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SCHNEIDER, Sergio; SCHIMITT, Cláudia Job. O uso do método compara- tivo nas Ciências Sociais. Cadernos de Sociologia, Porto Alegre, v. 9, p. 49-87,

1998.

1

O uso do método comparativo nas ciências sociais

Sérgio Schneider 1 e Cláudia Job Schmitt 2

ser

con siderada com o in eren te ao processo de con stru ção do con h ecim en to n as

ciências s ocia is . É la n ça n do m ã o

tran sform ações,

con stru ir m odelos e tipologias, iden tifican do con tin u idades e descon tin u idades,

sem elh an ças e diferen ças, e explicitan do as determ in ações m ais gerais qu e

podem os descobrir regu laridades,

ra ciocín io com pa ra tivo qu e

A com paração,

en qu an to

m om en to

de

u m

da

atividade

cogn itiva,

pode

tipo de

perceber

deslocam en tos

e

regem os fenômenos sociais.

Para algu n s au tores, a im possibilidade de aplicar o m étodo experim en tal às

ciên cias sociais, reprodu zin do, em n ível de laboratório, os fen ôm en os

se torn e u m requ isito fu n dam en tal em

term os de objetividade cien tífica. É ela qu e n os perm ite rom per com a

sin gu laridade dos even tos, form u lan do

sen tido, a com paração aparece com o sen do in eren te a qu alqu er pesqu isa n o

leis capazes de explicar o social. Nesse

estu dados, faz com qu e a com paração

campo das ciên cias sociais, esteja ela direcion ada para a com preen são de u m

sin gu lar ou voltada para o estu do de u m a série de casos previam en te

even to

escolhidos.

o m étodo

com parativo n ão se con fu n de com u m a técn ica de levan tam en to

em píricos. O u so da com paração, en qu an to perspectiva de an álise do social,

possu i u m a série de im plicações situ adas n o plan o epistem ológico, rem eten do a

u m deba te a cerca dos próprios fu n da m en tos da con stru çã o do conhecimento

em ciências sociais.

Nesse artigo tom arem os

com o pon to de partida

a

idéia

de

qu e

de

dados

1.

Departamento de Sociologia da UFRGS. 2 . Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS.

Dou toran do

do

Program a

de

Pós-Gradu ação

em

Sociologia

da

UFRGS

e

Professor

do

2

In icialm en te, procu rarem os refletir acerca das relações existen tes en tre a com paração e a explicação sociológica em algu m as das abordagen s clássicas da sociologia (Com te, Du rkh eim e Weber). Propom os, a segu ir, u m breve roteiro de qu estões relativas à operacion alização do m étodo com parativo. Por fim , discu tirem os u m exem plo con creto de aplicação do m étodo com parativo, tom an do com o referên cia a obra de Barrigton Moore J r., “As origens sociais da ditadura e da democracia”.

I- O MÉTODO COMPARATIVO NA PERSPECTIVA DOS CLÁSSICOS: COMTE, DURKHEIM E WEBER

A discu ssão acerca do m étodo com parativo e de seu papel n a con stru ção do con h ecim en to está presen te n a sociologia desde os estu dos clássicos do sécu lo

XIX. Marx, ao lon go de su a obra, trabalh ou sistem aticam en te com o con fron to

en tre diferen tes casos h istóricos sin gu lares. Seu estu do acerca das “form ações econ ôm icas pré-capitalistas” con stitu i-se em u m bom exem plo n esse sen tido. Com te, Du rkh eim e Weber, por su a vez, ain da qu e de m odo diferen ciado, utilizaram-se da com pa ra çã o com o in stru m en to de explica çã o e gen era liza çã o. Para esses autores, a análise comparativa encontra-se estreitamente relacionada à própria con stitu ição da sociologia en qu an to cam po específico do con h ecim en to, perm itin do qu e esta se distan cie das ou tras ciên cias sociais, dem arcan do seu terreno próprio de atuação.

Serão an alisadas n esse artigo as con tribu ições de Com te, Du rkh eim e Weber,

pois é

aprofu n dado das qu estões epistem ológicas e m etodológicas associadas ao u so da

n a obra desses au tores qu e é possível en con trar u m tratam en to m ais

comparação na construção do conhecimento em ciências sociais.

3

1.1 Os fundamentos da Física Social

Atribui-s e a Com te, com ju s tiça , a origem da Sociologia ou

Socia l,

ch am ar a ciên cia in cu m bida de estu dar os fen ôm en os

Fís ica

com o ele m esm o preferiu

sociais.

As

con siderações

qu e

se

segu em

bu scam

recu perar

su as

form u lações

acerca

da

Física

Social,

seu

cam po

de

estu dos

e

m etodologia

de

in vestigação,

dan do especial aten ção às proposições do au tor acerca do u so da com paração n a

análise sociológica.

Viven do

n a

época

de

efervescên cia

política

e

social

qu e

m arcou

os

prim órdios da in du strialização eu ropéia, Com te (1798-1857) im pôs-se a tarefa de fu n dar u m a ciên cia social positiva, qu e desfru taria de prestígio e rigor sem elh an tes às dem ais ciên cias experim en tais 3 . Na su a opin ião, som en te com a Física Social com pletar-se-ia o edifício por ele den om in ado de "sistem a das ciências da observação", integrado pela astronomia, pela física, pela química e pela fisiologia (ou Biologia) 4 .

Segu n do Com te, a Física Social estaria in cu m bida "do estu do positivo do con ju n to da s leis fu n da m en ta is a propria da s a os fen ôm en os socia is", ca ben do-lhe por isso o n om e de Sociologia. Para Com te, a Física Social n ão deveria ser crítica n em retrógada, m as orgân ica. Só assim seria capaz de im pu lsion ar a h u m an idade ao progresso e respon der aos desafios de su a época, em u m a sociedade qu e "se

e, não

encontrava, sob o aspecto moral, em uma verdadeira e profunda anarquia havendo outra solução admissível a não ser a formação da Filosofia Positiva” 5 .

3. Durante muitos anos Comte foi um dos principais discípulosde Saint Simon.

4. Com te defin e a Física Social com o sen do “…a ciência que tem por objetivo próprio o estudo dos

fenôm enos sociais, considerados com o m esm o espírito que os fenôm enos astronôm icos, físicos,

Boa parte

das citações u tilizadas n essa seção desse artigo foram retiradas da obra “Curso de Filosofia

Positiva” d e Com te. Pa ra fa cilita r o a ces s o d o leitor a es s e m a teria l forn ecem os a qu i,

possível, MORAES obra n ão

de Comte. Ver: COMTE, A. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

quím icos e fisiológicos, isto é, com o realidades subm etidas a leis naturais invariáveis

”.

s em p re qu e

a

pagin ação

u tilizada

n a coletân ea organ izada por Evaristo de Moraes Filh o. Ver:

FILHO, Eva ris to (org). Comte: s ociologia . Sã o Pa u lo: Ática , 1983. Pa ra a qu eles trech os da in clu ídos n o volu m e organ izado por Moraes Filh o, recorrem os à citação do texto origin al

5 . Ver: MORAES FILHO, op. cit., p. 64.

4

Para criar esta n ova disciplin a e adequ á-la ao m étodo das dem ais ciên cias

três problem as fu n dam en tais: (i) com o u m cam po próprio de experim en tação;

experim en tais, Com te defron tar-se-ia com atribu ir à Sociologia u m a especificidade e

(ii) com o d efin ir s eu es ta tu to teórico; (iii) com o a d equ á -la a o m étod o cien tífico

universal das ciências.

Qu an to ao prim eiro problem a, Com te fazia qu estão de salien tar a diferen ça

en tre a Física Social, in cu m bida da observação dos fen ôm en os sociais, e a Fisiologia, qu e se ocu pava dos fen ôm en os biológicos. Para ele, "ainda que a Fisiologia da espécie e do indivíduo sejam duas ciências absolutamente da mesma ordem, ou antes, duas porções distintas de uma ciência única, não é menos

indispensável concebê-las e tratá-las separadamente” 6 . A relação estabelecida por Com te en tre a Sociologia e a Biologia estava diretam en te ligada ao m étodo

u n iversal das ciên cias da experim en tação (qu e detalh arem os m ais adian te),

baseado no princípio da indução e da filiação gradual. Entretanto, segundo Comte,

a Sociologia poderia e deveria apren der o m odo positivo de proceder, qu e ou tras disciplinas, como a Biologia, já haviam incorporado.

Em relação ao estatu to teórico da Física Social, Com te retom a os postu lados

n om ológicos de Bacon ao afirm ar qu e todo con h ecim en to real repou sa n os fatos observados e toda especulação imaginativa deve ser subordinada à observação dos fatos em si. Ao m esm o tem po, o au tor estabelece qu e "nenhuma verdadeira observação é possível sem que seja primeiramente dirigida e finalmente interpretada por uma teoria"(Comte, Curso de Filosofia Positiva, Primeira Lição, III).

As teorias, portan to, con sistem n a afirm ação de determ in adas leis

in variáveis qu e regem o com portam en to dos fen ôm en os sociais. A Filosofia

Positiva, por sua vez, enquanto ciência busca a coordenação dos fatos através de

é nas leis dos fenômenos

uma teoria ou de uma lei geral de explicação. Assim: "

que consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, por mais exatos

6 . Ver: MORAES FILHO, op. cit., p. 67.

5

e indispensáveis" 7 .

numerosos

que

possam

ser,

nada

mais

fornecem

do

que

os

materiais

ciên cia é su bm eter con tin u am en te todo e

qu alqu er

Para Com te o objetivo da fen ôm en o a leis rigorosam en te

in variáveis. A partir desses postu lados u n iversais,

torna-se possível extrair leis gerais, preven do os resu ltados de fen ôm en os sem elh an tes qu e acon teçam em situ ações de espaço e tem po distin tas. Fatos n ovos passam a ser explicados à lu z de form u lações n om otéticas pré- estabelecidas, e é nisso que consiste o espírito positivo.

Em relação ao m étodo, o terceiro e ú ltim o problem a com o qu al se deparou , Com te a pon ta a indução e a filia çã o h is tórica como in s tru m en to fu n da m en ta l da dou trin a positiva. Seu prin cípio geral é o gradu alism o lógico pelo qu al se estabelece qu e é "pela vin cu lação dos fatos preceden tes qu e se apren de verdadeiram en te a con siderar os fatos segu in tes". Desse m odo, o m étodo lógico- indu tivo cu lm in a n a form u la çã o de postu la dos, a os qu a is Com te preferiu da r o n om e de teorias positivas ou leis gerais e in variáveis. Em bora a Sociologia ten h a su a dou trin a e seu próprio cam po de observação, ela com partilh a da u n icidade metodológica, própria ao conjunto das ciências da observação 8 .

Baseando-s e n o prin cípio indutivo, Com te a firm a s er a filia çã o gra du a l

(gradu alism o) a m elh or m an eira de torn ar a Sociologia u m a ciên cia

leis gerais e in variáveis fu n cion ariam com o postu lados e axiom as qu e seriam testados e con fron tados com os fatos através da experim en tação. No lim ite, a própria form u lação dessas leis ou desses postu lados depen deria do gradu alism o lógico in eren te a o m étod o, ou s eja , u m a lei gera l e in va riá vel s e con s titu i a tra vés do m étodo u n iversal qu e tam bém passa a ser o m odo de fazer ciên cia da Filosofia Positiva.

objetiva. As

7. Ver: MORAES FILHO, op.cit., p. 53.

8. Segundo Comte, o método não é sucetível de ser estudado separadamente das pesquisas em que é utilizado. “Quanto

à doutrina, não é necessário que seja uma só; basta que seja homogênea. É, portanto, sob esse duplo ponto de vista, da unidade dos métodos e da homogeneidade das doutrinas, que consideramos, neste Curso, as diferentes classes de teorias positivas”. Ver: MORAES FILHO, op.cit., pp. 73 e 81.

