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Copyright da organizasio ©2010 by Denise Rollemberge Samantha Viz Quadrat CCIPBRASIL. CATALOGAGKONAFONTE. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ 1. Auroras ~ Bupa. 2. Europa ~ Politica egovero. 3. Sociologia pola, L. Rllemberg, Deis, 1963~ I. Quadra, Samantha Vi. cpp: 321.94 100s eDu: 321.644) “Todos os dieitos reservados. Proibida a reproducio, armazenamento ou trans rissio de partes por escrito ‘Texto revisado segundo 0 novo Acordo Ortogréfico da Lingua Portuguesa. Direitos desta edigio EDITORA CIVILIZAGAO BRASILEIRA Um selo da EDITORA JOSE OLYMPIO LTDA Rua Argentina 171 ~ 20921-380 ~ Rio de Janeiro, RJ - Tel: 2585-2000 tum letor preferencial Recor. 1- ¢reczba informasées Sobre nossos langamentos € oss promosées. Atendimento e venda diceta a0 leitor idirewo@record.com.br ou (21) 2585-2002. Impreso no Brasil 2010 avés de quaisquer meios, sem prévia aurorizagio A habitual antitese “Estado” versus “sociedade” é talvez, inadequada quando se deseja estudar as relacoes entre ambas as coisas. Caso se aceite a hipotese de os Estados, ‘mesmo arbitrérios, serem parte de um todo mais amplo e que 0 fato de permanecerem arbitrérios produzird resulta~ dos catastréficos, é precisb elaborar um conceito de Estado que dé margem ao estabelecimento de conexbes entre a drea politica e as demais dreas da vida social. MosHE Lew, O fendmeno Gorbachev. Uma interpretagao historica. Um vibrato do inacabado que anima repent um passado, um presente pouco a pouco autismo, uma inteligibilidade perseguida fora de alamedas percorridas: é um pouco isto, a historia do presente. JEAN-PIERRE RIOUX, “Pode-se fazer uma hist6ria do present [A CONSTRUGAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA 43. Idem, p38 44, LINZ e STEPAN, op. ci, p. 58. 45. Idem, p. 59. 46. Agradecemosa Alessandra Carvalho, que nos chamou aatencio para esse aspecto, 47. Cl. abistoriografia que tem se destacado na revisio da escravdo na época moderna, ‘embora ainda persista 0 debate sobre 0 peso d internacional nas ‘modificagées das estruturas sociais na Africa: ELTIS, David. Economic growth and ending of the transatlantic save trade. Nova York, Oxford Academic Press, 19875 LOVEJOY, Paul E. A escravidao na Africa: uma histéria de suas transformagées. Rio de Janeiro, Civilizagio Brasileira, 2002; MILLER, Joseph. Way of death: merchant capitalism and de Angolan slave trade, 1730-1830. Madison, Wisconsin University Press, 1987; e THORNTON, John A Africa e os africanos na formagio do mundo atlaitico, 1400-1800. Rio de Janeiro, Elsevier, 2003. 48, BERSTEIN, Serge. “Lhistorien et la culture politique”. VintiOme sicle. Revue histoire, 1° 35, 1992, p. 67. capiruto 1 1940-1944. Os franceses do pensar-duplo* Pierre Laborie** ‘Tradugdo de Vera Gertel ‘Mas somos, nao sei como, duplos em nds mesmos, 0 que fax com ‘que ndo acreditemos no que acreditamos e ndo possamos nos desfa- -zer do que condenamos. MoNTAIGNE ' trabalho dos historiadores ajudard algum dia os franceses a classificar e t fora do campo das paixdes aqueles tempos em que eles “no se ama- "22 Até que ponto se pode saber e compreender 0 que foi essa Franga fos anos negros, embaralhada nas confusoes de uma crise de identidade févada ao paroxismo? Em que medida é possivel discernir 0 verdadeiro sen- ‘ldo das escolhas coletivas quando a perturbagio de um povo humilhado ige de tal maneira as profundezas de sua consciéncia e as proprias bases ideia de patria e nacio? BSESSAO E SURDEZ smpo e as geragbes passam, os testemunhos se distanciam, mas o fascinio, lestar e a diivida esto sempre presentes e estreitament te muito tempo onipresente e, em exagero, o en: Pela rejeicao e pela honra preservada se faz menos ‘como se nada pudesse apaziguar as cicatrizes de Vichy e da Ocupagio.’ Uma parte do presente continua sendo escrita no passado, mas o inverso € igual- mente verdadeiro, e essa dialética confere cada vez mais’ sindrome autopsiada ‘A CONSTRUGAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA por Henry Rousso a profundidade de uma questo estrutural. Remoendo de ‘maneira quase obsessiva a lembranca desses quatro anos interminaveis, a Fran- 2 continua fazendo, a seu préprio respeito, as mesmas interrogagbes per- turbadoras. Nao cessa de fazer e repetir as mesmas perguntas, ignorando, ou fingindo descobrir a cada vez, verdades estabelecidas ha muito tempo pelos pesquisadores. Por meio de repetidos espantos — explorados e ampliados pelo jogo do mercado mididtico — os franceses se mostram obstinadamente surdos ao estranhamento de sua propria surdez. Repetem 4 exaustio que chegou a hora de derrubar tabus que deixaram de sé-lo hd muito tempo, que é urgente falar, enfim, do que nio se falaria jamais. Esté claro que nao se disse tudo sobre Vichy, sobre a colaboragio ou sobre a Resistencia, menos ainda sobre a maneira multiforme como a sociedade francesa atravessou 0 perfo- do. Mas podemos nos perguntar 0 que podem nos trazer as permanentes hesitagdes de uma histéria-memsria acomodada as tendéncias mutantes do clima da época. O que pode restar da dimensio cfvica de uma reflexio sobre © passado quando ela 6, a esse ponto, modelada ¢ instrumentalizada por re- construgées sucesivas, quando logics identitrias ferem a légica da verda~ de, quando os interesses ideol6gicos produzem leituras anacrOnicas que desvalorizam as regras de método, a marcha do tempo e uma exigéncia ele- smentar de rigor? A despeito das intengoes afirmadas pelos detentores de uma determinada pedagogia da fidelidade 3 lembranga, podemos nos interrogar sobre sua eficécia. Nao é certo que essas simplificacdes e inversdes de pers- pectiva constituam 0 melhor meio para convencer por tempo os fran- ceses a considerar 0 seu passado sem complacéncia e a viver a sua hist6ria, toda a sua histéria, com 0s olhos abertos. Os julgamentos sobre as atitudes ¢ os comportamentos coletivos entre 1940 e 1944 refletem de maneira caracteristica essa mistura de intengdes respeitaveis, de temor, de indignagdes sibitas e de crispagdes sobre as dis- putas de meméria. A extraordindria diversidade das experiéncias vividas transmitidas pelos testemunhos dos familiares, a sensibilidade do tema e sua popularidade — todo mundo tem uma opinigo formada sobre a ques- tio —limitam 0 aleance do olhar distanciado dos historiadores e seus es- forcos de explicagio. Quando se afastam demais de um “memorialmente correto” préprio a cada grupo ou comunidade, e vigiados de maneira descon- 1940-1944. 05 FRANCESES DO PENSAR-DUPLO fidda, esses esforcos so mal aceitos, a ponto de serem suspeitos de procu- sar insidiosamente justia o injustice. Profundamente ata por sua Ainiensio moral, mas muito frequentemente reduzido a generalidades abisivas, a alternativas simplistas ou mesmo radicalmente reduzido a con- “déinagées sem apelo — do tipo “todos culpados, todos colaboracionistas™* “<#0 problema dos comportamentos encontra-se sempre no centro de um ‘abate no qual se trata menos de enfrentar a complexidade — ou com- “pfcender do que de jnlgar, ou mesmo estigmatizar.