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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.292.380 - RS (2011/0270352-7)

RELATOR : MINISTRO HERMAN BENJAMIN RECORRENTE : LAUDELINO VIEGAS DOS SANTOS ADVOGADO : RAFAEL ANTÔNIO TUFVESSON GUARIGLIA E OUTRO(S) RECORRIDO : COMPANHIA ESTADUAL DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA CEEE D AGRAVANTE : COMPANHIA ESTADUAL DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA CEEE D ADVOGADO : THIAGO MORAES BERTOLDI E OUTRO(S) AGRAVADO : LAUDELINO VIEGAS DOS SANTOS ADVOGADO : RAFAEL ANTÔNIO TUFVESSON GUARIGLIA E OUTRO(S)

DECISÃO 1
DECISÃO
1

Trata-se de Recurso Especiais interpostos, com fundamento no art. 105, III, "a" e "c", da Constituição da República, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, assim ementado:

APELAÇÃO CÍVEL. RECURSO ADESIVO. DIREITO PÚBLICO NÃO ESPECIFICADO. FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA. EXISTÊNCIA DE DÉBITO EM NOME DE TERCEIRO. IMPOSSIBILIDADE DE SUSPENSÃO DO SERVIÇO E DE INCLUSÃO DO NOME DO AUTOR EM CADASTROS RESTRITIVOS DE CRÉDITO. § 2º

DO ART. 4º DA RESOLUÇÃO 456/00 DA ANEEL. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INOCORRÊNCIA.

- Não é possível a suspensão do fornecimento de energia

elétrica na unidade consumidora em razão do inadimplemento de débitos

pendentes em nome de terceiro. Inteligência do art. 4º, § 2º, da Resolução 456/00 da ANEEL.

2 - A obrigação de pagar as faturas de energia elétrica decorre

de contrato firmado entre o usuário e a concessionária. Trata-se, pois, de obrigação pessoal, e não propter rem, razão pela qual os débitos pendentes não podem ser cobrados do atual usuário. Impossibilidade de inclusão do nome do autor em cadastros de restrição ao crédito.

3 - Não havendo comprovação de prejuízo causado à parte

autora, descabe a indenização por danos morais. Recurso adesivo da parte

autora prejudicado. APELAÇÃO CÍVEL PARCIALMENTE PROVIDA. RECURSO ADESIVO PREJUDICADO.

Houve juízo negativo de admissibilidade do recurso interposto por

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Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE (fls. 396-407, e-STJ), contra o qual esta se insurgiu mediante Agravo (fls. 411-420, e-STJ). O recorrente Laudelino Viegas dos Santos afirma que houve, além de divergência jurisprudencial, violação dos arts. 186 e 927 do Código Civil e do art. 6º do Código de Defesa do Consumidor. Defende o cabimento de indenização por dano moral em face da inclusão indevida de seu nome nos cadastros restritivos de crédito. Por sua vez, a agravante Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE aduz ofensa ao art. 535 do Código de Processo Civil; ao art. 6º, § 3º, II, da Lei 8.987/1995; aos arts. 476 e 477 do Código Civil e à Resolução 456/2000 da ANEEL.

Transcorreu in albis o prazo para apresentação de contra-razões e contraminuta (certidões de fls. 393 e 422). É o relatório.

Nesse sentido:
Nesse sentido:

1. Recurso Especial de Laudelino Viegas dos Santos

Decido. Os autos foram recebidos neste Gabinete em 10.11.2011. Preenchidos os pressupostos de admissibilidade recursais, passo ao exame dos recursos em separado.

Assiste razão ao recorrente. Com efeito, o STJ entende que, nos casos de inscrição indevida em cadastros de inadimplentes, o dano moral se configura in re ipsa, isto é, prescinde de prova.

AGRAVO INTERNO - RECURSO ESPECIAL - RESPONSABILIDADE CIVIL - AFASTAMENTO - IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ - INSCRIÇÃO INDEVIDA EM CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO - INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS - CARACTERIZAÇÃO IN RE IPSA DOS DANOS - VALOR EXCESSIVO - NÃO OCORRÊNCIA - DECISÃO AGRAVADA MANTIDA - IMPROVIMENTO. 1.- Esta Corte já firmou entendimento que nos casos de inscrição irregular em cadastros de inadimplentes, o dano moral se configura in re ipsa.