6

Ain da n o qu e se refere ao m étodo, Com te n os forn ece dois corolários

fu n da m en ta is a

afastar as cau sas en qu an to preocu pação da Física Social e, (ii) bu scar n o m étodo

histórico, através da filiação gradual, o complemento lógico ao positivismo. Quanto

ao prim eiro corolário, Com te afastou de su as preocu pações a bu sca das

cau salidades (prin cípio fu n dam en tal do pen sam en to de Du rkh eim ). Para ele, o

objetivo da Filosofia Positiva era o de su bm eter os fen ôm en os à leis in variáveis e

não procurar suas causas, fossem elas primárias ou finais. Segundo Comte:

este prin cípio lógico-indu tivo a n teriorm en te exposto: (i) deve-se

“A verdadeira ciência consiste, toda ela, nas relações exatas estabelecidas entre os fatos observados, a fim de deduzir, do menor número possível de fenômenos fundamentais, a série mais extensa de fenômenos secundários, renunciando absolutamente à vã pes quis a d as caus a e d as essências. Numa palavra, a revolução fundamental que caracteriza a vitalidade de nossa inteligência consiste essencialmente em substituir, em toda parte, a inacessível determinação das causas propriamente ditas pela simples pesquisa das leis (…) a determinação do como à do porque” 9 .

Neste aspecto, a iden tificação de Com te com os procedim en tos defen didos

por Bacon é com pleta. A con cepção de Com te pode ser caracterizada, de m odo

sucinto, através do seguinte esquema:

9 Ver: MORAES FILHO,

op. cit., p. 80.

7

CIÊNCIA

=

Fenômenos + Observação = Dedução + Leis Invariáveis

No qu e se refere ao segu n do corolário, pode-se afirm ar qu e, em bora Com te

cien tífica capaz de apropriar-se dos m eios

con siderasse su a n ova disciplin a

in vestigativos das ou tras ciên cias 10 , estabeleceu com o com plem en to in dispen sável

à lógica positiva "o modo histórico propriamente dito, constituindo a investigação, não por simples comparação, mas por filiação gradual "11 . Através do prin cípio m etodológico da filiação gradu al, Com te garan te u m a especifidade à Física Social peran te às ou tras ciên cias, ao m esm o tem po em qu e aprimora seus procedimentos metodológicos. Aqui a analogia no modo de proceder positivo en tre a Sociologia e a Biologia é estreita e eviden te. Parte-se do geral ao pa rticu la r, do gru po pa ra o in divídu o, u tiliza n do-se como procedimento a comparação. Para Com te, “n a física dos corpos organ izados, ao con trário, sen do o próprio h om em o tipo m ais com pleto do con ju n to dos fen ôm en os, su as descobertas positivas com eçam n ecessariam en te pelos fatos m ais gerais, qu e lh e

proporcion am depois

gên ero de porm en ores . Começa-s e por d es cer d o geral para o particular, porque

conhece-se mais diretamente o conjunto do que as partes" 12 .

u m a lu z in dispen sável para esclarecer o estu do de u m

Com te adm itia qu e a descrição em pírica absolu ta do m odo de ser dos

fen ôm en os era im possível, recon h ecen do por isso qu e

proceder na Sociologia para manter o rigor científico e metodológico deveria incluir os segu in tes passos: (i) a observação propriam en te dita ou exam e direto do fen ôm en o; (ii) a experiên cia, con tem plação do fen ôm en o em con dições artificiais (através da u tilização de recu rsos de in vestigação) e; (iii) a com paração, isto é, a

a m an eira m ais ju diciosa de

10. “

que manifesta a fase astronômica, a apreciação experimental própria da fase físico-química, e, enfim, o método ”

comparativo, emanado da fase biológica

11 . Ver: MORAES FILHO, op. cit., p. 85.

além da aptidão quanto às deduções, desenvolvidas na fase matemática, a possibilidade de exploração direta

Ver: MORAES FILHO, op. cit., p. 85.

8

con sideração gradu al de u m a série de casos an álogos, através da qu al o fen ôm en o se sim plifica cada vez m ais. Os dois prim eiros são com u n s a todas as ciên cias, de m odo especial às experim en tais, e o ú ltim o refere-se m ais diretam en te à Sociologia, e deve ser analisado à parte, tendo em vista os objetivos desse artigo 13 .

1.2 O método comparativo segundo Augusto Comte

Os procedim en tos com parativos de Com te estão in spirados n a biologia e m erecem u m a con sideração prelim in ar. Segu n do Com te, qu an do se observa a s ocieda de com o u m todo, deve-se entendê-la como um organismo social complexo. As partes con stitu in tes devem ser an alisadas de u m a form a an áloga aos m em bros do corpo humano, ou seja, a partir da observação das funções desempenhadas por cada parte. A diferen ça fu n dam en tal qu e existe en tre am bas as disciplin as científicas reside na experimentação, que na Biologia é direta e na Sociologia se dá d e m od o in d ireto. Con tu d o, Comte acreditava qu e red u zid a à es tá tica s ocia l "a utilid ad e científica d e tal com paração era verd ad eiram ente incontes tável”, m es m o que o estado gregário h u m an o tivesse con h ecido u m a evolu ção progressiva desde os primórdios em relação às variações quase imperceptíveis dos animais 14 .

Para Comte as leis gera is e in va riá veis podia m s er des coberta s n a Sociologia por in term édio da com paração, n o tem po e n o espaço, en tre diferen tes épocas

h istórica s ou diferen tes a gru pa m en tos h u m a n os. A Sociologia deveria se va ler do

m étodo

obedecend o a u m

en volvia, segu n do o au tor: (i) a com paração en tre as diversas partes de cada organ ism o determ in ado; (ii) a com paração en tre os sexos; (iii) a com paração en tre

com parativo

n a en ca d ea m en to

u tilizado

Biologia, ra cion a l.

desde

O

u s o

qu e

d a

de

m odo

orden ado

n a

e

com p a ra çã o

Biologia

13. Segu n do Com te, n a Sociologia, em virtu de da in cidên cia das paixões sobre o in vestigador, o

espírito positivo ainda se encontra fragilizado. Isso requer um esforço extra dos pesquisadores para qu e resgu ardem com extrem o cu idado su as posições em relação aos objetos n o m om en to da observação.

14. Ver: MORAES FILHO, op. cit., p. 92.

9

as diversas fases do desenvolvimento de um organismo; (iv) a comparação entre as diferentes ra ça s ou va rieda des de ca da es pécie; (v) en fim , o m a is a lto n ível, constituído pela comparação entre todos os organismos da hierarquia biológica.

Na Sociologia a com paração tam bém poderia ocorrer em diferen tes n íveis.

Na com paração Sociológica, o prim eiro procedim en to en volveria o con traste en tre as partes con stitu tivas de u m a sociedade e a iden tificação de diferen ças sim ples sociedade-s ocieda de (con form e iten s 1 e 2 a cim a ). O s egu n do pa s s o refere-s e à comparações entre sociedades humanas em diferentes épocas, como, por exemplo,

en tre m odern os e prim itivos (item

m étodo

3 acim a, segu in do a an alogia com o u so do

a exem plo da

Biologia, a Sociologia deveria con stru ir classificações en volven do diferen tes raças, gên eros, etn ias e fam ílias, para m elh or com parar, pois, com o ele próprio

m en cion ou , "n ada é m ais apropriado do qu e este procedim en to para caracterizar

n itidam en te as diversas fases essen ciais da evolu ção h u m an a" (referin do-se ao item 4 acim a). E, fin alm en te, a com paração h istórica dos diversos estados con secu tivos da h u m an idade, através do m étodo da filiação gradu al on de, à semelhança da Biologia, se comparam todos os organismos da hierarquia (item 5).

com parativo

n a

Biologia).

Em terceiro, segu n do Com te,

A im portân cia

qu e Com te atribu i à com paração h istórica com o m étodo por

excelên cia da Física Social, está tan to n a su a diferen ça em relação aos m étodos u tilizados pelas dem ais ciên cias, com o pelo fato dela corroborar o prin cípio

m etodológico qu e con siste em proceder do u n iversal para o particu lar (do geral

para o específico), perm itin do o u so racion al das séries sociais. Portan to, a comparação por filiação gradual constitui-se no procedimento metodológico que dá con sistên cia epistem ológica ao m étodo destin ado a dar su porte à n ova ciên cia incumbida do estudo dos fenômenos sociais.

10

2. DURKHEIM E A COMPARAÇÃO COMO LEI DE EXPLICAÇÃO SOCIOLÓGICA

A com plexidade e a im portân cia da abordagem teórico-m etodológica de

Du rkh eim n ão podem ser com preen didas (ou atu alizadas) sem u m a reflexão

acerca

con

qu an do afirm am qu e a an álise com parativa ocu pa u m lu gar cen tral n a obra de

Du rkh eim , ju stam en te porqu e é através dela qu e o au tor apresen ta su as solu ções

para algu n s dos problem as fu n dam en tais das ciên cias sociais, en tre eles, a difícil conciliação entre a complexidade e a generalidade da pesquisa social 15 .

aqu i com Ragin & Zaret

do

lu gar

da

ocu pado

explicação

pela

com paração

em

su a

obra,

n o

qu e

se

refere

à

stru ção

sociológica.

Con cordam os

Du rkh eim em prega diferen tes in stru m en tos an alíticos, com o os tipos ideais

e as espécies sociais, n a operacion alização de u m a estratégia de com paração

sistem ática. Mas, ain da qu e o au tor ten h a ch am ado aten ção para a

im portân cia

do m étodo com parativo n a an álise sociológica, o sign ificado epistem ológico deste

procedimento nem sempre aparece de forma explícita em seus escritos.

Antes de analisarmos a forma como Durkheim utiliza o método comparativo,

con sideram os n ecessário eviden ciar dois passos decisivos qu e an tecedem o u so da

com paração em su a abordagem sociológica. In iciarem os n ossa reflexão retom an do

a perspectiva

da

explicação cau sal para, a segu ir, discu tir a con stitu ição dos tipos sociais, o qu e

deverá nos conduzir, finalmente, ao tema central da discussão desse artigo.

du rkh eim ian a

acerca

dos

fu n dam en tos

epistem ológicos

2.1. Os fundamento epistemológicos da explicação causal

15 . Algu n s d os a r gu m en t os a p r es en t a d os a s egu ir for a m r et ir a d os d o a r t igo d e Ra gin e Za r et . Ver:

RAGIN, C. e ZARET, D. Th eory a n d m ethod in comparative research: two strategies. Social forces,

Chappel Hill, v. 61, n. 3, p. 731-754, March 1983.

11

Em

term os

epistem ológicos,

Du rkh eim

alicerça

su a

proposta

teórico-

m

etodológica

em

u m

prin cípio

geral,

qu e

se

divide

em

dois

postu lados

fu

n dam en tais. Por u m lado, acredita qu e a sociedade h u m an a deva ser estu dada

com o os dem ais organ ism os biológicos, possu in do u m a lógica organ izativa sem elh an te à das sociedades an im ais. Por ou tro, postu la qu e, para con h ecer e explicar o organ ism o social, é preciso desven dar su as con exões essen ciais, formadas pelas relações de causalidade e de funcionalidade que lhe são inerentes.