® © debate volta a todo “momento, a propésito do exterminio dos judeus, do percurso de um presi- dente da Repablica, do processo de um alto funciondtio, das trajet6rias de céttos resistentes, do zelo da administracdo... A partir de tipologias solida- "emt estabelecidas ¢ excessivamente cristalizadas — pétainistas, resisten- tes, colaboracionistas, attentistes* criminosos, ciimplices etc. — quer-se lassificar, catalogar, enumerar. Quer-se também acusar ou glorificar, de- rnunciar, exigir justiga, obter reparacio. Em configuragdes nas quais 08 perativos do momento exigem aplicar categorias mentais ¢ referencias culturais do presente para a compreenséo do passado — arriscando-se a deformar-Ihe 0 sentido — 0 historiador é, no entanto, convocado para fins de legitimagio, De onde um mal-entendido persistente, ainda mais compli- cado pela injungao insistente do dever de meméria que transporta o passa- do para o futuro. ‘COMPORTAMENTOS COLETIVOS E COMPLEXIDADE DO SOCIAL ‘Auuniversalidade dos ensinamentos da Shoah € a imprescritibilidade do cri- me contra a humanidade relangaram assim em termos fortes a dialética complexa da relacdo entre meméria e hist6ria, entre fidelidade e verdade, centre a dupla necessidade de seus lagos indissociaveis e de uma leitura criti Do verbo aftendre, esperar, no tem tradugio precis para 0 portugués; no context tata- 1 pelo autor, refere-s ao franceses que no assumiram posto explicta quando da derro~ ta da Franga para a Alemanha navsta, da Ocupacio e do estabelecimento do Regime de Vichy ‘experando os smentos de um mundo em guerra para se posicionar a respeito da nova realidade. (N. das ©.) [A CONSTRUGAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA ‘ca reciproca. As dificuldades do diglogo néo sio novas mas no podem, em nenhum caso, sob pena de regressiio, permitir que se dé crédito a ideia se- gundo a qual toda démarche explicativa seria por natureza exonerat6ria ¢ relativista. © prosseguimento e aprofundamento da reflexio sobre a natu- reza € 0 sentido das reag6es coletivas dos franceses perseguem um tinico objetivo: tentar encontrar os modos de pensamento comuns ¢ an motivagées de sua construcao para poder penetrar um pouco melhor na complexidade do social. & nessa perspectiva que estas poucas paginas sobre © pensar-duplo dos franceses devem ser lidas. Antes de tudo, e para esclare- cer, trés observagées revelam-se indispensaveis. A primeira ex do dos atores sociais — visio do presente por meio da presenca do passado € as representagées do futuro — constitui um fator fundamental de com- preensio da relaco com 0 acontecimento ¢ os problemas do tempo. E ten- as ime um dado primordial: © modo de presenga no muh tando reencontrar as formas de racionalidade dos sistemas de representacio mentais, 0 mais das vezes nao diretamente perceptiveis, que historiador pode ter esperancas de revelar alguns dos mecanismos essenciais que co- mandam os comportamentos. A segunda diz respeito a0 método de abor- dagem e prolonga a precedente: € preciso quebrar o elo que, em muitos historiadores de hist6ria politica, parece vincular 0 movimento da opiniéo a explicagdo pela evidéncia da razdo e a compreensio dos fendmenos de opinido a sua manifestacdo aparente. Enfim, a terceira principalmente, mesmo sendo ba sentimento coletivo se exprime sempre em fungio de uma escala de inte- , ndo deve ser negligenciada: trata-se de lembrar que 0 resses ¢ de uma ordem das prioridades, hierarquias instéveis construidas a partir do que os homens podem e creem perceber do real, no momento € lugar onde eles esto. Por mais prosaica que seja a constatagio, & preciso ux, que logo depois do choque da derrota, para um povo desamparado, cansado e marcado por uma inércia antiga,® “a es- ji a preocupagéo maior”.’ Longe disso. colha de um campo néo 1940-1944. OS FRANCESES DO PENSAR-DUPLO AMBIVALENCIAS E CODIGOS CULTURAIS PERDIDOS ‘Como saber o que podia ser percebido, pensado e compreendido pelos fran- ceses comuns da época, como aprender o que eles sabiam da histéria e descobrit a maneira como podiam té-la vivido? Como ler e sentir, mais de meio século depois, as palavras de 1940 ou 1944, como reencontrar € reconstituir os prismas por meio dos quais eles eram recebidos e entendi- dos? Em 10 de fevereiro de 1941, Jean Guéhenno escrevia em seu Journal”: “Que génio deverdo ter os historiadores do futuro para reconhecer as ver- dadeiras causas ¢ as verdadeiras motivagbes dos acontecimentos nestes tex- tos, nestas informagdes nas quais nem uma palavra é leal nem exata.”* Uma ver descartado o que ha de malicia nessas palavras, 0 apelo ao dever de genialidade dos historiadores do futuro constitui uma espécie de advertén- iderdveis que iva de um cia a seu uso. Ele pressente com lucidez as enfrentarao para reencontrar as formas de sensi perfodo desconcertante, para restitu-la, para apreender o que podia se passar nas cabecas, para tentar reconstituir 0 que podiam ser, para a maioria dos franceses, as representagées comuns do presente. Apesar dos miitiplos sinais de uma proximidade que dé a ilusio de poder apagar a pouca distancia do tempo, as l6gicas mentais e os c6digos cultu- rais dos franceses dos anos 1940 se tornaram para nds consideravelmente estranhos.’ £, no entanto, sobre o que podiam ser os seus modos de funcio- namento que é preciso se interrogar. Dessa busca, ¢ em meio a outras ob- servacées, emerge o lugar consideravel ocupado pela ambivaléncia do Pensamento e dos sentimentos. Uma presenca tio forte e de vestigios tao rnumerosos leva inevitavelmente a interrogagées."” Antes de fazer da ambiva- léncia um conceito maior das andlises da opiniao, ou um dado estrutural de ‘oda forma de psiquismo coletivo, seria preciso se perguntar se estamos ratando de uma caracteristica inerente 4 natureza profunda da opiniao, independentemente dos meios e das culturas, ou se ela constitui um trago especifico de algumas entre elas. Faltam elementos de comparagio para “Em portugués, “di (Ne das 0.) ‘A CONSTRUGAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA fornecer uma resposta plausivel. No caso em que o fendmeno indicasse de maneira patente uma singularidade francesa, como alguns se esforcam em sugerir, 0 exemplo dos anos 1940 poderia vir alimentar certos esterestipos de uma francofobia banal na qual a aptidéo “natural” & tergiversacio, a0 oportunismo — e até mesmo & deslealdade ou & covardia—, é valorizada, AMBIVALENCIA OU AMBIGUIDADE Particularidade nacional ou caracterfstica mais propagada das relagdes ocu-, pantes-ocupados, a ambivaléncia ocupa um Ingar preponderante nas atitu- des dos franceses sob Vichy. Ela 6 um dos espelhos menos deformantes para dar conta da plasticidade das situag6es attentistes e de suas aparentes con- tradig6es, As altcrnativas simples entre petanismo e gaullismo, resisténcia e vichismo ou resisténcia e colaboracao fornecem apenas imagens redutoras. da vivéncia dos contemporineos. Sabe-se assim que uma maioria de fran- ceses chorou a derrota sem deixar de desejar 0 armisticio, que foram capa- zes de aplaudir fervorosamente o marechal Pétain enquanto tejeitavam 0 regime de Vichy, que conseguiram ser irredutivelmente hostis ao ocupante ‘sem por isso se tornarem resistentes ou ainda que alguns foram capazes de contribuir na salvacio de judeus enquanto mantinham uma atitude de leal- dade ao chefe de Estado. Essas mesmas observagées, ressaltadas por todos, deram lugar a diversas