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Manual Prático da Delinquência Juvenil

Sumário

Prólogos_________________________________________2

Manual Prático da Delinquência Juvenil__________7

Prólogo 1

Panfletagem Subliminar
Nada é verdadeiro, tudo é permitido
Leia o texto & mexa sua bunda gorda
Estamos em Território Inimigo & o Inimigo está em
nós. A primeira Grande Batalha contra o Império deve se dar
dentro de Nossas Cabeças.
Libertar nossa imaginação. Poderosos Feitiços
Publicitários iludem nossos Desejos mais Puros, Belos &

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

Loucos. Mau Olhado Policial que aprisiona nossa


Espontaneidade Selvagem. Engodos Geopolíticos, Castração
Gramatical contendo nossa linguagem transgressora.
As raízes do Poder Total do Império estão em nossa
psique e regem nosso cotidiano. O Assustador Buraco Negro
do Poder que tudo absorve & que tudo subverte & que lucra
zilhões com a revolta dos Pobres Formigomens, tristes Ibus
declamando discursos libertários para um Céu de Concreto.
Os Protestos & Discursos não devem mais ser
Espalhafatosos & Coniventes com a lógica do Espetáculo &
da Mídia.
Devem ser em Silêncio & Invisíveis: SUBLIMINARES.
Uma Terrível Conspiração agindo no subconsciente
das pessoas.
O Novo Ativismo Global encontra-se num beco sem
saída: A "Geração de Seattle" encontra-se presa à sua
própria mitologia. Os protestos contra a guerra não deram
em nada. Os tanques nas avenidas de Bagdá são um Triste
Retrato de uma derrota precoce.
Precisamos de Novas Táticas. Teatro Secreto. Loucos
Subversivos agindo na calada da noite. Vândalos & Bárbaros
criando Novas Situações que arrebentem as correntes da
Realidade Consensual.
Panfletagem Aleatória despertando Estranhos
Atratores numa caótica sociedade fragmentada

"Tornai-vos Invisíveis
Nada é Real-----Tudo é Permitido
Bárbaros Invisíveis que Nada Respeitam
Vândalos que fodem com o Cotidiano (mas que devem,
impreterivelmente, Gozar Dentro)"

Comícios em forma de Jogos Secretos. (experimente


fazer um comício em que as pessoas nem desconfiem tratar-

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se de um comício: PANFLETAGEM SUBLIMINAR) Terrorismo


Postal & Sabotagem Ideológica (Santo Hakim), mas lembre-
se que a Segunda Grande Batalha se dá no campo da
Semântica Corrompida. Aproveite que o Demônio está
embriagado com seu Vinho Do Poder & que os Magos não
estão do lado do Império.
Faça seu Ativismo Secreto & suas Loucas
Conspirações e no mundo real: seja um Delinquente,
Inconsequente & Demente.
---Delinqüente (por causa do estupro do espaço)
---Inconseqüente (por causa doestupro do tempo)
---Demente (por causa do estupro da linguagem).
Panfletagem Subliminar Já.

Prólogo 2
A Balada da Nossa Geração

Somos Muitos & Faremos Muito Barulho


Ironia, cinismo e sarcasmo são nossas armas.
Somos Infantis, Mal Educados & Alienados, somos
tudo o que o atual meio libertário mais odeia.
Nós escutamos o som alto sempre que isto nos
convém. Achamos que se o vizinho velho morrer de brabo
com a altura do som, é porque já era a hora dele.
Nós não bebemos água e não limpamos as unhas.
Nós não temos o costume de lavar as mãos antes
das refeições, a menos que elas estejam sujas. E só nós
mesmos temos condição de saber o que significa sujeira
para nós.
Nós não temos carro, só pra pedir carona &
roubamos o que temos vontade sempre que possível.
Queimamos Out-doors & Jogamos Merda nos bancos.
Somos Anti-éticos & Despudorados. Somos Rebeldes
& Não temos causa alguma além denos divertirmos e nos

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sentirmos livres.
Estamos pouco nos importando com o fato de
estarmos destruindo uma propriedade privada.
Isso é apenas vandalismo, nossa mais bela
manifestação artística.
IMPORTANTE (Leia isso antes de prosseguir)

É permitida a reprodução total ou parcial dos textos


contidos neste livro mesmo que a fonte, a obra e o autor
não sejam citados Estão todos autorizados a copiarem os
textos, modificarem o que quiserem, assumir a autoria e
utilizarem para o que bem desejarem.
Goze sem entraves
Seja realista, exija o impossível
Nada é verdadeiro, tudo é permitido.

Todos os direitos desta obra reservados à


Humanidade (qualquer cópia feita por alienígenas ou
repolhos disfarçados de humanos irá gerar uma tremenda
crise cármica cósmica)
«Você leu Rakimbeio e quer fazer terrorismio poetiquio mais
num sabe de que jeitio??? ..pois seus pobremas se
acabaram-se!!! Agora temos Ari Almeidia e seus
Delinquentios!!! Qualqué mané como vossê pode ser da
Vanguardia Rebeldia!!!»
( Seu Creysson)

Ficção ou Realidade: A Tosca Dialética da


Delinqüência...

É fato que nos últimos dois anos um jovem senhor


denominado com a “infame” alcunha de: Ari Almeida, vem
despertando a atenção de diversos mortais para as suas
ações junto de seu grupo: Os Delinqüentes.
Não é de hoje que lemos relatos miraculosos de Arte
Sabotagem, Terrorismo Poético, Ativismo Estético e outros

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conceitos mais – influenciados por Hakim Bey e outros


neosituacionismos – creditados a Ari Almeida & Os
Delinqüentes. Ficção ou realidade? Muito provavelmente a
resposta não pode ser dada. A verdade é que uma tênue
diferença separa estes dois conceitos quando pensamos nas
ações Delinqüentes. Pouco sabemos destes rapazes
delinqüentes, a não ser os relatos de seus supostos
“ataques” que se passam na fria cidade de Curitiba. O
Blogger Delinqüente, lugar onde Ari Almeida posta os
relatos, muito bem escritos e articulados, de suas ações
marginistas, já recebeu centenas e centenas e centenas de
acesos. Chamando até mesmo a atenção da grande mídia
corporativa, por ironia, um dos inimigos eleitos do bando
que de maneira suposta se escondem numa baiúca no
bairro Sítio Cercado, na periferia da capital paranaense.
Os Delinqüentes nada mais são do que um nome e
um excesso de suposições. Não existem fotos e nenhuma
outra referencia mais concreta, digamos assim, a estes
senhores, profetas do caos, além dos já citados relatos das
peripécias ideológicas libertarias do grupo. E é justamente o
relato de todos os ataques realizados até o final de 2003
que este MANUAL PRÁTICO DE DELINQÜÊNCIA JUVENIL
apresenta. Uma antologia do Caos Delinqüente Fnord-ico.
É evidente que a intenção que Ari Almeida & seus
Outros Delinqüentes possuem ao lançar esta compilação
completa e desesperada, nada mais é do que criar uma
motivação para que outras pessoas mecham suas bundas
obesas e ou esqueléticas de suas cômodas e acomodadas
poltronas e façam algo de “concreto” em prol de uma nova
realidade. Uma luta cômica e inusitada contra o Império. É
verdade que estes textos podem estar motivando o
surgimento de novos delinqüentes, vanguardistas e
provocadores que se disponham a fazer coisas que nem
mesmos estes tais de Os Delinqüentes tenham sequer
imaginado em fazer. E esse é o alvo. Entretanto novamente
surgira a pergunta: Ficção ou Realidade? Seja como for o
mérito será deles, mas muito melhor (maior) se for verdade.
Por: Danni-el MACEDUSSS
Autor do livro ainda inédito: 68 manifestos contra 68

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Manual prático de
Delinquencia Juvenil

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O Macarrão da mamãe é mais gostoso - (ato um)


Foi logo depois de começar a falar em Vandalismo &
Barbárie mais seriamente que um amigo apareceu com a
idéia dos pique-niques em supermercados. A princípio achei
pouco prática: os seguranças logo nos colocariam para fora
com chutes e pontapés. Eu estava equivocado, é preciso ser
esperto para subverter a ordem cotidiana. Quando se fala
em pique-nique logo vem à memória aquela imagem da
toalha estendida ao chão, cheia de frutas, doces e salgados.
Quem disse que pique-niques tem de ser assim? Essa
foi a primeira pergunta que me ocorreu. Depois foi o
seguinte: o que, realmente é um lugar público?
Supermercados são lugares públicos? É proibido comer
dentro de uma supermercado? Pra mim, estas são
perguntas inspiradoras. Por exemplo, é perfeitamente
normal sentar em banco de praça, tirar da bolsa um
sanduíche e comê-lo em paz. Mas fazer o mesmo em uma
loja de departamentos pode ser diferente.
De repente lá estava eu imaginando estas coisas
acontecerem. De repente lá estava eu entrando em contado
com amigos Delinquentes & Doentes e pronto: uma
inconsequente ação dos Novos Bárbaros estava sendo
arquitetada, descobrimos que sim, podámos criar situações
que subvertessem a rotina cotidiana e turbinasse a
realidade banal com um pouco mais de arte. O material
utilizado foi o mais básico e prosaico possível: marmitas de
alumínio e a sobra da comida do fim de semana. O mundo
moderno e seu tabus ocultos permite ótimas diversões pra
quem curte criar situações.
Domingo à tarde já estávamos com tudo pronto:
quarto marmitas cheias macarronada. O alvo: a C&A na
segunda à tardinha, assim que todos tivessem abandonado
seus trabalhos forçados. Faríamos uma operação
sicronizada. Cada um levaria uma marmita e estaria com
um relógio marcando a hora corretamente. Cada um abriria
sua marmita em um setor diferente da loja com uma
diferença estratégica de cinco minutos, o suficiente pra
deixar os funcionários doidos em sua correria.

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Seis e meia eu sento no setor de calçados, logo


depois de dizer à atendente que estava apenas olhando os
modelos e puxo minha marmita de macarrão. A funcionária
fica visivelmente constrangida sem saber se fala algo ou
não. De canto de olho vejo que ela se dirige ao segurança e
pergunta algo. O segurança fala ao walktalk e cochixa ao
ouvido. Foi mais rápido do que eu esperava.
- Moço, eu sinto muito, mas aqui não é o lugar adequado pra
fazer uma refeição.
- Porquê?
- Sabe como é, tem os outros clientes e pode ser que
alguém não se sinta muito à vontade.
- Sentir-se muito à vontade? Quem não está se sentindo
muito à vontade aqui sou eu.
- Senhor, procure entender...
- Moça, preste bem atenção, se o filho daquela mulher de
vestido vermelho que está experimentando as sandalhas,
quiser comer as batatinhas fritas que a mãe dele tem na
bolsa, não vai poder?
- Mas senhor, é diferente...
- O que é diferente? Pelo que me consta aquelas batinhas
tem muito mais cancerígenos que esse belo macarrão feito
com todo amor e carinho por minha mãe.
A discussão estava se prolongando por mais tempo que a
pobre funcionária planejara e o segurança logo se deu por
conta disso e veio em seu auxílio.
- Algum problema?
Nem deixei a moça responder.
- Claro que estamos com um problema, um problemão!
Parece que o filho daquela mulher ali de vermelho não está
podendo comer seus salgadinhos.
- Não é isso, o problema não é com o menino... (a
funcionaria começou a ficar realmente nervosa)... esse
senhor aqui não quer entender que isso aqui é uma loja de

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departamentos e não um restaurante!


- É claro que isso não é um restaurante, não comprei essa
macarronada aqui, não roubei ela de lugar algum e não vejo
porque não comê-la.
O segurança era um daqueles típicos grandalhões seguros
de si e sem medo algum que as discussões descambem pra
violência.
- É o seguinte seu panaca, acho bom você levantar daí meio
logo antes que as coisas se compliquem de verdade pro teu
lado.
- As coisas não podem se complicar muito, comer
macarronada é uma tarefa extremamente simples.
- Rapaz, eu não tô aqui pra conversa fiada não, tenho mais o
que fazer.
Nisso começou a me puxar violentamente pelo
cangote; pelos meus cálculos o Jean já estaria abrindo sua
marmita no setor das calçinhas e sutiãs. Hora de chamar
pelo gerente, sem esquecer da salutar dose de escândalos,
para que não só o gerente deixe de vir e ainda leve umas
porradas na saída de serviço ou no depósito.
- Ô seu macacão, eu quero falar com o gerente!
- Cala a boca rapaz!
- Calo a boca o cacete!! (eu já estava começando a gritar)
Compro nessa loja à anos, nunca atrasei um pagamento e
exijo a presença do gerente!!!
Nisso alguém chamou ele pelo rádio e me tranquilizei
sabendo que o Jean tinha se manifestado. O grandalhão me
soltou pra falar no rádio e pude me recompôr. O gerente já
estava vindo. Finalmente eu veria como se saem os
gerentes quando os problemas saem da rotina.
- Com licença, posso saber o que está acontecendo aqui?
Nessas horas um bom arruaçeiro deve saber se
comportar dignamente e utilizar aquela cartinha bem
educada que estava guardada na manga.

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- Senhor, está ocorrendo um grande equívoco.


Nisso uma pequena multidão de curiosos já
começava a se formar ao nosso redor.
- Essa funcionária, que me atendeu muito bem, diga-se de
passagem, confundiu tudo e não permitiu que eu desse uma
leve enganada no estômago antes que escolhesse um par
de tênis, estava realmente me interressando por aquele
Nike de 349 Reais.
- Mas senhor, tudo bem que você esteja um pouco faminto,
nesse caso era só comunicar algum de nossos funcionários
que prontamente conseguiríamos um lugar mais resevado
para fazer sua refeição, o senhor concorda?
- Não! Não concordo não! Quer dizer que o menino vai ter
de sair da loja pra comer seu salgadinho?
- Creio que o senhor não está entendendo.
- Do meu lado eu creio que alguma coisa muito errada está
acontecendo aqui, este não é um ambiente em que eu,
como cliente em potencial, não deveria estar me sentindo
em casa?
- Mas senhor...
E aí começou toda uma ladainha gerencial cheia de
palavras bem colocadas & chavões de bom atendimento &
aquele velho papo furado de que "o direito de um acaba
onde começa o direito de outro". O Jean devia estar se
saindo bem, pois uma funcionária veio falar ao ouvido do
gerente e os seguranças (agora eram três) desciam
apressadamente as escadas em direção ao setor de moda
masculina. Era o Vinicius e olha que o Vinicius é muito mais
sarcástico e panfletário que eu.
O gerente gaguejou pela primeira vez, pediu pra
funcionária que tinha me atendido que ficasse um pouco
comigo e pediu licença prometendo voltar em poucos
minutos. A menina ficou comigo sem dizer uma palavra,
totalmente indignada pela situação. E eu contendo a
vontade de rir; bem que alguém podia chamar a polícia para
as coisas começarem a realmente ficarem grandes. Grande

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

dia! Grande dia!


O combinado era que assim que a quarta marmita
fosse aberta pelo Fábio no térreo, quinze pra sete, todos
fossem para lá e daríamos abraços e beijos em todos. Foi
um plano perfeito, diga-se de passagem, devíamos ter
filmado a coisa toda, mas tudo bem, essas coisas vão ficar
fotograficamente registradas em nossas memórias para o
resto de nossas vidas.
O gerente estava demorando e a funcionária estava muito
inquieta.
- Querida, pode dar uma volta pra relaxar que não tem
perigo de eu voltar a comer, quer um pouco?
- Não, obrigada, respondeu ela, com a melhor cara de nojo
que conseguira.
- De nada, baby.
Nisso bateu as sete e quinze e levantei-me de onde
estava sentado. A funcionária deu um salto assustada de
onde estava e logo voltou a sentar-se, reconhecendo o
ridículo da situação. Triunfantemente dirigo-me ao térreo
onde o Fábio estaria sem enxergar um segurança sequer,
deviam estar todos ocupados.
Encontrei a galera toda reunida com o Vinicius ainda
discutindo com o gerente sobre o conceito de lugar públicos
e privados e uma considerável multidão em volta. Eu tinha
panfletos no bolso. Gosto de carregar certos panfletos no
bolso. Jamais esquecerei a cara de tacho que o gerente fez
quando o Vinícius fez uma cara de bravo, falou que não
discutiria mais e catou nossas marmitas e jogou no lixo mais
próximo.
- Realmente vocês tem razão! Este é um sagrado lugar de
comprar onde não se deve nunca, jamais, cometer a heresia
de não gastar. Senhor gerente! Estes três delinquetes
juvenis são meus irmãos e o senhor pode ter ser certeza
que contarei tudo, tim-tim por tim-tim para nossa mãe e
esses três marginaizinhos ficarão pelo menos um mês sem
comer macarrão.

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Então começamos a nos dirigir para a saída da dando


tchaus e beijinhos em todos os curiosos que estavam com
algum sorriso no rosto. Disturbios Cotidianos são aquilo que
eu considero mais divertido ultimamente. Antes de sair,
virei-me para trás e joguei todos os panfletos com a frase
"Seja realista, exija o impossível" que tinha no bolso, falando
em alto e bom tom:
- Um forte abraço para todos vocês!!!!

O Crime Não Compensa - (ato dois)

Ainda não tínhamos analizado a arte sob a ótica do


Distúrbio Cotidiano até que Sergio Augusto, nosso amigo
das antigas, metido a artista plástico, chegasse do interior
com dezenas de colagens, frutos de seus trabalhos mais
recentes. Digo que ele é metido a artista por considerar que
chamar alguém de artista plástico hoje em dia equivale a
xingar os parentes do sujeito até a oitava geração
ascendente. Me chame de filho da puta, mas não me chame
de artista. A arte escontra-se mercantilizada, afetada,
eletizada, enfim, totalmente corrompida de sua original
função transgressora.
Os trabalhos do Sergio estavam bons demais para
serem vendidos a um advogado ou a algum empresário do
ramo das seguradoras. Todos nós éramos unânimes quanto
a isso, mas o consenso sumia quando pensávamos em qual
destino adequado a uma autêntica obra de arte. O Vinicius
queria queimá-los em praça pública por considerar que a
arte autêntica deveria soar como uma heresia. E o destino
dos hereges é a fogueira.
O Fábio considerava que o ideal era solenemente
esquece-los no Terminal de Ônibus do Boqueirão. Eu
cogitava a hipótese de enviá-los pelo correio a destinatários
escolhidos ao acaso na lista telefônica. Após horas e horas
de papo intelectual besta foi o Jean quem veio com a idéia
definitiva: o crime, a ilegalidade, o impacto de um
Terrorismo Poético ou de uma Arte-Sabotagem.
Invadir uma casa e pregar os quadros na parede,

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substituindo os eventuais quadros que já estejam lá.


Ótimo. Perfeito. Explêndido. Só tinha um problema,
uma questão crucial: nenhum de nós jamais tinham
invadido uma casa e a possibilidade de sermos pegos ou
dispararmos o alarme era altíssima.
- Seria se eu não tivesse uma carta na manga, não teria tido
essa idéia se já não pensasse numa solução.
- E qual é? Você conhece algum ladrão?
- Não! Mas você lembra da Juliane, que eu agarrei a uns
tempos atrás?
- Aquela patricinha que fazia direito na PUC?
- Exato! Faz uns quatro meses que a gente não se vê, mas...
Bingo! Tenho cópias das chaves da casa dos pais delas!
- Não acredito!
- Não boto fé!!
- De onde vocês acham que eu tirei aquele candelabro de
prata que a gente vendeu pra poder acampar na Serra dos
Órgãos?
Genial. Um plano perfeito (e sempre fomos viciados
em planos perfeitos). Analisando friamente, não era um
plano difícil de levar a cabo. Era só escolher o dia e a hora
certa e ter muita cara-de-pau, o que, modéstia à parte,
nunca nos faltou.
O mais difícil foi convencer o cagão do Sergio a ir
junto, já que consideráva-mos sua presença fundamental.
Deveria ser ele o Maravilhoso Vândalo a pregar o primeiro
prego na "parede da burguesia". Alguma pesquisa e alguns
telefonemas depois e pronto: domingo à noite a família
inteira da Jú estaria num jantar no Clube Sírio-Libanês de
Curitiba.
O pior é que o sergio demorou mesmo a se
convencer, ainda tava naquelas de sonhar com vernissages
e resenhas em cadernos culturais.
- Sergio, isso é só um brinquedo, um exercício para depois

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sonhar mais alto. Se nada der certo, valeu a diversão e a


sensação de fazer algo.
Ontem, domingo, lá pelas nove e meia da noite
estávamos todos prontos. Mais ou menos prontos, pois
nossas mãos suavam de cagaço. Podíamos muito bem ser
presos. Minha mãe diria que DEVERÍAMOS ser presos. O Jean
já conhecia bem o bairro e a casa, tinha namorado a Ju por
uns três meses. Isso me tranquilizava um pouco. Mas não
tranquilizava o Fábio. O Cara tava cagado de medo.
- Não tem alarme lá não, cara?
- Tem, só que fazia um ano que o vô da Ju não trocava a
senha, o velho é meio supersticioso, se trocou agora é muito
azar, tá ligado?
- Puta que o pariu!
- Não dá nada, cara, não dá nada.
O cara que falou que o crime não compensa é um
puta de um mentiroso. Compensa pela adrenalina. A Juliane
morava no bairro do batel e fomos de ônibus. Não
conversamos nada a viagem toda, tamanho era o clima de
tensão no Interbairros I. Grandes invasores! Grandes
Terroristas Artíticos. Um bando de cagões, isso sim.
Descemos e contornamos a quadra até a rua paralela
que daria nos fundos da casa. Escalamos um muro que dava
em um estacionamento para funcionários de uma loja de
sapatos que estava fechada.
- Não tem vigilante aqui?
- Cala a boca!
Escalamos a "Churrasqueira de Confraternizações"
da loja de sapatos e encaramos a parte mais difícil do plano
do Jean, que era a cerca eletrônica da casa da Ju.
- Esse troço dá um choque de uns 100 volts.
Um de cada vez, nos agarramos num galho de uma
mangueira e pulamos, quase nos estoporando no chão do
pátio. Salto mortal mesmo. Eu pulei na boa. Pulou o Fábio
numa boa também. Depois o o Vinícius eo Jean. Mas o cara

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mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto caiu todo


errado e torçeu o tornozelo.
- Aaaaaaiiii!!!!!!!
- Cala a boca seu paunocuú!!!! - susurramos todos.
- Quer foder com tudo?
- Mas tá doendo, porra!!
- Te fode cara, aguenta as pontas!
O Jean estava realmente com pressa e nem nos deixou
discutir.
- Vamos correndo por esse corredor que tem um trinco
maneiro na janela do banheiro do quarto da Ju.
- E as chaves?
- As chaves são pra nós saírmos, é muito bandeira um
bando de malucos entrar numa mansão dessas pela porta
da frente.
Realmente era muito fácil. Com um simples pauzinho
o Jean empurrou alguma coisa e a jenelinha do banheiro se
abriu.
- Agora vocês ficam aqui que eu tenho quinze segundos pra
desligar o alarme!
Ficamos. E olha que o cara demorou pra caralho. a
cada segundo parecia que o alarme ia disparara.
Todo mundo se olhava nervosamente. O Fábio estava
prestes a sofrer um ataque cardáco. O Sérgio só gemia com
seu tornozelo torçido.
- Ou torçeu o tornozelo ou quebrou mesmo.
- Cala a boca, sua bixa!
Devem ter passado uns trocentos minutos até que o
Jean apareceu na janelinha do banheiro com a cara mais
safada do lado de cá da Galáxia.
- Beleza galeraaa!!!! O alarme tá desligado.
- Urrúúúú!!!!!

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- Calem a boca seus paunocús!!!!


A casa era de burguês mesmo. A Juliane tinha mais
dois irmãos e cada um lá, com seu quarto individual, com
banheiro e tudo em cima, som, TV, micro. Filhos da puta.
tinha tudo: sala de leitura, sala de home teatcher. Bem que
podiam fazer uma sala para peidar, uma sala para se
masturbar. Deu vontade de quebrar tudo ou pelo menos
roubar um monte de coisas, mas o objetivo não era esse.
Trocar os quadros que já estavam na parede era fácil:
o Fábio e o Vinícius já estavam fazendo isso.
Pregar novos pregos e modificar o lay out de tudo é
que era o desafio. Pra isso dar certo só faltava o último ítem
do plno do Jean: a empregada. O quarto da Rosicleide ficava
lá nos fundos, as chances dela ouvir nossos cochichos eram
baixas, mas pregar coisas nas paredes era bem mais foda.
A esperança do Jean era que, conhecendo ela do jeito
que ele conhecia, ela tivesse dormindo ouvindo seu
sonzinho. Ela quase sempre fazia isso. Fim de semana
sozinha em casa então: era batata. Jean voltou correndo
feliz:
- Massa! Ela tá ouvindo Bruno & Marroni!!
Foi então que o Sergio solenemente, com todo o
senso de gradiloquêcia que a situação exigia, pregou o
primeiro prego. No lado esquerdo da lareira. No lugar exato
que ele cuidadosamente escolheu. Ali, no seu ponto
escolhido, pregou sua obra preferida. Nós pregamos todos
os outros pregos enquanto ele ficou ali, vivendo seu
momento único com a obra que mais admirava.
Não demoramos muito. O sucesso do trabalho
dependia da velocidade, mas posso te garantir que o Sergio
viveu seus três minutos de perfeição. Por três minutos viveu
sua própria arte e a arte, exaltada em sua essência, viveria
ali por ele, quando todos nós fugíssemos do lugar.
O que não demorou. era o Jean quem dava as
ordens.
- Toque de recolher, povooooo!!!!!

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Começamos todos instintivamente correr pra


janelinha do quarto da Ju quando o Jean nos lembrou: "O
alarme tá desligado e eu tô com as chaves seus manés".
Saída triunfal pela porta da frente. Tomando o cuidado para
deixar tudo fechado, é claro. Saímos todos em silêncio com
os respectivos peitos estufados.
Foi só chegar na rua que o cagaço bateu de novo,
saímos correndo feito uns loucos. Corremos umas trÊs
quadras e começamos a correr e rir feito uns loucos. Foi só
um começar a rir que ninguém mais conseguiu parar. O
Sergio até curou o tornozelo e garagalhava
demencialmente. A adrenalina e o cagaço eram tantos que
corremos por umas duas horas. Foi massa.
Hoje é segunda feira e estou aqui no trampo com as
pernas todas doídas da correria. Ninguém consegui dormir à
noite. Sono do caraaaalho e ainda não sei explicar direito o
significado do que fizemos, mas me sinto feliz. Muito feliz. O
cara que falou que o crime não compensa é um puta de um
mentiroso.

O Foto do Tijolo na Vidraça Todo Mundo Acha Bonito


(mas o tijolo na virdraça mesmo...) - (ato três)

Uma vez li em algum lugar, acho que no site da


Fraude: "sempre se envergonhe daquilo que você escreve".
É assim que funciona comigo quanto à poesia. Passa um
ano, um ano e meio e são raros os poemas que eu leie e não
me envergonhe. Já faz um tempão que não escrevo poesia e
o primeiro sujeito que me aparece dizendo que a poesia
está morta já vou aplaudindo.
Outro dia eu estava andando no calçadão da Quinze
e apareceu um cabeludo ofereçendo livrinhos de poesias por
dois reais. Soltei meu chavão preferido:
- A poesia está morta! E só curto necrofilia quanto tô
bêbado.
O que anda me desanimando na poesia é justamente
isso: a gaiola onde ela anda aprisionada. Você escreve

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

lindos versos e, ou os deixa na gaveta, dando-lhes vida


apenas nos momentos em que lhes dá atenção, ou então
você os explora feito o cabeludo do calçadão, imitando
aquelas senhoras pobres que levam seus filhos pra
esmolarem no centro da cidade e ficam cuidando
escondidas na esquina, recolhendo as moedas dos filhos a
cada meia hora.
Andei pensando muito nisso porque depois da
invasão da casa da Ju, o Fábio ficou meio traumatizado
devido ao estresse e à overdose de adrenalina e andava
escrevendo feito um aluscinado. O poeta oficial da turma
sempre foi o Sergio, com seus arroubos de paixão, só que
ultimamente andava se ocupando demais com as telas.
- Ari, a gente podia fazer alguma coisa com as poesias...
- Fazer o quê, Fábio?
- Sei lá, tipo alguma coisa parecida com o que a gente fez
com as telas do Sergio.
- Que tal a gente xerocar uma porrada de poemas e colocar
cada um dentro de um livro na Biblioteca pública, O Tiba
trabalha lá e dá pra gente fazer.
-Não, nada a ver, isso é idéia de gerico.
- O quê então?
- Sei lá... Vamos pensando, porra.
O Sergio torçeu o tornozelo de verdade naquela
noite. Na hora da correria não sentiu nada, mas no outro dia
o negócio amanheceu inchado, teve até que ir no postinho
de saúde enfaixar. A semana passou então com todos meio
que recolocando as idéias no lugar. A invasão porém, foi um
sucesso e ninguém estava a fim de parar. Foi na quinta-
feira, quando o Sergio tirou as faixas do pé que saimos pra
beber e comemorar que o Fábio veio com mais uma
Fantástica Idéia & um Plano Perfeito.
- Galera! Já sei o que fazer com as poesias!
O Jean deu sua coçadinha de barba típica:
- Ih! Já tá viajando de novo!

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

O Vinicius sempre foi mais ácido:


- O Fábio tendo idéias? Dessa vez a gente cai com os hôme!
- Vão se fuder! O Plano é perfeito. Ouçam crianças: a gente
escreve cada poema, no caso eu escrevo, à mão, em
papeizinhos pequenos. Depois a gente amarra os poemas
com linha de costura em bolinhas de gude e, com um
estilingue e... (fez uma pausa para o suspense)... fizemos a
distribuição nas vidraças da classe média.
Perfeito! O terrorismo poético que o Hakim Bey falou.
- Olha a do cara, meu! Tava todo cagado de medo por ter
arriscado o pescoço domingo e agora já quer sair quebrando
vidraças por aí!
- Se é pra fuder, vamos fuder com tudo de uma vez, porra!
Curti a idéia pra caralho. O Fábio é o tipo do cara que fica na
dele a maior parte do tempo e de repente surpreende a
gente.
- Eu consigo façinho umas cinco bicicletas lá em Colombo,
depois a gente compra aquelas tocas pretas que os
Zapatistas usam, vamos todos vestidos de preto e com
luvas pra dificultar a identificação e pronto!
Gostei da idéia mesmo e nos dias seguintes ficamos
tratando de conseguir o material, algumas roupas pretas
emprestadas e tocas e luvas a cinco reais nos camelôs da
Praça Osório.
Vinicius escolheu o bairro: Jardim Social e fez um
mapinha esquematizado com rotas & fugas. Eu e o Sergio
iríamos pela BR 116 com três poemas e pixaríamos cada um
deles em algum ponto do trajeto. O Jean e o Vinicius iriam
pela Av. Nossa Senhora da Luz com outros três poemas e a
mesma tarefa com o spray. Idéia de quebrar o orçamento do
Sergio: cada poema pixado com uma cor diferente, idéia
besta de artista plástico besta, azar o dele, teve que pagar
os sprays.
Fabio ficou com o último poema pra fechar o número
sete, pois anda pirando com o Calendário Maia e umas
paradas de numerologia. O cara tem umas piras com o

19
Manual Prático da Delinquência Juvenil

número 23 que ninguém bota fé. Ele iria sozinho, à deriva,


sem rota planejada e iria nos esperar às quatro da manhã
na Praça Villa Lobos, de onde fujiríamos feito uns loucos
novamente.
Logo depois da meia-noite eu e o Sergio partimos
com nosso material terrorista. As bicicletas que o Fabio
conseguiu pra nós eram umas belas bostas. A minha
escapava a correia a cada duas quadras e a do Sergio era
cor-de-rosa, altamente gay. Mas tudo bem, lá fomos nós BR
à fora escolhendo lugares pra pixar os poemas.
Não posso dizer que fizemos um trabalho bem feito.
Nossas bikes eram uma merda e meu colega, basicamente
um inexperiente em vandalismos & delinquências. O
primeiro poema ficou num muro de um terreno baldio meio
nada a ver. O segundo foi melhor, foi numa daquelas
passarelas pra pedestres que atravessam as rodovias. Foda
foi escrever de cabeça pra baixo.
O terçeiro foi mais massa. Pulamos um muro e
pixamos do lado de dentro. Vandalismo exclusivo. Não é pra
qualquer um. E o poema era bom, pixado de vermelho vivo.
Muito louco.
Fiz uma gambiarra pra correia parar de escapar e
tivemos que pedalar às ganhas pra chegar no Jardim Social
às três da matina. O Sergio carregava os "Cartuchinhos
Líricos" como eu chamava os poemas amarrados em
bolinhas de gude e o estilingue. Eu iria atirar, já que ele
nunca tinha caçado passarinho na vida. Se o Sergio fosse
atirar acho que precisaria de uns 49 poemas pra acertar
uma vidraça de 10 metros de largura a quatro passos de
distância.
A primeira casa foi fácil: a vidraça era grande e o
muro era perto. Um facilidade traiçoeira, pois fizemos a
coisa rápido demais, sem pensar na fuga e a filha da puta
da rua tinha uns duzentos metros até a próxima esquina.
Correria dos diabos. Foi ouvir o som da vidraça quebrando e
parece que o peso da realidade se abateu sobre nós, sobre
mim principalmente.
Corremos umas cinco ou seis quadras, aí parei e

20
Manual Prático da Delinquência Juvenil

joguei o segundo poema de qualquer jeito, quase de olhos


fechados e quase sem pensar. Eu parecia o Fábio na casa da
Ju, cego & paranóico de cagaço. Nem lembro da casa direito,
ouvimos os estilhaços e saímos correndo alucinados de
novo.
Dessa vez corremos bem mais até eu achar um muro
que desse num terreno baldio.
- Rápido cara, joga a bike pro outro lado!!
- O que foi? - Sergio parecia irritantemente calmo.
-Joga, cara! Joga!!!
Jogamos as bicletas e sentei ofegante no meio de um
mato de ervas daninhas. Estava exausto e apavorado. Na
casa da Ju era um lugar fechado que o Jean conhecia bem.
Agora era diferenre, estávamos na rua, onde qualquer
insone podia enchergar da janela do quarto e não
conhecíamos o bairro direito. Acendi um cigarro. Minhas
mãos tremiam.
- Temos que apurar, Ari, senão a gente se atrasa.
- Calma!
- Já são dez pras quatro e você acha que a polícia vai
demorar muito mais de cinco minutos pra aparecer?
Aí parece que a realidade desabou novamente sobre
mim. Era verdade, a mais pura verdade. Então parece que
um raríssimo senso de heroísmo se abateu sobre mim. Corri
uns cinquenta metro pelo matagal e pulei um muro altíssimo
(sinceramente, não sei como consegui) que dava numa casa
nos fundos do terreno. Caí no pátio e fiz tudo
automaticamente sem raciocinar, o tipo de coisa que se
você pensa, você não faz. Na janela que dava naquilo que
eu achava ser o quarto dos donos da casa estiquei o
estilingue e, a menos de dois metros de distância, soltei o
projétil. Deu pra sentir os cacos de vidro no rosto. E deu pra
ouvir gritos dentro da casa. Parei o mundo deles, rêrêrê.
Juro que nunca corri tanto na vida. Tinha uns
espinhos no matagal e me arranhei todo sem nada sentir na
hora. Magicamente o Sergio já estava esperando com as

21
Manual Prático da Delinquência Juvenil

bicicletas do outro lado do muro. Mirei o olhar numa placa


de trânsito no fim da rua e pedalei com todas as minhas
forças. Nem olhei pra onde o Sergio estava e nem olhei pra
nada. Foi então que a porra da correia escapou de novo e no
pau que eu estava me estoporei no chão.
Mesmo com a tocas de lâ meu rosto arrastou no
asfalto e ralei o nariz e machuquei o cotovelo.
- Você tá bem cara? Se machucou?
- Foi nada, bora, bora, bora!!!!
- Tem certeza?
A adrenalina era tanta que eu não estava sentindo
nada. Chegamos na praça já estavam todos esperando
impacientes.
- Porra cara, vocês demoraram pra caralho!
- Pensamos que vocês tinha sido pegos.
- Que diabos vocês estavam fazendo?
- O Fabio ainda tem que jogar o dele!
- Que foi isso no teu nariz, Ari?
Nisso ouvimos as sirenes da polícia. Puta que o pariu,
a hora do Amargedom. O Fábio saiu correndo em direção a
uma mansão do outro lado da praça. O meu coração parecia
que ia sair pela boca. O Jean olhava para os lados
nervosamente. O Fabio correu, subiu num muro alto, esticou
o estilingue, fechou um olho, deitou a cabeça pro lado
acertando a pontaria e gritou:
- Bota pra fudêêeeeer!!!!!
Ouvimos o som da vidraça partindo e já saímos no
pau. O som das sirenes já estavam bem alto e o alarme da
mansão disparou, apoclíptica a cena. O Fábio tava ficando
pra trás, mas ainda deu pra ouvir ele gritando:
- Fujam que eu dou um jeito!!
Se a gente tivesse um cronômetro na hora acho que
teríamos batido altos recordes de velocidade.

22
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Iaba daba dúúúú, me alcançem seus paunocúúúú! - Gritou


o Vinicius se cagando de dar risada.
- Corra, Forrest, corra! - Respondeu o Jean.
Em menos de dez mintuos estávamos todos sentados
no escuro, ofegantes, na frente do Jardim botânico. Quer
dizer, todos menos o dono da bicicleta da correia podre, eu,
que levei outros dez minutos pra chegar. Dessa vez não
ríamos tanto quanto na semana passado porque o Fábio
tinha ficado pra trás. Quase ninguém falava nada, até que o
Jean foi num posto de gasolina próximo buscar umas
cervejas e voltou com o Fabio no bagajeiro. O desgraçado
escapou!
- Seus boiolas! Eu tava brincando quando falei pra fujirem
sem mim.
- E a bicicleta?
O cara, emocionado com sua aventura, disse que
tava tão feliz que deixou ela num viaduto de presente pro
primeiro que a encontrasse, com uma sacolinha plástica
cheia de panfletinhos com a frase: "Seja realista: exija o
impossível" e veio andando até que o Jean o encontrou.
O Fabio realmente ficou em êxtase. Fomos andando a
pé até a kitinete do Jean e do Vinicius bebendo uma cerveja
de cada boteco que encontramos pelo caminho. Chegamos
em casa oito e meia da manhã, selvagemente bêbados &
feliz. Êita mundinho estranho, sô!

Quarenta e Dois Decibéis de Exorcismo - (ato quatro)

Assaltantes de banco são o tipo de bandidos mais


respeitados pelos colegas de cadeia. Ao contrário dos
estupradores, que, dizem, tem seus cuzinhos comidos lá
dentro, assaltantes de banco tem uma puta moral nos
presídios. Isso porque todos sabem que banqueiro & ladrão
são a mesma coisa. Sempre se soube de histórias de
pessoas que deviam os tubos a bancos e cometeram
suicídio. Crise financeira sempre foi a maior causa dos
suicídios. Eu diria que bancos são contra a vida:

23
Manual Prático da Delinquência Juvenil

definitivamente são lugares do mal.


Depois da aventura das vidraças quem ficou com
sequelas físicas fui eu. O nariz todo vermelho de ralar no
asfalto & o cotovelo direito doendo e inchado. Queria agora
alguma coisa com menos riscos de tombos. O Fábio não
cabe em si, de tanto orgulho do nobre destino que seus
poemas tiveram. Está Feliz & definitivamente convertido aos
Distúrbios Cotidianos.
- Me sinto um rei, um monarca dos meus atos loucos.
- Viajão!
- Você não tem espelho, não?
- Meu espelho são meus atos, neles eu me reconheço,
rárárá!
Fábio já é um típico chato contador de vantagens,
depois de sábado então, ninguém atura mais suas
explosões de lirismo de boteco.
- Pessoal, eu tava afim de uma coisa mais light durante a
semana.
- Que foi, Ari, tá com medo?
- Mais ou menos, sábado foi muito foda.
- O quê então?
- Tava afim de abençoar um banco de novo.
Vinicius, que tinha achado engraçada a história do
dia em que eu tinha me vestido de padre e entrado num
banco, concordou no ato.
- Claro, véio! Tô doido pra participar de um negócio desses!
- Quero ser o coroinha, falou o Jean.
- Eu faço um catecismo, com uma capa louca!!- Gritou o
Sergio da cozinha, onde estava fazendo uma de suas
indefectíveis tortas de maçã.
O Fábio mora em Colombo e sua mãe é costureira,
entreguei meu vestidão preto de 27 Reais que ainda estou
devendo na firma, pra mãe dele dar um jeito pra que fique o

24
Manual Prático da Delinquência Juvenil

mais parecido possível com uma batina. Ele diria a mãe que
era pra uma apresentação de teatro. Não deixa de ser. O
Sergio ia fazer umas hóstias, dessa vez ia ter que ter
hóstias. Superprodução, com participação do time completo.
O alvo seria o Banco Santander da Av. Floriano,
durante a semana na hora do almoço, quando todos
estivessem livres de seus Trabalhos Forçados ou Aulas
Alienantes.
A batina ficou espetacular, tinha até uma cruz
prateada bordada no peito. Jean conseguiu outro candelabro
de prata que tinha roubado da casa da Juliane, um vidrinho
vazio de óleo de oliva importado para a água-benta e uma
roupa para atuar de coroinha. Quando tentei exorcizar um
banco, fui logo expulso do local porque minha roupa era
altamente mandrake e minha água-benta estava numa
garrafa de Coca-cola, tava na cara que eu não era um
padre.
Agora seria diferente, nossa indumentária era
decente. Vinicius queria ser o padre, ficou dois dias
decorando umas passagens do Apocalipse e rabiscando
sermões.
O sermão do caixa-eletrônico. O sermão da fila
organizada. O sermão do saldo zero e por aí vai. Eu,o Fábio
& o Sergio seríamos os fiéis penitentes, inadimplentes do
Imposto de Renda.
- Não pagamos impostos, mas amamos Jesus Cristo Nosso
Senhor.
Nos encontramos em frente ao banco cinco para o meio dia.
Logo na entrada: o saguão dos caixaseletrônicos.
O Vini/Padre andava lentamente e com uma
expressão grave inacreditável. Usava uma barba postiça e
uns óculos redondinhos pra lá de cômicos. Quase caímos na
garagalhada quando o vimos. O Jean de cabeça baixa, com
a humildade conveniente a um coroinha iniciante, hilário.
Aproximaram-se do primeiro caixa.
- Que Deus abençoe e livre a alma de quem se aproxima
desta máquina criada para o mal.

25
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Uma menina que estava no caixa ao lado deu uma


risadinha, mas logo tapou com a palma da mão. Um senhor
idoso, que estava mais longe e que não estava conseguindo
digitar seus dados direito pergundou surpreso:
- O quê?!
- Que Deus perdoe a pobre criatura, cientista ou engenheiro
não sei do quê, que projetou esta máquina satânica.
Todo mundo no saguão já estava olhando. O padre
entoava umas orações com a voz baixa, quase sussurrando
enquanto o coroinha abeçoava as máquinas com sua água-
benta. Uma das meninas que auxiliam os clientes chegou
perto, toda educada & com um sorriso magnífico.
- Posso lhe ajudar em alguma coisa senhor?
- Deus lhe abençoe minha filha, como entro na agência?
- Pela porta rotatória, senhor, se tiver carregando alguma
coisa metálica, como um molho de chaves por exemplo ou
telefone celular, deixe na janelinha ao lado está bem?
- Obrigado.
Deixaram os apetrechos de metal na janelinha e
entraram sob o olhar desconfiadíssimo do guarda de
segurança. Eu e os outros olhamos de longe e entramos
logo depois. O Padre & Seu Coroinha distribuiram os
catecismos aos clientes que estavam na fila. O catecismo
trava-se de um cartão dobrado ao meio, com um desenho
colorido do Sergio na capa e com o seguinte texto dentro:
"A maior parte do dinheiro no mundo não existe,
não tem ligação alguma com nada material. No
entanto, tem uma influência decisiva nas coisas
materiais. Inclusive em nossas vidas. Essa é a
mais perfeita descrição de uma entidade
espiritual. Uma entidade do bem certamente não
é, dadas as desgraças que o dinheiro causa ao
mundo. Com certeza essa entidade não está do
lado de Deus. É um demônio, trazendo a miséria
& a injustiça ao mundo. A fome, as guerras & o
sofrimento. O dinheiro é o mal"

26
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Um catecismo simples, mas eficiente. Todo mundo na


fila comentava algo com o vizinho, uns rindo e outros com
sinais de desprovação. Alguém deve ter dado a ordem, pois
uma atendendente veio imediatamente acompanhar o
Reverendo Vinicius & Seu Coroinha.
- Não esqueçam, irmãos! Deus reserva o perdão às almas
arrependidas. A entrada do céu é estreita, porém não se
cobra ingresso, não há consumação & o Paraíso é infinito.
- Amém, esclamamos eu, o Fábio e o Sérgio, cada um em
um ponto estratégico da agência, formando um triângulo.
A questão é que se a princípio a gerência deixou
nosso teatrinho rolar solto, era porque não sabia se tratava-
se de um padre mesmo ou não. Jamais um gerente de banco
iria faltar com educação com um padre na frente de seus
clientes. Só que depois que o "padre" começou com aquele
sermão estranhíssimo ficou claro que alguma coisa estava
errada.
- Você está com oitocentos e não sei quantos reais
negativos na conta? Não se preocupe, Deus não consulta o
SPC.
O Jean estava distribuindo as hóstias aos sorridentes
clientes que visivelmente estavam adorando o sermão do
simpático pároco anti-capitalista, quando o gerênte
aproximou-se. Mas o Universo de repente conspirou a nosso
favor e na hora que o gerente falaria, uma senhora baixinha
com uns 70 anos o interrompeu.
- Padre, Deus que me perdoe, mas acabei brigando com
meu neto por não lhe dar o dinheiro que ele queria.
- Acalme-se minha senhora, sem saber, a senhora o ajudou.
- Mas senhor... (o gerente parecia atônito, muito mais que o
gerente da C&A do dia das macarronadas)... vamos
conversar um pouco?
- Conversar o quê, irmão?
Então um dos guardas de segurança passou pra ele
um exemplar de nossos catecismos. Ele pôs os óculos e leu
em silêncio, compenetrado. O negócio durou uns

27
Manual Prático da Delinquência Juvenil

segundinhos apenas e o gerente olhou pro lado em direção


a três seguranças que, no fundo da agência, já estavam
doidinhos pra serem chamados. O maior deles veio
correndo.
- Estes rapazes resolveram “brincar” de padre no lugar
errado, chame por favor um policial que está de plantão do
outro lado da rua.
Sujeitinho esperto & decidido, se ligou mesmo que
era sacanagem nossa. Tirei o chapéu pra ele, mas de nossa
parte resolvemos tirar o time de campo e zarpamos pela
porta rotatória. O Jean mandou sua função de coroinha à
merda e tentou sair pela tangente rapidinho também. Na
hora em que estava saindo da agência o segurança grandão
o agarrou pela roupa de coroinha.
- Onde pensa que vai?
- Tenho que voltar ao trabalho...
- Não sem ouvir umas verdades antes.
Então, na maior das intolerâncias, deu um tapa na
cara do Jean, tão forte que o coitado chegou cair de costas
no chão. Fábio viu o que estava acontecendo e voltamos
correndo pro banco.
- Solta o cara, seu otário, ele não fez mal algum!
- Não se meta!!
- Me meto sim, não gosto de injustiças.
Enquanto o Fábio discutia com o segurança, eu e o
Sergio juntamos nosso colega e o arrastamos pra fora,
finjindo que ele estava mal, muito mal. Os clientes que
assistiram a cena ainda nos olharam atravessar a rua e
sumir de vista, logo depois veio o Fábio.
- Sujeitinho babaca, você tá bem Jean?
- Tranquilo, não foi nada, só um susto.
O Vinicius ficou sozinho e deu um monte de
explicações ao gerente, na tentativa dele não chamar a
polícia. Falou que era um seminarista novato e que

28
Manual Prático da Delinquência Juvenil

acreditava em cada vírgula do que tinha dito e que curtia a


Teologia da Libertação e que por favor, pelo amor de Deus,
não fizesse nada que seus superiores pudessem descobrir e
que jurava que estava fazendo a coisa certa e que Deus
abençoa as almas sinceras e mais uma porrada de coisas.
Encheu tanto o saco do coitado do gerente com sua
ladainha que acabou se safando.
Acabou ficando por isso mesmo, o policial chegou a
entrar no banco, mas o gerente pediu para deixar quieto,
que a situação estava sobre controle e que o jovenzinho
estava apenas um pouco nervoso. Quer dizer, mais ou
menos por isso mesmo, a velhinha que tinha negado
dinheiro ao neto virou sua devota, ficou dando tchauzinhos
e jogando beijinhos enquanto ele saía do banco. Acreditou
mesmo na parada. E a mina da risadinha do caixa-
eletrônico, se engraçou no Vini e curtiu a cena toda do início
ao fim.
Nos encontramos todos no termômetro da Praça Rui
Barbosa. Foi divertido pra caralho, o tipo de história que fica
melhor conforme se lembra & conforme se conta. O
termômetro da Rui Barbosa tem uma parada que marca os
decibéis pra medir o nível de ruído da praça. Berramos de
felicidade e fizemos um duelo de gritos feito uns retardados.
Jean, trinta e cinco decibéis acima do que estava
marcando. Sergio e Fabio empataram, trinta e oito decibéis
cada um. Eu, tomei no cú, trinta e três decibéis, estava
rouco.
O grande vencedor: o Padre Louco, São Vinicius,
padroeiro dos cara de pau, quarenta e dois decibéis.

Umas Surpresinhas Para Uns CD-Players - (ato cinco)

Um dia uma amiga me ligou contando que tinha


recebido um estranho postal. Não tinha remetente, apenas
uma frase escrita com letras recortadas de revista, no estilo
dos bilhetes que os sequestradores enviam. A frase era: "O
mundo está estranho ou sou eu que não presto?"

29
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Lembrei disso porque no dia em que fizemos a


"missa" no banco, Vinicius pegou o telefone e o endereço da
mina que tinha se engraçado nele e estávamos discutindo
como ele entraria em contato. Vinicius queria usar o
"Método Sérgio Augusto de Abordagem."
O método usado por nosso amigo artista plástico
consiste em presentear a pessoa com estranhos fetiches
pelo correio. Um CD, um cartão, um verso, uma flor, tanto
faz o presente, a questão é a distância e a aura de mistério.
Sérgio sempre fez isso com as mulheres, se mantendo
anônimo até onde era possível. Só que com o Vini teria de
ser diferente, pois não era anônimo.
- Eu posso chegar perto da casa dela e mandar um moleque
entregar um bilhete num tom dramático: "Socorro, ajude-
me, salve um gato na frente casa tal, endereço tal". Aí
espero ela em cima de uma árvore na frente da casa.
- Ih, cara! Não sei, acho que não, ela não vai levar a sério o
bilhete. - Respondeu o Jean.
O Fabio ainda tava naquela viagem dos estilingues.
- Convida ela pra sair num bilhete e manda ver na vidraça
da casa dela.
- Tá viajando, cara? Ele tem uma mãe e um pai que
certamente não vão gostardo teu romantismo e é provável
que nem ela vai levar a coisa na boa.
No fim acabou usando a maneira mais prosaica: ligar
para sair. No entanto seguimos conversando sobre mandar
coisas pelo correio e o assunto acabou chegando no postal
de minha amiga e em Fraude Postal.
- Taí cara! Uma coisa massa pra gente fazer fim de semana!
– Gritou o Jean do canto da sala.
- Fraude postal?
- Pode crêr!!
- Não dá, veio. O correio não funciona fim de semana.
- Correio o caralho! Nós seremos os carteiros!

30
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Que coisa mais brega...


- Seria se não fizéssemos as coisas um pouco diferentes.
- Diferentes?
- Claro! Aos invés de deixarmos as coisas nas caixas de
correio, podemos invadir o pátio ou talvez as casas e deixar
em lugares estratégicos.
Grande Jeanzinho! A galera toda tava se coçando de
vontade de fazer umas invasões de novo, invadir a casa da
Ju tinha sido muito tesão. Só que dessa vez não teríamos
manha nenhuma pra invadir nenhuma casa, seria território
altamente desconhecido. O Fábio foi quem teve a idéia
macabra da vez: gravar uns Cds com uns sermões do
"padre" Vinicius e tentar deixar o disquinho dentro do CD-
player das casas. Arriscadamente genial. O tipo de idéia
perigosamente sedutora. Optamos por atacar um bairro
mais da periferia com menos chances de terem alarmes.
Não deu outra passando a madrugada de sexta
inteira fazendo planos e capinhas pros CDs. Vinicius foi que
investiu grana no negócio, comprou dez Cds virgens e foi
com o Fábio gravá-los na casa do Tharsis, que tinha o
gravador. Gravou uns discursos verdadeiramente
emocionados, no fim do discurço gravou aquele som brega
do Evaldo Braga, “Sorria sorria” só pra avacalhar e não se
levar a sério demais. Quase nos cagamos rindo ouvindo o
resultado depois, ficou muito muito engaçado.
Sábado à noite pegamos o Interbairros V e fomos até
o Terminal Fazendinha, desta vez com presença feminina, a
mina do Vinícius, Marília é seu nome, topou ir junto.
Levamos um garrafão de vinho pra beber depois e o
mocamos numa árvore no parque que tem perto do
terminal.
Decidimos não nos dividir e enquanto eu o Vinícius
agíamos, os outros ficaram de campana pra avisar se
qualquer coisa desse errado. Marília não quis ir junto de jeito
nenhum. Afinal, sábado de madrugada é uma hora meio
suja pra vandalismos. Muito movimento, muito gente
acordada vendo TV até tarde...

31
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Na primeira casa tudo indicava que seria moleza,


todas as luzes estavam apagadas e as casas vizinhas
estavam em silêncio, tudo indicava que daria pra arrombar
e cada um dos outros ficou escondido atrás de uma árvore
na rua. As aparências enganam, pulamos o muro e fomos
em direção à janela da cozinha, que com apenas um vidro
quebrado daria pra entrar. Quando chegamos perto, eis que
surge um enoooorme cachorro de não sei que raça babando
de raiva. Meu coração quase parou, gritei pro Vini e saímos
correndo desesperados. O filho de uma cadela ainda
acordou todos os outros cachorros da vizinhança. Corremos
todos e abandonamos a rua.
Tentativa frustrada.
Andamos um monte até acharmos uma outra casa
em condições. Tinha um puta de um jardim na frente e era
bem tranquila, entenda-se: sem cachorros. Forçamos todas
as janelas até que uma cedeu, quer dizer, mais ou menos
cedeu, foi só puxar um pouco e o trinco na verdade
quebrou.
- Deus deve ser um vândalo - Disse o Vinicius sorridente.
Entramos com relativa facilidade, o mais difícil foi
achar o som no escuro munidos apenas de um isqueiro.
Encontramos o aparelho no que aparentava ser o quarto do
casal. Enquanto o Vinícius colocava o disquinho, escrevi a
frase padrão no guarda-roupa: "Seja realista, exija o
impossível". Saímos rapidinho e sem desepertar nenhum
cão alerta. Sucesso total.
No fim da rua encontramos outra casa vazia. Desta
vez tivemos que quebrar o vidro da janela da cozinha e o
cachorro da casa ao lado latiu. Íncrível como tem cachorro
nessa porra dessa cidade. Os caras ouviram os latidos e
começaram a assobiar indicando perigo.
- Não dá nada, vamos nessa!!! - O Vinícius tava ficando
ousado.
Entramos na cozinha e me cortei um pouco a mão
com os estilhaços. O som estava na sala e desta vez não
escrevi nada, o cachorro do vizinho e os assobios da galera

32
Manual Prático da Delinquência Juvenil

estavam me deixando nervoso. O ousado Vinícius teve


então a idéia mais imprudente da noite, talvez até da sua
vida, pular o muro da casa ao lado que tinha o cachorro
latindo.
- É um cachorrinho pequeno e barulhento, deve latir pra
qualquer coisa e ninguém deve dar bola e além do mais
parece que não tem ninguém em casa.
Não consegui convencê-lo do contrário, o povo da
campana parou de assobiar e ele pulou o muro. Só que
dessa vez o lazarento quebrou uma enorme de uma vidraça
que fez um barulho assombroso. O cachorrinho quase se
esganiçava de tanto latir. Bateu um cagaço incontrolável e
fuji do local. Admito, fui covarde e abandonei um colega em
pleno campo de batalha. Os outros, principalmente Marília,
já estavam desesperados.
- Cadê o Vini?
- O cara fez um barulhão!! Vamos andando depois ele nos
alcança!
- Nada! Vamos esperar senão vai ser foda achar ele de novo.
Uns três minutos depois ele surge com sua carinha
deslavada dizendo que deu tudo certo. Ninguém quis saber
de detalhes e saímos correndo todos. Corremos mais umas
oito quadras até chegarmos a uma rua bem mais deserta
mesmo, dessas esquecidas pela prefeitura, com os postes
cheios de lâmpadas queimadas.
Sergio, sempre o mais cagão da turma, logo se
manifestou:
- Nessa rua acho que entraria numa casa com voçês pra
pintar umas paradas nas paredes.
- Cara de pau, fica aí!
Era uma rua bem tranquila mesmo, bem escura e
com um terrenão baldio no fundo. Limpeza total. Só que a
Marília começou a ter uns chiliques de nervosa e o Vinícius
teve que ficar com ela, o Jean que foi comigo dessa vez.
Entramos numa que estava com as janelas abertas e as
luzes apagadas. Arriscado pra caralho e minhas mãos

33
Manual Prático da Delinquência Juvenil

suavam. Meus colegas estavam ousando demais pro meu


gosto, acho que alguém vai ter que cair pra galera se ligar.
- Jean, voçê tá ficando louco?
- Esse não é um trabalho pra mariquinhas.
Espiamos pela janela da sala, tinha um sujeito
deitado num sofá dormindo embaixo de um cobertor com a
televisão ligada. Pulamos a janela bem devagarinho
desejando loucamente sapatos de veludo. Pé por pé
analisamos a sala na penumbra e localizamos o som. Jean
trabalhava enquanto olhei rapidamente os outros cômodos
da casa, ainda bem, o sujeito estava sozinho e eu fiquei
cuidando. O cara deitado no sofá roncava & dava um peido
a cada trinta segundos. A sala tava fedendo pra cacete, tive
que tapar o nariz.
- Cara, tá me revoltando o estômago. – Cochichei.
- Se você vomitar aqui eu te mato!
Quando o eject do aparelho foi pressionado, fez um
barulhinho que regelou minha alma, começei a tremer
incontrolavelmente, pensei que ia ter um troço.
Jean colocou o Cd bem devagarzinho e na hora que o
negoçinho fechou, deu uma estaladinha que fez nosso
mundo desabar. De baixo do cobertor do morador saiu um
cachorrinho, acho que um filhote, latindo pra cacete,
levantei de onde estava pra fujir e escorreguei no tapete. O
Jean desapareceu pela janela da sala. A hora que levantei e
dei uma olhada pra trás deu tempo do cara levantar o rosto
e me encarar. Foda, foda, foda! Nem lembro o que se
passou na minha cabeça, tá tudo meio confuso até agora,
lembro apenas que pulei a janela num Cagaço Animal e
cheguei na rua gritando feito um louco:
- Vamos embora! Embora! Embora!
- Cala a boca idiota!!!
O dono da casa saiu muito indignado, só de
bermudão e camiseta regata com Uma Careca & Um
Barrigão enormes & uma chave de carro na mão. Pulamos
um muro a uns 50 metros de distância e ficamos todos em

34
Manual Prático da Delinquência Juvenil

silêncio, acuados. O cara então entrou Caravan marrom


podre de velha e saiu rondando o bairro atrás de nós. O cara
ficou brabo mesmo, ele e seu cãozinho que não parava de
latir na janela do carro.
Ficamos agachados atrás do muro um tempão. Eu
estava nervoso, toda vez que alguém falava em saltar fora
eu pedia pra esperar um pouco mais.
- O homem viu meu rosto, foi foda, a gente chegou a se
encarar.
O Jean dava risada da minha cara e me tirava onda até me
deixar louco.
- Ri baixo, cara, ri baixo!
Foi então que Vini e Marilia vieram animados dos
fundo do terreno baldio.
- Gente! Dá pra siar por aqui!
Tinham achado uma trilha no meio do mato que dava
num campinho de futebol. Daí foi fácil, corremos e rapidinho
estávamos de volta no Mocó do Garrafão de Vinho. Bebemos
& Rimos até enchermos a cara. Fábio subiu numa árvore do
parque e uivou de bêbado feito um lobo. Eu bebi demais e
acabei chamando o Hugo, vomitando cada vez que
lembrava dos Peidos do Gordão. O Sergio que não bebe e é
devoto de Nossa Senhora Dona Preguiça, dormiu. Vinicius &
Marília sumiram, acho que transando em alguma Moita
Anônima e o Jean ficou tocando sua mini gaitinha de boca
que carrega sempre no chaveiro.
Uma melodia dormindo com a noite, pra embalar uns
poucos sonhos.

O Discreto Charme de uma Briga de Boteco - (ato


seis)

Durante a semana que passou começamos a discutir


mais seriamente os métodos e efeitos reais de nossa
Panfletagem Subliminar. Em nossos últimos ataques ao

35
Manual Prático da Delinquência Juvenil

cotidiano corremos riscos demais, cagaços realmente


assustadores. Não esquecerei jamais o olhar daquele gordo
peidorrento que me flagrou em sua sala.
Ainda por cima no domingo, durante minha infernal
ressaca do vinho que tomamos na comemoração no Parque
da Fazendinha, um temporal diluviano desabou sobre
Curitiba com direito a toneladas de granizo. Um sinal,
interpretei como um sinal.
Sem contar que a imprudência de meus colegas, em
especial do Jean, Vinicius e Fabio, certamente nos colocará
em sérias enrascadas se mudarmos de atitude.
- É o seguinte galera, precisamos baixar a bola.
- Com certeza! - que o Sergio fosse concordar eu já sabia.
Sergio sempre foi um cara calmo e tranquilo. Foi
muito foda convençê-lo a fazer aquelas paradas com os
quadros na noite da invasão. Depois disso ele ficou mais
decidido, passou a ir com a gente nos ataques, por exemplo.
Mas enfim, dá pra se dizer que agora ele tá funcionando
como uma âncora pra gente.
O problema é o Vinícius, que na hora do pega pra
capar chuta o pau do barraco e se arrisca à toa; O Jean que
anda numas de se misturar e puxar assunto com chaveiros
e o Fabio, que tá pirando em comprar uma arma. O Fabio
até que dá pra descontar porque é só papo, tipo aqueles
cachorros pequenos que latem pra caralho e não mordem.
Pra resumir a questão eu tava afim de um negócio
sem riscos pra dar uma relaxada e uma acalmada nos
ânimos. O Sergio, aproveitando a oportunidade, foi o que
mais insistiu nos conceitos de Panfletagem Subliminar.
- É legal, fazer um discurso sem que as pessoas se liguem
na parada.
- Mas o que estamos fazendo não deixa de ser isso. -
Retrucou o Fabio.
- Sim, mas eu tava pensando numa coisa mais ao pé da
letra, tipo TFO, Terrorismo de Formação de Opinião.

36
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Aí a galera foi à loucura com as viagens do sujeito.


- Agora eu vi que você pirou!
- Porquê que todo artista gosta de vir sempre com essa
banca de surreal?
Mas o Sergio teve uma idéia, dessas tipo eclipse, a
cada noventa anos.
- Pra fazer um TSO a gente bola tipo uma peça, tem que ser
um troço que choque as pessoas, que toque a pessoa fundo
e que clame por discussão, tipo construir uma opinião
apartir do alicerçe.
- Não tô entendendo porra nenhuma!
- A gente faz num bar, tá ligado? Num bar. Vamos todo
mundo combinado e começamos a discutir e levantar certas
lebres.
Taí, Sergio demorou mas chutou a gol. Armar o maior
rebuliço num boteco, como se fossemos todos estranhos e
começar a discutir assuntos estratégicos.
Eu chamaria esse tipo de operação de TPAO,
Terrorismo de Pulga Atrás da Orelha, mas tudo bem, a idéia
foi dele, tenho que aceitar.
Por fim escolhemos um boteco perto do Terminal de
Ônibus do Guadalupe, no centro. Escolhemos a Lanchonete
Tropical porque tava frio e chovendo e achamos o nome
palhaço. O assunto seria o "arrastão" que uns assaltantes
fizeram num condomínio da alta burguesia aqui em Curitiba:
dicutiríamos o direito à propriedade privada. Sutilmente é
claro.
Jean entrou no boteco com a Tribuna do Paraná da
semana passada, pediu uma cerveja e ficou lendo a matéria
do assalto. Uns minutinhos depois entrou a Marília,
namorada do Vinícius, comprou uma carteira de cigarro e
quando viu a reportagem que ele tava lendo comentou:
- Esses assaltantes se deram bem, hein? Devem estar na
praia agora, só curtindo. Né tio? O tio dono do bar deu uma
risadinha meio sem graça.

37
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- É! ... pelo menos roubaram gente rica, né?


- É isso aí! - Pegou seu cigarro e saiu fora
Então, quando a Marília sai do bar, Jean se manifesta:
- Quer saber de uma coisa? Aqueles caras fizeram uma baita
dum trabalho bem feito, nenhum daqueles riquinhos sentirá
muita falta das coisas que os assaltantes levaram.
- É isso aí, s-sangue bom! - Resmungou um mendigo com
seu martelinho de pinga na mão.
Então o Vinícius se encostou no balcão e pediu um
pastel e um pingado, ele seria O reacionário.
- Esses filho da p-puta p-precisam se fu-fuder um pouco. - O
carinha tinha que se escorar no balcão pra não cair de
bêbado.
- Se eu pudesse pagaria uma cerveja pros caras.
- Só!
Vinícius então olhou com uma cara de indignado pros
dois. Eu o Fábio permanecemos quietos, cada um em uma
mesinha, ele com uma cerveja e eu com uma Tubaína de
framboesa de 600ml e 80 centavos.
- Escutem aqui vocês dois, estão elogiando pessoas que
roubaram cidadões honestos que ralaram pra comprar o que
tem. Ladrão agora é gente?
- Ninguém fica rico trabalhando, tem roubar pra chegar lá,
se o sujeito tem muito, pode ter certeza que é às custas de
muita gente terem pouco.
- Ah, cala a boca, como você pode falar uma merda dessas?
- Falou o Vinícius, já levantando a voz.
Jean baixou os olhos no jornal e ficou quieto. Então o
Fábio gritou da mesinha onde estava.
- Caralho, não acredito nisso! Cidadão! Chegue aqui mais
perto! - Estava fazendo uma cara de invocado e Vinicius se
aproximou com uma expressão cautelosa.
- Na natureza não existem posses, todos os bichos vivem

38
Manual Prático da Delinquência Juvenil

em harmonia porque nenhuma onça é dona de nenhum


mato, nenhum peixe é dono de nenhum açude e nenhum
pessarinho tem pagar aluguel pra fazer ninho.
O bebum deu uma sonora gargalhada e eu me meti
na conversa.
- Os cachorros mijam e aquele mijado passa a ser dele, tipo
fica dono.
Todos me olharam, até o dono do bar e os outros
fregueses que começaram a prestar atenção na discussão.
Nesse meio tempo entrou o Sergio e um engraxate que
estava na porta e que começou a engraxar seus sapatos.
- Peraí rapaz, o cachorro não demarca o território como se
fosse SEU, só faz isso pra fazer tipo uma residência e sentir
um tipo de conforto, a natureza é harmônica. Se tudo fosse
de todos não existiria roubo.
Aí o povo que estava no bar começou a se manifestar
também, cada um com sua opinião, Vinícius que parecia o
mais exaltado.
- Se um filho da puta ousar invadir minha casa pra pegar um
pedaço de pão sequer eu encho o lazarento de bala.
O mendigo pediu mais um copo de pinga, desta vez
dos grandes e começou a prestar atenção.
- Você fala isso porque deve ter tudo de bom em casa e não
deve te faltar nada.
- Tenho! Tenho sim e foi às custas de muito trabalho.
- E se teu pai perder o emprego, como tá acontecendo com
muita gente?
- Roubar é que eu não vou.
O mendigo tomou o resto da pinga de um gole só e soltou
essa pérola:
- Quem n-nunca p-passou fome não sabe mesmo p-porque
se rouba.
Todos olharam pra ele e dessa vez foi o engraxate
quem deu risada.

39
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Você sabia que se pegarmos todo o dinheiro do mundo e


repartissemos entre todos ficaríamos todos ricos e a
economia ia pra cucuias? Sabe porquê? Porque essa merda
de mundo do jeito que está precisa de pobres para que
aquilo que os ricos possuem, tenha algum valor! A única
vantagem de você ter um carrão importado é que os outros
não tenha e assim poder esnobar.
O Jean fechou o jornal, não era mais necessário e deu
sua opinião:
- Concordo com isso. - Só pra deixar o Vini mais puto ainda.
-Não acredito! Isso é papo de vagabundo que tem medo de
trabalho. Você pensa que o desemprego é tão alto assim?
Alta é a vagabundagem. Todo mundo tem direito de ter tudo
aquilo que puder comprar.
- É, mas tem gente que tem demais. - Comentou o dono do
bar.
- É verdade, falei.
Fabio tava começando a se entusiasmar:
- Se ninguém tivesse direito de possuir nada como se fosse
seu, só seu, praticamente não existira crime, pois ninguém
pode roubar nada se pertence a todos. Nem a polícia
precisaria existir.
Dessa vez foi um frequentador do boteco quem se
manifestou.
- E os assassinatos?
- Assassinatos? A maioria dos crimes é por causa ou de
ganância ou pobreza mesmo, os poucos crimes que sobram
tipo os devido a dor de corno poderiam ser decidido na base
da justiça pelas próprias mãos.
- Aí já seria barbárie.
- Barbárie? Barbárie é o que está acontecendo hoje em dia.
Do jeito que as coisas estão, com quem tem tendo cada vez
mais e quem não tem tendo cada vez menos, você vai ver o
que vai acontecer com os teus filhos. Tinha um tio gordão
mandando ver nos pastéis com café preto que fez um

40
Manual Prático da Delinquência Juvenil

comentário debaixo de seu enorme bigodão.


- Uma coisa esse rapaz tem razão, tem muita gente com
dinheiro demais, acho que tinha que ter alguma lei que
regulasse a quantidade de dinheiro que a pessoa pode ter.
Dessa vez fui eu a acrescentar.
- Leis? Mais leis? Você já viu o tamanho dos livros que os
advogados carregam? O senhor acha que lei resolve?
Enquanto existir lei vai existir neguinho desobedecendo a
lei.
- É verdade, e polícia não resolve nada, já reparou que
quanto mais polícia se bota nas ruas, mais as coisas
descambam.
De repente todo mundo no bar tava questinando
polícia, escola e até a igreja, teve um que falou.
- Essas Igrejas Universais são a maior prova de que nem a
religião resolve mais, os pastores mantém seu rebanho mais
ou menos comportado, roubam seu dinheiro e cada fiel que
abandona a igreja se revolta com o mundo, conheço um
monte de gente lá no bairro que foi assim, menino saiu da
igreja virou maloqueiro, menina saiu da igreja virou puta. O
negócio vai complicar cada vez mais desse jeito.
Vinicius estava interpretando um reacionário com
perfeição.
- Só sei dizer uma coisa meus filhos terão educação, roubar
ou mendigar é que não vão.
Foi a gota dágua, o mendigo já tava bêbado e
indignado com o Vinícius fazia uma cara, pegou a garrafa de
cerveja do Jean, quebrou no balcão e foi pra cima.
Imediatamente tivemos que esquecer nosso teatrinho e
defender nosso amigo. O Sergio segurou o cara e o Vinícius
saíu do bar chingando todo mundo. O engraxate se cagava
de dar risada e o dono do bar chamou um PM que fazia
ronda no Terminal Guadalupe.
Pela primeira vez tivemos um contato com a polícia,
mas sem grandes estresses, o dono do boteco explicou tudo
ao guarda e ele queria levar o mendigo em cana. Pagamos a

41
Manual Prático da Delinquência Juvenil

conta e a garrafa quebrada e convencemos o policial a


deixar tudo quieto, que o coitado não teve culpa e que foi
tudo provocação de um mala que já tinha ido embora.
Saímos do bar junto com o mendigo, quase que carregando-
o.
Este foi nosso primeiro ato de Panfletagem
Subliminar Teatral, teve suas falhas de funcionalidade mas
até que foi divertido. Eu e o sergio participamos pouco, mas
já deu pra mais ou menos ver como as coisas funcionam, é
só dar corda que a galera se enforca. Tenho certeza que
todo mundo que estava lá saíu comentando a história e
pensando um pouco mais na razão da existência da
propriedade privada.
Nos encontramos todos no terminal depois e
tomamos quentões com o mendigo até passar o frio e a
chuva, comentando a história e rindo. Foi legal quando o
Vinicius chegou, devagarinho, cagado de medo do mendigo.
Tentomos explicá-lo que era uma farsa que tínhamos criado,
mas ele tava tão bêbado que não entendeu bosta nenhuma,
apenas abraçou o Vini, missão cumprida.

Os Don Juans do interbairros I - (ato sete)

Domingo à noite fomos conferir a performance de


Oneide, vocalista do Pelebrói Não Sei, lá no Empório São
Francisco. Punk rock na veia & muita diversão. Teria sido
uma noite comum de maloqueiragens diversas não fosse o
Fabio ter bebido demais e agarrado a mulher mais feia do
lado de cá da Galáxia. Saímos do bar logo depois da meia
noite e assim que o Fabio se despediu da mina já caímos
logo na arriação.
- Caralho! De que planeta era aquele monstro?
- Vão à merda vocês todos!
- Fabio, de fé que se o meu cachorro tivesse aquela cara, te
juro que eu raspava o rabo dele e ensinava andar de costas!
Enchemos o saco do cara, mas enchemos mesmo.

42
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Ele nem tentar se defender muito. Mandava todo mundo se


fuder e seguia andando de cabeça baixa e cara amarrada.
Na segunda ficou mais calmo e começamos a discutir.
- Pessoal, vocês precisam se ligar que beleza hoje é uma
obrigação.
- Como assim São Jorge?
Todo mundo soltou aquela risadinha espremida.
- Hoje em dia todo mundo tem que interpretar um
personagem que já vem pronto. Pronto mesmo, todos os
acessórios se encontram à venda, roupas, discos, livros e
maneiras de se informar.
- Tá, mas e daí?
- E entre todos os personagens desse teatrinho besta a
questão da beleza é quase unânime. nem sei se dá pra dizer
que é unanimidade, é tirania mesmo.
- Acho que tu tá falando, falando e não tá chegando em
ponto nenhum.
-Aí que tem todo um mercado faturando em cima desses
padrões de beleza que andam por aí. Ao contrário dos
outros personagens, quedá pra escolher entre uma porrada
de estilos e opções, o personagem bonito não, são poucas
as opções para se "ser bonito."
- É... Você não deixar de ter um pouco de razão...
- Olha só galera, o que um cara não faz pra se defender por
ter agarrado um dragão!
- Rárárá!!!!
- Vão tomar no cú e prestem atenção: existem Mais &
Melhores Formas de Beleza.
- O filósofo das Raimundas!
- Hoje só se valoriza o externo e mesmo assim só o mais
óbvio. Aquelas sutilezas, aqueles detalhinhos, não aparecem
na fita.
- E onde você quer chegar?

43
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Quero chegar numa nova idéia para nossos ataques.


- Lá vem bomba!
- Pegamos um ônibus circular, sentamos todos espalhados,
cada um sozinho num lugar diferente e começamos a
encarar, mas encarar mesmo, usando todas as tecnicas de
sedução aprendidas na Longa Estrada da Vida, encarar
aquelas minas excluídas pelo Mercado da Beleza.
- Pronto! O cara enrolou, enrolou e encontrou a explicação
perfeita pra ter agarrado uma mocréia ontem à noite:
estava fazendo Ativismo de Inclusão social.
Caímos na gargalhada, mas por fim admitimos que a
idéia era boa. Sérgio, o apaixonado de plantão foi o que
mais pirou com a idéia e implorou para escrever bilhetinos
para entregarmos pras minas quando elas descessem do
latão.
Jean tem umas teorias de que pela manhã as
pessoas estão mais sensíveis e inspiradas, então escolheu
um horário meio maluco pra operação: Seis da manhã,
interbairros I. Pelo menos estariamos todos livres de nossos
trabalhos forçados.
Dormimos todos na kit dele e do vini e o sergio
passou a madrugada inteira escrevendo os "bilhetes".
Quando acordamos estava pronto. Ficou mais ou
menos assim, inspirado em Tyler Durden, mas tudo bem:
"Este é um mundo oprimido pela Ditadura da Cintura Fina,
dos Peitos Siliconados & das Bundas Empinadas.
O Fascismo da Beleza Comercial.
Só que existem as seguintes verdades ocultas:
Você não é a sua cintura.
Você não é seus peitos.
Você não é sua bunda.
Você é especial, única no Universo e não cabe
em nenhum rótulo dessa sociedade tirana.

44
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Você é linda!"
Apedar da galera achar brega, eu particularmente
gostei. Existe charme também na chinelagem.
Pegamos o buzum no Centro Cívico dez pras seis da
manhã e tava um frio do caraaaaaaaalho. quando sentei no
banco do ônibus parecia que tava sentando numa barra de
gelo. Isso que eu tava com duas calças: tradição particular
pra sobreviver ao desumano frio curitibano.
Mal sentamos e já começamos a escolher nossos
alvos. No banco do outro lado do corredor tinha uma
moreninha de óculos & cheia de espinhas. Começei a olhá-la
e quando ela percebeu começou a olhar para a janela.
Continuei. Quando elea se virou e viu que eu continuava
olhando levantou-se e sentou bem longe.
Pensei: "É Arizinho, você deve se rum dos excluídos
da Teoria do Fábio!". Olhei para o Jean e quase soltei uma
risada, tava com uma cara de tarado que era um sarro.
Sempre foi o conquistador da turma, o Brad Pitt e tava se
dando bem. Agordinha da ferente dele sorria envergonhada
e olhava pros lados pra ver ninguém estava se ligando na
paquera.
A onda do Vinicius era o sorrisinho monalisa que
aprefeiçoou com o passar dos anos. Escolheu uma coroa,
pinta de solteirona e parecia que ela tava meio inquieta.
Tipo surpresa com o flerte mesmo. Lia um daqueles
romances Julia que se vende nas bancas e não conseguia se
concentrar.
Sergio, com sua timidez crônica, nunca tinha
intimado uma mulher na cara dura na vida sem antes cercá-
la com presentes & cartas anônimas, acabou que ficou
dormindo no fundo do ônibus mesmo.
Agora em termos de Cara de Safado Fabio era quem
bate os recordes. Escolheu criminosamente uma menininha
novinha, uns 16 anos, sequinha de magra e com um óculos
fundo de garrafa que de tão grosso o rosto dela aparecia
pequenino por tras das lentes.
Uma japonezinha desajeitada entrou e ficou de pé ao

45
Manual Prático da Delinquência Juvenil

meu lado e resolvi investir no negócio. Dessa vez não fui tão
mal, ela não deu bola mas de vez em quando espiava
curiosa para ver se eu continuava encarando. só que desceu
logo, na hora que deu o sinal e foi em diração à porta de
desembarque entreguei-lhe o bilhete.
- Pra você!
- Hã?
- Pra você, leve!
Desceu e ficou olhando intrigada pra mim conforme o
ônibus saiu andando. Olhei para o Jean e o lazarento já tava
sentado no lado da gordinha. Não dava pra ouvir o que
falavam, mas estavam rindo animados. A magrinha do Fabio
sentou num banco que vagou e ele pulou logo no lado.
Ficava olhando de canto de olho e dando sorrisos, mas ela
virava o rosto pra janela.
Vinicius era quem estava mais empenhado. A mulher
guardou a Julia, conferiu alguma coisa no celular, olhou -se
num espelhinho, pegou a Julia de novo, guardou, enfim,
estava nervosa.
Então a mina do Jean levantou-se, despediram-se
com beijinhos e desceu como o bilhete na mão, toda
orgulhosa. Quando o ônibus saiu ela ainda ficou acenando
da calçada. Jean sentou do meu lado e ficamos curtindo os
olhares do Fabio pra magricela. Era engraçado, a mina
virava o rosto completamente, ficando quase de costas pra
evitar os ataques. Fabio perguntou-lhe as horas e ela
respondeu ja se levantando. ficou de pé ao lado da porta o
resto da viagem. Na hora que ia descer Fabio entregou-lhe o
bilhete.
Deu pra ver que ela saiu andando na rua a passos
largos, invocada, sem nem ousar a olhar pro ônibus ou pro
papel que levou na mão. Quando Fabio chegou perto da
gente já começamos a tirar sarro:
- Cadê o São Jorge?
- É Fábio, ela era gata demais, tuas táticas só funcionam
com as feias.

46
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Vão se fuder, pelo menos ela levou o papel. E ainda


coloquei um poeminha massa junto
- E ela vai ler?
- Claro, senão nem tinha pego, braba do jeito que tava.
Nosso papo foi interrompido por um bate-boca lá na
frente. Todo mundo no ônibus estava olhando. Era a coroa
do vinicius.
- Você não tem vergonha na cara seu moleque? Só porque
não uso aliança não significa que não seja casada!! Não
acha melhor se informar antes de soltar uma cantada
besta?
- Mas senhora...
- Você trata de calar essa sua boca!! Não ouse falar mais
uma palavrinha. eu já vou descer mas ouve o que vou te
dizer seu moleque! Preste atenção no que faz, muita
atenção, ou ainda pode se dar muito mal!!
Vini entregou o papelzinho pra ela com as mãos
tremendo.
- O que é isso?
- Um pedido de desculpas, acredite!
- É bom que seja, seu moleque descarado!
Desceu furiosa e Vinicius olhou pra nós com uma
cara de perdido que era o fim do mundo de tão engraçada.
Todo mundo no ônibus riu da cara dele. Sentamos juntos
tirando onda uns dos outros até chegarmos no ponto perto
da rodoviária onde desceríamos. Sergio era o que mais ria.
- Grandes Conquistadores de Araque!
- Eu me arreguei! - Cantou de galo o Jean.
- É, mas só você!
Saímos andando na calçada quando o Universo,
Deus, Jeová, Alá ou sei lá o quê conspirou por nós. Na
calçada, perto do meio fio eis um milagre: uma nota de
cinquenta reais dobradinha. Fabio pulou pra pegar e quando

47
Manual Prático da Delinquência Juvenil

desdobrou abrou um sorrisão de orelha a orelha: eram três


notas iguais. Os Ativistas da Inclusão social foram
recompensados pelo acaso.
Enchemos a cara de Capuccinos numa lanchonete da
rodoviária, vestimos nossas máscaras e fomos para nossos
trabalhos forçados com o coração leve e as almas lavadas.

A Gurizada Big Mac Feliz - (ato oito)

Achar cento e cinquenta reais na rua não é para


qualquer um. Quinhentos mil tipos de eventos devem ser
sicronizados, acasos dos mais absurdos, para que a grana
venha parar no seu bolso. Nós fomos os sorteados da vez
neste Fantástico Evento Cósmico. Um Gigantesco Globo
cheio de bolinhas numeradas e saiu justamente o nosso
número. Coisa de louco. Tivemos discussões monstruosas
pra decidir o que fazer com a grana. Todos concordavam
que a grana era de todos, ia ter que sair um consenso de
um jeito ou de outro.
Nem estávamos falando sobre isso quando surgiu a
idéia. Jean estava contando do dia em que sua moto
estragou perto da Vila zumbi e ele saiu em busca de ajuda e
se sentiu cabreiro no meio de uma ambiente estranho. Foi
na cabeça do vinicius que açendeu a lâmpada.
- A gente pode usar a grana pra gerar uma situação inversa
a essa do Jean.
- Situação inversa.
- Lembra aquela que os caras do MST foram num shoping e
os lojistas fechavam as portas de medo?
Não lembro nem se isso aconteceu mesmo ou eu
sonhei. Pois é, a gente pode fazer parecido. Façam as
contas: com cento e cinquenta reais dá comprar vinte
McLanche Feliz!
- McLanche Feliz? Vai dar a grana pro Império agora, é?
- Ativista de butique é foda!

48
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Calma, rapaziada estressada! É só a gente fazer as coisas


de um jeito que pagariam o triplo para que não
gastássemos a grana lá.
- Conclua o plano, por favor, conclua. - Falou o Fabio
coçando a barba rala.
- Convidamos vinte piás de rua pra fazer um lanche numa
praça de alimentação de algum shopping.
- Rapaz...
- O que vocês acham?
Não tínhamos muito o que falar: era um plano
simpático. Todos ficaram quietos e cada um, mergulhado em
seus pensamentos, foi sendo seduzido aos poucos pela
idéia.
Não seria difícil encontrar a gurizada ideal. Sempre
vagabundeamos muito pelas ruas da cidade e conhecíamos
muitas figuraças da delinquência infantil. Eu mesmo
conheço uns quantos e quanto mais pensava nas
possibilidades mais ficava animado com a ação.
A ação foi marcada para um sábado à tarde,
momento mais ou menos tradicional para compras.
Famílias inteiras passeando pelo Paraíso do
Consumismo. Iríamos relembrá-los do custo social daquele
conforto e daquele ar-condicionado central em meio ao frio
do inverno curitibano.
Começamos nosso recrutamento perto das onze da
manhã na Boca Maldita. Eu conheçia um polaquinho que
dava beijos no rosto das pessoas antes de pedir moedas,
mais duas menininhas, entre 4 e 5 anos que vendiam
chicletes.
Meio dia já estávamos com o time completo. Um
autêntica turminha do capeta. A aparência de nossa
multidãozinha era tal que ninguém ficava no mesmo lado da
quadra que nós. Fábio e Jean arrumaram uns cheiradores de
cola e Vinicius ficava tentando explicá-los que se eles
cheirassem antes do lanche não iam sentir fome.

49
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Sério tio? Se tú não fala nóis não sabe.


