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Celso Leopoldo Pagnan

Doutor em literaturas de língua portuguesa

Resenhas dos livros de leitura obrigatória da UEL 2017/2018

Londrina, 2016 1 a edição

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Direção-Geral

Virgílio Tomasetti Jr.

Direção administrativo-financeira

Ubiracy D'Andrea

Coordenação de novos produtos

Cássia Gimenes Barcaro

Coordenação Editorial

Joaquim Luís de Almeida

Supevisão de Editoração

Walternei Pelisson Machado

Organização e Revisão

Celso Leopoldo Pagnan

Capa

João Paulo Fidellis da Silva

Diagramação

Glauber Damasceno

  • 808.8 Pagnan, Celso Leopoldo.

P156r

Resenhas dos livros de leitura obrigatória da UEL 2017-2018. Celso Leopoldo Pagnan. – Londrina : Colégio Maxi, 2016. – 85p.

1. Resenhas – vestibular. 2. Literatura. 3. UEL – vestibular. I. Colégio Maxi.

Ficha Catalográfica elaborada pelo Bibliotecário Cleberlei Assumpção – CRB 1696/9 Copyright © 2016 – Todos os direitos de publicação reservados.

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Apresentação Vestibulando(a)! Estas são as resenhas de leituras obrigatórias destinadas especificamente, e com antecedência, aos candidatos

Apresentação

Vestibulando(a)!

Estas são as resenhas de leituras obrigatórias destinadas especificamente, e com antecedência, aos candidatos a cursos de graduação da UEL – Universidade Estadual de Londrina (PR), nos concursos vestibulares de 2017 e 2018. Uma lista com 10 obras literárias é sugerida pela Universidade a cada dois anos. A atual compõe-se de 3 obras remanescentes da lista anterior e 7 novas:

Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano O pagador de promessas, de Dias Gomes Toda poesia, de Paulo Leminski Vozes anoitecidas, de Mia Couto Uma menina está perdida no seu século à procura do seu pai, de Gonçalo Tavares O Ateneu, de Raul Pompéia Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade A hora da estrela, de Clarice Lispector Melhores contos de Nélida Piñon, de Nélida Piñon Topless, de Martha Medeiros As resenhas foram feitas pelo prof. Celso Leopoldo Pagnan, com a intenção de oferecer a você informações e análises indispensáveis ao seu preparo imediato para o vestibular, sem a pretensão de substituir a leitura do texto literário integral. Ora, detalhes importantes como ambientação da obra, estilo do autor, caracterização dos personagens, ritmo da narrativa e a própria “mensagem” são objetos da tratativa desta resenha, mas podem ficar incompletos para o leitor apenas de uma resenha, por mais fiel que ela tente ser. Daí, nossa recomendação de que estas resenhas sirvam de preparação ou de complementação à leitura do texto integral das respectivas obras, pois nossa intenção é tanto abrir caminhos a quem vai lê-las quanto preencher eventuais lacunas a quem as leu.

Seja a leitura destas resenhas uma introdução e, ao mesmo tempo, um complemento ao seu estudo da literatura luso-brasileira no que tange às exigências do vestibular de 2017 e 2018 na UEL.

Bom estudo!

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Sumário

Sumário Eurico, o Presbítero , de Alexandre Herculano 5 O pagador de promessas , de Dias

Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano

5

O pagador de promessas, de Dias Gomes

13

Toda poesia, de Paulo Leminski

19

27

Uma menina está perdida no seu século à procura

do seu pai, de Gonçalo Tavares

35

O Ateneu, de Raul Pompéia

41

Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade

49

A hora da estrela, de Clarice Lispector

57

Melhores contos de Nélida Piñon, de Nélida Piñon

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Topless, de Martha Medeiros

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Referências bibliográficas

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Eurico, o presbítero de Alexandre Herculano
Eurico, o presbítero
de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano, é um romance histórico, bem ao gosto romântico. Isto porque o conceito de história, tal e qual conhecemos hoje, o de uma progressão seja teleológica (com a perspectiva de um fim da história), seja a evolucionista (a que considera um contínuo processo de melhoramento em vários aspectos da vida), seja ainda a dialética (a que revela um processo entre idas e vindas, sem que se chegue a um determinado fim sintético). No caso específico, a visão romântica era a que buscava explicar as origens de algo para compreender o momento presente e projetar a vida futura. Neste sentido, Alexandre Herculano (1810-1877) situa o enredo de seu romance no século VIII, quando houve a invasão muçulmana à Península Ibérica, chamada pelo autor toda ela de Espanha (ou Hispânia), afinal Portugal ainda não existia.

Para poder se entender esse momento é preciso retornar ainda mais no tempo e dizer que os romanos, no seu intento expansionista, chegaram à Península no século II a.C., subjugando os lusos ao seu domínio. Os romanos não apenas conquistavam um território como também impunham sua cultura, seu modo de vida, sua língua (o latim). Permaneceram dominando a região até o século V, quando o Império Romano do Ocidente começou a ruir, ante as invasões dos chamados povos bárbaros (os povos do norte da Europa, os suevos, os vândalos e os godos), que conquistaram boa parte dos territórios dominados pelos romanos.

Esse povos, porém, tinham outra mentalidade. O objetivo maior era o de conquistar, sem necessariamente impor sua cultura ao povo conquistado. Por isso mesmo, a cultura romana permaneceu bastante influente na região, fosse a língua latina, fosse a religião cristã. Durante os cerca de duzentos anos que esses povos ficaram na região foram se alternando no domínio, até que os godos, especialmente os visigodos, se estabeleceram no poder. Desse modo, foram aos poucos criando o que viria a ser a aristocracia da Espanha, a nobreza, que, ao lado da Igreja cristã, sobretudo a católica se constituiu na liderança de todos os povos que habitavam a Península.

Os godos, a princípio eram arianos, isto é, pertencentes a uma seita que pregava a separação entre a figura de Jesus e de Deus. Para os arianos, não formariam, com o Espírito Santo, uma trindade. Jesus seria uma pessoa comum, embora o predileto de Deus, mas não seria deus. Aos poucos, porém, aderiram ao culto romano e se converteram ao catolicismo, ao menos parte dos godos.

No romance, o narrador faz essa contextualização, ainda que sempre com alguma liberdade poética, alguma liberdade de criação:

A raça dos visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século. Nenhuma das tribos germânicas que, dividindo entre si as províncias do império dos césares, tinham tentado vestir sua bárbara nudez com os trajos despedaçados, mas esplêndidos, da civilização romana soubera como os godos ajuntar esses fragmentos de púrpura e ouro, para se compor a exemplo de povo civilizado. Leovigildo expulsara da Espanha quase que os derradeiros soldados dos imperadores gregos, reprimira a audácia dos francos, que em suas correrias assolavam as províncias visigóticas d’além dos Pireneus, acabara com a espécie de monarquia que os suevos tinham instituído na Galécia e expirara em Toletum depois de ter estabelecido leis políticas e civis e a paz e ordem públicas nos seus vastos domínios, que se estendiam de mar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da Vascônia, abrangiam grande porção da antiga Gália narbonense. (2014, p. 21)

Leovigildo (572-586), no caso, é uma referência a um dos reis godos, governantes da região de Toledo, que conseguiu impor-se como rei no século VI.

No século VIII, porém, mais precisamente no ano de 711 d. C., houve a invasão muçulmana. Em maior número, e com um exército mais bem preparado para a guerra, os árabes conquistaram palmo a palmo toda a península, deixando aos godos apenas a região norte, isto é, parte da Galícia e das Astúrias, conforme se pode observar no mapa abaixo, que mostra a dominação muçulmana na região.

Eurico, o presbítero de Alexandre Herculano Eurico, o presbítero , de Alexandre Herculano, é um romance

http://raffaelbarbosa.blogspot.com.br/2009/07/sobre-presenca-arabe-

na-iberia-medieval.html

É exatamente desse processo de conquista que trata Eurico, o presbítero. É verdade que o autor situa a ação no ano 748. Seu objetivo, mais que a precisão histórica, é revelar esse momento que se tornou, mais tarde, crucial para a formação dos estados modernos de Portugal e da Espanha.

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Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Outro dado importante a relatar é que os árabes também não procuraram impor totalmente sua cultura aos povos conquistados. Eram mais tolerantes em relação a isso. Queriam mesmo era a conquista dos territórios e a dominação política. Graças a isso, a cultura romana continuou bastante presente e base das relações sociais do ibéricos. Não por acaso, a região manteve-se firme na fé cristã e o latim, em contato com outros idiomas, foi aos poucos se modificando até se transformar no galego-português (língua das cantigas, dos primeiros textos em língua local) e depois no português e no espanhol (galego, castelhano, catalão, conforme a região).

Alexandre Herculano era também historiador, tendo escrito alguns livros sobre a história de Portugal. Como romancista, interessou-se por momentos simbólicos da formação de Portugal, e seguiu um determinado estilo legado por romancistas como Victor Hugo e Walter Scott. Por isso mesmo, este romance sobre qual estamos tratando, apresenta, além da narração do enredo, notas de rodapé, como meio de explicar alguma decisão narrativa, explicar algum termo histórico. No prefácio, faz considerações sobre o momento histórico de que trata. Nesse prefácio, ele próprio ficou em dúvida sobre como classificar o gênero literário escolhido e também revela de modo mais explícito seu intento que é o de determinar o início da formação portucalense.

A Espanha romano-germânica transformou-se na Espanha rigorosamente moderna no terrível caminho da conquista árabe. A obra literária (novela ou poema – verso ou prosa – que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas – indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Teodorico ou de Leovigildo será o ascendente do Cid ou do Lidador, que entre o homem e coisa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguês. (2014, p. 17)

Essa Espanha romano-germânica são exatamente os godos, romanizados e cristianizados e que, unida, em prol de um ideal comum, a expulsão dos invasores, vai aos poucos se recuperando até a construção dos estados modernos.

É bem verdade que o exército árabe acabou sendo formado não apenas pelos próprios árabes ou muçulmanos, mas também se constituiu de traidores, fossem os próprios cristãos de outras igrejas ou seitas (denominados de moçárabes), fossem os berberes. No caso dos cristãos, isso de fato aconteceu. No romance, essa traição é representada por Juliano, conde de Septum, e Opas, bispo de Hispalis. Ou seja, ao invés de lutarem unidos pela Espanha e pelo cristianismo, deixaram-se levar por vantagens que obteriam com a subserviência aos novos conquistadores.

O romance tem como foco também o frustrado relacionamento amoroso entre Eurico e Hemengarda. Esta era filha de Fávila e irmã de Pelágio, que irá desempenhar grande papel no romance. Embora se amassem, os dois jovens são impedidos de se relacionarem, pois cada um pertencia a uma crença

religiosa diferente, o que era proibido pelas leis visigodas. No caso, o casamento entre os godos arianos e os cristãos católicos era proibido. Hemengarda prefere a obediência ao pai a ter de enfrentar tudo por amor. Por isso, Eurico se afasta de todos e se ordena padre, sendo elevado a pároco do presbitério da Carteia no sul da Espanha, no estreito de Gibraltar, parte do mar mediterrâneo que separa os continentes africano e europeu, e que acabou sendo porta de entrada para a invasão muçulmana.

Uma destas revoluções morais que as grandes crises produzem no espírito humano se operou então no moço Eurico. Educado na crença viva daqueles tempos; naturalmente religioso porque poeta, foi procurar abrigo e consolações aos pés d’Aquele cujos braços estão sempre abertos para receber o desgraçado que neles vai buscar o derradeiro refúgio. Ao cabo das grandezas cortesãs o pobre gardingo encontrara a morte do espírito, o desengano do mundo. A cabo da estreita senda da cruz acharia ele, porventura, a vida e o repouso íntimos? Era este problema, no qual se resumia todo o seu futuro, que tentava resolver o pastor do pobre presbitério da velha cidade do Calpe. (2014, p. 27-28)

Em tempo, gardingo seria um antigo nobre dos visigodos. Eurico ali permaneceria até a morte caso não houvesse sido conclamado pelo Duque Teodomiro, governador do condado de Córdoba, uma das primeiras regiões a serem conquistadas pelos árabes. A princípio, Eurico, por meio de cartas trocadas com o Duque, afirma não se importar com mais nada, a não ser o cuidado com seus fiéis. Sabe, porém, que o fim é próximo, sabe que a opressão tolherá a liberdade. A bem da verdade, por seu presbitério ser no sul da Espanha, próximo do estreito de Gibraltar, já tinha visto a chegada dos árabes e antevisto o que se passaria.

Contam-se coisas incríveis desses povos que assolam a África, chamados os árabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra os vestígios da cruz. Quem sabe se aos árabes foi confiado o castigo desta nação corrupta?

Já as nossas praias foram visitadas por eles, e para os repelir cumpriu que desembainhasse a espada o ilustre Teodomiro, o último guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.

Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei contigo. Na procela que se alevanta de África deixarei submergir o meu débil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajuntar os meus. Que me importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno? (2014, p. 56)

Essa fuga de Eurico para um local ermo, bem como a ideia mesmo de se ordenar padre é uma solução tipicamente romântica, de busca da expiação da dor em contato com a natureza ou mesmo em aproximação com as dores de Cristo. Ou por outra, o herói romântico percebe o mundo corrompido, que lhe veda a felicidade, no caso casar-se com Hemengarda, aí tem de isolar-se e buscar a expiação de sua dor em meio àqueles que sofrem por outros motivos.

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Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

De sua parte, Teodomiro reúne todo o exército que consegue. Porém, sabe que teria pouca chance de resistir. Vai até Crissus pedir apoio ao bispo Opas, mas, depois de certo tempo, percebe que isso não seria possível. A verdade é que Opas tenta dissuadi-lo a lutar com Tárique, uma vez que tinha se unido, juntamente com Juliano, ao invasor.

Poucos dias haviam passado depois que o duque de Córduba recebera a última carta do infeliz Eurico. A frente das suas tiufadias ele se encaminhara para Híspalís, seguindo as margens do Bétis. Ao chegar à antiga Rômula, o bispo Opas recebeu-o com demonstrações de alegria tais, que as suspeitas de Teodomiro, suscitadas, malgrado seu, pelas revelações do presbítero, quase se desvaneceram. Na linguagem do sacerdote parecia reverberar-se indignação profunda contra o conde de Septum e contra os demais godos que tentavam unidos com os bárbaros, assolar a terra natal. (2014, p. 71)

Na primeira batalha, fica

clara

a

traição

de

Juliano; e ele e Teodomiro têm um encontro nada

amistoso, como se poderia esperar:

Os dois cavaleiros godos acometeram-se com toda a fúria de rancor entranhável: as espadas, encontrando-se no ar, faiscaram como o ferro abrasado na incude: mas a de Teodomiro fora vibrada por braço mais robusto, e, posto que o golpe descesse amortecido, ainda entrou profundamente no escudo que o seu adversário levava erguido sobre a cabeça. Entretanto Juliano, revolvendo ligeiro a espada, rompeu a couraça do duque de Córduba e feriu-o levemente no lado. (2014, p. 84)

Da batalha particular entre ambos, Teodomiro a princípio se sai melhor, mas não demora muito para que os aliados de Juliano interfiram no combate e avancem sobre o comandante godo. É aí que surge um salvador, um cavaleiro todo vestido de negro. Após as últimas cartas trocadas com o conde de Córduba, Eurico já tinha traçado seu destino. Sabia que estava morto para o mundo, quis apenas buscar a morte efetiva do corpo, por isso traveste-se de um Cavaleiro com vestes negras, despertando em batalha as mais diversas suspeitas de quem seria ou do que de fato seria. Se homem, se fantasma, se anjo ou se demônio. O fato é que consegue se destacar nas diversas batalhas. Nesta primeira, salva o amigo e desperta a imaginação de todos.

Os godos, espantados, perguntavam uns aos outros quem seria aquele temeroso guerreiro; mas entre eles ninguém havia que pudesse dizê-lo. Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam o demônio da assolação; mas, pelejando pela cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodomiro e, com ele, os esquadrões da Bética. (2014, p. 86)

A verdade, porém, é que nem o Cavaleiro Negro, nem outro combatente poderia vencer em definitivo os invasores, isto porque muitos godos se aliaram aos árabes. Dessa feita, os que permaneciam fieis ao reino foram, pouco a pouco, perdendo espaço e batalhas sucessivas até que sucedeu o esperado: a morte do último rei godo, a morte de Roderico (ou Rodrigo).

Roderico, porém, estava aí! mas retalhado de golpes; mas sem vida! Já não seria debaixo de seus pés que o trono da Espanha se desfaria aos golpes do machado dos árabes. Um cetro sem dono em Toletum e mais um cadáver junto às margens do Críssus, eis o que restava do último rei dos godos! Com a sua morte fenecera ao redor dele a esperança, e com a esperança dera em terra o esforço dos ânimos mais robustos. (2014, p. 92)

Apesar dos esforços de alguns combatentes e do próprio Cavaleiro Negro o fim estava próximo. Com efeito, a narrativa de Herculano leva o leitor a experimentar o desalento do período que marca o fim de um reino, mas, ao mesmo tempo, a preparação do que viria a ser os reinos modernos tanto de Portugal quanto da Espanha, quando os últimos, sob a liderança de Pelágio, entre outros de família nobre, conseguiram estabelecer-se nas Astúrias, no norte da Espanha. E daí, durante os séculos seguintes (até o XII), ir expulsando os árabes da Península.

Mesmo Teodomiro teve de render-se ao invasor. Não que tenha se aliado aos invasores, mas, como meio de salvar o pouco que lhe restara, fez um pacto de não mais agressão, restando a Pelágio o comando do último foco da resistência. Antes disso houve um Importante acontecimento para o desenrolar do enredo. Inspirado em fato histórico é o suicídio das freiras do mosteiro da Virgem Dolorosa, localizada na região da Galícia, norte da Lusitânia, onde hoje fica Santiago de Compostela. Esse suicídio se deu como meio de as freiras protegerem sua honra ante a iminente invasão dos árabes ao mosteiro. Dispersos, alguns cavaleiros, que levavam consigo Hemengarda, até o norte, pararam no mosteiro para descansarem. Outros tantos nobres também viram no mosteiro um local para se protegerem do ataque dos inimigos. Porém, o intento de um e de outro foi malogrado.

Naquela noite muitos nobres senhores de terras tinham chegado ao mosteiro, vindos da banda de Légio. Um numeroso exército de árabes aparecera subitamente na véspera junto aos muros da cidade, que logo fora acometida pelos pagãos. Era o que sabiam. Fugitivos desde o aparecimento dos inimigos, ao anoitecer haviam enxergado para aquela parte um clarão grande e duradouro. Se eram as fogueiras dos arraiais árabes, se o incêndio de Légio, não o podiam resolver: só, sim, que seria impossível resistir por largo tempo cidade tão mal defendida a tamanha cópia de infiéis, que não tardariam a derramar-se para o lado do mosteiro, prosseguindo nas suas devastadoras conquistas pela Galécia e pela Tarraconense. (2014, p. 104)

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Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

E, com efeito, após um pequeno período dado pelos árabes para que todos se entregassem, iniciaram a invasão. A monja, porém, para evitar que as freiras pudessem servir de escravas sexuais aos árabes, se entregam ao sacrifício.

Em nota de rodapé, Herculano faz uma explicação para o episódio. Tal explicação, como de resto outras tantas, serve como meio de conferir veracidade ao relato, como meio de tornar a narrativa, ainda que idealizada, próxima da realidade.

Diz o autor:

O fato narrado neste capítulo é histórico. O lugar da cena e a época é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Vale, junto de Ecija, que, em tempos posteriores, praticaram este feito heróico, para se esquivarem à sensualidade brutal dos árabes. Parece que o procedimento das freiras de Ecija foi imitado em muitas outras partes. Consulte-se Berganza, Antiguidades de España, t. I, p. 139, e Morales, Cron. Gener., t. III, p. 105. (2014, p. 118)

Quando chegava o momento do sacrifício de Hemengarda, esta acabou capturada pelos soldados de Abdulaziz, um dos líderes árabes. Ele a toma como sua possível “esposa” e a leva para sua tenda. Ordena a ela que se curve para que isso possa poupar outros de sua ira, inclusive o irmão de Hemengarda, Pelágio. Ela, porém, permanece irresoluta ante as ameaças e diz preferir a morte a ter de servir a um invasor de sua pátria:

Mas Hermengarda só vira afronta e opróbrio nas palavras do amir, e o ódio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo. (2014, p. 140)

Em paralelo a esses acontecimentos, o próprio Pelágio e demais cavaleiros, bem como Eurico estão próximos de Cavadonga, nas Astúrias, onde poderiam se reorganizar. Porém, Pelágio sabe, por intermédio de alguns cavaleiros, que sua irmã estava sob os domínios de Abdulaziz. Pensa ele próprio em partir para salvar Hemengarda, mas é impedido por Eurico, que estava com eles. Oferece-se no lugar para, com poucos cavaleiros, resgatar a mulher que ele ainda amava.