interpretac6es, muitas vezes entrecortadas por apre- ciag6es de ofdem moral." Falou-se da esquizofrenia dos franceses, mas tam- bém de seu profundo senso de acomodacio e mudanga brusca de atitude, tuosidade para se colocar a favor do vento, de sua inclinagdo a de sua viu-se nisso um oportunismo calculista, duplicidade, cinismo, covardia, No espirito de muitos, ambivaléncia e ambiguidade nao se di lezas nebulosas, ia do julgamento moral na aprecia- dade, a ideia renciavam e nao eram mais do que st Sem procurar diminuir a importa io dos comportamentos, e sem descartar sua eventual legit de ambivaléncia é de outra natureza. Ela abre outras portas ao historiador alarga suas possibilidades de analise. Permite no mais pensar somente as contradigdes em termos antindmicos — resistentes ou pétainistas, gau 1940-1948, 0S FRANCESES DO PENSAR-DUPLO ‘ob attentstes...—, mas ultrapassé-las se perguntando o que elas tentam dizer, para além das pseudoevidéncias do sentido aparente. Levar em conta a ambivaléncia dos espfritos ajuda a compreender que a evolucao geral do éenilito e a derrota anunciada da Alemanha nio fornecem razées suficien- ‘86 para dar respostas a tudo. Os franceses, em sua maioria, nao foram pri- ffitiramente vichistas depois resistentes, pétainistas depois gaullistas, mas piideram ser, simultanemanente, durante um tempo mais ou menos longo, ie acordo com os casos, um pouco dos dois ao mesmo tempo. Em entre- ‘sta! recente, Simone Veil lembrava as dificuldades para aprender hoje a iplexidade da época e indicava, a respeito dos franceses, “alguns se com- fortaram bem, outros mal, muitos os dois ao mesmo tempo”, antes de acres- -ndo era tio simples quanto se apresenta hoje”. Com os problemas itados por todo julgamento global sobre uma Franga mediana hoje de- sparecida, que nao corresponde jamais 3s infinitas singularidades da expe- Hiéncia vivida, o julgamento de Simone Veil, destacando as duas faces de ‘uma mesma atitude, se aproxima, sem divida, da verdade dos dias comuns, UMA CULTURA DO DUPLO A imagem dos franceses trazendo em si mesmos sentimentos opostos, mais partilhados entre dois impulsos contraditérios do que separados em cam- Pos hostis, no pode ser reduzida unicamente a expressio da duplicidade. Ela remete & ideia do homem duplo,” daquele que é um e outro ao mesmo tempo, mais pelo peso de uma necessidade exterior do que por célculo cf nico ou interesse. Com suas I6gicas contrérias, mas no pensadas como tal, ‘opensar-duplo pertence ao universo mental dos franceses sob Vichy. £ uma de suas realidades, instrui sobre um dos modos de funcionamento dos sis- temas de representacao e destaca a sua importancia. E nessa diregdo que se Poderia talvez encontrar um elemento de explicagao para a forte presenga dos modos de pensamento ambivalentes na opinido comum. Seus tracos acentuados resultariam assim do desenvolvimento difuso de uma espécie de “cultura do duplo” e de seus efeitos no ambiente. Sem pertencer a cons- ciéncia clara, e sem tampouco ser vivida como uma contradigio dilacerante, [A CONSTRUGAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA mais como uma forma de aculturagio, a ideia do duplo ritma as formas do pensamento ordingrio, tanto na banalidade do cotidiano quanto nas situa- GOes excepcionais e nos riscos de engajamento. Muito rapidamente, para sobreviver, os franceses tiveram de aprender a existir com duas imagens de simesmos: um rosto para mostrar publicamente a fim de subsistir e um para esconder a fim de preservar uma maneira de ser € agir.'