- Fica sossegado aí!
tinha uns que ficaram amigos mesmo e enquanto íamos ao
Shopping Müller começaram a contar histórias de como eles
se viravam e como roubavam as paradas e que fome não
passavam. Eram uns autênticos caçadorzinhos.
- E como é que vocês se escondem?
- É! Onde é que vocês dormem, pra onde é que vocês fojem
quando o bicho pega?
Então nos mostraram uns lugares incríveis.
Autênticos pontos que o mapa não cobre. O mapa não é o
território. Lugares nos miolos dos quarteirões. Banheiros de
fundos abandonados, depósitos esquecidos e pasme, até
uma capelinha nos fundos de um troço que um dia foi uma
mansão.
Fora os esgotos e os tuneis secretos. Em resumo: os
guris eram feras. Chegando no Müller logo quebramos a
cara. Um moreno muito bem engravatado, logo na entrada,
cortou nossos embalos. Na hora que ele viu aquela
maloqueiragezinha reunida disse não. Nem discutímos,
apesar dos protestos do Panfletário Vinicius, afinal tínhamos
ainda o Curitiba e o Plaza pela frente. É, curitiba tem três
opções de shopping pra você viver seu consumismo e
escolher quem te enraba.
Quando estávamos indo para o Shopping Curitiba o
passeio começou a ficar mais divertido. A gurizada começou
a se soltar mais e os transeuntes realmente se
impressionavam e se preocupavam com a cena.
Mulherada protejendo as bolsas, boas pintas
escondendo os celulares. foda foi controlar os
cheiradorzinhos. Os piás eram muito fodas mesmo, por mais
que vinicius cuidasse sempre davam um jeito. Você se
distraía e lá vinha um com a boca mole.
- Ôooo tio! Cêeee é gent-te boa, viu?
Mas eram todos grandes personalidades, isso eu
garanto. Era só trocar umas idéias com qualquer um deles e

50
Manual Prático da Delinquência Juvenil

suargia uma história de Coragem, Resistência & Luta.


Alguns equívocos, talvez muitos, mas eram sem dúvida
histórias de Coragem, Resistência & Luta.
No Shopping Curitiba foi as crianças que queimaram
o filme. Foi dobrar a esquina na chegada e começaram a
gritar feito uns doentes . Quando começamos a subir a
escadaria da entrada o segurança já veio em nossa direção
fazendo sinal que não. Mandamos à merda e descemos a
Sete de Setembro em direção ao Plaza Shoping. Lá foi nosso
triunfo, lá conseguimos entrar. Eles estão em obras e foi
bem mais fácil depistar os seguranças. Também porque
aperfeiçoamos nosso método: dois por vez.
Na praça de alimentação o espetáculo foi grandioso.
Foi cômico ver os casaizinhos Mauricio/Patricia trocando de
mesa por causa do cheiro das crianças de rua. As mães com
filhinhos bem vestidos saíam da fila do McDonald´s e
procuravam outra lanchonete. Vinicius ganhou mais uma:
realmente a cada um lanche que vendiam pras nossas
crianças deixavam de vender outros três por causa das
pessoas que saíam fora com medo.
Os funcionários da lanchonete também tiveram seu
calvário porque armamos a palhaçada com requintes de
crueldade, cada menino tinha sua grana contadinha para o
seu McLanche Feliz. E muitos deles nem sabia pedir direito a
bagaça.
Foi muito divertido. Acompanhávamos a cena de
longe, observando a galerinha e os sete seguranças
especialmente designados para garantir a ordem e manter a
segurança do resto do shoping inteiro devido à preocupante
presença de nossas crianças. E eram crianças menos, posso
garantir que todos tinham menos de dez anos.
Já estávamos em clima de comemoração enquanto
eles terminavam seus sanduíches quando vimos que ainda
teria muito rolo pela frente. "Com a barriga mais cheia
começei a pensar, que eu desorganizando posso me
organizar." Mais ou menos nesse estilo o negóçio. A gurizada
se repartiu numa euforia incontrolável. Uns foram pra uma
loja de brinquedos no segundo andar. Outros nem pensaram

51
Manual Prático da Delinquência Juvenil

duas vezes e foram para os jogos eletrônicos. Pra completar


tinha os que entravam nas lojas mechendo em tudo. Um
caos.
Não podíamos deixá-los ali. Éramos os responsáveis.
Nossa paternidade começou quando achamos aquela grana
no chão. Não podíamos negar a responsa. Nos dividimos e
cada um ficou com um grupinho. Fui atrás dos que foram na
loja de brinquedos.
Foi entrar na loja que já vi o tamanho da encrenca.
Tinha um pirralhinho que não deveria ter mais que quatro
anos que tinha sentado numa moto à pilha ou à sei lá o que
fazia uma zoada do caralho. A funcionária só perguntava
desesperada quem eram os pais da criaturinha. Tinha ainda
os outros três que derrubavam tudo que era bonequinho
que tinha nos mostruérios.
Corriam com os bonequinho e se escondiam atrás
das prateleiras. Uma cliente da loja nem disfarçou o seu
preconceito e saiu com seus filhos da loja, sob seus
protestos, pois estavam se divertindo com a bagunça.
Meus meninos estavam felizes. Alheios à
discriminação, felizes por serem o que estavam sendo e
nada mais.
Uma funcionária se aproximou e perguntou se eu
desejava algo. Falei que estávamos olhando pra ver se
encontrávamos algo interessante. Na porta da loja dois
seguranças babando de vontade de terminar com aquela
zona assim que o gerente desse o sinal.
Se contar o resto da gurizada aos cuidados dos outro
e os que tinham cheirado cola e tal e deviam estar doidões,
acho que a direção do shopping teve que chamar reforços
para a segurança. Segurei eles na loja o máximo que pude e
quando os ânimos se acalmaram um pouco convoquei a
turma pra sair fora.
- Seguinte galera! Temos que sair pra encontrar os outros!
- Aonde?
- Na praçinha lá na frente.

52
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Ahhh...
Saímos e quando chegamos já tinha um monte de
gente esperando. Achei que tinha tido trabalho com os
moleques, mas o Jean contou que os deles foram expulsos
dos jogos eletrônicos por cheirarem cola. E isso nem foi o
pior, jogaram um monte com três cartões roubados que o
Jean nem viu como conseguiram. digamos que tratava-se de
especialistas mirins, mão de obra qualificada.
Esperamos chegar o resto e quando vimos que
ninguém mais viria & o sol estava se pondo & o frio
chegando com a noite Fabio puxou de sua mochila uma
caixa com seis rojões.
- Façam um fogueira! Será o São João dos excluídos!!
Fizemos uma fogueira meio mandrake e quando as
chamas estavam bem altas a ponto de chamar a atenção
dos desavisados ou da polícia soltamos os rojões.
Todos gritaram & pularam & dançaram em volta da
fogueirinha ou de alegria ou de frio. Vivemos ali, por
segundos que tenham sido, uma Zona Libertada.

A Televisão Me Deichou Burro Muito Burro Demais -


(ato nove)

Solidão: o espaço entre o carro e a televisão. Essa


jóia é do Paulo Leminski, de longe a maior personalidade
que Curitiba pariu. A dois fins de semana atrás caiu um
Terrível Dilúvio sobre Curitiba, com Ventos, Granizos &
Aguaçeiros que fizeram um estrago do caralho na cidade
inteira. Naquele domingo à tarde faltou energia em quase
tudo que é canto.
É legal quando falta luz. As pessoas se vêem
obrigadas a voltarem para si mesmas. A simples falta da
Macabra Televisão já obriga todos a conversarem bem mais.
Naquela tarde estávamos conversando sobre Leminski e
relebrando seus poemas Curtos & Rasteiros, hai kais de
efeito imediato. Esse da Solidão, do Carro & da Televisão foi

53
Manual Prático da Delinquência Juvenil

o mais discutido.
Queríamos bolar alguma coisa a respeito disso. Com
carros ou televisões, alguma coisa nesse sentido. Viajamos
um monte, imaginamos intervenções estrambólicas e não
chegamos a ponto algum. Nada realmente prático e
eficiente.
Durante a última semana, no entanto, o Acaso
Cósmico voltou a nos presentear. Sempre alimentamos tipo
que um culto à coinscidência. Quanto mais você valoriza e
celebra as coinscidências, mais elas ocorrem em seu dia-a-
dia. A última onda de culto foi gerada por aqueles 150 Reais
que achamos na calçada. Então parece que certos eventos
começaram a se precipitar sobre nós. De um lado Jean
conseguiu um chaveiro boa praça para nos dar um curso e
por outro lado recebi um e-mail de um doido de Goiás com
mais um Plano Perfeito.
- Piazada! Recebi um e-mail que pirou meu cabeção!
- O que foi ari? Alguma gostosa oferecendo seus préstimos?
- Não! Uma idéia pra um ataque!
- Idéia? De quem?
- Um maluco de Anápolis, teve uma noite de insônia e entre
ficar pensando em vender a televisão que tinha no quarto e
observar a escada no fundo do quintal teve a brilhante idéia
de jogar a TV na calçada.
- Jogar a TV na calçada?
- Puta que o pariu ! Quê que eu posso te dizer, cara?
- Que coisa mais ridícula.
- Calma, seus merdas! Pra completar a inspiração o cara
imaginou colocar uns bilhetinhos dentro, tipo assim:
"Olha o que a TV faz com seu cérebro."
Aí o povo passa na rua, vê aquela televisão
espatifada na calçada, lê o bilhetinho e pensa: "Caralho! que
diabos é isso?"
Ficaram calados. Dessa vez fui eu a apresentar um

54
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Plano Perfeito.
- Pensem no que podemos fazer com essa idéia.
Foi fácil convencer o povo. Desde o dia em que
tinhamos relembrado o Leminski estávamos querendo algo
com os televisores. De repente tava todo mundo pensando,
raciocinando & bolando a ação. Não era difícil, o aparelho se
despedaçaria no chão mesmo, logo não precisava ser novo
nem estar funcionando.
Marília, namorada do vinicius tem um primo que
conserta essas paradas e conseguiu uma podre de velha,
mas perfeita para nossos planos.
- A questão agora é onde a gente vai jogar a bagaça. -
Sergio, a nossa âncora.
- Tem que ser no centro.
- Cara, mas no centro é foda, não é bem assim entrar num
edifício e jogar uma TV pela janela.
- Eu sei que bronca, mas tem que ser num lugar que um
monte de gente veja.
Foram várias as noites de Discussões & Cervejadas
para aperfeiçoar o plano. Para levar o negócio a cabo várias
etapas tinham de ser consideradas. Enrolar o porteiro pra
entrar no prédio, cuidar pra nenhum traseunte se machucar
e o plano de fuga. O sempre complicado plano de fuga.
Como nosso lema é nunca viajar na maionese e
sempre admitir que somos cabaços optamos por um prédio
residencial, num horário que o povo tá saindo pra trabalhar
ou estudar e numa calçada perto de um ponto de ônibus
movimentado.
Escolhemos o bairro do Juvevê. seis horas manhã (ai,
ai, ai, de novo), com uma puta operação teatral pro Jean
entrar com a TV no prédio. Escrevemos exatos 57
bilhetinhos pra colocarmos dentro da "bomba". As frases era
mais ou menos as seguintes:
"Olhe o que a TV pode fazer com você."
"Olhe o que você pode fazer com a TV."

55
Manual Prático da Delinquência Juvenil

"Olhe o que a TV pode deixar você fazer."


"Olhe o que você pode deixar a TV fazer."
E por aí vai, dezenas de variações do mesmo tema.

Vinicius & Marilia ficaram com a parte de enrolar o


porteiro. Jean entraria com uma caixa de palelão contendo
nossa "bomba". Eu, Sergio & Fábio ficaríamos em baixo,
cuidando pra que nenhum descuidado levasse uma
televisãozada na cabeça.
Examinamos o prédio escolhido com cuidado. Fábio
foi antes, pela tarde, dar uma olhada nas condições. tinha
de ter uma janela grande na área das escadas e a distância
da janela pra rua tinha de ser aceitável. Escolheu um
perfeito, bastava subir uns andares, fazer uma forçinha ao
lançar e a lazarenta iria para no meio da rua.
"Caiu na contramão atrapalhando o trânsito."
Madrugamos, pegamos o Cabral-Osório no centro e
fomos pra nossa "batalha”. Todos, sem excessão,
reclamavam do sono, do frio e do maldito horário escolhido.
A guarita do porteiro ficava perto da grade e do interfone.
Vini & Marília se escoraram perto e começaram a discutir.
Estavam brigando e vinicius visivelmente cagava na cabeça
dela. Ficaram um tempão brigando desse jeito até que o
porteiro começou a prestar atenção na cena, estava com
pena da mina, que só chorava.
Então ela começa a passar mal, tipo ataque epilético
mesmo, com babas e tudo mais. Vinicius se desespera e
começa a olhar para os lados e gritar. O porteiro saltou da
cadeira. Vini então se joga sobre os botões do interfone e
começa a cordar todo mundo.
O porteiro vem imediatamente perguntar o que está
ocorrendo.
- Água, senhor, por favor! Água!!!
- Vem aqui, moço! Traga a menina que eu consigo água, o
que ela tem?
- É uns piripaques que dá de vez em quando.

56
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Entraram detro da guarita e começaram a jogar água


no rosto dela quando o celular do Vini tocou.
- Puta que o pariu, seu porteiro! É a mãe dela! a coroa não
pode ficar sabendo que isso tá acontecendo! Fica aí com ela
que eu vou enrolar a a velha ali fora. Abre o portão pra mim,
rápido!
Saiu fora e deixou o portão aberto pro Jean entrar.
Pra dar cobertura pro Jean, Marília começou a gritar e Vini
correu para acudí-la.
- O que foi?
- Não sei, moço! Ela deu uma soluçada e começou a gritar
desse jeito.
Jean aproveitou a deixa e entrou rapidinho com a
caixa de papelão e correu em direção à escadaria. A
"bomba" não era grande, 14 polegadas.
Marília então se acalmou e os dois saíram
agradecendo pela ajuda e Vini simulando telefonemas
cheios de explicações pra mãe dela. Foram pro "posto de
observação" onde eu tava e já chegaram se cagando de rir.
- Ele acreditou, cara! O velhinho viajou!!
- Tava tremendo todo na hora que jogou água no meu rosto!
- Muito massa, doido, muito massa!
Ficamos então no aguardo da ação do Jeanzinho. Ele
demorou, demorou & demorou até que vimos sua lanterna
brilhar, numa janela do sétimo andar, em meio à neblina
que sempre cobre Curitiba nas manhãs de inverno.
- Sétimo andar, mas que viado, porque não subiu mais?
- Vamos rápido! não dá nada, pelo menos ela não se
espatifa muito. vê se não vem ninguém desse lado! tomara
que ele consiga ver nossas lanternas com essa porra de
neblina.
- Aqui tá beleza!
Pisquei minha lanterna cinco vezes. Deu pra ver uma
luzinha fraca piscando na outra esquina, era o Fábio. Jean

57
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ficou só esperando o sinal do Sergio, que ficaria perto da


portaria pra garantir a segurança da operação.
O desgraçado demorou quase um minuto pra dar seu
sinal. Piscamos nossas lanternas feito uns doidos pro cara se
ligar. Quando ele piscou a sua corremos todos pra perto pra
ver a cena sem interferência de neblina nenhuma. Já dava
pra ver o Jean com a parada na janela.
Foi um troço muito do caralho. Demorou apenas uns
quatro ou cinco segundos pra cair e enquanto a TV descia
todos nós demos aquele assobio agudo ficando grave que
dá nos desenhos animados quando alguma coisa cai.
Quando a TV estourou no chão todos demos gritos
pavorosos. Definitivamente não saiu como o planejado, a
porra bateu num poste e em vez de cair no meio da rua
acabou na calçada. Pelo menos teve a vantagem de não
quebrar muito. O porteiro correndo olhar intrigado o que
estava acontecendo. Olhava para os cacos e olhava pra
cima sem entender bosta nenhuma. Deve ter pensado:
"diazinho estranho esse."
Esperamos uns minutos e fomos ver de perto nossa
obra como se fôssemos cidadãos normais. Quando
chegamos o dia já estava bem claro e tinha um velhinho de
óculos olhando os papeizinhos que tinha se esparramado
por perto e um casal de irmãos indo pra escola.
Estéticamente falando, ficou perfeito: o tubo de
imagem quebrou ao meio e os estilhaços ficaram cheios de
papeizinhos. As pessoas chegavam, olhavam a coisa toda e
alguns, nem todos, pegavam os papeizinhos. Tinha uns que
saíam reclamando quando liam.
- Cada louco que me aparece nesse mundo...
Outros saíam rindo e tiveram alguns que até
guardaram as frases. Sergio fez um trabalho legal com as
frases, cada uma continha ums desenho ou um símbolo
particular. lá pelas sete e pouco da manhã a síndica do
prédio desceu com uma faxineira pra limpar a tralha toda. O
negócio ficou na calçada por pouco mais de meia hora, mas
posso te garantir que um monte de gente viu.

58
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Fomos então tomar café, comer coxinhas e esperar


pelo Jean numa lanchonete próxima. Ele só saiu do prédio
quarenta minutos depois de terem limpado tudo e a poeira
ter baixado, esperou o momento mais seguro que
despertasse as mínimas suspeitas.
Quando chegou na lanchonete já estávamos
impacientes. Demos Berros & Urras feito uns selvagens,
pegamos ele o jogamos pro alto.
- Jean! Jean! Jean!
Na boa estávamos Histéricos & Orgulhosos. Afinal,
fizemos um trabalho de profissional.

Os Dia em Que a Churrascaria Parou - (ato dez)

Uma tendência que tem crescido pra caralho no


"meio libertário" é o vegetarianismo radical. Os caras
defendem os direitos dos animais até as últimas
conseqüências. São completamente diferentes dos
vegetarianos aos quais estamos acostumados, não usam
nem sapato de couro. Nosso amigo Sergio Augusto, além de
vender a alma como artista plástico anda pesquisando sobre
o assunto e se misturando com essa gente.
- Tigrada! Hoje teremos uma janta Vegan!
- Blargh!! - Vini e Fabio são doidos por um churrasquinho.
Sergio anda fazendo essas comidas, mas ainda nao
foi "convertido". Tá mesmo é praticando e experimentando
pra ver se vale a pena. Estávamos todos na peça única que
é a kit do Vini e do Jean conversando sobre os argumentos
pró e contra o vegetarianismo radical. Eu e Jean éramos os
Vegans, apesar de eu ser um onívoro convicto. Nisso nosso
cozinheiro virou-se pra nós com um sorriso estampado no
rosto.
- Tive uma inspiração pra uma ação!
- Lá vei ele.
- Ai, ai ...

59
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Do que se trata seu monstro?


- Atacaremos uma churrascaria.
- Atacar churrascaria? Você quer fazer o que? Explodir uma
bomba?
- Não, uma coisa mais artística.
- Putz!
- Já sei! Você vai se vestir de alface e vai entrar apavorando.
- Não viajem, o plano é perfeito. a gente vai num
matadouro...
- Matadouro?
- E grava numa fita os berros dos bois sendo mortos.
- E?
- E aí entramos numa churrascaria e demos um jeito de
tocar a fita.
Sergio e seus fulminantes chutes a gol. A idéia me
seduziu de imediato. Só de imaginar neguinho fincando
garfo e faca numa suculenta picanha mal passada e ouvindo
um berro de boi morrendo já era o suficiente pra mim me
cagar de rir.
Difícil foi definir os aspectos práticos e técnicos da
operação: como botar a fita pra tocar dentro da churrascaria
num volume adequado? Cada um pensava numa coisa
diferente. Jean, milagrosamente, estava sendo o mais
prático.
- É fácil, a gente arranja alguém que tenha um carro com
um som "foderoso", estaciona na frente e arregaça o
volume.
- Não, tinha que ser dentro da churrascaria, falou Fabio. O
som tem que ser interno pro povo ficar mais puto ainda.
- Mas como?
- Sei lá, tínhamos que dar um jeito de tocar no sistema de
som ambiente.

60
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Seria perfeito mas era difícil de executar. Estávamos


nos debatendo em estratégias quando tocou a campainha,
era Marília com seu primo técnico em eletrônica e a TV 14
polegadas que usamos em nossa última ação. Contamos
nossos planos pra eles e riram adoidados da viagem.
Marcelo era o nome do cara e motivado pela palhaçada de
nossas atitudes deu uma sugestão pra resolver o problema.
- Vocês podem conseguir quatro tocafitinhas baratos do
Paraguai e quatro auto falantes. Eu consigo umas
plaquinhas amplificadoras à pilha, bem simples mesmo e
vocês põe as paradinhas embaixo das mesas.
Ficamos em silêncio, pensando, pensando &
pensando.
- E dá pra fazer isso?
- Tipo assim: é fácil?
- Claro! Se fizer as contas, mesmo que comprem todo o
material novo vão gastar no máximo 50 Reais, se dividir vai
dar uns 10 Reais pra cada um. Mas acho que dá pra
conseguir muita coisa na sucata lá da oficina.
Topamos. Topamos e já conseguimos mexer nossas
bundas gordas. Vini & Marília, nossos atores oficiais foram
pro matadouro gravar os sons. Foram na casa do Tarsis, que
tem scanner, e fizeram umas carteirinhas falsas de
estudantes de veterinária. Bolaram uma viagem de que
estavam trabalhando num projeto de otimização do abate.
- Otimizar é uma palavra que soa bem aos ouvidos dos
homens de negócios.
Enquanto os dois picaram a mula pra fazer o
teatrinho que tanto curtiam eu e o Fabio fomos ajudar o tal
Marcelo a preparar os "aparelhinhos". Jean & Sergio ficaram
preparando a TV e os bilhetinhos da ação anterior.
No fim acabamos não gastando quase nada. Marcelo
aproveitou um monte de coisas de seu ferro velho particular
e só precisamos investir em pilhas alcalinas tamanho
grande. Trampamos pra caralho soldando componentes
eletrônicos e encaixando pecinhas de mecanismos velhos

61
Manual Prático da Delinquência Juvenil

de toca-fitas. Deu pra montar quatro "bombas sonoras" e,


de quebra, pegar uma certa prática em soldagem. Não é
difícil.
- Se vocês tocarem as quatro fitas ao mesmo tempo vai dar
um efeito estéreo massa que vai confundir os ouvidos e eles
vão demorar pra achar de onde está vindo.
Vinicius & Marília voltaram rindo das palhaçadas que
fizeram no matadouro. Sergio ficou puto da cara.
- Porra cara! Mas vocês não se sensibilizaram com os bichos
morrendo?
- Eu gosto de bife.
- Ah, vai te fuder, meu!!
Gravamos as quatro fitas e marcamos a ação pro
sábado, logo depois do meio dia. chegamos numa hora que
o negócio tava lotado. Tinha fila pra esperar liberar mesa.
Nos dividimos em quatro, cada um com uma bomba e
gradativamente entramos.
Foi planejada uma verdadeira orquestra de sinais pra
executarmos a operação. Cada um colou com Silver Tape
sua bombinha embaixo da mesa. As fitas eram de 90
minutos, o que significava 45 minutos de cada lado. Isso nos
dava 40 minutos para desbaratinar e apreciar o resultado.
Inicialmente cada um deu o sinal de que a bomba já
estava colada. Depois o segundo sinal, ambos
discretíssimos, diga-se de passagem, pro início da contagem
regressiva. Cinco, quatro, três, dois, um, play! Pronto.
Saímos um por um, cada um inventando uma
desculpa diferente pra um graçon diferente, tipo ter que
ligar pra alguém ou a carteira esquecida em casa. Nos
encontramos todos na rua, esperamos um tempinho e
voltamos pra fila. Desta vez todos juntos e ansiosos, muito
ansiosos.
- Cara! Não boto fé que nós estamos fazendo isso! - Jean
não conseguia se segurar, ria de doer.
- Relaxa cara! Não dá bandeira, senão vão desconfiar!!

62
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Estávamos conferindo o relógio toda a hora. A fila


tinha aumentado e levamos exatos 33 minutos pra
sentarmos em uma mesa. Mais do que o planejado, mas
tudo bem, a operação ainda estava sob controle. De cara já
pedimos três cervejas e Sergio, o Vegan da hora, um suco
de manga, sem açúcar.
- Não vou usar açúcar pois provavelmente eles usam
animais pra carregar cana no canaviais pra depois fazer o
açúcar, melhor não arriscar. A manga já acho que não, as
plantações de manga não são tão grandes quanto os
canaviais.
- Ó a do cara, meu! Viajão! Não vou nem discutir a besteira
que você tá falando.
Rimos todos. Estávamos alegres, ríamos por qualquer
bobagem. Nem bem tínhamos começar a dar nossos
primeiros goles em nossas beras e começa o Apocalipse
Now da churrascaria.
Marcelo tinha falado com um amigo e tinha
conseguido um carro com o tal som "foderoso". Foi a idéia
do Jean sendo usada pra incrementar o ataque. De repente,
um horripilante berro de boi sai de um carro estacionado na
frente da churrascaria.
Foi um momento único. Todo aquele barulho de
talheres batendo e esfregando pratos e e toda aquela
conversa alta e ruídos de fundo diversos e tudo mais, tudo
parou. Silenciou. O povo todo ficou meio que se olhando
sem entender que diabos era aquilo. O berro durou uns dez
segundos e então eles tiraram o time.
Quando o negócio parou e o carro saiu o silêncio era
absoluto dentro da churrascaria. O silêncio durou eternos
três décimos de segundo, interrompidos por uma criança
que mal sabia falar perguntando:
- Pai! que foi isso?
Então quebrou o gelo e muitos riram nervosos com a
pergunta do menino que ecoou por todo o ambiente e quase
todo mundo ouviu. Foi então que começou a sair os mugidos
e berros de nossos aparelhinhos.

63
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Primeiro baixinho, muito baixinho. Quando notamos


que os sons começaram a sair já levantamos e pedimos a
conta sem comer, apenas as bebidas. Era o nosso plano de
fuga, sair assim que o troço fosse executado pra ninguém
ligar os pontos e nos acusar.
Olhávamos pro povo almoçando e notávamos que
muitos inclinavam a cabeça pro lado como que se tentando
ouvir algo. Muito engraçado. começaram a fazer umas
expressões intrigadas que iam ficando cada vez mais graves
conforme o som ia aumentando.
Vinicius & Jean não conseguiam se segurar.
- Olha que massa, véio! Olha que massa!!! Olha a cara
daquele bigodudo!
- Fica quieto seu paunocú!
Falei mas nem eu me continha. Era engraçado pra
caralho! Os sons começaram a aumentar e as pessoas
começaram a comentar umas com as outras e os garçons
começaram a correr feito uns loucos. Foram espertos, já
estavam quase encontrando os aparelhinhos, um deles
chegou a achar um sob a mesa que estava limpando e
inutilizá-lo pois a pilhas caíram no chão. Mas o som dos
outro três saiu, no grand finale. Foi um berro de boi
arrepiante de uns cinco segundos, que ficou mais macabro
ainda devido a não termos sido tão perfeitamente
sincronizados na hora do play. No fim uma voz grave, cheia
de eco.
- Comer carne é crime! Comer carne é crime! Comer carne é
crime! - três vezes mesmo.
Foi uma confusão dos diabos. Muita gente se
levantou. Muita gente chamou o garçom. Muita gente
chamou o gerente. Um pandemônio do cacete. No meio
daquele barulho pudemos rir à vontade. Tinha um velho
barrigudo que gritava histérico:
- Isso é uma absurdo, um absurdo!!!!
Abandonamos o local do crime em clima de carnaval.
A três quadras de distância Marcelo nos esperava com seu

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

amigo de carro. Entupimos o carro de gente e saímos com o


som com o volume no último grau.
- Eu quero é ver o ôcooooo!!!!!!!!!!

A Arte de Sacanear Bancos para as Novas Gerações -


(ato onze)
Sacanear bancos é melzinho na chupeta. É apoio
popular garantido. Por mais que você escroteie, não será
mais safado e anti-ético que eles. Eles sempre serão piores
que você. Você pode cagar no prato que eles estão
comendo e mesmo assim não vingará dez por cento das
vigarices que eles aprontam.
Uma onda de revolta contra esses filhos da puta
surgiu depois de irmos a uma festa onde o Fábio pagaria as
entradas. Na hora fomos sacar a grana num banco 24 horas
perto da festa e a porra do cartão não funcionou. Puta que o
pariu! Tínhamos pego dois ônibus pra chegar na quiçaça
onde seria a festa e não tínhamos grana nem pra entrada.
Não teve jeito, tiver que voltar pra casa com o rabo
entre as pernas. Na kit dos piás naquela noite o assunto foi
só revolta.
- Temos que fazer uma ação contra os bancos de novo. –
Fabio estava profundamente indignado.
- Mas fazer o quê?
- Ah, cara, imaginação minha situação, sabendo que tenho
saldo e não poder fazer nada pra transformar aqueles
números em dinheiro.
- É que você não é alquimista.
- Pode crer, Vini. É bem isso mesmo. – Jean, o místico, curtiu
a comparação. – É quase como uma transmutação.
Chutando o pau do barraco dá pra dizer que o teu cartão é
como uma pedra filosofal.
- Um toque de Midas e a porra da máquina vomita o
dinheiro.
- Se souber a senha

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Decifra-me ou devoro-te.
Ficamos nessa viagem praticamente a noite inteira.
Um verdadeiro bando de paranóicos obcecados. No meio
dessa nóia acabei lembrando do Antonio Silvino de São
Paulo, que tinha comentado comigo sobre a possibilidade de
fazermos uns sacrifícios de animais nos caixas eletrônicos.
Comentei isso distraidamente, mas o Fabio
imediatamente saltou de onde estava.
- Caralho! É isso aí, cara, é bem isso daí!
- O que, veio?
- Lembra do nosso catecismo do dia em que o Vinicius
abençoou o banco? Aquela parada do dinheiro virtual,
espiritual mas com poderes sobre o mundo material. Um
demônio! Lembra?
- Só!
- Então! A gente faz um despacho pro Exu Dimdim.
Todos caímos na gargalhada. É incrível o que a
delinqüência juvenil faz na cabeça de um desocupado.
- E a gente ainda pode fugir do óbvio.
- Como assim?
- Toda a macumba que se preze tem que ter uma galinha
preta morta e a gente pode fazer uma parada em prol dos
direitos dos animais.
- Não captei, juro que não captei. Você não vai matar a
galinha? Vai deixar a galinha viva, é?
- Não, a galinha será uma suicida, um mártir, a gente pode
fazer uma cruz e crucifica-la como um cristo morrendo pra
salvar os pecadores.
- Fabio, você está se sentindo bem?
- Olha galera, pode ser engraçado. A gente pode deixar uma
carta de despedida toda invocada, vai ser massa.
Falei que o Antonio tinha comentado comigo sobre
isso também e tinha também sugerido de colocarmos um

66
Manual Prático da Delinquência Juvenil

“carimbo” com a pata da galinha como se fosse uma


assinatura.
- Então? Perfeito! O que vocês acham?
Mais uma vez não tínhamos muito o que discutir, era
uma proposta tentadora. Acabamos, depois de todas as
nossas ações, nos tornando uns fracos diante desse tipo de
proposta. Óbvio que topamos.
Durante a semana tratamos de conseguir o material.
Dessa vez não teve como economizar um troco, pra fazer
um trabalho de profissional tivemos que investir uma grana
numa loja de artigos de umbanda pra comprar o material
necessário.
Fabio estava engajado no negócio, era como se fosse
sua “causa pessoal” por excelência. Pagou tudo sem
pestanejar.
- Essa grana a gente ia gastar naquela festa mesmo. Acho
cabalístico usarmos essa grana pra vingar o ocorrido.
- E o pior é que é...
No outro dia mandei um e-mail pro Antonio Silvino
contando os planos e ele entusiasmou com a idéia e
acabamos por combinar de fazer um ataque sincronizado,
ele e os amigos dele em São Paulo e nós em Curitiba.
Combinamos pra quinta-feira de madrugada e tratamos de
fazer uma “carta de despedida” igual para os dois ataques.
A galera se entusiasmou com essa parada de ataque
sincronizado.
- Massa, as coisas estão começando a ficarem grandes.
Compramos três galinhas. Tivemos que ir até o
mercado municipal pra conseguir galinhas vivas, com
penas. E pretas. Não foi tão fácil como possa parecer. Uma
vez conseguidas as galinhas vivas o empenho foi mata-las.
- Eu quero! Eu quero! – Vinicius é um escroto,
completamente alheio a esse papo de direitos dos animais.
Participou da ação da churrascaria mais por delinqüência
mesmo. Aliás, todos nós, não se pode negar.

67
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Por fim teve um tio que nos indicou um açougue de


um conhecido que matou as penosas pra gente na faixa.
Não sem perguntar:
- O que é que vocês vão fazer com essas galinhas?
- Macumba mesmo.
- Ta certo... – falou com um ar pouco convincente.
Depois fomos atrás das cruzes, iríamos crucificar as
coitadas mesmo. Sergio pintou as cruzes e fez até aquela
inscrição INRI. Escolhemos três caixas eletrônicos da Rede
24 Horas, aqueles vermelhos que aceitam cartões de vários
bancos. Combinamos com os caras de São Paulo de
fazermos a parada na mesma hora pra ficar mais “místico”:
duas horas da madruga.
Logo depois da meia noite saímos a pé carregando os
despachos dentro de mochilas. As galinhas mortas que
tínhamos deixado dentro da geladeira tinha endurecido e
tivemso que dar uma cozinhadinha na água quente pra
amolecer. As penas e tudo mais deixar a kitnete dos guris
fedendo pra caralho. Tudo bem, ossos do ofício. Escolhemos
um caixa perto da Praça Japão, que eu curto pra cacete, um
no Batel e outro perto do CEFET. Não eram nada perto um
do outro, o que nos obrigou a fazermos um verdadeiro
caminho de Santiago.
No primeiro entro o Sergio e o Jean enquanto eu e os
outros ficamos cuidando pra ver se ninguém interromperia a
cerimônia. Colaram três cópias da carta de despedida,
crucificaram a galinha, acenderam as velas e com o sangue
escreveram a frase: “O dinheiro é o mal”
Ficou massa, esteticamente apavorante como
deveria ser. Seguimos pro segundo alvo muito animados
pela facilidade que tinha sido fazer o primeiro despacho.
No caixa do Batel as coisas não foram tão simples.
Entrou eu e o Fabio, crucificamos a penosa (tivemos que
usar pregos grandes e o martelo de bater bife do Jean) e na
hora em que íamos acender as velas os guris soaram o
alarme. Um carro estava estacionando ao lado pra sacar
grana. Não queríamos ser vistos e recolhemos tudo

68
Manual Prático da Delinquência Juvenil

imediatamente. A mochila do Fabio ficou cheia de sangue.


Na hora em que saímos deveríamos estar com uma cara
muito estranha pois o sujeito desistiu do saque e foi
embora, provavelmente imaginando tratar-se de um assalto.
Fiquei cabreiro.
- O cara pode chamar a polícia.
- Então vamos logo!
Tiramos a galinha da mochila e acendemos as velas.
Enquanto Fabio colava as cartas de despedida molhei os
dedos no sangue e escrevi nas paredes a frase: “Livre-se do
mal, vandalise os bancos”.
Estava tão cabreiro com a possibilidade da policia
chegar e tão orgulhoso da tarefa que desisti de acompanhar
os guris no terceiro alvo e decidi me esconder numa árvore
pra esperar alguém chegar e ver a cena.
Aparentemente aquele caixa era movimentado e eu
estava curioso.
O resto do pessoal sumiu pra dar continuidade na
operação e eu fiquei esperando. Demorou pra caralho pra
vir alguém. Já estava quase pegando no sono quando
estacionou um carro. Era um casal de velhos. O marido ficou
no carro e a mulher entrou no caixa. De onde eu estava deu
pra ouvir o berro. A mulher saiu desesperada gritando
histérica.
- Ai meu Deus do céu! Ai meu Deus do céu!
Deviam ser um casal de evangélicos ou coisa que o
valha pois ela usava uma saia longa. O carro saiu cantando
pneus, deviam estar indignados. Eufórico, saí correndo em
direção ao CEFET pra encontrar o resto do pessoal. Cheguei
lá e os viados tinham colocado o despacho do lado de fora
do caixa e não estavam mais lá. De longe já dava pra ver as
velas.
Cheguei perto e tinha um guardinha de rua e casal
de namorados rindo e olhando a cena.
- Quem será que fez isso?

69
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Não sei, vi uns garotos saindo daqui correndo e quando


cheguei vi isso. Coisa de louco.
- Foda, muito foda.
Quase não consegui conter o riso. Quando cheguei
na kit estavam todos acordados, inclusive os visinhos. Os
caras chegaram tão animados que arregaçaram o som pra
comemorar e gerado a maior confusão no prédio por causa
do som alto.
Estava cansado. Dormi feliz sem saber o desfecho da
confusão com os vizinhos e me mordendo de curiosidade de
saber se os colegas de São Paulo também tinham sido bem
sucedidos. Naquela noite os anjinhos devem ter velado por
mim, pois mais uma vez tínhamos sacaneado aqueles
lugares do mal que são os bancos.
Deus deve ser um vândalo.

Os Pobre Que Me Desculpem, Mas Beleza Custa Caro -


(ato doze)

Semana passada fomos a uma festa burguesa. Cada


vez que vou num troço desses mais me convenço que
burgues não sabe se divertir. Era uma festa de aniversário
de uma colega de aula da Marília e os delinquentes foram
em peso entrar de peru e comer e berber às custas dos
ricos miseráveis.
Tinha gata pra caralho. Como diz o Eduf, às vezes dá
vontade de desistir de destruir a burguesia, afinal elas
rendem boas filhas. Tudo muito bonito. Tudo muito fashion,
mas no final das contas ninguém dançou à vontade e mais
uma vez: ninguém comeu ninguém. Fabio foi quem saiu
mais revoltado.
- Rapaz, se nós tivéssemos ido num aniversário em
Colombo, lá perto de casa, duvido que teríamos ficado sem
agarrar ninguém.
- Mas eram gatas, ah isso eram.

70
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Gatas porque tem grana. Ser bonito custa caro, mano véio.
- É, acho que todas aquelas minas passaram a tarde toda no
salão.
- E não repetem roupas nunca, jamais. Estávamos voltando
a pé, em seis pessoas se economiza dez reais na grana do
latão, quando cruzamos com uma catadora de papelão pra
lá de retardatária eu tive a inspiração.
- Galera, já sei de um troço massa pra gente fazer.
- Óia! Ari saindo ta tumba, o que é?
- Lembra dos meninos no Shopping? Lembra que o povo da
internet caiu de pau em cima, dizendo que usamos a
gurizada?
- Tá e daí?
- Daí que levamos um adulto – e apontei pra catadora de
papelão que já ia longe.
Ficaram pensando, em silêncio...
- E fazer o quê? Pagar um Mac Shit?
- Vocês são burros mesmo, ainda não se ligaram, baseado
no que o Fabio falou, que beleza custa caro, poderemos dar
uma de Xuxa, o antes e o depois, estão ligados agora?
Toparam. Toparam no ato. Levar uma catadora num
salão de beleza fresco, todo metido. Foi massa porque
pareceu que todo mundo se ligou na idéia ao mesmo, sem
ninguém falar nada. Vinicius saiu correndo atrás da
catadora, demorou uns minutos e voltou correndo, quase
sem fôlego.
- Marquei com ela. Perguntei como fazia. Pra achar ela. Pode
ser ela. Né?
Ficou então combinado. Só que andando depois nos
ligamos num detalhe: e a grana? Aquelas bostas daquelea
salões frescos cobram uma fortuna. Foi um autêntico balde
de água fria nos nossos planos, voltamos cabisbaixos o resto
do percurso. Foi Jean quem salvou a pátria com um telefone
no outro dia à tarde.

71
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Cara! Descobri um jeito de conseguirmos a grana.


- Que jeito?
- Surpresa, vou passar aí de moto pra pegar vocês.
Jean trabalha com entregas de moto e usou a moto
do trampo pra nos buscar. Largou todos nós, um por um, na
frente da PUC sem ninguém entender bosta nenhuma do
que estava acontecendo.
- Olhem os calouros da facul cobrando pedágio.
Então esse era seu plano, fingir de calouro pra cobrar
pedágio. Realmente, deu pra notar que em cinco minutos
eles devem ter levantado uns cinco reais. Um negócio
altamente rentável.
- É, só que precisamos de umas minas. – Falou Vinicius, já
tomando a iniciativa de ligar pra Marilia convocando as
amigas mais caradura que ela tinha. Mais ou menos uma
hora depois já estavamos todos a postos, camuflados e
embarrados no cruzamento da Guabirotuba com a Av. Das
Torres, nem muito longe, nem muito perto da PUC, perfeito.
Não foi tão fácil quanto imaginávamos. Muita gente
nem olhava na nossa cara. É a crise. Levamos mais de três
horas pra levantarmos os 120 Reais necessários. Voltamos
pra casa cansados e torramos dez reais em chopes pra
comemorarmos. Uma vez conseguina a grana tratamos de
definir um dia massa pro “ataque”.
Tinha que ser num sábado, salão lotado, galera se
enfeitando pra night... Foi Marilia quem deu o toque.
- Se é no sábado, acho melhor ligar antes pra marcar hora,
até os salões mais fuleiros lotam no sábado.
Foi ela quem ligou. Marilia é uma verdadeira atriz,
um dos grandes talentos esqueçidos nas periferias.
Falou com um tom de voz absolutamente de
madame. Quase nos rachamos de rir e ela tapando o bocal
do telefone e nos xingando.
- Calem a boca seus bostinhas!

72
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Depois foi Vinicius quem teve que se mexer. Era ele


quem tinha o contato com a catadora de papelão.
Saiu atrás dela no outro dia à tarde e quando
anoiteceu apareceu com ela no prédio das kitinetes. Fabio
pirou quando viu pela janela.
- Não boto fé que o Vini trouxe a mulher aqui!
Pirou tanto que viajou de bancar o estacinamento da
corrocinha numa garagem a uma quadra dali. Foi cômico ver
o funcionário da garagem sem saber o que dizer e acabar
deixando estacionar ao lado de uma Mercedez preta. A
mlher chamava-se Denise, era gente boa pra cacete e
acabamos firmando uma baita amizade.
Tinha cinco filhos e a menina mais velha cuidava da
pirralhadazinha enquanto ela trabalhava.
- Rafael, o mais caçulinha, andou comigo na charrete dos
três mês até um ano e meio, tá ficando em casa agora por
causa daquela gripe que não cura, sabe? No inverno fica
mais difícil.
Tomamos um lanche todos juntos e Jean acabou se
emocionando e dando cinco motos de brinquedo de sua
coleção pra ela dar de brinde pros pequenos. Nos
despedimos com tudo combinado pro sábado. Sergio estava
meio descrente.
- Eles podem não deixar entrar, vocês tão ligados que ela
cheira mal pra cacete.
- Se não deixarem a gente se vinga.
- É, e dizer pra ela tomar banho antes é ridículo.
- Sim, só tô dizendo pra ficarem ligados, pode ser que os
caras não deixem entrar.
Sábado à tarde estávamos todos ansiosos. Tínhamos
dito pra Denise que ela não precisava passar em casa antes.
Trabalharia demanhã, do jeito como sempre fazia, deixava a
carroçinha estacionada perto das kits e pronto. Não
precisava de frescura, tínhamos conversado sobre a razão
daquilo tudo e ela concordava com a gente.

73
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Aquelas dondocas tem que me aceitar.


Fomos ao Shopping Curitiba a pé e animados, Jean
ficou de nos encontrar lá. Denise estava feliz, orgulhosa de
si & contava uma piada besta atrás da outra. Ela é uma
grande figura, mas é fã do Ratinho e votou no filho dele nas
últimas eleições.
Mal entramos no shopping e o povo já começou a
olhar atravessado. Eu reparei, quando a gente cruzava pelas
pessoas ninguém olhava na nossa cara, mas depois que
passavam era só olhar pra trás e ver como ficcavam
olhando, fazendo gestos e comentários maldosos com quem
estava ao lado.
Sentamos tomar um café antes, pois estávamos
quinze minutos adiantados e o Jean estav por chegar. É
indignante ver que até a funcionária do café, ralé fudida
como nós, nos esnobou. Trouxe o café e esqueceu o açúcar
de propósito. O povo se ilude fácil com esse status podre.
Fábio jurou vingança.
- Cara, a gente ainda tem que voltar aqui e aprontar uma
feia com esses merdas.
- Calma, relaxa que agora estamos aqui pra outra coisa.
Estávamos terminando o café quando chegou o Jean
com uma sacolinha se desculpando pelo atraso.
- O que é isso aí?
- Nada não, uma surpresinha pra depois do ataque.
Então fomos ao maldito salão. Marilia entrou antes,
deu o nome Denise a funcionária falou que estava tudo
pronto e que era só deitar no negócio de lavar o cabelo.
Marilia então chamou Denise e ficamos olhando do lado de
fora e posso te garantir: foi uma cena muito muito
engraçada.
Todas, sem exceção, olharam pra nossa amiga de
cara feia e torçendo o nariz. A funcionária de lavaria o
cabelo ficou atônita, perdidaça, sem saber pra que lado ou
pra quem olhar. Esqueci de dizer mas o cabelo de Denise
era crespão e alto e duro e devia se erguer a uns vinte

74
Manual Prático da Delinquência Juvenil

centímetros acima da cabeça.


Denise deitou-se a mulher começou a lavar o cabelo
lentamente, parecia nervosa, parecia na verdade uma
funcionária inexperiente em seu primeiro dia de trabalho. A
outra que parecia ser a gerente aproximou-se de Marilia
com uma prancheta com os horários marcados e perguntou
com um ar de desdém:
- É pra fazer as mãos e os pés também?
- Sim, é pra fazer tudo, hoje será uma noite muito especial
pra ela.
Afinal, estávamos com a grana, estávamos pagando
aquela porra. Marilia ficou controlando e fiscalizando tudo,
uma verdadeira pentelha, queria o trabalho bem feito.
Quando Denise sentou-se pra escovar o cabelo e a
manicure e a pedicure e tudo mais, entramos todos no salão
pra curtir mais de perto. Antes que alguém viesse nos
perguntar algo Marilia adiantou-se.
- São nossos amigos, estão nos esperando.
Aceitaram a contragosto. O clima no salão era
horrível, ninguém conversava nada e tinha três minas que
ficavam se abanando pra demonstrar que não estavam
gostando nem um pouco do mau cheiro da nova cliente. Não
se preocuparem nem em disfarçar o preconceito.
A obra de arte no visual de Denise demorou pra
caralho pra ficar pronta. O escovamento do cabelo foi uma
coisa interminável. Os pés as funcionárias tiveram que lavar
e escovar por completo e várias vezes, Marilia o tempo todo
em cima, controlando. Nesse meio tempo entrou uma
senhora esperando a vez, esperou cinco minutos e saiu
resmungando que iria a outro salão mais bem frequentado.
Que se foda ela.
Quando ficou pronto olhamos todos pra Denise.
Apesar de 28 anos de sofrimento, dá pra dizer que ficou
bonitos. Todos nós a elogiamos e ficou toda boba, rindo à
toa. Pagamos a conta e saímos sorridentes, deixando pra
trás uma multidão de aliviados com nossa ausência.

75
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Já estávamos na rua quando nos damos por conta da


caixa do Jean com a surpresa pra depois do ataque. Ele
tinha esqueçido no salão.
- Porra, deixa eu ligar lá pra ver se elas encontram.
Foi num orelhão e voltou se cagando de rir. Se torçia
todo de tanto rir, não conseguia nem falar.
- O que foi cara?
- A caixa véio, tinha umas duzentas baratas dentro e um
fundo falso, era só levantar que as baratas caíam. Caralho!
Eu pedi pra mulher que atendeu o telefone pra guardar a
caixa pra mim e foi foda, deu ouvir a gritaria do outro lado
da linha!
Jean se superou. Caímos todos na gargalhada e se
tem uma intervenção que pro resto de meus dias vou
lembrar como bem sucedida, foi essa.
- Longa vida à delinquencia juvenil!!!!

As Andorinhas tem Duas Casas (e não alugam a que


está vaga) - (ato treze)

Morar em kitnete é foda. A maioria só tem um


cômodo e se bobear até o banheiro é conjugado. Jean e
Vinicius já repartiam apertadamente aquele cubículo e
desde que Sergio veio do interior está morando junto e olha
que o cara é metido a artista plástico e faz uma bagunça do
caralho com sua criatividade.
Estávamos todos discutindo a possibilidade de
alugarmos algo maior quando o neo-
revoltadocontraosistema Fabio, começou a discursar.
- Aluguel é o fim do mundo! Já não concordo com
propriedade privada, aluguel então, é muito porco.
- Realmente... é uma grana que só sai, que morre.
- E veja bem, é um negócio que não produz, só suga.
- Me diz uma coisa, a maioria das pessoas mora de aluguel,

76
Manual Prático da Delinquência Juvenil

né?
- Em cidade grande pelo menos acho que é assim.
- Tínhamos que fazer alguma intervenção cutucando nessa
ferida.
- É, mas o quê?
- Não sei...
É interessante como as inspirações às vezes brotam
das coisas mais bestas. Desta vez foi Vinicius que saiu pra ir
na Lanchonete da esquina pra comprar refri pra nossa tuba
e voltou com um sorriso de orelha a orelha.
- Olha o cara!
- Parece aquele gato rosa e rocho do Alice no País das
Maravilhas.
- Tive uma idéia pra fuder com esses caras que alugam
casas.
- Ó o cara! Ó o cara!
- Eu tava voltando. Viajando. Olhando pra cima e vi um
placa “aluga-se” na janela de um apê vazio.
Todo escuro, absolutamente vazio, completamente
limpo pra gente entrar.
- Invadir apartamento?
- E aí a gente pinta as paredes e faz altas obras de
terrorismo poético.
- Não é um má idéia. – comentou Fábio coçando sua
barbinha rala.
- É, só que não podia ser um apartamento, esqueceram as
dificuldades de se entrar num prédio do dia em que jogamos
a TV? O que dirá então de entrar num apartamento...
Todos concordaram que apê era a princípio inviável,
mas que era preciso fazer algo nesse sentido.
Fábio sugeriu uma casa num desses bairros mais
burgueses.

77
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Se der uma banda nos bairros vai ver uma porrada de casa
grande, massa, pra alugar.
- E o alarme?
- Já andei pensando nessas paradas noutro dia e me liguei
num negócio. Tem uma casas que tem cachorro cuidando.
Nessas casas não deve ter alarme, se não, pra que
cachorro?
- Tá, mas e os cachorros?
- A gente consegue um negócio pra eles dormirem. Tipo
alguma coisa pra misturar num naco de carne.
- É Fabio, parece que você não é tão tongo quanto aparenta.
- E voce não é tão ligado quanto aparenta.
A operação aos poucos acabou sendo definida. Eu e
Fabio saímos dar um rolê de buzum lá pelas bandas do
Bacacheri numa tediosa tarde de domingo pra definir o alvo.
Fabio é mestre nesse tipo de coisa, foi ele que escolheu o
prédio pro Jean jogar a TV naquela vez. Marilia se
encarregou de conseguir calmantes com sua tia
hipocondríaca pros cães dormirem. Acabamos por encontrar
uma casa limpeza, bala, no Bairro do Tingüi, com dois São
Bernardo e um Pastor Alemão, próxima de uns terrenos
baldios. A casa era grande, um sobrado com um quintal
arregado. Era o alvo perfeito.
Tratamos então de conseguir o material pro ataque.
Sergio batalhou e conseguiu vender umas agendas e uns
cartões que ele faz e com a grana comprou uns quantos
tubos de tinta a óleo. Jean comprou uns sprays. Eu giz de
cera das Casas China, afinal ando duro pra caralho. Fabio
imprimiu uma porrada de poemas e comprou umas fitinhas
coloridas pra amarrá-los não se sabe onde e Vinicius
comprou fósforos e álcool.
- Que merda você vai fazer com isso?
- Só o Jean que pode fazer surpresas agora? Na hora vocês
vão ver.
- Tá bom, só não vai fazer merda, não vai foder com tudo.

78
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Perto da meia noite de quinta-feira pegamos um


latão até o Terminal do Cabral e o resto do trecho seguimos
a pé. Caminhar é bom pra pensar e precisávamos de uns
momentos de concentração. A uns quinhentos metros do
alvo nos dividimos, Fabio, Vinicius e Jean foram na frente pra
sedar as feras e eu fiquei com o Sergio, estava um pouco
nervoso com essa coisa de invadir casa com cachorro.
Demoraram pra caraaaalho, mas demoraram mesmo.
Umas três horas ou mais, já estávamos preocupados que
tivesse acontecido alguma coisa e já estávamos pensando
em “operação resgate”, quando chegaram.
- Porra cara, onde é que vocês estavam?
- Os filhos da putas dos cachorros não quiseram comera a
carne de jeito nenhum, tivemos que achar outra casa com
um Pitbull mané que topou comer. A casa é massa também
só que temos que apurar antes que aquele monstro acorde.
Fomos correndo e chegando lá pulamos uma grade
alta do lado esquerdo da casa, os piás já estavam ligados
das manhas. Difícil mesmo foi entrar dentro da casa. O
curso de “chaveiros” que o Jean tinha conseguido pra gente
foi altamente mandrake, não aprendemos a arrombar portas
bosta nenhuma. As janelas do térreo tinham grades e a
única janela alta disponível, que era o plano de invasão do
Fabio, revelou-se de difícil escalada. Pra completar não tinha
nenhuma escada ou algo semelhante no quintal.
Acabou que tivemos que arrombar uma porta. Foi um
cagaço dos diabos o barulho que aquela porra fez. O
cachorro se mecheu onde estava deitado e todos nós
prendemos a respiração. Quando entramos na casa
estávamos todos tensos.
- Galera, vamos sentar aqui no escuro, relaxar um pouco e
ouvir os ruídos. – eu estava tenso, muito tenso.
Todos sentaram enquanto eu fumei dois cigarros pra
me acalmar. Jean foi o primeiro a se levantar e começar a
trabalhar com seu spray. Primeiro fez a pichação
delinqüente número um: cú. Depois foi escrevendo outras
frases. “Toda propriedade é um roubo”. “Estamos em

79
Manual Prático da Delinquência Juvenil

território inimigo e o inimigo está em nós”. “Na natureza


não existem leis, apenas hábitos”. Relaxei, pedi o spray
emprestado e mandei ver: “Em mim também dói.”
Então todos assumiram suas tarefas e damos início
ao circo de horrores. Engraçado foi ver Vinicius, o homem da
surpresa, só sentado nos olhando na penumbra com seu
sorrisinho de Monalisa. Sergio acendeu uma vela pra
iluminar e começou a jogar umas tintas na parede pra fazer
uns fundos coloridos. Fabio saiu com seus poemas e fitinha
coloridas pro quintal e eu comecei a desenhar umas charges
toscas na parede com meu estojo de giz de cera de um e
noventa e nove.
Jean esvaziou seu spray e ficou sentado com Vini
curtindo o trabalho do Sergio que estava realmente ficando
muito louco. Todos nós criticamos o meio artístico e suas
afetação mas admiramos o trabalho do Sergio, o cara é
bom. Ele já estava quase no fim quando ouvimos alguém
bater palmas na frente da casa.
- Puta que o pariu! Quem será que é?
- Olha lá, rápido.
Vinicius rastejou teatralmente até a janela da frente
e deu uma espiada discreta.
- É um carinha de moto, desses que fazem ronda nos
bairros.
- Merda deve ter visto a vela, apaga essa porra Sergio!
Apagamos e nos escondemos todos na área de
serviço perto da saída. Vini ficou de butica no cara da moto.
Ele deçeu da moto, olhou no escuro primeiro, depois
açendeu uma lanterna, iluminou e viu o cachorro dormindo.
Apitou pra acordá-lo e todos nós quase tivemos ataques
cardíacos simultâneos. Ufa, o viado não acordou, só que o
ronda ficou desconfiadíssimo, sentou na moto e esperou um
tempão pra ver se ouvia algo.
Tava na cara que era hora de saírmos fora antes que
as coisas se complicassem ainda mais.
- Vamos embora povo! – chamei.

80
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Espera o cara sair.


Só que ele não saiu. Quer dizer, saiu e estacionou a
moto na esquina próxima e montou campana no escurinho
da sombra duma árvore.
- É... o cara não vai em bora tão cedo.
- Vamos embora! – eu estava muito nervoso.
Sergio foi pé por pé e terminou sua genial obra no
escuro mesmo enquanto fomos conferir o que Fabio estava
aprontando no quintal. Fez um troço até que bem massa.
Tinha umas árvores pequenas e ele fez uma autêntica
decoração de natal com seus poemas em todas as árvores,
de dia deve ter ficado esteticamente alucinante. Sergio
voltou e fomos todos até o muro dos fundos pra saltar fora
quando nos demos por conta que o Vini tinha sumido.
- Onde aquele viado se socou?
Sergio já estava saindo em sua procura quando o
lazarento revelou sua tão misteriosa surpresa: um enorme
clarão saindo de dentro da casa, o paunocu tinha tacado
fogo em alguma coisa.
- Você incendiou a merda da casa seu bostinha!!!!
- Nada, só açendi a lareira com uma Revista Veja que
encontrei no canto sala, essas revistas mereçeem, vamos
embora.
- Seu mané, porque você fez isso?
- Bora! Não discute! Depois a gente conversa.
O guardião do bairro apitou, acelerou sua moto e
veio rapidinho quando se ligou do fogo. Dessa vez o
cachorro acordou com o barulho e avançou em nossa
direção. O cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio
Augusto se amarrou pra conseguir pular o muro e levou uma
senhora duma dentada na barriga da perna. Ainda bem que
a calça jeans que estava usando era bem grossa e os dentes
do cão não chegaram a furar a perna, mas deixou umas
doloridas marcas de dentes. Quando pulamos o muro
descobrimos que tínhamos dado um azar fudido, o terreno

81
Manual Prático da Delinquência Juvenil

era um lamaçal infernal.


Chafurdamos feito uns fugitivos desesperados. Foi
um verdadeiro recorde dos cem metros chafurdados.
- Que porra! Que zica do caralho!
Vinicius estava em êxtase por causa de sua fogueira
idiota e ria feito um demente. Sentamos no outro lado
quarteirão pra descansar e desbaratinar o cara da moto que
iluminava o lamaçal com sua lanterna tentando nos
localizar. Altos momentos de tensão, o décimo terceiro
ataque não podia terminar mesmo bem. Se o treze fosse
mesmo o número da sorte como o Zagalo diz tínhamos
ganhado a copa da França. Cabalístico isso.
O dia já estava clareando quando saímos cabreiros
nos esgueirando pelos cantos das ruas pra fugirmos do
local. Enquanto esperávamos ouvimos sirenes da polícia,
mas felizmente não fomos pegos, a manha foi esperar uma
cara até a poeira baixar. Quando já estávamos
relativamente longe corremos. Corremos muito até
chegarmos numa lanchonete pra comer e beber pra poder
voltar pra nossas bestas rotinas de criaturas sociais.
Estávamos Exaustos, Sedentos & Famintos, apesar
da descarga de adrenalina.
O tio da lanchonete estava desconfiadíssimo com
nossa imundície e falamos a ele que estávamos saindo de
uma festa.
- Passamos em Medicina na Federal, tio. O senhor não bota
fé o quanto é difícil e o quanto estamos felizes.
Não gargalhávamos desta vez devido a estarmos
podre, mas sorríamos em silêncio enquanto o lanche não
chegava e no íntimo todos pensavam.
- Foi massa!!!

A radioatividade do ar leva até vocês: mais um


programa da série Delinqüência - (ato quatorze)

82
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Tem dias que a vida parece coca-cola sem gás.


Nenhuma música agrada, nenhuma conversa progride e a
apatia vence o jogo. Estávamos neste estado deplorável,
assistindo São Paulo e Cruzeiro na televisão sem volume,
quando a Ana Paula Padrão interrompeu nosso tédio com
aquela cara de peito contido que faz na hora de noticiar algo
grave. Era a morte do filho da puta dono da Globo.
Foi show a gritaria da galera, urros selvagens e gritos
primais celebraram o momento. Sergio Augusto então se
emociona e toma a atitude mais inesperada pela qual já
passei. Arrancou da tomada o fio da televisãozinha dos piás
e jogou a lazarenta pela janela.
- Enfim livres! – berrou para todo vizinho que quisesse ouvir.
Foi um choque. Ficamos todos paralisados. Absolutamente
não esperávamos aquilo. Tínhamos jogado uma TV do
sétimo andar outro dia, mas, porra, era a TV dos piás.
Pequena, preto e branca, mas era a TV que eles tinham. Não
falei nada, não sabia o que dizer. Fábio ria que se cagava e
Jean, um dos donos do aparelho, ficou atônito. Mas Vinicius
explodiu em fúria.
- Puta que o pariu! O que tu fez seu viado?
-Ué? E a campanha “Jogue Sua TV Pela Janela”?
Ele estava coberto de razão. Vinicius resmungou e
começou a ficar vermelho de raiva. Sergio tinha em seu
favor falácias passadas, é um desses caras que nunca
perdem a calma.
- Jogar uma TV que não funciona de um edifício invadido e
manter uma funcionando em casa é ridículo.
Vinicius respirou fundo e deve ter contado até mil até
que a realidade começasse a bater. Aliás, bater não, socar
violentamente o rosto, dele e de todos nós que estávamos
lá. O paunocu do Sergio conseguiu fazer com a gente o que
provavelmente não conseguimos fazer com ninguém.
O tão aclamado choque na percepção das coisas, na
rotina bestial enraizada em nossa psique. Num segundo o
Galvão Bueno estava lá, queimando um filme puxando o
saco de seu patrão e noutro segundo a televisão estava na

83
Manual Prático da Delinquência Juvenil

calçada. Não era muito alto, só rachou o tubo de imagem,


mas o suficiente pro fantasma do Galvão sair pelas
rachaduras.
Levamos um tempão pra começar a conversar
novamente. Foi Jean quem quebrou o gelo.
- É seu monstro, você tem razão, veio.
- Com certeza! – ria o Fábio.
- Você fala porque mora com os véio em Colombo e não era
tua.
- Relaxa, mano! A TV era podre e merecia um descanso,
com uns poucos reais você compra outra igual.
Não! Não vou mais comprar televisão. Nunca mais!
Por fim acabaram se abraçando com desculpas e
obrigados que mais pareciam duas bichas locas.
Acabamos ficando acordados até altas horas falando
merda e profanando a alma do pobre milionário que acabara
de morrer. Lá pelas tantas já estávamos normais, viajando
em inventar delinqüências. Fabio estava hilário, foi ele quem
deu o toque.
- Ari! Lembra daquela tua viagem de montarmos uns
transmissorzinhos de FM para interferirmos nas televisões?
- Lembro.
- Pois então, a gente pode aproveitar essa deixa pra fazer a
parada.
- Tens razão...
- Pois então, vamos mexer nossas bundas gordas. Depois
daquela baia invadida em que quase ninguém viu nossa
ação eu tava afim dum esparro.
No outro dia Vinicius tratou de encontrar Marcelo,
aquele primo da Marilia que é técnico e que quebrou nosso
galho no ataque da churrascaria. Naquela vez ele participou
junto, pirou e se dispôs de quebrar outros galhos.
E este era um novo galho.

84
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Porra gurizada, esse é fácil! Com um transistorzinho besta


e vocês montam um transmissor com mais de duzentos
metros de alcance.
- Mas é fácil mesmo?
- Claro, numa tarde a gente monta e é baratinho,
arrumamos quase tudo que precisa na minha sucata de
novo.
Passamos então a considerar os aspectos práticos da
operação. Com alcance 300 metros de raio resultaria numa
área de abrangência de um circulo de 600 metros de
diâmetro, isso sem nenhum prédio ou montanha no meio.
Uma barreira de edifícios, por exemplo, atenuaria o sinal.
Escolhemos então um bairro residencial. Jean estava
interessado em atingir a maior quantidade de casas
possível.
- Não tem como aumentar a potência do sinal pra atingir
mais casas?
- Até tem, mas vai encarecer e complicar um pouco mais.
- Muito?
-Passa de cem reais. Mas escuta o seguinte, vocês podem
montar vários transmissores e se esparramarem, desse jeito
dá pra cobrir uma área grande.
- E dá pra transmitir sons ou já é viajar na maionese?
- Dá sim, imagem é mais complicado porque o sinal de vídeo
em AM e gerar imagens são um negócio mais foda, mas som
dá, um microfonezinho de eletreto e tá feita a cagada.
Perfeito. Passamos o domingo inteiro confeccionando
os transmissores, queríamos interromper a transmissão do
Fantástico, queríamos ibope. Todos trabalharam juntos, cada
um no seu, menos o Sergio.
- Dessa vez quero ficar de camarote, vamos escolher o
bairro do Água Verde e eu fico na casa da Marilia assistindo
a TV com ela e a família dela fazendo de conta que não
sabemos de nada. Quero conferir se a parada vai funcionar
mesmo ou não.

85
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Sergio, Vinicius e Marilia foram até a casa dela antes


com os transmissores. Eu, Jean e Fábio fomos definir os
pontos onde iríamos transmitir de modo a atingir a maior
quantidade de lares possível. Fomos criteriosos pra cacete.
Escolhemos quatro árvores das quais era possível enchergar
as TVs pelas janelas das casas. Uma vez definidos os locais
fomos buscar os aparelhos com Sérgio. Porém um teste
rápido na casa da Marília revelou o pior, o viado tinha
carregado eles na mochila sem o menor cuidado, amassou
as bobinas e ferrou com o ajuste de freqüência.
Mas tem males que vem pra bem e enquanto passei
a segunda-feira inteira me desviando de minhas funções no
trampo reajustando tudo me dei por conta de que
poderíamos fazer uma grande palhaçada: esperar pelo dia
da missa de sétimo dia e interrompermos o Jornal Nacional.
Liguei pros piás imediatamente.
- E aí Jean, o que você acha?
- Acho a idéia boa, mas dá pra melhorar.
- Como assim?
- Lembra do Tiba e do Ribamar, que rachavam o apê com a
gente nas antigas?
- Sim, mas e daí?
- Eles são feras em imitar a voz de pessoas famosas. Ele
podiam imitar a voz de figuras conhecidas e aí poderíamos
tirar onda verdade.
Perfeito. Vini se encarregou de falar com os caras e
explicar os detalhes de toda a nossa viagem, pois eles
estavam absolutamente por fora de nossas ações. O etílico
Tiba pirou com a idéia, mas fez uma exigência.
- Tá certo, a gente faz, mas tá um frio do caralho e eu queria
fazer a cabeça antes com uns quentões.Sabe? Aquecer os
neurônios.
- Eu falo com minha namorada e a mãe dela faz o quentão.
Terça à noite então tomamos um belo trago e saímos
aquecido e levemente chapados de quentão pra nossas

86
Manual Prático da Delinquência Juvenil

atividades. Eu e os outros delinqüentes de sempre


ficaríamos cada um em sua árvore ciceroneando a
transmissão e Tiba e Riba (bela dupla, não é verdade?)
ficariam se revezando nas imitações, teriam que correr de
um lado pra outro.
Seria na hora do Jornal Nacional e quando o
programa começou Sergio, que novamente estava de
plantão na casa da Marilia soltou um rojão quando William
Boner deu seu formal boa noite em rede nacional. Liguei
meu transmissor e comecei:
- Senhoras e senhores, interrompemos a transmissão da
Globo pra homenagearmos esse grande filho da puta
chamado Roberto Marinho e sua nefasta Rede Globo de
televisão. Transmitiremos uma série de depoimentos
emocionados de personalidades conhecidas.
Nesse meio tempo chegou o Tiba.
- Com vocês: Leonel Brizola.
Soltei o microfone que tinha sido previamente
adaptado a um fio longo pro Tiba e ele caprichou no seu
sotaque de gaúcho.
- O povo brasileiro tem que entender o motivo de minha
angústia com essa morte. Minha vida perdeu o sentido, foi-
se meu inimigo predileto.
- E agora: George W. Bush, presidente dos Estados Unidos
da américa:
Tiba então mandou ver num sotaque de gringo em praias
tropicais:
- Lamentamos com profundo pesar a morte desta
importantíssimo jornalista argentino.
De repente mais um rojão, era Sergio sinalizando que
a bagaça estava funcionando. Tiba correu pra árvore do
Fabio e enquanto esperava pelo Riba segui discursando
sobre os males que a Globo infligiu na história recente de
nosso país. Jean fez uma bela pesquisa na internet sobre as
filhadaputiçes globais. Discursei abençoado por Marte, que
brilhava majestoso no céu logo abaixo da lua. O céu das

87
Manual Prático da Delinquência Juvenil

frias noites curitibanas é simplesmente sensacional.


Ribamar chegou logo e a palhaçada continuou com Dercy
Gonçalves.
- É, seu filhos de uma puta! Vou enterrar vocês todos!
Silvio Santos veio com a nova última piada nacional:
- Hahaê! Ele me ganhou! Ele me ganhou! Ameacei morrer
pra melhorar meu ibope, mas ele me ganhou, morreu de
verdade! Hahaêê, Lombardi!!
- É patrão! Ele saiu na frente!!
Então Anthony Garotinho se mete na conversa:
- Graças a Deus não foi nenhuma bala perdida!
- E atenção pessoal! Temos aqui a importante presença de
um membro da ONG Greenpeace! “Primeiro acabaram com
o Leão Marinho, depois foi a extinção do Cavalo Marinho, e
agora, o Roberto Marinho. Enfim, uma grande perda pra
biodiversidade.”
Ribamar saiu correndo e fiquei esperando pelo Tiba
novamente, sem parar a transmissão. Quando Tiba chegou
perto e pegou o microfone eis que acontece a tragédia, ou a
comédia, o futuro dirá. Um gordão saiu correndo de uma
casa no meio da quadra totalmente indignado, se ligou na
fita.
- Seus vagabundos! Vocês não tem mais nada o que fazer
seus merdas do caralho!!!
Trazia um porrete na mão e me viu em cima da
árvore segurando o fio do microfone. Imediatamente gritei:
- Fuja locôôooo!!!!!
Saímos correndo nos mijando de rir do jeito
desajeitado que o gordão corria com o porrete batendo no
ar e do vastíssimo repertório de palavrões com os quais nos
esculhambava. Tivemos que nos esconder e esperar o resto
da turma terminar a ação.
Apesar desse percalço foi um sucesso. Sergio nos
contou que a mãe da Marilia se torcia rindo no sofá e não

88
Manual Prático da Delinquência Juvenil

deixou o marido trocar de canal. Curtiram a transmissão até


o final e isso nos dá uma noção do efeito de nosso ataque
nos lares do bairro. Aos poucos fomos nos reunindo de volta
na casa e é óbvio que a velha se ligou.
- Foram vocês, né seus desocupados?
Mostramos a ela os aparelhinhos e demos belas
gargalhadas. Jantamos todos lá e depois fomos comemorar
o sucesso da ação no Pacatatucutianão, um bar muito louco
que fica ali no Água Verde mesmo. Os deuses nos
premiaram com uma louquíssima noite de festa e Jean tirou
a sorte grande: agarrou uma gata fenomenal chamada
Alana.
Provavelmente o capeta deve ter dado umas quantas
espetadas no jornalista morto em nossa homenagem.
- Obrigado Capetãããoo!!!!

Uma Missa para o Lado Selvagem - (ato quinze)

Nos últimos tempos o movimento pelos direitos dos


homossexuais tem crescido no mundo todo. De um lado
gays, de outro homofóbicos e as discussões muitas vezes
saem da argumentação pra caírem na violência física pura e
simples. Esse é um assunto polêmico em que os
preconceitos ocultos mais se manifestam.
Na kitnete dos Delinqüentes o assunto veio à tona
quando Jean ligou pra mina que conheceu no
Pacatatucutianão depois de nosso ataque dos
transmissores. Quem atendeu foi o irmão dela, com um alô
totalmente boiola.. Jean ficou de cara.
- Porra, o irmão da mina é viado!
- Que é que tem, cara? Você tá agarrando ela ou o irmão
dela?
- E ainda falou que o nome dela não é Alana merda
nenhuma, é Alice, a mina viajou.
Logo depois entramos num longo bate-boca sobre os

89
Manual Prático da Delinquência Juvenil

gays quando comentei aquelas paradas do Vaticano insistir


em condenar o casamento dos homossexuais. Jean e Fabio
vieram com um discurso escrotamente homofóbico.
- Tem que matar essas bixas todas!
- Já sapatão eu curto. - Escroteou Jean.
Os dois são mesmo uns palhaços safados, Bukowskis
degenerados. Vinícius é o mais cabeça aberta, pra ele que
se foda.
- Cara, o que cada um faz com seu rabo não me interessa. O
cú é teu, mano, faz dele o que quiseres, estou pouco me
fodendo.
Sérgio que me surpreendeu; porra, parece que o cara
tá sempre querendo me surpreender.
- Olha, eu penso o seguinte: não tenho nada contra a
relação de homem com homem ou mulher com mulher. Não
vejo nada de errado nisso, a imagem é que choca.
- Como assim?
- Ah... por exemplo, você olha a foto de um casal
heterossexual se beijando e enxerga amor, mas se o casal
for do mesmo sexo não se vê o amor, apenas o beijo.
- Deixa de ser ridículo!
- Só porque você não vê o amor, não significa que ele não
exista e que mais ninguém vê. À merda você com esse seu
raciocínio.
O bate-boca foi longe, com momentos até de
agressividade, aquela kitnete acabou transformando-se num
microcosmo da questão homossexual. Várias bandeiras
foram erguidas, várias foram baixadas e no final das contas,
como de costume, chegou-se numa espécie de consenso.
Só que infelizmente o consenso não veio porque
ninguém convenceu ninguém. O consenso veio porque
Vinícius teve uma idéia genial pra um ataque. Só assim pra
chegarmos a um consenso mesmo nesse assunto, o que nos
une é a delinqüência, é o desrespeito total às instituições. E
a idéia do Vini era atacar a Igreja, instituição que a tempos

90
Manual Prático da Delinquência Juvenil

estávamos afim de sacanear.


- Prestem atenção no que eu estava pensando.
- Lá vem bomba...
- O Papa não quer que eles casem, lançou uma campanha
mundial e a homofobia só fez crescer no meio católico.
Podíamos fazer um belo protesto contra essa atitude
conservadora.
- Sim, mas que ataque?
- Compramos um monte de revistas pornográficas de gays,
colamos a cara do Papa em cima de cada um que tiver
trepando e colamos os papéis numa igreja.
Ficamos em silêncio, pensando, até que Jean caiu na
gargalhada.
- Cara! É muita palhaçada! Que plano do caralho, meu!!!
Sérgio também riu, curtiu a viagem.
- E a gente podia avacalhar ainda mais, nos vestindo de
travecos e indo assistir a uma missa. Aí a galera emudeceu
mesmo. De verdade. Opa, peraí caceta. Apoiar o movimento
é uma coisa, dar uma de traveco já é outra bem diferente.
Fábio logo já tomou a frente.
- Tô fora!
Fiquei indiferente, até que Vini começou a se mijar de
rir pensando na puta cena que seria fazermos isso.
- Imaginem galera, o constrangimento causado pela
presença espalhafatosa de bixas locas numa missa. Cara,
isso pode realmente ser hilário!!
Acabou que bolamos um plano altamente
constrangedor pra nossas masculinidades. Uma verdadeira
prova de fogo em que nossos preconceitos mais íntimos
seriam postos em cheque. Vinícius ligou pra sua namorada
Marília pra conseguir as roupas e as maquiagens. Ela
simplesmente não botou fé na nossa piração. Não conseguia
nem falar direito ao telefone de tanto que ria.
- Você pára de palhaçada, sua tonga! - Vini ria junto.

91
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Chegou na kit com um sacolão de roupas e uma cara


de debochada.
- Essa eu quero ver, se cobrarem vinte reais de ingresso
nessa missa eu pago mesmo assim, vale, pode ter certeza
que vale.
Fábio e Jean se encarregaram das pornografias.
Compraram umas revistinhas e foram na casa do Társis,
amigo nosso que tem micro com scanner. Társis também
achou a idéia engraçada pra cecete e eles acabaram
entrando numas e fazendo altas viagens no Photoshop. A
carinha do papa em cima dos gays ficou perfeita.
Acompanhando cada panfleto colaram um texto dizendo: "O
Ministério do Caos adverte, o mais importante é o amor".
Procuraram na net outras imagens sadomasôs e
avacalharam ainda mais com o Papa e colocaram cada
colagem dentro de um envelope branco pra plantarmos na
igreja.
Escolhemos a Igreja Padre Agostinho na missa do
domingo de manhã. Não era uma igreja nem muito grande,
nem pequena e ficava num bairro, mais sossegado.
Passamos a madrugada de sábado dando um trato em
nossos visuais. Éramos todos cabaços nesse tipo de coisa e
Marília foi nossa diretora artística, dando os toques
principais na hora das maquiagens.
Sérgio ficou horrível, seria uma bixa assustadora se o
negócio fosse sério. A ironia é que os homofóbicos Jean e
Fabio foram os mais perfeitos. Se fossem bixas, seriam bixas
de sucesso. Claro que tirei onda deles.
- Hummmm!! Vocês tem é medo! Cabreirisse, rárárá!
- Olha a bundinha delas, hummmm!!! - Vini também não
desperdiçou a bola na marca do pênalti.
- Vai te fuder Ari!!!
Eu e Vini ficamos meia boca, com uns vestidões
compridos até o tornozelo e uns colares breguíssimos.
Combinamos que entraríamos todos separados na
igreja, pois entrar junto seria muito chamativo e queríamos

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

apenas dar umas alfinetadinhas nos católicos, não porradas.


Tolerância religiosa é importante e acreditamos que não
estávamos sendo muito intolerantes, apenas estávamos
sendo uns palhaços delinqüentes.
Domingo cedo pegamos o Água Verde-Abranches e
descemos perto do Bosque do Papa, só pra dar um grau
cerimonial a nosso ataque. Estava um frio desumano e a
grama ainda tinha uma camada de geada por cima. No meio
do bosque tem uma estátua de um papa com uma
expressão pra lá de macabra no rosto. Maquiamos o papa e
fomos pra Igreja.
Vini foi "a primeira" a entrar e ficou bem na frente,
na primeira fileira de bancos. Depois entrei eu e fiquei lá
pelo meio, do lado esquerdo. Carregávamos todos nossas
colagens nos envelopes na mão. Marília e Társis foram
vestidos normalmente pra serem platéia e não perderem o
show. Jean e Fábio, as duas "bixas gostosas e enrustidas"
entraram quase juntos e ficaram próximos uma do outro, no
meio,do lado direito. Sérgio que demorou pra caralho.
A missa já tinha começado e já pensávamos que ele
não entraria quando chegou e se mocou no fundão.
Ele é o tipo do cara que gosta de dar idéias pra que
os outros ponham em prática, fazer ele participar de nossos
ataques tem sido nossa maior vitória.
Foi incrível como ninguém nos olhava diretamente
nos olhos. Era como se fôssemos invisíveis. E também
parecia que estávamos fedendo, ninguém ficava perto. No
mínimo um metro e meio de separação física. O padre foi
quem se fudeu bem mais pra disfarçar que não estava
enxergando nada. Vinícius estava bem na sua frente,
bancando uma autêntica bixa loca. Na hora do sermão ficou
descaradamente dando em cima do padre e nos cânticos
era totalmente "desafinada e estérica".
Só tinha mulheres na primeira fileira e algumas
começaram a se invocar, principalmente quando Vini meio
que se emocionava e insinuava que iria dançar no embalo
dos hinos. Eu tava olhando pra ele na hora em que levou
uma cotovelada de uma delas.

93
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Começou então a dar açenadinhas pro padre, que


teve uma hora que chegou até a gaguejar. Nesse momento
foi difícil conter o riso. Estávamos sendo o mais escrotos
possíveis, cantávamos desafinados, fazíamos comentários
bestas sobre trechos do sermão para os vizinhos, que
ignoravam solenemente, até que as coisas começaram a se
complicar. O padre emendou um sermão contra o
casamento homossexual, primeiro insinuando e depois
descaradamente. Foi ele quem chutou o pau do barraco
primeiro.
A princípio colocaríamos nossas colagens pelos
bancos discretamente, mas o sermão improvisado exigiu de
nós também um improviso. Era a hora de agirmos diante do
inesperado. Um dia isso teria de acontecer, pelo menos foi
sob o teto de um deus.
Vinícius tomou uma atitude drástica e interrompeu o
sermão.
- Isso é um preconceito absurdo!! Isso contraria
completamente a frase de Cristo que diz que o mais
importante é o amor.
Falou isso balançando os braços e deixando cair os
envelopes com nossas colagens. Caíram vários, próximos ao
altar. Sem querer viajar e já viajando, o silêncio dos fiéis
chegava a fazer eco. Vini terminou de falar e dirigiu-se à
saída a passos largos e resmungando palavrões. Vi muitas
almas se benzerem.
Em solidariedade à sua atitude saímos todos juntos,
indignados também.
- Isso é uma falta de respeito para com o ser humano!
Fomos pedindo licença pras pessoas e deixando
propositadamente os envelopes caírem no chão. Sérgio tava
tão escondido que nem vi ele sair. Jean foi o último a sair e
quando estava na porta virou-se e falou pra todos:
- Êita coração de pedra!
Saímos da igreja todos correndo e rindo. Não sei
porque corremos tanto, mas corremos. Chegamos no

94
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Bosque do Papa e nos jogamos no chão extasiados pelas


gargalhadas e imaginando como a missa poderia ter
prosseguido depois daquela cena. Foi muito engraçado. A
geada já tinha desaparecido e a maquiagem da estátua
também, algum guarda municipal deve ter se ferrado e
lavado tudo, efeitos colaterais de nossa guerra, seu guarda,
foi mal. Trocamos nossas roupas enquanto esperávamos
Marília e Társis.
- Gurizada! Muita cara de pau a deles, seguiram a missa
como se nada tivesse acontecido!
- E os envelopes?
- Fizeram de conta que não estavam lá, mas deixe quieto
que depois tenho certeza que irão conferir o que tem
dentro, aí sim levarão o verdadeiro susto.
Ainda era de manhã e fomos a um bar na Mateus
Leme tomar umas cervejas escuras pra comemorarmos. Não
tínhamos dormido à noite nem comido nada antes de sair de
casa, de modo que o jejum fez com que as beras pegassem
valendo.
Voltamos pra kit meio bêbados e dormimos o resto
do dia cada um com um sorriso no rosto imaginando a
abertura dos envelopes.
Foi muita palhaçada.

Eu Não Pedi Pra Nascer, Nem Vou Nascer Pra Perder -


(ato dezesseis)

Dinheiro é como droga e estamos quase todos


viciados. As crises de abstinência são terríveis. Cada vez
mais se faz cada vez menos sem ele. Sérgio está
desempregado e tá foda de arrumar alguma coisa. Se dar
bem hoje em dia é como tirar a sorte grande, ser uma
criatura iluminada pelo Deus Mercado. Até os que tem
trampo fixo, como eu e Jean, estão pela bola oito, com
sérios riscos de perdê-los.
Somos uma autêntica geração de Fudidos & Mal

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

Pagos. Na segunda-feira à noite estávamos chorando as


mágoas e brincando de rotular nossa geração.
- Desistam, vocês só vão conseguir isso quando ficarem
velhos e a geração da vez já for outra. - Vinícius é um
pessimista apocalíptico incurável.
Sérgio é enfático, esse seu chavão até que já é meio antigo,
mas ele sempre solta essa.
- Somos os Palestinos do cotidiano, expulsos dos nossos
sonhos e das nossas aspirações e refugiados numa
realidade que nos exclui.
- Pô, que foda isso...
Eu e Fábio somos do palpite de que somos múltiplos
em rótulos, dá pra chamar de uma porrada de maneiras, a
Geração Queda-livre, a Geração "O Atrasado Que Paga a
Conta" ou então mais perfeito: somos a Geração "O Que é
Um Peido pra Quem Tá Todo Cagado?".
- Vocês estão viajando. - Falou Jean calmamente, fumando
um Charuto que arrumou não sei onde. - Na verdade somos
mesmo a "Geração Espermatozóide".
- É...
- O prêmio é bom, se você fecundar, fica nove meses
curtindo e desenvolvendo o corpinho, depois nasce pros
prazeres da vida. Mas o vestiba é fudido, são bilhões de
candidatos por vaga. Mas tem gente que consegue...
Ficamos naquela, pensando na viagem dele, até que
ele deu uma baforada em seu charuto e quebrou o silêncio.
- Inclusive eu tenho um plano de uma ação nesse sentido,
não curti a dos travecos, queria fazer algo diferente.
- Que ação?
- Um autêntico ataque.
- Ataque?
- Uma grande palhaçada, pra dizer a verdade.
- Fala logo, porraaa!

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

O cara falou só isso e ficamos todos nos olhando e


pensando: "Olha a do cara!". Nem falamos nada,
simplesmente ficamos esperando por maiores explicações.
- Fácil! A gente consegue um feto falso, um feto de uns três
meses, um pouco de sangue de animal e deixa no banheiro
de algum shopping.
- Rapaz, não boto fé nessa tua mente macabra!
- Mas calma aí, não é só, não pode ser só.
- O quê?
- A gente deixa um manifesto, como se o bebê mesmo não
quisesse nascer. Tipo um feto suicida. - Feto suicida?
- Eu não quero nascer nesse mundo de merda!
Pronto. A idéia estava lá. Uma daquelas típicas idéias
monstruosas que se agigantam e te dominam.
Operacionalizar a idéia já foi mais difícil, pois
precisávamos de uma mina, Jean não se encontrou com
Alana Alice e essa mina teria de ser a Marilia.
Foi foda convencê-la. Nós somos uns malacos, mas
ela tá apenas iniciando nos caminhos da delinqüência.
Somente depois de bolar um bom disfarce que ela acabou
topando.
- Vou sair loira, com uns óculos grandes e um casacão de
frio.
- É limpo, no banheiro tem várias portinhas, vão demorar
pra entrar na que você usou, dá tempo de sumir. - Jean foi o
arquiteto da ação.
Fez um mistério lazarento, disse que comprou curtiça e que
ele mesmo daria um jeito de esculpir o feto.
O manifesto seria com ele também. Aceitamos o
mistério porque desde a surpresa do ataque ao salão de
beleza do shopping ele, digamos assim, ganhou uma certa
moral no grupo.
Eu e os guris cuidamos então do resto.