Fingindo-se de serviçal, Eurico consegue entrar no acampamento do inimigo e, mais, aproximar- se da tenda de Abdulaziz. Com rapidez e agilidade, consegue ferir o inimigo e tomar Hemengarda em seus braços e iniciar uma fuga por entre as florestas até retornar a Covadonga na região das Astúrias. É um dos momentos mais empolgantes e simbólicos do livro, uma vez que alterna a esperança da liberdade e a certeza da morte iminente, representado ora pelo clarão da paisagem, ora pela paisagem mais soturna, fechada:

Depois de subirem a encosta, o cavaleiro negro e os que o seguiam viram alongar-se diante deles uma chapada plana, em cujo topo a serra se alteava de novo, com os seus mil acidentes de cordilheiras cortadas, de algares profundos, de gargantas selvosas, ao lado das quais os picos agudos se atiravam para o ar ou pendiam sobre os abismos e torrentes. A natureza, mais rude naquelas paragens, tinha um aspecto soturno, vista assim, ao perto e à luz da lua: era como um oceano tempestuoso, onde todas as gradações da morte-cor se confundiam e misturavam, desde a brancura desbotada e pálida do rochedo até a pretidão fechada dos pinheiros retintos nas sombras da noite. (2014, p. 157)

Com efeito, há diversos momentos no romance em que se pode observar essa simbologia entre claro e escuro, entre esperança de vida e iminência da morte, representado pela descrição da natureza e também por objetos em geral.

A hora de amanhecer aproximava-se: o crepúsculo matutino alumiava frouxamente as margens de rio mal-assombrado, que corria turvo e caudal com as torrentes do inverno. Apertado entre ribas fragosas e escarpadas, sentia-se mugir ao longe com incessante ruído. (2014, p. 161)

Com o apoio dos outros cavaleiros, que seguem em galope levando Hemengarda, Eurico vai armando emboscadas contra os que o perseguiam. Sabe, porém, que só conseguirá a salvação nas terras dominadas por Pelágio. E o capítulo que marca a chegada dos cavaleiros a Covadonga é intitulado de “A aurora da redenção”, como complemento a essa simbologia entre claro e escuro.

Já nos domínios de Pelágio, Eurico e Hemengarda têm uma conversa reveladora sobre a possibilidade do relacionamento entre os dois. A moça, com a morte do pai e com a demonstração de bravura e lealdade a Pelágio por parte Eurico, acredita que não haveria mais impedimentos para que ambos pudessem se casar. Ela ainda não sabia que Eurico tinha feito votos de castidade por conta do sacerdócio. Diante desse novo impedimento, não há escapatória para a felicidade do casal. E cada um se entrega a seu próprio destino, individualizado, e que, simbolicamente também, indica as divisões da Espanha nesse momento, e que ainda dependia de ações pessoais para se fortalecer. Trata-se de uma conversa carregada de sofrimento mútuo, de tentativa de entender o que se passara e o que se passava. Um momento dramático, tipicamente romântico.

– Que tens tu com o presbítero de Carteia; com esse ilustre sacerdote, cujos hinos sacros reboavam ainda há pouco pelos templos da Espanha, e a quem, decerto, o ferro ímpio dos árabes não respeitou? A tua glória é outra e mais bela; a glória de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era santa e pacífica. Deus chamou-o para si, e tu vives para ser meu. Ninguém existe hoje no mundo que possa embaraçá-lo. Esquece o passado; esquece-o por amor de mim!

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Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

O cavaleiro sorriu de novo dolorosamente e disse- lhe:

– Que tenho eu com o presbítero de Carteia?! ... Hermengarda, lembras-te do seu nome?

Os lábios da donzela fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso e incrível lhe passara pelo espírito. Com voz afogada e quase imperceptível replicou:

– Era

...

era o teu, Eurico!

...

Mas que pode haver

entre

o importa um nome

comum

guerreiro e o sacerdote? Que

...

uma palavra?

...

que

...

O cavaleiro pôs-se em pé e, deixando descair os braços e pender o rosto sobre o peito, murmurou:

– Há comum, que o guerreiro e presbítero são um

desgraçado só! ...

Importa, que esse desgraçado é

neste momento um sacerdote sacrílego. O pastor

de Cartéia

– Oh, não acabes! – interrompeu

... Hermengarda, com indizível aflição. – Era Eurico,

o gardingo! (2014, p. 195)

O romance finaliza com a loucura de Hemengarda, com a morte de Eurico, que se atira de modo suicida na batalha final contra os árabes, com a conquista quase plena de toda a Península e com a semente plantada nos que permaneceram fiéis à fé cristã e à defesa de sua pátria. E foi essa fé que possibilitou o início da expulsão dos árabes, levando a formação dos primeiros reinos que, desmembrados, viriam a se constituir em Portugal e na Espanha. Eram os reinos de Leão, Castela, Navarra e Aragão, conforme se pode observar no mapa a seguir.

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano O cavaleiro sorriu de novo dolorosamente e disse- lhe: –

Fonte: http://raffaelbarbosa.blogspot.com.br/2009/07/sobre-presenca- arabe-na-iberia-medieval.html

O romance não aborda isso, apenas sugere, posto que termina com Pelágio mantendo-se firme na liderança do castelo nas Astúrias. Assim, apenas a título de curiosidade, a reconquista se inicia no século IX e passa por diversos momentos até a expulsão completa dos muçulmanos da península, ou particularmente de Portugal, no século XII, quando finalmente é instituído o reinado portucalense e se inicia a dinastia afonsina, com o rei D. Afonso Henriques.

Nas mil tradições diversas, quer antigas, quer inventadas em tempos mais modernos, sobre o modo como se constituiu a monarquia das Astúrias procurei cingir-me, ao menos no desenho geral, ao que passa por mais proximamente histórico. Todavia, cumpre advertir que Pelágio viveu, segundo todas as probabilidades em tempos um pouco posteriores à conquista árabe, e que a morte de Opas e de Juliano na batalha de Cangas de Onis, sucesso narrado por alguns escritores, tem sobrado caracteres de fabulosa. A minha intenção, porém, foi, como já notei, pintar os homens da época de transição, digamos assim, dos tempos heróicos da história moderna para o período da cavalaria, brilhante ainda, mas já de dimensões ordinárias. O meu herói do Críssus é como o último semideus que combate na terra; os foragidos de Covadonga são os primeiros cavaleiros da longa, patriótica e tenaz cruzada da Península contra os sarracenos. Deste modo, sendo hoje dificultoso separar, em relação àquelas eras, o histórico do fabuloso, aproveitei de um e de outro o que me pareceu mais apropriado ao meu fim. (2014, p. 200-201)

Para finalizar, digamos um pouco mais sobre o autor. Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa no ano de 1810. Sua vida foi marcada por lutas políticas e pela reconstrução literária da história de Portugal. Um dos mais importantes romancistas do século XIX, suas obras são de cunho romântico e vão desde a poesia ao drama e ao romance. É um dos grandes escritores de sua geração, desenvolvendo o tema romântico por excelência: a incompatibilidade do indivíduo com o meio social.

Devido ao seu envolvimento na Revolta do 4 de Infantaria, emigrou para Inglaterra em 1831. No ano seguinte, tendo retornado a Portugal, Herculano começa a trabalhar na Biblioteca Pública do Porto, como segundo bibliotecário. Em 1839, é nomeado diretor das bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda. No ano de 1853, o romancista funda o Partido Progressista Histórico. Quatro anos depois, manifesta sua discordância em relação à Concordata de Roma, que restringia os direitos do padroado português na Índia.

Em 1859, adquire a quinta de Vale de Lobos, perto de Santarém, onde, embora retirado, continua a receber correspondência e muitas personalidades ligadas à cultura e ao poder. No ano seguinte, participa na redação do primeiro Código Civil português.

Em 1866, casa-se com uma senhora por quem era apaixonado desde a juventude. Morre em 1877, rodeado de enorme prestígio, traduzido numa manifestação nacional de luto organizada pelo escritor João de Deus.

Além de Eurico, o presbítero escreveu:

  • A Voz do Profeta (prosa poética) – 1836

A

última nota de rodapé do

desses acontecimentos futuros:

livro é indicativo

  • Harpa do Crente – 1837

 O Bobo – 1843 9
O Bobo – 1843
9
Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

  • Lendas e Narrativas I e II –1839 e 1844

  • O Pároco da Aldeia – 1844

  • O Monge de Cister – 1848

  • História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal – 1850

  • História de Portugal I, II, III e IV – 1846 e 1853

Herculano fez parte da primeira fase do Romantismo português, oficialmente iniciado com o poema Camões (1825), de Almeida Garrett. Essa primeira geração está ligada à ideologia liberal, à visão burguesa, bem como à ideia de regenerar a pátria, os valores patrióticos. Por isso, o autor passou a escrever romances históricos.

Do ponto de vista estético, Herculano, em sua tentativa de resgate histórico, se perde um pouco, posto que seu romance não apresenta a mesma força dramática que os de outros autores, como Camilo Castelo Branco. Em outros termos, a leitura pode não fluir como seria de esperar de um livro com tantos componentes épicos, pelas batalhas, pelo suspense ou pela história de amor. Claro que há momentos sublimes, como a fuga de Hemengarda das mãos de Abdulaziz, ou mesmo o momento de revelação mútua entre Hemengarda e Eurico. Porém, no geral, trata-se de uma leitura pesada e pouco fluente.

1.

(Vunesp)

EXERCÍCIOS

Eurico, o Presbítero

Os raios derradeiros do sol desapareceram: o clarão avermelhado da tarde vai quase vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, ó Hermengarda, semelhante à aparição do anjo da esperança nas trevas do condenado. E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a fronte a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor; o amículo alvíssimo da inocência, flutuando-lhe em volta dos membros, esconde- lhe as formas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos belas que a realidade. É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepúsculo, tu não és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação indecifrável; um consolo e ao mesmo tempo um martírio. Não eras tu emanação e reflexo do céu? Por que não ousaste, pois, volver os olhos para o fundo abismo do meu amor? Verias que esse amor do poeta é maior que o de nenhum homem; porque é imenso, como o ideal, que ele compreende; eterno, como o seu nome, que nunca perece. Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! Adorava-te só no santuário do meu coração, enquanto precisava de ajoelhar

ante os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dois templos? Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre. Por que vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a Cruz ensanguentada do Calvário; quando a mão inexorável do sacerdócio soldou a cadeia da minha vida às lájeas frias da igreja; quando o primeiro passo além do limiar desta será a perdição eterna? Mas, ai de mim! essa imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço está estampada unicamente na minha alma e reflete-se no céu do oriente através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes queimou as lágrimas.

HERCULANO, Alexandre. Eurico, o presbítero. Edição crítica, dirigida e prefaciada por Vitorino Nemésio. 41ª ed. Lisboa:

O Missionário

Livraria Bertrand, [s.d.], p. 42-43.

Entregara-se, corpo e alma, à sedução da linda rapariga que lhe ocupara o coração. A sua natureza ardente e apaixonada, extremamente sensual, mal contida até então pela disciplina do Seminário e pelo ascetismo que lhe dera a crença na sua predestinação, quisera saciar- se do gozo por muito tempo desejado, e sempre impedido. Não seria filho de Pedro Ribeiro de Morais, o devasso fazendeiro do Igarapé-mirim, se o seu cérebro não fosse dominado por instintos egoísticos, que a privação de prazeres açulava e que uma educação superficial não soubera subjugar. E como os senhores padres do Seminário haviam pretendido destruir ou, ao menos, regular e conter a ação determinante da hereditariedade psicofisiológica sobre o cérebro do seminarista? Dando-lhe uma grande cultura de espírito, mas sob um ponto de vista acanhado e restrito, que

lhe excitara o instinto da própria conservação, o interesse individual, pondo-lhe diante dos olhos, como supremo bem, a salvação da alma, e como meio único, o cuidado dessa mesma salvação. Que acontecera? No momento dado, impotente o freio moral para conter a rebelião dos apetites, o instinto mais forte, o menos nobre, assenhoreara- se daquele temperamento de matuto, disfarçado em padre de S. Sulpício. Em outras circunstâncias, colocado em meio diverso, talvez que padre Antônio de Morais viesse a ser um santo, no sentido puramente católico da palavra, talvez que viesse a realizar a aspiração da sua mocidade, deslumbrando o mundo com o fulgor das suas virtudes ascéticas e dos seus sacrifícios inauditos. Mas nos sertões do Amazonas, numa sociedade quase rudimentar, sem moral, sem educação ... vivendo no meio da mais completa liberdade de costumes, sem a coação da opinião pública, sem a disciplina duma autoridade espiritual fortemente

constituída

sem estímulos e sem apoio

devia

... cair na regra geral dos seus colegas de sacerdócio,

...

sob a influência enervante e corruptora do isolamento, e entregara-se ao vício e à depravação, perdendo o senso moral e rebaixando-se ao

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Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

nível dos indivíduos que fora chamado a dirigir. Esquecera o seu caráter sacerdotal, a sua missão e a reputação do seu nome, para mergulhar-se nas ardentes sensualidades dum amor físico, porque a formosa Clarinha não podia oferecer-lhe outros atrativos além dos seus frescos lábios vermelhos, tentação demoníaca, das suas formas esculturais, assombro dos sertões de Guaranatuba.

SOUSA, Inglês de. O missionário. São Paulo: Ática, 1987, p. 198.

A visão que o amante tem de sua amada constitui um dos temas eternos da Literatura. Uma leitura comparativa dos dois fragmentos apresentados, que exploram tal tema, nos revela dois perfis bastante distintos de mulher. Considerando esta informação,

  • (A) aponte a diferença que há entre Hermengarda e Clarinha, no que diz respeito ao predomínio dos traços físicos sobre os espirituais, ou vice- versa, segundo as visões de seus respectivos amantes;

  • (B) justifique as diferenças com base

nos

fundamentos do estilo de época em que se

enquadra cada romance.

  • 2. (FGV - modificada) Assinale a alternativa em que aparecem duas obras que vtratam do conflito entre vocação sacerdotal e a busca da realização amorosa.

    • (A) O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós, e O mulato, de Aluízio de Azevedo.

    • (B) Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, e Quincas Borba, de Machado de Assis.

    • (C) Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, e São Bernardo, de Graciliano Ramos.

    • (D) Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano e O seminarista, de Bernardo Guimarães.

    • (E) Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo, e Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.

      • 4. (UEL) Leia o trecho a seguir. Como um rochedo pendurado sobre as ribanceiras do mar, que, estalando, rola pelos despenhadeiros e abrindo um abismo se atufa nas águas, assim o cavaleiro desconhecido, rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde mais cerrado em redor de Teodomiro e Muguite fervia o pelejar.

(HERCULANO, A. Eurico, o presbítero. 2.ed. São Paulo:

Martin Claret, 2014. p.85.)

No romance Eurico, o presbítero, há um diálogo com a história da formação territorial da Península Ibérica.

Nesse sentido, alguns episódios retomam batalhas reais com o intuito de afirmar o heroísmo português frente aos árabes. Associado a certo “realismo” histórico, no entanto, encontra-se a figura do herói, representada por Eurico. Como a imagem do herói está construída nesse cenário real de batalhas?

  • 3. (URCA) Marque a alternativa INCORRETA acerca de Alexandre Herculano e/ou sua obra:

    • (A) Viagens na minha Terra é uma obra de Alexandre Herculano que se classifica entre a prosa de ficção e as memórias de viagens.

    • (B) Eurico, o Presbítero é considerado o melhor romance de Alexandre Herculano.

    • (C) O Monge de Cister aborda aspectos históricos e culturais de Portugal.

    • (D) Sua obra insere se no contexto do Romantismo português.

  • (E) Temas religiosos, históricos e medievais estão presentes na prosa de Alexandre Herculano.

11
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Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano

(UEL)

Leia

o

trecho a seguir

e responda às

questões 5 e 6.

 

Assinale a alternativa correta.

  • (A) Somente as afirmativas I e II são corretas.

O presbítero Eurico era o pastor da pobre paróquia de Carteia. Descendente de uma antiga família bárbara, gardingo na corte de Vítiza, depois de ter sido tiufado ou milenário do exército visigótico vivera os ligeiros dias da mocidade no meio dos deleites da opulenta Toletum. Rico, poderoso, gentil, o amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da sua felicidade. Namorado de Hermengarda, filha de Favila, Duque de Cantábria, e irmã do valoroso e depois tão célebre Pelágio, o seu amor fora infeliz. O orgulhoso Favila não consentira que o menos nobre gardingo pusesse tão alto a mira dos seus desejos. Depois de mil provas de um afeto imenso, de uma paixão ardente, o moço guerreiro vira submergir todas as suas esperanças. Eurico era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las. Desventurado, o seu coração de fogo queimou-lhe o viço da existência ao despertar dos sonhos do amor que o tinham embalado. A ingratidão de Hermengarda, que parecera ceder sem resistência à vontade de seu pai, e o orgulho insultuoso do velho prócer deram em terra com aquele ânimo, que o aspecto da morte não seria capaz de abater. A melancolia que o devorava, consumindo-lhe as forças, fê-lo cair em longa e perigosa enfermidade, e, quando a energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do túmulo, semelhante ao anjo rebelde, os toques belos e puros do seu gesto formoso e varonil transpareciam-lhe a custo através do véu de muda tristeza que lhe entenebrecia a fronte. O cedro pendia fulminado pelo fogo do céu.

(HERCULANO, A. Eurico, o presbítero. 2.ed. São Paulo:

Martin Claret, 2014. p.26-27.)

  • 5. Sobre o romance Eurico, o presbítero, considere as afirmativas a seguir.

    • I. A história das personagens se passa em meio às lutas pela defesa do território da Península Ibérica diante da tentativa de dominação pelos muçulmanos.

II. A guerra santa, que é pano de fundo do romance, diz respeito ao contexto da reforma protestante, em que católicos e reformistas se enfrentam em batalhas sangrentas.

III. Hermengarda escapa do clichê romântico e é a única personagem da obra cujo final é feliz, visto que consegue se casar com um soldado e dar à luz três filhos.

IV. Romance da primeira geração romântica, coloca a história de amor em segundo plano, na medida em que evidencia a questão histórica.

  • (B) Somente as afirmativas I e IV são corretas.

  • (C) Somente as afirmativas III e IV são corretas.

  • (D) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.

  • (E) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.

6.

na o presbítero e, especificamente,

Com base

leitura

do

romance

Eurico,

do

trecho

apresentado, é correto afirmar que este é

o

momento em que o narrador conta

  • (A) a saga de Eurico perante sua família e a de Hermengarda, que eram as responsáveis pelo seu sofrimento.

  • (B) o desencanto de Eurico diante de um amor impossível, o que o levaria a dedicar sua vida a professar a fé.

  • (C) como Eurico abandona a batina para lutar por seu grande amor, a nobre Hermengarda.

  • (D) como Eurico se torna um guerreiro contra a Igreja Católica, a quem responsabiliza pelo fim de seu noivado.

  • (E) como Hermengarda abandona Eurico diante do altar, apenas porque ele não é de família nobre como a dela.

gABARITO

1.a) Hermengarda: há a predominância de traços espirituais sobre os físicos Clarinha: os atributos físicos dominam nessa personagem. b) O primeiro romântico, idealizado; o segundo naturalista, mais preso a uma visão materialista e cienfiticista.

2.D 3.A 4.O romance Eurico, o presbítero pertence à primeira fase do Romantismo português e apresenta feição histórica e nacionalista, na medida em que retoma a formação territorial da Península Ibérica, atribuindo aos portugueses uma imagem de heroísmo. O autor se utiliza de uma série de eventos verídicos, como, por exemplo, a invasão ao convento pelos árabes, além de várias batalhas enfrentadas pelos povos ibéricos. A organização social da época, com suas “leis, usos e costumes”, é base da representação histórica do romance, que prima pela valorização dos heróis nacionais. Nesse sentido, Eurico encarna o herói que representa todo o povo português e sua coragem diante dos “invasores bárbaros”, capazes de atos desumanos, como estuprar freiras indefesas. O jovem presbítero não luta apenas pela manutenção do território com os povos ibéricos, mas também para difundir a religião católica, representada como a única capaz de levar ao reino dos céus. Nesse sentido, a sua religiosidade surge como um dado essencial para a formação de seu caráter de herói sobre-humano, um indivíduo com força e coragem acima do homem comum e que vence batalhas que já haviam sido dadas como perdidas por um exército inteiro. Eurico, o presbítero traz, portanto, o diálogo com a História, ao mesmo tempo em que apresenta um indivíduo legendário, que mistura características humanas à fantasia do super-herói.