* Os vestigios do duplo esto em todo o lugar e se tornam dados familiares & paisagem. Seus miltiplos signos alimentam uma gramética do duplo-viver cujos numero- sos exemplos vém facilmente ao espirito. As duas principais zonas que cor- tam 0 territ6rio obrigam a pensar o pafs em duplo ¢ hé duas maneiras de pensar a ideia da Franca, a de Londres e a de Vichy. Nos i reino de Vichy, hd ainda duas maneiras de ser francés, a de Pierre Laval e a do marechal Pétain. Para a maioria de franceses, o velho homem por sua vez € percebido como um homem duplo, identificado com a estratégia se- creta do jogo duplo que insistem em Ihe atribuir, estratégia do velho cam- ponés silencioso e ardiloso. Na zona livre, até novembro de 1942, da imprensa e der sutil de uma dupla linguagem. A escolha da clandestinidade, enfim, vidas duplas, jornadas duplas, identidades duplas, enquanto os constrangi- mentos da pemtiria itnpéem 0 mercado duplo etc. ‘AS ZONAS CINZENTAS DO PENSAR-DUPLO A despeito de snas névoas e perturbacées, o pensar-duplo aparece como uma maneira de contornar uma realidade que se tornou insuportivel, como uma resposta de circunstancia a uma situagao de excegio, como ele- mento de um amplo processo de adaptacio. Nao se trata, no entanto, de ser ingénuo, e esté claro que as zonas cinzentas da ambivaléncia compor- tam riscos de deslizes em diregdo a comprometimentos e covardias. Para avaliar isso, a cronologia deve servir de primeira protegio. Até 0 ourono de 1942, puderam coabitar, nas mesmas cabecas, duas maneiras opostas de pensar a Franca. Além desse limite, com a multiplicago dos sinais cada vez mais gritantes de um conluio entre Vichy e a Alemanha nazista, € natural que a ambivaléncia nao pertenca mais ao mesmo registro, Nao é mais pos- 1940-1944. 05 FRANCESES DO PENSAR-DUPLO fel se pensar resent evchiasimuaneamene, salvo fechando volun- "tariamente os olhos e ouvidos para as realidades da colaboragio ou entran- I oe interes, deliberadamente, nas manobrascalcladas do jogo duplo. “0 pensar-duplo se torna entio “operacio de desdobramento”, como escre- ‘vid Bernanos em outubro de 1943, a respeito do comportamento dos res- | isis qe se ecusavam pedir demisio: “Suasconstigncas atavessa dade, mas seus corpos de funcionarios per- mares para socorrer = fuapecem em seus Ingares.’ Com os reftigios do attentisme, as oscilagdes inconstantes da ambivaléncia numa indicagdo a mais sobre os reais recursos eas longa fadigas de um ? ro submetido a duras provagées.!” Muito longe dos comportamentos heroicos e das rejeigGes declaradas, o duplo-pensar aparece como uma forma | de resposta social a alternativas consideradas insuperdveis, uma resposta da- fda que deve ser vista como tal, como tentativa patética de ajustamento entre 6 desejo e o posstvel. Se seu significado parece escapar a toda interpretagio ivoca, ele talvez tenha servido como pedagogia e permitiu preparar 0s es- tos para aceitar outras duras contradigGes impostas pelas necessidades da guerra. Assim, apesar do mimero de vitimas e apesar da exploracéo das difi- cculdades da situago pela propaganda alem e vichista, 0s violentos bombar- -deios da primavera de 1944 impostos ao pafs pelos Aliados foram suportados com dignidade. E isso num momento em que, é preciso lembrar, as repress lias do exército alemo contra as populac6es civis ndo cessavam de aumen- tar, acumulando tragédias e sofrimentos. Em uma de suas cartas apaixonadas a Nelson Algren, Simone de Beauvoir lembrava, apés ter descrito sem rnhuma reserva o horror de um trem de passageiros metralhado por avides ingleses e americanos: “Era o fim da guerra, quando vocés tentavam bloque- ar os trens e destruir as locomotivas exatamente como deviam fazer, ninguém se indignava, s6 est4vamos um pouco amedrontados.”"