2.- A revisão do julgado, como pretendido pelo recorrente, para afastar a sua responsabilidade para a ocorrência do fato danoso, necessitar-se-ia do revolvimento de matéria de prova dos autos, o que é vedado em recurso especial, nos termos da Súmula 7/STJ. 3.- É possível a intervenção desta Corte para reduzir ou aumentar o valor indenizatório por dano moral apenas nos casos em que o quantum arbitrado pelo Acórdão recorrido se mostrar irrisório ou exorbitante, situação que não se faz presente no caso em tela. 4.- O Agravo não trouxe nenhum argumento novo capaz de

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modificar a conclusão alvitrada, a qual se mantém por seus próprios fundamentos.

5.- Agravo Regimental improvido. (AgRg no Ag 1415046/RJ, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/11/2011, DJe 05/12/2011)

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE CIVIL. EMPRÉSTIMO FRAUDULENTO. TERCEIRO. INSCRIÇÃO EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. DANO MORAL. VALOR DA CONDENAÇÃO. 1. "A inscrição indevida do nome da autora em cadastro

negativo de crédito, a par de dispensar a prova objetiva do dano moral, que se presume, é geradora de responsabilidade civil para a instituição bancária, desinfluente a circunstância de que a abertura de conta se deu com base em documentos furtados e para tanto utilizados por terceiro." (REsp 659.760/MG, Rel. Ministro ALDIR PASSARINHO JUNIOR, QUARTA TURMA, julgado em 04/04/2006, DJ 29/05/2006 p. 252) 2. A quantia fixada não se revela excessiva, considerando-se os parâmetros adotados por este Tribunal Superior, que preleciona ser razoável a condenação em valor equivalente a até 50 (cinqüenta) salários mínimos por indenização decorrente de inscrição indevida em órgãos de proteção ao crédito. Precedentes.

3. Recurso a que se nega provimento.
3. Recurso a que se nega provimento.

(AgRg no AREsp 18.444/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 04/10/2011, DJe 07/10/2011)

AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO.

RESPONSABILIDADE CIVIL. INSCRIÇÃO INDEVIDA EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. DANOS MORAIS. COMPROVAÇÃO. DESNECESSIDADE. VALOR ARBITRADO. RAZOABILIDADE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Nos casos de inscrição indevida em cadastros de inadimplentes o dano moral se configura in re ipsa, isto é, prescinde de prova. Precedentes.

2. Esta Corte, em casos que tais, tem fixado a indenização por

danos morais em valores equivalentes a até cinquenta salários mínimos.

3. O valor arbitrado a título de reparação de danos morais está

sujeito ao controle do Superior Tribunal de Justiça, desde que seja irrisório ou exagerado, o que não ocorre no presente caso em que fixado em R$ 7.000,00.

4. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.

(AgRg no Ag 1149294/SP, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 10/05/2011, DJe

18/05/2011)

ADMINISTRATIVO – INSCRIÇÃO INDEVIDA NO CADIN – INCABÍVEL A ESTA CORTE A APRECIAÇÃO DE VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS – INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC – DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL NÃO CONFIGURADO – AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO (SÚMULA

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211/STJ) – DANO MORAL PRESUMIDO – REVISÃO DO VALOR DA INDENIZAÇÃO – REEXAME DE MATÉRIA DE PROVA (SÚMULA

07/STJ).

1. Descabe ao STJ, em recurso especial, apreciar alegação de

ofensa a dispositivos constitucionais. 2.Não ocorre ofensa ao art. 535, II, do CPC, se o Tribunal de origem decide, fundamentadamente, as questões essenciais ao julgamento da lide.

3. A falta de prequestionamento da matéria suscitada no recurso

especial, a despeito da oposição de embargos de declaração, impede o

conhecimento do recurso especial (Súmula 211 do STJ).

O reconhecimento do nexo causal implica no reexame do

4.