O primeiro postulado é afirmado por Durkheim quando este estabelece uma

regra fu n dam en tal com o pon to de partida de seu m étodo, qu al seja, a de qu e "os

fatos sociais devem ser tratados como coisas" 16 . Essa regra impõem ao sociólogo que

este se coloqu e em

qu ím ico em u m laboratório, de

social como coisas, ou seja, enquanto realidades externas à sua consciência.

u m

estado de

espírito sem elh an te

a

tratar

os

ao

de

u m

físico ou

u m

ciên cia

form a

objetos

de estu do da

Na verdade, an tes de os fatos sociais poderem ser tratados com o coisas, ou seja, torn arem -se passíveis de serem su bm etidos ao m étodo positivo, Du rkh eim precisou con ferir-lh es o estatu to de objetos do con h ecim en to cien tífico,

diferenciando-os dos fa tos in dividu a is ou ps icológicos , e dos fa tos gera is ou vu lgares (con stru ídos a partir do sen so com u m ). Os fatos sociais são

exterioridade ao in divídu o, e por exercer sobre

ele u m a coerção ou u m poder im perativo. São, portan to, alh eios à von tade

in

variado, porém , de m odo

caracterizados e defin idos por su a

dividu al,

qu e

está

su bm etida

a

eles,

em

grau

inescapável.

O segundo postulado epistemológico da teoria durkheimiana é decorrente do

an terior, e refere-se às relações de cau salidade qu e con stitu em a essên cia dos fatos sociais, sendo o alvo da explicação sociológica 17 . As relações causais são o elo de ligação dos fenômenos coletivos (fatos sociais) com suas partes constituintes (os

16. Ver : DURKHE IM, E . As r e g r a s d o m

é t od o s oc i ol óg i c o.

S ã o

Pa u lo: E d it or a

Na cion a l,

1 9 8 5 .

p .

XXI.

17.

Im portan te n ão con fu n dir

o objeto de

estu do da

sociologia

 

de

Du rkh eim , qu e

são os

fatos

sociais,

com

a

explicação

sociológica

propriam en te

dita,

qu e

é

a

elu cidação

das

relações

de

causalidade.

12

in

divídu os qu e in tegram a sociedade). Assim , desven dar a n atu reza das

relações

qu e se estabelecem en tre as partes (in divídu os) e o todo (a sociedade),

sign ifica

revelar as conexões causais que mantêm a ordem e o funcionamento do organismo social, à sem elh an ça do qu e ocorre com os dem ais organ ism os biológicos. No

estu do dos fatos sociais o cien tista deve procu rar revelar as cau sas, orien tan do-se

a partir dos efeitos por elas produ zidos. Deverá agir, portan to, de form a an áloga a

u m m édico, qu e bu sca am ain ar a dor (efeito) de seu pacien te, atacan do a doen ça

(causa) que lhe dá origem.

O prin cípio geral aqu i explicitado, através de seu s dois postu lados, serve de

fu n dam en to ao edifício teórico du rkh eim ian o, estabelecen do as bases da

objetividade e da

an alítica, proposta por Du rkh eim , en con tra-se assen tada, segu n do Fern an des 18 , em três patam ares distin tos, h ierarqu icam en te dispostos: (i) a delim itação do objeto através da observação sociológica; (ii) a con stitu ição dos tipos sociais

cien tificidade do con h ecim en to sobre o social. Esta con stru ção

m édios (ou in stân cias em píricas, com o prefere Fern an des) e; (iii) a explicação do fato social propriamente dita.

No

prim eiro

an dar,

bu sca-se

determ in ar

o

fato

social

com o

objeto

da

Sociologia, en caran do-o positivam en te en qu an to coisa (dado), e n ão com o represen tação. Feito isso, Du rkh eim su gere com o corolários a esta regra fundamental o afastamento das pré-noções, a definição objetiva do que se estuda e

a con sideração de m an ifestações coletivas. Com respeito à delim itação do objeto,

deve-se m en cion a r a in da a distin çã o en tre os fa tos de n a tu reza n orm a l e os

patológicos.

Ao defin ir os fen ôm en os sociais em si m esm os, destacados dos in divídu os

con scien tes qu e

da sociologia, Durkheim rejeita tanto o nominalismo das generalizações filosóficas, quanto o individualismo e o gradualismo das explicações positivas. O nominalismo

a seu respeito, com o objeto de an álise

form u lam represen tações

e o gradu alism o são rejeitados, de u m lado, pelo fato da sociologia "n ão ser u m

13

dos fen ôm en os relativos à vida in dividu al e

particu lar

existem por ju staposição, sen do as de tipo su perior m era evolu ção daqu elas m ais simples.

n ão

corolário da psicologia" e n ão tratar

de

cada

ser

h u m an o,

de

ou tro, porqu e

as

sociedades

h u m an as

A

ciên cia realista

e racion alista, com o a defin e o próprio Du rkh eim , deve

esten der

à

con du ta

h u m an a

o

racion alism o

cien tífico,

pois,

a

partir

de

u m a de

an álise tem poral, é possível redu zir os fatos sociais à u m con ju n to de relações

cau sa e

efeito 19 . Neste sen tido, Du rkh eim

rom pe com

as form u lações de Com te,

Spen cer

e Stu art Mill, qu e n ão obstan te terem declarado qu e os fatos sociais são

fatos

da

n atu reza, n ão os

trataram

com o coisas, ou

seja, en qu an to objetos

do

método positivo.

O m érito de Com te é particu larm en te ressaltado por Du rkh eim , por ter sido

este au tor o prim eiro a aban don ar as gen eralidades filosóficas e recon h ecer o

caráter em pírico dos fatos sociais, aplican do-lh es o m esm o o prin cípio explicativo

u tilizado pelas dem ais ciên cias positivas. No en tan to, o erro de Com te, segu n do

Du rkh eim , foi o de n ão ter percebido qu e a evolu ção gradu al

u m a idéia (represen tação) qu e form am os para servir de

aproxim arm os da realidade. Por si só a sociedade n ão é u m objeto de estu do e tam pou co su a evolu ção gradu al. Os objetos sociológicos, segu n do Du rkh eim ,

n ecessitam ser con stru ídos e separados dos fatos com u n s ou vu lgares, e por essa razão a sim ples descrição da evolu ção gradu al, proposta por Com te, fica a m eio caminho da explicação sociológica.

das sociedades é con ceptu al e n os

recu rso

Para Du rkh eim , Com te tin h a u m procedim en to m etódico - a explicação positiva dos fatos sociais a partir das leis de filiação gradu al – m as n ão u m objeto de estudo. Comte considerava que a Sociologia deveria ser construída com base na sim ples observação e form u lação de leis gerais in variáveis. Da m esm a m an eira, segu n do Du rkh eim , Spen cer teria com etido erro sem elh an te, ao partir de u m a

18.

Ver:

FERNANDES,

Florestan .

Fund a m ent os

em p íricos

d a

exp lica çã o

sociológica .

São

Paulo: T. A. Queiroz, 1980. p. 71. 19. A expressão “ciência realista” é de Fernandes. Ver: FERNANDES, op. cit. , p. 73.

14

represen tação abstrata da sociedade e da cooperação, para defin ir, por dedu ção, o objeto da sociologia. O m esm o acon teceria com Stu art Mill, ao n ão forn ecer os elementos concretos nos quais baseou sua reflexão sobre a aquisição de riquezas.

Em Du rkh eim , o social se explica pelo social, isto é, as con exões cau sais fu n dam en tais se desven dam a partir das relações sociais por elas próprias en gen dradas, e, m u itas vezes, n ão perceptíveis a “olh o n u ”. Para Du rkh eim , ao contrário de Comte, "o todo não é idêntico à soma das partes, constitui algo diferente e cujas propriedades divergem daquelas que apresentam as partes de que é

A sociedade não é uma simples soma de indivíduos, e sim um sistema

composto.(

)

formado pela sua associação, que representa uma realidade específica com seus caracteres próprios" 20 .

No prim eiro an dar do edifício teórico de Du rkh eim os sociólogos ain da n ão n ecessitam de teorias. Segu n do Fern an des, som en te à m edida qu e a in vestigação sociológica progredir é que delas se beneficiarão. Até lá, e mesmo depois, precisam saber proceder a descrições exatas, a observações bem feitas e, em particu lar, devem apren der a extrair da com plexa realidade social os fatos qu e in teressam precisam en te à Sociologia. Para atin gir estes fin s n ão n ecessitam de u m a teoria sociológica, propriam en te falan do, m as de u m a espécie de teoria da in vestigação sociológica, o qu e é ou tra coisa e presu m ivelm en te algo exeqü ível e legítim o. É ju stam en te aí qu e a Sociologia poderia aproveitar a lição e a experiên cia das ciências mais maduras: transferindo para seu campo de estudos os procedimentos cien tíficos u sados n as ciên cias em pírico-in du tivas, de observação ou experimentais 21 .

2.2. A elaboração das instâncias empíricas: os tipos sociais médios

20. Ver: DURKHEIM, op cit, 1985, p. 89-90. 21 . Ver: FERNANDES, op. cit, p. 72.

15

Estabelecidos os pressu postos epistem ológicos e as regras relativas à delim itação e à observação dos fatos sociais, Du rkh eim propõe a con stru ção do segu n do an dar de su a edificação teórica, através da elaboração de tipos sociais. Com o o fato social n ão pode ser defin ido isoladam en te e, tam pou co, su bm etido a u m a lei gen érica in variável, sob pen a de repetirm os o equ ívoco com tean o, o sociólogo necessita construir o que Durkheim chama de espécies.

Para su bm eter fatos de n atu reza em in en tem en te social, au tôn om os e

decorren tes das relações en tre os in divídu os, às leis da explicação cau sal,

Du rkh eim precisou recorrer à an alogia com a Biologia. Através da observação o

sociólogo bu sca u n ificar as m an ifestações sociais em torn o de tipos m édios. O tipo

olh os h u m an os

com aqu ilo qu e é an orm al (patológico). O tipo social m édio é algo parecido com a classe n as sociedades an im ais: in tegram u m a classe os seres qu e possu em características sem elh an tes, em bora algu n s possam ser desvian tes em certo grau . Veja-s e o exem p lo d os a n im a is d a cla s s e d os m a m íferos . Tod os tem em com u m o fato de mamarem, embora pertençam a espécies diversas.

social m édio está n a fron teira en tre o qu e é n orm al e com u m aos

Segu n do Ragin & Zaret, é com a con stru ção de espécies sociais qu e

Du rkh eim in icia a estratégia com parativa. As espécies sociais existem pela m esm a

razão qu e existem espécies n a Biologia. Para Du rkh eim "a afirmação de que diferentes espécies são objetivamente distintas e finitas tem como pressuposto a idéia de que as relações internas entre espécies são determinadas pelo seu modo de agregação, e seus atributos emergem da combinação de suas partes constituintes22 .

Esta con cepção das espécies biológicas é com patível com o sistem a social

im agin ado por Du rkh eim . A dou trin a da h ierarqu ia social aparece com o u m

axiom a n o sistem a teórico de su a Sociologia. As relações en tre variáveis são am plam en te determ in adas pelo con texto sistêm ico. Por essa razão Du rkh eim

prefere as explicações fu n cion ais às h olísticas. Por aí tam bém deve ser en ten dida

a u tilização das an alogias biológicas qu e explicam as n oções sistêm icas de

22 . Ver: RAGIN e ZARET, op. cit. , p. 734.