97
Manual Prático da Delinquência Juvenil

E o resto era o sangue e os outros apetrechos


realísticos. Fábio veio com uma de que víçeras de porco são
muito parecidas com as humanas e acabou usando seu
humor negro pra dar uns toques aterrorizantes ao resultado.
Conseguimos umas paradas parecidas com cérebro, muito
horrível. Fomos até Campo Comprido pra conseguir o
material na casa de um tio, amigo do pai dele.
Vinícius ficou com Marilia e seus disfarces e o Sérgio
participou do mistério do Jean. Jean queria dar um
acabamento artístico no ataque e convocou o monstro.
O sangue colocamos numa garrafa de Tubaína vazia
de dois litros e as víceras numa sacola de lixo preta. Antes
de sairmos de casa Jean nos chamou num canto e mostrou
seu "precioso". Era um feto com dois braçinhos recém
formados, sendo que o lado esquerdo estava pra baixo e o
braço direito inclinado em direção à cabeça.
- Tá, mas todo esse segredo pra isso? É um feto comum.
Então tirou do bolso uma seringa e colocou na mão
do feto.
- Com vocês, o feto suicida!!
Ficou perfeito, hilário, o feto apontava a seringa na
têmpora direita, igualzinho a um suicida com uma arma
apontada pra cabeça. Depois mostrou o manifesto: O
Movimento dos Fetos Conscientes, apresentando quinhentos
mil motivos pra não nascer nesse mundo de bosta.
Jeanzinho acabou fazendo um manifesto altamente hard-
core. Revoltado mesmo.
Marcamos a ação pra quarta-feira no início da noite,
lá pelas sete horas. O desafortunado alvo da vez foi o
Shopping Müller, que ainda não tinha sido vítima de nossas
sacanagens delinqüentes. Vinícius entrou com Marília e
rapidamente se dirigiram ao banheiro. Marília entrou e ele
ficou esperando. Logo chegamos nós, que ficamos nas
proximidades observando o desenrolar dos fatos.
Marilia demorou, demorou e demorou. Deve ter
ficado uns vinte minutos lá dentro.

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Será que ela não vai mijar pra trás?


- Relaxa, a mina é das nossas.
Até que por fim ela saiu, apressada, nervosa, a
passos largos. Vinícius foi atrás pra saber se ela tinha feito
tudo conforme o combinado e também para tranquilizá-la
um pouco. Ficamos esperando, torcendo pra que rolasse o
maior escândalo possível. Nosso real objetivo ao atacar os
shopping é que essas igrejas do consumismo deixem de ser
a ilha da fantasia que proclamam ser. Lutamos, digamos
assim, contra o apartheid social que é fortíssimo em
Curitiba.
Vinicius voltou e contou que saiu tudo conforme o
planejado. O bebê ficou com o braço desocupado virado pra
cima e somente quando fosse erguido que a palhaçada seria
revelada. Marília, mesmo contra a vontade e morrendo de
nojo, molhou os dedos no sangue já quase coagulado e
escreveu na porta do toalete a frase: Movimento dos Fetos
Conscientes.
O tempo foi passando e entrou uma pessoa, depois
outra e outra e nada. Já estávamos pensando que o
shopping fecharia sem ninguém se ligar quando ouvimos o
tão esperado grito. Um autêntico grito de quem leva um
cagaço.
- Ai meu deus! Tem sangue lá dentro! Tem sangue lá dentro!
Era uma velhinha, quase morremos de pena da
coitada, se mijou de susto, ou se cagou, pois caminhava
lentamente com as pernas meio abertas, parecia cagada
mesmo. A coitadinha tremia toda e não conseguia
pronunciar uma frase inteira, só gaguejava.
- O que foi, minha senhora? – Perguntei disfarçadamente.
- Eu, eu, eu, eu não s-sei! T-tem muito sangue lá d-dentro.
Eu não sei! Deus que me perdoe, mas parece que
abortaram!
- Abortaram? Lá dentro?
- Eu não sei! Eu não sei!

99
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Fiquei com o coração partido, a apavorada senhora


começou a chorar. Não demorou até que um segurança do
shopping chegasse junto.
- O que está acontecendo aqui?
- Seu moço! Seu moço! Tem muito sangue lá dentro, eu não
sei, eu não sei, mas deve ter acontecido alguma coisa
horrível lá dentro!
O rapaz pediu licença, falou alguma coisa no rádio e
entrou no mictório. Naquela hora eu desejei ter nascido
mulher, só pra ver a cena. Sérgio não desperdiçou a chance
e tirou onda.
- Se tivéssemos vindo travestidos que nem fomos à missa,
poderíamos ver nossa magnífica obra de arte.
- Cala boca, seu animal!
Vinícius saiu com Fábio falando aos quatro ventos
que tinha ocorrido um aborto dentro do banheiro. Todos que
ouviam levavam a mão à boca e murmuravam deusmelivres
e coisas do gênero.
Quando as pessoas começaram a se aglomerar pra
ver o que estava acontecendo chegaram mais três
seguranças e fecharam o banheiro.
- O que está acontecendo?
- Estamos verificando, mas a princípio não é nada de mais
Vinícius não cansava de repetir:
- Foi um aborto, a senhora que viu me garantiu que foi um
aborto.
O segurança parecia seguro de si.
- Calma, parece que não é nada de mais.
De repente, o circuito interno de som do Müller
anuncia.
- Informamos nossos clientes que houve um vazamento de
água num de nossos mictórios, mas nossos técnicos já estão
resolvendo o problema e em breve ele já estará funcional
novamente.

100
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Filhos de uma puta! Lacraram a entrada do toalete


em questão e não deixaram ninguém mais entrar no
banheiro enquanto o “problema” estava sendo resolvido.
Vimos várias faxineiras entrarem com baldes e panos. Bom,
pelo menos elas e alguns funcionários viram, melhor que
nada.
Marilia voltou sem seu disfarce e ria toda vez que via
a cara de deboche das faxineiras que saíam do banheiro.
Desta vez foi Marilia quem mais riu, merecidamente, foi o
primeiro ataque com ela como protagonista principal. Várias
pessoas acompanhavam o entra e sai do banheiro e todos,
sem exceção desconfiavam que alguma coisa estava
acontecendo.
Mas a direção do shopping no mínimo empatou com
a gente, conseguiu, na medida do possível, abafar o caso.
No manifesto do Jean estava escrito mais ou menos
assim: “Já foi uma concorrência dos diabos pra mim, como
espermatozóide, conseguir fecundar o óvulo. Não quero
nascer pra ter que concorrer de novo, com outros bilhões,
por uma vaga bem sucedida nessa sociedade porca.”
Voltamos a pé pra casa rindo muito deste e de outros
argumentos engraçadíssimos que Jean usou em seu
manifesto. Realmente, se houvesse uma opção de escolha,
será que todos iriam querer nascer nesse mundo doente?
“O Mundo tá muito doente. Tem gente que mata. Tem gente
que mente.”

Salte Fora e Puxe a Descarga - (ato dezessete)

Nesse século que se inicia estamos vivendo uma


época de profunda confusão. Quem não está confuso ou
está mal informado ou está sendo desonesto consigo
mesmo. Ninguém sabe o que está acontecendo e ninguém
sabe pra onde estamos indo.
Ficamos muito impressionados com o manifesto que
Jean escreveu sobre o bebê que não queria nascer. Ficou um

101
Manual Prático da Delinquência Juvenil

enorme sentimento de desesperança no ar. Não dá vontade


de correr atrás das coisas quando se sabe que é impossível
alcançá-las.
Era esse o clima na kitnete dos Delinqüentes na
sexta-feira à noite, depois do aborto no shopping center.
Cada um acabou fazendo um breve perfil de sua condição
neste mundo de bosta.
Saquem nosso perfil.
Vinícius estuda e batalha pra passar num vestibular
enquanto faz bicos como músico. Jean trabalha de moto
num serviço de tele-entrega e todo começo de ano volta a
estudar e todo meio de ano desiste de estudar. Eu, trampo
num escritoriozinho sem futuro. Fábio mora com os velhos,
tenta sair de casa e vive fazendo planos de vida
mirabolantes sem nunca levar nenhum a sério e Sérgio é
uma dessas almas de artista, que nunca se encaixam na
normalidade da sociedade.
Enfim, temos tudo pra dar errado, somos um caco de
vidro esquecido na areia da praia, esperando alguém pisar
em cima.
- Ás vezes dá vontade desaparecer. - Vinícius, o pessimista.
- Esqueça o futuro, te contenta com o teu presente e te
consola com o teu passado.
- Besta isso.
Jean foi o único que não ficou pessimista depois do ataque.
- O canal não é se contentar com o presente e sim
potencializá-lo, fazê-lo valer a pena.
Sérgio então se inspirou.
- Temos que valorizar os instantes.
A noite prosseguiu com mais uma daquelas nossas
longas discussões filosóficas que não muito raro, dão em
merda. Merda no sentido de que sempre acabam surgindo
inspirações pra delinqüências diversas. Sérgio queria
empreender mais uma obra de Terrorismo Poético.

102
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Queria criar alguma coisa que simbolizasse essa vontade


de sumir, esse desejo de desaparecimento. Fábio, ainda com
o orgulho abalado pelo ataque dos travecos, queria viver
emoções mais fortes.
- Tô com saudade da ilegalidade, de cutucar a cobra com
vara curta.
- Você é lóki.
- Podíamos invadir uma casa. - Interrompeu Sérgio.
- Pra fazer o quê?
- Uma performance de desaparecimento.
- Como assim?
- Se liguem na idéia que eu tive. Altos atos de Terrorismo
Poético, só não sei como invadir a casa, isso não é comigo,
mas a idéia eu tenho.
- Então fala que estamos curiosos.
- Entramos na casa, vamos até o banheiro e no lado do vaso
deixamos todas as roupas de alguém.
Como se o cara tivesse se despido ali dentro. Tudo;
sapato, meia, cueca, tudo. E no vaso a gente deixa uma
meia, simbolizando que o dono das roupas sumiu pela
descarga. E com as roupas, talvez no bolso, uma carta de
despedida.
- Que louco isso... - Vini curtiu.
- Muito louco mesmo!
Cada um bolou um jeito de aperfeiçoar a idéia. Cada
um mexeu na panela acrescentando seu tempero particular.
Concordamos todos que podia ser uma casa da periferia,
que a burguesia não merece tão poderosa obra de arte. Pelo
menos em uma família, plantaríamos uma sementinha.
Jean e Fábio se encarregaram dos planos de invasão.
Deram uma banda de moto pela cidade e escolheram um
bairro. Deram uma banda, diga-se de passagem, em pleno
horário de serviço do Jean. Fizeram aquilo que costumamos
chamar de Subversão de Baixa Intensidade, SBI (Vini

103
Manual Prático da Delinquência Juvenil

costuma dizer que andar sujo em ambientes chiques,


também é SBI).
Sérgio, Vinícius e eu nos encarregamos da obra de
arte em si. Enquanto Sérgio se internou sozinho na kit pra
escrever os textos, eu e Fabio fomos até a casa de Társis,
que já é quase um delinqüente, scanear imagens e preparar
os documentos do desaparecido.
Tive uma idéia do mal. O cara iria se chamar Jesus
Cristo e em todos os documentos colocamos uma imagem
padrão do "filho do homem" como fotografia. Fizemos tudo
direitinho. Data de nascimento: 25 de Dezembro de 0000.
Filiação: Maria de Nazaré (não sei se esse é o sobrenome
correto, mas ficou esse mesmo) e José/Deus (a parceria com
deus dispensa sobrenomes). Órgão Expedidor: SSP-Belém.
As roupas cada um doou alguma coisa e no sábado à
tardinha já estávamos com tudo pronto. Os guris
escolheram o bairro Cidade industrial e três casas como
alvo.
- Pelo menos numa das três a gente tem que conseguir
entrar.
- Escolhemos umas que tem moral de a gente entrar pelos
fundos.
- E aparentemente não possuem cachorros.
Os dois, principalmente Fábio, estão ficando
especialistas em campanar bairros. Sábado à meia noite
juntamos nossos apetrechos, pegamos o biarticulado Santa
Cândida-Capão Raso e descemos no terminal Capão Raso,
depois pegamos o Rondon. Marília não quis ir, estava se
recuperando do estresse do último ataque e ainda não tinha
nem aparecido na kit. Já estávamos ficando preocupados
que ela fosse desistir do Maravilhoso Mundo da
Delinqüência Juvenil.
Descemos e chegamos num boteco pra bebermos
algo e nos concentrarmos um pouco.
- O que você acha Ari, é melhor começar pela casa mais
fácil ou pela mais difícil?

104
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- A mais fácil, contar com a sorte é o primeiro passo para


conquistá-la.
Saímos do boteco e nos embrenhamos numa rua
pouco iluminada. Andamos umas seis ou sete quadras até
que Jean fez sinal pra que parássemos. Olhou pra todos os
lados, prestou bem atenção nos ruídos e pulou o muro em
que estávamos ao lado.
- Venham! - Cochichou.
Fábio tinha pulado quase ao mesmo tempo que ele e
pulamos todos juntos logo depois. Era um desses terrenos
vagos esperando por uma construção, especulação
imobiliária. Fábio apontou para o fim do terreno, mostrando
qual era a casa.
- Mas fiquem espertos porque a casa da esquerda, não a
primeira, mas a segunda, tem cachorro e esses porras tem
um fudido de um ouvido sensível!
Fomos até o muro da casa devagar, agachados em
silêncio, brincando de hobbits carregando o um anel.
Pulamos o muro um por um, menos Sérgio, o desajeitado,
que precisou de três ajudando para conseguir. O quintal da
casa era grande, tinha até uma horta. O Vegan Sérgio não
se segurou e chutou umas verduras, enchendo os bolsos.
- Vamos fazer altos cremes de verdura com suco de couve
quando voltarmos!
- Blarghh!!
- Psssiu!!
Atravessamos o quintal pé por pé até uma janela que
guris falaram ser a do banheiro-alvo. Era uma janela fácil de
abrir, dessas inteiras, que se empurra pra fora. Como sou o
mais magro da turma fui o escalado para entrar. Se o vaso
ficasse perto da janela era só jogar as coisas, mas também
seria muita sorte ter as duas facilidades, janela fácil e vaso
perto.
Enquanto entrei, Jean e Fabio ficaram cuidando em
baixo da janela enquanto Sérgio e Vinícius montaram
sentinela no resto das janelas da casa pra tentar ouvir se

105
Manual Prático da Delinquência Juvenil

alguém acordasse. Coloquei tudo direitinho, as roupas ao


lado do vaso, os sapatos, uma meia jogada num canto e a
outra dentro do vaso. Quanto estava terminando minha
tarefa pensei ter ouvido algo e me assustei. Estava
sugestionado.
Com o susto levantei-me rápido, escorreguei no piso
molhado e caí sentado. Foi um puta de um pacote. Doeu pra
caralho. Fora o som do baque no chão, que assustou os dois
que estavam no lado de fora.
- O que foi isso Ari? O que houve?
- Nada...nada.
Mas que estava doendo a bunda, isso estava. Escalei
a janela pra voltar todo errado por causa da dor e me
esforçando pra não gemer. Os guris me puxaram pelo braço
e eu tomando todo o cuidado do mundo. Só que na hora que
meu pés puf!, caíram no chão, a porra da janela se fechou
de uma vez só, fazendo um tremendo de um barulhão.
Sérgio e Vinícius, que não estavam ligados do que estava
acontecendo ficaram indignados.
- Caralho! O que foi isso? O que vocês fizeram?
- Merda!
O cachorro que tinham falado começou a latir
furiosamente e entramos todos em pânico. Corremos feito
uns loucos em direção ao muro dos fundos. Não era a
intenção, mas na correria acabamos pisoteando a horta
toda. Eu corria que nem um manco por causa da dor no
traseiro. Acabou que eu também precisei da ajuda de três
pra poder pular o muro. Sérgio, obviamente, tirou sarro de
mim.
- Viu com deus castiga?
- Vai te fuder, seu panocú!
Dessa vez atravessamos o terreno baldio correndo.
"Os Cavaleiros Negros estão atrás de nós, corram hobbits,
corram!" Saímos na rua de trás e corremos as seis ou sete
quadras até o boteco em que tínhamos estado antes.

106
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Ainda estava aberto. Era um bar boêmio, de


madrugada e de cachaceiros mesmo. Resolvemos curtir a
noite ali mesmo e ficamos até quase amanhecer o dia, nos
vangloriando pra nós mesmos das virtudes de nossa obra de
Terrorismo Poético.
Esse ataque acabou servindo pra recuperar nossos
ânimos, pois se somos a ralé dessa sociedade porca, pelo
menos temos a arte em nossos corações e o que é melhor:
arte não corrompida.

Ali Babá e as Dez Mil Baratas - (ataque dezoito)

Se você odeia shopping center, ir ao cinema tornou-


se um programa incômodo. Se você não dispõe de muita
grana, ir ao cinema tornou-se um programa caro. Todos os
cinemas do centro da cidade fecharam, Curitiba ainda tem
alguns, mas em cidades como são Paulo eles simplesmente
desapareceram. Restaram apenas os pornôs, que provam
seu valor de contestação de tabus sobrevivendo como
marginais.
Essa introdução foi pra contar de um ataque que a
horas já tínhamos planejado. Desde o dia em que Jean
surpreendeu a todos deixando uma caixa de baratas no
salão de beleza, queríamos repensar esta idéia.
- Cara! Soltar uma porrada de baratas num shopping center
num dia que tiver lotado é do caralho!
- Pode crer!
Jean tinha conseguido todas aquelas baratas naquela
vez porque tinha ajudado na faxina do depósito onde
trampa. Na hora teve a idéia brilhante e catou todas que
conseguiu, respondendo que era comida pra iguana da
namorada a todos que perguntavam intrigados porque ele
estava juntando tantas baratas.
Conseguir baratas na quantidade suficiente revelou
ser o primeiro grande problema. Como soltá-las no shopping
sem ser flagrado pelas câmeras de segurança foi o segundo.

107
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Jean estava perigosamente otimista.


- A gente pode ir na Shopping Curitiba, que tem aqueles
canteiros com flores que o povo fica sentado e soltar as
baratinhas no meio das flores.
- É, até dá, mas analisando as imagens das câmeras os
caras vão se ligar em quem fez.
- Tens razão...
Fui eu quem teve a idéia do cinema, resolvendo
antes o segundo problema.
- Podemos soltar as baratas dentro de um cinema.
- Dentro de um cinema?
- Porra Ari, aí já é terrorismo puro e simples.
- Nada véio, a gente pode deixar umas mensagens pra
galera ver quando acenderem as luzes.
- Que mensagens?
- Vocês fecharam os cinemas do centro da cidade! Vocês me
obrigam a vir aqui! voces racham comigo o caríssimo
aluguel e por aí vai.
- Não é uma má idéia...
A gurizada começou a se empolgar com a idéia. Fábio
foi o primeiro a se animar.
- E é limpo, no escuro ninguém vê nada, todos concentrados
no filme.
- Rapaz, - Vinícius começou a rir. - Imagine só, quando se
ligarem será tarde demais, as baratas já invadiram toda a
sala de cinema!
- Genial!
- Mas tem que ter barata pra caralho.
Restou então resolver o primeiro grande problema.
Como conseguir baratas pra caralho? Pensamos em mil e
uma soluções, cada uma mais estrambólica e furada que a
outra.

108
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Se formos na lanchonete ali da esquina acho que


conseguimos umas quinhentas.
- Vai tomar no teu cú, fala sério.
A solução acabou vindo através de um e-mail do
Antonio Silvino, do grupo dos cangaceiros de São Paulo que
tinham feito um ataque sincronizado com a gente. Contei
pros piás.
- Ele falou que existe uma lenda de que se deixarmos umas
baratas dentro de uma caixa de papelão lacrada, após
alguns dias eleas se multiplicam e enchem a caixa.
- Sério?
- Não sei, a gente tinha que checar.
Vinícius lembrou então de uma mina que faz biologia
na federal. Procurou o número na agenda e saiu pra ligar de
um orelhão, pois o telefone da kit está cortado de novo.
Voltou em estado de graça.
- A mina falou que dá certo! Olha como ela explicou: se você
colocar dez baratas na caixa hoje, ainda hoje elas colocarão
ovinhos. No segundo dia estes ovinhos já terão se
transformado em dezenas de baratinhas. No terceiro dia
essas baratinhas já estarão botando seus próprios ovinhos.
Sacaram?
- Que massa, lôco!!!
- Em dez dias já vai ter mais de mil baratas. Se fizermos dez
caixas teremos dez mil baratas!
A idéia teve o efeito de uma bomba entre nós. Cada
um abraçou com vontade sua tarefa. enquanto Sérgio, Jean
e Fábio ficaram montando as cixas, fui com Vinícius e Marilia
no lixão catar baratas. foi divertida pra caralho nossa
aventura no lixão. Munidos de sacos plásticos e luvas de
borracha reviramos tudo em busca das bichinhas.
Acabamos achando e levando pra casa um monte de
coisas legais. E acabamos conhecendo um monte de
catadores de lixo legais também. Ser a escória e viver de
achar coisas faz deles pessoas com uma visão de mundo

109
Manual Prático da Delinquência Juvenil

maravilhosa. O Palestinos do Cotidiano que o Sérgio falou.


Voltamos pra casa impressionados e com umas trezentas
baratas.
As caixas que os guris montaram ficaram fora de
série. Sérgio apresentou o resultado orgulhoso.
- Cada uma delas é uma cidadela.
Montaram só sete.
- São as Sete Cidades .
- Olha o que eu fiz. - Fábio apontou pra uns buracos na
lateral das caixas. - Aqui é a entrada de serviço, você puxa
esse cordãozinho e tem acesso a um buraco pra jogarmos
comida pras nossas procriadoras.
Jean mostrou um papel com a "planta" das cidades,
colocaram pranchas de papelão e assim construíram vários
ambientes. A maior viagem. distribuímos as baratas nas
caixas e nos cobrimos de toda a paciência do mundo pra
esperar pelo resultado.
Depois de uma semana já dava pra ver que a parada
estava funcionando. Sacudindo as cidadelas dava pra notar
que já tinha barata pra cacete lá dentro. Nessa semana
chegamos à conclusão que já tinha quantidade suficiente
pra montarmos nossas "bombas de baratas", marcamos pra
quinta-feira à noite a ação. Escrevemos vários panfletos pra
jogar no chão e colar nas poltronas.
Entramos no cinema todos separados carregando
mochilas nas costas como se estivéssemos voltando da
aula. Só Vini e Marília que entraram juntos como
namorados.
Estávamos ansiosos, todos com um sorrisinho no
rosto e meio que olhando pros lados e analisando a laje das
vítimas. Coitados.
O combinado era que na hora em que apagassem as
luzes sincronizássemos nossos relógios. Após meia hora de
filme soltaríamos nossas bombas. Acabamos adquirindo
uma verdadeira paixão por aqueles bichos, eram como se
fossem nossas tão estimadas filhinhas.

110
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Aguardamos impacientes a primeira meia hora, nem


conseguimos prestar atenção no filme. Só pensávamos em
soltar as bombas, soltar as bombas, soltar as bombas.
Quando venceu o prazo abri minha mochila, tirei a bomba
(as baratas estavam em sacos plásticos, era só furá-los com
o dedo para acionar), coloquei cuidadosamente no chão e
abri um salgadinho pra disfarçar. Levantei e pedi licença
fingindo estar indo ao banheiro e fui me encontrar com o
resto da turma pra aguardarmos o desfecho. Fui ao banheiro
e encontrei Vini e Marília, os dois se espremendo de vontade
de rir.
Quando todos chegaram confirmando que tinham
soltado as bombas voltamos ao cinema. No ambiente escuro
o clima era de total expectativa entre nós. Meu coração
acelerava cada vez mais a cada minuto que se arrastava pra
passar.
Foram dois longos minutos até que ouvíssemos o
primeiro gritinho de susto vindo lá da frente.
- Tem barata aqui!
- O que foi? Onde?
- Aqui, aqui, aqui!!
- Pssssiu!!!
Era um casal de namorados. O cara tava tentando
disfarçar e acalmar a mina. ficaram murmurando não sei o
que baixinho até que deram um outro grito no outro lado da
sala.
Assistíamos a tudo extasiados.
- Tem uma barata na minha perna!!
O casal de antes, ao ouvir isso, acho que se ligou que
alguma coisa muito estanha estava aconteceu e saiu fora
em direção à saída. Mais pessoas começaram a ficar
desconfiada. Vinícius se partia de dar risada. Mais gritos.
- Isso é um absurdo!
- Onde está a higiene disso aqui?

111
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Algumas pessoas começaram a sair e se dirigir à


bilheteria exigindo seu dinheiro de volta. Liberou umas
poltronas e sentamos todos juntos, longe de onde tínhamos
deixado as baratas, é claro, pra curtir a cena e dar risadas.
O bafafá já era grande dentro da sala e podíamos rir
bastante sem despertar suspeitas.
Gritos de "ai que nojo" para todos os lados, pessoas
se dirigindo à saída, o bicho estava pegando quando
acenderam as luzes. Os que saíram antes não viram nada,
mas quem esperou as luzes acenderem viu nossos
panfletos, tínhamos deixado um monte esparramado pelos
corredores.
A mensagem, afinal de contas, foi passada. A direção
do shopping foi rápida no gatinho pra evitar o escândalo.
não sei qual foi o genial gerente a ter a idéia, mas
devolveram rapidinho dinheiro pro povo e ainda deram mais
um ingresso de brinde.
Lutar contra o capitalismo é mesmo foda, os caras
são muito ensaboados e o dinheiro compra tudo. De nossa
parte recusamos o presente e saímos fora realizados.
Orgulhosos de nossas filhinhas. Orgulhosos de nossa prole.
Saímos do Shopping com a adrenalina a mil, foi um
de nossos ataques mais arriscado, diferentemente de
invadir casas estávamos expostos a uma multidão de
pessoas e sem dúvidas seríamos presos se fossemos pegos.
Fomos até um botequinho nas proximidades e tomamos A
cervejada pra comerar. Menos Sérgio, o Vegan, que não
bebe.
O São Gulik da religião dos Discordianos é uma
barata. Dedicamos esse nosso ataque a ele.

Tá Vendo Aquela Calçada Ali Seu Moço? Escrevi Meu


Poema Lá - (ataque dezenove)

Muitas pessoas afirmam que tentar passar uma


mensagem sem se importar com os meios é um crime.

112
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Argumentam isso toda vez que invadimos casas ou


qualquer outro espaço privado para fazermos nossos
Terrorismos Poéticos. Concordaria com esses argumentos se
não existissem tantos out-doors poluindo nosso campo de
visão. Se for assim, então socar propaganda goela baixo
também é crime. Uma vez definido isso começamos então a
nos entender.
Partindo desse ponto de vista, o que a Prefeitura de
Curitiba fez, ao privatizar os pontos de ônibus, é crime.
Crime contra a Imaginação Pública, entupindo a cidade de
propaganda. Os pontos agora possuem um enorme e
luminoso painel publicitário, que além da poluição visual,
ainda atrapalha a passagem de pedestres.
Não adianta, pedestre sempre se fode. Na kitinete
dos Delinqüentes, aquele antro de inconformados, a
indignação quanto à isso foi grande.
- É muita sacanagem, ponto de ônibus é um lugar público -
Vinícius é o mais indignado.
- Ainda se fossem informações úteis...
- É, um mapa da cidade ou alguma coisa do tipo.
- Mas não, é só telefones celulares, concessionárias de
veículos e etc.
Agora uma pergunta, que é mais terrorista, nós que
invadimos casas pra expor nossos quadros ou eles que
invadem nosso cotidiano pra nos convencer de mentiras,
induzir-nos a falsas necessidades?
Óbvio, chegamos à conclusão que são eles, pois
ganham dinheiro com isso. Perto deles invadir casas não é
nada. Jean começou a contar que as principais técnicas de
propaganda usadas hoje em dia foram criadas e testadas
pelos nazistas.
- Disso ninguém fala.
Concluímos que nosso próximo ataque deveria ser
em relação à isso, retomada do espaço urbano, sabotagem
publicitária, enfim, mais uma ação de Terrorismo Poético.
Vinicius parecia ser o mais inspirado.

113
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Se você analizar bem, as cidades estão organizadas de


modo a nos condicionar a pensar de um certo modo, a
fazermos somente certas coisas e nos comportarmos de
uma certa maneira.
- Tudo bem, muito bonito esse discurso, mas e daí?
- Vamos bolar algo, injetar uns vírus nesse sistema
condicionante.
Ficamos nessa uma cara, viajando nas possibilidades,
porém com mil críticas e nada prático e concreto para
fazermos. Jean e Fabio quase fundiram os cérebros
pensando em algo. Nessas horas parece que o descaso
resolve. Sérgio, que não estava nem aí pra bagaça, foi quem
trouxe a solução. Logo ele, que ainda estava curtindo o
sucesso de sua idéia concretizada, o cara que sumiu pela
privada. Mas não curtiu que o cara se chamasse Jesus
Cristo.
- Muito clichê.
Mas tudo bem, agora são águas passadas e nada nos
impede de reutilizarmos a idéia outra vez, sem equívocos.
- Quero escrever poemas.
- Ué, escreve, ninguém está te impedindo.
- É, escreve. - A galera não perdoa, é sarcástica mesmo.
- Mas eu queria eternizá-los
- Ih! Lá vem discurso...
Foi uma coisa absurda. O que tipo de idéia demente
que, na boa, não existe, só mesmo sainda da cabeça
delirante de um artista plástico sem o que fazer. Saca só a
do cara:
- A gente cimenta uma calçada, vestidos de funcionários da
prefeitura, joga cimento por tudo, eu escrevo os poemas em
baixo relevo e depois deixamos tudo coberto por uma lona
preta. Local interditado, uma placas, tão ligados?
Todos rimos, rimos não, gargalhamos. É o fim da
picada! Onde fomos parar? Claro que uma idéia dessas não

114
Manual Prático da Delinquência Juvenil

podia passar batida. No ato pensamos na mãe do Fábio, que


é costureira e já tinha feito os trajes de padre do dia em que
abençoamos o banco, pra providenciar os macacões
necessários para pôr em prática o plano de Sérgio Augusto.
Roupas de garis da prefeitura, mais cones e aquelas
tiras listadas que os caras usam pra isolar a área. Fora
cimento, areia, pá, cimento e o escambau.
Um idéia, como diria Nelson Rodrigues: dificilzinha,
mas extraordinária. Uma idéia que nos seduziu devagarinho,
feito conversa de boteco. Jean e Fabio se encarregaram da
parte civil. Massa de cimento, areia, ferramentas e a
logística, entenda-se transporte da tralha toda. Eu e o resto
do pessoal cuidamos das roupas, placas e demais
apetrechos.
Fizemos tudo no fim de semana. E estava fazendo
um frio desumano em Curitiba, sem sol e com um vento
fudido. Vinícius e Marilia, os românticos da hora, saíram
juntos pra escolher as calçadas. Mais uma vez optamos por
um bairro classe média, pois a burguesia não merece tal
prêmio.
A parte da mãe do Fábio até que foi fácil, afinal trata-
se de uma profissional da costura, foda mesmo foi pintar o
logotipo da prefeitura nos macacões. Ainda bem que Sergio
deu o sábio toque de fazermos dois a mais, para o caso de
cagada. Ferramos exatamente com dois, Deus é pai não é
padrasto.
Jean e Fábio conseguiram o material de pedreiro e
uma pick-up do trampo do Jean.
- Aluguei eles de que precisávamos fazer a mudança da
kitinete.
- E precisamos mesmo, essa porra tá pequena.
Marcamos a ação pra Terça-feira à tardinha, afinal os
funcionários da prefeitura só trabalham de dia e não
queríamos que a obra ficasse um dia inteiro com o cimento
fresco dando sopa. Algum curioso poderia meter o bedelho e
ferrar com tudo. À noite as chances de isso ocorrer são
menores. Pra mim e pra Jean, que trampamos, foi

115
Manual Prático da Delinquência Juvenil

necessário enrolarmos nossos respectivos chefes pra sair


mais cedo.
Fomos todos juntos, Agachados & Felizes na
carroceria da pick-up, com Jean de motorista
paunocuzeando a três por quatro fazendo curvas bruscas
pra ferrar com a gente. Na porta do carro: a logomarca da
prefeitura improvisada. Só que ela ficou tão horrível que era
só dar uma olhadinha com mais atenção e você se ligaria
que se tratava de uma palhaçada. Jean então encostou pra
que descêssemos com o material e foi estacionar longe do
local do crime.
Eu e Vinícius colocamos os cones, as faixas e as
placas: “Homens Trabalhando” e “Desculpe o transtorno,
estamos trabalhando para embelezar a sua cidade”. Fábio e
Jean abraçaram a função de pedreiros. A argamassa já
tínhamos deixado pronta pra facilitar as coisas.
Esparramaram pelo chão e fizeram a “planagem”, não sei se
esse é o termo correto. Sérgio ficou só olhando, com um ar
insuportavelmente superior.
- Trabalhem seus manés, aos artistas só cabe o trabalho
estético.
- Cala a boca!!!
Nesse meio tempo passou uma senhora com uns
setenta e não sei quantos anos e doze pães numa sacola,
estava voltando de uma padaria.
- Ah, vão ajeitar a calçada? Já era em tempo, está toda
quebrada.
- A senhora vai gostar, isso podemos garantir. – Vinícius,
dando uma de cavalheiro.
- Vão ajeitar a rua inteira?
- Gostaríamos. Gostaríamos muito, mas infelizmente hoje só
vai dar pra ajeitar essa.
- É, mas a senhora vai gostar.
Seguiu pra sua casa com um sorriso no rosto e nós
ficamos “poetando”, também com sorrisos no rosto.

116
Manual Prático da Delinquência Juvenil

A parte do cimento até que foi rápida, Sérgio que se


amarrou pra escrever o poema, fez uma embromação do
caralho. Nào queria dizer o que estava escrevendo e nem
deixou ninguém vê-lo escrever.
Por fim ergueu a lona um pouco e nos deixou
vislumbrar a obra:
“Os meus sonhos afogavam as minhas tristezas,
mas as minhas tristezas aprenderam a nadar.”
Ficou perfeito, o cara ainda jogou umas tintas e o
resultado ficou psicodélico em todos os seus aspectos.
Recobrimos com a lona e sorrimos satisfeitos. Foi fácil,
muito fácil e ainda por cima sobrou um montão de cimento.
Quando vimos o quanto tinha sobrado olhamos uns para os
outros.
- Não podemos desperdiçar tudo isso. – Fábio, pensativo.
- Vocês viram que não foi difícil, o povo nem desconfiou de
nada.
- Poderíamos sacanear um bairro burguês.
- Bora, então.
Fabio encasquetou que queria cimentar a calçada
diante da casa em que tinha mandado seu primeiro poema
com estilingue, naquele que foi um de nossos primeiros
ataques. A autoconfiança é algo perigoso, mas como era eu
quem estava falando ultimamente que contar com a sorte é
o primeiro passo para conquistá-la, acabei topando.
Subimos todos em cima da pick-up a partimos pro
segundo tempo de nossa intervenção. Jean conduziu a
“viatura” até o Jardim Social e mais uma vez estacionou pra
que descemos com o material. Colocamos os cones e outros
itens e Fábio imediatamente começou a espalhar o cimento.
Desta vez não estávamos tão tranqüilos. Sérgio olhava
nervoso para os lados.
- Olha galera, acho isso precipitado, sei que vocês já tem
uma certa experiência, mas acho que essa porra não vai dar
certo. Espero vocês naquela lanchonete.

117
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Vai seu cagão.


- Ele não deixa de Ter razão, apura aí com essa merda. – Eu
e Vinícius também estávamos cabreiros.
Fabio terminou de aplainar o cimento e na hora em
que estava escrevendo saiu um senhor de dentro da casa.
Pela sua cara, não era muito simpático, parecia invocado.
Provavelmente vacinado contra vandalismo desde o dia em
que recebeu um poema através de sua vidraça quebrada.
Fabio enfiou sua cabeça sob a lona preta e ficou escrevendo
enquanto Vinícius ficou dando explicações.
- O que vocês estão fazendo?
- Estamos corrigindo umas imperfeições da calçada.
- Imperfeições? Ninguém aqui reclamou nada pra prefeitura.
Imediatamente sacamos que aquilo não tinha como
terminar bem. Pisquei o olho pra Jean e fiz um gesto discreto
em direção aonde o carro estava estacionado. Jean saiu fora
e ficou dentro do carro enquanto vini seguiu discutindo com
o morador.
- Fique tranqüilo senhor.
- Vocês são mesmo funcionários da prefeitura? Tem algum
documento de identificação?
Realmente, tiozinho esperto, se ligou que alguma
coisa estava errada. Fiz um sinal pra que Jean viesse com o
carro. Estacionou e jogamos tudo sobre a carroceria. Fabio
tinha terminado sua frase que nem chegamos a ver.
- Estamos indo, concluímos nosso serviço
- Esperem, quero ver os documentos de vocês.
Saímos literalmente correndo, fugindo. Uma vez
todos em cima do carro Jean acelerou e saímos cantando
pneu. Ainda bem que Jean tinha improvisado uma placa
falsa.
- O que você escreveu, Fábio?
- “Toda propriedade é um roubo” - A mesma frase de
sempre.

118
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Olhamos pra trás e ainda vimos o morador


misturando o cimento, completamente indignado. Não deve
Ter gostado da frase. Rimos pra caralho e paramos num
boteco pra comemorarmos. Da próxima vez, precisamos
tomar mais cuidado.

As Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas


Geneticamente Modificadas - (ataque vinte)

No último sábado aconteceu o segundo Flash Mob


Curitiba. A fantástica mobilização relâmpago reuniu cerca de
uma pessoa na praça de alimentação do Shopping Curitiba.
O elemento solitário ficou em torno de dois minutos em pé
ao lado de uma mesa portando uma sacola de bananas,
logo depois dispersou-se. Um evento espetacular .
Infelizmente era eu o elemento solitário da cômica
mobilização. Estava com uma gripe do cassete e foi um
parto me arrastar até aquele antro do consumismo.
Voltando pra casa eu era todo indignação. Ainda mais que
nenhum dos outros delinqüentes é chegado em Flash Mobs
e estariam todos me esperando na kitnete, ansiosos para
rirem da minha cara até me deixar me deixar puto .
- E ai Ari? Como foi ?
- Um sucesso! Eu e mais ninguém.
Olharam pra minha sacola cheia de bananas e se partiram
de dar risadas.
- Porra véio! Quer dizer que não foi ninguém?
- E o que você vai fazer com essas bananas?
- Enfiar no cú de vocês!
- Estressadinha a boneca.
Era inútil tentar me defender, os malas tinham razão
em tirar sarro. O que eu fiz não foi pagar um mico no
shopping, o que eu paguei foi um gigantesco King Kong com
mais de dez metros de altura. Muito foda, até as dores de
cabeça e de garganta que tinham dado uma aliviada

119
Manual Prático da Delinquência Juvenil

voltaram. Me deitei num dos colchões no chão da kit e


apaguei, tentando esquecer do mico e da gripe.
Sonhei com o personagem do Tony Ramos daquela
novela Torre de Babel que vivia noiado em explodir o
shopping. E no meu sonho ele explodia o shopping em todos
os capítulos. Eterna recorrência.
Não sei dizer se era sonho ou pesadelo. Acordei
horas depois com Fábio chacoalhando o meu braço.
- Ari! acorda, Ari!
- Há, o que foi?
- Tá melhor?
- Tenho uma surpresa pra ti. Talvez te anime um pouco.
- Que surpresa?
- Olha só isso.
Ao lado da minha malfadada sacola de bananas
tinham outras três, do mesmo tamanho. Juro que não
entendi o que significava aquela palhaçada.
- Que merda é isso, seu viado?
- Calma Ari! Trata-se de material para nosso próximo
ataque.
- Que ataque? Você tá ficando louco ?
Eu estava mais perdido que filho de puta em dia dos
pais e ainda mal humorado por causa da gripe.
- Alguém pode me explicar que merda está acontecendo por
aqui ?
Então Fábio fez uma longa e didática explicação. Meu
cérebro parecia engarrafado por causa da gripe, a cada dois
minutos eu interrompia Fábio com um “como assim”?
Tratava-se de algo que a horas eu queria fazer, mas
não me ocorria exatamente o que. Eu queria bolar uma ação
que dissesse respeito aos transgênicos e que se possível
fosse ambientada num supermercado. Foi invadindo minha
privacidade e fuçando nos meus e-mails que recebi, que os

120
Manual Prático da Delinquência Juvenil

guris compilaram o plano. Mostraram-me um estilete, um


rolo de durex, algumas tirinhas de papel e mais umas
coisinhas.
- Preste atenção velho Ari. Marilia conseguiu uma lista do
Greenpeace com os alimentos que utilizam transgenicos.
Então a gente vai num supermercado e com o estilete faz
um corte na embalagem e enfia mensagens de alerta contra
os transgenicos. E depois cola com durex. Fiquei mudo,
apenas tossi sem conseguir rir da demência do plano.
Vinícius parecia animado com a idéia.
- Ari, pode ser divertido, agente pode enfiar um pedaço de
alface numa caixa de sucrilhos. Sucrilhos geneticamente
modificados.
Realmente, não era ma idéia , principalmente se não
levássemos em consideração o risco de sermos flagrados
por câmeras ou vigilantes.
- Nada! É só sermos discretos e caras de pau e isso eu te
garanto que somos. Mas ainda faltava um detalhinho.
- E as bananas?
- Enfia no rabo...
Pronto. Caíram todos na gargalhada. Aquelas bixas
nunca perdem uma oportunidade para sacanear.
- Tô falando sério, seus merdas.
- Calma Ari, essas bananas são pra Segunda parte do plano,
pra sensacional saideira.
- Saideira?
- Sim, vamos no estacionamento e enfiamos elas nos
escapamentos dos carros.
- Pra que isso?
- Bom, além de protestarmos contra o excesso de
automóveis nas cidades ainda deixamos um papel nos pára-
brisas avisando para tomarem cuidado com as bananas
transgênicas.
Sensacional! Foi o tiro de misericórdia para acabar

121
Manual Prático da Delinquência Juvenil

com minhas dúvidas. Se precisassem de alguém pra enfiar a


banana no rabo de algum carro, poderiam contar comigo.
- Só tem que ser logo.
- É, pra ser massa, tinha que ser hoje.
Sábado à noite é uma hora em que os
supermercados estão cheios e marcamos a ação pro Sábado
mesmo, no Mercadorama do Bigorrilho.
Chegamos logo depois das oito e Vinícius entrou
abraçado com Marilia, eram o casal fazendo as compras do
mês, cada um com um carrinho. Eu e os guris ficamos
dando bandas dentro supermercado desbaratinando
enquanto esperávamos pra agir na fase das bananas. Sérgio
não foi, se revoltou com todos por causa da cagada feita no
ataque da calçada. Estava gelando a turma.
Vinícius e Marilia trataram logo de encher os
carrinhos com as “compras”. E então disfarçadamente
faziam os cortes com os estiletes e enfiavam os aditivos. Foi
alface nos sucrilhos (e um papelzinho com a frase: cuidado
com a terrível alface transgênica assassina). Baratas em
geleias (baratas, como outros bichos escrotos, gostam de
transgênicos e outras porcarias). Serragem em açúcar (as
canas transgênicas assassinas são estranhas). Enfim, uma
tremenda sacanagem.
Na verdade ferramos apenas com os donos do
supermercado, pois os clientes, assim que vissem as
mercadorias alteradas, simplesmente devolveriam ou
trocariam. Quem levaria o “prejú” seria mesmo a rede
Mercadorama. Depois de colocar as coisas eles davam umas
voltas pelas prateleiras e devolviam as mercadorias aos
seus lugares. No fim abandoram os carrinhos cheios e
deram o sinal pra partirmos pra segunda parte do plano.
Era a fase mais foda, a mais adrena. Tinham três
fileiras de carros. Cada um escolheu uma tomando todo o
cuidado do universo pra que não fossemos vistos pelo
guardião nem disparássemos nenhum alarme.
Deitei no chão e me arrastei por debaixo do primeiro
carro. Tava escuro lá embaixo e tive que esperar pra vista

122
Manual Prático da Delinquência Juvenil

acostumar e conseguir enxergar o escapamento. Primeiro


usei uma varetinha pra enfiar uma bucha de papel.
Depois entupi a porra do escapamento com bananas.
Era Vectra preto. Juntei as coisas e me arrastei até o
próximo carro.
Fazia horas que não empreendíamos um ataque tão
“cagaçento”, meu coração a mil e minhas mãos suadas. O
segundo carro deu pena. Era um fusca e fuscas não
merecem. Deixei o fusca intacto. O tereiro carro era um
Kadet cinza, mandei ver. Lá pelo quinto carro eu já tinha
pego as manhas e estava trabalhando rápido, só não
conseguia enxergar os outros guris.
Demorei mais ou menos uns vinte minutos pra
terminar minha missão. Quando saí do outro lado do
estacionamento os piás já estavam lá.
- Porra, demorasse!
- Tava fazendo o que? Piquenique com as bananas?
- Cara! Juro que pensei que estava sendo rápido!
Quando Vinícius viu que tínhamos acabado tudo
atravessou o estacionamento com Marilia colocando nos
pára-brisas papéis com a seguinte frase:
“Cuidado com As Terríveis Bananas Assassinas
Transgênicas!!”
Cômico. Hilário. E não precisa dizer mais nada.
Nos reunimos na saída do supermercado e
simulamos uma fila no orelhão pra ficarmos aguardando o
resultado. E não demorou. Logo saiu um gordão cheio de
sacolas com carne. Abriu o porta-malas de seu Palio, jogou
as coisas, entrou no carro e tentou dar a partida. Nem se
ligou no papel no pára-brisa.
Tiziziziziu! Tiziziziziu! Nada. O carro não pegou. Foi
então que ele se ligou no recado das bananas no vidro. Leu,
olhou para os lados desconfiado e tentou dar partida de
novo, obviamente sem sucesso. Saiu do carro pra tentar
descobrir o que estava acontecendo com seu carro e então

123
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ouviu outro carro, a uns dez metros dali, também


engasgando.
Foi conversar com o dono do outro carro levando o
papel com a frase da banana. Conversaram um pouco. Dava
pra ver de longe que estavam desconfiadíssimos. Quando o
terceiro carro também não pegou os dois foram conferir o
escapamento e tiveram a revelação: estavam sendo vítimas
das Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas
Quase nos cagamos rindo. Não dava pra segurar, a
cena toda era muito engraçada. Nenhum carro no
estacionamento estava pegando. Logo começaram a se
formar grupos de pessoas indo reclamar com a gerência.
Negadinha enfiando pauzinhos pra tentar tirar as
bananas, mulheres reclamando, crianças aproveitando a
deixa pra fazer festa no estacionamento, show,
completamente show de bola. E então o mais engraçadp de
tudo, no meio de todos aqueles carros novos engasgados,
eis que o fusquinha que eu tinha poupado funciona e sai
cheio de moral com uma velhinha simpática na direção. Saiu
sorrindo e dando tchauzinhos pro povo.
Demos um tempinho e saímos fora pra não darmos
bandeira. Todos riam, menos eu que só tossia por causa da
gripe. Não dava pra rir que a tosse vinha. Tossi tanto que
quase cuspi os pulmões pra fora. Foi massa.
Acabei melhorando mais da gripe com esse ataque
do que com qualquer Benegripe ou chá quente.
Delinqüência Juvenil também é homeopatia.
Podes crer que é.

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

Fé Cega, Pé Atrás & Um Monte De Gente Batendo À


Porta - (ataque vinte e um)
Futebol, política & religião não se discute, certo?
Errado. Se discute e se discute muito, por isso a razão da
existência desse ditado. Intermináveis argumentações e não
raros chiliques nervosos e agressões físicas. São assuntos
maravilhosamente polêmicos e o problema não está na
polêmica. O problema está na intolerância.
O arranca-rabo começou na kit dos delinqüentes
quando Marilia contou que tinha sido professora de
catequese e Vinícius, seu próprio namorado, começou a
esculhambar.
- É ridículo, a igreja católica é muito ridícula, como podem
batizar uma criança que não tem ainda a mínima
capacidade para escolher.
- É costume, tradição, cultura.
- Cultura o cacete!
Jean, Sérgio e eu começamos a dar uns pitacos e a
discussão pegou fogo. Só pra azarar e colocar ainda mais
pimenta no molho resolvi defender as posições de Marilia.
- A parte ritual da missa católica eu acho massa.
Vinícius, o niilista, dava pulos de dois metros de
altura.
- Massa? O que é massa? Os caras comungam e depois vão
pra casa beber e bater nos filhos.
- Isso é geral, não atinge só os religiosos.
- Mas um religioso fazer isso é muita cara de pau, você não
acha?
O debate foi interrompido com a chegada do Fábio,
careca, com a cabeça completamente raspada.
- Caralho! O que foi isso, véio?
- Raspei ué, não posso?
- Mas pra quê?

125
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Tava de saco cheio de me olhando mesmo jeito no espelho,


precisava dar uma mudada no look.
- Ficou ridículo.
- Parece uma bexiga.
- Vão tudo se fuder!
Imediatamente já mudou de assunto perguntando o
que estávamos discutindo.
- Dava pra ouvir gritos de exaltação lá do outro lado da rua.
- Religião, discutiamos religião.
-Não boto fé, esse tipo de coisa não se discute.
Mas não teve jeito, o assunto avançou madrugada a
dentro. Vinícius estava inconformado com Marilia. Todos
estranharam, porra, logo ele que não se importava com
nada. Acabou com ele intimando todos a executarmos mais
um ataque, envolvendo religião,
- Mas o que?
- Uma ação para demostrar com todas as religiões estão
certas e erradas ao mesmo tempo.
- Mas como isso?
- Sei lá, acordem seus neurônios.
Então contei de um e-mail que recebi de um cara que
assina com o nickname de Sabotage, em que ele sugeria
que escolhêssemos uma casa e que de tempos em tempos
enviássemos cartas de diferentes religiões convidando para
algum evento. Todos custando alguma grana.
- Rapaz! Não é uma má idéia. - Vini se empolgou no ato.
- Só que mandar coisas pelo correio é muito palha.
- Podemos ir pessoalmente.
- Como assim? Juro que não entendi.
- Pois não, olhem para o Fábio.
Todos olharam. Entenderam menos ainda.

126
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Veja só não parece um hare-krishna? Falta só aquele


vestidão.
A gargalhada foi geral. Com uma roupa adequada ele
poderia muito bem passar por um monge tibetano. Mais
alguns detalhes acertados e o plano foi definido e aceito.
Seria uma peça de teatro invisível, nos moldes daquela em
que discutimos propriedade privada no boteco. Cada um
tratou de escolher seu papel. Vinícius tomou a frente.
- Serei católico!
Fábio, seria budista. Jean que sempre sonhou em ter
barba, optou por ser um rabino. Sérgio que é negão seria do
candomblé. Sobrou pra mim ser evangélico da Igreja
Universal do Reino de Deus. Marilia quis ficar de fora.
Quanto ao local do ataque desta vez nossa decisão
foi definitiva: esquecer a burguesia. Chega de querer
destruir a burguesia. Destrui-la implicaria em colocar
alguém no lugar e isso só significaria trocar os nomes dos
bois. A burguesia já cumpriu seu papel na história, a
questão agora é supera-la . Mais uma vez então,
escolhemos um bairro da periferia para nossas atividades.
Sérgio falou com um conhecido que pratica capoeira
e conseguiu umas roupas parecidíssimas com as de um pai
de santo, um sarro. Até um cachimbo de pau pra da um
toque final. Pra mim ficou fácil, uma simples calça social, um
sapato careta e uma Bíblia em baixo do braço já fazem de
você um evangélico.
Vinícius também não precisou de muitas
indumentárias pra travestir-se de católico.
Fábio e Jean que se fuderam. Fábio penou pra
encontrar um tecido adequado e convencer sua mãe a
costura-lo. Com aquela cara e o seu currículo de vida, a
coroa estava desconfiadíssima de que ele queria realmente
virar um hare-krishna. Jean só conseguiu trajes de rabino
depois de trocentas ligações e depois de fazer contato com
uma ex-namorada que participa de um grupo de teatro.
Marcamos a parada pra quinta-feira à tarde, eu
passando o migué no trampo de que tive uma recaída da

127
Manual Prático da Delinquência Juvenil

gripe e Jean, que trabalha a maior parte do tempo na rua,


matando serviço mesmo. Nos encontramos todos na praça
Tiradentes e pegamos um buzum pras quebradas da cidade
Não tínhamos uma casa/alvo definida. Iríamos na
tentativa até encontrarmos alguém que nos desse trela. Não
foi tão fácil quanto imaginávamos, muita gente não dá trela
pra missionários e crentes em geral. O ceticismo avança e
só não sei dizer se isso é bom ou ruim.
Lá pelas duas da tarde alguém finalmente nos
atendeu com atenção. Era um cara de uns trinta anos,
desempregado, que estava em casa cuidando das crianças
enquanto a esposa trabalhava no Pollo Shop numa
perfumaria, Vinícius, o católico, foi a primeira visita.
- Bom dia senhor!
- Bom dia.
- Faço parte dos carismáticos.
Assim começamos. Vini convidou para um mocotó na
sua paróquia e comentou que estavam clamando por os
novos fiéis.
- Vinte reais o mocotó pra família toda e depois, se virar
devoto, é só pagar o dízimo.
Vinícius despediu-se depois fui eu. Levei sorte , pois o
cara era evangélico e até comentou que se tivesse dinheiro
em casa contribuiria com minha causa de assistência social
aos pobres. Sérgio, o pai de santo macumbeiro não teve a
mesma sorte. Chegou de cara convidando o indivíduo para
uma enorme matança de galinhas pretas.
- Uma cerimônia a Ogum, organizado pelo babalorixá
Barbozinha de Oxalá.
- O senhor ponha-se daqui pra fora! Em minha casa não
entra um adorador do diabo da sua marca!!
- Mas senhor...
- Eu já falei! Não me tira do sério!
Não teve jeito, Sérgio teve que enfiar seu rabinho

128
Manual Prático da Delinquência Juvenil

“satânico” entre as pernas e tirar seu time de campo.


Depois foi o budista Fábio, vendendo incensos e exemplares
do Bagavad Gita.
- O quê? Eu não acredito! O senhor já é o quarto a bater em
minha porta hoje.
- Isso é um sinal de que você deve lutar pra atingir sua
harmonia interior, superar a dor.
- Harmonia interior? Superar a dor? Do que está falando?
Os três filhos do homem estavam espiando Fábio por
detrás do pai, estavam se torcendo de rir. De certo nunca
tinham visto uma criatura tão esquisita.
- Gostaria também de lhe convidar pra participar de um
jantar vegetariano no nosso templo.
- Jantar vegetariano? – O cara já parecia nervoso e
impaciente.
- Sim, por apenas trinta e cinco reais.
- Trinta e cinco? Não, o senhor me desculpa, mas não tenho
condições. Dá licença por favor.
E bateu a porta na cara de Fábio, que se comoveu e
enfiou um envelope de incenso por debaixo da porta. O
rabino Jean não demorou mais de cinco minutos pra
aparecer. Quando olhou para os trajes de judeu começou a
demonstrar explicitamente sua impaciência, colocando a
mão na testa. - Eu não acredito! Eu não acredito! Posso
saber o que o senhor deseja?
- Quero convidar o senhor para ir em nossa sinagoga
participar de um jantar para angariar fundos de ajuda para
os israelenses vítimas dos terroristas palestinos.
- Vítimas do terrorismo palestino? Eu? – O cara coçava o
cabelo, já tava ficando com raiva.
- Apenas cinqüenta reais.
- Cinqüenta reais? Isso é um absurdo! Ponha-se daqui pra
fora seu turco ganancioso!
Então damos inicio a nosso ato final. Enquanto o

129
Manual Prático da Delinquência Juvenil

rabino discutia com o morador, o macumbeiro Sérgio voltou,


com uma sacola que parecia conter uma galinha preta. O
judeu indignou-se com aquela presença e os dois
começaram a brigar. O rabino chamando o macumbeiro de
satânico e o macumbeiro ameaçando soltar a galinha preta.
Os ânimos estavam alterados quando chegou o
budista Fábio.
- Paz! Paz! A paz é mais importante que a discórdia! – Então
agachou-se e acendeu um incenso fedorento.O ambiente
estava caótico, o morador inquieto sem saber o que fazer,
os meninos rindo que mijavam, quando chegou o católico
carismático Vinícius que começou a rezar um padre nosso e
jogar água benta nos três.
Quando aproximei-me da casa o morador logo me
reconheceu e me chamou, parecia confiar nos evangélicos.
Cheguei perto estavam todos em frenesi, discutindo quem
explorava mais os pobres, quem eram os. Uma zona, quase
impossível não rir, Vinícius quase não se agüentava.
Mas foi só descobrirem que eu era evangélico que
começaram todos a me criticar e me apontarem o dedo, até
o pacífico hare-krishna. O morador saltou em minha defesa
e a discussão pegou fogo. O pessoal gritava tanto que
alguns vizinhos até foram à janela ver o que estava
acontecendo e outros chegaram e se encostaram no muro
da casa do cara apreciar a baixaria. Tinha um certo público,
posso te garantir, palavra de delinqüente. Por fim me
indignei e tomei uma atitude inesperada.
- Quer saber? Exploramos sim! Mas o dinheiro é muitíssimo
bem aplicado na construção de novas igrejas.
- O quê?
Foi a gota d’água, o rapaz se indignou e correu a
todos com ameaças de chamar a polícia. Nos dispersamos
rapidamente, um pra cada lado com expressões furiosas nos
rostos. Nos encontramos de ônibus rindo feito uns
dementes. Foi muito engraçado. Com certeza aquela pessoa
lembraria da cena para o resto de sua vida e para sempre
alimentaria uma desconfiança contra esses pregadores.

130
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Pensaria sempre duas vezes.


Missão cumprida. Se existem deuses lá em cima ou
no além, devem Ter nos agradecido por termos livrados sua
barra suja por esses representantes mortais de araque.
Fnord.

De Todos os Fogos o Fogo - (ataque vinte e dois)

O crime contra a Imaginação Pública cometido pela


Prefeitura Municipal de Curitiba voltou nessa semana a ser
assunto entre os delinqüentes. Começaram a instalar as
malditas propagandas luminosas no ponto de ônibus da
kitnete. Os filhos da puta privatizaram os pontos de ônibus.
Agora você chega na janela e o negócio ta lá,
impondo-se no escuro da noite. A Sabotagem Publicitária
acabou voltando à nossa pauta de negociações. Fábio
demonstrou ser o mais obstinado de todos.
- Aquela viagem de cimentar a calçada foi Intervenção
Urbana, não Sabotagem Publicitária.
- Ah, mas foi massa.
- Eu sei, mas nós temos que atacar é esses abusos como o
ali de fora.
Jean e Vinícius não estavam nem ai pra conversa, só
davam risadas e azaravam.
- Tem que tacar pedras nessas porras!
- Fuder com tudo! Meter fogo.
Sérgio está concluindo mais uma série de trabalhos
artísticos, os primeiros de sua fase na delinqüência. Dá pra
ver que mudou muito o estilo. Ultimamente ele anda
completamente envolvido com o processo criativo.
Entusiasmado mesmo.
- E não tá nada pronto, só estará pronto quando tudo estiver
no seu lugar.

131
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Que lugar?
- O mundo. A vida. As pessoas.
- Não viaja...
Por fim Jean e Vinícius acabaram se interessando
pelo assunto e começaram a tramar seriamente alguma
coisa. Quer dizer, o mais sério possível tratando-se de nós.
Jean anda lendo o Clube da Luta do [[Chuck Palahniuk]] e
tendo uns planos incendiários.
- Queria experimentar aquelas misturas caseiras, tipo
gasolina com coca ligth.
- E será que funciona?
- Pois é! Eu queria testar a parada.
Conversa vai e conversa vem e dos pontos de ônibus
privatizados acabou-se chegando ao velho e bom plano de
botar fogo em algum out-door. Antigamente o cagaço
sempre vencia, só que agora estamos irremediavelmente
viciados em cagaços.
As idéias logo começaram a brotar.
- Agente joga gasolina. Chegamos por trás do out-door. Com
toda a calma do mundo. Escalamos e vamos derramando
gasolina, até encharcar.
Fábio parecia confiante e metódico, era dele principalmente
o sonho de queimar um out-door.
- Pode crê! Litros e litros de gasolina.
- Só! Na frente e atrás.
- Nossa o negócio vai queimar pra caraaaaalho!
Quem acabou dando o toque de mestre no plano
acabou sendo o Sérgio. Efeitos pirotécnicos ilegais. Uma
coisa de louco, um absurdo.
- A gente arma uma fileira de fogos de artificio por trás do
out-door, na hora que a parada tiver pegando fogo,
soltamos os fogos.
Uma idéia fantástica. Fantasticamente arriscada.

132
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Não dá véio, bem na hora de fugir vai ter uma zoada do


inferno?
- Culhones, meu filho! Culhones – Sérgio Augusto com uma
machíçe surpreendente.
- Não viaja, o negócio é arriscado.
-Temos que pensar num jeito...
Como somos um bando de inconseqüentes, fomos
logo providenciando material sem ter bolado um plano de
fulga decente. Tivemos que investir um troco legal que
mesmo repartido em cinco, ainda vai fazer com que
fiquemos duros por uns quantos dias. O mais caro foram os
fogos de artifício.
O out-door vítima foi escolhido pelos especialistas em
alvos Jean e Fábio. Por motivos óbvios não posso dizer onde,
mas era um lugar manero. Não digo que tinha muita
visibilidade e que seria visto por milhares de pessoas, mas
era limpeza pra executar e pelo menos aparentemente,
limpeza pra fugir.
Quinta-feira em Curitiba fez um dia esplendoroso,
céu azul, coisa rara, interpretamos isso como um sinal.
Passamos o dia ligando uns para os outros e dizendo: É
hoje! Tem que ser hoje!
Nos encontramos todos na kitnete e aguardamos
com uma paciência dos diabos o tempo passar pra chegar
uma hora adequada pra ação. Chegou a meia- noite
vazamos. Jean, Vinícius & Fábio com as mochilas contendo o
material.
Levamos gasolina pura e um pouco de mistura que o
Jean fez com coca ligth. No ônibus ele ia explicando como
que o negócio funcionava.
- A gasolina queima fácil, só que pra ser um explosivo ela
tem que queimar rápido, de uma vez só, aí sim vira um
explosivo.
O viado falava alto, o povo do ônibus todo ouvindo.
- Pra queimar rápido precisa de oxigênio. Os refrigerantes

133
Manual Prático da Delinquência Juvenil

dietéticos possuem uma substância que quando esquenta


libera oxigênio. Sacaram?
Então encarou todo mundo que tava olhando pra ele,
fez uma careta e gritou:
- Buuuum!
Descemos do ônibus nos partindo de dar risadas.
Descemos um pouco longe do local pra ir desbaratinando.
Foi no caminho que bolamos o plano de fuga.
- Vamos todos juntos montar a parafernália toda e depois
saem todos e fica só um pra botar fogo. – Fábio foi quem
tomou a voz.
- É! É uma boa.
- Um só é bem mais fácil de fugir. Os outros esperam num
lugar seguro.
- Tá mas e quem fica?
- Eu é claro! Ô pessoal, é uma causa antiga, quase um
sonho pessoal.
- Tá certo...
Pulamos o muro e andamos todos no escuro em meio
a vegetação. Nada de Lanternas & nada de Pressa. Foda-se
que a madrugada fosse alta & que talvez Ninguém visse.
Um espetáculo destes, pra nós mesmos, já estaria louco de
bom.
Logo chegamos na parte de trás do out-door. Eu e
Jean escalamos a estrutura enquanto os outros montaram
sentinela e ficaram alcançando o combustível. Sérgio ficou
montando o esquema dos fogos de artifício, apesar de ter
sido idéia sua, estava completamente cagado de medo.
- Vamos apurar logo com essa merda.
- Cala a boca e trabalha.
A porra da estrutura do out-door tava podre. Um
pedaço de madeira quebrou e Jean quase caiu. Vini e Fábio
alcançavam a gasolina obstinadamente.

134
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Ponha mais! Ponha mais!


Então levei o maior susto dos últimos duzentos mil
anos. Do nada, surgiram duas crianças gritando. O susto foi
tão grande que pisei em falso, um pedaço de madeira
quebrou e despenquei de uma altura de uns quatro metros.
Foi um negocio do caralho, o chão parecia que nunca
chegava.
Quem diabos eram aqueles meninos? Que caralho
eles estavam fazendo ali? Vinícius conversou com eles e
saquem o grau da coinscidência:
Tinha uma casinha abandonada, minúscula, tipo a
única peça de alvenaria de uma casa que muito
antigamente existia por ali, no meio do mato, e eles, que
eram meninos de rua, dormiam dentro. Mal estava coberta e
eles dormiam ali. Puta que o pariu! Definitivamente, o mapa
não é o território.
Sem sombra de dúvidas, nossa ação ferraria com o
dormitório dos meninos. No calor dos acontecimentos Vini
os convidou para dormirem na kitnete.
- Beleza!
- É, a gente dorme lá então.
Os meninos acabaram saindo-se ótimos ajudantes e
em poucos minutos encharcamos o painel publicitário de
gasolina. Só tivemos que esperar o lezera do Sérgio
terminar seu serviço.
Sair fora e deixar somente Fábio acionar as bombas
foi de partir o coração. Sérgio terminou, mostrou & saiu
correndo com os meninos. Queria fugir dali mesmo. Eu e
Vinícius saímos de cabeça baixa, nos esgueirando por entre
os arbustos. Lentamente, pois estava com a adrena a mil
por causa do susto dos meninos. Jean ficou discutindo com
Fábio, queria ficar de qualquer jeito. Sérgio sumiu enquanto
eu e Vini nos escoramos na sombra de um muro pra esperar
Jean. Passou um tempão com eles discutindo e a gente
vendo e não ouvindo nada até que fizeram sinal pra gente
se mandar. Foi quando nos ligamos que eles acabaram
resolvendo mandar o plano de fuga à merda e tacaram fogo

135
Manual Prático da Delinquência Juvenil

na bagaça.
Assistimos tudo colados no muro num ponto perdido
entre Aterrorizados & Maravilhados.
Fábio ateou fogo no out-door e na hora em que as
chamas subiram as ganhas Jean acendeu os fogos. No
momento senti como se já pudesse morrer, como se já
tivesse vendo tudo que bastasse. Nossa fogueira queimou
mesmo, queimou pra cacete, o clarão iluminou todo o
matagal que até então estava nas trevas. O show
pirotécnico dos fogos de artifícios deu o charme supremo, a
sofisticação necessária para o momento.
Dez segundos de perfeição. Dez eternos segundos
que quando acabaram cobraram seu preço através daquela
situação fulminante de queda-livre.
- Sujou! Sujou!
- Fuja locôôoooo!!!!
Sem nenhum plano de fuga corremos feito uns
desesperados. Passamos no ponto combinado e Sergio
estava lá com meninos e com um sorriso congelado no
rosto.
- Foi massa, foi de matar a pau.
- Bora, véio! Boraaa! Sujou!
- Sujou o que?
- Fugimos todos juntos!
- Foda-se.
- Bora, cara, bora!
Não teve jeito, por mais que ele tivesse razão nosso
pânico era maior, corremos todos, até os meninos, coitados.
No caminho Fábio teve um acesso de loucura e quebrou um
daqueles painéis de propaganda dos pontos de ônibus.
Corremos ainda mais, os meninos riam que se mijavam,
quase não conseguiam correr, tínhamos muitas vezes que
puxá-los pelo braço. Não sei quanto, mas corremos acho
que uns três quilômetros. Quando paramos num posto de

136
Manual Prático da Delinquência Juvenil

gasolina pra descançar, tomar uma bera e apresentar um


rango pros piazinhos nào converdamos nada, apenas
ríamos.
Dez segundos pra marcar uma vida inteira e na
madrugada:
Uma fogueira.

O Ritual Do Mais Tongo ou Como Eu Celebrei a Deusa


& O Que Eu Fiz Para Ela Quando A Celebrei - (ataque
vinte e três)

O humor salvará o mundo. Uma das regras básicas


do nosso grupo é nunca nos levarmos a sério demais. Isso já
confirma a nossa contribuição com pelo menos um
pouquinho do humor que salvará o mundo. A gente, pelo
menos, se diverte.
Quando apresentei a Religião dos Discordianos pra
galera a identificação foi imediata. O Discordianismo é uma
religião freak criada nos EUA, no início dos anos 60. É uma
mistureba doida de nonsense com mitologia grega, religiões
orientais e anarquismo, onde "todo homem, toda mulher e
toda criança são um Papa". Um negócio palhaço o suficiente
pra conquistar seus corações. Vinícius devorou o Principia
Discórdia e desde então encasquetou que teríamos que
fazer um ataque envolvendo esse assunto.
- Tipo uma cerimônia absolutamente sem sentido aparente,
uma cerimônia de uma autêntica Religião Livre que o Ari
tanto fala.
A idéia ficou pendente. Estávamos aguardando o
ataque 23, que é o número sagrado dos Discordianos.
No Domingo passado, dia 21 de setembro, foi o dia
da árvore e o dia em que colocamos em prática nossa idéia
mais besta dos últimos tempos para angariarmos fundos
para nossos ataques. Nessa data aqui em Curitiba alguns
estudantes de Biologia ou então Engenharia Florestal ou
Ambiental costumam vender mudas de árvores nos

137
Manual Prático da Delinquência Juvenil

semáforos. Resolvemos usar essa técnicas, só que ao invés


de vendermos mudas de árvores sacanearíamos às ganhas
vendendo mudas de maconha. Isso mesmo, mudas de
maconha.
- A gente inventa um nome científico bem estrambólico e
ninguém contestará.
- Cara, que massa! Imagina depois de umas semanas... O
sujeito olha meio invocado pra planta e pensa: “cacete, que
porra de planta é essa?”
- Uma tremenda sacanagem.
A idéia foi do Fábio e ele mesmo se encarregou de
conseguir sementinhas com uns amigos do mal lá de
Colombo. Isso foi no início de agosto, desde lá plantamos
num viveiro improvisado na kitnete e conseguimos latinhas
pra depois vender as mudas. Foi então que o universo nos
presenteou com mais essa Magnífica Coincidência, o ataque
vinte e três no dia vinte e três, dois dias depois do dia da
árvore e a possibilidade de usarmos a grana pra bancar a
cerimônia. Fnord, sem dúvida. Fnord.
No Domingo 21 acordamos cedo, alguns, pois Jean &
Fabio saíram pra night e simplesmente viraram a noite sem
dormir. Fomos vender nossos produtos no cruzamento da
Silva Jardim com a Brigadeiro Franco, umas nove da manhã.
É incrível como no domingo pela manhã o povo está mais
Amável & Propenso a Caridades, como se nessa hora os
corações ficassem moles. Pelo menos para pais de família.
Conseguimos vender quarenta e sete pés de maconha a um
real. Um espetáculo, sucesso absoluto. Voltamos a pé pra
casa dando risadas e planejando nossa Cerimônia a Éris, a
Mais Bela, a Deusa da Discórdia. Passamos num sacolão e
compramos cinco quilos de maçã.
- Na segunda a gente compra tinta e pinta elas de dourado.
– A Maçã Dourada, símbolo do Discordianismo.
Uma das coisas mais massa no Discordianismo é a
liberdade de culto e de métodos. Fizemos um bom uso
dessa passagem do Principia: “Se por acaso você achar que
as suas próprias revelações d’A Deusa se tornaram

138
Manual Prático da Delinquência Juvenil

substancialmente diferentes das revelações de Mal-2, então


talvez A Deusa tenha planos para você como um Epíscopo, e
você deve considerar a criação de seu próprio secto a partir
do rascunho, sem impedimentos.” Consideramos o fato de
termos conseguido a grana um sinal da deusa.
Isso significa que contrariaríamos a recomendação de
comermos cachorro-quente na sexta-feira, comeríamos na
terça e de também outras bobagens inventadas do nada.
Quanto ao local da cerimônia a discussão foi longa.
Basicamente dois planos estavam em debate. Um era
fazermos uma celebração para os ônibus bi-articulados
vermelhos em algum terminal tubo.
- Cara! Seria massa, rituais para a Grande Serpente
Vermelha & Para os Espectros Dos Trocadores.
Outra idéia era nossa tendência de nos dirigirmos
para a periferia. Vinícius era quem queria os terminais tubo.
Jean tinha outra idéia.
- Vamos celebrar junto aos catadores de papelão.
- Catadores de papelão? Como? De que jeito?
- Lembra o dia em que damos uma de calouros na avenida
das torres perto da PUC?
- Tá, mas e daí?
- Ali na Vila Pinto, vindo embora depois, me liguei que tem
uma dessas paradas que compra latinha e papelão. Aquilo
ali de tardezinha enche de carrinhos de catadores de papel
negociando a coleta do dia.
- E tu quer fazer o negócio lá?
- Com certeza eles serão mais receptivos.
- Não sei, talvez, mas a idéia é boa.
Batemos o martelo e tratamos de providenciar o
material. Cachorro-quentes, um garrafão de vinho, maçã
douradas, garrafas de pinga com rótulo com uma maçã
dourada, copos com desenhos de maçãs douradas e mais
uns panfletos com os mandamentos. Fábio ainda preparou
mas misteriosas tábuas que pintou e que só revelaria no

139
Manual Prático da Delinquência Juvenil

local. Coisas de Fábio Samwise. Sérgio foi quem se fudeu


preparando todos aqueles cachorroquentes, fizemos uma
porrada, não contei mas eram mais de cinqüenta.
Colocamos tudo numa caixa de isopor pra não esfriar muito,
juntamos o material e partimos em Missão Sagrada. Vinícius
& Sérgio foram na frente com os cachorro-quentes, Vinicius
seria o Diácono Legionário e Sergio seu assistente. Nós
chegaríamos depois tendo Fábio como candidato a
Discípulos Legionários. Quando chegaram lá o dono do
estabelecimento demonstrarou-se meio cabreiro com aquele
papo de tratarem-se de religiosos daquela seita que nunca
tinha ouvido falar. Mas como a proposta de pregação incluía
a distribuição de cachorro-quente grátis pra galera, acabou
topando. Quando começaram a comer a gente chegou.
- Boa noite Diácono Vinicius O Mais Tongo.
- Boa noite Humanos Quem Sabe Numa Dessas Repolhos.
Os caras abriram uns olhões desse tamanho! Mas
depois logo desencanaram, devem conhecer loucos de toda
espécie. Mal chegamos e já começamos a distribuir as
oferendas da Deusa A Mais Bela pro pessoal. Era pinga pra
cacete, compramos uns dez litros. A galera curtiu,
começaram as risadas e as batidas nas costas.
- Os meninos são gente boa!
- Desses crentes que eu gosto!
O Diácono Vinicius O Mais Tongo aproveitou o clímax
e começou seu Sermão da Origem da Discórdia:
- A muito tempo atrás., um filho da puta chamado
Caracinza, encasquetou que o mundo era tão sem humor
quanto ele, e embestou que Diversão era pecado porque ia
contra a Ordem Séria. Esse corno convenceu todo mundo
que a sacanagem era coisa do mal.
Por incrível que pareça os caras estavam prestando
atenção.
- Hoje em dia não dá pra acreditar como tanta gente se
deixou levar por essa idéia. Mas deixaram levar e muita de
gente se fode se for contra isso. O resultado é essa merda

140
Manual Prático da Delinquência Juvenil

que o mundo tem se transformado. Chamamos isso de


Maldição do Caracinza.
Os futuros Discordianos caíram na gargalhada.
- Escutem, mentiram pra vocês! Vocês já estão livres! Tudo é
permitido! Um brinde a Éris, A Mais Bela, A Deusa da
Discórdia.
Então fizemos o nosso pentagrama de iniciação,
afinal eu, Jean & Fábio éramos meros discípulos legionários.
Ficamos os cinco na formação e Vinícius falou:
- Agora todos se agacham e se levantam. Todos, incluindo os
que estão só olhando.
Não teve muito sucesso, só três neguinhos fizeram
isso. Mas tudo bem, continuou o ritual de iniciação. Fábio
ficou na posiçào destinada aos candidatos a Discípulos
Legionários. Vinicius O Mais Tongo aproximouse.
- Eu, Vinicius O Mais Tongo, iniciado nas Ordens Nem Tão
Secretas Das Saideiras Das Festas Podres,
Sacerdote Ordenado da Putakyuparyu, com a
Autoridade investida em mim pelo Alto Sacerdote da
Mesma, Escritório do Polipadre, pela Casa do Caralho de
Asas e pelo Templo do Caos; pergunto agora pra ti: tu és um
homem ou um repolho?
- Um homem!
Os caras nessa hora começaram a se partir de dar
risada, Vinícius O Mais Tongo teve que erguer a voz para
continuar.
- Isso é mal! Isso é muito mal! Queres mudar de vida?
Aí uns poucos riram, teve gente que não entendeu.
- Sim! Quero mudar! – Exclamou Fábio.
- Que besta, que coisa mais imbecil! Onde você quer chegar
aceitando qualquer proposta idiota como essa? Aceita
mesmo?
- Sim!

141
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Parecia um circo. Parecíamos os palhaços ou pior, os


macacos do circo. Não sei se estávamos sendo bons ou a
pinga estava sendo boa, a gargalhada era geral.
- Quer então se tornar um Discordiano?
- Acho que sim.
- Então faça o juramento!
- Eu acho que juroooo!!!!! – Berrou Fábio.
- Eu te proclamo como o Discípulo Legionário Fábio O Mais
Mala, Legionário da Legião de Discórdia Dinâmica. Salve
Éris! Salve Salve!
Então todos nós começamos a gritar e incentivar os
outros a gritarem também e como a maioria já estava
bêbada mesmo não foi difícil. O dono do estabelecimento já
começava a dar sinais de impaciência. Sérgio foi quem se
ligou e avisou Vinicius O Mais Tongo, que tratou de puxar o
garrafão de vinho e distribuir pra platéia junto com as
maçãs douradas e os panfletos com os mandamentos.
Quando pegaram o papel ele logo avisou.
- Peguem essa porra desse papel e limpem a bunda com o
que está escrito e riam como um idiota do que está escrito.
Tomem o vinho no Nada por trás de Tudo, enquanto a merda
não aumenta. Nessa hora fizemos uma espécie de
confraternização e paramos de agir como Religiosos Loucos
& Fanáticos. Muitos caras vieram apertar a nossa mão e
bater nas costas e perguntar que merda era aquilo que
tínhamos feito e que porra era aquela de maçã dourada. Os
cachorro-quentes acabaram todos e posso te garantir que
estavam todos felizes.
Fábio pegou seus painéis e foi conversar com uns catadores
de papelão no lado de fora. Ficamos um pouco mais e
quando saímos encontramos Fábio com os caras. As tábuas
que ele tina feito continha frases e Fábio deu dez reais pra
cada um deles, e eram três, para colocarem as tábuas no
carrinho. Ficou massa. Altas idéias. Chupada da lista de
discussão dos delinqüentes. As frases eram: “O Seu Lixo É O
Meu Sustento”, “Obrigado Por Tudo Isso” e “Até Aqui Sua
Misericórdia Tem Me Acompanhado”.

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Salve a Discórdia, pessoal! Salve a Discórdia! – Fábio


estava satisfeito com o resultado. Voltamos etílicos pra casa
bebendo a Pinga Sagrada da Discórdia e rindo na medida do
incontrolável, pois está escrito em algum lugar e se não
tiver escrito a gente escreverá:
“O humor salvará o mundo.”

Merda & Ouro (ataque vinte e quatro)

Nesta semana ouvimos o disco novo do mundo livre


S/A onde o Fred Zeroquatro canta numa música “não existe
guerra alguma, apesar de todo esse barulho é só o capital
cruzando o mar” . A letra é pequena, mas deixou todos
impressionados. Manda-se um pais como o Brasil à merda
com um simples telefonema .
Capital Especulativo é uma coisa do diabo. Na boa,
Eu queria que o cú dos especuladores pegasse fogo e o
caminhão dos bombeiros tivesse cheio de gasolina . O
problema é que eles estão longe, são invisíveis, são meros
números numa conta corrente de um banco multinacional.
As sombras desses invisíveis do mal são os bancos como os
conhecemos.
Nos cabe então vandalizar os ícones dessa pouca-
vergonha toda que estão ao nosso alcance, ou seja, as
Agencias Bancarias de Curitiba.
- Tínhamos que fazer alguma coisa nos bancos que tivesse
merda no meio. – Vínicius sempre se anima quando o
assunto é vandalizar bancos.
- Merda? O que você quer dizer com isso ? - A pergunta foi
meio que geral, ninguém entendeu .
- Tínhamos que deixar uma grande quantidade de merda
em um banco .
- É, dá pra meter merda naqueles envelopinhos do auto-
atendimento .
- Dá também pra deixar sacos de merda nos lixos

143
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Aí a galera começou a viajar, o Bukowskiano


Degenerado Fábio Samwise soltou essa:
- Podíamos comer feijoada com chucrute por uns três dias e
fazer um atentados de peidos. Imagine nós todos peidando
ao mesmo tempo.
Por fim concordamos que o ideal seria largar merda
nas calçadas e acessos, bloqueando a entrada das pessoas.
O plano ficou marcado, só que parecia que faltava um toque
final que desse brilho a coisa toda. Um fator de
diferenciação de um simples ato de vandalismo.
Passou-se uma era até que da lista de discussão dos
Delinqüentes nasceu uma estrela dançarina.
Alguém chamado Gustavo e com o nikname Anarki3a
postou uma idéia maravilhosa que imediatamente
apresentei pro pessoal .
- Lembram o que estávamos discutindo outro dia? Que os
bancos são os ícones do mal ?
- Só...
- Pois é, já repararam que todos eles ostentam
hipocritamente um belo jardim.
- Flores do mal.
- Imagina agora largar sal grosso ou óleo queimado
naqueles jardins.
Fez-se então o tradicional silêncio após uma sacada de
mestre. Aquelas caras pensativas e aqueles risos contidos.
- Era o que faltava.
- Temos que fazer isso.
Começamos então a aperfeiçoar a estratégia.
Esquecemos o óleo queimado e optamos pelo sal grosso.
Poderíamos atacar em uma noite de chuva, a água
dissolveria o sal e os banqueiros teriam uma curiosa
surpresa alguns dias depois.
Convencer o Rafael, amigo do Jean, a empenhar a
picapezinha dele pra carregar bosta já foi difícil, agora

144
Manual Prático da Delinquência Juvenil

carregar a tal bosta revelou-se uma encarnação do inferno.


E a merda optamos por de vaca , já que merda de
gente é complicado de conseguir em grandes quantidades.
Mais uns enfeites vandalìsticos. Um placa pra colocar na
escada de acesso com o aviso:
“passagem, somente se pisar na merda”.
Uma faixa pra esticar entre uma árvore e outra
escrito com letras garrafais:
“Este é um lugar do mal ”.
Os especialistas em alvos Fábio & Jean escolheram
uma agência na Erasto Gaertner, no bairro do Bacacheri.
Perfeitinha, jardim, escadas de acesso fácil de obstruir e
lugar pra esticar a faixa.
A faixa e a placa doeram em nossos bolsos. Essa
série de ataques minaram nossas finanças. Isso, convém
lembrar, se passou dias antes da Imobiliária nos infernizar
com a ameaça de despejo de nossa Sagrada Kitnete. Só
tínhamos que esperar por uma noite chuvosa. Eu no cagaço
de que minha gripe assassina voltasse. Não precisamos
esperar muito. Na Esquizofrenia Climática de Curitiba, noites
chuvosas são normais. Jean conseguiu umas capas de chuva
pretas no trampo e com o Rafa, o veículo para transportar a
carga fedida. Achamos um sitio na Fazenda Rio Grande e
convençemos seu dono a ceder o material. Tivemos que
carregar a merda na entrada da cachoeira das vacas, de
noite e na chuva. Foi muito empenho, o esterco ia até o
meio da canela e o esquema era o seguinte: você escolhia
um lugar, se posicionava e então afundava nos escrementos
e então fazia uma força do caralho com a pá pra jogar até
onde outro recolhia. Uma merda, literalmente. Dez mil
banhos depois ainda fedíamos.
Carregamos tudo, cobrimos com uma lona e
voltamos pra sagrada kitnete.Logo antes da meia noite a
chuva apertou e decidimos que era a hora. Jean foi de carro
com o Rafael e eu e os guris fomos na frente, de ônibus.
A Erasto é movimentada, mesmo na madrugada. Era
uma operação complicada, o banco ainda por cima era

145
Manual Prático da Delinquência Juvenil

muitíssimo bem iluminado. A vantagem era que com a


chuva forte ninguém andava na rua, ainda mais numa hora
daquelas. E os carros, quem estava dentro estava mais
preocupado prestando atenção na pista. Mesmo assim
tivemos que ficar eu & Sérgio de campana, cuidando o
movimento e emitindo sinais quando necessário.
Maldita hora que topei essa tarefa. Era diferente de
ficar alerta na periferia como nos outros ataques, num bairro
escuro, silencioso e sossegado. Ali passavam carros, um a
cada minuto e o trabalho era demorado. Somente ver os
outros se mexerem me deixava ainda mais agoniado. Chovia
tanto que parecia que não ia parar nunca. A impressão que
se tinha era que a qualquer momento iria aparecer Noé, de
arca, acenando pra gente, “e aí gurizada, não tem ninguém
da espécie de vocês aqui dentro!”
Fábio &Jean carregaram sacos com uma porrada de
merda até perto de uns tonéis de lixo. Vinícius sumiu no
meio do jardim analisando as possibilidades pra realizar
suas sabotagens. Assim que descarregaram o material,
Rafael sumiu com sua picape, não queria ter nada a ver com
aquilo.
Quando os guris começaram a esparramar a merda
eu já tava prestes a ter um ataque cardíaco. Minha vista já
estava embaçada com a água da chuva e cada farol que
brilhava na frente eu pensava que era de um carro que ia
estacionar pra sacar um troco no caixa-eletrônico.
Jean & Fábio ainda se alugaram em aplainar com
uma tabuazinha, queriam cimentar de fezes a entrada do
Templo Monetário. Eu ali, no cagaço do perigo iminente e os
dois, Viajando & Enrolando. Não agüentei e fui correndo dar
esporro.
- Seus pau no cú! Um desses carros podem parar e ferrar
com tudo.
- Relaxa, Ari.
- O caralho que vou relaxar!!! Vamos trocar de função, vai lá
cuidar o movimento Jean! Fiquei no lugar do Jean e comecei
a jogar merda feito um psicótico. Fábio ficou só rindo da

146
Manual Prático da Delinquência Juvenil

minha paranóia, Vini que surgiu do nada pra me acalmar.


