos,
nos crimes unissubsistentes de ato único, já que é impossível o
fracionamento dos atos de execução, nos crimes omissivos puros, pois
não se exige um resultado naturalístico decorrente da omissão e no
crime habitual.

No crime complexo haverá tentativa sempre que não se consumarem os


crimes componentes, já que a consumação exige a realização integral do
tipo, no caso um todo complexo incidível.

Desistência Voluntária e Arrependimento Eficaz

Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de


prosseguir na execução ou impede que o resultado se
produza, só responde pelos atos já praticados.

Natureza Jurídica: é causa de exclusão da tipicidade.

Tentativa perfeita ou acabada:


Quando o agente tiver realizado tudo aquilo que planejou, embora o
crime não obteve êxito pela interferência de circunstâncias alheias a sua
vontade.

Tentativa imperfeita:
O elemento não chega a esgotar a sua capacidade ofensiva contra o bem
jurídico visado.

Quando o sujeito-agente esgota a sua atividade delitiva e volta atrás


para impedir o resultado anteriormente pretendido, dá-se o
arrependimento, que será eficaz se conseguir realmente evitar o evento.

Como se vê, o arrependimento ativo, confrontado com a desistência, é


muito mais atuante, muito mais radical no impedimento do evento. Isto
porque, como já foi observado, no arrependimento o agente já se
encontra bem mais próximo do resultado típico.

Faz-se mister que a desistência precisa ser voluntária, não sendo


decorrente de fatores externos (ex.: arma emperrada, polícia, súplica da
vítima, rogação de terceiros).
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Arrependimento Posterior

Art. 16 - Nos crimes cometidos em violência ou grave


ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa,
até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato
voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois
terços.

Natureza Jurídica: causa geral de diminuição da pena.

O arrependimento posterior não se diversifica ontologicamente do


arrependimento eficaz. A essência é a mesma, A diferenciação reside
somente no momento cronológico. Enquanto o arrependimento eficaz
deverá apresentar-se após percorrido o iter criminis, mas antes que o
resultado se verifique, o arrependimento posterior tem lugar após o
momento consumativo do delito. Para ocorrer o benefício da atenuação
da pena é necessário três requisitos.

1. O primeiro requisito a ser cumprido pelo elemento, para beneficiar-se


da atenuante, é proceder ao ressarcimento do dano sofrido pela vítima,
ou restituir-lhe a coisa da qual se apossou indevidamente. A doutrina
pátria entende, com base na italiana, possível a reparação do dano não
patrimonial em dinheiro. O mesmo não se diga do dano moral que, por
sua própria natureza, é insuscetível de uma quantificação material.

2. Voluntariedade da conduta.

3. Se se tratar de um arrependimento posterior, haverá ele de


evidenciar-se, necessariamente, após a consumação do delito. Nesse
ponto se situa sua diferenciação do arrependimento eficaz, que tem
lugar anteriormente à execução embora esgotado o momento executivo
do crime.

* No caso de homicídio culposo a doutrina e a jurisprudência admitem o


arrependimento posterior.

* O juiz baseia-se no grau de sinceridade e espontaneidade do agente


como requisito para a graduação de redução da pena (um a dois terços).

Crime Impossível

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Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia
absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do
objeto, é impossível consumar-se o crime.

Há portanto duas espécies diferentes de crime impossível, em que de


forma alguma o agente conseguiria chegar a consumação, motivo pelo
qual a lei deixa de responsabilizá-lo pelos atos praticados.

1. Ineficácia absoluta do meio empregado pelo agente para conseguir o


resultado; o meio é inadequado, inidôneo, ineficaz para que o sujeito
possa obter o resultado pretendido (ex.: tentativa de envenenamento
com substância inócua, utilização de revólver desmuniciado). Não exclui
a inexistência da tentativa a utilização de meio relativamente inidôneo.

2. Absoluta impropriedade do objeto material do crime, que não existe


ou, nas circunstâncias em que se encontra, torna impossível a
consumação. Há crime impossível nas manobras abortivas praticadas em
mulher que não está grávida e no disparo de um revólver contra um
cadáver.

Erro de Tipo

Erro de Tipo

Incide sobre elementos constitutivos da figura delituosa e impede o


autor de ter a representação de estar, em concreto, realizando a conduta
abstratamente descrita na lei (ex.: um caçador, no meio da mata dispara
sua arma sobre um objeto no escuro, supondo tratar-se de um animal e
atinge um fazendeiro); neste exemplo o erro incide sobre elementos do
tipo, ou seja, sobre um fato que compõe um dos elementos do tipo.

Um erro que recai sobre elemento normativo do tipo também é erro de


tipo excludente do dolo (ex.: não age com dolo, o elemento que leva o
guarda-chuva de outrem pensando ser seu).

No caso de erro de tipo, desaparece a finalidade típica, ou seja, não há


no agente a vontade de realizar o tipo objetivo. Como o dolo é querer a
realização do tipo objetivo, quando o agente não sabe que está
realizando um tipo objetivo, porque se enganou a respeito de um dos
seus elementos, não age dolosamente: há erro de tipo. São casos em
que há tipicidade objetiva, mas não há tipicidade subjetiva por estar
ausente o dolo.