16

cau salidade. Para Ragin & Zaret, "A questão central não é o fato de Durk heim ter se

utilizado de analogias orgânicas; ele adotou os pressupostos meta-teóricos da

Biologia por acreditar que a emergência hierárquica, a explicação holística e a

classificação, aplicavam-se tanto à sociologia como à Biologia” 23 .

m ostrou Florestan Fern an des, a con stru ção dos tipos sociais m édios

revela com o Du rkh eim u tiliza-se da in du ção com o procedim en to qu e revigora seu s

critérios de objetividade cien tífica, pois os tipos m édios tem por base a n atu reza

das coisas (sociais), e vão além das manifestações puramente individuais 24 .

Com o

Para Du rkh eim , en tre a con fu sa m u ltiplicidade das sociedades h istóricas, e

o

con ceito

ú n ico,

m as

ideal,

de

h u m an idade,

existem

in term ediários:

são

as

espécies sociais. Na idéia de espécie, com efeito, en con tram os reu n idas tan to

a

u n idade qu e é exigida por toda a pesqu isa verdadeiram en te cien tífica, qu an to

a

diversidade qu e é dada n os fatos; sen do a m esm a em todos os in divídu os qu e dela

fazem parte, cada espécie difere, no entanto, da outra 25 .

adotadas

construção dos tipos médios estão claramente expostos. Durkheim afirma:

Na

in trodu ção

da

obra

O

Suicídio”,

os

procedim en tos

para

a

“ nossa

tarefa primordial deve portanto ser a de determinar a

ordem de fatos que nos propomos a estudar sob o nome de suicídios. Nesse sentido vamos procurar ver se, entre os diferentes tipos de mortes, existem algumas que tem em comum caracteres suficientemente objetivos para poderem ser reconhecidos por qualquer observador de boa fé, suficientemente especiais para não serem encontrados noutros tipos, mas, ao mesmo tempo, suficientemente próximos dos que são qualificados sob o nome de suicídios para que possamos, sem forçar o uso, conservar esta mesma expressão. Reuniremos sob esta denominação todos os fatos sem exceção, que apresentarem estes caracteres distintivos, e isto sem nos preocuparmos com se a classe assim constituída não

23 . Ver: RAGIN e ZARET, op. cit., p. 735.

24 . Ver: FERNANDES, op. cit, p. 76.

17

compreende

todos

os

casos

que

normalmente

se

denominam

assim" 26

A con stru ção dos tipos m édios n ão apen as tem o objetivo de reu n ir sob u m

tipo os caracteres com u n s a todos os in divídu os para qu e a ciên cia possa

descrevê-los e cla ssificá -los, com o ta m bém serve pa ra su bstitu ir os fa tos vu lga res

e n u m erosos pelos fatos decisivos e cru ciais. A con stru ção das espécies tem o

papel de colocar em n ossas m ãos pon tos de apoio com os qu ais possam os ligar

ou tras observações; devem ser capazes de abreviar o trabalh o de classificação dos

fatos sociais e, por isso, basear-se n u m pequ en o n ú m ero de caracteres,

cuidadosamente escolhidos.

A bu sca dos fatos cru ciais, tom ada de em préstim o de Bacon , se dá através

da con stru ção de espécies e recoloca o postu lado da explicação cau sal n o cen tro

da estratégia teórico-metodológica de Durkheim. Assim:

uma vez estabelecida a classificação, a partir deste princípio, não será necessário ter observado todas as sociedades de uma espécie para saber se um fato é geral nessa espécie ou não; a observação de algumas sociedades será suficiente. E mesmo, em muitos casos, bastará uma observação só, mas bem feita, assim como, muitas vezes, uma única experiência bem conduzida chega para o estabelecimento de uma lei" 27

Para Du rkh eim , a classificação por tipificação perm ite ver m ais claram en te

as cau sas essen ciais con stitu in tes de u m fen ôm en o. E n esta fase, e som en te aí,

Du rkh eim

aplica

o

postu lado

com tian o

da

evolu ção,

ao

estabelecer

qu e

as

sociedades

atu ais

devem

ser

percebidas

com o u m a

decorrên cia

da

u n ião

e

da

26 . Ver: DURKHEIM, E. O suicídio:

Fontes, 1973. p. 8. 27 . Ver: DURKHEIM, op.cit., 1985, p. 70.

estudo sociológico. Lisboa: Editorial Presença e Martins

18

tran sform ação das form as sociais m ais sim ples. Este procedim en to é particularmente evidente nos estudos de Durkheim sobre as religiões 28.

2.3. O método comparativo na explicação sociológica segundo Durkheim

Fin alm en te ch egam os ao terceiro an dar do edifício teórico du rkh eim ean o, para u sar a m etáfora de Florestan Fern an des. Com o vim os, Du rkh eim se opu n h a às explicações sociológicas baseadas em leis cien tíficas abstratas ou em m eras gen eralizações filosóficas form u ladas a partir da sim ples descrição em pírica dos

era o pon to in term ediário en tre a

fen ôm en os. Para ele, a pesqu isa com parada

com plexidade dos objetos em seu estado bru to e a possibilidade do con h ecim en to cien tífico poder estabelecer explicações gen eralizáveis, aspecto fu n dam en tal, segundo Durkheim, para credenciar a sociologia enquanto ciência.

Ao assu m ir a determ in ação cau sal com o u m prin cípio m etodológico, Du rkh eim atribu i-lh e u m sign ificado de extrem a im portân cia em su a teoria. Se as cau sas são perm an en tes e im u táveis n a sociedade, elas são in eren tes aos fatos sociais. Portan to, com o atribu tos in eren tes ao social, as cau sas n ão podem ser rem ovidas e su bm etidas a an álise dedu tiva direta, tal com o ocorre n as ciên cias da experim en tação. Nota-se aí a ru ptu ra fu n dam en tal en tre a con cepção de Du rkh eim e as posições de Com te e Bacon . A sociologia, segu n do Du rkh eim , deve segu ir o cam in h o da experim en tação in direta ou a an álise das variações

u m procedim en to in du tivo, e n ão

dedu tivo, com o propu n h am Com te e

sim ples paralelism o

neste caso, verificar se há uma lei de explicação. A concomitância é a prova de que

con com itan tes, fazen do u so, portan to, de

Bacon . Pela variação con com itan te, ou pelo

de u m a variável, pode-se verificar se a cau sa é perm an en te e,

28.

Paulinas, 1976.

Ver:

DURKHEIM,

E.

As

form a s

elem ent a res

d a

vid a

religiosa .

São

Pau lo:

Edições

19

u m a cau sa existe em dois fen ôm en os sociais e qu e, portan to, ten de a produ zir os

mesmos efeitos e ter funções semelhantes. Segundo Durkheim:

"…se desejarmos empregar o método comparativo de maneira científica, isto é, conformando-nos com o princípio da causalidade tal que se desprende da própria ciência, deveremos tomar por base das comparações que instituirmos a seguinte proposição: a um mesmo efeito corresponde sempre uma mesma causa.” 29

Não temos senão um meio de demonstrar que um fenômeno é causa de outro, e é comparar os casos em que estão simultaneamente presentes ou ausentes, procurando ver se as variações que apresentam nestas diferentes combinações de circunstâncias testemunham que um depende de outro" 30

En tretan to, a sociologia, con trariam en te às ou tras ciên cias, para poder vale-

se deste postulado causal, precisa fornecer ao investigador recursos metodológicos

qu e sejam capazes de n eu tralizar ou pelo m en os con trolar a com plexidade dos

seus objetos (os fatos sociais), pois a simples demonstração, tal como nas ciências

físico-qu ím ica s , revela -s e in s u ficien te p a ra ga ra n tir qu e os vá rios efeitos p os s u em

u m a

seja, h á u m a gran de probabilidade de erro ao se

ú n ica

cau salidade.

Ou

determ in ar qu e tal efeito correspon de a esta ou aqu ela cau sa, m esm o depois

de

estudá-los cientificamente.

 

Du rkh eim

estava

cien te

de

qu e por

m ais

com peten te qu e pu desse ser

o

total n a an álise dos efeitos

ou dos an teceden tes h istóricos (con h ecidos ou n ão) respon sáveis por u m a

determ in ada cau sa. A com paração gan h a, aqu i, u m papel de destaqu e em su a

proposta teórico-metodológica, pois, segundo o autor:

in vestigador, ele dificilm en te poderia garan tir certeza

"…para que uma variação seja demonstrativa, não é necessário que

todas

sido rigorosamente excluídas. O simples paralelismo de valores

as

variações

diferentes

daquelas

que comparamos

tenham

29 . Ver: DURKHEIM, op. cit., 1985, p. 112.

20

pelos quais passam dois fenômenos, desde que tenha sido

estabelecido num número suficiente de casos bastante variados, é

A concomitância

constante é, pois, ela mesma, uma lei, seja qual for o estado dos fenômenos que restaram fora da comparação” 31

a prova de que existe entre eles uma relação (

)

Mas,

para

Du rkh eim ,

além

de

a

com paração

au xiliar

o

in vestigador

a

determ in ar

a

relação

cau sal fu n dam en tal dos

fatos

sociais,

existe

ain da

ou tra

razão qu e torn a o m étodo das variações con com itan tes (com parações) o

in stru m en to por excelên cia da explicação sociológica. Esta razão está n o fato de

que este método:

“…não nos obriga nem a enumerações incompletas, nem a observações superficiais. Para que dê resultados, bastam alguns fatos. Desde que se provou que, num certo número de casos, dois fenômenos variam, um e outro, da mesma maneira, pode-se ter a certeza de que nos encontramos em presença de uma lei” 32

Ou seja, é pela com paração en tre dois fatos sociais, ou seja, en tre u m fato

cru cial e u m fato vu lgar (do sen so com u m ), qu e o sociólogo pode determ in ar o qu e

a cau sa prin cipal a partir da qu al derivam efeitos e

é fu n dam en tal, estabelecen do

conseqüências diversas e que, portanto, merece ser investigada.

Qu an do se com para con com itan tem en te dois fen ôm en os, é preciso recorrer

à in terpretação para se ch egar a cau sa com u m en tre am bos. Para se estabelecer

uma relação de causalidade entre eles pode-se proceder do seguinte modo:

"…procurar, com o auxílio da dedução, saber como um dos

produzir o outro";

dois

termos

pode

novas comparações;"

"…verificar o resultado desta dedução com o auxílio de experiências, isto é, de

31 . Ver: DURKHEIM, op.cit., 1985, p. 113-114.

21

3º "…se a dedução for possível e se a verificação é bem sucedida, poder-se-á

encarar a prova como terminada" 33 .

En tretan to,

sobretu do

se

n ão

se

n ão

h ou ver

h ou ver

n en h u m a

relação

n en h u m a

relação

en tre

en tre

a

os

fatos

an alisados,

lei

h ipótese

in icial

e

a

dem on strada, en tão é preciso recorrer

a

u m

terceiro fen ôm en o, com

o

qu al os

fen ôm en os

an teriorm en te

com parados

ten h am

relação.

Aplica-se

en tão,

novamente,

o

m étodo

das

variações

con com itan tes,

ou

seja,

o

m étodo

comparativo.