- Relaxa véio, tá limpeza, agente tem pra onde fugir no
aperto. Tá vendo aqueles latões de lixo onde deixamos os
sacos? É só correr pra lá e desaparecer na noite
Desencanei e tratei de concluir a obra. Vinícius ficou
só escondido atrás das moitas. Completamente invisível. Só
dava pra ver o sal grosso voando em meio a chuva que ele
jogava da moita onde estava escondido. Dessa vez admito,
Vini foi o mais seguro de si dentre nós. A chuva era tanta
que tive que colocar uma camada grossa de estrume pra
água não levar tudo para o esgoto. Enquanto fiquei ali, Fábio
& Jean trataram de colocar a faixa. Ela seria armada num
poste e numa palmeira.
O poste foi tranquilo de escalar, a palmeira foi bem
mais foda. O aguaceiro fazia com que o tronco ficasse
escorregadio feito sabão. Somos especialistas em escalar
palmeiras, mas não daquele jeito. A solução foi chamarmos
o Sérgio para que eu, que sou o mais magro e leve, subisse
nas costas dele pra amarrar a corda da faixa.
Bem na hora que dei o último nó, uma luz de
lanterna, vindo de dentro do banco, fez com que nosso
mundo parasse. Tinha um vigilante lá dentro que
provavelmente estava dormindo ou fazendo outra coisa o
tempo inteiro e que agora estava fazendo sua ronda. Correr,
correr & correr. Essa é mesmo a nossa sina.
Sérgio O Mais Cagão simplesmente desatou-se a
correr me jogando violentamente na grama salinizada.
Quando consegui me levantar só vi os piás desaparecendo
na esquina. Nem olhei pro vigilante e já tratei de correr pra
salvar minha pele.
Minha fuga desesperada foi interrompida pelo pior
tombo dos últimos tempos. Estava descendo a escada
quando escorreguei e cai deitado, de corpo inteiro, em cima
daquela merda toda. Não ficou uma partezinha sequer do
meu corpo sem estar cagada.
Puta que o pariu!
Quando encontrei o resto da turma era uma

147
Manual Prático da Delinquência Juvenil

gargalhada só. Se jogavam no chão e riam batendo pés e as


mãos na calçada. De longe pareciam um bando de
epilépticos tendo um ataque simultâneo.
- Para Ari! Minha barriga tá doendo.
Mandei todos tomar no cú e saí atrás de calhas pra
me lavar. Fedíamos tanto que voltamos a pé pra casa, de
modo que salvamos os ônibus de toda aquela fedentina.
Uma semana depois, passamos por lá pra dar uma
olhada no efeito do sal e constatamos que acabamos por
ajudar na geração de emprego. Dois jardineiros estavam
trabalhando lá e a grama tinha sido toda substituída. Mais
uma batalha vencida, mais um banco vandalizado.
Uma merda tudo isso.
Não é mesmo?

Nossa Vingança Sará Maligrina ou Fazer Feitiçaria É


Brincar Com O Universo - (ataque vinte e cinco)

Uma estranha espécie de vudú abateu-se sobre mim


nos últimos dias. A má fase no campeonato começou no dia
em que Vinícius telefonou dizendo que estavam com três
meses de aluguel atrasado e que se não pagassem em cinco
dias seriam despejados. E os guris ainda tinham como
agravante as constantes reclamações dos vizinhos por
causa do som e das zuadas. Não somos aquilo que pode se
chamar de sociáveis. Era a oportunidade de ouro para a
imobiliária. Se não fizéssemos algo MESMO, estaríamos
fudidos. Quer dizer, quem estava fudido eram os piás, pois
não moro com eles, mas mesmo assim me senti meio
culpado. Más companhia, tá ligado? Doeu na alma. Tivemos
que colocar nossos respectivos rabinhos entre nossas
respectivas pernas e correr atrás de dinheiro. Salvem o
capitalismo! Deixem ele se manter até sexta-feira que
precisamos de dinheiro! Desnecessário dizer que foi foda.
Não temos o dom natural para ganhar dinheiro. Eu & Jean,
que temos trampo, fornecemos momentos de glória a
nossos chefes, que a muito sonhavam com uma chance de

148
Manual Prático da Delinquência Juvenil

nos esnobar. Saímos de mãos abanando, mas rindo da


babaquiçe daqueles malas. Sérgio quebrou a cara tentando
vender em vão suas telas na Rua XV. Fábio tornou-se um
VASP (Vagabundo Anônimo Sustentado pelos Pais) sem a
mínima chance de conseguir troco com seus velhos.
A luz no fim do túnel, por incrível que pareça, acabou
vindo do Vinícius. Ele toca violão e teclado e volta e meia
faz uns bicos nuns barzinhos. Depois de tentar arrumar
alguma coisa de última hora e não conseguir, resolveu
acionar sua cara-de-pau. Tocar na rua e nos terminais de
ônibus feito um pedinte. Aí começaram a aparecer os
primeiros reais e a gurizada começou a verdadeiramente se
espertar. Cada um tratou de descolar coisas que pudessem
vender. Resolvi fazer um sacrifício à causa, vender vários de
meus já poucos livros, discos & revistas. Meu esforço foi
recompensado por um e-mail. O Papa Fong da Cabala
Discordiana dos Eremitas Onanistas Românticos nos daria
uma força.
Genial! Fantástico! Conseguimos negociar, tínhamos
grana e conseguimos nos safar por uns dias. Eles perderam
e o sinal ficou aberto pra nós, que somos Delinquentes. Eles
feriram Corações Delinqüentes, o que significa que isso não
ficaria por isso mesmo, jamais.
Desde então nossa sede de vingança só aumentou.
Na época em que estávamos negociando mesmo, fui junto
com os piás e fiquei de butuca, analisando o ambiente.
Notei que não tinha sensor de presença, me liguei nas
janelas e anotei o nome de sete funcionários. Quem mandou
usarem crachás?
O foda é que entre conseguir a grana que faltava e
se recobrar do susto o tempo foi passando, e os ânimos se
acalmando. Não tem como evitar, cada um à sua maneira,
interpretou aquilo como uma lição, como um sinal. Acabou
que foi sendo eu o que mais entrou numas. Me ilhei do resto
do mundo e teci meu casulo, ser uma Metamorfose
Ambulante requer esse tipo de trampo de vez em quando.
Até que no Sábado, um dia horroroso com Chuva
Fina, Frio & Vento, os piás vieram me abduzir.

149
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Bora, véio! Vamos caçar os sapos pra lançar um


feitiçocontra a imobiliária!
A aventura que estavam me propondo era ridícula.
Caçar sapos nos esgotos mais fedidos da cidade. Saímos
com sacos de supermercados na mão e andamos o sábado
inteiro, nos molhamos inteiros e não encontramos um único
sapo. Não que não tenhamos conseguido caçar, não vimos
nenhum mesmo. Eu babava de indignação.
- Seus viados, vocês acham que vai ter algum sapo nesse
esgoto fedido?
- As vezes tem...
- As vezes tem o caralho!
A idéia dos piás, pelo menos a princípio, era uma
idéia de gerico. Desenrolar sapos e o diabo a quatro sem ter
ao menos a mínima idéia do que fazer com aquilo tudo. Qual
feitiço? Como? De que jeito? Mas aquela palhaçada pelo
menos me sacudiu um pouco. O toque final foi no fim de
semana, dia da criança, que fomos visitar Denise, a
catadora de papelão que levamos ao salão de beleza do
shopping. Montamos uns bonecos e carrinhos de papelão e
fomos fazer a festa com os filhos dela.
Fomos todos. Eu, Sérgio, Jean, Fábio, Vini & Marília. E
posso dizer aprendemos mais com eles do que eles conosco.
Aprendemos por exemplo a resolvermos o problema dos
sapos. Eles moram em Pinhais e sacam de altos Açudes &
Banhados para esse fim, caçar sapos.
Como se não bastasse nos ensinaram a técnica da
lanterninha. Fizeram agente esperar a noite chegar pra
caçar. Parecia que estávamos sendo iniciados num
conhecimento secreto. A técnica consistia em mirar a luz
nos olhos dos sapos, eles ficam hipnotizados e aí é só catá-
los. E funciona que é um espetáculo, catamos treze. Eles
ficaram numa bacia com água dentro de uma caixa de
papelão na litnete por três dias.
O problema é que por mais que eu tivesse reparado
que eles não tinham sensor de presença não fazíamos idéia
de como invadir a maldita imobiliária. Jean de cara

150
Manual Prático da Delinquência Juvenil

manifestou-se como o mais pé no chão.


- Invadir é foda, temos que torcer pra que tenha uma
entrada pelos fundos. A porta da frente é que não dá pra
arrombar.
- E tem mais, vai saber se o Ari não viajou e não se ligou dos
alarmes – Sérgio visivelmente não estava muito a fim da
empreitada.
- Eu acho que não tem.
Na madrugada de quinta pra sexta saímos em
missão impossível, carregando os sapos, um bonequinho
vudú que Sérgio confeccionou, sete envelopes nominais
para os funcionários, treze folhas de papel com a maldição
escrita, mais umas velas & outros apetrechos.
Chegamos lá e apesar de ser no centro, a rua estava
um deserto só. Damos a volta na quadra e o único jeito de
entrar nas “entranhas” do quarteirão era pulando um muro,
de três metros de altura. Não teve jeito, tinha que ser ele.
Tive que subir nas costas do Sérgio e depois ajudar o Jean a
subir, então em dois, puxamos o resto da turma.
A escuridão ali dentro era total, depois de acostumar
a vista reparamos: Tratava-se de um corredor minúsculo de
uma oficina de alfaiate, não levava a lugar algum. Pra seguir
a jornada teríamos que pular um muro com aqueles cacos
de vidro cimentados.
- Não dá nada, agente quebra tudo.
Jean nem vacilou e com uma pedra começou a bater
nos vidros freneticamente. Fez picadinho deles. Fábio tirou a
camisa, colocou por cima e pulamos todos. Chegamos na
segunda fase da jornada e era pior ainda, o quintal de uma
oficina de fogões ou coisa parecida. Cheia de tralhas. Sérgio,
o cara mais desajeitado do Universo mais uma vez torceu o
tornozelo.
- Aaaaaaaaaaaaai!
- Cala a boca seu merda.
- Pô, que foda!!

151
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Nos esgueiramos por entre aquela montoeira de ferro


velho e o terceiro muro pelo menos era mais fácil. Fácil em
termos de altura, por que dava numa área de serviço de
umas kitnetes estranhas. E tinha gente acordada nelas,
gente brigando.
Aparentemente era a kit de um casal e a mina
berrava:
- Não me interessa! Não tinha que ter falado bosta
nenhuma!
Não tínhamos mais nenhum muro pra pular, a janela
da imobiliária estava ali e tínhamos que fazer todo o serviço
ali mesmo. A janela era daquelas tipo de banheiro e era
impossível entrar por ela, teríamos que jogar tudo por ali.
Na hora em que o cara começou a berrar de volta pra mina,
Vinícius quebrou o vidro e abriu a janelinha. Tínhamos 20
centímetros pra enfiar tudo. A primeira coisa que fizemos foi
enfiar os sapos. Coitados, a janela era alta e se
estribuxaram no chão.
Imaginávamos que seria mais fácil. Então me liguei
de que daquele jeito não faríamos nada decente.
- Cara! Vamos voltar pro outro lado do muro e dar um tempo
pra analisar a situação.
Sentamos todos em cima das tralhas do ferro velho e
ficamos meditando em silêncio. Ficamos um tempão todo
mundo quieto. Matutando. Tentando esfriar a cabeça.
Nossos pensamentos eram volta e meia interrompidos pelos
berros do casal, que dava pra ouvir dali. Jean quebrou a
inércia e começou a juntar uns ferrinhos e fios.
- Quê que cê tá fazendo, véio?
- Relaxa!
Remendou as paradas e fez uma vareta de uns três
ou quatro metros de comprimento. Ficamos encantados com
sua maestria e como que num passe de mágica acordamos
o MacGyver da série Profissão Perigo que cada um trazia
dentro de si.
Um troço fantástico. Cada um tratou de fazer uma

152
Manual Prático da Delinquência Juvenil

gambiarra para aperfeiçoar a vareta. Vinícius começou a


montar uma segunda enquanto eu, Sérgio & Fábio fizemos
“ponteiras multitarefas”. Chapinhas flexíveis presas com
borrachas, coisa de mestre.
Pulamos o muro de volta e o lazarento do casal
continuava brigando. Acabou facilitando as coisas, apesar
de não termos mais podido contar com o Sérgio, que quis
ficar acompanhando a discussão. Foi massa.
Deu pra colocar o giz nas ponteiras, desenhar um
pentagrama no chão. Com as duas varetas conseguimos
acender as velas em torno do pentagrama. O boneco vudú
mocamos num lugar difícil de achar, para aparecer só uns
dias depois, pra deixar os caras mais cabreiros ainda.
Jean ajeitou um pincel com tinta vermelha e
desenhou uns símbolos nada a ver apavorantes na parede.
Era uma briga pra ver quem espiava pela janela, todos
queria ver como estava ficando, estava um espetáculo a
cena.
Sergio acabou sendo útil com sua curiosidade,
garantindo nossa tranqüilidade.
- Ih, cara! Podem continuar tranqüilos, eles não estão nem aí
pros sons de fora. O mundo pra eles não existe. E os outros
vizinhos vão pensar que o barulho são eles que estão
fazendo.
Por último largamos os envelopes pros funcionários e
as treze folhas de papel esparramadas pelo chão com a
seguinte mensagem chupada do Hakim Bey:
Esta empresa foi amaldiçoada por magia negra.
A maldição foi realizada de acordo com rituais
corretos. Esta empresa foi amaldiçoada porque
tem oprimido a Imaginção e profanado o Sagrado
Ócio & a Santa Vagabundagem, degradado as
artes devido a estupidificação da vida cotidiana
com o único objetivo de pagar suas Tachas de
Aluguel Abusivas & seus Lucros Obscenos, além
das mentiras pregadas através do Direito de
Propriedade & o Arruinamento Estético

153
Manual Prático da Delinquência Juvenil

promovido pelo pouco caso que dão a algo


sagrado que é um lar...
Os funcionários desta empresa agora correm perigo.
Nenhum indivíduo foi amaldiçoado, mas o local foi infectado
com Má Sorte & Malignidade. Aqueles que não se ligareme
não passarem a tratar os outrso com mais humanidade, irão
gradualmente sofrer os efeitos desta feitiçaria. Desrtuir ou
dar um fim em todos esses instrumentos de magia que
foram deixados aqui não fará nenhum efeito. Eles já
estiveram aqui e este lugar foi amaldiçoado. Recupere sua
humanidade e revolte-se em nome da imaginação – ou será
considerado (sob o ponto vista deste feitiço) um inimigo das
pessoas do bem.
Ainda ficamos uma cara sentados ali, Fumando &
Bebendo & Cochichando & Acompanhando o desenrolar da
briga do casal. E não é que eles se acertaram? O amor
venceu. Altos sinais, sem sombra de dúvidas, o Universo
está disposto a brincar com a gente quando se dá a devida
atenção a ele. Fábio se folgou e escalou uma parede para
ficar voyerizando os dois pra ver se rolava sexo. Quando
foram pra cama fomos embora.
Fomos embora Cansados & Felizes, pois sendo do
mal fomos do bem e, na boa, acho que fomos além do bem
e do mal.

A Madame, Os Poodles, A Cegueira & O Castigo -


(ataque vinte e seis)

O problema da burguesia não é o fedor. O problema


da burguesia nem é a ânsia de riqueza. O que irrita na
burguesia é a ostentação. O que me trinca o saco é que
mesmo com a miséria que é suas vidas, iludem-se que são
superiores e o pior, não desperdiçam uma única
oportunidade de exercitar essa ilusão de superioridade. Essa
semana a dança do acaso me colocou diante duma situação
dessas. Estava trabalhando, numas carreiras pra entregar
uns documentos, almoçar e voltar pro trampo, pelas bandas
do Batel. Então cruzei com uma mendiga. Odeio rótulos,

154
Manual Prático da Delinquência Juvenil

chama-la de mendiga é matar a descrição. Era uma senhora


com três crianças, todas com menos de cinco anos, uma no
colo, uma que recém aprendeu a falar que alcançava as
coisas e a maiorzinha espertinha, que ajudava a mãe a catar
lixo.
Eram três menininhas e as três choravam. A iniciante
na linguagem não tinha como esconder a sinceridade!
- Eu tô com fome!
Tive que reduzir o passo com aquilo tudo e então
acabei vendo o que preferiria não ter visto. Vi sair pelo
portão a dona da casa, madame padrão, a descrição dela
deve ser o que aparece no Aurélio quando se procura por
isso, com dois quilos de cosméticos e não-sei-que-lás no
rosto e dois poodles. Odeio poodles. Nada contra animais.
Admiro todos que defendem os direitos dos animais e todo
mais, mas odeio poodles. Com as crianças chorando e meio
que sem saber o que fazer a senhora perguntou se a
madame tinha alguma moeda.
- A senhora tem alguma prata pra me ajudar minha
senhora?
Então a madame faz o infazível, ignora a mãe de três
filhos e segue com seus poodles. Ignorou por completo. A
mamãe olhou pra mim e sei lá se foi o fato de eu ter parado
quando vi aquilo ou não, o que sei dizer é que ela teve um
acesso de indignação, correu até a frente da madame e
perguntou:
- Ôu! Eu estou aqui?! Não está me vendo não?
E não é que filha da puta continuou com sua cegueira? Nem
os poodles deram bola. Aquilo me emputeçeu de uma
maneira que nem que eu contasse até mil conseguiria me
conformar. Intimei ela.
- A senhor está precisando de alguma coisa?
- Olha moço, o que o senhor puder ajudar...
Só tinha um ticket-refeição pra almoçar no centro,
um vale-transporte e uns centavinhos que não fariam a
menor diferença. Foda-se o almoço, apresentei o ticket. Foi

155
Manual Prático da Delinquência Juvenil

massa. Deu pra ver o brilho nos olhos dela.


- Muito obrigado, seu moço! Deus te abençoe! O senhor não
sabe como é difícil. Tá vendo essa rua toda? Os lixos tão
tudo cadeados.
Na mão ela tinha uma sacolinha de supermercado
com alguns restos de comida.
- O que a senhora tem aí?
- Frango assado. Tava tudo aí no lixo da casa dessa senhora
dos cachorros. O resto dos lixos tavam todos chaveados.
Peguei aqueles restos de frango e depois de esperar
a senhora ir embora almoçar com suas crianças olhei pra
casa da madame dos poodles. Tinha uma janela aberta do
lado esquerdo. Analisei a distância e concluí que era
possível. Peguei cocha por cocha, osso por osso dos restos
de frango e mandei ver na janela. Já estava terminando
quando ouvi alguém gritar no outro lado da rua e tive que
saír correndo.
Não consegui engolir essa história direito. À noite
contei pros piás na kitnete e não teve um que não ficasse
revoltado. Vinicius se exaltava em sua fúria.
- Cara, precisamos matar essa velha!
- Uma morte lenta e dolorosa...
- É! Fazer picadinho de seus cachorros e fazê-la comer tudo,
matar a lazarenta de overdose de poodles. Jean foi o único a
ficar quieto, com um estranho brilho no olhar.
- Já sei o que fazer.
- O quê, seu monstro?
- Vamos invadir a casa daquela filha de uma puta.
- Invadir? Mas é uma mansão brô, deve ter quinhentos tipos
de alarmes e proteções.
- Calma! Nós não precisamos fazer as coisas na louca, de
qualquer jeito.
- E o que Vossa Delinqüência sugere?

156
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- A gente pega nossos uniformes de gari e finge estar


trabalhando no quarteirão da casa pra analisar com calma
todas as possibilidades de entrar lá.
Uma excelente idéia. Cada vez mais me convenço de
que aqueles uniformes com logotipo da Prefeitura Municipal
de Curitiba foram uma grande sacada. Os desempregados
Fábio, Vinícius & Sérgio foram convocados para a missão,
durante a semana à tarde. Quarta-feira eu estava nas
masmorras de meu trabalho quando Fábio me liga
entusiasmado.
- Ari do céu! Você não bota fé!!
- O que sua bixa?
- A velha tem uma empregada muito gostosa.
- Tá, mas e daí?
- Daí que Sérgio escreveu uns hai-kais apaixonados,
entreguei a ela quando estava indo na padaria buscar o café
da tarde pra patroa e ganhei a gata.
- Ganhou a gata??
- Só! Vamos sair tomar umas beras hoje à noite.
Não podia ser mais perfeito. Fábio descolou
informações importantíssimas. A velha é viuva, tomas uma
boletas pra dormir e desmaia na cama e nenhuma
empregada agüentou trabalhar lá por mais de seis meses,
tamanha a Mesquinhez & Arrogância da patroa. Saí do
trampo na quarta crente que faríamos a invasão de noite.
Fabro porém, pediu mais um dia para os preparativos & as
investigações.
- Milene me falou que amanhã à tarde a patroa vai sair e me
convidou para ir até lá.
- Dentro da casa? Sério?
- Bem isso mesmo, se pedíssemos a deus e fossemos
atendidos não seria tão perfeito.
Traçamos então o mais perfeito plano de invasão de
nossas carreira. Pelo menos era o que achávamos. Não que

157
Manual Prático da Delinquência Juvenil

tivéssemos grandes facilidades, afinal todas as janelas e


portas tinham grades, mas pelo menos tínhamos um
“mapa” do território, sabíamos que não tinha alarme e
ainda contaríamos com as instruções de Fábio, o
especialista mor em definição de alvos.
Esperamos a meia noite e saímos a pé e em silêncio:
Momentos de Concentração. Jogamos todo o material que
utilizaríamos na mochila que Vini levava nas costas e
seguimos Firmes & Confiantes. Sabíamos que a tarefa não
seria nada fácil. O muro que tínhamos que pular ficava
numa avenida movimentadíssima, mesmo de madrugada, e
tivemos que nos separar uma quadra antes. Foi um por vez
pular o muro, uma coisa estressante pra quem fica por
último, como foi o meu caso. Saber que as possibilidades de
alguém se ligar na parada depois de quatro neguinhos
pularem o mesmo muro são altas é foda. Quando saltei vi
que se tratava do quintal do único estabelecimento
comercial do quarteirão. E era pequeno e era apenas o
interlúdio entre dois grandes problemas.
O primeiro grande problema era atravessar o quintal
da casa vizinha. Tudo iluminado, não tinha cachorros, mas a
luz era muito forte mesmo. Sujo pra cacete. Colocamos
nossas “tocas zapatistas” que guardamos desde a noite dos
poemas nas vidraças e fomos um por vez de novo. Dessa
vez fui o primeiro. Fui também o primeiro a encarar o jardim
da megera.
Era bonitinho. Mas certamente ordinário. Eu sei que é
foda, mas a culpa foi dela e naquele momento a velha era a
encarnação do mal. Tínhamos que sacaneá-la. Os piás
chegaram logo e Fábio foi logo dando os toques.
- Tão vendo aquele pé de manga ali? Temos que subir nele e
saltar em cima do telhado.
Era o grande problema número dois. O único modo
de entrar na casa era pelo telhado. Segundo Fábio tinha
uma banheiro nos fundo, próximo do quarto da velha que
tinha um alçapão que dava acesso ao sótão. Subir a árvore
e saltar no telhado foi fácil, emprenho foi soltar as telhas pra
entrar. Elas estavam muito bem presas e Jean, depois de

158
Manual Prático da Delinquência Juvenil

demorar a chegar devido a uma misteriosa frase que


escreveu com óleo queimado na grama, teve que arrancar
um galho da árvore para alavancá-as. Como era de se
esperar o sótão tava escuro pra cacete.
Quando acendemos a lanterna notamos que o finado
marido era fã do Reader´s Digest, caixas e mais caixas da
revista, mofadas e em estado de decomposição. O tampão
de madeira foi fácil de abrir. Fábio então nos olhou com uma
expressão grave.
- Piazada, agora é o momento mais importante. Vocês ficam
aqui, eu vou primeiro e checo se as portas dos quartos delas
estão fechadas. Se não tiverem tenho que fechar. Depois eu
fecho a porta que tem na entrada do corredor dos quartos,
se conseguir isso nenhuma das duas vai ouvir os barulhos,
se fizermos algum. Aí eu volto e dou o toque pra vocês
descerem e lembrem-se: tem dois cachorros no quarto da
bruxa, nada de barulho!
Desceu e ficamos no aguardo. Não sei se o tempo se
dilata nestas circunstâncias, mas a verdade é que passaram
dois séculos até que ele voltasse.
- Foi foda, a porta rangia e levei dez minutos pra fechar
cada uma, agora desçam
Com todo o cuidado do Universo descemos e cada
um tratou de pegar seu material de ataque. Jean estava
morrendo de curiosidade de conhecer a despensa, geladeira
e descobrir se tinha alguma adega. Vinícius foi no armário
onde estavam as comidas dos poodles e encheu as sacolas
de bilhetes com frases chupadas dos comentários de
Rogério Coacho no blog dos Delinquentes: “Seus cachorros
comem enquanto irmãos passam fome”. "Esta comida foi
desenvolvida para cachorros de todas as raças mas os
donos que pensam como Hitler podem consumir sem
contra-indicações". "Se não souber ler pergunte a sua
arrogante dona". "Coma tudo crianças. Para não sobrar nada
aos mendigos que reviram a lixeira". "Esta ração deixa o
pêlo macio e o latido mais forte contra os pobres de sua
rua."
Fábio ficou de butuca na porta do corredor pra ver se

159
Manual Prático da Delinquência Juvenil

alguma das duas acordava e emitindo constantes pssssius.


Eu e Sérgio nos encarregamos do resto. Sérgio colou
bigodes e chifres adesivos nos retratos da parede. As
paredes era de um azul de tonalidade forte e me desatamos
a escrever frases com giz. “Os Mendigos Invisíveis Estiveram
Aqui”. “A senhora foi selecionada pra pagar os pecados da
burguesia”. “Tome cuidado com os Mendigos Invisíveis”.
“Dinheiro não pode comprar felicidade, mas pobreza não
pode comprar nada”. Vinícius acabou primeiro, se juntou a
nós e ficamos esperando Jean. Depois de alguns minutos ele
apareceu carregando sacolas.
- Vinho, muitos vinhos e queijos, muitos queijos. Teremos
festa na saída.
- Maaaassa!
- Calem a boca seus merdas! – Fábio era o mais
visivelmente estressado.
Pediu pra darmos um tempo, abriu a porta do
corredor e foi escrever com giz na parede diante da porta do
quarto da velha: “Não abra seus olhos Dona Jassira, a
senhora não ira gostar do que vai ver”. Imediatamente
tratamos de sair fora, foi bem mais difícil subir de volta no
sótão. Encaixamos as telhas de Mal & Porcamente saímos
em fuga desesperada. Não sei porque, mas na hora de fugir
a adrenalina sempre dispara. Nessas hora mal se consegue
pensar, atravessamos todos juntos o quintal vizinho
iluminado e em segundo estávamos na rua, gargalhando de
nervosismo.
Corremos até uma praça próxima e quando nos
jogamos na grama desatamos a rir.
- Cara! Imagina a cara da bruxa quando ver aquilo...
- Foda! Muito foda!!!
Abrimos os vinhos provavelmente caríssimos e
devoramos os queijos. Já estava bêbado quando me liguei
que nem tínhamos visto o que Jean escreveu com óleo
queimado na grama.
- Fala cara, o que era?

160
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- “A senhora não entendeu, mas isso é maravilhoso”.


Quem passasse na rua ao longe provavelmente veria
umas das mais loucas cenas desta metrópole, cinco malucos
fazendo um pique-nique etílico nos confins da noite.
Realmente, isso é maravilhoso.

Os Anjos Delinquentes do Bem & Seus Poemas


Proibidos - (ataque vinte e sete)

Dizem que no Oriente os caras misturam poesia com


música e que o efeito é uma verdadeira catarse coletiva.
Aqui no Maravilhoso & Moderno & Civilizado Mundo
Ocidental a poesia não tem essas regalias. Salvo gloriosas
exceções tipo o hip-hop, o pancadão carioca, e os
repentistas do sertão, poesia aqui nestes pagos é
considerada um troco chato pra caralho. Coisa de
acadêmico afetado, na maioria das vezes. Desde o dia em
que distribuímos poemas com estilingues que esquentamos
nossas cabeças a procura de novas soluções. Sábado fui
obrigado a trabalhar o dia inteiro, e em meio ao tédio e o
marasmo recebi a ligação de um Sérgio Augusto animado,
quase eufórico.
- Ari! pintei uns cartões e escrevi uns poemas que ficaram
tão legais não podemos deixar parados aqui na kitnete.
- Não da pra distribuir cartões com estilingue.
- Tô ligado, tava pensando em outra coisa.
- Que coisa seu Monstro?
- Invadir casas, meu velho Ari, invadir casas.
- Você? O Rei dos Cagões falando isso? De onde saiu essa
sua macheza toda?
- Vai te fuder! O que eu queria era que esses cartões se
transformasse em Misteriosas & Enigmáticas surpresas.
- Explica melhor.
- Não, vem aqui na kit que eu te explico melhor.

161
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O cara tava animado mesmo, cheguei lá e o cara


tava numas de fazer as invasões naquela mesma noite. Jean
& Fábio de mau, só colocavam defeitos em tudo.
- Tá, mas fala de uma vez do que se trata, o que tu quer
fazer com esses cartões.
- Agente entra nas casas e abandona os cartões em lugares
estratégicos tipo no meio de um livro, no bolso de uma
roupa ou numa gaveta.
- A gente entra nas casas... olha a do cara, até parece que e
façinho assim, melzinho na chupeta, a gente entra, deixa lá
e pronto. Se, liga veio!
- Não vai ser a primeira vez...
- Tá, mas a gente tinha um método, tínhamos uma
engenharia toda por trás.
Caímos todos na gargalhada e Sérgio acabou ficando
meio invocado, disse que ele definiria os alvos e ele mesmo,
bolaria todo o roteiro do ataque.
- Cara decidido!
- Olha que isso e raro entre poetas, hein?
Não deu nega, o cara sumiu o domingo inteiro. Voltou
com um Mapinha Mandrake em mãos. - Aqui esta! Tenho
cartões pra quatro casas e escolhi seis, uma margem de
erro de duas casas para o caso de pintar sujeira.
Analisamos cuidadosamente seu plano e chegamos à
conclusão que sim, era possível. O monstro Viajão
finalmente estava ficando metódico. Apesar de termos
criticado sua idéia a principio, estávamos todos doidinhos
pra fazer mais invasões. Fora a eficiência e poesia ilegal da
ação a adrenalina e altamente recompensadora. Preparei
uns papéis adesivos com Mensagens Discordianas copiadas
do blog do Fong pra colar nas paredes.
Marcamos a parada pra segunda-feira à noite. O
bairro que o monstro escolheu? Alto Boqueirão. "Voarei por
toda a periferia". E tava uma noite nojenta: Fria, Nublada &
com Vento. Fábio catou a última garrafa de vinho que tinha

162
Manual Prático da Delinquência Juvenil

sobrado do último ataque e fomos bebendo aquela coisa


caríssima pra aquecer os ânimos e por que não dizer?
Criarmos um pouco mais de coragem.
O bairro era uma escuridão só. Esse tão alardeado
urbanismo curitibano é uma tremenda fraude.
Consiste apenas em esconder o que não deve ser
visto. Fora o apartheid social violento que ele gera, mas
esse é um assunto revoltante demais pra ser falado aqui. A
questão é que nesse caso o descaso da Prefeitura Municipal
de Curitiba nos foi útil. Sérgio era o maestro da vez.
- Pra termos acesso a primeira casa precisamos ir por aqui.
O cara estava orgulhoso de si, depois de troçentos
ataques ele, O Mais Bundão, estava se sentindo um
verdadeiro delinqüente: Ousado & Abusado.
Era um matagal do caralho cheio de Pega-pegas e
Amores-de-sogra. Nada de lanternas, fomos no escuro
mesmo pra minimizar as chances de sermos descobertos.
- Cara! Não tinha um caminho mais fácil?
- Não, tem que ser por aqui mesmo.
O matagal terminava numa cerca de madeira toda
podre e dava num quintal cheio de tralhas e ervas daninhas.
Pulamos todos e cada um tratou de encontrar um modo de
entrar na casa. Alguns minutos depois Vinícius veio
animado.
- Vocês não vão botar fé, mas a porta da cozinha está
aberta.
É incrível como as pessoas fecham todas as portas
da frente e se descuidam com as dos fundos. Como estava
sendo perigosamente fácil, pedi aos outros que esperassem
e entrei com Sérgio pra depositar os "presentes" nos locais
apropriados.
Como eu já imaginava a casa não tinha nenhuma
estante com nenhum livro que pudéssemos colocar no meio.
Sérgio ficou analisando a sala e a cozinha enquanto fui dar
uma geral no resto. Duas crianças dormiam candidamente

163
Manual Prático da Delinquência Juvenil

com a porta do quarto aberta enquanto o que parecia ser o


quarto do casal tinha sua porta fechada. Peguei um cartão
colorido e depositei dentro da sandália da menininha. Sérgio
colocou um cartão estilosamente em meio as flores do vaso
da sala e um pregado na geladeira, junto aos imãs bregas
que elas costumam ter. Por último colei minha Mensagem
Discordiana na parede:
“Seja cauteloso com a bebida, ela pode te levar a atirar em
políticos – e ERRAR.”
Em tempo recorde saímos fora com a primeira
missão cumprida. A segunda casa foi bem mais foda, não
tinha nenhuma porta de cozinha aberta. Mas tinha uma
janela com possibilidades de arrombamento. Tudo o que
precisávamos era de algo fino e comprido pra soltarmos o
trinco.
O gambiarreiro Jean se dispôs a dar um jeito. Voltou
até o quintal das tralhas e depois de longos minutos
apareceu com uma varetinha de metal, e deu inicio as
exaustivas tentativas. Tentou, tentou & tentou e passou a
bola pro Fábio. Fábio também fracassou e depois de mais de
meia hora tentando passou a missão pro Vini.
Vinicius bancou o ignorante e começou a dar
pequenas batidas no trinco até que o pior aconteceu. A
janela abriu mas a vareta caiu fazendo barulho. Todo mundo
gelou. A macheza do Sérgio evaporou-se.
- Vamos embora galera! Vamos embora!
- Calma! Relaxa! Vamos ficar ouvindo.
Passaram-se longos minutos de tensão. Nenhum
ruído. Aparentemente ninguém se ligou. Dessa vez foi
Sergio & Vinicius, o homem que abriu a janela. Tinha gente
pra caralho dormindo lá e também tinha uma estante com
meia dúzia de livros, mas como provavelmente nenhum
daqueles livros eram abertos a séculos escolheram outros
lugares.
Num quarto tinha uma vovó dormindo e roncando.
Ela merece, ganhou um lindo cartão.No meio de uma lista
telefônica e outro glamourozamente pendurado numa

164
Manual Prático da Delinquência Juvenil

iluminária. Minha mensagem: “Aquilo que não é proibido é


obrigatório”, ficou pregada na parede do banheiro.
Já estávamos impacientes quando os guris voltaram.
Estavam estressados pra caralho por causa da lotação da
casa.
- Vamos andando, rápido!
As próximas casas ficavam a alguns quarteirões
distância e eram todas de madeira, bem simples. Sérgio
confessou que estava nervoso demais e passou os cartões
pra gente fazer o serviço. E não era fácil, a maioria das csas
tinha cães e faziam uma zoada dos diabos. Depois de várias
vistorias escolhemos uma verde. A porta era fechada por
uma tramela, com um canivete Jean conseguiu abri-la
facilmente. Já estávamos dentro quando nos damos por
conta que num dos quartos tinha uma televisão ligada. Será
que estavam acordados? Será que não? Antes que
descobríssemos jogamos um cartão de qualquer jeito
mesmo, em cima da mesa. Colei minha mensagem e
tratamos de dar o fora dali logo. A Mensagem Discordiana
da vez: “Dificuldades são como criança, elas só crescem se
você as alimenta”. Na hora de fechar a porta a filha da puta
rangeu muito mais alto do que ousávamos imaginar que
uma porta pudesse ranger. Um grito assombroso veio do
quarto da TV - Quem caralho que ta aí???
Os estrondos de passos pesados vindos do quarto foi
a última coisa que ouvimos. Saímos correndo
desenfreadamente até onde estava Sergio.
- O que foi? O que foi?
- Sujou! Sujou! Fuja lôcooooooo!!!
A merda é que tinham dois carros passando na rua,
seria sujo se ele visse um bando de maloqueiro correndo
pela riua em plena madrugada. Olhamos pros lados em total
desespero, o dono da casa chegou na porta, acendeu a luz e
nos viu. Puta que o pariu! Ele nos viu!! Jean deu um berro:
- Por ali, cara! Por ali!!!
Um córrego fedido era a única opção de fuga. Fui o

165
Manual Prático da Delinquência Juvenil

primeiro a me jogar no esgoto e chafurdar na lama podre.


Cara, o desespero foi grande. Estávamos nos achando muito
românticos distribuindo poemas daquela maneira e não
esperávamos por aquela reação. E não foi só aquilo, não. Eu
não tinha dado nem dez passos quando ouvi um tiro.
Caralho! O cara estava estava armado e estava correndo
atrás, parecia disposto a nos perseguir no córrego mesmo.
Na hora que ele deu o segundo tiro nós praticamente
voávamos dentro do córrego, eu particularmente não senti a
água nem o mau cheiro, era o mais puro instinto de
sobrevivência em ação. Nem olhava pra trás, nem sabia se
estavam todos bem.
Então todos os deuses do Universo fizeram uma força
tarefa pra nos ajudar e construíram um bueiro de esgoto na
lateral esquerda do córrego e me enfiei dentro chamando os
outros. Mais tiros & mais tiros, o Alto Boqueirão em sua
noite Bagdá. Felizmente todos conseguiram se enfiar ali.
Rastejamos uns dez metros pra dentro daquele cano contra
a correnteza. Eu estava sem fôlego, sou capaz de dizer que
ontem devo comido merda, muito provavelmente. Quando o
breu era total paramos pra descansar. Ficamos horas ali
dentro, perdemos a noção de tempo. Sérgio, o maestro do
ataque ficou desconsolado.
- Pô, que foda, que foda, que foda!!!
Quando nossos narizes recuperar a sensibilidade e
caímos na real de onde estávamos saímos fora. Cagaço
total. Nos embrenhamos por entre os arbustos e só
respiramos sossegados quando já estávamos a quilômetros
do local do crime.
Foi o maior susto da nossa carreira na Delinqüência,
mas tem males que vem pra bem (ou vem de trem, como
dizem os pessimistas) e Sérgio fez um belo verso/resenho.
- Toda poesia merece um tiro, nem que seja um dia.
Legal, recuperou nosso humor e até damos umas
risadas imaginando que o cara da arma não entendeu bosta
nenhuma de nossos objetivos. Mas como ficou escrito com
óleo queimado na grama da velha burguesa: “Embora você
não tenha entendido nada, isso tudo é maravilhoso.

166
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Não Contavam Com os Delinqüentes - (ataque vinte e


oito)

Uma das coisas mais escrotas desse capitalismo


agonizante de hoje são as fábricas montadas nos trópicos
pra aproveitar a mão-de-obra barata. Não bastasse isso
ainda tem a isenção de impostos e mais uma caralhada de
benefícios. A podridão impera nas entranhas dessa
instituição do mal. Aqui em Curitiba temos a presença
maligna da Renault. Fábio conhece um cara lá em Colombo
que trampa na Renault e conta historias terríveis de caras
que passam o dia inteiro enroscando o mesmo parafuso, e
de três ou quatro dedos por semana que abandonam as
mãos de seus donos.
Uma autêntica Central de Escravidão Voluntária.
Ao invés dos caras de chicote acoitando os escravos
como no século passado, temos os robôs e as centrais
automatizadas impondo o ritmo da produção. Chibatadas
com relho de veludo, sutilezas de uma civilização doente.
Enquanto estava me recuperando da caganeira
alienígena que peguei discutimos muito no hospital sobre a
merda que é o trabalho. Com a intoxicação fui
automaticamente “obrigado” a não trabalhar. Quando as
bactérias alienígenas abandonassem meu corpo seria um
fudido, mané, cuzão e otário novamente. O assunto da
montadora acabou surgindo e o velho vício de planejar
alguma ação também.
- É Ari, da pra aproveitar esse tempo amarrado nessa cama
pra bolar coisas. Começamos a pensar em algumas
sacanagens que pudéssemos aprontar com aqueles
franceses filhos de uma puta, files de le pute ou sei lá como
é que é em Francês. Citei a idéia do Anarqu3a da catapulta
de merda. Vinícius se entusiasmou no ato.
- Cara, essa idéia é muito massa! Só faltava mesmo um
alvo.
- Mas que alvo? A fábrica da Renault? - Fábio estava meio

167
Manual Prático da Delinquência Juvenil

desconfiado.
- Claro! Enchemos aquele estacionamento de merda!
Confesso que fiquei meio enjoado com a idéia a principio. É
cair na merda na noite do banco, é comer merda na noite
dos cartões, é foda mesmo, minha vida anda uma bosta
ultimamente. Mas acabei concordando, o plano não era
ruim. Sérgio deu uma incrementada.
- A gente manda umas mensagens pelo correio antes,
alertando eles para algo, mas sem deixar claro o que é.
- Ah, mas tem que descobrir a lista com o nome dos
figurões.
- Fábio! Fala com teu amigo.
- Só! Vou ver o que eu consigo...
Fábio falou com ele, mas o cara demostrou-se meio
cabreiro. Tem uma porrada de carros naquele
estacionamento, mas também tem uma segurança que não
é tonga nem nada. O cidadão acabou nos convencendo a
mudar o plano.
Discutimos muito o assunto na seqüência e
chegamos à conclusão de que jogar merda diretamente na
fábrica poderia ser uma literal cagada. Podiam aparecer os
jornalistas e tchauzinho pra nossa invisibilidade. Optamos
por um meio termo. A Autovesa de São José dos Pinhais,
cidade vizinha a Curitiba. Tem uma parada igual no Barigüi,
mas a de Pinhais é bem mais limpeza.
Com a garantia que não cutucaríamos a
multinacional com vara curta, o amigo de Fábio acabou
desenrolando os nomes pra gente. Sérgio se encarregou das
mensagens. Escreveu umas coisas assim:
“Para Fulano De Tal, tendo em vista um alerta dado pelas
pessoas, pelos bilhões de pessoas deste planeta esqueçido,
mandamos esta mensagem. De tanto cagar fora do penico o
quarto pode ficar fedendo. Ass: .........................”
Nada de viajar um monte e mandar um monte de
cartas diferentes pra um monte de gente. A mesma
mensagem pra todo mundo, pra fixar bem a bagaça. Saca

168
Manual Prático da Delinquência Juvenil

só, uma mensagem dessas na torre de controle e chove


merda na pista mais tarde. Terrorismo painho, terrorismo
mesmo.
Montar a catapulta foi um buraco muitíssimo mais
em baixo. O mestre das gambiarras Jean não conseguiu
pensar em nada prático. Só que o universo saca de nossa
jornada pelo Reino da Mediocridade e pelo Império da Apatia
e nos deu uma forçinha. Essa forçinha manifestou-se com
um nome de Josimar, popular Marmita, irmão da Milene
namorada do Fábio. Êita descrição comprida, sô.
O cara é uma figura. A família deles veio do interior
de Minas e o cara é uma figura e não tem outro jeito de
descreve-lo. Baixinho, cheio dos agás e vejam só, muito
mais gambiarreiro que o Jean. Trabalha em gráficas
consertando maquinas de off-set e vive socado em oficinas
de automóveis ou então fazendo bicos de eletricista e
outras coisas. Em resumo, um cara desenrolado em
trabalhos manuais.
Na divertidíssima noite em que Milene o levou na kit
apresentamos nosso problema e o cara desenrolou.
- Conheço uns dois ou três caras que tem ferro-velho e esse
negócio aí, como é o nome?
- Catapulta.
- Pois então, é fácil de fazer.
Só que de mane ele só tem a cara e o jeitinho de andar.
- Agora me diz uma coisa. Pro que é que vocês querem um
troço doido desses?
Não teve jeito, tivemos que contar tudo. Milene é
claro que estava junto, mas não contamos que fomos nós
que invadimos a casa da madame patroa dela. Deixamos a
eles a facílima tarefa de ligar os pontos. A construção de
nossa Arma de Cagação em Massa finalmente saiu do papel.
Cara, a aparência final do aparelho foi o troço mais Mad Max
que já vi em minha vida, e funcionou espetacularmente em
todos os testes.
Com tudo em cima tratamos de conseguir as fezes

169
Manual Prático da Delinquência Juvenil

em questão. Na Fazenda Rio Grande de novo, dessa vez sem


chuva e com experiência. Delinqüentes Veteranos, tá
ligado? Marcamos a palhaçada pra uma quintafeira à noite.
Uma noite antes do ataque fizemos uma coisa
escrota. Passamos três os dias sem defecar e combinamos
de evacuar coletivamente na frente da concessionária como
forma de aviso, tipo jogar limpo, dar uma chance a vitima,
não atirar por trás.
Marmita além de gambiarreiro é um cara de pau
pragmático. Nos fez desencanar de conseguir alguém de
carro pra levar a catapulta e nos convenceu a levar a
lazarenta desmontada de ônibus, com tudo mocado em
mochilas.O foda foi carregar a merda. Colocamos tudo
naqueles sacolões pretos de lixo com cinco camadas. Cinco
sacos um dentro do outro. Foram três pacotes e apesar de
nossas várias camadas, o cheiro acabou vazando. Por fora
das sacolas colocamos umas das Lojas Americanas e todo
mundo no latão olhava desconfiado pra gente pensando que
diabos tínhamos comprado nas Lojas Americanas que fedia
tanto.
Todos fazíamos caras de indiferentes, não lembro de
nunca ter sido tão foda conter uma risada antes em minha
vida. Era Marmita quem estava com os sacolões ao seu
lado, o cara fazia caras muito engraçadas toda vez que
alguém o observava de canto de olho ou então abanava o
nariz. Quando descemos do ônibus ríamos feito uns doentes
a ponto de se jogar no chão, tamanha a dor na barriga.
Nenhum gás hilariante seria tão eficiente quanto aquele
transporte de cocô num coletivo.
Demos muitas risadas com as palhaçadas do
Marmita, mas quando chegamos nas proximidades do alvo o
carinha ficou serio. É incrível, mas parece que tem pessoas
que nasceram pra delinqüência. Marmita é um desses, se
sentiu mais em casa que alguns de nós.
Entretidos com as dificuldades da montagem da
catapulta acabamos ignorando por completo a análise
anterior do alvo. Um erro de principiante eu sei, mas o que
será de nos quando nos sentirmos maduros?

170
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Apodreceremos, provavelmente.
Tivemos que parar uma quadra antes e analisar
friamente a situação. Acabou que temos mais sorte do que
juízo. No outro lado da rua tinha uma casa de madeira
desocupada, com muro baixo e tudo. A gurizada ficou
montando o equipamento enquanto eu e Sérgio bancamos
os sentinelas.
Era de madrugada, a rua estava deserta, mas se
alguma alma passasse por ali e olhasse pro terreno da casa
desocupada ia pensar que se tratava de alguma geringonça
criada pelo Coiote para pegar o Papa Léguas.
Jean & Vinius ficavam abastecendo a catapulta com
munição enquanto Marmita caprichava na pontaria, eu e os
outro observávamos tudo ao lado da grade da
concessionária.
Foi um espetáculo. Mais um daqueles momentos
únicos nas nossas vidas, que afinal de contas por serem
tantos, já nem sei dizer se são tão únicos assim. Aquela
merda toda voando pelo céu e caindo em cima de todos
aqueles carros novinhos e inalcansáveis foi um troço de
lavar a alma. Isto não é uma metáfora: Aqueles
excrementos que choveram sobre os carros é os preços que
eles custam.
Milhares de coisas passaram pela minha cabeça
enquanto eu assistia aquele bombardeio. As milhares de
vidas perdidas em acidentes, os danos ao meio ambiente, o
arruinamento estético das grandes cidades, os falsos
desejos plantados pela publicidade na Imaginação Coletiva.
E mais uma lista interminável de malefícios. Vingamos tudo
isso. Pode ser que poucos entendessem nossa mensagem,
mas nós e esses poucos já está louco de bom. É o bastante
nesta ingrata-mas-nem-tanto guerra no Reina da
Mediocridade & da Apatia. Meus devaneios foram
interrompidos pelas sirenes do alarme da concessionária. Ou
o vigia não era um bom profissional e provavelmente
merece cada centavo que ganha ou os filhos de uma égua
tem alarme de invasão de pátio adaptado pra detectar
fezes. Não sei, o que sei é que a porra do alarme era uma

171
Manual Prático da Delinquência Juvenil

sirene ensurdecedora que deixou tos em pânico


Ignoramos todas as regras de invisibilidade e
corremos todos em auxilio a Marmita e sua Maravilhosa
Maquina Lançadora de Merda. O cara ainda por cima tava
numa calma inexplicável.
- Calma, galera! O vigia não vai atirar e a policia não pode
chegar aqui por tele-transporte.
Não damos ouvido. Abandonamos ali a munição que
restava, catamos a catapulta montada mesmo em três e
saímos correndo de qualquer jeito. Os delinqüentes mais
desajeitados da historia da humanidade. Se o bicho-do-
corre-feio aparecesse nos prenderia também.
Paramos pra descansar uns quinze quarteirões
depois. Estávamos exaustos, mas nos cagávamos rindo. De
nós mesmos e do naipe de nossa ação.
As Megacorporacoes Transnacionais, em sua ânsia
neoliberal realmente abriram novos mercados e obtiveram
alguns lucros fabulosos.
Mas cometeram um erro grave
Não contaram com os Delinqüentes.

O Nonsense, Meu Nego, No Combate Ao Desemprego


- (ataque vinte e nove)

Era uma vez num programa de entrevistas... Era da


Bruna Lombardi? Não lembro... O Maguila, ao ser
questionado sobre o que fazia antes de lutar boxe,
respondeu que trabalhava como pedreiro. Pra complementar
e salientar que não tinha vergonha do seu passado, nosso
herói soltou essa pérola.
- O trabalho danifica o homem.
Desde então esta frase ficou estampada na minha
mente como uma Profunda Verdade Universal. O trabalho
mata a criatividade humana e cria milhões de
esquizofrênicos em todo o planeta. Discutíamos isso no

172
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Hospital Evangélico na noite anterior à minha alta e ao meu


fatal retorno ao trabalho. Jean discursava sobre a
esquizofrenia do homem moderno.
- Saca só, você tem uma montoeira de problemas
particulares. De repente você está vivendo um inferno
amoroso e no trabalho tem que sorrir a todos os superiores.
A gente pode estar numa pior, deprimido e desanimado pra
caralho, mas sua produtividade não pode diminuir.
- Se diminuir: pé na bunda!
- Sacaram que somos obrigados a desenvolver duas
personalidades?
- Só! As vezes até mais.
- E o que me deixa puto é que essa psicopatia é o padrão
normal de conduta. Se um caradura invocar de não dividir
sua vida em duas partes será ele o louco e o desajeitado.
Aproveitei a oportunidade pra falar de umas viagens
que tive em meio a meus delírios de febre.
- Isso sem contar com falta de sentido cada vez maior nos
trampos que restam.
Não sou um grande teórico, nunca freqüentei
nenhma academia e a intelectualidade me dá náuseas, mas
gosto de arriscar uns palpites e tentar entender, do meu
jeito, como as coisas funcionam.
- O capitalismo, pra medir o valor das coisas sempre se
baseou no tempo de trabalho gasto na criação das
mercadorias.
- Pelas barbas de Karl Marx! A onde que você quer chegar?
- Acontece que hoje o tempo gasto e zero por conta das
automatização e o valor das coisas tornou-se abstrato.
- Continue professor.
A gurizada reunida só sabe mesmo é avacalhar.
Tiram onda de tudo feito uns retardados. E na hora de trocar
idéias, um sempre discorda do outro, unicamente por
esporte. Mas continuei, sem nem saber ao certo como

173
Manual Prático da Delinquência Juvenil

expressar minha idéia .


- Só que tem uma contradição gritante nessa parada toda. A
tecnologia dispensa os trabalhadores e sem compradores a
máquina não roda. É preciso mercados, muitos mercados,
daí privatizarem tudo. Não duvido que ainda vão inventar
trabalhos sem sentido só pro capital continuar circulando e
o sistema se manter.
- Ari, confesso que isso tá confuso pra caralho.
- E, você esta andando em círculos sem chegar em ponto
algum, ainda bem que você não é professor de nada.
“Felizes são aqueles que andam em círculos, pois serão
conhecidos como rodas.”
Resolvi partir direto pros finalmentes e deixar as
teorias mal interpretadas e os conceitos distorcidos de lado.
- Bom galera, durante um delírio de febre vislumbrei um
Movimento do Trabalho sem Sentido, alguma coisa do tipo
MTS ao invés de MST.
- O que significa isso Ari?
- A gente pode plagiar as cores e a bandeira do MST pro
negocio ficar ainda mais palhaço e criar mesmo o
movimento.
- Mas que caralho! Que movimento?
- Por alguns trocados, oferecer vagas pra uns trampos
totalmente nonsenses.
- Tá vamos virar empresários, empregadores agora...
- É Ari, o Fábio tem razão. E a grana? E o cacife?
- Calma cambada de pessimistas. Não é um mês de trabalho
com carteira assinada seus tongos! São bicos. Bicos
Nonsenses & Cia Ltda.
- Explica melhor, dischava, desmurruga esse bagulho.
- Por exemplo, por cinco pilas contratamos pra cavar um
buraco e depois tapá-lo. E depois um outro cava e tapa mais
um buraco mais lado e por ai vai.

174
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Que coisa mais ridícula e absurda.


Tenho que admitir que os caras não aceitaram a
coisa de imediato. Literalmente trata-se de algo saído de
uma mente delirante. Por fim a bizarrice da idéia acabou
seduzindo o povo. O problema eram os tais cinco pilas pra
pagar os “salários.” Passou-se uma semana até que sobre a
cabeça de Vinícius que aquela famosa lampadazinha
acendeu-se.
- Cara! lembra as idéias daquele doido do Rogério Coaxo do
blog dos delinqüentes?
- Só!
- Pois então, aplicamos aquele migue do sobrinho do
interfone pra conseguirmos a bufunfa pro MTS do Ari!
O caso foi de um típico meme, pulando de cérebro
em cérebro, Mutando-se & Replicando-se sem nenhuma
interferência nossa. Jean & Fábio surgiram também num
plano B. Circulou pela Internet a historia de um neguinho
que dá curso de mendicância pregando que é possível
levantar duzentos paus se escolher os lugares certos pra
mendigar. Marimita irmão da Milene namorada do Fábio se
escalou pra tentar cuidar de carros em estacionamento em
dia de jogo no Couto Pereira.
Para a operação Interfones Vinícius voluntariou-se. É
uma boa idéia, mas requer toneladas de paciência e muita
dedicação. Escolheu um trecho da padre Agostinho com
bastante prédios e no horário do Jornal Nacional. Apertava o
interfone e falava.
- Tia? Oi tia!
Quando não se tratava de uma mulher com um único
sobrinho as pessoas ou perguntavam “o que?,” “como?” ou
então desligavam o interfone. É uma idéia que requer
paciência, eu falei. Até que lá pelo milionésimo toque a
Profecia de Coacho se concretiza.
- Oi ... É você Marcelo?
Com o sinal verde dado, Vinicius soltou essa que
estava com o carro estragado cinco quadras a baixo e que

175
Manual Prático da Delinquência Juvenil

precisava de quarenta reais emprestados.


- Eu te avisei que aquele carro ia te dar problemas e
prejuízos. Sobe aí que eu te empresto, mas que isso não se
repita, hein? Dê um jeito nessa cangalha veia.
- O carro ficou aberto, tenho que correr lá. Vai subir o
Vinícius ai pra pegar, ok?
- Tá bom. É ate melhor. Se não eu ia ter que te dizer muitas
verdades.
Deu certo. Ela caiu. Fábio & Jean ainda conseguiram
vinte e cinco pilas. Marmita quebrou a cara no dia do jogo,
já existe um cartel explorando os estacionamentos, não
conseguiu um único centavo. No total levantamos 65
Dinheiros para estartarmos nosso MTS. Com o tempo, todos
gostaram dessa coisa de brincar de vanguarda.
Nosso movimento é quase artístico. Nosso
movimento é quase vanguarda. Se nada disso é verdadeiro,
então beleza. Ele no mínimo é QQQ, Quase Qualquer Qoisa.
Fábio conseguiu pás, enxadas, um balde e dois
cavaletes na casa de seus coroas em Colombo. A
empreitada consistia em cavar um buraco, raso mesmo, pra
não dar muito trabalho. Colocar a terra em cima de umas
tábuas que colocaríamos sobre os cavaletes. Dar vinte e
três voltas em torno do cavalete repetindo o Mantra
Sagrado:
“Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer.”
Depois tapar o buraco, meter a mão nos cinco reais e
partir para o abraço.
A definição do local da obra gerou discussões
monstruosas. Sérgio & Vinícius queriam que fosse no centro,
um Mega Evento. Fábio queria que fosse perto do viaduto
Capanema, nas redondezas da rodoviária de Curitiba. Jean
ficou do meu lado e vencemos o debate.
Continuaremos voando por toda a periferia. Ação de
impacto é coisa pra rato de mídia. Estamos fora, não
gostamos de aparecer na foto.

176
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Escolhemos o bairro do Cajurú e fomos de ônibus


mesmo, com a presença marrrrrcante do figuraço Marmita e
com os cavaletes no corredor, dando quinhentas
explicações aos curiosos que insistem em existir, graças aos
céus, pois são os curiosos que garantem a evolução da
espécie.
Chegando no Cajurú escolhemos o lugar mais pop
das proximidades, o terreno baldio ao lado do bar do
Espedito, tava escrito com”S “ assim mesmo. Montamos os
apetrechos e esticamos a enorme faixa que Sérgio preparou.
HÁ VAGAS. SERVICO FÁCIL. DINHEIRO À VISTA.
Três frases com três palavras magicas para para
ressoarem nas mentes de Desempregados, Vagabundos &
Vadios em geral, essas criaturas lindamente românticas do
mundo moderno. Não demorou muito pra chamar a atenção
dos pinguços do boteco. Mas não foram falar com a gente,
mandaram um moleque.
Explicamos para o pirralho e ele voltou rindo sozinho
para o bar. Ouvimos gargalhadas e não demorou muito pra
pintar o primeiro voluntário. Bêbado e provavelmente duro.
O cara mais se escorava na pá do que cavava
propriamente. Devido ao estado de bebedeira do cidadão, o
que era pra ser fácil tornou-se difícil. Era tão cômico que
acabou se formando uma multidão de curiosos, sempre eles
ao redor. Marmita ria tanto que nem participou da ação,
seutou-se um pouco distante e ficou se contorcendo.
Na hora das vinte e três voltas a risada era geral. O
povo não botava fé no que estava acontecendo. Não
botavam fé mesmo, mas na hora que ele tapou o buraco e
pegou as cinco pratas ganhamos respeitabilidade. O negócio
era sério além de palhaço.
O segundo funcionário foi o moleque mensageiro que
fez tudo rapidinho e saiu feliz da vida pra torrar a grana nos
caça-níqueis. Foi uma ação muito divertida e até
recompensadora no sentido do reconhecimento pela
população local. Não faltaram trabalhadores e todos nos
trataram bem.

177
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Os 65 dinheiros acabaram rapidinho, o sucesso da


empreitada foi total. Nosso movimento é viável e digo uma
coisa, do fundo de meu Coração Delinqüente: o dinheiro da
mulher que caiu no Migué do Interfone foi muitíssimo bem
aplicado. Bem explicadinho acho ela até sentiria orgulha.
Temos outras idéias ainda para por em prática. Descobrir
um formigueiro e criar o “Sedex 10 Para Formigas”, pega a
carga de uma delas e entrega na porta de casa, cinco pilas
pelo transporte. Ou então localizar todas as bitucas de
cigarro de um quarteirão e orientá-las a Meca, bitucas
Muçulmanas, saca? Dez reais por isso, pois sabemos que é
foda, primeiro achar todas as bitucas, depois descobrir que
diabo de lado fica Meca.
Enquanto esperávamos o ônibus no ponto tivemos
que responder a um batalhão de perguntas a respeito de
quem éramos, o que significava aquilo tudo e onde seria
nossa próxima performance.
- Somos do MTS, movimento do trabalho sem sentido e
infelizmente não sabemos quando haverão novas vagas.

Poluição Visual? Desejos Pré-Fabricados? Só Jesus


Salva! - (ataque trinta)

Nosso novo porão é massa. Pela primeira vez desde


que existimos nesse planetinha véio ordinário de bosta que
só é azul pra quem vê de fora, estando morando todos
juntos. Só que nem tudo é perfeito. No outro lado da
avenida tem uns quatro ou cinco out-doors emporcalhando
a visão.
Uma puta sacanagem. Ainda mais tratando-se de
nós, pela primeira vez reunidos, quase que uma provocação.
Terminamos de transferir todas as nossas tralhas na sexta-
feira à noite e essa porra de publicidade acabou sendo o
assunto da vez. Fábio era o mais indignado.
- Esses filhos da puta se acham na moral de dizer quais são
nossos verdadeiros desejos.
- Podes crer.

178
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Gargalhadas. Todos caíram na gargalhada com o tom


messiânico do sujeito. Um monstro. Um orador em praça
pública, seduzindo milhares de almas com sua retórica
hipnótica.
- Só que eles não estão sozinhos nessa.
- Óh! Existe uma conspiração por trás.
- Os Iluminatti devem estar envolvidos.
- Calem a boca seus paunocús! Sou eu, é você Vini, somos
nós!
Nessa hora a galera baixou a bola. Só que numa pose
de respeito tão caricatural que foi incontrolável, as
gargalhadas voltaram. Nunca se leve a sério de mais.
- Cara, saca que na maior parte das vezes somos nós
mesmos que matamos nossos desejos.
- Assassino! Assassino!
- Acabamos deixando de fazer as coisas por um medo ou
uma vergonha que no fundo não sentimos, mas achamos
obrigação senti-los.
Palmas. Desta vez não foram gargalhadas, desta vez
foram palmas mesmo, Fábio foi ovacionado.
- Claro que tem gente querendo se aproveitar dessa
fraqueza. Gente oferecendo desejos prontinhos, custam
alguns trocados, mas estão lá, prontos pro consumo.
Jean foi o único que não ficou o tempo todo junto,
viajando no discurso de Fábio. Ficou quieto, na dele, olhando
os out-doors. Quando sentou com agente estava sorridente .
- Acho já que sei o que fazer pra aliviar nem que seja um
pouco essa raiva de Fábio.
- Ih! Lá vem...
- Vamos sacanear esses especialistas em desejo tirando
onda deles.
- Como assim?
- Sabe o que eu pensei? A gente bola um personagem. Tipo

179
Manual Prático da Delinquência Juvenil

cartum mesmo. Desenha numa cartolina ou papel


grande, recorta e cola nos out-doors. Minha idéia era que
esse personagem ficasse o tempo todo expondo o lado
ridículo e grotesco dos anúncios.
- Pode crer véio! Não é uma má idéia...
- Em cima dos bonequinhos colocamos balões com frases
tirando onda da parada.
Uma tentação e tanto e depois de uma semana
parados não conseguimos resistir a ela. Sérgio que tem as
manhas pra essas coisas de recortes saiu atrás dos papeis e
do resto dos materiais enquanto ficamos ajeitando o resto
das coisas. Foi o animal do Vinícius, que não pensa, que
teve a idéia de dar o nome de Jesus pro nosso personagem
gozador de propagandas.
- Eu sou Jesus e te digo uma coisa: você é mané a ponto de
acreditar que isso vale a pena?
Foi massa. Curtimos pra caralho. Bolamos um
racunho de nosso Jesus, nada daquela imagem padrão de
barba grande, cabelo longo, vestido e sandálias de couro.
Nosso Jesus era um baixinho e gordinho escroto,
personagem típico de botecos da periferia. Damos altas
gargalhadas imaginando as palhaçadas que nosso Jesus
aprontaria. Quando Sérgio chegou com o material já
estávamos com as idéias plenamente definidas.
Na tardinha de sábado Fábio & Jean saíram pra analisar os
alvos e bolar as rotas de fuga pra no caso de dar alguma
merda. Demoraram pra caralho e voltaram mudando todos
os planos originais.
- Cara, aqui na frente não vai dar. Aqui na frente vai ser
muito bandeira.
- E a escada? Como é que vamos carregar a escada num
lugar muito movimentado?
Estávamos todos no tesão de fazer a coisa no sábado
mesmo, só que não teve jeito. Tentamos localizar o Marmita,
mas o cara tava acampado no Marumbi. Fábio teve que ir
até Colombo batalhar uma escada dessas que se desmonta

180
Manual Prático da Delinquência Juvenil

enquanto nosostros fomos definir novos alvos, que se


adequassem aos nossos desenhos.
Não foi mole. Tivemos que fazer um mapa
complicado, teríamos que andar um monte. Só que tudo
meticulosamente planejado, com tudo pra dar certo. Nossa
auto-confiança se baseava no fato de que estaríamos com
tudo pronto, desenho recortado, cola esparramada, e que
seria só fixar e pronto. Missão comprida.
Só que na hora a parada não foi tão simples assim.
No fim da terde de domingo o tempo fechou e uma
enxurrada se abateu sobre Curitiba. E a chuva não tinha
pinta de passar tão cedo. Ainda por cima mais uma vez
cometemos um erro de principiantes. Até quando seremos
cabaços? Analisamos as rotas de fuga e não sei que lás e
ignoramos por completo a escada e o plano de abordagem.
Durou muito mais do que imaginávamos. Tínhamos
calculado uns 30 segundos. 30 segundos o caralho!
Chegar, armar a escada no lugar certo, subir sem
dobrar o papel ou rasgar por causa da chuva e ainda colar
no lugar adequado sem enrugar nem nada é uma tarefa
muito foda. Pra cola pegar tivemos que antes dar uma
enxugada meia boca no local da colagem e depois ainda
segurar pressionando o papel por um certo tempo. A coisa
toda durou quase dez minutos, uma eternidade perto dos 30
segundos que tínhamos imaginado. Foi um negócio
agonizante. Vinícius foi o primeiro a fazer a colagem. Eu &
Jean ficamos segurando a escada e mandando apurar
enquanto Fábio & Sérgio eram os sentinelas.
Era a propaganda de uma oferta de carro por trinta e
poucos mil reais. No desenho que colamos Jesus segurava a
barriga com uma mão e com a outra apontava sorridente
para o carro:
- É fácil comprá-lo! Basta ficar trinta anos sem comer.
Alguns mestres iogues dizem que o sol e o ar bastam pra se
manter vivos!
Mais abaixo um outro balãozinho.
- E lembre-se! Eu sou Jesus e Jesus saca as coisas!

181
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Quando Vini acabou estávamos com a nossa


paciência esgotada e muito nervosos, aquilo era pra ser
rápido e fácil. Nossa auto-confiança foi parar na puta que o
pariu. Saímos correndo dali, nem conferimos com calma o
resultado da colagem.
O segundo alvo ficava um pouco longe e tivemos que
andar um monte. Tratava-se de um anúncio de uma nova
escola de negócios, famosa na Europa e que agora esta se
instalando em Curitiba. Na foto um casal de jovens
empresários em pose de bem sucedidos. Ridículos os
coitados.
Foi Jean quem subiu pra colar Jesus.
- Nada é tão ruim que não possa ficar pior. Agora os gringos
vão ensinar seu chefe a ser um mala, explorador e folho da
mãe de uma maneira que você nem sonhava ser possível!
Mais abaixo o mesmo balão de antes
- Jesus saca das coisas, meu filho!
Jean fez tudo certinho em seis minutos e meio.
Apesar dos protestos de Fábio, foi eleito automaticamente
“O Colador de Jesus Cristos” oficial. O próximo out-door era
próximo, hehe, porém visível e perigoso. E também o mais
odioso. Aquele da Master Card convidando todos a ficarem
ou serem sossegados. De longe o mais falso.
Esse eu aguardei com expectativa pra ver como
ficava. Esse eu quis curtir o resultado. E nesse Jean decidiu
dispensar a escada. Maldita idéia. Mais segura, mas repito:
Maldita idéia! Tivemos que escalar a parte de trás do painel
pra segurar suas pernas sem enxergar bosta nem uma do
que ele tava fazendo.
- E ai véio tá pronto?
- Relaxa tá quase.
- Apura sua bixa! Cê pensa que é leve?
- Agüentem aí suas putinhas, tá ficando massa.
- Anda logo com isso se não eu solto!

182
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Solta nada, você me ama.


Tenho certeza que ele demorou de sacanagem. Jean
nunca desperdiça uma chance de sacanear alguém. Deve
ter demorado uns quinze minutos.
Mas tenho que admitir que ele tinha razão: Ficou
massa. Jesus se passou nessa.
- Você tem todos os motivos do mundo pra ficar sossegado,
afinal sou Jesus e sua mulher me ama. Sei que é meio óbvio
e até chavão, mas colocamos uns chifrinhos no cara da foto
da propaganda.
- E todos os hotéis aceitam Master Card! Veja só! Uma
chance a mais de você ser sorteado. E não foi só isso.
- E veja bem: Jesus saca das coisas e agora também saca
que sua mulher é muito gostosa. Exaustos que estávamos,
sentamos na calçada no outro lado da rua, Ensopados &
Imprudentes, pra dar risadas do corno sossegado sorteado
pelos Delinqüentes.
Tínhamos material pra sacanear mais três anúncios e
agora estávamos mais sossegados. Nos sentíamos OS
Vândalos Palhaços. Nos sentimos os salvadores da espécie
humana.
Só que a chuva aumentou pra caralho e o quarto alvo
ficava numa encosta, uma filial do Rio Iguaçu se instalou na
frente dele, mais ou menos onde jean botou a escada. E ele
estava perigosamente Tranqüilo & Seguro.
Odeio estar certo, massabia que ia dar merda.
Quando Jean esticou o braço pra colar o balão com
frase de Jesus o terreno onde a escada estava armada
cedeu e Jean desabou desajeitadamente de uma altura de
mais de quatro metros.
O cara caiu todo errado e tragédia das tragédias:
Quebrou a clavícula. Ele que trabalha de moto fazendo
entregas, quebrou a clavícula. Na hora não atinamos o que
tinha acontecido com ele, que só gritava, e simplesmente
abandonamos a escada ali mesmo e torramos nossos
últimos dinheiros pra levarmos o sequelado no posto do SUS

183
Manual Prático da Delinquência Juvenil

vinte e quatro horas do Boqueirão.


Foi um susto dos diabos, o maior que já levamos até
agora. Mas como somos uns incuráveis, na madrugada, de
volta ao porão, já estávamos rindo do ocorrido.
A TIM celulares safou-se dessa, deixamos sua
sacanagem pela metade. No out-door premiado ficou
apenas a imagem de nosso Jesus baixinho, barrigudinho &
careca, com cara de safado.
- Nunca esqueça! Jesus voltou e Jesus saca as coisas!

Cachorrada Doentia Delinquente - (ataque trinta e


um)
Além do clima, que se comporta como uma mulher
de fases, o pobre curitibano ainda tem que conviver com
cocôs de cãozinhos de dondocas nas solas de seus sapatos.
Sei que isso é uma reclamação pequena, banal, estúpida.
Seria, se em Curitiba não existissem mais hoteizinhos e
creches para cachorros do que pra crianças.
Nessa semana fui dar uma banda na baia de um
amigo meu e o pau no cú se atrasou umas duas horas. Tive
que dar um tempo na frente do prédio dele sentado bem na
frente da vitrine de um desses estabelecimentos para cães
de madames. É incrível como a cachorrada se arrega em
termos de Apetrechos, Enfeites & Acessórios. Os viadinhos
passam bem. É caminha, é roupinha, é escovinha, é
xampuzinho, é coisa que não acaba mais. Fora os Rangos,
as Atenções & os Carinhos. Só que em termos de
filhadaputiçe o inesperado sempre se supera.
Lá estava eu, fumando meu cigarro e pensando na
moral daquela cachorrada quando passou uma catadora de
papelão. Junto a ela, uma menina de uns quatro anos
carregando um bebê no colo e correndo para acompanhar o
passo rápido da mãe. Fiquei olhando aquelas três criaturas
até ver mais. Por último, carregando um carrinho de bebê só
com as duas rodas de trás, uma outra menina, menor que a
que estava correndo.
Aquilo me deixou puto. Quando olhei de novo pra

184
Manual Prático da Delinquência Juvenil

vitrine do pet shop a vontade que eu tinha era despedaçar


aquele vidro com um chute e tacar fogo em tudo. Tive que
sair dali e andar um pouco pela quadra e acender mais um
cigarro. Aquilo me deixou muito puto mesmo.
Nessa época estávamos nos mudando da kit pro
porão e quando cheguei lá na noite a piazada estava toda
envolta as caixas de papelão e sacolas de supermercado.
- Galera, temos que fazer alguma coisa com essas
veterinárias de burguês.
- Qualé Ari? Levou um fora de uma cadela?
- A cachorrinha não tinha telefone?
No meio da mudança ninguém levou a coisa muito a
sério, mas a parada ficou pendente, incubando em nossas
mentes delinqüentes. Foi Fábio conversando depois com
Milene sobre os poodles da madame do mal que o assunto
voltou a tona.
- E não é que você tem razão Ari, quando critica os
cachorros das madames.
- Num falei? Mas porque isso agora?
- A Milene falou que a patroa dela uma vez deixou aquela
duplinha por duas noites num desses hotéis pra cachorros,
pra poder viajar pro interior.
Começamos então a pensar em algo pra sacanear
esses filhos de uma égua que lucram em cima dos
burgueses esnobes. As idéias vieram facilmente. Foda foi
convencer a galera a não fazer nem um mal com os pobres
dos bichinhos que, no final das contas não tem culpa de
nada.
Durante a semana Fàbio estava disposto a andar.
Estava pensativo, apaixonado e queria andar. Estava
vasculhando cursos de inglês e encaixou na agenda
vasculhar pet shops. É fácil viajar, planejar e rir com as
idéias, executar a invasão são outros quinhentos. E uma loja
fresca de animais é mais complicado ainda. O principal item
a se considerar é o alarme. E eu te digo: com toda essa
onda de violência ainda tem otimista (ou pão duro, vai

185
Manual Prático da Delinquência Juvenil

saber) que não instala alarme.


Fábio identificou os alvos. Depois foi só levantar a
ficha da vitima. Milene, acostumada com as frescuras de
sua patroa com seus poodles, foi a tarde com eles e Fábio
conhecer as instalações. A exemplo da invasão da mansão
da madame do mal, Fábio cuidou de todos os detalhes da
invasão.
Como prova de sua generosidade deixou a nós a
tarefa de decidirmos que diabos faríamos lá dentro quando
conseguíssemos entrar. Foi divertido pra caralho imaginar as
coisas que podíamos aprontar com aqueles coitadinhos
daqueles cãezinhos. Um festival de Humor Negro & Sadismo
Inconseqüente. Foi onda.
Acabou que fizemos um troço democrático. Isso pra
ser bonzinho nas críticas ao nosso plano, porque na verdade
o que fizemos foi um Frakeinstein, horroroso, com pedaços
de idéias de todo mundo. O lachante pra eles cagarem
adoidados é básico, mas os requintes de crueldade foram
acrescentados pelo Velho & Bom Anarki3a das boas idéias.
Saca só como o cara não pensa:
Mandar correspondências para os clientes com
insinuações de zoofilia e informando que molestar os
animais os deixa com diarréia. Vinícius sugeriu protestarmos
contra a desigualdade social canina levando cães sem teto e
deixando-os lá, passando a noite com seus semelhantes
afortunados e Jean conseguiu tintas poderosíssimas pra
misturarmos com os xampús e os “cremes pra pelos
oleosos’’ dos au-aus mauricinhos. Organizar tudo isso em
termos de um plano concreto e realizável foi uma dura
tarefa. Vinícius, responsável pela idéia de gerico dos cães,
vasculhou meio Boqueirão atrás dos sem-teto e descolou
dois exemplares. Jean conseguiu a tinta façinho enquanto eu
e Sérgio nos encarregávamos das correspondências e
informes de zoofilia.
Depois de muita insistência consegui convencer o
Sérgio a fazer a coisa certa. Ficou de segunda até quarta,
todas as tardes, de butuca seguindo os clientes pra ver
onde moravam. Os nomes não deu pra descobrir, teria que

186
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ser uma correspondência impessoal.


Bolamos tipo que um jornal de bairro, uma
associação nova formada por pessoas que apreciam ter
animais de estimação. O tema da edição era maltrato aos
animais. Milene cedeu gentilmente uma foto de sua mãe
para escanearmos e ilustrarmos uma entrevista contendo
uma denúncia. Seu cachorro havia sido estuprado na pet
shop que atacaríamos. Depoimentos de cientistas
explicavam que os cães costumavam ser atacados por
diarréias agudas após serem violentados sexualmente.
Sérgio seguiu e a notou o endereço de cinco clientes.
Louco de bom, cinco clientes indignados ou no mínimo sem
entender o que está acontecendo já tá mais do que
suficiente. Agora Vinicius levar os cãezinhos sem teto na
noite da ação é que foi elas. Fabio dava pulos de dois metros
de altura de tão indignado.
- Porque é que vocês não me avisaram dessa cagalhoniçe
antes?
- Pensei que o Vini tivesse avisado. Você não falou nada seu
animal?
- Pensei que ele soubesse...
Tentamos de tudo quanto é jeito levá-los no ônibus,
por baixo de nossas jaquetas, mas não rolou. Ou eles latia
ou eles se mexiam e o cobrador acabou mandando nós
descermos. Tivemos que ligar a cobrar pro nosso amigo
Társis que foi nos buscar e nos deixar nas proximidades do
local da ação.
O plano do Fábio não era nada fácil. O cara estava
coberto de razão em reclamar dos cachorrinhos. Era
semelhante à vez em que fomos enfeitiçar a imobiliária,
teríamos que pular muros e andar em terrenos inexplorados.
Como fazer isso carregando dois cães que podem se desatar
a latir a qualquer momento? Dessa vez não houve
coleguismo, Fábio deu um esporro e Vinicius teve que
carregar sozinho os dois pestinhas. Fabio tinha sido perfeito
em sua rota de invasão, tinha vários muros emendados uns
nos outros e só teríamos que descer deles uma única vez,

187
Manual Prático da Delinquência Juvenil

perfeito.
Perfeito não fossem os cães sem teto.
Equilibrar os bichinhos em cima do muro e mantê-los
quietos era uma missão quase impossível. Pelo menos teve
a manha de levar uns pedaços de salsicha pra eles ficarem
lambendo. A merda é que a parada só funcionou com o
menor, o maior começou a latir quando sentiu cheiro de
comida. Tive que voltar com ele e deixá-lo de fora da
missão. Ficou com Jean que estava de sentinela na frente da
loja por causa de sua clavícula quebrada no último ataque.
Fabio queria surrar o Vini.
- Vini, você fica aqui esperando com o cachorro e quando
tivermos com tudo pronto aí a gente te chama e tu solta ele
lá dentro.
Nos equilibramos por sobre o muro e andamos uns
vinte metros até pularmos no quintal do que parecia ser um
cartório ou alguma secretaria da prefeitura. O cagaço foi
grande, pois Fabio não tinha checado esse detalhe e era
bem provável que aquela porra tivesse vigia noturno.
Quando caímos no chão ficamos uns cinco minutos com o
coração disparado, suando frio e esperando o pior a
qualquer momento. Como temos mais sorte que juízo não
apareceu ninguém.
Todas as portas e janelas da loja tinham grades que
impossibilitavam a invasão por ali, mas facilitava a escalada
do telhado. Eram telhas de barro, fáceis de desencaixar.
Tiramos oito telhas e Fabio pulou sobre o sótão. Péssima
idéia, o animal não tinha se ligado que o forro era de
madeira podre, rachou e ele quase despencou lá de cima. A
cachorrada que tava hospedada se desatou a latir. Um
barulho infernal. Por Éris! Teríamos que ser rápidos e
rasteiros. Uma prova de fogo do nosso profissionalismo
vandalístico.
- Caralho! Vamos rápido!!
Fábio bum bum bum, correu em direção ao tampão,
abriu e pulou pra baixo.
- Rápido Ari! Joga a mochila com as tralhas!

188
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O nervosismo se abateu sobre todos. Sergio se cagou


todo nas calças. Isso não é uma metáfora, o cara se cagou
mesmo, tava com umas broncas digestivas e a merda
escorreu por baixo de suas calças jeans desbotadas. Eu
pessoalmente não sabia se ria da situação ou chorava por
causa do fedor. Dadas as circunstâncias deixamos Fabio
fazer todo o trabalho, ficamos só iluminando com a lanterna
e dando palpites. Abriu uma porrada de frascos de xampu,
jogou um pouco do conteúdo no vaso do banheiro e
completou com tinta. Encontrou um grampeador e o fichário
com o cadastro dos clientes em em todas as fichas
grampeou um papel com o seguinte texto:
“Quem batalha pelos direitos dos animais deveria incluir em
suas reivindicações o direito dos pobres coitados dos
bichinhos de se verem livres de serem tratados como
bebezinhos mimados por burgueses esnobes.”
Dentro do aparelho de som colocamos um CDR com
uma única música, aquela do Eduardo Duzek cujo refrão é:
“Troque seu cachorro! Troque seu cachorro por uma criança
pobre”. O clima de tensão estava chegando a níveis
insuportáveis devido a barulheira do latido dos chorros que
estavam lá. Não demorou muito pra Jean se indignar e
começar a bater na porta da frente.
- Seus viados! Que porra de merda de puta de bosta do
caralho vocês estão fazendo aí dentro? Apurem suas bixas!
Fabio bateu o martelo.
- Tá beleza! Ari, traz o cachorro do Vini.
Saltei apressadamente no telhado e berrei pro
Vinicius trazer o cachorro logo. Nessa correria o bichinho se
assustou e começou a latir e tentar me morder. Ainda bem
que era um filhote, mas mesmo assim me arranhou todo.
Alcancei o Totó, e junto com Sérgio Cagado puxamos Fabio
de volta pro sótão. As possibilidades de alguém ter ouvido a
barulheira e acionado a polícia eram grandes e por isso nem
tapamos as telhas. Que se fodam, eles notariam o forro
quebrado mesmo.
Nos encontramos do lado de fora e fomos entregar as

189
Manual Prático da Delinquência Juvenil

“correspondências” no estilo daquele carteiro do comercial


do Sedex que alcança um maratonista em plena corrida.
Corríamos feito uns doidos ensandecidos. Só não estávamos
sendo mais rápidos por causa do Jean e do Vini, que se
mijavam de rir do Sergio Cagado e do próprio, que nos deu o
prazer de descobrir como é engraçado o jeito de uma
pessoa cagada correr, de pernas abertas e todo duro. Fora o
cachorrinho que tinha ficado de fora da operação e que latia
no colo do Vinicius, acho que latia pra rir com a gente.
A descarga de adrenalina foi tão grande que ao
acharmos um posto de gasolina com loja de conveniência
compramos dois litros daquela pinga 44 de um real,
sentamos na sarjeta e bebemos até o sol raiar. No outro dia
(na verdade no mesmo, mas pra mim só troca de dia
quando durmo) não consegui acordar pra ir trabalhar.
Mas não dá nada. O importante é que as dondocas e
seus cachorros cagadores de calçada tiveram uma lição
merecida. Vingamos todos os Tênis, Sandálias & Sapatos
cagados de Curitiba. Au-au-au nós somos do mal!!!!

Pare, Olhe, Pense: O Inesperado Acontece - (ataque


trinta e dois)

Todo ser humano tem garantido o seu direito de ir e


vir. Circular livremente pela face do planeta onde vive. Nada
mais básico e justo. Será que ainda existe alguém que ainda
acredita que esse direito é minimamente respeitado? Nem
nas cidades (Não é qualquer um que entra num shopping). E
nem no campo (experimente pular a cerca da fazenda
errada) e agora, com as privatizações e os pedágios, nem
nos caminhos que ligam um lugar ao outro.
A alguns fins de semana atrás descemos até
Matinhos pra curtir uma praia de carona com o Társis e
acabamos prometendo a nós mesmos que faríamos alguma
coisa por nossas estradas. O Delinqüente Pós- Romântico
Sérgio Augusto, que odeia automóveis e tudo o que se
relaciona a eles, era o mais exaltado.