5.B 6.B 12
5.B 6.B
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O pagador de promessas de Dias Gomes
O pagador de promessas
de Dias Gomes

Alfredo de Freitas Dias Gomes nasceu em 1922 e faleceu em 1999. Autor de diversas peças de teatro e novelas de sucesso, entre as quais Bandeira 2, 1971; O Bem Amado, 1973; Saramandaia, 1976; Roque Santeiro, 1985. Sua marca, tanto como teatrólogo como autor de novelas, é a observação da realidade brasileira, revelada em meio a muito fantasia, formando assim um realismo-fantástico. Outra característica de sua produção é a presença constante de cultura popular, com todos os seus componentes, como crendices, danças e comidas típicas de determinadas regiões, em especial o Nordeste.

Em O pagador de promessas, escrito em 1960, há isso tudo. A história se passa em Salvador, na parte mais velha da cidade, onde permanecem traços colonialistas. O objetivo é marcar o cenário pelo contraste, elemento que dá sustentação à peça.

No caso, há um Brasil antigo, religioso e rural, personificado em Zé-do-Burro, em contraste com outro, moderno e dinâmico. Na peça, o drama é estabelecido pelo fosso que separa as duas realidades, os dois Brasis, por assim dizer. Não se compreendem as razões da existência do outro. Confrontados, erige- se um labirinto, cuja saída só pode ser trágica.

A peça, que ganhou diversos prêmios, entre eles o Prêmio Nacional de Teatro, de 1960, bem como a Palma de Ouro, no Festival de Cannes de 1962 em sua versão cinematográfica, é dividida em três atos. No primeiro, acompanhamos a chegada de Zé-do-burro e sua esposa Rosa à praça da Igreja de Santa Bárbara em Salvador. Ainda é madrugada, por isto encontram a igreja com as portas fechadas. Sua promessa era trazer do sítio onde morava, há sete léguas, ou cerca de 40 km, uma cruz de madeira e depositá-la no altar. Conforme a promessa feita, Zé deveria cumpri-la no dia em que se homenageia a santa guerreira, no caso dia 04/12.

O espectador percebe já o primeiro contraste:

enquanto Zé é um homem contemplativo, desligado das coisas terrenas, cuja fé é mais importante que qualquer coisa, Rosa tem outros desejos. Quer uma vida melhor e sua fé não é tão forte quanto a do marido. Segue-o mais por obrigação que por convicção. Além disso, procura esconder uma sensualidade latente. Neste primeiro ato, conhecemos outros dois personagens:

Bonitão e Marli. Um cafetão e sua prostituta preferida, ao menos a que lhe dá mais dinheiro. O papel de bonitão é o de, sutilmente, plantar a discórdia entre Zé e Rosa. Como era de madrugada, Bonitão propôs ao casal que fosse dormir num hotel à espera da abertura da igreja. Zé não quis deixar a cruz, como medo de a roubarem, mas permite que Rosa vá ao hotel dormir um pouco. Bonitão deixa Marli ir embora e leva Rosa ao hotel, onde a seduz.

Há na peça quase naturalmente o sincretismo religioso. Quase naturalmente porque a história se passa em Salvador; na Bahia onde foi rezada a primeira

missa e para onde foram levados os primeiros escravos com suas crenças e deuses. Como é de conhecimento comum, o sincretismo religioso entre o cristianismo, a Igreja Católica, e o candomblé se deu à época da colonização, e mesmo no Brasil Império por conta da proibição de os negros manifestarem sua fé de origem. Assim, os orixás dos candomblés foram relacionados aos santos católicos. No caso, toda a peça gira em torno de Santa Bárbara, conhecida por ser uma santa guerreira e ter como armas o relâmpago e o raio. O orixá equivalente é Oyá ou Iansã, também senhora dos raios e das tempestades. Outra atribuição de Yansã é ser deusa dos cemitérios, dos mortos. A propriedade de Santa Bárbara e Yansã fica mais clara no final da peça. Mas não adiantemo-lo. Analisemos antes outros aspectos presentes em O pagador de promessas.

O drama da peça se dá exatamente por conta do sincretismo. Zé-do-Burro tinha essa alcunha por ter como principal companheiro um equus asinus, ou seja, um burro. O espectador fica sabendo qual promessa fizera e por que apenas no segundo quadro do primeiro ato. O burro se chama Nicolau, que, pela tradição cristã, significa o que ajuda os outros. O nome também pode ser uma referência a são Nicolau, que acabou dando origem ao Papai Noel. Dessa feita, Nicolau é para o personagem Zé-do-burro praticamente um ser humano, a quem trata como a um igual. Em um dia de grande tempestade, Nicolau se protegia sob uma árvore quando um raio a atingiu e derrubou-a na cabeça do burro. Devido à clara crendice, Zé fez uma promessa à santa Bárbara que se o burro se curasse, levaria uma cruz tão pesada quanto a de Cristo até a igreja mais perto dedicada à santa. E assim o faz. No entanto, fizera promessa em um terreiro de Candomblé. Em sua simplicidade, Zé-do-burro não cometera qualquer falha grave. Fizera a promessa e vinha agora pagá-la, porém impedido pelo padre local, chamado Pe. Olavo.

Zé – Padre, é preciso explicar que Nicolau não é

um burro comum

por isso

...

o senhor não conhece Nicolau,

... é um burro com alma de gente

...

Padre – Pois nem que tenha alma de anjo, nesta igreja você não entrará com essa cruz! (p. 38)

Em favor dessa deliberação, padre Olavo busca argumentos teológicos para impedir a entrada do pagador de promessa no interior da igreja. Entre os quais, parte do princípio de que a caminhada do

sitiante teria uma intenção oculta: a de imitar Cristo e de a ele igualar-se, não do modo pelo qual todo fiel deveria fazer, e sim para ombrear o ato salvifíco de Cristo.

Padre – Isso prova que você está sendo submetido a uma tentação ainda maior. Zé – Qual, padre? Padre – A de igualar-se ao Filho de Deus. Zé – Não, padre. Padre – Por que então repete a Divina Paixão? Para salvar a humanidade? Não, para salvar um burro! (p. 37)

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O pagador de promessas, de Dias Gomes

O pagador de promessas, de Dias Gomes

Assim, a promessa do Zé-do-Burro é interpretada pelo padre como uma afronta a Deus e à autoridade da Igreja. Não consegue compreender em sua simplicidade a promessa do sitiante, que por sua vez também não compreende o porquê o impendem de entrar na igreja e cumprir a promessa. Com isso, Zé-do-Burro tem um caminho trilhado em direção à sua martirização, a despeito de seu real propósito. Zé é um mártir sem querer ser. Apoiado por uma fé incondicional, que beira ao fanatismo, trilha o caminho da sua crença em meio às forças e instituições da civilização contemporânea. Como D. Quixote, não consegue se fazer entender, nem é capaz de entender as ideologias. Assim, a peça se constitui numa espécie de tragédia moderna com um herói sem a consciência do papel que acaba exercendo; sua simplicidade é densa e responsável pela tragédia que Rosa antevê. Embora sem o mesmo significado que nas tragédias gregas, em que o destino é força catalizadora dos personagens, em que os deuses cumprem papel determinante para o cumprimento desse destino, em O pagador de promessa o destino é fruto das ações humanas, mesmo assim Zé-do-Burro é um Édipo que não consegue e não quer fugir a seu destino, traçado por ele mesmo, mas, segundo sua leitura, com a anuência de Santa Bárbara/Yansã, que salvara seu burro da morte.

Zé – Sarou em dois tempos. Milagre mesmo. No outro dia já estava de orelha em pé, relinchando. E uma semana depois todo o mundo me apontava na rua: - “Lá vai Zé-do-Burro com o burro de novo atrás!” E eu nem dava confiança. E Nicolau muito menos. Só eu e ele sabíamos do milagre. Eu, ele e Santa Bárbara. (p. 36)

Como não pode se liberar da promessa até que esteja cumprida, seu destino é, neste sentido, traçado por forças externas a ele, qualquer coisa que faça o levará a cumprir seu destino, que só pode ser trágico.

Zé – O senhor me liberta

mas não foi ao senhor

... que eu fiz a promessa, foi a Santa Bárbara. E quem me garante que como castigo, quando eu voltar pra minha roça não vou encontrar meu burro morto. (p. 72)

Uma outra característica do teatro clássico presente na peça de maneira modificada é a personificação de arquétipos, de tipos representativos da sociedade. Isso pode ser verificado na Farsa Atelana ou nas peças de Gil Vicente, em que não há aprofundamento psicológico dos personagens, mas apenas conhecemo-los pelas ações e por nomes genéricos: o padre, o fidalgo etc. No caso do teatro de Dias Gomes, cada personagem tem seu nome, ou ao menos uma alcunha, como o gigolô Bonitão, mas particularmente em O pagador de promessas, as individualidades são arquetípicas, lembrando, pois, o teatro clássico. Há o padre, representando a Igreja, há o guarda, representando a força pública; há o repórter, obviamente fazendo o papel da imprensa; há as pessoas comuns, que representam o povo; embora não apareça nenhum político, fica sugerida sua

presença quando o repórter pensa ser o Zé-do-Burro um político se autopromovendo. Assim, a sociedade como um todo tem seu representante na peça. E essa é a ideia do teatro de Dias Gomes, marcado por explícita preocupação político-social.

O terceiro e último ato da peça inicia-se com uma roda de capoeira. Era já o final da tarde do dia 04 de dezembro. Zé-do-Burro estava na praça havia mais de 12 horas. A roda de capoeira é marcada por canto e dança; na peça, a cantoria ganha uma dimensão extra, o coro da cantoria faz mais uma vez o espectador evocar aspectos do teatro clássico, a presença de um coro, ou seja, grupo de pessoas representando a consciência social; o coro era responsável pela análise moral, pelo comentário que fazia o espectador da tragédia compreender ao que estava assistindo. O coro em O pagador não comenta, antes brinca e serve para compor o cenário, a roda da capoeira, no entanto, implicitante, anuncia o que virá, demonstra que não há mais como o caminho escolhido pelo sitiante levá-lo a cumprir seu intento. Diz o mestre do coro:

Vou pidi a Santa Bárbara. Pra ela me ajudá Coro – Santa Bárbara que relampuê/ Santa Bárbara que relampuá. (p. 78)

O refrão é repetido em ritmo acelerado vários vezes, acompanhado pela dança, pelo jogo da capoeira. Embora no texto escrito isso não seja explícito, a encenação leva o espectador a perceber que a senhora dos raios e relâmpagos logo se manifestará e o choque terá um fim não feliz. Não se deve entender, porém, que a peça encerre uma defesa do candomblé em detrimento do catolicismo, do cristianismo. O objetivo maior é mostrar como o Brasil é um país de contraste e que o mito propalado da cordialidade, da democracia cultural e racial, em que todos teriam seu espaço, em que todos poderiam manifestar-se livremente, revela- se uma falácia. Essa democracia existe até o ponto em que não altera a ordem estabelecida.

A intransigência do padre em negar ao sitiante o cumprimento de sua promessa é a mesma que tem a autoridade policial, que vê na atitude do personagem um desrespeito à autoridade e uma ameaça à ordem. Por outro lado, embora consiga a simpatia de Minha tia, dona de um tabuleiro, do poeta malandro Dedé e do Galego, dono de um bar em frente à igreja, nenhum é capaz de compreender por inteiro o porquê da insistência de Zé-do-Burro em cumprir sua promessa. Mesmo assim, acabam apoiando-o porque vêem nele a possibilidade de ganhar algo, sobretudo o Galego, que as vendas aumentarem significativamente nesse dia a ponto de oferecer ao sitiante e à sua esposa Rosa comida de graça. Mesmo Rosa não compreende o porquê do radicalismo do marido, e vê na situação a possibilidade de ter uma vida melhor. Não é por acaso que, a despeito de algum pudor e remorso, entrega-se ao prazer com Bonitão. Ele promete a ela dar-lhe uma vida melhor, mais digna:

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O pagador de promessas, de Dias Gomes

O pagador de promessas, de Dias Gomes

Bonitão – Se você viesse pra cidade, eu podia lhe garantir um bonito futuro ... Rosa – Fazendo o quê? Bonitão – Isso depois se via. Rosa – eu não sei fazer nada. Bonitão – Mulheres como você não precisam

saber coisa alguma, a não ser o que a natureza

ensinou

...

(p. 24)

No entanto, percebe a real intenção de Bonitão. Ainda assim Rosa libera-se sexualmente e tem seu drama particular, que se resume em voltar a ser fiel ao marido e manter-se presa a uma realidade arcaica, asfixiante para ela ou conquistar a liberdade definitiva e realizar-se por inteiro como mulher, como participante de um mundo em transformação.

Depois, quando o repórter aparece para fazer uma matéria sobre o que estava ocorrendo, Rosa fica feliz ao ser fotografada e sonha com a possibilidade de ser conhecida por meio de um jornal. Seria talvez o caminho para escapar às forças do destino.

Rosa – (Ela vislumbrou nas palavras do repórter uma possibilidade confusa de libertação, ouviu- as num entusiasmo crescente) Oxente! Não seja estúpido, homem! O moço está querendo a gente. (p. 53)

Ela diz isso ao ouvir que o repórter estava organizando entrevistas, apresentações para que Zé contasse sua história a mais gente. Seria assim meio de libertar-se por completo de um estilo de vida arcaico, que impedia uma experiência mais ampla da própria vida.

Mulher do sitiante, Rosa cumpre também o papel de antagonista, posto que o trai e não se deixa absorver inteiramente pela crença do marido. Porém, antevendo a tragédia para qual se encaminha Zé-do-Burro, tenta dissuadi-lo da promessa, sobretudo no final da peça. O máximo que obtêm dele é a certeza de que irá embora ao final do dia dedicado à santa Bárbara.

Zé – Esta noite a gente vai embora. Rosa – E por que não agora? Zé – Vamos deixar passar o dia de santa Bárbara. Rosa – De noite, talvez seja tarde ... Zé – Tarde pra quê? Rosa – Pra voltar! (p. 85)

O contraste no qual se assenta a peça também passa pela presença da sociedade de consumo, capitalista, cujo processo de formação se ampliava na década de 1960, momento da redação e encenação do texto. Este papel está representado pelo vendeiro, o Galego, mas especialmente pelo repórter, que, para ajudar a promover o jornal pelo evento do pagador de promessa, consegue patrocínio de empresas, as quais cedem algum produto que poderia servir de uso pelo sitiante.

Neste instante, entram os capoeiristas conduzindo primeiro uma tenda de pano já armada e em seguida um colchão de molas. Na tenda, há um letreiro: Oferta da Casa da Lona. No colchão há outro: Gentileza da Loja Sonho Azul. Com enorme

espanto de Zé-do-Burro e Rosa, eles colocam a barraca no meio da praça e o colchão dentro da barraca.

Repórter – Fomos aos nossos clientes e eles se dispuseram prontamente a colaborar conosco. (p. 86)

Isto ocorre porque o repórter a todo instante faz uma interpretação à luz do que ele conhecia, do contexto com o qual estava acostumado. Num país que, impulsionado pelo Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek (1955-1961), cujo objetivo era levar modernidade a todas as regiões brasileiras, soava estranho a alguns a permanência de uma crendice tão piegas, no caso acreditar que uma santa ou uma orixá pudesse intervir para salvar um burro. Assim, para o repórter tudo não passaria de um golpe publicitário, com objetivo claramente político, visando às próximas eleições.

Repórter – Hum

bem me pareceu que por trás

... dessa história do burro, da promessa, havia

qualquer coisa

uma intenção oculta e um

... objetivo político. A polícia, naturalmente, percebeu também. (p. 87)

Em resumo, o padre interpreta o ato como uma afronta à autoridade eclesiástica e à História Sagrada, o repórter o vê como um golpe político, a polícia como um ato de desordem, o povo em geral trata Zé-do-Burro como um louco, ainda que possa ser visto também como herói, Rosa o considera seu atraso, mas a quem deve respeito como esposa, a despeito de tê-lo traído com Bonitão; no fim, o próprio Zé-do-Burro chega a pensar que teria sido traído pela santa de sua devoção. Apenas não abandona o cumprimento da promessa por um fanatismo no compromisso assumido.

Outro aspecto a se considerar na peça diz respeito à reforma agrária. Se nos últimos vinte anos passou a ser plano efetivo de governo, com assentamento de milhares de famílias, no final da década de 1950 e início dos anos 60, eram antes um projeto, praticamente interrompido com o governo militar em 1964. Não que a peça aprofunde o debate ou ao menos faça uma discussão rasa sobre o assunto, há tão somente uma alusão ao tema, quando, de passagem, Rosa diz a Bonitão no primeiro ato que dividir parte de sua propriedade, que era pouca, entre os agricultores sem terra como complemento da promessa. Bonitão interpreta o ato de maneira debochada, o repórter, porém, ao saber disso, escreve na reportagem que Zé- do-Burro era a favor da Reforma Agrária no país.

Repórter – Repartir o sítio

diga-me, o senhor é a

... favor da reforma agrária? Zé – (não entende) Reforma agrária? Que é isso?

Repórter – É o que senhor acaba de fazer em seu sítio. Redistribuição das terras entre aqueles que não as possuem. (p. 51)

Temos na figura do repórter, cujo trabalho principal é com a linguagem, apontamentos sobre o processo criativo, sobre a ficcionalização da realidade. Ora, ao repórter, isto é, à imprensa interessa mais a

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O pagador de promessas, de Dias Gomes

O pagador de promessas, de Dias Gomes

construção verossímil de fatos, por meio do texto jornalístico que propriamente a verdade factual. Claro, Dias Gomes escreve num período em que a preocupação ética da imprensa parecia menor em comparação com o momento atual. De qualquer modo, é visível o poder da mídia em geral de criar factóides, de criar heróis efêmeros, seja com objetivo político, meramente comercial ou ambos. O próprio Dias Gomes exploraria mais tarde o processo de criação de falsos heróis ou santificações de pessoas comuns na novela Roque Santeiro, escrita em 1975, mas que, por conta da censura militar, só pôde ir ao ar em entre 1985 e 1986.

Esse processo é largamente explorado nas diversas referências bíblicas. A mais forte está na associação feita pelo padre e pelos populares entre

Zé-do-Burro e Jesus Cristo. O primeiro de modo negativo, os segundos como um santo popular, incompreendido pelo discurso oficial eclesiástico e laico. No entanto, essa relação é estabelecida antes pelo próprio narrador da peça, quando, na apresentação do “Primeiro Quadro”, diz tratar-se de “um homem ainda moço, de 30 anos presumíveis, magro, de estatura

média. (

...

)

Tem barba de dois ou três dias e traja-se

decentemente, embora sua roupa seja mal talhada e esteja amarrotada e suja de poeira.” (p. 13) Uma descrição que faz o leitor/espectador lembrar-se de Jesus de Nazaré, sobretudo porque, como se sabe, iniciou sua pregação pública aos 30 anos. Ao final, após a morte de Zé-do-Burro, os populares pegam- no e o colocam sobre a cruz; em procissão, levam-no finalmente para dentro da igreja, ante a impassibilidade das autoridades religiosa e policial.

Dias Gomes, de certa forma, recupera, com esta peça, a origem do teatro pela temática religiosa. Obviamente que aqui o tratamento é crítico e irônico. Mesmo assim, erige-se um personagem com características religiosas para além da sua consciência.

Toda a história tem uma sequência linear, com progressão contínua, sem flash back ou tergiversações, que costumam romper a linearidade. Isto também colabora para a tipificação dos personagens, ou seja, são indivíduos que representam uma coletividade. Já nos referimos a alguns personagens neste sentido, lembremos apenas de mais um, no caso a beata, que carrega em si todos os estereótipos desse tipo de personagem. Temente a Deus, à autoridade do padre, suas roupas sóbrias indicam claramente tal característica, é incapaz de pensar por si mesma, tudo o que diz ou suas ações denotam a subserviência temerária a que está sujeita.