Procu ram os aqu i dem on strar com o em Du rkh eim a com paração n ão é

sim plesm en te u m a técn ica de trabalh o, u tilizada para fazer an alogias en tre dois

estabelecen do en tre eles diferen ças e sem elh an ças. Para Du rkh eim

a com paração é o m étodo sociológico por excelên cia, porqu e é através dela qu e

podem os dem on strar o prin cípio de qu e a cada efeito correspon de u m a cau sa. Em

su as obras, Du rkh eim dem on strou com o em distin tas sociedades o crim e, o

casam en to, o su icídio e a pou pan ça, são diferen tes e sofrem variaçõe, possu in do,

n o en tan to, cau salidades com u n s, com o por exem plo a existên cia ou n ão da

solidariedade (seu gran de tem a de pesqu isa). Em seu livro (qu e para algu n s

assemelha-se a u m m a n u a l de m etodologia ), Du rkh eim deixou u m série de

m erecem ser

recom en dações referen tes à u tilização do m étodo com parativo, qu e

ou m ais fatos,

reproduzidas:

1 0 -“O necessário é comparar, não variações isoladas, mas séries de variações regularmente constituídas e, o que é mais, suficientemente extensas, cujos termos se liguem uns aos outros por uma gradação tão contínua quanto possível. Pois as variações de um fenômeno não permitem chegar a uma lei, a não ser que exprimam claramente a maneira pela qual ele se desenvolve em circunstâncias dadas" 34

33 . Ver: DURKHEIM, op.cit., 1985, p. 1 15. 34 . Ver: DURKHEIM, op.cit., 1985, p. 118.

22

2 o – “Fazendo entrar em linha de conta muitos povos da mesma espécie, dispomos já de um campo de comparações mais vasto. Em primeiro lugar, podemos confrontar a história de um com a de outros e ver se, em cada um deles, tomado à parte, o mesmo fenômeno evoluiu no tempo em função das mesmas condições. Em seguida, pode-se estabelecer comparações entre os diversos desenvolvimentos.” 35

3 o - “Para explicar uma instituição social pertencente a uma espécie determinada, serão comparadas as formas diferentes que ela apresenta, não apenas entre os povos desta espécie, mas em todas as espécies anteriores36 .

Por

con segu in te,

n ão

se

pode

explicar

u m

fato

social

de

algu m a

com plexidade sen ão

sob

a

con dição

de

segu ir-lh e

o desen volvim en to in tegral

através

de

todas

as

espécies

sociais.

“A

sociologia

comparada

não

é

um

ramo

particular da sociologia; é a própria sociologia, na medida em que deixa de ser

puramente descritiva e aspira a explicar os fatos” 37 .

3. WEBER E O USO DA COMPARAÇÃO NAS “CIÊNCIAS DA CULTURA”

3.1 A explicação sociológica segundo Max Weber

n a con stru ção da

explicação sociológica, den tro de u m a perspectiva weberian a, ju lgam os n ecessário

resgatar aqu i, ain da qu e de u m a form a sin tética, algu n s dos pressu postos

processo de produ ção

do conhecimento nas ciências sociais.

fu n dam en tais qu e, segu n do esse au tor, dão su sten tação ao

Para qu e possam os com preen der o papel da com paração

 

As

diferen ças

existen tes

en tre

a

estratégia

de

com paração

proposta

por

Weber

e

as

an álises

de Com te e Du rkh eim , en con tram

su as

raizes

em

form as

35 . Ver: DURKHEIM, op. cit., 1985, p. 119.

36 . Ver: DURKHEIM, op.cit., 1985, p. 120.

23

distin tas de com preen der o m odo com o se dá a validação cien tífica do

con h ecim en to n as ch am adas “ciên cias da cu ltu ra”, rem eten do, portan to, a

diferen tes visões acerca do projeto da Sociologia en qu an to disciplin a cien tífica. É

somente dentro deste contexto mais amplo que podemos compreender as idéias de

Weber acerca das relações existen tes en tre a sin gu laridade h istórica e a

generalização explicativa na construção da explicação sociológica.

Para Weber a sociedade n ão pode ser com preen dida com o u m sistem a

n atu ral, passível de ser apreen dido em su a totalidade. A sociologia, en qu an to

“…ciência que pretende entender, pela interpretação, a ação social, para desta

maneira explicá-la causalmente, no seu desenvolvimento e nos seus efeitos 38 , tem

com o referên cia u m a realidade in fin ita e com plexa, an alisada, sem pre, a partir de

um determinado ponto de vista.

As

con exões

existen tes

en tre

con stelações

sin gu lares

de

fen ôm en os

n ão podem ser dedu zidas com base em leis e fatores de caráter u n iversal. A

descoberta das regu laridades gerais qu e regem determ in ados fatos da vida social

n ão é u m fim em si m esm a, m as u m a etapa n ecessária à explicação de u m

processo h istórico-social determ in ado, produ zido por u m con ju n to com plexo de

causas que atuam em condições sociais específicas

“Supondo que alguma vez, quer por meio da psicologia, quer de qualquer outro modo, se conseguisse decompor em fatores últimos e simples todas as conexões causais imagináveis da coexistência humana, tanto as que já foram observadas, como as que um dia será possível estabelecer, e supondo que se conseguisse abrangê- las de modo exaustivo numa imensa casuística de conceitos e de regras com a rigorosa validade de leis, o que significaria este resultado para o conhecimento, quer do mundo cultural historicamente dado, quer de algum fenômeno particular, como o do capitalismo na sua evolução ou no seu significado cultural? Como meio de conhecimento, não significa nem mais nem menos que

Max.

Met od ologia d a s ciência s socia is. São Pau lo: Cortez / Editora da Un iversidade Estadu al de

Campinas, 1992. p. 400.

38.

Ver:

WEBER,

Max.

Con ceitos

sociológicos

fu n dam en tais-

1921.

In :

WEBER,

24

aquilo que um dicionário das combinações da química orgânica significa para o conhecimento biogenético dos reinos animal e vegetal. Tanto num caso como noutro, ter-se-á realizado um

importante e útil trabalho preliminar. Todavia, e, tanto num caso como noutro, tornar-se-á impossível chegar algum dia a deduzir a realidade da vida a partir destas “leis e fatores”. Não por subsistirem, ainda, nos fenômenos vitais, determinadas “forças”

mas simplesmente porque, para o

conhecimento da realidade, só nos interessa a constelação em que estes fatores (hipotéticos) se agrupam, formando um fenômeno cultural historicamente significativo para nós; e também porque, se pretendermos “explicar causalmente estes agrupamentos ind ivid uais , teríam os d e nos reportar cons tantem ente a outros agrupamentos igualmente individuais, a partir dos quais os explicássemos, embora utilizando, naturalmente, os citados (hipotéticos) conceitos denominados leis” 39

superiores

e

misteriosas

(

)

A afirm ação feita pelo au tor de qu e a form u lação de leis e con ceitos gerais

corresponde som en te

sociais, n ão poden do ser vista com o sen do seu objetivo ú ltim o, n ão im plica, n o

ciên cias

a

u m a

etapa

do

processo

de

con h ecim en to

em

en tan to, em u m aban don o dos prin cípios de experim en tação e com provação qu e

fu n dam en tam a con stru ção do con h ecim en to cien tífico. As ciên cias h istórico-

sociais possu em , n o en tan to, fu n dam en tos m etodológicos próprios, estreitam en te

associados à bu sca das con exões de sen tido existen tes en tre fen ôm en os

historicamente singulares. O reconhecimento de que a realidade social possui uma

dimensão subjetiva e valorativa, dimensão esta que permeia a própria atividade do

cien tista, n ão im plica, n o en tan to, em u m a adesão ao “in tu icion ism o”, tão

criticado por Weber. A ru ptu ra en tre con h ecim en to cien tífico e ju izo de valor

encontra-se, n este ca so, estreita m en te vin cu la da a o rigoroso con trole da lógica

subjacente à explicação causal.

Explicar, em Sociologia, significa apreender interpretativamente o sentido ou

a

possibilita desvendar o sentido subjetivo das ações é o método compreensivo, seja

con exão

de

sen tido

im plícita

em

u m a

determ in ada

ação.

O

m étodo

qu e

39. Ver: WEBER,

1904. In: WEBER, op.cit., 1992. p. 126-127.

Max. A objetividade do con h ecim en to n a ciên cia social e n a ciên cia política -

25

ele aplicado n a an álise de u m a ação h istórica particu lar, n a in terpretação de u m a

massa de casos (como média aproximada) ou na construção de um tipo ideal.

“O tipo ideal constitui-se como um momento em que o sujeito cognoscente

analisa o real conforme as relações que seu ponto de vista mantém com os valores40 .

in vestigador con stru ir u m a espécie de

“experim en to ideal”, por m eio do qu al torn a-se possível relacion ar os processos

sociais con cretos às su as con exões de sen tido, o particu lar ao geral, o

desenvolvimento hipotético ao desenvolvimento real 41 .

Este recu rso h eu rístico perm ite ao

A lógica que preside a construção dos conceitos típico-ideais diferencia-se da

lógica su bjacen te à con stru ção de con ceitos gen éricos sim ples. O tipo ideal n ão

represen ta o pon to m édio, con stitu ído

fenômentos empiricamente observáveis:

de

com

base

em

u m a

diversidade

d a realid ad e h is tórica

e muito menos da realidade “autêntica”; não serve de esquema em

que se possa incluir a realidade à maneira exemplar. Tem antes o

significado de um conceito limite, puramente ideal, em relação ao qual se mede a realidade a fim de esclarecer o conteúdo empírico de alguns de seus elementos importantes, e com o qual esta é comparada. Tais conceitos são configurações nas quais construimos relações, por meio da utilização da categoria de possibilidade objetiva que a nossa imaginação, orientada segundo

“Trata-s e d e u m qu ad ro d e pen s am en to,

n ão

a realidade, julga adequadas.” 42

da

articu lação en tre fen ôm en os isolados e pon tos de vista diferen ciados, selecion ados

de

de

pen sam en to, n o qu al aparecem acen tu adas as características típicas e distin tivas

de u m fen ôm en o sin gu lar. Um exem plo con creto deste procedim en to são os tipos

En qu an to

con stru ção

qu e

h ipotética

passam

a

e

racion al,

o

tipo

ideal

resu lta

form a

u n ilateral,

con stitu ir

u m

qu adro

h om ogên eo

40.

Ver: TRATEMBERG, Ma u rício. Atu a lid a d e d e Ma x Web er. In : WEBER, Ma x, op.cit., 1 9 9 2 , p .

XXV.

26

pu ros de dom in ação, racion al, tradicion al e carism ática, con stru ídos por Weber,

em relação aos quais ele observa:

o fato de que nenhum dos três tipos ideais que

vão ser estudados a seguir, costume ocorrer em “estado puro” na realidade histórica, não deve impedir aqui, como em nenhum lugar, a fixação conceptual, na forma mais pura possível, de sua construção”. 43

Os tipos con stru idos por Weber n ão devem ser vistos en qu an to u m reflexo

do real.

Su a arqu itetu ra, baseada em con exões de sen tido pu ram en te racion ais,

tem por

objetivo servir en qu an to u m referen cial, a partir do qu al, é possível aferir

a distân cia existen te en tre o tipo ideal

em relação a fin s) e o desen volvim en to

irracionalidades de todo o tipo (paixões, erros, acasos).