190
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Reparem que não existe nenhuma poesia nas auto-


estradas.
- Tem a paisagem maravilhosa. – defendeu Fábio.
- Mas a paisagem já estava aqui. Essa paisagem
maravilhosa que você fala foi ferida de morte por esse
asfalto obsceno.
- É, mas as auto-estradas tem seu charme.
- Charme falso, o charme reside no fato de reside no viajar.
Elas são apenas um meio pra se chegar em algum lugar. As
pessoas não querem nada além de chegar ao fim delas, aos
seus destinos.
- Tá, mas o que você quer afinal de contas.
- Sei lá, que as pessoas curtissem mais a viagem. Cara, só
tem out -door e placas de sinalização! Cadê a arte? Cadê a
poesia? Cadê o prazer de viver?
- Não viaja, seu monstro?
- É, esse teu papo aí não tá com nada, só reclamações e
ladainhas e nenhuma solução.
Acabou que a galera acalmou os ânimos de nosso
amigo artista plástico e mudou de assunto. Só que como
sempre, a idéia ficou apenas adormecida, esperando o
momento certo pra ressurgir das trevas de nossas mentes
delinqüentes.
E renasceu através do Jean, que chegou animado
depois de um dia de trabalho com sua moto.
- Tigrada! Lembram que o Sérgio queria aprontar alguma
coisa nas be érres? Pois então! Meu chefe pediu pra mim
fazer um orçamento pra ele colocar umas placas de
indicação no sitiozinho que ele tem acho que é em Cerro
Azul.
- Tá mas e daí?
- Daí que existe à venda, em forma de adesivos, aquela
material que os caras fazem as placas de trânsito. Saca?
Aquela parada que brilha quando as luzes dos faróis dos

191
Manual Prático da Delinquência Juvenil

carros iluminam? Não posso mentir: Todos Os Nossos Olhos


Brilharam.
- E é caro?
- É! Setenta paus o metro quadrado.
- Caralho!
Porcos capitalistas, sempre dificultando nossas
ações. Seria perfeito! Sabotaríamos placas de sinalização
com chamadas subversivas ou quem sabe até Mensagens
Discordianas. Só que nossos métodos alternativos jamais
seriam suficientes pra juntar grana pra comprar uma
quantidade decente desse tal material, o vinil refletivo.
Só que quando somos tomados pelo Tesão do
Vandalismo não conseguimos sossegar tão facilmente.
Alguma coisa tinha que ser feita. Foi colocando nosso amigo
Marmita a par do problema, que a solução acabou surgindo.
O cara é mesmo um Monstro Sagrado.
- Vocês poderiam fazer um disco voador pousar na BR
parando o trânsito.
A frase dele saiu assim mesmo, simples assim, como
se fosse a coisa mais banal desse mundo. A cara de sério
que ele faz quando fala merda sempre nos levou as
gargalhadas. Todo mundo riu, mas ao mesmo tempo todo
mundo se ligou que se tratava de uma excelente idéia.
- Eu tenho as moral de a gente conseguir todo o material
pra fazermos o disco voador mais do outro mundo que já
pousou nesse mundo.
- Não tenho dúvidas a isso.
- Então? Vamos mexer nossas bundas magras!
Foi unânime a decisão de concretizarmos essa idéia.
Cada um tratou de dar os seus pitacos. Vinícius, que no
fundo sempre foi o mais misericordioso e preocupado com o
efeito a terceiros dentre nós, propôs que colocássemos
alguma sinalização na pista pra evitar que algum
descuidado se acidentasse num choque com o estranho
OVNI. Sérgio fez questão de fazer umas colagens loucas nas

192
Manual Prático da Delinquência Juvenil

placas próximas ao local do “pouso”. Descolou uns trocos


vendendo cartões e comprou vinil adesivo normal pra fazer
suas artes. - Confiem em mim, vai ficar massa.
- Não tenho dúvidas quanto a isso, só espero que não se
amarre muito e ferre com tudo. - E nem se cague nas calças.
Eu, Jean, & Fábio nos ocupamos em ajudar o Marmita
a montar a aeronave. Jean nos convenceu de cara a
descartar a idéia de disco, de coisa redonda.
- Vamos inovar. Vamos fazer algo realmente estranho.
- Fora dos padrões?
- Claro! Algo verdadeiramente de outro mundo.
Bom, tendo em vista a catapulta que o Marmita
construiu pra jogarmos bosta nos carros novinhos da
Renault, eu pessoalmente já sabia que o resultado seria
uma geringonça absurdamente anormal. Montamos a
“coisa” no Porão do Boqueirão mesmo. A cada dia Marmita
descia do biarticulado, aquela estranha serpente vermelha,
carregando toneladas de tralhas esquisitas. Apenas
ajudávamos alcançando as coisas ou dando palpites, ele
mesmo se encarregou de enroscar os parafusos e ligar os
fios que iluminariam o Carango Intergaláctico.
O cara trabalhou obstinadamente durante exatas oito
noites. Quando falo obstinadamente, falo sério. Teve noites
que bodiamos todos e ele seguiu na labuta, mergulhado de
corpo e alma em sua obra. Nem Sérgio eu vi trabalhar desse
jeito em seus quadros.
Quando o troço tava quase pronto começamos a ficar de
cara.
- O que será que as pessoas vão fazer com isso?
- Chamarão a policia rodoviária? Chamarão a imprensa? O
Padre Quevedo?
Então uma luz se acendeu em nossas cabeças de
bagre e começam a bolar e montar objetos, esculturas e
outras coisas que as pessoas pudessem levar pra suas casas
quando parassem pra olhar o troço. Saiu tudo quanto é tipo

193
Manual Prático da Delinquência Juvenil

de bizarrice possível e imaginável. Estranhos bonecos.


Vinícius se alugou de montar réplicas de miniaturas de
OVNI.
Jean deu uma fugida do trampo com sua moto e
junto com Fábio saiu estrada a fora definir onde seria a
aterrissagem. Quando Marmita concluiu sua obra máxima
passamos a queimar nossos neurônios pra resolver o óbvio
dos óbvios: Como carregar aquele baita trambolho até o
local do crime?
Nem nós, nem Marmita tínhamos pensado nisso.
Durante três noites ficamos para aquela coisa monstruosa
que ocupava mais da metade do porão sem saber o que
fazer. Foi no Sábado passado, na manhã do dia que seria
feito o ataque, que Marmita apareceu pilotando o
caminhãozinho de um conhecido. - Galera! Pra todos os
efeitos vocês estão de mudança.
Tivemos que dar quinhentas explicações aos sempre
presentes curiosos na hora de carregar nosso amado
artefato alienígena.
- É uma feira de ciências minha senhora, essa parada aqui é
pra destilar água poluída.
Sábado de madrugada partimos em missão secreta.
Andamos uma porrada de quilômetros até Marmita encostar
e estacionar no ponto X. Estávamos cabreiros. Não sei se
por causa do constante risco de sermos pegos ou de termos
que fazer uma puta força pra descarregar aquela porra. E foi
foda. Cada um reviu sua tarefa, acertamos os relógios e
combinamos nos encontrar num ponto próximo ao
caminhão.
Sérgio tratou logo de sumir pra fazer suas colagens
nas placas. Eu dividiria com Vinicius a bronca de esticarmos
as faixas. Cada um com a sua a um quilômetro do ponto X,
teriam que estar as duas prontinhas para serem esticadas
simultaneamente, na hora em que começássemos a
aterrissagem.
Quando me separei dos piás o clima era de tensão,
pelo menos eu estava tenso. Ficariam só os três: Marmita,

194
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Jean & Fabio pra em dois minutos montar tudo e “fazer o


contato”, um pepino do cacete. Mas Marmita estava seguro
de si.
- Relaxa Ari, é rapidinho de montar e não tem erro. Basta
cada um fazer sua parte no tempo certo e na hora certa.
Saí andando no escuro da estrada assumidamente
cagado de medo. Casa carro que passava eu imaginava que
soubessem de nossos planos e tivessem armando uma
cilada. Exatamente a uma e meia da manhã eu teria que
esticar a faixa, em dois minutos. Primeiro amarrei a cordinha
numa árvore do lado esquerdo da estrada. Então deixei a
faixa esticada no chão fui soltando a corta até a árvore do
outro lado. Daí seria só passar a corda por cima de outra
árvore e esticar. Esse só esticar é que eu teria que fazer em
30 segundos. Eu e Vinicius estávamos munidos de lanternas
pra avisar em sinal de perigo, tipo algum carro se
aproximando. Baseávamos no cálculo estatístico que
tínhamos feito. Teríamos em média um minuto, um minut e
meio pra fazer tudo. Mais que isso era contar demais com a
sorte. Quando chegou a hora constatei que era bem pior do
que imaginara. A corda pesou pra caraaaalho. Minhas mãos
suavam. Meu coração disparava. E quando tava dando o
último puxão pra dar o nó vi a lanterna do Vini piscando
desesperadamente. A única coisa que consegui pensar na
hora foi: putz, FODEO.
Dei o nó mais tosco e rápido da minha vida e voei de
cima da árvore. Não tinha como, não dava tempo dos piás
terem montado. Pelos meus cálculos não tinha dado nem
um minuto. Corri de um jeito que eu acho que se gritasse o
som ficaria pra trás. Era uma reta longa e logo vi que a luz
no fim do túnel era uma jamanta no sentido contrário. Nada
mais óbvio, como eu não previra antes? Corri demais, corri
até topar com o inesperado. As luzes vermelhas da nave
piscando fortemente. Quando cheguei perto e saí da estrada
pra correr no mato ainda pude ver “a coisa” com suas luzes
absurdas numa gambiarra cósmica, existem Punks nas
Plêiades. Quando vi que a coisa tava encaminhada tratei de
correr pro ponto de encontro. Acabou que acabei dando uma
de manézão apavorado. A piazada tava lá, dando risada

195
Manual Prático da Delinquência Juvenil

porque já tinham parado dois carros. Os caras desciam do


carro meio cabreiros pra olhar. Então viam o cartaz grande
colado no “troço”: “Putz! Não sakamuz o ky sygnyfyka
pedágyus y não temuz eçys taiz dynheyrus, deyxamuz
então nossu kavalu aquy y seguymus a pé”
No chão um monte de papéizinhos com essa frases e
tentativas de réplicas da nave em miniatura. Entramos no
caminhão e fomos pra fila do engarrafamento. Fiquei com
Marmita, estava acabado pela adrenalina, enquanto os piás
correram pra tentar ver o fenômeno. O caminhoneiro jogou
tudo, com ajuda de mais cinco cidadãos, pra cima da
carroceria. Depois o resto das pessoas pegou as coisas
pequenas. Não eram muitas, mas suficientes. Foi massa,
quando os piás chegaram lá não tinha mais nada e o
trânsito já estava pacificamente voltando ao normal. Nada
como o prazer das coisas suficientes.
Massa mesmo, quando eles chegaram com as
notícias sorri feliz. Foi um ataque estranho. Desta vez não
gargalhamos, apenas sorrimos. Felizes e satisfeitos.

Os Pastéis Subversivos, As Coxinhas Revolucionárias


& As Empadas Libertárias - (ataque trinta e três)

Nossas ações não são boladas em termos de uma


estratégia definida. Somos uns contingentes mesmo. Volta e
meia acontece alguma coisa com algum de nós, nos
emputecemos e fizemos algo. Dessa vez com foi com Jean
que aconteceu a cagada. Como ele gosta muito de criança,
foi buscar o piá mais velho da Denise, aquela catadora de
papelão que levamos pra fazer escova no cabelo num salão
de beleza fresco de um shopping, a algum tempo atrás, pra
ele conhecer nosso porão.
Quando embarcaram no ônibus o piazinho sentou ao
lado de uma menina mais ou menos da sua idade. Foi um
troço por acaso, ele não tinha intenção de nada, a poltrona
tava vazia. Aconteceu que a mãe da menina, que tava
sentada no outro lado do corredor, tirou ela de lá indignada,
com uns papos de que os marginaizinhos estão por todos os

196
Manual Prático da Delinquência Juvenil

lugares e que não se pode mais nem andar de ônibus


sossegado.
Desceram uns dois ou três pontos depois e entraram
num curso de inglês. O guri perguntou pra que servia um
colégio de inglês. Ele não sabia nem do que se tratava. Jean
chegou no porão completamente revoltado contando essa
história.
- Porra cara! Enquanto tem criança que não aprende nem
português direito, tem outras que além de Ter tudo, ainda
tem seus olhos tapados pra que não enxerguem a realidade,
pra que não convivam com seus semelhantes que estão de
fora.
Jean estava surtando. Ficou muito Puto, com “P”
maiúsculo mesmo. Assim que chegou a Segunda feira ele
levou Fábio junto pra analisarem as possibilidade de
invadirem aquele cursinho de inglês pra aprontarem alguma
coisa. Sem chance, segurança reforçada, alarmes por todos
os lados e filmadoras. Fábio teve que se comprometer a
escolher pacientemente um outro alvo.
Enquanto isso discutimos muito o que faríamos lá
dentro se conseguíssemos invadir. Duas coincidências
cósmica vieram em nosso socorro. A primeira foi um e-mail
que recebi do Duque Das Mil Faces, dando todas as dicas
pra invadirmos sabe o que? Um cursinho de inglês! E a outra
foi o relato daquele Vândalo Louco chamado Jubyleu
contando da sacanagem que aprontou com uma velhinha
numa lanchonete do centro. Vou resumir, a senhora foi ao
banheiro, pediu pra ele ficar cuidando de seu lanche e o
maluco colocou um poema dentro do pastel da pobre
coitada
A piazada foi ao delírio quando ouviu a história.
- É isso cara! A gente sabota a cantina do cursinho! –
Vinicius pirou.
- Genial! Colocamos diversas mensagens indignadas dentro
dos salgadinhos.
O problema foi o alvo, os cursinhos de inglês, como
cobram caro pelos seus serviços, não vacilam no quesito

197
Manual Prático da Delinquência Juvenil

segurança. Fábio ficou duas semanas checando um por um,


conhecendo as instalações e tal. Praticamente todos tem
um bom sistema de alarme ou então um vigia. Fábio
apareceu com várias propostas, todas arriscadas demais.
Inclusive o próprio duque, em seu e-mail, dava dicas de
como invadir e como fugir, mas depois de uma análise
realista, chegamos à conclusão de que seria arriscado
demais.
Foi o próprio Fábio que chegou com uma solução
altamente escrota.
- Galera, que tal se escroteássemos os nossos métodos?
- Escrotearmos os métodos? Como assim?
- Hehe, pensei em terceirizarmos o trabalho de facilitar
nossa invasão.
- Fala logo seu puto, sem essa de mistério.
- É simples e de repente pode não sair tão caro, tenho uns
contatos lá em Colombo.
- Fala logo seu porra!
- Contratamos uma puta pra seduzir o vigia
- Que merda você quer dizer com isso?
A princípio a galera ficou meio assim, mas depois
começamos a analisar a proposta mais seriamente e
chegamos à conclusão de que não era uma má idéia, só
precisava ser bem pensada.
- Ele pode ser casado e ser meio camisolão do tipo: não vou
trair minha mulher com qualquer vagabunda, sabe como é,
não é mesmo?
- ele não precisa, ele não pode saber que se trata de uma
puta
- Não entendi...
- Ela faz um trabalho metódico, a gente descobre que hora
ele sai do trabalho ou então se freqüenta algum boteco
antes e coisas do tipo e ela chega devagarinho, dá em cima,
seduz e pimba.

198
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Ih, cara. Assim ela vai cobrar muito caro pelo “serviço”
- Já falei que tenho contatos quentes em Colombo, meu
irmão tem várias amigas desta área.
- tá, vamos considerar que a coisa role, ela seduza o cara e
tudo mais, mas e aí, onde isso vai facilitar nossa invasão?
- Ela faz a cabeça dele pra se encontrarem onde ele
trabalha e aí nós...
Perfeito. Uma boa idéia no final das contas. Jean fez
questão de que já que o plano tava redondinho o alvo fosse
o curso de inglês que ele tinha visto a mulher entrar com a
filha. Fábio foi antes checar o local e a cantina e ficou três
noites de butuca checando o vigia, seus hábitos, horários de
entrada e saída e o boteco que ele tomava uma pinguinha
antes do trampo. Sim, o cara carburava uma antes de
trabalhar, sinal de safadeza e terreno fértil pros nossos
intentos.
A puta se chamava Fulana de Tal e segundo Fábio
achou o vigia bonitinho e topou a missão. Não chegamos a
conhecê-la, essa era uma de suas condições pra topar a
tarefa, ficávamos sabendo da evolução dos fatos através do
Fábio. Enquanto isso bolávamos as frases pacientemente,
dividimos os temas entre chamadas claras contra a
desigualdade social e algumas Mensagens Discordianas pra
deixar a coisa mais confusa e inusitada. Por mais o mundo
esteja uma merda o Maravilhoso TEM que estar presente.
Ficamos então na dependência da eficiência da
fulana, porque a idéia era que ela convencesse o cidadão e
se encontrar com o cidadão dentro do cursinho enquanto
atacássemos a cantina e só a cantina. Não queríamos de
modo algum que o coitado perdesse seu emprego. Foi
Sexta-feira À tarde que o Fábio ligou animado.
- é hoje Ari! É hoje rapaz!
- Sério? Ela conseguiu?
- Arizito, chega a dar pena rapá, o cara tá apaixonado
À noite o clima era de festa. Fulana de Tal estava
ligada de tudo. Fizemos praticamente uma planta do

199
Manual Prático da Delinquência Juvenil

cursinho pra ela. Infelizmente nosso sonho de que tivesse


uma porta ou uma janela que ela pudesse destravar não se
realizou. Na adrenalina de um encontro proibido, de um
amor ilegal, o vigia trancou tudo e checou tudo. Invadir pelo
telhado como das outras vezes era inviável, o famoso
tampão do sótão estava chaveado. O único jeito era pelo
estacionamento.
Eles teriam que transar no estacionamento. Essa era
a verdadeira Missão Impossível de Fulana de Tal, transar no
estacionamento. O encontro era meia-noite, “depois que ela
saísse do colégio”. Nós teríamos que pular um muro no
outro lado do quarteirão, passarmos por dois telhados, uma
chaminé de churrasqueira, mais um telhado e então
aguardarmos o momento certo, no muro do
estacionamento.
Não tinha como saber que hora que ela conseguiria
deixar a ponto de bala, louco, tarado, disposto a realizar a
Fantasia Sexual de Fulana de Tal de transar num
estacionamento escuro e vazio. Tínhamos que ficar de
plantão, pacientemente. E o troço demorou pra caralho.
Paciência é um negócio que não tenho e quando o espectro
do tédio começou a se aproximar acabei sugerindo um
joguinho. Ir, de telhado em telhado, de muro em muro, o
mais longe que pudesse. Primeiro foi Vini, depois, Sérgio,
Fábio, Jean e eu. O vencedor foi Jean, que percorreu o mais
longo e difícil caminho.
Gastamos quase uma hora e meia nessa palhaçada e
nada da Fulana e seu love aparecerem. Fizemos então outro
joguinho. Percorrer o Caminho de São Jean no menos tempo
possível. Esse foi divertido, foi muuuito divertido. Além de
fazer o trajeto o mais rápido possível, o cara ainda tem que
se ligar em não cair nem despertar a atenção de ninguém.
Combinamos de um dia fazer um campeonato organizado.
Já era mais de três da manhã quando Sérgio e vini que
estavam de butuca no muro ouviram um barulho de chaves
abrindo uma porta pesada. Jean ainda tava “correndo” em
nosso jogo.
- Volta cara! Volta logo que tá na hora

200
Manual Prático da Delinquência Juvenil

A cena era engraçada. Nunca vi alguém agarrar


alguém tão desajeitadamente. O cara tava todo errado,
descabelado, a farda toda aberta, as calças semiarriadas e
agarrava ela de um jeito que parecia um gorila querendo
perder a virgindade.
- Será que ela ainda acha ele bonitinho?
Não teve como segurar as gargalhadas. Tivemos que
respirar fundo e parar de rir pra nos mexermos. O casal se
escorou na parede, ela tirou as roupas dele da cintura pra
cima e jogou-se no chão. Era a hora. Saltamos todos e
corremos pisando macio no chão. Tínhamos deixado nossos
calçados no muro pra corrermos silenciosamente.
Estávamos relaxados por causa do jogo, mas foi só
entrar dentro do recinto que bateu a real dos riscos que
estávamos correndo. O meu coração disparou, quase que
tive que sair correndo atrás dele. Fábio era o que mais
conhecia o terreno e foi na frente em direção à cantina.
Mostrou a todos que os salgadinhos e lanches ficavam em
dois lugares, em cima do balcão, que seriam os primeiros a
serem ingeridos no dia seguinte e no freezer, que eram os
que seria aquecidos no microondas pra serem servidos mais
tarde. Eu, Sérgio e Vini nos encarregamos do freezes
enquanto Jean & Fábio barbarizavam os outros. Estávamos
muito cabreiros, afinal só Fábio conhecia as manhas, em
poucos instantes todos estavam nervosos. Eu olhava pros
outros e notava que todos estavam com as mão tremendo.
Sérgio nem conseguia pegar nos estiletes direito.
- Ô seu monstro, deixe quieto, fica ali no canto cuidando se
tá tudo certo e deixa a gente fazer isso na boa.
Levamos quinze minutos pra terminar tudo. Os
bilhetes com as frases foram todos colocados. E nã eram só
frases, tinham uns desenhos do Sérgio e umas figuras de
umas galinhas cagando.
Você faz um cursinho bom, mas existem outras
pessoas lá fora. Você quer se preparar pra competir com
quem? Você não está entendendo nada. Voce sabe que a
grana pra uma pessoa aprender inglês paga a alfabetização
de dez? Você está bem instalado, mas pessoas moram nas

201
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ruas. Você não entendeu nada, isso deve ser maravilhoso.


Na hora que nos reunimos pra sair o inusitado fez um
gol contra. O vigia entrou fechando a braguilha com fulana
pendurada no pescoço tentando convencê-lo a ficarem um
pouco mais lá fora.
- Puta que o pariu! O cara fechou a porta. – sentenciou
Fábio, que estava agachado espiando na frente. Parece que
o chão sumiu de nossos pés. Esperamos ansiosos um
tempão. Totalmente cagados, nos considerávamos presos,
expostos e ridicularizados publicamente.
Jean, que estava ao lado do Sérgio, ainda conseguiu
tirar onda da situação sussurrando.
- Pessoal, que ninguém se cague por aqui, senão o cara nos
acha pelo cheiro.
O Vini teve que apertar o nariz pra não rir e ferrar
com tudo. Então recebemos o sinal definitivo da Deusa de
que o humor salvará o mundo. Fulana de tal foi carregada
pelo vigia até o banheiro. Passou bem pertinho de nós e não
nos viu. Entraram no banheiro e em cinco minutos ela saiu
rindo e trancando ele lá dentro e com o molho de chaves na
mão. Correu e abriu a porta que dava para o
estacionamento.
- Corram seus moleques!
Saímos todos rindo. Ela fechou a porta e eu comentei com
Jean.
- Essa é das nossas.
Saímos tão felizes que nem cabíamos em nós. Ainda
jogamos um pouco mais nosso esporte noturno e proibido.
Retalharam o espaço? Pra nós é tudo liso, plano e infinito.
Não reconhecemos as cercas embandeiradas que separam
quintais.

Agora é Proibido Pensar em Estéreo? - (ataque trinta


e quatro)

202
Manual Prático da Delinquência Juvenil

A dança do acaso é uma dança muito massa. Andar


por aí à deriva, com o pensamento à deriva, totalmente à
mercê do ócio é o céu. Sempre acabam pintando situações
ou projetos de situações. Estamos vivendo nuns dias onde
se vangloria demais a produtividade e a eficiência. A
Batalha Cega pra fazer Mais & Melhor em menos tempo. Um
cotidiano em que se vive em concorrência contra tudo e
contra todos e que cada migalha conquistada carrega o
peso de ter sido conquistada às custas de derrotados que
ficaram sem pães inteiros. Em resumo: uma Loucura
Planetária, precisamos recuperar a Cultura do Ócio.
Numa dessas minhas tentativas de Religamento com
o Ócio me deparei com o inesperado. Estava este
delinqüente que vos escreve voltando dos trabalhos
forçados em pleno domingo quando chegando perto do
terminal tubo me deparei com a polícia dando geral numa
gurizada. Entrei no terminal e eles entraram logo depois.
Pensei: se safaram. O ônibus ainda demorou pra caralho e
deu pra ouvir a conversa deles.
Os caras eram crentes e só aí que me liguei que as
camisetas que eles usavam eram de cantores e bandas de
rap estilo gospel. Os caras não tinham nada a ver, tomaram
na tarraqueta só por causa do visual, das aparências que
sempre enganam. E os Garotos Fardados tinham sido
ignorantes, eu vi, já chegaram empurrando contra a parede.
Quando cheguei no PorãodoBoqueirão e deixei os
piás a par do que tinha acontecido tive mais uma surpresa,
mais um encontro com o inesperado. Jean abriu uns olhão
desse tamanho quando ouviu o relato.
- Cara, é isso!
- Isso o quê, seu porra?
- Esse é o Jogo Proibido que eu tava querendo bolar.
- O quê que você tá viajando, cara?
O paunocú tá lendo o livro Provos, da Coleção
Baderna, na nóia de nosso famigerado Natal Delinquente e
estava numas de ressucitar o Projeto Marihu.

203
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Queria fazer alguma coisa desse naipe, tá ligado?


- Projeto Marihu?? – Fabio tava de cara, nunca tinha ouvido
falar.
- Que porra é isso? – Vini tava indiferente
- Acordem, quando é que vocês vão acordar? – Sergio sem
comentários.
- Putz, fodeo! – Eu, jubileando e já sabendo que lá vinha
mais uma idéia/cagada.
Jean estava propondo investirmos nessa parada de
provocar as autoridades. Tipo cama elástica, fazer o coice
delas voltar em dobro. Vamos cuspir de volta o lixo em cima
de vocês.
- Mas munidos de humor. Vamos tirar sarro da cara desses
filhos de uma puta.
- Tá Jean, a intenção é boa, mas fala de uma vez qual é o
plano.
- Seremos os Levadores de Atraque Compulsivos.
- Que caralho você quer dizer com isso?
- Saca só: compramos fumo de enrolar, tipo Trevo ou um
outro qualquer e enrolamos com Colomy que nem baseado.
Então nos vestimos de uma maneira descaradamente
bandeirosa. Vamos para um lugar bem sujeira e Fumamos &
Gesticulamos & Prensamos que nem fumando bégui. É só
não estar premiado e ter todos os documentos em cima que
saímos numa boa.
- É perigoso, mas de repente pode até dar certo.
O plano do Jean era ambicioso. O plano do Jean era
chutar o pau do barraco e passar a noite levando atraques e
decretar aquele dia como o Dia Sagrado de Levar Atraques.
- Tipo assim, toda a madrugada do dia oito é Madrugada de
atraque.
Acabamos topando a parada mesmo sabendo dos
riscos de os caras se indignarem e plantarem provas em
nós. Se fôssemos revistados pelos mesmos cidadãos com

204
Manual Prático da Delinquência Juvenil

certeza nos foderíamos. Jean estava obcecado, enquanto


botava pilha pra que preparássemos uns papéis com frases
pra guardarmos o fumo, ia de tempo em tempos ao orelhão
do outro lado da avenida pra tentar convencer algum amigo
de carro a fazer o carreto dos Delinqüentes. Foi que acabou
convencendo o velho Társis de sempre, quase um
Delinqüente.
Nos papéis que serviriam pra guardar o tabaco que
Ozômi encontrariam na geral escrevemos a seguinte frase:
“Na natureza não existem leis, apenas hábitos.” Foi uma
ação bolada às pressas, sem grandes planejamentos,
Combustão Espontânea. Onze e meia Társis buzinou na
frente do porão e saímos todos Ansiosos & Nervosos. Sérgio
ligou o “Tô Fora!”
- Fico esperando vocês no carro com o Társis.
O primeiro ponto quente escolhido foi na frente de
uma igreja. Tinha uma viatura não muito longe dali. Só que
quebramos a cara, ficamos ali fumando por mais de uma
hora e ninguém nos denunciou. Onde estão os cagüetas
dessa cidade? Se fosse maconha mesmo, garanto que não
daria pra fumar meio baseado e os Porcos já apareceriam.
Fábio ficou tão indignado que pegou seu pincel atômico e a
rabiscou a frente da igreja todinha com frases
esculhambando o cristianismo.
- Não tem jeito, tem que ser no centro ou então num lugar
mais movimentado.
Topamos todos, mas no fundo eu me sentia como se
estivesse indo pra uma missão suicida. Mas tava tão
revoltado por ter passado o fim de semana trabalhando que
mandei tudo se foder. Escolhemos o segundo ponto quente
ao acaso. Olha o acaso aí de novo geeente! Dessa vez a
chapa foi mais quente.
Jean escroteou e começou a enrolar um
descaradamente. Tinha um Porco na esquina, a uns
cinqüenta metros. Foi Jean acender, dar dois pegas e passar
pra mim que o sujeito veio correndinho. Já chegou falando
no rádio e chamando duas viaturas. Aí eu pensei: o cara tá
chamando reforços, estamos podendo. O cagão ainda

205
Manual Prático da Delinquência Juvenil

esperou os outros chegarem pra dar o atraque propriamente


dito.
Vinícius tratou logo de disparar sua metralhadora
persuasiva, quando as patrulhas chegaram o policial já tava
ligado de que se tratava apenas de tabaco. Tínhamos
entregado todos os “baseados” a ele. O cara ficou
pateticamente constrangido ao ponto do Vinícius chegar ao
cúmulo de sentir pena. Acabou que levamos um puta
sermão do sujeito que se dizia Sargento da Polícia Militar.
- Vocês estão de brincadeirinha e saibam que estamos aqui
num trabalho sério, não vamos tolerar piás pançudos
prejudicando nossas operações, estamos combinados?
Quando saímos fora seguramos nossas risadas por
um quarteirão e meio e depois explodimos. Droga nenhuma
teria surtido um efeito tão hilariante. Quando chegamos no
carro tiramos altas ondas do Sérgio.
- Seu boiolão, perdeu altas performances.
O terceiro ponto foi numa região onde tinham
diversas festas e tal, altamente movimentado. Muito
movimento, muita negadinha bêbada na saída da balada e
uma presença policial quase ostensiva. Confiantes que
estávamos depois do sucesso inicial, ninguém se preocupou
com os riscos, exceto Vini.
- Galera, eu acho que tá sujo, é melhor deixarmos quieto.
- Vai amarelar agora, Ronaldinho?
- É tua primeira vez queridinha?
Era na frente de uma farmácia. Tinha gente passando
toda hora. Sérgio dessa vez ficou fingindo que conversava
com alguém num orelhão pra poder assistir. Jean naquela
noite parecia possuído por Robert Jasper Grootveld,
começou a enrolar um desavergonhadamente. Quando
começamos a fumar não demorou a aparecerem uns
malucos querendo dar uns peguinhas.
Foi engraçado, os caras tragavam e faziam altas
caretas.

206
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Essa porra é fumo normal!


Então o Profeta do Caos Jeanzinho Pierrinho soltou
um discurso inflamado a favor dos Distúrbios Cotidianos e
da necessidade de quebrar a rotina, romper com as
correntes da aparência, fazer coisas que fujam da
normalidade da vida numa metrópole. O viadinho nem tocou
no assunto de provocarmos as autoridades. E não é que
começou a se formar uma pequena multidão de fumantes
de falsos baseados. Fazia uma cara que u não me divertia
tanto, foi muito engraçado, devido ao discurso do Jean a
galera aderiu à causa sem nem ao menos compreender do
que se tratava.
Jean parecia chapado de tabaco ou possuído por
alguma entidade cósmica.
- Vamos jogar! Tó uma seda pra você, pra você e pra você.
Peguem aqui o fumo. Vini, passa o fumo pra eles. A meta é
ver quem consegue enrolar o baseado primeiro, isso é a
primeira etapa. Depois é quem fuma primeiro. Se restarem
dois... fazem um duelo.
Claro que quase ninguém topou, só quatro malucos.
Só que Jean insistiu que os outros fizessem uma roda ao
redor. Um troço chamativo pra caralho. Nós continuamos
fumando nossos falsos baseados sossegadamente.
Foi muito louco. Nessa hora nem queríamos mais
levar atraque, foda-se o atraque, estava massa. Mas os
filhos da puta sabem ser inconvenientes, chegaram bem na
hora do duelo entre os dois vencedores. Foi inevitável,
chegaram junto, duros e diretos em cima de Jean. O
Reverendo do Caos. Deram uma geral em todos e só
acharam tabaco, mas encasquetaram com as frases.
Começaram a falar grosso e baixar o nível da conversa
dizendo que aquilo era um desacato à autoridade e apologia
à contravenção.
Os manezões dos participantes do jogo sumiram e só
ficou Jean nas mãos das Forças Imperiais. Nos sentimos na
obrigação de dar uma força e deixamos apenas o Sergio de
fora pro caso de precisarmos de algum contato externo. Jean
está de rolo com uma mina que faz Direito na Federal e

207
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Sergio ligou pra ela. Nos encontrou uma hora depois na


vigésima-não-sei-que-lá DP. A porra da DP tava lotada, o
ambiente nervoso. O Delegado nos "atendeu" totalmente
sem paciência e munido de toda a intolerância da face
desse planeta que só é azul pra quem vê de fora.
Foi um bate boca do cacete e o lazarento insistia no
lançe do desacato e da apologia. A mina do Jean ligou pro
pai dela pra pegar umas dicas e por fim o Delegado decidiu
nos liberar sem sermos fichados. Mas com uma condição,
que ganhássemos um pequeno castigo. Humilhante castigo,
diga-se de passagem. Aceitamos humildemente devido a
nosso tradicional objetivo de nunca sermos pegos.
O castigo: fazer uma faxina completa no
estabelecimento.
Jean e Vinicius tiveram que limpar o pátio, bituca por
bituca de cigarro, todas as palhas e folhas secas visíveis a
olho nú. Eu e Fabio fomos jogados no banheiros, cheios de
vasos com barros de bosta nas beradas, munidos apenas de
um pano, um balde e um sabão comum. Limpar tudo, deixar
brilhando... e não reclamar. Fizemos tudo em silêncio.
Distantes, como se não tivéssemos em nossos corpos.
Funcionou. Cinco da manhã estávamos nas ruas, com nosso
ódio pelas Autoridades Instituídas absolutamente renovado.
Eles podem até pensar que venceram uma batalha, mas a
guerra ficará bem pior pro lado deles, podes crer que vai.
Pois o castigo não funcionou, saímos de lá acreditando ainda
mais no nosso mote:
Na natureza não existem leis, apenas hábitos.

Quem Inventou O Trabalho Não Tinha O Que Fazer -


(ataque trinta e cinco)

Meu trampo tá foda pra caralho. Fim de ano, prazos


vencendo, planilhas de produtividade, chefes querendo
fazer média com seus superiores, enfim, sou um soldado
lutando em uma guerra que não é minha. Só que minha
indignação com o trabalho vai além do fato de que agora
venho me ferrando. Simplesmente não concordo com o

208
Manual Prático da Delinquência Juvenil

culto ao trabalho. A dicotomia entre trabalhar para viver ou


viver para trabalhar não existe.
Não existe vida, apenas sobrevivência. Ainda mais
que o capitalismo agonizante acaba sistematicamente com
os postos de trabalho e os poucos felizardos tem que
trabalhar dobrado pra manter as taxas de lucro e a
competitividade. Se não estamos vivendo a era mais
paradoxal da civilização humana é porque não entendi porra
nenhuma do que está escrito nos livros de história.
Nas últimas semanas até bem mais tarde todos os
dias, sábados e domingos incluídos. Numa das vezes que
cheguei tarde ao porão encontrei Fábio acordado com uma
charuto aceso.
- Ari, tive uma idéia pra você extravasar essa tua indignação
com o trabalho.
- Fala, Monstro.
- Mais uma encenação do nosso teatro secreto.
- Prossiga Gerald Thomas do Boqueirão.
- A gente encena a parada em algum bi-articulado de
manhã cedo, quando o povo tá indo trampar. Cada um nós
se veste como um jovem e bem sucedido executivo. Bem
arrumado, cabelo molhado e... bêbado.
- Bêbado?
- Sim, as pessoas são acostumadas a ver bêbados
desarrumados ou maltrapilhos, já pessoas bem vestidas
causam um certo impacto, foge da normalidade.
- Tá, mas o que esses bebuns farão?
- Como todo alcoolizado inconveniente, ficará discursando
alto e falando mal do trabalho.
- Esculhambando o trabalho?
- Só! Minha idéia era encenarmos o manifesto contra o
trabalho subliminarmente. Semear memes, saca?
Uma boa idéia, escravizado como ando ultimamente,
topei no ato. O problema é que faltava um gran finale e a

209
Manual Prático da Delinquência Juvenil

idéia ficou pendente aguardando um complemento. Foi ai


que o chatzinho do Blog dos Delinqüentes revelou-se uma
grande ferramenta subversiva.
Coloquei o problema para a galerinha que faz SBI
(Subversão de Baixa Intensidade), tecla em horário de
expediente ou aula, e a solução acabou aparecendo. Um
doido anônimo que assina com reticências(...) sugeriu que
um padre, segurando uma garrafa de vinho, desse uma
palestra eloqüente sobre a origem do “dever de trabalhar”
contando como era a vida na época em que o ócio era uma
virtude.
Perfeito! Genial! Só faltava alguém pra fazer o papel
de padre. Nenhum de nós tem o biotipo pra fazer isso de
uma maneira decente. Foi Vinícius quem lembrou do Tiba,
que tinha participado do ataque dos transmissores quando o
filho da puta do Roberto Marinho morreu.
- Ele é careca, gordo e usa óculos, além de ser um completo
palhaço, é o cara certo pra essa missão.
Fábio entrou em contato com ele e o viado deu uma
de estrela, pediu uns dias pra pensar. Somente na sexta-
feira da semana passada que me ligou confirmando. Faltava
então só bolar o roteiro. Reli o Manifesto Contra o Trabalho
do Grupo Krisis e me encarreguei dessa parte. Era só marcar
a data.
Só que a data foi marcada altamente nas colchas. Foi
depois desse ultimo ataque, em plena madrugada de
Domingo pra Segunda, limpando a fedida privada da
vigésima e não-sei-que-mais Delegacia de Policia, que
encasquetei que teria que ser naquela manhã.
Procurem me entender: eu tinha trampado o fim de
semana inteiro e na noite, ao invés de estar dormindo e
descansando pra encarar a segunda feira, limpando merda
de batedor de carteira. Puta que o pariu! Alguma coisa tinha
que ser feita. Foi só nos vermos livres das correntes da lei
que já bati a real pros piás.
- Tem que ser hoje?
- Mas hoje Ari? Agente não programou nada, não falou nem

210
Manual Prático da Delinquência Juvenil

combinou com o Tiba nem nada...


- É, ainda tem as roupas e tal, não temos roupas de jovens
executivos nem nada, hoje vai ser foda.
- Foda- se o universo inteiro, tem que ser hoje, não vou
encarar aquele trampo de merda sem estar com a moral
alta.
- Vamos fazer o que então?
- Acordar o Tiba e convencer ele, você faz isso Vini. E você
Jean, liga no celular do Tarsis e convence ele a descolar
umas calças, uns ternos e uns sapatos do velho dele.
- Mas cara, São cinco e meia da manhã!
- Que se foda, eu já falei, tem que ser hoje nem que dê mais
merda do que já deu.
E assim foi feito. Sergio quis ficar de fora, só
observando o teatro no ônibus.Fiquei de cara com a
capacidade de articulação da pizada. Em tempo recorde
estávamos no porão do Boqueirão nos embecando. Sabe
que até fiquei bem de jovem executivo? Gel no cabelo e tal,
falta só a tendência a submissão pra Ter sucesso nessa área,
pelo menos eu acho.
Só que o Tiba ficou ainda mais redondinho no papel
de padre, usando nossa antiga batina de abençoar bancos.
Ainda mais que o cara é um palhaço que sabe entonar
direitinho o jeito de falar de um pároco. Nos cagávamos de
rir só no test-drive que fizemos no porão, seria foda
controlarmos as risadas dentro do ônibus. Tarsis deu um
ferro no seu carango, e escolhemos o Santa Cândida-Capão
Raso como palco de nosso espetáculo. Como eu era o mais
podre da turma implorei pra ser o primeiro. Embarquei logo
no terminal. Tínhamos parado antes num posto de gasolina
pra comprarmos aquelas garrafinhas de bolso estilosase um
litro de vinho pro Padre Tibúrçio.
Resolvemos beber mesmo pra coisa ficar mais
realista, bafo de pinga e aquela coisa toda. No aglomero de
embarque já fui apavorando. Tarsis ficou fazendo a logística,
quando eu desembarcasse entraria logo no carro, trocaria

211
Manual Prático da Delinquência Juvenil

de roupa e subiria no outro ponto pra curtir a cena. Fui bem


dramático no que me tocava. Foi entrar no latão que já
começei.
- Vocês sabem o que está acontecendo? Hein?! Vocês
sabem?
As pessoas me olhavam com cara de tédio.
- De cada dez pessoas somente duas conseguem um
trabalho decente! Hein?! Vocês sabem disso?
Silêncio geral nas proximidades e gestos de
reprovação.
- E esses dois sorteados tem que trabalhar pelos outros oito
pra manter a empresa em condição de ser competitiva.
Competitiva o caralho! Competição pra mim é o
Campeonato Brasileiro, é a Fórmula Um ou o Pré- Olímpico.
Alguns deram umas risadinhas sem graças e dois piazões
riram de verdade, acharam a parada engraçada.
- E quer saber mais? Tomei no cú feito galinha. É! Vocês dois
ai tão rindo mas é verdade. Trabalhei Sábado, Domingo,
feriado, todo dia até as dez e sabe o que eu ganhei?
- O quê cara? Ficou rico? – Os dois piás tiravam onda.
- Não! Não fiquei rico! Quem nesse país fica rico
trabalhando? Sabe o que eu ganhei? Quer mesmo saber o
que eu ganhei? Um par de chifres e um ponta pé na bunda
da esposa.
Aí as risadas foram meio que generalizadas, umas
disfarçadas outras nem tanto. Falei isso e dei o sinal pra
descer. No mesmo ponto que desci subiu o Fábio pra fazer a
sua parte. No caso dele pegou uma úlcera nervosa por
causa da obsessiva dedicação ao trabalho e depois de
algumas faltas por causa da doença ganhou como prêmio: a
conta.
Não consegui chegar a tempo pra ver a performance
dele. Sérgio, que me contou. A do Jean e do Vini consegui
assistir.
Os caras foram fodas. Jean se dizia convertido pelo “o

212
Manual Prático da Delinquência Juvenil

mais importante é o amor do Jesus Cristo” e simplesmente


não suportava saber que cada mil reais que caía na sua
conta como saláriode administrador de empresas era as
custas de dezenas de seres humanos que passavam fome.
Não conseguia suportar aquilo e que a cachaça era o único
consolo, nem Deus era capaz de convencê-lo de que aquilo
era justo. Vinícius dizia trabalhar no mercado de ações e
esbravejava de bêbado que aquilo tudo era uma grande
falcatrua. Que milhões de pessoas tomam no cú de uma
hora para outra devido à paranóia de meia dúzia de
investidores.
- Nossa vida não vale nada, entenderam? Nossa vida não
vale nada!
Mesmo no improviso o cara foi perfeito, altamente
convincente. Então chegou o tão aguardado momento do
Padre Tibúrcio entrar em cena. E ele já chegou encarando
todo mundo, eu me partia de dar risidas no fundo do latão.
Se achegou perto de uma velhinha que estava de pé e deu
um senhor talagaço no vinho que carregava. A velhinha
arregalou os olhos.
- Porquê está olhando? Acha que é fácil ser padre nesse
mundo hipócrita.
- Não falei nada padre.
- Nem deve! Nem deve falar nada mesmo!
O silêncio no bi articulado foi sepulcral depois que ele
pronunciou esta frase.
- Deus sabe o que eu passo! Deus sabe o que eu passo! -
Seu olhar era de um alucinado, chapado do sangue de
Cristo.
- Eu sei o que fizeram com Cristo. Usaram sua mensagem
como uma ferramenta para meter medo. Pra enfraquecer o
ser humano.
Tava engraçado, mas eu pessoalmente nessa hora
pensei que a coisa ia desandar pra uns lados filosóficos. Só
que o Frei Tiba reagiu.
- Agora dizem que Deus morreu, agora o trabalho é um

213
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Deus. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. As coisas já foram


diferentes.
Emendou um sermão improvisado a respeito de
como era a vida antiganmente e evoluiu rapidamente,
ficando cada vez mais vermelho de nervoso (não sei como
diabos ele consegue aquilo) até chegar na merda de vida de
nossos dias, até que gritou:
- Cheeeeegaaa!!!!!!
Mas gritou alto mesmo, todo mundo olhou.
Aproveitando o Momento de Centro das Atenções e um
terminal tubo que se aproximava, tirou a batina. Ficou só de
cuecão e camisa regata branca e furada. Ridículo. Cômico.
Teve gente que riu, teve gente que baixou a cabeça e teve
gente que xingou. O Bi-Articulado parou e passamos pela
catraca do tudo nos rachando de dar risada.
Só que o cúmulo da coincidência aconteceu, junto
com a gente desceu um cara que tinha acompanhado toda a
parada e foi “convertido” pelo padre, justamente tinha
acontecido com ele aquilo que falei: perdeu a esposa e um
mês depois o emprego. Abraçou o padre chorando de
emoção.
- Tá na cara que vocês fizeram teatro, mas aliviou meu
sofrimento. Posso pagar mais umas bebidas pra vocês?
Eu estava podre de cansaço, tinha que estar no meu
trampo dentro de quinze minutos, só que sequencia de
eventos foi fulminante sobre mim. Mandei o Universo inteiro
se foder e fui com o cidadão e os piás beber e comemorar.
Jean que tem trampo fixo como eu, topou também.
Plena segunda-feira e eu chego no trabalho meio-dia
e bêbado. E feliz.
É pra botar pra fuder mesmo!!!!

Presepada no Presépio - (ataque trinta e seis)

No natal a hipocrisia capitalista manifesta-se em todo

214
Manual Prático da Delinquência Juvenil

o seu esplendor. A televisão é abarrotada por belíssimos


comerciais pregando o amor e a solidariedade, gastando- se
alguns é possível redimis a consciência do peso acumulado
de um ano inteiro de vistas grossas à injustiça social.
Jesus Cristo provavelmente é o sujeito cujas idéias
foram mais indevidamente apropriadas em toda a história
da raça humana. Não basta-se o cristianismo, que durante
dois mil anos alimentou uma cultura de culpa, fraqueza e
submissão, ainda “marcaram” seu nascimento na data de
uma festa pagão que nos dias de hoje celebra-se o
consumismo mais do que qualquer outra coisa.
Desde o inicio de novembro que demos inicio aos
debates pra decidirmos o que aprontar neste natal. A idéia
de distribuirmos presentes aos excluídos dos shopping
centers foi aprovada, mas nada, nunca, é definitivo. Eis que
aos quarenta e pouco do segundo tempo surge uma idéia
massa, vindo da mente insana de Antônio Silvino, um dos
cangaceiros de São Paulo:
Seqüestrar o menino Jesus de algum presépio.
Apresentei a idéia pros piás e a aprovação foi
imediata. Embora estando com o grupo reduzido, Vinícius &
Sérgio já picaram a mula em suas viagens de fim de ano,
resolvemos levar adiante a bagaça.
- Ari, o ideal seria os presépios de shoppings, a visibilidade é
maior – Fábio queria mesmo era apavorar.
- A visibilidade e os riscos, esqueceu que lá tem segurança
pra tudo quanto é lado e filmadoras registrando tudo?
- Realmente... tens razão.
Então contei a eles a técnica descoberta pelo
anark3a pra burlar as câmeras de segurança. É um troço
bem simples até. Tudo o que se precisa é uma daquelas
canetas com um laser vermelho que projeta um pontinho
luminoso a vários metros de distância. Aponta-se o laser
para a lente e tudo o que aparecerá no monitor na outra
ponta é um borrão vermelho.
- Genial! Massa saber disso.

215
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- É, mas mesmo assim acho arriscado agente fazer isso num


Shopping, não conseguiremos escapar dos seguranças.
Jean tinha razão. Depois da experiência frustrada
com a policia nossa cabreiriçe ganhou novos tons. Depois de
muita discussão optamos pela Velha & Boa periferia: os
shoppings populares dos bairros.
- Caralho! É isso mesmo Ari! É muito mais limpeza!
- E acho que nesse caso é o momento ideal pra gente usar
aquela técnica de provocar blecaute.
- Blecaute?
- Claro! A gente descobre a linha que fornece energia para o
shopping e provoca o apagão. - Sabe que não é uma má
idéia?
- Na hora que escureçer vamos lá, pegamos o pirralhinho e
deixamos sossegados nossas mensagens de indignação.
Com o plano mais ou menos arredondado tratamos
de verificar os aspectos práticos da operação.
Reduzidos a apenas três Delinquentes, pois Vini &
Sergio já picaram a mula em suas viagens de fim de ano,
seria muito foda provocarmos o blecaute e ainda capturar o
menino Jesus. Não teve jeito, tivemos que ligar para o
Marmita.
- E aí véio, você topa?
- Provocar um blecaute? Que pergunta mais besta, é óbvio
que eu topo, sempre imaginei fazer uma coisa dessa e com
uma “causa” ainda, ih, nem se fala!
Foi ele quem desenrolou os materiais necessários
para a sabotagem. A técnica, paesar dos imensos riscos à
vida de quem a executa da maneira errada, é até bem
simples. Se você jogar uma barra de ferro ou qualquer outro
tipo de metal nos fios de baixa-tensão, aqueles quatro que
ficam mais abaixo nos postes, fará com que abrir o fusível
no transformador mais próximo. Dá certo, é o jeito mais
fácil, mas se a parada tiver religamento automático você
quebrará a cara, só vai dar uma piscada e a luz voltará em

216
Manual Prático da Delinquência Juvenil

seguida. Regiões mais centralizadas ou de bairros burgueses


geralmente tem essas paradas de religamento automático.
O certo mesmo é jogar uma barra de ferro nos fios de
alta tensão, aí sim irá desarmar o disjuntor lá na subestação
da concessionária de energia e se o ferro ficar lá em cima,
que é o correto, os caras só vão poder normalizar o
fornecimento de energia depois de retirarem o ferro.
Escolhemos essa segunda opção, pois necessitaríamos de
tempo hábil.
Marmita, que faz bicos como eletricista e até já fez
um estágio na Copel, abraçou a causa apaixonadamente.
- Carinhas! Desencanem dessa idéia de que precisamos usar
barras de ferro muito pesadas. É massa, na hora que fechar
o curto circuito na alta-tensão ela não derreterá, mas é
muito foda jogar ela e acertar na primeira.
- Tá, seu monstro, e o que você sugere?
- Várias varetas.
- Como assim?
- Você sobe numa árvore próxima aos fios e mais alta que a
linha. A primeira vareta que você jogar vais dar um puta
xabú e desarmar o disjuntor da subestação. Geralmente
leva uns cinco segundos pra religar. Nesses cinco segundos
você joga mais umas duas. Te garanto que com umas dez
varetas de aço garantimos que o religador da subestação vá
a bloqueio e os caras terão que correr a linha pra descobrir
onde é o curto-circuito. No mínimo meia hora sem luz,
garantido.
- Ó a do cara, altos papos técnicos, de onde você manja isso
tudo?
- Falei que sempre quis fazer isso e quanto fiz estágio na
Copel dei um jeito de descobrir todas essas manhas. Mas
essa parada toda ainda tem um galho.
- Que galho?
- Esse ataque não dá pra ser feito em quatro pessoas. Tem
que ter mais gente pra coisa sair redondinha, se formos

217
Manual Prático da Delinquência Juvenil

pegos pode sujar e se eu passar o Natal em cana minha


mãe acho que morre de desgosto.
Marmita conseguiu então mais dois caras, amigos
dele de confiança. Eles cuidariam do blecaute enquanto eu
e os piás nos encarregaríamos do presépio. Já que
trabalharíamos no escuro, preparamos umas cartolinas com
frases e uma caralhada de panfletos anti-consumismo e
anti-cristianismo. Pena que Sergio viajou, tenho certeza que
ele faria altas piras. Marmita e os outros foram a mapear a
rede de distribuição de energia próximo ao Shopping
Popular do Capão Raso.
Saí do trabalho no sábado à tarde ansioso pra
caralho, por mais que confie no Marmita e tal, seria a
primeira vez que faríamos um ataque em que nem todas as
coisas dependeria só de nós. Sete da noite pegamos todos o
buzum carregando as varetas enroladas. Descemos próximo
ao shopping e fomos junto com os guris checar a tal árvore
de onde seriam lançados nossos mísseis inteligentes.
- É, realmente, vocês estão de parabéns, acharam uma
árvore na moral mesmo.
Nos despedimos e fomos pro alvo com nossas
mochilas abarrotadas de material subversivo. A merda é que
no horário de verão a noite custa a chegar e tivemos que
torrar nossos dinheiros bebendo cerveja. E os caras
demoraram pra cacete. Eu particularmente já estava quase
bêbado quando reparei que começou a cair uma chivinha
fina.
- Cara, se eu conheço bem aquele baixinho invocado ele vai
aproveitar o momento pra dar início às atividades.
Não deu nega, mal pagamos nossas contas e
escureceu tudo. Entre os gritos de folia e susto da multidão
estavam nossos gritos de euforia. Estávamos entrando no
presépio e começando a desenrolar as cartolinas quando o
inesperado fez um gol contra. A luz voltou. Caralho,
quaaaase fomos pegos em flagrante. Um senhora que
estava ao lado do presépio nos olhou desconfiada.
- O que vocês iriam fazer?

218
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Pegar uma vela, tem uma senhora na loja de calçados que


está passando mal por causa do escuro.
- Da próxima vez peçam que eu dou.
Devo confessar que ficamos todos desnorteados. Ou
o apagão foi uma puta coincidência ou os caras
fracassaram. Além do mais nem tínhamos visto as velas, as
coisas não seriam tão simples quanto imaginávamos. De
repente começamos a ficar pessimistas.
- É mano, acho que não vai ser dessa vez.
- Vamos lá encontrar os piás?
- Não, vamos esperar aqui pra ver o que acontece.
A cada minuto que passava ficávamos mais desbundados. O
Shopping já estava quase fechando quando novamente
escureceu tudo.
- É agora! Tem que ser agora!
- Calma! Relaxa e espera um pouco mais.
Passara-se dois eternos minutos enquanto a euforia
tomava conta de nossas almas. Chegamos perto do
presépio e a porra da velhinha estava lá. Tivemos que bolar
um plano B pra resolver o problema. Jean chegou perto dela
e com a entonação de voz mais desesperada da galáxia
soltou essa:
- Vem comigo e trás uma vela minha senhora, PELO AMOR
DE DEUS, venha comigo que tem gente passando mal ali na
frente.
A coitada caiu feito uma patinha. Apaguei as velas e
embolsei o menino em minha mochila enquanto o Fábio
estendia as cartolinas em pontos estratégicos e entupia
tudo com os panfletos. Tivemos que fazer tudo rapidinho no
cagaço de que alguém se ligasse nas velas apagadas. Em
um minutos estava tudo pronto e nós procurando Jean. Nos
encontramos no banheiro masculinos e tratamos de dar o
fora logo do local.
Foi só sairmos fora que encontramos o Marmita e os
piás correndo e suando feito uns desesperados.

219
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Galeeera, fomos vistos, vamos dar o fora dessa porra!


- Como foram vistos?
- Dá primeira vez que deu o apagão um senhor nos pegou
no flagra e tivemos que sumir e desbaratinar.
Mas o filho da puta ficou cuidando o lugar e esperou nós
subirmos na árvore pra começar a ameaçar a chamar a
polícia.
- E chamou!!! – O amigo dele estava realmente nervoso
- Então estão esperando o quê? Bóra daqui!
Esperamos escondidos atrás de um muro quarenta
minutos até a luz voltar, quando voltou não resistimos a
curiosidade e entramos no shoppings, mais calmos e com
um sorriso de orelha a orelha. Lá estava, no presépio, junto
com vários curiosos, o nosso cartaz:
Transformaram meu aniversário em símbolo do
consumismo? ME INCLUAM FORA DISSO!! TÔ FORA! TÔ
FORA!
Ainda chegamos perto e pegamos uns panfletos pra
despistar. Realmente, nesse dia o Senhor deve ter sentido
orgulho de suas ovelhinhas.
Amém.

Um Desconto de Natal - (ataque trinta e sete)

Essa é mais uma Fábula de Natal. Era uma vez cinco


piazinhos, muito bonitinhos quando bebês e muito
promissores em seus futuros. Certa noite o Destino
embebedou-se e ao voltar pra casa em meio a uma chuva
forte perdeu o registro dos cinco a essa altura quase
rapazes. Os coitadinhos foram largados à própria sorte e
foram felizes quase todas as vezes que puderam ser. Mas as
historinhas na verdade não acabam quando as pessoas
ficam felizes. Depois elas ficam tristes e algumas coisas
ruins também acontecem. Então elas tem que se dar por
conta que não é nada disso. Elas tem que se dar por conta

220
Manual Prático da Delinquência Juvenil

que é apenas mais uma historinha que começa.


Com um dos piazinhos esquecidos pelo destino,
agora chamado de Delinqüente, a história continuou num
domingo à tarde. Ele estava com alguns amiguinhos
diferentes, não aqueles outros quatro esquecidos pelo
destino e que agora também são chamados de
Delinqüentes, no Castelo Encantado do Consumo. O
consumo é um rei muito malvado, mas muito esperto. Vocês
não acreditam do que ele é capaz. Ele capturou todas as
brincadeiras. Para se divertir e brincar todos tem que ir em
seu Castelo Encantado do Consumo. Aí o Delinqüente saiu
do Castelo Encantado pra brincar de uma coisa que não
podia brincar lá dentro. O Rei Consumo anda meio brabo
com umas coisas que andam fazendo e que ele não não
gosta. O Rei consumo não deixa fazer lá dentro. Então o
Delinqüente estava brincando no lado de fora quando viu
oito outros meninos, todos discutindo entre eles. Alguns
pareciam brabos, mas tinha uns pareciam tristes. O rapaz
foi ver o que estava acontecendo e ficou triste também, pois
os outros oito meninos não podiam entrar no Castelo
Encantado do Consumo.
Mas eles foram espertos, fingiram que eram todos
irmãos e tentaram entrar no Castelo Encantado do Consumo
como se fossem uma Grande Família. Só que os Agentes do
Rei são muito mais malvados do que a gente pode imaginar
e não só os oito outros meninos não puderam entrar, como
ainda o Delinqüente esquecido pelo destino também ficou
de fora e se perdeu de seus outros amigos.
Essa história, parece que está na cara, não poderia
terminar assim. Então ele contou isso pra um monte de
gente e um monte de gente tratou de dar uma bela lição no
Malvado Rei Consumo e as regras muito feias pra se entrar
no Castelo Encantado do Consumo. E como somos agora
todos espertos, vamos dormir, pra que a historinha acabe
com nossos heróis felizes.
Enquanto as crianças dormem, posso dizer que essa
história praticamente aconteceu comigo. Como não estavam
deixando fumar dentro do Shopping (O que fazia eu lá
dentro? Fala sério) saí pra fazer um fumaçê do lado de fora.

221
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Foi quando vi os oito tais piás Indignados & Chateados por


não poderem entrar. Quando cheguei perto vi que estavam
planejando estratégias pra driblar os seguranças. Planejar
estratégias o caralho, combinei com eles que dois seriam
meus irmãos e o resto amigos e tudo certo, entraríamos
naquela porra de uma jeito ou de outro.
Quebramos a cara e eu só não fiquei de fora com
eles, como na fábula de natal, por que eles foram gente boa
e desbaratinaram em tempo recorde. Jurei vingança, dessa
vez igualzinho que nem na fábula. O Menino Delinqüente
chamou os outros quatro coleguinhas esquecidos pelo
destino e planejaram uma vingança. Se oRei Consumo
continuasse fazendo aquilo, o Castelo do Consumo deixaria
de ser Encantado e para um monte de gente não estava
mesmo sendo Encantado. Os amiguinhos combinaram todos
um monte de gente e mostrar pro Rei consumo que dava
pra ser encantado do lado de fora do Castelo. Eles
mostraram que também sabiam ser tão espertos quanto
Malvado Rei Consumo.
Desde outubro, quando uma aparição chamada
Rogério Coaxo apareceu no Blog dos Delinqüentes que
tínhamos captado o meme pra nossa ação de natal. Trata-se
do seguinte, sem meios termos: vai-se até uma loja de
brinquedos portando um bloco de anotações. Finge-se que
está olhando os brinquedos pra presentear alguém, de
preferencia acompanhado de uma mina (uma barriga de
gravidez mata a pau) e anota o número de série, lote e tudo
o mais, assim como o e-mail ou serviço de zero oitocentos. E
o principal, se ligar no funcionamento dos brinquedos e
pensar no pior caso, ser macabro mesmo, imaginar que tal
peçinha ou não sei o quê, se soltou e machucou seu filho de
uma maneira muito quase grave. Nunca vá às vias de fato,
apenas insinue a possibilidade de uns escândalos. Então use
de toda a sua dramaticidade nos e-mails.
Começamos em outubro e lá pelo dia vinte de
novembro começaram a chegar brinquedos irados pelo
correio. Uma coisa de louco, uma coisa de outro mundo,
algo como forjar milagres, Rogério Coaxo deveria ser
canonizado. É desses santos que precisamos.

222
Manual Prático da Delinquência Juvenil

A idéia inicial era fazermos um Potlatch de Natal,


entrarmos numa loja de departamentos e darmos os
brinquedos de graça pras crianças que estavam lá dentro
com os pais, mas a coisa toda estava ainda muito palha. Foi
o episódio dos meninos barrados no shopping ,mais as
viagens do Jean lendo o Provos e pirando em provocar as
autoridades que bolamos o Natal Delinqüente.
Os Meninos Delinqüentes não estavam sozinhos
nessa, apesar de esqueçidos pelo destino eles tinham um
estranho super poder. É, até os esquecidos pelo destino tem
seus super poderes. Eles tinham a Rede Mágica do
Inesperado. Eles convidaram todas as pessoas que puderam
pela Rede Mágica e várias pessoas legais toparam participar
de sua brincadeira. Fazer com que as coisas fossem
encantadas do lado de fora do Castelo era muito legal.
Essa parte da realidade já é uma adulteração
grosseira da fábula pois muita gente achou legal e pouca
mexeu suas bundas gordas. Depois de um quebra pau dos
diabos convenci os piás a participarem de uma reunião
aberta com o povo da lista de discussão dos Flash Mobs e a
galera convocada pelo CMI e o caralho a quatro. Resumo:
fora nós e uns amigos nossos, apareceram três neguinhos. E
foi que não se chegou em nenhum acordo e a coisa, pelo
menos na hora, teve que ser cancelada. Decidimos tocar no
estilo foda-se mesmo.
Mas o Rei Consumo é muito esperto, não tem como
lidar com ele sem ficar muito, muito ligado. E ele fez com
que a maioria daquelas pessoas que acharam a brincadeira
legal ficasse de fora. Mas eles não desistiram, tongos eles
não é mesmo?
Depois da sujeira que rolou na delegacia, Sérgio
simplesmente picou a mula e Vinícius, não sei se é verdade,
tinha que estar com os véios em sua cidade ainda essa
semana. Ficamos em três. Eu, Jean & Fabio. Os presentes
estavam na mão. A fantasia de papai noel era fácil, era pra
ser mendigo mesmo, o rolo era encontrarmos a criançada,
isso eu já sabia de antemão. Domingo à tarde saímos em
missão.

223
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O ponto fraco de nosso plano não tardou em se


manifestar. Aqueles meninos que ficam pedindo esmola ou
vendendo adesivos e chicletes na rua XV não estavam lá. Os
que ficam nos terminais de ônibus idem. Foi a mina que
estava com Jean na noite da reunião que deu a idéia. Chutar
o pau do barraco e sair nas praças procurando aqueles
neguinhos cheradores de cola esquecidos pelo tempo, pra
eles não tem a domingo. Era a única saída, mas decidimos
que eu iria pra frente do shopping, esperar as coisas
acontecerem naturalmente e eles sairiam atrás dos junkies.
Acreditem, em Curitiba ser barrado na entrada de um
shopping anda acontecendo naturalmente.
Esperei um tempão, comprei uma latinha de cerveja,
tomei toda e comprei outra, perdi a noção do tempo até que
o tão esperado inesperado aconteceu. Os seguranças
conduzindo aos berros e caras feias, três meninos. Para
servir como uma espécie de castigo para mim, eram todos
Coxas Brancas. Saíram resmungando e fui atrás. Eram uns
marmanjinhos de na faixa dos oito ou nove, mas eles
podiam vender os brinquedos e adquir seus próprios
presentes. Toda cafagestiçe da parada poderia ser
contornada explicando pros caras, de uma maneira curta e
grossa, o que significava aquela atitude. Convenci os caras
Foi massa, por que aí a demora do Jean & do Fábio se
converteu em vantagem a meu favor, tive tempo de alugar
os piás pra caralho. No fim eles já tavam ansiosos que mais
alguém fosse barrado pra montar as barricadas. Só que
tiveram que experimentar o mesmo gosto amargo que eu,
esperamos um tempão, eu já tava achando que Jean & Fabio
estavam paunocuzeando. Resolvi torrar os últimos reais
comprando mais uma bera e uma Cini de dois litros pros
pirralhos Coxas lazarentos. Chegando de volta na entrada
do shopping apresentei O Inesperado pros Debutantes da
Subversão. Cinco meninos menores sendo barrados pelos
seguranças.
Os Meninos Delinqüentes do bem saíram em sua
jornada em busca de outras crianças mas não encontraram
ninguém para participar da brincadeira. Então dois deles
foram atrás dos Garotos Perdidos enquanto o Delinqüente,

224
Manual Prático da Delinquência Juvenil

nosso herói da fábula, foi pra frente do Castelo Encantado à


espera das crianças que não estavam do jeito que as regras
do Rei Consumo diziam que deveriam estar. Foi muito legal,
ele conheceu três meninos que foram expulsos de lá, mas
que apesar de ser vestirem de verde, eram do bem. O
Delinquente contou a eles direitinho o que estava
planejando e eles gostaram da brincadeira. Quando eles
estavam já ficando impacientes pela demora em apareçer
mais crianças uma Fada Madrinha de nome Éris fez com que
aparecessem mais cinco crianças. Yabadabadú!
De repente parece que todas as portas se abriram,
como se o universo desse o braço a torçer, Jean & Fábio
finalmente deram as caras, com mais quatro. Eram junkie
boys da maneira em que encontramos no Aurélio. Fábio já
chegou se desculpando.
- Ari, relaxa aí, que nós demoramos por que estávamos
fazendo a cabeça dos caras. Ari, os caras se ligaram na
parada, Ari de Éris, salvamos o dia dos caras.
Estávamos empolgados, Jean imediatamente
desapareceu dentro do Shopping. Enquanto eu e os três
coxas brancas preparávamos as cartolinas. Fábio se alugou
de sair convencer outras pessoas que estavam por ali na
frente a participarem da palhaçada. E não é que teve um
grupinho de casais de namorados que topou? Com tudo
pronto fui dar toque pro Jean no banheiro combinado.
Todos preparam os brinquedos animados. Naquela
hora, todos os meninos que estavam lá se deram por conta
que estavam recuperando, nem que fosse naquele
momento, o Encanto a tanto tempo capturado pelo Malvado
Rei Consumo.
Quando voltei foi o auge, cada meninos estava
segurando uma cartolina enrolada, Jean entregou-me uma e
disparamos nosso arsenal altamente constrangedor pros
hipócritas. Todos os cartazes tinham a seguinte frase escrita
em caracteres toscos:
QUEM DIZER QUE O NATAL DO SHOPPING TAL, TÃO BONITO
NA PROPAGANDA, NÃO É PARA TODO MUNDO??

225
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Os primeiros instantes foram apoteóticos, os


segundos já foram de “cadê o Jean?”. Os seguranças do
Shopping Tal nos olhavam emputecidos e falavam no rádio
nervosamente. Naqueles instantes senti a gota de suor mais
marcante da minha biografia, pra sempre vou lembrar dela.
Estava com ela quando vi outra cena histórica. Um Papai
Noel maltrapilho sendo carregado por dois seguranças. O
viado saiu do banheiro “travestido de Papai Noel”
cambaleando feito um bêbado com um saco de lixo cheio
nas costas. Uma personagem impossível dentro de um
shopping center, se eu estivesse trampando de segurança,
inserido na realidade consensual, não toleraria tal ousadia
Então o menino sorteado para fazer o papel de Papai
Noel surgiu, conduzidos por dois Agentes do Rei que,
comovidos, resolveram contribuir pra que a Brincadeira
ficasse ainda mais divertida. A criançada estava com
cartazes com frases bonitas e deram três urras e fizeram
uma fila pra ganhar seus presentes. Sim! Na brincadeira
bolada pelos Delinqüentes Esquecidos Pelo Destino tinham
brinquedos. Sem dúvida, o encanto estava temporariamente
recuperado das mãos do Rei Consumo.
Jean depois de ter encarnado Robert Jasper Grootvelt
tem se demonstrado um ator mais do que genial,
intergalático. Quando os seguranças o soltaram, jogou-se no
chão e levantou-se lentamente, segurando o saco de lixo e
encarando o único segurança que ficou. Quando virou os
olhos pra Galera Excluída todos baixaram os cartazes e
fizeram uma fila. Os Coxas Brancas demonstraram que para
alguma coisa torcedores do Coritiba servem, subversão,
como todo ser humano aliás, mas vamos dar uma chance
pros caras: apavoraram na fila:
- Urrúúúú! Vamos ganhar presente! Ôou segurança
bombado aí, vem pra fila pra ganhar alguma coisa!
- Garanto que é atleticano, vem cá que aqui você ganha!
E a gurizada ganhou os brinquedos, por mais que
fossem palhas, por mais que eles reciclassem e acabassem
dando pra seus irmãos mais novos, valeu pelo momento de
abrirem os presentes (pois caprichamos nos papéis de

226
Manual Prático da Delinquência Juvenil

presentes e nos laços), toda a galera de curioos olhando


naquela de “o que que é?” e “abre aí de uma vez!”. Massa
mesmo, só não mais massa porque Rei Consumo corcoveou.
O Malvado rei Consumo ficou muito bravo. Chamou
os Perigosos Gambés. Para acabar com aquela Brincadeira e
recuperar o Encanto para seu Castelo.
Estávamos viajando na alegria do pessoal quando
ouvimos as sirenes dos carros da polícia, o pessoal do
shopping não tolerou aquela palhaçada toda, mesmo do
lado de fora, alguma coisa os filhos de uma puta tinham que
fazer. O cagaço nos paralisou por uns dois vírgula trinta e
três segundos, então reagimos desesperadamente.
- Bóra galera, não tô afim de limpar banheiro
Os piás a princípio ficaram surpresos com nosso
susto, mas acabaram correndo. Nós três corremos muito
mais que todos, simplesmente sumimos de vista. A umas
troçentas quadras de distância do shopping nos socamos na
lanchonete de uns chineses, que é só o que tem no centro
de Curitiba e nos mocamos bem no fundo, atrás de uns
engradados de cerveja vazia. Pedimos um bera e a secamos
nervosamente, pedimos a segunda e secamos de novo,
agora relaxados e sorrindo. A terceira veio com gargalhadas
e acabamos a noite bêbados e felizes.
Os Meninos Delinqüentes saíram correndo do Castelo
Imediatamente e na fuga se perderam dos amiguinhos
novos, mas graças a Fada Madrinha Éris conseguiram
encontrar uma Caverna Mágica bem segura e após se
empanturrarem com o Liquido Maravilhoso viveram felizes
para o resto do dia.
Boa noite crianças.

Fuja Imediatamente: Fomos Descobertos! (A última


Dança) - (ataque trinta e oito)

Cagamos fora do penico. Nossos objetos de culto: o


Inesperado, a Dança do Acaso & a Rede de Coinscidências

227
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Cósmicas, que sempre jogaram no nosso time, fizeram um


gol contra. Ainda não sei ao certo que diabos está
acontecendo, só sei dizer que na quarta-feira à noite, lá
pelas dez horas da noite, enquanto estávamos eu o e o
Jubikão no porão, um Policial Civil bateu à porta.
- Gostaria de falar com Jean.
- Eles não está. Sobre o que seria?
- Sou Investigador da Polícia Civil.
Gelei. O Chão sumiu de meus pés.
- Investigador?
- Sim. E você, quem é? É amigo dele ou mora com ele?
- Não, sou amigo do Sergio e estou cuidando da casa
durante à noite enquanto eles todos estão viajando.
- Sabe me dizer onde Jean foi?
- Olha Seu Polícia, o Jean só conheço de vista, sou amigo do
Sergio mesmo, mas ouvi falar que ele saiu viajando de
carona por aí, parece que queria chegar até o Espírito Santo
ou coisa parecida. Mas não pode me dizer do que se trata?
- Temos uma denúncia de que ele anda participando de
umas badernas por aí.
- Badernas.
- Sim, uma pessoa que trabalhava numa churrascaria e
agora é segurança de um Shopping testemunhou dos casos
envolvendo este sujeito.
- Ah, tá, mas será que se trata do mesmo Jean, o cara é tão
sossegado.
- É o que estou investigando, vou deixar aqui meu cartão e
se tiver algum contato com ele diga que quermos conversar,
é importante.
Então o cara saiu prometendo voltar dentro de
alguns dias e fiquei só com meus pensamentos Perdidos &
Confusos & Temerosos,. Caralho, será que fomos
descobertos? Passei a noite inteira quebrando a cabeça.

228
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Essa história estava muitíssimo mal explicada. Que pessoa é


esse? Como sabia que o nome dele era Jean? Como achou
nosso endereço? Porque só o Jean? Tentei de todo o geito
entrar em contato com o cara sem sucesso algum.
N outro dia trabalhei tomado por uma paranóia
absurda. É foda a sensação de estar sendo seguindo,
investigado, monitorado. A impressão que eu tinha é que
cada pessoa que olhava pra mim na rua era um
investigados, um detetive ou um Agente da Conspiração
querendo me ferrar. Contei o ocorrido no Blog dos
Delinquentes e Jubyleu sugeriu que a coisa toda estav
totalmente sem lógica, tinha que ter cagüeta no meio.
Cagüeta, mas quem? Então começei a desconfiar de todo
mundo, de meus amigos mais chegados até meu chefe,
meu vizinho e o pessoal dos Flash Mobs.
À noite não fui dormir no porão. Aproveitei a deixa
pra realizar um sonho antigo: passar a noite na rua, junto
com os mendigos. Me lasquei por que justo nesta noite um
frio totalmente fora de época se abateu sobre o verão
Curitibano. Mnido de uma garrafa de 51 fui atrás dos
mendigos. A prefeitura correu com todos que dormiam no9
centro, tive que andar um montão e acabei encontrando os
colegas indigentes no Mercado Municipal próximo ao
Viaduto Capanema.
Fui bem recebido, não sei dizer se é porque os caras
são gente boa ou por causa do litro de 51, que foi secado
em tempo recorde. Foi uma noite legal, os cars me
emprestar papelão e folhas de jornal pra enfrentar o frio e
enquanto nos embebedávamos contamos altas histórias.
Inclusive um deles me contou algo inédito para minha
ignorância. A Revolta do Pente, que aconteceu nessa cidade
no ano de 1959. Por causa de um militar que comprou um
simples pente e começou a discutir com o lojista por causa
de uma nota fiscal começou um bateboca que acabou em
pancadaria com o militar indo a nocaute. Os curiosos
tomaram as dores do derrotado e começou um quebra-
quebra na loja que surpreendentemente se alastrou para as
lojas vizinhas e dentro de pouco tempo a praça Tiradentes
inteira virou um Caos anárquico. Tiveram que acionar o

229
Manual Prático da Delinquência Juvenil

exército para acalmar a turba e segundo o mendigo até


tanques de guerra ficaram de prontidão para o caso de as
coisas se complicarem ainda mais.
Noutro dia, de volta ao trampo, corri no Google pra
checar a veracidade da história e qual não foi minha
surpresa ao descobrir que sim, a coisa tinha mesmo
ocorrido. Fiquei feliz e orgulhoso de meu amigo mendigo. No
decorrer do cagar dos pássaros consegui contato com Jean.
- O quê Ari? Me explica melhor essa história!
- Não tem mais o que explicar, só falamos isso mesmo,
simplesmente não sei te dizer o que está acontecendo.
- Puta que o pariu Ari, mas por que só eu?
- Não sei, cara! Eu não sei!
- Ari, você é o único que está aí em Curita, vai ter que ser
você quem vai limpar nossa barra.
- Limpar a barra? De que jeito cara? A única atitude que
tomei por enquanto foi contar o problema pro pessoal mais
chegado da Internet e sacar as sugestões deles.
- Caralho, Ari! Nem tava me lembrando disso! Ainda essa
porra de blog na Internet. Seu Viado! Desde o começo eu te
avisava que essa coisa de ficar de ficar divulgando nossas
paradas ainda ia dar merda.
- Relaxa cara, o pessoal deu altas sugestões.
- Que sugestões?
- Sumir, desaparecer, para de postar no Blog dos
Delinquentes e passar a postar tudo como Timóteo Pinto,
um condivíduo, um nome coletivo que criamos.
- Tá, beleza, só que você vai ter que dar um jeito de agente
sumir desse endereço chave de cadeia aí.
- Jeanzinho de Éris, o que tu tens em mente.
- Infelizmente tá só você aí e vai é aquela velha história: “Já
que não tem tu vai tu mesmo”. Vais ter que arrumar um
novo mocó e transferir todas as nossas tralhas pra lá. Mas
veja bem Ari, tens que ser discreto, pode ser que tenha

230
Manual Prático da Delinquência Juvenil

alguém aí vigiando essa porra de porão o tempo todo.


Procure fazer a mudança na night e por favor, seja discreto!
Jean & Fabio sempre foram os mais paranóicos e
desta vez contavam comigo em sua neurose. Sem saber o
que fazer nem pra onde ir liguei pro Marmita, o único nome
que me ocorreu, pois o Társis estava viajando também. Em
Curitiba o pessoal tem o costume de desaparecer da cidade
nos feriados prolongados e férias. O baixinho, sempre
desenrolado, me arrumou uma meia água no sitio Cercado
pra deixarmos nossas coisas temporariamente. Bolamos
então uma operação quase ridícula de tão paranóica.
Atacarmos nós mesmos. Como ultimo ataque a coisa chega
até a ser irônica. Saquem só o que planejamos. Fazer a
mudança de madrugada, no escuro, como se estivéssemos
roubando o porão. Para o caso de Jean estar certo, se tiver
alguém de campana na frente do porão, seria mesmo a
coisa mais correta a fazer.
- Mas veja bem Ari, se formos pegos vai ser muito foda você
explicar pro delegado que estavas roubando você mesmo.
Além de ser uma comédia do cacete, as coisa poderão se
complicar ainda mais pro lado de vocês.
- Pro lado nosso? Esqueceu que você também está nessa?
Rapaz, você participou de vários ataques, és um
Delinqüente também seu jagüar!
- E o pior é que é mesmo.
Fizemos tudo em tempo recorde. Marmita conseguiu
de novo aquele caminhãzinho que usamos pra abandonar o
artefato alienígena auto estrada e duas da manhã
estacionamos na rua de trás a umas quatro quadras de
distância. No dia em que caçamos ratazanas pra atacar o
Vegan radical mala sem alça, ataque que acabou não
acontecendo, ficamos manjando de todos os terrenos
baldios e prédios abando nados das redondezes.
- Marmita, olha só meu plano. A gente trás as coisas pelo
terreno baldio até esse armazém vazio, depois leva por esse
outro terreno baldio e deixa tudo atrás do muro. Então
faremos um esforço dos diabos mas em um minuto tudo
tem que estar em cima do caminhão.

231
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Beleza então...
Chegando perto, pelos fundos, Jubikão, nosso
cãozinho que herdamos do ataque da Pet Shop revelouse
um bom cão de guarda, chegou junto, latindo ferozmente
até me reconhecer e vir chacoalhando o rabo. A mudança
não foi nada fácil, transferirmos tudo pela janela e a
geladeira resolvemos deixar pra abater do valor do aluguel.
Dentro do porão eu pichei uma frase que insinuava que o
porão tivesse sido invadido por alguém que era contra os
moradores por algum motivo desconhecido.
“Aqui se faz. Aqui se paga.” Ass: AC
O AC, pros menos ligados, significa: Agentes da
Conspiração. Suamos pra cacete pra crregar tudo. Ainda por
cima minha cixa de gibis se abriu no meio do caminho e tive
que recolher tudo. Levamos quase duas horas pra carregar
tudo até o muro que tínhamos combinado. Marmita
estacionou o caminhão debaixo de uma árvore e esperamos
praticamente mais uma hora pra conferir o movimento,
escutar ruídos e checar se dava pra fazer a carga sem
chamar a atenção de ninguém.
Foi então que realizei o trampo mais sofrido dos
últimos tempos, carregar aquilo tudo em um minuto com a
adrenalina a mil nas veias foi uma coisa muito foda. Eu
suava a cântaros. Marimta suava a cântaros e Jubikão nos
olhava com um olhar entre o curiosos e o triste. Gosto dos
cachorros por que eles sacam das coisas e não possuem o
menos pudor em demonstrar seus sentimentos. Quando
terminamos jogamos uma lona por cima e paramos pra
descansar.
- E aí Ari, tem certeza que não esqueceu de nada
- Acho que não, mas em todo caso, você me espera eu ir lá
dar uma última conferida.
Aquele porão, mais que tenhamos ficado apenas um
mês nele, havia conquistado meu coração, ver aquilo tão
vazio que parecia que até os pensamentos produziam ecos,
me deixou profundamente chateado. Olhei pela janelinha
que tinha vista pra frente e fiquei um tempão analisando se

232
Manual Prático da Delinquência Juvenil

tinha algum filho da puta nos vigiando. Não vi nada.


Realmente, talvez isso tudo não passe mesmo de uma
grande paranóia, mas como dizia aquele velho Junkie &
Genial: “Paranóico é aquele que tem pelo menos uma
mínima noção do que está acontecendo.” Se quiserem me
chamar de ridículo podem chamar, estão liberados, eu sei
que mereço, mas dei uma vasculhada geral atrás de escutas
eletrônicas e microcâmeras instaladas por possíveis Agentes
da Conspiração. É aquela velha história: Se o que você faz,
faz impunemente, é por que é inofensivo.
Peguei ainda uns cartões do Sérgio que estavam pelo
chão, dei uma última cagada naquele banheiro fedorento e
abandonei o recinto. Jubikão me acompanhou o tempo todo,
até no banheiro, parecia mesmo que queria me dar um
apoio psicológico. Acho que amo esse cachorrinho
pulguento. Quando cheguei no caminhão Marmita já estava
completamente impaciente.
- Porra cara, porque demorou tanto?
- Ah véio, foi foda ver aquele Antro de Delinqüentes vazio e
ainda por cima saber que daqui pra frente tudo vai ser
diferente.
- Tudo bem, mas não podemos ficar muito tempo aqui dando
bandeira, alguém pode se ligar e dar merda.
- Então vamos embora de uma vez.
- E que carinha triste é essa aí, seu boiola?
- Vai te fuder seu pau no cú.
Marmita caiu nas gargalhadas e enquanto o
caminhão andava e os fundos do porão sumiam de vista
meus olhos começaram a ficar aguados. Foi uma cena triste
pra cacete, odeio despedidas, sei que o fim das coisas é
uma coisa absolutamente natural, mas tenho o direito de
odiar despedidas e essa será uma que demorarei séculos
pra esquecer.
- Ari, você está chorando?
- Já mandei você se foder caralho! Estou com sono, só isso.

233
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Baixei a cabeça na janela do caminhão e fiquei


fingindo dormir e chorando de verdade até chegarmos do
sitio Cercado. Descarregamos tudo lentamente e em silêncio
até o casebre de madeira no fundo do quintal da tia do
Marmita. Quando acabamos sentei na calçada da frente pra
fumar um cigarro. Marmita sentou junto e conversamos um
pouco.
- Como serão as coisas de agora em diante, vão seguir com
os ataques?
- Não sei, isso é uma coisa pra se analisar.
- Acho que vocês fizeram tudo certinho, seria muita
sacanagem desistir de lutar contra o Império. Ari, somos os
rebeldes, a humanidade precisa de nós, hehehe!
- Vou ter que esperar o pessoal voltar e decidirmos juntos as
novas estratégias. De minha parte posso te garantir que não
vou parar. Decidi seguir esse caminho e vou trilhá-lo até o
fim, seja lá o que signifique esse fim.
- É, parece que essa coisa vicia.
- Realmente Marmita, liberdade causa dependência.
Então a melancolia voltou a me contaminar, fui até o
casebre com os olhos úmidos novamente e fiz a única coisa
que me pareceu digna na ocasião, peguei uma lata de
spray, corri sozinho por cinco quadras, escolhi um muroo
adequado e, ainda com lágrimas nos olhos pichei:
SEJA REALISTA, EXIJA O IMPOSSÍVEL.

Pão & Circo No Dos Outros É Refresco - (ataque trinta


e nove)
Depois do cagaço que foi aquela visita daquele
suposto policial civil fazendo uma suposta investigação e do
recesso de fim de ano é com imenso prazer que lhes
comunico que recuperamos nossa antiga paudurescência.
Por antiga paudurescência entenda-se que voltamos a
pensar merda novamente e direcionar toda essa criatividade
doentia e delirante na nossa incansável luta contra o
Império. Finalmente conseguimos nos instalar num novo

234
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Mocó no bairro do Sitio Cercado. Periferia, casa de madeira,


aluguel barato, boteco próximo com direito a cerveja fiada e
um monte de vizinhas gostosas. Um espetáculo.
Jean voltou do Mato Grosso com namorada e com
uma nova e poderosa carga de energia. Cheio de planos &
cheio de idéias. Aquele Jean paranóico que todos nós
tínhamos conhecido deve ter morrido devorado pelas
piranhas de um pântano qualquer. Desencanou por
completo da parada da civil.
- Seguinte galera, temos que fazer alguma coisa logo, senão
parece que o ano não começa.
- Tá Jean, mas você tem alguma idéia formatadinha na
cabeça? É, porque pra tar tão decidido assim deve no
mínimo ter alguma grande idéia pronta.
- Tenho várias, mas o que você acha Ari, eu queria levar
adiante aquelas paradas que discutimos na reunião do Natal
Delinquente.
- Que parada? A Guerrilha anti Mc Donalds?
- Póde crer, que tal?
- É umas... Começamos então a debater o que faríamos para
atanazar aquela rede de fast foods do caralho. Na reunião
de dezembro, onde planejamos o ataque do Papai Noel
mendigo surgiram idéias de formarmos um grupo
especializado em atormentar o Mc Donald´s, só que a coisa
ficou meio parada. Depois de uma longa discussão
acabamos optando por fazer um ataque híbrido com duas
opções de ação, Os Palhaços Comedores de Hambúrguer &
Os Inconvenientes Ocupadores De Mesa. Marmita, que não
estava na reunião não entendeu bosta nenhuma.
- Tô mais perdido que filho de puta em dia dos pais.
- Hehe, relaxa aí cara, é o seguinte: essa coisa de
ocupadores de mesa foi idéia daquele Thiago Tebet que foi
na reunião, o sujeito entra com pão caseiro, pede um
sanduíche e depois tira a carne para preparar um sanduba
bem mais power.
- Massa véio, dá avacalhar ainda mais, posso conseguir uma

235
Manual Prático da Delinquência Juvenil

tralhas na casa da minha vó e fazer um banquete bem tosco


e original. Mas e essa história dos palhaços.
- Entram várias pessoas na fila e cada um pega um
sanduíche. Quando todos tiverem com os lanches na mão
colocam um nariz de palhaço, nesse momento entra alguém
com um sacão de lixo e todos jogam a bagaça fora gritando:
É lixo! É lixo!.
Sergio soltou a metáfora certa pra nossos intentos:
- É Pão & Circo macacada!
Foi uma das unanimidades mais rápidas de todos os
nossos planejamentos, todos estavam se coçando de
vontade de aprontar mais uma. Marmita foi conseguir os
materiais com sua vó. Eu, Fábio, Jean & Vini bolamos o
roteiro com os discursos e possíveis argumentações com a
gerência e Sergio imprimiu uns panfletos. Tudo pronto
marcamos a ação pras 19 hora de sexta, horário de maior
movimento na lanchonete da Boca Maldita, a principal de
curitiba. Sincronizamos todos os nossos relógios, pois o
ataque deveria ser rápido pra não sermos frustrados pela
segurança.
Dado o sinal entramos eu & Jean, poderosos e de
peito estufado portando nossas sacolas plásticas de
supermercado. Fiquei guardando lugar enquanto Jean foi pra
fila.
- Dois hambúrgueres.
- Acompanha sobremesa senhor?
- Não, beleza, só os hambúrgueres mesmo.
Quando chegou com os sanduíches eu já tava com o
aparato todo montado. Pratos de plático azul, talheres,
guardanapos de pano rabiscados com o a palavra foda-se,
um pão caseiro e uma garrafa plástica de dois litros de
molho de pimenta. Foi só Jean sentar e começarmos a
trabalhar o material que já conseguimos a perceber a
energia estranha do pessoal ao nosso redor. Duas senhoras
da mesa ao lado nos olhavam como se fôssemos seres de
outra espécie. Jean separou a carne e me deu os pãezinhos.