6. 7. provido. (REsp 1155726/SC, Rel. Ministra 2. Agravo em Recurso Especial de
6.
7.
provido.
(REsp
1155726/SC,
Rel.
Ministra
2.
Agravo
em
Recurso
Especial
de

contexto fático-probatório dos autos. Incidência da Súmula 7/STJ. 5. A jurisprudência do STJ entende que a inscrição indevida em cadastros de proteção ao crédito, por si só, justifica o pedido de

ressarcimento a título de danos morais, tendo em vista a possibilidade de presunção do abalo moral sofrido.

Pacífico neste Tribunal o entendimento de que a revisão do

valor da indenização a título de danos morais esbarra no óbice da Súmula 7/STJ, exceto nos casos de valores irrisórios ou exorbitantes, o que não se afigura no caso concreto, no qual se arbitrou a quantia de R$ 4.180,00 (quatro mil, cento e oitenta reais).

Recurso especial conhecido em parte e, nessa parte, não

CALMON,

ELIANA

SEGUNDA TURMA, julgado em 04/03/2010, DJe 18/03/2010, grifei)

Dessa maneira, por estar em dissonância com o entendimento desta Corte Superior, deve ser reformado o aresto proferido na origem, quanto ao ponto.

Estadual

de

Companhia

Distribuição de Energia Elétrica – CEEE

A agravante sustenta que o art. 535, II, do CPC foi violado, mas deixa de apontar, de forma clara, o vício em que teria incorrido o acórdão impugnado. Assevera apenas ter oposto Embargos de Declaração no Tribunal a quo, sem indicar as matérias sobre as quais deveria pronunciar-se a instância ordinária, nem demonstrar a relevância delas para o julgamento do feito. Assim, é inviável o conhecimento do Recurso Especial nesse ponto, ante o óbice da Súmula 284/STF. Cito precedentes:

TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL – VIOLAÇÃO DO

ART. 535 DO CPC – FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE – SÚMULA 284/STF – CONTRATOS DE SWAP COM COBERTURA HEDGE – GANHOS DE CAPITAL – IMPOSTO DE RENDA – INCIDÊNCIA – ART. 5º DA LEI 9.779/99.

1. Deve o recorrente, ao apontar violação do art. 535 do CPC,

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indicar com precisão e clareza os artigos e as teses sobre os quais o Tribunal de origem teria sido omisso, sob pena de aplicação da Súmula 284/STF.

(

)

3.

Agravo regimental não provido.

(AgRg no Ag 990431/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 13/05/2008, DJe 26/05/2008)

TRIBUTÁRIO. PIS. PRESCRIÇÃO. COMPENSAÇÃO.

CORREÇÃO MONETÁRIA. JUROS DE MORA. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.

1. Meras alegações genéricas quanto às prefaciais de afronta ao

) ( No A
) (
No
A

artigo 535 do Código de Processo Civil não bastam à abertura da via especial pela alínea "a" do permissivo constitucional, a teor da Súmula 284 do Supremo Tribunal Federal.

(REsp 906058/SP, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 27/02/2007, DJ 09/03/2007 p. 311)

mérito, melhor sorte não assiste à agravante. interrupção de fornecimento de água e de energia elétrica ao

consumidor é tema de ampla discussão no Superior Tribunal de Justiça. Em esforço para sistematização da matéria, enumero as mais recentes decisões e linhas de entendimento desta Corte que legitimam sua suspensão. Confiram-se:

1) É legítimo o corte no fornecimento de serviços públicos essenciais, quando inadimplente o consumidor, desde que precedido de aviso prévio. Precedentes:

AgRg na SS 1497/RJ, Rel. Ministro EDSON VIDIGAL, CORTE ESPECIAL, julgado em 01.08.2005, DJ 19.09.2005, p. 174; EREsp 337965/MG, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 22.09.2004, DJ 08.11.2004, p. 155; REsp 898769/RS, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em 01.03.2007, DJ 12.04.2007, p. 253; RMS 21542/RN, Rel. Ministro JOSÉ DELGADO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 21.11.2006, DJ 18.12.2006, p. 305; REsp 914404/RJ, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 08.05.2007, DJ 21.05.2007, p. 565; REsp 840864/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 17.04.2007, DJ 30.04.2007, p. 305; AgRg no Ag 742398/RJ, Rel. Ministra DENISE ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 15.08.2006, DJ 14.09.2006, p. 268; AgRg no REsp 660615/RS, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 04.08.2005, DJ 17.10.2005, p. 184; REsp 601131/MS, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, SEGUNDA TURMA, julgado em 27.03.2007, DJ 17.04.2007, p. 287; REsp 860383/RS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 28.11.2006, DJ 11.12.2006 p. 348. 2) É legítimo o corte no fornecimento de água e de energia elétrica por razões de ordem técnica ou de segurança das instalações, se precedido de aviso prévio. Precedente: AgRg no Ag 780147/RS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, julgado