(con stru ido en qu an to u m a ação racion al h istórico-social con creto, in flu en ciado por

É a relação existen te en tre du as séries de fen ôm en os, “…uma real (os

fenômenos no curso observado) e outra ideal (os fenômenos no curso do como se, isto é, no curso do construido racionalmente)…44 , qu e perm ite ao in vestigador desven dar as cau sas geradoras deste ou daqu ele fen ôm en o social. O m étodo

in terpretativo proposto por Weber procu ra con ju gar, de u m lado, a bu sca de u m a

adequação de sentido, ou seja, a iden tificação das m otivações su bjacen tes à

con du ta de u m as cau sas qu e

experiência, tenha a probabilidade de acontecer de uma determinada maneira.

determ in ado agen te social, de ou tro, a adequação causal, ou seja, determ in am qu e u m a su cessão de fatos, den tro das regras da

A explicação sociológica, na forma como é compreendida por Weber, tem por

objetivo iden tificar as con exões cau sais existen tes en tre determ in ados “con ju n tos de condições”, passíveis de serem associadas ao fenômeno estudado. Contrariando

o postu lado du rkh eim ian o de qu e “a cada efeito correspon de u m a cau sa”, o au tor direcion a seu s esforços n a bu sca da relação lógica existen te en tre com plexos de con dições qu e, em con textos h istórico-sociais específicos, en con tram -se

42. Ver: WEBER, Max. A objetividade do con h ecim en to n a ciên cia social e n a ciên cia política -

1904. In: WEBER, Max., op. cit., 1992, p. 140. 43. Ver: CASTRO, A.M. e DIAS, E. Int rod uçã o a o p ensa m ent o sociológico. Rio de J an eiro:

Eldorado, Tijuca, 1987. p. 140.

27

associadas à gênese e ao desenvolvimento de um determinado processo. Para isso,

lan ça m ão da “im pu tação cau sal” en qu an to procedim en to m etodológico. Vale a

pena retomar aqui as palavras do próprio Weber:

“O que nós efetivamente queremos saber é o seguinte: por meio de quais operações lógicas conseguimos a compreensão e a sua fundamentação demonstrativa, da existência de uma tal relação causal entre aqueles elementos “essenciais” do resultado e determinados elem entos d entro d a infinid ad e d e elem entos determinantes. Certamente que não pela observação do simples

curso dos acontecimentos - pelo menos não, se por isso se entende uma “fotografia” espiritual, “sem pressupostos”, dos processos psíquicos e físicos que aconteceram na época e no lugar em questão

Pelo contrário, a imputação se faz na forma de um processo de

pensamento que contém uma série de abstrações. Destas, a primeira e a mais decisiva é a que, entre os componentes causais e reais do processo, supomos um componente ou vários componentes modificados num determinado sentido, e nós nos perguntamos se, nas condições do curso dos acontecimentos que foram modificadas dessa maneira, seria “possível” esperar o mesmo resultado.” 45

( )

A ca u s a lida de, n o s en tido weberia n o, é dis ciplin a da pela probabilidade,

en ten dida, an tes

de

m ais

n ada,

em

su a

dim en são

qu alitativa.

A

possibilidade

objetiva de qu e u m determ in ado fen ôm en o ven h a a ocorrer é aferida

com base em

m

odelos qu e repou sam , em gran de m edida, n o sign ificado atribu ido pelo

in

vestigador ao con teú do de u m acon tecim en to con creto e su as possibilidades de

desen volvim en to. Este exercício de im pu tação cau sal tem su a objetividade

garan tida através do rigorism o lógico e con ceptu al im plícito às con stru ções típico-

ideais, qu e perm ite a distin ção en tre cau sação adequ ada e cau sação aciden tal,

assim definidas:

44. Ver: FERNANDES, op. cit., p. 91.

45. Ver: WEBER, Max. Estu dos críticos sobre a lógica das ciên cias da cu ltu ra.

op. cit., 1992, p. 198.

In :

WEBER, Max,

28

denominamos de “causação adequada” os casos que

correspondem a um tipo lógico no último termo e que se referem à relação de determinados complexos de “ condições” como um

resultado efetivo, complexos que foram concebidos como isolados e reunidos para a consideração histórica numa unidade (a causação adequada se refere à causação daqueles elementos do resultado

através

nos casos em que, no que diz respeito aos elementos do resultado que entram na consideração histórica, foram eficazes certos fatos que provocaram um resultado não “adequado” neste sentido, com relação a um complexo de condições concebido como reunido numa unidade.” 46 .

destas

condições) (

)

falaremos

de “causação acidental”

Enquanto procedimento metodológico, a imputação causal pode ser aplicada

tan to

n a

pesqu isa

h istórica,

cu ja

an álise

en con tra-se

cen trada

“n as

person alidades,

n as

estru tu ras

e

n as

ações

in dividu ais

con sideradas

culturalmente im porta n tes”, com o n a sociologia , en ten dida en qu a n to u m a ciên cia

u m a

“gen eralizadora”, qu e tem

com o preocu pação cen tral decobrir, a

partir

de

abordagem

m en os

com prom etida

com

a

din âm ica

social,

as

regras

gerais

do

acontecer.

A im portân cia dada por Weber à sin gu laridade dos processos sociais e

h istóricos, n ão im plica em u m a ren ú n cia à bu sca da explicação racion al e da

gen eralização: a con stru ção de h ipóteses e o exercício da im pu tação cau sal tem ,

com o m edia çã o fu n da m en ta l, a s rela ções existen tes en tre con ceitos típico-ideais,

qu e perm item articu lar as categorias gerais da sociologia, aos fen ôm en os

empiricamente observáveis.

3.2 A comparação na perspectiva weberiana

46. Ver: WEBER, Max. Estudos críticos sobre a lógica das ciências da cultura. In: WEBER, op. cit., 1992, p. 207

29

Com base n o qu e foi exposto an teriorm en te, acerca dos prin cípios

cabe pergu n tar: qu al o papel da

com paração n a m etodologia proposta por Weber? Não ign oran do as diferen tes

leitu ras existen tes acerca das bases epistem ológicas da sociologia weberian a, n os

parece im portan te resgatar aqu i a in terpretação proposta por Florestan Fern an des

em seu livro “Fundamentos empíricos da explicação sociológica”:

fu n dam en tais da explicação sociológica,

“Ao contrário do que acontece com Durk heim, o “método comparativo” desempenha, na técnica indutiva de Weber, um papel secundário, ainda que construtivo. Ele não é importante como instrumento de abstração, mas como elemento racional de controle. Bem analisadas e conhecidas as modalidades de manifestação de um fenômeno em condições sócio-culturais diversas e distintas, confrontam-se os resultados interpretativos e estabelecem-se dentro de que limites certos efeitos podem ou não ser atribuídos a determinados fatores causais, chegando, assim, à seleção das condições suficientes de tal fenômeno.” 47

A com pa ra çã o, n o s en tido propos to por Weber, ba s eia -s e em u m a es tra tégia

cen trada n a bu sca, n ão do paralelism o existen te

h istóricos, tom ados em su a

diversidade e singularidade. Selecionada uma unidade X, na qual está presente B,

con fron tam os X , seja com ou tras u n idades (diferen tes de X), n a qu al B tam bém

está presente, seja com outras unidades (similares a X), nas quais B está presente.

N)

de B 48 . Com esse procedim en to, torn a-se possível iden tificar den tro da

diversidade h istórica, determ in ados padrões in varian tes, cada u m deles poden do

Através desse processo, in vestigam os o possível con ju n to de cau sas (A +

variáveis, m as, sim , n a com paração en tre casos

en tre variáveis ou séries de

C

+

ser associado a uma trajetória histórica específica.

O

recu rso

desenvolvidos

por

à

com paração

está

Weber

a o

lon go

de

presen te

em

s u a

obra .

diversos

estu dos

Seu s

en s a ios

n o

47. Ver: FERNANDES, op. cit., p. 94-95

48.

La comparación en las ciências sociales. Madrid: Alianza Editorial, 1994.

Ver:

PANEBIANCO, An gelo.

Com paración y explicacion .

In :

MORLINO,

L.

y

em píricos

da

ca m po

SARTORI, G.

30

sociologia da religião, con stitu em u m exem plo bastan te fecu n do de aplicação do

m étodo com parativo.

Este projeto in telectu al, qu e se in icia com o en saio “A ética

protestante e o espírito do capitalismo”, irá se desdobrar em um extenso trabalho de pesqu isa, en volven do estu dos sobre o con fu cion ism o, o taoism o, o h in du ism o, o budismo e o judaismo antigo.

Ao com parar a ética de diversas dou trin as religiosas, Weber procu rou dem on strar a form a com o algu m as delas exerciam u m efeito acelerador sobre a racion alização da vida econ ôm ica, en qu an to qu e ou tras exerciam o efeito oposto. Este processo de in vestigação parece ter sido n orteado por três tem as fundamentais: “1) o efeito d as id éias religios as importantes s obre a ética s ecular e a conduta econômica do crente médio; 2) o efeito da formação de grupos sobre as idéias religiosas; 3) a determinação das características distintivas do Ocidente através de uma comparação das causas e conseqüências das crenças religiosas em civilizações diferentes.” 49

Ao con trapor Orien te e Ociden te, Weber desafia-se, m ais u m a vez, a bu scar

os fatores capazes de explicar as características sin gu lares assu m idas pelo

desen volvim en to h istórico n o Ociden te. Com paran do a in telectu alidade brâm an e e

a

con fu cian a, a profecia n a Grécia An tiga e n a civilização ju daica, a ética secu lar

n

o h idu sim o, n o pu ritan ism o e n o con fu cion ism o, Weber iden tifica problem as

u

n iversais, qu e se apresen tam , n o en tan to, de form a sin gu lar, n as diferen tes

socieda des . Os elem en tos de com prova çã o, gera dos a tra vés da a n á lis e

com parativa, servirão com o in stru m en to n o con trole racion al de su as h ipóteses

relativas ao desen volvim en to ociden tal. An alisadas e con h ecidas as m odalidades

de m an ifestação de u m fen ôm en o em situ ações sócio-cu ltu rais distin tas, torn a-se

possível estabelecer os lim ites n os qu ais certos efeitos podem ou n ão ser

49. Ver: BENDIX, R. Ma x Weber: u m perfil in telectu al.

p. 90.

Brasília: Un iversidade de

Brasília, 1986.

31

atribu ídos a derm in ados fatores cau sais, “…chegando-s e as s im à s eleção das

condições suficientes de tal fenômeno.” 50

II. ALGUMAS QUESTÕES ACERCA DA OPERACIONALIZAÇÃO DO MÉTODO COMPARATIVO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

O m étodo com parativo tem sido em pregado das m ais diversas m an eiras n o

campo das ciências sociais. Os distintos usos da comparação refletem diferentes posições acerca das relações existen tes en tre as teorias gerais e as explicações locais, os qu adros con ceitu ais e as técn icas de pesqu isa, a form u lação de hipóteses e sua validação.

Em seu trabalh o “The use of comparative history in macro-social inquiry ” 51 , Skocpol e Som ers iden tificam três tipos de an álise com parativa. O prim eiro des s es tipos en globa os es tu dos dedica dos a o exa m e s is tem á tico da co-variação existen te en tre os casos, bu scan do gerar e con trolar h ipóteses. Em u m a segunda categoria, situam-se os trabalhos nos quais o investigador analisa uma série de casos “com o objetivo de mostrar que muitos deles podem ser iluminados de maneira útil mediante um conjunto de conceitos e categorias ou por um modelo concreto” 52 . Neste caso n ão existe u m con trole efetivo da teoria, m as u m a espécie de dem on stração paralela. Ain da qu e este tipo de abordagem n ão perm ita falsear u m a teoria, cu m pre u m papel im portan te n o processo de

50. Ver: FERNANDES, op. cit., p. 95.

51. Ver: SKOCPOL, T. , SOMERS, M. The use of comparative history in macro-social inquiry. Comparative studies in

Society and History, 22 (April), p. 174-197. Citado por COLLIER, David. El método comparativo: dos décadas de cambio. In: SARTORI, G. , MORLINO, L. op. cit., p. 51-80. p. 58.