* Desmontando em sua época os mecanismos da sociedade do espetéculo éa pritica do falso sem réplica, Guy Debord ressaltava 0 poder da injungio: “Politico? Social? E preciso escolher. O que é um nao pode ser 0 outro.” Os franceses do pensar-duplo, seus cansacos, suas perturbagées repetem, cles também, a dificuldade de fazer com que a densidade do social penetre nna cultura bindria do computador e da palavra urgente. Ela néo é, nao pode ser, a da hist6ria e dos historiadores. A CONSTRUCAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA ,capftulo XVI, “De la gloire”, Paris, Gallimard, Bibliotheque de la 2. Tomando emprestadas as palavras do presidente da Repiiblica, Georges Pompidou, 8. na entrevista coletiva d imprensa em 21 de setembro de 1972: “Ainda néo chegou. ‘© momento de encobrir, de esquecer esses tempos em que os franceses no se amavam, se dilaceravam entre ie, até mesmo, se matavam uns aos outros...” Ver 987. Nova edigio “Points Histoire”, ae aeescesae ear ae 1a ver, Pierre Nora no Le Monde de 1° de outubro 1. Uma opinigéo em cem: no domingo 24 de margo de 1994, Jacques Attali, ex- cconselheiro especial do pr Frangois Mitterrand, podia se expressar desta ‘maneira no “Forum” da i wivemos desde a guerra uma dupla misificagio ‘que foi encarnada por dois presidentes da Repiiblica | De Gaulle fez os franceses acreditarem que eles eram resistentes quando, na verdade, eram colaboradores. Mitterrand fez 0s francesesacreditarem que eles eram de esquerda quando eram, na verdade, de dreita, Essa dupla aparéncia [..] excondeu uma reaidade: a Franga cra colaboracionista.” Le Monde de 22 de margo de 1994. Sobre um debate que nfo cansa os franceses, ver por exemplo, para obter um Ponto de vista diferente, 0 artigo de Francois Maspero “Tous coupables?", Publicado no mesmo jornal em 11 de dezembro de 1997. ‘Como nao citar ainda mais uma vez a apéstrofe célebre de Mare Bloch que escrevia, apéster constatado que as vis reabilicagdes apenas sucediam aos vazos requistérios: “Robespierristas, antirrobespicrristas, suplicamos: por piedade, digam-nos, simplesmnente, 0 que foi Robespierre”, Apologie pour Histoire ou métier dhistoren, Paris, Armand Colin, éition 1974, 'Na primavera de 1939, retomando o assunto da hostilidade da revista com relagio ‘403 acordos de Munique, Emmanuel Mounier escreveu: “Se nossa reacio foi tio -1 porque sentimos, de repente, uma espécie de aquela primeira sincope das vontades que anuncia nte.” Esprit, n° 80, maio de 1939. ux, Les Chrétens francais entre crise et libération, 1937-1947, Paris, Le Seul, 1997. Jean Guchenno, Journal des années noires, 1940-1944, Patis, Gallimard, 1947, HA muitos contemporincos desse periodo que, apenas alguns anos apés o fim da cupacéo, reconheciam a sua incapacidade de decifrar 0 sentido das alusées e violenta em outubro passado, 1940-1944, 0S FRANCESES DO PENSAR-DUPLO sutilezas que haviam nutrido sua necessidade cotidiana de contestacio. Conforme, a por exemplo, 0 testemunho de Charles d’Aragon. O caso da Esprit € exemplar, ‘uma vez que os redatores da revista deviam admitir, na Libertaco, a impossibilidade #8 Je compreendet os préprios textos: “[..] 8s Vezes, apenas encontramos nos limites oe nossa memsria, 0 fato, entao conhecido de todos, que dava interesse a noticia...” Esprit janeivo de 1945. ~ 10. As exdnicas ou memérias do periodo sto abundantes em exemplos. £0 caso, especialmente, de Léon Werth, Dépositon, Journal, 1940-1944, Paris, Viviane ‘Hamy, 1992, na edicéo apresentada por Jean-Pierre Azéma, Muitas vezes tentei camara atenglo para ese trago caraterstico dos modos de pensamento durante ‘os anos da Ocupagio. ee de explicasio esirva para dissimular rentincias diante das dificuldades decorrentes ,,,d0 complexidade, 2. Entrevista concedida ao jorn Eric Conan, LExpress, 9 de outubro de 1997. 