Beata – É o cúmulo! Ainda está aí!

Minha tia – Não vai abrir a igreja hoje, Iaiá? Dia de Santa Bárbara ... Beata – Não enquanto esse indivíduo não for embora. Minha tia – Que foi que ele fez? Beata – Quer entrar com essa cruz na igreja. (

...

)

promessa de candomblé. (

...

)

Herege! (p. 44-45)

Por fim, vale a pena chamar a atenção para o tipo de rubrica que é usado no texto de Dias Gomes. Além das tradicionais indicações feitas para o ator e o diretor da peça, o autor do texto faz algumas rubricas que quase se assemelham, em função, a um narrador (e isso não existe em peças de teatro, a não ser quando se trata de personagem-narrador). Elas são altamente descritivas e dão detalhes extremamente minuciosos sobre os personagens, o que delimita muito bem as possibilidades de improvisação dos atores, pois indicam mais do que as ações daqueles, descrevendo características psicológicas que poderiam estar presentes nas falas.

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O pagador de promessas, de Dias Gomes

O pagador de promessas, de Dias Gomes

EXERCÍCIOS

  • 1. (CEFET-PR) Leia atentamente as afirmações abaixo sobre O Pagador de Promessas e assinale a verdadeira:

    • (A) Zé-do-Burro e sua esposa, Rosa, mantêm um relacionamento amoroso conflituoso devido a ele ser um revolucionário do campo e ela, uma beata devota.

    • (B) O Secreta, o Delegado e o Guarda demonstram a nova face da polícia, após a ditadura de Vargas, preocupada com os direitos humanos.

    • (C) Minha Tia e Mestre Coca são representantes do povo, católicos ardorosos, que se revoltam com as heresias cometidas por Marli e Zé-do- Burro.

(D) Bonitão

e

Marli

são

o

exemplo

de

um

relacionamento moderno, em que homem e mulher usufruem dos mesmos direitos.

  • (E) O Monsenhor e Padre Olavo representam a rigidez de princípios teóricos da doutrina católica diante de situações práticas inusitadas.

  • 2. (UTFPR) Em O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, “ABC da Mulata Esmeralda” de Dedé Cospe-Rima que conta a história dessa mulher, “desde o nascimento, no Beco das Inocências, até a morte, por trinta facadas, na Rua da Perdição”, é de certa forma um prenúncio da própria história narrada na peça, pois: Encontre a faculdade certa pra você

    • I. a mulher de Zé-do-Burro é morta com trinta facadas quando se aproxima da roda de capoeiristas.

II. a trajetória dos personagens Zé-do-Burro e Rosa segue o mesmo caminho, da inocência à perdição.

III. Zé-do-Burro, trinta anos presumíveis, acaba morto na “rua da perdição” de sua mulher, que o traiu.

Está(ão) correta(s) somente:

(A)

I.

(B)

II.

(C)

III.

(D)

II e III.

(E)

I e II.

  • 3. (UTFPR) Em O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, o personagem central, Zé-do-Burro, é casado com uma mulher que, segundo a rubrica

da peça, “parece pouco ter de comum com ele.

(

)

Ao contrário do marido, tem “sangue quente”.

dá quando ela:

 

(A)

sem resistir, seduzida por Bonitão, entrega-se ao sensual cafetão traindo o marido.

(B)

enfrenta a vendedora de Beiju

devido aos

ciúmes que sente do relacionamento desta

com o marido.

  • (C) bate na prostituta, até matá-la, pela traição em roubar-lhe o amante, Bonitão.

  • (D) cansada do descaso de Zé-do-Burro, quebra a cruz, impossibilitando-o de cumprir sua promessa.

  • (E) delata o marido para o Secreta a fim de vingar- se da traição de Zé-do- Burro com Iansan.

  • 4. (UTFPR) Leia atentamente os excertos de rubricas retirados da peça O Pagador de Promessas, de Dias Gomes.

    • I. “É uma bela mulher, embora seus traços sejam um tanto grosseiros, tal como suas maneiras. (

)

É agressiva em seu “sexy”, revelando,

... logo à primeira vista, uma insatisfação sexual e uma ânsia recalcada de romper com o ambiente em que se sente sufocar. Veste-se como uma provinciana que vem à cidade, mas também como uma mulher que não deseja ocultar os encantos que possui”.

II. “Ela tem, na realidade, vinte e oito anos, mas aparenta mais dez. Pinta-se com exagero, mas mesmo assim não consegue esconder a tez amarelo-esverdeada. Possui alguns traços de uma beleza doentia, uma beleza triste e suicida. Usa um vestido muito curto e decotado, já um

tanto gasto e fora de moda, mas ainda de bom efeito visual. Seus gestos e atitudes refletem o conflito da mulher que quer libertar-se de uma tirania que, no entanto, é necessária ao seu

equilíbrio psíquico

...

”.

Em relação às assertivas I e II é correto afirmar que:

  • (A) em I e II tem-se a descrição da mesma mulher, Rosa, amante de Bonitão, o malandro cafetão.

(B) em

I tem-se

a

descrição de

Rosa, mulher

do personagem principal de O pagador de promessas.

  • (C) em II tem-se a descrição de Rosa, amante de Bonitão, o malandro cafetão.

  • (D) II tem-se a descrição de Marli, mulher do personagem principal de O pagador de promessas.

em

  • (E) em I e II tem-se a descrição da mesma mulher, Marli, mulher do personagem principal, Zé-do-Burro.

  • 5. (UTFPR) Na obra O Pagador de Promessas, circulam pela praça, onde se passa a história, diversos personagens que retratam diferentes questões. Estabelecendo uma correlação entre personagens e temas, teremos:

    • I. Zé-do-Burro e a fé; Padre Olavo e a

intransigência II. Bonitão e o amor; Rosa e a traição III. Galego e a ambição; Mestre Coca e o sentimento de coletividade IV. Repórter e a vaidade; Marli e a pureza

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O pagador de promessas, de Dias Gomes

Estão corretas somente as assertivas:

  • (A) I e II.

  • (B) III e IV.

  • (C) II e III.

  • (D) II e IV.

  • (E) I e III.

  • 6. (UEL) Sobre o motivo da jornada da personagem Zé-do-Burro até Salvador, no livro O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, assinale a alternativa correta.

    • (A) Pagamento de promessa pela conquista de suas terras.

    • (B) Pagamento de promessa pela recuperação de Rosa.

    • (C) Pagamento de promessa pelo restabelecimento do burro.

  • (D) para

Pretexto

fazer

campanha

a

favor da

reforma agrária.

 
  • (E) Pretexto para protestar contra a ditadura.

  • 7. (UEL) Sobre as personagens de O Pagador de Promessas, assinale a alternativa correta.

  • (A) e

Galego

Bonitão

são

artistas

populares

nordestinos.

  • (B) Minha Tia e os capoeiristas são católicos praticantes do candomblé.

  • (C) O repórter e o fotógrafo são policiais disfarçados que manipulam Zé-do-Burro.

  • (D) O

padre

e

a

beata ilustram a intolerância

religiosa.

 
  • (E) Rosa e Marli representam o movimento de liberação feminina dos anos 1990.

  • 8. (UEL) Com base em O Pagador de Promessas, assinale a alternativa que apresenta, corretamente, o parecer crítico que analisa a obra.

    • (A) “A mola propulsora da peça – o autor deixou bem claro – é a espinafração.”

    • (B) “Nunca um escritor nacional se preocupou tanto em investigar sem lentes embelezadoras a realidade, mostrando-a ao público na crueza de matéria bruta.”

    • (C) “Sério exercício de introspecção, o texto se passa em uma viagem de volta ao interior, ao encontro do pai distante.”

    • (D) “O espectador

que

desejar

a

diversão

desabrida da farsa encontrará na peça um motivo inesgotável de comicidade.”

  • (E) “Essa intolerância erige-se, na peça, em símbolo da tirania de qualquer sistema organizado contra o indivíduo desprotegido e só.”

    • 9. (UEL) Sobre o intertexto bíblico presente em O Pagador de Promessas, considere as frases a seguir. I.

“Mas eu conheço seus adeptos! Mesmo quando se disfarçam sob a pele do cordeiro!”

II. “Por que então repete a Divina Paixão? Para salvar a humanidade?”

III. “Uma epopeia. Uma nova Ilíada, onde Troia é a Lua e o cavalo de Troia é o cavalo de São Jorge!”

IV. “É até bom demais. Nunca fez mal a ninguém, nem mesmo a um passarinho.”

Assinale

a

alternativa

que

apresenta,

corretamente, frases com intertexto bíblico.

  • (A) Somente as frases I e II.

  • (B) Somente as frases I e IV.

  • (C) Somente as frases III e IV.

  • (D) Somente as frases I, II e III.

  • (E) Somente as frases II, III e IV.

gABARITO

 

1.E

2.D

3.A

4.B

5.E 6.C

7.D

8.E 9.A

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Toda poesia de Paulo Leminski
Toda poesia
de Paulo Leminski

Paulo Leminski nasceu em 1944 em Curitiba, mas morou um bom tempo em São Paulo, onde atuou como publicitário, compositor, professor, além de ter se aproximado da poesia concreta paulista. Faleceu prematuramente em 1989, deixando uma vasta obra poética, que foi publicada postumamente.

Leminski estreou na poesia publicando livros à maneira marginal, isto é, à margem das grandes editoras. Participou da chamada geração do mimeógrafo, porque muitas vezes era usando essa técnica meio caseira que se publicavam livros. O primeiro foi Quarenta clics em Curitiba, de 1976, a que se seguiram Polonaises, de 1980, Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase, também de 1980. Logo em seguida, publicou Caprichos e relaxos, em 1983, pela Brasiliense, uma das principais editoras do país, entrando assim, de vez, no mercado regular das edições no Brasil. O segundo e o terceiro livro foram integrados a essa mesma edição da Brasiliense.

Depois, vieram Distraídos Venceremos, também pela Brasiliense em 1987; pela mesma editora La vie en close, já publicação póstuma de 1991, Winterverno, pela Fundação Cultural de Curitiba, em 1994 e O ex-estranho, pela Iluminuras, em 1996.

Todos esses livros, além de alguns outros poemas, sob o título de Poemas esparsos, integram o volume ora editado pela Companhia das Letras em 2013 e que já chegou a treze reimpressões, atestando, desse modo, a importância da poesia de Leminski no cenário literário nacional e mesmo internacional.

Escrever uma resenha sobre um livro de poesia é tarefa um tanto complexa, pois cada texto teria uma explicação específica. Que dirá então de uma coletânea com toda ou a maior parte da produção poética de um autor? Não há como, pois, darmos conta dessa tarefa. Queremos, de qualquer modo, destacar as principais linhas da poesia de Leminski, para que assim o leitor possa ter um fio condutor, como o fio de Ariadne, para poder entrar no labirinto e sair dele (caso queira) de uma poesia muito rica de significados e capaz de dialogar com a tradição e com o mundo contemporâneo, tão fluído e com pouco tempo para a própria poesia.

Há, pois, dois aspectos que temos de considerar na poesia de Leminski: sua preocupação com o fazer poético, o que inclui um cuidado na escolha dos termos, o modo de construir o texto, e, ao mesmo tempo, um certo relaxamento com esses aspectos, de modo a deixar fluir o texto naturalmente.

Trata-se de uma figura bifronte, que toma o texto poético ao modo romântico, do gênio criador, inspirado, e também ao modo racionalista, pelo qual procura trabalhar o texto, extraindo dele todas as possibilidades estéticas. Em outros termos, sua poesia fica entre o capricho, o cuidado e o relaxo, o descuido, o deixar fluir, bem no estilo entre o erudito e o marginal. Esse jogo criativo está presente nos títulos de alguns de seus livros: Caprichos & relaxos, Distraídos venceremos e O ex-estranho, por exemplo.

O planejado está na própria ideia de retomar toda uma tradição de poetas. Há um eu que fala, e um eu que dialoga com a tradição, seja a imediata, seja a que busca a universalidade. Em rigor, Leminski é um poeta inovador, mas que não despreza o que se fez antes dele, até porque reconhece toda uma tradição que vem dos gregos até os modernos, passando pelos clássicos e que ajudaram, de um modo ou de outro, a construir a poética. Sabe também na literatura, ou em qualquer processo criativo, a despeito da ideia de posse ou de propriedade intelectual, não existe algo exclusivo, tudo pertence a todos.

nada tão comum que não possa chamá-lo meu nada tão meu que não possa dizê-lo nosso [ ] ...

(2013, p. 41)

Essa comunhão tem um objetivo maior, que é o da universalidade da poesia. Embora haja autores que tenham uma preocupação com as questões nacionais, como Luis de Camões ou Fernando Pessoa, a poesia de ambos ultrapassa o próprio conceito de nacionalismo português, em busca de uma integração mais ampla, posto que são obras que também se comunicam com a tradição helênica, por exemplo. Nesse sentido, a poesia de Leminski, que tem com berço uma Curitiba, capital de um estado, mas provinciana em termos nacionais, quer a comunicação mais ampla, quer estabelecer pontos de contato com outros autores, e toda uma tradição inventiva, consoante até com o projeto da Poesia Concreta, de que fez parte quando morou em São Paulo.

um dia a gente ia ser Homero a obra nada menos que uma ilíada

depois a barra pesando dava pra ser aí um Rimbaud [ ] ...

por fim acabamos o pequeno poeta de província que sempre fomos [ ] ...

(2013, p. 71)

Há diversos outros poemas nessa linha, que buscam esse diálogo com a tradição, como “aviso aos náufragos”, em que há de novo uma retomada do poema de Homero, atualizando o princípio da busca, da conquista, da descoberta ou “limites ao léu” (p. 246), em que toma definições sobre linguagem e criação de diversos artistas, e conclui com uma frase sua mesmo: “a liberdade da minha linguagem”. Isto é, trata-se de um liberdade criativa, ao mesmo tempo

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Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

que uma relação constante que estabelece com outros criadores. Como exemplo, em “Papajoyceatwork”, temos um poema escrito à maneira do autor irlandês, James Joyce, com termos criados ou recriados, em português e em inglês

Mustmakesomething! Reverythming! (2013, p. 157)

Ou outros poemas, em que revela suas preferências, suas leituras e sua filiação literária, como “Rosa rilke raimundo correia” (p. 213). Outro é “m, de memória”, em que exalta o poder de determinados autores que continuam a ser lidos, relidos, lembrados, posto que no jogo entre ficção e realidade, entre vida literária e vida real, o que importa é o constructo que fazemos de tudo isso. O que é real vira ficção e vice- versa. Eis o papel fundador da literatura, de erigir mundos e reconstruir a realidade.

Leminski nem sempre obedece ao rigor do Haikai, embora a ideia (geral, particular, conclusão) seja respeitada. Em outros termos, nem sempre segue a quantidade de sílabas poéticas, nem mesmo a quantidade de versos, que deveriam ser sempre três, há alguns com quatro versos. Claro, alguém mais rigoroso poderia dizer: então não se trata de Haicai. Mas vivemos em tempos de renovação, reescrita, redescobertas e reinvenções. Pois bem, há um Haicai de particular importância, inclusive intitulado:

Mallarmé Bashô, que faz clara referência ao de Bashô já especificado.

Um salto de sapo jamais abolirá o velho poço

(2013, p. 306)

Os livros sabem de cor milhares de poemas. [ ] ... Ulisses voltou de Troia, Assim como Dante disse. [ ] ... Byron era verdadeiro. Fernando, pessoa, era falso. Os livros sabem de tudo. Já sabem desse dilema. Só não sabem que, no fundo, Ler não passa de uma lenda.

(2013, p. 226)

Seguindo dessa busca pela universalidade poética e comunicação com uma tradição, um tipo de poesia predominante na obra de Leminski é o Haicai, forma poética criada e desenvolvida por Bashô (1644- 1694), samurai, que após a morte de seu mestre, transformou-se em Rônin, um samurai sem mestre. Há uma série de Haicais em La vie en close, no caso da edição de que estamos nos servindo entre as páginas 306 e 322. Há outros tantos em Ideolágrimas. Além dos espalhados nos demais livros do autor e reunidos neste Toda Poesia.

Um Haicai é um poema de 17 sílabas, distribuídos em três versos (na tradução nem sempre se obedece a essa quantidade de sílabas), sendo o primeiro e o terceiro com cinco sílabas, e o do meio com sete. Este tipo de poema é baseado em certo silogismo. Um dos Haicais mais famosos de Bashô é o seguinte:

A velha lagoa o sapo salta o som da água

  • O primeiro verso expressa uma visão geral, o cosmos

A velha lagoa

  • No segundo verso, exprime-se o particular, um determinado evento O sapo salta

  • No terceiro, tem-se o resultado, a conclusão lógica entre o geral e o específico O som da água

Trata-se de uma dupla referência, primeiro ao famoso Haicai, de Bashô, depois ao título de um livro do poeta simbolista francês Stéphane Mallarmé (1842- 1898), Un coup de dès jamais n’abolira le hasard (um jogo de dados jamais abolirá o acaso).

Observe-se como Leminski estabelece uma relação entre os dois poetas para dizer que as coisas existem para além do que possamos querer, ou possamos controlar. Mesmo que se queira controlar o resultado do jogo ou se queira controlar a natureza, os acontecimentos estão repletos de acaso, de possibilidades.

O Haicai acaba servindo como mote para uma reflexão sobre questões comuns, situações exemplares, que podem servir como expressão do universal.

viver é superficial o mais fundo está sempre na superfície

(2013, p. 246)

São diversos haicais, uma de suas formas poéticas preferidas, e trata de diferentes temas. Considerando um dos pontos deste texto, podemos nos referir a mais um, em que se refere a um dos princípios criativos que norteiam sua produção poética, o diálogo.

lá vamos nós lendo sempre a mesma voz

(2013, p. 363)

No livro La vie en close, por referência a uma música interpretada pela cantora francesa Edith Piaf, La vie en rose, Leminski revela a vida ao saber do

acaso, mas também do controle, como um coup de dès, o jogo de dados de Mallarmé já referido acima, cujo resultado pode-se tentar, mas é de difícil previsão. Na música, Piaf canta a felicidade da descoberta do amor, do encontro feliz, canta a perfeita comunhão dos que se amam. Leminski, ao contrário, fala a respeito da necessidade de se submeter a alguns caminhos, por

isso a vida fechada, sem escolhas (la vie en close). Em rigor, até fazemos escolhas, mas essas escolhas já estariam definidas previamente.

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Toda poesia, de Paulo Leminski

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[ ] ... c’est la vie des choses qui n’ont pas un autre choix 1

(2013, p. 243)

Tal possibilidade de escolha está relacionado, mais uma vez, a esse princípio criativo que revela o jogo entre o acaso e o planejado. Ora, se as coisas não podem escolher, elas devem ser guiadas pelo acaso. Isso inclui a poesia, o objeto por excelência do poeta, que, como ser, quer fazer escolhas, quer planejar, direcionar. Nesse sentido, é preciso às vezes deixar- se levar, é preciso mesmo ir contra si mesmo, conta a lógica criativa, como propõe em “motim de mim”:

  • xx anos de xis,

xx anos de xerox,

  • xx anos de xadrez,

não busquei o sucesso, não busquei o fracasso, busquei o acaso, esse deus que eu desfaço.

(2013, p. 257)

Entenda-se xerox como a cópia ou diálogo com a tradição, e xadrez como a lógica, o planejado. Nessa linha, pode-se ler “ímpar ou ímpar”, “quem sai aos seus” ou “andar e pensar um pouco”. Todos publicados e em La vie en close.

Leminski é um desses poetas, como os escritores que lhe serviram de base (Rimbaud, Mallarmé, Joyce, Rosa, entre outros) que procura fazer uma revolução com a palavra, com o jogo poético, ao constantemente buscar novas formas de expressão. É bem verdade, porém, que, uma vez estabelecida sua linguagem, procurou manter-se naquela linha, qual seja: a do culto ao Haicai, à da poesia concreta, a da poesia fragmentada, a jogo entre o coloquialismo e a poesia erudita. Em todos esses casos, procurou tratar sobre questões comezinhas da vidas, isto é, sobre o cotidiano, mas também procurou explicações para a existência, explicações para as contradições da vida e para muitas vezes o sentimento de mal estar que acontece a qualquer um. A poesia seria, pois, um caminho entre o sentido da vida, se é que existe, e a própria vida. Esse papel mediador da arte e da linguagem não é nenhuma novidade. Remonta especialmente aos simbolistas, como Cruz e Souza, mas também a diversos outros artistas. De qualquer modo, Leminski procurou dar sua visão sobre esse ponto. E o fez de modo inventivo e provocador.