52. Ver: SKOCPOL, T., SOMERS, M., op. cit., p. 58.

32

elaboração de teorias, pelo m en os

ú ltim o

com paração de dois ou m ais casos,

recíprocas.

in tern acion ais. Um

n a

bu scan do por em evidên cia su as diferen ças

n o cam po dos

estu dos

d e

en foqu e,

iden tifica do

com o

contraste

contextos ”,

con s is te

essas diferen tes perspectivas de an álise, Skocpol e

Som ers propõe a n oção de “ciclo de in vestigação”. A debilidade presen te em

qu alqu er u m a dessas perspectivas an alíticas pode servir com o estím u lo para

que o pesquisador venha a recorrer a qualquer um dos outros enfoques:

Com o m odo de in terligar

“ um estudioso que recorre à “demonstração paralela”, pode

introduzir uma nova teoria, tratando de demonstrar como se aplica a muitos casos; assim um estudioso voltado para o “controle das hipóteses”, pode observar que essa teoria não se adapta a determinados casos e, em nível comparativo, formular e verificar hipóteses sobre em que caso se adapta ou não. Por sua vez, um estudo orientado para o “controle das hipóteses”, que confronta contextos distintos de maneira demasiado apressada, pode produzir uma investigação por “contraste de contextos”, na qual outro investigador trate de dar conta, com maior previsão, do significado da diferença entre contextos.”

A noção de ciclo de investigação permite situar o uso do método comparativo

den tro de u m cam po teórico-m etodológico abran gen te, com posto por m ú ltiplas

estratégias de abordagem dos objetos em píricos. É in egável, n o en tan to, qu e a

com provação e form u lação de determ in adas h ipóteses con tin u a sen do, para a

maioria dos autores, um dos principais objetivos do método comparativo.

Segu n do Marc Bloch , “…aplicar o método comparativo no quadro das ciências

em buscar, para explicá-las, as semelhanças e as diferenças

que apresentam duas séries de natureza análoga, tomadas de meios sociais

humanas consiste (

)

distintos.” 53 Os m eios sociais de qu e fala Bloch podem ser sociedades distan tes n o

53. Fica clara aqu i a in flu ên cia da perspectiva du rkh eim ian a. Ver: CARDOSO, C. F. e BRIGNOLI,

H. P. Os m ét od os d a hist ória : in trodu ção aos problem as, m étodos e técn icas da h istória

demográfica, econômica e social. São José: Universidad de Costa Rica, 1975.

33

tem po e n o espaço (essa aplicação do m étodo com parativo é bastan te própria da h istória), ou sociedades sin crôn icas, vizin h as n o espaço, e qu e possu em u m ou m ais pon tos de origem com u m . Este tipo de abordagem perm ite con ciliar, de u m lado, o trabalh o de elaboração teórica, de ou tro, o in teresse voltado à an álise de processos sociais específicos.

Bloch

iden tifica

dois

m om en tos

in eren tes

ao m étodo com parativo: u m

m om en to an alógico, relacion ado à

fen ôm en os, e u m m om en to con trastivo, n o qu al são trabalh adas as diferen ças

en tre os casos estu dados. Segu n do Targa 54 , para

precedên cia sobre a an álise em term os con trastivos, n ão apen as en qu an to passo

iden tifican do

possíveis elem en tos h istóricos ou estru tu rais sem elh an tes, tom ados en qu an to

“…lugar relevante das comparações pertinentes, das identidades e diferenças que

m etodológico, m as en qu an to form a

iden tificação das sim ilitu des en tre os

de

com preen são

Bloch ,

a

do

real.

an alogia

É

teria

permitirão

traçar

o

quadro

classificatório55 ,

qu e

podem os

dar

verdadeiro

peso

explicativo

às diferen ças. Ou tros au tores, n o en tan to, dão im portân cia a am bos os

momentos da análise.

O m étodo com parativo im plica em u m a série de passos qu e se articu lam de

form a

Procu ram os sistem atizar aqu i algu m as das dim en sões im plícitas n esse processo, sem ter a preten são de estabelecer fron teiras rígidas en tre as diferen tes operações

teórico-m etodológica s

m etodológicas.

diferen ciada

segu n do

distin tas

orien tações

teóricas

e

in eren tes

à

a tivida de

de

in ves tiga çã o

e

con s idera n do,

54. Ver: TARGA, L. R. P. Comentário sobre a utilização do método comparativo em análise regional.

Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 265-271, 1991.

55. Referin do-se à con stru ção do con h ecim en to n a ch am ada h istória n atu ral, Roberto Mach ado,

baseando-se em Fou cau lt, iden tifica dois tipos diferen ciados de com paração: o "sistem a" e o "m étodo". "O que distingue essas duas técnicas é que elas partem de critérios diferentes para estabelecer a classificação. Enquanto o sistem a privilegia um ou vários elem entos e relaciona através deles todos os indivíduos, o m étodo com para, a partir de todos os elem entos, um conjunto finito de seres vivos". Gu ardadas as diferen ças existen tes en tre cam pos distin tos do con h ecim en to, entendemos que esses dois tipos de utilização do método comparativo estão presentes, também no con texto das ciên cias sociais obedecen do, n o en tan to, n ão a u m a lógica classificatória, m as, sim, a u m a perspectiva de tipo relacion al. Ver: MACHADO, Roberto. Ciência e sa ber: a trajetória da arqueologia de Foucault. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982. p.128.

34

portan to, a existên cia de u m procedimentos:

certo grau

de sim u ltan eidade en tre estes distin tos

(i) A s eleção d e

comparáveis:

d u as

ou m ais

s éries d e fen ôm en os qu e s ejam

efetivam en te

A

seleção

dos

fen ôm en os

a

serem

estu dados

im plica

n ão

apen as

n a

defin ição de recortes claram en te delin eados n o tem po e n o espaço, e portan to, capazes de torn arem os u n iversos em píricos pesqu isados claram en te recon h ecíveis, m as, m ais do qu e isso, n a con stru ção de in stân cias em píricas

capazes de “reproduzir os aspectos essenciais dos fatos ou fenômenos investigados,

selecionadas e coligidas

estágio, o problem a da relação existen te en tre n ú m ero de casos e n ú m ero de

variáveis. Freqüentemente, nos estudos comparativos, o pesquisador trabalha com u m pequ en o n ú m ero de casos e u m gran de n ú m ero de variáveis, en fren tan do, em decorrên cia disso, u m a série de dificu ldades n o qu e diz respeito ao con trole das

h ipóteses. Por ou tro

u m “estiram en to con ceptu al”, n a m edida em qu e os sign ificados relacion ados ao

con ceito origin al, n ão se adaptam aos n ovos casos. Com o altern ativa ao problem a “m u itas variáveis/ N pequ en o”, su rgem , com o possibilidades, o au m en to do n ú m ero de casos, a aplicação de rigorosos critérios de seleção dos casos escolh idos e a redu ção do n ú m ero de variáveis. Esta ú ltim a opção tem , com o con trapartida, u m a m aior focalização da perspectiva teórica do estu do em term os de sua precisão analítica.

lado, o excessivo n ú m ero de casos pode levar, facilm en te, a

em totalidades coerentes 56 . Coloca-s e já , n es s e prim eiro

(ii) A definição dos elementos a serem comparados:

Esse pon to n os parece cen tral à m edida em qu e tem com o desdobram en to diferen tes altern ativas possíveis de trabalh o. Algu n s au tores, por exem plo, partem de m odelos explicativos previam en te con stru ídos, n os qu ais as variáveis a serem com paradas já se en con tram claram en te especificadas. Mesm o n esses casos, em qu e o esforço an alítico en volve a aplicação de u m m odelo previam en te con stru ido,

35

visan do iden tificar su a capacidade explicativa n os lim ites de u m a dada realidade,

a operacion alização do m étodo com parativo exige do pesqu isador u m a série de

opções qu e são decisivas do pon to de vista do resu ltado fin al do trabalh o de

in vestigação, u m a vez qu e con ceitos e con stru ções teóricas n em sem pre

estabelecem relações claras com gran dezas observáveis. Por vezes, as próprias

variáveis podem n ã o s er pertin en tes a u m a cu ltu ra ou u m regim e pa rticu la r. Em

ou tros estu dos, n o en tan to, as variáveis qu e deverão servir com objeto de

com paração são con stru ídas a partir da an álise dos próprios casos selecion ados, o

qu e é feito, por vezes, com o au xílio de ou tros procedim en tos qu e podem ser

associados ao m étodo com parativo, com o, por exem plo, a abordagem h istórico

estrutural.

(iii) A generalização:

O que faz com que um estudo comparado não se torne uma mera coleção de

casos in teressan tes?

comenta:

Falan do a respeito das gen eralizações,

Barrin gton Moore J r.

“As generalizações seguras assemelham-se a um mapa em grande escala de um terreno extenso, do gênero que um piloto de avião utilizaria para atravessar um continente. Tais mapas são essenciais para certos fins, tal como os mapas mais detalhados são necessários para outros. Ninguém que procure uma orientação preliminar do terreno deseja saber a localização de cada casa e cada atalho. Contudo, se a exploração for feita a pé, e atualmente o

his toriad or comparatis ta faz exatamente is s o, os pormenores s ão aquilo que primeiro apreende. O seu significado e a sua relação emergem apenas gradualmente. Pode haver longos períodos durante os quais o investigador se sente perdido num matagal de fatos habitados por especialistas ocupados em selváticas disputas

sobre se a vegetação é um pinhal ou uma floresta tropical. (

desenhar um mapa da zona que visitou, é muito possível que um dos nativos o acuse de omitir a sua casa e o seu jardim, o qual é de lamentar se o investigador lá tiver obtido algum sustento. A reclamação será tanto mais violenta se, no fim da viagem, o

) E se

36

explorador tentar descrever de forma muito sucinta, para os vindouros, as coisas notáveis que viu.” 57

A prin cípio, o qu e se espera, é qu e o m étodo com parativo, se bem aplicado,

possa servir com o u m a bú ssu la para qu e

viagem exploran do os cam in h os qu e se abrem n o decorrer do processo de

in vestigação sem se afastar dem asiado, n o en tan to, de u m trabalh o sistem ático

sen tido,

n os parecem fu n dam en tais as observações de Lu cien Goldm an a respeito do n ível

estratégico 58 . Segu n do esse au tor, as pesqu isas h istórico-sociológicas podem se

situ ar em diferen tes n íveis, qu e vão “da gen eralidade sociológica extrem a, à

sin gu laridade h istórica extrem a”. O problem a m etodológico con siste em

determ in ar o qu e o au tor ch am a de n ível estratégico. Isto im plica em determ in ar,

“o n ível, a estru tu ração do

paren tesco su ficien tes para ilu m in arem -se reciprocam en te, e, ao m esm o tem po,

com diversidade bastan te para dar origem a u m a lei estru tu ral qu e passe da m era

descrição ao fato individual.”