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em 17.5.2007, DJ 31.5.2007, p. 419. Portanto, desde que se observem determinados requisitos, este Tribunal considera legítima a interrupção de fornecimento de energia elétrica em situação de

emergência ou após aviso prévio, nos casos previstos no art. 6º, § 3º, da Lei 8.987/95,

a saber: a) em virtude de inadimplência do usuário; e b) por razões de ordem técnica

ou de segurança das instalações. Assim, para que o corte de energia elétrica por motivo de inadimplência seja considerado legítimo, a jurisprudência do STJ exige que: a) não acarrete lesão

irreversível à integridade física do usuário; b) não tenha origem em dívida por suposta fraude no medidor de consumo de energia, apurada unilateralmente pela concessionária; c) não decorra de débito irrisório; d) não derive de débitos consolidados pelo tempo; e, por fim, e) não exista discussão judicial da dívida. Acrescentaria, ainda, outra condição: f) que o débito não se refira a consumo de usuário anterior do imóvel. A enumeração de tais requisitos se faz necessária porque, muito embora o artigo 6º, § 3º, da Lei 8.987/1995 prescreva que a interrupção, nos casos de inadimplência ou por razões de segurança, não caracteriza descontinuidade da prestação do serviço, o texto legal deve ser interpretado à luz da Constituição Federal

legal deve ser interpretado à luz da Constituição Federal do Código de Defesa do Consumidor, notadamente

do Código de Defesa do Consumidor, notadamente de seus arts. 22, 42 e 71, que abaixo transcrevo:

e

Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos.

Art. 42. Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça. Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável.

Art. 71. (Considera-se crime contra as relações de consumo) Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer: Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.

Desse modo, em se tratando de serviços essenciais, como o fornecimento de água e de energia elétrica, a interrupção da prestação, ainda que decorrente de inadimplemento, só é legítima se não afetar o direito à saúde e à integridade física do usuário. Seria inversão da ordem constitucional conferir maior proteção ao direito de crédito da concessionária que aos direitos fundamentais à saúde e à integridade física

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do consumidor. Por relevante, confira-se passagem pertinente do voto do e. Ministro Garcia Vieira, Relator do REsp 201.112/SC, que discutia o corte do abastecimento de água por atraso de pagamento:

A Companhia Catarinense de Água cometeu um ato reprovável,

desumano e ilegal. É ela obrigada a fornecer água à população de maneira adequada, eficiente, segura e contínua e, em caso de atraso por parte do usuário, não poderia cortar o seu fornecimento, expondo o consumidor ao ridículo e ao constrangimento (Código de Defesa do Consumidor, arts. 22 e 42). Para receber os seus créditos, tem a impetrada os meios legais próprios, não podendo fazer justiça privado porque não estamos mais vivendo nessa época e sim do império da lei e os litígios são compostos pelo Poder Judiciário e não pelo particular. A água é bem essencial e indispensável à saúde e

A O
A
O

higiene da população. Seu fornecimento é serviço público indispensável, subordinado ao princípio da continuidade, sendo impossível a sua interrupção e muito menos por atraso no seu pagamento. A questão já é conhecida desta Egrégia Turma que, no Recurso em Mandado de Segurança nº 9.815-MA, DJ de 17.08.98, relator, Ministro José Delgado, decidiu que:

energia é, na atualidade, um bem essencial à

população, constituindo-se serviço público indispensável subordinado ao princípio da continuidade de sua prestação, pelo que se torna impossível a sua interrupção. Os arts. 22 e 42, do Código de Defesa do Consumidor, aplicam-se às empresas concessionárias de serviço público.

corte de energia, como forma de compelir o

usuário ao pagamento de tarifa ou multa, extrapola os limites da legalidade.