13, Em janeiro de 1937, foi sob o titulo de “Les hommes doubles” que Emile Vandervelde analisou o romance de Aragon Les bea quarters. Um dos personagens _.- do liveo decara: “Vivemos em uma Epoca um da se caracterize por 0 tempo dos homens duplos.” No pref do livro em 1965, ‘Aragon volta a0 tema dos homens duplos que, a seu ve inicio dos anos 1960. (Minha gratidio a Edouard Ruiz, ho essas precises) 14, Essasintengoes se inspiram no testemunho de Joffre Dumazedier dato em maio de 1981 & Esprit. 15, Aragon falava de literatura de contrabando. Ver Anne Simonin, Les Editions de Minuit, 1942-1955. Le devoir d'nsoumission, Paris, Imec, 1994, e La Revue des Revues, Revue internationale histoire et de bibliographic, ° 24, 1997. Ao lado de outras contribuigées, 0 estudo sobre a Esprit, em 1940, retoma essa questo a linguagem camuflada 16. Georges Bernanos, “i lexions sur le cas de conscience frangais”, outubro de 1943, Textes non rassemblés, 1938-1 in: Essais et Ecrits de combat, tomo 2, Paris, Gallimard, Bibliotheque de la Pliade, 1995, p. 892. 17, Retomando 0 assunto do abarimento dos frances, 0 resistente Jean Cassou dird, apés a Libertagio, que vale mais falar de “covardias medianas do que de infimias| medianas”. Une vie pour la liberté, Paris, Robert Lafont, 1981. Quase quarenta ‘anos antes, em plena guerra, no més de agosto de 1943, oresstente Jacques Bingen ‘escrevia em sua carta testamento: “Nao esquecer, ap6s a radiance vtéria, que se a Franca é uma grande dama, os franceses estardo bem fatigados.” Seré preciso ter por eles “nao apenas muito orgutho, mas também muita indulgtncia benevolente”, CE. Espoir, evista do Instituto Charles de Gaulle, n° 48, Pars, Plon, 1984. [A CONSTRUGAO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITARIOS — EUROPA limard, 1997. Carta de 48, Simone de Beauvoir, Lettres @ Nelsom Algren, Paris, tergarfeira, 16 de dezembto de 1947. 19. Guy Debord, Commentaires sur la société du spectacle, seguido de Préface 2 la ‘quatritme éditionitalienne de “La Société du Spectacle”, Pasi, Gallimard, 1992, p37. Bibliografia BEAUVOIR, Simone de, Lettres @ Nelson Algren. Paris. Gallimard, 1997. BEMANOS, Georges. Essais et éerits de combat, Tomo 2. Paris: Gallimard, 1995. iotheque de la Pléiade.) BLOCH, Marc. Apologie pour l'Histoire ou métier d'historien. Paris: Armand Colin, 1974. CASSOU, Jean. Une vie pour la liberté, Patis: Robert Lafont, 1981. DEBORD, Guy. La société du spectacle. Paris: Gallimard, 1992. FOUILLOUX, Etienne. Les Chrétiens francais entre crise et libération, 1937-1947. Pa- ris: Editions du Seuil, 1997. GUEHENNO, Jean. Journal des années noires, 1940-1944. Paris: Gallimard, 1947. MONTAIGNE. “De la gloire®. Im: —. Essais. Livro I Paris: Gallimard, 1962. (Bibliotheque de la Pléiade.) ROUSSO, Henry. Le Syndrome de Vichy. De 1944 8 nos jours. Paris: Editions du Seu, 1987, (Nova edicéo “Points Histoire”, 1990.) SIMONIN, Anne. La Revue des Revues. Revue internationale d'histoire t de bibliographic, 1 24, 1997. Le devoir dinsoumission. Baris: Les Editions de Minuit, 1942-19555 Paris: IMEC, 1994. WERTH, Léon. Déposition, Journal, 1940-1944, Paris: Viviane Hamy, 1992. ‘casino Sociedades e regimes autoritarios Marc Traducéo de Vera Gertel da Franga, professor da EHESS, Pris. B au- France de 1940 @ 1944. Pais: Fayard, 1997, ration de a société francaise aprés la Seconde organi Guerre Mondiale, Pars: Fayard, 2003.