Mandei a palavra rimar, ela não me obedeceu. [ ] ... Mandei a frase sonhar, e ela se foi num labirinto. Fazer poesia, eu sinto, apenas isso. Dar ordens a um exército, para conquistar um império extinto.

(2013, p. 190)

1 “É a vida das coisas que não têm outra escolha”

Ou mais adiante:

Ambígua volta em torno da ambígua ida, quantas ambiguidades se pode cometer na vida? [ ] ...

(2013, p. 194)

Nessa linha de reflexão sobre a linguagem poética, uma das questões levantadas por Leminski e por tantos outros escritores é o que significa ser poeta. Qual o papel da poesia no mundo moderno? Ora, talvez a condição do poeta e da própria poesia seja a de exercer um papel de estranheza, de desleixo, mas ao mesmo tempo é conhecida, é algo comum, posto que seu material de trabalho é a palavra, é a

língua, sem a qual a comunicação se realizaria com a maior dificuldade. Além de que a linguagem cria e

recria o mundo. Explicando melhor, o mundo moderno (entenda-se desde o século XIX), é marcado pela busca frenética por dinheiro, por mercados, é o mundo baseado na economia, nas relações comerciais. Assim, quanto dinheiro dá a poesia? Que tipo de produto é a poesia? O que fazer com ela e como negociá-la? Ora, essas perguntas não têm respostas certas. Em rigor, claro, poesia é transformada em livro e livros são vendidos. Porém, há dois pontos: excluindo um autor ou outro, poesia vende muito pouco, não compensa financeiramente às editoras; segundo, para além dessa questão econômica, poesia é um trabalho com a palavra e vai muito além de aspectos econômicos. Então, volta-se à pergunta: qual o papel do poeta e da poesia no mundo moderno? Observe como o poeta, em uma autorreferência, buscar compreender esse papel e como ele pode ser visto pela sociedade, aquele que chama a atenção e atrapalha a vida dos que seguem o padrão:

o pauloleminski é um cachorro louco que deve ser morto a pau e pedra a fogo a pique senão é bem capaz o filhodaputa de fazer chover em nosso piquenique.

(2013, p. 102)

Matar significa aqui eliminar a poesia, eliminar os que olham para o mundo de modo diverso do padrão. Eis o papel do poeta e mesmo da poesia, o que quase nunca é vista de modo aceitável.

Nesse sentido, a poesia seria algo marginal, algo não central na vida das pessoas. Apesar disso, cabe ao poeta buscar sentido para sua atividade, mesmo em um mundo onde mais vale a prosa (entenda-se, a vida prática, pragmática, que a poesia):

Não há verso, tudo é prosa, passos de luz num espelho, verso, ilusão de ótica, verde, o sinal vermelho. [ ] ...

(2013, p. 189)

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Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

Há diversos outros poemas nessa linha de confronto entre a resistência da poesia e o ter de buscar a segurança econômica, ou entre a vida poética e a vida pragmática, entre o sonho e o mundo real. Bem significativo nesse sentido é o que segue:

quando eu tiver setenta anos então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca e terminar minha livre-docência [ ] ... vou fazer o que minha deseja aproveitar as oportunidades de virar um pilar da sociedade e terminar meu curso de direito [ ] ...

E

outro,

talvez

até

mais

claro

(2013, p. 55)

sobre

o

que

significa ser poeta ao tratar a escrita em âmbito da

marginalidade, do fora do centro ou do ex-cêntrico. Ora, marginal é usado aqui no sentido de não ocupar papel central na sociedade, não no sentido de um bandido, ou fora da lei.

Marginal é quem escreve à margem, deixando branca a página para que a paisagem passe e deixe tudo claro à sua passagem. [ ] ...

(2013, p. 213)

Talvez por isso (e também como meio de sobrevivência da pessoa Paulo Leminski), o autor tenha ido trabalhar como publicitário, o que o fez estabelecer relações mais próximas entre a linguagem literária e a publicitária. Embora os objetivos sejam outros, o fato é que essa aproximação fez de Leminski um poeta ao mesmo tempo de formação erudita e prática mais pop (não por acaso, é um poeta que está entre os primeiros em termos de vendagem de livros ) ...

Essa relação se dá também pela uso de técnicas da poesia concretista, que explora muito a imagem, a escrita outdoor por assim dizer (poemas que parecem cartazes) e, claro, pela referência ao mundo pop, ao mundo da música (Leminski era compositor e teve vários parceiros, entre os quais Caetano Veloso) e do cinema.

podem ficar com a realidade esse baixo astral em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade eu fico com o cinema americano

(2013, p. 200)

Há um tom de ironia aí, mas que também serve para dizer, entre as artes, o cinema é aquela mais bem preparada para atender às necessidades do mercado, é o que dá mais dinheiro, é a que cria mundos nos quais qualquer pessoa, mesmo a sem maior preparo, pode entrar. Ora, ler poesia pressupõe primeiro ser alfabetizado, depois significa ter alguma sensibilidade, por fim saber estabelecer relações contextuais e

intertextuais para se chegar a um determinando sentido. Outro aspecto presente no poema acima é o cinema, assim como as artes em geral, é capaz de criar outro mundo, outra realidade, bem melhor que a própria realidade, uma vez que no cinema os problemas são resolvidos, os desencontros têm um final feliz e tudo se resolve até que o filme termine; ao passo que no mundo real, na vida, muitos problemas ficam pendentes e não se tem certeza se até o fim (a morte) tudo estará resolvido.

Entre os diversos poemas cartaz, destaquemos um:

Toda poesia, de Paulo Leminski Há diversos outros poemas nessa linha de confronto entre a resistência

(2013, p. 146)

A mensagem não é muito diferente daquilo que está presente em sua poesia como um todo. Ora, mais uma vez vem a pergunta: o que significa escrever? Deixar-se levar pela inspiração, pelo desleixo, ou antes significa um trabalho com a palavra, ser caprichoso?

A frase “ao que tudo indica” sugere uma certeza, um

cuidado, um caminho certo (tudo indica

...).

Porém,

essa certeza é embaralhada, é desfeita pelas letras, dispostas de maneira aleatória, uma sobre as outras. A certeza assim se desfaz, e é preciso esperar “como tudo fica”.

Em outros momentos, diz escrever pela simples atividade de escrever, como se fosse uma atividade natural, mesmo sabendo que não é.

Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, Preciso porque estou tonbto. [ ] ... Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?

(2013, p. 218)

Em Quarenta clics de Curitiba, uma constante é o tempo, a passagem do tempo, em relação ao com a literatura, com a arte da escrita, posto que esta, como um clic, isto é, um foto, eterniza um momento. De qualquer modo, mesmo eternizado, o tempo é uma constante. De todos, o poema mais caraterístico dessa visão é o seguinte:

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Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

O tempo fica cada vez mais lento e eu lendo lendo lendo vou acabar virando lenda

(21013, p. 23)

Neste caso, há um trocadilho entre lento, lendo e lenda. O tempo é, em rigor, inexorável, isto é "o tempo passa", mas pode ficar lento pela leitura, pode se eternizar pela escrita, pela lenda, pela literatura.

Leminski também é conhecido por sua grande capacidade de síntese. Dizer muito em poucas palavras. Isso é próprio também da estética concretista, cujo fundamento era o de explorar ao máximo o significante, a palavra. Esse caso pode ser exemplificado por diversos poemas do livro, mas destaquemos um em especial. Trata-se de “Rimas de moda”:

1930

1960

1980

Amor

homem

ama

Dor

come

cama

fome

Três momentos do século XX que podem significar, em poucas palavras, contextos diferentes, perspectivas diferentes. Se na primeira metade do século há uma pretensa ideia de que o amor está diretamente ligado ao sofrimento (uma visão romântica); na metade há uma visão de caráter mais social; por fim, na segunda metade do século, uma visão de liberação sexual. Claro que o segundo grupo também pode indicar uma conotação sexual, de expressão do desejo, talvez como referência à revolução sexual. De qualquer modo, o poema expressa, sinteticamente, a perspectivas diferentes sobre um mesmo tema.

A preocupação metalinguística, já referida, é uma constante em Leminski, mas também é uma constante a preocupação com a reflexão em torno da língua e em torno de estudiosos da língua, vista como meio de comunicação e como material de trabalho do poeta. Há, por isso, poemas que refletem sobre o uso da língua de um ponto de vista pragmático (comunicativo), linguístico, filológico (a história da língua) e/ou gramatical. Entre os quais, destaquemos três poemas: “Ouverture la vie en close” e “EU RO PA”, de La vie en close, “O assassino era o escriba”, de Caprichos & relaxos. Destaquemos versos de cada um desses poemas, a começar por este último.

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito Inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida, regular com um paradigma da 1ª conjugação. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Casou com uma regência.

Foi infeliz. Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva. Tentou ir para os EUA. Não deu. Acharam um artigo indefinido em sua bagagem. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conetivos e agentes da passiva, o tempo todo. Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

(2013, p. 158)

Observe que o poema faz uma mescla de gêneros textuais (o próprio poema, o gênero descritivo, o narrativo) e observe também como o autor brinca com a função metalinguística, para caracterizar seu personagem (o tal professor). No caso, esse professor preso a regras de condutas morais, mas que, após um casamento infeliz, uma desilusão amorosa, se perde na vida, e enfrenta uma série de situações impensáveis para alguém tão correto quanto ele.

em latim “porta” se diz “janua” e “janela” se diz “fenestra” [ ] ... já em inglês “janela” se diz “window” porque por ela entra o vento (“wind”) frio do norte a menos que a fechemos como quem abre o grande dicionário etimológico dos espaços interiores

(2013, p. 248)

Neste caso, o poeta busca compreender o sentido das palavras de acordo com suas raízes. Trata-se de um princípio poético disseminado ao longo do livro, afinal resgatar uma tradição poética é também estabelecer os parâmetros de compreensão da própria poesia, é expressar possibilidades de leitura.

EU O mundo desabava em tua volta, e tu buscavas a alma que se esconde no coração da sílaba SIM. [ ] ... RO Um mundo, o velho mundo, árvore no outono, Hitler entra em Praga, Rússia, revolútzia, [ ] ... PA Roma, Rôman, romântico romã, Jak, Jákob, Jákobson, filho de Jacó, preservar as palavras dos homens. Enquanto houver um fonema, Eu nunca vou estar só.

(2013, p. 272)

Por fim, neste poema, tem-se uma alusão a momentos da vida do linguista Roman Jakobson (1896- 1982), responsável por estudos na área de comunicação e da linguística na linha estruturalista. Foi ele quem pensou os elementos da comunicação e suas respectivas

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Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

funções, entre as quais a metalinguística, tão comum na poesia de Leminski. Os estudos do linguista foram também responsáveis pela base teórica da Poesia Concreta, formulada pelo poeta Haroldo de Campos, de quem Leminski foi seguidor e amigo pessoal.

Leminski tem uma variedade grande de poemas, mas aqui procuramos detalhar as principais linhas poéticas de sua produção literária. Com base nesses elementos, é possível ler os demais poemas do livro. Para finalizar, destaquemos um último poema extraído de Caprichos & relaxos e que acaba sintetizando as aspirações nem sempre realizadas, o choque entre a poesia, isto é, a vida simbólica, de busca de significados, de elevação espiritual, de comunicação sensorial, e a vida prosaica, representada na última estrofe:

Manchete

CHUTES DE POETA NÃO LEVAM PERIGO À META

eu queria tanto ser um poeta maldito a massa sofrendo enquanto eu profundo medito eu queria tanto ser um poeta social rosto queimado pelo hálito das multidões em vez olha eu aqui pondo sal nesta sopa rala que mal vai dar para dois

(2013, p. 90)

Sempre importante lembrar, na esteira de Fernando Pessoa, que “o poeta é um fingidor”, isto é, o poeta é um construtor de mitos, de mundos. A expressão do eu não é necessariamente a expressão da subjetividade pessoal. Trata-se de um eu particular, simbólico, expressão, pois, de um sujeito universal em busca da compreensão mais ampla do estar no mundo, tendo a linguagem poética como mediadora entre nossa percepção e a realidade objetiva.

Escrevia no espaço. Hoje, grafo no tempo, na pele, na palma, na pétala, luz do momento. Soo na dúvida que separa o silêncio de quem grita do escândalo que cala, no tempo, distância, praça, que a pausa, asa, leva para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala, eis que a luz se acendeu na casa e não cabe mais na sala.

EXERCÍCIOS

  • 1. (PUC-PR) Leia o poema: “podem ficar com a realidade esse baixo astral em que tudo entra pelo cano eu quero viver de verdade eu fico com o cinema americano” O poeta Paulo Leminski neste poema usa de procedimento redundante em sua obra. Assinale a alternativa que identifica esse procedimento:

(A)

Intertextualidade.

 

(B)

Ironia.

(C)

Crítica à sociedade de massa.

(D)

Fuga à realidade.

 

(E)

Desejo de viver intensamente.

  • 2. (PUC-PR) Identifique as alternativas verdadeiras a respeito do poema transcrito, de autoria de Paulo Leminski:

RIMAS DA MODA

 

1930

1960

1980

amor

homem

ama

dor

come

cama

fome

I.

O título do poema, metalinguístico, indica a importância das semelhanças sonoras na sua composição.

II. O poema traça um breve histórico da sucessão de temas privilegiados pela poesia brasileira ao longo do século 20.

III. Segundo o texto, em 1960 a poesia voltou-se mais para a problemática social do que para os relacionamentos amorosos.

IV. A distribuição espacial das palavras e a presença de números exemplificam a aproximação de Paulo Leminski à Geração de 45.

Estão corretas apenas:

 

(A)

II, III e IV

(B)

I e II

(C)

II e III

(D)

II e IV

(E)

I, II e III

 
  • 3. (ESPM) Leia:

noite sem sono o cachorro late um sonho sem dono

(Paulo Leminski)

A forma poética acima é um haicai, de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Das características abaixo, também do haicai, assinale a que não foi utilizada pelo autor:

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Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

  • (A) não revelar um “eu” poético subjetivo;

  • (B) apresentar três versos metrificados;

  • (C) referenciar a solidão e uma estação do ano;

  • (D) oferecer um momento de reflexão para causar uma descoberta;

  • (E) conter poucas palavras, com predominância de substantivos.

  • 4. Leia o poema a seguir:

o bicho alfabeto tem vinte e três patas ou quase por onde ele passa nascem palavras e frases com frases se fazem asas palavras o vento leve o bicho alfabeto passa fica o que não se escreve.

(LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. São Paulo: Global Editora, 2001.)

O tema do texto de Paulo Leminski é o processo e o sentido da escrita associados aos atos de semear e de soltar a imaginação. Transcreva do texto os versos que comprovam cada uma dessas associações.

5.

Sobre

o

texto

de

Paulo

Leminski

todas

as

alternativas estão corretas, EXCETO

  • (A) a terminologia sintática e morfológica, que em um primeiro momento é motivo de estranhamento, concede o efeito de humor ao poema.

  • (B) o eu lírico demonstra por meio da composição de

texto

pessoal

e

confessional

o

seu

desconhecimento gramatical.

  • (C) nos primeiros sete versos o eu-lírico apresenta seu professor, que, por meio de suas ações e funções, é caracterizado como um torturador.

  • (D) entre os versos 8 e 16 o leitor toma consciência de todos os fracassos que compuseram a vida do professor.

  • (E) o texto é estruturado em forma de narrativa policial, mas em função de sua organização gráfica, métrica e rítmica é considerado um poema.

  • 6. Pelos versos, percebe-se que a poesia de Leminski

    • (A) mantém relação com a geometrização das formas e volumes cubista.

    • (B) tem como base os dilemas financeiros do ser humano.

    • (C) valoriza a concisão e é transgressora.

    • (D) é composta por uma observação rigorosa do mundo material.

    • (E) é composta por personagens positivamente idealizados.

semear imaginação = por onde ele passa nascem palavras

soltar a imaginação = o vento leve o bicho alfabeto passa fica o que não se escreve.

  • 7. (Unisinos) Dos trechos abaixo, qual aquele que melhor representa a literatura contemporânea (atual):

    • (A) Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente,

E viva eu cá na terra sempre triste. (Camões)

(Mackenzie) Leia o poema a seguir e responda às questões 5 e 6:

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida, regular como um paradigma da 1.ª conjugação. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Casou com uma regência. Foi infeliz. Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva. Tentou ir para os EUA. Não deu. Acharam um artigo indefinido em sua bagagem. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva, o tempo todo. Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

  • (B) Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. (Gonçalves Dias)

  • (C) não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase (Paulo Leminski)

  • (D) Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela

...

Bilac)

(Olavo

  • (E) Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável (Augusto dos Anjos)

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Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

(UEL)

Leia

o poema,

a

seguir, e

responda às

questões 8 e 9:

 

estupor esse súbito não ter esse estúpido querer que me leva a duvidar quando eu devia crer esse sentir-se cair quando não existe lugar aonde se possa ir esse pegar ou largar essa poesia vulgar que não me deixa mentir

(LEMINSKI, P. Toda Poesia. São Paulo:

Companhia das Letras, 2013. p.249.)

  • 8. O título do poema refere-se

  • (A) efeito

ao

da

poesia

vulgar

sobre

o leitor

estúpido.

  • (B) ao estado do eu lírico, dividido entre o crer e o duvidar.

  • (C) ao fazer poético, atividade vulgar que engana o receptor.

  • (D) poeta,

ao

estupefato

com a carência de

sensações.

  • (E) à poesia, que inspira o súbito desejo de fuga de um lugar inóspito.

No que diz respeito aos procedimentos formais verificados (rimas, sonoridade e jogos de palavras) e aos sentidos construídos, relacione os dois primeiros versos ao restante do poema.

Resposta oficial: Os dois primeiros versos do poema “Mandei a palavra rimar, / Ela não me obedeceu” mostram o eu lírico em seu processo de criação. Ali, há a expectativa de que a palavra rime, seguida da constatação de que ela desobedece a essa ordem. Ao longo do poema, quanto à forma, encontram- se rimas externas rosa/prosa e internas sinto/extinto, sonoridade “sílaba silenciosa” e jogos de palavras, embora o eu lírico afirme que ela não obedeceu a ele. No que diz respeito aos sentidos, o poema mantém o tom conflituoso e até paradoxal, que descreve esse embate entre poeta e palavra. A ideia de liberdade e desobediência, exposta nos versos iniciais, confirma- se ao longo do poema em versos como “parecia fora de si” ou “se foi num labirinto”.

  • 9. Considerando o poema no conjunto da obra Toda Poesia, de Paulo Leminski, é correto afirmar que

    • (A) exemplifica a metalinguagem praticada pelo autor.

    • (B) a poesia de Leminski é vulgar porque utiliza formas poéticas livres.

    • (C) a adjetivação intensa no poema é um traço recorrente em sua obra.

    • (D) heptassílabo é o verso mais cultivado na produção leminskiana.

o

  • (E) o esquema de rimas encontra equivalência na obra Ideolágrimas.

  • 10. (UEL) Leia o poema a seguir. desencontrários ela Mandei a palavra rimar, ela não me obedeceu. ela Falou em mar, em céu, em rosa, em grego, em silêncio, em prosa. ela Parecia fora de si, a sílaba silenciosa. ela Mandei a frase sonhar, e ela se foi num labirinto. ela Fazer poesia, eu sinto, apenas isso. Dar ordens a um exército, ela para conquistar um império extinto.

(LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo:

Companhia das Letras, 2013. p.190.)

gABARITO 1.D 2.E 3.C

4. semear imaginação = por onde ele passa nascem palavras

soltar a imaginação = o vento leve o bicho alfabeto passa fica o que não se escreve.

5.B 6.C 7.C 8.B 9.A

10. Os dois primeiros versos do poema “Mandei a palavra rimar, / Ela não me obedeceu” mostram o eu lírico em seu processo de criação. Ali, há a expectativa de que a palavra rime, seguida da constatação de que ela desobedece a essa ordem. Ao longo do poema, quanto à forma, encontram-se rimas externas rosa/ prosa e internas sinto/extinto, sonoridade “sílaba silenciosa” e jogos de palavras, embora o eu lírico afirme que ela não obedeceu a ele. No que diz respeito aos sentidos, o poema mantém o tom conflituoso e até paradoxal, que descreve esse embate entre poeta e palavra. A ideia de liberdade e desobediência, exposta nos versos iniciais, confirma-se ao longo do poema em versos como “parecia fora de si” ou “se foi num labirinto”.