Não há de se prestigiar atuação da Justiça privada no Brasil, especialmente, quando exercida por credor econômica

e financeiramente mais forte, em largas proporções, do que o devedor. Afronta, se assim fosse admitido, aos princípios constitucionais da inocência presumida e da ampla defesa.

O direito do cidadão de se utilizar dos serviços

públicos essenciais para a sua vida em sociedade deve ser interpretado com vistas a beneficiar a quem deles se utiliza (grifei).

No caso supracitado, o Superior Tribunal de Justiça entendeu ser impossível a interrupção do fornecimento de água, diante da essencialidade do bem, mesmo na hipótese de inadimplemento do devedor. In casu, é incontroverso que a irregularidade constatada, decorrente da violação de lacres de aferição e do desvio de energia em razão de ligação direta, perdurou de 29.1.2003 a 15.6.2007, sendo que neste período a responsabilidade pelo

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referido imóvel era de Fabiano Siqueira dos Santos. Apenas em 6.7.2007 o autor da ação passou a responder pela respectiva unidade consumidora, de forma que não pode ser cobrado por débito de usuário anterior, nem ser impedido de usufruir do fornecimento de energia elétrica. Nesse sentido:

AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. ENERGIA ELÉTRICA. CPFL. SUSPENSÃO DO FORNECIMENTO. DÉBITOS ANTIGOS DE USUÁRIO ANTERIOR.

IMPOSSIBILIDADE. ARTIGO 6º, PARÁGRAFO 3º, INCISO II, DA LEI Nº 8.987/95. COBRANÇA. EFETIVO CONSUMIDOR DO SERVIÇO. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁCTICA.

1. 3. 4. Agravo regimental improvido.
1.
3.
4. Agravo regimental improvido.

paradigma exclui a alegação de divergência jurisprudencial.

O Superior Tribunal de Justiça possui entendimento pacífico

de que não configura descontinuidade da prestação do serviço público a

interrupção do fornecimento de energia elétrica após a prévia comunicação ao consumidor inadimplente. Precedentes. 2. As Turmas da Primeira Seção desta Corte Superior de Justiça firmaram sua jurisprudência em que o atual usuário do sistema de água não pode ser responsabilizado pelo pagamento de débitos pretéritos realizados pelo usuário anterior. Precedentes.

A falta de similitude fáctica entre os acórdãos recorrido e

(AgRg nos EDcl no Ag 1155026/SP, Rel. Ministro HAMILTON CARVALHIDO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 23/03/2010, DJe 22/04/2010, grifei)

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. OFENSA AO ART. 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. FORNECIMENTO DE ÁGUA. COBRANÇA INDEVIDA. DÉBITOS REFERENTES AO CONSUMO DE

OUTROS PROPRIETÁRIOS. PRETENSÃO DE REEXAME DE PROVAS. ENUNCIADO 7 DA SÚMULA DO STJ.

1. É de se destacar que os órgãos julgadores não estão obrigados

a examinar todas as teses levantadas pelo jurisdicionado durante um processo judicial, bastando que as decisões proferidas estejam devida e coerentemente fundamentadas, em obediência ao que determina o art. 93, inc. IX, da Constituição da República vigente. Isto não caracteriza ofensa ao art. 535 do CPC.

2. A jurisprudência deste Tribunal tem entendimento no sentido

de que, independentemente da natureza da obrigação (se pessoal ou propter rem), o inadimplemento é do usuário, ou seja, de quem efetivamente obteve a

prestação do serviço, pois não cabe responsabilizar o atual usuário por débito pretérito relativo ao consumo de água de usuário anterio r.

3. Ademais, para rever o entendimento de que o débito em

questão refere-se a consumo de outra pessoa, com quem a COHAB/SP firmou compromisso de venda há mais de vinte e oito anos depois da celebração do contrato, seria imprescindível exceder os fundamentos colacionados no

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acórdão vergastado, o que demandaria incursão no contexto fático-probatório dos autos, defeso em recurso especial, nos termos da Súmula 7 desta Corte de Justiça.

4. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão,

não provido.