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Erro Culposo:
O erro é invencível e exclui o dolo e a culpa, entretanto, se poderia tê-lo
evitado com as cautelas exigíveis nas condições em que se encontrava,
ocorrerá o erro culposo, o qual responderá o agente criminalmente. (ex.:
o caçador do exemplo anterior, tendo podido evitar atirar em virtude da
existência de outras pessoas na área, responderá ele por homicídio
culposo).

Erro de Tipo Pode Recair Sobre:

Elementos ou circunstâncias do A numa caçada pensando que é


tipo: um animal atira em B, matando-o.
Pressupostos de causas A pensando em estar em legítima
justificativas (descriminantes defesa atira em B, matando-o.
putativas):
Dados secundário do tipo penal: A deseja roubar um videocassete e
acaba roubando um gravador.

Os dois primeiros são erros essenciais, que podem ser vencíveis ou


invencíveis, o último se trata de erro acidental.

* No erro de tipo essencial o agente não quer praticar o crime, no erro


acidental, ele quer praticar, mas acaba errando na sua execução:

Modalidades de Erro Acidental:


1) Erro sobre o objeto: “error in objecto” - queria furtar uma coisa e
furta outra.
2) Erro sobre a pessoa: “error in persona” - art. 20 §3º.
3) Erro na execução: “aberratio ictus” - art. 73.
4) Resultado diverso do pretendido: “aberratio criminis” - art. 74,
quer praticar um crime e pratica outro.

Erro sobre Elementos do Tipo

Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo


legal exclui o dolo, mas permite a punição por crime
culposo, se previsto em lei.

O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo,


mas permite a punição por crime culposo, se prevista em lei.

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Este dispositivo abrange também as circunstâncias qualificadoras, as
causas de aumento de pena e as circunstâncias agravantes. (ex.:
elemento mata outrem sem saber que é descendente, o elemento não
responde com agravante).

Eventualmente o erro de tipo leva a uma desclassificação do crime. (ex.:


elemento desacata outrem, sem saber de que se trata de um funcionário
público no exercício da função, o elemento não responde por desacato,
mas por injúria).

Distingue-se o erro essencial do erro acidental. O erro essencial é o que


recai sobre um elemento do tipo, ou seja, sobre fato constitutivo do
crime, e sem o qual o crime não existiria (ex.: o caçador não atiraria se
soubesse que se tratava de um fazendeiro). O erro acidental recai sobre
circunstâncias acessórias da pessoa ou da coisa estranhas ao tipo, que
não constituem elementos do tipo. Sem ele o crime não deixa de existir
(ex.: elemento rouba bijuteria pensando ser ouro).

O erro de tipo distingue-se do erro de proibição. Enquanto o primeiro


exclui o dolo, o segundo afasta a compreensão da antijuridicidade. O
erro de tipo dá-se quando o “agente não sabe o que faz”; o erro de
proibição quando “sabe o que faz, mas acredita que não é contrario à
ordem jurídica”; o erro de tipo elimina a tipicidade dolosa; o erro de
proibição pode eliminar a culpabilidade.

Descriminantes Putativas

Art. 20...
§ 1.º - É isento de pena quem, por erro plenamente
justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato
que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há
isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é
punível como crime culposo.

Isenta o agente da pena em razão de “erro plenamente justificado pelas


circunstâncias”.

Pode recair sobre erro de tipo ou de proibição.

Aquelas em que o elemento fica isento de pena em razão de “erro


plenamente justificado pelas circunstâncias”, supondo “situação de fato
que, se existisse, tornaria a ação legítima”.

O agente supõe estar atuando de acordo com as normas autorizantes


sem em realidade estar. Por erro plenamente justificado pelas
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circunstâncias, imagina estar em estado de necessidade, de legítima
defesa, de estrito cumprimento de dever legal, ou exercício regular de
direito (ex.: indivíduo atira contra conhecido, que lhe invade
imprudentemente o domicílio, imaginando tratar-se de ladrão).

O erro haverá de ser invencível, para inocentar por completo o agente.


Se houver negligência, imprudência ou imperícia por parte dele, será
punido, desde que a modalidade culposa seja prevista em lei.

Erro Determinado por Terceiro

Art. 20...
§ 2.º - Responde pelo crime o terceiro que determina o
erro.

Se o erro é provocado por terceiro, responderá este pelo crime, a título


de dolo ou culpa conforme o caso.

Ex.: Indivíduo solteiro influencia amigo casado a se casar novamente


fazendo este pensar ser certo. O solteiro então responde por crime de
bigamia.

Erro sobre a Pessoa

Art. 20...
§ 3.º - O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é
praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste
caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da
pessoa contra quem o agente queria praticar o crime.

“Error in Persona”:
A pretende matar B, e por erro mata o filho, não será considerado
infanticídio e sim um homicídio. Considera-se no caso, a vítima
pretendida e não a atingida.

“Aberratio Ictus”:
O erro se processa na execução do delito. A vontade não está viciada. Há
um desvio do golpe, durante a execução. Na aberratio, a vítima
pretendida sofre o perigo, ao passo que no error in persona a vítima
visada, ausente, não corre o menor risco.

DIREITO PENAL - Cap. 04 - Fato Típico pág. 17


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