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Vozes anoitecidas de Mia Couto
Vozes anoitecidas
de Mia Couto

Vozes anoitecidas é o primeiro livro de contos de Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto. O escritor moçambicano, nascido em 1955, publicou esse livro em 1987. São doze contos que levam o leitor a ter experiências ora um tanto absurdas, ora um tanto fantásticas, mas cujo objetivo é sempre o de chamar a atenção para os conflitos da vida, as situações em que o drama e a angústia se fazem presentes pelos mais variados motivos.

O título do livro apresenta um tanto de metafórico. O termo vozes remete à construção discursiva, à possibilidade de se expressar, oralmente em especial, o que é bastante pertinente, considerando que a ancestralidade africana se faz presente. E o termo anoitecidas nos remete igualmente a uma tradição moçambicana, pois segundo Henri Junod, que fez um profundo estudo sob re a cultura no sul de Moçambique, a narração dos contos africanos obedece a determinados rituais:

Há que tomar uma bizarra precaução quando se

contam contos: é um tabu fazê-lo durante o dia; trata-se de um entretenimento da noite; o que

transgredir essa regra torna-se calvo! (

...

)

Penso

que essa proibição provém de que, como esse jogo

é tão popular, os indígenas receiam consagrar- lhe tempo demasiado: perderiam toda vontade de trabalhar, se começassem a jogá-lo logo a meio dia. Por isso se interditaram, instintivamente, a narração de contos durante o dia (JUNOD, apud LOPES, 2004, p. 185).

Apesar desse componente mais local, o leitor brasileiro ou de outros países pode bem se deparar com situações similares, pois Couto consegue abordar temáticas abrangentes, especialmente as relações mais diversas.

O próprio Mia Couto em prefácio revela que anoitecer as vozes significa impedir o desenvolvimento da imaginação, da fantasia. Quer dizer, um discurso que é impedido de se manifestar por estar nas trevas, no esquecimento. Contra isso, contra o esquecimento, manifesta-se a literatura, que tira do limbo, da escuridão as histórias ou esquecidas ou não contadas.

Durante duas semanas o velho dedicou-se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. (p. 23)

Porém, durante a execução desse trabalho, que não foi fácil, e devido à chuva que tomou, o velho ficou doente. Acamado, volta a ter a preocupação pela mulher, afinal quem a colocaria na cova se ele viesse a morrer. Por isso mesmo, decide que a cova não pode ficar sem serventia e que o melhor a se fazer é matar a mulher antes que ele próprio morra. Ainda que seja estranho, não se trata de uma decisão com ódio ou outro sentimento ruim. Acredita, segundo sua visão de mundo, que esse é o correto a se fazer. A mulher, comunicada pelo marido sobre tal decisão, aceita passivamente, sem admoestá-lo, sem se revoltar ou falar qualquer coisa em contrário.

– É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim. (p. 25)

No dia seguinte, o marido não resiste e é encontrado morto pela mulher. Durante a noite, a velha sonhara com os antepassados, sonhara com as histórias contadas e o sentido que faziam para manter a integridade do grupo. O que se deve, portanto, destacar no conto é, além da extrema pobreza em que vivem, a singeleza e a harmonia do casal, é. Se falta riqueza material, sobram a eles exatamente elementos da cultura local, o respeito à sabedoria dos mais velhos, o respeito às decisões. Esse primeiro conto revela já o contraste entre o mundo moderno, egoísta, de busca por novidades e a harmonia de uma sociedade que, como os velhos, morrem e eles próprios têm de cavar a própria cova.

No segundo conto, “O último aviso do corvo falador”, temos uma história que se aproxima do maravilhoso, embora tenha um tanto de enganação também. Isso porque, como o título indica, um corvo seria capaz de falar com os mortos e prever o futuro. Seu nascimento foi um tanto esdrúxulo, se é que tenha ocorrido como narrado de fato. Zuzé Peraza, um pintor, teria “vomitado” o corvo e de imediato mostrara sua habilidade em falar. Porém, o único a compreender sua fala era o próprio Zuzé.

Esse é, pois, o papel do escritor, o de inventar ou o de resgatar histórias orais. O que chama a atenção inicialmente na literatura de Couto é a semelhança com a obra de Guimarães Rosa, especialmente por conta dessa oralidade, do trabalho estético da oralidade. Sem dúvida, o leitor experiente conseguirá perceber as semelhanças entre os dois autores.

No primeiro conto do livro, “A fogueira”, tem-se a história de um casal de idosos. Como estão velhos e sozinhos, o marido tem uma preocupação: saber quem enterraria a mulher se ele morresse antes dela. Por este motivo, resolve, com a anuência da esposa, cavar uma cova para a esposa. E faz isso todos os dias, devagar devido à idade e à pouca força.

Verdade ou não, o pintor de parede passou a ser visto pela comunidade como alguém detentor de poderes mágicos e era sempre consultado por essa pretensa habilidade que teria o corvo.

Os pedidos logo acorreram numerosos. Zuzé já não tinha quarto, era gabinete. Não dava conversa,

eram consultas. [

]

E assim entra na história

... Dona Cândida, mulata de volumosa bondade,

mulher sem inimigos. (p. 30)

Dona Cândida fora casada com Evaristo, um negro da região. Porém, com a morte dele, e sem esperar muito, casou-se com um comerciante de origem indiana, chamado Sulemane, um comerciante da região.

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Vozes anoitecidas, de Bia Couto

Vozes anoitecidas, de Bia Couto

Segundo o que foi relatado no conto, a morte de um marido deveria suceder um ritual de modo dar-lhe sossego espiritual na outra vida. Mudando aqui ou ali, as culturas em geral têm grande respeito pelos mortos. Lembrando-se que no Brasil, o dia 02 de novembro é dedicado a eles. Tais crenças despertam também crendices. No caso, Sulemane parecia não conseguir ter relações com Dona Cândida, e ela acreditava que poderia ser devido a algum feitiço do marido morto.

Zuzé Paraza cruzou as mãos, acariciou corvo. Tinha suas suspeitas: Evaristo era da raça negra, natural da região. Dona Cândida, com certeza não cumprira as cerimónias da tradição para afastar a morte do primeiro marido. (p. 32)

Apesar da suspeita, ela confirma que fizera tudo quanto mandaram. Zuzé pede ao corvo que investigue o caso. Mesmo com algum temor da mulher, ele pousa em seu ombro. O conto tem um tanto de cômico também, pelo inusitado da cena. O leitor é capaz de perceber as intenções de Zuzé. Após ouvir o corvo, ele conclui que Everisto deveria estar passando frio e que precisaria das suas roupas. Como ela, no ritual de encomendação, já se desfizera das roupas, Zuzé propõe que dê roupas do atual noivo, que o Evaristo certamente não se importaria.

– O Sulemane não pode saber disto. Meu Deus! Se ele desconfia!

– Fica descansada, dona Candida. Ninguém vai saber. Só eu e o corvo. (p. 34)

De fato, Zuzé vestir as roupas entregues por Dona Cândida. Mais tarde, Sulemane toma conhecimento que as suas roupas estavam com Zuzé e, procura-o para ajustar as contas. O encontro resulta em agressão física e na morte do pássaro por um acidente. Na discussão, Sulemane cai sobre a ave.

Zuzé, aproveitando-se da atitude intempestiva de Sulemane que acaba mantando por acidente a ave, faz profecias malignas contra. Sulemane, logo em seguida, começa a passar mal. O fato serviu para reforçar a crença nos poderes de Zuzé.

A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bruxezas, realmente. (p. 38)

Após esses acontecimentos, Zuzé tem de abandonar o local, porque também previra dificuldades para todos na região. Crendo nisso e na atitude do pintor elevado à condição de bruxo, um a um, os moradores abandonaram suas casas e partiram para outras terras.

O conto explora, portanto, as crendices populares.

“O dia em que explodiu Mabata-bata” também o início marcado por crendice. No caso, um boi chamado Mabata-bata explode quando pastava em um campo minado. O pastor, o jovem Azarias, acredita que tenha sido obra de ndlati, a ave do relâmpago, que teria enviado um raio, mesmo em um dia claro, sem nuvens.

Azarias era órfão e morava com um tio, Raul, e a avó, Carolina. O tio, no entanto, não o tratava bem.

Obrigava- o a trabalhar o dia todo e ainda o ameaçava caso perdesse algum boi. Por isso, o jovem pastor ficou preocupado em retornar sem o principal boi do rebanho.

A ameaça do tio soprava-lhe os ouvidos. Aquela angústia comia-lhe o ar todo. Que podia fazer? Os pensamentos corriam-lhe como sombras, mas não encontrava saída. (p. 42)

Azarias gostaria muito de estudar, ter perspectivas de uma vida melhor, assim como, inclusive, ter tempo para se divertir, brincar, o que o tio impedia de ele fazer porque tinha sempre de trabalhar.

O conto explora, pois, o estado de pobreza de muitos moçambicanos, bem como reproduz a tirania de determinados grupos sobre os demais. No conto isso ocorre mesmo entre parentes. Além disso, a presença de minas é indicativa das guerras travadas em Moçambique após o processo de independência do país, ocorrido nas décadas de 60 e 70 do século XX.

Já era noite e Raul estava preocupado com o sumiço do sobrinho. Não tanto com o bem-estar dele, e sim porque achava que o menino estaria vadiando. Ameaçava-o e rogava pragas contra o menino. Nesse momento, soube por soldados locais o que ocorrera. Raul, mesmo alertado para a possibilidade de pisarem outras minas, decide ir atrás do menino, que, mesmo não tendo culpa, ainda assim pensava em castigá-lo.

Carolina vai atrás dos dois. A senhora, mais compreensível, localiza o neto e tenta convencê-lo a se apresentar, dizendo que Raul não bateria nele.

Diante da situação, Azarias faz uma exigência:

que pudesse começar a estudar no ano seguinte. Aparentemente o tio Raul concorda com o pedido. Porém, ao sair para ir ao encontro do tio e a da avó, Azarias aciona uma mina e morre. A descrição é um tanto poética e sugere uma espécie de libertação da opressão a que era submetido o menino.

O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou

um clarão, parecia o meio-dia da noite. [

...

]

Azaria

correu e abraçou-a [ndlati] na viagem da sua chama. (p. 47)

Em “De como vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro”, conforme indica o título, o conto tem como personagem principal Ascolino do Perpétuo Socorro, casado com a dona Epifania e, tinha Vasco João Joãoquinho como seu empregado e que manobrava a bicicleta que carregava Ascolino pela cidade. Trata- se de um conto em que a comédia prevalece. Outra característica é a semelhança com a narrativa de Guimarães Rosa. Ascolino é um personagem um tanto caricato, seu modo de falar é bem marcado, revelando uma pretensa nobreza.

Originário de Goa, morava em Moçambique

e se intitulava “indo-português [

],

católico

de

... e costume” (p. 59). Apenas como referência, Goa é

atualmente um dos estados da Índia, mas foi território português na Ásia entre 1510 e 1961.

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Vozes anoitecidas, de Bia Couto

Vozes anoitecidas, de Bia Couto

Vestia sempre de rigor, fato de linho branco, sapatos de igual branco, chapéu de idem cor. Cerimonioso, emendado, Ascolino costurava no discurso os rendilhados lusitanos da sua admiração. [ ] ... Qui tém, homem? Essetragô sapúe de nosso. Não obstante, qui vai pagar?” (p. 59 e 61)

O drama de Ascolino é que ele era infeliz no casamento, pois Dona Epifânia não lhe dava atenção e o carinho que ele desejava. Era uma mulher muito devota a Deus. Com isso, a diversão de Ascolino era beber no bar do Meneses, na companhia do seu empregado João. Porém, para não se misturarem, Ascolino ficava na parte de frente com outros brancos; João, por sua vez, ficava na parte traseira com outros homens negros.

Já a diversão de João era narrar aos amigos as peripécias de Ascolino, o que ele fazia para ter a atenção da esposa. Certa feita, destruiu móveis da casa, quis destruir as imagens dos santos e símbolos religiosos, para ver se a esposa olhava para ele. Porém, o efeito foi o contrário. Dona Epifânia resolve abandonar o marido.

Alertado por Vasco, Ascolino diz que eles têm de perseguir o caminhão que estava levando a mudança da esposa. Manda Vasco pegar a bicicleta e irem atrás dela. Evidente que jamais alcançariam a esposa assim. Apesar disso, Vasco prepara a bicicleta em partem em busca dela. Não, sem antes Ascolino dizer:

– Pedal, pedal depresse. Não obstante, temos que chegar cedo. Hora de cinco hora temos que volta na cantina de Meneses. (p. 71)

Em “Os pássaros de Deus”, conta-se a história de Ernesto Timba, pescador, que também acaba por ser adotado por um pássaro. Ernesto passou a acreditar que o pássaro seria um mensageiro de Deus. Isso porque, enquanto pescava, um pássaro pousou em sua canoa. Tentou afugentá-lo, mas ele não ia embora.

Nada, o pássaro não se mexia. Foi então que o pescador suspeitou: aquilo não era um pássaro, era um sinal de Deus. Esse aviso do céu havia de matar, para sempre o seu sossego. (p. 53)

Resolveu levá-lo para sua casa. Não demorou muito para que surgisse outro pássaro. Era um casal, que gerou filhotes. Como chegava a desviar comida destinada à família para alimentar o pássaro, a comunidade passou a vê-lo como.

Na aldeia, espalhou-se a suspeita: Ernesto Timba estava era maluco. A própria mulher, depois de muito ameçar, abandonou o lar, levando com ela todos os filhos. (p. 55)

Em certo momento, após voltar do trabalho, Timba encontra o pássaro morto, havia sido queimado na gaiola. O fato o leva a acreditar que os assassinos do pássaro seriam amaldiçoados por serem pássaros divinos.

Em certo momento, Timba, que tinha muita tristeza, é encontrado morto às margens do rio onde costumava pescar. Logo anunciaram a morte do

louco do local. Tentaram tirá-lo da margem, mas, estranhamente, parecia colado à terra. Mesmo os homens mais fortes da aldeia não conseguiram tirar o cadáver de onde estava.

Começou, nesse momento, uma tempestade, o que muito assustou os moradores, imaginando que poderia ser o castigo anunciado por Timba. E esta chuva que consegue mover seu corpo rio abaixo.

Plácido, o rio foi ficando

longe,

a

rir-se

da

ignorância dos homens. E num embalo terno foi lavando Ernesto Timba, corrente abaixo, a mostrar-lhe os caminhos que ele apenas tinha aflorado em sonhos. (p. 56)

Com esse término, o narrador faz uma oposição entre a racionalidade que contraria a fantasia, o sonho. Esse contraste é tipificado entre o pescador e demais moradores, que o viam como um desequilibrado.

Já em “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar”, também remete o leitor a Guimarães Rosa, pois o narrador se dirige a um interlocutor ausente, no caso um advogado. Na esteira de Riobaldo (de Grande sertão: veredas), o narrador quer confessar seu crime.

A história, dividida em quatro partes, trata como o narrador matou sua esposa, os motivos que o levaram a cometer o crime, bem como sobre seu arrependimento e necessidade de pagar pelo crime. Seu objetivo é explicar ao advogado como ocorreu tudo.

O senhor, doutor das leis, me pediu de escrever a minha história. Aos poucos, um pedaço cada

dia. Isto que eu vou contar o senhor vai usar no

tribunal para me defender. [

] Afinal, estou aqui

... na prisão porque me destinei prisioneiro. Nada, não foi ninguém que queixou. Farto de mim me denunciei. (p. 75-76)

O caso tem início quando Bartolomeu, cunhado do narrador, deixa cair, acidentalmente, em sua esposa uma lenha em brasa. A mulher emite um grito estranho, como se fosse de um animal. Na cultura moçambicana tradicional, o fato indica que ela seria uma nóii, isto é, uma feiticeira. Alertado por Bartolomeu, o narrador fica preocupado e imagina ser casado com uma também, afinal eram irmãs. Por isso, resolve tirar a prova. Joga em Carlota água fervendo. Porém, para sua surpresa, ela não gritou, apenas chorou sem muito barulho. Ele, então, ficou em dúvida, imaginava que ela poderia se transformar em um animal. Por isso o título do conto. Ela não virou um pássaro ou coisa parecida. Apenas sofreu até a morte. Ainda assim, o narrador continuou a acreditar que ela seria uma nóii.

Conclusão que tirei dos pensamentos: Carlota Gentina era um pássaro, desses que perdem voz nos contraventos. (p. 79)

Por isso, ele sabe que cometeu um crime, mas não contra os homens, e sim contra a cultura local. Ele se divide entre o mundo português, com suas leis, cultura e a cultura moçambicana. Chega a dizer que “mesmo brancos somos pretos”, ou seja, não porque houve a colonização que o ser moçambicano está totalmente morto. Trata-se, portanto, de um conto

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Vozes anoitecidas, de Bia Couto

Vozes anoitecidas, de Bia Couto

que revela a preocupação localista de Mia Couto. Em resumo, o narrador acredita que deva ser julgado pela justiça tradicional, pois seria julgado considerando a tradição. Partindo do princípio de que o seu crime foi por uma justa causa, a desconfiança que teve.

“Saíde, o Lata de Água” é um interessante conto por dois motivos: primeiro por jogar com o binômio fantasia e verdade, invenção e realidade; depois, porque aborda o machismo sob ótica pós-moderna. No caso, Saíde se casa com uma mulher, Júlia, que já havia se relacionado com outros homens. A despeito de muitos criticarem Saíde, que acreditavam que ele deveria se casar com uma virgem, insiste no casamento.

Quando souberam que andava com ela, condenaram-no. Ela estava muito usada. Devia escolher uma intacta, para ser estreada com seu corpo. (p. 88)

efeitos, a história de que ele teria tido contado com esses animais marinhos seria verdadeira. Na verdade, eram submarinos. João acaba morrendo em uma tempestade sem avistar as tais baleias.

Outra narrativa em que a água é importante é “De como o velho Jossias foi salvo das águas”. No caso, há uma enchente, mas Jossias, antigo morador da região, não queria abandonar o local. Imaginava que morrer ali seria uma honra. Mas os salva-vidas procuravam por sobreviventes em uma das enchentes e, mesmo a contragosto, Jossias acaba sendo salvo.

Desejou que a viagem não tivesse fim como se o salvassem do tempo e não das águas, como se o tivessem liberto não da morte mas da sua terrível e solitária espera. Com olhos de menino, fixou o escuro engolindo a terra, a tarde anoitecendo tudo. (p. 113-114)

Trata-se de um discurso machista recorrente, a ideia segundo a qual a mulher para se casar deve permanecer virgem.

Casados, precisavam de filhos, “é um documento exigido pelos respeitos”. No entanto, Saíde é estéril. Por isso, pede à mulher que se deite com outro homem para poder engravidar. Apesar do absurdo da situação, ela aceita, e passa a dormir com homens diferentes, até que consegue engravidar. Em um acesso de raiva e ciúmes, exija saber que seria o verdadeiro pai. Júlia, porém, se recusa a falar, afirmando apenas que ele era o pai verdadeiro.

Em princípio, o casamento se assenta, ainda mais com o nascimento do filho. Assim, para encobrir uma mentira, teve de inventar outra. Ninguém poderia saber que ele era incapaz de fazer filhos em uma mulher. Também não podiam saber que ele havia sido traído com seu consentimento.

De qualquer modo, passa a ameaçar a esposa, que decide ir embora às escondidas da cidade. Para completar o mundo de mentiras, fantasioso, passa a bater na mulher quase todas as noites. A vizinhança quer saber o que estava acontecendo e um representante, Severino, inquire de Saíde o porquê de tanta violência contra a esposa. Conta então uma das verdades, que ela havia partido, mas para manter a aparência de que o casamento ainda continuava, inventava que estaria batendo nela.

– Eu faço isto não sei porquê. É para vocês pensarem que ela ainda está. Ninguém pode saber que fui abandonado. Sempre que bato não é ninguém que está por baixo desse barulho. Vocês todos pensam que ela não si porque sofre

da vergonha dos vizinhos. Enquanto não

...

(p. 92)

Em respeito ao amigo, Severino decide manter o segredo.