236
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Comecei a esfarelá-los no prato e misturar molho de


pimenta aos poucos, na intenção de fazer tipo que um pirão.
Jean contou os hambúrgueres foi esmagando com um garfo.
Os seguranças se plantaram em dois na parede a
poucos metros com um olhar entre o desconfiado e o
confuso. Então o Inesperado nos deu boa sorte no nosso
retorno às atividades. Um menino de uns três anos chegou
pra olhar o que estávamos fazendo, logo chegou sua
irmãzinha mais ou menos um ano mais velha.
- O que vocês estão fazendo?
- Vocês desmancharam os sanduíches?
- Nada, estamos fazendo com que eles fiquem mais
gostosos e nutritivos.
- É verdade, vejam só como a gente vai fazer com que
aquele sanduichinho de nada vire um sanduichão.
Aproveitamos o carisma natural da situação pra
dispararmos nosso rápido discurso nem tão subliminar
quanto deveria ser. Fiz um sinal pra que Jean fosse rápido,
pois um dos seguranças já estava conversando ao pé do
ouvido com aquele que imaginei ser o gerente do
estabelecimento. Começou a falar num tom alto, típico de
pessoas escandalosas, podia ser ouvido com clareza num
raio de vários metros.
- Esses lanches não são nem um pouco nutritivos e muitas
pessoas, nem todas é claro, mas muitas pessoas acham
francamente... meio sem gosto. Geralmente esses coitados
vem acompanhando alguém. Adultos tudo bem, mas o
problema é quando são crianças que só querem um
sanduíche tão caro e ruim porque ficaram encantados com a
propaganda na televisão.
Abri os braços num sinal de dúvida e soltei o slogan
final:
- Amo mesmo tudo isso?
Foi em cima da hora, pois o gerente encostou
imediatamente ao nosso lado, incrivelmente bem educado,
mas um tanto nervoso.

237
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Senhores, uma das regras de nossa loja é que só sejam


consumidos aqui dentro os lanches que fornecemos.
- Como assim? - Me fiz de sonso pra ganhar tempo.
O resto do pessoal já estava dentro da lanchonete na
fila. O final se aproximava. Dessa vez eu que fiquei nervoso.
- Não faz sentido trazer lanche de casa pra comer em uma
lanchonete privada, vocês não concordam?
Jeanzinho estava corajosamente panfletário.
- Senhor gerente, vocês anunciam e dão a entender que a
rede de lanchonetes Mc Donalds é acima de tudo um lugar
de socialização e diversão, tanto que muitas tem uma
parquinho de diversão para seduzir as crianças, por que
então reduzir a liberdade dos cidadão freqüentadores.
- Restringir liberdades? Creio que o senhor não está
entendendo.
- Não estou entendendo? Com certeza não estou
entendendo. Aliás tem uma série de coisas que não entendo
com relação à sua lanchonete. O senhor tem condições de
responder porque se eu fico seis meses sem vir aqui,
quando voltar não reconheço nenhum funcionário. Para
onde eles vão, viram carne de hambúrguer.
- Como assim?
Estávamos em vantagem, vários curiosos prestavam
atenção na conversa. Salve Éris! Enquanto houverem
curiosos haverá público pros nossos Teatros Secretos. Só
que não podíamos abusar pra não perder o efeito moral e
nem levarmos umas porradas dos seguranças. Tomei a
iniciativa e dei o sinal pro resto do pessoal.
Vinícius, sua namorada Marília, Sérgio & Marmita,
que já se encontravam com seus sanduíches na mão tiraram
dos bolsos um nariz vermelho de palhaço e colocaram no
nariz. Cara, ninguém entendeu absolutamente bosta
nenhuma do que estava acontecendo. As duas crianças que
tinha conversado com a gente se partiam de dar risada. O
pessoal do nariz de palhaço deram duas ou três dentadas
enquanto eu e o Jean dizíamos ao gerente para desencanar

238
Manual Prático da Delinquência Juvenil

que estávamos saltando fora. Então entra Fábio para a


execução do ato final. Todo de preto, óculos escuros,
carregando um sacolão de lixo igualmente preto. A cara de
espanto e de incompreensão dos clientes, funcionários e
inclusive do gerente era algo absolutamente sensacional.
Curitiba é uma cidade pouco habituada a atos de protesto,
quanto mais atos inusitados como o nosso estava sendo.
Fábio então se postou mais ou menos no centro de onde
estávamos e eu & Jean despejamos no lixo os farelos de pão
e de carne que tínhamos em nossos pratos falando alto:
- Talvez o lixo é o melhor lugar onde essa porcaria deveria
parar.
- É verdade Timóteo, é verdade.
Juntamos nossas tralhas e nos dirigimos à saída. O
resto do pessoal de nariz vermelho fez o mesmo, pararam
de comer sues sandubas e jogaram no sacolão repetindo.
- É lixo!
- É lixo mesmo!
- Claro que é lixo!
Foi demais pra cabeça do gerente, que com um
simples sinal com os olhos deu carta branca para que os
seguranças fizessem aquilo que eles são pagos para fazer.
Pegaram Fábio pelo cangote e o conduziram até a
saída. O resto do pessoal, na hora que viram que a coisa
descambou pra violência tiraram o time de campo, baitas
Delinqüentes. Sérgio, o mais cagão, foi quem
surpreendeu Gregos & Troianos distribuindo a todos os
clientes que encontrava pelo caminho um panfleto com o
texto
Paranóias Conspirativas, difamando a qualidade da
carne do Mc Donald´s afirmando que trata-se de coisas,
animais geneticamente modificados que se assemelham a
qualquer coisa, menos um animal propriamente dito.
- Leia esse texto e depois esconda.
A saída foi como num Flash Mob, todos nos

239
Manual Prático da Delinquência Juvenil

dispersamos correndo um pra cada lado, o cagaço da polícia


que sempre fica por ali bater era grande. Nos encontramos
na
Praça Zacarias nos cagando de dar risada.
Realmente, Pão & Circo no dos outros é refresco.

Estupradores De Cérebro Se Dão Mal Na Cadeia -


(ataque quarenta)

A Internet, como mídia alternativa à massificação das


comunicações, continua sendo uma grande promessa, nada
mais do que isso. As redes de televisão continuam reinando
impunemente colonizando o subconsciente coletivo. Dita
tendências, elege & derruba governos e cria consensos
absurdos. Em resumo, a televisão continua sendo uma alvo
em potencial para nossos atos de sabotagem.
A alguns meses atrás Fábio veio com umas viagens
de montarmos balões de hidrogênio, semelhantes àqueles
que as crianças ganham nos parques e que se forem soltos
voam pra bem longe, para soltarmos pela cidade
carregando objetos artísticos. Os balões subiriam e quando
murchassem cairiam em lugares aleatórios, provocando
sabe-se lá que sensações em quem pusesse as mãos em
tais objetos artísticos.
Uma idéia simpática, porém todos concordaram que
essa parada dos balões devia ser melhor formatada.
Ninguém queria desperdiçar o potencial funcional dos
balões com arte pela arte. Eles deveriam ser usados como
arma subversiva. Porém, o alvo era uma incógnita e o
ataque ficou pendente até recentemente, quando Jean
voltou do Mato Grosso. O cara veio com descrições
emocionadas das comunidades pantaneiras que vivem livres
da influência perniciosa da televisão.
- Lá o sinal não chega, a maioria das casas não tem TV.
- E povo vive sossegado?
- Nada! Reclamam o tempo todo. O sonho de consumo deles

240
Manual Prático da Delinquência Juvenil

é trem uma parabólica.


- Qual a vantagem então? Não entendo seu entusiasmo.
- São os desejos cara, fora a parabólica os desejos da galera
são autênticos. A utopia do valor de uso é real para eles.
- Como assim?
- Saca as crianças, por exemplo. Para os pirralhos de lá
Balanço, Gangorra & Escorregador são a Santíssima
Trindade . apresente esses três ítens para uma criança da
cidade grande colonizada pela TV e ela te mandará À
merda.
- Só! Podes crer!
A conversa então se encaminhou para uma ação que
tivesse a ver com essa problemática, a televisão. Não foi
nada fácil, já era quase madrugada e vários já estavam
quase bêbados quando Fábio voltou da cozinha com um
bacião de pipocas, uma sorriso no rosto e um estranho
brilho no olhar.
- Que foi seu monstro? Que merda você tá pensando?
- Os balões.
- Balões? Pirou de vez, foi?
- Os balões cara!
- Que balões, cara? Vá à merda!
- Bichinhas estressadas, sentam e ouçam.
Sentamos todos em posição de reverência, afinal
tratava-se de Fábio Samwise, um homem já com um certo
currículo na Delinqüência Juvenil e também porque caralho,
estávamos afim de agir.
- Lembram que vocês escantearam minha idéia dos balões
de hidrogênio por não saberem como fazer uso deles para
um fim subversivo o suficiente?
- Lembramos!! - Respondemos todos como numa sala de
aula, causando, é óbvio, vários minutos de Risadas &
Badernas.

241
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Tá bom, agora calem a boca e ouçam. Não estão doidinhos


pra fazer alguma coisa com TV? Pois então, essa é a deixa
certa pra usarmos os balões.
- Vai pendurar TVs nos balões?
- Ou vai fazer um balão em formato de televisão com a
palavra foda-se escrito na tela?
- Vão tomar no cú e prestem atenção. Tive uma idéia muito
macabra. Em vez de coisinhas artistiquinhas, penduramos
cérebro de porco nos balões,.
- Cérebro de porco??? Pessoal, será que tem algum
sanatório 24 horas?
- A gente pode atacar s sede da Globo no Batel, é um
quarteirão inteiro, uma mansão ostensiva pra caralho.
Nessa hora a galera silenciou, estupefata com o grau
de demência vandalística de nosso amigo.
- A gente escreve bilhetes justificando a parada, tipo: taí de
volta os cérebros que vocês danificaram.
Então a galera endoidou. Ninguém conseguia parar
de rir e faltou chão pra tanta gente rolando. No outro dia já
estávamos todos envolvidos nos aspectos técnicos do
projeto. Fábio tinha uma fórmula mandrake pro hidrogênio:
soda cáustica e pó de alumínio. Com a soda líquida, vai
jogando pó de alumímio até a mistura ferver, o vapor
exalado será hidrogênio. Não muito puro, mas hidrogênio. O
problema, em tese, seria encher os balões numa pressão
suficiente para que voassem longe. Mas como nosso alvo
era definido e os balões não deveria voar pra longe, esse
problema foi automaticamente contornado.
O problema mais grave era termos domínio do
alcance dos ¿projéteis¿, deveríamos ter um bom domínio
sobre até onde eles voaria, pra acertarmos o alvo
corretamente. Passamos um domingo inteiro fazendo teste
de campo pra conseguirmos isso. No final adquirimos o
know-how para todas as distâncias e tipos de vento. Pelo
menos a princípio.
O cérebros foi a parte mais cômica da operação.

242
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Pelos nossos cálculos de peso precisaríamos de uns três


cérebros de leitão, que ainda assim deveria ser esculpidos
para ficarem pequenos e parecidos com cérebro humano. E
o pior nem foi tanto encontrar um matadouro que
fornecesse o material, o mais foda foi explicar pro tio que
diabos faríamos com os miolos. Vinicius salvou a revolução.
- É minha tia. Ficou três anos morando na Indonésia e voltou
com umas receitas malucas.
- Como é que é? Onde? Enrolésia?
- Indonésia, tio! Fica perto do Japão!
- Ah!... O Japão. Os japoneses comem peixe cru, não são
eles?
- Eles mesmo.
O próximo passo foi uma análise cuidadosa do local
do ataque. O vento seria nosso principal inimigo natural.
Outra bronca é que nosso hidrogênio seria Tabajara, logo
não poderíamos trazer pronto de casa, deveríamos fazer na
hora. E como fazer isso sem chamar muito a atenção. Por
“encreça que parível” foi Marília, namorada do
Vinícius, que quase não se envolve no planejamento
das ações, que bolou o disfarce perfeito.
- Vocês podem se disfarçar de palhaços e fingirem estar
lançando os tais objetos artísticos, é só bolarem uma
campanha qualquer que envolva balões lançados ao ar.
Perfeito. Basicamente era só o que faltava pra irmos a ação.
Passamos a semana passada inteira marcando e cancelando
a ação, basicamente por culpa minha, que tive que
trabalhar quase todos os dias até tarde e não tinha
condições físicas e emocionais pra acordar cedo no outro
dia. O ataque estava planejado pra quando o dia
amanhecesse. Foi só no sábado que a coisa toda foi
possível.
Sábado, seis hora da manhã, estávamos no Batel
com nossa Velha & boa Cara de Pau em ação novamente
através de uma campanha brega pra caralho: Faça Curitiba
Amanhecer Feliz. É o que dizia a faixa que

243
Manual Prático da Delinquência Juvenil

preparamos e esticamos na calçada. Só teríamos que ser


ágeis e discretos na hora de substituir os cartões com
mensagens de bom dia pelos miolos de porcos, mas isso o
Marmita treinou à exaustão. P planmo de Marília foi ótimo
pra enrolar os curiosos. E eles sempre estão por perto. Logo
apareceu um senhor passeando com seu cachorro. Em
bairros burgueses é o que mais tem pela manhã: pessoas e
seus cachorros.
- O que vocês estão fazendo?
- Mandando mensagens de Bom Dia para pessoas
escolhidas pelo acaso.
- Posso ver uma?
- Claro!
O velhinho deu uma lida nos bilhetes e saiu
sorridente dizendo a nós que éramos pessoas especiais e
que se existissem mais como nós, o mundo seria um lugar
bem melhor de se viver. Ficamos emocionados, pois
realmente essa é nossa visão que temos de nós mesmos,
por outros motivos, mas que achamos isso mesmo é uma
verdade. Conforme se aproximava o momento ficávamos
mais ansioso. Marmita preparou tudo, tínhamos quatro
garrafões contendo a soda e uma mangueira colada com
durepox no bico. Na hora certa era só enfiar o pó pela
mangueira, balançar e colocar os balões na ponta ao
mesmo tempo em que alguém colocaria os miolos. As
tarefas foram cuidadosamente divididas, tínhamos quatro
garrafões, eu, Fabio, Jean & Vinícius faríamos a mistura
enquanto Marmita amarraria os miolos. Sergio ficaría com
Marília & Milene percorrendo o quarteirão para nos avisar de
qualquer vudú que pintasse. Completando a formação
estava Társis, de carro, a uma quadra de distância pra nos
recolher na hora da fuga desesperada.
Quatro garrafões, cada um com capacidade pra três
balões. Chegada a hora H Jean contou:
- Um, dois, três.. Foi!
Começamos então a enfiar o alumínio em pó e
chacoalhar desesperadamente os garrafões, Marmita

244
Manual Prático da Delinquência Juvenil

amarrou os miolos, a mensagem e soltamos nosso proimeiro


lançamente. Um espetáculo, algo de encher os olhos de
lágrimas de emoção. Os quatro primeiros balões subiram e
desapareceram por detrás das árvores do quintal global. Da
esquina dava pra ver Sérgio dando risada e acenando que
os balões atingiram o alvo. Vinicius não se segurou.
- Urrúúúúú!!!
- Cala boca seu mané!! Trabalhe, rápido, trabalhe!!!
Na segunda bateria já estávamos bem mais
nervosos. Principalmente eu, que errei na hora de encaixar
meu balão e sacrifiquei um projétil.
- Seu boiola, faz direito!!
- Calma aí, deixem pra brigar depois.
Os três segundos balões subiram e passaram
raspando o muro. Dessa vez foi Marília que apareceu na
outra esquina fazendo gestos pra que apurássemos. Nem
pestanejamos e já passamos a preparar a terceira e última
bateria, que devido ao cagaço não foi nada nada
sincronizada. Primeiro larguei o meu, que mal subiu cinco
metros e foi de encontro ao muro, caindo devagar e
deixando um enorme pedaço de cérebro pendurado no
muro. Jean soltou o seu e conseguiu passar o muro. O do
Vinícius também conseguiu. Marmita ajudou Fábio a
preparar o último balão socando todo o alumínio em pó que
restava. Foi um troço do outro mundo, o balão voou
magistralmente, só que voou demais e foi parar no outro
lado do quarteirão, acertando em cheio a caixa de correio
de uma mansão. Se tivesse sido planejado não teria sido tão
perfeito, océrebro ficou direitinho em cima da caixa, feito
uma entrega do Sedex.
Acabamos em cima da hora, pois enquanto
recolhíamos nosso material três criaturas engravatadas
surgiram na esquina que Marília tinha dado seu alerta.
Corremos desenfreadamente para o carro de Társis e saímos
dar uma banda pra desbaratinar pra depois recolher Sérgio
& as meninas, que dariam as resenhas dos resultados.
E foi massa!

245
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Meu balão, que se chocou contra o muro chamou a


atenção dos engravatados, que leram o bilhete e saíram
comentando entre si que aquilo lhes dizia respeito e que
era uma grande e verdadeira palhaçada. Eram altos
funcionários da globo. Mas o melhor foi o que caiu na caixa
de correio, que chamou a atenção do morador, dos vizinhos
e de transeuntes, gerando uma longas discussão sobre
quem teria sido, quais os objetivos e porque diabos a Globo
despertava tanta indignação das pessoas.
Perfeito. Pena que não pudemos saber o que
aconteceu lá dentro. Não sei, mas com certeza devem ter
tido uma bela surpresa com aquela chuva de cérebros e
aquela estranha mensagem que dizia:
Estamos devolvendo os cérebros danificados por
anos e anos de programação alienante. E nem
precisa agradecer Ass: A Multidão

O Primeiro Vale Transporte do Resto Da Sua vida -


(ataque quarenta e um)

Curitiba é uma cidade excelente pra se viver. Se você


for um carro. Se existe mesmo reencarnação e você tirar a
sorte grande de nascer carro, venha morar em Curitba, pois
estará feito na vida. Esses tempo abriu um shopping perto
do Parque Barigüí que só feito previsto o acesso pra pessoas
que vão com seu carro. Pra ir a pé é preciso atravessar uma
pontezinha sem acostamento disputando a vez com os
carros (olha só, eles de novo aí). Pois é, se for for rabudo o
suficiente pra nascer carro em Curitiba poderá ir ao
shopping com seus bichinhos domésticos e de estimação.
Nosso caso infelizmente nascemos humanos, perdemos a
vez.
Fim de semana passado de madrugada encaramos a
pernada de ir a pé do centro até o bairro do Sitio Cercado,
coisa de mais de 20 Km. Lá fomos nós: Feios, Deapé & Sem
Dinheiro. E foi massa, encontramos coisas e situações pra
caraaaaalho no caminho. Fomos meio que à deriva,

246
Manual Prático da Delinquência Juvenil

baseados numa orientação tipo bússola mesmo e


escolhendo os atalhos e caminhos pela intuição ou por
estranhos sinais reconhecidos por um ou outro.
No caminho ainda inventamos uns jogos malucos,
como por exemplo um grupo que vai na frente rabiscando
frases estilo discordianas nas paredes indicando, através de
uma charada nonsense, onde estará a próxima frase. O
objetivo inicial era que o grupo que tivesse ficado pra trás
decifrasse as frases e alcançasse os rabiscadores de slack,
que era como chamávamos as frases. Depois o troço
descambou pra um grupo tentar sempre ultrapassar o outro
e viramos um bando de detonadores de slacks
ensandecidos.
Sergio tinha bolso uns cartões que ele pinta (quando
que não os tem?), uns oito ou dez e puta que o pariu: o
viado também tinha um rolo de barbante. Encasquetou de
amarrar o maldito barbante entre dois postes e esticar como
um varal. Com tudo em cima graças ao esforço da galera o
monstro posicionou cada cartão diante da saída de cada
casa.
- Pra cada um, um presente.
- É...Ficou muito louco!
- Pra cada, uma surpresa.
Foi nessa madrugada de domingo que reformulamos
a idéia das bananas. Teve outra vez, em que entupimos de
banana os escapamentos dos carros estacionados num
supermercado grã-fino. Nesse ataque acusamos nossas
bananas de serem transgênicas. Era uma sacanagem
Palhaça & Sem Noção contra os transgênicos. Pensamos
então em usar a idéia contra os automóveis, já que estão
uma classe acima de nossa espécie. O Negócio começou
com Vinícius viajando.
- Olhem como essas ruas ficam simpáticas quando estão
vazias. Dentro de poucas horas chegará a segunda-feira e Aí
então babau tranquilidade.
- Porra véio, precisa lembrar? ¿ Protestei.

247
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Calma Ari, que eu tive uma idéia.


- Que idéia seu jagüar?
- É o seguinte, a gente poderia diminuir os carros na
segunda-feira. Lembra das bananas transgênicas?
Poderíamos obrigar um cidadão sorteado por nós, a ir
trabalhar de ônibus.
A galera toda sentiu a energia no ar e veio correndo
pra ouvir a história. É aquele ar de conspiração que já está
virando nosso velho conhecido. Dá pra ver pela expressão
do olhar e pelos gestos escusos quando alguém está tendo
alguma idéia pra algum ataque.
- Fala aí vini! Explica melhor.
- A gente entra dentro de uma garagem, entope de banana
o escapamento, cola com durepóxi se necessário e deixa um
bilhete e um Vale Transporte. Hoje o senhor vai trabalhar de
ônibus.
- Genial!!! Muito loco mesmo!!
Outra coisa que tenho notado, os consenso estão
mais freqüentes, acho que atingimos aquilo que chamam de
sinergia de grupo, sei lá. A questão foi que no resto do
trajeto ninguém jogou mais porra nenhuma, era só euforia
pra chegar em casa logo e se possível executar o ataque
naquela noite mesmo. Óbvio que chegamos exaustos e a
parada ficou mesmo pra semana seguinte.
Durante a semana os vagabundos Sérgio & Fábio
começaram a dar bandas pelos bairros da zona sul atrás de
um alvo. Vestidos com nossos sensacionais uniformes de
gari ficaram três dias de butuca e não descobriram nada,
nenhuma garagem massa. A única coisa que aqueles
paunocús fizeram de útil foi escolher uma rua pouco
iluminada. Vinícius bolou uma estratégia legal: colocaríamos
um bilhete no carro sabotado e ainda cuidaríamos pra que a
coisa repercutisse entre os vizinho e virasse notícia.
Colocaríamos panfletos nas caixas de correio de todos os
vizinhos próximos dizendo que fulano de tal foi sabotado por
tais e tais motivos. Deixamos a ação pra madrugada desse
último domingo.

248
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Fomos até o bairro-alvo, a Vila Fanny, a pé pra


facilitar a concentração e entrarmos no clima. Jean
carregava a mochila com todo o material: quatro quilos de
banana, durepóxi, papéis, fita crépi e cópias xerox do texto
A Ideologia social do Automóvel do André Gorz. É incrível
como apenas uns poucos meses sejam suficientes pra
recuperar o cabaço das invasões. Confesso, eu estava me
cagando de medo e me sentindo um novato. Que bom!
Mais uma vez nos beneficiamos do descaso da
Prefeitura com a periferia, a ausência ou insuficiência da
iluminação pública nos facilitou. Caminhamos todos juntos
em silêncio, olhando disfarçadamente pras portas das
garagens. Estava tão compenetrado que me assustei com o
toque do Vini.
- Essa Ari!!
- O quê?
- É essa a garagem certa. Jean! Passa o material!
Jean alcançou a mochila e todos nós atravessamos a
rua pra nos mocar num escurinho de uma árvore baixa,
todos com o coração na mão, péssimas lembranças da
última invasão. Vini saltou o muro e sumiu. Foram dois
longos minutos até que o pior acontecesse. Foi só puxar a
fechadura que a porra da porta desabou pra lado de fora,
fazendo um barulho dos diabos e revelando um
Passatezinho pra lá de podre. Vinícius simplesmente
materializou-se sobre o muro aos berros.
- Fuja locôôôÔÔ!!!!
Nem deu pra ver se alguém da casa acordou, pois
em menos de um minuto estávamos todos desbaratinando
num ponto de ônibus de uma via rápida próxima.
- Caralho! Essa foi foda!!
- Como é que foi isso seu panocú?
- Sei lá, doido. As dobradiças estavam enferrujadas e a porta
acho que estava escorada.
- Acho que era o alarme do cara, olha só lá adiante.

249
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Duas viaturas. Nem analisamos que muro era nem o


que poderia haver do outro lado dele, em pentelhésimos de
segundo estávamos desse outro lado sem a mínima idéia do
que fazer. Era o estacionamento vazio de um restaurante
chique: carnes exóticas.
- Rapaz, essa porra com certeza tem guardião.
- Bóra praquele cantinho escuro ali.
O tal cantinho escuro era ridículo de pequeno e
ficamos lá, todos apertados quando o guardião veio com sua
lanterna fazer sua ronda. Não sabíamos se tínhamos sido
vistos ou o quê, o que sei é que foram momentos de tensão
absoluta. O vigia ali, a polícia logo alí e nós à mercê dos
fatos. O guardião finalmente entrou e ainda ficamos mais
uns quinze minutos até termos certeza que os porcos
fardados já tinham ido embora. Jean quebrou o gelo.
- Vamos nessa, escolhemos outra rua e pregamos chumbo.
- É verdade. - Respondo com uma convicção duvidosa.
Tivemos que escolher outra rua ao acaso, usando
como critério de escolha a iluminação. Fábio porém queria
mudar os planos.
- Cara, sem essa de entrar pela porta da frente. Vamos
investigar pelos fundos mesmo, com calma, estudar
direitinho o ambiente antes de fazer qualquer merda.
Só que nessa noite parecia que o inesperado estava
revoltado conosco, pois o terreno baldio que Fábio escolheu
pra chegar por trás nas casas era pura Lama & Lixo.
Pra completar tinha uma cachorrada da porra que
fazia tamanha zoada que tivemos que escolher outro
lugar.Já estávamos preocupados que o dia fosse amanhecer
sem que conseguíssemos fazer nada, quando no terceiro
terreno baldio Fábio espiou sorridente por sobre um muro.
- Sorriam rapazes, aqui acho que vai rolar!!
- Vai logo então e não rateia.
- Bem, então qualquer sujeira que pinte dêem o sinal com
assobios.

250
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Belê!
Essas esperas durante os ataques me matam. O cara
demorou um tempão e ainda voltou pedindo o pincel
atômico do Sérgio.
- Pra quê seu viajão?
- Nada, só pra deixar a parada mais style.
- Tão tá, só não viaja e não faz merda.
Mais uma demora do caralho, deu tempo até pro Vini
colar uma porrada de papeizinhos com Mensagens
Discordianas (msgs discordianas) no muro. Sergio
aproveitou e, com uma coragem inusitada para aquele que
sempre foi o mais cagão da turma, saiu pelas casas vizinhas
enfiando seus cartões pelas janelas dos banheiros, numa
intervenção altamente mandrakosa.
Quando Fábio voltou estava completamente
transformado. Aquele Delinqüente Poderoso & Autoconfiante
deve ter morrido dentro daquela garagem.
- Bóra, bóra, bóóóraaa!!!! Sem dar bandeira.
- Péraí que o Sergio tá viajando ali no lado!
- Viajando ali no lado??? Quê que esse merda tá fazendo??
- Sei lá, parece que tá pirando com seus cartões.
Nosso bate-boca foi interrompido por latidos de cães,
sempre eles. Foi quando, de onde vinham os latidos, eis que
surge a aparição mais deprimente que éramos capazes de
imaginar: Sérgio com a perna da calça rasgada por um cão
feroz. E a própria perna também, pois estava sangrando.
- Que foi cara?
- Aquele merda daquele cachorro chegou sem fazer barulho
e quando vi já tava abocanhando a batata da perna, olha só.
Mostrou a parada e realmente, tinha marcas de
dentes e um pouco de sangue, nada de muito grave, mas
um sinal suficientemente convincente de que tínhamos que
picar a mula dali imediatamente. Foi o que fizemos. Nos
reunimos num parquinho próximo e e enquanto Sergio

251
Manual Prático da Delinquência Juvenil

improvisava um curativo pra preparamos as


correspondências, que diziam assim:
Seu vizinho, que mora na casa de número tal, nessa
mesma rua, teve seu carro sabotado por ativistas que
reivindicam o sucateamento da maior quantidade de carros
possíveis. Hoje ele vai forçosamente trabalhar de ônibus.
Amanhã, assim esperamos, ele fará isso por vontade
própria. Maiores informações nesse texto que
carinhosamente lhe damos de presente.
Foram trinta e poucas cópias distribuídas pelas
vizinhanças. Na garagem, segundo Fabio, além do carro
embananadado, foram deixados dois vales transportes, um
bilhete explicando onde o cidadão deveria esperar pelo
ônibus, o texto do André Gorz e várias frases anti-
automóveis rabiscadas na parede. Distribuímos tudo e
fomos comemorar num posto de gasolina 24 horas.
Dois dias depois Sérgio & Fábio voltaram à rua
atacada vestidos de gari e fizeram amizade com umas
crianças que contaram todo o efeito da ação. E o efeito não
podia ser melhor, vários moradores discutiam o ocorrido e
alguns até chegaram a debater sobre o tema nos botecos e
rodas de conversa.
Aqueles dois vales transportes, foram, sem a menor
sombra de dúvidas, os mais bem utilizados de nossas
vidinhas nesse planetinha véio cagado que só é azul pra
quem vê de fora.

A Verdadeira Paixão de Cristo (é pirataria de DVDs) -


(ataque quarenta e dois)

Um estranho vudú se abateu sobre nós neste


estranhíssimo mês de março. Já tivemos ataques
fracassados ou abortados, mas desta vez a coisa parecia
bruxaria, feitiçaria das brabas. Cheguei até a supor que
existisse um sapo enterrado na entrada de nosso muquifo,
inclusive cheguei até a delirar em fazer uma escavação pra
localizar o demônio que nos amaldiçoava. O primeiro

252
Manual Prático da Delinquência Juvenil

percalço que tivemos que enfrentar nem foi tão percalço


assim, trata-se de mulheres. Quem nos dera só ter percalços
assim. Fábio arrumou uma namorada careta pra caralho e
Jean um buguesinha da classe alta. As duas estavam
querendo tirar os piás do ¿mau caminho¿.
Somente depois de muita discussão, mas muita
mesmo, que as meninas acabaram não aceitando, mas se
conformando mesmo com os estranhos hábitos de nossos
amigos Delinqüentes. Pra completar o prato indigesto que
foi março, tivemos dois ataques frustrados. O primeiro era
uma sacanagem que aprontaríamos com um vegetariano
radical. O cara é chefe do Marmita e em dezembro viajou
pra São Paulo a negócios. Na ausência do capitão, os
marinheiros resolveram fazer um churrasco no sábado,
depois do expediente. E não é que o chefe acabou
descobrindo? Ficou tão puto que fuçou até descobrir quem
tinha organizado o churras. Resumo: demitiu o cara.
Tudo bem, os argumentos dos vegetarianos são
válidos. Os direitos dos animais devem até ser respeitados,
mas causa nenhuma te dá direito de ser um mala.
Radicalismo, intolerância e câncer são semelhantes:
juramos vingança. Deste então passamos a caçar ratazanas
pra soltarmos na casa do sujeito. Como ele reagiria
descobrindo que sua casa estava infestada de bichos
escrotos? O que ele faria? Essa era a vingança que tínhamos
em mente. As dificuldades começaram já na hora de caçar
as tais ratazanas. Arapucas de madeira logo de cara
demontraram ser ineficazes, foi preciso que o coitado do
Marmita fizesse três arapucas com armação de alumínio pra
que os primeiros ratos começassem a ser capturados.
Depois tivemos que mantê-los prisioneiros dentro de
nosso muquifo e a coisa não foi tão fácil como se pode
imaginar. A primeira leva fugiu roendo o fundo de madeira
da gaiola que tínhamos construídos. Então o feitiço virou
contra o feitiçeiro, nosso doce lar foi infestado por aqueles
lazarentos. E não foi só isso, os viados dos ratões roeram
metade dos meus gibis do John Constantine. Algo realmente
imperdoável. Por fim conseguimos dezessete animais e
levamos pra casa do Vegan. A invasão foi melzinho na

253
Manual Prático da Delinquência Juvenil

chupeta, pois o Marmita conseguiu cópias das chaves da


casa. Só que infelizmente os ratos não permaneceram lá e
quando o dono da casa retornou não notou nada de
diferente. Ponto pros intolerantes radicais.
O outro ataque fracassado foi aquele que
denominamos “Revista Veja na Inquisição”. Esta idéia surgiu
logo depois que saiu nas bancas a revista Outracoisa
número dois, que contém a entrevista que cedi por e-mail.
Os piás queriam me crucificar, eu tinha feito tudo sem
consultá-los, não deixavam de ter razão. No entanto a
discórdia negativa se abateu sobre nós. Uns não estavam
nem aí, como era o caso do Vinícius e do Marmita. O Sérgio
defendia a idéia de divulgarmos nossas ações, mas Jean &
Fábio, os Senhores Paranóia achavam que cavei nossa
própria cova. Pra exorcizarmos essa discórdia do mal
resolvemos bolar um ritual de purificação contra as revistas
do mal. Fazia hora que tínhamos 50 Reais obtidos de
maneira ilícita que queríamos torrar em algum ato de
Delinqüência Juvenil. Optamos por fazermos uma fogueira
inspirada naquelas medievais que queimavam bruxas e
compraríamos Revistas Veja usadas do povo pra fazermos a
parada.
Montamos tudo certinho e fomos para o Bairro do
Parolim celebrarmos nossa revolta. Quebramos a cara legal,
não apareceu uma alma sequer disposta a fazer aquela
palhaçada. Voltamos pra casa cabisbaixos, desbundados e
sinceramente preocupados de que nossa era de ataques
estivesse no fim. Até eu, o mais otimista do grupo, estava
cabreiro de que isso pudesse ser verdade.
As coisas começaram a mudar ontem. Pela primeira
vez, pelo menos pelo que me lembro, um meme pulou
diretamente de um blog da Internet para a minha Mente
Suja. Foi na página do Reverendo Diácono Kirk que li
a seguinte frase: “Queria ver Jesus no Centro da Cidade
dando porrada nos camelôs vendendo o DVD pirata do
Paixão de Cristo, meio que repetindo a cena do
mercado de Jerusalém.” A frase foi chupada do blog de um
tal Brucutu chamado: Confissões de Uma Mente Delirante, e

254
Manual Prático da Delinquência Juvenil

bota delirante nisso. O efeito foi fulminante: e se fizéssemos


isso? Imediatamente peguei o telefone e contei a idéia pro
Vinícius, que topou no ato.
- Claro Ari! Genial! Além de ser uma palhaçada do caralho
ainda podemos explorar a questão da pirataria e tal.
- Topas então? Pra quando?
- Pra agora, pra hoje mesmo. Estou com um certo tempo
livre e deixa comigo que eu mecho os pauzinhos.
- Então belê.
Não demorou muito pra que o telefone no meu
trampo começasse a tocar. Primeiro foi o Jean, confirmando
que participaria e depois o Társis, nosso fiel amigo auxiliar
em assuntos que requerem computador e impressora
dizendo que estava providenciando as capas.
- Mas como é Ari? Os DVDs vão ser de verdade? Vamos
vender mesmo? Como faremos?
- Que nada, véio. Não precisam ser quentes. A coisa vai ser
um teatro mesmo. Se algum manezão comprar a gente
corre atrás, conta tudo e devolve o dinheiro.
- Mesmo se for um empresário engravatado?
- Aí não, né seu cuzão. Aí a gente fica com a grana do otário.
Bom, uma coisa tenho certeza, foi o primeiro ataque
articulado em tempo recorde, por telefone. Durante o dia e
durante os telefonemas as idéias e incrementos foram
surgindo. Vinícius avisou que Marília, sua namorada-quase-
noiva-tanto-tempo-faz-que-namoram iria ser a Maria
Madalena que acompanharia Jesus implorando pra que ele
desistisse daquela vida de camelô vendedor de CD pirata.
- Ari, a coisa tá mais fácil do que eu imaginava a princípio.
Tá ligado que tá acontecendo o Festival de Teatro de
Curitiba? Pois então, a Marília conhece um pessoal de teatro
e as fantasias necessárias estão praticamente na mão.
- Tão rápido assim?
- Claro! Com certeza faremos essa cagada hoje mesmo.

255
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Consegui até uma cruz de isopor onde pendurarei os DVDs e


estou bolando uns sermões a favor da pirataria e contra as
majors do mal.
Estávamos a muito tempo parados, bastou uma idéia
sedutora pra que a turma toda mexesse suas respectivas
bundas gordas. Foi uma mobilização relâmpago fantástica,
até o mais inesperado dos inesperados aconteceu: a
namorada burguesinha do Jean convidou o primo dela,
recém formado em direito, pra assistir o espetáculo e dar
suporte jurídico para uma eventual cagada. Coisa de mina
cabreira mesmo. Até as três da tarde já estávamos com
tudo definido. Eu & Sérgio seríamos vendedores de CD
piratas, enquanto Jean, Fábio & Marmita seriam soldados
romanos que apreenderiam o material ilícito vendido pelo
camelô ¿filho do homem¿ e tudo terminaria
espetacularmente. Marcamos a coisa pra tardinha de ontem,
terça-feira, nas proximidades do Terminal do Guadalupe.
A agonia foi grande, meu chefe queria por que queria
que eu ficasse trampando até mais tarde, não houve
negociação. Tive que fazer uma coisa escrota pra caralho,
patética mesmo, deixar todas as minhas coisas no trabalho
e fugir pela janela do banheiro. Uma velhinha do outro lado
da rua viu a cena e não conteve as gargalhadas.
- Calma tia, tô só pagando um mico por uma aposta que
perdi.
- É mesmo meu filho.
- É, bem isso mesmo.
- Tadinho.
Ela ficou rindo e eu parti com um sorriso no rosto,
gosto de velhinhos. Quando cheguei no Terminal a galerinha
do mal já estava toda lá. Vinícius estava com Marília no
banheiro dando os últimos retoques no figurino. Exatamente
às dezoito e trinta surge o Messias barbudo carregando uma
cruz cheia de DVDs piratas do filme A Paixão de Cristo.
- Caralho! Que que é aquilo????
- Tá parecendo mais o Antônio Conselheiro.

256
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- E a Marília? Quem falou pra ela que Maria Madalena era


hippie??
Cômico. Ainda bem que a gente estava longe pra
poder rir à vontade. O Cristo estava inflamado em sua ânsia
em adquirir Reais e mais Reais às custas da produção de
Mel Gibsom. Maria Madalena a seu lado, insistindo
pra que largasse essa vida de camelô que vende pirataria.
- Meu amor, essa porra é ilegal, temos filhos pra fazer e
depois temos que criá-los. - Jesus apenas abanava a mão e
gritava aos quatro ventos.
- Olha o DVD!!!! Dez reais, baratinhoooo!!!
- Jesus, seu lazarento!!! - a galera começando a apavorar.
- Lazarento não, seu burro, é Nazareno!!!!
O povo, sendo que uma boa parte era da nossa
turma, mas grande parte eram transeuntes, cercou o Cristo,
que olhava a todos com uma expressão entre o alucinado e
o possuído.
- Ouçam-me irmãos!! A publicidade como vocês conhecem
hoje está com os dias contados, o futuro será negro e uma
merda completa para todos vocês! A publicidade não
acabará, mas sua forma irá mudar e todo o povo sentirá isso
no próprio rabo. Vocês vão sentir saudades da publicidade
como ela é hoje. No futura ela invadirá suas vidas por
completo. Vocês não conseguirão mais identificar o que é
um anúncio do que é real.
- Cala boca seu pirateiro do caralho!!!
- Pirateiro?? Quem nunca pirateou nada aqui que jogue o
primeiro CD falsificado!!!
Risos, risos e mais risos. Pelo geito o povo não muito
acreditando que aquele salvador era de verdade.
- Jesus, não entendi muito bem essa coisa da publicidade.
- Nem eu meu filho, nem eu. Na verdade é essa barba. Juro
que essa barba tá me impedindo de pensar. Fico coçando o
tempo todo, perco a concentração e me pergunto se fico

257
Manual Prático da Delinquência Juvenil

bem de barba ou não.


Nisso Cristo focalizou os olhos em dois vendedores
ambulantes, eu & Fábio com nossos CDs de pagode a cinco
pilas.
- O que vocês estão vendendo irmãos?
- Soweto, Os Travessos e Terra Samba, mas se você não
gosta muito de pagode temos o disco daquele rapaz, “Ô
menina deixa disso quero te conhecer...” o Felipe Dylon.
- Calem a boca seus pecadores do mal!!! Tomem estes DVDs
e vendam eles. Desistam de bater de frente com as grandes
gravadoras, Hollywood é o que há. Além do mais isso daí é
uma bela bosta, isso sim.
- Fala sério, muito obrigado, mas preferimos estes daqui
mesmo.
- O quê?!
Realmente, o barbudo ficou muito puto e com seu
chicote fez picadinho dos nossos detestáveis discos de
pagode. As pessoas que assistiam a cena foram à loucura,
tinha gente que ria de se torcer e ter que se escorar em
alguma parede pra não cair.
- Ei Jesus, pirataria não é pecado não?
- Pecado é a exploração! Você sabia que os artistas ganham
menos de um Real por disco vendido? Pois é, no entanto as
lojas cobram mais de vinte pilas. Sabem pra onde vai a
diferença? Pra alimentar as Caldeiras do Inferno.
Búúúúúhh!!! O diabo se chama Jabá e habita as rádios, os
programas de auditório. Vocês que compram discos em lojas
bancam o Faustão e o Gugú, sabiam disso seus manezões??
- Vai te fuder Jesus!!
- Vou não, eu procrio com o auxílio do espírito santo.
Uma senhora que passava por ali com dois filhos se idignou.
- Cale a boca seu moleque!! Você não sabe o que diz.
- Perdão pai, eu não sei o que falo. Pai (erguendo as mãos
para o céu) pedoe essa mulher que sabe o que diz, que é

258
Manual Prático da Delinquência Juvenil

dona da verdade, essa propriedade privada odiosa. Quando


a senhora se juntou a mais três crentes com bíblia embaixo
do braço o clima pesou, as risadas diminuíram e dei o toque
no celular do Társis, que estava com sua picape. Foi um
sarro, o carro estacionou e desceram Marmita, Jean & Fabio
com as roupas de soldado romano mais ridículas que já vi
na minha vida. Dois deles jogaram a cruz na carroceria e o
terceiro algemou Jesus Cristo.
- Você tem direito de permanecer calado e de um advogado.
- O que significa isso seus porcos opressores?
- Cala a boca vagabundo!
E desceram a porrada no mártir do copyleft radical. A
galera vaiou até a picape sumir de vista. Ficamos mais um
tempo por ali ouvindo os comentários. Várias pessoas
criticaram a blasfêmia, várias mesmo, mas também teve
quem disse que o Cristo tinha razão. Até tentaram comprar
alguns discos nossos. Sei que que esse nosso Teatro Secreto
não teve nada de secreto e que nossa Panfletagem
Subliminar nada teve de subliminar, mas pelo menos um de
nossos conceitos foi aplicado: o dos
Distúrbios Cotidianos. E foi um distúrbio da porra,
ninguém esperava por aquilo. Foi quase um Flash Mob.
Que bom se todos os Flash Mobs fossem assim.

Fome Zero de Cú é Rola - (ataque quarenta e três)

O Fome Zero, que era pra ser um programa legal pra


se acabar com a fome acabou sendo morto pelas garras da
Demoníaca Burocracia. Nesta páscoa planejamos algumas
ações, pra protestar contra o consumismo e todo aquele
papo, que seria chover no molhado ficar aqui repetindo.
Desde o começo de março que começamos a queimar
nossos neurônios lá no moquifo dos Delinqüentes pra bolar
algumas ações. Muitas e escrotas idéias acabaram surgindo,
sem que nenhuma pegasse de jeito nossas mentes
doentias. No fim se semana que antecedeu a semana santa

259
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ainda estávamos sem nada realmente definido.


No entanto os memes começaram a aparecer e mais
uma vez, veio da net através de uma mail amigo, sempre
eles. Cheguei na nossa meia-água entusiasmado.
- Pessoal, acho que tenho uma idéia.
- Que idéia seu doente? ¿ Jea, coçando sua barbicha de bode
escrotíssima.
- Saca só, uma cara se veste de coelhinho, a gente
consegue um vaso sanitário, instala a parada numa praça
qualquer. Então coelhinho senta no vaso e alguém chicoteia
o coitado aos berros de caga mais um ovo aí seu porra!!!
Caga!!
Foi um pandemônio, os piás rolavam no chão de dar
risada, Vinícius quase teve um troço.
- O cara pirou de vez, véio!!
- Fala sério Ari Dall Peyda!
- Não viagem que essa idéia tem futura!
- Futuro, só se o futuro for um sanatório pra dementes.
Foi difícl de fazer a galera levar a coisa a sério, mas
com o tempo as lágrimas de riso foram sendo enxugadas e
os neurônios se recompondo. Fábio foi o primeiro a dar
sinais daquela lucidez delirante que nos caracteriza nos
momentos que antecedem ao planejamento de um ataque.
- É Ari, acho que essa coisa de caga mais um pode ser
usada pra algum protesto contra a fome.
- Isso Fábio, tipo um Fome Zero do Mundo da Imaginação.
- Fome Zero do Mundo da Imaginação??
- Isso, pode ser nessa linha, mas quem seria o cara do
chicote.
Nessa hora Jean largou sua barbicha e exclamou em tom
profético.
- Eu sei! A gente pode falar com a Denise!

260
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Denise? O que a Denise tem a ver com essas história


Denise é uma catadora de papelão que a gente levou
uma vez num salão de beleza chiquio pra protestar contra
as diferenças sociais. Desde aquela vez ela ficou nossa
amiga e volta e meia vamos visitá-la. Sempre deixou claro
que nos ajudaria numa outra ação eventual. E parecia que
Jean estava com isso em mente.
- Ela tem arrego com uma galera de catadores de papelão e
a gente pode fazer como se os catadores famintos tivessem
seqüestrado o coelho da páscoa pra saciarem sua fome.
- Caralho, que troço massa Jean! Acho que é por aí mesmo a
coisa.
- É, tipo o fome Zero não me arresorve então arresorvo eu,
hehehe!
Imediatamente passamos a providenciar o material.
Tentamos de tudo o quanto era jeito descolarmos um vaso
sanitário na faixa, mas como nada deu certo acabamos
optando pelo furto. Quase na frente de onde morávamos no
boqueirão tem uma loja de materiais de construção que
deixa as paradas maiores, como os vasos, no quintal.
Sábado à noite fomos lá fazer a reapropriação do utensílio
para um fim mais nobre do que ser cagado.
Só que foi mais foda do que pensávamos, o lugar era
limpo, escuro, sem vigia e tal, só que a porra pesa pra
caralho e o muro tinha um metro e meio de altura. Fomos só
em três, eu o Marmita e o Jean. Eu sou sou magro pra
caralho, força física não é meu forte e o Marmita é um
Delinqüente de Kinder Ovo, tão baixinho que costumamos
falar que ele não tem altura, tem profundidade. Resumo da
ópera, deixamos cair e quebramos dois vasos antes de
conseguir e ainda tivemos que sair nas carreras carregando
a bagaça por causa de uma cachorrada da porra que ouviu
os troços quebrando. Mas como Éris é Delinqüente foi tudo
sossegado, nada de polícia nem vizinhos armados.
A vó do Marmita, quase uma Delinqüente da terceira
idade, tamanha a sua admiração pelas nossas atividades
subterrâneas, nos ajudou a confeccionar a fantasia e os

261
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ovos o Sérgio fez de mentirinha, com balões, papel de


jornal, cola e gesso. Ficaram bem legais e bem coloridos.
Pra coisa ficar ainda mais besta Fábio encasquetou
de fazer uma gaiola pro coelhinho ficar aprisionado, como
um seqüestrado mesmo. Marmita, o Gambiarreiro das
Galáxias fez altos charchichos na gaiola pra que o coelho
botasse o ovo e ele rolasse até as mãos dos catadores
famintos. Ficou massa mesmo, devia patentear a birosca.
Os catadores porém, foram mais difíceis de descolar,
os caras são muito pragmáticos. Pra tentar fazer uma média
com o pessoal organizamos um churrasquinho no domingo
na casa da Denise.
- Tá bom piá, mas o que vamos ganhar com isso?
- Ganhar com isso? Sei lá, vão se divertir um pouco.
- Divertir? Não tô achando muita graça nessa coisa toda.
A coisa só começou a melhorar depois que a pinga e
a cerveja começou a fazer efeito na tigrada. Os caras
ficaram mais animados e quando começamos a contar o
que já tínhamos aprontado os rapazes começaram a
entender a piada. Três horas da tarde o pessoal já tava
mamado o suficiente pra que ponderassem uma proposta
que fazia uma era que eu queria fazer a catadores de
papelão: cartazes com frases provocativas em seus
carrinhos. Fábio já fez isso uma vez, no dia de nossa Missa
Discordiana, mas sempre achei que a coisa tinha que
prosseguir. Os caras se animaram bem mais quando falei
que iria pagar (é foda, o capitalismo ainda está aí e não dá
prosa). Dez reais pra cada um pra deixar colocarmos as
placas. Finalmente saiu acordo. A dúvida é se depois que o
efeito da cachaça passasse eles não fossem mijar pra trás.
Denise nos tranqüilizou.
- Podem ficar sossegados, conheço esses três, depois que
dão sua palavra vão até o fim.
- Claro piazada, fiquem gelo que na quarta-feira a gente se
encontra, mas e aí, se encontra onde mesmo?
- Ainda mais por déizão.

262
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Marcamos numa praça que ficasse mais ou menos


próxima de onde o pessoal deixava os papelões, faríamos à
tardinha, dessa forma não tomaria muito tempo do pessoal.
Juro que os caras ficaram até meio animados. As quatro da
tarde eu e o Marmita começamos a montar a gaiola e os
primeiros adoráveis curiosos (que seria de nós e do mundo
sem eles) apareceram com suas adoráveis perguntas.
- Pra quê isso?
- Sei lá, mandaram fazer e estamos fazendo.
- Sem saber pra quê???
- Quem manda manda, quem obedece obedece, você nunca
teve chefe?
- É verdade, é foda mesmo.
Sérgio seria o coelhinho e ficou de chegar com os
catadores, junto com Jean, que seria o cara que narraria em
off (que palhaçada!) e daria as devidas explicações aos
transeuntes sobre o que diabos estava acontecendo. Nós ali,
com a coisa toda montada, vaso e tudo mais e uma
pequena multidão de curiosos. Pra variar demoraram pra
caralho, já estávamos pensando que seria mais uma ação
frustrada quando surgiu na esquina uma corroçinha com um
enorme e horroroso coelhinho envolvido por caixas de
papelão, latas vazias e jornais velhos. O povo logo se ligou
que aquilo tenha a ver com a gaiola. Foi uma sarro a
maneira com que os três catadores cataram o coelho pelas
orelhas e jogaram dentro da gaiola.
- Tó seu lazarento, aqui tu vai ser mais útil pra gente!
- É verdade! ¿ falou Jean, o orador
O coelhinho passou as mãos na orelha, fingindo
humilhação, baixou as calças e sentou na latrina (sim, o
coelhinho estava com um ridículo bermudão listado com
tirantes, um sarro). Foi só sentar que já começou a levar as
chibatadas, aqueles catadores deveriam ser atores (tá certo
que Jean turbinou-os com etílicos antes da ação, mas dêem-
se o devido desconto) pois estavam com uma terrível
expressão de brabeza no rosto.

263
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Caga um ovo pra gente aí seu merda!


- É isso aí, caga mesmo que o nosso estômago tá roncando.
Os poucos que estavam ali caíram na risada e o
tumulto acabou atraindo mais gente. Jean aproveitou a
deixa pra começar a soltar o berro. Não sei de onde ele tirou
essa, mas vociferava e cuspia ao mesmo tempo, ficou um
efeito estranho, alucinado.
- Se o Programa Fome Zero não fizer nada por nós, nós
faremos. Não tem porque esse Coelho da Páscoa de Araque
só ceder seus ovos pra lojas que o revendem muitos caro do
que realmente valem. Vejam, são apenas ovos que o coelho
pões na hora que bem entender.
Eu e os piás, que estávamos como espectadores,
batíamos palmas a cada ovo que deslizava até as mãos dos
famintos e que iam parar em sacos de estopa. - Vamos seu
inútil, caga mais um!!!
Nisso apareceram dois meninos, de uns cinco ou seis
anos de idade, que pareciam bem espertos, pois chegaram
perto de Jean com um papo bem conciliador.
- Tio, o coelho não tem culpa por estes caras estarem com
fome.
- É, se os políticos não dão comida pras pessoas eram eles
que deveriam estar apanhando.
- E tem outra, vão deixar ele preso na páscoa?
- Não que agente acredite em Coelho da Páscoa, mas é que
tem criança que ainda acredita.
Os dois pirralhos eram uma matraca e pareciam que
não iam parar de falar. Jean tentou contornar.
- Mas entendam, ele tem que parar com essa coisa de
vender ovos, os chocolates deviam ser de graça pra todos,
vocês não concordam?
- Ih, tio. O senhor é muito burro mesmo. Aqueles ovos que
tem nas lojas nem é o coelhinho que bota nada, aquilo é
feito em fábrica.

264
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Nessa hora nossa falta de planejamento nos custou


caro, não tínhamos nenhum plano B combinado com os
catadores e um deles se indignou e deu um corridão na
piazadinha com o chicote. Os meninos saíram gritando e
tirando sarro dele. O cara ficou tão puto que correu acho
que umas dez quadras até perder eles de vista.
Continuamos com nosso teatrinho besta por mais uns
quinze minutos até que o Sagrado Deus do Inesperado nos
fez mais uma visita (se esse deus não existe, que fique
criado desde hoje, pois tem adoradores e todo deus adorado
deve ter sua existência reconhecida). E não é que os
meninos voltaram? E não voltaram sozinhos, voltaram em 8
e cercaram a gaiola. Jean se desatou a berrar.
- Parem! Parem! O que estão fazendo seus pivetes pirralhos
trombadinhas do caralho???
Eu saquei a coisa na hora e fui imediatamente pedir
pros catadores relaxarem e deixarem a coisa rolar. Os
meninos encheram de pontapés a gaiola e salvar o coelho
dos Terríveis Seqüestradores. Sergio se ligou na hora que
nem que tivéssemos planejado tudo a coisa teria tido um
desfecho tão glorioso. Acompanhou os meninos na fuga
desesperada enquanto eu, Vini, Fabio e Marmita puxamos
aplausos. Ainda tocamos fogo na gaiola e simulamos um
corridão nos catadores.
Nos encontramos num boteco perto da BR e Sérgio já
estava sem sua fantasia e tomando Tubaína com os dois
meninos metidos. Sei que o improviso no final estragou um
pouco nossa crítica ao Fome Zero e tudo mais. Mas fodam-
se as críticas, a coisa teve um fim divertido e quase
funcionou como um jogo situacionista: você cria as
situações e numa dessas a criatividade coletiva se
manifesta. O que aqueles meninos fizeram foi arte, aquela
arte de verdade, devolvida à vida das pessoas.
Todo mundo se divertiu, contestamos algumas coisas
e no mais, quem disse que se divertir não pode ser um fim
em si mesmo?

265
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Um Sexta-feira Santa Profana, por uma Gangue


Discordiana - (ataque quarenta e quatro)

Sempre odiamos dogmas, todo e qualquer dogma.


Eles são a pedra no caminho que barra toda e qualquer
mudança de paradigma, enfim, dogma é como câncer. E o
cristianismo seqüelou um terço da humanidade por quase
dois mil anos com seus dogmas odiáveis, principalmente
através da Igreja Católica. Com a aproximação da páscoa,
da semana senta e tal a piazada encasquetou de aprontar
alguma com os católicos. E olha que temos poupado a
igreja, a única vez que sacaneamos eles foi quando nos
vestimos de travecos para ir a uma missa e isso já faz
tempo.
Era justamente sobre dogmas e catolicismo que
estávamos discutindo logo depois do ataque do coelho da
páscoa na quarta-feira. Jean estava meio sem vontade.
- Sei não, cara, acho que atacar a Igreja Católica hoje em dia
é como chutar um cachorro morto na calçada.
- Mas eles ainda acumulam fortunas, esquece que o
Vaticano é dono de banco, imensos territórios improdutivos
e universidades?
- Tá, mas acho que hoje em dia os mais sacanas são os
exploradores da Máfia do Edir Macedo e assemelhados.
- Tudo bem, só que é foda desperdiçar uma chance dessas,
não somos contra dogmas? Pois então, é na semana santa
que os arcaicos dogmas católicos são celebrados.
A discussão já ameaçava entrar madrugada a dentro
quando tocou a campainha. Era marmita com uma sacola de
peixe e um garrafão do Velho & Bom & Barato &
Altamente Meia Boca Vinho Campo Largo.
- Pessoal, semana santa, vamos aproveitar o lado bom das
tradições católicas, trouxe cinco litros de sangue de cristo
diretamente do Hemocentro Celestial, sangue tipo A
positivo.
- Grande Marmitówski!!!!

266
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Urrúúú!! Esperamos que essa porra desse vinho ilumine


nossas idéias pra bolarmos um ataque pra sexta-feira santa.
Marmita demonstrou uma cara de espanto incrível.
- O quê? Iluminar idéias? Bolar ataque? De que caralho
vocês estão falando? Já não tava tudo definido?
- Definido o que seu manezÂo?
- Ué, eu pensei que a parada do churrasquinho já tava certa.
- Parada do currasquinho?
Esqueci de contar pro resto do pessoal, eu tinha
apenas conversado sobre isso com o próprio Marmita depois
da quarta cerveja numa lanchonete de algum japonês no
centro de Curita.
- Ô seus porra! O Ari não falou nada pra vocês?
- Não, qualé a boa?
- Caaaara, não sei de vocês mas eu vou fazer a encrenca
nem que seja sozinho, inclusive já preparei tudo.
- Preparou o que? Fala de uma vez!
- Vamos vender espetinhos na saída da missa na sexta-feira
santa.
Tem horas que o silêncio é mais engraçado que
gargalhadas. O pessoal silenciou, foi fazendo cara de
deboche até todo mundo estourar em risadas histéricas. -
Não boto fé!
- Pois bote, descolei uma churrasqueira style, fiz os
espetinhos com bambu, tá tudo pronto lá na geladeira da
minha vó e inclusive um detalhe pra incrementar, idéia de
um amigo do Ari do Blog dos Delinqüentes.
- Que idéia? Me dá medo até de perguntar.
- Um espetacular coração de boi.
- coração de Boi? Que porra você fumou antes de vir pra cá?
Não vá se meter com drogas, hein piá?
- Pra chocar os puritanos, coração de boi, a gente assa, fatia

267
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ele e distribui de graça pra atrair os clientes, dá até pra


dizer que é o coração de Cristo.
- Que poca vergonha, o fim do mundo deve mesmo estar
próximo
Jean protestou um pouco, não parecia muito afim, só
que por fim o gosto pela Delinquencia acabou prevalecendo,
no outro dia de manhã estávamos todos na casa da vó do
Marmita pra dar uma olhadinha no material e acertar alguns
detalhes Fábio & vinícius pareciam um tanto metódicos e
preocupados com os resultados. Coisas daquela surpresa
dos meninos no último ataque.
- Acho importante a gente ter um plano B. ¿ preocupou-se
Vinicius.
- Com certeza, estamos fazendo as coisas muito na cagada.
Numa hora dessas quebramos a cara.
- E então, o que vocês sugerem?
- Acho que devemos estar preparados pra sermos ignorados
solenemente.
- Será?
- Sei não, acho melhor estarmos prevenidos. A gente pode
descolar algumas pessoas pra fazer o papel de católicos
indignados.
-Maaaaassa! Grande idéia, inclusive podemos bolar
personagens de outras religiões e fazermos um belo Fuzuê
Teatral Secreto & Esclarecedor.
- Perfeito! Vendida a idéia da ação pro senhor ali da cadeira
amarela com encosto de palha!
Inevitável, convidamos a vó do Marmita, que já havia
se proposto a nos ajudar e que acho que já tá mais do que
na hora de apresentá-la: Dona Jurema. Cara, ela é muito
gente boa e inclusive me salvou a vida outra vez me
benzendo depois que peguei aquela Caganeira Alienígena.
Inclusive foi ela, uma insentivadora de nossa
Revolução Invisível, quem forneceu a carne e o
coração.

268
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Muito bem meninos, o que é que vocês querem que eu


faça?
- Queremos que a senhora seja uma devota católica. A
senhora nos xinga, nos esculhamba, enfim, faça um
escândalo grande o suficiente pra chamar a atenção do
povo.
- Ôpa, falaram com a pessoa certa, escândalos é comigo
mesmo.
Mais alguns telefonemas, mais alguns participantes
definidos e já estávamos com tudo em cima. Tratou-se de
um ataque até que simples de preparar. Difícil foi
acordarmos cerdo, a tempo de pegarmos a missa na sexta-
feira, tamanho foi o porre de vinho que tomamos na
véspera. Puta que o pariu, nada mais foda do que uma
ressaca de vinho, além de cagar preto e fedido ainda tem
aqueles arrotos azedos insuportáveis. Oito da manhã
estávamos todos no Terminal Centenário pra pegar o buzum
Vila Camargo pra irmos até o alvo, a Paróquia São Joaquim
no Cajurú.
A missa tava cheia, esperamos ela começar. Dona
Jurema ainda fez a fineza de trazer sua vizinha costureira e
alcoólatra pra participar juntas. A duas entraram na
Igreja, se abancaram e esperaram conferindo no
relógio que desse a meia hora de missa, que era o
combinado. Marmita foi o assador. Conforme ele foi
armando a parada e acendendo o carvão os primeiros
transeuntes já começaram a olhar desconfiados. E olha que
a coisa não tava muito amistosa não, as pessoas passavam
fazendo cara feia e não falavam nada. Quando os curiosos
não manifestam sua curiosidade é algo pra se preocupar.
Quando a carne dos espetinhos começou a cheirar os
comentários começaram a aparecer. Acho que, na boa, acho
que nem precisávamos trazer falsos católicos, a igreja é na
periferia e o povo de lá não tem muitos pudores, é no
popular mesmo.
- Que é isso moço? Que você está fazendo?
- Sabe o que é tio? Estou desempregado e tenho que me

269
Manual Prático da Delinquência Juvenil

virar na informalidade. Não posso perder uma única


oportunidade de levantar algum.
- Tudo bem, muito certo, é melhor do que roubar, mas
precisa desrespeitar os outros?
- Desrespeitar? Que nada! A maioria das pessoas nem dá
mais bola pra esse tipo de coisa hoje em dia.
- Será? Olha, eu sou envangélico, mas não gosto de
provocar ninguém e quer saber? Se alguém vier aqui lhe dar
uma surra não moverei uma palha pra te ajudar, por mais
que você queira me convencer de que está trabalhando o
que acho mesmo é que isso é uma grande molecagem.
Caraca, o troço tinha tudo pra acabar mal, o que, de
nosso ponto de vista, significava acabar bem. E realmente,
verdade seja dita, Marmita é um churrasqueiro de mão
cheia, não era só balaca como imaginávamos, em meia
hora, no prazo combinado, o coração estava pronto e sendo
fatiado. Eu & Vinícius faríamos o papel de Ateus
Gozadores & Arruaçeiros.
- Olha o coração de Cristo! Venham comungar com a Carne
Sagrada! É de graça, presente dos céus!!
- Ôpa! Passa aí um naco dessa carne sagrada moço.
¿ exclamamos eu & Vini.
- Peguem rapazes, esse coração cura tudo, até coisas do
coração, alguma paixão mal curada aí?
- Não, nenhuma, só fome mesmo.
Só que nem tudo são espinhos, primeiro apareceu
um mendigo fendendo a pinga que apreciou o Coração de
Cristo e também mais três moleques. Já tava uma certa
multidãozinha bandeirosa na frente da churrasqueira e o
Inesperado nos presenteou com sua prodigiosa capacidade
mudar a direção dos ventos: a fumaça com perfume de
churrasco foi em direção a entrada da Igreja. Em segundos
Dona Jurema apareceu na porta, empunhando uma
sombrinha e com uma cara de furiosa. Aproximou-se em
passos largos e, não sei que naipe de improviso foi esse,
mas arrastava uma perna e era de uma semelhança com a

270
Manual Prático da Delinquência Juvenil

velha surda daquele programa humorístico do SBT tão


grande que todos que estavam sabendo da ação caíram na
gargalhada.
- Do que vocês estão rindo seus moleques. Não tem
vergonha na cara seus blasfemos.
- Calma minha senhora, aceita um pedaço do coração do
Lazareno?
- O quê?
Bom, a coisa era de família mesmo, nem posso
comentar nada, mas ela deu uma porrada com o cabo da
sombrinha tão grande e realista na cabeça do Marmita que
o coitado caiu de costas sobre a churrasqueira e se eu & Vini
não tivéssemos os segurado acho que teria ocorrido uma
tragédia. A velha deve ter ensaiado aquele golpe desde a
infância marmitiana.
Nessa hora Fábio & Sergio se manifestaram, todos de
preto e com Bíblias na mão e começaram a bater boca com
Dona Jurema sobre os furos da Doutrina Católica, sobre a
bobagem que era não comer carne na semana sangue,
sobre a adoração a santos e não sei que lá. E discutiam alto.
Tão alto que umas seis pessoas saíram da Igreja pra ver o
que estava acontecendo. Uma mulher de uns 30 e poucos
parecia a mais exaltada.
- Essa pouca vergonha não pode ficar assim, vou tomar
providências.
Saiu a passos largos apertando nervosamente alguns
números no seu celular. A discussão continuou e agora eram
mais duas senhoras estranhas ajudando dona Jurema que,
num golpe teatral de mestre, simulou passar mal e foi
ajudada por nossos dois Evangélicos Delinqüentes. Ficou Eu
& Vinícius ajudando na argumentação.
Logo depois veio Jean com seu antigo traje de rabino
xingando a todos e falando que era tudo um bando de
louco. O cara tava um sarro e trazia pendurado no peito um
cartaz avisando que o fim do mundo estava próximo.
- Essa discórdia toda é a maior prova do que eu digo.

271
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Foi então que a coisa sujou. Encostou um carro da


polícia. Nos olhamos todos e eu senti que Marmita tremeu
na base. Nossa sorte é que Vinícius é um tremendo
ensaboado na hora de discutir com os Hômi. Em cinco
minutos eles foram embora, definitivamente aquilo não era
coisa pra polícia, não estávamos fazendo nada errado.
Só que a mulher de 30 e poucos não desistiu e
loguinho acabou com nosso Teatro Profano, chamou a
Guarda Municipal. Êita Balzaca esperta!
- Cadê a licença de vendedor ambulante.
Quem somos nós diante de um burocrata? Além do
mais já tava na hora de parar mesmo, carregamos tudo até
o ponto de ônibus e voltamos Rindo & Bebendo Vinho &
Rindo & Bebendo Vinho e comentando em tom de
deboche.
- Se as coisas forem como os católicos dizem que são
estamos todos fudidos, o inferno vai ter que fazer novos
loteamentos.

Delinqüentezinho da Páscoa, O Que Trazes Pra Mim? -


(ataque quarenta e cinco)

O ataque planejado pra noite de páscoa foi


aguardado num clima de empolgação, pois seria o terceiro
na mesma semana. Nos sentíamos como se fôssemos tipo
que um Comando Delinqüente de Elite. Apenas Vinícius
parecia meio cabreiro, afinal autoconfiança em excesso em
véspera de invasão não é nada bom e nosso ataque seria
justamente nessa linha: invadir casas.
A discussão sobre o que faríamos na páscoa
começou já durante o mês de março. As sujestões eram
muitas e variadas. Fábio queria vandalizar supermercados. -
Podemos meter o dedo e quebrar os ovos de páscoa nos
mercados.
- Quebrar ovos? Tá pra quê? Qual será a mensagem de
protesto por trás da ação?

272
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Ari, a gente detona os ovos do Wall Mart, que é uma mega


corporação e não é preciso motivos pra se vandalizar uma
mega corporação, ela sempre saberá porque está sendo
vandalizada.
- Boa essa, uma frase lapidar, hahahaha!!!!
Apesar de seus argumentos quase convincentes a
galera acabou arquivando a idéia, pois uma melhor e mais
definitiva acabou surgindo na roda. Vinícius foi o pai da
criança.
- Caaara, tive uma idéia demencial!! Podemos fazer umas
invasões na noite de páscoa!
- Invasões? De que?
- Tu tá ligado que as crianças na noite de páscoa deixam
uma frestinha da janela aberta pro coelho entrar não é
mesmo? Pois então, aproveitamos essa deixa, essa
maravilhosa facilidade pra dar uma de coelhinho e deixar os
ovinhos pra elas.
- Rapaz, sabe que não é uma má idéia? - Jean curtiu.
- Ih, véio, hoje em dia as crianças não acreditam mais em
coelho da páscoa. Fábio objetou.
- Não é bem assim não, o povo simples, dos bairros mais
pobres, ainda cultivam essa tradição, tenho certeza disso. E
além do quê, invadir casas na periferia sempre foi mais fácil
e dar presentes às crianças pobres sempre foi mais nobre.
- Então, Delinqüentias & Delinqüentios, a idéia do imbecil
Vini foi aprovada!!!
Discutimos mais e concluímos que o certo seria uma
fantasia mínima de coelho, com orelhas e pés de algodão. A
coisa já tava encaminhada quando Marmita veio nos visitar,
soube do plano e resolveu dar uns pitacos.
- Ari, a idéia tá massa, mas parece que ainda falta alguma
coisa ficar ficar complicada e perfeitinha. - reclamou o
figuraço Marmitówski
- Concordo, mas o quê?

273
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Que tal uns presentinhos?


- Que tipo de presentinhos?
- Quando eu era pequeno meu pai me ensinou a fabricar
uma porrada de brinquedos.
- Fabricar brinquedos? Taí uma boa idéia cara, a gente
presenteia a galerinha e ainda não gasta nada com lojas.
Sabe Marmita, sua esperteza é maior que sua estatura.
- Vai te fuder!!!!
Marmita passou o fim de março obcecado com os
brinquedos. Conseguiu madeira, ferramentas e tintas e se
internou no processo. Em três dias começaram a aparecer
as obras: os tradicionais carrinhos pra meninas e casinhas
de boneca pras meninas. Até que o cara leva jeito pra coisa.
Aliás o cara leva jeito pra diversos trabalhos manuais, foi o
artesão que construiu nossa lendária catapulta de jogar
merda. Dona Jurema, sua vó e Delinqüente da Terceira idade
gostou da nossa idéia e se encarregou de fabricar os
chocolates pra salvaguardar nossas parcas finanças.
Inclusive a coroa fez questão de preparar os doces nosso
Muquifo, Doce Muquifo. - Quero saber como é o lugar que os
amigos de meus netos moram.
Na sexta-feira santa, logo depois da sacanagem que
aprontamos na igreja ela foi direto pro nosso muquifo e
começou a trabalhar nos chocolates. Marmita foi em casa
buscar seu irmãozinho pra passar o dia com a gente posso
garantir com todas as letras, a presença do pirralho foi
fundamental pra nossa ação. Porque? Porque o piazinho nos
presenteou com uma sensacional meme mirim.
Ele ficou vendo Marmita dar os últimos retoques nos
brinquedos e ouvindo nossas conversas sobre a ação,
sempre quietinho, sem falar nada. Até que lá pelas tantas
ele resolveu abrir sua boca. Falou bem timidamente e quase
inaudível:
- E se vocês deixassem uns coelhinhos de verdade dentro do
quarto das crianças.
Todo mundo parou o que estava fazendo e olhou pro

274
Manual Prático da Delinquência Juvenil

menino, que ficou com o rosto vermelho de vergonha e


baixou a cabeça.
- O que tú falou???
- Nada, tá bom, desculpa, não me meto mais.
- Que nada seu moleque, sua idéia é muito boa, o que vocês
acham? defendeu dona Jurema.
- Caralho! Que idéia massa!!!!
Não teve nem o que discutir, o menininho soltou a
melhor frase que poderia ter soltado. A idéia caiu feito uma
bomba em nossas Mentes Delinqüentes. - Genial, os
moleques vão pensar que é o próprio coelhinho da páscoa.
- Tive uma idéia melhor, a gente coloca uma coleira no
bicho e deixa um bilhete: cuidem bem de meu filhinho, não
maltrate ele.
As gargalhadas foram ensurdecedoras, finalmente
nosso plano de ataque estava decididamente arredondado e
azeitado, como alvo escolhemos o bairro do Parolim. No
sábado Fábio & Jean desembolsaram uns dinheiros e
comprar cinco coelhos numa loja de animais, Marmita
desenvolveu gaiolas com tirantes que funcionavam como
mochilas, perfeito. Quando chegou a noite a expectativa era
tanta que o tempo se dilatou, a meia noite demorou uma
era pra chegar. Mas chegou. Pegamos o bi-articulado do
boqueirão, descemos no terminal tubo do Parolin e fomos
confiantes pra nossa Missão Sagrada.
Andamos um monte pra chegar numa favela
adequada e ainda tivemos que desviar de várias malárias
(maloqueiros na gíria curitibana). Andávamos em silêncio
com três de cada lado da rua procurando um caminho
seguro que desse pra algum quintal. Lá pelas tantas tantas
Jean soltou um assobio fininho e gesticulou com o braço,
uma alvo potencial foi localizado. Terreno tava cheio de
tralhas, parecia um ferro-velho, mas dava num muro de um
metro de meio de altura atrás do qual tínhamos acesso aos
quintais de quatro casas.
Escalamos o muro e ficamos aguardando pra ouvir os

275
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ruídos e tentar identificar qual a casa mais adequada pra


invadirmos. Estávamos vestindo nossas ridículas (e bota
ridículas nisso) orelhas e patas de coelho quando fomos
interrompidos pelo latido de troçentos cães. Nem paramos
pra discutir, picamos a mula dali rapidamente. Então
começou a sessão, tudo quando alvo que localizávamos
esta repleto de cães. Jean já tava ficando impaciente.
- Cara, daqui a pouco vou entrar num quintal com cachorro
mesmo, dou uma bicuda e o porra cala a boca.
- Não viaja Jeanzinho, não viaja.
Num dos quintais ele achou que estava limpo. Pulou
do muro e quando estava perto da casa um cachorro saiu
revoltado de uma caixa de madeira e foi direto na batata da
perna de nosso amigo Delinqüente. Não sangrou, mas
segundo ele doeu pra caralho. Ficou tão emputecido que
abandonou um coelho só de raiva. Antes trocou o bilhete de
coleira:
Me ajudem, sou o coelho da páscoa, perdi meu saco
com ovinhos e pra completar me perdi também, alguém
pode me encaminhar a um ponto de ônibus e me ceder um
vale transporte?
Foi um parto, a sensação que se tinha é que os cães
haviam dominado mundo, que osp postes foram feitos
unicamente para esses lazarentos mijarem e nossas pernas,
ao invés de meio de locomoção, eram nacos de carne pra
saciarem sua fome animal. Foda mesmo a bagaça, acredite.
Só que uma das característica que um bom
Delinqüente deve ter é a tal da paciência. Lá pelas quatro
da manhã descobrimos um terreno baldio arregadíssimo.
Também contou a idéia genial do Marmita de fazer um
esporro a tres quadras de distância pra desbaratinar a
cachorrada.
Eu & Jean fomos pro front enquanto o resto do
pessoal ficou ou de sentinela ou enrolando a cachorrada. O
terreno baldio dava pra cinco casas, não tinham quintais,
era como se aquele quintal fosse coletivo, varais de roupas
pra tudo quanto eé lado e até uma trave de futebol

276
Manual Prático da Delinquência Juvenil

tosquíssima. Jean escolheu uma casa e foi na frente


enquanto fiquei cuidando da retaguarda.
É sempre assim, quando a gente fica esperando os
caras demoram pra caralho, já tava me batendo sono
quando o viadinho voltou.
- Ari, limpeza total, a primeira casa que eu tentei tava toda
fechada, mas na segunda tava aberta. O povo tava
dormindo só que não consegui descobrir nenhum quarto de
criança. Acho que nem tinha criança na casa. Então deixei a
parada em cima da mesa da sala. Ficou massa, os caras vão
ter uma puta surpresa de manhã.
- E o coelho?
- deixei dentro do forno do fogão da cozinha.
- O que? Hahahaha!!!
- Cala a boca seu porra, vai que é a tua vez.
Confesso que tava cabreiro, dessa vez fui eu a
demorar. Dei sorte que na primeira casa que cheguei tinha
uma janela entreaberta, no entanto esperei ao lado dela uns
dez minutos antes de entrar. Sacumé, um time pra adrena
baixar, saca? Observei pela janela e vi que era minha noite
de sorte, era um quarto de criança. Ao lado da cama uma
cestinha reluzia com papel prateado e dourado. Mas na
cama não tinha ninguém.
O menino deve estar com medo do coelhinho e deve
estar dormindo na cama dos pais, pensei comigo mesmo.
Melhor pra mim. Entrei cuidadosamente e quando fiquei de
pé em cima da cama a porra deu um estalo que regelou
minha alma. Não entrei em desespero, fiquei ali, paralisado
e em silêncio por uns três minutos até chegar a conclusão
que ninguém tinha acordado e então desci da cama. Soltei a
mochila/gaiola das cosas e comecei a trampar. Primeiro fiz o
que considerava mais difícil, dispensar os ovos sem fazer
barulho. Depois estacionei cinco carrinhos d emadeira
embaixo da cama do menino. Os outros poucos brinquedos
que estavam no quarto indicavam que se tratava de um
menino mesmo.

277
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O coelho escolhi colocar dentro do guarda-roupa.


Quando estava colando um papel com a palavra
¿surpresa¿ na porta do guarda-roupas levei aquele que com
toda a certeza possível nesse universo infinito foi maior
susto da minha carreira. Meu sangue gelou, o chão sumiu
dos meus pés, meu coração batia na garganta querendo sair
pra fora, pensei que ia desmaiar. Uma voz rouca e baixinha
dizendo:
- Coelhinho!!
Sem saber de onde tirei essa coragem olhei por cima
do ombro, não conseguia me mecher, estava paralisado. Era
uma criança de no máximo tres anos de idade.
Quando nos encaramos ele falou de novo.
- Oi coelhinho!!!
O lazarento tava fazendo campana pra flagrar o
coelhinho e conseguiu.
- Eu sabia que você ia vim.
Veio correndo em minha direção e me abraçou. Eu
todo cagado e ele emocionado. Não sei como descrever o
que senti. Demorei pra caralho pra escrever esse relato por
não encontrar palavras que descrevesse minimamente o
que senti naquele momento. Quando ele falou que gostava
muito de mim, me desatei a chorar.
- Psssiu coelhinho, meu pai não pode me acordar senão ele
me bota de castigo por estar acordado essa hora.
Me aclamei um pouco e mostrei a ele o coelhinho no
guarda-roupa
- É seu irmãozinho?
Acenei que sim com a cabeça, não sabia o que dizer,
na hora pensava que tinha perdido a voz com o susto e fingi
que o coelho da páscoa não falava mesmo. Mostrei os
brinquedos e ele me deu mais um abraço, mais lágrimas.
- Porque vc está chorando? Eu gosto de você, está triste
porque vai embora?

278
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Acenei que sim e tratei de sair dali. Enquanto me


afastava em direção onde o Jean estava olhei pra trás e vi
que o menino estava me dando tchau! Retribui e saí
correndo. Jean estava impaciente ao extremo, perdo a noção
de tempo.
- Cara, vc demorou quase quarenta minutos. O que houve?
- Vamos embora daqui cara.
- Você tá chorando Ari? O que houve?
- Nada véio, depois te conto.
Nos reunimos todos numa banca de cachorro-quente
perto da Marechal e relatei o ocorrido ao pessoal que ouviu
sem acreditar no que estava ouvindo. Todo mundo achou
muito engraçado, mas eu fiquei com um estranhíssimo nó
na garganta. Parecia que eu tinha sofrido uma metamorfose
naquele quarto de criança e que não era mais o mesmo. No
domingo de páscoa dormi o dia inteiro e quando chegou a
noite fui à rodoviária, comprei uma passagem e fui visitar
meus parentes. Faltei três dias de trabalho e quando voltei
ganhei a conta.
Tudo tem seu preço, mas a experiência que vivi vale
muito mais que esse empreguinho vagabundo nesse
escritoriozinho sem futuro. Com certeza, nem eu nem
aquele moleque esqueceremos daquela noite. Não entendo
o que senti, mas sei que foi maravilhoso.

Se o Sexo É O Que Importa Só A Delinqüência Fala de


Amor - (ataque quarenta e seis)

Semana passada a discussão sobre Sexo, Pornografia


& Putaria voltou à tona nas Inevitáveis Madrugadas de
Bebedeira no nosso Muquifo do Sítio Cercado. Vinicius &
Marília tinham ido visitar a Denise, aquela nossa amiga
catadora de papelão. A mina voltou chocada & revoltada &
indignada com o filho mais velho da mulher.
- Os papos do piá, vocês não botam fé!

279
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Eu e a piazada estávamos jogando numa roleta que


tínhamos comprado num Lojão 1,99. Cassino Clandestino do
Mocó dos Delinqüentes. Tava estiloso mesmo: fumaça de
cigarro, luz fraca e musiquinha fuleira, a cargo de minha
extensa coleção de fitas cassetes com musicas bregas. Eles
quebraram nossa clima, mas Marília tava tão engraçada
com sua revolta que ninguém teve coragem de reclamar.
- Que foi mulher, quê que tinha os papos do piá?
- Um depravadinho, isso sim!.
- Nem tanto Marília, nem tanto. ¿ vini desconversou.
- Nem tanto o caralho! É um merdinha de nove anos e vem
querer me dizer que já transou!
- Já transou????
- Diz ele que achou na rua cinqüenta reais e foi com uns
coleguinhas numa zona. Chegou lá, falou com a dona do
estabelecimento, conseguiu uma mina e faturou enquanto o
resto da criançada tomava quissuco de tangerina.
Lógico, todo mundo caiu na gargalhada. O Piazão
passou instantaneamente de um mero conhecido nosso a
Herói Nacional do Nosso Muquifo. Com a moral de ter pôster
na parede e tudo.
A discussão que se sucedeu foi monstruosa, Marília
revelou-se cheia de pudores e Jean foi à loucura de tanto
que ria tirando onda dela.
- Porra, em que século você vive? Hoje em dia qualquer
criança com mais de oito anos está ligadíssima nessas
paradas de sexo.
Lá pelas duas da matina, com todo mundo já quase
bêbados, acabamos combinando de fazermos um Teatro
Secreto. Jean deu a idéia.
- Pro troço ficar mais massa tinha que ter a participação
desse guri, o Rafael.
- Como assim? Que tipo de Teatro Secreto.
- Eu pensei no seguinte, saca aqueles meninos que entram

280
Manual Prático da Delinquência Juvenil

no ônibus distribuindo um bilhetinho onde alegam passar


necessidade e depois recolhem de volta junto com
as doações?
- Só, tô ligado.
- Pois então, ao invés desses bilhetinhos ele entregaria
alguma coisa pornográfica que indicasse que ele está
inteirado dessas paradas de sexo. Vinicius adorou a idéia e
já soltou um complemento.
- Jean do céu! Perfeito!! A gente pode bater uma foto do
Rafinha se masturbando!
- Se masturbando???!! Marilia apavorou-se
- Claro, que nem o Hakim Bey falou. Ele não tinha sugerido
fazer um pôster de um menino se masturbando e abaixo a
frase “essa é a face de Deus”? Pois então, podemos adaptar
esse memu a nossos intentos.
Marmita estava se mijando de tanto rir.
- E eu preparo algumas daquelas caixinhas que quando a
pessoa abre um boneco levanta a pica, hahahaha!!!!!
Mais um turbilhão de gargalhadas e o plano foi
aprovado. Cada um se encarregou de uma parte dos
preparativos. Claro que nosso ataque envolvia riscos, podia
ter um PM à paisana no ônibus ou alguém podia se revoltar
e ligar do celular pra alguma autoridade “competente”.
Enfim, combinamos que se qualquer coisa desse errado era
só gritar “Fnord!!” que imediatamente abortaríamos a
encenação e desceríamos do buzum.
Foi eu e Fábio que nos encarregamos de bater a
famigerada foto. Trouxemos Rafinha pra passar uma noite
no Muquifo e fizemos a proposta, que ele aceitou sem
pensar sequer meia vez. Largamos uma Playboy na mão do
guri e mandamos ele entrar no banheiro e que só nos
chamasse quando estivesse com a rola definitivamente
dura. Uns quatro minutos depois ouvimos um grito.
- Apurem seus merdas!!
Abrimos a porra e quase não conseguimos fotografar

281
Manual Prático da Delinquência Juvenil

bosta nenhuma de tanta risada. O guri tava vermelho,


ofegante e suava tanto que parecia que tava chovendo
dentro do banheiro.
- O quê que é isso piá, você vai ter um troço!
- Vão à merda seus viados e batem esse caralho de foto
duma vez.
Fábio bateu várias fotos, pois ria tanto que não tinha
certeza se estava focalizando direito. Fechamos a porta, nos
escoramos na parede e nos partimos de dar risada, quando
o menino saiu do banheiro estávamos rolando no chão.
Ficou tão indignado que nos cobriu de bicudas até acertar
de geito uma costela do Fábio.
- Parô! Parô! Parô!!!!
Pra revelar estávamos cabreiros. Se mandássemos
num estúdio de revelação normal alguém poderia se invocar
e numa dessas até nos denunciar por pedofilia.
Resolvemos procurar um meio alternativo. Tinha uma
conhecida da Marília que tinha um estúdio de revelação.
Depois de muita argumentação ela acabou topando. No
outro dia estávamos com as hilárias fotos em mãos.
Tomamos o devido cuidado de raspar e pintar de preto o
rosto, pra evitar reconhecimentos e processos penais ou
coisa que o valha.
Nosso artesão mor Marmita quem confeccionou as
caixinhas. Só de sacanagem pintou elas de cor de rosa com
florzinhas coloridas pra ludibriar a galera. Dentro colocou
um bonequinho do Lula pra lá de tosco, mas com barba,
faixa presidencial e um dedo a menos. Na ponta da rola do
presidente fez uma frestinha pra encaixarmos a foto do
punheteiro mirim. Fazia séculos que não dávamos tantas
risadas, uma autêntica histeria coletiva.
Marcamos pra quarta-feira seis e meia da manhã no
ônibus que ia da Vila Fanny até o Terminal Hauer. Sérgio quis
ficar de fora e Marmita faltou na última hora, estava com
uma terrível febre e dor de garganta. Fábio se indignou.
- É um paunocú mesmo, no mínimo amarelou.