Isso im plica em descobrir os elem en tos com u n s aos diferen tes casos, típicos

para as diferen tes classes de casos, ou sin gu lares, qu e n ão podem se repetir. No

n osso en ten der, a correta iden tificação do n ível estratégico, represen ta, em term os

do m étodo com parativo, a ch ave capaz de garan tir a correta articu lação en tre os

dados empíricos e a teoria, na construçäo da explicação sociológica.

objeto qu e perm ita agru par exclu sivam en te fatos de

sobre as in terrogações qu e o m otivaram n o in ício de seu trabalh o. Nesse

o cien tista social con siga realizar su a

57. Ver: MOORE J r., Barrin gton . As origens socia is d a d it a d ura e d a d em ocra cia : sen h ores e

camponeses na construção do mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

58. Ver: GOLDMAN, Lu cien . Estru tu ra social y con scien cia colectiva de las estru tu ras. In :

LABROUSSE et allii. La s est ruct ura s y los hom bres. Barcelon a: Edicion es Ariel, 1969, p.104-

113.

37

IV- APLICAÇÃO DO MÉTODO COMPARATIVO NA PESQUISA SOCIAL EMPÍRICA:

BARRINGTON MOORE JR. E “AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA”

No

cam po

da

pesqu isa

social em pírica,

diversos

au tores

tem

u tilizado

o

m

étodo

com parativo

en qu an to

in stru m en tal

de

an álise.

A

títu lo

de

exem plo,

ju

lgam os in teressan te recon stitu ir aqu i, em

su as lin h as m ais gerais, o m odo com o

a

com paração

foi

u tilizada

em

u m

estu do

específico,

n o

caso,

o

con h ecido

trabalh o

democracia: senhores e camponeses na construção do mundo moderno”.

de

Barrin gton

Moore

J r.

en titu lado

“As

origens

da

ditadura

e

da

A obra de Ba rrin gton Moore J r. tem com o objeto de in vestiga çã o os distintos

papéis políticos desem pen h ados pelos gru pos sociais agrários (cam pon eses e

terraten ien tes) n a tran sição das sociedades agrárias pré-capitalistas para as

m odern as sociedades in du striais. Trata-se de in vestigar a participação dessas

categorias sociais específicas n a em ergên cia das dem ocracias parlam en tares

do fascism o e do com u n ism o n o m u n do con tem porân eo. Através da

de su a com paração, o au tor

qu e atribu iam a em ergên cia

ociden tais,

recon stitu ição h istórica de casos específicos e

preten de se con trapor a in terpretações, en tão aceitas,

dos regimes totalitários do século XX ao processo de industrialização.

O estu do da trajetória de diferen tes países, in clu in do aí os Estados Un idos,

a Fran ça, a In glaterra, o J apão, a Ch in a e a Ín dia 59, irá desven dar a existên cia de

múltiplas vias de transição que ligam o mundo pré-capitalista ao mundo moderno,

n as qu ais as forças sociais vin cu ladas ao u n iverso agrário tiveram u m perfil de

atuação bastante diferenciado.

Um prim eiro elem en to qu e m erece aten ção em relação ao m odo com o o

au tor se u tiliza do m étodo com parativo diz respeito aos critérios em pregados para

a seleção dos casos sin gu lares. Trata-se de u m u n iverso bastan te sign ificativo de

países, tan to do pon to de vista do n ú m ero, com o em term os de su a im portân cia

38

para a form ação do m u n do con tem porân eo. Referin do-se aos m otivos pelos qu ais

países com o a Su iça, a Escan din ávia, os Países Baixos, “do lado dem ocrático”,

ou Cu ba, Vietn am do Norte ou Coréia do Norte, n o cam po socialista, n ão foram

escolhidos como objeto de estudo, Barringtos Moore Jr. afirma:

“Este estudo concentra-se, em certas fases importantes, num processo social extenso que se verificou em diversos países. Fazendo parte desse processo desenvolveram-se, pela violência e outros meios, novos sistemas sociais que tornaram certos países condutores políticos em determinadas ocasiões, durante a primeira metade do século XX. O foco de interesse reside na inovação que

levou ao poder político, não na difusão e na recepção de instituições que foram aplicadas à força em qualquer outro local, exceto nos casos em que levaram a um poder significativo na política mundial

( )

históricas da democracia ou do autoritarismo que cubra tanto os pequenos países como os grandes poderia, muito naturalmente, ser tão vasta que não passaria de lugares comuns abstratos. Deste ponto de vista, a análise da tranformação da sociedade agrária a partir de países específicos produz resultados pelo menos tão compensadores quanto generalizações mais amplas. 60

uma declaração de caráter geral sobre as precondições

A escolh a dos países en con tra-se portan to in teiram en te vin cu lada, de u m

lado, à problem ática m ais geral qu e deu origem ao trabalh o, de ou tro, ao m étodo

de an álise em pregado. Não se trata portan to de gen eralizar a partir de u m

u n iverso con stitu ído pelo m aior n ú m ero de casos possíveis, com todas as su as

sin gu laridades e variações, m as sim de selecion ar países cu jo desen volvim en to

h istórico

in du strial

qu estão, ou seja, cu ja tran sição da sociedade

en volveu arran jos específicos en tre os diferen tes gru pos sociais, dan do lu gar a

form as sociais e políticas in ovadoras, e cu jas repercu ssões extrapolam os lim ites

estabelecidos por suas fronteiras nacionais.

apresen ta

dim en sões

sign ificativas

do

pon to de vista da an álise em

agrária

à

sociedade

39

A com paração en tre processos políticos eu ropeu s e asiáticos perm ite

rom per, por u m lado, com u m a visão excessivam en te “ociden talizada” do

desenvolvimento social, por outro, com um tipo de interpretação histórica segundo

a qu al, “existia apen as u m a estrada prin cipal qu e con du zia ao m u n do da

sociedade in du strial m odern a, a estrada qu e levava ao capitalism o e à dem ocracia

política”, trazen do à discu ssão casos n os qu ais a m odern izaçào assu m e con torn os

não democráticos ou mesmo antidemocráticos.

O n ível cen tral de an álise sobre o qu al se estru tu ra todo o trabalh o de

com paração desen volvido por Barrin gton Moore J r. é o estu do aprofu n dado dos

casos sin gu lares. Trata-se de in vestigar, em cada u m dos países, qu ais

com bin ações específicas de elem en tos qu e possibilitaram a em ergên cia desta ou

daquela configuração social, deste ou daquele “padrão” de transição. Estabelece-se

assim u m a ten são en tre “as exigên cias de explicação de u m caso sin gu lar e a

foram as

bu

sca de gen eralizações” 61. A passagem de u m n ível a ou tro de gen eralização n ão

se

dá, no entanto, de forma mecânica:

 
 

para

qualquer país considerado é preciso descobrir as linhas

de condicionamento, que nem sempre se ajustam facilmente às

teorias

de

caráter mais

geral. Contrariamente, uma

dedicação

muito intensa à teoria contém

sempre o perigo de se conceder

excessiva importância aos fatos que se ajustam a uma teoria, para além de dua importância na história de cada país.” 62

 

Cabe pergu n tar aqu i com o o au tor avan ça de u m n ível de gen eralização a

ou

tro,

ou

seja,

com o

con segu e

ir

além

do

estu do

de

cada

país

específico,

retom an do, em u m patam ar m ais elevado de abstração, as qu estões qu e lh e

serviram como ponto de partida.

61. MOORE JR., Barrington. op.cit., p.7 62 .MOORE JR., Barrington, op. cit p. 3.

40

é

resolvido através da con stru ção de u m a tipologia, por m eio da qu al torn a-se possível identificar três vias distintas de transição para o mundo moderno:

Em

As

origens

sociais

da

ditadura

e

da

democracia

este

problem a

1) Um prim eiro cam in h o, o das “revolu ções bu rgu esas”, percorrido pelas

sociedades in glesa, fran cesa e am erican a, n o qu al o processo de in du strialização

deu origem a sistem as dem ocráticos de

im portan tes qu e iden tifica estes países é a existên cia de u m gru po social, com

u m a

u m a

artífice da construção de uma nova ordem social; 2) Um a segu n da rota, a da “m odern ização pelo alto”, qu e deu origem ao

fascismo, na forma como este ocorre em países como a Alemanha e o Japão. Neste

caso, a presen ça de u m a bu rgu esia “fraca” e de u m a classe fortem en te

de terraten ien tes, perm itirá qu e se estabeleça u m a alian ça en tre os dois

qu ais irão con du zir o processo de in du strialização sob u m regim e semi- parlam en tar. A econ om ia se m odern iza sem qu e ocorram alterações m ais

profu n das n as estru tu ras sociais; o cam pesin ato con serva su a im portân cia em term os produ tivos e o exceden te passa a ser extraído pelas classes dom in an tes por m étodos políticos baseados sobretu do n o u so da força. O m ilitarism o aparece

con ta de u m processo m ais

am plo, qu e ocorria em m aior ou m en or grau em todo o ociden te, ou seja: a emergência dos trabalhadores como atores sociais; 3) Um a ou tra via n a qu al revolu ções cam pon esas dão origem aos regim es com u n istas, tal com o acon tece n a Ch in a e n a Rú ssia. Nestas sociedades m an tém -

com o altern ativa n o sen tido de u n ir as elites e dar

o

govern o. Um a das características m ais

en traves

existen tes

a

base econ ôm ica

in depen den te, qu e se con trapõe

do ca pita lism o” origin á ria

aos do pa ssa do, tornando-se

“versã o dem ocrá tica

en raizada gru pos os

se u m a vigorosa classe de cam pon eses. “Esta classe, sujeita às novas tensões e forças, à medida que o mundo moderno ia avançando sobre ela, produziu a principal força revolucionária e destruidora, que subverteu a ordem antiga e lançou aqueles

41

países na era moderna, sob a direção do comunismo, que tornou os camponeses as suas primeiras vítimas” 63 ; 4) Um a qu arta altern ativa, apon tada n o caso da Ín dia, n a qu al o im pu lso para a modernização se caracteriza por ser extremamente fraco, não dando lugar a nenhum tipo de revolução camponesa. Segu n do Ragin e Zaret 64 , as vias de tran sição para a sociedade m odern a identifica da s por Ba rrigton Moore J r., corres pon dem a os tipos s ocia is weberia n os , onde o estudo de casos historicamente referenciados conduz a hipóteses acerca da relação en tre determ in adas com bin ações de cau sas, vistas en qu an to arran jos tem porários, “padrões de in variân cia em m eio à diversidade”. Cada u m dos possíveis percu rsos h istóricos apon tados em “As origen s sociais da ditadu ra e da dem ocracia” in flu en cia, em su a trajetória, os percu rsos su bseqü en tes: as revolu ções bu rgu esas ocorridas n os EUA, n a In glaterra e n a Fran ça tiveram reflexos sobre os desdobram en tos h istóricos ocorridos n a Alem an h a e n o J apão e estes, por su a vez, afetaram as revoltas qu e levaram aos regim es com u n istas. Tratam-s e, porta n to, de explica ções de n a tu reza gen ética , qu e s e dis ta n cia m da s generalizações transhistóricas próprias da comparação durkheimiana.

Com Barrington Moore Jr. fica apontada assim uma abordagem comparativa fortem en te vin cu lada ao caso específico, tom ado em su a sin gu laridade, m as qu e tem com o resu ltado a con stru ção de tipologias m ais am plas, qu e tem por objetivo possibilitar , de u m lado, u m a releitu ra de explicações previam en te aceitas, de ou tro, u m a ru ptu ra, tan to com as in terpretações gen eralizan tes com o com as abordagens históricas excessivamente descritivas e empiricistas.

63. Ver: MOORE JR. , Barrington, op. cit., p.6 64 . Ver: RAGIN, C. e ZARET, D. , op. cit. 745-746.

42

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