Nessa mesma linha de jogo entre fantasia e realidade, está “As baleias de Quissico”, me que o mágico parece mais plausível que a própria realidade. É a história de Bento João Mussavele, que acreditava que um dia encontraria baleias na praia. Isso não acontece de verdade, mesmo assim para todos os

Em “A menina de futuro torcido”, tem-se uma história comum a pessoas de países subdesenvolvidos, em que a pobreza prevalece. A perspectiva de um futuro fica tolhida pela falta de oportunidade. Com isso, quando surge uma, por absurda que seja, agarra- se com toda a gana. É o que fez Joseldo Bastante. Pai de doze filhos, em certa feita em que apareceu uma trupe de contorcionistas na aldeia, decidiu que uma de suas filhas, por ser magrinha, a Filomeninha, seria uma artista, seria uma contorcionista.

– A partir desse momento, vais treinas curvar-te, levar a cabeça até no chão e vice-versa. (p. 128)

E assim fez. Com base na própria intuição, Joseldo iniciou treinamentos com a filha, os mais disparatados, como amarrar a filha para esticá-la ou jogar água

quente de modo a deixá-la mole

Também quase

... não alimentava a filha, que começou a ficar doente.

Joseldo, de sua parte, acreditava estava fazendo de maneira correta o treinamento e não dava ouvidos às reclamações da filha.

Até que resolve partir com Filomena para a cidade e mostrá-la ao empresário de circo, que a vê, adverte o pai de que a menina parecia doente e ainda diz que contorcionismo já era. Nem queria mais ver esse número.

– A única coisa que me interessa agora esses tipos com dentes de aço. Umas dessas dentaduras que vocês às vezes têm, capazes de roer madeira e mastigar pregos. (p. 131)

De volta à aldeia, Joseldo imaginou que a filha

parecia ter esses tais dentes fortes

Porém, no mesmo

... instante em que olhou para ela, esperando uma

resposta para a nova empreitada, a menina tombou desfalecida nos braços do pai.

“A história dos aparecidos” é o conto mais denso do livro. Retrata o desaparecimento de alguns cidadãos, cuja morte foi operada pelo Estado, mas oficialmente teriam se afogado ou morrido de alguma doença. Moçambique viveu sob o regime português até 1975. Depois disso houve guerra civil em busca da consolidação do poder por grupos ideológicos diferentes, ou sob inspiração marxista ou sob inspiração

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Vozes anoitecidas, de Bia Couto

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mais liberalista. Em momentos assim, é comum que haja uma perseguição aos direitos civis, e os cidadãos fiquem sem a devida liberdade de expressão. No caso do conto, a ideia é falar sobre a morte civil. Se o indivíduo está vivo, oficialmente está morto. E é contra isso que devem lutar alguns personagens, Luís e Aníbal.

– Como não estamos? Vocês riscam a pessoa assim qualquer maneira?

– Mas vocês morreram, nem sei como que estão aqui.

– Morremos como? Não acredita que estamos vivos?

– Talvez, estou confuso. Mas este assunto de vivo não-vivo é melhor falarmos com os outros camaradas. (p. 118-119)

Toda a aldeia ficou surpresa. Não sabiam o que fazer, como agir. Depreende-se daí a importância maior que se dá à burocracia que a aspectos reais e efetivos do ser humano, como estar vivo de fato e necessitar de suprimentos básicos para a sobrevivência.

A resolução vem de uma comissão governamental, que conclui estarem de fatos os dois vivos, mas que deveriam estar mais atentos para que isso não viesse a se repetir.

– Mas os dois aparecidos é bom serem avisados que não devem repetir essa saída da aldeia ou da vida ou seja lá de onde. Aplicamos a política da clemência, mas não iremos permitir a próxima vez. (p. 123)

Apesar de algum non sense, a decisão tem um tanto de irônico, e para isso que o narrador chama a atenção, para o absurdo da sociedade totalmente controlada por um poder estatal, que retira dos indivíduos a autonomia até mesmo para ser, para existir.

Mia Couto escreve sobre diversas temáticas, desde aquelas mais cômicas, até essas mais trágicas, sempre com o intuito de retratar Moçambique em toda a sua riqueza cultural. Como país colonizado, caso do Brasil também, há sempre um choque cultural, entre a tradição local e a trazida pelos colonizadores. Às vezes, dessa mistura, surge uma cultura mestiça; às vezes, surge também o conflito, o embate entre perspectivas.

“Patanhoca, o cobreiro apaixonado” é o último conto do livro. Dividido em seis partes, tematiza assuntos diversos: da eutanásia à xenofobia.

A história tem como ponto central o assassinato de uma chinesa, chamada Mississe. Em princípio, o autor do crime seria Panhoca, referido no título do conto.

A narrativa vai sendo construída aos poucos. Primeiros sabemos quem é Mississe, uma viúva chinesa, que morava em Muchatazina, Moçambique e que, pelo exotismo, era assediada por muitos portugueses e também moçambicanos. Mas ela não demonstrava interesse por ninguém.

A viúva embrulhava-se nos azedos, enviuvando sempre mais. Os portugueses, ricos até, saíam de ombros cabisbaixos. (p. 138)

Patanhoca, que significa na língua local aquele que pega cobra, era um domador de serpentes. Embora tivesse essa habilidade, era, segundo o narrador, um coitado, alguém sem posses materiais ou possuidor de vasta cultura. O narrador não sabe muito sobre sua vida pregressa. Sabe apenas que ele lida com cobras, que as doma e que tira o couro delas. Conhecendo a história da viúva, decidiu que a protegeria dos assediadores, dos que porventura quisessem lhe fazer mal. Por isso, soltava suas cobras no entorno da casa da chinesa, impedindo que ela saísse ou que alguém se aproximasse durante a noite. “Tudo isso, todo esse serviço de guarda, o Patanhoca fazia sem pedir a troca”. (p. 140)

Após esse acontecimento, quatro noites se passaram. Na primeira, a chinesa convidou o domador de cobras para que entrasse em sua casa. Ele não entendeu o motivo ou se fez de inocente. Ela o chamou de João, o que causou mais descontentamento ainda, pois preferia ser chamado por seu apelido. É provável que quisesse esquecer o passado.

– Sou Patanhoca, eu mesmo. Não é só nome que fui dado. Tenho focinho, não é cara de pessoa. (p.

142)

Na segunda noite, ela o espera ainda mais bonita e ele chega mais cedo. Apesar de ela mostrar verdadeiro interesse por ele, Patanhoca quer manter- se distante. Parece que são mundos que colidem e ele quer preservar o que é, sem misturar-se com uma mulher de outro país, outra cultura. Mesmo assim, aproximam-se sem ter algo efetivo. Por isso mesmo, nessa segunda noite, têm uma primeira briga, motivado por um pretenso ciúmes. “A china Mississe roubara-lhe o fogo que a gente acende nos outros”. (p. 145)

No início, há uma pequena reflexão sobre o narrado. Se aquilo que se narra é a verdade, ou apenas um modo de olhar para a verdade. Se é possível apreender o todo ou apenas parte dele. Em rigor, a literatura tem como um de seus objetivos explicar o real com base na fantasia, na imaginação. E o todo depende de várias partes: do olhar de quem escreve, de quem conta, ao olhar de quem lê.

Não quero mostrar verdade, disse nunca soube. Se invento é culpa da vida. A verdade, afinal, é filha mulata de uma pergunta mentirosa. (p. 135)

A terceira noite é marcada pelo conflito dele, quer esquecê-la, não quer ser envolver com essa mulher, isso significaria mudar sua vida, seu estilo de vida que havia adotado, inclusive com outro nome, não mais o nome de batismo, um nome cristão. Tem dúvida também se ela ainda o iria querer por conta da briga da segunda noite. Teve então um sonho.

Ouviu as visões com atenção. Diziam o seguinte:

ela estava arrependida, perdoara. Ele seria aceite, outra vez João, outra vez nome e cara. Outra vez gostado. (p. 147)

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Vozes anoitecidas, de Bia Couto

Vozes anoitecidas, de Bia Couto

E, de acordo com que sonhara, ela o esperava na outra noite, ainda mais bonita. Ele se sentiu confiante, sentiu-se não mais o Patanhoca, e sim o João, como ela preferia chamá-lo. Ela o chamou para beberem, deixarem-se levar pelo desejo, pelas sensações. Ele fica confuso com isso. “Agora, sou João ou Patanhoca?” Ela então lhe pede um favor, queria que buscasse um remédio, um mitombo. Não fica claro o que seria isso. Ele próprio fica em dúvida qual seria a razão do pedido:

“talvez era uma armadilha, aldrabice de esperanças”. Seria um remédio devido a uma picada de cobras?

Na verdade, o final, um tanto ambíguo, revela a real intenção da chinesa: ela queria se matar, queria o tal remédio, que na verdade seria o veneno da cobra para poder se matar. Por esse motivo, João passou como o assassino da viúva, mas isso fica no plano da ambiguidade, conforme anunciara desde o início o narrador.

Com esse Vozes anoitecidas, Mia Couto revela um mundo que ficaria esquecido sem o discurso literário, quer, pois, revelar a cultura moçambicana, os contrastes dessa cultura que tenta libertar-se das amarras coloniais, mas reconhece a importância dessa mistura para ser o que é.

EXERCÍCIOS

Obs.: Como não há questões de vestibulares sobre Vo - zes anoitecidas, colocamos algumas outras sobre livros diversos de Mia Couto.

  • 3. (UEL) Algumas expressões idiomáticas da língua portuguesa são recriadas em O outro pé da sereia, de Mia Couto, como ocorre no seguinte fragmento:

    • (F) “O navio é uma ilha habitada por homens e seus fantasmas”.

    • (G) “Quem tem insônia é o peixe que só adormece na frigideira”.

    • (H) “É que isto, em Vila Longe, vai de animal a pior”.

    • (I) “A melhor maneira de mentir é ficar calado”.

    • (J) “As mãos eram um incêndio”.

  • 4. Leia o seguinte fragmento do conto “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar” e analise as afirmativas a seguir: O senhor, doutor das leis, me pediu de escrever a minha história. Aos poucos, um pedaço cada dia. Isto que eu vou contar o senhor vai usar no tribunal para me defender. [

  • ] Afinal, estou aqui

    ... na prisão porque me destinei prisioneiro. Nada, não foi ninguém que queixou. Farto de mim me denunciei. (p. 75-76)

    I. O marido, nesse conto, afirma ter matado sua esposa por acreditar que ela era uma bruxa.

    II. Ele prontamente se entrega à polícia após o acontecido.

    • 1. Conto em que se tem a história de um casal de idosos, e o marido decide fazer uma cova para enterrar sua esposa.

      • (A) Patanhoca, o cobreiro apaixonado

      • (B) A menina de futuro torcido

      • (C) A história dos aparecidos

      • (D) Saíde, o Lata de Água

      • (E) A fogueira

  • 2. (UEL) A crítica literária tem aproximado o moçambicano Mia Couto do brasileiro Guimarães Rosa, em particular pelo fato de ambos empregarem neologismos em suas obras. No trecho “as mãos calosas, de enxadachim”, extraído do conto “Fatalidade”, de autoria do autor brasileiro, o neologismo “enxadachim” é construído pelo mesmo processo de formação de palavras utilizado pelo autor moçambicano para a criação de

    • (A) vitupérios.

    • (B) bebericava.

    • (C) tamanhoso.

    • (D) mudançarinos.

    • (E) malfadado.

  • III. Supôs que a mulher fosse uma bruxa porque o cunhado narrador havia lhe dito que desconfiava da esposa, que era irmã de Carlota.

    Está correto o que se afirma em:

    • (A) Apenas I e III

    • (B) Apenas I e II

    • (C) Apenas II

    • (D) Apenas III

    • (E) Em I, II e III

    • 5. Vozes anoitecidas, de Mia Couto, é um:

      • (A) romance que trata da vida dos imigrantes africanos que decidem ir até Portugal.

      • (B) livro de contos, que tematizam diversos aspectos da cultura moçambicana.

      • (C) livro de crônicas, que falam sobre a vide em Portugal e também em Moçambique.

      • (D) romance em que se verifica a preocupação

    do

    autor

    em

    resgatar

    a

    cultura

    oral

    de

    Moçambique.

     
    • (E) livro de contos, que fazem uma inter-relação entre Brasil, Portugal e Moçambique.

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    Vozes anoitecidas, de Bia Couto

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    • 6. ((PUC_MG) Fragmento do ensaio “Língua que não sabíamos que sabíamos”, de Mia Couto. Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:

    — Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.

    — Desconhecida? — pergunta ele.

    — Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!

    O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano.

    Aos poucos, porém, vai ganhando mais à-vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso. Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos. [ ] ...

    Moçambique é um extenso país, tão extenso quanto recente. Existem mais de 25 línguas distintas. Desde o ano da Independência, alcançada em 1975, o português é a língua oficial. Há trinta anos apenas, uma minoria absoluta falava essa língua ironicamente tomada de empréstimo do colonizador para negar o passado colonial. Há trinta anos, quase nenhum moçambicano tinha o português como língua materna. Agora, mais de 12% dos moçambicanos têm o português como seu primeiro idioma. E a grande maioria entende e fala português inculcando na norma portuguesa as marcas das culturas de raiz africana.

    In: COUTO, Mia. E se Obama fosse africano? e outras interinvenções. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 11-18.

    A colonização portuguesa na África perdurou até o fim do século XX, com as guerras de independência. As tensões políticas e sociais repercutiram e ainda repercutem fortemente na produção literária desses países, especialmente nas literaturas angolana e moçambicana. Levando-se em consideração o contexto histórico do período pós-colonial, é possível verificar que para Mia Couto, em seu ensaio, a colonização portuguesa é vista como:

    (F) autoritária e impositiva, oposta à autonomia das nações dominadas.

    (G) vantajosa

    para

    a

    economia

    e

    para

    a

    comunicação entre os povos.

    • 7. (PUC-RS) Leia o trecho extraído do romance Terra Sonâmbula, de Mia Couto, e responda à questão.

    De imediato, centenas de pessoas se lançaram em todo tipo de embarcações, das pequenas às mais mínimas, para assaltarem o navio malfragado, afim de se servirem das ditas xicalamidades. [ ] ... Desde então, a situação só piorou pois, consoante o secretário do administrador, a população não se comporta civilmente na presença da fome. Muita gente insistia agora em voltar ao tal navio pois lá sobrava comida que daria para salvar filhos, mães e uma africanidade de parentes. [ ] ... Assame foi preso, sujado por mil bocas. Na prisão lhe bateram, chambocado nas costas até que as pernas se exilaram daquele sofrimento que lhe era infligido. Perdeu o sentimento da cintura para baixo. Assane passou as palmas das mãos pelas desempregadas coxas. Tinha sido apenas há dias que lhe abriram a porta da prisão. Ainda nem sabia bem se arrastar de mão pelo chão. Por isso as sacudia, limpando essas mãos que ele sempre aplicara nos documentos.

    Com base no trecho e em seu contexto, leia as seguintes afirmativas.

    I. As obras de Mia Couto exploram, de modo geral, o mundo simbólico moçambicano, a guerra e as tensas relações entre o africano e o europeu.

    II. O trabalho com a linguagem literária torna-se evidente a partir da criação de novos vocábulos e da utilização de outros com diferentes sentidos.

    III. Para

    narrar

    a

    violência

    sofrida

    pelo

    personagem, o autor vale-se de eufemismos como “sujado por mil bocas”, “as pernas se exilaram daquele sofrimento”, “perdeu o sentimento da cintura”.

    A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são

    • (A) I, apenas.

    • (B) II, apenas.

    • (C) I e III, apenas.

    • (D) II e III, apenas.

    • (E) I, II e III.

    (H) importante para as tradições locais e para a língua das colônias.

    gABARITO

     

    (I) repressora

    dos

    direitos

    à

    liberdade

    de

    pensamento e expressão.

     

    1.E

    2.D

    3.C 4.A

    5.B 6.C

    7.E

     
    33
    33
     

    Anotações

    __________________________________________________________________________________________________

    __________________________________________________________________________________________________

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    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai de Gonçalo M. Tavares
    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai
    de Gonçalo M. Tavares

    Gonçalo M. Tavares (1970) nasceu em Luanda,

    Angola; apesar disso, Tavares pode ser considerado

    um escritor português uma vez que vive em Portugal

    desde os dois anos de idade.

    Publicou seu primeiro livro em 2001, Livro da

    dança. Em quinze anos de carreira, publicou 25 livros

    dos mais diversos gêneros literários: poesia, contos,

    romances e crônicas.

    Uma menina está perdida no seu século à

    procura do pai foi publicado originalmente em 2014.

    O enredo se passa algumas décadas após a Segunda

    Guerra Mundial, em uma Europa ainda devastada

    psicologicamente, sobretudo em Berlim, para onde

    viajam Marius e Hanna, personagens principais do

    livro.

    O livro é dividido em quinze partes, em que se

    verifica uma progressão narrativa tradicional, ou seja,

    o livro é narrado ab initio. Mas o que significaria

    estar perdida no século, conforme indica o título?

    A resposta não é dada prontamente pelo enredo.

    Uma das explicações é que o livro tem um tanto de

    esquizofrênico, no sentido de que o todo não se

    completa, embora ele esteja presente. Assim, estar

    perdida no século é sugestivo da condição de Hanna,

    uma jovem de 14 anos com síndrome de Down.

    A esquizofrenia está presente na construção

    da narrativa, pois ora o livro é narrado em terceira

    pessoa, ora, em primeira pessoa, tendo como narrador

    o próprio Marius. Não se trata de uma novidade, mas

    sem dúvida que causa uma estranheza no leitor; ao que

    parece, porém, o objetivo é fazer o leitor construir uma

    outra visão daquilo que parecia solidificado. Trata-se

    de uma estratégia, o de quebrar expectativas, presente

    nas atitudes de diversos personagens do livro.

    A história tem início quando Marius identifica na

    rua essa jovem com expressão diferenciada e atitudes

    incomuns também. Percebe logo de início que é uma

    menina com alguma deficiência. Conversando com

    ela, observa as atitudes incomuns, mas, mesmo assim,

    fica sabendo que ela está sozinha e em busca do pai,

    sem que tenha maiores informações. Marius decide

    então ajudá-la. Não fica claro o porquê dessa decisão

    de Marius; supõe-se que seja pelo fato de ele ser um

    perdido também, no sentido de não ter uma vida bem

    definida, não ter objetivos específicos. Apenas vive o dia

    a dia. Ao que parece, ajudando-a, ela o ajuda também

    a se encontrar. Ao que parece não tinha uma forte

    razão para viver, não tinha pessoas que dependessem

    dele. Desse modo, sua vida também não tinha grande

    significado e viu em Hanna a possibilidade de fazer

    algo, de preencher o vazio, o que lhe permitiu também

    entrar em contato com diferentes pessoas em situação

    semelhante à da dele.

    Hanna carregava uma série de fichas para poder

    se comunicar com maior facilidade. Tais fichas, de

    certa forma, mimetiza a divisão do livro, em que cada

    uma das quinze partes ou capítulos conta sobre um

    personagem em particular. Não há grande interseção

    entre os personagens salvo em momentos raros. São

    episódios em torno de personagens secundárias que

    elevam a um patamar superior uma trama um tanto

    banal, comum. Os encontros que Marius e Hanna têm

    com essas personagens (Hanna como espectadora)

    se constituem no verdadeiro enredo do livro, já que a

    busca pelo pai da menina é apenas a desculpa que os

    faz viajar de Portugal até Berlim.

    As poucas referências indicariam que o pai da

    menina estaria em Berlim. Empreendem então uma

    viagem de trem até a Alemanha. Berlim, cidade que

    ainda tinha vários resquícios oriundos da Guerra,

    além dos traumas que certamente os indivíduos

    ainda carregavam. Conhecemos, pois, vários nuances

    desses traumas pelo contato que têm os dois com os

    mais diversos personagens. Essa viagem, mais do

    que servir para encontrar o possível pai de Hanna,

    se presta a outros dois pontos: uma compreensão

    mais ampla da trissomia 21 (síndrome de Down) e

    uma compreensão sobre como pessoas afetadas pela

    Guerra, especialmente judeus, procuraram reconstruir

    a vida e dar novo sentido a ela.

    De início, ainda em Lisboa, conhecem um

    fotógrafo de animais, que ao final da narrativa

    retornará. Trata-se de Josef Berman. Seu projeto era

    fotografar animais como se fossem pessoas. Sempre

    tirava três fotos: de frente, do perfil direito e do perfil

    esquerdo. “Sabe quantos animais fotografei? Não vai

    acreditar ...

    mais de sete mil”. Berman conta então que

    os animais tinham uma sensibilidade diferente, eram

    capazes de prever situações de perigo mais rápido que

    o ser humano e cita uma série de episódios que servem

    de exemplo dessa maior sensibilidade que teriam

    os animais para os perigos, como os ratos que, em

    Londres, sentiram antes que haveria um bombardeio

    na capital da Inglaterra. Evidente, não que os ratos

    pudessem nomear algo assim, mas perceberam que

    algo ameaçava a vida deles.