282
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Fomos eu, Fábio, Jean e Vinicius. Entramos num


ponto bem no início da linha e uns três depois entraria o
Grande Pequeno Rafael, o príncipe da depravação. Quando
Rafinha entrou no ônibus já estávamos todos em nossos
postos. Ele entregava as caixinhas pro povo e avisava que
só era pra abrir quando ele avisasse. As pessoas pegavam
as caixinhas e olhavam intrigadas, graças a Éris ninguém
abriu antes da hora. Confesso que fiquei cabreiro, minhas
mãos estavam suadas. Estava perdido em meus
pensamentos cabreirísticos quando ouvi a voz vindo do
fundo do corredor.
- Podem abrir!
Então um pandemônio abateu-se sobre o coletivo.
Gritos histéricos, gritos de “ai que nojo!”, “meu deus do
céus!” e outros que não consegui identificar. Teve uma
senhora que jogou a caixinha na testa do Rafinha. Outras
duas jogaram pela janela e umas três jogaram no chão e se
benzeram todas. Um sujeito maltrapilho ria que se mijava.
Dois piás também rachavam o bico de dar risada no fundão.
O motorista até reduziu a velocidade pra conferir no
retrovisor que diabos estava acontecendo.
Ponto pra nós, ele também sorriu.
Nosso objetivo era não perder o controle da situação,
acontecesse o que acontecesse teria que ser um de nós a
começar a discussão. Vinícius tomou a frente. - Você não
tem vergonha cara seu moleque?
- Porque tio? Isso daí é artesanato, ué.
Uma senhora tomou a frente nas acusações,
abafando Vinicius por completo.
- Isso é uma falta de respeito, você deveria estar consciente
que tem gente de família aqui dentro. Pessoas indo
trabalhar e não dispostas a agüentar qualquer tipo de
sem-vergonhiçe.
- Opa! O que a senhora quer dizer com isso? Jean interferiu.
- Como assim, o que quero dizer? O que eu disse é óbvio!

283
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Não tô vendo nada de óbvio no que a senhora falou. Desde


quanto sexo é uma coisa proibida para famílias? O porque o
menino deveria ter vergonha de um boneco com pênis? Fora
as mulheres todos tem pênis e não vejo motivo algum pra
se envergonhar disso.
- Isso não significa que tenha que se ficar mostrando pra
todo mundo.
- O quê? Ele mostrou sua rola? Onde? Onde?
- Escuta aqui rapaz. Esse assunto é sério e não deve ser
levado na brincadeira, é isso que estou tentando dizer.
- Sério? O que há de tão sério numa coisa tão natural. É
essa aura de seriedade toda, essa proibição de se tocar no
assunto que deixa as pessoas tão desinformadas e
recalcadas. Esse assunto deveria ser discutido em todas as
famílias.
- Sim! Nas famílias e não num ônibus.
- Porque não nos ônibus, nas praças e nas calçadas?
Pessoal, precisamos de mais sexo, falar mais de sexo,
praticar mais sexo, não é mesmo pessoal?
Nessa hora respondemos todos, nós que estávamos
ligados do Teatro Secreto, mais os dois moleques do fundão
e o maltrapilho bebum.
- Ééééééé!!!!!! ¿ os moleques chegaram a beter com pés no
chão, estavam adorando aquele quiprocó.
Rafinha soltou então a frase-chave, a senha de acesso ao
tabú máximo.
- Inclusive nós crianças...
Todos olharam pra ele.
- ... deveríamos fazer sexo. ¿ terminou a frase diminuindo o
tom da voz, tamanha a vergonha que estava sentindo
devido aos olhares.
Momento do tabú. Incrível isso, todo mundo
silenciou, sou capaz de dizer que nem o barulho do motor
do latão dava pra ouvir. O Profeta do Apocalipse Sexual Jean

284
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Pierr rompeu o silêncio.


- É isso mesmo, crianças como essa deveria praticar sexo
sim!
Aí a senhora foi à loucura.
- Agora sim que eu vi que você é um louco, crianças fazendo
isso é uma absurdo sem tamanho!!
- Não vejo absurdo nenhum nisso. As crianças não são tão
tolas o quanto o as adultos pensam. Elas sabem muito bem
como as coisas funcionam e esconder delas informações
importantes só faz com que elas sintam vergonha, medo e
quando chegam na adolescência viram uns jovens
problemáticos e cheios de traumas.
- Isso não faz sentido nenhum, a criança tem que estar no
mínimo fisicamente preparada.
Nessa hora eu entrei rasgando.
- Péraí minha senhora! Quanto eu tinha oito anos já tinha
ereção e pratiquei sexo com uma vizinha da mesma idade e
por mais que nenhum dos dois tenham atingido o orgasmo
posso te garantir que foi muito bom.
- Isso não prova coisa nenhuma.
- Inclusive algumas civilizações antigas eram muito mais
avançadas que a nossa. Dizem que eles davam aulas de
Educação Sexual pras crianças, ensinando coisas como
masturbação, sexo oral e fertilidade.
- Isso pra você como isso é ultrapassado. Se isso acabou é
por que esses gregos estavam errados, eram quase
selvagens, animais mesmo.
- Não fale bobagem minha senhora. Os gregos selvagens?
Isso sim é que é um absurdo. Eles eram avançados sim, que
ferrou com tudo foi o Cristianismo. O cristianismo que
ensinou às pessoas a terem vergonha do sexo, nos ensinouo
medo. O cristianismo foi o grande mal da humanidade.
Falei isso e olhei pros meus colegas, estavam pondo
a mão na cara como se eu tivesse feito cagada. E não deu
nega, um evangélico que até então estava quieto num

285
Manual Prático da Delinquência Juvenil

canto se revoltou e pegou seu celular. Era tudo o que


temíamos.
- Querem ficar de palhaçada fiquem, mas saibam que sou
um homem de bem e não vou aceitar que fiquem
blasfemando contra Deus Nosso Senhor, isso que esse
marginalzinho fez aqui dentro é atentado ao pudor, alguma
coisa precisa ser feita.
- Fnord! Fnord! Fnord!!!!
Damos uma sorte dos diabos que bem nessa hora o
buzum parou num ponto. Mandamos às favas nossas boa
educação e descemos correndo simplesmente atropelando
quem estava subindo. Rafinha conseguiu recolher algumas
fotos. Fomos a pé até o Terminal Hauer rindo feito umas
hienas chapadas de benzina. Bom, podemos até estar
completamente equivocados com nossas teorias, mas a
questão deve ser debatida. O que não se pode é largar uma
pá de cal sobre o assunto.
E além do mais, O Caos Deve Avançar e fizemos,
além de nosso teatro Secreto, uma belíssimo Distúrbio
Cotidiano. Tenho certezade que quem assistiu a cena deve
ter chegado no trampo ou na escola e contado o ocorrido
aos colegas. Muitas rodas de debates devem estar se
formando nesse momento.
Fnord!

O Jogo Proibido Dos Novos Bárbaros (Vandalismo ou


Barbárie) - (ataque quarenta e sete)

O ataque pornográfico no buzum deixou nossos


cérebros em êxtase delinquente. Provamos do Néctar
Supremo da Transgressão Sexual. À noite em nosso muquifo
parecíamos um bando de loucos. Quase todo mundo falando
ao mesmo tempo e todos querendo atenção.
- Escuta porra! Eu tô falando.
- Cala a boca! Você não ouviu o que eu falei?

286
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- À merda você!
- Mas como eu tava te dizendo seu merda, lebra a cara
daquele bebum?
Quando estamos todos nos ofendendo é porque
estamos de bem, estamos em sintonia profunda. Nesses
casos, apesar dos palavrões e das ofensas pessoais,
estamos numa perfeita sinergia, uma inteligência coletiva
altamente marginal. É nesse ambiente que o vandalismo
aflora em nossas mentes. Fábio subiu em cima da mesa,
virou uma garrafa de cerveja pelo gargalo, no gúti-gúti,
jogou o casco contra a parede e berrou:
- Bota pra fudêêêêê!!!!!
Batemos palmas e reclamamos dos cacos de vidro no
chão.
- Depois eu dou jeito, pois o que eu quero agora é quebrar
tudo!!
- Então vamos fazer isso. ¿ falou vinicius, com uma calma
cômica Todos olharam para ele.
- O que vocês estão olhando? Vamos botar pra quebrar
então, ué.
- Olha o tipo do cara, meu!
Levantou-se de onde estava, revirou umas caixas de
papelão que estavam fechadas desde nossas mudança
clandestina e voltou com nossos Antigos & Abençoados
Estilingues.
- Lembram?
- Só! Mas e daí?
- Daí que vou propor realizarmos aquele Jogo Proibido Anti
Automóvel que o Ari falou noutro dia.
- A parada dos semáforos?
- Graaaande guri!
Fábio tomou a iniciativa, subiu na mesa novamente e
intimou a malária:

287
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- E então, vamos ou não vamos?


Óbvio que em meio àquela histeria coletiva todo
mundo topou. O jogo tratava-se de uma brincadeira, na
verdade um vandalismo de protesto contra o fascismo
automotivo. Delimitaríamos uma área, combinaríamos um
tempo e o objetivo seria detonar com os estilingues a maior
quantidade possível de semáforos. Vandalismo por uma
questão de revolta. Vandalismo por uma questão de
opressão. Vandalismo por uma questão de falta de
perspectivas de mudança. E de excesso de adrenalina no
sangue também, admito que era o caso naquela noite.
Sérgio, que ultimamente anda todo pudorado e mais
cagão ainda do que sempre foi achou a coisa toda meio
vazia de sentido e maloqueira demais, sugeriu um
acréscimo.
- Poderíamos colocar um pano preto sobre o semáforo
atingido, simulando uma espécie de luto.
- tá, mas vamos colocar como a parada? Os semáforos
costumam ser altos pra caralho.
Desta vez foi Sérgio que fuçou nas caixas de
papelão, voltou com as varetas que tínhamos utilizados pra
lançar um feitiço contra a imobiliária em um ataque que
empreendemos a tempos atrás. A galera fez aquele silêncio
típico que sucede os momentos de surpresa, como é que
não tínhamos pensado nisso antes? Sérgio demora pra
chutar a gol, mas quando chuta é certeiro.
Enquanto Sérgio costurava os panos pretos com sua
agulha pra ficar com formato de sacos e facilitar o encaixe
no semáforo fui com o Jean à casa do Társis, nosso assessor
pra assuntos computadorísticos, pra imprimir uns panfletos.
- Vocês são uns loucos, mas eu imprimo sim. Só não me
convidem pra participar disso.
- Fica sussa, Társis, fica sussa.
No panfletos escrevemos:
A cada semáforo quebrado

288
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O Caos avança para o Trânsito


A cada carro no Trânsito
O Caos avança para o pedestre
Imprimimos também umas folhas A4 com estatísticas
horripilantes de trânsito que conseguimos no livro
Apocalipse Motorizado da Coleção Baderna pra colar nas
redondezas dos alvos, sem relação nenhuma com o jogo,
apenas a título de cultura.
Quando voltamos para o muquifo as regras já
estavam definidas. Sinal vermelho, um ponto. Sinal amarelo,
dois pontos. Sinal verde, cinco pontos (pois é o sinal que
permite que os carros avancem). Semáforo com pano preto,
três pontos. Semáforo sem pano preto, menos três pontos.
Panfletos caídos no chão após a colocação do pano ou sem
panfletos, menos três pontos. Semáforo com pano preto e
com panfletos, cinco pontos. O prêmio ao vencedor? Duas
semanas sem lavar a louça nem limpar o chão no muquifo.
Altos prêmios se levarmos em consideração os vadios
relaxados que somos.
Que o jogo deveria ser realizado na madrugada era
ponto passivo, difícil foi nos manter sóbrios até lá. Vinícius &
Fábio com certeza passariam as próximas semanas
escovando chão, estavam bêbados feito uns gambás. Eu &
Jean éramos os favoritos. Marmita estava de cama por
causa de uma infecção na garganta & Sérgio era uma
negação tão grande na pontaria que optou em ficar em casa
dormindo.
Pegamos o buzão pro centro sem ainda termos em
mente onde realizaríamos o jogo. Era uma da manhã
quando escolhemos a praça X (não sou mané de assumir
qual). Na hora combinamos que não existiria uma área de
jogo definida, partiríamos da praça, uma pra cada direção e
as quatro horas nos reuniríamos novamente. Um minuto de
atraso significaria desclassificação sumária. Depois
sairíamos todos juntos pra checar a pontuação. Uma e
quinze o gongo soou e saímos todos nas carreira.
Jean norte, eu sul, Vini leste & Fábio oeste.

289
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O frio era intenso com grande chances de que


chovesse e as ruas eram um deserto só. Não fosse eu o
Delinqüente com D maiúsculo temeria ser atacado por
delinqüentes com D minúsculos. Não demorei muito a
localizar o primeiro alvo. O que demorei foi pra acertar a
porra da pedrada. Descobri que meu pior inimigo não era
nem os insones e nem a polícia, era o frio. Começou a
chover e ventar e como sou magro pra cacete a ausência de
gosrdura me faz vítima da menor brisa fria. E aquela chuva
tava gelada pra caraaaaalho!! Tremia tanto que
simplesmente não conseguia acertar a pontaria.
Levei quase meia hora pra acertar a primeira
lâmpada. Porra! Caralho! Amarela, só dois pontos. Quase
não fez barulho, massa! A euforia fez o frio passar um pouco
e logo depois detonei a vermelha, mais um ponto. Quando
comecei a mirar na verde veio um carro e tive que me
mocar atrás de um muro. O carro parou, olhou o cruzamento
e foi embora. Depois um casal de namorados com um
guarda-chuva enorme. Quando voltei ao tiroteio estava
tiritando de frio novamente e perdi a pontaria, mais meia
hora pra detonar a vermelha.
Comemorei feiro um demente na calçada, sem saber
que o pior ainda estava por vir: a idéia de Girico do Sérgio
de colocar o pano preto. Minha vareta simplesmente não
alcançava, pois a chuva molhou o pano e com o peso a
vareta entortava toda. Tive que subir numa árvore, me
escorar no poste e depois de meia dúzia de distensões
musculares consegui pôr a birosca do pano. E o que é
melhor, sem cair um único panfleto. Colei umas folhas com
as estatísticas cabulosas no poste e em alguns muros e
portas e saí felizão da vida. Ari, o Atleta do Século.
Saí pelas ruas correndo de euforia e completamente
aquecido pelo suor do esforço. Ria sozinho só de imaginar os
piás bêbados tentando colocar o pano preto. Resolvi então
tomar uma decisão estratégica. Quebrar os semáforos,
colocar o pano preto, mas mandar à merda os panfletos,
que abandonaria ao lado do poste. Afinal, o objetivo era
pontuar em menos tempo, não é mesmo?
Então as coisas começaram a melhorar.

290
Manual Prático da Delinquência Juvenil

No primeiro semáforo já acertei de cara o sinal verde.


Sem ter que esquentar a moringa com os panfletos foi fácil
de jogar o pano preto de qualquer jeito. Minha pontuação
começou a subir rapidamente. Vandalizar sozinho é muito
mais limpo, pois em grupo pois a algazarra sempre é
inevitável quando se trabalha em grupo. Me distraí
completamente com a brincadeira, quando olhei o relógio já
eram quinze pras quadro. Caralho! Preciso voltar pra praça!
Cheguei lá antes do Jean, fábio & vini estavam sentados na
grama devorando o lintro de Pinga 44 com limão que
tínhamos levado. Estavam travados de manguaça.
- Ô seus porra! Desistiram do jogo?
- Nada Ari, simplesmente destruímos todos os semáforos e a
Copa Do Mundo É Nossa!
- E o Jean?
- Sei lá véio, deve ter se perdido por aí ou então deve ter
caído com os ômi.
- Hahahahaha!!! ¿ fábio estava fora de si.
Olhei no relógio e falatavam dois minutos. Momentos
de tensão, tudo indicava que se Jeanzinho se atrasasse o
troféu seria meu. Trinta segundos antes do prazo o viadinho
apareceu na esquina dando risada.
- Que foi seu merda?
- Hahaha!! Arizinho do céu! Duvido que você me ganhe!
Fomos então fazer o levantamento das vítimas
semaforísticas. Começamos pelas da dupla de bebum. Fábio
conseguiu andar três quadras depois pediu arrego, foi o
resto do caminho escorado no Vinícius. Os dois fazendo
cobrinhas pelas calçadas, deprimente ao extremo. Primeiro
checamos a área do Fábio, foi difícil pra caralho,
pois além do paunocú não lembrar os locais exatos, ainda
não conseguia nem falar direito, enrolando a língua. No
final, conseguiu miseráveis oito pontos, um sinal verde, um
amarelo e um vermelho. Nenhum pano colocado e todos os
panfletos esparramados pelo chão do único semáforo
atingido. Pano chão, panfletos esparramados, oito menos

291
Manual Prático da Delinquência Juvenil

seis igual a dois pontos.


- Só dois pontos? Cê tá fudido mermão!!
- ah, vé-véio, pelo me-menos colei ca-cartazes por tu-tudo.
Era verdade, os muros estavam brancos de tantos
cartazes estatísticos. Os alvos de Vinícius foram mais fáceis
de localizar, mas não foi muito mais feliz que Fábio, também
não conseguiu colocar nenhum pano preto e inovou colando
os panfletinhos em todo o poste que servia de base ao
semáforo. Os cartazes com estatísticas enfiou por baixo da
porta de todas as casas que conseguiu no trajeto de volta
pra praça.
Quando começamos a contar meus pontos surgiu um
impervisto ridículo de tão óbvio. Como saberíamos quantas
lâmpadas fora quebradas se o pano preto cobria todo o
semáforo? Eu Jean quase saímos no tapa discutindo, por fim
Vinícius decifrou o mistério: bastaria checar os cacos
coloridos no chão. Assim foi feito e teria sido perfeito se o
viado bebum no Fábio não tivesse caído de cara no chão e
cortado o rosto e cotovelo. Sangrou um monte até que
rasgou a camisa e improvisou uma atadura. Totalizei treze
pontos.
Pra conferir a pontuação já fui cabreiro. O cara tava
muito confiante. Não deu nega, Jean tem uma pontaria
realmente fudida, foram exatos quatro semáforos
completinho, com pano e panfletos. A assombrosa quantia
de sessenta e quatro pontos, uma lavada. Um olé. Tive que
baixar a cabeça e admitir a derrota. Que merda, ainda mais
o Jean, o mais vadio na hora de lavar a louça. Se arregou, se
arregou & Se arregou.
Começou a berrar que era o campeão e berrou tanto
que não demorou a aparecer uma viatura nos obrigando a
correr troçentas quadras arrastando o Fábio.
Compramos mais um litro de pinga e bebemos até o
dia amanhecer. Cheguei ainda bêbado no trampo e agora
estou aqui, sequelado como um prisioneiro de
Guantanamo.

292
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Delinquencia Juvenil: consuma com moderação.

Não Falei? Bingos São Uma Merda! - (ataque quarenta


e oito)

A polêmica dos bingos nos colocou num dilema,


sabotar algum bingo ou não. Ultimamente eu estava lendo o
livro Homo Ludens do Huizinga e pensando muito sobre a
tendência ao ludismo nos seres humanos. Somos mesmo
uns cagalhões crianções que adoram brincar e jogar.
Debatendo esse assunto no Muquifo chegamos à conclusão
de que jogos de azar tem pouco ou nada a ver com ludismo
e bingos seriam a maneira mais escrota de se explorar
economicamente essa tendência natural do ser humano.
A princípio pensei: é foda sabotar os bingos se eles
estão num impasse de abre ou não abre e aqui no Paraná
estão fechados ainda. Deixei a idéia em segundo plano,
incubada. Só que bons memes são como o vírus da gripe,
fazem mutações e quando reaparecem estão mais
poderosos, resistentes a remédios. Esse meme em questão
surtou numa tardinha de chuva, quando debaixo da minha
pagau que tomei emprestada de uma amiga vi o Bingo
fechado. Troço bizarro, aquela aparência luxuosa agora toda
apagada. Um simbolismo perfeito. Atacar o bingo,
estendendo uma faixa na frente, num dia cinza e chuvoso,
seria perfeito.
Só que antes de continuar preciso explicar melhor a
origem desse meme. A idéia surgiu numa daquelas
possibilidades de uso mais massas que a Internet nos
propicia, a Inteligência Coletiva. Várias pessoas opinando
sobre o mesmo tema simultaneamente, uma sinergia
relâmpago e porque não dizer? Uma TAZ. Estávamos
discutindo formas de se sabotar um bingo. O problema a ser
contornado era básico: aquelas porras de casas de jogos
estão sempre entupidas de seguranças. Pesou-se em fazer
Teatros Secretos, que são sempre mais seguros, mas eu
encasquetei que queria uma sabotagem e uma sabotagens
das boas. E não deu nega, lá pela troçentézima teclada eis

293
Manual Prático da Delinquência Juvenil

que surge o plano, cobrir o telhado do bingo de merda num


dia em que a chuva estivesse se aproximando. Aí, quando
chovesse a merda escorreria pelas beradas.
Foi vendo aquele bingo fechado no crepúsculo que
cheguei à conclusão de que um ataque nesta linha seria
perfeito, por mais que poucas pessoas visse (ou não) o
simbolismo seria tão forte que o efeito seria mais eficiente
do que se talvez fizéssemos o mesmo com a parada aberta.
Cheguei no Muquifo e apresentei o plano pra piazada.
- Mas que merda! Merda de novo Ari?
- É verdade, o Vinícius tem razão Ari, que merda você tá
planejando?
Então contei a eles a viagem planejada no blog.
- Cobrir o bigo de merda???
- Hahahahaha!!!! Ari, tú não presta, tú é um doente!
Hahahahaha!!!!
- Mas Ari, os bingos não estão fechados?
- Pessoal, acordem seus neurônios, se fizermos a coisa do
jeito que falei, será até melhor que aquelas porcarias
estejam fechadas.
Depois daquele bate boca básico a piazada acabou
concordando. Marmita foi foi mais técnico, como sempre,
diga-se de passagem e sugeriu que usássemos excrementos
de galinha.
- São mais moles, se dissolverão mais facilmente.
- Tá, mas vamos conseguir onde o material.
- Teríamos que andar um pouco, tenho uma tia que mora
num sítio no interior de Tijucas do Sul e lá eles tem uns três
galinheiros, se não for suficiente dá pra conseguir com os
vizinhos.
- O ideal seria um aviário.
- Pode cer, mas você conhece ou tem arrego com algum
dono de aviário?

294
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Decidimos ir até Tijucas do Sul mesmo. Contratamos


nosso quebra galhos oficial Társis e sua picape ¿delinqüente
móvel¿. Marmita realmente é bem quisto pelos seus
parentes, a tia dele nos esperou com um café colonial
estiloso. Pra quem tá acostumado a comer pão com
margarina ou bolachinha no café e mijo nas refeições lá no
Sagrado Muquifo aquilo foi um banquete histórico. Bem
alimentados conseguimos mais ou menos uns trinta quilos
do material desejado. Posso te garantir, catar bosta de
galinha é bem mais escroto do que aparenta.
Aquela merda fede pra caralho! As galinhas
costumam mijar muito (segundo o tiozinho do sítio, confesso
que nunca vi e não consigo imaginar um a galinha mijando)
e o mijo misturado ao esterco exala um cheiro forte e azedo
que fica impregnado na roupa e no cabelo.
Pra completar a escrotidão toda Marmita passou a
noite coçando a cabeça, pegou piolho de galinha. A galera
não perdeu a chance de zoar.
- Ô Marmita! Cuidado aí véio. Minúsculo do jeito que você é
capaz que esses piolhos suguem tanto sangue a ponto da
gente ter que te levar pra fazer uma transfusão de sangue.
- Vai de fuder seu cuzão!
Na noite de sábado Jean foi com Fábio averiguar o
alvo e fazer um mapa com o trajeto mais adequado pra
efetivarmos a cagada, literalmente. Marmita fez uma busca
pelas redondezas do Muquifo e voltou com uma porrada de
pedaços de madeira pra fazermos uma escada descartável.
Sérgio e Vinícius fizeram uma faixa com uma frase
estratégica pra colocarmos na frente do bingo depois da
ação. O fim de semana tava chuvoso e tudo indicava que
seríamos bem sucedidos.
Meia noite Társis chegou com sua picape e ficamos
jogando roleta no nosso Cassino clandestino pessoal até as
três da manhã. Chegada a hora partimos em missão
subversiva. Estacionamos a picape a cinco quadras de
distância e descarregamos rapidamente o material.
Enquanto o pessoal subia pela escada Mamitiana fiquei
conversando com Sérgio, que ficaria com um apito em baixo

295
Manual Prático da Delinquência Juvenil

pra nos avisar se desse algo errado (o viado nem assobiar


sabe).
Quando cheguei no telhado encontrei o pessoal todo
sentado fazendo umas caras pensativas.
- Que foi?
- Olhe ao redor. Como é que vamos fazer pra esparramar a
merda de modo que escorra pela frente? Não vai dar certo.
Aquela parede ali na frente ferrou com tudo. Fábio, nosso
especialista em análise de alvos, estava desconsolado e
cobria o rosto com as mãos em sinal de decepção.
- Caralho! Como é que eu não me liguei nisso?
- Mas e agora?
- E agora? E agora eu não sei. Eu não sei!
Marmita, o mestre das gambiarras, aquele ser que
nos momentos mais absurdos revela sua inteligência
alienígena, deu a solução.
- Uma calha geneticamente modificada.
- Calha geneticamente modificada? Você pirou, foi? Olha que
isso pode ser grave.
Então ele levantou-se e começou a caminhar sobre
as telhas falando e apontando feito um apresentador de
programas de auditório.
- Observem que a parde é perfeitamente horizontal.
- Tá e daí?
- Daí que basta a gente colocar uma calha levemente
inclinada pra frente e cobrir as beradas com alguma coisa.
Assim que a calha encher a merda toda começará a
escorrer.
- Perfeito! Genial, seu McGyver, mas e as calhas, caralho?
Onde vamos conseguir essa maldita calha a essas horas da
madrugada? Marmita não respondeu nada, apenas apontou
com o dedo um armazém com um jeitão de abandonada
que ficava nos fundos do bingo.

296
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Cê tá falando sério? Tá insinuando que devemos roubar


aquela calha?
- Claro, porque não?
- Mas é foda mesmo...
Jean nem titubeou, começou a descer as escadas
imediatamente.
- Que me acompanhem os bons!!
Marmita e Fábio foram junto, enquanto eu e Vinícius
começamos a colocar merda sobre a placa que dava nome
ao bingo, não ia escorrer muita coisa, mas pelo menos
a parada ia ficar bem mais fedorenta que o original. Em
poucos minutos os piás estavam de volta com a calha e uns
pedaços de arame que encontraram pelo caminho. A
instalação foi bem mais rápido do que eu imaginara. Colocar
a merda não, demorou pra cacete. Estávamos quase
acamando quando ouvimos o apito de alerta do Sérgio. Nos
escondemos todos atrás da tal parede frontal tensos e
preocupados. Dois minutos depois mais um apito, dessa vez
bem mais forte. Jean foi rastejando até a lateral pra ver que
diabos estava acontecendo. Voltou com um sorriso
tranquilizador no rosto.
- Relaxem seus manezões, é só o vigia do bairro.
- Só o vigia do bairro? Quer dizer que tem vigia nessa merda
de bairro.
- E se tiver vigia no bingo também?
- Não viaja, eu e Fábio checamos isso, não somos tão tongos
assim. A porra toda é protegida por alarme e eles não
perderiam essa chance de economizar uma grana.
Alguns minutos depois recomeçamos nossa tarefa.
Com tudo em cima a chuva começou a apertar e frio
começou a aumentar.
- Bóra, vamos descer de uma vez!!
A piazada foi descendo apressadamente. Estávamos
felizes e eufóricos devido a tudo ter dado certinho. Nem

297
Manual Prático da Delinquência Juvenil

tudo, meu chapa, nem tudo. A gurizada já tinha descido, só


faltava eu e o Vini quando o viado do caralho escorregou na
bosta que nós tínhamos colocado na lateral. Segurei ele pelo
seu moletom, mas comecei a escorregar junto.
- Te segura porra, te segura!!!!
- Tô tentando Ari, tô tentando, não solta!!!
O cara tava pendurado numa altura de quase quatro
metros e tava pesando pra caralho. O pessoal lá em baixo
entrou em desespero.
- Agarrem alguma coisa, pelo amor de Éris.
Sérgio veio correndo, mandando a campana à puta
que o pariu.
- Não gritem!!!
Então Inesperado mais uma vez nos sacaneou. O
moletom do Vinícius rasgou e ele despencou lá de cima. Foi
um estrondo seco quando ele chegou ao chão.
- Aaaaaaai!!!!
- Que foi cara? Você tá bem??
- Aaaaaaaaaai! Meu braço, o meu braaaaço!!!!
Puta que o pariu, o cara quebrou o braço feíssimo.
Fratura exposta.
- Caaara, isso é grave, corra no orelhão e liga pro Társis!!
Vinícius, que a princípio chorava de dor, desmaiou.
Nos cagamos de medo, não tenho como mentir. Em cinco
minutos Társis tava de volta, com uma cara de sono.
- Caralho, como é que foi que isso foi acontecer?
- Vamos pro Pronto Socorro! No caminho te explicamos.
Enquanto fui com Jean levar o Vini ao pronto socorro
os piás esticaram tristemente a faixa com a frase que não
podia ser mais emblemática pra situação, tanto dos bingos
quanto a nossa:
Eu sabia que ia dar merda

298
Manual Prático da Delinquência Juvenil

No fim deu tudo mais ou menos certo, vini não teve


maiores seqüelas, mas teve que colocar um pino no braço e
engessá-lo. Moral da história:
O Ministério do Caos adverte: delinqüência Juvenil
pode causar lesões físicas leves, média e graves.
Acautele-se.

Animal é Quase Gente - (ataque quarenta e nove)

Aqui no Brasil a luta pelos direitos dos animais ainda


soa como piada. Tanta gente se fodendo de verde e amarelo
faz com que os adeptos dessa causa pareçam uns Dom
Quixotes mais perdidos que filhos de puta em dia dos pais. É
triste? É lamentável? É, mas não se pode negar nossa dura
realidade de miséria tropical. No entanto temos um fato
curioso. Nos bairros mais pobres das grandes cidades (e até
nas pequenas) é onde encontramos a maior população
canina. Basta dar uma banda num bairro da preferia na
madrugada pra checar isso. Uma cachorrada do caralho! Taí
uma boa tese pra antropólogos e sociólogos.
(Marmita fala que área correta de estudo os
antropólogos deveria ser os antros. O cú não tem nada a ver
com a cueca, eu sei, mas queria registrar isso em algum
lugar. Eu diria que o mesmo vale pra Malacologia. É uma
ciência!! Marmita é mesmo impagável)
De minha parte eu arriscaria dizer que esse carinho
dos pobres para com os cães tem a ver com misericórdia. O
ocultistas costumam soltar esse jargão: Só que
¿viu¿ entende. Pois com a miséria vale a mesma regra, só
que esteve lá, bem na merda mesmo, sabe o valor que tem
essa tal misericórdia. Daí esse carinho todo especial dos
pobres para com os cães. Eles são a sublimação de nossas
vidas miseráveis. Por mais que a gente se queixe, são eles
que levam uma vida de cão.
Não tenho pudores em admitir que nós nos
encaixamos nesse segmento da população que, no miserê,
acaba desenvolvendo essa estranha relação com os cães.

299
Manual Prático da Delinquência Juvenil

No nosso caso, uma idolatria para com uma criaturinha


pulguenta, barulhenta e mala sem alça chamada Jubykão.
Até por quê, as circunstâncias em que ele chegou até nós
foram todas especiais, foi durante um ataque. Herdamos ele
no dia em que sabotamos um Hotelzinho de Cachorro no
ano passado.
Náááá!!! Chega de enrolação! Por que caralho eu
estou insistindo tanto nesse assunto? Calma, eu conto. A
parada toda começou quando o convalescente (com
tendência a vagabundo) Vinícius me ligou no trampo um
tanto preocupado.
- Ari, o Jubykão tá mal. Tá cagando toda hora e tem sangue
na merda. Não quis comer nada, o que é um sinal de que
alguma coisa está errada com ele. Isso pela manhã, depois
do almoço mais uma ligação.
- Ari, o lazarentinho tá mal mesmo, agora tá vomitando e
tremendo quem nem o Ronaldinho na final contra a França.
Quando cheguei no muquifo à noite pude constatar
que o Vini não estava exagerando. Nosso quintal estava que
era só bosta, sangue e vômito. Jubykão estava só carne e
osso e tendo convulsões toda hora.
- Ô seu porra! Você não viu que o que tá tendo são
convulsões? Isso não tem nada a ver com tremedeira e o
pior, ele tá frio pra caralho. Então febre não é. - E eu sou
veterinário agora?
Nisso chegou o Jean e quando viu nossa mascote
agonizando lembrou da vizinha do outro lado da rua que ele
estava meio que de paquera. - Ela faz veterinária na
Federal, vou chamar ela.
A mina ainda demorou a chegar da facul e quando
pôs os olhos no dodóizinho já bateu o martelo.
- Posso até estar errada, mas tudo indica que ele tá com
XXX em fase terminal. Pode morrer a qualquer momento.
- Puuuutz!! ¿ Exclamamos em uníssono. Jubykão era como
um membro da família.
Enrolei ele com uns panos velhos, pois estava muito

300
Manual Prático da Delinquência Juvenil

frio, e coloquei na casinha. Entregue à própria sorte. A mina


falou que até daria pra tratar essa doença, mantendo
ele vivo na base de Gardenal até que o corpo desenvolvesse
os anti-corpos necessários pra expulsar o vírus. Além de ser
um tratamento caro, não era certeza que funcionaria.
Lamentável, mas realmente tivemos que deixá-lo nas mãos
de Éris.
Marmita fez questão de passar a noite com a gente
no muquifo acompanhando Jubykão e fazendo preces a Éris
pra que nosso Mascote sobrevivesse. - Éris, a mais bela,
acredite, esse animalzinho gera uma tremenda Discórdia
saudável que mantém a piazada afastada da Maldição do
Caracinza. Pelo visto a deusa não se convenceu, pois as
quatro da matina Marmita me acordou.
- Ari, fodeo!!
Jubykão jazia em sua casinha, já pertido dessa para
melhor. A tristeza baixou sobre o muquifo no fim de semana.
Pra completar uma nova e poderosa frente fria chegou do
sul na madrugada da morte de nosso herói. No frio, a
tristeza pareçe ser mais triste. Durante o sábado a
discussão foi grande sobre o que fazer com o corpo do
Jubykão.
Fábio, sempre o mais dramático, queria enterrá-lo
num terreno baldio.
- E então esse terreno deixará de ser baldio pra virar um
centro de peregrinação delinquente.
- É, pode até ser...
Só que parecia que faltava algo, não sei se era por
causa da aura de tristeza que impregnava o ambiente ou sei
lá o quê, a sensação era de que ele merecia algo mais
estiloso. Algo mais style. Foi Jean quem salvou a revolução.
- Galera, já sei! Um enterro Viking!!
- Enterro Viking??? Que porra do caralho de merda você
quer dizer com isso?
- Sepultar o dog num ataque.

301
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Tipo assim... Seja mais claro


- Abandonar o corpo em algum lugar estratégico.
O silêncio dos pensativos se abateu sobre todos.
Olhos brilhando. Neurônios maquinando e aos poucos as
idéias surgindo e sendo pronunciadas. Em cinco minutos o
ambiente já estava um pandemônio, com idéias de gerico,
ataques de megalomania vândala e muitas gargalhadas. Foi
difícil chegar num consenso. Fábio foi quem teve o plano
mais coerente.
- A gente pode se dividir em duas equipes.
- Duas equipes?
- Sim! Uns vão na frente, fazem o sepultamento
propriamente dito e a outra equipe vai depois.
- Ótimo, mas onde será feita a cerimônia.
- Que tal numa loja especializada em artigos de couro? De
preferência de artigos sofisticados e caros.
- Maaaassa! Dá pra meter no meio a parada dos direitos dos
animais!!
Imediatamente começamos a mexer nossas respectivas
Bundas Gordas & Bundas Magras. Uma coisa era certa:
precisaríamos estar vestidos com roupas chiques pra
podermos nos passar por burgueses. Coisa difícil pra pé
rapados como nós.
- Jean, como foi teu rompimentos com aquela mina burga?
Foi amigável? Dá pra conseguir uns panos descolês com
ela?
- Com ela não, mas deixa comigo que eu consigo com outra
guria.
O corpo do Jubykão passou o fim de semana inteiro
sendo velado, já que o enterro só poderia ser realizado na
segunda. Eu estava no trampo quando Jean me ligou.
- Ari, cinco e meia na frente do bondinho da Rua XV.
- Beleza.

302
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Marmita não pode ir, pois estava trabalhando e


Sergio tinha encontro com uma mina e como isso é coisa
rara, não quis cancelar. Decidimos trocar de roupa nos
banheiros do McDonald´s da Boca Maldita. De uma certa
forma seria como se eles tivessem nos ajudando, servindo
de cúmplices. Tínhamos escolhido dois alvos potenciais, o
primeiro era no calçadão mesmo.
Jean entrou na loja com Fernanda, uma mina que ele
tá ficando, chiquérrima. Ele próprio nem parecia o motoboy
de subúrbio que é. O corpo do dog estava numa sacola
da Renner. Começaram a experimentar botas pra Fernanda
e ela não parava de cagar na cabeça dele.
- Dia dos namorados atrasado é o fim da picada! E tú ainda
quer noivar?
- Mas amor, estou disposto te dar o que tú quiser!
Só que a mina paunocú que estava atendendo ficou
de butuca o tempo todo. Jean tentou contornar, puxava
assunto contando seu drama, pedia um copo dágua,
mudava de assunto, mas ela sempre lá, agourando. Ficaram
meia hora nesse lenga lenga e nós lá fora, na maior das
expectativas. As lojas iriam fechar!!
Até que vinicius se indignou e entrou na loja, dando o
sinal pra abortar a missão e tentar o segundo alvo. Fomos
então pra loja mais fresca, justamente a opção mais
difícil. Será que a alma canina de Jubykão queria aprontar
mais uma com a gente? Eu nunca engoli aquela história dele
ter mordido, roído & rasgado minha coleção de
gibis do Hellblazer.
Só que o Inesperado volta meia toma atitudes inesperadas e
desta vez nos demonstrou o impensável: os burgueses,
além de não saberem se divertir, são uns completos manés
arrogantes. Foi a senhora saber que Jean compraria uma
bota caríssima, desde que sua namorada se agradasse de
alguma, que deixou os dois completamente à vontade,
trazendo até cafezinho. Ficaram vinte minutos
experimentando botas atrás de botas até que surgiu a deixa
perfeita e acomodaram nosso querido cãozinho numa caixa

303
Manual Prático da Delinquência Juvenil

de uma bota de 475 pilas.


Quando a dona da loja voltou disseram que voltariam
no outro dia pra buscar o presente. Se despediram e
picaram a mula em direção a onde estávamos, a meia
quadra de distância. Damos um tempo estratégico pra não
levantar suspeitas e fomos concluir a sacanagem. Fábio
estava com uma amiga que não eu não conhecia e que não
lembro o nome, impecáveis os dois também. Eu fiquei com
Vinicius do lado de fora aguardando o desfecho. Entraram e
pediram pra ver umas sandálias, depois sapatos e por fim as
famigeradas botas. Quando a amiga dele abriu a caixa
premiada soltou um berro tão grande que ouvimos de onde
estávamos, no lado de fora da loja.
- O que é isso??
- Isso é um absurdo.
A dona da loja, mais duas funcionárias vieram checar
o que estava ocorrendo. Eu e Vini entramos no papel de
curiosos. O massa foi que mais três pessoas que passavam
na rua entraram também pra ver porque aquela menina
gritava tanto. Uma atriz e tanto a amiga do Fábio, não
parava de gritar. A dona da loja tentava se justificar de tudo
o quanto é jeito.
- Realmente, não sei como esse troço foi parar aí dentro.
- A senhora que dizer que não é responsável por isso?
¿ Fábio parecia indignado.
- Claro que não senhor isso é terrível.
- Terrível?? Terrível é a falta de consideração de vocês para
com os clientes. Minha noiva tem problemas cardíacos e se
algo acontecer podes ter certeza que processarei esse
muquifo anti-higiêncio.
- Me desculpa senhor, me desculpa! ¿ A coitada da mulher
tremia de nervosismo e estava prestes a surtar.
- Eu deveria chamar a vigilância sanitária ou coisa que o
valha!
Nesse meio tempo pegou um papel que tinha junto

304
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ao cachorro morto, não sem demonstrar todo o nojo do


universo em suas expressões faciais e leu o que estava
escrito:
“Esta loja promove uma carnificina aos meus semelhantes e
já que morri manifestei no testamento meu desejo de vir
pra cá, pra que pelo menos UM animal deixe de ser
sacrificado em prol de lucros abomináveis”
Vinícius, o palhaço, se desatou a dar risada falando
que o cahorrinho tinha razão, um dos transeuntes
desconhecidos também riu. A dona da loja, vendo que a
coisa estava saindo definitivamente do controle mandou
uma funcionária baixar as cortinas pra fechar o
estabelecimento. Fábio saiu chutando caixas de sapato e no
fim, quando a cortina baixou por completo, deu um puta
pontapé. Desnecessário dizer que saímos rachando o bico
de dar risada e duas horas depois, bêbados de cerveja num
lanchonete de um chinês, ainda não conseguíamos parar de
rir.
- Jubykão deve estar latindo e chacoalhando o rabo no além.
- Podes crer.
- Amém!

Os Macacos No Espaço Em Plena Escadaria Para O


Paraíso - (ataque cinqüenta)

Dizem que quando Friedrich Wilhelm Nietzsche


estava na merda, fodido de doente, teve suas idéias mais
massas. Essa frase ridícula aí em cima não é minha, é do
Vinícius, se queixando de sua clausura após a quebra de seu
braço e dando uma de coitadinho ao mesmo tempo em que
dá uma de gostoso. O motivo de toda essa balaca é que ele
bolou uma parada que intitulou Ideologias Periféricas. Tudo
porque andou lendo meus livros da Coleção Baderna e o
rizoma do Gilles Deleuze.
- Ari, me ajuda a passar isso pro papel, não levo muito jeito
com as palavras.

305
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Me explicou a bagaça toda e era uma palhaçada tão


sem pé nem cabeça que me convençeu no ato. Nem tanto a
parada da Ideologia Periférica em si, que me soava ainda
um tanto estranha e confusa, mas principalmente pela ação
direta que ela implicava.
Táticas de Ativismo Nonsense.
Vinicius estava começando a me explicar a coisa
toda quando a piazada chegou da pelada tirando os tênis e
as camisetas num Claro & Óbvio Ataque Biológico.
- Cara, isso daí não é proibido pela Convenção de Genebra?
- Quê que vocês estavam viajando aí?
Foi em maio àquela morrinha pestilenta de Suor &
Asa que vinicius botou o resto da malária a par de suas
novas idéias subversivas e o principal, planos para ataques
nessa linha. O cara estava exigindo que concretizássemos
seus planos como uma homenagem, pois foi o primeiro a ser
gravemente ferido desde começamos nossas batalhas
contra o Império.
E o que faremos dodóizinho?
- É, por onde começamos?
- Tenho um plano.
- Que plano?
- Bom, preparem seus arsenais de palavrões, a coisa é bem
besta e sem sentido mesmo.
- Vai! Fala!
- É o seguinte, esperamos por um dia de Mega Sena
acumulada ou esperamos o dia de encerramento das
apostas numa lotérica movimentada, sempre tem fila.
- E?
- E nos dividimos entre a fila e vamos até o guichê, quando
chegamos lá temos apenas metade do dinheiro pra aposta
mínima.
- Só isso? Que besta mesmo!

306
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Você já teve idéias melhores.


- Calma, aí vai cada um de volta pro fim da fila e recomeça
tudo de novo, numa roda cármica de eterno retorno e
recorrência numa tentativa frustrada de ficar rico.
- É, não parece tão ruim assim, desse jeito.
- Percebam, podemos fazer um Teatro Secreto altamente
subliminar.
Acabamos todos topando. Só faltava determinar a
hora e o local, pois a razão já tínhamos: nenhuma. E vamos
admitir, essa idéia era boa porque requeria mínimos
recursos materiais, fora umas poucas moedas de centavos e
nossas respectivas caras de pau, mais nada. Como a histeria
por loterias é uma constante nesse nosso Brasilzão Varonil
não tardou a oportunidade de darmos início ao Plano
Nonsense Viniciusiano. Vagabundo & Desocupado como
está, acompanhou pela TV todos os acontecimentos
lotéricos. Chegou até a viajar num livro meu sobre a Cabala
e nos indicar números poderosos pra serem apostados.
Aturar o cara sem fazer nada, só lendo besteiras e
imaginado bobagens tá sendo foda. Não bastasse isso a
mina dele, a Marília, tá praticamente morando com a gente
no muquifo. Como ninguém tem quarto exclusivo o casal
montou uma barraca no meio da sala, atravancando tudo.
Mas tudo bem, o cara tá na merda mesmo, vamos dar um
desconto pro cidadão.
Marcamos a besterada pra quinta-feira, com a Mega
Sena acumulada. Vinicius me ligou confirmando.
- Ari, é hoje!
- Onde? Que horas?
- Vamos nos encontrar todos na Praça Tiradentes depois a
gente vai pra Lotérica alvo.
Marmita, por causa do horário, mais uma vez não
pode participar. Na praça combinamos um pré-roteiro, com
etapas, mas nada muito detalhado. Chegamos numa hora
meio estranha, o ideal seria irmos pela tarde. Na hora do
rush as vítimas da Maldição do Caracinza comparece em

307
Manual Prático da Delinquência Juvenil

peso. Os zumbis do Trabalho Morto. Esse pessoal fica com


sua Taxa de Bom Humor abaixo de zero.
A primeira rodada na fila foi um tédio, tenho que
confessar. Demorou mais do que eu imaginava no meu
delírio de estar fendo um ¿ataque¿. Quando voltei pro fim da
fila tava meio naquela: porra, que merda é essa que
estamos fazendo? Que diabos estou fazendo aqui?
Foi uma longa privação. Uma vontade filha da puta
de sair fora e comprar uma cerveja pra acalmar os
Demônios Interiores, mas seria queimar o filme. Foi na hora
de estar perto de fechar, com a fila menor, que as coisas
começaram a ficar mais interessantes. O pessoal que
trabalhava nos guichês já tinha se ligado de nossa nóia a
um certo tempo, só riam e repetiam que a grana não dava
pra nada. Ficavam fazendo piadinhas entre si e tirando sarro
de nossa cara. - Esses caras não devem bater bem.
Só que então o pessoal da fila começou a se ligar. O
nosso Teatro Secreto, muito mais feito no improviso do que
qualquer outra coisa pode ter início. Foi uma velhinha, com
quatro sacolas de supermercado e uma criança de dois anos
no braço, que cedeu à curiosidade e me intimou:
- Moço, por que você tem entrado na fila tantas vezes?
- Nada não senhora,
- É que antes eu estava ali no lado tentando fazer o menino
dormir e reparei que você entrou três vezes na fila.
Nas pessoas próximas a nós, dava sentir a
Curiosidade, as Orelhas De Pé & Pescoços Esticados.
- Sabe o que é? Tenho um primo que já trabalhou em
lotéricas. Ele me contou que várias pessoas perdem
dinheiro, deixam cair no chão e não vêem, na hora de
pagarem suas apostas.
- Não estou entendendo...
- É que eu só tenho metade da grana pra aposta e estou
torcendo pra que alguém deixe cair uma prata ou um Real,
eu achar, arriscar meu palpite e mudar de vida, ficar rico e
lavar a égua.

308
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- É que, sinceramente, eu não tenho nada, senão te


ajudava, por Deus que ajudava
- Não se preocupe minha senhora, se eu conseguir meter a
mão nessa grana mágica é porque o Centro Cósmico de
Controle das Coincidências está de olho em mim.
Não tem erro. É tiro e queda.
Nisso passou Vinícius num acesso de delírio, viajando
no nonsense. Desfilava e falava pra fila, que depois da
minha explicação à nobre senhora, foi fofoqueando de par
em par. Tipo aquela brincadeira do telefone sem fio, fico
imaginando o que o penúltimo falou pro último. Vini parecia
exaltado.
- Mas eu não desisto. Eu tento de novo. Uma vaga no
paraíso com certeza não é uma coisa fácil de se conseguir.
Quase todo mundo olhou pra ele. O Lóki.
- Paraíso sim! Pra sair desse Inferno da Miséria. É uma
atitude desesperada? É! Mas quem nãos estiver nessa
situação, que atire a primeira pedra.
Tinha um cara na fila, com uma pasta da Uniandrade
debaixo do braço, que fazia um certo tempo que estava com
uma cara de invocado. Quando viu que o Jean voltou
também pro fim da fila se emputeçeu.
- Esses caras tão de alugação!
- É verdade! ¿ emendou um engravatado com pasta de
executivo.
- Já é o terceiro que tava na minha frente e voltou pro fim da
fila. Tenho aula, não posso perder tempo com palhaçada.
Jean achou por bem intervir. No roteiro prévio que
tínhamos planejado Fábio era o designado pra fazer o papel
de neguinho indignado, mas pintou oportunidade pra um
free lance de terceiros.
- Se não pode perder tempo, o que está fazendo aqui?
- Eu não vou discutir isso contigo agora, tenho mais o que
fazer.

309
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Pois deveria, já que quis dar palpite sobre o que estou


fazendo.
- Eu só queria dizer que ninguém aqui está pra brincadeira.
- Não estão aqui pra brincadeira?! O que é o jogo além de
uma bricadeira?
Um senhor, como toda a pinta de balaqueiro,
resolveu se intrometer.
- Estamos nesse jogo pra ganhar, rapazinho. Levamos o jogo
a sério, é isso que esse moço quer dizer.
- Levam o jogo a sério? Não posso acreditar. Por Éris, não
creio! As chances de se ganhar são tão pequenas que isso
que o senhor falou chega a ser ridículo.
- Isso é o que você pensa e ninguém é obrigado a pensar da
mesma forma.
O quiprocó já estava feito. O pessoal da fila já era
uma platéia interativa. Fábio, que estava meio que sobrando
por causa do carinha invocado resolveu participar,
improvisando a partir dos papos do Vinícius sobre a Cabala.
- Falou muito bem senhor, isso é o que nós pensamos.
Todos se surpreenderam com essa aparição
inusitada. Acredito que para alguns já estava claro que
alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Fábio
continuou, apontando pro nervosinho da Uniandrade.
- Que direito tem esse cara de dizer que estamos de
alugação? Sabem estas dezenas que tenho aqui anotadas?
Não são dezenas comuns! São números cuidadosamente
calculados após profundos estudos sobre a Cabala, o Tarô, o
Calendário Maia e os Búzios dos Orixás.
Todos riram. Era muita viagem. Achei que a hora de
acionar o desfecho. Pisquei pro Sergio e ele, que tinha ficado
incubado o tempo todo nas proximidades, dirigiu-se
pra dentro da loja. Pediu pra falar com o gerente e foi
apresentado à dona do estabelecimento. Era uma senhora
com uns peitões enormes que mais parecia dona de zona.

310
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Sergio fez uma reclamação formal de que havia um


bando de desocupados atrasando o andamento da fila. Ela
fez uma cara de intrigada e foi imediatamente conferir o
que estava acontecendo. Flagrou Jean em pleno discurso
sobre estatíticas. Fazia comparações sobre as chances de
ganhar na Mega Sena, com as chances de ficar rico com
outras modalidades de sorte, menos passivas, menos
patéticas e mais prováveis.
Foi engraçado, ele em plena retórica inflamada e
sente um cutucão no ombro, olha pra trás, vê aqueles
peitões mastodônticos na altura do nariz e dá um pulo de
susto.
Jogo de cena, eu sei, mas a galera deu altas risadas.
- Posso saber o que vocês estão fazendo?
Sem esconder uma certa expressão de impaciência
Jean explicou tudo o que já tinha acontecido. A velha ouviu
tudo, mas não sem esconder uma expressão de impaciência
maior ainda. Algumas pessoas da fila visivelmente estavam
curtindo o barraco. Teve uma senhor que até comentou em
acréscimo.
- Eu tenho um amigo que comenta que as chances de você
encontrar um bilhete premiado perdido na rua são maiores
do que acertar na loteria mesmo.
O bate boca já estava atraindo a atenção dos
transeuntes e a Dama dos Melões resolveu dar um basta.
- Escuta aqui ô seus moleques, tenho mais o que fazer.
Alexandre! Ligue pra guarda Municipal!
Alexandre? Guarda Municipal? Melhor não arriscar. Quem
tem rabo preso não costuma cutucar a onça com vara curta.
Quem tem cú tem medo. Dei o sinal de vazar e nos
dispersamos imediatamente. Estilo flash mob, cada um foi
pra um lado, praticamente correndo. Essa atitude deixou um
ar de estranheza maior ainda a quem assistiu nossa
intervenção.
Nos encontramos numa banca de cachorro quente na
Deodoro, todos rindo, chapados com a adrenalina do

311
Manual Prático da Delinquência Juvenil

improviso.
- Cara, ficou massa!
- Podes crer, me melhorasse piorava.
Temos certeza que naquela noite nosso Teatro
Secreto foi comentado em diversas rodas de conversa.
Somos mesmo uns semeadores de memes inconseqüentes.

Na Casa do Senhor Não Existe Satanás (Xô Satanás,


Xô Satanás) - (ataque cinqüenta e um)
No “meio libertário” (e bota aspas nisso daí) (não,
não, não, deixa eu botar mais umas), no “ ““meio libertário”
“ “ o ateísmo e o materialismo são quase como imperativos.
Deus está morto! E dá-lhe festividades em comemoração
desta morte anunciada. O repúdio à religiosidade é lugar
comum entre os anarquista e como tal, tem tudo pra ser um
tremendo equívoco. Pois veja bem, como vivo falando aos
quatro ventos: estamos em território inimigo e o inimigo
está em nós. Somos nós que perpetuamos a opressão
através de nossos hábitos e nossas ambições. Para
mudarmos o mundo, primeiramente temos que mudar
nossas próprias vidas. Falando bonito, é preciso transformar
o próprio ser humano, uma vez que o sistema autoritário e
opressivo existe também dentro de nós, moldando nossos
padrões de pensamento e percepção.
É nesse contexto que entram as religiões. Ao
contrario do que afirmam os pessimistas, de que o mundo
está cada vez mais uma merda e que em outras eras as
coisas eram melhores, poucas vezes se viveu uma época
tão rica de possibilidades espirituais quanto nos dias de
hoje. Em amplitude e profundidade, talvez somente a
explosão religiosa dos primeiros séculos do cristianismo
possa lhe ser comparada. Durante séculos o aparato
religioso transformou-se numa estrutura rígida que, na
maioria das vezes, não tinha outra finalidade senão a
autopreservação - como uma ameba, cujo objetivo mais
elevado é produzir mais amebas. Enfim, a religião foi
absorvida pela política e pela economia.

312
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Trata-se do que hoje chamam Religiões Organizadas,


que no geral, são umas belas bostas. Como os capitalistas
não perdem uma única oportunidade de lucrarem com as
necessidades humanas, não deixaram de fora as religiões. A
Igreja Católica é apenas o exemplo mais óbvio. É a Igreja
universal do Reino de Deus que é atualmente a
aproveitadora da espiritualidade das classes mais pobres.
Bom, estou desfilando argumentos pra contextualizar
uma conversa que tive com o convalescido Vinícius (ele
ainda se encontra engessado após quebrar o braço no
ataque do bingo) sobre o ocorrido com uma vizinha. Na
ânsia de contribuir para a causa divina ela doou todo o seu
salário pra Igreja. Resumo: estão passando necessidade pela
falta dessa grana. Pra completar, sua filha foi às escondidas
reclamar para o pastor e além de ser esculhambada, ainda
sofreu assédio sexual por parte do pastor. Vinícius estava
visivelmente indignado.
- Ari, temos que aprontar alguma coisa com aqueles filhos
de uma puta.
- De minha parte queria tascar fogo naquele prédio.
- Não, muito radical, além de pouco divertido.
- Concordo, mas o que então?
- Tava afim de fazer mais um ataque na linha das TANs,
Táticas de Ativismo Nonsense.
- Ai minha Éris, estou fudido.
- Saca só Ari, queremos protestar que aquele culto é
completamente sem sentido, certo? Pois então, faremos
algo sem sentido. Como por exemplo: o culto a Bob Esponja.
- Culto a Bob Esponja?
- Sério! Quer dizer, o mais sério possível, em se tratando do
que estou pensando. Vamos montar uma fantasia de Bob
Esponja.
Pronto, estava nascendo mais uma ação
profundamente sem noção. Quanto Sérgio, que é nosso
artista plástico oficial do muquifo e um homem de tintas,

313
Manual Prático da Delinquência Juvenil

chegou ao doce lar, Vinícius já o esterava com uma caixa de


papelão.
- Tá de mudança?
- Não, tenho uma missão pra sua pessoa.
- Que missão? Ah, não cara, hoje tô estressado, quero ficar
ilhado e nada mais.
- Tudo bem, não precisa ser hoje, mas de qualquer forma
precisamos que você confeccione uma fantasia de Bob
Esponja.
- Depois tu me explica, preciso de um banho de um
sabonete inteiro.
Quando o Monstro saiu do banho a galera já tava
toda reunida e o plano mais ou menos definido. Fazia horas
que queríamos sacanear a Igreja Universal, não foi difícil
convencer o pessoal. Marmita, o mais baixinho, seria o Bob
Esponja. Vinícius seria o possuído. Eu e Jean seríamos os
que estenderíamos uma faixa na hora da aparição de Bob
Esponja e Fábio seria o observador, o coringa pro caso de
alguma coisa sair dos planos. Sérgio pediu pra ficar de fora,
além de ser o mais cagão, agora deu pra ser o mais furão.
Marmita e Sérgio passaram dias trabalhando na
fantasia. Os caras capricharam pra pacas nos detalhes.
Posso afirmar sem medo errar, ficou do caralho! Toda vez
que Marmita colocava a fantasia era um pandemônio de
gargalhadas no Muquifo. Eu me cagava de vontade de
chamar a piazadinha do bairro pra curtir junto, mas Jean e
Fábio eram radicalmente contra.
- Ari, a igreja não fica muito longe daqui e podemos ser
reconhecidos por alguém
- Cara, bem lembrado, e depois do ataque? Podemos ser
facilmente reconhecidos aqui no bairro.
- É verdade...
Acabamos mudando o alvo e escolhendo uma igreja
de um bairro distante, o bairro do Maracanã, em Colombo, lá
na puta que o pariu. Uma pesquisa rápida feita pelo irmão

314
Manual Prático da Delinquência Juvenil

de Fábio, que mora próximo, bastou pra definirmos o dia e o


horário, sábado às dezenove horas. Foi foda esperar, a
expectativa foi grande. Marmita não se conteve e foi
fantasiado já no ônibus, só tirando a fantasia quando
chegamos no Terminal do Cabral. A galera do buzum curtiu
muito, principalmente as crianças. Marmita conseguiu
aperfeiçoar muito bem sua fala, era o próprio Bob Esponja
que estava ali.
Estávamos vestidos caretamente, com todo crente se
veste. As bíblias conseguimos na vizinhança do Muquifo e as
caras de mau usamos as nossas. A igreja era bem
movimentada, uma fileira de pessoas se diriga ao culto.
Todos aqueles neguinhos de terno engomado, mulheres de
saia e cabelos compridos e a criançada feliz por estar
fazendo algo diferente do que ficar em casa assistindo TV e
as brigas de família. Simpático aquele povo, tenho que
admitir.
Mal entramos na igreja já notamos os olhares, parece
que els conhecem todo mundo que vai lá. Murmurei com o
jean que caso nos chamassem no altar era pra desbaratinar.
- Claro Ari, tô fora! Tô fora!
- É, vamos deixar essa parada de queimar a cara com o Vini,
hehehe!!!
A formação de ataque era a seguinte, eu e Jean
ficamos juntos, Fábio chegaria no surgilo (como fala o
hilariante estagiário aqui do trampo) e Vinícius entraria
depois, como o possuído. O Bob Esponja marmitístico faria o
Gran Finale. O culto começou, e dá-lhe cantorias e sermões
inflamados. Vinicius teve que esperar, pois uma velhinha
possuído pelo capeta foi primeiro ao altar. Troço cabuloso o
exorcismo que eles fazem, é de dar medo, se eu fosse um
demônio acho que picava a mula mesmo. A velhinha desceu
do altar suando em bicas, deve mesmo ter sido uma
experiência chocante. Fiquei impressionado.
A expectativa foi grande, mas lá pelas tantas entra
vinicius com aquela cara de psicopata, com o braço
engessado e meio corcunda, olhando todos de canto de
olho. O cara deixava escorrer um fio de baba pelo canto da

315
Manual Prático da Delinquência Juvenil

boca, acho que nuca foi tão difícil conter uma gargalhada.
- Sossega Ari, não viaja.
De repente, do nada, o cara surta. Se jogou no chão
e começou a dar uns berros. Três pessoas o recolheram e
tentaram levá-lo ao altar. No meio do caminho ele teve uma
crise, começou a se debater e a revirar os olhos, tiveram
que vir mais dois de reforço. Finalmente no altar o pastor
aproximou o microfone do possuído.
- Eu estou possuído Pastor! Eu estou possuído!
Então o pastor começou a ladainha.
- Em nome de Jesus Cristo nosso Senhor eu te... ¿ foi
interompido,
- Ele não está possuído nada professor! ¿ falou Vini, com a
voz do Bob Esponja.
- O quê?!
- Eu sou Bob Esponja e isso é absolutamente normal
- Não! Nãããão!!! Eu estou possuído pelo Bob Esponja pastor,
me salve! Outro dia quase me afoguei por que esse
demônio me fez crer que eu podia tirar uma sesta numa
piscina de plástico.
- É o demônio! É Satanás que aborda as almas mais frágeis
através da demoníaca televisão, através dos demoníacos
desenhos animados.
- Ele não está possuído! Eu sou Bob Esponja!
- Me ajude! Pelamordedeus! - Vinius alternava as vozes
magistralmente.
Quando o pastor começou sua ladainha de
exorcismo, eis que uma aparição inusitada surge na porta
do templo. O próprio, ele, a lenda, Bob Esponja. Enquanto
tos se viravam pra ver a criatura eu e Jean nos apressamos
em aproveitar a deixa e esticar a faixa que havíamos trazido
de antemão. Nela estava escrito em letras garrafais: EU SOU
ADORADOR DO BOB ESPONJA PORQUE ELE TEM CUECAS
QUADRADAS!!

316
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Eu não conseguiria descrever em simples palavras a


surpresa que tomou conta de todos que estavam lá. Eu
estava em êxtase. A cara de embasbacado do pastor era
algo indescritível. As cantorias dos fiéis foram diminuindo,
diminuindo, até que um silêncio constrangedor se abateu
sobre todos. O silêncio dos inocentes. Hakim Bey tinha
razão, é possível fazer uma Zona Autônoma Temporiária
dentro de nossa cabeça. Naquele momento era como se eu
tivesse suspenso a dura realidade do mundo e junto a ela,
toda a opressão. Uma criatura livre, vivendo um momento
mágico de sua existência. Minhas meditações foram
interrompidas por uma porrada no ouvido esquerdo.
Não deu tempo nem de atinar que porra estava
acontecendo e nem do meu ouvido começar a zunir devido
ao tapão. Levei um empurrão de um segurança e voei em
direção a um banco de madeira. Minha cara deu em cheio
na madeira. Meu nariz estouro na hora e vi que um jato de
sangue molhando o chão. Dei meu sangue pelo avanço do
caos.
Mesmo tratando-se dos guardiões da Casa de Deus,
os rapazes foram bem violentos. Papai do céu com certeza
deve ter dito la em cima:
- Tsc! Tsc! Tsc!
Vinícius, ao ver que a maionese desandara,
simplesmente atravessou o corredor no maior pinote que já
vi até hoje. Uns seguranças ainda tentaram agarrá-lo (por
Éris, com tem seguranças naquelas porras!), mas conseguiu
desvencilhar-se e chegar intacto na rua. Jean foi bem mais
ninja do que eu, ele estava ligado da butuca dos seguranças
e não foi pego de surpresa. Conseguiu se defender legal e
até arriscou umas negociações, com ajuda do diplomata do
improviso Fábio Samwise.
- Cara! Pára com isso, vamos conversar!
- Conversar o quê seu vagabundo? Ponha-se daqui pra fora!
O pastor, numa tentativa desesperada de salvar seu
culto daquele inacreditável tumulto começou a berrar, sem
economizar perdigotos.

317
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Satanás! Isso é coisa de Satanás!!!


Com aquele mantra mágico os fiéis conseguiram vencer o
torpor da surpresa.
- Salve aleluia! Salve!
Fui escoltado a pontapés até a porta de saída. Ainda
deitado e ainda levando porra avistei Bob Esponja. O coitado
levou tanto chutão que ficou redondo, um pecado, uma
heresia tratando-se de nosso lendário herói cúbico. Uma vez
que estávamos todos já na rua, Fábio conseguiu convencer
os rapazes a parar com a violência. Nos arrastamos até o
Terminal do Maracanã. Tirar o Marmita de dentro da fantasia
foi quase como tirar uma vítima de acidente automobilístico
de dentro da lataria. Qual não foi nossa surpresa ao ver que
o cara estava interinho.
- Ô seu porra, como você conseguiu se safar?
- Me encolhendo ué! Essas esponjas e mais o papelão são
uma bela armadura.
- Armadura? Pois agora tú tá fudido!
Ficamos tão putos por ele estar inteiro que
derrubamos a ingüinha no chão e desta vez nós, enchemos
de porrada, dando risada feito uns alucinados. Incrível,
mesmo numa situação dessas, mesmo após uma
humilhante sova e com meu nariz sangrando ainda
conseguimos nos divertir surrando o Marmita.
Não faz sentido o que fizemos? Tudo bem, aceito a
pergunta e até arrisco dizer que não, não faz sentido. Mas
que sentido também há no que aqueles fiéis fazem lá
dentro? Hein? Hein? Hein?

O Meu Refrigerador Não Funciona - (ataque cinqüenta


e dois)

A arte está morta: eis a grande mentira universal.


Mortos estão os artistas. Mortos & Podres & Decompostos,
nem pra adubo servem mais. Arte não deveria ser profissão,

318
Manual Prático da Delinquência Juvenil

não deveria ser especialidade de alguns. A arte é nossa, é


de nossas vidas. A arte como uma atividade separada da
vida é uma herança maldita da revolução burguesa e da
ascensão do capitalismo opressor. Discutíamos isso no
fórum dos Delinqüentes quando a Enésima Encarnação de
Éris, Lila Sin, comentou que consertar geladeiras é uma arte
tão nobre e louvável quanto esculpir anjinhos ou pintar
monalisas. Imediatamente minha mente suja interpretou
essa afirmação como um meme interessante. Como seria se
decidíssemos idolatrar um técnico em refrigeração como se
fosse uma celebridade cultuada pelas massas? Apresentei a
idéia pra piazada no Sagrado Muquifo do Sitio Cercado.
- Idolatrar um consertador de geladeiras?! Porra, tudo certo,
muito nobre essa causa e tal, mas como é que vamos fazer
de verdade? Tú vai dar o cú pro cara?
- Pô cara, pensa véio!
- Pensar. Tá bom, vou pensar depois te falo.
A coisa toda descambou pra palhaçada. A galera
começou a tirar onda e quando isso acontece nada é capaz
de fazer a conversa retomar seu rumo.
- Fala pro Marmita ir fantasiado de geladeira.
- É! Aí a gente surra ele de novo e leva pra concerto.
Não teve jeito, o assunto morreu ali. Só que os
melhores memes são aqueles de efeito retardado ou então
aquela viagem de que o Universo inteiro conspira ou sei o
quê de que caralho de teoria, mas a questão voltou à tona.
E esse retorno começou lá no trampo no sábado retrasado.
Começou na cagada, literalmente.
Eu estava voltando do horário no almoço e pensando
no inferno que seria trabalhar o fim de semana inteiro. Tudo
por causa de uns gringos que visitariam a empresa na
segunda. Nossa missão: deixar a empresa um brinco, pra
inglês ver. Minha revolta não tinha tamanho. Ao entrar no
Inferno reparei que tinham quatro faxineiras numa força
tarefa. Foi batata, uma lampadazinha acendeu sobre minha
cabeça no momento em que baixei as as calças pra cagar
no banheiro. O pensamento foi fulminante.

319
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Quer saber? Que se foda.


Terminei de baixar as calças, me agachei e caguei no
chão. Um ato impensado, atos finos, finíssimos. Limpei o
rabo e saí nas carreras. Sentei no meu lugar e fiquei
aguardando. Não precisei aguardar muito, a merda fedeu
tanto que a primeira pessoa que entrou lá já comunicou a
faxineira oficial, que deu só uma olhadinha e já foi na sala
do chefe, que não esperou um segundo e foi verificar, que
não esperou muito e foi pra sua sala e em menos de um
minuto estávamos todos convocados pra uma reunião geral.
- Quero saber quem fez aquilo lá.
Desse jeito, direto ao ponto. O silêncio da turma e a
troca de olhares foi hilário. E eu prendendo a respiração pra
não rir, me cagando (ops!) de medo pra não ficar vermelho.
- Bom, ninguém está autorizado a sair daqui da empresa
antes que o autor se manifeste.
Voltou indignado pra sua sala. Juro, nunca vi ele tão
nervoso, perdeu a pose legal, chegava a tremer as mãos e
os lábios. Entrei no banheiro e rachei o bico de dar risada
sozinho, ri uns cinco minutos e voltei pra minhas atividades.
Claro que aquela ameaça de prisão era um blefe, claro que
ele não poderia fazer nada e pelo que me consta, não existe
DNA de cagalhão. O ocorrido, além de ser uma das melhores
intervenções visuais que lembro de ter feito, virou um mito
dentro do meu trampo. Caralho, quem foi que fez aquilo?
Muitos desconfiavam de mim, mas fui bom em disfarçar e só
fiz alimentar o mito.
O mistério porém sofreu um abalo quando eu imprimi
o relato do ataque em que quebraram meu nariz pra
mostrar ao legendário estagiário Ramonera. Meu nariz
quebrado era outro enigma insolúvel, a cada pergunta que
me faziam eu respondia com uma história mirabolante.
Ramonera acabou de ler e virou-se pra mim.
- Tá Ari, agora não tem como negar, se tú fez isso que tá
escrito aqui então foi tú quem cagou no chão naquele dia.
- Nada cara, não tenho nada a ver com aquilo.

320
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Não tem mesmo? Você tu te garante?


- Claro!
- Então tá, queria só ver. Fui eu. E vou agora lá confessar.
- Confessar? Você tá louco??? É demissão na certa!
- Pois olha então.
Levantou-se e saiu em direção da sala da chefia. Que
ele era louco eu não tinha dúvidas, do contrario não criaria
um fã clube desse inconseqüente. E justamente por se
tratar de um inconseqüente que com certeza assumiria
mesmo e como eu o tinha em alto estima corri e consegui
alcançá-lo a dois metros da porta do belzebú.
- Tá bom sua bicha, fui eu!
- Arrá seu monstro! Desconfiei desde o princípio.
Na saída foi comigo pagar três cervejas e relembrar o
ocorrido e saber dos detalhes da Operação Cocô no Chão.
No meio da conversa citei o nosso plano de idolatrar o
consertador de geladeira e de nossa dificuldade de definir
um roteiro pra ação.
- Rapaz, não entendo essa dificuldade. Não é pra idolatrar o
cara como se fosse um ídolo pop?
- Sim, mas como?
- Simples, a gente pega a máquina fotográfica digital lá do
trampo, fotografa ele e depois faz uns pôsteres, camisetas e
talz.
- Massa, eu não tinha pensado nisso antes.
- Hehehe, claro! Você não é a lenda como eu!
Ele mesmo, do alto de sua cara de pau, se
encarregou da tarefa. Passou o migué de que era estagiário
do Sebrae e que estava fazendo uma pesquisa sobre
pequenas e promissoras pesquisas. Deu uma disfarçada
boa, fotografando as instalações e, como ele mesmo diz, no
surgilo, fotografou o dono da oficina. No outro dia
estávamos com as imagens no micro do trampo e editando
o material. Os cartazes a gente imprimiu na firma mesmo.

321
Manual Prático da Delinquência Juvenil

As camisetas foram um pouco mais difíceis, mas era


fundamentais, fomos obrigados a fazer a parada mais mal
feita do ano, imprimimos as fotos, colocamos dentro de
sacos plásticos e grampeamos nas camisetas. Tosqueira
total.
Pro negócio ficar dez mesmo teríamos que ter uma
galera participando, uma verdadeira procissão, mas como
não somos nenhuma mega organização terrorista, tivemos
que nos contentar com os poucos gatos pingados que
tínhamos a disposição, os Delinqüentes de sempre mais
umas minas, Marília namorada do Vinícius e duas primas do
Ramonera. Sábado, às sete da manhã nos encontramos
todos no Terminal Campina Siqueira. Os novatos estavam
todos meio confusos, sem saber ao certo que faríamos. As
primas do Ramonera eram as mais perdidas.
- Vocês querem que a gente peça autógrafos pro cara?
- Exato, pode simular a maior tietagem, façam de conta que
ele é, por exemplo, o Thiago Lacerda ou então um cantor
qualquer que esteja bombando.
- A gente podia gritar feito umas histéricas quando víssemos
ele.
- Perfeito, perfeito! Captaram a idéia.
Quando chegamos no local a oficina ainda estava
fechada. Esperamos pacientemente, sem esconder uma
certa dose de tensão, até que uns barulhos no interior do
prédio indicavam que a loja seria aberta. Pelo que
analisamos o dono morava numa casa nos fundos do
terreno, o que foi ótimo, pois o cara não saberia a surpresa
que o aguardaria. Oito e meia da manhã a cortina foi
erguida.
A cara de espanto que o rapaz fez na hora que
levantou a cortina quase nos levou às gargalhadas, foi difícil
manter a postura. Marília se juntou às primas do Ramonera
e quando elas viram o consertador de geladeiras e
reconheceram que era ele mesmo, a lenda, o mito, que
estava estampado em suas camisetas começaram a dar
aqueles gritos histéricos de fãs alucinadas.

322
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Gaaaaaato, liiiindo!!!
- Gato, bonito, lindo e gostosão! Gato, bonito, lindo e
gostosão!
A vítima simplesmente não sabia o que dizer e o que
fazer.
- O que está aconteçendo aqui?
Sergio fazia o papel de segurança pessoal do ídolo,
as gurias tentavam agarrá-lo enquanto Sergio às continha.
Com gestos até meio violentos e uma cara de mal hilária.
Eu, Marmita, Ramonera e Jean o reverenciava-mos como se
tratasse de uma divindade Hindú ou sei lá o quê. Eu, mais
especificamente, estava escrotíssimo com o curativo devido
ao nariz quebrado na surra do último ataque. Enquanto
fazíamos isso entoávamos a música O meu refrigerador não
funciona dos Mutantes, como se fosse um mantra.
A Gritaria, A Algazarra & A Balbúrdia eram tão
grandes, ou no mínimo tão Sem Noção & Esquisitas, que
imediatamente começou a chamar a atenção dos
transeuntes, que paravam, davam uma olhada e seguiam
suas rotinas sem entender bulhufas do que tinham visto.
Alguns ficaram assistindo. Fábio & Vinícius tinha previsto
isso e deram uma de tradutores, foram explicando pro povo
o motivo daquela palhaçada toda.
- As pessoas idolatram artistas que na verdade pouco ou
nada acrescentam a nossas vidas. A arte na verdade não é
uma profissão. Não existe o artista. Artistas somos todos nós
e a arte faz parte de nossas vidas. Quer artista maior do que
este rapaz que conserta geladeiras. Gente, se eu ficar sem
ouvir o disco novo do Djavam dada de sério que acontecerá,
mas se eu ficar sem geladeira minha comida estragará. E
comida podre, vocês sabem bem, fede pacas e faz mal. Dá
uma diarréia danada. Esse discurso todo era proferido
enquanto fazíamos nossas reverências. As meninas já
estavam na fase de pedir autógrafos. E o cara se prestou,
deu autógrafos mesmo e a essas alturas do campeonato já
estava curtindo a viagem, seu momento de celebridade. Um
velhinha na janela da casa ao lado batia palmas animada e
dava muitas risadas. O clima meio que ficou estranho

323
Manual Prático da Delinquência Juvenil

quando apareceu o primeiro cliente do dia. O dono da


oficina ficou meio constrangido, mas Fábio & Vinícius
repetiram seu discurso e entregaram uns panfletinhos anti-
artistas e anti-idolatria ao cidadão. Deram também uns pra
velhinha animada da casa ao lado. Por fim acabou tudo na
maior confraternização. O idolatrado pediu pra esposa dele
preparar café e nos ofereceu uns biscoitos.
- Juro que nunca imaginei que um dia uma coisa dessas
pudesse me acontecer. Vocês são uns malucos mesmo.
- Nada tio, o senhor merece.
Saímos de lá com uns cartões de visita da oficina,
uns calendários com imagens de Orixás e sem as camisetas
e os cartazes, que ficaram com os filhinhos de técnico, que
fizeram a maior festa durante nossa apresentação e ficaram
se divertindo com os suvenires. A gente sempre aprende
alguma coisa em nossos ataques e dessa vez ficou uma
máxima que não imaginávamos quando decidimos fazer
aquilo.
Cazuza estava errado, as mães não tem nada a ver
com isso, na verdade só as crianças são felizes.

A Culpa é das Crianças (psicogeógrafos sem noção do


Sitio Cercado) - (ataque cinqüenta e três)

O termo psicogeografia foi cunhado pelos


situacionistas no final dos anos 50 no contexto daquilo que
eles chamavam de Urbanismo Unitário. Para fazerem seus
levantamentos psicogográficos os situacionistas praticavam
a deriva, que nada mais é do que andar a esmo, seu uma
rota definida, escolhendo os caminhos que achar mais
agradáveis. Depois se faz um mapa com as rotas que foram
adotadas. Apresentei essa teoria maluca pro pessoal do
Sagrado Muquifo do Sítio Cercado e decidimos estudar
melhor nosso bairro. Fizemos a nossa própria interpretação
das idéias dos situacionistas e traçamos um plano.
O plano era pegar um mapa do bairro e diariamente
ir riscando os trajetos que fazíamos, de casa até o trabalho

324
Manual Prático da Delinquência Juvenil

ou escola e depois a volta, de casa até o mercadinho que


nos vende fiado, se casa até o campo de futebol e por aí vai.
Fizemos isso durante aproximadamente um mês e
observamos os padrões que começaram a se formaá. Foi
legal, pois passamos a descobrir o quanto a cidade nos
bitola, o quanto somos como um trem limitado a seus
trilhos. Acredite: existe uma cidade inteira, Oculta &
Maravilhosa, esperando pelas pegadas de seus sapatos.
Descobrimos na Psicogeografia uma das maneiras de
se reagir a essa bitolação. Como diria Luther Blisset, esta é
uma forma de foder com o guarde de trânsito invisível que
regula nossos passos. Tá certo, tem muita gente que fala,
talvez até com uma boa dose de razão, que só nos
embrenhamos nesse jogo absurdo por pura falta de grana
pra pagar o buzum até o centro e freqüentar lugares mais
convencionais. Pode ser, mas que descobrimos coisas
legais, isso ninguém poderá negar. Cada um de nós saia
andando à deriva pelas ruas, sem um roteiro pré-definido e
sem saber de antemão para onde irá. Quando chegávamos
numa esquina ou numa bifurcação qualquer, escolhíamos o
caminho que achávamos mais agradável por um motivo ou
outro, ninguém comentou com ninguém qual que era seu
critério de escolha. Tanto faz a razão, pode ser uma casa
que achou bonita, uma árvore que te chamou a atenção ou
uma concentração de pessoas, tanto faz.
Andamos bastante, queimamos altas solas de
sapato, ou tênis, como foi a maioria dos casos e anotamos
as ruas e depois pegamos um mapa e traçamos todos os
trajeto que você fizemos, com cores diferentes pra facilitar a
descoberta do autor. Anotamos com um asterisco os pontos
onde nos sentimos melhor ou achamos mais bonito e
interessante. Refizemos esse exercício diversas vezes,
sempre alterando o ponto inicial da jornada e sempre
marcando no mapa o trajeto. Depois comparamos os
resultados tentando enxergar padrões. Aconteceram coisas
curiosas, teve locais que mais de uma pessoa marcou com
um asterisco. Chegamos à conclusão de que sem a menos
sombra de dúvidas, tratavam-se de pontos de poder.
Aos poucos descobrimos o que falei a pouco, que

325
Manual Prático da Delinquência Juvenil

existe um outro bairro dentro de nosso próprio e nem tão


velho, mas conhecido bairro. E aos poucos, recuperamos a
sensação de ir e vir sendo senhor de seus próprios passos.
Sérgio gostou tanto da coisa que até inventou até um jogo
derivado de nossas derivas.
Catalogou todas aquelas casas que considerou
"simpáticas". Casas que resistiram às padronizações ou
através de um jardim, do arranjo arquitetônico, da pintura
ou da presença constante de crianças brincando ou pessoas
conversando.
- Focos de vida, de espontaneidade.
Depois tentou conhecer os moradores dessas casas.
Marcou essas localidades no mapa e tentou relacioná-las
aos pontos de poder, previamente identificados por todos.
Começaram então a surgir estranhas combinações,
arbitrárias, eu sei, mas nem por isso menos intrigantes e
maravilhosas. Por fim bolou um plano quase utópico: colocar
os moradores em contato uns com os outros.
- Arguma relação, por mais desconhecida que seja, eles
devem ter uns com os outros.
Outra curiosidade de nossas derivas acabou
inspirando mais um plano de ataque. De seis pessoas,
quatro apontaram uma árvore enorme e bonita como ponto
de concentração de poder. Fomos ontem checá-la e
descobrimos algo que não tínhamos notado em nossas
derivas: ela fica ao lado de um depósito de madeira, mas
simplesmente não tínhamos nos ligado do depósito nas
derivas, nenhum dos quatro. Muito estranhos, como somos
uns palhaços paranóicos interpretamos o ocorrido como um
sinal. Um sinal que precisávamos fazer alguma coisa com
relação àquilo.
A árvore em questão é uma das (se não for a) árvore
mais alta e frondosa do bairro. E fica ao lado de um depósito
de árvores mortas. Sacou a ironia? Pois bem, bolamos então
um ataque de Terrorismo Poético, enfeitaremos a árvore
como se fosse de natal com motivos ecológicos.
- Cara, que massa, podemos pendurar uns cartõezinhos com

326
Manual Prático da Delinquência Juvenil

umas frase ecoloógicas.


- Sim, e terminar tudo com um grande show de fogos de
artifício!
A noite em que estávamos finalizando o plano
coincidiu com a visita do Jubyleu ao muquifo. Fazia uma cara
que ele queria participar de alguma ação, mas como o resto
do pessoal não conhecia o cara direito, era sempre barrado.
Nessa noite sabatinamos o rapaz e ele acabou sendo aceito,
apesar de ser meio a contragosto de uns e de outros. Além
do Ramonera, teríamos mais um reforço. Marcamos pra
madrugada de sábado.
Dez e meia da noite e eis que alguém bate à porta,
fui checar e vi umas das cenas mais inusitadas de minha
biografia: Jubyleu com um bebê no colo. Quase não
consegui fazer a perguntas, tantas que eram as
gargalhadas.
- Que porra é isso, sua ratazana?
- Ué, um bebê, trouxe pra sacrificá-lo.
- Sacrificá-lo, você bebeu??
Entrou, desenrolou o pano e revelou a verdade, tratava-se
de um boneco.
- Fiquei pensando naquela proposta de vocês de
provocarmos um pequenos incendio no depósito. Não achei
uma boa, meio palha. A gente podia fazer diferente. A gente
podia assar esse bebÊ.
- O quê??? Assar o bebê? Hahahahaha!!!!!!!!
Nossa, pareceu que o gás do riso invadiu o muquifo,
a galera rolava no chão de tanto rir. Ramonera, que já tava
no quarto copo de vinho suave chegava a chorar de rir. A
idéia foi aprovada no ato. O entusiasmo era tanto que mal
conseguimos esperar pela madrugada, meia noite e meia já
estávamos indo ao local do crime. No entanto, damos um
azar lazarento, tinha um casal de namorados na casa no
outro lado da rua, em frente à árvore. Tivemos que esperar
até quase três horas da matina. Quando o casal deu o beijo
de despedida quase gritamos de euforia.