(REsp 929.699/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 23/11/2010, DJe 02/12/2010, grifei)

Por fim, impossível analisar violação de artigos da Resolução 456 da Aneel, uma vez que a espécie de ato normativo em questão não está abrangida no conceito de Tratado e Lei Federal, de que dispõe o art. 105, "a", III, da CF/1988. Cito precedentes:

28/09/06.
28/09/06.

SUSPENSÃO DO FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA. FRAUDE NO SISTEMA DE MEDIÇÃO. DISPOSITIVO INSERTO EM RESOLUÇÃO. LEI FEDERAL. NÃO-CARACTERIZAÇÃO. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS Nºs 282 E 356/STF. I - Quanto à ofensa aos arts. 72, 78, 90 e 91 da Resolução nº 456 da ANEEL, certo que é incabível a indicação de ofensa a dispositivo inserto em resolução, porquanto tal regramento não se caracteriza como "lei federal", não se inserindo no disposto do art. 105, inciso III, alínea "a", da Carta Magna. Precedentes: REsp nº 855.436/RS, Rel. Min. TEORI ALBINO ZAVASCKI, DJ de 28/09/06 e AgRg no Ag nº 737.624/MG, Rel. Min. LUIZ FUX, DJ de

II - Os arts. 2º e 3º, I e XIX, da Lei nº 9.427/96; e 1º, 3º e 6º, § 3º, I e II, da Lei nº 8.987/95 não foram objeto de debate no v. acórdão hostilizado, carecendo do necessário prequestionamento, sendo que a recorrente, ora agravante, deixou de opor embargos de declaração do julgado vergastado, o que abriria a oportunidade de verificação de possível omissão no aresto. Portanto, incidem, na espécie, as Súmulas nºs 282 e 356 do Pretório Excelso.

III - Agravo regimental improvido. (AgRg no REsp 1070922/SP, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 14/10/2008, DJe 29/10/2008)

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. VIOLAÇÃO DO ART. 535, I e II, DO CPC. NÃO-OCORRÊNCIA. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE NÃO CONFIGURADAS. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 211/STJ. DEFICIÊNCIA NA FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF. ANÁLISE DE VIOLAÇÃO À RESOLUÇÃO 456 DA ANEEL. IMPOSSIBILIDADE. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. NÃO-COMPROVAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS.

fundamento

suficiente, não caracteriza ofensa ao art. 535, I e II, do CPC.

1.

A

solução

integral

da

controvérsia,

com

Superior Tribunal de Justiça

2. É inadmissível Recurso Especial quanto a questão

inapreciada pelo Tribunal de origem, a despeito da oposição de Embargos Declaratórios. Aplicação da Súmula 211/STJ.

3. A deficiência na fundamentação de Recurso Especial que

impeça a exata compreensão da controvérsia atrai, por analogia, a incidência

da Súmula 284/STF.

4. Impossível analisar violação de artigos da Resolução 456 da

Aneel, uma vez que a espécie de ato normativo em questão não está abrangida no conceito de Tratado e Lei Federal, de que dispõe o art. 105, "a", III da

CF/1988.

5. A divergência jurisprudencial deve ser comprovada, cabendo

a quem recorre demonstrar as circunstâncias que identificam ou assemelham

os casos confrontados, com indicação da similitude fática e jurídica entre eles. Indispensável a transcrição de trechos do relatório e do voto dos acórdãos recorrido e paradigma, realizando-se o cotejo analítico entre ambos, com o intuito de bem caracterizar a interpretação legal divergente. O desrespeito a esses requisitos legais e regimentais (art. 541, parágrafo único, do CPC e art. 255 do RI/STJ) impede o conhecimento do Recurso Especial, com base no art. 105, III, alínea "c", da Constituição Federal.

(AgRg no Ag 1282819/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 02/09/2010, DJe 24/09/2010)

6. Agravo Regimental não provido. 3. Conclusão
6. Agravo Regimental não provido.
3. Conclusão

Publique-se. Intimem-se. Brasília (DF), 14 de dezembro de 2011.

Diante do exposto, nos termos do art. 557, § 1º-A, do CPC, dou provimento ao Recurso Especial do particular e, com fulcro no art. 544, § 4º, II, "b", do Código de Processo Civil, conheço do Agravo para negar seguimento ao Recurso Especial da Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE.

MINISTRO HERMAN BENJAMIN Relator