    O segundo maior interesse do fotógrafo era

    fotografar pessoas com trissomia 21. Por isso,

    demonstrou interesse por Hanna. Marius, por sua vez,

    imaginou que o fotógrafo poderia lhe fazer mal e não

    permitiu que a fotografasse. O fato serviu para Marius,

    observando as fotos que Josef lhe mostrou, comparar os

    rostos de diversas pessoas com essa condição genética.

    Rostos e mais rostos sorridentes, aceitando o

    que a vida lhes havia dado, aceitando tudo,

    aceitando certamente o que aquele fotógrafo

    lhes havia pedido, aceitando, sem perceber [ ], ...

    manifestando-se incapazes de distinguir os dois

    lados do mundo. (p. 25)

    No trem para Berlim, conhecem Fried Stamm,

    que decidira, em conjunto com outros quatro irmãos,

    espalhar cartazes por toda a Europa, com mensagens

    variadas. Era sua contribuição para ajudar aos outros

    a se reconstruir. Era seu meio de dar sentido à própria

    vida.

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    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    Não se trata de provocar uma revolução, não

    gostamos dessa palavra, trata-se em primeiro lugar

    de um projecto de acumulação: transmitir uma

    inquietação progressiva, mês a mês crescendo,

    quase sem se dar por isso. Pela repetição, por não

    deixar que se instale qualquer tipo de trégua ou

    suspensão, por, enfim, não desistimos

    ...

    provocar

    uma circulação de mensagens insatisfeitas,

    de informação indignada, repetir pequenas

    pancadas para, no fim, demolir, eis em parte a

    nossa estratégia. (p. 33)

    Em Berlim, hospedam-se em um hotel de um casal

    de judeus, Moebius e Raffaela. O sentido dado à vida

    por esse casal tem suas estranhezas também. No caso,

    o hotel fora construído de modo a lembrar a disposição

    dos principais campos de concentração nazistas, como

    Dachau, Auschwitz, entre outros. Ficaram hospedados

    exatamente no quarto nomeado como Auschwitz, por

    estranho que fosse.

    Em dado momento, em que retornam de uma

    busca pela cidade, já noite, os corredores estavam

    escuros. Começaram a ouvir uma música, remetendo

    o leitor ao fato de que nos campos de concentração, os

    que eram enviados para as câmaras de gás ou outro

    meio de extermínio eram acalmados por músicas.

    Marius também sente certo alívio ouvindo a música,

    depois passa a ter certo medo devido à escuridão, o

    que o levou a demorar a encontrar o próprio quarto. Há

    certa similitude com os campos nazistas nesse sentido.

    Uma mistura de sentimentos contraditórios, entre a

    calma e o desespero pela morte iminente.

    Outra referência aos campos de concentração é a

    avareza de comida que havia no hotel. Marius assim

    descreve a situação:

    Raffaela só trazia mais alimentos quando já não

    havia nada: só trazia pão – três, quatro, de cada

    vez, para uns sete hóspedes presentes na sala de

    refeições – quando o cesto estava completamente

    vazio. (p. 126)

    Alguns hóspedes simplesmente saiam do

    local antes de comerem o suficiente. Mesmo assim,

    habituaram-se a esse regime. Certamente, nos campos

    isso era até mais comum, posto que objetivo era

    economizar comida e fazer os prisioneiros passarem

    fome. No caso do hotel, a prática passava pela

    economia, mas, talvez, poderia também sugerir um

    simulacro do que teria sido a vida no passado recente.

    Na Alemanha nazista, os judeus tinham que

    andar com uma estrela costurada em suas roupas de

    modo a serem facilmente identificados. Nos campos,

    além disso, ainda era tatuada em seu braço uma

    numeração. Moebius revela a Marius um segredo.

    Levanta a camisa, vira-se de costas, onde se podia

    ler, em letras bem pequenas e em diversas línguas,

    a palavra judeu tatuada. Passou a tatuar a palavra

    quando judeus começaram a ser mortos.

    A princípio começara por uma espécie de orgulho

    de raça, como o próprio Moebius disse. Nas

    semanas em que muitos tentavam ao máximo

    disfarçar a sua origem judia, Moebius, pelo

    contrário, exibia-a em todos os momentos e sítios

    possíveis, e foi ele próprio que, por esses dias,

    pediu à mulher que lhe tatuasse pela primeira vez

    a palavra JUDEU. (p. 137)

    Era, pois, uma forma de resistência. Não pelo

    esquecimento de práticas, e sim pela confirmação de

    que aconteceu para que não ocorra mais. Um meio de

    afirmar um fato e evitar que ocorra novamente pela

    ocultamento da verdade.

    No outro dia ao episódio da música, Marius e

    Hanna conhecem o músico do quarto. Era Terezin, um

    senhor nomeado assim pelo próprio Marius, por morar

    no quarto que tinha esse nome em referência a um

    campo de concentração na antiga Tchecoslováquia.

    Era um dos hóspedes mais antigos do hotel. Estava ali

    havia doze anos, e virara morador efetivo.

    Além de tocar música, tinha uma estranha

    estratégia para poder sobreviver às adversidades e à

    condição de judeu perseguido. Dizia que um indivíduo

    não poderia ter objetos e utensílios que pesassem mais

    do que ele próprio. No caso, Terezin tinha 63 kg e seus

    objetos pessoais pesavam apenas 26kg.

    Terezin revela então a Marius algo que serve

    igualmente para explicar o título do livro. A menina

    estar perdida no seu século é indicativo de que ela

    também estaria construindo a sua história, uma

    história com os componentes de quem tem síndrome de

    Down, e, por isso mesmo, viveria em mundo paralelo.

    Evidente que existe uma ligação com os referentes de

    todos, mas também é evidente que o modo de olhar, o

    modo de interpretar os fatos tende a ser diferente das

    pessoas sem essa deficiência.

    Para se compreender melhor essa relação entre

    o título e a história de Hanna, ficamos sabendo

    pelo discurso de Terezin que existiam sete judeus

    responsáveis por manter a história do século XX

    memorizada, isso porque, segundo Terezin:

    [

    ...

    ]

    os judeus não confiavam em documentos,

    em papéis, em fotografias, em suma, em nenhum

    registro concreto, material, palpável. (p. 185)

    A explicação é que a História, entenda-se o

    registro histórico, poderia ser modificada de acordo

    com determinados interesses. Por isso, cada um desses

    sete judeus memorizara todo o século XX e depois

    passaria a técnica a outros de modo a manter viva

    memória judaica.

    Havia, espalhados pelo mundo, sete homens,

    sete judeus, que tinham memorizado, sem

    qualquer falha, toda a História do século XX.

    Com factos, disse Terezin, com datas concretas,

    tentando eliminar qualquer interpretação ou

    julgamento. Esses sete homens – explicou Terezin

    – memorizaram o mesmo texto; são homens-

    memória cuja única função – além de tentarem

    continuar vivos – é a de não esquecer um único

    dado, uma única linha. Como é evidente, o que

    memorizaram tem a ver, directa ou indirectamente,

    com a nossa história particular, a dos Judeus.

    (p. 186)

    Narra então alguns acontecimentos históricos

    significativos, como o pacto de não agressão entre

    Alemanha e URSS ou a invasão alemã a Polônia. Não

    fica claro se ele seria ou não um dos Séculos, fato é que

    ele explica bem os motivos.

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    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    Em seguida, pergunta se Marius gostaria de

    conhecer um desses homens, chamado Século XX, por

    alusão a sua atividade. A ideia era ser um arquivo vivo,

    mas não se expor publicamente. Terezin cita o caso de

    um que moraria em Moscou. Como parece ter ficado

    louco, passou a proclamar os acontecimentos do século

    a todos em praça pública. Isso seria ruim para os planos

    do projeto, por isso certamente seria eliminado.

    E o sentido estava exatamente no fato de

    prosseguir a tradição familiar, mas também de colaborar

    para fazer sentido à própria vida, já que a vida ao

    redor estava em ruínas, ele trabalhava com objetos do

    passado, mas a vida presente não tinha lugar. Assim,

    seguir aquela tradição era manter-se ocupado, manter

    algo que o ligaria a outros seres, com a finalidade de

    registrar o passado, a história humana.

    Um dia após chegar a Berlim, Marius e Hanna

    foram até o centro da cidade, que ainda apresentava

    diversas ruínas, levar, em um antiquário, uma peça

    que Hanna trazia consigo e que poderia indicar sua

    origem e, em consequência, ajudar na localização de

    seu pai.

    Marius fica preocupado com Hanna, que poderia

    se impressionar com o local, mas, a rigor é ele quem

    se sente mal, pois para chegar ao Antiquário Vitrius,

    tinham que subir uma alta escada, o que acabou

    lhe causando vertigem. Simbolicamente, a subida

    e a vertigem indicam um caminho sem volta para

    ele. Agora, não poderia mais “descer”, não poderia

    simplesmente abandonar Hanna à própria sorte em

    Berlim. Outro ponto interessante é que Vitrius, o dono

    do local, tem um porte físico, alto e com uma pequena

    barba, que faz Marius lembrar-se imediatamente da

    figura de Dom Quixote de la Mancha, o personagem

    de Miguel de Cervantes, conhecido por viver em um

    mundo à parte da realidade. Esse jogo entre ficção

    e realidade é uma condição sine qua non para a

    sobrevivência dos personagens do livro. Embora não

    se isolem do mundo real, todos apresentam um escape

    para algo que tem um tanto de fantasioso ou estranho.

    É o que se pode perceber em todos os personagens.

    Hanna é claramente a que vive em um mundo

    particular, os demais têm de construir algo sólido para

    que possam sobreviver ao tempo.

    Vitrius,

    por

    exemplo, além de trabalhar

    normalmente como antiquarista, na empresa que fora

    do avô e passara para o pai, também tem um meio de

    conferir sentido à própria vida.

    Nem sempre abre a loja, e nem tem preocupações

    com o sucesso do empreendimento. Também não tem

    horário muito definido para abrir ou fechar a loja.

    Porém, mantém uma prática por tradição familiar.

    Desde o seu bisavô, passando pelo avô e depois pelo

    pai, era levado a montar dossiês, tomando por base

    números, relacionados a determinados momentos

    históricos.

    Folheei um maço enorme de folhas. Ali estava:

    157668, 157670, 157672, 157674, 157676, 157678,

    157680 [ ] ...

     

    – O que é isto? – perguntei.

    Em

    parte é

    a

    minha salvação – disse Vitrius

    a

    rir-se

    -,

    mas

    se quiser pode considerá-lo um

    passatempo.

     

    [ ] ...

     

    O meu pai retomou a série no mesmo dia em que

    o meu avô morreu, explicou.

    Depois houve um silêncio e Vitrius continuou: eu

    só retomei oito dias depois da morte do meu pai.

    [

    ...

    ]

    Foi mesmo a tentativa de encontrar um sentido

    para isso. (p. 103-105)

    A estranha numeração remetia a acontecimentos

    importantes, como a data do assassinato do herdeiro

    do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Franz

    Ferdinand, em 28 de junho de 1914, dando origem

    à Primeira Guerra Mundial, ou a chamada noite dos

    cristais, quando sinagogas foram incendiadas na

    Alemanha, em 9 de novembro de 1938.

    – Vê, meu caro? Tudo em ordem. Não se trata de

    fugir, de não querer saber. Trata-se de manter uma

    direção. Uma direção individual. E só por isso

    resistimos. E por isso estou aqui. (p. 110)

    No dia em que os dois tiveram essa conversa,

    Hanna ficara no hotel, sob os cuidados de Raffaela.

    Para surpresa de Marius, a senhora disse-lhe que um

    fotógrafo estivera ali para fotografar a menina, mas

    não permitiram. Marius percebeu logo tratar-se de

    Josef Berman. Não gostou nada da ideia novamente e

    agradeceu pela iniciativa de Raffaela.

    Outro personagem que surge nesse momento é

    um artista chamado Agam Josh. Ele tinha um defeito

    nos olhos. No caso eram vermelhos, o que o impedia

    de ver bem. Porém, com o olho esquerdo era capaz de

    enxergar com grande nitidez detalhes minúsculos. A

    característica lhe possibilitava produzir sua arte que

    consistia exatamente em escrever frases minúsculas,

    que, à distância, pareciam manchas ou algum desenho

    qualquer.

    Passa a mostrar a Marius e Hanna uma de suas

    obras. À primeira vista, era apenas um traço contínuo

    ___________.

    Mas, depois, com o auxílio de um

    microscópio, Marius conseguiu ler a seguinte frase:

    “Não dirigir a palavra a nosso pó” (p. 152)

    Em seguida, viram um ponto .

    Novamente, com o auxílio do microscópio,

    percebeu tratar-se de um jardim japonês desenhado

    naquele pequeno ponto.

    Agam trabalhara para Josef Berman uma vez e

    passa a contar uma história sobre ele, nada simpática.

    Agam não tem provas sobre o que afirma e ainda faz

    um alerta, dizendo que “talvez parte disto sejam já

    histórias que as pessoas contam, que inventam. Não

    sei”. Para Agam, Berman manteria uma espécie de

    campo de concentração para animais, especialmente

    cachorros, onde faria experiências as mais variadas

    para poder tirar fotos variadas dos cães, expressando

    emoções diversas.

    A narrativa, fantasiosa ou verdadeira, leva Marius

    a uma reação inesperada. Já pensavam em ir embora,

    em deixar Berlim. A procura pelo pai de Hanna era

    infrutífera, e, a rigor, nem ocorrera efetivamente.

    E ambos estavam no café da estação, quando viram

    entrar Josef Berman. Marius não pensa duas vezes.

    Vai de encontro a ele, puxa-o no canto e, sem maiores

    explicações, soca-o repetidas vezes, até cansar-se.

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    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    É um desabafo violento às investidas contra Hanna,

    bem como a possibilidade de o fotógrafo ter de fato

    um campo para fazer experiências com animais, e tirar

    fotos.

    O jogo entre realidade e ficção se estabelece

    novamente. Adiante o próprio Agam dirá que inventara

    as histórias nefastas sobre o fotógrafo, que a única parte

    real era o projeto de Berman em fotografar animais,

    mas isso o próprio Marius já sabia desde a viagem até

    Berlim.

    O movimento se presta a revelar de que modo a

    ficção pode vir a ser mais forte que os fatos ao ponto de

    levar Marius a agir.

    A História também é marcada por momentos

    assim, em que ocorre certo histerismo coletivo por

    suposições; em outros, a verdade existe, mas é negada

    em favor de uma ideologia, caso típico foi o dos alemães

    comuns que acreditavam que os judeus recebiam

    tratamento digno nas prisões e não acreditavam na

    política de extermínio proposta por Hitler. E por isso, o

    ato de escrever a palavra judeu realizado por Moebius,

    ou os judeus que mantinham na memória o século

    XX ou ainda Vitrius que seguia a tradição familiar

    de registar a história por uma sequência lógica de

    números.

    Após esse episódio, Marius e Hanna fogem

    para a casa de um historiador, que seria amigo de

    Marius, chamado Grube. Também tinha um hábito,

    um passatempo. No caso, revia corridas de 100 metros,

    tanto por sua velocidade quanto por indicar uma vitória

    em um momento crucial, às vezes por uma passada a

    mais, pelo tronco à frente. Eram indicativas, pois, do

    curso da História, ao mesmo tempo do seu registro

    pelas filmagens.

    Havia em sua casa muitos livros e fotografias,

    especialmente referindo-se a três acontecimentos

    importantes: Moscou (1917), quando houve a

    revolução comunista; Jerusalém (1948), quando houve

    a criação do Estado de Israel e o cerco a Jerusalém

    pelos povos muçulmanos, que não queriam os judeus

    na região; Berlim (1961), quando houve um conflito

    envolve a parte oriental (comunista) de Berlim e a

    parte ocidental. Moscou que Berlim Ocidental se

    desarmasse para evitar uma guerra.

    Para Grube, esses pontos identificavam os

    sucessivos centros de gravidade da História.

    Nessas datas e naquelas cidades estava o ponto

    que concentrava todo o peso do mundo. Se alguém

    quisesse derrubar, pôr a História de cabeça

    para baixo, era ali que teria de aplicar o golpe,

    naquele ponto preciso, no centro da gravidade.

    [

    ...

    ]

    Os poucos que se apercebiam disso no próprio

    momento eram os que conseguiam, por isso

    mesmo manipular a História (p. 220-221)

    Em outros termos, a História é um texto que se

    escreve e o discurso história depende muito de quem

    escreve esse texto. No caso, o objetivo é reescrever

    a história judaica, bem como entender o outro, o

    diferente, o que nem sempre é fácil.

    Antes de irem embora de Berlim, Marius procura

    Vitrius para saber se descobrira algo a respeito do

    objeto de Hanna. Mas ele não tinha qualquer notícia

    concreta. É o fim das buscas pelo pai de Hanna,

    algo que efetivamente nem ocorreu. Ao saírem do

    antiquário, deparam-se com uma multidão que parecia

    fazer um protesto, algo assim.

    A princípio, Marius sente medo, especialmente

    por Hanna. Mas conforme caminham ao encontro da

    passeata, Marius se sente parte integrante daquele

    todo, sente-se bem, sente-se partícipe de algo, não

    de um projeto individual ou particular, e sim de uma

    coletividade que luta por algo maior, luta pela melhoria

    das condições sociais, ainda que não fique claro quais

    seriam.

    [

    ...

    ]

    ele sentiu pela primeira vez que podia fazer

    o que quisesse com as mãos, levantar uma ou

    as duas, gritar, fechar o punho com raiva como

    faziam muitos ao seu lado, podia fazer tudo, a

    partir dali, mas agora o que era preciso era gritar,

    e não parar, em situação, não parar. (p. 235)

    Por fim, em momentos diferentes da narrativa,

    Marius relata dois pesadelos que teve. No primeiro,

    ele observa, como testemunha ocular, a movimentação

    de um grupo de pessoas com síndrome de Down,

    cavando um buraco, de onde surge uma igreja e onde,

    depois, são todos enterrados, até que Marius acorde.

    No segundo pesadelo, o mesmo grupo de adolescentes

    com trissomia 21 estão no poço novamente, mas agora

    cercados de muitos livros, escritos em diversos idiomas.

    Conforme o pesadelo avança, ele se vê em meio aquele

    grupo e percebe que todos são iguais, todos têm a

    mesma condição genética. Ele mesmo passa a ter o

    rosto arredondado: “mas eu não era como eles porque

    poderia pensar nestas coisas todas em que agora estou

    a pensar” (p. 182)

    Os pesadelos, ao que parece, são indicativos de

    um dos projetos do livro, o fazer pensar diferente, o fazer

    ver a vida com outros olhos, de outro modo e aceitar

    o diferente como a um igual, sem discriminações.

    O pesadelo se transforma então em sonho, em algo

    projetável. Num mundo de iguais, não há porque

    haver discriminação, ou a submissão pela força.

    Gonçalo Tavares procura, portanto, reconstruir

    o passado imediato, cujas feridas ainda estão abertas,

    de modo a rememorar o horror vivido, para manter

    a consciencialização sobre esse período nefasto da

    humanidade. Não por acaso, estão os campos de

    concentração representados no hotel, ou as datas

    significativas mantidas em código pelo antiquarista,

    ou ainda a tatuagem no corpo de Moebius, ou ainda os

    sete judeus responsáveis pela memorização de fatos,

    ou o trabalho de Stamm e seus irmãos, sempre com o

    objetivo último de manter a consciência alerta contra

    situações semelhantes. São gestos que, em separado,

    formam um rito de dignificação da comunidade judia,

    um registro de modo a perpetuar pela linguagem a

    dor, o sofrimento, a perseguição, a guerra. O objetivo

    último é a negação do esquecimento, um trauma que

    precisa ser revivido na memória para não ser vivido

    novamente no plano físico.

    A passeata no final é indicativa da luta, do

    caminhar juntos, da integração entre projetos em

    comum. Quanto ao pai de Hanna revelou-se antes uma

    desculpa que um projeto real.

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    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

    EXERCÍCIOS

    • 1. Leia o trecho do livro em seguida as afirmativas:

    [

    ...