327
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Bóra macacadaaaaa!!!
E parecíamos mesmo um bando de macacos subindo
naquela árvore. As tarefas foram bem divididas. Marmita, o
Mestre das Gambiarras ficou com a missão de entrar no
depósito e conseguir fazer uma extensão pra trazer a
energia que iluminaria as lâmpadas. Fábio instalaria os
fogos no topo da árvore. Jubyleu seria o churrasqueiro de
bebês. Sérgio penduraria os cartões nos galhos, enquanto
eu, Ramonera, Jean & Vinicius estenderíamos as lâmpadas
de modo a formarem as frases. Jubyleu foi o que terminou
antes. Deixou o bebê espetado e a churrasqueira armada,
só esperando o final dos trabalhos pra acender o braseiro, o
que por uma questão de segurança, ficou pra ser feito por
último. Só que em vez de nos ajudar, o viado se instalou
num galho Seguro & Confortável e ficou cheirando benzeno.
Maldita Ratazana Junkie!
- Vem nos ajudar seu ingrato!
- Já vou, deixa só eu turbinar meus neurônios.
Não foi nada fácil estender as lâmpadas, no escuro é
bem mais foda decidir se um galho agüenta o peso ou não,
a tarefa exige um concentração absoluta. Apesar da
madrugada gelada eu suava a cântaros. Minha
concentração foi interrompida pelo estalo de um galho
quebrando: Ramonera, que ainda tava bêbado,
simplesmente pegou no sono e começou a cair de onde
estava. Se não fosse Jean, que estava pertinho, o piá teria
caio de uma altura de uns cinco metros acrescentando mais
um acidente pro nosso currículo. Jean segurou o mané pelas
calças, que começaram a arriar, arriar, até que rasgaram,
revelando a cueca mais ridícula que já vi até hoje. Por sorte
Ramonera conseguiu se salvar pendurando-se num galho
que ficava logo a baixo. O cara levou um susto tão grande
que ficou o resto do tempo abraçado naquele galho que
nem um náufrago agarrado a última tábua que sobrou do
navio afundado.
Chapado de benzeno Jubyleu começou a rir
histericamente. Jean, me cutucou.
- Vá você, que tem mais intimidade.

328
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Jubyleu seu porrinha, quer parar de rir seu merda????


Nada, o cara não conseguia nem falar, só rir. Fábio
estava visivelmente indignado com o cara, lá do topo da
árvore olhava pros lados nervosamente, até lá pelas tantas
soltou o alarme.
- Fiquem quietos que tá vindo gente lá na esquina!!!
Deu um assobio de alerta pro Marmita que estava
dentro do depósito e cada um fez o possível pra ficar quieto,
menos Juby, que ria feito uma galinha esganiçada (galinhas
esganiçadas riem? Por hora vamos combinar que sim). Era
um casal, com uma criança no colo e outra conduzida pela
mão. Quando eles passaram em baixo da árvore o pessoal
estava com a respiração suspensa olhando
preocupadamente pro Juby, que tapava a boca pras risadas
não escaparem. Porém, quando eles estavam a uns dez
metros de distência o paunocú desatou-se a rir de novo. O
senhor com a criança no colo parou, voltou uns paços,
escutou um pouco e depois continuou.
- Viu seu merda? E se ele se ligou de alguma coisa?
- Calma, ele não viu nada.
- Mas vamos logo com essa merda.
Marmita pulou o muro segurando dois fios.
- O que aconteceu?
- Passou gente e essa Jubyleu quase ferra com tudo, mas e
aí? Tá pronto? Beleza?
- Beleza, é só emendar esses dois fios aí na rede das
lâmpadas.
Imediatamente fizemos a emenda. Fábio já tinha
armando todo o esquema dos rojões e esticado o pavio até
em baixo, no troco da árvore. Sérgio também já tinha
pendurado todos os seus cartões. Estávamos chegando ao
clímax, a hora do espetáculo, meu coração estava
acelerado. Fábio chegou tudo e deu sinal.
- Agora!!

329
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Na hora em que tacou fogo no pavio Jubyleu tacou


fogo na churrasqueira de bebês e o Marmita acendeu as
lâmpadas. Um espetáculo! Uma beleza! O pavio foi
queimando, queimando, até que o céu do Sitio Cercado.
Efeitos pirofágicos clandestinos na madrugada. Na árvore as
lâmpadas formavam a seguinte frase: ARVORES MORTAS
NÃO VÃO AO PARAÍSO. Nos cartões Sérgio escreveu
mensagens atribuídas à própria árvore, onde ela lamentava
a exposição das vísceras de suas colegas mortas.
Estávamos todos emocionados esperando pelo Juby quando
Ramonera veio com um balde de água fria.
- Ei! Vocês não estão ouvindo esse apito
- Apito? Que apito?
Puta que o pariu! Tratava-se do cara que fica de moto
fazendo ronda no bairro, simplesmente tínhamos ignorado
essa possibilidade.
- Fuja locoooôô!!!!
- Jubyyyy, sai fora daí logo seu merda!!!
Ainda estávamos correndo e ainda não tínhamos
achado um canto pra se esconder quando ouvimos as
sirenes da polícia. Nossa carrera foi atrapalhada pelas
risadas, o ramonera correndo só de cuecas de astronauta
era hilário, isso sem contar que o piá corre como quem tá
com um pau enfiado no cpu. Quando encontramos um muro
baixo com um matagal do outro lado pulamos todos. Caímos
no meio de um lixão fedido, mas ficamos ali mesmo, pois
além de seguro, dava pra enxergar a árvore.
- Caralho! E o Jubyleu, onde estrá?
A polícia apagou nossas luzes e entrou no armazém.
Eu estava gelado de medo, se o Juby caísse provavelmente
estaríamos todos fudidos. Ficaram uns quinze minutos la
dentro depois foram embora. A gente quase nunca vê os
efeitos de nossas ações, mas essa deu pra ver e foi massa.
Vários vizinhos acordaram e foram lá ver o show.
Sacaneamos legal os donos do depósito de madeira.
Esperamos o Juby por quase uma hora e fomos cabisbaixos
pro muquifo. Chegando lá a surpresa, o verme estava nos

330
Manual Prático da Delinquência Juvenil

esperando, são e salvo.


- Ô seu merda, quer nos matar de preocupação, o que
houve?
- Sabem porque me atrasei? Por causa daquela criança,
como falo sempre e vocês não acreditam: a culpa é das
crianças.
É talvez ele tenha razão: a culpa é das crianças.

Os Delinqüentes Juvenis No Mundo Da Imagina A


Ação - (ataque cinqüenta e quatro)

Sérgio é uma cara que quase sempre me surpreende.


Aliás, falou muito pouco sobre ele nos relatos, no entanto
ele é mais do que aparece aqui. Mais para melhor & mais
para pior. Mas tudo bem, estou falando disso pra contar de
sua última surpresa.
Estava ele no terminal do Boqueirão (ele tem o
curioso costume de freqüentar terminais de ônibus e
rodoviárias pra curtir as pessoas em trânsito) quando
prestou atenção numa mulher com uma filha de mais ou
menos uns quatro anos na frente de uma loja de presentes.
Inicialmente a criança encantou-se com todos aqueles
brinquedos num só lugar (palavras dele). Os olhos da
menininha brilhavam de fascinação (palavras dele, tô
falando). Porém, após fazer algumas perguntas e alguns
pedidos a ficar triste, molhar os olhos até desatar-se num
choro Triste & Melancólico: sua mãe não tinha dinheiro pra
comprar nada. Só que foi a Longa & Pacienciosa explicação
dada pela mãe duranga que comoveu nosso herói pós-
romântico metido a poeta e artista plástico chamado Sérgio
Augusto.
Comoveu tanto que ele decidiu embarcar no buzum
do bairro Osternack e seguir as duas pra ver onde moravam.
Era uma casa de madeira, humilde, mas com um belo jardim
na frente. Como ele é negro como as duas, decidiu chegar
num boteco próximo e puxar assunto com uns bebuns
alegando que era um parente das duas, que fazia muitos

331
Manual Prático da Delinquência Juvenil

anos que não aparecia, que queria fazer uma visita surpresa
e estava ali pra criar coragem. No meio da conversa
levantou a ficha completa da mulher. Era uma mãe solteira
desempregada. Voltou pra Sagrado Muquifo do Sitio Cercado
com estranhas idéias na cabeça.
- Pessoal, descobri um fim praquelas latas de tinta cor de
rosa que ganhei do tio do Thársis
- Que latas de tinta? ¿ fazia tanto tempo que eu nem
lembrava.
- Aquelas tintas que ele me deu depois que o tio fechou a
loja.
- Ah! Só, tô ligado. E o que tú tens em mente?
Depois de me explicar em detalhes o que tinha visto,
fez um mistério danado, mas quando o resto da piazada
chegou começou a falar de seus planos concretos de
intervenção inusitada.
- Fala seu monstro, que porra de ataque você está
planejando?
Então nos contou pacientemente a história das duas
e seu plano. A idéia era invadir a casa das duas e reformar
por completo o quarto da menininha. Fazer a mais bela
surpresa possível pra uma menininha pobre.
- Hakim Bey falou, faça algo que uma criança se lembre
para o resto da sua vida.
- Caraca, que idéia massa. Meio gay, mas massa.
- É, dá o cú pro Hakim Bey de uma vez.
- Terrorismo Poético na sua essência mais Pura & Bela &
Maravilhosa.
- Pois bem, o que e como faremos?
- Relaxem, fiz o levantamento completo e já tenho um plano
de invasão, só preciso que vocês me ajudem a confeccionar
todo o material necessário ¿ disse Sérgio, todo cheio de si.
Segundo ele, as duas iam todo fim de semana pra
Piraquara, na casa da mãe da mulher, só voltavam domingo

332
Manual Prático da Delinquência Juvenil

à tardinha. A casa era de madeira e não teríamos


dificuldades em entrar pelo telhado. Parecia um bom plano.
Fazia tempo que eu não via todo povo tão envolvido
num projeto. Parecia que todos conheciam a menina.
Parecia que a menina fazia parte de nossas vidas, de um
certo modo fazia mesmo. Foi bonito de ver, a tigrada se
mexendo mesmo. Marmita, do alto de seu trono de Rei das
Gambiarras, se encarregou de um empreendimento
fantástico: construiu uma casinha de bonecas. Altas
casinhas, dois andares, escada de acesso ao segundo piso e
comprou uns móveis de brinquedo nas Casas China. Eu tive
uma péssima idéia, aproveitar que o quarto ficaria cor-de-
rosa e montar um unicórnio que seria a Ucristo. Penei pra
conseguir um cavalinho, mas quando pintei ele de rosa e
colei o chifre, ficou responsa.
Sérgio preparou uns quadros pra por na parede e na
sexta-feira véspera do ataque, estávamos com tudo em
cima. Marcamos a invasão pra madrugada de sábado.
Chegando no local ajudamos Vinícius a subir em cima de
uma árvore no quintal, munido daquelas canetas que tem
um raio laser vermelho. Como ele estava com o braço
quebrado desde o ataque do bingo, seria mais útil ali, de
sentinela. Se alguma coisa desse errado ele acenderia o
laser e um pontinho na parede do quarto seria sinal: deu
merda.
Jean subiu no telhado, tirou três telhas, entrou na
casa e soltou o trinco da porta da cozinha. Foi rápido e fácil,
em cinco minutos estávamos no quarto começando a
pintura. Eu, Fábio & Jean pintamos a parede, Sérgio foi
pregando os quadros. Inclusive ele deixou lá um dos
quadros que colocamos à venda na época em que a
imobiliária queria nos despejar de nossa antiga kitnete. Um
belo fim para aquele quadro. Marmita se encarregou da
instalação da casinha de bonecas. Deu trampo por que ele
fez uma instalação elétrica, umas pilhas que alimentavam
as lâmpadas e até um abajur minúsculo. Ficou massa
meeesmo.
A pintura acabamos logo, pois o quarto era muito
pequeno. Deixamos uns gibis, três livros de histórinhas e

333
Manual Prático da Delinquência Juvenil

mais uns brinquedos que o Jean conseguiu doados lá no


bairro no dia em que saiu disfarçado de assistente social.
Não era muita coisa, mas era de coração. Aliás o quarto era
tão pequeno que não foi com certa dificuldade que fizemos
tudo sem derrubar o guarda roupas podre de velho e fazer
um puta barulho bandeiroso. Apesar de todo o
levantamento que Sérgio tinha feito, apesar de sabermos
que não tinha ninguém em casa, estávamos nervosos.
Estávamos ajudando Marmita a colocar os móveis
dentro da casinha quando vimos na parede o sinal de alerta
de Vinícius. Meu coração gelou. Corri pra janela e vi que
tinham três caras parados na frente da casa. E o pior,
estavam apontando pra casa. Fiz um sinal pra galera não
fazer barulho. Sérgio se deitou no chão e ficou espiando por
uma fresta na madeira da parede. A luzinha de alerta
piscava freneticamente. O coitado estava pirando com o
braço engessado e sem poder fazer nada em cima daquela
árvore. Sérgio me cutucou e cochichou.
- Ari, vou espiar pelo lado de fora pra escutar melhor.
- Não cara, fica aí.
- Não dá nada, eu fico na lateral da casa.
Na hora em que ele saiu e que voltei a espiar quase
tive um troço. Os caras estavam pulando o muro. Aí pensei:
fodeo!! Dois deles sentaram na varandinha de entrada e um
deles cruzou a janela onde estava e falou para os outros:
- Vô entrar na baia e chutar a TV, tá ligado?
Puta que o pariu! Mas puta que o pariu nem foi tanto isso.
Puta que o pariu foi que o Sérgio viajou. O lóqui saiu no tapa
com o cara.
- Caralho! Caralho! Caralho! ¿ era só o que Jean & Fábio
conseguiam dizer.
Marmita estava encolhido no canto do quarto,
parecia que ele ia se esconder na casinha de bonecas
(tamanho pra tal façanha ele tem). Eu não sabia nem o que
pensar, quanto mais o que fazer. Foi Jean que reagiu.
- Bóra piazada! Vamo lá senão aquela bicha vai apanhar!!!

334
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Quando chegamos o cara já tinha se levantado do


tombo por causa da porrada inesperada desferida pelo
Sérgio e estava pra cima na moral.
- Eu só ia mijar seu filho da puta! Eu só ia mijar!!
E o viado quieto, só se defendendo. Aquele brio todo
dele de partir pra porrada foi tipo que uma Zona de
Macheza Temporária. Instantânea & Infinitezimal,
acrescenta-se. E nós que pagamos a conta. Quando nos
viram, os outros dois se levantaram e notei que estavam
cheirando cola ou algo parecido. Pensaram que fossemos os
donos da casa,
- Nós não tamo aqui roubando, porra!
O mais baixinho dos dois parecia pirado, noiado total.
- E quer saber? Pois vamos roubar então, vamos botar pra
quebrar nessa porra!!
Deu um soco na janela e quebrou o vidro. Não teve
jeito, mandamos nossos respectivos princípios pacíficos à
puta que o pariu e partimos pra pancadaria. Pra tú ver como
é que são as coisas, defendemos a casa que estávamos
invadindo. Quer dizer, na verdade não tinha nenhum
heroísmo nisso, na verdade queríamos nos livrar deles pra
fugir dali o quanto antes, pois quebraram uma vidraça e isso
não tinha, de modo algum, como dar dar certo. Outra coisa.
Fomos covardes. Estávamos em quatro sóbrios e eles em
três chapados. Teve até briga de faca. O que foi mijar puxou
um canivete e Jean puxou o seu. Eu pessoalmente acho
briga de canivete uma coisa de uma bichiçe só.
Fábio é mestre, tenho que admitir. Só ele nocauteou
os dois enquanto Jean brincava de zorro com o outro. Fiquei
na coordenação técnica da coisa. Tipo avisando: olha as
costas! chuta por baixo!! E foi o cara do canivete que deu
problema. Fábio & Jean partiram pra cima e estavam brabos.
- Vem Ari! Vem Ari!
Acontece que na hora em que fui dar um reforço pros
dois o mais baixinho, o TrincadoBoy levantou-se e me deu A
gravata. O cara tava macho, eu já tava quase sufocado

335
Manual Prático da Delinquência Juvenil

quando Fábio deu uma bifa na nuca dele e ele aliviou a


pressão, deixando que eu escapasse. O clima pesou, a coisa
estava saindo do controle quando fomos salvos pelo pior
anjo da guarda do lado de cá da galáxia. A sirene da polícia.
De fé mesmo, aquele som é uma injeção de
adrenalina direto na veia do pescoço. Cura qualquer dor no
corpo ou chapação. Nessa hora aquele fuja locoooôôô
ressoa lá no fundo da alma e atinge o inominável. Ninguém
nem viu pra que lado saiu correndo, mas saiu. Corri umas
dez quadras e me joguei num arbusto pro famoso Pare &
Pense.
Fiquei naquela uma cara, até que me liguei do
Vinicius em cima da árvore, o cara não conseguiria descer
sozinho e me liguei do Marmita. Onde porra do caralho se
socou o Marmita? Dei mais um tempo e fui pro tradicional
local combinado caso der merda.
A piazada já tava toda lá. E todo mundo perguntando
pelos dois. Cagada nossas. Consciências pesadas. Neguinho
pensando no pior. Só que os viados nos sacanearam,
chegaram por trás do muro onde estávamos escorados e
nos deram um puta susto da porra.
- Mão na cabeça vagabundo!!!!
- Ô seus pau no cús! Onde é que vocês estavam??
Marmita rachava o bico de dar risada.
- Vocês parece que não pensam! Saem na pancadaria,
fogem da polícia e deixam todo o material pra trás? Tão afim
de um flagrante? Me agradeçam, véio, me agradeçam!
O cara tinha razão. Enquanto descíamos a lenha nos
Delinqüentes do Mal ele tinha limpado tudo. Fechado tudo e
não deixado nenhuma pista. Depois foi ficar com o Vinicius e
os dois flagraram toda a batida policial.
- Eles olharam tudo, checaram o vidro quebrado, viram que
não tinha ninguém em casa e nenhum sinal de
arrombamento e vazaram.
- Caraaaaalho, que massa! E amanhã quando as duas
chegarem em casa?

336
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Putz! Vão ver a vidraça quebrada.


Rizadas, gargalhadas e o resto na noite zuando em
baladas Malucas & Contestáveis. É nessas horas que a
gente se sente livre de verdade e que a vida vale a pena ser
vivida.
Fnord

A Árvore de Quentinhas & o Coro Desafinado dos


Contentes - (ataque cinqüenta e cinco)

Quem deu a idéia foi alguém do Orkut que agora não


lembro o nome, a questão é que o efeito em minha mente
Demente & Inconseqüente foi devastador. Uma árvore de
pães, atacada pelos miseráveis. Parece que originalmente
tratava-se de uma performanca de vídeo. Não import,
estava indo pro Sagrado Muquifo do sitio Cercado com o
Marmita e contei a ele da viagem, depois de vários minutos
de risadas e viajadas na maionese a idéia acabou sendo
Distorcida & Transistorizada.
- Ari, achei bom o plano, só que acho que com pães ficaria
muito palha.
- E o que tú sugere então ¿ retrucou Jean
- Uma árvore de quentinhas.
- Quentinhas? Como assim??
- Sim! Marmitas!!
- Opa! O que é que eu tenho a ver com isso ¿ depois do
último ataque Marmita tá mais participativo no
planejamento.
- Cala a boca seu merda, tô falando de Marmitas com
comida
- Sério? Mas e daí? Não tô entendendo porra nenhuma.
- Eu te explico.
Basicamente tratava-se de um plano altamente

337
Manual Prático da Delinquência Juvenil

escroto, uma puta sacanagem com donos de restaurante. O


que eu tinha imaginado era escolhermos uma árvore
estratégica, que ficasse na frente de um restaurante Chique
& Caro e pendurarmos uma porrada de marmitas. Depois
era só avisar os mendigos e o fuzuê estaria armado.
- Ari, a parada é legal, não quero te decepcionar, mas acho
que não vai dar certo. Como é que a gente vai fazer pra
pendurar as marmitas sem que o pessoal do restaurante se
ligue do que estaríamos fazendo.
- Arrá!! Você não é tão esperto quanto aparenta!
- Porquê, seu cuzão?
- Estás esquecendo de nossos uniformes falsos de
funcionários da prefeitura. É só simularmos que estamos
cuidando da poda árvore.
- Maaaassa! O pior é que tú tem razão. Dá pra fazer mesmo.
Inclusive posso pedir pra minha vó preparar as marmitas.
- E será que ela topa?
- Com certeza! Quer dizer...isso se a gente pagar o material
- Pô, que foda. A merda é que a gente ainda não destruiu o
capitalismo.
- É verdade...
Porém, chegando no Muquifo contei tudo pro resto da
piazada e novas dificuldades apareceram. Ai, ai, como é
dura a vida de um Delinqüente! Fábio & Vinícius
questionaram.
- Acho que chamar os mendigos vai ser complicado.
- Também acho, os caras deverão estar por perto pra chegar
no tempo certo. Não temos todo essa logística e acho
arriscado demais confiar na sorte e no improviso. Aquilo foi
um balde de água fria nas minhas intenções. E era a
segunda vez, o pessoal do Orkut também não concordou em
meter mendigos no meio. Porém, depois de uma cagada de
quarenta minutos que empestou o banheiro por outros
quarenta, Jean voltou com um sorriso de orelha a orelha.

338
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Ari, sorria! Descobri como fazer.


- Como?
- Nós mesmos podemos ser os mendigos.
- Graaande Jeanzinho!!!!!!!
Para não corrermos riscos de sermos surpreendidos Vinicius
conseguiu convencer sua namorada, Marília, a participar da
ação. Marília é Campeã Mundial em Imitação de Ataques
Epiléticos. É só pedir a ela que ela já pergunta:
- Com baba ou sem baba?
Sua missão seria ter um piripaque escandaloso
dentro do restaurante, pra desviar a atenção dos garis
podadores de árvore.
Só que as dificuldades não paravam por aí. E a grana
pra comprar o rango que iria dentro das marmitas? Estamos
numa zica tão grande que por qualquer cinco pilas já temos
que recorrer ao FMI. Mas como tudo se ajeita, Jean me ligou
no trampo quinta-feira passada e marcou de cobrarmos
pedágio perto da PUC, pois nessa época os calouros malas
estão em polvorosa. Não foi lá um espetáculo, mas a parada
rendeu dezessete mangos. Com a segurança do
financiamento garantido fomos negociar com dona Jurema,
vó do Marmita. Eu vou morrer repetindo, Dona Jurema é
uma grande pessoa. E nunca é demais repetir que ela
participou de um de nossos Teatros Secretos. Contamos o
plano e ela teve que sentar de tanto que ria.
- Ai, ai, gurizada...vocês me matam.
- A gente gosta muito da senhora.
- Tá bom...eu sei, gostam dos galhos que eu quebro, não é
mesmo? E o que querem dessa vez afinal? Deixa eu
adivinhar, querem que eu cozinhe a comida.
- Taí vó, depois que eu digo que a senhora é a melhor vó da
galáxia, a piazada não acredita.
- E quem vai comprar as coisas?
- Aqui a grana, ó! A senhora só tem que fazer a lista de

339
Manual Prático da Delinquência Juvenil

material. E aí?
Em menos de uma hora já estávamos no sacolão
comprando legumes. Pimentão, abobrinha, batata, cebola,
pepino, fizemos um rancho responsa. Outros materiais
compramos no Atacadão do Boqueirão e a carne Dona
Jurema mesmo comprou no açougue perto de onde mora. O
resto preparamos no Muquifo mesmo. E por resto entenda-
se os uniformes de mendigos. Porque mendigo que não
cheira a pinga e mijo seco não é mendigo. Selecionamos
umas roupas velhas e passamos cinco dias mijando em cima
delas e depois secando. Quando chegou o sábado, dia da
ação, elas já estavam espetacularmente perfumadas.
Fui trampar e onze e pouco da manhã Jean me liga
dizendo que estava tudo em cima. Fui correndo pra Santa
Felicidade, que é um bairro aqui de Curitiba famoso por seus
restaurantes chiques e o pessoal já tava todo lá me
esperando. Vinícius, ainda engessado, não poderia participar
ativamente, então entrou com Marília num restaurante pra
fazer o desbaratinamento combinado. Logo chegaram os
garis Sérgio e Marmita. Eu, Fábio & Jean seríamos os
mendigos. Acompanhamos tudo de longe.
Quando os garis chegaram perto da árvores Marília
caiu no chão, na entrada do restaurante, tendo um terrível
ataque epiléptico. Ainda bem que eu não estava lá, não
conseguiria deixar de cair na gargalhada ao ver ela se
estrebuchando toda e babando feito um boi. O Garis foram
rápidos no gatilho. Marmita acho que é descendente de
macaco ou então tem um gene de australopiteco que
resistiu a milênios de evolução humana. Tava distraído
observando tudo quando Jean me deu um cascudo.
- Bóra Ari, veste essa porra de roupa de uma vez e toma
essa pinga.
- Tá, mas nós vamos beber mesmo? De verdade?
- Ué? O Roberto De Niro não engordou não sei quantos
quilos pra fazer o Al Capone?
- É...
- Pois então! Mas relaxa, faz uns três gargarejos que eu acho

340
Manual Prático da Delinquência Juvenil

que tá bom
Como eu tinha que voltar pro trampo resolvi ficar no
gargarejo mesmo, mas na hora mandei tudo às favas e dei
três belos talagaços, o suficiente pra ficar frasqueado. O
piás entornaram legal. Jean deu u gole tão animal que
chegaram correr lágrimas. Os garias desceram da árvore e
sairam a passos largos do local do crime. Tudo indicava que
a primeira parte da operação fora bem sucedida. As
marmitas brilhavam no sol e quando chegamos lá algumas
pessoas já estavam observando a inusitada árvore. Marilia a
aparente já estava recuperada do ataque epiléptico e o
casal conversava com alguém do restaurante enquanto
observavam as estranhas marmitas.
- Foram os garis que deixaram aquilo lá?
- Não sei, sinceramente não sei, estava ajudando minha
namorada e nda vi.
Subimos rapidamente a árvore. Jean estava bêbado
mesmo. Quando se agorrou num galho não viu que estava
meio podre caiu de volta. Ainda bem que não era alto.
Quando abri uma das Marmitas dei um berro de euforia:
- É comida mesmo macacadaaa!!! ¿ e aí sim, dei um belo
gole da garrafa de pinga
- É festa! Não como a dois dias!!!! ¿ Fábio emendou.
- Vamos comer que saco vazio não fica de pé.
Confortavelmente instalados em galhos seguros
demos início ao inusitado banquete de mendigos. Não
demorou muito até que um dos funcionários do restaurante
aproximou-se.
- Pessoal, vocês podem até comer isso daí, mas não na
frente de nosso restaurante, tem um almoço com um
candidato a vereador e...bem, isso aí não pega bem
- O quê? Comer não pega bem? Então por que essa merda
de restaurante.
- Bom, estou falando com jeito.
- E eu estou comendo com jeito. Aceita uma coxinha?

341
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Hahahaha!!!!
O rapaz viu que não ia se dar bem no diálogo e deve ter
percebido que estávamos bêbado, virou as costas e voltou
pro restaurante. Não deu meio minuto e saiu o que
aparentemente era dono do resurante, visivelmente
indgnado e apertando nervosamente as teclas de seu
celular.
- Seus vagabundos! Vocês vão sair daí nem que eu tenha
que chamar a polícia!!
Vinícius e Marilia tentaram moderar disfarçadamente
a coisa, mais o dono do restaura simplesmente não lhe dava
ouvidos. Continuamos nosso banquete sem com aquela
coragem etílica e sem levar a sério a ameaça de chamarem
a polícia. As coisas começaram a ficar realmente divertidas
quando um funcionário tentou subir na árvore pra nos fazer
descer e levou uma solada de Jean despencando de volta
pro chão. E as coisas ficaram realmente divertidas quando o
tal do candidato a vereador resolveu se apresentar pra
resolver o caso.
- Meus filhos, descem daí que eu pago um almoço pra vocês
num local apropriado.
- Que local apropriado? Vai nos convidar pra almoçar contigo
nesse restaurante granfa aí?
Ele gaguejou um pouco e respondeu que era um lugar
próximo dali.
- Má tu é muito falso e sem vergonha mesmo, não é seu
filho da puta?
Jean estava mesmo, começou a disparar ofensas a
Políticos & Burgueses. Fábio complementava tudo com uns
exemplos hilários que não sei de onde ele tirou. Eu estava
meio tenso.
- Rapazes, vejam bem. Estou tentando resolver o problema
da maneira mais fácil possível, não quero polícia.
Mas o dono do restaurante não parecia muito
disposto que aquela situação se prolongasse muito e ligou
pra polícia. Dois carros pararam na frente, visivelmente

342
Manual Prático da Delinquência Juvenil

com a intenção de almoçarem, mas desistiram ao ver a


confusão. Cochichei pro Jean que era melhor sairmos antes
que a polícia chegasse e ele concordou, o problema foi que
os Meninos da Lei chegaram em tempo recorde. E polícia
não chegou com intenção de diálogo.
Subiram na árvore imediatamente. Eu estava quase
saltando quando um deles me pegou pela blusa e me jogou
do alto. Voei e me espatifei na grama. Jean & Fábio foram
humilhantemente carregados pelos fundilhos até o
camburão. Eu, todo cagado de medo, fui jogado sobre eles.
A viatura saiu no pau e foi em direção à BR 277.
Pararam uns cinco minutos depois. Foi foda, não sabia onde
estávamos e não falávamos nada entre nós. Apenas
pensávamos: merda, merda, merda. Caralho, caralho,
caralho. Abriram a porta do camburão e desceram o cacete.
Levei uns dez tapões no rosto. Depois nos abandonaram ali
na BR. Humilhados, Machucados, Bêbados & Fedorentos.
Caminhamos um monte até encontrarmos um ponto que
ônibus que nos levasse até o Terminal Santa Felicidade, local
combinado pro reencontro. Chegamos lá a piazada ainda
tava esperando, não por solidariedade, mas por medo
mesmo e por absolutamente não saber o que fazer.
- Ôrra seus viados, pensávamos que vocês tinham sido
presos.
- Nada, os caras achavam que éramos mendigos de verdade
e lá no restaura? Como foi?
- Um sarro cara, eles fizeram uma denúncia sobre falsos
garis pra prefeitura.
- Posso garantir, geramos altos malestares e na boa,
ferramos o almoço do político.
Eu tinha que voltar logo pro trampo e deixei eles lá,
perdi a comemoração mas posso garantir sem medo de
erras: mais uma vez desafinamos o coro dos contentes.

Eu Não Sou Cachorro Não - (ataque cinqüenta e seis)

343
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Sempre que nos perguntam qual é nossa estratégia,


onde caralho queremos chegar, nossa resposta é
instantânea: distraídos venceremos. Não temos estratégias,
temos táticas e olhe lá. Assim nos protegemos um pouco do
Terrível Perigo De Se Levar A Sério. Não sabemos onde
queremos chegar e gostamos disso. Convicções geram
convictos.
Foi numas dessas cagadas estratégicas cagadas pelo
acaso, o Inesperado Acontece, que o Juby tanto fala, que
bolamos uma intervenção. Intervenção é um eufemismo
bom pra ataque, que é um eufemismo bom pra arruaça, que
é praticamente o mesmo que Delinqüência. Bom, estamos
em casa então.
Era um domingo de manhã depois de uma festa com
gatas no Sagrado Muquifo do Sitio Cercado. Entre os
Seqüelados & Deprimidos encontrava-se Sérgio, inteiraço,
pois Não Bebe & Não Fuma & Não Cheira & Não Fode
(brincadeirinha, esse último ítem aí é porque ele geralmente
não cata ninguém mesmo, intenção é que não falta)
colocando o som no talo as dez da manhã e acordando todo
mundo. Todo mundo puto da cara e eu pelo menos feliz, por
ele não ter botado Until the end of the world do U2 pela
ducentésima milésima vez. Nada contra música. Tudo contra
o Sérgio. O que tava rolando era o CD de músicas bregas
que eu baixei furtivamente no trampo. Arrá! O Firewall não
contava com Arizito acessando servidor FTP com Linux.
Massa escrever essa frase, parece que eu manjo. Quase
hacker. Até parece. E no mais, curto brega mesmo,
arriscaria dizer que sou brega mesmo e o dia amanheceu
feliz pra mim, apesar de, mais uma vez, não ter comido
ninguém.
Aí rolou Evaldo Braga, Odair José, Lindomar Castilho
e lá pelas tantas começou um flash back anos 80, aquela
coisa de Menudos Não se reprima e tal. Lixo pop é uma
coisa altamente água mole em pedra dura, depois de 10
anos vira cult entre os descolados, coisa nojenta. Os hits
mofados levantou um pouco o astral da galera. Fez até com
que Vinicius, o mau humorado matutino mór desse risadas e
Jean saísse da barraca com suas minas (sim, o viado tá

344
Manual Prático da Delinquência Juvenil

comendo duas e como nosso Muquifo não tem quartos


individuais, é numa barraca que a gente faz neném)
O caminho então estava pronto pro Grande Meme
Inesperado 2004. Acaba o Menudo e entra uns latidos de
cachorro, era o Eduardo Duzek com Troque seu Cachorro por
uma Criança Pobre. Já tínhamos usado a música no ataque
do Pet Shop, todo mundo lembrou. Até aí tudo bem, só que
uma lâmpada de 250 Watts acendeu sobre minha cabeça.
Olhei pro nosso som e confirmei: a bagaça funcionava a
pilha.
- Pááááára!! Pára tudo!! Pára tudo!!
- Nóófa! O que que deu na bixa loca?
- É falta de rola, isso tá ficando sério Ari.
- Vou tomar nos seus respectivos cús, seus manés. Tive uma
idéia.
- Que idéia?
- Uma idéia pra ser executada já, agora, nesse momento.
- Caralho, do que se tratada.
- Nada a ver com caralhos e tudo a ver com cachorros.
- Fala logo seu porra!
- Tá vendo o nosso som? Funciona a pilha. A gente põe esse
CD pra rolar, seleciona essa música, aciona o repeat e
vamos às ruas!!
- Não entendi...
- Aí vamos atazanar os burgas que passeiam com seus
Lindos & Fofinhos Dogzinhos nas manhãs Curitibanas.
- Caraca, e isso pode dar certo. Quer fazer isso agora? E as
pilhas?
- A gente compra no caminho, vocês topam? Mas tem que
ser agora mesmo.
Um breve momento de reflexão coletiva e lá
estávamos nós numa correria danada em direção ao ponto
de ônibus, queríamos fazer a parada num bairro burguês.

345
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Após um alimentador, um ligeirinho e um bi-articulado, lá


estavam os Novos bárbaros no bairro Jardim Social.
Estávamos numa galera, eu, Jean & suas duas gatas, fábio,
Sergio, Vini & Marilia. Um bando realmente assustador.
Sergio carregava o som no ombro. Eram 11 da da manhã e
não foi difícil encontrar pessoas passeando com seus
bichinhos. Logo de cara encontramos um nobre senhor com
seu yorkshire peludo. Apertamos o play e nos aproximamos
dela como quem não quer nada.
Nossa meta era fazer com que a coisa parecesse o
mais casual possível, como se tudo não se passasse de uma
grande coincidência. E a lazarenta fez de conta de que não
estava ouvindo nada. Quer dizer, no começo da música ela
até achou engraçado, porque o cachorrinho ficou prestando
atenção nos latidos dos cães e até sorriu pra nós. Só que
quando entrou o refrão: troque seu cachorro por uma
criança pobre ela definitivamente cerrou o sorriso, baixou a
cabeça e começou a puxar seu bichinho com pressa.
Já estávamos indo provocar outra vítima quando o
peludinho cagou no chão. E ela não limpou! Sacanagem, foi
a deixa pro Vini ir pentelhar a velha.
- A senhora não vai limpar?
- Vou sim meu filho, vou sim, depois eu limpo ¿ desculpu-se,
meio que gaguejando.
- Pois eu vou esperar pra ver.
Deixamos eles ali na polêmica e fomos em direção a
duas meninas com um cachorro daqueles compridões que
agora não lembro a ¿marca¿. Com essas a coisa não deu
muito certo, caíram na gargalhada e ficaram zuando de
nossa cara. Merda, partimos pra outra. E a outra foi
engraçado. A mulher simplesmente pegou o cachorro no
colo e saiu correndo como se estivesse fugindo do King
Kong. Realmente, acho que os burgueses estão tão acuados
que se apavoram com qualquer coisinha mínima que fuja da
normalidade. Credo, pelas carreiras acho que ela não deve
nem ter conseguido dormir de noite.
O próximo alvo foi uma mulher com um carrinho de

346
Manual Prático da Delinquência Juvenil

bebê e um poodle. Porra, odeio poodles, odeio poodles,


odeio poodles. No então a dona do bicho era simpática. Riu
muito e puxou assunto com a gente. - Sabe meninos, isso
daí é verdade.
Nos fizemos de desentendidos.
- O quê que é verdade.
- Que as pessoas deveriam parar de dar tantas regalias pros
animais e adotarem crianças.
- Mas e aí, como que a senhora explica esse poodle horroso
aí?
- Ei! Não precisa falar assim! Ele não tem nada a ver com os
problemas no mundo e adotar uma criança é um processo
tremendamente burocrático, tão burocrático que a maioria
das pessoas bem intencionadas acabam desistindo ou
adiando indefinidamente.
Ficamos ali batendo papo mais um pouco e seguimos
em nossa batalha interminável contra o Império. Fomos pra
uma outra rua e começamos a seguir lentamente, a uns dez
metros atrás, um senhor de uns cinqüenta e poucos anos
com um pittbull. Inicialmente ele fez como a primeira
velhinha, acelerou o passo pra nos despistar. Aceleramos o
passo também. Então ele atravessou a rua e foi pra outra
calçada. Atravessamos também, somos Delinqüentes
incansáveis. Ele parecia nervoso. Digo mais, parecia que
estava começando a ficar brabo, parou, acendeu um cigarro
e virou-se subitamente pra nós. Confesso que cheguei a me
assustar com seu movimento brusco.
- Escuta aqui seus rapazinhos, vocês não tem mais o que
fazer?
- Hã? O quê?
- Eu perguntei se vocês não tem mais nada o que fazer!!
¿ quase gritando.
- Ei! Claro que temos, estamos justamente indo almoçar na
casa de nossa vovó. Somos todos irmão, sabe? Uma grande
família.

347
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Querem fazer o favor de desligar esse rádio?


- Radio? Hahahaha!! Não é rádio tio. É cedepreier.
- Pois então, desliga essa porcaria que isso tá me
incomodando!
- Ei! Isso daqui não é uma porcaria! Pensa que é do
Paraguai. To pagando até hoje, fielmente, as prestações das
Casas Bahia.
- Fábio, confessa, tu comprou essa bagaça nas Casas China.
- Não vem ao caso.
O velho já estava quase espumando de raiva. Foi quando a
música acabou e começou de novo. Aí ele deu cria.
- Escuta aqui, vocês não sabem respeitar as liberdades dos
outros?
- Como é que é? Que liberdades o senhor está falando.
- A liberdade de andar com meu cachorro na rua!
- Agora mesmo é que eu não entendi bosta nenhuma. Quem
é que disse que estamos lhe tirando a liberdade de passear
com másculo cachorro do mal.
- Essa música! É essa música!!
Ele estava definitivamente nervoso a ponto de
mandar os argumentos e sua boa educação à puta que o
pariu. Começou a colocar o dedo em riste cada vez que
falava alguma coisa.
- Ah! É verdade, essa música já tocou. O senhor tem razão,
eu já falei quinhentas vezes pro Vinicius levar esse aparelho
prum técnico dar um jeito, mas sabe como é, a grana tá
pouca e sempre encontramos outras prooridades de
investimento. Mas olhe só, se desligarmos e ligarmos de
novo a cada música dá pra escutar numa boa.
- Eu não estou falando disso seus imbecis!!
- Por favor, não vamos começar a se ofender, estamos
apenas indo almoçar na casa da vovozinha enquanto o
senhor está levando seu pittbull pra demarcar terrítório.

348
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Então ele elevou a potência de sua voz até aquele limite


que a gente chama de gritos, berros e vociferações.
- Eu estou me sentindo tolhido de meus direitos e
liberdades!!!!
- Tolhido? Que porra é isso?
- Quer saber? Eu vou chamar a segurança do bairro!!
- Pode chamar, não estamos fazendo nada de errado. Não
estamos infringindo nenhuma lei.
- Que lei que coisa nenhuma, aqui no bairro quem garante a
tranqüilidade somos nós e nossa segurança privada. Vocês
vão receber a lição que merecem.
Pegou seu celular e pudemos comprovar, essa porra
de segurança privada funciona mesmo, não deu dois
minutos e chegaram três enormes macacões armados e
com as botas bem lustradas. Nem sempre o enfrentamento
direto é a melhor saída e algumas vezes a covardia pode ser
ser a melhor solução. Dei um assobio fino e gritei:
- Fuja locôôôooo!!!!!!
E lá estávamos nós, com o som no colo e correndo
como quem foje do King Kong. No caso, três King Kongs.
Corremos umas dez quadras. A princípio os caras nos
seguiram de moto, mas depois desistiram, provavelmente
por ter mais o que fazer.
Nós também temos mais o que fazer, temos pela
frente mais troçentos ataques contra essa rotina
lobotomizada. Em outras palavras, temos consciência de
que no final provavelmente perderemos, mas não
deixaremos nunca escapar a ocasião de cumprir ao menos
uma qüinquagésima e sincera tentativa de provocar a
sociedade.
E tenho dito.

Ambição Travestida de Boa Vontade - (ataque


cinqüenta e sete)

349
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Lutar contra o Império, mesmo que na Bagaçeiragem


& no Deboche, às vezes é uma tarefa ingrata. Não a luta em
si, mas os que os filhos de uma puta imperiais fazem da luta
pra ganharem dinheiro. É vaidade ferida, eu sei, e
justamente por isso fiquei tão puto quando soube tá rolando
por aí uma parada que chamam de Marketing Invisível. Uma
filhadaputiçe que usa o que nomeamos de Teatro Secreto &
Panfletagem Subliminar para vender produtos.
É por essas e por outras que estamos passando por
um período de auto-crítica profundo. De tanto ser contra os
dogmas, resolvemos dar uma conferida nos dogmas que nós
mesmo criamos. Se estão usando nossas táticas, se
institucionalizaram o que era transgressão, precisamos
então criar novas linhas de fuga. Uma coisa que sempre
pegou foi nosso sectarismo. O fato de nos esconder sob
identidades secretas fez com que abríssemos novas portas,
sem cuidar das que já tinham sido abertas. Em outras
palavras, deixamos a retaguarda desguarnecida. Foi
pensando nisso e numa tentativa de pelo menos fazer algo
pra chacoalhar a poeira que decidimos fazer os encontros
semanais com novos contatos, novas amizades, numa praça
no centro da cidade.
Os outros Delinqüentes são meio anti-sociais pra
esse tipo de coisa, até porque eles não acompanham muito
de perto a divulgação de nosso trabalho que eu faço na net.
Chegam às vezes até discordar dessa divulgação. Por isso,
pra que a coisa se realizasse, assumi pra mim mesmo que
estaria numa JPP, Jihad Pessoal Provisória. Guerra Santa por
que eu iria até o fim, ir a todos os encontros nos sábados,
nem que não fosse ninguém e eu ficasse sozinho. E
Temporária porque senão aí é foda, convicção é um troço
engraçado, mas nos outros.
Não deu nega. No primeiro encontro, num frio
desgraçado e eu animalescamente com poucas roupas, não
foi ninguém. Quer dizer, o Pablo Herrera & um amigo foram,
mas como não tínhamos combinado bosta nenhuma de
maneira de nos reconhecer, acabamos cometendo a
jumentisse de não nos falar. Bom, pelo menos descobri que
não tenho cara de Ari, ponto pra mim.

350
Manual Prático da Delinquência Juvenil

O segundo encontro já foi mais massa. Consegui


arrastar Sérgio & Fábio e mais pessoas apareceram. O Pablo
voltou, dessa vez sem o amigo. Conheci o Maurílio, que nas
antigas usava o nick Filósofo Ignorante e participou do
primeiro Flash Mob de Curitiba, que veio com Ígor, seu
amigo. Mais o Fábio Salvatti, que conheci através do Orkut.
Tomamos umas beras, falamos um monte de merda, damos
outro monte de risadas e algumas idéias de Ações Futuras &
conjuntas surgiram. Viagens é que não faltaram, nessas
rodas de conversa neguinho sempre pira.
Mas algumas Idéias Boas & Realizáveis acabaram
surgindo, como pendurar suicidas enforcados em semáforos
portando uma mensagem qualquer e fazer stencils de
pessoas Atropeladas & Trucidadas em cruzamentos
movimentados no centro da cidade. Foi legal ver que a
galera tá com muito tesão & com uma criatividade latente.
O Império que se cuide!!
Na falta de um consenso imediato e na necessidade
de se fazer algo fácil & rápido, acamos combinando uma
parada para o outro fim de semana mesmo. Uma parada
simples, quase óbvia, engajar-se na Campanha Vote Nulo.
Aproveitar a época de campanha e chutar essa bola que tá
na linha do gol. Fazer algo, qualquer coisa, por mais besta
que seja, é fundamental pra unir um coletivo de pessoas
nessa coisa chamada cumplicidade.
Marcamos a palhaçada pro outro fim de semana e
depois de passar sete dias trocando e-mails & telefonemas,
lá estava eu no sábado de novo, plantado na praça com um
enorme pano preto barato e uma lata de tinta branca
esperando pelos outros malucos. Sérgio tava comigo, Fábio
mijou pra trás e os outros Delinqüentes simplesmente
sumiram. Marmita, eu soube depois, passou o fim de
semana na casa do primo, internados num Playstation Dois
novo. Pablo furou, Fábio Salvatti furou e o Maurílio pelo
menos ligou, dizendo que não iria, mas que seu amigo Ígor,
mas dois caras diferentes compareceriam. Beleza, melhor
do que nada.
Não demorou muito e apareceram os três figuras.
Ígor eu já conhecia do outro encontro, os outros dois eram

351
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Allan & Alexandre. Já chegaram com latinhas de cerveja na


mão, o que me levou a pensar: ih, vai dar merda. Depois de
algum tempo estando ligado da Ilusão Anerística e
convivendo com a Deusa, tú começa a dar trela a esse tipo
de intuição. Lá pelas tantas estávamos nós, cortando o pano
ali na praça mesmo, pintando as letras e limpando o pincel
na água do chafariz. A praça é pública ou não é?
Fizemos uma bandeira grande, de dois metros e lá
vai porrada. Quando olhamos aquele fundo preto pra lá de
punk com as letras garrafais brancas formando a frase:
VOTE NULO!, não pudemos resistir.
- Vamos estrear essa porra agora mesmo?
- Demorôôô!!
Do nada, sem termos planejado porra nenhuma,
acabamos criando uma bela Zona Autônoma Temporária.
Esticamos nosso pano com a tinta ainda fresca e meio que
escorrendo e fomos ao cruzamentos onde os partidários
tremulavam as bandeiras de seus candidatos. Foi foda a
cara de quequéisso que as pessoas fizeram na em que
estendemos a bandeira. Foi uma coisa inusitada, ninguém
esperava por aquilo, acostumados que estão com aquelas
bandeiras coloridas nos semáforos. Os cabos eleitorais dos
candidatos oficiais foram os primeiros a cair na gargalhada.
- Ha! Ha! Ha! Que merda vocês estão fazendo? Hehehe!!!
Depois foram os taxistas do ponto da esquina e os
barbeiros do salão do lado. Sucesso total nossa campanha,
pelo menos noventa por cento de Ibope, posso garantir.
Teve cenas memoráveis, como três senhoras de idade
avançada que pararam pra nos aplaudir. Outra comédia foi
quando uma mina partidária resolveu se invocar com a
gente. A única, diga-se de passagem.
- Façam isso! Depois o governo irá comer na tijela de vocês.
Fala sério! Comprar encrenca com Delinqüentes
como nós é pedir pra levar. Lá fomos nós entender nosso
VOTE NULO! bem na frente de onde ela estava. Ficou
nervosa, deu uma porrada com o mastro de sua bandeira na
cabeça do Ígor e resolvemos deixar quieto, estávamos em

352
Manual Prático da Delinquência Juvenil

missão de pais, fomos azarar outros. Mina estressada.


Uma das coisas engraçadas da coisa é que os cabos
eleitorais se sentiam tão errados diante da cena, sua
campanha ficava tão desmoralizada (todo mundo nos
aplaudia) que recolhiam suas bandeiras e iam apara outro
semáforo. Inevitável que nós gritássemos:
- Tá dominado! Tá tudo dominado!!!
À tardinha fomos embora animados combinado pro
outro dia, domingo, uma mega-manifestação nas
proximidades da Feirinha do Largo da Ordem, que é onde o
povo curitibano costuma ir nos domingos pela manhã. Seria
lá o aglomero. Combinamos a concentração pras onze e
trinta da manhã, na frente da Catedral. Eu e Sergio
pintamos mais duas bandeiras durante a noite e confiamos
que a outra galera fosse levar os mastros.
Umas série de ventos claramente planejados pela
Conspiração fez com que nossa mega-manifestação não
saísse de nossos mais loucos delírios. Da parte dos
Delinqüentes fomos apenas eu & Sérgio. Vini tinha brigado
com Marília e tava curtindo uma ressaca abissal, Jean tinha
inventado um acampamento inesperado, Fábio estava numa
de suas crises existenciais e nem saiu da cama e Marmita,
pelo visto, ainda não tinha enjoado do Playstation Dois de
seu primo.
Só que nem por isso o Inesperado deixou de ser
cômico. Ígor estava sozinho, o resto da galera dele inteira
também furou, inclusive o Maurílio, que levaria a máquina
fotográfica que nosso amigo artista Sérgio usaria para cobrir
o evento. Só que a cena dele no alto da Praça Tiradentes foi
algo cinematográfico, no sentido dos Irmãos Marx.
Debaixo de um sol de meio dia, num Raro & Cruel dia
de calor em Curitiba, lá estava um maluco sem camisa (ela
estava amarrada na cabeça) portando seis Enormes &
Escrotas varas verdes de bambú recém cortadas a facão
para servirem de mastro. Detalhes, os candidatos oficiais
cedem tubos de PVC leves a seus cabos eleitorais, nós,
toscos por natureza, só tínhamos bambús mesmo. Chamar
aquilo de punk é dar moral demais pros punks.

353
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Porra véio, ninguém veio?


- Sabe como é, domingo é foda, negadinha seqüelada.
- Mas e aí? E agora?
- E agora? Ah, que se foda! Vamos nós três mesmo.
E assim foi feito. E assim descobrimos que o Caos tá com
tudo e não dá prosa. Bastou estendermos nossa bandeira de
VOTE NULO! num obelisco ao lado do semáforo alvo que já
apareceu um louco todo de preto perguntando do que se
tratava. Explicamos a coisa toda e cabamos por recrutar
mais um voluntário. O cara topou ficar hasteando a bandeira
no sinal enquanto eu o Ígor ficávamos correndo com as
nossas, sem mastro mesmo, por entre os carros.
Sérgio, num de seus típicos ataques de bichiçe
porque não poderia bater suas fotos, ficou sentando numa
sombra apenas assistindo e rindo de nossas palhaçadas. Foi
muito divertido e, num certo sentido, até gratificante. A
maioria das pessoas aprovavam a nossa ¿causa¿ e achavam
digna nossa atitude. Como se não bastasse todo o vento
favorável, o Além ainda estava do nosso lado.
Instalaram recentemente aqui em Curitiba aqueles
odiosos painéis publicitários nos pontos de ônibus. Poluição
visual das mais detestáveis. Acontece que o painel do ponto
ao lado de onde estávamos, não sei se já estava trincado ou
não sei porque caralho, simplesmente explodiu, caindo uma
porrada de cacos de vidro pelo chão. Ainda comentei com
uma senhora que estava esperando o ônibus no ponto.
- Os espíritos estão do nosso lado!
E assim ficou, quebrando aos poucos até o fim de
nosso ato. Tudo ocorreu de forma que eu sento uma
Tranqüilidade & Segurança que nunca tinha experimentado
em nenhum outro ataque. Cheguei ao ponto de criar umas
das TAZ mais loucas de minha carreira. Estacionou um carro
da PM, me ajoelhei no chão e estendi no capô do carro um
cartaz com o desenho do Latuff com o dedo do meio em
riste (sinal de foda-se) e a frase Anula Brasil. Aos poucos
baixei o cartaz e apareceu minha singela camiseta preta
escrito Foda-se. Perfeito, hilários, os policiais apenas riram.

354
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Fazer o que?
Chegou umas horas que eu e Ígor discursávamos
feito uns loucos. Eu encarnei o Profeta Alucinado do Descaso
eleitoral. Eu dava prioridade pros ônibus, enquanto Ígor não
perdoava os carros que tivessem algum símbolo de
candidato. Carreata seria o banquete de nossos sonhos.
Infelizmente não pintou nenhuma. Não sei se pro nosso azar
ou se pra nossa sorte.
- Não viemos aqui pra pedir voto! Não viemos aqui pra pedir
dinheiro! Viemos aqui unicamente pra exercer nossa
liberdade de expressão!!
- Chega de sustentar vagabundo minha gente!
- Ambição travestida de boa vontade! Isso é que é a
política!!!
No final das contas do meio dia até as três da tarde
ralando no olho do sol, sem almoço, feios, de apé & sem
dinheiro. Chega umas horas que cansa lutar contra o
Império. Eu me joguei na calçada e me estendi no chão. Ígor
sentou-se na mesma calçada escorado num poste. O
desconhecido piá de preto revelou-se um heróis da
revolução, não parou de mover a bandeira de um lado pra
outro o tempo inteiro.
Sérgio por fim não se saiu de todo inútil, ficou como
nosso olheiro reparando nos comentários dos transeuntes.
Flagrou o desconhecido de preto pedindo dinheiro pro povo
(sujeitinho esperto/ ó a do cara!!) e que muitas pessoas,
mas muitas mesmo, perguntavam:
- Quem será que está pagando pra eles fazerem isso?
Isso não só é curioso como também sintomático.
Num mundo em que nada foge da lógica do capital, é
estranho ver pessoas se divertindo, defendendo uma idéia,
sem nenhum dinheiro envolvido. E o mais massa que aquilo
pra nós, muito mais do que uma causa defendida, foi um
jogo e um jogo muito divertido. Eu diria até insanamente
divertido. Tão divertido que não dava vontade de parar. Só
paramos porque estávamos definitivamente exauridos de
nossas energias vitais. Repito, lutar contra o império cansa.

355
Manual Prático da Delinquência Juvenil

As fotos não saíram. Teve um povo que até nos


fotografou e ficou de enviar depois, mas até agora nada.
Nossa estratégias ainda não foram totalmente revistas, mas
algo diferente já foi feito, mais pessoas participaram,
conheci mais doentes como eu e a coisa vai assim,
avançando aos poucos. Enquanto isso lá vamos nós, com
nossa Delinqüência travestida de niilismo.

O Jogo Psicogeográfico - (ataque cinqüenta e oito)

Muita gente anda me chamando de chato. Quer


dizer, muita gente sempre me chamou de chato, é que
dessa vez mais pessoas estão me acusando e por um
motivo específico: essa porra de psicogeografia. Falam que
eu fui e não voltei.
Uns, afirmam que se trata da coisa mais retardada de
que ouviram falar. Outros acham a coisa muito intelectual,
muito acadêmica. Ambos pedem desesperadamente: pare
de falar desta merda de psicogeografia! A questão é que ela
é um jogo e não dá para parar no meio. E esse jogo dura pra
caralho! O Jogo Psicogeográfico que nós brincamos no Bairro
do Sitio Cercado de Curitiba é uma livre adaptação (e bota
livre nisso!) de tudo que já foi feito e de tudo que está nos
livros. As regras são meio flexíveis e se adaptam de acordo
com as circunstâncias no decorrer do jogo. Na verdade nós
inventamos tudo desde o começo e continuamos inventando
até agora e não dá vontade de parar. Daí minha chatice,
determinismo puro.
Mesmo assim vou tentar explicar a graça da coisa,
demonstrar que não é tão Retardado & Acadêmico como
aparenta. Chega até a ser divertido, apesar de transgredir
algumas leis, algumas vezes.
O Jogo Psicogeográfico se divide em várias fases.
Claro que isso se refere ao jogo que nós inventamos e essas
regras também foram nós criamos, outros jogos, praticados
outras pessoas podem e devem ser diferentes. Nunca
devemos nos ater a regras, exceto a que nós criamos. Eu
particularmente não tenho nada contra regras, desde que

356
Manual Prático da Delinquência Juvenil

eu participe da criação delas. Que isso fique bem claro.


Outra coisa importante a ser destacada é que esse
exemplo que demonstrarei, serve para as periferias das
grande cidades e que provavelmente terá pouca utilidade
em bairros repletos de prédios de apartamentos. Trate-se de
um jogo pobre, feito por pobres e para pobres. Esse outro
jogo, para lugares contaminados pelos prédios verticais
insossos, ainda precisa ser inventado.
Fase Um
A primeira fase do jogo chama-se Deriva. Nessa fase
cada um sai andando a esmo pelas ruas do bairro. Anda por
onde lhe agradar. Pára onde lhe agradar. O jogador anda
guiado pelas sensações causadas pelas ruas. Quando chega
num lugar particularmente agradável, pára e analisa o lugar.
Tenta descobrir quais elementos fazem deste lugar,
especial. Ao mesmo tempo em que faz isso, anota num
mapa os caminhos por onde andou e os pontos agradáveis
onde parou.
Fazer apenas uma Deriva não dá muitos resultados práticos
além de acusações justificadas de ter feito algo retardado.
Para o jogo valer mesmo é necessário fazer várias,
meia dúzia de Derivas e também a participação do maior
número possível de jogadores. Sempre anotando tudo nos
mapas, que serão úteis na próxima fase.
Fase Dois
Na segunda fase comparam-se os mapas dos
jogadores. É a análise coletiva dos resultados obtidos na
primeira etapa. Daí que quanto maior a quantidade de
Derivas no começo, melhores as chances de sucesso agora.
No nosso caso específico participamos em cinco pessoas e
fizemos em média umas quinze derivas cada um, o que
significa que comparamos mais de setenta jornadas. Uma
tarefa árdua a princípio, mas como todos lembravam bem
de suas Derivas, foi fácil achar os resultados comuns.
Nesta etapa deve-se marcar os pontos
particularmente agradáveis que foram comuns a mais de
um jogador. Chamamos arbitrariamente esses lugares de

357
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Pontos de Poder. Inicialmente detectamos três pontos desse


tipo, de comum acordo fizemos mais Derivas até chegarmos
a cinco.
Marca-se também os caminhos trilhados comuns a
mais de um jogador. Desta forma, descobrimos maneiras
agradáveis de se ir de um ponto a outro. E descobrimos, é
claro, Moradores & Vizinhos legais nessa brincadeira toda. É
muito importante os participantes discutirem os resultados,
para que as experiências sejam compartilhadas
Fase Três
Até então o jogo manteve-se na mais absoluta
legalidade. Fomos todos guris de família. Na terceira fase é
que entramos no Maravilhoso Mundo da Clandestinidade. É
chegada a hora de contestar a Ditadura das Trajetórias.
Cada jogador é convocado a descobrir o menos caminho
entre os cinco pontos de poder registrados na segunda fase,
de modo a formar um pentágono.
O caminho é percorrido pulando muros, atravessando
quintais, pulando muros de novo, escalando paredes,
correndo sobre telhados, pendurando-se em galhos de
árvores e atravessando terrenos baldios.
O caminho é percorrido caindo de muros, esfolando
joelhos e cotovelos, sujando-se inteiro em lamaçais,
torcendo o tornozelo, caindo de árvores, arranhando-se com
arames farpados e vidros e fugindo, o tempo inteiro, dos
cães.
Tudo isso registrado nos famosos mapas, que serão
analisados na quarta fase do jogo. Todos os jogadores
devem fazer os cinco caminhos de formação do pentágono
sem revelar os outros jogadores nem por onde andou e nem
o que viu. Isso só será feito mediante a análise dos mapas.
Fase Quatro
A partir dessa etapa, o resto do jogo é praticado em
grupo. Os caminhos descobertos são então comparados e
cada um conta as histórias que viveu durante sua jornada.
Essas histórias servirão para cimentar uma certa mitologia
no bando. É aqui que constatamos que essa brincadeira,

358
Manual Prático da Delinquência Juvenil

além de perigosa em certos aspectos, é muito divertida.


Geralmente os participantes se envolveram em
situações inusitadas, assistiram cenas hilárias por partes
dos moradores e também descobriram coisas fantásticas
nos locais por onde andaram. Finalmente é descoberto na
prática aquela Nova & Velha Máxima: o mapa não é o
território.
É nessa etapa também que as futuras jornadas em
grupo são planejadas. De comum acordo, todos analisam os
caminhos e chegam a um consenso de qual o atalho melhor
une os pontos de poder. Todos os riscos de segurança
desses trajetos são devidamente analisados, pois percorrer
esses atalhos em várias pessoas é algo extremamente
perigoso. Os jogadores podem ser presos e o jogo acabar
prematuramente.
Fase Cinco
É aqui que aparecem os Nômades da Noite, pulando
muros e correndo em telhados. Essa é uma fase um nível
acima em termos de chave de cadeia. Cada um dos Cinco
Atalhos são percorridos pelo bando e novos Pontos de Poder,
desta vez nos atalhos, nas entranhas da cidade, são
registrados após uma discussão coletiva. Esse ponto do jogo
é como no começo, na parte das Derivas, quanto mais
jornadas são feitas, mais resultados trarão futuramente. Isso
também se faz necessário devido ao fato de que em certos
dias, certos caminhos estão mais Vigiados & Controlados, o
que faz com que certos pontos de poder sejam ignorados
devido a adrenalina do perigo ou fugas apropriadas.
Como nossas regras não são rígidas, muitas vezes
acabamos, ao efetuar o caminho pela segunda vez, nos
desviando dos percursos e descobrindo Novas &
Interessantes Trajetórias. Novos & Interessantes Territórios.
Descobrimos também o que se passa no coração dos
nômades, quando a terra deixa de ser terra para tornar-se
simples solo e suporte. Os caminhos passam a ser um lugar.
Os caminhos passam a significar algo, a adquirirem vida.
Fase Seis

359
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Na sexta etapa os jogadores passam a interferir nos


Pontos de Poder descobertos coletivamente. Diversos tipos
de intervenção são planejadas. Os jogadores discutem o que
será feito e providenciam todo o material para criar algo que
glorifique cada Ponto Especial de nossos Caminhos Secretos.
Voltando aos nômades, é como que a criação de oásis no
meio de um deserto da imaginação.
Aliás, chamar de deserto da imaginação é um
equívoco, pois as entranhas das cidades estão repletas de
arte produzidas espontaneamente pelo povo que, na
privacidade de seu lar, dá asas a sua criatividade.
Como intervenção é valido desde a pintura de
paredes, muros, árvores e pedras, até o que as imaginações
dos jogadores forem capaz de criar. No nosso caso fizemos
algumas pinturas, sinalizações enigmáticas, colocamos
refeitórios de pássaros em alguns telhados, plantamos
algumas plantas e planejamos outras ações ainda não
realizadas.
Com isso, os jogadores passam a ter uma nova
relação com o território. Depois de descobrir nas fases
iniciais os efeitos do território em nossas vidas, a fase
passiva, agora trata-se de interferir, interagir com o
território, numa atitude claramente ativa.
Essa fase está se estendendo indefinidamente. Essa é a
etapa onde estamos atualmente e acredito de todo o
coração que o jogo ainda não acabou
Fase Sete
Não sabemos nada sobre essa fase, mas acreditamos
que ela exista porque seis é um número muito feio, sete é
muito mais cabalístico. Tem toda aquela parada de sete
chacras e não sei mais que lá, o que nos leva a crer que o
Jogo Psicogeográfico deve acabar na Fase Sete, apesar de
nem desconfiarmos de como isso tudo irá acabar.
Francamente, espero que o jogo não acabe na
décima quinta delegacia de polícia.
Para Delinqüentes Desobedientes como nós, tá na
cara que essa porra de psicogeografia tem tudo pra dar em

360
Manual Prático da Delinquência Juvenil

merda. Rapidamente detectamos & catalogamos casas &


quintais fáceis de serem invadidos. Descobrimos também
Pessoas Malas & Intransigentes que são chave na hora de
contestarmos valores num ataque subliminar ao cotidiano.
Isso significa que a única coisa sincera que tenho a
dizer é: aguardem novas merdas.

O Reino Vegetal é Legal ou a Guerrilha


Hortifrutigranjeira - (ataque cinqüenta e nove)

Foram umas longas férias as que tiramos este final


de ano. Como de costume cada um foi pro seu lado dar
continuidade às suas lendas pessoais. Como estamos de
casa nova, bairro novo, a mudança fez com que
demorássemos a nos habituar e pouco tempo sobrou para
bolarmos novas Delinqüências. Alguns chegaram até a
pensar em parar, pendurar os estilingues. Vinicius e Marília
noivaram e anunciaram aposentadoria. Fábio arrumou um
trampo sério e avisou que dará um tempo.
Foi Marmita quem chegou levantando a poeira e
intimando todo mundo pra voltarmos a mexer nossas
bundas caquéticas. Eu estava em casa sozinho, meio deprê
e ele veio me salvar com suas idéias doentes.
- Aí sua bixa, quê que você tem, vamos fazer algo, tenho um
plano, vamos colocá-lo em prática. Não podemos deixar a
coisa esfriar!!
- E que merda de plano seria esse?
- Plantar uma horta.
- Plantar uma horta?? Isso é plano ou é um bico pra levantar
um troco.
- Não sua anta pentaplégica, a gente planta uma horta num
quintal de um desconhecido.
- Hãããã?????
- Cara... - pensei por três segundos - ou eu tô muito chapado
ou essa tua idéia aí é do caralho! Tens alguma coisa em

361
Manual Prático da Delinquência Juvenil

vista?
- Sim, trata-se da Dona Gilda, lá do Bairro Alto. É Velhinha,
Viúva & Sem Parentes. antigamente cuidava de sua horta
como se cuidasse de seu filho, que aliás, morreu num
acidente junto com o pai.
- Caraleo!
- E então, topas?
- Pergunta besta, taca o foda-se! Mas vamos lá primeiro pra
ver a parada, tens uma vale transporte aí?
Acho que o Marmita tinha passado o fim de ano
inteiro pensando nessa horta. Estava com tudo planejado.
Dona Jurema, sua vó, tinha concordado em ajudar cedendo
alguns itens necessários: pés de alface, cenoura, couve e
cheiro verde. O alvo seria o quintal de uma senhora pra lá
de consciente que costumava fazer sopa para os indigentes
do bairro. O que faltava era mão de obra. Logo comecei a
acionar o pessoal. Jean ficou impressionado com o plano.
- Ari, gostei muito da idéia, trata-se dos nossos Velhos &
Bons Distúrbios Cotidianos.
Os Distúrbios Cotidianos sempre foram o fio da
meada que conduziram nossas ações. Fazer algo que ponha
em cheque a rotina e o senso comum dos narcotizados
cidadãos do século XXI. Fazer algo que a pessoa lembre pro
resto da vida ou que, pelo menos, tenha que pensar muito
pra tentar encontrar um sentido e um significado.
Sergio, o mais cagão, também topou, só disse que
não participaria dos preparativos. Viado, parece que previu
a porra, aquela merda deu um trabalho lazarento. Cavar em
volta da planta, arrancar com a raiz, delicadamente, e
colocar em saquinhos com terra úmida & adubada. Anotem
aí, mudar cenouras de lugar é fóóóda. Estávamos em
quatro, eu, Jean, Marmita e uma figura que apareceu por lá,
um tal de Gleydson Schultz, que veio de Campo Mourão,
interior do Paraná, tentar fazer curso de Tecnólogo ou
Mecatrônica ou sei lá o quê. Uma figuraça, que já tinha sido
agricultor e apesar de falar besteira incessantemente, sabia
lidar bem com as plantinhas.

362
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Ficamos três semanas nesta operação, às vezes


chegamos a cogitar desistir, no entanto Marmita & Gleydson
estavam obstinados.
- Sem mijar pra trás seus paunocús
- É verdade, vai ser minha estréia nessa parada de
Delinqüência aí e tô curioso.
Por fim conseguimos as mudas suficientes. No dia, Sergio
apareceu com um pé de chuchu, umas de suas típicas Idéias
Sem Noção. Társis, nosso Velho Quebra Galho emprestou a
picape pra fazermos o carreto. era uma noite sem estrelas e
a muito custo ficamos acordados até as duas da matina pra
executar a Operação Reino Vegetal É Legal, como a
chamamos. Estacionamos o carro numa área escura a uma
quadra do alvo e cuidadosamente transportamos todo o
material, incluindo um garrafão de vinho, depositando no
lado de dentro do muro do quintal.
Após pularmos o muro ficamos uns quinze minutos
quietos, ouvindo os ruídos pra nos certificarmos se a Nobre
Senhora estava realmente dormindo. Segundo Marmita ela
tomas umas boletas pra depressão que fazem dormir. então
começamos a trabalhar.
A sorte nossa era que tinha chovido na véspera e a
terra estava fofa. O azar meu era que o pau no Schultz do
Gleydson, responsável pelas cenouras, a poucos metros na
minha frente, não parava de peidar.
- Ô seu merda, desse jeito a velhinha vai acordar com essa
peidorrera aí
- Relaxa Ari, daqui a pouco eu cago e passa.
- Ô Gley, diz pra esse teu cuzinho aí que não precisa gritar,
eu estou perto.
A Minha tarefa era com as alfaces, apesar de não
precisar cavar muito pra plantá-las tem que se tomar um
cuidado filho da puta pras folhas não caírem ou ela se
desmanchar por inteiro. E no escuro, cheirando peido, fica
ainda mais complicado.
Jean revelou-se um bom agricultor, em menos de

363
Manual Prático da Delinquência Juvenil

meia hora os cheiros-verdes estavam todos plantados. Só


que em vez de nos ajudar o paunocú ficou fazendo um
castelinho de terra. Marmita cuidou das couves enquanto
Sergio, aquele vagabundo de uma figa, ao invés de plantar
seu ridículo pé de chuchu, ficou pendurando papeizinhos
nas plantas.
- Cara, que merda que tú tá fazendo?
- Uma surpresinha pra temperar com arte nossa ação
- Mas que surpresa?
- Receitas, pra ajudar Dona Gilda a preparar bons pratos
com seu presente.
Logo terminei minha parte e Marmita a sua, mas Gleydson
não tinha terminado nem a metade das suas cenouras.
- Sua bixa, se tú parar de peidar talvez o serviço renda.
- Nada, abre o vinho aí que acho que o que tá atrapalhando
é meu nervosismo.
Demos uma pausa geral pra apreciar o Sangue de
Boi. Uma névoa e uma chuva fininha começou a cair e
pensei no absurdo da situação. A madrugada avançava
selvagemente e eu pensei no absurdo da ressaca no outro
dia. Horários a cumprir, metas a cumprir, ordens a
obedecer, salários de fome a receber e pensei no absurdo
que é o trabalho forçado. Estava viando feio quando levei
um susto com a frase do Jean.
- Cara, cadê o Sergio?
O cara tinha sumido. Não era tanto a preocupação de
que alguma coisa tivesse acontecido com ele, mas mais o
quê aquele sem noção tivesse fazendo acontecer. Jean já
estava pulando o muro pra ver se achava ele por perto
quando o Monstro apareceu com um balde na mão.
- Não é a noite da boa ação? Lavei umas roupas que
estavam de molho.
- Meu caralho!
- Piazada, acho que temos de dar umas calcinhas novas pra

364
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Dona Gilda, estão furadas ou rasgadas.


Não teve jeito, Jean teve que desistir de seu castelo e
nos ajudar com as cenouras. Geydson não parava de beber,
peidar e falar besteiras.
- Aí eu tava na festa de aniversário do tio da minha mina, lá
em Campo Mourão. Um burga lá, dono de uma
concessionária, falando de aumento do dólar, petróleo e o
caralho a quatro e eu falando que meu amigo foi pescar e
não pegou nada. De que adianta equipamento se o mané
não sabe...
- Cala essa boca seu porra!!!
Jean definitivamente surtou. Não foi um simples
xingamentinho. Foi um grito mesmo. Não deu nega,
segundos depois ouvimos uma janela se abrir na casa ao
lado. A cachorrada começou a latir. O cagaço bateu na hora.
Nos escoramos todos agachados contra o muro. O Silêncio
entre nós era Total & Absoluto.
- Seu merrrrrrda, esbravejei com os dentes cerrados
- Desculpa aí, viajei.
Depois de Longos & Arrastados segundos levamos o
maior susto de nossa carreira de Delinqüentes. Uma enorma
sombra sobre nossas cabeças. Era um vizinho.
- Que merda vocês estão fazendo aí seus vagabundos filho
de umas puta??
Cara, não sei nem explicar como se deu a parada.
Nós que tentamos parar o mundo das pessoas tivemos
nosso mundinho de bosta paralisado. Era só fuja lôvo, fuja
lôco & fuja lôco. Jean ainda teve o sangue frio de juntar as
ferramentas enquanto o vizinho esbravejava no muro.
Sergio, que finalmente tinha resolvido plantar seu chuchu,
não teve tempo de se desvencilhar daquela imensa
trepadeira e teve que se enrolar com ela e fugir vestindo o
pé de chuchu mesmo.
Fugimos pela saída principal, batendo a portinha de
ferro na frente e torcendo pra que as boletas fossem mesmo
soníferas. Corri umas três quadras até que vi Sergio & Seu

365
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Pé de Chuchu
Caralho!
Foi o troço mais Monstro do Pântano que já vi até
hoje. Tinha dois chuchuzinhos pendurados no peito que mais
pareciam um par de seios. Começei a rir feito um retardado,
minha barrigadou, eu minhas pernas afrouxaram e acabei
caindo no chão, num acesso de histeria. Pior, caí numa poça
de lama. Então foram os outros que riram. Marmita me
puxou.
- Ari, isso não é hora pra palhaçada.
Sergio não tinha parado, estava a meia quadra na
nossa frente, alcançamos ele quase na esquina. O dia já
estava clareando. Quando ele dobrou a esquina topou com o
Inesperado: um bebum com uma garrafa de pinga na mão.
O coitado olhou aquela Coisa, arregalou os olhos e
gritou:
- Grandiospai!!!!!
Jogou a garrafa pro alto de e se ajoelhou diante do Monstro.
- Jesus Cristo Nosso Senhor, me proteja deste demônio bixo
cão e juro que nunca mais boto uma gota de birita na
boca!!!!
Quando cheguei perto pra acalmar o cidadão, o cara
desmaiou. Conferi o pulso e estava O.K, e seguimos embora,
rachando o bico de tanto dar risada. Chegamos na casa da
vó do Marmita com o sol raiando. Dona Jurema nos esperava
com um café da manhã de Rebeldes Contra o Império.
- E aí meninos, conseguiram o que queriam?
Marmita, falando com a boca cheia de broa de milho:
- E até o que nem imaginávamos querer.
Dona Jurema não entendeu nossas gargalhadas, mas foi
maravilhoso.

366
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Toc, Toc, Toc: Boa Noite! Tudo Bem? - (ataque


sessenta)

A Igreja dos Subgênios é um troço fudido. Trata-se da


primeira religião do mundo assumidamente com fins
lucrativos. Tal como o Discordianismo, nem sempre dá pra
se saber onde termina a piada e onde o negócio passa a
ficar sério ou o que quer que isso signifique.
Falei isso porque nosso último ataque foi inspirado
num jogo subgênio. Nem lembro que postou a parada no
Orkut, mas quando contei pra piazada eles quase se
cagaram rindo. Já explico.
As pessoas quase nunca se dão por conta do quanto
a rotina invade nossas vidas até o ponto de regerem nosso
comportamento. Existe um padrão de comportamento muito
rígido em nosso cotidiano. Tão enraizado que qualquer
atitude que fuja desse padrão, passa a ser incômoda. O jogo
subgênio que falei mexe com isso.
- Que merda de jogo é esse Ari?
- Você pega um guardanapo, dobra duas vezes e guarda no
bolso.
- Ihhh! Apertem os cintos, lá vem besteira"
- Calem a boca! Prestem atenção, é assim, cada um escolhe
uma casa e bate na porta perguntando se está tudo bem, se
não está nada errado. Faz isso todos os dias, ganha quem
tirar o morador do sério primeiro e apanhar. Depois, os
perdedores vão lá e dão uma flor pro morador cantando a
música Give Peace a Chance, do John Lennon. que tal?
- Aahahahaahahahahahaha!!!!!!!!!!! - resposta positiva
Decidimos que nossas vítimas seriam todas do
mesmo bairro, pra facilitar a logística. Pro jogo ficar mais
fractal, cada um escolheu uma casa, anotamos num
papelzinho e sorteamos. Pra mim: rua Ernesto Gomes,
número 235. Salve Éris!
O combinado era visita diárias, sempre às sete da
noite, de modo que a operação conciliasse as agendas de

367
Manual Prático da Delinquência Juvenil

todos. Outro detalhe era o seguinte, uma abordagem por


vez, o resto do pessoal tinha que ficar de plantão, de flor e
violão em mãos, para o caso de um jogador vencer de uma
maneira inesperada. No sorteio Gleydson foi o primeiro a
agir. Francamente, doente como o cara é, tinha tudo pra
ganhar o jogo. Toc, toc, toc.
- Pois não?
- Gostaria de saber se está tudo certo. Se a senhora está
bem. Se não está acontecendo nada de errado.
- Hã?
- Isso mesmo, está tudo O.K.?
- Claro que está nas porque tú está perguntando isso?
- Nada não. Tchau e uma boa noite.
Sergio foi o segundo. Por encreça que parível o cara é
tímido e foi difícil convencê-lo a participar do jogo.
Praticamente tivemos que empurrar o cara pra bater na
porta. Pra conferir se o viado não ia mijar pra trás ficamos
próximos, dava pra ouvir. Toc, toc, toc.
- Boa noite, o senhor está bem? - animaaaal!
- O quê?
- Gostaria de saber se o senhor está bem, se não tem nada
de errado.
- Manhêêêê! Tem um tio aqui!
O Animal, Tongo & Topeira tratou um piazinho como
senhor. Deveria estar com o cérebro paralisado pelo cagaço.
Ao invés da manhêêê, veio o paiêêê.
- O que foi?
- Gostaria de saber se o senhor está bem.
- Tá, mas porquê?
- Por nada, mas está tudo certo?
- Ah, vai procurar o que fazer ô nego vagabundo!
E bateu a porta na cara do nosso herói. Confesso que

368
Manual Prático da Delinquência Juvenil

começei a ficar preocupado com o jogo. Talvez a birosca não


fosse tão Inocente & Sossegado. Jean fez sua jogada sem
grande sucesso, ninguém em casa. Mas com Marmita foi
mais foda, a mulher se recusava a fechar a porta e deixá-lo
ir embora.
- Péraí piá! Poque tú quer saber?
- Nada, tia, nada. Era só pra saber.
- Me enrola! Tú tá aqui a mando do meu ex-marido, não é
mesmo?
- O que? Nem conheço ele!
- Confessa seu piá de bosta!
- Tchau, tia, tchau!
E picou a mula. quando chegou parecia perplexo.
- Rapaz, aquela tia é doente, precisa se tratar.
Ríamos feito umas hienas. Então chegou minha vez.
Na porta ainda tinha uma parada de Natal enfeitando.
Cheguei a torcer pra que não tive ninguém em casa, apesar
das luzes acesas. Serei eu o Mais Novo Mais Cagão? toc, toc,
toc. Nada. toc, toc, toc. A porta se abriu rangendo
assustadoramente.
- Boa noite! A senhora está bem? Está tudo certo? Não tem
nada de errado ocorrendo?
- Ô meu filho, tudo bem sim, mas que simpatia! Quem é
você?
- Eu? - me pegou de jeito
- Sim, você mesmo, como é seu nome?
- Ari, mas olha só, tô indo, uma boa noite pra senhora.
- Pra você também meu filho, tchau! e vai com Deus!
Saí praticamente correndo da casa. Depois de tanta
animosidade das outras vítimas, aquela atitude foi
totalmente inesperada. Os outros pareciam um troço de
tanto dar risada.

369
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Ari, não sabia que tú tinha medo de velhinhas simpáticas.


- Vão tomar nos olhos dos seus cús!
E assim encerramos a primeira rodada de nosso jogo.
A bagaça foi tão divertida que no outro dia ficamos nos
telefonando. Tú vai, né seu viado? Podis creeeer!!!!! Estava
chovendo, mas mesmo assim não cancelamos o espetáculo
e a seqüência de ataques foi a mesma, Gleydson primeiro.
Toc, toc, toc.
- Boa noite! A senhora está bem?
- O quê que é, hein?
- Gostaria de saber se está tudo certo, se não está nada
errado.
Porta batida na cara. Chegou a tremer a parede e os
vidros das janelas. Gley entra na área, é ele e o goleiro, tirou
a tia do sério. Então Sergio lançou os dados. O piazinho
atendeu de novo. Cambada de pais vagabundos
exploradores do trabalho infantil!
- Oi, tu do bem?
- Tudo.
- Está tudo certo? Não tem nada errado?
- Não.
- Então tchau!
- Tchau!
E simplesmente saiu. Desse jeito.
- Ô cara! Aí não vale?
- É, tem que provocar.
- Foda-se, não combinamos isso antes e no meio do jogo não
se mexem em regras.
Definitivamente Jean não deu sorte (ou deu?),
ninguém em casa de novo. Agora eu penso, deve ter sido o
cagão do Sergio quem escolheu aquela casa. Quando foi o
Marmita, foi preocupado com a reação da coroa.

370
Manual Prático da Delinquência Juvenil

- Você de novo, é?
Não deu tempo nem de falar.
- Escuta aqui, diz praquele desgraçado que eu faço o que
bem quiser da minha vida e que ele que fique com aquela
vagabunda que se deus existe ainda vai acabar tirando tudo
o que ele tem!!
Porta batida na cara dois ponto zero.
Agora era comigo a encrenca. Desta vez três batidas na
porta foram suficientes.
- Oi querido!
- Gostaria de saber se a senhora está bem.
- Claro, estou ótima, agora melhor ainda, entre!
- Não, não, só gostaria de saber se está tudo certo, se não
está nada errado.
- Nadinha de nada, entre meu filho!
- Tchau, tia, tchau!
Dessa vez saí correndo mesmo, tropecei na calçada e
quase caí. Encontrei a galera rolando na grama, não preciso
nem dizer fazendo o quê.
A terceira rodada foi aguardada com ansiedade. Dela
poderia sair o grande campeão. Gleydson & Marmita, os
grandes favoritos ao título. E olha, não posso garantir se
eles estavam satisfeitos com isso. Gleydson com a bola. Toc,
toc, toc.
A porta abriu-se bruscamente e acho que a rua
inteira pode ouvir os berros da mal comida
- Vai tomar no teu cú! Cú! Cú! Cú!
Porta batida na cara três ponto zero. Gleydson voltou
andando feito um zumbi. Olhar perdido num horizonte vazio.
O jogo ficou quente. Ânimos acirrados. Depois de se
recuperar Gleydson começou a afinar o violão.
- É hoje que essa viagem acaba, sinto isso na pele.

371
Manual Prático da Delinquência Juvenil

Sérgio se cagou, ameaçou desistir e tivemos que


empurrá-lo de novo. Toc, toc, toc. Desta vez não deu sorte
com o piazinho escravo, quem atendeu foi o paiêêê. Mais
um que não teve chance nem de falar.
- Escuta aqui seu preto sujo e desocupado - o cara apelou! -
Se tú bater mais uma vez na porra da porta da minha casa
pra nos perturbar eu juro que dou um tiro bem no meio
dessa tua fuça que mais parece um cú com orelhas!
E porta batida na cara quatro ponto zero e já estou
perdendo as contas. Dessa vez ninguém riu, apenas
risadinhas nervosas. Jean nem jogou, casa vazia, não cabia
em si de tanta frustração.
- Foi tú que escolheu, né seu pau no cú? - apontando pro
Sergio.
- Quer trocar?
- Sem briguinha besta, vai Marmita!
Toc, toc, toc. Toc, toc, toc, toc, toc, toc! De repente as luzes
se apagaram. Bola na trave, a ex-mulher do misterioso ex-
marido não quis abrir. Marmita parecia até aliviado.
- Vai Ari!
Nessas alturas dos acontecimentos eu já estava
conformado com minha condição de perdedor e estava
disposto a relaxar e gozar. Quando a tia abriu aquela porta
com aquele sorrrisão e a aquela simpatia, aceitei o convite e
entrei. Começou a conversar comigo, a elogiar minha
atitude atenciosa, que não se via mais isso hoje em dia, a
falar do prefeito que baixou a passagem pra um Real no
domingo, o Severino Cavalcanti, o Papa, o Tsunami, o
marido que trampava asfaltando rodovias e que não lhe
dava atenção e que andava bebendo...
O Marido?
Meu pensamento congelou.
Em verdade vos digo: nem todas as sincronicidades
vem pro bem. O barulho de chaves na porta era o marido da
cidadoa. Quando a porta abriu senti o bafo de cana e a

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Manual Prático da Delinquência Juvenil

encrenca em que eu estava metido. Uma barriga enorme,


um bigode enorme e uns brações dessa idade.
- O que caralho é esse moleque?
- Calma Agenor, já te explico!
- Eu vô é fudê com esse moleque!
Saltei por cima do sofá em direção a porta e levei a
maior seca do lado do ouvido que alquém pode levar nessa
galáxia. Num movimento digno de Jaquie Chan consegui me
desviar da quina da porta. Saí gatinhando pela calçada e o
tio voou por cima de mim. Por sorte estava bêbado e
quando se levantou eu já estava na rua.
A Taça do Mundo é nossa!! Sou Delinqüente, não há
quem poça! Fantástico, a adrenalina me transformou e eu
ria histericamente enquanto o ouvido zunia a galera batia
palmas.
- Entreguem a flor!
Bateram na porta e apenas ouviram:
- Isso, bate e espera que tô ligando pra polícia!!
Jean segurou a cifra e o Aleijado & Ignorante musicalmente
Gleydson Schultz dedilhou as primeiras notas e nós:
- All we are saying is give peace a chance All we are saying
is give peace a chance C'mon Ev'rybody's...
Fomos embora felizes e vitoriosos, e talvez, eu disse
talvez, tenhamos mudado o mundo sem saber.

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